Juliana Soares Laudelino Santos - ALTERIDADE: ÉTICA E ESTÉTICA NA COMUNICAÇÃO COM A PESSOA QUE CONVIVE COM DEFICIÊNCIA EM CENÁRIOS EDUCACIONAIS.

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS /UFAL
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA

Juliana Soares Laudelino Santos

ALTERIDADE: ÉTICA E ESTÉTICA NA COMUNICAÇÃO COM A PESSOA
QUE CONVIVE COM DEFICIÊNCIA EM CENÁRIOS EDUCACIONAIS

Maceió
2025

JULIANA SOARES LAUDELINO SANTOS

ALTERIDADE: ÉTICA E ESTÉTICA NA COMUNICAÇÃO COM A PESSOA
QUE CONVIVE COM DEFICIÊNCIA EM CENÁRIOS EDUCACIONAIS
Dissertação apresentada para defesa no
Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em
Psicologia (PPGPsi), do Instituto de Psicologia
(IP), na linha de pesquisa: Saúde, Clínica e
Práticas Psicológicas, da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL), como um dos requisitos
para a obtenção do título de Mestre em
Psicologia.
Orientadora: Profa. Dra. Nadja Maria Vieira da
Silva.

Maceió
2025

DEDICATÓRIA
deficiência está menos no corpo do que na forma como o mundo decide olhar para
(DINIZ, 2007, p. 13).

À menina que um dia adoeceu e passou a habitar um corpo diferente.
Tantas vezes invisibilizada, desacreditada e silenciada.
Àquela que cresceu carregando perguntas que não cabiam nas respostas prontas
e que, mesmo sem ter todas elas, escolheu transformar sua dor em força e o silêncio em
palavra.
Dedico esta dissertação àquela menina que, entre tropeços e resistências, aprendeu
a caminhar com dignidade e a sustentar sua presença em um mundo excludente.
Esta escrita é para você, que, agora adulta, transformou sua história em pesquisa,
sua vivência em compromisso ético, e seu percurso em voz para tantas outras pessoas que
também trilham caminhos invisibilizados.
Que esta obra te abrace como reconhecimento, reparação e reexistência.
Com todo o meu carinho,
Juliana.

AGRADECIMENTOS
Agradeço, primeiramente, a Deus, por ter me concedido a oportunidade de viver
a experiência da pesquisa

que não é apenas um caminho acadêmico, mas também uma

travessia de transformação pessoal e coletiva.
Aos meus pais, que me apoiaram com amor, presença e confiança. O gesto
silencioso de quem acredita e apoia, mesmo sem compreender por completo, foi, para
mim, um chão seguro.
À minha filha, Maria Lívia, amor da minha vida. Com seus 9 anos de luz e alegria,
tem sido, desde que chegou, a minha maior inspiração para crescer, resistir e seguir em
frente.
Ao querido Augusto, companheiro presente em cada etapa desta caminhada, cujo
apoio tornou mais leve até os trechos mais difíceis.
À minha irmã e aos meus irmãos médicos, que, mesmo distantes, acompanharam
minhas conquistas com alegria e contribuíram, à sua maneira, para o meu crescimento.
Ao meu médico ortopedista, cirurgião do quadril, Dr. João Mendes, por sua
atenção e cuidado ao fornecer os documentos que viabilizaram a minha inscrição no
processo seletivo, bem como pelas palavras de credibilidade que fizeram diferença.
Aos colegas da Residência Multiprofissional, especialmente ao Isaías, à Siane e à
Vanessa, agradeço pela companhia, apoio e incentivo durante o período em que eu
sonhava em cursar mestrado. À minha querida R2 Estefane, sou imensamente grata por
acreditar no meu projeto e me motivar a seguir em frente.
Aos colegas de pesquisa, Dani e Leo, pela partilha generosa de saberes, angústias
e conquistas. Com vocês, o caminho foi mais leve e mais possível.
Aos participantes da pesquisa
deficiência e professores

estudantes com deficiência, estudantes sem

meu mais profundo agradecimento por narrarem suas

experiências. Esta dissertação é atravessada por cada um de vocês.
Ao local de realização da pesquisa, à escola estadual, à direção e à coordenação
da instituição, pelo acolhimento e pela autorização sensível à presença do estudo naquele
espaço.
À Universidade Federal de Alagoas, ao Programa de Pós-Graduação em
Psicologia e ao comitê de ética em pesquisa, pela acolhida e viabilização deste trabalho,
que pôde ganhar forma e sentido graças a esse apoio.

