Priscila Moura Guimarães - "Narrativas autobiográficas de adultos em situação de rua: considerações sobre metodologias na psicologia cultural"

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA

PRISCILA MOURA GUIMARÃES

NARRATIVAS AUTOBIOGRÁFICAS DE ADULTOS EM SITUAÇÃO DE RUA:
CONSIDERAÇÕES SOBRE METODOLOGIAS NA PSICOLOGIA CULTURAL

MACEIÓ, AL
2018

PRISCILA MOURA GUIMARÃES

NARRATIVAS AUTOBIOGRÁFICAS DE ADULTOS EM SITUAÇÃO DE RUA:
CONSIDERAÇÕES SOBRE METODOLOGIAS NA PSICOLOGIA CULTURAL

Projeto de Dissertação apresentado ao
Programa de Pós-Graduação Stricto
Sensu em Psicologia da Universidade
Federal de Alagoas – UFAL, para o
Curso de Mestrado em Psicologia.
Orientadora: Profª Drª. Nadja Maria
Vieira Silva.

MACEIÓ, AL
2018

Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Bibliotecária Responsável: Janis Christine Angelina Cavalcante – CRB:1664
G963n

Guimarães, Priscila Moura.
Narrativas autobiográficas de adultos em situação de rua: considerações sobre
metodologias na psicologia cultural / Priscila Moura Guimarães. – 2018.
117 f.

Orientadora: Drª Nadja Maria Vieira.
Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Psicologia. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Maceió,
2018.
Bibliografia: f. 70-72.
Anexos: f. 73-117.
1. Psicologia cultural. 2. População em situação de rua. 3. Narrativas
autobiográficas. 4. ‘Si mesmo’. 5. Processo de significação. Título
CDU: 159.922.26

Às vozes que soam de cordas tênues e partem cristais.

RESUMO
Esta pesquisa foi fundamentada com conceitos e procedimentos metodológicos da
Psicologia Cultural. Trabalhou-se nesta pesquisa com dois objetivos centrais: 1) avaliar
o potencial das narrativas autobiográficas, enquanto instrumento metodológico para a
pesquisa em Psicologia e 2) investigar processos na organização narrativa do Self de
pessoas em situação de rua que frequentam espaços públicos de acolhimento provisório.
Participaram dessa investigação dois adultos em situação de rua. Os dados foram
narrativas autobiográficas, realizadas em espaço previamente reservado numa
instituição pública de acolhimento social temporário para os participantes. As narrativas
foram construídas durante nove entrevistas episódicas realizadas com cada participante.
Os resultados apontaram para organização do ‘si mesmo’ (Self) de dois adultos em
situação de rua, destacando-se as posições de narrador e protagonista, relacionadas com
temas de sua história e perspectiva de tempo. Além disso, os resultados apontaram
também, enquanto aspectos de natureza histórica e cultural, para a atuação de forças
antagônicas, centrípetas e centrífugas, atuando para a conservação ou inovação de
significados nas narrativas. A atuação dessas forças fomentou situações de ambiguidade
e tensão consideradas como processos característicos na negociação de significados nas
narrativas autobiográficas.
Palavras-chave: Narrativas autobiográficas; organização do ‘si mesmo’; tempo
narrativo; processo de significação.

ABSTRACT
This research was based on concepts and methodological procedures of Cultural
Psychology. This research was carried out with two central objectives: 1) to evaluate the
potential of autobiographical narratives as a methodological tool for research in
Psychology; and 2) to investigate processes in the narrative organization of the Self of
street people who attend public spaces of temporary shelter. Two adults that lived in the
street participated in this investigation. The data were autobiographical narratives,
carried out in a previously reserved space in a public institution of temporary social
reception for the participants. The narratives were constructed during nine episodic
interviews with each participant. The results pointed to the organization of the self of
two adults in a street situation, highlighting the positions of narrator and protagonist,
related to themes of their history and perspective of time. In addition, the results also
pointed, as historical and cultural aspects, to the performance of antagonistic, centripetal
and centrifugal forces, acting for the conservation or innovation of meanings in
narratives. The operation of these forces fostered situations of ambiguity and tension
considered as characteristic processes in the negotiation of meanings in the
autobiographical narratives.
Keywords: autobiographical narratives; organization of the self; narrative time; process
of signification.

LISTA DE QUADROS

Quadro 1. Narrativa 1 (Passado) .................................................................................... 40
Quadro 2. Narrativa 4 (Presente) ..................................................................................... 43
Quadro 3. Narrativa 9 (Futuro) ....................................................................................... 49
Quadro 4. Levantamento de frequência de unidades temáticas e posicionamento do
self (total: 9 entrevistas J. C. D) ....................................................................................... 50
Quadro 5. Narrativa 1 (Passado) ...................................................................................... 52
Quadro 6. Narrativa 4 (Presente) ..................................................................................... 56
Quadro 7. Narrativa 9 (Futuro) ....................................................................................... 59
Quadro 8. Levantamento de frequência de unidades temáticas e posicionamento do
self (total: 9 entrevistas W. L. S) ...................................................................................... 61
Quadro 9. Levantamento quantitativo geral dos dois participantes (total: 18
entrevistas) ......................................................................................................................... 63

SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 10
2. A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA – PSR................................................... 13
3. PSICOLOGIA CULTURAL: UMA RETROSPECTIVA TEÓRICA ..................... 15
3.1 Vigotski e a abordagem marxista da psicologia........................................................ 15
3.2 Bakhtin e a abordagem dialógica da psicologia ......................................................... 17
3.3 Valsiner e a relação semiótica na Psicologia Cultural.............................................. 18
4. PSICOLOGIA CULTURAL E NARRATIVAS AUTOBIOGRÁFICAS ................ 21
4.1 ‘Si-Mesmo’ (Self) como objeto de conhecimento: Foco no significado e suas
aplicações em situações práticas ...... ................................................................................ 21
4.2 Significado: tempo, história e interpretação ............................................................. 22
4.3 O Pensamento como atividade narrativa .................................................................. 22
4.4 História contada: As posições de protagonista e narrador ...................................... 24
4.5 A Função do entrevistador nas narrativas autobiográficas..................................... 24
4.6 Narrativas autobiográficas de acordo com Bakhtin: As relações dialógicas
entre autor e leitor ............................................................................................................. 25
4.7 Forças centrífugas e centrípetas operantes na narratividade ................................. 27
5. ATUALIDADES: PESQUISAS QUE SE UTILIZAM DE NARRATIVAS
AUTOBIOGRÁFICAS .................................................................................................... 28
6. METODOLOGIA.......................................................................................................... 32
6.1 Tipo da Pesquisa .......................................................................................................... 33
6.2 Participantes ................................................................................................................ 33
6.3 Local da pesquisa ......................................................................................................... 34
6.4 Procedimentos para construção das narrativas autobiográficas ............................ 34
6.4.1 Entrevista episódica com os participantes .................................................................. 35
6.4.2 Procedimentos para análise das narrativas autobiográficas ........................................ 36
6.4.2.1 Leitura geral nas narrativas autobiográficas ............................................................ 37
6.4.2.2 Definição de critérios para segmentação das unidades temáticas ........................... 37
6.4.2.3 Análise da dinâmica de posicionamento do ‘si-mesmo’ (Self) nas narrativas
autobiográficas..................................................................................................................... 37
6.4.2.4 Diagramação das narrativas ..................................................................................... 39
6.4.2.5 Levantamento de frequência .................................................................................... 39

6.4.2.6 Análise narrativa do pesquisador ............................................................................. 39
7. RESULTADOS E DISCUSSÕES ................................................................................ 40
7.1 Entrevistado J. C. D .................................................................................................... 40
7.2 Entrevistado W. L. S ................................................................................................... 52
7.3 Sobre as experiências de ‘si-mesmo’ (Self) dos adultos em situação de rua
participantes dessa pesquisa ............................................................................................. 62
7.4 Sobre o papel do tempo na organização das experiências de ‘si-mesmo’ (Self)
nas narrativas autobiográficas ......................................................................................... 64
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Sobre o potencial das narrativas autobiográficas
para análise do funcionamento psicológico humano ...................................................... 67
REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 70
ANEXO 1 – ENTREVISTAS DO PARTICIPANTE J. C. D ........................................ 73
ANEXO 2 – ENTREVISTAS DO PARTICIPANTE W. L. S ....................................... 98

10

1.

INTRODUÇÃO:

Descreve-se nesse estudo sobre a realização de uma análise de narrativas
autobiográficas de adultos em situação de rua. A partir dessa análise teceram-se considerações
sobre características que se assumem na elaboração de metodologias utilizadas em pesquisas
orientadas por fundamentos da Psicologia Cultural. O interesse por pessoas em situação de
rua surgiu a partir da minha prática na Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMAS)
de Maceió/AL, enquanto psicóloga e coordenadora do Serviço Especializado em Abordagem
Social (SEAS) no atendimento social à população em situação de rua – PSR (assume-se o uso
dessa abreviação de agora por diante). Essa população é constituída por pessoas que, na
maioria das vezes, perderam seus empregos e romperam vínculos afetivos por não
conseguirem conviver dentro de suas casas, com agravamento pela dependência química. O
resultado são perdas; do trabalho, da família, dos amigos e até mesmo da esperança de viver.
Nesse contexto observamos que a PSR é um grupo heterogêneo, composto por pessoas
com diferentes histórias de vida, mas que têm em comum a condição de pobreza absoluta e a
falta de pertencimento à sociedade. São homens, mulheres, jovens, famílias inteiras; muitas
dessas pessoas mencionam, em sua trajetória de vida, já ter realizado alguma atividade laboral
importante na constituição de sua identidade social. Todavia, com o tempo, algum infortúnio
atingiu suas vidas, seja a perda do emprego, seja o rompimento de algum laço afetivo,
fazendo com que, aos poucos, perdessem a perspectiva de projeto de vida e utilizassem o
espaço da rua como sobrevivência e moradia.
Resume-se, então, que essa condição, característica de um processo de exclusão social
no Brasil, tem origem nas dificuldades econômicas e na falta de pertencimento social, de
perspectivas, dificuldade de acesso à informação e perda de autoestima. As consequências
mais frequentes dessa situação são prejuízos na saúde geral das pessoas, em especial, a saúde
mental, o que as leva a relacionarem-se com o mundo do tráfico de drogas e estabelecer
padrões e perspectivas de emancipação social muitos restritos.
Muitos municípios brasileiros, inclusive Maceió, ofertam espaços públicos para PSR,
como forma provisória de acolhimento. Refletiu-se sobre esse cenário, caracterizado pela
vulnerabilidade e extrema precariedade na experiência desses seres humanos e realizou-se
uma investigação com dois objetivos principais: 1) avaliar o potencial das narrativas
autobiográficas para estudar processos psicológicos humanos e 2) estudar as experiências do
Self de pessoas em situação de rua, que frequentam esses espaços públicos. Investiu-se na
possibilidade de que esse apelo dramático provocasse instabilidades e constantes mudanças

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emocionais, aspecto que propiciaria uma maior visibilidade da organização narrativa do Self.
Em outras palavras, acreditou-se que na PSR expressam-se experiências de Self fragilizados e
desordenados, refletindo configurações de conflitos que favorecem a cenários psicológicos
com intensa atividade de negociação narrativa de significados.
Agregou-se à realização dessa investigação, um investimento sobre o conhecimento
acerca da relação entre a forma narrativa de linguagem e o funcionamento psicológico
humano. Bruner (1997), referência na literatura para esse conhecimento, destacou que as
nossas experiências psicológicas são organizadas narrativamente, na medida em que durante a
narrativa, uma pessoa tem a oportunidade para resgatar sua história. Nessa perspectiva, os
objetivos secundários dessa investigação destinaram-se para discussões sobre o papel do
tempo na negociação de significados e organização do Self nas narrativas autobiográficas e
sobre processos no funcionamento do Self em contexto de vulnerabilidade psicossocial.
A relevância dessa pesquisa está na possibilidade de se analisar o funcionamento
psicológico de pessoas que compõem a PSR e avaliar o potencial da narrativa autobiográfica,
como instrumento metodológico para se trabalhar com essa população. Defende-se que uma
característica desse instrumento é configurar oportunidades para pessoas (re) construirem a
sua história narrativamente. Nesse sentido, acreditou-se que o fomento às narrativas
autobiográficas de quem está em situação de rua constituiu situações ideais para se avaliar o
potencial desse instrumento, além de favorecer a novas perspectivas de informações acerca de
processos psicológicos de pessoas que estão na rua.
Destaca-se, então, que o enfoque nas narrativas autobiográficas da PSR pressupõe a
afiliação teórica dessa pesquisa com a Psicologia Cultural, onde se considera que a base para
o funcionamento psicológico são os processos de significação. A narrativa autobiográfica é
um dos principais instrumentos teórico e metodológico da Psicologia Cultural utilizado para
se conhecer como o indivíduo constitui o ‘si-mesmo’, o Self, a partir de processos de
negociação de significados para suas experiências no mundo, que são de natureza histórica e
cultural.
Para Bruner (1997, p.98) “o enfoque nos processos de significação traduz um estudo
adequado do funcionamento psicológico humano uma vez que os sistemas simbólicos que os
indivíduos usam para construir significados arraigados na cultura e na linguagem”. Em outras
palavras, os processos de significação traduzem a constituição cultural do funcionamento
psicológico humano. Nesse pensamento, uma abordagem adequada para os processos
psicológicos pressupõe a análise da produção de significados na linguagem. Bruner (1997)
acrescenta ainda que as narrativas são eventos através dos quais os seres humanos organizam

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suas experiências psicológicas, sendo a possibilidade de ordenação dos significados no
tempo, o artifício fundamental para essa organização.
Nesta pesquisa investem-se na expectativa de conhecer o funcionamento psicológico e
compor informações sobre essa população em risco; informações sobre suas histórias e sobre
o impacto das condições que lhes são disponibilizadas nas ruas. Há ainda, na realização dessa
pesquisa, a expectativa de tecer discussões para a ampliação do alcance teórico-metodológico
das narrativas autobiográficas nas práticas em psicologia.
Justifica-se, então, a opção pelo aparato conceptual da Psicologia Cultural para este
estudo na medida em que ela possibilita uma análise da experiência psicológica das pessoas,
sem a alienação dos aspectos socioculturais. Para Bruner (1997), a autobiografia é um
importante instrumento metodológico no campo da Psicologia Cultural, pois nela se analisa
como o narrador constrói em seu discurso as condições para negociar e renegociar os seus
significados na história. Desse modo, a Psicologia Cultural remonta tanto as relações sociais
externas quanto a forma como estas passam a constituir o pensamento humano. No âmbito da
Psicologia Cultural os pesquisadores reafirmam, agregam e atualizam explicações sobre o
desenvolvimento humano, apresentadas a partir da psicologia marxista de Vigotski, quando se
relevou a origem social dos processos psicológicos humanos.
Além disso, assegurando-se um alinhamento ainda mais profundo deste estudo com o
aparato conceptual da Psicologia Cultural, assumiu-se a análise de narrativa como o principal
procedimento para interpretação dos processos psicológicos. A expectativa com esse
procedimento é a construção de duas dimensões de informações sobre os significados a serem
analisados: uma, se dirige para esclarecimentos sobre o funcionamento narrativo do
psiquismo humano; outra, complementar, se dirige para as experiências de Self de pessoas que
compõem a PSR, que o instrumento da autobiografia narrativa potencializou.
Incluiu-se nos procedimentos da investigação que ora se descreve uma revisão da
literatura sobre os principais tópicos discursivos envolvidos na pesquisa, entre eles, sobre a
PSR e sobre pressupostos teóricos metodológicos da Psicologia Cultural, mais
especificamente, sobre as narrativas autobiográficas.
Para atender aos seus objetivos centrais de 1) avaliar o potencial das narrativas
autobiográficas para estudar processos psicológicos humanos e 2) estudar as experiências do
Self de pessoas em situação de rua, esta pesquisa teve como participantes, dois adultos
identificados como pessoas em situação de rua que frequentam espaços públicos de
acolhimento provisório. Os dados foram suas narrativas, incentivadas a partir de perguntas
gerativas (Flick 2007) durante nove entrevistas que foram realizadas, sistematicamente, uma

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vez por semana, no Serviço de Acolhimento Institucional para Jovens e Adultos em Situação
de Rua Profº Manoel Coelho Neto, situado no bairro Poço da cidade de Maceió/AL. Trata-se
de um serviço de acolhimento institucional vinculado aos Serviços de Proteção Especial –
Alta Complexidade da Secretaria Municipal de Assistência Social desta capital. Este serviço é
um espaço de acolhimento provisório, previsto para pessoas em situação de rua e desabrigo
por abandono, migração e ausência de residência ou pessoas em trânsito e sem condições de
autossustento.

2. A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA - PSR

A PSR é formada por um grupo heterogêneo em termos de sexo, idade, raça e história
de vida. Possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou
fragilizados, em que a vulnerabilidade foi progressivamente ampliada antes de chegar a fixar
a vida no espaço da rua. A vida dos indivíduos em situação de rua se caracteriza pela
inexistência de moradia convencional regular e a utilização de logradouros públicos e áreas
urbanas degradadas como espaço de moradia e de sustento. É uma vida marcada por uma
dinâmica e rotinas de trabalho informal ou desemprego, de relações sociais frágeis e efêmeras,
onde o tecido de apoio e cuidado são desgastados também pelo preconceito e a discriminação,
e por uma presença estatal muitas vezes violenta e violadora de direitos básicos.
Há crescente número de pessoas que são excluídas das estruturas convencionais da
atual sociedade, como emprego, moradia e privacidade. Viver na rua sempre pressupõe
condições precárias de vida, discriminação, baixa autoestima e abandono da sociedade de uma
forma geral e de seus antigos vínculos familiares.
A definição de população de rua é complexa, pela multiplicidade de fatores pessoais
que as mantêm nessa condição. As várias formas de se tentar encontrar soluções dadas à
subsistência e à moradia dificultam a formulação de conceitos mais objetivos. Para Costa
(2005), a população rualizada apresenta como característica comum o estabelecimento do
espaço público da rua, como campo de relações privadas, e a vivência da exclusão social pelo
trinômio: expulsão, desenraizamento e privação. Além disso, declara o autor que “As pessoas
em situação de rua fazem parte da paisagem, principalmente dos grandes centros urbanos; e os
profissionais da assistência social não podem ficar insensíveis a esse processo, pois a questão
da vulnerabilidade encontra-se inserida no mesmo” (COSTA, 2005, p.91).
Supõe-se que o espaço das ruas é um dos elementos mais diversos entre os que
povoam o imaginário popular de qualquer sociedade urbana. A ausência de contatos

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constantes com o núcleo familiar, como base de sustentação material e afetiva, leva a pessoa
em situação de rua a carecer de um grupo de pertencimento. Esses aspectos são preocupantes
para os profissionais da assistência social, pois estes têm um papel crítico e reflexivo
relacionado ao cuidado de pessoas dentro de seu universo social.
A PSR abrange vários modos de vida na cidade, vários tipos de relações com a rua:
pessoas com endereço fixo que passam a maior parte do tempo nos logradouros públicos;
pessoas que moram na rua em tempo integral, que há muito perderam qualquer referência
domiciliar ou familiar; imigrantes; desempregados, egressos dos sistemas penitenciário e
psiquiátrico, pessoas que transitam de uma cidade a outra, entre outras situações que podem
ou não ser definidas.
De acordo com Lopes (2014), a pessoa que mora nas ruas viveu um rompimento com
as dinâmicas e os padrões estabelecidos pela sociedade, rompeu seus laços com a família,
com o emprego, com os domicílios, com tudo aquilo que organiza a sociedade. Viver na rua
evidencia as diferenças e os abismos sociais em seu grau máximo. A rua é o local de destino
daqueles que perderam seu lugar, seja dos bairros mais abastados, seja das periferias ou dos
presídios. Nas palavras desse autor,
A vulnerabilidade social faz com que o grupo viva inúmeros problemas: desconforto
em face da diversidade da rua, ambiente sem condições de cuidados básicos,
precariedade da vida nas ruas, tendo em vista as condições de higiene, a falta de
espaço apropriado para o descanso, o incômodo da insegurança e, principalmente, o
olhar suspeito e preconceituoso que, muitas vezes, a sociedade que o cerca lhe
dirige. As lutas pela reconstrução dos sentidos de si no mundo são cotidianas e
permanentes (LOPES, 2014, p. 41).

Quando alguém vai para a rua levantam-se suposições e opiniões discursivas. Mas,
que alternativa uma pessoa encontra na rua? É possível encontrar opinião de que na rua que
ela sobreviverá e terá vida afetiva e comunitária. Todavia, destacou Lopes (2014), no caso da
rua, tudo se passa ao mesmo tempo e no mesmo lugar, funcionamento que provoca uma
alteração nas experiências psíquicas de espaço e tempo. Por essa razão é possível observar
que pessoas que moram na rua, muitas vezes, não sabem dizer quanto tempo estão lá. Essas
noções começaram a mudar pela situação incômoda das perdas. O tempo de quem está na rua
fica marcado a partir do incômodo e o espaço passa a ser concentrado na rua; tudo o que
importa para a pessoa é estar com aqueles que também estão ali na rua com ela. Quando eles
são tirados da rua, eles se desorganizam e perdem mais uma coisa: a solidariedade das pessoas
que lhes oferecem comida e outro tipo de ajuda, por exemplo. Sem isso, eles caem no mais
absoluto desamparo.

