Paulyne Guimarães Lopes - "Sentidos da vivência nas ruas: conversas com pessoas em situação de rua".

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Dissertação - Paulyne - VERSÃO FINAL - AGO.2019.pdf
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA

PAULYNE GUIMARÃES LOPES

SENTIDOS DA VIVÊNCIA NAS RUAS:
CONVERSAS COM PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA

Maceió
2019

PAULYNE GUIMARÃES LOPES

SENTIDOS DA VIVÊNCIA NAS RUAS:
CONVERSAS COM PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA

Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas, como
requisito parcial para a obtenção do grau de
Mestre em Psicologia.
Orientadora: Prof.ª Dra. Maria Auxiliadora
Teixeira Ribeiro

Maceió
2019

AGRADECIMENTOS
Como todos os dias, e aqui não poderia ser diferente, agradeço a vida a Deus e a Nossa
Senhora. Hoje, em especial, agradeço a oportunidade, o aprendizado, a experiência, as etapas
ultrapassadas e mais essa conquista, a finalização do mestrado. O sentimento que me toma é
de SUPERAÇÃO! Nesse caminho, algumas pessoas estiveram ao meu lado, me apoiando e
me incentivando.
Agradeço às minhas filhas, Marina e Maria Fernanda, todo amor verdadeiro!
Ao meu marido, Cristiano, agradeço estar sempre ao meu lado e me apoiar nas minhas
aventuras.
Aos meus pais, Fátima e Armando, às minhas irmãs, Polyanna e Amanda, e ao meu
irmão, Armandinho, sou grata por acreditarem em mim.
A minha orientadora, Maria Auxiliadora, a quem carinhosamente chamamos de Xili,
agradeço toda a dedicação profissional à Psicologia, abdicando, muitas vezes, da sua vida
pessoal para viver, intensamente, o sonho dos seus orientandos.
Agradeço aos professores Jefferson de Souza Bernardes e Flávia Regina Guedes
Ribeiro as valiosas contribuições na minha qualificação.
Ao grupo de pesquisa PROSA, agradeço a receptividade, a torcida, o carinho e as
contribuições no meu processo de aprendizagem.
Agradeço o apoio da minha turma do mestrado, em especial das companheiras da
Linha de Pesquisa 2, Jéssica, Vanessa, Kelcy e Aline. Agradeço, também, o apoio de Nilton
Santos, colega ainda da graduação.
À Secretaria Municipal de Assistência Social de Maceió, em especial à Diretoria de
Proteção Especial, agradeço a autorização para a realização da pesquisa.
Aos meus colegas de trabalho do Centro POP, em especial a Alessandra, Sônia,
Maridelma, Israel, Manu e Sr. Dorgi, sou grata por todo o apoio e incentivo.
Às Pessoas em Situação de Rua, sou grata pela abertura à participação na pesquisa e
pelo compartilhamento de suas histórias, de seu dia a dia nas ruas e dos ensinamentos sobre a
vida.

RESUMO
Tem como objetivo compreender o cotidiano de pessoas em situação de rua, suas táticas e
estratégias para sobreviverem nas ruas de Maceió e sua relação com a política de assistência
social voltada a esta população. Para tal, o estudo apoia-se no referencial teóricometodológico das práticas discursivas e da produção de sentidos, fundamentado na
perspectiva do Construcionismo Social. O procedimento para a construção das informações
da pesquisa foi realizado por meio de entrevistas com quatro pessoas em situação de rua
(PSR), usuárias do Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua
(Centro POP) de Maceió, sendo dois homens e duas mulheres. Para a realização das análises,
o estudo levou em consideração: a) os enunciados produzidos durante as entrevistas; b) os
repertórios linguísticos que circulam na literatura científica sobre população em situação de
rua e sobre políticas públicas de assistência social, os quais foram acessados em bases de
dados; e c) a experiência da pesquisadora nesse contexto. Através das falas dos protagonistas
deste estudo, foi possível compreender que a PSR utiliza, no seu dia a dia, diversas
estratégias, reinventando espaços e objetos em seu cotidiano nas ruas. Além disso, busca,
diariamente, alguns serviços ofertados pela Secretaria de Assistência Social (SEMAS), como
suporte para dirimir as adversidades encontradas nas ruas, principalmente as necessidades
básicas de alimentação e de higiene. As demandas dessa população apontam para a
importância de ações articuladas entre a assistência social e as demais políticas públicas,
promovendo a intersetorialidade.
Palavras-chave: População em Situação de Rua. Assistência Social. Práticas Discursivas.
Produção de Sentidos.

ABSTRACT
The aim of the present study was to understand the daily life of homeless people, their tactics
and strategies to survive on the streets of Maceió, Brazil, and their relation with the social
welfare policies implemented for this population. To that end, the study is based on the
theoretical-methodological framework of discursive practices and the production of meanings,
in accordance with the perspective of social constructivism. The procedure to compile
information consisted of interviews with four homeless people (HP), two men and two
women, enrolled in the Specialized Reference Center for Homeless People (Centro POP) of
Maceió. For analyses, the study considered the following: a) the statements produced during
the interviews; b) the linguistic repertoires contained in the scientific literature about
homeless people and social welfare policies, which were obtained from databases; and c) the
researcher’s experience in this context. The discourses of the HP demonstrated that they use a
number of strategies, constantly reinventing spaces and objects in their everyday life on the
streets. Furthermore, they regularly avail themselves to the services provided by the Social
Welfare Department, seeking support to cope with the adversities encountered on the streets,
primarily basic food and hygiene needs. The demands of this population show the importance
of joint action between social welfare and other public policies, thereby promoting
intersectoriality.
Keywords: Homeless people. Social welfare. Discursive practices. Production of meanings.

LISTA DE SIGLAS
BPC

Benefício de Prestação Continuada

CadÚnico

Cadastro Único para Programas do Governo Federal

Capes

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

Caps

Centro de Atenção Psicossocial

Caps AD

Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas

Casa

Centro de Atendimento Socioassistencial

CE

Ceará

Centro POP

Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua

CEP

Comissão de Ética e Pesquisa

CF

Constituição Federal

CFP

Cadastro de Pessoa Física

CGGIRT

Coordenação Geral da Gestão da Informação e Tecnologia

CNAS

Conselho Nacional de Assistência Social

Cras

Centro de Referência de Assistência Social

Creas

Centro de Referência Especializado de Assistência Social

ECA

Estatuto da Criança e do Adolescente

ES

Espírito Santo

GPOP

Grupamento de Atenção à População em Situação de Rua

GTI

Grupo de Trabalho Interministerial

IBGE

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

LA

Liberdade Assistida

Loas

Lei Orgânica da Assistência Social

MDS

Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome

MG

Minas Gerais

MNPR

Movimento Nacional da População em Situação de Rua

NOB

Norma Operacional Básica

PAEFI

Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e
Indivíduos

PBF

Programa Bolsa Família

PAIF

Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família

PIA

Plano Individual de Acompanhamento

PNAS

Política Nacional de Assistência Social

PNPR

Política Nacional para Inclusão da População em Situação de Rua

PR

Paraná

PSB

Proteção Social Básica

PSC

Prestação de Serviços à Comunidade

PSE

Proteção Social Especial

PSR

População em Situação de Rua

RA

Região Administrativa

RG

Registro Geral

RN

Rio Grande do Norte

RS

Rio Grande do Sul

SC

Santa Catarina

SCFV

Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos

SciELO

Scientific Eletronic Library Online

Seas

Serviço Especializado em Abordagem Social

Semas

Secretaria Municipal de Assistência Social

SMS

Secretaria Municipal de Saúde

SP

São Paulo

Suas

Sistema Único de Assistência Social

TCLE

Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

TI

Transcrição Integral

TS

Transcrição Sequencial

UBS

Unidade Básica de Saúde

Ufal

Universidade Federal de Alagoas

UTI

Unidade de Terapia Intensiva

LISTA DE QUADROS
Quadro 01 – Principais marcos da efetivação de direitos da PSR.

24

Quadro 02 – Serviços socioassistenciais da PSE para população de rua.

26

Quadro 03 – Divisão territorial das equipes técnicas dos Centros POP de
Maceió/AL (2018).

28

Quadro 04 – Divisão dos bairros de Maceió por Regiões Administrativas (2018).

31

Quadro 05 – Divisão territorial das equipes Seas/Semas (2018).

33

Quadro 06 – Pessoas abordadas na rua, sem residência, pela equipe Seas/Semas
(2017).

36

Quadro 07 – Panorama geral da revisão da literatura.

40

Quadro 08 – Síntese das publicações selecionadas.

41

Quadro 09 – Distribuição das produções científicas sobre PSR, por localidade.

42

Quadro 10 – Quantitativo da PSR com base na Pesquisa Nacional.

42

Quadro 11 – Distribuição das produções científicas sobre PSR, por ano de
publicação.
Quadro 12 – Distribuição das produções científicas sobre PSR, por área de
conhecimento.
Quadro 13 – Distribuição das produções científicas sobre PSR, por eixo temático.
Quadro 14 – Produções científicas do eixo temático 1 – Política de Assistência
Social: implantação, avaliação e críticas.
Quadro 15 – Produções científicas do eixo temático 2 – Caracterização do
fenômeno PSR.

43

44
45
46

49

Quadro 16 – Produções científicas do eixo temático 3 – Histórias de Vida da PSR.

50

Quadro 17 – Apresentação geral dos participantes.

65

Quadro 18 – Demonstrativo dos mapas dialógicos.

74

Quadro 19 – Sugestões de programas/projetos para a PSR.

88

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 01 – Usuários atendidos no Centro POP I (2014)

37

Gráfico 02 – Usuários atendidos no Centro POP II (2014)

38

SUMÁRIO

1

APRESENTAÇÃO

12

2

INTRODUÇÃO

14

3

ASSISTÊNCIA SOCIAL ENQUANTO POLÍTICA PÚBLICA PARA A
PSR

18

3.1

A política de assistência social no Brasil

18

3.2

A Política Nacional para População em Situação de Rua (PNPR)

20

3.3

A População em Situação de Rua (PSR)

25

3.4

O Centro POP

26

3.5

A política de assistência social para a PSR em Maceió

31

3.5.1

Caracterização dos serviços ofertados à PSR em Maceió

32

3.5.2

A PSR em Maceió

36

4

A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA NA LITERATURA
ACADÊMICA

40

4.1

Levantamento nas bases de dados

40

4.2

Resultados: apresentação e discussões

42

4.3

Dialogia com a literatura

47

4.3.1

Eixo temático 01 – Política de assistência social: implantação, avaliação e
críticas

47

4.3.2

Eixo temático 02 – Caracterização do fenômeno da PSR

50

4.3.3

Eixo temático 03 – Histórias de vida da PSR

51

4.3.3.1

Quem são?

54

4.3.3.2

Motivos de irem viver nas ruas

56

4.3.3.3

Dinheiro e renda

57

4.3.3.4

Violência

57

4.3.3.5

Rede de assistência social

57

4.3.3.6

Dia a dia nas ruas

57

4.3.3.7

Uso de substâncias lícitas e ilícitas

58

5

POSICIONAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

60

5.1

Construcionismo Social

60

5.2

A pesquisa na perspectiva Construcionista

62

5.3

As práticas discursivas e a produção de sentidos

64

5.4

O caminho trilhado

66

5.4.1

Os participantes

66

5.4.1.1

José

68

5.4.1.2

João

70

5.4.1.3

Raquel

71

5.4.1.4

Maria

73

5.5

Análise das informações

74

6

VIVER NA RUA: DESAFIOS E SUPERAÇÕES

78

6.1

Apoio espiritual

78

6.2

Histórias de vida

79

6.3

Perspectiva de futuro

83

6.4

Relação com a política pública

85

6.5

Relação com a rua

90

6.6

Relação com as drogas

97

7

CONSIDERAÇÕES E CAMINHOS A PERCORRER

100

REFERÊNCIAS

105

APÊNDICE A – ROTEIRO DAS ENTREVISTAS

111

APÊNDICE B – TRANSCRIÇÃO SEQUENCIAL – ENT. COM JOSÉ

112

APÊNDICE C – TRANSCRIÇÃO SEQUENCIAL – ENT. COM JOÃO

120

APÊNDICE D – TRANSCRIÇÃO SEQUENCIAL – ENT. COM
RAQUEL

128

APÊNDICE E – TRANSCRIÇÃO SEQUENCIAL – ENT. COM MARIA

134

12

1 APRESENTAÇÃO
O ato de pesquisar é extremamente desafiador e exige coragem frente aos obstáculos
postos em todo o caminho. Porém, é proporcionalmente apaixonante, principalmente por se
constituir num processo repleto de inquietações que permeiam a aventura do conhecer. Sou
psicóloga, graduada pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), no ano de 2003, e sempre
tive o sonho de cursar uma pós-graduação. Mas, na oportunidade, precisaria residir em outra
localidade, pois a Ufal ainda não ofertava o mestrado. Assim, guardei esse sonho por alguns
anos e ingressei no mercado de trabalho.
Em 2015, por ocasião do nascimento da minha segunda filha, tomei coragem e resolvi
mudar minha trajetória profissional. Retomei alguns contatos da época da universidade, por
meio dos quais tomei conhecimento do mestrado em Psicologia e de alguns colegas que
estavam vivenciando esse momento. De imediato, o desejo de voltar à vida acadêmica tomoume por completo. Sem pensar muito, comecei a estudar para a seleção do mestrado, que tinha
acabado de lançar um edital. Por uma grata surpresa, passei nas primeiras etapas e fui
classificada para a última etapa, que é a defesa do projeto. Infelizmente, aquele não era o
momento da minha aprovação. Resolvi recomeçar a preparação para o novo processo seletivo
com antecedência. Por intermédio de um colega que estava cursando o mestrado, comecei a
participar de alguns encontros do Grupo de Pesquisa em Psicologia Discursiva, o Prosa, cuja
proposta é a discussão teórico-metodológica das Práticas Discursivas e Produção de Sentidos,
bem como do Construcionismo Social. Posso afirmar que esses encontros foram decisivos
para o meu retorno à vida acadêmica e fundamentais para a construção deste estudo.
Em paralelo a esse momento, eu estava retomando as atividades como psicóloga
efetiva da Prefeitura de Maceió, atuante na Secretaria Municipal de Assistência Social
(Semas) desde 2008. Na oportunidade, fui convidada para suprir a carência de um serviço,
que, pelo relato de alguns colegas da Semas, ninguém queria executar, pelo receio em atender
população de rua. Esse local era o Centro de Referência Especializado para Pessoas em
Situação de Rua (Centro POP), que é responsável pelo acompanhamento dos indivíduos e
famílias que estão em situação de rua.
Minha primeira reação foi pensar nos estereótipos que estão ligados a esse público, e
os seguintes questionamentos me ocorreram: quem são essas pessoas que vivem nas ruas? Por
que moram nas ruas? Por que elas não têm casas? Onde estão suas famílias? Elas trabalham?
Por que permanecer vivendo nas ruas? Estas foram as primeiras inquietações que incitaram a
escolha do tema.

Ao iniciar o trabalho no Centro POP, fui tentar buscar respostas para as minhas
indagações/inquietações, através dos relatos dos usuários. Foi possível identificar algumas
semelhanças nas histórias de vida dos usuários do Centro POP, tais como intolerância da
família, pendências judiciais, perda do emprego, recaída ou uso em excesso de substâncias
psicoativas, frustrações da vida, entre outras. Porém, logo percebi a multiplicidade de fatores
que condicionam o processo de rualização e, principalmente, a complexidade presente na
condição da população em situação de rua. Não seria fácil responder a aqueles meus
questionamentos.
E foi assim que os dois momentos se encontraram: o desejo de cursar o mestrado e o
de desenvolver reflexões sobre as histórias de vida da população em situação de rua.
Participei, pela segunda vez, da seleção do mestrado e, desta vez, obtive êxito, apresentando o
projeto para pesquisar a População em Situação de Rua, no contexto da Assistência Social.
Como se pode constatar, a construção do campo-tema1 desta pesquisa está ligada às
vivências que experimento no meu cotidiano de trabalho, ou seja, é a partir das minhas
experiências com a população em situação de rua e das inquietações aqui apresentadas que
construímos esta dissertação, que diz respeito a uma relação de proximidade com tal
população.
Pautada no espírito crítico, científico, inquietante e apaixonante da pesquisa, alguns
passos foram trilhados visando a refletir acerca da experiência vivida pela população em
situação de rua e da sua vulnerabilidade social, ou seja, as estratégias construídas por eles
para viver e sobreviver nas ruas.

1

Campo-tema: expressão utilizada por Peter Spink (2003) para enfatizar que um campo de investigação não é
um “universo” distante, separado e independente do/a pesquisador/a. Ou seja, ele não é um “universo
empírico” ou o “lugar” onde fazemos nossas observações, mas uma “[...] rede complexa de sentidos, que vai
sendo construída num constante diálogo acerca do tema de pesquisa. Diálogo esse ‘debatido’, ‘negociado’ e
‘arguido’, situado dentro de um processo que tem tempo e lugar históricos” (SPINK, P., 2003, p. 28).

2 INTRODUÇÃO
Mendigo, trecheiro, andarilho, errante, morador de rua, homem de rua, habitante da
rua, nômade urbano, albergado, sem-teto, homeless, membro da população de rua ou do povo
da rua: são algumas denominações popularmente e/ou academicamente utilizadas para se
referir às pessoas em situação de rua, no Brasil. Mattos (2006) aponta alguns fatores que
contribuem para essa diversidade. O primeiro deles diz respeito à variedade de áreas do
conhecimento científico que procuram estudar a situação de rua, cada qual enxergando o
fenômeno a partir de sua especificidade. Outro fator é a forma de vivenciar a situação de rua,
ou seja, os aspectos subjetivos.
O I Encontro Nacional Sobre População em Situação de Rua, realizado em 2005 pelo
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), define População em
Situação de Rua (PSR) como:

Grupo populacional heterogêneo, composto por pessoas com diferentes realidades,
mas que têm em comum a condição de pobreza absoluta, vínculos interrompidos ou
fragilizados e falta de habitação convencional regular, sendo compelido a utilizar a
rua como espaço de moradia e sustento, por contingência temporária ou de forma
permanente (BRASIL, 2009).

Conforme expresso acima, a população em situação de rua é heterogênea, e esse fato
também está ligado a aspectos como as peculiaridades da situação de rua nas diversas regiões
brasileiras e a infinidade de histórias de vida desses indivíduos em uma mesma região. Assim,
enquanto nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro as pessoas em situação de rua são, em sua
maioria, pessoas sozinhas (ESCOREL, 1999), na região de Brasília, devido à densa migração
nordestina, a população em situação de rua é composta, em sua maioria, por jovens famílias
(BUARQUE, 2000).
Para a inserção nessa temática, iniciamos com a revisão da literatura, realizando
buscas sistemáticas em bases de dados: Scientific Eletronic Library Online (SciELO), Google
Acadêmico e Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (Capes), visando a identificar como essa temática vem sendo pesquisada no Brasil.
Focalizamos os estudos voltados para a compreensão do cotidiano, das táticas e estratégias
para sobreviver nas ruas, bem como da articulação da PSR com a política de assistência
social. Realizamos consultas sistemáticas ao acervo de artigos, de dissertações de mestrado e
de teses de doutorado alocados em páginas eletrônicas de diversas universidades brasileiras.

Esse diálogo inicial com a produção científica possibilitou constatar a heterogeneidade
da PSR, conforme definido pelo MDS. Essa complexidade nos instiga e aponta a necessidade
da busca por conhecer e compreender tal multiplicidade. Os motivos e circunstâncias de
ida/permanência nas ruas, por exemplo, são diversos, bem como a forma como cada pessoa
vivencia esse processo.
É necessário pensar a situação de rua como processo em movimento, como processo
de rualização, que se configura a partir de diversos fatores e condicionantes. É preciso pensar
intervenções que reconheçam este processo, principalmente a partir das políticas públicas
(PRATES, F. C; PRATES, J. C.; MACHADO, 2011).
Para Vieira, Bezerra e Rosa (1994, p. 93), a rua pode possuir dois sentidos diferentes
para quem a vivencia: ser uma forma de abrigo para as pessoas que, não possuindo recursos,
utilizam-se dos espaços públicos para dormir ocasionalmente; ou, ainda, pode “constituir-se
em um modo de vida, para os que já têm na rua o seu hábitat e que estabelecem com ela uma
complexa rede de relações”.
Foram identificadas três possíveis situações diferentes na situação de rua: ficar na rua,
estar na rua e ser da rua. Ficar na rua seria uma situação na qual a pessoa não possui recursos
para pagar por um abrigo e não consegue vaga em albergues, uma vez que, geralmente, está
vivenciando uma situação de desemprego e recusa a vinculação com o “morador de rua”.
Estar na rua seria a condição daqueles que adotam a rua como espaço para pernoite e não a
consideram mais como ameaça, pois já estabelecem relações com pessoas da rua e com
instituições sociais, ainda se diferenciando dos “moradores de rua”. Ser da rua seria o
resultado de um processo de agravamento da situação de precariedade material, física e
mental, dificultando, assim, a saída das ruas ou a inserção no mercado de trabalho, sendo que
a relação com a rua se torna cada vez mais definitiva (VIEIRA; BEZERRA; ROSA, 1994).
A preocupação com o fenômeno da população de rua é discutida por Barbosa (2017),
em sua tese de doutorado, que problematiza diversos aspectos, entre eles o fato de a
população em situação de rua aparecer em cenário nacional apenas quando ganha visibilidade,
ao ser associada ao consumo de drogas ilícitas, como o crack. Embora o discurso das ações
governamentais gire em torno da questão da cidadania, do direito ao cuidado integral e, por
conseguinte, da ampliação de direitos de cidadania, a autora argumenta outra possível

consequência: “a outra versão do cuidado é o controle das populações perigosas2 do espaço
urbano, especialmente as que ocupam os espaços públicos” (BARBOSA, 2017, p. 28).
É nessa seara de afetações que nos situamos, diante de vidas que, em virtude de causas
multifatoriais, despertam vários sentimentos na sociedade, como medo, preconceito, estigma
e/ou repulsa. Apontam que, apesar de haver estudos voltados para a temática da População em
Situação de Rua, esse ainda é um assunto desconhecido. Neste trabalho, optamos por usar o
termo População em Situação de Rua por entendermos a transitoriedade de tal condição
social, em detrimento de um elemento estático e rígido denotado em expressões como
“morador de rua”.
Conforme exposto, as afetações que motivaram este estudo são fruto de um elenco de
indagações que permeiam o meu cotidiano profissional, e foi a partir delas que formulamos a
proposta de compreender o cotidiano de pessoas em situação de rua, suas táticas e estratégias
para sobreviver nas ruas de Maceió, bem como sua relação com a política da assistência social
voltada a esta população. Para tanto, o referencial teórico-metodológico que nos norteia é o
das Práticas Discursivas e Produção de Sentidos, fundamentado na perspectiva do
Construcionismo Social.
Nossos objetivos específicos são: a) caracterizar os serviços ofertados à PSR, na
cidade de Maceió, dando ênfase à política pública de assistência social; b) conhecer as
estratégias adotadas, por pessoas em situação de rua, para o enfrentamento de seu cotidiano;
c) refletir sobre as estratégias utilizadas e os serviços ofertados à população em situação de
rua.
Este estudo é fruto de uma construção coletiva entre a pesquisadora, a orientadora, os
atores sociais envolvidos e várias outras vozes, que contribuíram ao longo de todo o processo,
seja com sugestões de material para leitura, seja com propostas de alteração do projeto no
momento da qualificação. Desta forma, o texto transitará entre a primeira pessoa do singular e

2

“A expressão ‘classes perigosas’ parece ter surgido na primeira metade do século XIX. A escritora inglesa
Mary Carpenter, por exemplo, em estudo da década de 1840 [...] utiliza a expressão claramente no sentido de
um grupo social formado à margem da sociedade civil. Para Mary Carpenter, as classes perigosas eram
construídas pelas pessoas que já houvessem passado pela prisão, ou as que, mesmo não tendo sido presas,
haviam optado por obter o seu sustento e o de sua família através da prática de furtos e não do trabalho. Em
suma, a expressão é utilizada aqui de forma bastante restrita, referindo-se apenas aos indivíduos que já haviam
abertamente escolhido uma estratégia de sobrevivência que os colocava à margem da lei” (CHALHOUB,
1996, p. 20).

a primeira do plural, de modo a circunscrever registros da experiência singular da
pesquisadora e da produção coletiva.
No que se refere à produção das informações, esta ocorreu com a realização de
entrevistas semiestruturadas, com 4 (quatro) pessoas em situação de rua, usuárias do Centro
POP de Maceió. Para tal procedimento, foi elaborado, previamente, um roteiro para ser nosso
guia na condução das conversas.
Quanto à organização do texto, esta dissertação é composta de 4 (quatro) capítulos. O
primeiro traz uma breve explanação sobre a Política Nacional de Assistência Social, no
Brasil, apresentando os caminhos trilhados até a promulgação da política direcionada para a
PSR. Discorremos, também, sobre os serviços ofertados à PSR e sobre algumas características
do seu perfil em Maceió.
No segundo capítulo, apresentamos a revisão dialógica da literatura, a partir da
proposta de Walker (2015), sob influência de Montuori (2005), analisando as produções
acadêmicas sobre a PSR e a política de assistência social, acessadas em bases de dados
eletrônicas.
No

terceiro

capítulo,

discutimos

os

referenciais

teórico-metodológicos

do

Construcionismo Social e das Práticas Discursivas e Produção de Sentidos. Apresentamos os
caminhos percorridos para a realização das reflexões produzidas em cada etapa trilhada: os
protagonistas envolvidos, a escolha e a realização das entrevistas e o modo como analisamos
os repertórios produzidos nesses encontros.
O quarto e último capítulo, apresentamos as discussões realizadas, identificando os
repertórios produzidos durante as entrevistas e os sentidos do cotidiano, nas estratégias
utilizadas por pessoas em situação de rua. Esses repertórios foram articulados com os
enunciados presentes na literatura. Finalizamos tecendo algumas reflexões sobre o caminho
trilhado.

3

ASSISTÊNCIA

SOCIAL

ENQUANTO

POLÍTICA

PÚBLICA

PARA

A

POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA
A proposta deste capítulo é apresentar um panorama geral da política pública de
assistência social, no Brasil, discorrendo sobre os principais eventos ocorridos até a
promulgação de direitos destinados à População em Situação de Rua (PSR). Posteriormente,
detemo-nos na caracterização dos serviços e da PSR de Maceió, por ser o local de realização
da pesquisa empírica.
3.1 A política de assistência social no Brasil
A Constituição Federal (CF) de 1988 traz uma nova concepção para a assistência
social brasileira, pois, a partir desta, foram instituídos os direitos sociais. De acordo com o
documento, “Art. 6° São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a
segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos
desamparados, na forma desta Constituição” (BRASIL, 2016, p. 18).
Incluída no âmbito da seguridade social e regulamentada pela Lei Orgânica da
Assistência Social (LOAS), em dezembro de 1993, como política social pública, a assistência
social inicia seu trânsito para um campo novo: o campo dos direitos, da universalização dos
acessos e da responsabilidade estatal. A LOAS estabelece uma nova matriz para a política de
assistência social, inserindo-a no sistema do bem-estar social brasileiro, concebido como o
campo da seguridade social, configurando um triângulo juntamente à saúde e à previdência
social (BRASIL, 2005).
Além de estabelecer o funcionamento da Política Nacional de Assistência Social
(PNAS), foi criada com o objetivo de garantir uma política de proteção a quem necessita. Em
mais de vinte anos de existência, já passou por várias alterações, mas merece destaque a
instituição do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que veio para descentralizar a
prestação de serviços assistenciais, na intenção de tornar mais efetivo o atendimento à
população em situação de vulnerabilidade social.
Segundo o Art. 6º-A da LOAS, a assistência social está organizada em dois tipos de
proteção:
a) Proteção Social Básica (PSB), cujos serviços, programas, projetos e benefícios de
assistência social devem prevenir situações de vulnerabilidade e de risco social por
meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições e do fortalecimento de
vínculos familiares e comunitários;

b) Proteção Social Especial (PSE), entendida como conjunto de serviços, programas e
projetos que objetivam contribuir para a reconstrução de vínculos familiares e
comunitários, a defesa de direitos, o fortalecimento das potencialidades e
aquisições, além da proteção de famílias e indivíduos para o enfrentamento das
situações de violação de direitos.
Essas proteções sociais, nos níveis básico e especial, são ofertadas no Centro de
Referência de Assistência Social (CRAS) e no Centro de Referência Especializado de
Assistência Social (CREAS), respectivamente, e pelas entidades sem fins lucrativos de
assistência social (Art. 6º-C). Iremos nos deter nos equipamentos que estão inclusos na PSE,
em razão de nosso objeto, que é a população de rua e suas implicações.
A PSE pode ser de média ou de alta complexidade. A média complexidade
compreende o atendimento das famílias e indivíduos com seus direitos violados, mas cujos
vínculos familiares não foram rompidos.
As ofertas da PSE de média complexidade são:
a) Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI)
– baseado no apoio, acompanhamento e orientação das famílias e indivíduos que
se encontram em situação de ameaça ou violação de direitos. Esse serviço busca a
promoção e a restauração de seus direitos, além de fortalecer ou restabelecer os
vínculos familiares e comunitários, prevenindo a reincidência de violações.
b) Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS) – de acordo com a
Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais (2009), o SEAS é ofertado de
forma continuada e programada, com a finalidade de assegurar um trabalho social
de abordagem e busca ativa que identifique, nos territórios, a incidência de
situações de risco pessoal e social, por violação de diretos como trabalho infantil,
abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, situação de rua, dentre
outras.
c) Serviço de proteção social a adolescentes em cumprimento de medida
socioeducativa de Liberdade Assistida (LA) e de Prestação de Serviços à
Comunidade (PSC) – esse serviço realiza acompanhamento e oferece atenção
socioassistencial a adolescentes e jovens em cumprimento de medidas
determinadas judicialmente. Durante o atendimento, deve ser elaborado um Plano
Individual de Atendimento (PIA), para que sejam traçados os objetivos e metas a
serem alcançadas, além de outras necessidades surgidas no decorrer do
acompanhamento.

d) Serviço de Proteção Social Especial para Pessoas com Deficiência, Idosas e suas
Famílias – serviço voltado para famílias em que existam pessoas com deficiência
e/ou idosas, que estejam em situação de dependência e passem por algum tipo de
violação de direitos, podendo comprometer a sua autonomia e o seu
desenvolvimento pessoal e social. Busca a prevenção do abrigamento e fortalece o
direito à convivência familiar e comunitária, além de facilitar o acesso a
benefícios, programas e outros serviços socioassistenciais das demais políticas
públicas setoriais e do sistema de garantia de direitos.
e) Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua – ofertado nos Centros de
Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centro POP), é
voltado, especificamente, para o atendimento especializado da população que
utiliza as ruas como espaço de moradia e/ou sobrevivência. Esse serviço faz parte
deste estudo, e é apresentado mais detalhadamente no item 3.4.

Os serviços de alta complexidade são aqueles que garantem a proteção integral, tais
como moradia, alimentação, higienização e trabalho protegido para as famílias e indivíduos
que se encontram sem referência e/ou em situação de ameaça, necessitando serem retirados do
núcleo familiar e/ou comunitário. Para isso, é preciso que sejam atendidos em espaços
institucionais que ofereçam atendimento de forma integral.
Os serviços desenvolvidos para esses públicos requerem um acompanhamento
individual e uma maior flexibilidade nas soluções protetivas, por exemplo, encaminhamentos
monitorados, apoios e processos que assegurem a qualidade na atenção protetiva. A PSE
desenvolve serviços socioassistenciais com a perspectiva de restituir direitos sociais e
reconstruir laços familiares, comunitários e sociais (BRASIL, 2004).
3.2 A Política Nacional para População em Situação de Rua (PNPR)
Em setembro de 2005, ocorreu o I Encontro Nacional sobre População em Situação de
Rua, que visou a discutir, com o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome
(MDS), estratégias coletivas, além de levantar desafios e colher recomendações para a
formulação de políticas nacionalmente articuladas. Esse evento foi organizado a partir da
percepção de que, apesar de estar previsto o atendimento da população em situação de rua
pela PSE, suas necessidades não estavam sendo atendidas.