À CAPES, pelo apoio financeiro, por meio da bolsa, que tornou possível a
dedicação integral a este estudo.
À minha orientadora, Professora Dra. Nadja, por ter me escolhido, pelas
provocações sensíveis, pelo estímulo e pela confiança depositada em meu percurso. Sua
orientação foi farol e abrigo.
A cada pessoa que, de algum modo, contribuiu para que esta caminhada fosse
possível: minha sincera gratidão.

ALTERIDADE: ÉTICA E ESTÉTICA NA COMUNICAÇÃO COM A PESSOA
QUE CONVIVE COM DEFICIÊNCIA EM CENÁRIOS EDUCACIONAIS
RESUMO
Na presente dissertação, discutimos sobre a experiência da alteridade nas interações
humanas configuradas em cenários educacionais que envolvem pessoas que convivem
com alguma forma de deficiência. A dissertação é composta por dois manuscritos
articulados entre si. No primeiro resgatamos na literatura, matrizes históricas dessas
concepções que orientam, ainda na atualidade, posturas e atitudes das diferentes pessoas
frente a uma pessoa que convive com alguma deficiência. Associado com esse resgate,
analisamos documentos reguladores dos serviços educacionais voltados para as pessoas
com deficiência e destacamos que, embora a proposta de inclusão tenha avançado no
respeito ao direito da pessoa com deficiência de acesso aos serviços educacionais, ainda
permanecem lacunas, que impedem que esta proposta alcance sua plena efetividade na
promoção de desenvolvimento humano. Argumentamos que há um predomínio do
enfoque técnico para a acessibilidade educacional e o preterimento de discussões sobre a
ética e solidariedade social para com a pessoa com deficiência nos cenários. Acusamos a
escassez de teorização sobre esse preterimento e realizamos uma revisão sistemática da
literatura com foco no conceito de alteridade. O material bibliográfico foi levantado em
diferentes bancos de dados virtuais. A finalidade da revisão foi destacar características do
conceito de alteridade, condutas metodológicas utilizadas para sua investigação e
implicações do conhecimento produzido para práticas pedagógicas inclusivas. A análise
revelou uma tensão entre discursos que perpetuam práticas de exclusão e aqueles que
propõem uma ética na relação com o outro. No entanto, também emergiram vozes que
tensionam essa lógica excludente ao proporem a alteridade como um princípio ético. Nos
resultados e conclusão, assumimos a direção na qual se circunscreve à experiência de
alteridade a possiblidade de revisão das imagens conceptuais históricas de incapacidade
atribuída com nuances às pessoas que convivem com alguma deficiência. Para esse fim é
preciso esclarecer como a dimensão política e ética nos cenários educacionais são
amarradas à alteridade através dos processos comunicativos. Esse esclarecimento requer,
no entanto, uma maior diversificação nos métodos de investigação da alteridade pois, de
acordo com o presente estudo, ainda predomina a análise de literatura. O segundo
manuscrito consiste no relato de uma pesquisa de campo que teve o objetivo de analisar
a relação de alteridade em cenários educacionais. Assumimos também os seguintes
objetivos específicos: 1) situar a relação entre processos comunicativos e
desenvolvimento humano nas discussões sobre modelo social de deficiência e equidade
nos cenários educacionais e 2) discutir uma proposta metodológica para análise da função
de alteridade. A pesquisa foi realizada em uma escola da rede pública. Os participantes
foram estudantes que convivem com alguma deficiência, seus pares e professores. O
desenho metodológico integrou observação participante em sala de aula e produção de
narrativas pelos participantes. Para assegurar que os participantes narrassem sobre a
experiência de alteridade apresentamos-lhes enunciados incompletos, que consistiram em
situações recorrentes do cotidiano escolar, a partir das quais os participantes
desenvolveram uma narrativa. O principal resultado foi a indicação de uma ausência de
posições alter-referente nas narrativas de estudantes com deficiência. Nas discussões
apresentamos apontamentos sobre a alteridade relacionada com as formas de
posicionamentos autorreferente e alter-referente nas narrativas de professores, estudantes
com e sem deficiência e seus respectivos núcleos de significação nos quatro contextos
simulados nos enunciados. Concluímos que persistente escassez de referência aos

professores e colegas sem deficiência nas narrativas dos estudantes com deficiência está
relacionada com a ausência de excedente de visão, que deveria ser-lhe ofertado na
alteridade experimentada nos cenários educacionais.
Palavras-chave: Alteridade; Ética; Educação; Comunicação; Desenvolvimento humano