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Observações naturais (sem a sistematicidade de uma investigação científica) revelam
alguns sintomas sociais típicos da PSR: difícil confiabilidade, dificuldades para assumir
compromissos e obedecer a regras. Com essas características, presumiu-se que as pessoas em
situação de rua têm uma experiência de desorganização e instabilidade do Self. Essa
possibilidade se traduziu como cenário apropriado para o pesquisador que teve como objetivo
avaliar o potencial teórico-metodológico das narrativas autobiográficas para as práticas da
Psicologia Cultural. Isto porque, assumiram-se as discussões resgatadas da literatura (Bruner,
1997), onde as narrativas autobiográficas retratam o Self como um contador de história. Além
disso, nessas discussões, através da narratividade o Self se organiza transitando no tempo. Isto
é, nesse processo ele tem possibilidade de revisitar o passado e antecipar possibilidades do
futuro, tudo isso, na janela do presente.

3. PSICOLOGIA CULTURAL: UMA RETROSPECTIVA HISTÓRICA

3.1- Vigotski e a abordagem marxista da psicologia

A abordagem sócio-histórica de Vigotski fundamentou-se no marxismo e adotou
pressupostos do materialismo dialético onde se destaca:

 A ação e procedência social e histórica das experiências humanas;
 A sociedade, como produção histórica das pessoas que, através do trabalho, produzem
sua vida material;

 As ideias, como representação da realidade material;
 A realidade material, fundada em contradições que se expressam nas ideias;
 A história, como o movimento contraditório constante das ações humanas, no qual, a
partir da base material, deve ser compreendida toda produção de ideias, incluindo a
ciência e a psicologia.

Fundamentada nesses pressupostos, a psicologia desenvolvida por Vigotski propõe
resgatar a historicidade das experiências humanas. A compreensão da dimensão histórica dos
processos psicológicos permitiu atualizar a compreensão acerca da experiência da
subjetividade e intersubjetividade, incorporando à análise as características do capitalismo
contemporâneo. Ou seja, a proposta da psicologia de base sócio histórica é evidenciar as

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condições materiais que operam para experiência psicológica, que inclui processos subjetivos
e intersubjetivos, como destaca Gonçalves (2003):
É necessário reconhecer o caráter histórico das características da subjetividade. As
mediações que as constituem têm sua raiz no capitalismo e suas características
atuais. É necessário reconhecer esse caráter histórico também nas diferentes
concepções da psicologia que tratam da constituição da subjetividade.
(GONÇALVES, 2003 apud BOCK, p. 288).

Abordagens da psicologia que explicam a experiência de subjetividade como uma
condição interna do indivíduo, criticam essa posição. Todavia, a historicidade, apontada na
psicologia sócio histórica como principal processo para as experiências psicológicas,
contradiz a possibilidade dessa direção interna para os processos de subjetivação. O desafio é
considerar a complexidade que esse pensamento apresenta. Segundo Gonçalves (2003), na
psicologia sócio histórica assume-se as implicações da ação para as explicações sobre o
funcionamento psicológico, destacando-se a linguagem como processo de mediação entre o
organismo e a cultura. A partir dessa função de mediação, explica-se nessa psicologia, como a
linguagem constitui subjetividade e intersubjetividade sem alienar essas experiências de sua
origem social.
É relevante destacar que nessa abordagem não se anula individualidades, nem as
oprime por uma determinação externa da cultura, visto a referência de Vigotski ao processo
eminentemente criativo do encontro de cada organismo com suas experiências sociais. Esse
processo criativo é refletido na produção de significados e sentidos, revelados nas relações
sociais. Gonçalves (2003) destacou que “os significados presentes nas relações sociais têm
caráter ideológico (representam interesses concretos e determinados) e encerram
contradições”. Assim se revelam sentidos pessoais e a presença ativa de cada indivíduo nesse
processo.
Vigotski

(apud

Gonçalves,

2003)

observou

que

somente

uma psicologia

verdadeiramente dialética materialista e histórica poderia explicar a construção do
pensamento pois o desenvolvimento humano estava sempre permeado e mediado pelas
relações sociais. Mas dizer que as relações sociais originavam o funcionamento psicológico
não era suficiente para explicitar os fundamentos dessa nova psicologia. Para Vigotski, ainda
era necessário, acrescentar nesse argumento explicações sobre como se constituía essa origem
social dos processos psicológicos.
O princípio explicativo apresentado em sua metodologia foi funcionamento da
palavra como unidade de análise para o estudo do pensamento, visto que ela une a consciência
humana (pensamento) com as experiências culturais concretas da vida. A palavra como

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unidade de análise assegura a observação da relação de determinação e indeterminação entre o
pensamento de um homem e suas relações sociais. Os processos psicológicos são sócio e
culturalmente constituídos por que um indivíduo, num processo inter(ativo), se utiliza da
palavra como mediadora de suas experiências culturais, para construção do seu pensamento.

3.2- Bakhtin e a abordagem dialógica da psicologia

É possível dizer que Bakhtin possibilitou uma maior amplitude das explicações de
Vigotski sobre o papel da linguagem no funcionamento psicológico humano. Isto por que
Bakhtin rompe com explicações mais tradicionais da linguística, para destacar na sua análise
de textos literários, as relações dialógicas que a linguagem possibilita favorecendo ao
complexo engendramento entre autor, personagens e leitor. Nessas condições, na análise de
Bakhtin, a linguagem funciona como mediadora constituindo relações complexas entre
fenômenos de diferentes naturezas. Nas análises de Bakhtin, essas relações complexas foram
definidas como diálogo que assume o caráter de unidade central na perspectiva bakhtiniana.
De acordo com Freitas (1994), Bakhtin revela a consciência dos personagens que ele
analisou aliada aos processos do contexto ideológico e social que o enredo literário engendra.
Nessa perspectiva a linguagem opera não no indivíduo isoladamente, mas numa dimensão de
inter-relação, pois ela é necessariamente endereçada para o outro. Assim, as explicações de
Bakhtin remete-se também a um funcionamento dialético Bakhtin (apud Freitas, 1994) para a
configuração do diálogo entre o eu e o outro e destaca uma procedência social subjacente à
produção dos sentidos enquanto fenômeno que atesta a existência dos personagens e de suas
ações. A produção de sentidos, para Bakhtin, é o processo que confirma a condição dialógica
da vida, dos personagens e sua relação com o autor e com o leitor.
Para Bakhtin, a relações dialógicas nunca são autônomas, na medida em que as
palavras de um personagem pressupõem a fala do outro com quem ele ser relaciona. Desta
forma, o diálogo é um princípio unificador que supera um jogo de tensões entre partes
distintas. Enquanto movimento para unificar, o diálogo, que se traduz como relação entre
diferentes, promove ao eu e ao outro (as instâncias distintas) autoconhecimento, pelo
reconhecimento desse outro num movimento alternado. Sobre a complexa caracterização do
diálogo, enquanto fenômeno da vida humana, Bakhtin destacou:
(...) compreender a palavra diálogo é, não apenas como a comunicação em voz alta
de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer que
seja. Assim, um discurso escrito é importante para uma discussão ideológica em

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grande escala: ele responde a alguma coisa, confirma as respostas e objeções
potenciais, procura apoio, etc. (BAKHTIN, 1990, p. 174).

Nessa perspectiva, o mundo pessoal se revela pelos sentidos que forma repertório de
vida de cada pessoa. Segundo Bakhtin (1990), cada pessoa estrutura e transforma seu
pensamento sintonizada com suas experiências sociais: “a consciência individual faz parte dos
fenômenos da realidade ideológica (...) são ligados às condições e às formas da comunicação
social” (BAKHTIN, 1990, p. 75).
Quando Bakhtin formula a sua teoria da linguagem considerando essa relação
dialógica socialmente construída ele se referiu criticamente a alguns aspectos da teoria
psicanalítica de Freud. Na sua opinião Freud teorizou no seu método da associação livre a
alienação de um organismo biológico em relação a sua historicidade. Para Bakhtin (1990 em
CLARK e HOLQUIST, 2004), Freud utilizou da linguagem como forma de buscar algo
objetivo, sendo ela constituída como ideologias e significados. Deste modo, a linguagem
pode processar várias formas de interpretação para as experiências culturais e a relação eu e
outro ( analista e paciente) também é constitutiva dessa variabilidade.
Em resumo, em suas explicações sobre o papel da linguagem nos processos
psicológicos configurados nos enredos da literatura, Bakhtin também endossou os argumentos
acerca da constituição social do pensamento humano. Esse reforço foi demonstrado,
sobretudo, nas explicações que ele teceu acerca da atividade de produção de sentidos, onde se
confirma a inseparabilidade do eu com o outro e se ratifica a natureza dialógica da existência
humana.

3.3- Valsiner e a regulação semiótica na Psicologia Cultural

Ao longo de seu percurso acadêmico-científico Valsiner manteve ampla interlocução
com autores clássicos e contemporâneos da psicologia e de áreas de fronteira, em especial a
antropologia, a sociologia, a história e a semiótica. No âmbito epistemológico, Valsiner
(2012), apoiou-se na semiótica de Charles Pierce e na sematologia de Karl Bühler e delineou
os fundamentos de uma Psicologia Cultural alicerçados em processos semióticos.

Para

Valsiner, a questão que orienta os fundamentos da Psicologia Cultural é a maneira como a
cultura atua no sentir, pensar e agir humano. Nessa dimensão a cultura foi concebida como
um processo semiótico de construção, organização e regulação do funcionamento psicológico
humano.

19

Partindo de sua concepção de desenvolvimento humano, que pressupõe movimento e
transformação, Valsiner (2012) apontou para o desafio de uma Psicologia Cultural que, em
sua opinião, deve se constituir como ciência interdisciplinar do desenvolvimento humano,
individual e social, uma vez que, é a articulação entre o pessoal e o coletivo que possibilita a
emergência da novidade, principal indicativo do desenvolvimento. Para a superação desse
desafio, Valsiner (2012) declarou que Psicologia Cultural precisa exercer fundamentos de
uma ciência sistêmica, qualitativa e, sobretudo, idiográfica. Isto é, ela deve ser exercida como
“uma disciplina que é geral quanto ao conhecimento básico, ao mesmo tempo em que
representa particulares humanos em toda a sua riqueza e procura não se apartar da experiência
humana vivida” (p.32).
Nesse sentido, pesquisadores devem ocupar-se de diversas e ricas análises de situações
cotidiana às quais se dedicam essa psicologia, tais como as relacionadas à peregrinação
religiosa, ao trabalho forçado, à mobilidade geográfica, política e social, à saúde e aos medos
de doenças, ao valor do segredo, às formas de casamentos e formações familiares. Segundo
Valsiner (2012), “o resultado é outra construção de uma teoria psicológica que reivindica ser
científica. [...] e universal, diante de fenômenos psicológicos completamente singulares”
(p.29). Esse resultado construtivo, a que Valsiner (2012) se refere como outra construção, é
outro justamente quanto às formas de relação pessoa-cultura que postulará, afastando-se de
proposições monológicas da relação entre acontecimentos pessoais e sociais, tais como
aquelas em que “a pessoa pertence à cultura”, como na psicologia transcultural, e também
daquelas em que “a cultura pertence à pessoa”, como na antropologia social.
Na dialogia de Valsiner (2012), a cultura pertence ao sistema psicológico individual,
que se constrói pelos processos de internalização e externalização (aqui aparece a perspectiva
de Vigotski) em um constante movimento de mútua constituição entre acontecimentos
pessoais e sociais (aqui se mostra a perspectiva de bidirecional dos processos de socialização).
Valsiner (2012) apresentou os constructos formadores de sua concepção de cultura
como mediação e regulação semiótica, em que a noção de ambiguidade é central:
Se a cultura deve ser explicada pela semiose, a noção de ambiguidade está necessariamente,
por conseguinte, no centro de todos os nossos construtos teóricos, do mesmo modo que
desempenha um papel central em nossas experiências de vida (p. 49).

Ancorado no que ele mesmo denominou de “bases semióticas da psicologia cultural”
relevou uma complexa articulação entre os âmbitos pessoal e coletivo das experiências
humanas, onde cada proposição é geneticamente formativa da outra, e todas sistemicamente
integradas: “como os seres humanos vivem em uma sociedade e como a sociedade ‘vive no

20

interior’ dos seres humanos” (p. 67). Nessa perspectiva, os ambientes humanos são ambientes
socialmente sugestivos em contraposição à ideia de determinação da pessoa pelo ambiente.
Distintos significados codificados por diferentes instituições sociais, com propósito de
orientação social, sugerem à pessoa maneiras de agir, que elas selecionarão em função desses
ou daqueles critérios de valor.
Valsiner (2012) declarou que o pensamento humano é orientado, por um lado, por
sugestões sociais e, por outro, por sugestões que emergem no nível privado e oculto. Segundo
ele, “é no pensamento humano que o social e o pessoal encontram-se unidos dentro de um
processo cultural (semiótico) de construir sentido do mundo e de ‘si mesmo’” (p. 231).
Observa-se aqui, que este autor refletiu sobre a relação entre pensamento e linguagem,
caminho aberto por Vigotski.
Valsiner (2012) destacou ainda que “a vida psicológica humana, em sua forma
mediada por signos, é afetiva em sua natureza” (p. 251). Para ele, o domínio cognitivo
constitui uma ferramenta semiótica emergente para organizar o relacionamento afetivo com o
mundo. Assim ele apontou para o papel dos afetos e valores na construção de culturas
pessoais, apresentando um modelo de mediação semiótica dos processos afetivos, em que os
fenômenos da afetividade humana estão organizados em diferentes níveis, nos quais a emoção
e os sentimentos apresentam diferentes graus de generalidade.
Valsiner (2012) propôs uma reconstrução metodológica da psicologia baseada na
perspectiva idiográfica e sistêmica da Psicologia Cultural. Ele criticou o reducionismo
praticado na psicologia a partir de opções por um único método e defendeu que a metodologia
de pesquisa também é um processo de construção de conhecimento e, portanto, remete-se a
processos epistemológicos e não meramente de aplicação de técnicas já executadas em outras
circunstâncias. Nessas condições, a metodologia de uma investigação, depende “das
estratégias gerais que definem para onde olhar, quais comparações fazer, e o que assumir
sobre os fenômenos antes que as práticas analíticas efetivas sejam postas em prática”
(VALSINER, 2012, p. 301). Ela reflete a habilidade do pesquisador, na medida em que este
experimenta os fenômenos e pensa sobre eles de maneira intuitiva, construindo teorias a partir
da sua perspectiva pessoal. Nesse pensamento, “Os cientistas não são autômatos racionais,
mas seres humanos subjetivos, pessoalmente envolvidos, com preferências subjetivas e
posições, a partir das quais consideram os assuntos de sua pesquisa” (p. 301).
Dessa maneira, Valsiner (2012) discute sentidos diversos para conceitos fundamentais
no processo de investigação científica, relação de causalidade, experimentação, dados
preexistentes e generalização, uma vez que na perspectiva da Psicologia Cultural que ele

21

defende, a generalidade emerge dentro de particularidades de significados e padrões de ação
criados pelos seres humanos para enfrentar a indeterminação inerente ao futuro.

4. PSICOLOGIA CULTURAL E NARRATIVAS AUTOBIOGRÁFICAS

Em seu livro: Atos de significação Bruner (1997) demonstrou que é a cultura e não a
biologia o aspecto mais relevante para a vida e a mente humana. São as relações das pessoas
com a cultura que possibilitam significados para suas ações, situando seus estados
intencionais subjacentes, em um sistema interpretativo. A cultura faz isso impondo padrões
inerentes aos seus sistemas simbólicos, sua linguagem e modos de discurso; suas formas de
explicação lógica são narrativas, com padrões de dependência mútua da vida comum.
Observa-se que os argumentos de Bruner (1997) são alternativos aos estudos cognitivistas que
consideram os processos mentais humanos análogos aos padrões computacionais.
Dessa forma, Bruner (1997) apresentou o objeto da Psicologia Cultural: uma complexa
questão do ‘si-mesmo’(Self) até então posta de lado por ser considerada subjetiva para os
procedimentos científicos clássicos. De acordo com esse autor, há várias indagações a
respeito do ‘si-mesmo’(Self): sobre a sua constituição (família e posses); sobre a relação com
o Outro generalizado, através do diálogo; se ele seria conceitual, real ou ideal ou, ainda, se ele
seria uma forma de estruturar nossa consciência e nossa identidade.
4.1- ‘Si-mesmo’ (Self) como objeto de conhecimento: Foco no significado e suas
aplicações em situações práticas
A Psicologia Cultural ao colocar o problema do ‘si-mesmo’ (Self) como seu principal
objeto de conhecimento impõe duas exigências. A primeira remete-se a importância do foco
nos processos de significação, onde o ‘si-mesmo’ (Self) é definido tanto pelo indivíduo quanto
pela cultura com quem ele se constitui. A segunda exigência traz a importância das práticas
nas quais os significados do ‘si-mesmo’ (Self) são atingidos e colocados em uso, apresentando
assim uma visão mais distribuída.
O foco nos significados reitera a dimensão histórica do ‘si-mesmo’ (Self) que institui
realidades circunstanciais ainda que sujeitas à revisão. Isto é, nos processos de significação a
pessoa revisa sua história a partir do momento que ela [a história] é contada, contribuindo
para a concepção de um ‘si-mesmo’ (Self) que se distribui e é revisado historicamente. Para
Bruner (1997, p. 96), “uma psicologia que nega questões históricas na sua explicação de

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desenvolvimento psicológico perpetua uma tendência anticultural que criou grandes
dificuldades para a psicologia contemporânea”. Na segunda exigência o autor destacou o uso
prático dos significados, que se realizam através da manifestação de crenças, desejos ou
razões sobre o ‘si-mesmo’ (Self). Segundo Bruner, para que o conceito do ‘si-mesmo’ (Self)
seja efetivo na Psicologia Cultural deve-se especificar que ele é ação, revelação e discurso que
cerca essa ação.

4.2- Significado: tempo, história e interpretação

Com esses pressupostos, a Psicologia Cultural se apresenta como uma perspectiva
interpretativa dos fenômenos psicológicos, visto que ela procura as regras que os seres
humanos usam para compreender a produção de significados em contextos culturais
praticados no meio social, considerando a variação de pessoa para pessoa quanto a sua
capacidade da ação.
Em uma investigação retrospectiva do conceito de ‘si-mesmo’ (Self), Bruner (1997) se
utilizou do método da autobiografia que, segundo ele, relata “como o indivíduo pensa que fez,
em que cenário, de que modo e por que razão fez. É uma narrativa que carrega passado e
presente no seu contexto histórico-cultural” (BRUNER, 1997 p. 104). Essa definição salienta
a idiossincrasia, como uma originalidade em relação ao culturalmente previsto e a função da
narrativa na interação social. Ou seja, a narrativa lida com a ação e a intencionalidade
humana, mediando o mundo previsto culturalmente com o mundo idiossincrático dos desejos,
crenças e esperanças; o mundo do ‘si-mesmo’(Self).
Dessa forma, a dimensão narrativa do pensamento abre a porta para o estudo dos
significados humanos. No entanto, a construção de significados para as nossas experiências
não se desliga dos significados culturais e históricos veiculados nas narrativas em que
nascemos nos desenvolvemos e que ordenam as nossas relações, as nossas práticas e os
contextos das nossas interações. Ou seja, a narrativa estrutura os significados da nossa vida
numa estreita ligação com os significados sociais e culturais já estabelecidos historicamente.

4.3- O pensamento como atividade narrativa

Bruner (1997) argumentou que sempre se procurou entender a narrativa tentando-se
compreender o seu significado, mas pouco se pesquisou sobre os processos de pensamento
que engendram uma narrativa e como esta passa a ter significado. Essa tem sido uma tarefa

23

relativamente recente de muitos psicólogos cognitivistas e pesquisadores da área de
linguagem.
Mas a maioria dos estudiosos, com exceção de Vigotski, demorou a dar-se conta do
valor primordial da cultura na evolução do pensamento humano. A perspectiva sócio-histórica
da teoria de Vigotski, no que diz respeito à atividade cognitiva, contempla a visão de que o
comportamento humano só pode ser entendido quando se observam os fatores históricos e
sociais que o geraram. Uma das consequências dessa abordagem é que, para Vigotski as
dimensões cognitivas e afetivas são inseparáveis, pois são construídas com influências
mútuas. Bruner, alinhado com essa perspectiva, relatou:
A implicação mais geral é a de que a cultura se encontra em um constante processo
de ser recriada à medida que é interpretada e renegociada por seus membros. Neste
ponto de vista, a cultura é tanto um fórum para negociação e renegociação de
significado e para explicação da ação quanto um conjunto de regras ou
especificações para a ação. De fato, toda cultura mantém instituições especializadas
ou ocasiões para intensificação dessa característica 'semelhante a um foro'. Narração
de histórias, teatro, ciência e mesmo jurisprudência são técnicas para a intensificação
desta função - maneiras de explorar mundos possíveis a partir do contexto de
necessidade imediata (BRUNER, 1997, p.99).