Como resultado desse processo, foi promulgada a Lei 11.258, de 30 de dezembro de
2005, que incluiu, no artigo 23º da LOAS (Lei 8.742, de 07 de dezembro de 1993), a criação
de programas de amparo às pessoas que vivem em situação de rua.
Com o objetivo de construir uma política específica para o atendimento da PSR, foi
aprovado, em 25 de outubro de 2006, um decreto que criou um Grupo de Trabalho
Interministerial (GTI) com a finalidade de elaborar diretrizes técnicas e propor medidas
necessárias para a criação de programas para PSR, na organização dos serviços de assistência.
Como ação prioritária do GTI, foi destacada a importância da realização de estudos que
pudessem quantificar e permitir a caracterização da PSR no Brasil, de modo a orientar a
elaboração e a implementação de políticas públicas direcionadas a tal público. Assim, no
período de 2007 a 2008, o MDS realizou uma Pesquisa Nacional sobre a População em
Situação de Rua. Seguem algumas informações sobre o perfil nacional da PSR, resultantes
dessa pesquisa (BRASIL, 2008):
a) a pesquisa abrangeu um conjunto de 71 cidades brasileiras, sendo 48 municípios
com mais de 300 mil habitantes e 23 capitais, independente de seu porte
populacional;
b) Belo Horizonte, São Paulo, Recife e Porto Alegre não participaram do censo, pois
haviam realizado ou estavam realizando pesquisas semelhantes;
c) o estudo identificou um contingente de 31.922 adultos em situação de rua.
Contudo, a estimativa do Movimento Nacional da População em Situação de Rua
(MNPR) é de que esse número seja de 50 mil pessoas;
d) o censo organizou uma série de informações sobre a PSR brasileira, organizando-a
e caracterizando-a a partir dos seguintes aspectos: características econômicas;
formação escolar; trajetória na rua; histórico de internação em instituições;
pernoite; vínculos familiares e trabalho; acesso à alimentação, serviços e cidadania;
discriminações sofridas; e participação em movimentos sociais;
e) a população de rua é majoritariamente masculina (82%);
f) 53% encontram-se na faixa etária entre 25 e 44 anos;
g) 39,1 % declaram-se como pardos e 27,9% como negros.
Outro aspecto indicado é que a PSR não é um grupo homogêneo, e caracteriza-se
como sendo composta, em sua maior parte, de afrodescendentes, flanelinhas, catadores de
materiais recicláveis, malabaristas, egressos do sistema prisional, pessoas com sofrimento
psíquico e pedintes. Uma característica de quase todos os grupos é a baixa escolarização, além

do desemprego e da ausência de domicílio fixo. Muitos migram de grandes metrópoles em
busca de novas perspectivas de vida (BRASIL, 2008).
Os motivos apontados pela pesquisa que levaram os entrevistados a morar nas ruas
estão relacionados a problemas com drogas e alcoolismo (35%), desemprego (29,8%) e
conflitos familiares (29,1%). Quanto ao vínculo familiar, 51,9% dos moradores de rua
entrevistados no país têm algum parente na cidade em que moram, contudo, 38,9% deles não
mantêm qualquer vínculo com a família (BRASIL, 2008).
No que se refere ao trabalho e à renda, segundo o censo, grande parte desses sujeitos
(70,9%) exerce alguma atividade remunerada, destacando-se as atividades de caráter
informal, tais como a cata de materiais recicláveis, o serviço de flanelinha, a construção civil,
os serviços de limpeza e de carregamento (BRASIL, 2008).
Quanto ao tempo de permanência em situação de rua, 48,8% dessa população estava
há mais de dois anos dormindo nas ruas ou em serviços de acolhimento. Em relação à
procedência, os dados apontaram uma população predominantemente proveniente das áreas
urbanas (72%), sendo uma parte significativa originária do mesmo local no qual se encontrava
(45,8%) ou de locais próximos. O comportamento que se convencionou chamar de
“trecheiro”, ou seja, com deslocamentos frequentes entre várias cidades, apareceu em apenas
10% da população em situação de rua pesquisada.
As informações apresentadas pela pesquisa fornecem subsídios importantes para se
pensar como a PNAS vem atendendo esse universo populacional. À medida que se constata
tamanha diversidade, o esforço precisa contemplar, nas diversas estratégias utilizadas, a
garantia dessas peculiaridades.
Importante frisar, também, que essa pesquisa apresenta dados quantitativos, sendo
necessária e extremamente importante a realização de estudos qualitativos, nos quais a PSR
possa expressar suas vivências, estratégias e sentidos sobre as ruas.
Com essas primeiras informações, a população de rua passa a existir e a compor a cena
para as estratégias políticas de governo. A partir de maio de 2008, passa a existir uma Política
Nacional para Inclusão da População em Situação de Rua (PNPR), como forma de orientar a
construção e a execução de políticas públicas voltadas a esse segmento da sociedade,
historicamente à margem das prioridades dos poderes públicos.
Após dois anos da instituição dessa política, em novembro de 2010, a Secretaria
Nacional de Assistência Social, em conjunto com a Secretaria Nacional de Renda e
Cidadania, publicou uma Instrução Operacional que orienta os municípios para a inclusão de

pessoas em situação de rua no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal
(CadÚnico), já em consonância com a orientação da PNPR.
Eixos importantes dessa política são a responsabilização do Estado pela execução e
destinação de recursos e a superação da visão histórica que limita o atendimento da população
à assistência social, tendo a intersetorialidade como alavanca para a implementação de outras
políticas sociais necessárias: saúde e educação, trabalho e habitação, justiça e segurança
pública, alimentação, cultura, esporte e lazer.
É importante reconhecer a incompletude da ação institucional e a interdependência
entre as políticas para se assegurar o atendimento integral das pessoas em situação
de rua, para além das garantias da assistência social. Desse modo, aponta-se a
necessidade do trabalho em rede que pressupõe uma atuação integrada, por meio de
ofertas que, articuladas, poderão conduzir a respostas mais efetivas, tendo em vista a
complexidade das situações de riscos e violações de direitos vivenciadas pela
população em situação de rua (BRASIL, 2011, p.10).

Dessa forma, fica clara a visão da política pública que reconhece, na atenção à PSR, a
complexidade e a necessidade de requer o envolvimento de várias áreas, como educação,
saúde, habitação, cultura, trabalho e emprego, além da assistência social. Assim, o tratamento
da questão deve ser multiprofissional e intersetorial.
Em consonância com a PNPR, foi lançado, também, o Programa Nacional dos Direitos
Humanos, no dia 21 de dezembro de 2009 (BRASIL, 2010), que contempla a PSR em
dezenove ações programáticas distintas, distribuídas, predominantemente, em quatro dos seis
eixos temáticos. Propõem políticas nacionais de geração de emprego e renda; enfrentamento
ao preconceito; garantia de registro civil; garantia de albergues e abrigos adequados; garantia
de acesso a serviços de saúde e a atendimento médico; garantia de criação de centros de
referência; garantia de criação de programas de reinserção; garantia de proteção contra abusos
e exploração sexual; garantia de campanhas de prevenção à violência contra esse segmento;
capacitação de policiais para o atendimento cidadão e não violento em relação à população de
rua; punição para policiais que cometam violência contra a população em situação de rua.
Retornando à PNPR, são cinco os seus princípios:
I. Promoção e garantia da cidadania e dos direitos humanos;
II. Respeito à dignidade do ser humano, sujeito de direitos civis, políticos, sociais,
econômicos e culturais;
III. Direito ao usufruto, permanência, acolhida e inserção na cidade;
IV. Erradicação de estigmas negativos e preconceitos sociais que produzam ou
estimulem novas formas de discriminação e marginalização, seja pela ação, seja pela
omissão; e valorização da diferença entre pessoas, qualquer que seja a origem, raça,
idade, condição social, nacionalidade, gênero, orientação sexual, origem étnica ou
social, atuação profissional, religião, e situação migratória;

V. Supressão de todo e qualquer ato violento e ação vexatória, inclusive os estigmas
negativos e preconceitos sociais em relação à população em situação de rua.
(BRASIL, 2010, p. 12).

Diante de tais desafios, uma série de ações estratégicas foi definida como agenda
mínima necessária no processo de implementação da política. Essas ações foram organizadas
nas seguintes áreas de intervenção: Direitos Humanos; Segurança Pública e Justiça; Trabalho
e Emprego; Desenvolvimento Urbano e Habitação; Assistência Social; Educação; Segurança
Alimentar e Nutricional; Saúde; e Cultura.
Todas as ações elaboradas para cada uma dessas áreas estão intrinsecamente
relacionadas. Contudo, como a proposta deste estudo está direcionada à relação entre pessoas
em situação de rua e à rede de serviços de assistência social, destacaremos, especificamente,
tais ações.
1. Estruturação da rede de acolhida, de acordo com a heterogeneidade e diversidade
da população em situação de rua, reordenando práticas homogeneizadoras,
massificadoras e segregacionistas na oferta dos serviços, especialmente os
albergues;
2. Produção, sistematização de informações, indicadores e índices territorializados
das situações de vulnerabilidade e risco pessoal e social acerca da população em
situação de rua;
3. Inclusão de pessoas em situação de rua no Cadastro Único do Governo Federal
para subsidiar a elaboração e implementação de políticas públicas sociais;
4. Assegurar a inclusão de crianças e adolescentes em situação de trabalho na rua no
Programa de Erradicação do Trabalho Infantil;
5. Inclusão de pessoas em situação de rua no Benefício de Prestação Continuada e
no Programa Bolsa Família, na forma a ser definida;
6. Conferir incentivos especiais para a frequência escolar das pessoas inseridas nos
equipamentos da Assistência Social, em parceria com o Ministério da Educação;
7. Promoção de novas oportunidades de trabalho ou inclusão produtiva em
articulação com as políticas públicas de geração de renda para pessoas em
vulnerabilidade social (BRASIL, 2010, p. 16-17).

A situação de rua é repleta de especificidades, sendo necessárias intervenções
diferenciadas para que as políticas sejam efetivas. A condição de vida nas ruas já é a denúncia
clara e inequívoca da necessidade de ações que levem em conta essa trajetória de
rompimentos e perdas e que, ao mesmo tempo, reconheçam o protagonismo das pessoas.
O quadro apresentado a seguir resume os principais marcos da implementação dessa
política.
Quadro 01 – Principais marcos da efetivação de direitos da PSR.

ANO

INSTRUMENTO

PRINCIPAIS CONQUISTAS

1988

Constituição
Federal

Todos são iguais perante a lei,(art. 5°).

1993

Loas

Regulamentação da Loas em dezembro de 1993,
como política social pública.

2004

PNAS –
NOB/SUAS

Reconheceu a atenção à população em situação de
rua, no âmbito do Suas.

2005

Norma Operacional
Básica

NOBSUAS/2005

2006

Decreto de 25 de
outubro de 2006

Instituiu o Grupo de Trabalho Interministerial
(GTI), com a finalidade de elaborar estudos e
apresentar propostas de políticas públicas para a
inclusão social da população em situação de rua.

2007/2008

I Pesquisa Nacional
sobre a PSR

O MDS realizou uma Pesquisa Nacional sobre a
PSR, buscando identificar o perfil nacional dessa
população.

2008

Política para a PSR

A PSR passa a ter uma Política Nacional para
Inclusão da População em Situação de Rua (PNPR).

2009

Programa Nacional
dos Direitos
Humanos

Em consonância com a PNPR, foi lançado o
Programa Nacional dos Direitos Humanos, que
contempla a PSR em dezenove ações programáticas
distintas, distribuídas, predominantemente, em
quatro dos seis eixos temáticos.

2009

Resolução do
CNAS

Resolução do Conselho Nacional de Assistência
Social n° 109, de 11 de novembro de 2009, que
tipifica os serviços socioassistenciais em âmbito
nacional.

2010

Inclusão no
CadÚnico

Inclusão de PSR no Cadastro Único para Programas
Sociais do Governo Federal (CadÚnico).

2011

Cartilha e
Orientações
Técnicas

Publicação da Cartilha e das Orientações Técnicas
sobre a Unidade e o Serviço.

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

Essas conquistas resultaram na consolidação de uma ampla rede de proteção, de
assistência social e, também, na universalização do acesso aos serviços.

3.3 A População em Situação de Rua (PSR)

Conforme já apresentado, a PNPR define a PSR como “um grupo populacional
heterogêneo” (BRASIL, 2009, p. 9). Apesar dessa definição expressa, a multiplicidade de
condições pessoais, a diversidade de soluções dadas à subsistência e à moradia, as diferenças
de tempo em que vínculos familiares se dissolvem e em que novas formas de socialização se
consolidam são alguns dos inúmeros fatores que dificultam a formulação de conceitos
unidimensionais a respeito da PSR (BRASIL, 2011).
A aprovação da Resolução nº 109, de 11 de novembro de 2009, representou um
avanço significativo para a concretização da oferta de ações à PSR no Suas, na medida em
que efetivou a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. A tipificação estabeleceu
parâmetros para a oferta de serviços socioassistenciais da PSE de média e de alta
complexidade direcionados a diversos públicos, dentre os quais a PSR, conforme
detalhamento apresentado no quadro 02, abaixo:
Quadro 02 – Serviços socioassistenciais da PSE para população de rua.

PSE DE MÉDIA COMPLEXIDADE
 Serviço
Especializado
para
Pessoas em Situação de Rua
(ofertado pelo Centro POP);
 Serviço
Especializado
em
Abordagem Social (SEAS).

PSE DE ALTA COMPLEXIDADE
 Serviço
de
Acolhimento
Institucional (para indivíduos e
famílias em situação de rua);
 Serviço de Acolhimento em
República (para pessoas em
processo de saída das ruas).

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

O referido documento tipificou o Centro POP, unidade prevista no art. 7º do Decreto
nº 7.053, de 23 de Dezembro de 2009. Descreveremos, a seguir, esse serviço, com o qual
realizamos articulações neste estudo.

3.4 O Centro POP
O Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro
POP) constitui-se em uma unidade de referência da PSE de média complexidade, de caráter
público estatal, com papel importante no alcance dos objetivos da PNPR. As ações
desenvolvidas pelo Centro POP devem integrar-se às demais ações da política de assistência
social, dos órgãos de defesa de direitos e das demais políticas públicas, tais como saúde,

educação, previdência social, trabalho e renda, moradia, cultura, esporte, lazer e segurança
alimentar e nutricional. Essas políticas devem compor um conjunto de ações públicas de
promoção de direitos, que possam conduzir a impactos mais efetivos no fortalecimento da
autonomia e das potencialidades dessa população, visando à construção de novas trajetórias
de vida (BRASIL, 2011).
Cabe ao órgão gestor territorial o planejamento e a implementação do Centro POP. A
implantação da unidade deve ser realizada através de uma elaboração diagnóstica
socioterritorial que possa identificar as áreas de maior concentração dessa população. Deve
ser implantado em lugares de maior acesso a essa população.
Além do serviço especializado para pessoas em situação de rua, a unidade poderá
ofertar, também, o Seas, conforme o planejamento do órgão gestor do local.
O Centro POP pode ser acessado de forma espontânea pela PSR e/ou através de
encaminhamento do Seas, por outros serviços da assistência social ou de outra política pública
e por órgãos do sistema judiciário.
Na atenção ofertada no Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua,
devem ser proporcionadas vivências que favoreçam o alcance da autonomia, estimulando,
além disso, a mobilização e a participação social dos usuários. Nessa perspectiva, o serviço
deve oportunizar espaços e atividades, que possam, efetivamente, contribuir para o convívio
grupal, social e para o desenvolvimento de relações de solidariedade, de afetividade e de
respeito (BRASIL, 2011).
No Centro POP, deve ser ofertado trabalho técnico para análise das demandas dos
usuários, orientação individual e grupal, bem como encaminhamentos para outros serviços
socioassistenciais e para as demais políticas públicas que possam contribuir para a construção
da autonomia, da inserção social e da proteção às situações de violência.
Em conformidade com a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais,
constituem público desse serviço: jovens, adultos, idosos e famílias que utilizam as ruas como
espaço de moradia e/ou sobrevivência (BRASIL, 2011). Destaca-se que crianças e
adolescentes podem ser atendidos pelo Centro POP somente quando estiverem em situação de
rua acompanhados de familiar ou pessoa responsável.
As ações desenvolvidas no âmbito do Serviço Especializado para Pessoas em Situação
de Rua devem ser orientadas, dentre outros, pelos seguintes objetivos (BRASIL, 2011):
a) possibilitar condições de acolhida na rede socioassistencial;
b) contribuir para a construção ou reconstrução de novos projetos de vida,
respeitando as escolhas dos usuários e as especificidades do atendimento;

c) contribuir para restaurar e preservar a integridade e a autonomia da população em
situação de rua;
d) promover ações para a reinserção familiar e/ou comunitária.
Em Maceió, há dois Centros POP: um localizado no bairro do Jaraguá e outro no
bairro do Farol. Oferecem aos usuários um lanche “reforçado”3, no horário da manhã, e outro
no horário da tarde. Funcionam de segunda-feira a sexta-feira, nos dias úteis, no horário das
08h às 17h, com um intervalo de uma hora para almoço dos funcionários.
No serviço, os usuários podem, também, tomar banho, lavar seus pertences e, caso
queiram, deixar seus documentos pessoais arquivados/guardados. Atualmente, as equipes
técnicas dos Centros POP estão divididas, territorialmente, por Regiões Administrativas (RA),
da seguinte forma:
Quadro 03 – Divisão territorial das equipes técnicas dos Centros POP de Maceió/AL (2018).

UNIDADE

ÁREA DE ABRANGÊNCIA

Centro POP I

RA I – Jaraguá / Jatiúca / Mangabeiras / Poço / Ponta Verde / Ponta
da Terra / Pajuçara
RA V – Jacintinho / Feitosa / Barro Duro / São Jorge / Serraria /
Reginaldo
RA VIII – Ipioca / Pescaria / Guaxuma / Garça Torta / Jacarecica /
Cruz das Almas
RA IV – Bom Parto / Bebedouro / Rio Novo / Chã Nova / Chã da
Jaqueira / Chã de Bebedouro / Fernão Velho / Mutange / Santa
Amélia

Centro POP II

RA II – Vergel / Trapiche / Levada / Ponta Grossa / Prado / Pontal /
Dique Estrada / Centro
RA III – Jardim Petrópolis / Canaã / Farol / Gruta de Lourdes / Ouro
Preto / Pinheiro / Pitanguinha / Santo Amaro
RA VI – Benedito Bentes / Antares
RA VII – Cidade Universitária / Clima Bom / Santa Lúcia / Santos
Dumont / Tabuleiro / Village Campestre

Fonte: Plano Intersetorial de Monitoramento e Acompanhamento da Política Municipal de
Atendimento à População em Situação de Rua em Maceió (2018-2020).

3

O cardápio deste lance é bem diverso, mas geralmente é servido uma proteína que pode ser acompanhada de:

raízes, carboidratos, etc.

Os Centros POP possuem equipe interdisciplinar, composta por assistentes sociais e
psicólogos, que são responsáveis pelo atendimento técnico, pelo encaminhamento e pelo
acompanhamento
acompanhar/realizar

dos

usuários.

oficinas,

Algumas

palestras,

rodas

responsabilidades
de

conversa;

da

equipe

organizar

são:

eventos

educativos/recreativos nas datas festivas, tais como Natal e Páscoa; trabalhos em grupo.
Existe, também, o coordenador, que é responsável por todo o funcionamento do Centro POP.
Fazem parte da equipe, também, profissionais da área administrativa e de apoio, como
os auxiliares de serviços gerais, os auxiliares de cozinha e os educadores sociais. Estes
últimos são responsáveis por desenvolver atividades diversas, tais como sessões de filmes,
atividades recreativas, jogos etc.
O vínculo de trabalho dos profissionais que lá atuam é diverso, sendo eles servidores
efetivos vinculados à Prefeitura Municipal de Maceió ou funcionários contratados por
empresas que prestam serviço à prefeitura, além dos contratados no processo seletivo feito
pela Semas.
O Centro POP 1 atende, em média, 30 usuários por turno. Já o POP 2 atende, em
média, 20. Geralmente, o horário da manhã é o mais concorrido, atingindo a capacidade
máxima logo na primeira hora de funcionamento. Na chegada ao serviço, o usuário deve
procurar a recepção e identificar-se. Se for um novo usuário, ele deverá aguardar o
atendimento do técnico responsável. Em seguida, deve apresentar-se aos guardas municipais
que fazem a revista nos pertences e no usuário, com um detector de metais. Os pertences
ficam guardados em armários na entrada. A segunda-feira é um dos dias mais movimentados,
por ser o primeiro dia útil após o fim de semana, quando o órgão está fechado e, geralmente, é
o dia em que os usuários estão mais agitados, provavelmente em virtude dos acontecimentos
do fim de semana, tais como o uso excessivo de drogas lícitas e ilícitas, a fome, a falta de
higiene, entre outras várias situações.
A estrutura física é composta por salas que são organizadas de acordo com a
necessidade de cada serviço. O Centro POP 2 tem muita dificuldade em relação ao espaço
físico, pois é um prédio menor e com pouca iluminação natural. O Centro POP 1 é mais
arejado, fica localizado em frente à Praia da Avenida, também num prédio antigo, que
apresenta problemas estruturais.
Os usuários geralmente procuram o serviço devido à necessidade de alimentação e de
banho. Para a higienização, são disponibilizados sabonete, pasta de dente e desodorante (em
virtude da quantidade, colocado na mão do usuário para que ele possa passar no corpo). Caso
queiram, podem solicitar atendimento dos técnicos. Concluída a refeição, poucos usuários

permanecem no prédio. Geralmente, a refeição da manhã é servida às 10h; a da tarde, às 14h.
Quando são realizadas atividades pela equipe técnica e/ou pelos educadores sociais, elas
acontecem antes da refeição ser servida, visando atingir o maior número de participantes.
Uma grande demanda é a necessidade de regularização da documentação pessoal, pois muitos
usuários perdem-na e ficam impossibilitados de acessar outros benefícios. Quando isso
ocorre, eles são encaminhados à Defensoria Pública. O público que frequenta o centro é
majoritariamente masculino.
A PSR é contemplada com o rol dos benefícios socioassistenciais que o governo
federal oferta, dentre eles o PBF (Programa Bolsa Família). A primeira porta de acesso a
todos os benefícios ofertados é a inserção no Cadastro Único. Caso seja aprovado na
avaliação socioeconômica, o usuário passa a receber uma quantia de aproximadamente R$
89,00 (oitenta e nove reais) por mês, caso não tenha dependentes. Se houver dependentes, há
um acréscimo nesse valor. No Centro POP 1, há uma profissional do CadÚnico que fica
responsável pelo cadastro, para o qual são necessários documentos pessoais como o CPF
(Cadastro de Pessoa Física) e o RG (Registro Geral).
Existem regras de convivência no serviço: não é permitido usar nenhum tipo de droga
lícita ou ilícita no ambiente; não é possível entrar no equipamento com resquícios do uso de
drogas; não é permitido portar nenhum tipo de arma, nem instrumentos que possam machucar
alguém; também não são permitidas discussões entre os usuários. Além disso, há a
necessidade do zelo com os equipamentos, móveis e utensílios; bem como do respeito aos
profissionais que compõem as equipes. Caso o usuário infrinja alguma regra, ele poderá sofrer
sanções, que vão desde advertências e suspensões até o desligamento definitivo, impedindo-o
de acessar o serviço. As medidas disciplinares são válidas para os dois Centros POP, ou seja,
se o usuário for suspenso, ele não poderá frequentar nenhum dos dois serviços. A aplicação
dessas medidas disciplinares é realizada pelo profissional que acompanhar a situação
conflituosa. Na maioria dos casos, trata-se de momentos tensos, pois o usuário não recebe
bem essa punição, uma vez que ficar impedido de frequentar o Centro POP implica ter que
encontrar outras estratégias para ter acesso a alimentação e banho, por exemplo.
Dias antes da realização das entrevistas no Centro POP 1, havia ocorrido uma briga
entre um grupo de usuários e um guarda municipal que tentou conter a situação. Um usuário
não gostou de uma decisão tomada internamente e o guarda tentou acalmá-lo, pois ele estava
agredindo verbalmente os funcionários. Este não gostou e agrediu fisicamente o guarda, que
utilizou seus equipamentos de trabalho para contê-lo. Uma parte dos demais usuários que se
encontravam no local solidarizou-se com o usuário e também entrou na briga, criando um

momento muito tenso. Conto essa história com base no depoimento dos funcionários e de dois
participantes deste estudo, que estavam no serviço no dia da briga. Ilustro esse acontecimento,
para sinalizar que situações conflituosas ocorrem no decorrer do expediente.
Pudemos observar pelos retatos da situação citada acima, que esta pode possuir
diferentes versões. O Centro POP 1 ficou fechado por aproximadamente uma semana, até que
a rotina se regularizasse. Os funcionários reclamaram da falta de segurança, enquanto os
usuários disseram que a ação do guarda foi abusiva.
As entrevistas foram realizadas nos dois Centros POP, nas salas de atendimento, com
estrutura física satisfatória para o momento. No capítulo que versa sobre a metodologia,
falaremos, com mais detalhes, sobre o momento.
3.5 A política de assistência social para a PSR em Maceió
Maceió é a capital do estado de Alagoas, ocupando uma área de 510,655 km2. É o
município mais populoso do estado e integra, com outros dez municípios alagoanos, a Região
Metropolitana de Maceió 4 . De acordo com o anuário estatístico, a população, em 2018,
estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), era de 1.012.382
habitantes5.
A área do município está dividida em 08 Regiões Administrativas (RA),
compreendendo os 50 bairros, conforme o quadro 04, apresentado a seguir:
Quadro 04 – Divisão dos bairros de Maceió por Regiões Administrativas (2018)

4
5

RA

BAIRROS DE ABRANGÊNCIA

I

Poço, Jaraguá, Ponta da Terra, Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca,
Mangabeiras.

II

Centro, Pontal da Barra, Trapiche da Barra, Prado, Ponta Grossa,
Levada, Vergel do Lago.

III

Farol, Pitanguinha, Pinheiro, Gruta de Lourdes, Canaã, Santo
Amaro, Jardim Petrópolis, Ouro Preto.

Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Macei%C3%B3. Acesso em: 22 mar. 2019.
Informações do site oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Disponível em:
https://cidades.ibge.gov.br/ brasil/al/maceio/panorama. Acesso em: 22 mar. 2019.

IV

Bebedouro, Chã de Bebedouro, Chã de Jaqueira, Petrópolis, Santa
Amélia, Fernão Velho, Rio Novo, Bom Parto, Mutange.

V

Jacintinho, Feitosa, Barro Duro, Serraria, São Jorge.

VI

Benedito Bentes, Antares.

VII

Santos Dumont, Clima Bom, Cidade Universitária, Santa Lúcia,
Tabuleiro do Martins.

VIII

Jacarecica, Guaxuma, Garça Torta, Cruz das Almas, Riacho
Doce, Pescaria, Ipioca.
Fonte: Prefeitura Municipal de Maceió6.

Maceió possui um Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da
Política Municipal para População em Situação de Rua. Esse comitê foi instituído através do
Decreto nº 7.199, de 11 de novembro de 2010, com as seguintes atribuições:
a) sugerir ações, projetos e programas para a População em Situação de Rua;
b) acompanhar e monitorar o desenvolvimento da política municipal para a
População em Situação de Rua;
c) propor medidas que assegurem a articulação intersetorial das políticas públicas
municipais para o atendimento da População em Situação de Rua;
d) deliberar sobre a forma de condução dos seus trabalhos.
A criação do Comitê Intersetorial está ligada à trágica história de violência contra a
PSR de Alagoas, durante os anos de 2010 e 2012. Após a constatação de uma sequência de
homicídios contra pessoas em situação de rua, da veiculação de diversas reportagens, de
denúncias e da pressão popular dos movimentos sociais, o município mobilizou-se para
buscar respostas e desenvolver estratégias e serviços voltados para a PSR. O comitê está na
segunda composição, e seus atuais membros foram empossados em 2013.

3.5.1 Caracterização dos serviços ofertados à PSR em Maceió
Conforme descrito no Plano Intersetorial de Monitoramento e Acompanhamento da
Política Municipal de Atendimento à População em Situação de Rua em Maceió (2018 –
2020), os serviços ofertados à PSR, em Maceió, são:

6

Disponível em: http://www.maceio.al.gov.br/wp-content/uploads/2017/10/pdf/2017/10/ANEXO-14-

REGIÕES-ADMINISTRATIVAS.pdf. Acesso em: 24 mar. 2019.

Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas): esse serviço já foi
mencionado no decorrer deste capítulo, mas faz-se necessário complementar algumas
informações sobre a composição da equipe de profissionais e a divisão do território de
atuação. É composto por uma equipe técnica interdisciplinar, formada por assistente social e
psicólogo. Possui, também, profissionais de apoio como educadores sociais, motoristas etc.
Atualmente, as equipes do Seas estão territorialmente divididas da seguinte forma:
Quadro 05 – Divisão territorial das equipes Seas/Semas (2018)

UNIDADE CREAS

TERRITÓRIO DE
ABRANGÊNCIA

ENDEREÇO/CONTATO

Creas Jatiúca

Ipioca
Pescaria
Riacho Doce
Garça Torta
Guaxuma
Jacarecica
São Jorge
Cruz das Almas
Ponta da Terra
Serraria
Jatiúca
Mangabeiras
Pajuçara
Jaraguá
Barro Duro
Ponta Verde
Grota do Aterro

Rua Deputado Luiz
Gonzaga Coutinho, 210,
Jatiúca
(82) 3315-1605

CREAS Poço

Feitosa
Jacintinho
Poço
Vale do Reginaldo (todo)

Praça Raul Ramos, S/N,
Poço
(82) 3327-3239

CREAS Orla Lagunar

Bom Parto
Centro
Levada
Mutange
Pinheiro
Pitanguinha
Pontal da Barra
Prado
Farol
Trapiche
Vergel do Lago
Grotas Moenda e Vale da Amizade

Rua Santos Pacheco, 342,
Prado
(82) 3221-2309

CREAS Santa Lúcia

Cidade Universitária
Tabuleiro dos Martins
Santa Lúcia
Jardim Petrópolis
Canaã
Gruta
Ouro Preto
Santo Amaro
Grota Cycosa

Avenida Belmiro Amorim,
346, Santa Lúcia
(82) 3315-6428

CREAS Benedito
Bentes

Benedito Bentes
Antares
Conjunto Aprígio Vilela

Conjunto Cidade Sorriso II,
Rua P, Quadra E, Lote 07,
Benedito Bentes
(82) 3315-5919

Fonte: Plano Intersetorial de Monitoramento e Acompanhamento da Política Municipal de
Atendimento à População em Situação de Rua em Maceió (2018-2020).

Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro POP): em
virtude do objeto deste estudo, esse serviço também já foi descrito no decorrer do capítulo,
sendo necessário, apenas, complementar algumas informações sobre a localidade de cada
unidade do Centro POP.
1 – Centro POP I (Endereço: Av.da Paz, 994, Jaraguá / Telefone: (82) 3357-7029)
2 – Centro POP II (Endereço: Av. Tomás Espíndola, 86, Farol / Tel.: (82) 3315-1193

Casa de Passagem Professor Manoel Coelho Neto: oferece serviço de acolhimento
temporário e especializado para pessoas em situação de rua, usuários que utilizam as ruas
como espaço de moradia e/ou sobrevivência. Funciona 24 (vinte e quatro) horas por dia, 07
(sete) dias por semana, de forma ininterrupta. O período de permanência do usuário não é
rígido, dependendo de cada caso. Sua capacidade média é de 50 (cinquenta) pessoas. Sua

estrutura física é bem precária: trata-se de um prédio fechado, escuro, sem muitas
possibilidades de receber esse público. No entanto, a demanda é grande, e sua capacidade não
a comporta.
Endereço: Av. Comendador Leão, S/N, Poço - Telefone: (82) 3315-3003

Casa de Passagem Familiar: oferece serviço de acolhimento temporário e
especializado para famílias em situação de rua que utilizam as ruas como espaço de moradia
e/ou sobrevivência. Para ingressar nesse equipamento, é necessário ser uma família (pai, mãe
e criança. A mulher gestante também pode frequentar, desde que comprove a gravidez). Foi
inaugurado em janeiro de 2017. Funciona 24 horas, todos os dias da semana.
Endereço: Ladeira Eustáquio Gomes de Melo, 87, Centro. Telefone: (82) 3221-1964

Centro de Atendimento Socioassistencial (Casa): No Casa, funciona a
Coordenação Geral de Benefícios Assistenciais, visando a atender famílias e indivíduos em
situação de vulnerabilidade social temporária, situação de calamidade pública. Entre os
serviços ofertados, estão: cartão de passageiro especial (incluindo a perícia médica); cartão do
idoso; benefício de prestação continuada (BPC); auxílio moradia; auxílio funerário; plantão
social. Geralmente, encaminhamos os usuários para os seguintes benefícios: cesta básica,
auxílio moradia e passagem para outros destinos. Os encaminhamentos são acompanhados de
um relatório técnico que justifica a demanda. Um grande impasse para a concessão desses
benefícios são as pendências documentais.
Endereço: Avenida Amazonas, 90, Prado
Horário de funcionamento: 8h às 14h / Telefone: (82) 3315-7018

Cadastro Único: o Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal
(CadÚnico) é um instrumental para identificação e caracterização de famílias e indivíduos de
baixa renda. A PSR tem prioridade na inserção do cadastro. O ministério disponibiliza um
formulário que deve ser preenchido para cada componente da família em situação de rua,
viabilizando, assim, o reconhecimento das características e demandas específicas. Conforme
exposto, a inclusão da profissional no Centro POP 1 facilitou muito o acesso do usuário ao
benefício do Bolsa Família, permanecendo, no entanto, a dificuldade de adesão em virtude da
falta de documentação.
Endereço: Rua Barão de Atalaia, 753, Poço
Horário de funcionamento: 8h às 14h / Telefone: (82) 98882-8227

Consultório na Rua: vinculado à Secretaria Municipal de Saúde (SMS), é composto
por uma equipe multidisciplinar e lida com diferentes problemas e necessidades de saúde da
PSR. Desempenha suas atividades in loco, de forma itinerante e compartilhada, integrada às
Unidades Básicas de Saúde (UBS) e, quando necessário, também com as equipes dos Centros
de Atenção Psicossocial (Caps), dos serviços de Urgência e Emergência e de outros pontos de
atenção, de acordo com a necessidade do usuário (Portaria MS nº 122/2012).


Localização das equipes:

Equipe de Consultório na Rua – Jaraguá/Orla (noite);
Equipe de Consultório na Rua – Vergel (tarde);
Equipe de Consultório na Rua – Centro (tarde / noite);
Equipe de Consultório na Rua – Benedito Bentes (tarde/ noite);
Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas – Caps AD III Dr. Everaldo
Moreira: também vinculado à SMS, funciona 24 horas por dia e é um serviço específico para
o cuidado e a atenção integral e continuada às pessoas com necessidades em decorrência do
uso de álcool, crack e outras drogas. Seu público específico são os adultos, mas também é
possível atender crianças e adolescentes, desde que observadas as orientações do Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA).
Endereço: Rua Virgínio de Campos, S/N, Farol / Telefones (82) 3315-3075

Grupamento de Atenção à População em Situação de Rua (GPOP): criado no
âmbito da Guarda Municipal de Maceió, por meio da Portaria nº 14, de 16 de dezembro de
2010, tem como objetivo executar, de forma complementar, ações e atividades orientadoras e
preventivas de segurança comunitária para tal segmento social. Composto por 15 (quinze)
guardas municipais sob a coordenação de um inspetor. Atua 24 horas.