OTHERNESS: ETHICS AND AESTHETICS IN COMMUNICATION WITH
PERSONS LIVING WITH DISABILITIES IN EDUCATIONAL SETTINGS
ABSTRACT
In this dissertation, we discuss the experience of otherness in human interactions that take
place in educational settings involving persons living with some form of disability. The
dissertation is composed of two interconnected manuscripts. In the first, we retrieve from
the literature the historical matrices of conceptions that continue to guide, to this day, the
attitudes and behaviors of different individuals toward persons with disabilities.
Alongside this historical retrieval, we analyze regulatory documents concerning
educational services for people with disabilities and highlight that, although the inclusion
proposal has advanced in respecting the right of persons with disabilities to access
educational services, gaps still remain that hinder its full effectiveness in promoting
human development. We argue that there is a prevailing technical approach to educational
accessibility and a neglect of discussions on ethics and social solidarity towards people
with disabilities in these settings. We point out the scarcity of theorization regarding this
neglect and conduct a systematic literature review focused on the concept of otherness.
The bibliographic material was collected from various virtual databases. The purpose of
the review was to highlight characteristics of the concept of otherness, methodological
approaches used for its investigation, and the implications of the knowledge produced for
inclusive pedagogical practices. The analysis revealed a tension between discourses that
perpetuate exclusionary practices and those that propose an ethics in the relationship with
the other. Nevertheless, voices also emerged that challenge this exclusionary logic by
proposing otherness as an ethical principle. In the results and conclusion, we assume that
the experience of otherness makes it possible to revise the historical conceptual images
of incapacity often attributed albeit with nuances to persons living with disabilities.
To this end, it is necessary to clarify how the political and ethical dimensions of
educational settings are intertwined with otherness through communicative processes.
However, such clarification requires greater diversification in the methods used to
investigate otherness, as this study reveals that literature analysis still predominates. The
second manuscript consists of a field research report aimed at analyzing the relationship
of otherness in educational contexts. We also adopted the following specific objectives:
1) to situate the relationship between communicative processes and human development
within discussions on the social model of disability and equity in educational settings;
and 2) to discuss a methodological proposal for analyzing the function of otherness. The
research was carried out in a public school. Participants included students living with
disabilities, their peers, and teachers. The methodological design integrated participant
observation in classrooms and the production of narratives by participants. To ensure that
participants narrated experiences of otherness, we presented them with incomplete
prompts consisting of open-ended conflict situations typical of educational processes, for
them to develop into stories. Our analysis focused on the relationship between alterreferenced positioning and the meaning cores that shape their significance. The main
result indicated a scarcity of alter-referenced positioning in the narratives of students with
disabilities. In the discussion, we present reflections on otherness related to forms of selfreferenced and alter-referenced positioning in the narratives of teachers and students with
and without disabilities, and their respective meaning cores, which signaled the meanings
of these positions according to the simulated contexts presented in the prompts. We
conclude that the scarcity of alter-referenced positioning in the narratives of students with
disabilities is related to a lack of surplus of vision in interpersonal relationships, which

are impacted by historically prejudiced conceptual matrices about disability still present
in schools. This scenario hinders the ethical exercise of communication in otherness.
Keywords: Otherness; Ethics; Education; Communication; Human development.

SUMÁRIO
1.Apresentação.................................................................................................................6
2.Manuscrito I - Alteridade e Deficiência: História, Definição e Investigação...............8
3.Manuscrito II - alteridade: estética e ética na comunicação com a pessoa que convive
com deficiência em cenários educacionais....................................................................38
4.Considerações finais...................................................................................................78
5 Apêndices...................................................................................................................83
6. Anexos.......................................................................................................................94