A atenção para a forma narrativa como forma de organização do pensamento e,
sobretudo, para o papel constitutivo da cultura nessa organização, leva-o a formular um
argumento, segundo ele próprio, bastante radical: "(...) é o impulso para construir narrativas
que determina a ordem de prioridade na qual as formas gramaticais são dominadas pela
criança pequena" (BRUNER, 1997, p. 103; grifo adicionado). A base para a sua
argumentação encontra-se na seguinte questão: Se a ocorrência do pensamento narrativo é
funcional no nível do discurso, o mesmo deve ocorrer com relação à apropriação das
estruturas gramaticais por parte das crianças.
De acordo com seu raciocínio, a narrativa exerce uma função desencadeadora na
aquisição da linguagem pela criança. O papel essencial da narrativa prosseguiria no decorrer
de toda vida dos seres humanos, posto que é através da interpretação de narrativas que as
pessoas agem e interagem. Para Bruner (1997, p 105), "Negociar e renegociar os significados
por intermédio da interpretação narrativa é (...) um dos corolários das conquistas do
desenvolvimento humano, no sentido ontogenético, cultural e filogenético desta expressão".
Dessa forma, a constituição das culturas humanas foi possível porque dispomos de narrativas
que servem para relacionar significados e ações. Segundo ele, "estar em uma cultura viável é
estar inserido em um conjunto de histórias conectadas capazes de estabelecer vínculos mesmo
que essas histórias não representem um consenso" (1997, p. 103).

24

4.4 - História contada: as posições de protagonista e narrador
Uma vez que o pensamento tem a forma narrativa, então o estudo do ‘si-mesmo’ (Self)
é rigorosamente interpretativo. Nessa abordagem, na forma como o indivíduo conta sua
história voluntariamente, ele (o contador da história) não engendra uma construção livre da
sua história; ele a delimita pelos eventos de uma vida e pelos requerimentos das histórias que
ele esteja em vias de construir. Essa história em desenvolvimento, que assume formas muito
mais variadas do que esperado, constituem-se como narrativas autobiográficas.
Segundo

Bruner

(1997),

enquanto

histórias

do

desenvolvimento

e

em

desenvolvimento, as autobiografias espontâneas são constituídas por eventos, ocorrências,
projetos que fazem parte de uma vida. Nesse sentido, as autobiografias compartilham uma
característica universal: Os eventos históricos das narrativas fazem sentido no centro de cada
relato onde se encontra um ‘si-mesmo’ (Self) protagonista em processo de construção; um
agente ativo e experimentador.
Considerando essa característica universal das narrativas ele destacou que a
“autobiografia é um relato apresentado no aqui e agora por um narrador, a respeito de um
protagonista que leva seu nome que existiu no passado, relatado no presente, presumindo o
futuro” (1997, p.115; grifo adicionado). A história narrada termina no tempo presente, quando
o protagonista se funde com o narrador; quando quem conta a história se apresenta no tempo
presente ao entrar em contato com a forma como é narrada sua história. Em síntese, o
protagonista é o ator principal da história narrada, enquanto o narrador justifica sua história.
Os episódios narrativos que compõem essa história aderem à sequência e à
justificativa apresentada pelo narrador. Dessa forma, a história é justificada pelo narrador;
pela forma como ele revela e se comunica para apresentar o caminho específico ao qual está
tomando. Assim, o ‘si-mesmo’ (Self), na posição de narrador, não apenas relata, mas justifica
sua história; o si-mesmo (Self), na posição de protagonista está sempre apontando para o
futuro, pois ele narra no presente o que viveu no passado e o que pressupõe viver no futuro.
Em outras palavras, nas autobiografias, o narrador relata sobre o que passou quase
sempre abordado no tempo passado, mas, narrativamente, decide o que fazer do passado no
próprio momento do relato (presente). Nesse processo, o papel do entrevistador dessas
narrativas autobiográficas se torna parte da disseminação que distribui o ‘si-mesmo’ (Self)
entre suas ocasiões de uso.

4.5- A Função do entrevistador nas narrativas autobiográficas

25

O entrevistador é responsável pela organização e análise do como o narrador se utiliza
da distribuição do ‘si-mesmo’ (Self) na sua narrativa. Na análise do discurso do narrador, o
entrevistador se utiliza de pressuposições para explicar seu relato analisado. Bruner (1997) se
apontou como entrevistador e descreveu um denso emaranhado de pressuposições acerca de
autobiografias de pessoas entrevistadas por ele e por seus colegas. Esses pesquisadores e
entrevistadores concentraram-se no estudo de uma família, para defender pressuposições de
uma análise que não isola individualmente o narrador, mas inclui nessa análise aspectos da
sua constituição social. Nessa conduta reafirmou-se que a narrativa não é apenas um enredo,
uma fábula; mas um modo de contar história, um modo que destaca como o narrador e o
protagonista estão envolvidos na narrativa.
Enquanto pesquisador, Bruner (1997) revelou como as experiências históricas
intrapsíquicas são convertidas em significados, em linguagem, em narrativas e como
encontram seu caminho para as mentes de homens e mulheres. Suas análises possibilitaram o
conhecimento sobre o processo de conversão (transformação) de eventos históricos sociais em
significados (em linguagem e narrativa) e traduzindo o mundo que os seres humanos
experimentam nas suas relações com a cultura. Em face dessas transformações ele defendeu
que uma Psicologia Cultural deve contemplar e não descartar essas questões, que devem ser
do seu principal escopo.
Não se trata de negar a existência dos fatores biológicos, físicos e, até mesmo, de
necessidades econômicas. Todavia para o autor, se a Psicologia Cultural insistir que a
metodologia da causalidade, do que produz efeito, implicando-se a artificialização para
isolamento de elementos em detrimento dos processos, ela não poderá capturar a riqueza
social e pessoal das vidas constituídas na cultura, nem estudar sua profundidade histórica. Em
sua opinião, está na dedicação à interpretação da profundidade histórica e social, a
possiblidade da atribuição justa para ação da cultura sobre nossas experiências psicológicas.

4.6- Narrativas autobiográficas de acordo com Bakhtin: As relações dialógicas
entre autor e leitor

As narrativas autobiográficas têm sido largamente estudadas, dado o grande número
de produções e as diversas formas de apresentação desse gênero hoje consagrado. Bakhtin
(2003), em sua abordagem filosófica destacou as relações dialógicas entre personagens, meio
social e linguagem e, recusou a autoconsciência cartesiana. Para ele, a experiência de

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alteridade, é fundamental para o sentido do discurso. Nesta razão dialógica, que vai de
encontro à razão cartesiana, Bakhtin apontou a realização da enunciação que suporta a
complexa função da linguagem como integradora do organismo e da cultura. Dessa condição
constitutiva da linguagem e do discurso literário emergiram questões relevantes para a
“lógica” do discurso bakhtiniano sobre a autobiografia.
Para este analista de textos literários, os discursos são fruto da interação; isto é,
da participação simultânea de indivíduos, que, nesse contexto, são considerados interlocutores
e não mais entidades isoladas. Para Bakhtin (2003), autor e leitor envolvidos no pacto
biográfico não são sentimentos isolados, mas corpo e mentes atuantes e participantes de uma
historicidade; isto é, afetam e são afetados por seus discursos e/ou discursos alheios. Essa
relação pressupõe um desejo de ser habitado pela alteridade da linguagem, aspecto
fundamental para a concretização de toda e qualquer interlocução. De fato, para Bakhtin, a
autobiografia é o registro da afetividade, na qual a ideia de auto-criação não supõe
autossuficiência, mas apropriação criativa do discurso do outro. Essa espécie de sintonia
constitutiva entre interlocutores é o que determina o caráter polifônico da linguagem:
O autor da biografia é o outro possível, cujo domínio sobre mim na vida admito,
com a maior boa vontade, que se encontra ao meu lado quando me olho no espelho,
quando sonho com a glória, quando reconstruo uma vida exterior para mim; é o
outro possível que penetrou em minha consciência e que com freqüência me governa
a conduta, o juízo de valor e que, na visão que tenho de mim, vem colocar-se ao
lado de meu eu-para-mim. (...) é o outro com quem (...) posso viver, com toda
espontaneidade-ingenuidade, uma vida movimentada e feliz. (BAKHTIN, 2003;166167; grifo adicionado).

Assim,

há

na

ação

narrativa

autobiográfica,

segundo

Bakhtin,

uma

confrontação entre interior e exterior: seja do escritor com o autor/narrador ou do leitor
[entrevistador] com tais figuras [funções] da narrativa. Nessa perspectiva, os afetos (e a
experiência de valor) determinam a aproximação que se tem do mundo possível veiculado na
autobiografia, na sua confrontação com o mundo real. Para Bakhtin (2003) as vozes evocadas
na interpretação estão justamente presentes na relação dialógica das várias consciências,
sejam elas reais ou criadas.
A obra de Bakhtin fortalece os fundamentos da presente pesquisa, com uma reflexão
sobre a biografia e a autobiografia como produções antigas cujo suporte narrativo é o
indivíduo e sua memória. Nesse sentido, a memória, enquanto evocação do passado é
exercida como fenômeno narrativo, onde a palavra “fenômeno ideológico por excelência [...]
é o modo mais puro e sensível de relação social” (BAKHTIN, 1981, p. 36).

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4.7- Forças centrífugas e centrípetas operantes na narratividade

Um estado de confrontação, entre interno e externo, entre as dimensões social e pessoal é,
como já mencionado, um princípio operante na narratividade. Esse estado de confrontação
exerce uma tensão no processo de negociação de significados durante a atividade narrativa.
No âmbito das análises de Bruner (2007) esse princípio operante que exerce tensão no
processo de negociação de significados foi abordado a partir da dinâmica entre as posições de
narrador e protagonista. No âmbito das análises de Bakhtin (2003), essa tensão foi remetida à
dinâmica de forças centrífugas e centrípetas atuantes no cerne do funcionamento da
linguagem e dos processos de significação, considerando-se a função de endereçamento e da
atuação de vozes, como incorporação do discurso do outro. Para Bakhtin, estudar uma
narrativa é estudar situações de tensão configuradas na apresentação do encontro psicossocial
do eu com o outro, no ‘si-mesmo’ (Self). Essas tensões operam como forças antagônicas,
centrípetas e centrífugas, dividindo os conflitos de vozes sociais, gerando relações
conflitantes. Para ele, um indivíduo sempre encontra tanto espaço nas contradições das vozes
sociais quanto estratégias para resistir à monologização.
Holanda (2016) também refletiu sobre as explicações de Bakhtin e observou que as
forças centrípetas, ou seja, as forças de unificação e da centralização são também atravessadas
por enunciados que procuram se afastar das vozes dominantes, provocando um movimento de
descentralização (forças centrífugas). Reafirmando apontamentos de Bakhtin sobre a tensão
no interior das narrativas esse autor declarou que “toda a palavra é sempre réplica à palavra de
outrem e assume significação a partir dessa orientação exterior. Ele [Bakhtin] ressalta o
aspecto de um campo de batalha, assim os discursos não são neutros, mas estão submetidos a
certas regras sociais” (HOLANDA, 2016; pág. 55).
Dessa forma, os discursos movimentam-se gerando as forças centrípetas e centrífugas
em uma batalha discursiva, cujas relações reinscrevem-se na linguagem. Sobre esse
funcionamento, Elichirigoity (2008, p. 181) destacou em seu texto: “Mas o que torna diferente
as diferenças? Essa questão dos filósofos modernos também preocupa Bakhtin e ele se
concentra na possibilidade de abranger diferenças numa simultaneidade”.
Em resumo, Bakhtin (2003) revelou que forças interativas antagônicas operam como
tensão na forma narrativa da linguagem e nas produções discursivas, aspecto que outros
autores, filiados a uma perspectiva estruturalista e mais tradicional da linguística excluíram de
suas análises. As considerações de Bakhtin para essas forças possibilitaram um olhar para
aspectos que podem ser definidos como extralinguísticos, mas que estão definitivamente

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implicados nas produções discursivas como, por exemplo, a necessidade de estabilidade das
sociedades ser conciliada com sua necessidade de adaptar-se a novas condições históricas, ou
de um texto ser diferente em contexto diferente, ou, ainda, da possibilidade de incorporação
de tanta coisa que é compartilhada com outros à experiência individual de ‘si mesmo’ (Self).

5. ATUALIDADES: PESQUISAS QUE SE UTILIZAM DE NARRATIVAS
AUTOBIOGRÁFICAS

As narrativas autobiográficas têm sido estudadas, dado as diversas formas de
apresentação desse gênero que é hoje bem reconhecido. Discute-se, a seguir, sobre as
metodologias desenhadas e os conceitos relevados em pesquisas recentes, voltadas para a
análise de fenômenos configurados nas narrativas autobiográficas.
Germano (2009) analisou as narrativas autobiográficas de três mulheres de uma
comunidade pobre próxima a Fortaleza/CE. A pesquisa foi intitulada como Experiência,
Memória e Sofrimento em Narrativas Autobiográficas de Mulheres e teve como objetivo
compreender o modo como essas mulheres produziam sentidos sobre ‘si mesmo’ (Self)
durante a construção de enredos. Com esse objetivo o autor observou o modo como as
narradoras formatavam os eventos que protagonizaram ou dos quais tomaram conhecimento e
que julgavam mais dignos de menção ou mais adequados à expressão de ‘si mesmo’ (Self).
Esta pesquisa partiu do pressuposto de que a forma narrativa de linguagem fornece uma
estrutura que permite a pessoa conferir sentido às experiências pessoais e coletivas, incluindo
a ideia que faz sobre si mesma (Self) ao longo da vida. Para o autor, as narrativas ordenam o
vivido, construindo as regras que organizam a memória do passado e orientam tanto a
consciência atual do narrador quanto a sua ação futura.
A narrativa autobiográfica foi o principal conceito trabalhado nessa pesquisa que se
alinhou com estudiosos de vários campos de estudo que compartilham a compreensão de que
as narrativas constituem-se como princípio organizador das ações humanas (Bruner, 1994,
1997, 1998; Polkinghorne, 1988; Ricoeur, 1996; Sarbin, 1986). Bruner (apud GERMANO,
2009) declarou que o pensamento e o texto narrativo apresentam características que permitem
aos seres humanos lidar com a heterogeneidade dos mundos sociais e da experiência
temporal, revela na sequencialidade dos eventos narrados. Para Sarbin (apud GERMANO,
2009), “os seres humanos pensam, percebem, imaginam e fazem escolhas morais de acordo
com estruturas narrativas” (p.08). Nessa perspectiva, a memória é um processo dinâmico e
contínuo de construção e reconstrução do tempo, que envolve o trabalho de interpretação e

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imaginação (BROCKMEIER, 2002). Para Brockmeier (apud GERMANO, 2009), a forma
narrativa modela as mais complexas construções humanas relativas ao tempo, entre as quais
se incluem as “sínteses temporais” que as pessoas criam para dar sentido às suas vidas e à
diversidade de suas experiências presentes, passadas e futuras no curso de sua existência.
Foi na perspectiva da Psicologia Cultural que Germano (2009), o autor da pesquisa
supracitada examinou as autobiografias dessas três mulheres. Seu propósito foi examinar os
vínculos entre narrativa, memória e experiência de ‘si mesmo’ (experiências do Self), tais
como se apresentaram nos enredos construídos por essas mulheres em situação de entrevista.
Nesse exame, ele destacou que a história autobiográfica dessas mulheres mostrou-se uma
expressão simultaneamente singular e coletiva; uma experiência íntima e social. Nesse
sentido, a história autobiográfica se remete aos problemas do discurso, em particular às suas
condições de produção, dado que o falante ocupa certo tempo histórico e certo contexto
sociocultural e esses “lugares” condicionam a sua atividade discursiva em busca de seus
sentidos distintos e únicos.
Com o propósito de se destacar uma perspectiva social da análise de narrativas foi
difundida nesta pesquisa a técnica da Entrevista Narrativa (E.N.), sistematizada por Schütze
(apud GERMANO 2009), onde se focalizou a reconstituição da relação entre processos
biográficos individuais e mecanismos coletivos. Esta técnica objetivou a revelação de
estruturas de processos pessoais e sociais na ação narrativa, como também possíveis recursos
de enfrentamento ao sofrimento e à mudança.
Para Schutze (apud GERMANO 2009), a E.N. encoraja o entrevistado a contar
espontaneamente algum acontecimento importante de sua vida ou mesmo toda a sua história,
até que ele mesmo indique que finalizou sua narrativa. Na primeira narração evitam-se as
interrupções ao narrador em seu processo de criação do enredo, de modo a acompanhar a
versão livre ou improvisada de seu relato. A situação encorajadora inicial pode ser a sugestão
de um tema ou mesmo uma pergunta geral: “Gostaria de conhecer um pouco da sua vida. Se
você pudesse me contar a história da sua vida, por onde começaria?”. Após a primeira
narração desliga-se o gravador e perguntas são endereçadas ao entrevistado visando
esclarecimentos sobre o conteúdo relatado, especialmente alusões, ambiguidades, lacunas e
passagens inverossímeis.
Na pesquisa realizada por Germano (2009), também se fizeram perguntas de cunho
descritivo sobre situações, pessoas, hábitos, instituições e outros elementos suscitados no
relato do informante. Por fim, o pesquisador fez perguntas teóricas sobre a forma de pensar do
narrador. Ao longo de todo o relato as pistas sobre como o informante teoriza acerca do

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mundo e de suas próprias ações figuram usualmente nos comentários argumentativos; isto é,
enunciados que veiculam o universo simbólico do ator social (valores, juízos, generalizações,
teorias, etc.). Nesse momento se abordava as razões porque os episódios aconteceram do
modo como o narrador contou ou por que o narrador tomou as decisões que tomou.
As entrevistas foram transcritas e analisadas em seus aspectos referenciais (conteúdo)
e textuais (estrutura), de modo a observar os temas mais significativos nas trajetórias de vida
estudadas, bem como a forma como são construídos os enredos; isto é, como essas mulheres
ordenaram e explicaram os episódios e acontecimentos da sua vida ao longo da narrativa. A
análise das narrativas abarcou elementos usualmente estudados no espaço-tempo das
personagens, nas funções e lógica narrativa que mereceram atenção particular nas histórias
contadas. Considerando também as questões já apresentadas sobre os efeitos da interação
entre o falante e o ouvinte, também foram observados os sentidos condicionados pela situação
de entrevista. Em síntese, os procedimentos adotados na análise dos dados foram: 1.
Transcrição das Entrevistas Narrativas (E.N); 2. Tratamento do material: a) Identificação da
sequência de ações; b) Identificação dos núcleos narrativos (redução da história em unidades
significativas); c) Classificação das funções narrativas. 3. Análise das personagens; 4. Análise
do espaço e do ambiente; 5. Análise do tempo da narrativa; 6. Tratamento do material não
indexado 7. Reconstrução do enredo ou intriga de cada E.N.; 8. Comparação das narrativas
individuais e identificação de uma narrativa coletiva ideal-típica no contexto de vida das
mulheres da comunidade.
Os resultados partiram da premissa de que as autobiografias são estudadas em seus
elementos referenciais (“o que elas contam”), textuais (“como” elas contam) e performativos
(o que os narradores “fazem” ao contar para outra pessoa sua história). Para o autor da
pesquisa, no aspecto referencial, as histórias comunicam a trajetória de sofrimento precoce e
contínuo, associada às condições de classe social (pobreza e trabalho precarizado), de gênero
(vulnerabilidade da mulher, especialmente na relação conjugal) e questões geracionais (a
difícil educação dos filhos). Em termos textuais, as histórias tendem a explorar os momentos
regressivos (Gergen & Gergen, 1986; apud GERMANO 2009). No aspecto performativo, as
narradoras fazem uso terapêutico da entrevista, solicitando apoio e reivindicando
retoricamente uma imagem positiva para ‘si mesmo’ (para o Self) a partir da polaridade
“frágil-forte”. De acordo com o autor da pesquisa,
O relato autobiográfico inscreve a vida íntima na história social e cultural, pois ao
narrar a própria história, instaura-se um campo de negociação e reinvenção
identitária onde a narradora tem a liberdade de dispor de um repertório de episódios,

31

cenários, personagens e paisagens afetivas a ser configurado e comunicado a outrem
(GERMANO, 2009, p 10).