3.5.2 A PSR em Maceió
Maceió não possui um mapeamento da PSR. Para caracterizá-la, utilizamos as
informações disponibilizadas pela Semas, através do Plano Intersetorial de Monitoramento e
Acompanhamento da Política Municipal de Atendimento à População em Situação de Rua.
Tivemos acesso aos planos dos períodos de 2015-2017 e 2018-2020. Neste estudo, optamos
por utilizar as informações oficiais disponibilizadas nesses planos. O Centro POP e o Seas
produzem, mensalmente, relatórios com as informações sobre o perfil da PSR atendida.

A equipe do SEAS elaborou, de janeiro a dezembro de 2017, o levantamento
quantitativo das pessoas abordadas na rua sem residência, conforme o disposto no quadro 06,
abaixo:
Quadro 06 – Pessoas abordadas na rua, sem residência, pela equipe Seas/Semas (2017)

MÊS

MASC.

FEM.

TOTAL

Janeiro

31

21

52

Fevereiro

33

28

61

Março

50

32

82

Abril

29

14

43

Maio

44

21

65

Junho

39

20

59

Julho

29

13

42

Agosto

35

20

55

Setembro

40

10

50

Outubro

27

12

39

Novembro

41

28

69

Dezembro

33

20

53

Total

431

239

670

Fonte: Plano Intersetorial de Monitoramento e Acompanhamento da Política Municipal de
Atendimento à População em Situação de Rua em Maceió (2018-2020).

O quantitativo dos usuários atendidos nos Centros POP, em 2014, é apresentado nos
gráficos 01 e 02, com os dados distribuídos por faixa etária e por sexo.
Gráfico 01 – Usuários atendidos no Centro POP I (2014)

80
71

Masculino

70

Feminino

60
50
50
43
40

35

30
20

19 19

20

15
7

10

1
0
0 a 12 anos

13 a 17 anos 18 a 39 anos 40 a 59 anos

60 ou mais

Fonte: CGGIRT e Centro POPs, 2014 – Semas
Gráfico 02 – Usuários atendidos no Centro POP II (2014)
120

100

94

Masculino

97

Feminino

80

60
47
40
24
15

20
3

5

4

1

4

0
0 a 12 anos 13 a 17 anos 18 a 39 anos 40 a 59 anos

60 ou mais

Fonte: CGGIRT e Centro POPs, 2014 - Semas

A maior incidência está na faixa etária compreendida entre 18 a 39 anos, informação
compatível com a pesquisa realizada pelo MDS (BRASIL, 2008). Menores de idade também
passaram pelo serviço, apesar de eles não serem o seu público-alvo.

Conforme detalhamos, as políticas públicas direcionadas à PSR vêm avançando no
decorrer dos últimos anos. Aprofundar as discussões/problemáticas que perpassam a PSR é
uma forma de procurar entender as dificuldades vividas por esse público. Uma das formas de
buscar esse conhecimento é através do acesso aos estudos publicados sobre o assunto. No
próximo capítulo, abordaremos tais questões.

4 A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA NA LITERATURA ACADÊMICA

A etapa da revisão da literatura é um processo inerente ao ato de pesquisar. Montuori
(2005) defende que a revisão da literatura pode ser uma oportunidade para pesquisas criativas,
um diálogo com a comunidade científica e com aqueles que fazem parte dela. Portanto, o
revisor é um participante ativo na construção desse diálogo e não meramente um espectador
que visa a reproduzir, da melhor maneira possível, trabalhos e temas relevantes.
A pesquisadora Walker (2015), influenciada pelas ideias de Montuori (2005), também
reflete sobre o processo de revisão da literatura. Para ela, esta etapa pode criar um
conhecimento transformador. Ao realizar uma revisão, a autora busca expor o contexto
relacional dos textos. Logo, monta conexões, explora os padrões e interações relacionais
destes, como se os textos conversassem e debatessem de forma respeitosa entre si. Desse
modo, busca estabelecer um diálogo entre os textos e consigo mesma.
Assim, inspiradas nesses textos, apresentamos, neste capítulo, o caminho que
seguimos para realizar uma revisão dialógica da literatura técnico-científica sobre a PSR,
articulada à política pública de assistência social, balizando reflexões sobre como essa
temática vem sendo discutida no Brasil. Para tal, fomos norteadas pelas produções científicas
acessadas nas bases de dados e em textos sugeridos por especialistas na temática, que
contribuíram indicando produções e complementando nosso estudo.
4.1 Levantamento nas bases de dados
Nossa aproximação inicial com as produções científicas sobre a PSR foi a partir da
pesquisa em bases de dados. Considera-se que as bases de dados não só organizam e
veiculam, como também legitimam as informações que armazenam, funcionando, assim,
como ferramentas midiáticas da ciência (RIBEIRO; MARTINS; LIMA, 2015).
Buscamos as publicações científicas nacionais nas seguintes bases de dados: Scientific
Electronic Library Online (SciELO); Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (Capes) e Google Acadêmico. Esse procedimento possibilitou a
construção de um cenário sobre onde, quando e quais áreas de conhecimento têm produzido
pesquisas sobre população em situação de rua e política pública de assistência social.
Iniciamos a pesquisa com a estratégia de utilizar os descritores "população em
situação de rua" e "assistência social" em todas as bases de dados. Tal fato se justifica, pois a
união dessas terminologias engloba a proposta deste estudo. No entanto, acessando as bases
de dados, foi possível constatar que não era possível usar os mesmos descritores em todas

elas, visto que, ora obtivemos uma quantidade significativa de trabalhos, ora não obtivemos
nenhum resultado (cf. quadro 07). Dessa forma, em cada base de dados, fomos alterando os
descritores e refinando a forma de busca.
No portal da Capes, ao usar os descritores "população em situação de rua" e
"assistência social", obtivemos 15 publicações relacionadas. Após ler os títulos e resumos,
conseguimos identificar que 04 (quatro) estavam ligadas à proposta deste estudo.
No Google Acadêmico, com os mesmos descritores utilizados no portal da Capes, a
pesquisa resultou em 2.150 trabalhos, número bastante significativo. Optamos, então, por
delimitar os critérios de busca e passamos a usar os descritores "modos de vida da população
de rua", "população adulta de rua” e "sistema único de assistência social", identificando 34
estudos. Após a leitura dos títulos e resumos, selecionamos 12 publicações.
No SciELO, iniciamos com os descritores "população em situação de rua" e
"assistência social", e não encontramos nenhuma publicação. Alteramos a busca para o
descritor “população de rua”, resultando em 24 trabalhos. Após a leitura dos títulos e
resumos, foram selecionados 04 deles.
Os critérios utilizados para o refinamento do material acessado foram:
a) temático: produções que abordassem a população adulta em situação de rua e a
Política Pública de Assistência Social;
b) linguístico: estudos publicados em língua portuguesa, porque nosso interesse é
compreender como a temática vem sendo discutida no Brasil;
c) cronológico: não houve delimitação de tempo como critério de busca das
publicações, com o propósito de visualizar como essa temática tem sido discutida
ao longo do tempo;
d) critérios de exclusão: publicações repetidas, não disponibilizadas na íntegra online, trabalhos inseridos em outras políticas públicas, estudos de nível de
graduação (trabalhos de conclusão de curso, relato de estágio etc.) e pesquisas com
outros participantes, tais como crianças e adolescentes.

As exclusões dos trabalhos foram realizadas usando como referência os critérios
definidos acima. As bases de dados foram acessadas nos meses de setembro e outubro de
2017.
Quadro 07 – Panorama geral da revisão da literatura.

BASE DE

DESCRITORES UTILIZADOS

PUBLICAÇÕES

DADOS

Encontradas

Excluídas

Finais

"população em situação de rua" +
"assistência social"

15

11

04

"população em situação de rua" +
"assistência social"

2.150

-----

-----

"modos de vida da população de rua"

09

05

04

"população adulta de rua" + "sistema
único de assistência social"

25

17

08

"população em situação de rua" +
"assistência social"

-----

------

-----

"população de rua"

24

20

04

Capes

Google
Acadêmico

SciELO

TOTAL

20

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

Esse levantamento resultou na seleção de 20 (vinte) artigos, dissertações e teses,
detalhados no quadro 08.
Quadro 08 – Síntese das publicações selecionadas

PUBLICAÇÕES
BASE DE DADOS
Artigos

Dissertações

Teses

Total

Capes

02

02

---

04

Google Acadêmico

02

08

02

12

SciELO

03

01

----

04

TOTAL

07

11

02

20

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

4.2 Resultados: apresentação e discussões

O levantamento inicial possibilitou refletirmos sobre o campo-tema. Essa etapa é uma
imersão nas produções sobre a PSR e a assistência social, constituindo um momento
imprescindível para a definição do foco desta pesquisa.

Para a discussão dos textos, começamos analisando-os com base nos seguintes
aspectos: regiões brasileiras; ano de publicação; área de conhecimento; eixos temáticos. Esse
procedimento possibilitou a construção de um panorama geral dos estudos selecionados.
No quadro 09, as publicações selecionadas estão detalhadas por quantidade de
trabalhos, de acordo com as regiões/estados em que foram produzidas.
Quadro 09 – Distribuição das produções científicas sobre PSR, por localidade.

REGIÕES \
ESTADOS

MG

SP

CE

RN

RS

ES

SC

PR

TOTAL

Sul

--

--

--

--

05

--

02

01

08

Sudeste

02

06

--

--

--

02

--

--

10

Nordeste

--

--

01

01

--

--

--

--

02

Norte

--

--

--

--

--

--

--

--

00

Centro-Oeste

--

--

--

--

--

--

--

--

00

TOTAL

20

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

A distribuição geográfica dos estudos acessados leva-nos a observar uma maior
concentração nas regiões Sul e Sudeste, com destaque para os estados de São Paulo (ROSA;
BRÊTAS, 2015; ANDRADE; COSTA; MARQUETTI, 2014; MATTOS, 2006; SILVA, C.
S., 2012; KASPER, 2006; SERRANO, 2004) e Rio Grande do Sul (PAULA, 2012;
PIZZATO, 2012; GOMES, 2006; ROSARIO, 2015; SILVA, T. L. 2012).
Conforme mencionado no capítulo anterior, a pesquisa realizada pelo MDS (BRASIL,
2008) traçou um perfil da PSR no Brasil. Dentre as informações apresentadas, está o
quantitativo da PSR nas cidades. No quadro 10, logo abaixo, está o detalhamento dessa
informação.
Quadro 10 – Quantitativo da PSR com base na Pesquisa Nacional.

PESQUISA

ANO

QUANTIDADE

Nacional – MDS (71 municípios)

2007/2008

31.922

Belo Horizonte

2005

1.157

Recife

2005

888

Porto Alegre

2008

1.203

São Paulo

2009

13.666

TOTAL

48.836

Fonte: Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua (BRASIL, 2008).

O quadro acima apresenta o somatório do contingente da pesquisa nacional com os
números das pesquisas municipais realizadas em Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte e
Recife. Um outro ponto é que, apesar de as informações do quadro 10 estarem expressas por
cidades (nosso levantamento anterior tomou como referência os estados e as regiões
brasileiras), mantém-se a equivalência entre o número de produções nos locais, pois se
observa um maior contingente da PSR nas regiões Sul e Sudeste.
Uma dificuldade é a defasagem das informações oriundas da pesquisa do MDS, pois
esses dados foram registrados no ano de 2008. No entanto, até o momento, não houve uma
nova pesquisa, de abrangência nacional, que retrate a situação atual dessa população.
Nos anos de 2007/2008, foi realizada, na cidade de Porto Alegre, uma pesquisa
intitulada “Diversidade e Proteção Social: estudos quanti-qualitativos das populações de
afrobrasileiros; coletivos indígenas; crianças, adolescentes e adultos em situação de rua;
remanescentes de quilombos” (GEHLEN, 2008). A pesquisa identificou 1.203 pessoas em
situação de rua, sendo 81,8% do sexo masculino. Uma grande parcela do segmento em
situação de rua está na faixa etária entre 25 e 34 anos (30%). Dessa população, metade é
natural de Porto Alegre ou da região metropolitana (52%); os migrantes de outros municípios
do Rio Grande do Sul são 35%, e os de outros estados são 6,9%.
Dentre os estudos selecionados, dois foram realizados na região Nordeste, um no
estado do Ceará (PINTO, 2015) e outro no estado do Rio Grande do Norte (MATIAS;
FRANCISCHINI, 2010). No que diz respeito ao estado de Alagoas, mais especificamente ao
município de Maceió, local de nossa pesquisa, não foram localizadas produções em nosso
levantamento.
Uma outra forma de observar as 20 (vinte) publicações selecionadas é organizando a
sua distribuição numa linha de tempo, situando a quantidade de produções científicas sobre a
PSR e sobre a assistência social por ano, conforme o quadro 11, abaixo:

Quadro 11 – Distribuição das produções científicas sobre PSR, por ano de publicação.

2004

2006

2007

2009

2012

2013

2014

2015

2016

TOTAL

1

3

1

1

5

1

1

6

1

20

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

As publicações selecionadas compreendem o período entre 2004 e 2016, sendo que os
anos de 2006, 2012 e 2015 concentram um quantitativo mais expressivo. Em 2004, houve a
aprovação da PNAS, na qual foram definidas as bases para o novo modelo de gestão em todo
o território brasileiro. Entretanto, ressaltamos que não delimitamos o tempo nos critérios de
busca das produções.
Na sequência, as áreas de conhecimento dos pesquisadores são analisadas, de acordo
com o quadro 12, que apresenta a quantidade de produções por área.
Quadro 12 – Distribuição das produções científicas sobre PSR, por área de conhecimento.

ÁREA DO CONHECIMENTO

QUANTIDADE DE
PRODUÇÕES

Serviço Social

7

Psicologia

6

Ciências Sociais

2

Enfermagem

2

Sociologia

2

Terapia Ocupacional

1

Total

20

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

Podemos observar que o Serviço Social e a Psicologia são as áreas de conhecimento
que apresentam maior número de publicações sobre PSR e assistência social, sendo também
as categorias profissionais que passam a compor, obrigatoriamente, as equipes, através da
Resolução nº 17 CNAS, de 20 de junho de 2011, que atualiza a NOB-RH/SUAS.
A fim de possibilitar o diálogo com as pesquisas acessadas, analisamos as
aproximações entre elas, sendo possível agrupá-las em eixos temáticos, conforme segue:
a) política de assistência social: implantação, avaliação e críticas;
b) caracterização do fenômeno da PSR;

c) histórias de vida da PSR.
Para essa classificação, foram analisados os resumos e, em alguns casos, o texto
integral das 20 (vinte) produções, para que as temáticas fossem identificadas, sistematizadas e
organizadas. Fundamentados nas publicações pesquisadas, os eixos temáticos podem ser
descritos como:
Eixo Temático 1 – Política de assistência social: implantação, avaliação e críticas:
neste bloco, estão agrupadas as publicações que versam sobre a Política Pública de
Assistência Social destinada à PSR, englobando situações que vão desde a sua implantação
até avaliações e críticas a seu respeito.
Eixo Temático 2 – Caracterização do fenômeno da PSR: neste item, estão inclusas as
publicações que registram os vínculos/origens do fenômeno, bem como as mudanças
ocorridas no mundo que acarretam o crescimento da PSR.
Eixo Temático 3 – Histórias de vida da PSR: neste bloco, estão inclusos os trabalhos
que descrevem a vida da PSR, bem como as estratégias e as táticas desenvolvidas para tornar
a rua um lugar de moradia.
Quadro 13 – Distribuição das produções científicas sobre PSR, por eixo temático.

EIXO TEMÁTICO

1

Política de assistência social:
implantação, avaliação e críticas

2

Caracterização do fenômeno da
PSR

3

Histórias de vida da PSR

QUANT

05

AUTORES
LAMY; OLIVEIRA (2013); LOPES;
PINHEIRO; HECKERT (2016);
PAULA (2012); PIZZATO (2012);
SARMENTO (2015)

03

MATIAS; FRANCISCHINI (2010);
SILVA, C. L. da (2012); PINTO (2015)

12

ANDRADE; COSTA; MARQUETTI
(2014); ROSA; BRÊTAS (2015);
CARAVACA-MORERA; PADILHA
(2015); COSTA; MESQUITA;
CAMPOS (2015); GOMES (2006);
KASPER (2006); KUNZ; HECKERT;
CARVALHO (2014); MATTOS (2006);
MENDES (2007); ROSARIO (2015);
SERRANO (2004); SILVA, T. L. da
(2012).

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

4.3 Dialogia com a literatura
Baseadas na proposta de diálogo criado por Montuori (2005) e Walker (2015),
buscamos aproximar-nos de uma revisão dialógica, desconstruindo as tradicionais revisões da
literatura que apenas reproduzem o conteúdo dos textos. Esse exercício de construção dessa
proposta de trabalho apresentada por esses autores foi significativa para nós e certamente irão
nos acompanhar por todas as nossas pesquisas futuras.
4.3.1 Eixo Temático 01 – Política de assistência social: implantação, avaliação e críticas
Apresentamos, no quadro abaixo, os trabalhos que foram vinculados ao eixo temático
Política de Assistência Social, situando-os quanto à autoria, título, tipo de produção e
objetivos, para uma melhor compreensão dos documentos, seguindo com a discussão deles.
Quadro 14 – Produções científicas do eixo temático 1 – Política de Assistência Social:
implantação, avaliação e críticas.

AUTORAS
(ES)

TÍTULO DA
PRODUÇÃO

PAULA (2012)

População em Situação
de Rua: como é retratada
pela política social e pela
sociedade e os impactos
na sua participação

PIZZATO
(2012)

“No olho da rua”: o
serviço de atendimento
social de rua em Porto
Alegre – abordagem
social de rua na
sociedade contemporânea

TIPO DE
PRODUÇÃO

Dissertação

Dissertação

OBJETIVOS

Investigar de que forma
a população em situação
de rua é apreendida pela
política social e pela
sociedade, e de que
forma isso impacta em
seu processo de
participação.

Analisar a trajetória do
Serviço ASR, a fim de
contribuir com subsídios
e dar visibilidade ao
processo de abordagem
social na garantia de
direitos da população
em situação de rua.

LOPES;
PINHEIRO;
HECKERT
(2016)

SARMENTO
(2015)

LAMY;
OLIVEIRA
(2013)

Andarilhos: narrando
histórias, apoiando
políticas públicas para
População em Situação
de Rua

A assistência social à
população em situação de
rua: um estudo na cidade
de Florianópolis/SC

População de rua no
contexto da Política
Pública de Assistência
Social no município de
Curitiba

Artigo

Compartilhar análises
acerca da vida da
população em situação
de rua em Vitória (ES).

Tese

Compreender a
percepção da PSR em
Florianópolis acerca dos
serviços de assistência
social e verificar em que
medida estes serviços
correspondem ao que
está previsto pelo
Decreto nº 7.053/2009.

Artigo

Contextualizar o
trabalho
socioassistencial com a
população adulta em
situação de rua, que
utiliza as vias públicas
como espaços de
moradia e/ou
sobrevivência. São
destacados aspectos de
sua trajetória histórica e
de gestão social no
município de Curitiba.

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

As discussões sobre a implantação, a avaliação e as críticas acerca das políticas sociais
que visam ao enfrentamento da questão social são apresentadas por diversos autores
(PAULA, 2012; PIZZATO, 2012; SARMENTO, 2015; LOPES; PINHEIRO; HECKERT,
2016; LAMY; OLIVEIRA, 2013).
A Constituição Brasileira de 1988 resultou de um amplo conjunto de disputas no
campo social. Instaurou uma ampliação de políticas sociais de responsabilidade do Estado no
atendimento aos direitos dos cidadãos. Nesse sentido, a Loas, a PNAS e o Suas vêm como

resultados do esforço e da luta por uma política pública, democrática e com serviços de
qualidade (PAULA, 2012).
No ano de 2005, ocorreu um intenso processo de regulamentação das ações que
vieram a consolidar um novo modelo de organização e gestão da PNAS, sob as diretrizes do
MDS. Ocorreu também a alteração da LOAS, com a inclusão da obrigatoriedade da
formulação de programas de amparo à população em situação de rua, por meio da Lei nº
11.258, de 30 de dezembro de 2005 (LAMY; OLIVEIRA, 2013).
Em 2009, tem-se como conquista a Política Nacional para Inclusão Social da
População em Situação de Rua. Ela vem articular as políticas sociais, definindo princípios e
diretrizes para o seu atendimento. Cresce, também, o número de estudos e pesquisas sobre a
situação de rua, contribuindo para pôr em pauta discussões a respeito de sua caracterização e
modo de vida, e propondo políticas que realmente contemplem suas necessidades.
Um dos serviços que faz parte dessa gama de ações/projetos, implementados com a
elaboração dessas políticas, é o Serviço de Atendimento Social de Rua (ASR). Em seu estudo,
Pizzato (2012) aponta que o processo de abordagem social de rua é pautado no acolhimento,
na construção de vínculos, na escuta e no respeito à autonomia dos sujeitos. Esse serviço é
importante, principalmente para aquelas pessoas que não apresentam condições físicas ou
mentais (muitas vezes por conta do uso abusivo de substâncias psicoativas) para procurar os
serviços.
Entre os obstáculos/dificuldades que os estudos discutem, estão: a gestão da política
pública de assistência social; a intensificação da integralidade das ações e dos serviços; a
busca da intersetorialidade com as demais políticas públicas praticadas pela administração
municipal; a participação da rede socioassistencial; a descontinuidade das ações por ocasião
de mudanças administrativas em sua condução, bem como retrocessos e retomadas gradativas
(LAMY; OLIVEIRA, 2013; LOPES; PINHEIRO; HECKERT, 2016; SARMENTO, 2015).
Outros pontos de reflexão são discutidos no trabalho de Lopes, Pinheiro e Heckert
(2016), dentre os quais podemos frisar: as políticas fragmentadas nos equipamentos públicos
acessados pela população de rua; as ações do poder público, que pouco dialogam entre si e
com formas de gestão da vida desse segmento populacional. Tais ações são permeadas por
visões moralizadoras de seus modos de existência, alimentadas, em parte, por um grande
desconhecimento das táticas que essa população cria para viver nas ruas.
Além das dificuldades de gestão mencionadas acima, as pesquisas ressaltam a
discriminação social que a PSR recebe de uma forma geral. Os estudos de Pizzato (2012) e de
Paula (2012) abordam essa discussão, mencionando que, muitas vezes, a PSR não é

considerada cidadã, tanto pela sociedade como pelas políticas públicas, inclusive na
assistência social. Uma ação importante que pode ser usada para tentar minimizar tal situação
é a divulgação da política de assistência social por parte do poder público e dos órgãos
representativos. Essa divulgação/conscientização deve ser direcionada também para a PSR.
Conforme aponta Pizzato (2012), em seu trabalho, os participantes mencionam que possuem
pouco ou nenhum conhecimento da política de assistência social, compreendendo-a como
uma ajuda/assistencialismo.
Ainda que tenha sido formulada uma política pública direcionada à população de rua,
existe ainda uma lacuna entre o direito garantido e a sua efetivação, visto que, na prática, há
uma discrepância entre a legislação, os serviços ofertados e as necessidades reais da PSR
(PAULA, 2012; SARMENTO, 2015). Uma alternativa sugerida para buscar ações mais
assertivas, que permitam compreender e analisar os modos de vida da população em situação
de rua, é o diálogo com a própria PSR. Os estudos ressaltam a necessidade de os setores
ligados à problemática da vida na rua adotarem um espaço de debate, acompanhamento e
avaliação das políticas públicas elaboradas pelas esferas estaduais e municipais de governo,
para atender às demandas da população em situação de rua (LOPES; PINHEIRO; HECKERT,
2016; PIZZATO, 2012).
4.3.2 Eixo Temático 02 – Caracterização do fenômeno da PSR
A caracterização do fenômeno da PSR é trazida em um artigo e em duas dissertações,
descritas no quadro 15.
Quadro 15 – Produções científicas do eixo temático 2 – Caracterização do fenômeno PSR.

AUTORAS (ES)

TÍTULO DA
PRODUÇÃO

MATIAS;
FRANCISCHINI
(2010)

Desafios da Etnografia
com Jovens em Situação
de Rua:
A Entrada em Campo

TIPO DE
PRODUÇÃO

OBJETIVOS

Artigo

Relatar o processo de
entrada em campo de
uma pesquisa
etnográfica.

SILVA, C. L. da
(2012)

PINTO (2015)

Estudos sobre População
adulta em situação de
rua: Campo para uma
Comunidade Epistêmica?

Fenômeno População em
Situação de Rua à luz da
questão social:
percursos, vivências e
estratégias em
Maracanaú/CE

Dissertação

Dissertação

Identificar iniciativas de
investigação e produção
de conhecimentos sobre
a população adulta em
situação de rua, como
indicação de uma
comunidade epistêmica
sobre a temática.

Analisar a realidade da
população em situação
de rua nos diversos
espaços urbanos da
cidade de Maracanaú,
situada na Região
Metropolitana de
Fortaleza.

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

As discussões dessas pesquisas estão voltadas para a caracterização da PSR, dando
visibilidade ao processo de exclusão, bem como aos serviços oferecidos a essa população nos
espaços pesquisados. Enfatizam a associação do fenômeno com as mudanças ocorridas no
mundo do trabalho e com o processo de globalização vigente (SILVA, C. L. da, 2012;
PINTO, 2015; MATIAS; FRANCISCHINI, 2010). Além disso, problematizam o fato de o
fenômeno da população em situação de rua ser uma das expressões da questão social,
resultado da relação desigual entre trabalho e capital que é inerente à sociedade capitalista,
compreendendo a população em situação de rua como um fenômeno de múltiplas
determinações (SILVA, C. L. da, 2012; PINTO, 2015).
4.3.3 Eixo Temático 03 – Histórias de vida da PSR
Neste eixo, estão agrupadas 07 dissertações, 01 tese e 04 artigos que discorrem sobre
as histórias de vida da PSR, conforme descrito no quadro 16.
Quadro 16 – Produções científicas do eixo temático 3 - Histórias de Vida da PSR

AUTORAS
(ES)

ROSA;
BRÊTAS (2015)

COSTA;
MESQUITA;
CAMPOS
(2015)

ANDRADE;
COSTA;
MARQUETTI
(2014)

KUNZ;
HECKERT;
CARVALHO
(2014)

MATTOS
(2006)

TÍTULO DA
PRODUÇÃO
A violência na vida de
mulheres em situação de
rua na cidade de São
Paulo, Brasil.

Moradores de rua, quem
são eles? Um estudo
sobre a população de rua
atendida pela casa de
sopa “Capitão
Vendramini” de Três
Corações.
A rua tem um ímã, acho
que é a liberdade:
potência, sofrimento e
estratégias de vida entre
moradores de rua na
cidade de Santos, no
litoral do Estado de São
Paulo
Os modos de vida da
população em situação de
rua: narrativas de
andanças nas ruas de
Vitória/ES.

Situação de rua e
modernidade: a saída das
ruas como processo de
criação de novas formas
de vida na atualidade

TIPO DE
PRODUÇÃO

Artigo

OBJETIVOS
Trazer à reflexão
situações de violência
na vida de mulheres em
condição de rua, na
cidade de São Paulo,
Brasil.

Artigo

Pretendeu-se dar voz e
vez àqueles que a
sociedade insiste em
tornar invisíveis.

Artigo

Trazer discussões acerca
das estratégias de vida
entre moradores de rua
na cidade de Santos
(SP).

Dissertação

Dissertação

Estudar os modos de
vida da população em
situação de rua que
habita a cidade de
Vitória/Espírito Santo.
Compreender o processo
de saída das ruas sob a
perspectiva de pessoas
que vivenciaram a
situação de rua.

SERRANO
(2004)

GOMES (2006)

KASPER (2006)

MENDES
(2007)

EU MENDIGO
Alguns Discursos da
Mendicância na cidade de
São Paulo.

GENTE – CARACOL
A cidade contemporânea
e o habitar as ruas

Habitar a Rua

Os moradores de rua e
suas trajetórias

Dissertação

Dissertação

Tese

Dissertação

Investigar o discurso
produzido por mendigos
na cidade de São Paulo,
bem como as relações
que se estabelecem entre
a prática da mendicância
e as subjetividades que
são positivadas nessa
condição.

Investigar como se dá o
processo de subjetivação
das pessoas no espaço
urbano da cidade
contemporânea e, em
especial, daquelas em
situação de rua.
Seu enfoque está nas
táticas mobilizadas para
tornar a rua habitável,
táticas que envolvem o
questionamento prático
das funcionalidades
estabelecidas, tanto dos
locais públicos
ocupados quanto dos
materiais descartados
encontrados nas ruas da
cidade.
Descrever e analisar
como vivem os
moradores de rua de
Belo Horizonte,
observando sobretudo a
maneira como eles se
relacionam entre si e as
estratégias de vida por
eles
desenvolvidas, ou seja,
sua sociabilidade.

ROSARIO
(2015)

Análise das condições e
modos de vida de
mulheres em situação de
rua em Porto Alegre – RS

CARAVACAMORERA;
PADILHA
(2015)

Entre batalhas e pedras:
histórias de vida de
moradores de rua,
usuários de crack.

SILVA, T. L. da
(2012)

Família, Rua e Afeto:
Etnografia dos vínculos
familiares, sociais e
afetivos de
homens e mulheres em
situação de rua.

Dissertação

Artigo

Dissertação

Problematizar o tema
proposto, as condições e
modos de vida de
mulheres em situação de
rua em Porto Alegre –
RS. Tem como
finalidade constituir um
estudo das experiências
e condicionantes sociais
do contingente
feminino, através do
recorte de gênero.
Descrever as
experiências cotidianas
dos moradores de rua e
os significados
atribuídos ao crack.
Problematizar as
relações mantidas,
criadas e atualizadas por
homens e mulheres em
situação de rua no
centro de Pelotas/RS.

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

Ao analisarmos essas 12 (doze) produções, identificamos que elas trazem diversos
aspectos das histórias de vida da PSR pesquisada, que foram organizados em 07 subtemas,
detalhados a seguir. Posteriormente, são apresentadas as discussões empreendidas em cada
um deles:
a) Quem são eles? = trazem a caracterização da PSR;
b) Motivos de irem viver nas ruas = abordam os motivos que os levam às ruas;
c) Dinheiro e renda = analisam a estratégia utilizada para conseguir dinheiro;
d) Violência = apontam situações de violência sofrida antes e/ou depois da vida nas
ruas;
e) Rede de assistência social = abordam a avaliação da PSR sobre os serviços
ofertados pela Política de Assistência Social;
f) Dia a dia nas ruas = retratam a rotina da vida na rua;

g) Uso de substâncias lícitas e ilícitas = apresentam discussões sobre a dependência
química.

4.3.3.1 Quem são?
A população de rua é composta por pessoas das mais diversas origens, algumas vindas
de cidades e regiões diferentes do país, outras naturais da própria cidade. Algumas passam a
vida se deslocando, outras se fixam em uma cidade e podem passar a maior parte da vida sem
se afastar de uma determinada praça, rua ou viaduto. Algumas estão nas ruas desde a infância
ou a adolescência, outras foram para a rua depois de adultas ou mesmo depois de velhas
(MENDES, 2007). Estas são, quase que exclusivamente, provenientes das camadas mais
pobres da população (MENDES, 2007). Geralmente, são pessoas de baixa escolaridade e
qualificação profissional, cujos vínculos estabelecidos com o mundo do trabalho, como
observa Tostes (2000 apud MENDES, 2007), já eram frágeis mesmo antes de se encontrarem
na rua.
Dentro do contingente de pessoas que utilizam o espaço público como forma de
sobrevivência, encontram-se as mulheres. O foco nas histórias das mulheres que vivem nas
ruas está presente em duas pesquisas. Uma delas está direcionada a contar a experiência de
mulheres que estão nas ruas a partir de vários aspectos, tais como os cuidados com a saúde, a
violência contra a mulher, as políticas públicas, entre outros (ROSARIO, 2015). O outro
estudo aborda a violência sofrida no contexto doméstico e familiar, a renda insuficiente para
garantir o próprio sustento e o dos filhos, bem como a ruptura dos vínculos sociais (ROSA;
BRÊTAS, 2015).
A saída das ruas é problematizada em um estudo cujo objetivo é compreender esse
processo de saída, sob a perspectiva de pessoas que vivenciaram a situação de rua. O estudo
observa que as pessoas em situação de rua que conquistaram a saída das ruas construíram, em
um processo de autonomia, novas formas de viver o cotidiano e de se relacionar com as
instituições que sustentam a vida social. Isso implica a adoção de uma postura mais
participativa, visando à autodeterminação de seus destinos (MATTOS, 2006).

4.3.3.2 Motivos de irem viver nas ruas
Conhecer os motivos que levaram uma pessoa à situação de rua implica compreender
sua história de vida, pois muitos dos conflitos familiares ou inserções precárias no mercado de
trabalho possuem raízes profundas na infância e na adolescência (MATTOS, 2006). São

diversas as razões que fazem as pessoas irem para as ruas: em alguns casos, por opção; em
outros, por falta de opção (ANDRADE; COSTA; MARQUETTI, 2014).
O uso de drogas lícitas ou ilícitas é um dos fatores apontados em algumas das
publicações como o motivo da ida para as ruas (COSTA; MESQUITA; CAMPOS, 2015;
MATTOS, 2006; KUNZ; HECKERT; CARVALHO, 2014; ROSA; BRÊTAS, 2015;
ROSARIO, 2015). No estudo de Rosa e Brêtas (2015), os efeitos relacionados à dependência,
tais como a deterioração dos vínculos familiares, o comprometimento das responsabilidades
em relação ao trabalho, o estudo e o cuidado com os filhos, entre outros, são citados como o
motivo disparador da ida para as ruas.
Motivações como a perda de entes queridos, a saída do sistema prisional, o vínculo
familiar fragilizado ou interrompido e a expressão de maneiras de viver que destoam dos
padrões morais estabelecidos podem também ser motivos que os levam a buscar as ruas como
moradia (KUNZ; HECKERT; CARVALHO, 2014; MATTOS, 2006; MENDES, 2007;
ROSARIO, 2015; SILVA, C. L. da, 2012). Os conflitos domésticos, assim como os conflitos
com a vizinhança, são geralmente mencionados como motivo de afastamento da família. As
causas do conflito geralmente giram em torno da orientação sexual do morador de rua, do
alcoolismo, do consumo ou do tráfico de drogas, do envolvimento em assaltos ou outros
crimes, da violência ou abuso sexual por parte de algum parente próximo – pai, irmão,
padrasto, entre outros (MENDES, 2007; ROSARIO, 2015; SILVA, C. L. da, 2012).
Outro aspecto importante, discutido no estudo de Mattos (2006), é o trabalho infantil
como motivo da ida para as ruas. Crianças/adolescentes oriundos de famílias carentes
contribuem, desde cedo, para o orçamento familiar. Outras vezes, a ida para as ruas com o
objetivo de conseguir algum dinheiro está atrelada à fuga de agressões domésticas ou de
outros desentendimentos. Ocorre que essa inserção precoce tem suas consequências: no
maioria das vezes, a criança/adolescente não consegue conciliar trabalho e escola,
abandonando esta última. Tal fenômeno é considerado como causa do alto índice de
analfabetismo ou semianalfabetismo entre a população em situação de rua, se comparada com
a população domiciliada. Um outro ponto são os efeitos da baixa escolaridade no mercado de
trabalho (MATTOS, 2006).
O trabalho, ou melhor, a falta dele, é tida como o fator responsável pela chegada à rua
e pela permanência nessa condição. É através dele, também, que os sujeitos esperam poder
sair da rua. O desemprego, ainda que seja um aspecto relevante da vida dos moradores de rua,
não é exclusividade dos migrantes, como também não pode ser considerado o fator

preponderante para que as pessoas abandonem suas famílias para viver nas ruas (MENDES,
2007; SERRANO, 2004).