Nos resultados dessa análise, a história individual não reproduziu a história coletiva,
mas criou um campo de possibilidades onde as mulheres puderam afirmar sua singularidade
ao dizer-se de outro modo e imaginar outros horizontes para sua existência. Sobre a
participação do entrevistador, Germano (2009) relatou que o papel de ouvir é tarefa delicada e
particularmente importante nos dias atuais. O autor declarou ainda que não há formas para
assegurar a validade da interpretação da narrativa autobiográfica, já que o discurso do
narrador se constrói “em movimento”, no instável espaço intersubjetivo da situação
comunicativa.
Serpa (2008) também se utilizou da narrativa biográfica como desenho metodológico.
A sua pesquisa teve como titulo “Narrativas Autobiográficas de Jovens em Conflito com a
Lei”. Os participantes foram oito rapazes em cumprimento de medidas socioeducativas. Serpa
(2008) orientou sua pesquisa narrativo-discursiva com contribuições de Bruner, Kenneth
Gergen e Mary Gergen sobre a modelação da narrativa do Self. Nesta pesquisa o autor
também se utilizou da técnica de E.N para analisar como jovens cumprindo medidas
socioeducativas relatavam sua trajetória de vida até o presente com foco na estruturação
narrativa das histórias contadas.
Em seus pressupostos teóricos, Serpa (2008) destacou o conceito de narrativa de
Sarbin (1986) que apontou para a centralidade do evento histórico na ação e inteligibilidade
humanas. Para Sarbin (apud SERPA 2008) a narrativa é um ato dramático e dinâmico que
sugere que o real se configura como uma teia de múltiplos eventos interconectados e
influenciados pelas ações de vários agentes que buscam satisfazer suas necessidades e metas.
Crossley (apud SERPA 2008) destaca que “a perspectiva narrativo-discursiva filia-se ao
paradigma do construcionismo social e é proposta como um desafio a abordagens em
psicologia social que tendem a minimizar a estruturação linguística e cultural da experiência
individual e coletiva” (SERPA, 2008, p. 02).
Serpa (2013) também referencia as ideias de K. Gergen e M. Gergen (1986; 2001)
sobre o sentido de movimento, ou de direção da narrativa no tempo. Nessa referência ele
destacou que a narrativa é um artificio linguístico construído e reconstruído pelas pessoas nos
relacionamentos e funcionam como histórias que são sistemas simbólicos usados para
propósitos sociais tais como justificação, crítica e solidificação social.
Serpa (2008) e M. Gergen e K. Gergen (1986; 2001) distinguem três formas de
narrativas: A narrativa progressiva (quando eventos estão articulados de forma que alguém,

32

constantemente, progride em direção a uma meta); a narrativa regressiva (relatos nos quais
alguém se afasta continuamente da meta ou condição valorizada); narrativa de estabilidade
(quando a sequência de eventos é articulada de modo que o protagonista permanece
basicamente sem alteração em termos avaliativos).
Serpa (2008) também referencia as ideias de Bruner para destacar que na produção e
recepção de histórias parecem configurar fenômenos transculturais, cuja competência é
adquirida cedo na infância e permite a criança partilhar os sentidos expostos em sua cultura,
interpretar o mundo e agir sobre ele.
Os dados de Serpa (2008) foram analisados através da separação do material
(temáticas relatadas nas entrevistas) e comparação dos relatos autobiográficos. Nos resultados
observou-se que as narrativas autobiográficas são transacionais e estreitamente dependentes
dos contextos da enunciação, servindo tanto as funções sociais gerais quanto as localizadas,
envolvidas nas interações imediatas. Dessa forma encontrou-se nessa pesquisa pontos de
diálogos que permitiram refinar a sensibilidade do psicólogo em sua tarefa de compreender o
processo escorregadio com que as pessoas dão sentido para ‘si mesmo’ (sentido para o Self) e
ao seu mundo.
Resume-se, então, que nas duas pesquisas, as narrativas se consolidam na arena social.
A adoção e manutenção de qualquer forma narrativa dependem da habilidade do indivíduo
para negociar sua versão e avaliação, processo realizado em grande parte de modo antecipado.
Revisitando as palavras de Bruner “Ao contar a sua história, o indivíduo geralmente modela e
organiza seu relato de acordo com as convenções publicamente aceitáveis” (BRUNER, 1997,
p. 66).
Considerando-se a complexidade com que se configura a relação entre a forma
narrativa da linguagem e o funcionamento psicológico humano defende-se aqui o
aprofundamento do conhecimento sobre como o ser humano constrói suas experiências de
modo narrativo e lhes atribui significados. Concorda-se que para esse aprofundamento podese fomentar narrativas autobiográficas nos mais diferentes cenários culturais. Nessa
perspectiva propõe-se aqui que essas narrativas estejam relacionadas com as experiências de
pessoas que compõem a PSR. O aspecto teórico metodológico que se destaca nessa
investigação é sobre o papel do tempo na negociação e organização de significados para a
experiência do Self, narrativamente constituído.

6. METODOLOGIA

33

6.1-Tipo da pesquisa

Nesta investigação o pesquisador assumiu características de sua visão idiográfica de
mundo. Com essa atitude os procedimentos aqui utilizados se afastaram da busca por relação
de causalidade linear para produção de conhecimento científico, para relevar o turno
interpretativo nessa produção. Defende-se que considerar o turno interpretativo para produção
de informações científicas significa ser coerente com a manifestação natural dos fenômenos
objetivados na investigação, que nessa condição estão sempre enraizados em uma rede
complexa de interdependências. Para reforçar essa coerência, essa pesquisa também foi
orientada por princípios do ciclo metodológico descrito por Valsiner (2012). Para Valsiner,
“os métodos e os dados são construídos pelo pesquisador com base na estrutura específica do
processo cíclico de construção do conhecimento geral” (2012, p. 302, grifo adicionado). Isto
é, nesse ciclo sustenta-se um diálogo profundo entre observações empíricas, reflexões sobre
teorias e as experiências intuitivas, indutivas e dedutivas do pesquisador.
Assim, durante toda a investigação fomentaram-se interpretações acerca dos objetos
investigados, que neste caso foram: os processos na organização do ‘si mesmo’ (Self) de
pessoas em situação de rua, configurados em suas narrativas autobiográficas, focalizando-se,
principalmente, o papel do tempo para essa organização, a partir do seu impacto na
negociação de significados nas narrativas. O outro objeto de estudo nessa pesquisa, foi o
potencial dessas narrativas, enquanto instrumento teórico-metodológico para estudar os
processos psicológicos humanos.
Considerando esses pressupostos, o tipo de pesquisa adotado aqui foi o estudo de
casos. Escolheu-se o estudo de casos, uma vez que este tipo de pesquisa possibilita conhecer
situações específicas, abrindo a oportunidade para que um aspecto de um problema seja
estudado em profundidade dentro de um período de tempo limitado.

6.2- Participantes

Participaram dessa pesquisa dois adultos do sexo masculino, identificados como PSR.
Esses adultos eram atendidos por um programa municipal de acolhimento provisório voltado
para a PSR.
A participação desses adultos na pesquisa foi confirmada através da autorização do
Comitê de Ética para realização desta pesquisa e pela sua assinatura dos respectivos
participantes do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE. É importante ressaltar

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que antes das assinaturas do TCLE, os participantes receberam explicações e esclarecimentos
sobre o estudo para que pudessem decidir voluntariamente sobre sua participação ou não nesta
pesquisa.

6.3- Local da pesquisa

A pesquisa foi realizada no Serviço de Acolhimento Institucional para Jovens e
Adultos em Situação de Rua Profº Manoel Coelho Neto, situado no bairro Poço da cidade de
Maceió/AL. Trata-se de um serviço de acolhimento institucional vinculado aos Serviços de
Proteção Especial – Alta Complexidade da Secretaria Municipal de Assistência Social. Este
serviço é um espaço de acolhimento provisório, previsto para PSR, desabrigados por
abandono, migração e ausência de residência ou pessoas em trânsito e sem condições de
autossustento. O atendimento na unidade institucional oferece acolhimento imediato e
emergencial, com profissionais preparados para receber os usuários em qualquer horário do
dia ou da noite, enquanto se realiza um estudo diagnóstico detalhado de cada situação, para os
encaminhamentos necessários.

6.4- Procedimentos para construção das narrativas autobiográficas

O material empírico para esta pesquisa foram narrativas autobiográficas de pessoas
que frequentam o referido programa municipal de acolhimento provisório. Para fomentar
essas narrativas, foram realizadas entrevistas narrativas que, segundo Flick (2007, p. 31)
“enfocam as experiências biográficas e, através da análise das narrativas, pode-se estudar
tópicos e contextos mais amplos”. Procedeu-se, então as orientações desse pesquisador sobre
as entrevistas episódicas. De acordo com ele, entrevistas episódicas têm como característica
principal “a suposição de que as experiências que um sujeito adquire sobre um determinado
domínio sejam armazenadas e sejam lembradas nas formas de conhecimento narrativoepisódico” (FLICK, 2007, p. 172). Nessa perspectiva, considerou-se que esse método foi
apropriado para este estudo, uma vez que foi solicitado aos participantes da pesquisa que eles
falassem a partir do dia em que foram morar nas ruas. Além disso, optou-se pelas narrativas
episódicas, por que suas características asseguraram aos participantes diferentes
possibilidades para reorganizar pensamentos, experiências e informações, considerando-se o
nosso investimento, como já se pontuou em momentos anteriores, nas suas experiências de
risco, vulnerabilidade e fragmentação do Self, como possibilidade para a intensificação de

35

situações de negociação de significados nas suas narrativas. Foram realizadas nove
entrevistas: três no tempo passado, três no presente e três no futuro, para cada participante. O
detalhamento dos procedimentos para o controle do tempo durante as entrevistas episódicas
está descrito a seguir.

6.4.1- Entrevistas episódicas com os participantes

As entrevistas foram realizadas nos dias de atendimento dos adultos participantes nos
serviço municipal de acolhimento provisório, com intervalos de sete dias entre uma e a outra.
Para incentivar as narrativas foi realizada uma “pergunta gerativa de narrativa” (FLICK,
2007, p. 173). A partir dessa pergunta gerativa, o pesquisador esteve atento para providenciar
outras perguntas circunstanciais, alinhadas com o desenvolvimento do conteúdo das narrativas
dos adultos durante as entrevistas. No entanto, um padrão comportamental foi assumido pelo
pesquisador no momento da manifestação dessas perguntas circunstanciais: as perguntas
preservaram o tempo da pergunta gerativa (passado, presente e futuro). Dessa forma, durante
as três entrevistas no tempo passado, as perguntas circunstanciais que o pesquisador
manifestou foram sempre no tempo passado. Da mesma forma procedeu-se quando as
entrevistas foram no tempo presente e no futuro.
Julgou-se necessário incluir no desenho metodológico da investigação, situações que
estimulassem aos participantes a reflexão sobre o tempo de suas experiências narradas,
considerando-se que a análise da organização das experiências de ‘si mesmo’ (Self) seriam
conduzidas tomando-se o papel do tempo, como parâmetro para negociação dos significados
nas narrativas.
Nesta pesquisa, a pergunta gerativa foi apresentada na entrevista inicial da seguinte
forma: O que fez você ir morar nas ruas? A narrativa da primeira entrevista foi transcrita e,
posteriormente modelada no formato de uma história, retirando-se as falas do pesquisador e
procedendo-se pequenos ajustes na coesão do texto. Desse procedimento foi estruturada uma
nova pergunta gerativa derivada das informações apresentadas pelo entrevistado na sua
narrativa (história). Essa história (que corresponde a organização do texto transcrito da
primeira narrativa) e uma segunda pergunta gerativa foi o material para introduzir a segunda
entrevista. Esse procedimento foi realizado para as nove entrevistas planejadas para essa
pesquisa.
No encaminhamento desses procedimentos, realizaram-se, então, três entrevistas no
tempo passado, três no tempo presente e três no tempo futuro (com três histórias e três

36

perguntas gerativas correspondentes). A variação do tempo (passado, presente e futuro) das
perguntas gerativas foi uma estratégia metodológica para controlar o tempo das experiências
enquanto parâmetro fundamental para a organização dos significados na narrativa.
Esses procedimentos totalizaram 18 entrevistas (9 para cada participante), que foram
gravadas em áudio com equipamento adequado e com o consentimento prévio dos
participantes. Considerando-se que nesse estudo se realizou uma sequência de entrevistas,
acreditou-se que dessa forma, se assegurou aos participantes uma possibilidade para
relacionarem entrevistas posteriores com as anteriores.

6.4.2- Procedimentos para análise das narrativas autobiográficas

As narrativas foram analisadas considerando-se dois parâmetros fundamentais,
alinhados com aspectos que vinculam a forma narrativa de linguagem e o funcionamento
psicológico, discutidos nos pressupostos teórico-metodológicos da presente pesquisa: 1)
processos de negociação de significados das experiências dos participantes de acordo com os
três tempos analisados (passado, presente e futuro) e, com relacionado com esse parâmetro, 2)
a dinâmica entre as posições de narrador e protagonista (Bruner, 1997) e entre as forças
centrípetas e centrífugas (Bakhtin, 2003), considerando-se essa dinâmica constitutiva da
negociação de significados e organização das experiências de ‘si mesmo’ (Self);
Para esclarecimento, significados nessa análise foram concebidos como processo e não
como estrutura estável. Nessa perspectiva, para capturar do processo de negociação de
significados, foi procedida uma decomposição das narrativas em unidades temáticas
considerando-se as discussões de Bakhtin (1988) acerca da relação entre tema, significação e
sentido, onde ele denominou de tema “o sentido e a expressão de uma situação histórica
concreta que dá origem a uma enunciação” (1988, p. 128). O tema, nesse pensamento é “o
sentido da enunciação completa” (p. 128). Definido dessa forma, o tema inclui formas
linguísticas e elementos não verbais da situação (como por exemplo, a avaliação do narrador
sobre suas experiências históricas). Além disso, Bakhtin (1988) observou também que,
embora alguns temas sejam reconhecidos, a noção de início e fim não é precisa, pois “o tema
da enunciação é na essência irredutível a análise" (p. 129, grifo adicionando).
Em resumo, para a análise da negociação de significados, enquanto processo para
organização narrativa do ‘si mesmo’ (Self) procedemos ao seguinte encaminhamento: 1)
destacamos as posições do ‘si mesmo’ (Self), se protagonista ou narrador, dentro de cada
unidade temática e 2) agregamos às posições de narrador e protagonista, uma discussão sobre

37

a dinâmica de forças centrípetas e centrífugas, enquanto movimentos do ‘si mesmo’ (Self),
para conservar (narrador) ou para inovar (protagonista) aspectos de suas experiências
históricas (no tempo) narradas. No detalhamento a seguir, apresentam-se todas as etapas
cumpridas para esse encaminhamento:
6.4.2.1- Leitura geral das narrativas autobiográficas: As narrativas foram transcritas
e depois lidas e relidas, várias vezes, pela pesquisadora, com o objetivo de familiarização e
apropriação do seu conteúdo.

6.4.2.2- Definição de critérios para segmentação das unidades temáticas: Para
segmentação das unidades temáticas utilizamos dois critérios:

1) Frequência de palavras repetidas: Durante a leitura das entrevistas observou-se nas
narrativas situações em que determinadas palavras foram repetidas frequentemente. A
repetição dessas palavras foi tomada como um parâmetro para segmentar a unidade
temática, como se ilustra no exemplo: “Foi quando fui para a cadeia quando ‘tive’
briga com a mulher. Acabei parando na cadeia. Aí por causa dessa briga com a
mulher eu fui parar na cadeia” (a repetição de palavra Cadeia fundamentou, então, a
definição da unidade temática como cadeia).

2) Relação tema, sentido e significado (Bakhtin, 1988): A partir das discussões de
Bakhtin sobre essa relação, observou-se que não a frequência de repetição da palavra
não era suficiente para contemplar a configuração diversa dos temas. Nas narrativas
autobiográficas aqui estudadas, foram configuradas situações em que um mesmo
sentido foi sinalizado através do uso de palavras diferentes. Isto é, os participantes,
narrativamente, remeteram-se a informações semelhantes por meio de palavras
sinônimas. Essas situações podem ser ilustradas com o exemplo: “O que me fez ir
morar na rua foi a bebida e a maconha também”. Nesse caso, a unidade temática foi
denominada como drogas.
6.4.2.3- Análise da dinâmica de posicionamento do ‘si mesmo’(Self)’ nas narrativas
autobiográficas: Posição de narrador e protagonista: De acordo com Bruner (1997) os
eventos históricos das narrativas autobiográficas fazem sentido no centro de cada relato onde
se encontra um ‘si-mesmo’, a partir de posicionamentos como protagonista ou como narrador.

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Em síntese, para Bruner, o protagonista é o ator principal da história narrada, enquanto o
narrador justifica sua história. Trata-se de duas posições em que ‘si mesmo’ (Self) se utiliza
para regular e organizar suas experiências. Na presente análise, assumiu-se a caracterização
de Bruner (1997) para a dinâmica de posições do ‘si mesmo’ (Self), de narrador e de
protagonista, nas narrativas autobiográficas. Essas posições foram marcadas dentro das
unidades temáticas, descritas no item anterior.
A posição de narrador foi marcada, dentro das unidades temáticas observando-se a
presença de justificativas agregadas ao resgate de memórias (experiências passadas). Isto é, na
posição de narrador, destacou-se o direcionamento dos sentidos às suas experiências narradas
para o passado. Nessa posição, a justificativa do narrador para as experiências passadas foi
uma atualização dessas experiências no presente. A presença de justificativas indicou a
decisão do entrevistado sobre o que pode fazer com os significados para experiências
passadas durante a narrativa. O exemplo abaixo foi recortado das narrativas analisadas e
ilustram esse processo:
Exemplo 1 - “Agora, novo eu tinha a cabeça quente. Qualquer coisa que eu fazia o
estopim acendia e a bomba estourava. Aí pronto, era por isso que eu arrumava briga,
arrumava problema” (entrevista tempo passado).

Neste exemplo 1, observou-se que o entrevistado se remeteu às suas experiências
passadas e agregou ao seu resgate da lembrança uma e justificativa “era por isso que eu
arrumava briga”. De acordo com Bruner (1997) essa relação da posição de narrador com as
justificativas é típica das narrativas autobiográficas.
A posição de protagonista foi marcada em situações quando o entrevistado avaliou
suas experiências, destacando-se nessas situações, o direcionamento dos sentidos por ele
atribuído para as suas experiências narradas para o futuro. No momento em que avaliou, o
entrevistado agregou características novas as suas experiências. Esse aspecto novo esteve
relacionado com o seu olhar para o futuro. O exemplo abaixo ilustra esse funcionamento.
Exemplo 2 -“Assim, eu tendo minha casinha eu vou ‘tá’ no que é meu. Vou viver a
minha vida, vou reconstruir minha vida, continuar pra frente” (entrevista no tempo
futuro).

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Nesta situação indicada no exemplo 2, a posição de protagonista foi marcada
observando-se que o entrevistado se referiu a experiências futuras “eu vou viver a minha vida,
vou reconstruir a minha vida...”. Ele antecipou o futuro de suas experiências agregando
avaliação ás suas experiências ‘ continuar pra frente’.

6.4.2.4- Diagramação das narrativas: Nesta pesquisa os procedimentos até agora
descritos foram aplicados às 18 narrativas autobiográficas analisadas. Os resultados dessa
aplicação foram diagramados; isto é, as etapas analíticas aplicadas às narrativas, com a
finalidade de explicar como a organização das experiências do ‘si mesmo’ (Self) refletiram
processos de negociação de significados nas narrativas, foram organizadas em quadros. Os
quadros possuem três colunas que identificam as unidades temáticas e as posições do Self.
Uma coluna para observação foi preservada para situações não previstas. A forma como esses
quadros foram elaborados e apresentados foi intencionada para possibilitar a visualização do
esquema sequencial de aplicação dos procedimentos. Nesses quadros, assegurou-se a
visualização dos posicionamentos de ‘si mesmo’ (Self) – como narrador ou como protagonista
- relacionados com as unidades temáticas que, por sua vez, foram possíveis de serem
analisadas, quanto à diversidade e frequência, em ampla correlação com o tempo narrativo
(passado, presente e futuro) das experiências dos entrevistados. Nos quadros as posições do
‘si mesmo’ (Self) foram sinalizadas por cores: vermelho representa a posição de protagonista;
azul que representa a posição de narrador e o verde que representa a posição indefinida. As
palavras nucleares das quais se derivaram as unidades temáticas foram sublinhadas nestas
diagramações para dar mais visibilidade na compreensão da narrativa.

6.4.2.5- Levantamento de frequência: Após a etapa de diagramação foi realizado um
levantamento da frequência de ocorrência das situações diagramadas. Esse levantamento foi
organizado em quadros, onde é possível observar as frequências relacionadas com as
categorias: unidades temáticas, posição de narrador e protagonista e tempo da narrativa.

6.4.2.6- Análise narrativa do pesquisador: A última fase desse estudo foi destinada
para uma articulação entre as informações derivadas das diferentes etapas dos procedimentos
para contemplar os objetivos de: a) destacar a dinâmica de forças centrípeta e centrífuga na
negociação dos significados, relacionando-a com as posições de narrador e protagonista; b)
considerar essas explicações sobre essa dinâmica para discutir o papel do tempo na
organização das experiências de ‘si mesmo’ (Self) de pessoas em situação de rua, refletindo a

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distribuição das unidades temáticas de acordo com o tempo das experiências (passado,
presente e futuro) e, por último, c) apresentar uma avaliação desta pesquisa com relação ao
potencial das narrativas autobiográficas para o estudo de processos psicológicos humanos.

7. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Selecionaram-se seis entrevistas (do total de 18) para serem exploradas na
apresentação desses resultados (as 18 entrevistas podem ser encontradas, na íntegra, nos
anexos 1 e 2 deste trabalho). No esquema para essa apresentação definiu-se três entrevistas
para cada participante, sendo uma no passado, uma no presente e uma no futuro. Na
apresentação, os participantes serão diferenciados por iniciais, fictícias. Nesse esquema
também foi incluído o levantamento das frequências das situações analisadas. O quadro de
levantamento apresentado corresponde ao total das nove entrevistas de cada participante da
pesquisa. Esse esquema de apresentação pode ser conferido a seguir:

7.1 Entrevistado J.C.D.

QUADRO 1 - Narrativa 1 (Passado)
UNIDADE
TEMÁTICA
Drogas
Família

Mudança

Família
Mudança

Família

Mudança

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
O que me fez ir morar na rua foi a bebida e a maconha
também.
Essas coisas aí. Me envolvia em muitos problemas e
compliquei muito a minha família. Aí resolvi largar
minha família de mão e ir embora para bem longe. E
agora é que eu “tô” voltando pra cá, pra Maceió.
Passei doze anos longe daqui, só que eu já havia ido
pra rua aqui porque aqui mesmo eu já “tava” na rua.
Não foi só quando eu saí daqui não. Aqui mesmo eu já
vivia na rua.
Eu brigava com a minha família e “ia” pra rua.
Aí eu fui pra longe e fiquei andando por aí. Num
estado e outro. “Tive” em São Paulo, “tive” em Minas
Gerais, “tive” na Bahia, um bocado de estado aí, um
bocado de cidade.
Então larguei minha família porque eu me envolvi com
bebida e com droga. Aí resolvi largar minha família
para evitar problema pra eles, só isso aí.
Então nesses doze anos fui para São Paulo, Minas,
Bahia, Mato Grosso do Sul, em vários estados. Agora
todos em situação de rua também.

OBS

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Drogas

Cadeia

Drogas
Mulheres

Cadeia
Drogas

Família

Drogas

Família

Mudança

Eu “ia” para albergue, consegui casa também,
consegui mulher, mas não deu certo porque a mulher
era usuária de droga também e “tive” vários
problemas. Aí foi quando consegui parar de beber.
Foi quando fui para a cadeia quando “tive” briga com
a mulher. Acabei parando na cadeia. Aí por causa
dessa briga com a mulher eu fui parar na cadeia.
Eu parei de beber, já “tava” uns cinco anos e alguns
dias que eu parei de beber.
Havia a mãe dos meus filhos que mora em Anadia. Ali
eu levei uma “gaia”, aí eu resolvi largar. Eu resolvi
largar porque não adianta brigar, nem nada. Ela
também não me agrediu, nem nada. E essa segunda,
essa outra, foi porque ela me agrediu e eu retribuí a
agressão dela.
Aí deu no que deu, fui parar na cadeia. Passei um ano
e mais uns meses preso.
Aí esse tempo todinho parei de beber. Lá dentro tinha
cachaça, mas não queria beber. Aí resolvi que iria
parar de beber e até hoje não “tô” bebendo mais, nem
uso droga. Usei lá dentro da cadeia maconha ainda,
mas agora não uso. Desde menino usando, desde
menino bebendo, não dá nem vontade mais. E quando
dá vontade eu passo por cima dessa vontade. Eu me
controlei e até hoje “tô” me controlando. Espero que
me controle mais ainda pra ver se saio dessa.
Já que eu procurei mudar, minha família não acredita
mais em mim né?! Aí meu irmão não veio aqui. Nunca
que ele veio aqui me olhar pra saber: “ô miserável,
você tá bem?” (risos). Nunca!Até hoje eu “tô” aqui e
ele não veio ainda.
E eu penso em ir lá em cima, mas lá em cima “tive”
problema por causa da bebida. “Tive” problema por
causa da bebida, “tive” briga. Esses problemas aí com
pagamento da bebida e não posso andar pra lá assim
de bobeira.
Porque meu irmão tem medo que os “cabra” vai e se
vinga da família dele por causa de mim. Aí eu também
não vou lá para evitar preocupação pra ele. Aí eu “tô”
aqui esperando que ele apareça pra poder a gente
conversar, se ele aparecer né? Não sei se ele vai
aparecer. Eu acho que eu vou embora pra minha casa
e ele não vai aparecer. Estou com dezoito anos que
“tô” na rua, mas doze anos longe da família.
Com dezoito anos saí do estado de Alagoas e fui
embora. Porque eu vivia do estado de Alagoas para o
estado da Bahia.

42

Família

Mudança
Brigas
Tranquilidade
Brigas

Tranquilidade
Remédio
Tranquilidade
Drogas

Família

Tranquilidade

Onde tenho família lá. Mas minha família é de Alagoas
mesmo, mas em Salvador tem algumas pessoas da
família. Aí quando minha tia, minhas duas tias e meu
pai morreu, aí foi que eu sumi de vez.
Fui pra longe. Fui pra Mato Grosso, fui pra Minas
Gerais.
Eu tenho sangue muito doce para o lado de briga, aí
pronto!
Agora que eu “tô” mais velho, eu “tô” dando uma
“aquetada”.
Agora, novo eu tinha a cabeça quente. Qualquer coisa
que eu fazia o estopim acendia e a bomba estourava. Aí
pronto, era por isso que eu arrumava briga, arrumava
problema.
Agora não, agora eu “tô” mais tranquilo, mais
paciente.
“Tô” tomando remédio e “tá” tudo em dia.
Tudo sossegado pra poder dormir em paz e não ter
problema. “Tô” bem tranquilo agora.
Então, a saída para as ruas foi a bebida e o uso da
maconha também. Mas a maconha a família não sabia,
mas se sabia não dizia nada.
Porque larguei da minha família e eles têm medo de
mim. Tenho vários irmãos mais velho, maior do que
eu, mas eles não respeita. Eles tem medo, a verdade é
essa. E eu que já aprontei, eles tem medo mesmo.Aí eu
não tenho o que perder. Eu acho que eles pensam
assim: “ele não tem o que perder e a gente tem”. Aí foi
por isso que saí de casa, porque “tava” aprontando
demais, arrumando muita confusão. Não queria
prejudicar os meus irmãos e fui embora. Minha irmã
mesmo. Passei em Delmiro Gouveia, ela mandou eu
dormir só uma noite e no dia seguinte, de manhã cedo,
ela botou eu no carro e me mandou embora para
Maceió. Aí chegou aqui o outro irmão, já falou que não
queria que eu fosse pra casa dele. Que o pessoal ainda
“tava” me procurando. Aí eu falei que ele não se
preocupasse que eu não “ia” pra casa dele. Quando
cheguei no albergue liguei pra ele. Aí falei pra ele:
“cuida da tua família que eu me viro”, e aí ele disse:
“Obrigado C.!” Daí “cabou-se” e nunca mais veio aqui
porque era pra ele vir pra cá, porque ele era o único
irmão que me acolheu. Só que agora ele não acredita.
Ninguém acredita que eu mudei. Eu parei de beber,
mas ninguém acredita.
Eu “tô” mais tranquilo, “tô” mais sossegado. Antes eu
era uma praga. Agora eu “tô” sossegado graças à
Deus!

43

Indefinido
Família

Moradia

Então “tá” tudo certo! Já respondi a pergunta e já deu
para falar do que “tava” preso.
O que “tá” preso é que ele [irmão] não me procura pra
me ver. Um psicólogo lá do CAPS mandou ele ir lá
procurar ele e ele disse que não. E fica nesse negócio.
Ele pediu para não ir na casa dele e eu vou fazer o que
lá? Aí complica! Ele tem que me procurar. Então se eu
vê algum conhecido eu mando um recado pra ele vir.
Quando eu vêele, a gente vê o que pode fazer. Porque
fui olhar meu primo que trabalha na polícia federal,
conversei com ele e me tratou muito bem. Só não vi os
outros primos. Mas o que eu queria era ver o meu
irmão. O meu irmão até agora nada!
E “tô” aqui até sair minha casinha, que se Deus quiser
vai sair agora em dezembro. E é isso mesmo!

LEGENDA
SIGLA POSIÇÃO

COR

PROT

Protagonista

Vermelho

NAR

Narrador

Azul

INDEF Indefinido

Verde

Observação: Essa legenda deve ser aplicada a todos os quadros apresentados na presente
análise.
De acordo com o quadro 1 as unidades temáticas apresentadas foram: drogas, família,
mudança, cadeia, mulheres, brigas, tranquilidade, remédio, moradia e uma situação temática
indefinida. Com relação à dinâmica de posições de ‘si mesmo’ (Self) observou-se a
predominância do narrador. No entanto, também foram verificadas posições de protagonista.
As posições de protagonista estiveram relacionadas com as seguintes unidades temáticas:
família, drogas, brigas, remédio, tranquilidade, moradia. Na maioria das vezes a posição de
protagonista esteve presente na unidade temática “família” e não transitou nos temas:
mulheres, cadeia e mudança. A posição de narrador não foi relacionada ao tema “remédio”;
mas esteve presente nas demais unidades temáticas.

QUADRO 2: Narrativa 4 ( Presente)
UNIDADE
TEMÁTICA

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA

OBS

44

Emprego

O que faz eu estar ainda em situação de rua é que eu
não tenho emprego entendeu. Não tenho condições
financeiras, não tenho emprego. Não tenho como me
erguer novamente.
Moradia
Tá faltando uma casa que agora a dona J. fez a
inscrição habitação pra mim e eu consegui.
Coordenadora Que essa dona J.é uma estrela de luz pra mim né, ela é
do Serviço de minha vida.
Acolhimento
Moradia
Ela vai conseguir uma casa pra mim já. Já fez a
habitação e eu vou morar no meu cantinho.
Cidadão
E vou viver minha vida novamente né, normal. Uma
vida de cidadão, se Deus quiser porque ultimamente...
Moradia
Eu tinha conseguido uma casa lá em Cuiabá, morava
com a mulher e tudo. Mas perdi a casa pra ela e fiquei
na rua de novo, em situação de rua. Aí “vim me”
embora pra cá. Aí agora aqui eu fiz a habitação, vou
conseguir a casa de novo. Já tá tudo certinho, só
esperar agora em dezembro talvez eu consiga minha
casa. Só isso aí. “Tô” pra conseguir minha casa se Deus
quiser! Eu consegui uma casa em Cuiabá, cheguei a
morar na casa com a mulher, mas a mulher começou a
me colocar na parede e queria que eu fosse embora de
qualquer jeito.
Brigas
Quando foi no dia “deu” ir embora aí ela, a gente
brigou e deu no que deu.
Cadeia
Fui parar na cadeia.
Benefício

Aí eu perdi o benefício que eu tinha também, tive
benefício. Lá em Cuiabá eu já recebia o benefício e
agora eu vou ver se consigo de novo o benefício. Mas lá
eu tinha meu benefício.

Emprego

Trabalhava e ainda ganhava mil conto por mês, ainda
fazia serviço fim de semana, feriado eu fazia esse
servicinho e ganhava um troquinho. Não ficava parado
maneira alguma.

Conhecimento

Agora aqui não, aqui eu “tô” parado de tudo quanto é
jeito. Não tenho conhecimento, aqui eu não tenho
nenhum, aí fica difícil pra mim. Que o que importa é o
conhecimento, a pessoa tendo conhecimento a pessoa
consegue serviço, consegue essas coisas.

Família

Se eu conseguir minha casa eu vou lá em cima, converso
com meu irmão, converso com meus primos e consigo
minhas coisinhas e com meu irmão vou ver se consigo
um servicinho pra eu me manter né. É isso aí!
O benefício que eu recebia era o auxílio doença,
problema psicológico.

Benefício

45

Moradia

Brigas

Cadeia

Moradia

E o cadastro da habitação foi no “minha casa, minha
vida”. A casa em Cuiabá eu ganhei de um colega meu.
Teve em área de risco aí ele saiu da casa pra ganhar
uma casa e eu fiquei na casa dele. Aí aquela casa que
era dele ficou sendo minha, ele me deu. Aí só que a
mulher teve o olho grande e começou a crescer o olho e
a querer ficar com a casa. Arrumei a casinha todinha e
ela quis ficar com a casa.
Aí ela acabou me batendo, aí eu me zanguei. Eu “tava”
bêbado e tinha tomado remédio aí meti o pau nela
também. Meti a faca nela, deu um “desmantelo” lá.
Agora as pauladas eu lembro vagamente, mas desse
negócio de faca eu não lembro não.
Aí fui pra cadeia, passei um ano e onze meses. Todo
mundo na cadeia lá gostava de mim. Tinha uns pessoal
lá que gostava, a maioria e a maioria é o que importa.
Alguns tinha raiva, mas não tinha coragem de
enfrentar. Eu era meio enjoado lá dentro também, eu
não era boa peça também não. Aí pronto! Saí da
cadeia.
E fui procurar meu destino, fiquei no albergue.

Cadeia

Aí foi meu julgamento. Fui julgado. Aí fui liberado
porque caiu por lesão corporal.
Mulheres
E não foi tudo aquilo que ela dizia. Ela falou que eu
bati nela com taco de sinuca e dentro de casa não tem
sinuca, nem tinha taco. E ela enganchou num...eu
enganchei na corrente do cachorro e lá não tinha
cachorro entendeu? Porque o nosso cachorro era uma
cachorrinha que tinha fugido. E ela inventou muita
mentira.
Cadeia
Só que a advogada foi muito boa e caiu tudo por terra,
aí eu fui só condenado por lesão corporal. Baixou tudo
pra lesão corporal, aí era seis meses de reclusão e como
eu já passei um ano e onze meses eu saí livre pela
portada frente sossegado entendeu?
Moradia
E ela ficou com a casa que ela queria né? Só isso! Isso
tudo em Cuiabá.
Coordenadora Agora quando eu cheguei aqui encontrei essa estrela,
do Serviço de esse anjo de luz, a minha princesa J. Essa J. tá no meu
Acolhimento
coração, ela fez muita coisa por mim, ela me ajuda
(antigo
muito. Quando tem qualquer problema eu “vô” lá
albergue)
conversar com ela e ela me atende muito bem,
entendeu? E é assim, dona J. tá sendo uma mãe pra
mim. Uma mãe que eu não tive. Ela tá sendo uma mãe
mesmo. E eu gosto muito da dona J. Ave Maria, se
alguma pessoa falar mal da dona J. E num lugar desse
não falta quem fale né? eu fico com o coração apertado.
Mas como não pode brigar, não pode fazer nada aí eu
também fico calado. Que ela sabe que a maioria do

Refere-se
à mulher
com quem
ele morava

46

Emprego

Família
Moradia

Conhecimento
Emprego

Benefício

Transtorno
Mental

Benefício

Moradia
Emprego

Moradia

Família

pessoal fala dela. Na frente fala bem e atrás fala mal.
Mas eu não tenho o que falar mal dela, pra mim ela é
um anjo de luz, ela é minha estrela guia. Não tem pra
onde. É isso aí.
Não tenho emprego e “tô” esperando essa casa. Eu “tô”
aqui nesse lugar e não tem condições “deu” sair pra
longe pra procurar um emprego.
Também “tô” no aguardo que meu irmão me procure,
na esperança que um dia meu irmão apareça aí.
“aqui”
Aí eu fico por aqui sempre.
refere-se
ao
albergue
E também não tenho conhecimento.
Quem tem profissão pra arrumar emprego é difícil,
imagina eu que não tenho profissão. Tô com 49 anos e
não tenho uma profissão.
Vou tentar ver se consigo o benefício. Já vai ser o mês
que vem, dia 10 do mês que vem, 08h40min da manhã.
Aí eu vou ver se consigo receber o benefício de volta
que aí já melhora, já ajuda. Aí eu “tando” no meu
canto eu vou ver o que eu consigo fazer com esse
benefício. É isso aí.
O benefício que vou tentar é de problema psicológico,
mas não sei o que é. Da outra vez quando eu fui pegar
minha carteirinha de ônibus, diz que era... meu Deus do
céu, diz que era esquizofrenia. O médico explicando pro
outro que “ia” ficar no lugar dele, aí ele explicou que
era esquizofrenia. Aí eu coloquei isso na cabeça. Aí eu
fui e perguntei pro outro médico e o outro médico disse:
“não é esquizofrenia, você não tem esquizofrenia”.
Então, eu não sei o que é. Porque um disse uma coisa e
o outro já disse que é outra e agora “vamo” vê aí com
esse médico, o que ele vai resolver pra mim.
Vou ver se consigo, se eu não conseguir também a vida Refere-se
ao
continua.
benefício
Eu tendo meu cantinho eu tenho que correr atrás de
qualquer jeito.
Eu vô querer trabalhar porque um salário também é
meio complicado, não dá. Eu vô vê se trabalho como
servente de pedreiro, qualquer coisa que dê pra
trabalhar eu trabalho.
E a casa só falta esperar o sorteio. E se Deus quiser sai
esse sorteio aí e eu fico contente. Assim que disser: “óh
o seu nome saiu no diário oficial”.
Aí eu já vou procurar meu primo, já vou procurar o
meu irmão pra poder eles me ajudarem com os móveis,
com as coisas né? Da minha casinha. Porque eles

47

Moradia

Mulheres

Moradia
Mulheres

querem ver eu quieto num canto, então essa é a
oportunidade. E eu já tô velho também e não “tô”
aguentando mais andar não.
É a oportunidade “deu” me estabelecer num canto.
Porque agora eu tô sozinho, vou ficar sozinho no meu
canto.
Não quero saber de “muié” pra perturbar meu juízo
não. Porque essas “muié” desmantelada de albergue
pra mim não tem futuro. Isso aí não é “muié” não, isso
é “baguio”. Isso aí tudinho tem problema com droga,
tem problema com bebida, tem problema com a
família. É a mesma coisa do “homi”, talvez pior que o
“homi”. Porque o homem já é desmantelado mesmo,
mas quando a “muié” chega a ficar numa situação
dessa é porque boa coisa não é. E a minha eu tirei numa
casa dessas. Tirei, ela disse que tinha parado de usar
droga. Eu acreditei, dei a maior força. Fiquei, fiquei e
quando foi morar comigo poucos dias depois “tava”
chupando que nem uma cascavel, parecendo que “tava”
chupando um doce bem gostoso de tanto fumar pedra.
Aí eu chegava em casa e eu já percebia porque eu
ajudava lá no albergue de Cuiabá. Aí eu percebia que
ela tinha usado. E eu dizia: “já usou essa porcaria aí?”.
E ela: “larga minha vida, você não tem nada a ver com
minha vida não... que não sei o que, não sei o que”. Aí
começava a discutir, só brigava comigo e eu fazia rir e
brincar e tudo. Aí acabou no que acabou, deu o
problema que deu. Então a vida continua, larguei ela
pra lá e foi viver a vida dela, morrer com as próprias
mãos. E eu “tô” tocando minha vida pra frente.
Agora vou viver no meu cantinho sossegado, sem
ninguém pra encher minha paciência.
Se arrumar é uma pessoa que eu primeiro tenho que
conhecer a família, tenho que conhecer todo mundo pra
ver o temperamento da pessoa. Não vou mais me
agarrar com a primeira coisa que vem porque eu não
ando desesperado mesmo. Eu sou feio, mas não tô
desesperado não. É isso aí.

Indefinido

Vou tocar minha vida pra frente se Deus quiser. É o
que eu mais quero.
Tranquilidade Esse tempo de tormenta já passou, eu agora “tô” muito
mais sossegado.
Coordenadora Quando eu cheguei aqui eu ainda era meio estourado,
do Serviço de mas a pessoa maravilhosa que a dona J. é, ela
Acolhimento
conversando comigo amoleceu meu coração.
Indefinido
Brigas

Meu coração ficou igual a uma manteiga, passa a faca,
afunda a faca, coração mole.
E agora já tive muita discussão aqui.

48

Transtorno
Mental
Indefinido

Porque um lugar desse aqui que “tô” fazendo meu
tratamento, num lugar desse aqui não é um lugar pra
uma pessoa que nem eu.
Porque sempre tem uma pessoa pra encher a paciência.
Aqui é o sistema da rua, a gente não ouve nada, não vê
nada e não fala nada e é isso aí. Só isso mesmo.

Neste quadro 2 (narrativa 4), observou-se que as unidades se diversificaram, pois foram
acrescentadas outras unidades temáticas como emprego, coordenadora do Serviço de
Acolhimento, cidadão, benefício, conhecimento e transtorno mental que não foram verificadas
no tempo passado (narrativa 1, 2 e 3). Com relação às posições de ‘si mesmo’ (Self) nessa
narrativa, verificou-se um maior equilíbrio na dinâmica das posições de narrador e
protagonista, principalmente quando o entrevistado se remeteu aos temas de moradia e
emprego. No entanto, na unidade temática “cadeia”, a posição de protagonista tornou-se
predominante pelo número de vezes repetidas. A posição de narrador não apareceu
relacionada com a unidade temática “cidadão”.

QUADRO 3: Narrativa 9 (Futuro)
UNIDADE
TEMÁTICA
Moradia

Emprego
Família

Moradia

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
Daqui pra frente se Deus quiser vou conseguir a
minha casinha e vou trabalhar pra tocar minha vida
pra frente né? Viver minha vida que já “tava” num
fosso. Agora não, agora eu “tô” querendo construir
minha vida. E eu conseguindo minha casinha, vou
morar no que é meu. Vou viver a minha vida.
Vou trabalhar de novo, vou tocar minha vida pra
frente. É isso aí! É começar a trabalhar.
E com a ajuda de meu irmão eu vou continuar minha
vida, porque pra começar tem que ter a ajuda de
alguém. Eu vou procurar meu irmão pro meu irmão
me ajudar. E aí eu tenho certeza que ele vai me
ajudar. Pra ele arrumar um serviço pra mim. Pra
quando eu me apertar também eu recorro a ele.
Sempre recorri a ele e ele sempre me ajudou. Aí ele
me empresta dinheiro, eu pago a ele quando for pra
pagar algumas contas quando eu estiver sem
dinheiro. Eu sempre procuro ele, aí pego emprestado
com ele e depois eu pago. É isso aí!
Assim, eu tendo minha casinha eu vou “tá” no que é
meu. Vou viver a minha vida, vou reconstruir minha
vida, continuar pra frente. Então é isso aí. Sair do
albergue já é uma vitória. Vou pra minha casinha,
começo a trabalhar, vou comprando minhas

OBS

49

Emprego

Cidadão
Moradia
Emprego
Cidadão

Moradia

Família

coisinhas, mobiliando minha casa e cuidando da
minha saúde. Aí esse homem aí vai tocar a vida pra
frente, é isso aí, tocar a vida.
Eu vendia prestação. Então eu já posso trabalhar
com isso, mas vou pegar o empréstimo por fora
porque quando estiver em tempo eu tenho como
recorrer a minha aposentadoria que “tô” ficando
velho né?
É difícil falar sobre a gente mesmo, é difícil. Mas eu
vou me sentir um cidadão de bem.
Porque eu vou ter minha casa.
Vou ter meu trabalho, vou andar com as minhas
próprias pernas, vou me sustentar.
Então o que eu quiser comer eu como, na hora que
eu quiser dormir eu durmo, se eu não quiser dormir
eu não durmo entendeu? Eu vou viver pra mim
mesmo. Não vou viver à custa dos outros, esperando
pelos outros. Porque aqui a gente espera pelos outros
né?