4.3.3.3 Dinheiro e renda
Com relação ao dinheiro e à renda, no estudo de Andrade, Costa e Marquetti (2014),
essa temática é discutida como uma dificuldade comum para a maior parte da PSR. Alguns
relatam que, em momentos anteriores, o trabalho como catador de recicláveis dava para
garantir algum sustento, mas, atualmente, não vem dando mais.
O percentual de pessoas em situação de rua que trabalha na economia informal é
muito significativo. As principais atividades executadas pela PSR para conseguir renda,
segundo os estudos selecionados, foram: o trabalho de flanelinha, a construção civil, a
mendicância e a prostituição, porém é na cata de material reciclável que se encontra o maior
número de trabalhadores em situação de rua (KUNZ; HECKERT; CARVALHO, 2014;
MENDES 2007; KASPER, 2006).

4.3.3.4 Violência
A temática da violência encontra-se presente em algumas das publicações (ROSA;
BRÊTAS, 2015; CARAVACA-MORERA; PADILHA, 2015; ROSARIO, 2015). No estudo
de Rosa e Brêtas (2015), cujo objetivo é trazer à reflexão situações de violência na vida de
mulheres em condição de rua, a violência figurou, nos discursos, como tema transversal e de
grande impacto na deterioração das relações sociais que contribuíram para o ingresso na vida
nas ruas. Muitos foram os relatos de violência praticada pelos próprios parceiros. Essas
mulheres adquiriram certa tolerância às formas não físicas de violência. Quando questionadas
a respeito das violências que sofreram, nas ruas ou fora delas, relataram, quase sempre,
situações de agressão física e/ou sexual. No decorrer de suas falas, inúmeras situações de
violência psicológica, verbal e algumas negligências são relatadas como fatos de menor
importância, mesmo sendo responsáveis por grande sofrimento.
Além da violência física, conforme mostrado acima, no estudo de Serrano (2004)
também é citada a discriminação social, pois os sujeitos dizem que são discriminados pela
polícia, mas também pelo restante da população.

4.3.3.5 Rede de assistência social
Por estarem em situação de violação de direitos, as pessoas em situação de rua são
caracterizadas como em situação de risco social, motivo pelo qual contam com o apoio dos

serviços de média e alta complexidade da proteção social especial. Há uma parcela que avalia,
muito positivamente, os serviços/projetos ofertados à PSR através das políticas públicas, mas
há outra que os avalia de forma negativa. Geralmente, sentem dificuldades relativas à rotina
rígida dos locais, bem como à estrutura física e insuficiente para atender à demanda
(ANDRADE; COSTA; MARQUETTI, 2014; ROSA; BRÊTAS, 2015; KUNZ; HECKERT;
CARVALHO, 2014; SERRANO, 2004; MENDES, 2007).

4.3.3.6 Dia a dia nas ruas
Descrever a experiência de vida nas ruas da PSR, a maneira como esses sujeitos se
relacionam entre si, as estratégias de vida por eles desenvolvidas para tornar a rua um local de
moradia, as características da vida para quem se encontra nessa situação, são tarefas
desafiadoras e apresentadas em diversos estudos (ROSA; BRÊTAS, 2015; COSTA;
MESQUITA; CAMPOS, 2015; ANDRADE; COSTA; MARQUETTI, 2014; KUNZ;
HECKERT; CARVALHO, 2014; MATTOS, 2006; KASPER, 2006; MENDES, 2007;
SERRANO, 2004; ROSARIO, 2015; CARAVACA-MORERA; PADILHA, 2015; SILVA, C.
L. da, 2012). Morar na rua requer a reinvenção de espaços e objetos em seu cotidiano de vida,
driblando proibições e limites, ressignificando objetos, lugares e usos, bem como produzindo
desenhos variados no tecido urbano (KUNZ; HECKERT; CARVALHO, 2014).
Para a realização das atividades do cotidiano, tais como o descanso, os cuidados com a
higiene pessoal, as necessidades fisiológicas, a alimentação, entre outras, a PSR vai buscando
soluções alternativas. Em seu estudo, Andrade, Costa e Marquetti (2014) apresentam
estratégias usadas pela PSR para driblar algumas dificuldades, tais como: dormir
acompanhado para sentir-se mais protegido; usar banheiros públicos ou de estabelecimentos
comerciais para as necessidades fisiológicas; pedir ou, quando consegue, trabalhar para
alimentar-se. Para a prática sexual, esperar até certo horário de pouca movimentação nas ruas,
fazer cabanas de papelão, ir a um terreno baldio, entre outras possibilidades (ANDRADE;
COSTA; MARQUETTI, 2014).
Os serviços/projetos ofertados pela assistência social também são utilizados como
estratégias para a realização das atividades básicas do cotidiano. Os citados nos estudos
foram: Centro POP / Creas, albergues municipais e restaurantes populares (KUNZ;
HECKERT; CARVALHO, 2014).

Cozinhar nas ruas é outra alternativa muito utilizada para garantir as refeições. Os
produtos para o cozimento são “mangueados 7 ” em supermercados, açougues, peixarias,
padarias e feiras livres (KUNZ; HECKERT; CARVALHO, 2014).

4.3.3.7 Uso de substâncias lícitas e ilícitas
No tocante ao uso de substâncias ilícitas, Rosa e Brêtas (2015) enfatizam que as
usuárias de crack e as habitantes da Cracolândia são as mais expostas e vulneráveis às
violências, uma vez que usar crack nas ruas era mais que uma dependência química, era a
incorporação de modos de vida específicos. Elas encontravam-se inseridas em contextos
complexos de tráfico de drogas, disputas por territórios, estratégias lícitas ou ilícitas para
conseguir dinheiro e manter a dependência, além da prostituição, com descuido do corpo e da
saúde.
O consumo de drogas é uma das marcas mais presentes no discurso da população em
situação de rua. É apresentado como parte da rotina de vida, desde que acordam até a hora em
que vão dormir (SERRANO, 2004; CARAVACA-MORERA; PADILHA, 2015; MENDES,
2007; ROSARIO, 2015; SILVA, C. L. da, 2012). O crack é citado como o motivo de
iniciarem a construção da vida na rua. Existe o reconhecimento de que a relação com a droga
é evidentemente patológica, ela está sempre presente no seu cotidiano como elemento
primordial para a permanência dentro desse espaço. O contato constante com o crack fez com
que sonhos, motivações, aspirações e projetos de vida se transformassem em fumaça e ilusão,
convertendo-se a droga em um executor que os tortura diariamente (CARAVACAMORERA; PADILHA, 2015).
O uso do álcool se faz presente nos estudos selecionados (COSTA; MESQUITA;
CAMPOS, 2015; KASPER, 2006; MENDES, 2007; ROSARIO, 2015; SILVA, C. L. da,
2012). Segundo a experiência descrita em sua tese de doutorado, Kasper (2006) enfatiza que o
beber é uma atividade coletiva, pois a regra é: aquele que tem dinheiro compra a bebida;
todos compartilham.
As considerações tecidas neste capítulo não têm a pretensão de concluir e/ou esgotar
todas as discussões produzidas nas 20 (vinte) publicações, mas provocar reflexões e

7

Segundo Kunz, Heckert e Carvalho (2014, p. 19) manguear é: “o ato de entrar na mente das pessoas. Conta-se
uma história ou situação que possa sensibilizar e, assim, convencer o outro a fazer uma doação, normalmente
as solicitações são em dinheiro”.

interlocuções entre tais pesquisas e as informações construídas neste estudo, que estão
formuladas com mais profundidade no capítulo 06.

5 POSICIONAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

Neste capítulo, trazemos os principais pressupostos do referencial teórico que orienta a
produção deste estudo, que é o das Práticas Discursivas e Produção de Sentidos. Inicialmente,
apresentamos os fundamentos do Construcionismo Social, norteador do referencial teóricometodológico. Explicitamos o caminho metodológico trilhado para compreender as afetações
que motivaram a escrita deste trabalho.

5.1 Construcionismo Social
O construcionismo apresenta-se como uma crítica à modernidade (século XVII) e
como um movimento que traz, em suas concepções, influências da Filosofia da Linguagem,
sobretudo em sua oposição à Filosofia da Consciência, marco importante da era moderna,
centrada na razão e nas ideias. Dessa forma, é uma perspectiva que se opõe às vertentes
representacionistas e ajuda a delinear novas formas de investigação, a partir de um ponto de
vista pragmático da linguagem. Para o construcionismo, a linguagem é uma forma de ação no
mundo, é uma prática.
Kenneth Gergen é um dos autores precursores dessa discussão na Psicologia. Em
1985, Gergen publicou, na American Psychology, um texto intitulado O Movimento
Construcionista Social na Psicologia Moderna, que se tornou um clássico introdutório ao
construcionismo na área.
Epistemologicamente, o construcionismo faz parte das teorias pós-estruturalistas.
Como o próprio nome diz, desenvolve-se como uma crítica, ou mudança de paradigma,
sucedendo o movimento denominado estruturalismo. Este, de inspiração mecanicista, supõe
que a realidade pode ser apreendida, desde que se compreenda a lógica e a essência de suas
estruturas (SPINK, M. J., 2000, 2004).
Essa perspectiva propõe o constante estranhamento e questionamento das “verdades”,
defendendo o abandono e a quebra de paradigmas fundados nos pressupostos da
modernidade, como a representação do conhecimento, a retórica da verdade, a neutralidade e
o endeusamento do conhecimento científico. Ressignificar a objetividade da ciência implica
uma postura reflexiva, tanto sobre o processo de construção do conhecimento, como, também,
sobre as suas consequências para as pessoas, o que resulta numa reflexão ética (SPINK, M. J.,
2000, 2004).
Um

dos

postulados

consiste

no

questionamento

das

verdades

acatadas.

“Provavelmente, essa fórmula, esse princípio básico do construcionismo, é o mais

característico: uma constante problematização das ideias e dos conceitos, inclusive daqueles
que quase não podemos imaginar distantes de como nos foram ensinados” (IÑIGUEZ, 2002,
p. 128).
Outra característica é a consideração de que todo conhecimento é datado
historicamente, produto social e cultural, uma vez que

[...] qualquer conhecimento, da natureza que for, sempre deve ser visto como o
resultado de um contexto histórico e cultural, deve-se analisar sua eficácia, função e
utilidade no contexto, em vez de entendê-lo como um conhecimento universal
(IÑIGUEZ, 2002, p. 129).

Além disso, o construcionismo entende que todo conhecimento é uma construção
coletiva, o que gera uma das principais críticas direcionadas à corrente: a que diz que esse
postulado negaria a realidade, e que tal relativismo produziria a máxima “como tudo é
construção social, tudo vale”.
Um antecedente muito importante para o Construcionismo Social foi o giro
linguístico. Essa foi uma expressão utilizada, com bastante frequência, de 1970 a 1980, época
que correspondeu a um momento histórico de virada, cuja atenção, no campo da Filosofia e
das Ciências Humanas e Sociais, voltou-se para o papel desempenhado pela linguagem “na
formação dos fenômenos que ela costuma estudar” (IBÁÑEZ, 2004, p. 19).
O giro linguístico provocou uma mudança profunda nas concepções de mundo, nas
formas de interpretação das ciências e na própria concepção da natureza da linguagem e do
conhecimento, visto que promoveu um rompimento com a tradição secular focada no “mundo
das ideias”, um mundo interior e privado, difundido por Descartes, deslocando a atenção para
o estudo dos enunciados linguísticos. Isso significa uma profunda modificação em nossa
concepção da linguagem, pois esta deixa de ser considerada um simples meio para traduzir ou
expressar, de melhor ou pior forma, nossas ideias, e passa a ser considerada um instrumento
para exercitar nosso pensamento e constituir nossas ideias (IBÁÑEZ, 2004).
Apesar de ser um marco no campo da Filosofia, o giro linguístico não se configurou
como um fato específico, mas “um fenômeno que vai se formando progressivamente e que
adota várias modalidades ao longo do seu desenvolvimento” (IBÁÑEZ, 2004, p. 25). A
proposta, no giro linguístico, é a da valorização dos discursos, que são linguagem em ação.
Essa virada linguística “[...] introduziu um debate na filosofia da ciência, questionando o uso
da linguagem formal e a desconsideração da linguagem cotidiana, pela ciência, para a
descrição dos processos sociais” (RIBEIRO, 2011, p. 31).

O construcionismo não tem uma única definição, e não há um consenso entre
estudiosos sobre suas características. O construcionismo não se constitui como uma
epistemologia, porque ele questiona os próprios fundamentos desta. Antes, porém, “ele
constitui um referencial que procura entender o mundo como socialmente construído, o que
repercute também na sua forma de produzir conhecimento” (RIBEIRO, 2011, p. 33) e,
ademais, é um referencial que não se vincula apenas à Psicologia, mas também a outras áreas
do conhecimento.
Uma das críticas ao Construcionismo Social consiste em que esse postulado nega a
realidade e produz relativismo. Concordamos com Spink, M. J. (2004, p. 28), ao responder
sobre tal crítica:

O relativismo suscita a necessidade da reflexão sobre os efeitos daquilo que a gente
produz; suscita, portanto, uma reflexão ética. O mérito de acatar tão abertamente
uma postura relativista face aos fatos sociais é que ela abre o debate; força a reflexão
sobre os efeitos de nossas práticas em pesquisa.

Na perspectiva do construcionismo, o conhecimento é “[...] algo que construímos
juntos por meio de nossas práticas sociais e não algo que apreendo do mundo” (SPINK, M. J.,
2010, p. 9). Dessa forma, como se constrói o mundo, constrói-se o conhecimento.

5.2 A pesquisa na perspectiva construcionista
A pesquisa construcionista está focada nas maneiras pelas quais as pessoas produzem
sentidos sobre o mundo e como se posicionam (ou são posicionadas) nas relações sociais
estabelecidas no cotidiano. Abrem-se as possibilidades para o estranhamento daquilo que foi
essencializado como natural e instituído como familiar. Essa perspectiva é uma crítica à
ortodoxia em ciência e ao status quo, ou seja, ela parte da defesa de que um fenômeno social,
seja ele qual for, não precisaria ter existido ou ser como é, pois não é determinado pela
natureza das coisas, não é algo inevitável (GERGEN, 2009).
Gergen (2009, p. 301), tratando do assunto, afirma que “a pesquisa construcionista
social ocupa-se, principalmente, de explicar os processos pelos quais as pessoas descrevem,
explicam, ou, de alguma forma, dão conta do mundo em que vivem”. Defende que os próprios
termos usados para entender e explicar o mundo são artefatos sociais, são construções sociais
históricas, o que indica que o processo de compreensão do mundo se dá como um resultante
da interação humana. Assim, a pesquisa construcionista é entendida como uma prática social,
de natureza processual, transversalizada por questões de poder, morais, políticas, teóricas e
culturais. O trabalho de campo, então, pauta-se, na perspectiva de Peter Spink (2003),

enquanto multiplicidade de fazeres, em que pessoas, argumentos, anotações e materialidades
inerentes ao encontro fazem parte da conversa.
Dessa forma, podemos inferir que os processos sociais são extremamente importantes
nesse referencial. A análise dos repertórios linguísticos é uma das propostas metodológicas
utilizadas para analisar tais processos.
Essa forma de compreensão do mundo e do modo de fazer pesquisa propõe uma
importante reflexão, pois desloca a explicação de fenômenos psicológicos do interior do ser
humano, ou da análise pormenorizada de seu comportamento observável, para o universo das
relações sociais. Aqui, não se busca predizer comportamentos (pois se acredita que eles não
obedecem a regularidades), tampouco localizar algo, na mente humana, que justifique ou
explique atitudes. O construcionismo compreende que não há verdade objetiva, mas
conhecimentos construídos histórica e socialmente.
A ética, na pesquisa com base no construcionismo, é compreendida como uma “ética
dialógica”, na qual se deve evitar qualquer referencial externo, o que implica a reflexividade e
uma responsabilidade que extrapola a ética prescritiva. Trata-se de uma ética pautada no
reconhecimento dos processos de interanimação dialógica na produção dos sentidos (SPINK,
M. J., 2000).
Na pesquisa psicológica com base no Construcionismo Social, é importante a reflexão
histórica, processual, localizada culturalmente, e não a busca por leis gerais, propriedades
universais, verdades absolutas.
Nessa perspectiva, o pesquisador assume um papel ativo, permeado de implicações
éticas relevantes. Posiciona-se de forma reflexiva quanto aos efeitos que suas escolhas e ações
produzem, e não como um mero observador que intenciona revelar a realidade. A
subjetividade do pesquisador apresenta-se como um elemento a mais no processo da pesquisa.
O construcionismo alia objetividade e intersubjetividade como processos complexos,
interligados e dialógicos (BATISTA; BERNARDES; MENEGON, 2014).
Com base nesses ideais conceituais, desenvolvemos este estudo, não com o intuito de
desvelar verdades absolutas, ou mesmo de “descobrir o certo ou o errado”, mas com a
intenção de compreender alguns fenômenos presentes no contexto pesquisado, situado, no
caso específico, nas táticas e vivências de pessoas que se encontram vivendo nas ruas de
Maceió.

5.3 As práticas discursivas e a produção de sentidos

Destacamos, neste tópico, o referencial teórico das Práticas Discursivas e Produção de
Sentidos, fundamentação que utilizamos para nortear a compreensão das estratégias utilizadas
pela PSR para viver nas ruas, bem como a articulação desta com a política de assistência
social, as quais se constituem pelos repertórios linguísticos, que são o foco de análise da
abordagem teórica aqui apresentada.
O estudo das Práticas Discursivas e Produção de Sentidos no Cotidiano, baseado na
perspectiva construcionista social, enfatiza os processos dialógicos e os acontecimentos no
fluxo dos momentos e na construção das realidades que compõem a cotidianidade. A
concepção de linguagem que é adotada está centrada na linguagem em uso. Privilegia o
estudo da linguagem enquanto elemento constituinte de práticas sociais na investigação da
produção do conhecimento, invertendo a lógica de enfocar apenas a mente individual, pois a
linguagem é considerada uma atividade compartilhada e não isolada, sendo compreendida
também como prática social (SPINK, M. J.; MEDRADO, 2013).
Spink, M. J. e Medrado (2013, p. 26) definem práticas discursivas como:

(...) linguagem em ação, ou seja, as maneiras a partir das quais as pessoas produzem
sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas. As práticas discursivas têm
como elementos constitutivos: a dinâmica, ou seja, os enunciados orientados por
vozes; as formas, que são os speech genres; e os conteúdos, que são os repertórios
interpretativos.

O foco central de análise, na abordagem construcionista, são as práticas discursivas.
São ações, seleções, escolhas, linguagens, contextos, enfim, uma variedade de produções
sociais das quais são expressão (SPINK, M. J.; FREZZA, 2013). O termo “práticas
discursivas” é uma expressão utilizada para demarcar e distinguir o foco de interesse das
pesquisas voltadas para o papel da linguagem na interação social, conforme relatado
anteriormente (SPINK, M. J.; MEDRADO; MÉLLO, 2014). São consideradas como meios
privilegiados para compreender a produção de sentidos no cotidiano.
Para o referencial das práticas discursivas, sentido é:

[...] uma construção social, um empreendimento coletivo, mais precisamente
interativo, por meio do qual as pessoas – na dinâmica das relações sociais
historicamente datadas e culturalmente localizadas – constroem os termos a partir
dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta (SPINK,
M. J.; MEDRADO, 2013, p. 22).

A compreensão da produção de sentidos se dá através da análise das práticas
discursivas (narrativas, argumentações, conversas, entre outras) e dos repertórios linguísticos

(palavras, vocábulos, expressões, metáforas, por exemplo) presentes nelas (SPINK, M. J.,
2004).
Fundamentando-se nas práticas discursivas, busca-se apreender como os discursos são
cristalizados no tempo, gerando formas de nos posicionar que correspondem aos momentos
ativos da linguagem, aos momentos de ressignificação, de ruptura, de produção de sentido,
nos quais convivem tanto a permanência quanto a ruptura (SPINK, M. J.; MEDRADO, 2013).

5.4 O caminho trilhado
Para alcançar o objetivo de compreender o cotidiano de pessoas em situação de rua,
suas estratégias para sobreviver nas ruas de Maceió e sua relação com a política pública de
assistência social destinada a essa população, foram realizadas entrevistas semiestruturadas
com 4 (quatro) usuários do Centro POP, sendo dois participantes do sexo masculino e dois do
feminino. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Ufal (CEP/Ufal), em
28 de Agosto de 2018, conforme parecer nº 2.814.854.
As entrevistas foram feitas no Centro POP por dois motivos: primeiro, pelo fato de o
local destinar-se ao atendimento especializado da PSR, conforme explicitado; o segundo
motivo é o fato de o serviço ser o meu local de trabalho.
Realizamos entrevistas individuais, pois essa modalidade pode oferecer um roteiro
inicial que norteia o diálogo, permitindo a inclusão de questões e elucidações no decorrer da
conversa. A escolha da entrevista esteve baseada na compreensão de que esta se apresenta
como uma abordagem relacional por excelência, conforme abordam Menegon e Spink, M. J.
(2000, p. 63-64): “[...] a expressão e produção de práticas discursivas aí situadas devem ser
compreendidas também como fruto dessa interação, ou seja, os integrantes, incluindo o
pesquisador, são pessoas ativas no processo de produção de sentidos”.
Ao abordarmos a entrevista como prática discursiva, estamos, sobretudo,
compreendendo-a como uma ação, uma inter-ação. A negociação é a marca desse tipo de
relação. Pinheiro (2000, p. 186) aprofunda tal negociação, explicando que

Numa conversa o locutor posiciona-se e posiciona o outro, ou seja, quando falamos,
selecionamos o tom, as figuras, os trechos de histórias, os personagens que
correspondem ao posicionamento assumido diante de outro que é posicionado por
ele. As posições não são irrevogáveis, mas continuamente negociadas.

O roteiro foi elaborado com referência aos objetivos propostos, como também à
revisão da literatura apresentada. Durante as entrevistas, os áudios foram gravados para

posterior transcrição e análise. Realizamos as entrevistas nos meses de agosto e setembro de
2018. Duas foram realizadas no Centro POP 1 e duas no Centro POP 2.

5.4.1 Os participantes
A escolha dos participantes foi realizada com o apoio das equipes técnicas dos Centros
POP I e II, após a apresentação do projeto em conversa entre a pesquisadora e a equipe do
serviço, facilitando, assim, a indicação dos usuários que seriam convidados.
Os critérios utilizados para a escolha dos participantes foram:
a) fazer parte da população em situação de rua;
b) ser maior de 18 anos;
c) ser usuário do Centro POP, sem restrições de tempo de uso do serviço;
d) estar em situação de rua há, no mínimo, 6 (seis) meses.
O único critério de exclusão estabelecido foi em relação às pessoas que utilizam as
ruas apenas como suporte (exemplo: trabalho), mas não vivem nas ruas.
Conforme preceitua a Resolução nº 510, de 07 de abril de 2016 (que dispõe sobre as
orientações de projetos de pesquisa nas áreas de ciências humanas e sociais), para todos os
participantes da pesquisa foram explicados os objetivos do estudo e apresentado o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Visando a uma maior transparência e
entendimento, o TCLE foi lido para o participante, e as possíveis dúvidas foram esclarecidas.
Em seguida, o participante assinou o termo e recebeu uma via.
O quadro 17 apresenta informações gerais sobre os participantes.
Quadro 17 – Apresentação geral dos participantes.

NOME

IDADE

NATURALIDADE

ESCOLARIDADE

TEMPO DE
VIVÊNCIA NAS
RUAS

José

31 anos

Maceió/AL

3ª série do ensino
fundamental

16 anos

Maria

24 anos

São Paulo/SP

8ª série do ensino
fundamental

7 anos

João

34 anos

Aracaju/SE

Ensino médio
completo

6 anos

Raquel

41 anos

Maceió/AL

5ª série do ensino
fundamental

Mais de 4 anos

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

Comparando as informações traçadas pela pesquisa realizada pelo MDS (BRASIL,
2008) com o perfil identificado neste estudo, podemos refletir sobre os seguintes pontos:
a) todos os participantes estão inclusos na faixa etária predominante, conforme
descrito na pesquisa realizada pelo MDS;
b) a baixa escolarização também está em consonância com o perfil traçado pelo
MDS. Neste estudo, nenhum participante estava frequentando a escola regular no
momento da entrevista, e 3 (três) dos 4 (quatro) participantes, pararam de estudar
até o ensino fundamental;
c) em relação ao tempo de vivência nas ruas, a totalidade dos participantes está há
mais de dois anos nessa condição, e nenhum deles encontrava-se pernoitando nos
serviços de acolhimento;
d) sobre a procedência, 2 (dois) entrevistados mencionaram possuir o comportamento
conhecido como “trecheiro”, dado superior ao apontado na pesquisa realizada pelo
MDS.

Antes de iniciar as entrevistas, voltei a frequentar semanalmente o Centro POP, para
resgatar o vínculo com o serviço/usuários, visto que, no período de janeiro a julho de 2018,
estive afastada das atividades, em virtude da dedicação ao mestrado. Com os quatro
participantes escolhidos para este estudo, eu não havia tido contato profissional anterior à
realização das entrevistas, apenas reconhecimento visual.
Após a indicação dos possíveis participantes, fui ler as fichas/prontuários de cada um,
para ter maior compreensão das suas histórias de vida, o que facilitaria o diálogo com eles. Na
abordagem inicial, para o convite à nossa conversa, fui muito bem recebida por todos.
Aceitaram de imediato e me contaram suas histórias de vida espontaneamente.
Importante destacar que buscamos nos relacionar com os participantes do estudo
embasadas na ética dialógica (SPINK, M. J., 2000), distanciando-nos de rotulações,
naturalizações e prescrições de valores morais ou regras.
O ato de entrevistar essas pessoas não é uma atividade nova para mim, pois trabalho
com eles há aproximadamente 2 anos, mas escutá-los sempre me desperta uma série de
sentimentos, e dessa vez não foi diferente. Durante as conversas, sempre me sensibilizo com
as dificuldades que enfrentam, diariamente, e com o sofrimento que denunciam. Também
percebi, nas histórias relatadas, outros sentimentos/comportamentos em comum entre os
participantes, tais como persistência e esperança. A persistência pela capacidade que
demonstram ter para continuar vivendo, e por criarem estratégias que lhes permitem

conseguir coisas das quais necessitam e/ou almejam. A esperança, pois, apesar das
adversidades, o sonho e a esperança de dias melhores se fazem presente. Como veremos
adiante, esses e outros sentimentos fazem parte do discurso dos participantes deste estudo.
Foi possível, também, sentir, no decorrer das entrevistas, que as narrativas estavam
permeadas por emoções, mágoas, sonhos e lágrimas por parte dos atores, sobretudo porque
são expressões das histórias de vida de cada um.
Conforme mencionado, elaboramos um roteiro para ser um guia durante a realização
das entrevistas (cf. apêndice A), mas nosso diálogo ultrapassou as expectativas e
conversamos, em média, durante 50 minutos com cada participante, respeitando a demanda
trazida por cada um, mesmo que aquele conteúdo “fugisse” um pouco dos objetivos propostos
para este estudo. O encerramento se deu após um acordo com o participante, somado ao meu
entendimento de que os aspectos da pesquisa já tinham sido abordados e que a conversa
poderia ser finalizada. Coloquei-me sempre à disposição para dar continuidade, caso o
participante desejasse falar mais alguma coisa.
Para facilitar a compreensão das histórias de vida aqui relatadas, elaboramos um
resumo das entrevistas, que serão apresentadas a seguir.

5.4.1.1 José
A primeira entrevista foi realizada com o José, no Centro POP 1. Quando o abordei e
perguntei se ele teria disponibilidade para conversarmos, ele prontamente aceitou. José tem 31
anos de idade, é natural de Maceió, Alagoas, estudou até a 3ª série do ensino fundamental e
encontra-se em situação de rua há 16 anos. Nesse período em que vive nas ruas, alternou
momentos entre casas de amigos e instituições públicas, como os albergues. Sua família
também é de Maceió. Quando revelou para a família sua homossexualidade, não foi aceito
pela mãe e, principalmente, pelo padrasto, fato esse que gerou muitos conflitos familiares e,
para findar essa situação, ele optou por sair de casa. Diz possuir um relativo contato com sua
mãe, mas sente rancor, pelo fato de ela ter escolhido viver com seu padrasto e não ficar do seu
lado. Possui cinco irmãos, mas tem relacionamento apenas com uma irmã e, esporadicamente,
frequenta sua casa. Sente-se desprezado pela família por não ter ninguém ao seu lado. Há um
tempo, sua mãe tentou reconciliar a relação entre ele e seu padrasto, sem êxito, pois José não
o perdoa. Possui dois amigos que o apoiam e o incentivam, e que estão sempre por perto. Esse
fato o conforta e supre um pouco a ausência da família. No seu dia a dia, frequenta o POP, a

Casa de Ranquines8, fica em praças, praia e participa das atividades referentes ao MNPR
(Movimento Nacional da População de Rua). Hoje, possui um cargo de vice-presidência do
usuário do Suas, atividade que o motiva muito. Sempre dorme na Praça da Cadeia. Há dois
meses, terminou um relacionamento amoroso, devido ao uso excessivo de drogas por parte do
companheiro. Não exerce nenhuma atividade remunerada, e diz que o valor que ele recebe do
Bolsa Família (R$ 89,00) é o suficiente para sobreviver. Geralmente, com esse valor, compra
produtos de higiene pessoal. Durante os fins de semana e feriados, os serviços não funcionam,
então ele pede alimentação nos restaurantes, toma banho e utiliza os banheiros das praças
públicas. Prefere estar sempre em grupo, pois se sente bem conversando com os amigos.
Utiliza o Centro POP 1 para a alimentação, banho e para participar de algumas atividades.
Frequenta o serviço há mais de dois anos, alternando períodos entre o Centro POP 1 e o 2.
Procurou o Centro POP, a princípio, em virtude da necessidade de alimentação e banho. Pedi
sugestões de cursos profissionalizantes para que os usuários possam ter sua própria renda, no
entanto, não conseguiu sugerir nenhum curso no momento. Com o apoio do Centro POP,
conseguiu resgatar seus documentos pessoais, fazer o cadastro do Bolsa Família e inscreverse no programa Minha Casa, Minha Vida. Está esperando sua casa para então sair das ruas.
Às vezes, nos fins de semana, bebe cachaça e cheira cola. Diz que só usa quando está com
muita coisa na cabeça. Afirma ter sofrido violência, na rua, por três vezes: uma sem motivo e
outras duas em virtude de desavenças com outros moradores. Tem receio das dificuldades da
rua, tem medo de dormir e não acordar. Seus projetos para o futuro são: ter sua casa, ter uma
pessoa certa para viver e continuar as atividades do MNPR. Sempre participa de diversas
atividades do movimento e já chegou, inclusive, a viajar para outros estados. Gosta de discutir
sobre políticas públicas. No momento, está fazendo o curso Como Falar Bem em Público.
Conseguiu o curso através de uma assistente social do Centro POP. Já passou pelo Albergue
Municipal, pelo Serviço de Abordagem na Rua e pela equipe do consultório na rua. No
momento, diz não precisar de nada, apenas mostra-se ansioso para conseguir logo a sua casa.
8

Casa de Ranquines: A Associação Católica São Vicente de Paulo, com o nome fantasia Fraternidade Casa de
Ranquines, associação evangelizadora e de assistência, é uma entidade sem fins lucrativos, com sede na
Ladeira da Catedral, nº 107, Farol, em Maceió. Realiza serviço de acolhimento institucional a idosos(as) nas
duas unidades (Benedito Bentes e Centro), serviço de convivência com crianças e famílias no Projeto Cantinho
da Graça, no Benedito Bentes I (reforço escolar, evangelização, recreação, atividades lúdico-pedagógicas e
alimentação para 60 crianças em situação de vulnerabilidade social) e a distribuição de 200 refeições diárias
para a população de rua. Disponível em: http://nfcidada.sefaz.al.gov.br/instituicoes/casa-de-ranquines/. Acesso
em: 22 mar. 2019.

5.4.1.2 João
A segunda entrevista foi com o João, realizada no Centro POP 2. João tem 34 anos de
idade, é natural de Aracaju, Sergipe, concluiu o ensino médio e vive nas ruas há 6 anos. Está
em Maceió há 4 meses, porém, essa é a segunda vez que vem à cidade. Da outra vez, ficou
por 2 anos. Diz que já viajou por 31 municípios. Sai andando mundo afora. É garçom
formado e já trabalhou em grandes hotéis. Busca um emprego para sair dessa condição, porém
perdeu seus documentos pessoais. Procurou a Defensoria Pública para resolver essa pendência
e está aguardando. Adora cantar e, às vezes, tem vontade de procurar as emissoras de
televisão/rádio para contar sua história e tentar uma oportunidade como cantor. Diz que quer
trabalhar em qualquer coisa. Sua família encontra-se em Aracaju. Teve complicações devido
ao uso de drogas. Brigou com seu padrasto e deu umas facadas nele. Ele sobreviveu. O
motivo da briga foi o fato de o seu padrasto agredir fisicamente sua mãe. Foi deserdado e
expulso de casa por sua mãe. Não tem nenhum contato com ela. Diz que, anteriormente, tinha
uma boa condição financeira. O irmão também era usuário de drogas e acabou falecendo, em
decorrência de uma overdose. Sua mãe não foi ao enterro do seu irmão. Já foi casado três
vezes e possui três filhos. Não pode retornar a Aracaju, pois tem complicações com
traficantes, mas, às vezes, passa por lá para ver os filhos. Tem contato esporádico com um
irmão, mas tem dificuldades de relacionamento com ele também. Pretende ficar morando em
Maceió ou em Recife. Tem um relacionamento amoroso há dois meses. Ela também se
encontra em situação de rua. Ambos eram usuários de crack e estão há aproximadamente dois
meses sem fazer uso da droga. Estão buscando apoio religioso para vencer essa batalha contra
o vício. João diz que estava fisicamente debilitado, muito magro. Seu dia a dia é acordar, ir ao
POP nos dois horários, frequentar praças e praticar mendicância, nas ruas, para sobreviver e
poder alimentar-se. Nos fins de semana, pede comida nas casas e em restaurantes. Também há
uma igreja que o ajuda e oferece café da manhã. Para a higiene pessoal, utiliza uma torneira
que existe numa praça próxima. Sempre dorme no mesmo lugar, no bairro do Farol, embaixo
da marquise de um prédio empresarial: lá, dormem ele, sua companheira e dois amigos. Esses
dois amigos, também os conheceu nas ruas. Prefere esse lugar às praças, onde há muita gente
e onde ocorrem roubos/furtos entre os próprios moradores de rua. Está nesse local há uns três
meses. Antes, dormia na praia e ficava próximo aos pescadores. Afirma sentir-se desprezado
nas ruas, pois, anteriormente, tinha uma vida melhor, com melhores condições financeiras.
Sente o olhar das pessoas criticando-o na rua. Recebia o Bolsa Família, mas perdeu o
benefício devido à falta dos documentos pessoais para sacar o valor no banco. Acha que não

deveria existir esse benefício, pois em sua opinião, ele facilita o uso de drogas por parte dos
moradores de rua. Ficou recebendo durante aproximadamente seis meses. Apesar da situação
em que se encontra, hoje se sente melhor, pois está com sua companheira e sem fazer uso de
drogas. Acredita que Deus o libertou do vício. Anteriormente, passava o dia inteiro fazendo
uso de drogas, e todo dinheiro que conseguia usava para esse fim. Já ficou quase um ano sem
usar drogas e teve recaída. Afirma ter parado de beber também, porém, no último fim de
semana, teve uma recaída. Para o futuro, deseja arrumar um emprego, rever os filhos e sair
dessa vida. Deu entrada num programa social de habitação, em Aracaju, mas nunca
acompanhou o andamento. Sempre que chega a uma cidade, procura saber se ela possui
Centro POP e/ou albergue. Em Maceió, um amigo lhe falou do Centro POP, e disse que
estava frequentando o POP 1 e o 2 ao mesmo tempo. Procura os serviços para alimentação,
banho e, se estiver sem companheira, para pernoitar. Os documentos pessoais, conseguiu
resgatar através do POP. Agora, está aguardando a Defensoria Pública, visando à outra via da
certidão de nascimento. Já recebeu apoio do albergue e das equipes do consultório na rua.
Para o albergue, sugere critérios mais definidos e rigorosos, como uma análise daqueles que
querem, realmente, mudar de situação. Faz tratamento no Caps AD 9 e toma medicação
controlada. Tem dificuldade para dormir, porque a cabeça está sempre com muitos
pensamentos, mas também porque tem medo de que aconteça algo com ele na rua. Expressa,
durante toda a entrevista, a vontade de cantar profissionalmente.

5.4.1.3 Raquel
A terceira entrevista foi realizada com Raquel, no Centro POP 2. Raquel tem 41 anos
de idade, estudou até a 5ª série do ensino fundamental e vive nas ruas há mais de 4 anos.
Afirma estar nessa condição devido ao uso excessivo de crack. Refere-se ao crack como
“droga maldita, nojenta, imunda”. Há cerca de um mês, não usa mais. Nunca usou outras
drogas, apenas o crack. Estava debilitada fisicamente, muito magra. Achava que as pessoas

9

O Caps AD é um serviço específico para o cuidado, atenção integral e continuada às pessoas com necessidades
em decorrência do uso de álcool, crack e outras drogas. A equipe profissional – composta por médico
psiquiatra, clínico geral, psicólogos, entre outros –, realiza o acompanhamento clínico e a reinserção social dos
usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços comunitários.
Atende os usuários em seus momentos de crise e oferece acolhimento noturno por um período de quinze dias,
no máximo. Disponível em: http://www.maceio.al.gov.br/2016/08/caps-ad-amplia-atendimentos-a-familiaresde-usuarios/. Acesso em: 22 mar. 2019.

tinham medo dela. Agora, se sente outra pessoa. Gosta de estar sempre limpa, maquiada, pois
isso gera uma boa impressão. Acredita que usou crack por cerca de 13 anos. Pediu ajuda a
Deus para manter-se firme no propósito de uma vida sem drogas. Também não usa mais
cigarro, nem bebida alcoólica. Afirma não sentir nenhuma vontade de consumi-los. Tem um
bom relacionamento familiar. Sua mãe mora no interior do estado. Refere-se à mãe com
muito carinho. Em alguns períodos, foi morar com ela: nesses momentos, cessava o uso do
crack, porém, não resistia ao vício. Possui irmãos. Tem bom relacionamento com todos.
Possui sete filhos. Diz que criou todos. Já possui netos. A filha mais nova tem 13 anos e mora
com sua mãe. Não se sente bem vivendo nas ruas, principalmente pelo fato de ter uma
família, um local para ir. Sua família tem boas condições financeiras. Está aguardando o
companheiro resolver as pendências dos seus documentos para irem viver, juntos, numa casa.
Está nesse relacionamento há dois meses. Ele busca um emprego para ter condições de ir
morar numa casa. Sente-se muito feliz com esse companheiro. Ele também está na mesma
batalha que ela contra o vício das drogas. Ambos buscam apoio espiritual para resistir às
tentações diárias. No seu dia a dia, frequenta o Centro POP (o que faz há mais de 4 anos) para
alimentação, banho, cuidado com os pertences pessoais, para assistir à televisão e participar
das atividades promovidas pelo serviço. Diz ser bem tratada por todos. Já frequentou o POP 1,
mas prefere o 2 por conta da localização. Chegou ao POP através de um amigo que lhe
indicou. Não foi usuária do albergue, pois não ouviu bons comentários sobre ele. O fato de
não dormir com seu companheiro a afasta de lá. Foi atendida diversas vezes pelas equipes de
abordagem social e do consultório na rua. Preocupa-se com sua saúde e faz exames
periodicamente. Nunca procurou tratamento para o uso do crack. Busca sua fé para ter forças
para libertar-se do vício. Nos dias em que não funciona o Centro POP, fica nas praças e sai
pedindo alimentação nos restaurantes e casas. Dorme nas proximidades do Centro POP, na
marquise de um prédio empresarial: dormem ela, o companheiro e dois amigos. Gosta desse
local por ser tranquilo. Procuram sempre deixar o local limpo. Os vigias da redondeza os
conhecem. Escolhe bem o local para suprir suas necessidades fisiológicas, procurando manter
o ambiente limpo e agradável. Toma banho em uma torneira que fica numa praça. Lá, também
lava suas roupas e as de seu companheiro. Não possuem muitos pertences, pois não têm local
para deixá-los. Sempre os levam para todos os locais que frequentam. Raquel diz receber
muitas coisas das pessoas que passam na rua, como alimentos, roupas, lençóis, toalhas etc.
Relata a situação de um rapaz que foi a um supermercado e comprou para eles queijo,
presunto, pães e refrigerante. Trabalha como flanelinha. Recebia o benefício do Bolsa
Família, mas, recentemente, passou tudo para seus filhos. Já trabalhou de muitas formas,

como babá, cuidadora de idosos, cozinheira e auxiliar de serviços gerais. Relata uma situação
de violência sofrida, quando foi sequestrada por aproximadamente 15 dias, espancada e
violentada sexualmente. Ficou sem comer e sem beber. Após várias tentativas, conseguiu
fugir. Buscou apoio em uma delegacia nas proximidades do local e, com os policiais, saiu em
uma viatura tentando localizar o agressor, que foi encontrado e preso. Posteriormente, ele foi
à casa da mãe dela. Seu irmão o viu e o matou com um tiro na boca. Raquel demonstra
felicidade, diz que nada a incomoda, nada a atrapalha. No momento, aguarda essa
documentação para mudar de vida. Tem planos de viver com esse companheiro até ficar
velhinha e de ir morar perto de sua mãe, para ajudá-la. Gostaria de ir ver sua mãe e sua filha.
Deseja uma casa para ir viver com seu companheiro. Sugeriu oportunidades de trabalho para
as pessoas que estão em situação de rua.

5.4.1.4 Maria
A quarta entrevista foi realizada com Maria, no Centro POP 1. Maria tem 24 anos de
idade, é natural de São Paulo (capital), estudou até a 8ª série do ensino fundamental e vive nas
ruas há cerca de sete anos. Em Maceió, vive há um mês, pois, anteriormente, estava no
Recife. Considera-se mochileira, pois gosta de conhecer lugares. Veio para Maceió buscando
conseguir a documentação do seu companheiro com mais brevidade. É a segunda vez que
frequenta Maceió. Daqui, pretende ir para Brasília. Sua família encontra-se em Limeira, São
Paulo. Seus pais são falecidos. Teve pouco contato com seu pai. Sua mãe faleceu de lúpus,
aos 41 anos de idade, quando ela tinha 14 anos. Após a morte da mãe, ficou morando com o
tio e com o irmão. O irmão é nove anos mais velho que ela. Saiu de casa em virtude das
agressões sofridas do irmão. Diz que ele tentou matá-la por diversas vezes. Foi morar na rua
e, lá, conheceu um rapaz e foi viver com ele. Desse relacionamento, teve uma filha. Terminou
após descobrir a traição dele e voltou a morar na rua. Sua filha, hoje com 7 anos, mora com o
pai, pois ela não acha justo uma criança passar pela situação de viver nas ruas. Possui pouco
contato com ela. Tem outro filho, de 2 anos de idade, que também mora com o pai, no Rio de
Janeiro. Diz que o tio tem medo do seu irmão. Ele é usuário de drogas e, após a morte da mãe,
a situação ficou insustentável. Presenciou agressões dele para com a própria mãe. Quando ela
era criança e sua mãe estava internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ele dizia: “sua
mãe vai morrer e a culpa é sua”. Achava que ele fazia tudo aquilo com ela por ciúmes, pelo
fato de ela ser a mais nova e ter mais atenção, mais cuidado. Diante disso tudo, Maria
considera-se mais feliz hoje, morando nas ruas, do que quando vivia com seu tio e seu irmão.
Em parte, gosta de viver nas ruas. Gosta de viajar, de conhecer lugares e pessoas novas. Não

gosta de dormir nas ruas. Hoje, tem uma barraca para dormir, o que torna a situação melhor.
Está dormindo no bairro do Farol e não sabe explicar bem o local. Dormem ela e dois amigos.
Diariamente, frequenta a Casa de Ranquines e o Centro POP para alimentação, banho e
cuidado dos pertences. Frequenta, também, a Biblioteca Pública para acesso à internet. Fica
em praças do centro da cidade. Ficou no albergue e também foi atendida pela equipe do
consultório na rua. Está satisfeita com os serviços/projetos que frequenta ou frequentou. Nos
fins de semana/feriados, é mais complicado, pois precisa arrumar comida, já que os serviços
não funcionam. Pede nos restaurantes, nas portas das casas ou em outros locais mais
convenientes. Recebe o Bolsa Família e usa o dinheiro também para alimentação, pois prefere
pagar a pedir nas ruas. Acha muito humilhante ter que pedir. Já houve pessoas que falaram:
“vá trabalhar, sua vagabunda!”. No momento, não tem nenhum relacionamento amoroso,
havia acabado há dois dias. Estava com ele há dois meses. O término foi devido às diferenças
de pensamento/comportamento. Ele gostava muito de ficar dormindo pelo dia, mais parado;
ela, por sua vez, estava sempre se movimentado, buscando algo para alimentação, banho etc.
Ele está na rua há pouco tempo, por isso não entende bem como funciona. Usou drogas
durante dois anos, logo após a morte de sua mãe. No primeiro dia em que estava na rua, uma
menina lhe ofereceu crack e ficou insistindo para que ela usasse. Conseguiu parar por vontade
própria e buscou apoio espiritual. Tem muito medo de ter uma recaída. Procura não se
envolver em brigas. Nunca sofreu nenhum tipo de violência nas ruas, pois, pela experiência,
sabe identificar os locais que deve ou não frequentar, evitando, assim, os mais perigosos.
Percebe os olhares das pessoas para os moradores de rua, sente o preconceito sofrido só pelo
fato de morar na rua. Segundo ela, os moradores de rua são estigmatizados como drogados,
vagabundos etc. Não sabe dizer por que ela sempre volta para as ruas. Já houve várias
oportunidades e, quando acontece uma situação, ela volta para a rua. Em Maceió, teve um
relacionamento com um rapaz que tinha uma filha. Foi morar com ele, porém não aguentou a
forma como a criança estava sendo educada, por isso voltou a morar nas ruas. Pretende voltar
a estudar, abrir uma lanchonete e ter os filhos consigo. Gostaria de uma passagem para ir
para Brasília. Ouviu falar muito bem de lá. Considera-se uma pessoa livre e gosta de ser
assim. Não sugeriu nenhum programa/projeto para a PSR.

5.5 Análise das informações
Os repertórios produzidos durante as entrevistas foram formatados e analisados,
qualitativamente, por meio dos mapas dialógicos. Estes permitem dar visibilidade à
interanimação dialógica, aos repertórios linguísticos, às rupturas no processo de produção, às

disputas e negociações de sentidos, às relações de saber-poder e aos jogos de posicionamento
(NASCIMENTO; TAVANTI; PEREIRA, 2014). A escolha de tal ferramenta está diretamente
ligada ao referencial teórico-metodológico norteador da pesquisa.
Mapa dialógico é compreendido como:
Instrumento a ser usado na análise; constitui um dos passos iniciais da análise e
pode auxiliar pesquisadores/as em uma aproximação com o material, na organização
dos discursos e no norteamento da discussão. É aqui entendido como parte de um
“ferramental” que, no sentido dicionarizado, é um “[...] conjunto de meios pelos
quais se pode realizar, perfazer ou alcançar algo; instrumento”. Ele nos possibilita
dar visibilidade à interanimação dialógica aos repertórios interpretativos, a rupturas,
ao processo de produção, a disputas e negociações de sentidos, a relações de saber
poder e a jogos de posicionamento (NASCIMENTO; TAVANTI; PEREIRA, 2014,
p. 78).

Para a construção dos mapas, foram realizados os seguintes passos: inicialmente,
fizemos a transcrição integral (TI) das quatro entrevistas e colocamos a numeração das linhas
no texto transcrito, visto que, posteriormente, essas numerações fariam parte dos mapas
dialógicos e da discussão dos resultados.
O segundo passo foi a transcrição sequencial (TS), feita a partir da identificação das
falas e vozes presentes nas entrevistas. Nesse momento, foi possível perceber a quem a fala é
endereçada e quais os repertórios linguísticos usados para falar sobre determinado assunto.
Não se trata de uma transcrição completa do texto, mas da identificação de sobre o que versa
a discussão e como ela acontece (NASCIMENTO; TAVANTI; PEREIRA, 2014). Realizamos
a TS para as quatro entrevistas. Estas foram realizadas a partir da leitura da TI. Após a
realização da TS, analisamos os repertórios que emergiram nas entrevistas e, assim, foi
possível definir os eixos temáticos dos mapas.
O terceiro passo foi a definição desses eixos, organizados, com base nos objetivos
deste estudo, pelos repertórios aos quais queremos dar visibilidade na nossa análise, e em
diálogo com os temas identificados na revisão da literatura apresentada anteriormente.
O quarto momento foi a construção dos mapas dialógicos. Para tal, construímos um
quadro, deslocando partes do texto para as colunas/eixos temáticos que definimos. Trata-se de
um quadro com linhas e colunas organizado pelos temas identificados na TS. Abaixo, o
quadro 18 demonstra essa categorização.
Quadro 18 – Demonstrativo dos mapas dialógicos.

APOIO

HISTÓRIA PERSPECTIVA REL.COM RELAÇÃO RELAÇÃO

ESPIRITUAL

DE VIDA

PARA O
FUTURO

A POLÍT.
PÚBLICA

COM A
RUA

COM AS
DROGAS

Pesquisadora
L – 11: Em
Maceió há
quanto
tempo?
Maria
L – 12: 1
mês. O
tempo que
eu estou aqui
no POP.
Fonte: Quadro elaborado pela autora.

Como se pode observar no quadro 18, classificamos os repertórios produzidos
durante as entrevistas em seis eixos temáticos: (a) apoio espiritual; (b) história de vida; (c)
perspectiva para o futuro; (d) relação com a política pública; (e) relação com a rua e (f)
relação com as drogas.
Construímos um mapa para cada uma das quatro entrevistas e, em todos os quatro
mapas, foram utilizados esses eixos temáticos. Assim, Quem Fala pode ser identificado, em
cada mapa, através dos nomes dos participantes da entrevista. Sobre O Que Fala encontra-se
em outra coluna e corresponde ao que é expresso por cada participante no momento da
entrevista, que são as colunas dos eixos temáticos. As falas que preenchem as linhas foram
extraídas das entrevistas. Nos mapas, também são identificadas as linhas em que se encontram
as falas, às quais estamos nos referindo, conforme é possível visualizar no quadro 18.
A partir dos mapas, inicia-se o processo de identificação dos repertórios utilizados
para falar sobre as estratégias, as táticas e as articulações utilizadas pela PSR. É necessário
compreender a dinâmica e a polissemia das práticas discursivas. Utilizamos a unidade básica
de análise do discurso chamada de repertórios linguísticos. Os repertórios possuem por
funções:

Enfatizar que se trata de circulação de unidades de construção das práticas
discursivas: os termos, as descrições, os lugares comuns e as figuras de linguagem
que demarcam o rol de possibilidades da produção de sentidos. Sendo elementos
centrais nesse processo, um passo fundamental da análise (e que pode ser o seu
foco) é identificar os repertórios em uso e seus efeitos na maneira como nos
posicionamos e posicionamos nossos/as interlocutores/as. Além disso, analisá-los
nos permite perceber como versões de realidade foram produzidas (SPINK, M. J.,
2004, p. 23).

Aragaki, Piani e Spink, M. J. (2014, p. 229) dizem que “os repertórios, portanto,
compõem as práticas discursivas (assim como os enunciados e os gêneros de linguagem),
colaborando na produção de sentidos a respeito de determinado assunto”. Seus principais
objetivos de uso na pesquisa, conforme os autores, são:

a) identificar e entender as múltiplas maneiras de falar sobre um tema e as tradições
discursivas que lhes deram origem;
b) possibilitar acesso a palavras-chave para recuperação de artigos e outros
documentos, criando um glossário para o estudo de uma temática em bancos e bases
de dados (periódicos científicos, jornais, revistas, sites etc.);
c) criar uma linha argumentativa a respeito da trajetória de um conceito ou tema em
uma área específica, assim como de sua migração para outras áreas do saber;
d) compreender como repertórios contribuem na construção de fatos e de distintas
versões de realidade; e
e) entender os posicionamentos e as relações de poder presentes em um tema e/ou
campo específico (científico ou não) e as controvérsias daí decorrentes (ARAGAKI;
PIANI; SPINK, M. J., 2014, p. 231).

Após a análise dos repertórios, buscamos compreender os cotidianos das pessoas em
situação de rua, suas estratégias para sobreviver nas ruas de Maceió e suas relações com a
política de assistência social, ao darmos visibilidade aos sentidos produzidos sobre os eixos
temáticos, por meio da análise das unidades de construção utilizadas na linguagem em uso.

6 VIVER NA RUA: DESAFIOS E SUPERAÇÕES
Neste capítulo, mergulhamos nos resultados e discussões produzidos durante a
construção do trabalho. Retratamos, a partir dos repertórios utilizados pelos protagonistas, os
percursos, as vivências, as estratégias e as articulações com a política de assistência social.
Como estamos situadas na seara das pesquisas qualitativas, não temos pretensão de
generalizar nossas análises, pois estas são localizadas e singulares. Focamos nas histórias de
vida, para a compreensão da proposta deste estudo.
As discussões são apresentadas de forma articulada, entre o que a literatura tem
apontado e os repertórios linguísticos identificados nas falas dos protagonistas, que foram
associados aos eixos temáticos definidos no momento da construção dos mapas dialógicos,
conforme apresentado anteriormente. Destacamos que os eixos definidos não são categorias
excludentes, mas eles se complementam e dialogam um com o outro, visto que todos se
constituem mutuamente. Na dinâmica da vivência do cotidiano, é impossível separar cada um
dos tópicos, pois os temas abordados, que apenas separamos metodologicamente, aparecem
simultaneamente e de forma imbricada.

6.1 Apoio Espiritual
Os repertórios utilizados pelos participantes sobre apoio espiritual apresentam o
sentido de uma força divina, da qual emana proteção para as adversidades do dia a dia nas
ruas. Na entrevista, não formulamos um questionamento/pergunta direta sobre essa temática,
porém ela se fez presente em três das quatro entrevistas, diferenciando-se na intensidade com
que era verbalizada, conforme apresentamos nos trechos seguintes:

Maria (L 196-200): [...] Eu não vou mentir a senhora não, eu tenho medo de recair,
eu não posso dizer a senhora eu nunca mais vou usar por que a gente não sabe o dia
de amanhã. A cada dia eu peço a Deus ... Deus não me deixe usar isso aí ... quando
eu vejo que dá aquela vontade, eu começo a pedir a Deus, começo a entrar nas
minhas orações, não aceito, eu repreendo essas coisas na minha vida.
Raquel (L 31-38): [...] Eu pedi tanto a Deus tia, pedi tanta força no meu coração. Eu
me levantei 2h da manhã e fui até às 3h da manhã de joelho. Digo Jesus eu não
quero essa vida mais pra mim. Tô cansando dessa vida. Me tire dessa vida
imediatamente meu Pai Santo ... eu quero mudar, eu quero, eu quero. Eu era
evangélica tia, 10 anos batizada no espírito santo, nas águas, aí de repente me
encontro numa vida triste dessas. E de lá pra cá Deus fez assim comigo tia, me tirou
do fundo do calabouço, eu não estou nem sentindo mais falta disso ... sinto mais não
falta.
João (L 189-192): [...] Hoje eu estou mais em paz. Antigamente, era pegar em
dinheiro e ir ali pra baixo usar droga. Ficava o dia todo ... uma coisa horrível. Creio

que Deus tirou totalmente de mim, pois não tenho vontade. Eu vejo os outros usando
agora, me oferecendo e eu digo: eu não quero isso, nem pintado de ouro. Eu sei o
que ela fez na minha vida.

Nas falas transcritas, podemos identificar o uso da fé/apoio religioso como estratégia
para a desvinculação do vício das drogas. Nesses casos, todos foram usuários de crack e
estavam em processo de reabilitação. Podemos observar o uso de repertórios relativos às
drogas que produzem sentidos negativos, conforme o relato de Raquel (L 20-21): “[...] É essa
imunda. Eu não era assim não tia, eu estou bonita agora. A senhora tá me vendo uma mulher
agora”.

6.2 Histórias de vida
Situamos, neste item, os repertórios produzidos pelos participantes quando nos falam
sobre suas histórias de vida, o que os levou à vida nas ruas e por que continuam nessa
condição, bem como sua relação familiar e/ou amorosa.
Na entrevista, houve perguntas direcionadas a essas temáticas, o que levou os sujeitos
à produção de versões das histórias de vida com riqueza e diversidade de detalhes,
construindo uma biografia e resgatando fatos ocorridos desde a infância até a idade adulta.
Os relatos sobre os motivos que os levaram a morar nas ruas trazem as seguintes
situações:

Maria (L 42): Aí meu irmão judiava muito de mim, daí eu saí de casa.
Pesquisadora (L 43): Judiava como?
Maria (L 44): Ele batia. Ele já tentou me matar diversas vezes e por conta disso eu
saí de casa.
Pesquisadora (L 63): Seu irmão tem algum transtorno ou outra coisa?
Maria (L 64-66): Drogas. E ele quando está sem droga fica muito agressivo, meu
tio tem medo dele, faz as vontades dele. Meu tio trabalha, é aposentado, tem casa de
aluguel, mas faz as vontades do meu irmão com medo de apanhar, não coloca na rua
porque tem dó.
Raquel (L 18): Por causa dessa droga maldita, nojenta.
Pesquisadora (L 19): Crack?
Raquel (L 20): É essa imunda.
João (L 29-33): Minha família ... a gente tinha tudo lá em Aracaju. Eu tive uma
complicação por causa de droga, briguei com meu padrasto ... acabei dando umas
facadas nele e minha mãe me deserdou ... mandou eu sair e me virar. Daí eu passei
um tempo na banda e começaram amizades demais comecei a usar esse tal de crack
acabando minha vida. Meu irmão estava usando também. Só depois de praticamente
6 anos que meu irmão morreu foi que eu resolvi parar. Meu irmão morreu nos meus
braços de overdose.
José: Problemas familiar (L 12). Com minha mãe e meu padrasto (L 16). Porque eu
tinha acabado de assumir que sou LGBT ... aí minha mãe não falou nada. Quem

ficou falando Bxxxx foi meu padrasto (L 18-19). Não ela ficou meio assim ... aí
depois meu padrasto ficou falando Bxxxx dentro de casa aí eu peguei pra não ter
confusão fui pra rua (L 22-23).

Quando falamos sobre pessoas, sabemos que há particularidades na condição de várias
delas, e que cada uma tem um ou vários motivos para viver nas ruas. Há também problemas
que são comuns entre elas, que são expressões da exclusão social à qual estão submetidas.
Nas histórias contadas aqui, o uso abusivo das drogas, pelo próprio participante ou por
familiar, foi um fator de destaque e está presente em três dos quatro relatos. A informação é
condizente com a pesquisa realizada pelo MDS, que aponta os principais motivos que levaram
os entrevistados a morar nas ruas: esses motivos estão relacionados a problemas com drogas e
alcoolismo (35%), desemprego (29,8%) e conflitos familiares (29,1%) (BRASIL, 2008).
De acordo com Sen 10 (2009), a exclusão social afeta diretamente o exercício das
liberdades, tolhendo direitos básicos como o acesso à moradia, à educação, ao trabalho digno
e ao bem-estar. Desprovido de reconhecimento social, no sentido da inclusão e do
pertencimento, o homem perde a liberdade de agir e de tomar decisões, deixa de ter livres
escolhas.
A PSR é submetida às circunstâncias que a realidade das ruas lhe impõe. Ora é
retratada como vítima, ora como aquela que infringe a ordem social, conforme detalharemos
adiante.
No tocante à relação familiar, nas narrativas, as lembranças das famílias são expressas
por repertórios em que identificamos sentimentos de mágoas, decepções, bem como
sentimentos contraditórios, pois ora existe o desejo de retornar para a família, ora a felicidade
se faz presente, apesar da condição de vida nas ruas.

Maria (L 85-88): Eu falo pra senhora que, não pela parte da minha mãe, por que eu
amava minha mãe e eu amo até hoje, mas assim com relação a essa parte aí de
sofrimento eu acho que, independente de eu tá na rua, eu estou mais feliz hoje do
que eu estava naquela época porque meu irmão ele judiava de mim, judiava da
minha mãe e judia até hoje do meu tio, entendeu?

10

Segundo Sen (2009), as liberdades representam ou simbolizam os direitos do homem. O homem terá liberdade

quando puder exercer, efetivamente, seus direitos de cidadão. Qualquer tipo de restrição ilegítima aos direitos
do homem interfere no seu direito de liberdade. Dessa forma, fala-se em liberdades substantivas quando há a
concretização dos direitos do homem, alçando-o a uma condição de agente participativo. As liberdades
substantivas representam a possibilidade de o homem atuar e de ser reconhecido como cidadão; podendo agir
ou não agir por seu livre arbítrio, não por força de restrições ilegítimas aos seus direitos.

Raquel (L 54-56): Ela [a mãe]: ‘minha filha venha embora’. Eu dizia: ‘mãezinha
chegou o seu dinheiro?’ ‘Chegou tudo minha fia, só não chegou você’. ‘Oh
mãezinha perdoe mas eu fiquei aqui’. Aí ela já chora pelo telefone, triste, trás deu
[atrás de mim]... Mas eu creio tia, que dessa vez agora eu vou conseguir!
João (L 98-100): [...]Quando eu sinto saudades dos meus filhos eu passo por lá. O
bairro é meio distante da minha complicação 11 aí eu consigo passar, olhar e ver
como eles estão. Minha mãe dá as coisas a eles. Minha mãe é promotora aposentada.
José (L 27-29): depois de um tempo [que ele estava na rua], minha mãe começou a
me procurar, aí pediu pra eu voltar pra casa. Aí eu disse que não iria voltar. Ela disse
que meu padrasto queria falar comigo e eu disse que não queria conversar com ele.

Estar em situação de rua não significa, necessariamente, que houve rompimento
definitivo dos vínculos familiares. Em alguns dos casos apresentados neste estudo, os
familiares sofrem com a ausência e a condição de vida daquele que está em situação de rua,
conforme os relatos de Raquel e de José, transcritos acima. As relações familiares rompidas
figuram na memória dos interlocutores, evocadas como um passado distante ou difícil de ser
retomado, revivido, reatado, como nos casos de Maria e de João.
A formação de agrupamentos de pessoas em situação de rua, ou mesmo de
significativos vínculos de amizade, é outra estratégia utilizada pela PSR para sobreviver nas
ruas. Esses laços de amizade são considerados semelhantes às relações familiares. Os
agrupamentos sociais constituem-se como uma necessidade afetiva, psicológica, fisiológica e
social. Segundo Escorel (1999), a característica básica dos agrupamentos constituídos nas
ruas são as relações temporárias e baseadas na territorialidade dos espaços urbanos.
Nas quatro histórias aqui contadas, os participantes relatam que estão vivendo e
preferem estar com grupos de amigos e/ou manter vínculos amorosos. Os repertórios
sinalizam a importância das relações construídas nos espaços urbanos, demonstrando serem
positivas.

Maria (L 112-113): Eu durmo na minha barraca e os meninos cada um no seu
papelão. Todos me respeitam e eu respeito os meninos.
Pesquisadora (L 162): Como você conheceu este pessoal?
11

João relata, nos seguintes trechos da entrevista, a referida complicação: “[...] Particularmente eu não posso
voltar mesmo pra Sergipe porque eu acabei roubando, roubando até amigos, bicicletas de amigos. Tem uns
dois policiais lá que são amigos meu que eu acabei roubando as bicicletas deles, troquei por droga e ele disse
que no dia que eu aparecesse lá ia arrancar minha cabeça. Já não posso voltar (L 62-65).

João (L 163-165): Aqui na rua também. Conheci o Bruno que tá aqui no POP e o
João conheci na rua. Aí a gente acabou pegando uma amizade.
Pesquisadora (L 89): Geralmente, você fica mais sozinho ou em grupo com seus
amigos/companheiros?
José (L 90): Em grupo.
Pesquisadora (L 91): Por quê?
José (L 92): eu gosto mais de ficar conversando com os meninos.
Raquel (L 147-150): Parece que mais uns três mais a gente que dorme. Tudo legais.
São tudo unidos. Nós não briga, não faz bronqueira lá, nada disso lá tem. Aí tem um
deles lá que gosta de usar maconha eu já disse a ele, se ele quiser usar negócio de
maconha ele vá pra lá, aqui não, pra não manchar o canto que a gente veve e eles
obedecem. Aí eles vão, eles saem e vão pra outro canto.

Dos participantes, Raquel e João declararam manter relações afetivas há
aproximadamente dois meses. Os demais estão solteiros. Aqueles que estão sozinhos
expressam o desejo de conseguir, no futuro, um relacionamento satisfatório, no caso de José.
Já Maria relata algumas histórias amorosas conflituosas vividas no passado, e como ela se
sente em relações controladoras.

Maria (L 299-303): Não, não aceito não. Esse meu ex mesmo, ah não fala com
fulano não porque fulano tá dando em cima de você ... Aí que eu falava com fulano!
Porque poxa, eu gosto muito de ter minhas amizades, eu tenho amizade com
mulheres e com homens, do mesmo jeito que meu parceiro também pode ter
amizades com homens e com mulheres, a única coisa que eu exijo é o respeito,
entendeu? Se não tiver respeito pra mim não serve. Se tiver respeito, pode conversar
com quem quiser ... só isso.

João e Raquel expressaram o desejo anterior de encontrar um relacionamento
duradouro, e relatam como estão felizes.
João (L 118-120): Mas ela chegou pra mim, por causa de uma coisa que eu dei a
ela, antes quando eu ia lá pra usar droga com ela ... um pingente da Maria, eu dei um
terço na mão dela ... aí ela veio até mim e disse que me amava.
Raquel (L 75-80): Eu tava com outro, né tia. Ele ia direto lá embaixo atrás de mim,
ele me dava dinheiro, ele me dava presentes. Eu tava com outro homem e não ia
desrespeitar o outro, isso é feio né tia!? Arrumar problema, os dois ia se matar. Aí
chegou o tempo que eu não vivia mais com o outro que eu tava, aí eu cheguei, aí eu
pedi a Deus: Senhor ele tá solteiro aquele homem será? Eu tava amando ele em
segredo, gostando dele em segredo. Aí eu pedi a Deus: Senhor me ajude meu Deus
onde ele tá, ele tá sozinho ou tá com alguém? Se ele tiver só bem, se ele não tiver eu
não quero não.