E eu tendo minha casa eu vou viver minha vida. É
isso aí, só isso. Trabalhar e viver minha vida. Tocar
minha vida pra frente, se Deus quiser e ele quer.
Minha casa vai sair, logo, logo “tá” saindo. Já é um
bom começo.“Tô” esperando que saia essa casinha
aí, já sonhei tanto com essa casa, sonhei demais, já
pensei, já fiz muitos planos com a chegada dessa
casa. Conseguir minhas coisinhas, comprar minhas
coisinhas, mobiliar minha casa da maneira que eu
quero. Não deixar faltar nada e trabalhar pra tocar
minha vida pra frente, pra não faltar nada dentro de
casa e sempre ter um troquinho separado pra
quando precisar ter um dinheiro. É isso aí, meu
plano é esse. Agora explicar esses negócio é difícil
porque falar logo na casa já fico agoniado. Agoniado
pela espera, porque “tô” esperando essa casa já tem
dias já. Logo, logo ela sai.
Eu não consegui mais contato com o meu irmão
porque se não eu ia pedir um celular pra pegar
contato com ele, do meu sobrinho e minha sobrinha.
Do meu primo eu tenho na caderneta.

O “eu” se
refere
a
cidadão,
pois é o
momento
em que o
entrevistad
o apresenta
uma
autonomia
de
reconhecim
ento por ser
um
cidadão.

50

Celular
Família

Celular
Tranquilidade

Mas não ligo daqui do albergue, ligo do celular de
alguém. Coloco crédito e ligo.
Quando eu tinha meu celular ligava direto pra ele,
era a única pessoa que eu tinha o número quando
“tava” longe daqui.
Mas agora eu não tenho celular porque eu vendi
para comprar os remédios e fiquei sem celular.
Quero viver minha vida sossegado, tranquilo e sem
problemas. Só isso mesmo!

Neste quadro 3 ( narrativa 9) observou-se uma redução na diversidade das unidades
temáticas. Mas ao lado dessa redução observou-se que o entrevistado explorou mais os
argumentos dentro das unidades temáticas apresentadas, principalmente quando se tratou de
moradia e família. A posição de protagonista foi predominante. Durante a posição de
narrador, o entrevistado transitou na maior parte dos temas, menos em moradia, emprego e
tranquilidade.
Com relação à dinâmica de posições de ‘si mesmo’ (Self) observou-se que a situação de
posicionamento de protagonista foi predominante. No entanto, também foram verificadas
posições de narrador. As posições de protagonista estiveram relacionadas com as seguintes
unidades temáticas: tranquilidade, emprego e moradia.
O aspecto mais relevante na configuração desses resultados foi a observação da redução
das unidades temáticas relacionada com o aumento de situações de posicionamento de
protagonista. Nos resultados dessas narrativas observou-se que o entrevistado reduziu os
temas e durante a organização das experiências dentro das unidades que permaneceu, ele se
posicionou, mais frequentemente como protagonista. Destaca-se que essa posição se
caracteriza pelo olhar para o futuro. O entrevistador se organizou, ao assumir a posição de
protagonista, ao visualizar suas futuras experiências.

QUADRO 4: Levantamento de frequência de unidades temáticas e posicionamento do
Self ( total: nove entrevistas de J.C.D.)
POSIÇÃO DO SELF
PRES FUT NAR PROT INDEF

UNIDADES TEMÁTICAS

PAS

DROGAS (bebida, cachaça, maconha)

19

02

***

17

04

01

FAMÍLIA (mãe, irmão, primo e tia)
MUDANÇA (transitar pelos estados)
CADEIA (julgamento e prisão)

22
11
04

03
***
04

03
***
***

29
11
07

14
01
01

***
***
***

OBS

51

MULHERES (companhia,
companheira)
COORDENADORA DO SERVIÇO DE
ACOLHIMENTO (antigo albergue,
Dona J.)
BRIGAS (problemas, cabeça quente,
discussão, faca, lesão corporal, bater,
zangar)
TRANQUILIDADE (tranquilo,
sossegado, cautela, paciente)
INDEFINIDO
MORADIA (casa, casinha, canto e
albergue)
EMPREGO (profissão, trabalhar e
serviço)
CIDADÃO (viver para ‘si mesmo’ e ter
autonomia)
BENEFÍCIO
CONHECIMENTO (profissional)
REMÉDIO
TRANSTORNO MENTAL
(esquizofrenia e problema psicológico)
CELULAR (crédito e ligar)
LEMBRANÇA (lembrar, “tape”,
memória)
MOTIVO (motivo)
MEDO (medo, cismado)
ALEGRIA (alegria)
ABANDONO
(jogado,
cachorro
jogado, apego)
PENSAMENTO (pensar, observar)
TRISTEZA (tristeza)
CORAGEM (sem medo, nem aí)
MORTE (sombra da morte)
AGRESSÃO (bater, apanhar, maldade,
judiar)
CULPA (culpa)
PERDÃO (perdão)
ESPERANÇA (mudar)
TRABALHO (carregar bujão de água e
gás)
PREOCUPAÇÃO (pena das pessoas)
AMIZADE (amizade, dar conselho)
LIBERDADE

02

03

***

04

02

***

***

05

***

05

***

01

08

05

01

12

03

01

04

12

05

10

16

***

03
02

04
12

02
12

06
16

04
26

***
02

***

05

06

06

09

***

***

01

03

02

03

01

***

04

***

02

02

***

***
01
***

02
01
02

***
***
***

01
01
01

01
01
01

02
***
***

***
02

***
***

02
***

02
02

***
***

***
***

01
02
01
05

***
***
***
01

***
01
***
***

01
03
01
06

01
***
***
***

***
***
***
***

03
01
01
01
05

03
01
***
***
02

***
***
***
***
***

03
02
01
01
06

04
***
***
***
***

***
***
***
***
***

01
01
01
01

***
***
***
***

***
***
***
***

01
***
01
01

01
01
01
***

***
***
***
***

***
***
***

03
02
***

***
***
01

03
03
02

***
02
01

***
***
***

De acordo com o levantamento de frequências indicado neste quadro 4, a unidade
temática família foi mais frequente no tempo passado e esteve mais relacionada com a

52

posição de narrador. As unidades temáticas moradia e tranquilidade foram mais frequentes no
tempo presente e esteve relacionada com a posição de protagonista. Observou-se, também que
a unidade temática moradia foi mais frequente no tempo futuro e esteve relacionada com a
posição de protagonista. Por fim, considerando-se todos os tempos (passado, presente e
futuro) o entrevistado se posicionou mais como narrador do que como protagonista.

7.2 Entrevistado W. L. S.

QUADRO 5: Narrativa 1 (Passado)
UNIDADE
TEMÁTICA
Família
Casamento

Drogas
Família

Moradia

Indefinido
Família

Coragem
Acolhimento
Desprezo

Família

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
O que me fez ir morar na rua em primeiro lugar foi a
família porque comecei assim cedo.
Primeiro me casei com 19 anos, não tinha a experiência
mesmo né com a vida de casado. Assim, cara jovem. Aí
passei a ter toda a responsabilidade que eu não queria
né?
E comecei a sair no mundo, me entreguei ao álcool eu a
bebedeira.
E não respeitava mais família, fiquei no mundo mesmo,
abandonei a família e hoje eu “tô” assim perambulando
no mundo assim.
Onde eu chego eu tento fazer daquele local um lar até
eu encontrar uma coisa melhor pra mim. “Tô”
esperando sair daqui pra ver se melhoro e consigo
minha casinha. Isso aqui é o que eu posso lhe falar da
minha vida um pouco. É isso aí o que me fez sair de
casa.
E tem mais coisa né, que certas coisas não dá pra falar.
Não aceitam mais eu dentro de casa, a minha família.
Sou do Ceará e minha família lá do Ceará. Quando eu
tentei voltar eles não abriram mais a porta pra mim e
eu me sinto, pelo que eu fiz, rejeitado. Aí eu não tenho
mais cara de voltar pra casa, pra viver com eles.
Não tenho mais. Como se diz assim: não me acho com
coragem mais.
Aí fico assim no mundo até o dia que Deus quiser e
agradeço por ter sido acolhido aqui.
É isso que eu tenho, tem muitas coisas e fico sem jeito
de falar ao desprezo que me deram e fiquei com
trauma.
Minha mãe me desprezou também. Minha mãe não
quis mais acordo comigo. Meu pai morreu, não cheguei
a encontrar com ele quando “tava” no mundo. E meus
irmãos nunca quiseram assim intimidade assim pra

OBS

“daqui”
refere-se
ao
albergue

53

Drogas
Pensamento

Família
Fé
Esperança

Coragem

Família
Mudança

Família

Mudança

Moradia
Velhice

Drogas

Família

conversar, botar os papos em dia. Tudo que eu falava
pra eles eu era mentiroso o certo eram eles. Eu não
podia se aproximar da minha mãe que minha irmã
encostada mais velha dizia que eu não prestava.
A cachaça destruiu um pouco da minha vida.
Aí não pensava né, mas hoje eu já penso. Mas queria
que fosse antes eu pensasse porque eu acho que é tarde
agora.
Eu prefiro “tá” assim, eu não sei o que acontece lá e eles
não sabem o que acontece comigo aqui.
Eu só peço à Deus mesmo em ter me ajudado e a tocar
minha vida.
Esperança em mudar a minha vida eu não tenho
porque assim, se eu não fiz antes agora que eu não vou
fazer mais.
Não tenho mais condições, eu tenho a experiência só
não tenho mais coragem pra voltar pra família e fazer
de novo. Não tenho mais coragem pra isso. Aí é isso
assim.
Eu abandonei todos da minha família em 2007.
E fui para o mundão. Eu fui pro Maranhão, do
Maranhão fui pra Recife, de Recife eu voltei pro Ceará
de novo, do Ceará fui pro sul pra Santa Catarina, fui
morar em Joenville, fui pra São Paulo e mudei. Aí vim
pra Londrina e hoje eu “tô” aqui.
Quando voltei pro Ceará não me reaproximei da
família, fui pra outra cidade no Ceará e não pra ficar
perto deles. Ninguém sabe onde é que eu “tô” no
momento, nenhum deles. Perdi contato deles tudinho.
“aqui”
Aí de Londrina eu vim pra cá. Aí “tô” aqui agora.
refere-se
à Maceió
Tentando arrumar minha casinha como te falei pra ver
se eu melhoro a minha vida.
Porque desse jeito não dá não, eu “tô” envelhecendo.
Daqui a pouco “tô” com cinquenta anos e aí? Vou viver
como? Em abrigo? Tem condições não.
Foi mais a bebida porque a bebida não leva ninguém a
nada mesmo não. Hoje quando eu tenho uns problemas
aqui eu fico pensando será que eu devo beber outra vez.
Eu não digo que não bebo, mas não para ficar bêbado, é
só para espairecer um pouco. Não bebo mais como eu
bebia antes. Chegou a um ponto que a cachaça fez isso
comigo, a cachaça não, a minha vontade.
E me destruiu lá com minha família, hoje eu me sinto
sem ninguém da minha família. E agora minha família
é onde eu chego, é complicado. Tenho filhos e neta, pra
te falar a verdade eu nem sei a idade dos meus filhos

54

Certidão

Esperança
Moradia

Drogas

Indefinido
Tristeza
Fé
Família

Fé

Pensamento
Aprendizado

Emprego

Fé
Esperança
Família

mais. Não tenho mais contato com eles né. E minha mãe
eu não sei nem se “tá” viva também. Meu padrinho que
eu tive também não sei se ele “tá” vivo. Enfim eu perdi
o contato todos, não tenho comunicação nenhuma mais.
Pra pedir o registro meu, nem o nome do cartório eu
sabia direito porque se eu tivesse o contato com minha
mãe ficava mais fácil. Demorou três meses para chegar
a certidão.
E minha vida é assim, vivendo e esperando no que vai
dar.
Vou ficar por aqui porque eu dependo demais deles por “aqui”
aqui, minha vida “tá” na mão deles abaixo de Deus. refere-se
ao
Porque eles podem me ajudar e assim eu “tô” levando.
albergue
Espero seguir meu objetivo e pare com esse negócio de
bebedeira. E isso que fez eu ir pra rua, isso não tiro da
cabeça que foi a bebida. Droga nenhuma eu uso, é a
bebida mesmo. Me envolvi demais com a bebida e
achando bom eu perdi a família, perdi o caráter, perdi
filho, mulher, tudo. Não tenho dúvida que não foi a
bebida, foi a bebida sim. Farra né de adolescente, caí na
conversa dos outros, experimentei primeiro e foi daí
que começou.
Eu acho que é isso mesmo que complicou quase metade
da minha vida.
E eu não quero mais viver assim, não sei mais o que te
dizer. Eu fico triste quando eu lembro.
Eu “tô” pedindo à Deus, sinto muito aqui dentro do
meu coração.
Sinto a falta da minha mãe, dos meus irmãos, da filha
que foi a primeira, lembro tudo de quando ela era
pequeninha. E hoje eu me acho sem nenhum deles.
Às vezes eu me sento ali, fico meditando um pouco
sobre minha vida: “Meu Deus, porque eu passei por
isso?”
Cheguei a chorar ali sentado. Quando eu “tô” deitado
eu fico pensando que eu deveria ter feito antes.
A vida é assim, tem que apanhar para aprender e eu
apanhei demais. E eu não sei não, sei que agora eu
quero caminhar pra frente.
Agora mesmo, amanhã já vou no emprego lá e vou
entregar o currículo. E me disseram eu “tão” pegando
gente que já é possível começar a trabalhar. Aí daí pra
melhor.
Com fé em Deus!
Então minha vida “tá” assim nesse carrossel. Eu quero
que fique do lado certo.
É porque eu não sei mais o que falar assim, mas minha
vida quando larguei minha família ficou assim. Nunca

55

briguei na rua depois que aconteceu esse problema
comigo da minha separação familiar.
Moradia
Trabalho em beira de praia, “tô” aqui no albergue,
esperando um cantinho pra poder ir e daqui pra frente,
antes eu morava em barraquinho, pedia ajuda e hoje eu
“tô” aqui.
Medo
Eu sofri bastante que eu tinha medo, porque aqui o
pessoal tem que ter medo. Não falo mal de nenhum, o
pessoal qualquer coisinha estoura lá fora. E tenho
medo, peço toda noite à Deus pra mim não fazer coisa
errada. O meu medo é esse de fazer a coisa errada e ser
cobrado porque sempre vem a cobrança.
Fé
E eu “tô” me entregando à Deus e vou tocar a minha
vida, porque eu não tenho outro lugar pra ir até
conseguir minha casa e esse emprego.
Esperança
E eu querendo eu vou conseguir. Quando eu quero uma
coisa eu vou e luto, sem essa bebida. E é tocar a vida
pra frente né? Pra melhoria.
Coordenadora É igual quando a Dona J. fala pra mim, tudo que eu
do Serviço de fizer aqui pra vocês é de bom e eu agradeço ela.
Acolhimento
Lembrança
E eu “tô” tocando. Não sei mais nem o que falo, não
tenho muita lembrança, só de sofrimento e dói né.
Agora não “tô” bem lembrado não.
Tristeza
“Tô” passando sinceridade e o que realmente aconteceu
e tem mais coisas, durante o intervalo de tempo vai
acontecendo, a gente vai se envolvendo com outras
coisas, aquele sofrimento a gente vai amenizando. Mas
de repente volta tudo que aconteceu e não é bom não.
Se eu for bem analisar mesmo não é bom, é sofrido. Às
vezes pedir um pão, uma água o pessoal não dava nem
água. Andei muito a pé e caindo o couro do pé, caindo
mesmo no asfalto quente. Com sede, com fome, eu bebia
água nos bebedouros dos boi cheia de lama, aí bebi e
matei minha vontade. Me deitava no meio dos matos,
foi mais no sul o sofrimento vindo de lá pra cá. Eu não
quero mais sofrer assim não, quero não.
Roubo
Apanhei, fui roubado quando estava vindo pra cá.
Roubaram minha carteira de trabalho, meus contatos,
meu celular e minha mochila. Aí chegando aqui
consegui tirar tudo de novo.
Tristeza
Daí minha vida “tá” assim, sofrida, mas “tá” melhor do
que eu “tava”.
Moradia
Porque onde eu “tava” não tinha o que eu tenho aqui.

Cuidado

Não tinha um documento, não tinha minha vida assim
de alguém me observando, de me olhar, de querer

“aqui”
refere-se
ao
albergue

“aqui”
refere-se
ao
albergue

56

conversar comigo e me ajudar.
Fé
Cuidado

Indefinido

Aqui eu “tô” tendo ajuda e tenho ajuda graças à Deus!
O pessoal ajuda aqui e o pessoal de fora também, tenho
vários conhecimentos aqui. De vez em quando eu
trabalho com um e com outro, mas é bico. Já “tô” bem
conhecido na cidade, já conheço um bocado de gente.
É isso só que tenho pra dizer.

De acordo com o quadro 5, as unidades temáticas apresentadas na primeira entrevista
deste participante foram: família, casamento, drogas, moradia, coragem, acolhimento,
desprezo, pensamento, fé, esperança, mudança, velhice, certidão, tristeza, aprendizado,
emprego, medo, coordenadora do Serviço de Acolhimento, lembrança, roubo, cuidado e uma
situação temática indefinida. Com relação à dinâmica de posições de ‘si mesmo’ (Self)
observou-se que uma leve tendência para a posição do narrador, relacionada, na maioria das
vezes com os temas de família, drogas, coragem, esperança, mudança, tristeza. A posição de
protagonista também foi muito frequente esteve presente nas unidades temáticas moradia e fé,
mas não transitou nos temas: casamento, desprezo, velhice, certidão, lembrança e roubo. A
posição de narrador não foi relacionada aos temas acolhimento, esperança, emprego; mas
esteve presente nas demais unidades temáticas.

QUADRO 6: Narrativa 4 (Presente)
UNIDADE
TEMÁTICA
Mudança
Família

Mudança

Emprego

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
Assim, viver nessa vida de mundão é igual o que
expliquei.
Eu não tenho mais amor de mãe, irmão, de nenhum
familiar. Eu prefiro assim, aonde eu chegar é construir
uma família e viver nessa vida assim de melhoria né!
Pra mim melhorar, estar com alguém, conseguir essa
casinha, progredir pra frente. Porque pra viver com
eles eu não vou mais, pra perto da minha mulher eu
não vou mais e dos meus filhos também não. Igual eu
te expliquei, eu não tenho comunicação com eles mais,
não sei daqui pra frente.
E a vida do mundão que eu falo é essa: seguir em
frente e me adaptar em algum lugar mesmo igual aqui
eu “tô”.
Já “tô” me adaptando, já “tô” arrumando uns
trabalhos, uns bicos e vivendo minha vida.

OBS

57

Família

Longe da minha família né! Se um dia eu chegar a me
comunicar com eles tudo bem posso até me juntar a
eles, tipo assim uma sociedade, uma amizade, mesmo
com a falsidade que eles tem. Que eu não queria “tá”
distante deles, eu queria “tá” perto.
Mudança
E a vida do mundão é essa que eu falo pra ti, não é
viver perambulando.
Moradia
É aqui, “tá” aqui arrumando minha casinha igual a
dona J. falou pra mim que no mês de março “tá” pra
sair as casas.
Família
E eu tenho plano de arrumar alguém na minha vida e
construir uma família, um laço familiar: mulher e
filho.
Fé
Não “tô” tão velho assim e eu espero daqui pra frente
Deus me ajudar.
Mudança
É isso que eu falo pra ti do mundão. Eu “tô” distante
deles mesmo, daqui pro Ceará é longe. Não sei como
vai ser daqui pra frente, eu acho assim pra mim
melhorar porque eu “tô” aqui melhorando até
conseguir isso. Mundão porque eu quero construir
minha vida aqui, nesse mundão que me referi. Aqui ou
no interior aqui por perto. Porque lá não me sentia
com eles, quando eu viajava eu me sentia no mundão.
Me sinto bem em Maceió.
Família
Eu só fico triste porque eu não tenho mais
comunicação com eles, aproximação. Não sei como eles
estão, como “tá” meu filho, minha filha, minha neta,
minha mulher. E minha mãe quando eu soube ela
“tava” meio doente, ela tinha pressão alta e tinha
problema no coração. A maioria da minha família
morre de ataque né! Meu pai também morreu de
ataque. E meus irmãos, apesar deles não gostarem de
mim, eu sinto ainda o amor no meu coração por eles.
Todo irmão quer saber da vida do outro. Embora eu
ache que eles não queiram saber de mim, mas eu
quero. Meu coração não é tão duro.
Esperança
Eu acho que deu pra mim responder né? Hoje eu me
preparo para um futuro próximo. Hoje me preparo
para depois, eu planto aqui pra mim colher amanhã
uma coisa melhor. Porque eu arrumando alguém, eu já
tenho como me manter, me estabelecer ali e viver de
boa com ela, oferecer o melhor porque minha vida
“tava” pior. Não foi tão boa. E eu “tô” tentando
melhorar.
Coordenadora
Dona J. “tá” vendo e “tá” me dando todo o apoio, o
do Serviço de que ela pede eu faço. E daqui pra melhor. Tem meus
Acolhimento
compromissos que eu “tô” cumprindo certinho como
Dona J. falou: “faça certo que daqui você vai para sua
casa”. Hoje “teve” um probleminha com um colega,
mas conversei com Dona J. e tudo se resolveu. Troquei

58

umas palavras com o colega porque não sou de ferro,
mas chamei ela e ficou bom.
Eu me sinto bem aqui, mas não quero viver “Aqui”
permanente aqui nesse albergue porque não é pra se refere
ao
sempre, é passagem.
albergue
Mudança
E essa vida do mundão que te falo é essa da melhoria
que eu espero ter respondido. A pessoa andando pelo
mundo assim fica sem plano, sem rumo né!
Coordenadora
Aí quando eu vim pra cá pedi apoio, Dona J.
do Serviço de conversou comigo, assim como falo com você aqui. Ela
Acolhimento
disse: “vou te dar um prazo, aí tu vê aí”.
(antigo
albergue)
Esperança
Conversei com a assistente social, nós conversamos e
disse que eu tinha um prazo, mas que não era pra mim
me acomodar. Aí foi que tirei a documentação e os dias
foram passando, agora “tô” progredindo.
Emprego
Na hora que arrumar um emprego vai ficar melhor.
Família
Quem sabe quando eu não tiver com minha casinha eu
não ligo pra minha filha, entrar na internet ver o site
dela, alguma coisa né! De repente eu vejo o número
dela pra se comunicar com ela.
Fé
Eu peço à Deus ajuda e “tá” conversando contigo aqui
eu me sinto mais leve, feliz.
Indefinido
Eu não tinha com quem conversar. Você conta aqui
um segredo e o outro já fica sabendo.
Velhice
E aqui eu desabafo sobre minha vida, eu gosto de
conversar contigo quando você vem aqui. Então é isso
minha vida, eu quero prosperar. Tanto do meu
psicológico como do meu coração e no meu
entendimento. Eu “tô” fazendo por onde, já “tô” com
41 anos, daqui a pouco envelheço mais e aí quem vai
me ajudar? Não vou viver todo o tempo assim.
Moradia

De acordo com o quadro 6 as unidades temáticas apresentadas foram: mudança,
família, emprego, moradia, fé, esperança, coordenadora do Serviço de Acolhimento, velhice e
uma situação temática indefinida. Com relação à dinâmica de posições de ‘si mesmo’ (Self)
observou-se que a predominância da posição de protagonista. As poucas posições de narrador
estiveram relacionadas com as seguintes unidades temáticas: família, esperança e
coordenadora do Serviço de Acolhimento. Na maioria das vezes a posição de protagonista
esteve presente na unidade temática “família” e transitou em todos os temas.