José, quando questionado sobre seus projetos para o futuro, relata: “... ficar no meu
cantinho, ficar com uma pessoa certa” (L 156).

Em estudos realizados, pressupunha-se que as mulheres em situação de rua iniciavam
um relacionamento no intuito de ter alguém que as protegesse. No entanto, foi constatado que
elas buscavam amizades e relacionavam-se sexualmente apenas quando se sentiam atraídas,
quando eram conquistadas ou conquistavam, quando sentiam desejo (ROSA; BRÊTAS,
2015). Em consonância com essa pesquisa, nas histórias aqui relatadas, as participantes deste
estudo não afirmaram se envolver amorosamente visando à proteção.
Os relatos expressam as trajetórias de vida dessas pessoas, que foram muitas vezes
marcadas por relações conturbadas nas famílias, histórias de preconceito e falta de acesso às
condições mínimas de sobrevivência.

6.3 Perspectiva para o futuro
Quanto aos questionamentos sobre os projetos para o futuro, está presente, em todas as
narrativas, o repertório que traz a expectativa de sair das ruas, como também: o sonho de
conseguir um emprego; ter o próprio negócio; ter uma casa própria; viver o resto da vida com
o/a atual companheiro/a; e reencontrar familiares.

João (L 206-208): Voltar a trabalhar. Voltar a adquirir minha família outra vez e
sair dessa vida maldita que não é para ninguém não ... isso não é para gente não ...
isso é para lixo ... quem quer ser lixo. Deus não quer isso pra gente.
Raquel (L 281): Ah tia, eu penso coisas boas né, quero viver com ele até ficar
velhinha. (L 283-285): Sempre respeitando ele, porque o certo da mulher é respeitar
o homem, então eu só penso coisas boas tia pra mim, ter a minha casa, ter ... ir pra
perto da minha mãezinha, pra ajudar ela né, porque eu amo ela.
Maria (L 254): Eu tenho! Quero voltar a estudar.
Pesquisadora (L 255): Que mais?
Maria (L 256): Trabalhar, abrir minha lanchonete, quero meus filhos comigo.

José participa do MNPR, e um dos seus desejos é continuar trabalhando em prol do
movimento. Na oportunidade, ele estava fazendo um curso de oratória. Em virtude da sua
atuação no movimento, teve oportunidade de viajar para participar de eventos em outras
cidades. Diz gostar de discutir sobre políticas públicas.
Maria possui sentimentos ambivalentes com relação à rua. Define-se como mochileira
e, para ela, ficar andando de cidade em cidade, para conhecer outros lugares e pessoas, é o
lado bom de viver nas ruas.

Maria (L 100-103): Eu não gosto muito não, mas em partes eu gosto. Eu gosto da
parte de viajar, eu gosto de viajar muito, eu me denomino mochileira entendeu ... e a
parte de viajar é muito bom porque cada lugar que a gente chega conhece pessoas

novas, lugares novos, mas o fato de tá dormindo na rua, apesar que agora eu arrumei
uma barraca.
Maria (L 289): Estou pensando em ir pra Brasília.
Pesquisadora (L 290): Por que Brasília?
Maria (L 291-292): Porque todo mundo fala muito bem de lá ... muita gente! Tipo
100 pessoas fala bem e duas fala mal. E a curiosidade também de conhecer lá.

Neste estudo, todos os participantes citaram projetos para o futuro, situação diferente
da apontada por Gomes (2006) em seu estudo, que chama a atenção para a forma de vida
ligada inteiramente ao tempo presente, no momento, no aqui e agora:

A posição de receptividade, de achaque, de pedinte, chega mais forte e traz consigo
a anulação do desejo enquanto mola de criação de possibilidades de vida. Vida aqui
entendida como valor, bem necessário para se continuar vivendo. Mas a maior parte
do tempo é vivida no hoje, no tempo do agora, e o depois se vê quando ele chegar
(GOMES, 2006, p. 91).

Problematizamos, em relação a esses repertórios, o local da realização da pesquisa, a
pesquisadora e a escolha dos participantes. Os Centros POP, onde ocorreram as entrevistas
são serviços vinculados à política de assistência social, que tem por objetivo propiciar o
resgate da cidadania e da autonomia. A entrevistadora/pesquisadora é uma das profissionais
do serviço, e, apesar de não ter tido contato anterior com eles e elas até aquele momento,
circula no ambiente. E os usuários foram escolhidos a dedo pelas profissionais. Podemos
perguntar: a quem estão direcionados esses discursos? Será que eles não reproduziram o
discurso esperado?
O trabalho foi um tema muito frequente na entrevista com o João. Ele cita o desejo de
conseguir um emprego como o objetivo principal em sua vida. Ele conta que já cantou em
bares pelo Brasil e tem o sonho de voltar a cantar. Diz que aceita trabalhar em qualquer coisa.
Deposita, no trabalho, a expectativa para mudanças na sua vida.

Pesquisadora (L 309): Você me falou que tem esse sonho de cantar.
João (L 310): Quero cantar na televisão.
Pesquisadora (L 311): Você já tentou?
João (L 312-314): Ainda não. Às vezes me dá coragem, às vezes uma coisa me diz
que eu não vou conseguir ser nada. Difícil ... fico nessa dúvida. Todo mundo diz se
eu for eu vou conseguir ... mas tem que ter uma vontade mesmo de si próprio. Eu
preciso de um violão ... não tem jeito não.

As falas expressam alguns sonhos/projetos que, na opinião dos protagonistas, são
expectativas de um futuro mais digno. Os obstáculos para a realização passam por: a)
dificuldades de reinserção no mercado de trabalho; b) superação da vergonha do fracasso
vivenciado como individual; e c) falta de perspectivas. Tais obstáculos fazem com que,

muitas vezes, situações provisórias tornem-se um novo modo de viver, marcado por processos
contraditórios de conformismo e de resistência.
Outro questionamento é sobre a relação entre futuro e viver nas ruas, que, muitas
vezes, pode parecer antagônica. Como pensar em futuro morando nas ruas? Já consideramos
que o direito da PSR está garantido por lei, mas não será exatamente a negação de tais direitos
que configura a exceção?
As contribuições de Agamben (2007) sobre a tanatopolítica da vida nua12 apontam
para a seguinte problematização: o Estado tem interesse em que parcelas marginalizadas da
sociedade se configurem como vida nua e permaneçam em situação de abandono, expostas à
morte. Nessa perspectiva, podemos afirmar que o que está vigorando é uma estratégia de
governo não mais centrada na política, muito menos na biopolítica 13 – que envolveria
estratégias para fomentar a vida da população –, mas na tanatopolítica, ou seja, o que ocorre é
uma produção de morte (SCISLESKI, 2010; WAISELFISZ, 2011).
Nesse contexto de inclusão e de exclusão, tais considerações foram problematizadas,
para refletirmos sobre o quão complexo é lidar com parcelas da sociedade que são
desqualificadas por não seguirem o caminho habitual esperado.

6.4 Relação com a política pública
Conforme mencionado, as políticas públicas são de responsabilidade do governo
federal, dos estados e dos municípios brasileiros. Na PNPR (2008), há uma série de
determinações, como a capacitação dos profissionais, a oferta de serviços de assistência
social, a inclusão da PSR na intermediação de empregos, a criação de alternativas de moradia,
entre outras.
Nas entrevistas, perguntamos sobre os serviços oferecidos pela Política Pública de
Assistência Social, com o objetivo de compreender a relação que os participantes estabelecem

12

Segundo o filósofo Giorgio Agamben (2007), a vida nua, ou zoé, foi incluída no ordenamento político-jurídico

para depois ser excluída pelo princípio da exceção soberana. O autor italiano resgata a ideia grega de zoé, que é
um termo extraído principalmente da obra de Aristóteles. A zoé pode ser definida como sendo a vida natural,
de todos os seres vivos, não concernente à vida enquadrada nos requisitos da bios, já que a bios se refere à vida
qualificada do cidadão grego. A zoé tem como exemplo a vida da mulher, do escravo, do meteco, das crianças,
enfim, daqueles que não participam das decisões na pólis.
13

Ver FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. Ver especialmente a discussão sobre biopolítica e

biopoder na “Aula de 17 de março de 1976”.

com ela. A seguir, apresentamos o que eles/elas nos falam sobre como os serviços da
assistência social participam do cotidiano, como são avaliados e que outras ações são
sugeridas.

Maria (L 117-118): Sim. Aí eu venho aqui e tomo o café daqui pra reforçar, o dia
que tiver lavo roupa, tomo banho todos os dias, depois vou pra biblioteca.
Raquel (L 114-115): A gente vem pra cá tomar banho. Comi. Não sei se é isso que a
senhora quer saber ... só sei que eu tô falando.
João (L 221-222): Neste tempo que eu estou na rua. Toda cidade que eu vou
procuro ou o POP ou o Albergue. Se eu tiver sozinho procuro o Albergue. (L 244248): Sozinho, na rua não tinha conhecimento de nada. Antigamente eu não sabia
pedir nada e pra eu não passar fome eu procurei. Aí me disseram tem um órgão que
ajuda vocês que estão na rua, pessoas de rua que passava e via minha situação. Aí eu
comecei a procurar e eu achei ótimo porque é uma ajuda é um modo de você não
querer morar. Muitos querem viver disto aqui. Eu não pretendo viver aqui deste
jeito. Eu sei que não é desumano é humano o que eles fazem pela gente.
José (L 174): Oxe tem muito tempo. Comecei no de lá de cima e depois vim pra cá.
Tem uns 2 anos.

A contribuição do Centro POP no cotidiano pode ser também dimensionada, nos
relatos dos participantes, ao falarem das dificuldades enfrentadas nos fins de semana/feriados,
quando o centro não funciona.

Maria (L 129-130): Já é um pouquinho mais complicado, porque não tem Centro
POP, não tem Casa de Ranquines. Durante o dia a gente tem que dá o jeito da gente
pra arrumar comida.
Raquel (L 120-123): Quando encerra o último dia do POP que é o final de semana,
aí a gente fica, vai pra praça, vai pra outra praça, tem uns restaurantes que a gente
pega comida.

De acordo com as falas dos protagonistas deste estudo, o Centro POP é utilizado no
dia a dia dessa população, e funciona como uma estratégia para suprir suas necessidades
básicas para a sobrevivência nas ruas. Geralmente, ele é acessado para alimentação,
higienização pessoal e dos pertences e para o atendimento técnico, que corresponde à
facilitação do acesso aos serviços e às demais políticas públicas, mediante encaminhamentos,
articulações, contatos telefônicos, visitas institucionais e participação em reuniões, como
alguns relatos indicam.

João (L 252-253): Os documentos, eles ajudam pra caramba aqui. Se você precisar
tirar uma identidade, de uma declaração pra algo.

Pesquisadora (L 116): Como você conseguiu o Bolsa Família?
José (L 117): Aqui no POP. Peguei o encaminhamento e fui.
Pesquisadora (L 118): Então você tem todos os seus documentos?
José (L 119): Sim, eu tenho.
Pesquisadora (L 120): Como você conseguiu tirar seus documentos?
José (L 121): Peguei o encaminhamento no POP e fui na defensoria pública.
Pesquisadora (L 146): Você se inscreveu foi no Minha Casa, Minha Vida?
José (L 147): Foi. Me inscrevi pelo POP também.

O albergue municipal é um outro serviço bastante acessado pela PSR. Dos quatro
participantes deste estudo, três passaram, em algum momento, por lá. No entanto, todos,
atualmente, optaram por dormir nas ruas, pelos seguintes motivos: a necessidade de dormir
junto com o/a companheiro/a; a necessidade de estar junto dos amigos; e o hábito de dormir
muitos anos no mesmo local.
Essas informações estão em consonância com a pesquisa do MDS, segundo a qual
46,5% dos entrevistados preferem dormir na rua, enquanto 43,8% manifestam intenção por
dormir em albergues. As principais razões apontadas para a preferência pela rua são: a falta de
liberdade nos albergues (44,35%), seguida do horário de entrada, saída e demais rotinas
(27,1%) e, em terceiro lugar, o fato de ser proibido, em tais locais, o uso de álcool e de drogas
(21,4%) (BRASIL, 2008).

Maria (L 276): O albergue em si é bom ... eu não tenho nada o que dizer não.
João (L 255): O Albergue. Também tem os albergues que são particular. Fiquei uns
4 meses lá.
Raquel (L 310): Não. Nunca passei pelo albergue tia.
Pesquisadora (L 311): Foi. Por quê?
Raquel (L 312-313): Assim, porque eu nunca quis tia. Eu ouvi dizer que lá é chato
tia. Lá a pessoa não pode ficar perto do seu esposo.

João sugere, para o albergue, mais rigor e critério na seleção dos usuários do serviço:
João (L 276-282): Estes albergues que tem ... deveria ter mais pra ajudar aquelas
pessoas que querem ser ajudadas. Eles deveriam também olhar realmente ... eu sei
que todo mundo é ser humano, mas tem pessoas ali ... tem pessoas que realmente
entram pra sair disso e tem pessoas que vem para atrapalhar. Então deveria ser mais
visto isso aí, analisado se a pessoa realmente quer. Se a pessoa aprontou ela tem que
ter um retroativo, tem que passar um tempo sem tá ali dentro. Aí a pessoa briga, faz
o que faz, passa 15 dias e depois vem pior ainda. Aí quer bagaçar tudo. Acaba com
quem quer ser ajudado e com ele próprio.

Os albergues foram um assunto frequente nas conversas tecidas com as pessoas de rua,
sobretudo sob o ângulo da recusa e de suas razões. Um motivo constante foi a disciplina
imposta aos usuários, com horários, “fila para tudo”, controle; em suma, tudo aquilo que

caracteriza as instituições disciplinares. Outro argumento se referia aos frequentadores
habituais dos albergues, qualificados de ladrões ou vagabundos, pessoas de convivência
perigosa (KASPER, 2006).
O Bolsa Família, popularmente chamado de “bolsa”, é um benefício socioassistencial
que faz parte do rol dos benefícios ofertados pelo governo federal. Todos os participantes
deste estudo já foram contemplados com esse auxílio. No momento, dois estão fazendo uso.
Quando questionados sobre o programa, afirmaram:
Maria (L 209): Já tem 2 anos. Já tive que atualizar já. Era 124,00 e passou pra
130,00, mas aí eu tirei minha filha.
João (L 169-171): Eu recebo o bolsa, mas por causa desse documento que eu perdi
... eu já tinha esquecido do bolsa, não queria nem mais receber assim, com raiva,
fiquei com raiva deste dinheiro, na verdade não deveria ter.
Pesquisadora (L 172): Por quê?
João (L 173): É muito fácil para os moradores de rua usar droga ... adquirir qualquer
coisa.
José (L 105): Era R$ 87,00 aí passou para R$ 89,00.
Pesquisadora (L 106): E com este dinheiro você consegue fazer o quê?
José (L 107): Comprar minhas coisas de higiene, minhas coisas pessoal.
Raquel (L 175): Não. Até um pouco eu recebia o Bolsa Família dos meus filhos,
mas passei tudo pra eles.

O comentário de João faz-nos refletir sobre o uso desse benefício pela PSR, já que,
financeiramente, ele não contribui efetivamente para a saída das ruas, pois o valor recebido,
por exemplo, não viabiliza o pagamento do aluguel de um espaço para morar. Em seu estudo,
Barbosa (2017) relata o depoimento de um dos participantes, que se refere ao programa com
conotações semelhantes à de João, chamando-o de “bolsa noia” (BARBOSA, 2017, p. 61).
Realiza reflexões sobre o momento de construção das políticas públicas, da distância entre os
elaboradores e seus executores, não considerando os recortes e a própria natureza.
Retomando as discussões de Agamben (2007) e de Foucault (2005), e refletindo sobre
a concessão do Bolsa Família, este não estaria retroalimentando o controle e o dispositivo de
captura dessa população? Dispositivo esse que se ocupa com a vida (biopolítica), mas que
também produz ativamente a morte (tanatopolítica) (BARBOSA, 2017).
Em seu estudo, Lisboa (2013) também reflete sobre a ênfase que a política de
assistência social imprime nos programas de transferência de renda para a PSR, como o Bolsa
Família, visto que, para ela, essas ações podem ser interessantes a curto prazo, já que possuem
efeitos imediatos na melhoria da qualidade de vida dessas pessoas, porém “não possuem o

poder de transformar a estrutura de desigualdade social, mantendo-os na posição de pobres
tutelados pelo Estado” (LISBOA, 2013, p. 166).
Quanto às sugestões de programas/projetos, tivemos as seguintes contribuições:
Quadro 19 – Sugestões de programas/projetos para a PSR.

MARIA
“Não, no momento eu não
tenho nada pra dizer sobre
isso. Deixe eu quietinha
mesmo” (L 305).
“Não tenho nada pra dizer
não! Tá tudo muito bem, tá
tudo muito bom” (L 321).

JOSÉ

JOÃO

RAQUEL

“Aqui no POP algum curso
para renda ... ter sua própria
renda” (L 216).

João: Tem o auxílio.
Eu nunca dei entrada
(L 270).
Pesquisadora: Qual
auxílio? O auxílio
moradia? (L 271)
João: Sim (L 272)

“Um trabalho, um
serviço” (L 334).

Fonte: Quadro elaborado pela autora.

De uma forma geral, os participantes tiveram dificuldade para responder a essa
pergunta. Maria, conforme transcrito no quadro 19, não quis responder e pediu para “deixá-la
quieta”, que estava “tudo bom”. Por mais que tentasse modificar a pergunta para ajudá-los a
entender, as respostas foram evasivas. Pudemos refletir sobre essa situação, situando
novamente o contexto em que ocorreram as entrevistas, a entrevistadora/pesquisadora e a
relação que estabelecem com esse serviço, que supre as suas necessidades básicas. Sugerir
algo pode, talvez, ter o sentido de criticar o serviço do qual eles dependem para sobreviver.
A mesma implicação descrita acima pode ter ocorrido no questionamento sobre a
satisfação do serviço prestado pelo Centro POP, que foi avaliado de forma positiva, não sendo
citado nenhum ponto de melhoria.
Outros serviços também foram mencionados, como a abordagem social, o Caps AD e
o consultório na rua, conforme os relatos:

Pesquisadora (L 198): Que mais você conhece?
José (L 199): Só o albergue e a abordagem social.
Pesquisadora (L 200): Você já utilizou alguns destes outros serviços?
José (L 201): A abordagem já.
Pesquisadora (L 202): Foi por qual motivo a abordagem?
José (L 203): Pra me levar pra algum evento.
Pesquisadora (L 204): E quando você tava na rua a abordagem chegou a falar com
você?
José (L 205): Sim, chegou.
Pesquisadora (L 206): E como foi?
José (L 207): Normalmente, conversou, perguntou sobre mim.

João (L 288-289): Já passei pelo Caps AD, tenho registro lá. Até era ontem pra ir
buscar meus remédios, tinha consulta também. Esqueci!
Pesquisadora (L 317): A abordagem social já falou com você? Que fica na rua e
aborda.
Raquel (L 318): Já fiz muitos exames, dão camisinhas.
Pesquisadora (L 319): Deve ser o pessoal do consultório na rua.
Raquel (L 320-321): Isso. Eles me ajudam muito com os exames. Eu me cuido
bastante. A minha saúde é uma saúde de ferro tia. Pra visto que eu usei muita droga
tia ...
Pesquisadora (L 270): Já usou algum outro serviço da prefeitura?
Maria (L 271): Sim! Consultório na rua, já fiquei no albergue da D. Jeane.
Pesquisadora (L 272): Quando usou o consultório, foi por qual motivo?
Maria (L 273): Acho que eu pedi a eles um remédio pra dor de cabeça. Só isso.

Sobre as necessidades do momento, relataram:

Maria (L 287): No momento moça, a minha passagem pra ir embora.
João (L 267): Os documentos.
José (L 211): Agora nenhuma.
Raquel (L 327-329): Pra mim ver minha mãe, abraçar minha mãe, e ver minha filha,
que meu marido vá embora comigo, que esse documento sai o mais rápido possível
pra nós ir simbora, quero uma casa pra mim viver com ele, é isso.

Observando as “necessidades” elencadas, estas estão relacionadas com os projetos
para o futuro que foram citados no eixo Perspectivas para o futuro.
A relação estabelecida entre a PSR e a Política de Assistência Social, discutida neste
eixo, ressalta a importância da efetivação das articulações entre as políticas públicas, no
intuito de atender à complexidade do fenômeno da população de rua, para então poder ofertar
possibilidades de construção de novos projetos de vida. Barbosa (2017) ressalta que a
complexidade inerente à situação de rua “exige uma rede também complexa de acolhimento,
que integre a Saúde, a Assistência Social, a Habitação, o Trabalho e Renda, a Educação,
enfim, todas as dimensões que envolvem a vida desta população e que denotariam um
acolhimento integral do caso” (BARBOSA, 2017, p. 70).

6.5 Relação com a rua
Morar nas ruas não é uma condição fácil para uma grande parte das pessoas. Lida-se
com uma série de situações inoportunas, tais como a violência, a falta de higiene, a escassez
de alimentos, a precariedade e o abandono de uma vida digna. Estar em situação de rua

significa também “adquirir outros referenciais de vida social” (VIEIRA; BEZERRA; ROSA,
1994, p. 96). A rua pode ser espaço de prazer e de dor, de novas descobertas, de encontros e
desencontros. Dessa forma, faz-se necessário criar táticas e estratégias para sobreviver diante
dessas adversidades. Aqui, será contada a relação da PSR com as ruas, o dia a dia vivido por
ela.
Conforme descrito no tópico que versa sobre a relação com a Política Pública de
Assistência Social, a PSR utiliza os serviços ofertados para suprir algumas necessidades
básicas, tais como alimentação e higienização. Também utiliza instituições de caridade, como
a Casa Ranquines, como suporte no dia a dia. Nos dias em que estes serviços/instituições não
funcionam, busca alternativas como, por exemplo, pontos na cidade nos quais seja possível
improvisar a higienização. Torneiras em postos de combustível, em praças ou chafarizes são
utilizados para banho, como também para lavagem de utensílios e roupas. Além disso, pratica
mendicância, visando à alimentação ou o suprimento de outras necessidades, conforme os
relatos a seguir:
Maria: Quando é de tarde, às vezes a gente fica numa praça conversando, às vezes
cada um vai fazer outra coisa, aí quando for de cinco/seis horas a gente se encontra
lá na praça Deodoro pra pegar alimento pra gente comer de noite e aí a gente vai
dormir (L 126-127). Durante o dia a gente tem que dar o jeito da gente pra arrumar
comida (L 129-130). Eu vou pedir nas portas dos restaurantes que tiver aberto (L
132). Na rua também, na porta das casas. O que for mais fácil no momento, o que
tiver mais propício no momento (L 134). Eu tenho o Bolsa Família também. Hoje é
dia de pegar dinheiro do Bolsa Família. Como hoje é dia de semana eu vou comer
aqui. Se fosse final de semana eu iria comprar alguma coisa pra comer. Pra evitar de
pedir. Porque se eu tiver alguma forma de evitar pedir eu prefiro (L 136-138).
Raquel: [...] tem casas que chega e diz venha cá e dá comida a gente ... e assim a
gente vai levando. Menos droga ... a gente não convive mais com esse tipo de coisa
(L 120-123). Tem uma casa de padres ali embaixo que também dá comida. A gente
vai pra lá assim às vezes no dia a gente vai, depois a gente retorna pra gente entrar
aqui ... e assim a gente vai fazendo a nossa vidinha (L 129-131). À noite eu durmo
aqui tia nesse preidão ... eu durmo com ele. Os vigias daí gostam muito da gente,
nós deixa tudo limpinho, a gente não faz nojeira ... a obrigação da gente quando a
gente quer fazer ... xixi é normal, ele leva eu pro cantinho assim coloco o papelzinho
assim eu faço xixi, agora outra coisa eu faço numa bolsa e jogo no lixo (L 133-136).
Ali tem uma praça, que tem umas árvores bem bonitas, tem uma torneira enorme. Aí
nós toma banho à vontade. Nós somos assim tudo limpinho ... lavo minhas roupas,
roupas do marido (L 138-139).
João: Sempre tem um lanchinho, alguma coisa pra adquirir e pedir né já que eu não
tenho dinheiro mesmo ... então às vezes também a gente é muito desprezado pelas
pessoas. Eu já ando diferente dos outros eu ando mais arrumado, explico minha
situação que eu estou na rua (L 17-19). Na sexta tem um café da manhã que a mãe
da igreja faz, não sei se a senhora viu, perto do hotel Mercure, quase em frente ... aí
dia de sexta-feira pela manhã ela faz lá, tem a camisa da ação que ela faz que é Vaso
Novo, faz a oração da missa, tem o café, aí ela libera. E dia de domingo a gente vai
pra igreja dela, tem o café da manhã (L 138-141).

José: Ah é muita coisa ... me sinto muito desprezado (L 48). Desprezado na rua pela
família. Não tenho família do meu lado (L 50). Peço nos restaurantes (L 97).
Banheiro do centro e banho na torneira (L 99).

Os depoimentos sinalizam as dificuldades encontradas pela PSR durante os dias em
que não contam com o atendimento dos serviços públicos e/ou instituições de caridade. Foram
descritas algumas rotinas, estratégias e vivências utilizadas nesses períodos, no tocante às
necessidades básicas. As Orientações Técnicas desenvolvidas pelo MDS (2011), que tem por
finalidade orientar a gestão do Centro POP, preconizam que:

O Centro POP deverá funcionar, ou seja, estar aberto para atendimento ao público,
necessariamente nos dias úteis, no mínimo 5 (cinco) dias por semana, durante 8
(oito) horas diárias, garantida a presença, nesse período, de equipe profissional
essencial ao bom funcionamento da Unidade (BRASIL, 2011, p. 51).

No entanto, as necessidades básicas de alimentação, por exemplo, elementares a todo
ser humano, ocorrem diariamente, inclusive nos fins de semana e feriados. Cabe aqui a
problematização: Quem o serviço atende? Para quem é feita a política? A situação de extrema
vulnerabilidade fica até mesmo mais latente nos dias não úteis. Essa perspectiva abre
possibilidade de análise de várias questões, retomando a reflexão de Barbosa (2017) sobre o
argumento de Foucault (2005) acerca da população e da biopolítica. Há distintas camadas de
aplicação das políticas públicas:

A primeira é a distância entre elaboradores de políticas públicas (policymakers) e
seus executores. Os níveis de elaboração são formados, normalmente, por técnicos
da área, que tem nível superior de instrução e são especialistas nos assuntos.
Todavia, nem sempre eles conhecem a realidade prática ou o chão de concretização
dessas políticas públicas. Na outra ponta, nas ramificações mais capilares, há os
executores de políticas públicas [...] (BARBOSA, 2017, p. 187).

Um outro ponto é a escolha do local para dormir. Geralmente, dormem no mesmo
local, todos os dias. A opção do local depende da preferência de cada um. José prefere um
local com mais pessoas, já João opta por um local mais reservado.

Pesquisadora (L 149): Você sempre dorme no mesmo local?
João (L 150): No mesmo local sempre. Aqui embaixo da marquise deste prédio.
Pesquisadora (L 151): Por algum motivo especifico você escolheu este local?
João (L 152-157): Foi. Muitas praças aí já passei e vi muitas pessoas dormindo.
Tem aquele caso da pessoa dizer: ah é uma alma sebosa, gosta de roubar as coisas
dos outros ... então eu testei próprio isso ... fui dormir e quando acordei não tinha
mais nada... minhas roupas foram tudo embora. Fiquei só com a muda de roupa. Saí
de casa em casa me humilhando pra pedir uma muda de roupa. Aí foi que algumas
pessoas da igreja vieram e me deram roupas. Muita gente ajuda eu e minha esposa aí

e dois amigos. Cada um tem seu colchãozinho. A pessoa vem dá uma sopa, sinto
que eles sentem pena da gente.

Não juntar muitos objetos é uma tática para a mobilidade nas ruas. Sacolas e mochilas
são utilizadas para transportar objetos pessoais. Raquel fala que morador de rua não pode ter
muitos pertences, pois não tem local para guardá-los. Ela e seu companheiro João optam por
não ter muitas coisas e, assim, podem levá-las para todos os locais.
Pesquisadora (L 140): E as coisinhas de vocês ficam aonde?
Raquel (L 141-143): A gente sempre anda com elas tia, eu tenho uma bolsa de
costas, ele tem a dele e bota assim ... tem outra bolsinha que a gente leva os nossos
lençol só. Porque assim, quem vive na rua não pode ter muita coisa e não chove não
ali onde a gente fica. Não molha de jeito nenhum. E o vigia gosta muito da gente.

De onde vem o dinheiro? Geralmente, vem de trabalhos que exigem pouca ou
nenhuma escolaridade e especialização. É assim que a PSR garante alguma renda. Em uma
pesquisa realizada sobre a PSR no Rio de Janeiro, Sarah Escorel (2000) focaliza as formas de
obtenção de rendimentos e constata que:

Podem ser assinalados três grandes grupos de atividades realizadas com vistas à
obtenção de rendimentos: catadores, atividades vinculadas à mercantilização do
medo ou propriamente à criminalidade e a mendicância. Porém, as atividades da
maior parte dos moradores de rua têm a intermitência como característica principal;
são atividades que precisam ser buscadas diariamente: dependendo das
circunstâncias, das solicitações ou das oportunidades, o morador de rua pode estar
guardando carros hoje, carregando e descarregando caminhões de feira amanhã,
encartando jornais ou catando latas. A atividade de biscateiro, o ‘faz tudo’ que
respondia às pequenas e variadas solicitações de consertos domésticos, foi
substituída pelo ‘faz qualquer coisa’, solicitada ou não. São as ‘virações’, qualquer
atividade (ao seu alcance) que possa se reverter em dinheiro, alimentos ou outros
donativos. Como dificilmente conseguem auferir rendimentos necessários à sua
reprodução (mesmo levando em conta o rebaixamento dos custos em função de sua
moradia nas ruas), devem associar atividades variadas com a obtenção de auxílios
(monetários ou não) de particulares ou de instituições (ESCOREL, 2000, p. 163).

As atividades, como coloca Escorel, geralmente são conciliadas: catam latinhas,
vigiam carros e praticam mendicância ao mesmo tempo, por exemplo.
A prática de mendicância esteve presente em todos os relatos dos participantes deste
estudo, informação divergente do dado apontado pela pesquisa do MDS, segundo a qual
70,9% dos pesquisados exerciam alguma atividade remunerada, e apenas 15,7% deles pediam
dinheiro como principal meio para a sobrevivência (BRASIL, 2008). Raquel e João também
trabalham como flanelinhas. José e Maria não exercem nenhuma atividade laboral. Afirmam
que o dinheiro recebido pelo Bolsa Família, o apoio dos serviços/instituições e a mendicância
suprem a carência.

Raquel (L 170-173): É final de semana é parado aqui. Um pouco parado. Aqui fica
um monte de carro que tem uma faculdade. Aí eu digo boa noite! Deixe o carro aí
que eu olho. Tá certo. Aí quando ele sai ele me dá. Me dá R$ 1,00, R$ 2,00 ... assim
eu vou ajuntando, meu esposo também é assim que ele me dá umas coisinhas e eu
também.

Maria demonstrou ficar muito incomodada quando ela precisa pedir, sinalizando já ter
sofrido atos de violência moral, em algumas vezes.
Maria (L 140-141): Porque em partes é humilhante, porque já teve pessoas que ‘vá
trabalhar, sua vagabunda, vá fazer ponto, vá fazer programa’. Aí querendo, ou não,
tem que responder da mesma forma entendeu ... eu não gosto.

Segundo Mendes (2007), a mendicância, apesar de muito frequente, não deve ser
generalizada ou tratada de forma homogênea.
O ato de mendigar nem sempre é realizado de forma humilhante – e o que é
humilhação para uns não o é para outros. A mendicância se apresenta também
investida de malandragem – o termo manguear, utilizado pelos moradores de rua, é
próprio desse tipo de ação – e investida de violência – que se expressa no ato de
achacar, coagir uma pessoa a dar o dinheiro amedrontando-a, às vezes somente pela
imposição de sua presença, às vezes ameaçando-a de agressão (MENDES, 2007, p.
99).

A violência física esteve presente nos discursos de José e de Raquel. Ambos relataram
situações de violência vividas.

Raquel: Oh tia eu já sofri. Um caba me pegou e me raptou, me levou pra longe. Ele
me estuprou e tudo (L 185). Acho que sim tia. Eu nunca tinha visto ele, nunca vi ele
na minha vida. Ele chegou perto de mim e deu boa tarde, eu disse boa tarde ... toda a
vida eu fui assim, saber falar com as pessoas. Aí ele olhou assim pra mim e disse
boa tarde, qual o seu nome? Aí eu disse. Você é muito bonita, eu disse muito
obrigada. Aí ele disse: vamos ali mais eu, comprar ali uma pipoca, uma coisa e
outra. Eu disse: vamo. Você quer conhecer ali uma casa de uma colega minha? Mas
ela mora ali em tal canto, só um pouquinho longe, mas ela é legal, depois eu lhe
trago. Aí eu entrei no carro dele e fui mais ele (L 190-195). Cheguei lá nessa casa,
ele me amarrou, amarrou minha boca, minhas mãos, meus braços, aí começou a
bater em mim e me violentar. Teve uma hora que ele tirou o pano da minha boca, aí
eu perguntei a ele por que ele tava fazendo isso comigo, porque eu não devia nada a
ele, por que isso? ... “Porque você é muito bonita e eu quero você, eu sou psicopata
e eu gosto de matar, estuprar mulher”. Aí, ele tapou a minha boca. Eu chorava muito
tia, muito sangue avoava de mim (L 197-201).
José (L 125): Fui espancado, quebraram o meu braço, cortaram minha orelha.
Pesquisadora (L 126): Como foi que ocorreu este espancamento?
José (L 127): Eu não sei ...a gente tava dormindo eu e a Fabiana e começaram a
espancar a gente.

No período de 2010 a 2012, foi notificado um crescimento no tocante ao número de
assassinatos de moradores de rua de Maceió. Em sua dissertação, Silva (2013, p. 106)
problematiza que tais acontecimentos revelam um jogo de poder que responsabiliza a própria
população de rua por suas mortes, “[...] naturaliza-lhes como inerentes à vida que levavam,
criando uma zona de irresponsabilidade generalizada”.

Ao serem jogados às ruas, lugares que expõem suas vidas à sorte de ações por parte
de quaisquer um, estes sujeitos apenas resistem, e na tentativa de continuarem vivos
levam a vida que podem, apesar de mantê-la numa irregularidade que alimenta e
sustenta uma certa lógica de governo que não cessa em condená-la como um mal
para cidades (SILVA, 2013, p. 106).

Foi a partir desses assassinatos de moradores de rua que esta questão da
vulnerabilidade ficou evidente, tornando necessária uma atuação que vise à garantia de
direitos. Ao mesmo tempo, a ambiguidade relacionada às formas de viver é ativada pelos
discursos do direito criminal, “[...] diante da possibilidade de um assassínio e das condições
‘não-dignas’ em que vivem, o ‘resgate’ de suas humanidades e dignidades, corroídas pela
história de exclusão em que foram inscritos como sujeitos, torna-se necessária” (SILVA,
2013, p. 127).
Quando indagados sobre como eles se sentem nas ruas, em alguns afloram sentimentos
ligados à carência familiar. Maria fala de sentimentos ambivalentes, pois ora relata momentos
prazerosos, ora relata as dificuldades enfrentadas.

Maria (L 100-103): Eu não gosto muito não, mas em partes eu gosto. Eu gosto da
parte de viajar, eu gosto de viajar muito, eu me denomino mochileira entendeu ... e a
parte de viajar é muito bom porque cada lugar que a gente chega conhece pessoas
novas, lugares novos, mas o fato de tá dormindo na rua, apesar que agora eu arrumei
uma barraca.
Raquel (L 69-70): Tia eu me sinto mal. Não vou mentir pra senhora. Não é legal né
tia ... eu tenho casa, eu tenho tudo e viver na rua.
João (L 110-116): Um pouco desprezado. Pela vida que eu tinha antigamente, fui
um cidadão, sou um cidadão ... mas muita gente despreza ... eu sinto isso no meu
coração. Algumas pessoas ajudam, perguntam, às vezes como o pessoal da Gazeta
veio, fez entrevista comigo e eu contei minha vida ... então a gente se sente
humilhado, nunca passei por isso assim, meio complicado, difícil de entender
porque todo momento a gente pede a Deus que abra uma porta, mas assim se a
pessoa andar na direção de Deus eu creio que vá ... a gente vai sair dessa. Eu estou
com uma companheira, se ela usar droga de novo, ela usava também ... eu consegui
tirar ela.

Perguntamos sobre as dificuldades enfrentadas diariamente. Um repertório presente no
discurso de Maria foi o preconceito, citando algumas situações que a incomodaram muito.

Maria (L 223-230): Ah eu vejo mais o preconceito. É porque assim, tem pessoas
que passa e olha pra gente, só porque a gente tá na rua aponta o dedo e fala ah
porque é um drogado, ah porque é isso, ah porque é aquilo. Outro dia a gente tomou
um enquadre, todo mundo que tava na Praça Deodoro, esperando comunidade por
causa de um que tava cheirando cola ali próximo ao Tribunal de Justiça e os
policiais falaram não quero ninguém aqui se tiver um, usando droga, todo mundo
que tiver próximo vai pra delegacia também. Tipo eu não faço uso de droga
nenhuma, eu só faço uso do cigarro mesmo, nem beber eu não bebo, eu acho que tá
errado isso daí, por que que vai me levar se eu não faço parte disto e muitos ali que
eu sei que fazem uso de droga, mas não fazem ali pertinho pra respeitar e vai ser
levado ali por que tá entendo?
Maria (L 234-236): Aí meu ex quando tava comigo ele machucou a mão por causa
que ele tava brincando com o cachorro, aí todo mundo já diz: ah brigou com quem?
Já pensa que foi uma briga. Também acho errado, só porque tá na rua tem que tá
brigando?

Raquel e João demonstraram mais aceitação da condição atual, conforme os relatos
abaixo:
Raquel (L 273): Legal. Eu acho ótimo. Nada me incomoda, nada me atrapalha.
João: Pelo menos eu me sinto feliz. Estou com minha companheira do lado.
Diariamente a gente pega comida vai pra praça, descansa um pouco (L 188-189).
Hoje eu estou mais em paz. Antigamente, era pegar em dinheiro e ir ali pra baixo
usar droga. Ficava o dia todo ... uma coisa horrível (L 189-190).

José expressa, em seu repertório, o medo de viver nas ruas: “Rapaz ... a pessoa tá
arriscado a tudo. A dormir e não acordar ... arriscado a tudo” (L 143). Nesse contexto, a rua
incorpora uma série de sentidos utilizados pela PSR para descrevê-la. Observa-se o uso de
metáforas, afetos, exemplos do cotidiano, denotando a multiplicidade de emoções ali
produzidas.
Na pergunta sobre o que os faz continuar nas ruas, foi trazida uma gama de situações,
conforme depoimentos abaixo.
Maria (L 240-241): Não sei ... porque aqui mesmo em Maceió já morei em duas
casas aqui e eu fui pra rua de novo. Em Recife tive casa e fui pra rua. Em Limoeiro
tive casa e fui pra rua.
João (L 210): A situação financeira. Se não fosse isso já estaria dentro de uma casa.
José (L 145): Às vezes eu penso em ir simbora esperando só minha casa sair.
Raquel (L 275-278): É como eu expliquei pra senhora, essa benção minha aí ... eu
não vou embora sem ele. Aí quando chegar esse documento dele, que eu tenho fé em
Deus que vai chegar neste mês, o registro dele, a gente vai embora. E ele também
tia, ele vai arrumar um serviço pra ele, ele é garçom ... ele lhe explicou tudo o que
ele faz né?

Para as políticas públicas, o tempo de permanência nas ruas é um aspecto
extremamente desafiador. Acolher pessoas que estão há uma semana na rua requer iniciativas
e estratégias diversas das utilizadas no caso daquelas que já estão na rua há 10 anos, por
exemplo. Neste estudo, identificamos, em algumas situações, a alternância entre a situação de
rua, a moradia convencional e a vivência em abrigos. Em todas as falas, o desejo de sair das
ruas se fez presente, mesmo para Maria, que expressa sentimentos ambivalentes sobre sua
vivência no espaço público.
Pinto (2015), em seu estudo, contribui para essa reflexão, ressaltando que:

O maior tempo de permanência nas ruas contribui para que os indivíduos ou famílias
fiquem expostos às mais profundas violações de direitos nos espaços urbanos,
contribuindo para um maior adoecimento, descrédito e desesperança na
possibilidade em construir novas possiblidades de vida. Além disso, não podemos
esquecer que a população em situação de rua também envelhece agravando as
condições de vida (PINTO, 2015, p. 125).

A rua tem, no seu universo, um conjunto diferenciado de pessoas, que, vivendo em
seus agrupamentos e comunidades, conseguem compartilhar conhecimentos, interesses e
saberes fantásticos. Retratamos, neste tópico, a luta diária pela sobrevivência, sendo cada dia
um dia. São vidas e devem ser respeitadas, sem julgamentos morais sobre suas escolhas.

6.6 Relação com as drogas
O convívio com as drogas perpassa as histórias dos participantes deste estudo. Maria,
Raquel e João fizeram uso principalmente do crack e estão buscando bani-lo de suas vidas.
Nos relatos a seguir, estão trechos das entrevistas que expressam a relação com as drogas.
Maria (L 188-192): No dia mesmo que eu saí pra rua eu parei, já era mais de meia
noite, eu fui perguntar a hora uma menina que tava na frente de casa, aí ela: “acende aqui meu crack”, - “eu não, nem sei como é isso ... e não quero saber não”.
Ela ficou insistindo, insistindo ... de tanta insistência eu falei – “tá bom, vamo lá”.
Ela botou a lata na minha boca e acendeu o isqueiro pra mim fumar, tentação do
inimigo né ... aí foi quando eu fumei e gostei ... fiquei usando 2 anos.
Raquel (L 40-41): Quase um mês. E não estou nem aí pra ela e nem quero mais.
Nem fumar eu fumo mais. Eu tenho nojo de cigarro. Quando tem alguém fumando
na minha frente eu digo: “vixe que fedor”.
João (L 62-65): Particularmente eu não posso voltar mesmo pra Sergipe, porque eu
acabei roubando, roubando até amigos, bicicletas de amigos. Tem uns dois policiais
lá que são amigos meu, que eu acabei roubando as bicicletas deles, troquei por droga
e ele disse que no dia que eu aparecesse lá, ia arrancar minha cabeça. Já não posso
voltar.

Em seu discurso, José relata, com menos intensidade, a relação com as drogas na sua
história de vida, conforme trecho transcrito abaixo:

Pesquisadora (L 108): José, você tem algum tipo de vicio?
José (L 109): De vez em quando eu cheiro cola.
Pesquisadora (L 110): Mais algum outro?
José (L 111): Cachaça.
Pesquisadora (L 112): Com qual frequência?
José (L 113): Final de semana.

Raquel e João afirmam que o motivo de eles irem viver nas ruas foi o consumo das
drogas. Maria e José relatam outras motivações, conforme explicitado no eixo Histórias de
vida.

Raquel (L 350-352): Fumei tia. Quando eu ia usar ela, tem que fazer a cinza ... aí
quando eu dava o primeiro vapor, aí vinha a vontade de eu dar um trago no cigarro.
Quando eu não tava usando, eu não sentia vontade de fumar cigarro nenhum tia.
Diga se não era a nojenta que tava me puxando ... pro fundo do poço.
João (L 189-190): Hoje eu estou mais em paz. Antigamente, era pegar em dinheiro
e ir ali pra baixo usar droga. Ficava o dia todo ... uma coisa horrível.

Em seu estudo, Caravaca-Morera e Padilha (2015) relatam os sentimentos antagônicos
vividos por quem experiencia as situações de rua e o uso de drogas:
A rua e o crack são metáforas dicotômicas que não possuem um significado restrito.
A rua e o crack são plurais e singulares, são vida e são morte, são liberdade e
escravidão, são conceitos existenciais e subjetivos que dependem da percepção
contextual e da pessoa que olha para eles nesse momento e nesse lugar. Suas
definições e construções linguísticas vão além do incômodo (CARAVACAMORERA; PADILHA, 2015, p. 63).

As múltiplas funções na vida cotidiana dos usuários de drogas também são enfatizadas
por Silva C. L. da (2012) em seu estudo. Faz-se necessário conhecer a relação que cada
pessoa mantém com a substância que utiliza, para assim compreender o lugar que esta ocupa,
a sua função e/ou sentido em sua vida. No nosso estudo, os repertórios produzidos sobre as
drogas, pelos entrevistados, têm o sentido de um inimigo a ser combatido, pois os
participantes posicionam-se na busca de outros sentidos para suas vidas (SILVA, C. L. da,
2012).
Em alguns momentos das suas histórias, o consumo de drogas ocorreu como parte da
rotina, desde o acordar até a hora de dormir.

João (L 126-128): Todo não, eu também comia ... eu tava já querendo sair ...
antigamente eu no começo, não sobrava nada ... eu cheguei a pesar 53kg ... hoje eu
peso 87kg ... diferença muito grande. Eu tava quase morrendo, meu irmão tava
assim também.

As histórias de recaídas são contadas por João e Raquel: “Já fiquei quase 1ano sem
usar e voltei” (João, L 195); “Quando eu ia pra casa mais ela eu já passei já tia anos, isso em
casa, dois anos sem usar. Bença né!?” (Raquel, L 51-52). João afirma que o uso de drogas já
foi utilizado como estratégia para amenizar as decepções, a falta de expectativas, a saudade,
as tristezas, a solidão, enfim, as agruras dos sofrimentos de sua vida: “Quando eu penso na
minha família ... que eu vejo que ela mim deixou na mão e eu fazia de tudo” (João, L 197).
Quando questionados sobre tratamento para a dependência, por exemplo, João cita o
Caps AD e o uso de medicações como suporte. Maria e Raquel, por seu turno, buscam na fé o
apoio para evitar recaídas, conforme descrito no eixo Apoio espiritual.
João: Já passei pelo Caps AD, tenho registro lá. Até era ontem pra ir buscar meus
remédios, tinha consulta também. Esqueci (L 288-289). Antes em Aracaju tava
tomando um azulzinho que era pra ansiedade e pra dormir. Até hoje eu não durmo,
não sei o que é dormir, mesmo não usando a droga eu estou sem dormir. Às vezes eu
fico preocupado com ela também. Eu só ressono qualquer zuadinha eu me acordo e
sento. Eu não sei o que é dormir (L 291-294).

Neste estudo, não temos o objetivo de entrar na discussão sobre o uso de drogas pela
população de rua. Contamos histórias de vida dessas pessoas, e a relação com as drogas se faz
presente. A multifatorialidade da dependência de drogas, como o crack e a vida nas ruas,
demandam que ambas as situações sejam compreendidas nas diversas dimensões envolvidas:
pessoal, física, psicológica, social, econômica, familiar, além das questões legais e da
qualidade de vida.
As situações da vida, que levam homens e mulheres a viverem nas ruas, nos
direcionam a uma reflexão, qual seja: mesmo diante das condições de vida degradantes, essas
pessoas buscam outros sentidos e reconstroem seus percursos, buscando estratégias para
ressignificar suas vidas. Podemos ver, nas histórias contadas, o reflexo de políticas públicas
que governam para a morte, e não para a vida, quando permitem a não implementação e a
violação dos direitos dessas pessoas (AGAMBEN, 2007).

7 CONSIDERAÇÕES E CAMINHOS A PERCORRER

Este trabalho teve o objetivo geral de compreender o cotidiano de pessoas em situação
de rua, suas táticas e estratégias para sobreviver nas ruas de Maceió, bem como sua relação
com a Política da Assistência Social voltada a essa população. Para tal, norteamo-nos na
perspectiva da produção de conhecimento do Construcionismo Social, fundamentada no
referencial teórico-metodológico das Práticas Discursivas e Produção de Sentidos.
Elaborar as considerações finais teria o mesmo sentido de finalizar o resultado de uma
pesquisa, porém esse não é o nosso objetivo. O que almejamos não é concluir a pesquisa,
tampouco finalizá-la, posto que, provavelmente, agora tenhamos mais indagações do que
certezas. São conclusões inconclusas, que pretendem iniciar um diálogo no próprio
movimento de finalização de outro. Se conseguirmos afetar algumas pessoas, nosso trabalho
já terá sido recompensador.
Conforme mencionado no início deste estudo, as inquietações que motivaram a escrita
surgiram no exercício da minha atuação profissional no Centro POP. Essa história começou
no dia em que fui designada para trabalhar lá e escutei de alguns profissionais: “Você sabe
quem é o público de lá? São pessoas de rua”. Esses são receios que fazem parte do cotidiano
de uma grande parcela da sociedade. Não é uma crítica aos profissionais que se recusam a
trabalhar com esse público, pois compreendo e vivencio a carência de preparo técnico, desde
a formação acadêmica até a atualização no exercício profissional. Apenas compartilho do
pensamento de que o desconhecido pode causar repulsa para algumas pessoas. Por isso, a
importância de produzir conhecimento sobre essa realidade. São estigmas que estão presentes
em todos os momentos, e construir este estudo me possibilitou ressignificar muitos
estereótipos. Escutar as histórias de vida dessas pessoas causou sentidos em mim, que
culminaram na necessidade de estudar e de escrever sobre essa temática.
Na condição de pesquisadora e de profissional da assistência social, e refletindo sobre
as implicações políticas advindas dessa pesquisa, indago: para quem e para que este estudo foi
desenvolvido? Tentando responder, acredito que retratar o cotidiano de pessoas que se
encontram em situação de rua pode auxiliar na execução de ações que contemplem a realidade
vivida por elas. Essa população é extremamente heterogênea, complexa e multifatorial, e
propiciar momentos de discussão pode contribuir para a compreensão dessas vidas.
Existem muitos trabalhos que estudam a população de rua, em diversas áreas do
conhecimento. Também já discutimos sobre o desafio que é a situação de rua. Podemos,
assim, dizer que esta pesquisa possui a estratégia de contribuir, tornando mais conhecido o

mundo de quem vive nas ruas, muitas vezes silenciado e desconhecido por grande parte da
população, até mesmo por grande parte de gestores de políticas públicas.
Fazendo o caminho de volta, refletindo sobre o percurso trilhado nesses dois anos,
pude sentir o quão difícil é sair da posição de profissional e vestir a camisa de pesquisadora.
Escutei e participei de diversas discussões sobre essa transição de locais, no grupo de
pesquisa Prosa, mas confesso que vivenciá-la foi e está sendo bem desafiador. A todo
momento, esses papéis estão imbricados e, certamente, existe a interferência de ambos na
construção da dissertação. Ressalto que os insights oriundos dos momentos de supervisão
com a orientadora foram essenciais para que algumas problematizações fossem repensadas.
Foi possível sentir a defasagem das informações oficiais disponibilizadas através de
pesquisas que trazem o perfil da população de rua. A última pesquisa nacional foi realizada
em 2007/2008 pelo MDS. Certamente, algumas características já sofreram alterações. Vale
lembrar que Maceió não possui um mapeamento da sua PSR, e as poucas informações
apresentadas neste estudo são oriundas dos relatórios elaborados pelas equipes da abordagem
social e do Centro POP. Sem uma pesquisa oficial, a caracterização da população de rua de
Maceió fica à mercê de dados nacionais, que podem ser divergentes da nossa realidade.
Nas histórias aqui contadas, foi possível ver, condensados, diversos modos de se
relacionar com as ruas e distintas estratégias de sobrevivência e de uso dos recursos
institucionais. Também houve situações convergentes, como a pobreza, as experiências de
violência, a dependência de substâncias psicoativas e as rupturas dos vínculos familiares e
sociais, citando alguns fatores que estiverem presentes neste estudo. Essa mescla de situações
e de relacionamentos com as ruas torna a tarefa de compreender esse fenômeno um grande
desafio. Partindo dessa premissa, a de que são múltiplos os fatores para a ida/saída das ruas, e
de que estes podem estar inter-relacionados uns com os outros, ressaltamos a necessidade de
ações intersetoriais que envolvam e responsabilizem as demais políticas públicas, visto que
são ações voltadas para um cotidiano desafiador, diverso e extremamente complexo.
Conforme citamos, os estudos de Foucault (2005) sobre Estado/biopolítica e de
Agamben (2007) sobre a tanatopolítica – que, de uma forma bem simplista, pode ser definida
como “a política que gere a morte” (BARBOSA, 2017, p. 180) – são outras possibilidades de
análise e de problematização do fenômeno da população de rua. Em virtude da delimitação de
tempo, propomos o avanço dessas discussões em novas propostas de estudo, que possam
olhar para a PSR sob tais perspectivas.
Essa população demanda ser compreendida, levando-se em consideração aspectos
éticos, ontológicos e que tenham a plasticidade de sensibilizar-se com as vontades de cada

um, respeitando as especificidades que se colocam em função da condição de rua. Cuidar da
população de rua coloca-nos desafios profissionais diários. Talvez com um trabalho
sistemático e compartilhado, seja possível potencializar e concretizar qualquer ação. Essa
articulação poderá favorecer a autonomia e o fortalecimento e/ou o desenvolvimento das
potencialidades dessas pessoas, bem como o seu verdadeiro acesso aos direitos sociais.
Com relação às estratégias utilizadas para tornar a rua um local de moradia, nas falas,
foi possível identificar algumas formas alternativas adotadas, como o banho em torneiras, a
prática da mendicância e o uso dos equipamentos públicos como suporte. São estratégias
utilizadas para suprir, principalmente, as necessidades básicas de alimentação, sono e higiene
pessoal.
Mencionamos, no decorrer do texto desta dissertação, os avanços obtidos com a
promulgação das leis/decretos que passaram a estruturar, direcionar e fiscalizar políticas
públicas para essa população, estabelecendo serviços, projetos de responsabilidade dos
estados e municípios. Sabemos que existe um longo caminho a percorrer. No Brasil, não se
observa uma situação de plenitude de direitos para nenhum cidadão, inclusive, e
principalmente, para a população em situação de rua, cuja realidade não é diferente. Os
avanços apresentados mostram que é possível caminhar em busca de oportunidades mais
equitativas para a sociedade, e que a efetivação de políticas públicas pode mudar a situação de
vida dessas pessoas.
Traçamos também, o objetivo de compreender a articulação que a PSR faz com a
política de assistência social, sendo, nesse aspecto, importante nos determos em algumas
analises.
Tratando do Centro POP, este é utilizado como estratégia para a vida nas ruas e, nos
dias em que não funciona, torna-se um fator limitador para os seus usuários. Confesso que,
enquanto profissional da assistência social, não havia parado para refletir sobre o
funcionamento do Centro POP, e sobre o quão necessário é, para seus usuários, ter um local
para alimentação e higienização. E retomo a discussão de Foucault (2005) sobre as camadas
de aplicação das políticas: se o serviço atende pessoas que estão na rua, por que ter restrições
em relação aos dias de funcionamento? E, nos demais dias, como essas pessoas devem fazer
para se alimentar? É preciso procurar dirimir a distância entre formuladores e executores das
políticas públicas.
Um outro aspecto observado foi no tocante à sua principal utilidade referida pelos
participantes, que citaram buscar o serviço basicamente para atender às necessidades de
alimentação, de higiene e, em alguns momentos, de encaminhamento para a regularização da

documentação civil ou de outras necessidades. Comparando-se com os objetivos
estabelecidos pela política para o Centro POP, que deve buscar proporcionar “vivências que
favoreçam o alcance da autonomia, estimulando, além disso, a mobilização e a participação
social dos usuários de acordo com a política” (BRASIL, 2011), podemos presumir uma
atuação restrita. Os participantes tiveram dificuldades para citar ações que possam ser
ofertadas pelo Centro POP, provavelmente em virtude do contexto da realização deste estudo,
que ocorreu no próprio Centro POP e com uma profissional do serviço. As sugestões
estiveram relacionadas a cursos profissionalizantes, geração de emprego/renda e habitação.
Com relação ao albergue, chama a atenção o fato de nenhum participante, no momento
da realização das entrevistas, fazer uso do serviço, optando por dormir nas ruas. Falando
agora como técnica do Centro POP, escuto queixas no tocante à superlotação, às regras de
funcionamento e à seleção dos usuários. Maceió possui 1 (um) albergue unissex para adultos,
com capacidade aproximada para 50 (cinquenta) pessoas e, todos os dias, atendemos, no
Centro POP, vários usuários em busca de uma vaga. Fica a difícil tarefa para os profissionais
escolherem quem poderá fazer parte do serviço. João, em seu relato, dá sugestões para o
funcionamento do albergue.
Expressaram também contatos com outros serviços, tais como as equipes da
abordagem social, o consultório na rua e o tratamento no Caps AD. Nesse rol de serviços
elencados, consultório na rua e Caps AD fazem parte da alçada da política da saúde, fato esse
que ressalta a necessidade da articulação entre as políticas públicas. Cada política tem um
limite de atuação, e cabe ao profissional, quando esgotar suas possibilidades, acionar os
demais serviços da rede socioassistencial. Coloco, aqui, o desafio para nós, profissionais da
Psicologia, de buscarmos os caminhos para a concretização, nos nossos locais de atuação, da
articulação entre as políticas públicas, independentemente do contexto em que estejamos
inseridos.
Este estudo nos oportunizou um grande aprendizado de vida, lições diárias de
reinvenção e de superação. Manter relações com a PSR aponta, incansavelmente, para o
desafio da intersetorialidade da assistência social com as demais políticas públicas, vistos os
inúmeros desafios cotidianos expressos nessa condição de vida.
Como sugestões de futuras pesquisas, no sentido de continuar a construção do
conhecimento sobre a realidade da população de rua, além de estudos embasados nas
perspectivas de Foucault e de Agamben, conforme citamos, sugerimos estudos com os
profissionais que atendem esse público, para buscar entender a possibilidade do
funcionamento da intersetorialidade e da interlocução entre os serviços. Uma outra vertente

seriam os estudos etnográficos com a PSR, para ampliar a compreensão da vivência na
própria rua.
E, por fim, um fato que nos tocou e produziu diversas reflexões, sendo uma lição de
vida, foi que, mesmo em face de todo o cenário vivido pelos participantes da pesquisa, eles e
elas não hesitaram em expressar seus desejos e sonhos de construir novos projetos e de
possuir o direito à cidadania. Conforme as narrativas, o trabalho, o acesso à moradia, o desejo
de constituir uma família e sair das ruas são alguns dos principais sonhos/desafios que devem
ser superados pela PSR, mas também por nós que, de alguma forma, fazemos parte dessas
histórias de vida.

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APÊNDICE A – ROTEIRO DAS ENTREVISTAS

(1) Apresentação: Nome / Idade / Sexo / Naturalidade / Escolaridade
(2) Táticas e estratégias para a sobrevivência nas ruas
 Vive na rua há quanto tempo?
 O que te levou a ir viver nas ruas?
 Como se sente na rua?
 Como é seu dia a dia na rua?
 Em quais lugares você circula no seu dia a dia?
 Você fica num local fixo? Como é o local onde você fica? E por que você
escolheu este local?
 Você fica em grupo ou sozinho? Por quê?
 Como você faz para conseguir realizar suas necessidades do dia a dia (comer,
dormir, ir ao banheiro)?
 Você faz alguma atividade para ganhar dinheiro? Qual?
 Você recebe algum benefício do governo? Se sim, qual?
 Já sofreu algum tipo de violência nas ruas? Qual?
 Qual tipo de dificuldade você enfrenta diariamente?
 O que te faz continuar vivendo nas ruas?
 Quais são seus projetos futuros?
(3) A política de assistência social









Há quanto tempo você usa o serviço Centro POP?
Como você chegou ao Centro POP?
Você buscou o atendimento do Centro POP por qual motivo?
Você conhece os demais serviços/projetos oferecidos pela assistência social à
PSR (albergue, abordagem social etc.)? Se sim, quais?
Você utiliza ou já utilizou algum desses serviços? Se utiliza, qual serviço? Por
que utiliza?
Quais serviços você sabe que existem e não usa? Por quê?
De que tipo de ajuda você acha que precisa neste momento?
Você acha que algum projeto/serviço deveria ser ofertado pela assistência
social?

APÊNDICE B – TRANSCRIÇÃO SEQUENCIAL – ENT. COM JOSÉ

QUEM FALA

SOBRE O QUE FALA

TEMA

Pesquisadora

Pergunta o motivo da vivência nas ruas.

História de vida

José

Diz que teve problemas familiares.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta há quanto tempo ocorreram
esses problemas.

José

Diz que desde os 15 anos de idade.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta com quem foi o conflito
familiar.

Relação familiar

José

Responde que foi com a mãe e com o
padrasto.

Relação familiar

Pesquisadora

Pede para falar o que esse problema
familiar gerou.

Relação familiar

José

Fala que assumiu para a família sua
opção sexual, mas o padrasto não
aceitou.

Relação familiar
Sexualidade

Pesquisadora

Pergunta se a mãe aceitou a opção sexual
dele.

Sexualidade

José

Diz que sua mãe também não aceitou
bem.

Sexualidade

Pesquisadora

Pergunta o local para o qual ele foi após
ter saído de casa.

Relação com a rua

José

Diz que foi para a casa de um amigo, a
princípio, mas depois foi para a rua.

Amizade
Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se, em algum momento, ele
voltou para casa.

Relação familiar

José

Diz que, após um tempo, sua mãe foi
procurá-lo pedindo para que ele voltasse.

José

Diz que a mãe disse que o padrasto
queria falar com ele.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta se permanece o relacionamento
da sua mãe com seu padrasto.

Relação familiar

José

Responde que sim.

Relação familiar

José

Diz que o que mais o chateou foi o fato
de ela preferir ficar com o padrasto a
ficar com os filhos.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta se ele tem irmãos.

Relação familiar

José

Responde que possui cinco irmãos.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta se são mais jovens ou mais
velhos que ele.

Relação familiar

José

Responde que são mais velhos.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta sobre o apoio dos irmãos para
com ele.

Relação familiar

José

Fala que só uma irmã o ajuda.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta como é o contato com essa
irmã.

Relação familiar

José

Fala que frequenta a casa dela, mas que
morar junto não daria certo.

Relação familiar

Pesquisadora

Pede para falar como se sente vivendo
nas ruas.

Relação com a rua

José

Diz que se sente desprezado.

Relação com a rua

Pesquisadora

Solicita mais informações sobre esse
sentimento.

Relação com a rua

José

Fala que se sente desprezado pela
família, que não tem ninguém ao seu
lado e que, quando precisa de algo,
recorre aos amigos.

Relação familiar
Amizade

Pesquisadora

Pergunta o tipo de apoio que os amigos
lhe dão.

Amizade

José

Fala que a ajuda é o apoio.

Amizade

Pesquisadora

Pede para falar sobre o dia a dia na rua.

Relação com a rua

José

Fala que fica andando, alternando entre a
ida ao POP, a rua, a casa dos irmãos ou a
participação nos eventos do movimento
de rua.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta onde ele dorme geralmente.

Relação com a rua

José

Diz que na Praça da Cadeia.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se acompanhado ou sozinho.

Relação com a rua

José

Afirma ter muita gente lá.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se sempre dorme lá.

Relação com a rua

José

Afirma que sim.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta o motivo da escolha desse local
para dormir.

Relação com a rua

José

Diz que sempre ficou nesse mesmo
lugar, e que lá ele tinha um companheiro.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se ele está em algum
relacionamento amoroso no momento.

Relacionamento
amoroso

José

Diz que estava, mas terminou há uns
dois meses.

Relacionamento
amoroso

José

Afirma que ele preferiu as drogas.

Relação com as
drogas

José

Diz que também fica na praia durante o
dia.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se ele faz alguma atividade na
praia.

Relação com a rua

José

Diz que fica apenas sentado lá.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta o motivo de ir ao POP pela
manhã.

Relação com a
política pública

José

Diz que pra tomar banho e café.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta a rotina após a saída do POP.

Relação com a rua

José

Diz que fica nas proximidades do POP,
na praia ou em eventos.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta sobre o almoço.

Relação com a rua

José

Diz que almoça todos os dias na Casa de
Ranquines, durante a semana.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta sobre a preferência pela
convivência em grupo (amigos) ou
sozinho.

Relação com a rua
Amizade

José

Afirma que prefere ficar em grupo, pois
gosta de ficar conversando com os
amigos.

Relação com a rua
Amizade

Pesquisadora

Retoma o assunto da rotina nas ruas,
perguntando sobre o almoço nos fins de
semana, já que os serviços não
funcionam.

Relação com a rua

José

Diz que pede nos restaurantes.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta sobre o uso do banheiro e o
banho.

Relação com a rua

José

Afirma utilizar o banheiro do centro e
tomar banho em torneira.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta sobre a realização de atividade
remuneratória para conseguir dinheiro.

Relação com a rua

José

Afirma não exercer nenhuma atividade
para conseguir dinheiro.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta como ele consegue renda.

Relação com a rua

José

Afirma que, com o valor que ele recebe
do Bolsa Família, que é de R$ 89,00,
consegue sobreviver.

Relação com a
política pública

José

Afirma que, com esse valor, compra
produtos de higiene pessoal.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta sobre a existência de algum
tipo de vício.

Relação com as
drogas

José

Diz que, às vezes, cheira cola e bebe
cachaça.

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta sobre a frequência de uso
dessas substâncias.

Relação com as
drogas

José

Afirma que, geralmente, utiliza nos fins
de semana.

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Retoma o assunto do Bolsa Família, para
saber há quanto tempo recebe o
benefício.

Relação com a
política pública

José

Acredita que o recebe há uns cinco
meses.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta sobre o procedimento para
conseguir o Bolsa Família.

Relação com a
política pública

José

Afirma que pegou o encaminhamento,
no Centro POP, e foi até o local onde fez
a inscrição.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta sobre a documentação civil.

Relação com a
política pública

José

Afirma possuir todos os documentos.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta qual o procedimento realizado
para conseguir os documentos.

Relação com a
política pública

José

Afirma que pegou os encaminhamentos,
no Centro POP, e foi à Defensoria
Pública para solicitar.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta sobre violência nas ruas.

Violência
Relação com a rua

José

Afirma ter sofrido várias agressões
físicas na rua.

Violência
Relação com a rua

Pesquisadora

Pede para relatar essas agressões.

Violência
Relação com a rua

José

Descreve cenas de violência física
vividas nas ruas.

Violência
Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta sobre dificuldades encontradas
diariamente.

Relação com a rua

José

Afirma possuir várias dificuldades na
rua, pois corre vários riscos, até o de
dormir e não acordar.

Relação com a rua
Violência

Pesquisadora

Pergunta o que o faz continuar vivendo
na rua.

Relação com a rua

José

Diz que pretende ir embora quando
conseguir sua casa.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta sobre o trâmite para conseguir
a casa.

Relação com a
política pública

José

Afirma ter se inscrito no programa
“Minha casa, minha vida”, também
através do Centro POP.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se retoma a convivência com a
família, se há possibilidade de
reconciliação.

Relação familiar

José

Afirma não ter nenhum familiar que
possa ajudá-lo.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta sobre projetos/planos para o
futuro.

Perspectiva para o
futuro

José

Descreve os planos para o futuro. Fala da
casa, de encontrar alguém para viver e da
caminhada com o movimento.