59

QUADRO 7: Narrativa 9 (Futuro)
UNIDADE
TEMÁTICA
Moradia

Medo
Moradia

Fé
Moradia

Fé

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA

OBS

Eu imagino assim, saindo daqui logo pra minha casa
né? Porque assim, eu “tando” na minha casa eu vou
ter meu espaço, eu não vou “tá” como eu “tô” aqui.
Aqui tem hora pra entrar, tem hora pra sair. Eu vou
ser mais reservado, mais atento do que eu sou aqui.
Porque aqui todos entra e sai, ninguém conhece,
ninguém sabe quem entra e sai. Eu já quero que minha
casa saia pra mim ficar no que é meu e ficar naquela
segurança. Já que é meu eu vou fazer minha
segurança. Aqui você nunca faz sua segurança. O
quarto é aberto, o portão de vez em quando entra
gente aí que ninguém conhece. De repente chega um aí
e tem uma confusão e entra pra dentro do quarto da
gente naquele corre-corre. Aí eu me sinto assim pra
sair logo minha casa, pra mim montar minha casinha,
se preservar mais ainda porque aqui não tem
condições.
Aqui a gente fica com medo, acontece coisa que
ninguém espera. Entra bicho ruim e entra bicho bom.

“Aqui”
se refere
ao
albergue

É isso aí que eu “tô” te falando de “tá” na minha
casinha, na minha segurança mesmo porque eu faço do
jeito que eu quero. Na casa da gente a gente come o
que quer, consegue o que quer, não tem que dar
satisfação pra ninguém.
É você e Deus.
É isso mesmo o significado de “ta” na minha casinha, o
meu querer de “ta” na minha casinha. Porque eu
sempre tive o sonho de ter uma casa, de me manter. Eu
sempre me “manti”. Eu não tinha casa, eu tinha
alugado. Minha casa era toda organizada. E aqui não
dá, é passageiro mesmo e faz um ano já. Eu fico com
vergonha de “tá” aqui. O pessoal já fala “O W. já ta há
um ano aqui e nunca conseguiu dinheiro pra pagar
aluguel”. Eu consegui, mas eu não vou dar uma de
bobo para sair daqui enquanto não sai minha casa. Eu
“tô” lá e não sai minha casa. Aí eu vou comprar as
minhas coisas. É nisso que me sinto assim de querer a
minha casa entendeu? Daqui pra minha casa. Quero
me sentir bem na minha casa. Ter minha segurança,
ter minhas coisas, ter o prazer de entrar dentro da
minha casa.
Fazer minha oração. Porque quando eu “tô” ali no
quarto que me ajoelho um vai lá e acende a luz, outro
faz barulho. Não! Eu quero um cantinho reservado
para agradecer à Deus, só eu e Deus. Meditar porque
aqui não tem como meditar. Você “tá” aqui

“Aqui”
se refere
ao
albergue

60

Mulheres
Moradia

Mulheres

Moradia

Medo
Brigas

Emprego

conversando com Deus, mas o pensamento “ta” ali
fora. Aí você já sai do quarto e “vê” aquela multidão.
Um sorrindo e o outro “mangando” da cara da gente.
Já sai espalhando. Por isso eu quero meu cantinho, me
preservar. Eu e Deus.
Igual eu te falei na outra entrevista lá: se aparecer
uma mulher pra mim eu vou viver a minha vida.
Eu quero o meu cantinho pra mim me sentir bem, pra
limpar as minhas coisinhas, passar pano. Aqui some
tudo, mas lá na minha casinha vai ter tudo
arrumadinho. Ter meu banheiro limpo porque nesse
daqui eu não sento com medo de alguma bactéria. Eu
não sou melhor do que ninguém, somos todos igual,
mas eu tenho o meu higiênico também. É isso que eu te
falo, eu quero o meu cantinho pra viver. A senhora
olha a minha caminha aqui é tudo organizado, meu
armário é tudo organizado. O dia de limpeza eu tiro
tudo, eu limpo. Se eu vejo uma mesa suja eu já vou
limpar. E eu quero ter o meu cantinho pra fazer as
coisas do meu jeito, do meu gosto. Pra quando eu
chegar do trabalho, chegar em casa ter aquele
cheirinho de limpo.
Não terei que dar satisfação, a não ser pra minha
mulher. Quando tiver com minha mulher. Vou avisar
onde vou, o que vou fazer.
Eu imagino assim, minha vida assim. Viver no meu
cantinho. Olhando pra esse quadrado aqui eu já
imagino minha casa, meu fogão, geladeira, tudo
limpinho. Minhas coisas de higiene tudo arrumado.
Quando eu morava só a minha casa era limpinha, o
meu banheiro limpinho. Era tudo limpo, eu cuidava de
tudo. Eu gosto de planta também. E sou assim, eu
quero minha vida assim. “Tô” pedindo muito à Deus e
que dona J. consiga minha casinha.
Eu “tô” com medo de “tá” aqui, não sou de me meter
em confusão, mas eu tenho medo.
Ontem mesmo tinha um cara querendo bater num
velhinho e bateu boca com a dona J. aí fora. Não dá
pra confiar em gente assim, fica complicado. Pra muita
gente aí fora nós não tem valor de nada, quem passa aí
já pensa que são tudo marginal, ladrão e embora não
seja todos, sempre tem alguém de bem. Mas o pessoal
de fora não dá valor.
Tu vai lá e arruma um emprego, um bico pra fazer e já
perguntam: “tu é de onde? Não tem endereço?” Por
isso que quero a minha casa pra ter minhas coisinhas
tudo entendeu? Te juro por Deus, assim não dá. Eu
tenho minha continha da caixa econômica, mas é conta
salário. Mas deposito minha graninha pra me manter.

“Aqui”
se refere
ao
albergue

“Aqui”
se refere
ao
albergue

61

Coordenadora
A dona J. falou que vai sair esse mês ainda minha
do Serviço de casinha, agora eu vou esperar e eu fico ansioso.
Acolhimento
Indefinido
Pois é minha querida, é isso!
No quadro 7 observou-se que o entrevistado explorou mais a unidade temática
“moradia”, onde também se posicionou com maior frequência como protagonista. As posições
menos frequentes de narrador estiveram relacionadas com os temas de medo e brigas. A
posição de protagonista não transitou nos temas moradia, fé, emprego e coordenadora do
Serviço de Acolhimento; mas esteve presente nas demais unidades temáticas.
Destacou-se também nesse quadro 7, quando o entrevista falou do futuro, a grande
frequência dos temas de velhice e medo. Observou-se que a alta frequência desse tema esteve
relacionada com a posição de protagonista. As posições de protagonista transitaram por todas
as unidades temáticas: velhice, medo, família, cuidado, dinheiro e solidão.
O aspecto mais relevante na configuração desses resultados foi à observação da
redução das unidades temáticas relacionada com o aumento de situações de posicionamento
de protagonista. Destaca-se que essa posição se caracteriza pelo olhar para o futuro. O
entrevistador se organizou, ao assumir a posição de protagonista, antecipando possibilidades
de experiências futuras.

QUADRO 8: Levantamento de frequência de unidades temáticas e posicionamento do
Self (total = nove entrevistas de W. L. S)
POSIÇÃO DO SELF
PRES FUT NAR PROT INDEF

UNIDADES TEMÁTICAS

PAS

FAMÍLIA (pai, mãe, filhos, tia,
padrinho, irmãos)
CASAMENTO (casei, casado)
DROGAS (álcool, bebedeira, bebida,
cachaça, beber, bêbado)
MORADIA (casa, casinha, cantinho,
albergue, barraquinho)
INDEFINIDO
CORAGEM
ACOLHIMENTO (proteção, acolhido)
DESPREZO (condenar)
PENSAMENTO
FÉ (Deus, orações)

25

08

03

22

17

***

01
05

***
01

***
***

01
06

***
03

***
***

06

10

05

06

18

***

06
06
01
02
03
08

07
***
01
***
***
04

02
***
***
***
***
02

06
01
01
02
02
02

05
03
02
***
01
12

05
01
***
***
***
***

OBS

62

ESPERANÇA (esperar, querer,
conseguir)
MUDANÇA (mundo, mundão, cidade)
VELHICE (envelhecendo, asilo, velho)

05

04

***

02

09

***

07
01

05
01

***
04

05
01

07
05

01
***

CERTIDÃO (registro, cartório)
TRISTEZA (triste, sofrimento, sofrido,
sofrer, chorar, desanimar)
APRENDIZADO (aprender)
EMPREGO (bico, currículo, trabalho)
MEDO (trauma, temente, inseguro,
preocupado)
COORDENADORA DO SERVIÇO DE
ACOLHIMENTO
LEMBRANÇA (lembrar)
ROUBO (roubaram, roubar)
CUIDADO (conversar, ajudar, pessoal,
gente)
DINHEIRO
CONFIANÇA (moral)
PERDÃO (perdoando)
AMIZADE
CORAÇÃO
BRIGAS (bateu boca, bater, facada)
MULHERES
TRANQUILIDADE (reservado)
RESPONSABILIDADE
PREVENIR (preservar)
SOLIDÃO (sozinho)

01
09

***
01

***
***

01
06

***
06

***
***

01
02
03

***
04
08

***
01
07

01
01
07

01
06
19

***
***
***

01

04

02

01

06

***

03
01
02

***
***
***

***
***
01

02
01
02

01
***
02

01
***
***

01
02
01
***
***
***
***
***
***
***
***

***
***
***
01
02
01
***
***
***
***
***

04
***
***
***
***
01
02
01
01
01
01

01
02
01
***
***
02
***
***
***
01
***

04
***
***
01
02
01
02
01
01
01
01

***
***
***
***
***
***
***
***
***
***
***

Neste quadro 8 destacou-se que a unidade temática “família” foi mais frequente no
tempo passado e esteve mais relacionada com a posição de narrador. Já a unidade temática
“moradia” foi mais frequente nas narrativas no tempo presente e esteve relacionada com a
posição de protagonista. Observou-se, também que a unidade temática “medo” foi mais
frequente no tempo futuro e esteve relacionada com a posição de protagonista. Por fim,
considerando-se todos os tempos (passado, presente e futuro) o entrevistado se posicionou
mais como narrador do que como protagonista.
7.3- Sobre as experiências de ‘si mesmo’ (Self) dos adultos em situação de rua
participantes dessa pesquisa

O quadro 9 corresponde a um levantamento das unidades temáticas que apresentaram
as maiores frequências, relacionadas com o tempo da narrativa e das situações de

63

posicionamento do ‘si mesmo’ (Self). A realização desse quadro, nessa etapa da análise, teve
o propósito de chamar a atenção para uma dimensão qualitativa dos processos analisados. Isto
é, a partir de um contraste sobre quais configurações foram mais ou menos frequentes foi
possível mapear informações relevantes sobre a organização do ‘si mesmo’ (Self) dos adultos
em situação de rua que participaram dessa investigação.

QUADRO 9: Levantamento quantitativo geral dos dois participantes (Total: 18
narrativas)
POSIÇÃO DO SELF
UNIDADES
TEMÁTICAS

PAS PRES FUT PAS/PRES/
FUT
NAR

PROT NAR/ INDEF
PROT
31
82
***

FAMÍLIA

47

11

06

64

51

DROGAS
MORADIA
MUDANÇA
INDEFINIDO

24
08
18
03

03
22
05
04

***
17
***
02

27
47
23
09

33
22
16
06

07
44
08
04

37
66
24
10

01
02
01
***

COORD. DO
SERVIÇO DE
ACOLHIMENTO
MEDO

01

09

02

12

06

06

12

01

05

08

08

21

10

19

29

***

Observou-se, então, a partir do quadro 9, que as unidades temáticas “família”,
“drogas” e “moradia” foram as mais frequentes, nas narrativas dos dois participantes.
Relacionado com essa informação, destacou-se uma situação especial, quando os participantes
discutiram sobre família (o tema mais frequente, com n = 64), pois, ainda que esse tema tenha
sido mais frequentemente relacionado com a posição de narrador (n=51) é possível dizer que
este tema “família” também esteve frequentemente relacionado com a posição de protagonista
(n=31). Isto é, o quase equilíbrio das duas posições do ‘si mesmo’ (Self), sugeriu um nível
maior de ambiguidade que este tema refletiu para a negociação de significados sobre a
história das experiências no mundo dos participantes.
Esse alto nível de ambiguidade quando os participantes falaram sobre “família”, fica
ainda mais claro, quando se observou que, embora esse tema tenha sido mais frequente
quando eles falaram do passado (Passado n = 47; Presente n= 11; Futuro n= 06), eles
exerceram, também com muita frequência, posições de protagonista (Protagonista n= 31).
Lembra-se, no entanto, que de acordo com Bruner (1997) é a posição de narrador quem se

64

remete ao passado. No entanto, quando eles falaram sobre “família”, ainda que no passado,
eles não apenas justificaram situações experimentadas, mas agregaram avaliação aquelas
experiências do passado, sendo a avaliação uma característica do exercício da posição de
protagonista. Interpretou-se, então, que a emergência dessa ação de avaliação (típica da
posição de protagonista, que chama o tempo narrativo para uma situação imediata e presente),
indicou que aquelas experiências (narradas no passado) ainda estão no presente e imersas
numa intensa dinâmica de negociação de significados. Nessas condições, a negociação de
significados envolvida com esse tema ainda causa inquietação e indefinição para os
participantes.
O segundo tema mais frequente foi “moradia”. Mas, diferente do que foi configurado
com o tema anterior, observou-se uma maior coerência com o quê se discute na literatura
(Bruner, 1997), visto a predominância da posição de protagonista (n =44) relacionada com
altas frequências do tema quando os participantes falaram no/sobre o presente (n = 22) e o
futuro (n = 17). Isto que dizer que as avaliações foram ativas nesses tempos narrativos e que
contrastam com experiências passadas, pois estas últimas parecem ter um apelo maior para a
estabilidade favorecendo, principalmente, às justificativas. No que diz respeito á negociação
de significados sobre o tema “moradia”, a predominância da posição de protagonista indicou a
relevância desse tema no presente dos participantes e apesar de intensidade com que eles o
trataram (visto que foi muito frequente) não sustentou ambiguidade.
A tessitura do argumento sobre a experiência de ambiguidade durante a negociação de
significados na narrativa dos participantes, considerando-se a relação entre o tema e as
posições do ‘si mesmo’ (Self), pode ficar mais clara ao se relacionar a configuração das
frequências para os temas “drogas” e “mudança” quando os participantes falaram no/sobre o
passado (n = 24 e n = 18, respectivamente) com a posição de ‘si mesmo’ (Self) de narrador.
Destaca-se que nessa relação - tempo da narrativa passado e posição de narrador, os
participantes se envolveram em mais situações de justificativas. Nesses casos, a ambiguidade
foi diminuída na medida em que o passado assume o claro controle na negociação de
significados, pressupondo-se sua maior estabilidade sobre as experiências imediatas.
7.4 - Sobre o papel do tempo na organização das experiências de ‘si mesmo’ (Self)
nas narrativas autobiográficas

Tomou-se aqui a experiência de ambiguidade como parâmetro para se explorar
explicações acerca do papel do tempo na organização experiências de ‘si mesmo’ (Self) nas

65

narrativas autobiográficas. Isto porque, a experiência de ambiguidade se revelou como
consequência de possibilidades para a transgressão do tempo imediato suportada pelo
funcionamento semiótico (simbólico) da linguagem. Isto é, a natureza simbólica da linguagem
possibilita que durante a narrativa o falante transite pelo passado e futuro na janela imediata
do presente. Mas é no presente que ele exerce, de fato, a negociação de sentidos e significados
para suas experiências no mundo.
Nesse funcionamento, as narrativas autobiográficas se revelam como plataforma
natural e apropriada para essa negociação, na medida em que as palavras podem ser
associadas e alinhadas de acordo com a vontade do falante. Ação dirigida para metas é,
portanto, o princípio psicológico exercido narrativamente. A narrativa pressupõe que o falante
é ativo e construtor de sentidos para as suas experiências. Quando ele [o falante] se utiliza dos
recursos simbólicos, próprios da linguagem, ele se liberta da situação imediata e transita
simbolicamente em diferentes tempos, mergulhando em situações de ambiguidade, pela
situação de convergência do passado e do futuro para o presente (Vigotski, 1984; Valsiner,
2012, Silva, 2016).
Bakhtin (2003) teceu explicações sobre essa ambiguidade e tensão referindo-se a
dinâmica de forças centrípetas e centrífugas no cerne dos usos de linguagem, para a produção
de sentidos. Nas suas explicações ele lança mão de amplo aparato conceptual (por exemplo,
conceito de vozes, relações dialógicas, discurso do outrem etc.), para destacar um movimento
contrário, mas interdepende de falantes, no sentido de conservar significados ou inovar
sentidos. Bakhtin (2003), destaca que essas forças antagônicas e interdependentes refletem
uma dinâmica entre monologia de significado e plurissignificação, enquanto tendências para
preservar o discurso do outrem (força centrípeta) ou dispersar essas vozes conhecidas para
inovar nos processos de significação (forças centrífugas).
Valsiner (2012) reafirmou o papel dessa tensão e ambiguidade nas suas explicações
sobre a regulação semiótica dos processos psicológicos humanos, que para ele, tem como
principal fundamento a irreversibilidade do tempo. Isto é, nas suas explicações, a
ambiguidade emerge relacionada com a direção do passado para futuro, onde o presente é
uma janela no qual essas operações simbólicas se organizam. Então, o ‘si mesmo’ (Self), ao
transitar entre o passado e futuro, opera em cenários simbólicos ambíguos.
Silva (2017) também destacou a experiência de ambiguidade refletindo sobre a
simultaneidade do passado e futuro no presente, nas experiências entre mãe e bebê no começo
da vida. Nas suas observações sobre essas experiências a autora destacou que as mães atuam
dentro “de um inacabado passado” ao reproduzir comportamentos aprendidos sobre a

66

maternidade. Mas de acordo com a autora, esse é um processo marcado por tensões,
considerando que ao mesmo tempo as mães são desafiadas por situações imediatas com seus
bebês e precisam responder, eticamente, sem álibi, como situações únicas.
Na perspectiva da presente análise, o tempo torna-se um parâmetro fundamental para
essa dinâmica de forças centrípetas e centrífugas, que atuam no exercício da linguagem:
conservar padrões (passado) ou inovar (antecipar futuro). Nas narrativas dos adultos em
situação de rua, aqui considerados, essa ambiguidade pode ser observada, a partir de inúmeras
situações quando eles transitavam por tempos diferentes daquele em que o pesquisador se
fazia a pergunta. Lembra-se aqui, que a estratégia metodológica utilizada, o controle do tempo
verbal na pergunta gerativa e nas questões circunstanciais realizadas pelo pesquisador durante
as narrativas, teve o propósito de observar o papel do tempo na negociação de significados.
Durante a análise das narrativas, observou-se que essa estratégia não impediu que os adultos
transitassem por outros tempos diferentes daquele que o pesquisador referenciou. Os
exemplos abaixo ilustram esse funcionamento:
Exemplo 1 – Transitou do passado para o presente: “(...) e não respeitava mais
família, fiquei no mundo mesmo, abandonei a família e hoje eu ‘tô’ assim perambulando no
mundo assim” (Entrevistado W. L. S.; Narrativa do passado; quadro 5);
Exemplo 2 – Transitou do presente para o futuro: “Longe da minha família né! Se um
dia eu chegar a me comunicar com eles tudo bem posso até me juntar a eles, tipo assim uma
sociedade, uma amizade, mesmo com a falsidade que eles tem. Que eu não queria ‘tá’
distante deles, eu queria ‘tá’ perto” (Entrevistado, W. L. S.; Narrativa do presente; quadro 6);
Exemplo 3 - Transitou do futuro para o passado e para o presente: “(...) E com a ajuda
de meu irmão eu vou continuar minha vida, porque pra começar tem que ter a ajuda de
alguém. Eu vou procurar meu irmão pro meu irmão me ajudar. E aí eu tenho certeza que ele
vai me ajudar. Pra ele arrumar um serviço pra mim. Pra quando eu me apertar também eu
recorro a ele. Sempre recorri a ele e ele sempre me ajudou. Aí ele me empresta dinheiro, eu
pago a ele quando for pra pagar algumas contas quando eu estiver sem dinheiro. Eu sempre
procuro ele, aí pego emprestado com ele e depois eu pago. É isso aí!” ( Entrevistado, J.C.D.;
Narrativa do futuro; quadro 3).
Esses três exemplos ilustram como a ambiguidade refletiu a experiência de
simultaneidade de tempos diferentes na situação imediata quando os adultos em situação de