Perspectiva para o
futuro

Pesquisadora

Pergunta sobre o tempo de permanência
no movimento.

Relação com a
política pública

José

Relata que está há quase um ano e
descreve os benefícios de participar do
grupo.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta como surgiu o interesse em
participar do movimento.

Relação com a
política pública

José

Diz que ingressou com o objetivo de
discutir políticas públicas.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se algum colega o incentivou a
participar do movimento.

Relação com a
política pública

José

Afirma que sim.

Relação com a
política pública

José

Afirma que hoje ocupa o cargo de vicepresidente do usuário do Suas.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta sobre o tempo que utiliza o
Centro POP.

Relação com a
política pública

José

Acredita que por volta de dois anos.

Relação com a
política pública

José

Afirma ter ficado sabendo do serviço
através de “mãe Célia” e do excompanheiro.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta sobre o conhecimento dos
demais serviços/programas ofertados à
PSR pela assistência social.

Relação com a
política pública

José

Descreve alguns programas/projetos com
os quais teve contato, no decorrer dos
anos na rua (albergue, abordagem social
e Centro POP).

Relação com a
política pública

José

Relata as situações em que utilizou esses
serviços/programas.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta de que tipo de ajuda está
precisando no momento.

Relação com a
política pública

José

Diz que não precisa de nada no
momento.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pede sugestões de programas/serviços
destinados à PSR.

Relação com a
política pública

José

Sugere cursos destinados à geração de
emprego e renda.

Relação com a
política pública

José

Relata a experiência de um curso que
queria muito fazer e conseguiu.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta como conseguiu o curso.

José

Relata que foi através de um assistente
social do POP.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pede sugestões de cursos
profissionalizantes.

Relação com a
política pública

José

Afirma não saber identificar.

Pesquisadora

Retoma a questão da subsistência,
perguntando se ele realmente não exerce
nenhuma atividade na rua para conseguir
renda.

Relação com a rua

José

Afirma que, às vezes, toma conta de
carro, mas o dinheiro que ele recebe do
Bolsa Família é suficiente.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta sobre possíveis fatores
estressantes na rua.

Relação com a rua

José

Diz que a rotina na rua, sem ter para
onde ir.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta sobre assistência médica.

Relação com a rua

José

Afirma ser acompanhado pela equipe do
consultório na rua, e que apenas uma vez
precisou deles.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Retoma a relação com a mãe,
questionando o contato.

Relação familiar

José

Afirma possuir contato, pois telefona ou
ela o visita na praça. Sempre que pode,
ela o ajuda financeiramente.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta a profissão da mãe.

José

Diarista.

Pesquisadora

Pergunta se quer acrescentar algo.

Encerramento

José

Afirma que não.

Encerramento

Pesquisadora

Faz as considerações finais e o
agradecimento.

Encerramento

APÊNDICE C – TRANSCRIÇÃO SEQUENCIAL – ENT. COM JOÃO

QUEM FALA

SOBRE O QUE FALA

TEMA

Pesquisadora

Pergunta o local em que ele fica em
Maceió.

Relação com a rua

João

Relata o local em que geralmente ele fica
na rua.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se ele possui relacionamento
amoroso.

Relacionamento
amoroso

João

Responde que sim.

Relacionamento
amoroso

Pesquisadora

Pergunta a experiência profissional dele.

História de vida

João

Relata as experiências profissionais.

História de vida

Pesquisadora

Pergunta há quanto tempo está em
Maceió.

História de vida

João

Explica sua trajetória em Maceió e sua
rotina como trecheiro.

História de vida
Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta sobre a família.

Relação familiar

João

Relata as situações que acarretaram o
rompimento familiar.

Relação familiar
História de vida

Pesquisadora

Pede para ele detalhar a briga com o
padrasto.

Relação familiar
História de vida

João

Explica a briga com o padrasto e como
começou a usar drogas.

Relação familiar
Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pede para relatar a morte do irmão.

Morte
História de vida
Relação com as
drogas

João

Relata a morte do irmão, o uso excessivo
de drogas e o rompimento da relação com
a mãe.

Morte
Relação com as
drogas
Relação familiar
História de vida

João

Começa a contar sua história de vida. Fala
da relação com a música.

História de vida

João

Retoma o uso excessivo de drogas.

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta se ele pretende se estabelecer em Perspectiva para o
alguma cidade.
futuro

João

Afirma que pretende residir em Maceió ou Perspectiva para o
Recife e conseguir trabalho como cantor
futuro
ou na hotelaria.
História de vida

João

Fala da dificuldade que está enfrentando
para conseguir emprego, devido à falta
dos documentos pessoais.

História de vida
Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pede para relatar como ele perdeu os
documentos pessoais.

História de vida

João

Relata a situação da perda dos
documentos pessoais.

História de vida

Pesquisadora

Pergunta onde ele foi registrado.

História de vida

João

Diz que em Aracaju, e que deu entrada há
um mês na Defensoria Pública, visando a
obter um novo registro de nascimento.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta há quanto tempo ele está em
situação de rua.

Relação com a rua

João

Diz que por volta de seis anos, entre idas e
Relação com a rua
vindas.

Pesquisadora

Pergunta o motivo de ele estar vivendo
nas ruas.

Relação com a rua

João

Diz que por falta de trabalho
(desemprego).

Desemprego
Relação com a rua

Pesquisadora

Pede mais informações sobre o
relacionamento amoroso.

Relacionamento
amoroso

João

Relata o seu relacionamento amoroso,
desde o momento em que a conheceu até
o presente momento.

Relacionamento
amoroso

Pesquisadora

Retoma o assunto da morte do irmão.

Morte
História de vida

João

Responde que o irmão faleceu em
Aracaju, e que, sempre que possível,
passa por lá para ver os três filhos.

Morte
Relação familiar

João

Diz que tem dificuldades para retornar a
Aracaju, em virtude de desavenças por
causa das drogas.

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta se ele tem contato com a mãe.

Relação familiar

João

Afirma que não possui nenhum contato
com ela. Diz que a mesma não foi para o
enterro do próprio filho.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta o motivo da mágoa que ela
possui.

Relação familiar

João

Diz que o principal motivo foi o conflito
entre os filhos e o padrasto.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta como ele se sente nas ruas.

Relação com a rua

João

Diz que se sente desprezado, pois teve
muita coisa na vida e acabou perdendo
tudo.

Relação com a rua

João

Fala que parou de usar drogas, e que
conseguiu também afastar sua
companheira do vício.

Relação com as
drogas

João

Fala da importância da fé em Deus nesse
processo de libertação do vício.

Apoio espiritual
Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta quais drogas ele usava.

Relação com as
drogas

João

Afirma que usava crack, maconha, entre
outras. Que grande parte do dinheiro que
conseguia usava para adquirir drogas. Que
estava, fisicamente, muito debilitado.

Pesquisadora

Pergunta sobre o dia a dia nas ruas.

Relação com a rua

João

Explica a rotina do dia a dia nas ruas,
como dormir, ir para o POP, ir para a
praça e manguear.

Relação com a rua
Relação com a
política pública

Pesquisadora

Relação com as
drogas

Pede um esclarecimento sobre a expressão
Relação com a rua
“manguear”.

João

Esclarece o termo: mendicância.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta como eles fazem nos dias em
que não funciona o POP.

Relação com a rua
Relação com a
política pública

João

Explica a rotina nos fins de semana e o
apoio de grupos religiosos.

Relação com a rua
Apoio espiritual

Pesquisadora

Pergunta se eles dormem sempre no
mesmo lugar.

Relação com a rua

João

Diz que sim, nas proximidades do POP,
embaixo de uma marquise.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta o porquê da escolha desse local
para dormir.

Relação com a rua

João

Afirma que, anteriormente, dormiu em
outro local e foi roubado. Procurou um
local mais tranquilo, com menos pessoas.

Relação com a rua

Pesquisadora
João
Pesquisadora

Pergunta se, quando chove, ele permanece
Relação com a rua
no mesmo local pra dormir.
Afirma que sim.

Relação com a rua

Pergunta como ele conheceu os amigos Relação com a rua
que convivem com ele na rua diariamente.
Amizade

João

Afirma que conheceu na rua.

Relação com a rua
Amizade

João

Afirma que são pessoas do bem.

Amizade

Pesquisadora

Pergunta sobre os cuidados de higiene
pessoal e as necessidades básicas.

Relação com a rua

João

Diz que, durante a semana, usa o POP e a
torneira de uma praça.

Relação com a rua
Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se ele recebe algum benefício.

Relação com a
política pública

João

Diz que recebia o Bolsa, porém, depois da
perda dos documentos, não conseguiu
mais receber.

Relação com a
política pública

João

Afirma não concordar com o benefício,
pois acha que ele facilita o uso de drogas.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta de quanto era o benefício que ele
recebia.

Relação com a
política pública

João

Afirma que era de R$ 87,00.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta há quanto tempo ele recebia.

Relação com a
política pública

João

Diz que por volta de seis meses.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Orienta-o a ir ao POP 1, para conversar
com o profissional responsável pelo Bolsa
Família, que pode tentar ajudá-lo a voltar
a receber.

Relação com a
política pública

João

Diz que já procurou saber e que precisa
dos documentos pessoais.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta sobre as dificuldades que ele
encontra diariamente.

Relação com a rua

João

Afirma que hoje se sente feliz, pois
encontrou essa companheira e parou de
usar drogas.

Relação com a rua
Relacionamento
amoroso
Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta se ele já ficou outros períodos
sem usar drogas.

Relação com as
drogas

João

Afirma que sim.

Relação com as
drogas

João

Diz que, no momento, perdeu a vontade
de usar, e que Deus tirou isso da vida
dele.

Relação com as
drogas
Apoio espiritual

Pesquisadora

Pergunta se ele faz uso de bebidas
alcoólicas.

Relação com as
drogas

João

Diz que parou também, apesar de ter tido
uma “pequena” recaída no fim de semana.

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta os projetos para o futuro.

Objetivos de vida

João

Diz que trabalhar, ter uma família e sair
dessa vida maldita.

Objetivos de vida
Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta o que o faz continuar vivendo na
Relação com a rua
rua.

João

Diz que a situação financeira e a falta de
trabalho (desemprego).

Desemprego
Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se ele deu entrada nos programas
habitacionais do governo.

Relação com a
política pública

João

Afirma que sim, porém não acompanhou
o trâmite.

Pesquisadora

Pergunta quantos filhos ele tem.

História de vida

João

Diz que possui três filhos, sendo duas
gêmeas e um menino. Às vezes, consegue
passar por Aracaju para vê-los.

História de vida

Pesquisadora

Pergunta como ele chegou ao POP.

Relação com a
política pública

João

Diz que um amigo o trouxe, e que, sempre
que ele chega a uma cidade, procura um
POP ou um albergue (se ele estiver
sozinho).

João

Diz que usa o POP desde que chegou a
Maceió. Frequentava o POP 1, mas lá
houve uma briga entre usuários, então ele
está apenas no POP 2.

João

Explica que utilizava os dois POPs, a
depender da comida servida.

Relação com a
política pública

João

Diz preferir o POP 2, pelo fato de as
pessoas que o frequentam respeitarem
mais.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta qual o motivo de ele buscar
atendimento no POP.

Relação com a
política pública

João

Relação com a
política pública

Relação com a
política pública

Justifica que é pelas dificuldades
encontradas na rua. Sozinho e sem
conhecer muita coisa da cidade, tinha
Relação com a rua
dificuldade para pedir comida e auxílio na
rua.

João

Afirma não pretender viver do POP.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se através do POP ele conseguiu
algo.

Relação com a
política pública

João

Diz que sim, os documentos pessoais.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se ele já utilizou outros
serviços/programas da assistência social.

Relação com a
política pública

João

Diz que sim, o albergue. Tanto o público
como o particular.

Relação com a
política pública
Relação com
outras instituições

João

Lembra também do consultório na rua,
que utilizou para fazer o cartão do SUS.

Relação com a
política pública

João

Diz que está procurando por eles e não
está encontrando.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Orienta-o a solicitar auxílio da equipe
técnica do POP, nesse contato com a
equipe do consultório de rua.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se há algum projeto/serviço da
prefeitura que ele sabe que existe, mas
não utiliza.

Relação com a
política pública

João

Diz que não.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se ele está precisando de alguma
ajuda no momento.

Relação com a
política pública

João

Diz que precisa dos documentos pessoais.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se ele tem alguma sugestão de
programa/projeto direcionado à PSR.

Relação com a
política pública

João

Sugere mais albergues, mas também uma
melhor avaliação dos usuários que o
frequentam, para manter apenas as
pessoas realmente interessadas.

Relação com a
política pública

João

Diz que gostaria de ter uma ajuda para
cantar na televisão. Deseja adquirir um
violão.

Perspectivas para
o futuro

Pesquisadora

Pergunta se ele já procurou ajuda médica
para auxiliá-lo com as drogas.

Relação com as
drogas

João

Diz que sim, e que toma medicação para
ansiedade e sono.

Relação com as
drogas

João

Relata muita dificuldade para dormir

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pede esclarecimentos sobre essas
dificuldades.

Relação com as
drogas

João

Explica que a cabeça é pesada, que fica
inseguro e que qualquer barulho o acorda.

Relação com as
drogas
Relação com a rua

João

Afirma sentir-se só na vida.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta se ele tem contato com algum
familiar.

Relação familiar

João

Diz que tem um irmão, e que às vezes se
falam.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta se ele é envolvido com drogas.

Relação com as
drogas

João

Diz que não. Afirma que ele trabalha.

Relação familiar

Pesquisadora

Retoma a questão do sonho dele de cantar. Perspectiva para o
Pergunta se ele já tentou ajuda.
futuro

João

Diz que não tentou ajuda, que às vezes
Perspectiva para o
tem coragem e passa. Relata a dificuldade
futuro
da falta do violão.

Pesquisadora

Pergunta se quer acrescentar algo.

Encerramento

João

Afirma que não.

Encerramento

Pesquisadora

Faz as considerações finais e o
agradecimento.

Encerramento

APÊNDICE D – TRANSCRIÇÃO SEQUENCIAL – ENT. COM RAQUEL

QUEM FALA

SOBRE O QUE FALA

TEMA

Pesquisadora

Pergunta há quanto tempo ela mora em
Maceió.

História de vida

Raquel

Diz que nasceu no interior do estado e
logo veio para Maceió.

História de vida

Pesquisadora

Pede para ela falar sobre a vida dela.

História de vida

Raquel

Diz que está na rua há mais de quatro
anos.

Relação com a rua
História de vida

Pesquisadora

Pergunta o motivo de ela ter ido viver nas Relação com a rua
ruas.
História de vida

Raquel

Explica que foi em virtude do uso de
drogas.

Relação com a rua
Relação com as
drogas

Raquel

Afirma que, há pouco tempo, estava muito
debilitada fisicamente.

Relação com as
drogas

Raquel

Refere-se à droga como imunda, nojenta e
descreve as consequências físicas do uso
das drogas.

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta por quanto tempo ela usou
drogas.

Relação com as
drogas

Raquel

Afirma que por volta de treze anos.

Relação com as
drogas

Raquel

Menciona as orações que foram feitas
para conseguir superar o vício.

Relação com as
drogas
Apoio espiritual

Pesquisadora

Pergunta há quanto tempo ela não usa
drogas.

Relação com as
drogas

Raquel

Diz que por volta de um mês.

Relação com as
drogas

Raquel

Afirma também que parou de usar o
cigarro. Está até achando fedido o cheiro.

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta quais drogas ela usava.

Relação com as
drogas

Raquel

Afirma que sempre usou crack.

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta se, em algum outro momento,
ela parou de usar droga.

Relação com as
drogas

Raquel

Afirma que sim. Quando sua mãe vem
atrás dela e a leva para casa.

Relação com as
drogas
Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta onde está a mãe dela.

Relação familiar

Raquel

Diz que no interior do estado, e que tem
contato com ela.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta como ela se sente nas ruas.

Relação com a rua

Raquel

Diz que não se sente bem, pois tem
família e encontra-se nessa situação. Está Relação com a rua
esperando o companheiro resolver a
Perspectiva para o
situação dos documentos dele e conseguir
futuro
um emprego, para saírem dessa situação.

Raquel

Afirma gostar muito do seu companheiro.
Que ele lutou por ela um bom tempo.

Relacionamento
amoroso

Pesquisadora

Pergunta por que eles não voltam para
casa.

Relação com a rua

Raquel

Afirma que estão esperando os
documentos do marido para voltar. Diz
que a família tem condições financeiras de
acolhê-la.

Relação com a
política pública
Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta como ela iniciou o uso de
drogas.

Relação com as
drogas
História de vida

Raquel

Afirma que por causa do ex-marido.
Relata a história do seu casamento, da
violência física sofrida e dos filhos.

Relação familiar
História de vida

Pesquisadora

Pergunta como é o dia a dia nas ruas.

Relação com a rua

Raquel

Relata que frequenta o POP e a praça
próxima.

Relação com a rua
Relação com a
política pública

Raquel

Afirma ser muito bem tratada no POP.

Relação com a
política pública

Raquel

Afirma sentir falta de ter uma casa, um
lar.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta como eles fazem nos dias que o
POP não funciona.

Relação com a rua

Raquel

Relata a rotina nas ruas.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta sobre o local em que ela dorme.

Relação com a rua

Raquel

Diz que dorme na calçada de um prédio
próximo ao POP. Afirma que se
preocupam em deixar o local sempre
limpo.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta sobre as necessidades básicas,
como banho.

Relação com a rua

Raquel

Diz que toma banho na torneira de uma
praça. Afirma procurar ser sempre
“limpinha”.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta onde ficam os pertences
pessoais.

Relação com a rua

Raquel

Afirma sempre andar com eles. Colocam
tudo numa bolsa e levam nas costas.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se dormem outras pessoas com
eles.

Relação com a rua

Raquel

Afirma que sim.

Relação com a rua
Amizade

Pesquisadora

Pergunta como eles encontraram esse
local para dormir.

Relação com a rua

Raquel

Afirma terem saído perguntando um local
Relação com a rua
tranquilo para dormir. Encontraram esses
Amizade
colegas do marido e ficaram todos juntos.

Pesquisadora

Pergunta se o companheiro já estava com
esses amigos quando eles começaram a
ficar juntos.

Relação com a rua
Amizade

Raquel

Afirma que sim.

Relação com a rua
Amizade

Raquel
Pesquisadora

Diz que ganha muita coisa nesse local. As
pessoas e os vigilantes das lojas dão
Relação com a rua
muitas coisas a eles.
Pergunta sobre o fim de semana.

Relação com a rua

Raquel

Diz que o movimento de pessoas é bem
menor.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta como ela faz para conseguir
dinheiro.

Relação com a rua

Raquel

Diz que toma conta de carros.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se ela recebe algum benefício do
governo.

Relação com a
política pública

Raquel

Diz que os filhos recebem o Bolsa
Família.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta sobre a relação com a mãe.

Relação familiar

Raquel

Diz que possui uma boa relação.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta se ela já sofreu alguma violência Relação com a rua
na rua.
Violência

Raquel

Afirma que sim. Relata toda a situação de
violência sofrida quando foi sequestrada e Relação com a rua
violentada. Diz que sofreu violência física
Violência
e psicológica.

Pesquisadora

Pergunta se ela está passando por alguma
dificuldade no momento.

Relação com a rua

Raquel

Afirma que não. Diz que nada a
incomoda, nada a atrapalha.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta o que a faz continuar na rua.

Relação com a rua

Raquel

Diz que é a situação do marido. Estão
aguardando os documentos dele pra ele
poder trabalhar.

Perspectivas para
o futuro
Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta sobre os projetos para o futuro.

Perspectivas para
o futuro

Raquel

Diz que pretende viver com esse marido
até ficar velhinha e ajudar a mãe dela.

Relação com a rua
Perspectivas para
o futuro

Pesquisadora

Pergunta há quanto tempo ela frequenta o
POP.

Relação com a
política pública

Raquel

Diz que há muito tempo, por volta de
quatro anos.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se ela também frequenta o POP
1.

Relação com a
política pública

Raquel

Diz que sim, mas que prefere o POP 2.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta por qual motivo.

Relação com a
política pública

Raquel

Diz que sempre foi bem tratada nos dois
POPs, porém o POP 2 é mais perto para
ela.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta como ela chegou ao POP.

Relação com a
política pública

Raquel

Diz que um amigo a levou.

Relação com a
política pública
Amizade

Pesquisadora

Pergunta o motivo de ela frequentar o
POP.

Relação com a
política pública

Raquel

Diz que é para tomar banho, alimentar-se
e ficar um pouquinho, assistir à televisão e
fazer as atividades do POP.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se ela conhece outros
serviços/projetos ofertados pela prefeitura.

Relação com a
política pública

Raquel

Diz que não. Afirma nunca ter passado
pelo albergue.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta o motivo de ela não ter passado
pelo albergue.

Relação com a
política pública

Raquel

Diz que soube que lá é chato, e que não
pode dormir com o marido.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta sobre a abordagem social.

Relação com a
política pública

Raquel

Diz que já teve acesso para medicações,
exames e para solicitar preservativos.
Afirma cuidar muito da saúde.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se ela já passou pelo Caps AD.

Relação com a
política pública

Raquel

Afirma que não. Acha que não precisa de
tratamento, pois se considera forte.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta de que tipo de ajuda está
precisando no momento.

Perspectiva para o
futuro

Raquel

Diz que deseja ir ver a mãe e resolver o
problema dos documentos do marido.

Perspectiva para o
futuro

Pesquisadora

Pergunta se ela sugere algum
projeto/serviço para a população de rua.

Relação com a
política pública

Raquel

Sugere trabalho.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se ela já trabalhou.

História de vida

Raquel

Diz que sim, como babá, cuidadora de
idosos, e que já fez várias coisas.

História de vida

Pesquisadora

Pergunta se ela faz uso de bebida
alcoólica.

Relação com as
drogas

Raquel

Diz que parou de beber e de fumar.

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta se quer acrescentar algo.

Encerramento

Raquel

Afirma que não.

Encerramento

Pesquisadora

Faz as considerações finais e o
agradecimento.

Encerramento

APÊNDICE E – TRANSCRIÇÃO SEQUENCIAL – ENT. COM MARIA

QUEM FALA

SOBRE O QUE FALA

TEMA

Pesquisadora

Pergunta há quanto tempo está em
Maceió.

História de vida

Maria

Diz que há um mês, mesmo período que
frequenta o POP.

História de vida

Pesquisadora

Pergunta de onde ela é.

História de vida

Maria

Diz que nascida e criada em São Paulo.

História de vida

Pesquisadora

Pergunta o motivo da vinda a Maceió.

História de vida

Maria

Diz que estava em Maceió e foi para
Recife. Em Recife, conheceu um rapaz e
vieram para Maceió, para que ele
conseguisse os documentos. Porém, há
dois dias terminou o relacionamento.

História de vida
Relacionamento
amoroso

Maria

Afirma que não pretende ficar em Maceió.

Perspectiva para o
futuro

Pesquisadora

Pergunta para onde ela pretende ir.

Perspectiva para o
futuro

Maria

Diz que pretende ir para Brasília, mas
ainda não tem certeza.

Perspectiva para o
futuro

Pesquisadora

Pergunta pela família dela.

Relação familiar

Maria

Diz que os pais são falecidos, e que, em
Limeira, moram o tio e o irmão.

Relação familiar
História de vida

Maria

Diz que teve pouco contato com o pai.
Ficou sabendo da sua morte através dos
familiares.

Relação familiar
História de vida

Pesquisadora

Pergunta sobre a mãe.

Relação familiar

Maria

Diz que morreu quando ela tinha 14 anos.
Tinha lúpus.

Relação familiar
História de vida

Maria

Diz que a mãe tinha 41 anos de idade
quando morreu.

Relação familiar
História de vida

Pesquisadora

Pergunta quem cuidava dela antes de a
mãe morrer.

Relação familiar
História de vida

Maria

Diz que a mãe e o tio.

Relação familiar
História de vida

Pesquisadora

Pergunta quem ficou responsável por ela
após a morte da mãe.

Relação familiar
História de vida

Maria

Diz que o tio e o irmão.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta se o irmão é mais velho que ela.

Relação familiar

Maria

Diz que é nove anos mais velho que ela.

Relação familiar

Maria

Diz que o irmão a agredia muito, por isso
ela saiu de casa.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta como ele a agredia.

Relação familiar

Maria

Diz que ele batia muito nela e que,
inclusive, tentou matá-la diversas vezes.

Relação familiar
Violência

Maria

Diz que, devido a essa situação, saiu de
casa.

Relação familiar

Maria

Diz que conheceu um rapaz e foi morar
com ele. Teve uma filha com esse rapaz.

História de vida

Pesquisadora

Pergunta se saiu de casa para ir morar
com esse rapaz.

História de vida

Maria

Diz que saiu de casa para ir morar na rua.
Depois de um tempo, foi morar com ele e
teve uma filha.

História de vida
Relação com a rua

Maria

Diz que não deu certo com ele, pois foi
traída. Foi morar na rua novamente.

História de vida
Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta pela filha.

Relação familiar

Maria

Diz que está com o pai. Deixou-a com ele,
pois não acha certo crianças passarem por
essa situação de rua.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta a idade da filha.

História de vida

Maria

Diz que tem 7 anos.

História de vida

Pesquisadora

Pergunta se ela tem contato com a filha.

Relação familiar

Maria

Diz que às vezes sim.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta onde eles moram.

Relação familiar

Maria

Diz que moram em São Paulo.

Relação familiar

Maria

Diz que ele tem casa própria lá e já casou
novamente.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta quanto tempo tem essa situação.

Relação com a rua

Maria

Diz que tem cinco anos.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta pelo tio.

Relação familiar

Maria

Diz que o tio tem medo do irmão.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta o porquê de tanta agressividade
por parte do irmão.

Relação familiar

Maria

Diz que ele é usuário de drogas. Fica
muito agressivo sem as drogas.

Relação familiar
Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta se o irmão trabalha.

Relação familiar

Maria

Diz que não.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta qual droga ele usa.

Relação familiar
Relação com as
drogas

Maria

Diz que é o crack, mas não sabe bem ao
certo.

Relação familiar
Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta se ele usa há muito tempo.

Relação familiar

Maria

Diz que sim. Acredita que há mais de
nove anos.

Relação familiar
Relação com as
drogas

Maria

Diz que já sumiu muita coisa de valor de
dentro de casa.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta se as coisas pioraram depois que
a mãe dela morreu.

Relação familiar

Maria

Diz que sim. Que, mesmo com a mãe
doente, ele não a respeitava. Conta
situações de falta de respeito.

Relação familiar
História de vida

Maria

Diz que ele ficava falando que a mãe iria
morrer e a culpa seria dela.

Relação familiar

Maria

Diz que, devido a tudo isso, ela é mais
feliz na rua.

Relação familiar
Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se ele a violentou.

Relação familiar

Maria

Diz que não. Que ele a respeitava muito.

Relação familiar

Maria

Diz que ele tinha ciúmes pelo fato de ela
ser a mais nova, ser mulher e receber mais
atenção da família.

Relação familiar

Pesquisadora

Pergunta há quanto tempo ela está na rua.

Relação com a rua

Maria

Diz que é algo próximo de sete anos.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta como ela se sente na rua.

Relação com a rua

Maria

Responde que não gosta muito. Gosta da
parte de viajar. Denomina-se mochileira.

Relação com a rua

Maria

Diz que não gosta de dormir na rua.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta onde ela está dormindo.

Relação com a rua

Maria

Responde que está dormindo no Farol.
Não sabe explicar bem o local.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta com quem ela dorme.

Relação com a rua

Maria

Diz que dorme com um grupo de amigos.

Relação com a rua
Amizade

Maria

Diz que dorme numa barraca; seus
amigos, cada um num papelão.

Relação com a rua
Amizade

Maria

Afirma que todos a respeitam e ela
também os respeita.

Relação com a rua
Amizade

Pesquisadora

Pergunta como é o dia a dia na rua.

Relação com a rua

Maria

Diz que, pela manhã, vai à Casa de
Ranquines e depois ao Pop. Do Pop, vai
para a biblioteca pública.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que toma café da manhã na Casa de
Ranquines e no Pop, para reforçar.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que, no Pop, toma banho e lava as
roupas.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta o motivo da ida à biblioteca.

Relação com a rua

Maria

Diz que frequenta a biblioteca para usar a
internet.

Relação com a rua

Maria

Diz que almoça na Casa de Ranquines e
volta para o Pop, e depois vão para uma
praça conversar.

Relação com a
política pública
Relação com a rua
Relação com outras
instituições

Pesquisadora

Pergunta como fazem nos fins de semana.

Relação com a
política pública
Relação com a rua

Maria

Diz que é mais complicado. Pede nos
restaurantes ou nas residências, o que for
mais fácil.

Relação com a rua

Maria

Diz que também recebe o Bolsa Família.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que odeia pedir.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta o porquê.

Relação com a rua

Maria

Diz que se sente humilhada. Às vezes, as
pessoas falam palavras que a ofendem.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se ela está com algum
relacionamento no momento.

Relacionamento
amoroso

Maria

Diz que não. Diz que terminou um há dois
dias.

Relacionamento
amoroso

Pesquisadora

Pergunta quanto tempo durou o
relacionamento.

Relacionamento
amoroso

Maria

Diz que durou dois meses.

Relacionamento
amoroso

Pesquisadora

Pergunta o motivo do término do
relacionamento.

Relacionamento
amoroso

Maria

Explica o motivo do término.

Relacionamento
amoroso

Pesquisadora

Pergunta se ele usa drogas.

Relação com a rua
Relação com as
drogas

Maria

Diz que ele usava e parou um período,
enquanto eles estavam juntos, mas agora
ele já voltou a usar.

Relação com a rua
Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta se ela também usa drogas.

Relação com as
drogas

Maria

Diz que usou durante dois anos e parou.

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta que idade ela tinha nesse
período.

Relação com as
drogas

Maria

Diz que foi logo que sua mãe faleceu. Ela
tinha 15 anos.

Relação com as
drogas

Maria

Relata como ela começou a usar drogas.

Relação com as
drogas

Pesquisadora

Pergunta como ela fez para parar de usar
drogas.

Relação com as
drogas

Maria

Diz que foi por força de vontade e fé em
Deus.

Apoio espiritual

Pesquisadora

Pergunta há quanto tempo ela não usa.

Relação com as
drogas

Maria

Diz que até hoje pede a Deus para não ter
recaída. Afirma ter muito medo de ter
recaída.

Relação com as
drogas
Apoio espiritual

Pesquisadora

Pergunta há quanto tempo ela recebe o
Bolsa Família.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que há mais de dois anos.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se ela tem outro filho.

História de vida

Maria

Diz que sim. Está com o pai, no Rio de
Janeiro. Tem 2 anos.

História de vida

Pesquisadora

Pergunta se já sofreu algum tipo de
violência nas ruas.

Violência
Relação com a rua

Maria

Diz que não. Costuma, pela experiência
que tem nas ruas, selecionar bem os locais
que frequenta.

Violência
Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta as dificuldades que encontra
diariamente.

Relação com a rua

Maria

Fala do preconceito. Relata situações
ligadas ao preconceito sofrido por viver
nas ruas.

Relação com a rua
Preconceito

Pesquisadora

Pergunta o que a faz continuar nas ruas.

Relação com a rua

Maria

Afirma que não sabe. Já teve
oportunidades de morar em casas, mas
sempre acontece alguma situação e ela
volta para a rua.

Relação com a rua

Maria

Relata situações ocorridas quando foi
morar em casas e deixou a rua, e fala dos
motivos que a fizeram voltar para a rua.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta se ela tem projetos para o futuro.

Perspectiva para o
futuro

Maria

Fala que pretende voltar a estudar,
trabalhar, ter os filhos com ela e abrir uma
lanchonete.

Perspectiva para o
futuro

Pesquisadora

Pergunta se ela pretende abrir a
lanchonete em Maceió.

Perspectiva para o
futuro

Maria

Afirma que não. Diz não gostar de
Maceió.

Perspectiva para o
futuro

Pesquisadora

Pergunta por que ela não gosta de Maceió.

Relação com a rua

Maria

Explica a experiência com algumas
pessoas de Maceió em que se sentiu
enganada.

Relação com a rua

Pesquisadora

Pergunta como ela chegou ao POP.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que amigos a trouxeram.

Amizade

Pesquisadora

Pergunta o motivo pelo qual frequenta o
POP.

Relação com a
política pública

Maria

Responde que é para comer, tomar banho
e tirar documentos.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se ela já utilizou algum outro
serviço/projeto da prefeitura.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que sim: albergue e consultório na
rua.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que precisou de uma medicação, por
isso precisou da equipe do consultório na
rua.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta o que ela achou do albergue.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que o albergue em si é bom.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta o que ela acha do POP.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que não tem nada para falar. Para ela,
está ótimo.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta se há algum serviço que ela sabe
que existe, mas não costuma utilizar.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que não.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta de que tipo de ajuda está
precisando no momento.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que é da passagem para ir para
Brasília.

Relação com a
política pública

Pesquisadora

Pergunta por que Brasília.

Perspectiva para o
futuro

Maria

Responde que ouviu dizer que lá é muito
bom.

Perspectiva para o
futuro

Maria

Afirma que ela é uma pessoa livre.

História de vida

Maria

Diz que gosta de ser desafiada. Se falarem
que não pode, isso a motiva a fazer
diferente.

História de vida

Maria

Diz que a única coisa que exige, nas
relações, é o respeito.

História de vida

Pesquisadora

Pergunta se tem alguma sugestão de
projeto/programa/serviço para ser
ofertado à população de rua.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que não.

Pesquisadora

Pergunta se tem interesse em fazer algum
curso.

Relação com a
política pública

Maria

Diz que tem interesse, porém não em
Maceió, pois não ficará aqui.

Perspectiva para o
futuro

Pesquisadora

Pergunta se quer acrescentar algo.

Encerramento

Maria

Afirma que não.

Encerramento

Pesquisadora

Faz as considerações finais e o
agradecimento.

Encerramento