67

rua foram entrevistados. Nos três exemplos os trechos sublinhados destacam momentos
quando eles divergiram do tempo solicitado pelo pesquisador, a partir da pergunta gerativa.
No exemplo 1, trava-se de uma entrevista no presente. No entanto, durante a entrevista, W. L.
S., transitou para o presente. No exemplo 2, durante a entrevista no presente, ele transitou
para o futuro. No exemplo 3, J.C.D., durante a sua entrevista iniciada com a pergunta gerativa
no futuro, transitou para o passado e para o presente.
Argumentou-se aqui, que esses movimentos por diferentes tempos refletem como
processos de natureza simbólica, possibilitado pela linguagem, atuam para a negociação de
significados nas narrativas, sustentando experiências de simultaneidade do passado e do
futuro no presente. Nesse argumento, reafirmam-se explicações de Bakhtin (2003) e os
apontamentos de pesquisadores atuais sobre essas explicações (Valsiner, 2012; Silva, 2016;
Maior, 2017) que destacam ação de forças centrípetas e centrífugas e da experiência de
ambiguidade no processo de negociação de significados e sentidos nas narrativas.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Sobre o potencial das narrativas autobiográficas para
análise do funcionamento psicológico humano

Considerando um dos objetivos centrais dessa pesquisa, que foi analisar o potencial
das narrativas autobiográficas para a investigação e análise dos processos psicológicos,
reivindica-se uma retrospectiva do leitor, no sentido de reunir o conjunto de informações
construídas a partir das narrativas autobiográficas de dois adultos em situação de rua, objeto
de investigação empírica da presente pesquisa.
Acredita-se que essa retrospectiva o levará a proceder conosco, uma avaliação sobre o
potencial desse instrumento teórico e metodológico. Nessa expectativa, assumimos que foram
propriedades desse instrumento que possibilitaram a visualização de uma complexa
interdependência de processos implicados na negociação de significados durante as narrativas.
Nas narrativas aqui analisadas, destacamos, por exemplo, os processos de organização das
experiências de ‘si mesmo’ (Self) relacionados com negociação de significados. Durante essa
negociação, destacamos possibilidades diferentes de posicionamento do ‘si mesmo’ (Self)
(narrador e protagonista).
Além disso, foi possível observar como aspectos históricos e culturais, aspectos de
natureza ontológicas, atuaram nos processos de negociação de significados refletindo a função
do tempo para a organização das experiências na narrativa. A configuração de ambiguidades e

68

tensão, vinculada à experiência de simultaneidade do passado e futuro no presente também
foram fenômenos acessíveis na plataforma das narrativas autobiográficas.
Portanto, a captura desses fenômenos leva-nos ao reconhecimento do potencial desse
instrumento, sobretudo, por nele se preservar a condição de processo, isto é da natureza
extremamente diversa e dinâmica do funcionamento psicológico humano, que tem como
princípio fundamental, a ação de significar as experiências no mundo. Acredita-se que a
análise que se procedeu nesta pesquisa revelou esse princípio, sem alienar os processos de
negociação de significados das condições específicas e singulares, no alinhamento com a
história e com aspectos ontológicos de cada participante.
Destaca-se, ainda, que os recursos desse instrumento, as narrativas autobiográficas, ao
possibilitar o olhar para a condição de processo, avança sobre outras abordagens
teórica/metodológica que se detêm na “análise de conteúdos”, na medida em que, enquanto
análise de processo as narrativas autobiográficas podem agregar conhecimentos para o
propósito de generalização aspirado pelas ciências.
Mas é importante considerar, no entanto, que o caminho para essa generalização é
diferente daquele que se pratica na artificialização de relações de causalidade linear, durante
aplicação do método experimental clássico. De forma diferente, o uso de narrativas
autobiográficas nas pesquisas, remonta pressupostos da Psicologia Cultural, onde se destaca a
função de mensuração como processo semiótico, onde o dado é simbólico (Valsiner, 2012) e,
por conseguinte, a generalização não poderá prescindir da habilidade dos pesquisadores para
articular suas informações e fomentar interlocução com informações de outros pesquisadores.
Finalmente, destaca-se a partir desta pesquisa, a contribuição de profissionais que
atuam no Serviço de Acolhimento Institucional para Jovens e Adultos em Situação de Rua
Profº Manoel Coelho Neto da Secretaria Municipal de Assistência Social da capital.
Acreditamos também que as informações sobre os processos na organização do ‘si mesmo’
(Self) capturados nas narrativas dos dois adultos que frequentam esse serviço, podem ser úteis
para esses profissionais na expectativa de tornarem seus serviços mais alinhados com
perspectivas socioculturais do funcionamento psicológico humano e da saúde mental.
Essa crença se sustenta a partir de depoimentos dos adultos que, após 18 encontros
para as entrevistas, relataram, informalmente, que a presença de uma pessoa para ouvi-los
(referindo-se a pessoa do entrevistador) foi de suma importância, já que o serviço de
acolhimento é um espaço que muitos são atendidos e que nem sempre todos tem sua vez de
falar.

69

Além disso, muitos usuários desse serviço não são estimulados para falar, por não
querer atrapalhar ou para evitar falar de tudo o que pensam. Nesse contexto, os participantes
mencionaram a alegria em poder dividir com alguém sua história de vida e ter um espaço que
priorizasse a escuta dessa história.
Diante do exposto, as histórias narradas neste estudo evidenciaram que essas PSR
precisam de um suporte adequado por parte dos profissionais envolvidos na assistência social.
Nesse contexto apontou-se o olhar do assistente social e do psicólogo pelas próprias
características do profissional, em ter a atividade humana nos diferentes contextos e áreas de
desempenho como objetivo no processo de reinserção do indivíduo na sociedade atual.

70

REFERÊNCIAS

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73

ANEXO 1
Entrevistas do participante J. C. D
Narrativas do Tempo Passado (quadros 1, 2 e 3)
Quadro 1:

UNIDADE
TEMÁTICA
Drogas
Família

Mudança

Família
Mudança

Família

Mudança

Drogas

Cadeia

Drogas
Mulheres

Cadeia

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
O que me fez ir morar na rua foi a bebida e a maconha
também.
Essas coisas aí. Me envolvia em muitos problemas e
compliquei muito a minha família. Aí resolvi largar
minha família de mão e ir embora para bem longe.E
agora é que eu “tô” voltando pra cá, pra Maceió.
Passei doze anos longe daqui, só que eu já havia ido
pra rua aqui porque aqui mesmo eu já “tava” na rua.
Não foi só quando eu saí daqui não. Aqui mesmo eu já
vivia na rua.
Eu brigava com a minha família e “ia” pra rua.
Aí eu fui pra longe e fiquei andando por aí. Num
estado e outro. “Tive” em São Paulo, “tive” em Minas
Gerais, “tive” na Bahia, um bocado de estado aí, um
bocado de cidade.
Então larguei minha família porque eu me envolvi com
bebida e com droga. Aí resolvi largar minha família
para evitar problema pra eles, só isso aí.
Então nesses doze anos fui para São Paulo, Minas,
Bahia, Mato Grosso do Sul, em vários estados. Agora
todos em situação de rua também.
Eu “ia” para albergue, consegui casa também,
consegui mulher, mas não deu certo porque a mulher
era usuária de droga também e “tive” vários
problemas. Aí foi quando consegui parar de beber.
Foi quando fui para a cadeia quando “tive” briga com
a mulher. Acabei parando na cadeia. Aí por causa
dessa briga com a mulher eu fui parar na cadeia.
Eu parei de beber, já “tava” uns cinco anos e alguns
dias que eu parei de beber.
Havia a mãe dos meus filhos que mora em Anadia. Ali
eu levei uma “gaia”, aí eu resolvi largar. Eu resolvi
largar porque não adianta brigar, nem nada. Ela
também não me agrediu, nem nada. E essa segunda,
essa outra, foi porque ela me agrediu e eu retribuí a
agressão dela.
Aí deu no que deu, fui parar na cadeia. Passei um ano
e mais uns meses preso.

OBS

74

Drogas

Família

Drogas

Família

Mudança

Família

Mudança
Brigas
Tranquilidade
Brigas

Tranquilidade
Remédio
Tranquilidade

Aí esse tempo todinho parei de beber. Lá dentro tinha
cachaça, mas não queria beber. Aí resolvi que iria
parar de beber e até hoje não “tô” bebendo mais, nem
uso droga. Usei lá dentro da cadeia maconha ainda,
mas agora não uso. Desde menino usando, desde
menino bebendo, não dá nem vontade mais. E quando
dá vontade eu passo por cima dessa vontade. Eu me
controlei e até hoje “tô” me controlando. Espero que
me controle mais ainda pra ver se saio dessa.
Já que eu procurei mudar, minha família não acredita
mais em mim né?! Aí meu irmão não veio aqui. Nunca
que ele veio aqui me olhar pra saber: “ô miserável,
você tá bem?” (risos). Nunca!Até hoje eu “tô” aqui e
ele não veio ainda.
E eu penso em ir lá em cima, mas lá em cima “tive”
problema por causa da bebida. “Tive” problema por
causa da bebida, “tive” briga. Esses problemas aí com
pagamento da bebida e não posso andar pra lá assim
de bobeira.
Porque meu irmão tem medo que os “cabra” vai e se
vinga da família dele por causa de mim. Aí eu também
não vou lá para evitar preocupação pra ele. Aí eu “tô”
aqui esperando que ele apareça pra poder a gente
conversar, se ele aparecer né? Não sei se ele vai
aparecer. Eu acho que eu vou embora pra minha casa
e ele não vai aparecer. Estou com dezoito anos que
“tô” na rua, mas doze anos longe da família.
Com dezoito anos saí do estado de Alagoas e
fuiembora. Porque eu vivia do estado deAlagoas para o
estado da Bahia.
Onde tenho família lá. Mas minha família é de Alagoas
mesmo, mas em Salvador tem algumas pessoas da
família. Aí quando minha tia, minhas duas tias e meu
paimorreu, aí foi que eu sumi de vez.
Fui pra longe. Fui pra Mato Grosso, fui pra Minas
Gerais.
Eu tenho sangue muito doce para o lado de briga, aí
pronto!
Agora que eu “tô” mais velho, eu “tô” dando uma
“aquetada”.
Agora, novo eu tinha a cabeça quente. Qualquer coisa
que eu fazia o estopim acendia e a bomba estourava. Aí
pronto, era por isso que eu arrumava briga, arrumava
problema.
Agora não, agora eu “tô” mais tranquilo, mais
paciente.
“Tô” tomando remédio e “tá” tudo em dia.
Tudo sossegado pra poder dormir em paz e não ter
problema. “Tô” bem tranquilo agora.

75

Drogas

Família

Tranquilidade

Indefinido
Família

Moradia

Então, a saída para as ruas foi abebida e o uso da
maconha também. Mas a maconha a família não sabia,
mas se sabia não dizia nada.
Porque larguei da minha família e eles têm medo de
mim. Tenho vários irmãos mais velho, maior do que
eu, mas eles não respeita. Eles tem medo, a verdade é
essa. E eu que já aprontei, eles tem medo mesmo.Aí eu
não tenho o que perder. Eu acho que eles pensam
assim: “ele não tem o que perder e a gente tem”. Aí foi
por isso que saí de casa, porque “tava” aprontando
demais, arrumando muita confusão. Não queria
prejudicar os meus irmãos e fui embora. Minha irmã
mesmo. Passei em Delmiro Gouveia, elamandou eu
dormir só uma noitee no dia seguinte, de manhã cedo,
ela botou eu no carro e me mandou embora para
Maceió. Aí chegou aqui o outro irmão, já falou que não
queria que eu fosse pra casa dele. Que o pessoal ainda
“tava” me procurando. Aí eu falei que ele não se
preocupasse que eu não “ia” pra casa dele. Quando
cheguei no albergue liguei pra ele. Aí falei pra ele:
“cuida da tua família que eu me viro”, e aí ele disse:
“Obrigado C.!” Daí “cabou-se” e nunca mais veio aqui
porque era pra ele vir pra cá, porque ele era o único
irmão que me acolheu. Só que agora ele não acredita.
Ninguém acredita que eu mudei. Eu parei de beber,
mas ninguém acredita.
Eu “tô” mais tranquilo, “tô” mais sossegado. Antes eu
era uma praga. Agora eu “tô” sossegado graças à
Deus!
Então “tá” tudo certo! Já respondi a pergunta e já deu
para falar do que “tava” preso.
O que “tá” preso é que ele [irmão] não me procura pra
me ver. Um psicólogo lá do CAPS mandou ele ir lá
procurar ele e ele disse que não. E fica nesse negócio.
Ele pediu para não ir na casa dele e eu vou fazer o que
lá? Aí complica! Ele tem que me procurar. Então se eu
vê algum conhecido eu mando um recado pra ele vir.
Quando eu vêele, a gente vê o que pode fazer. Porque
fui olhar meu primo que trabalha na polícia federal,
conversei com ele e me tratou muito bem. Só não vi os
outros primos.Mas o que eu queria era ver o meu
irmão. O meu irmão até agora nada!
E “tô” aqui até sair minha casinha, que se Deus quiser
vai sair agora em dezembro. E é isso mesmo!

SIGLA POSIÇÃO

COR

PROT

Protagonista

Vermelho

NAR

Narrador

Azul

76

INDEF Indefinido

Verde

Quadro 2:

UNIDADE
TEMÁTICA
Drogas

Brigas

Drogas
Cadeia
Drogas
Drogas

Mudança
Lembrança

Medo

Drogas

Medo
Indefinido
Lembrança

Drogas

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
A primeira bebida que tomei foi com 14 anos. Cheguei
em casa bêbado cego e apanhei. Nos 14 anos comecei a
beber e não parei mais. Desde os 14 anos bebendo. Foi
muita cachaça de lá pra cá.
Até arrumar bastante problema, até resolver parar. E
só resolvi parar quando “tava” no fundo do poço
mesmo.
Fora isso, eu não “tava” nem aí para parar de beber.
Mas quando eu vi que o negócio prejudicava mesmo,
me levou a cadeia eu não quis mais não.
Eu digo: “vou tomar vergonha e vou parar de beber, aí
parei de beber”. Aí é complicado.
Arriscado a matar alguém e a morrer, porque eu bebia
e não lembrava não que tinha bebido não. Tomava
duas cervejas e a mente apagava, andava que nem
zumbi.
Andava em tudo quanto era canto, mas não sabia o
que “tava” fazendo.
Lembrava das coisas e tipo um flash, eu lembrava só
do flash de algumas coisas que fazia, que acontecia. Eu
lembrava só como se passasse um filme da minha vida.
Só aqueles “tape”.
Aí quando era no dia seguinte eu ficava até com medo
de sair na rua porque podia ter aprontado e alguém
vim cobrar. Aí eu ficava meio cismado.
Sempre, sempre quando eu bebia era assim. Logo cedo
eu fiquei com a mente “meia” fraca devido adroga e a
cachaça né!
Aí afetou muito a minha mente. Aí eu tinha medo de
sair na rua.
Comecei com 14 anos, mas depois quando eu “tava”
com uns 20 anos já, aí já “tava” desse jeito aí.
Já “tava” perdendo a memória, não lembrava mais o
que fazia, já ficava só “aperriado” no dia seguinte
ficava preocupado sem saber se eu tinha aprontado
alguma coisa ou se eu não tinha. Se eu tinha batido, se
eu tinha apanhado. Eu já não lembrava mais de nada.
E bebia muito. Isso aí eu sei que eu bebia muito. Tinha
vez que eu passava um mês bebendo sem parar. Só
tomando cachaça direto. Acordava de manhã cedo e
“ia” pro bar tomar cachaça. Dormia bêbado, acordava

OBS

77

e pra beber. Era assim.

Família

Drogas

Drogas

Motivo

Drogas

Família

Drogas

Minha tia reclamando, dando conselho. Minha irmã
infernizando a minha vida. Eu só bebia mesmo por
causa da minha irmã porque quando eu “tava” bom
ela ficava rindo da minha cara, zombando. Dizendo:
“você ‘tá’ pensando que não lhe conheço. Você bebeu”.
E eu dizia: “agora eu vou beber”. Praticamente
elaempurrava eu pra beber.
Ela zombava dizendo que eu tinha bebido. “Você
bebeu, agora fica aí mentindo pra mim, não sei o que.
Eu conheço você”. Aí eu digo: “Agora eu vou beber!
Não ‘tava’ bêbado não, mas agora eu vou beber”. Aí
“ia” beber. Por causa dela, para não escutar “pirraça”,
ela fazia “pirraça” aí eu bebia.
Não sabendo que eu é que “tava” me prejudicando e a
gente quando usa droga ou bebe cachaça, a gente já
procura uma pessoa pra culpar, algum problema.
A gente já quer alguma coisa pra dar motivo. E
aparecendo uma pessoa pra dar motivo, aí pronto! É
só o que a gente quer. Agora, hoje em dia não tem mais
esse motivo não.
Pode ter o maior desaforo, o maior “desmantelo” eu
não invento de beber mais que eu já paguei o preço.
Paguei o preço e não quero pagar mais o preço dessa
infeliz não.Quero parar de beber. Se Deus quiser eu
não vou colocar mais uma gota de álcool na boca.
Quando eu já tinha 20 anos minha irmã já ficava
reclamando, chegou até a desejar minha morte uma
vez que eu tive um problema lá em Sergipe. Cheguei
em casa perguntando a minha tia se tinha recebido o
que eu tinha escrito pra ela. Aí minha tia disse: “não,
não escreveram” e eu digo: “tem certeza tia?” e eu
“tava” descascando o côco pra justamente “pros” filho
da minha irmã beber água. Aí minha irmã disse bem
assim: “Se quer saber, a gente recebeu um telegrama
seu mesmo, mas não retornou porque você fica
procurando briga e eu queria que você morresse”. Aí
eu falei: “pois bote o pé aqui de novo, venha bater o
seu pé de novo pra ver se eu não corto”. Ela colocou o
pé e eu meti o facão e enfiou no cimento. Ela ficou
chorando: “ele ‘ia’ cortar meu pé”. “Isso é pra você
aprender a deixar de ser desaforada”. Aí a tia disse
bem assim: “Tu ‘tá’ vendo que você não pode ‘tá’
enraivando seu irmão, não sabe como ele é?”.
Aí pronto, aí eu larguei as coisas pra lá, terminei de
descascar o côco e fui pro bar tomar cachaça. Aí ela
correu pra casa da sogra com medo.

78

Família

Alegria

Família

Mudança
Abandono
Mudança

Abandono

Brigas

Família
Tristeza

Família

Eu era triste! Eu fazia muita raiva pro meu irmão e
minha tia. Minha tia gostava muito de mim. Ela
caducou e quem cuidou dela foi minha sobrinha.
Minha sobrinha cuidou dela até ela falecer. E ela
sempre gostou de mim essa tia. Essa e a outra de
Piranhas, todas duas. Depois que elas morreram aí foi
que eu tomei destino ignorado. E fui dar notícia muito
tempo depois.
Eu não vou mentir. Eu não tinha alegria, eu não tinha
disposição pra nada. Não tinha alegria de nada. Minha
vida era que nem uma folha seca, de um canto pra
outro.
Chegava na casa de minha tia e daqui a pouco ela
reclamava comigo. Vinha pra casa aqui do meu irmão
e eu tinha raiva na casa de meu irmão.
“Ia” pra Salvador e voltava “praqui” de novo, “ia” pra
cidade Maravilha e ficava na casa do meu pai.
Eu vivia jogado, praticamente jogado. Já desde muito
novo que eu já vivia jogado.
Na casa de um pra outro. Depois foi que euganhei a
vida. Depois que já “tava” de maior mesmo foi que eu
ganhei a vida.
Mas eu já vivia jogado já. Porque minha tia gostava de
mim, mas mesmo assim ela não aceitava as coisas que
eu fazia. Eu fazia muito besteira.
Bebia, brigava, andava fazendo besteira com os outros
aí. Se a pessoa fizesse qualquer coisa comigo eu “ia”
me vingar. Eu era muito vingativo. Eu não tinha dó de
ninguém. Não tinha dó nem de mim mesmo.
Gostava muito da minha tia, mas nem da minha tia eu
tinha dó. Eu fazia ela sofrer muito.
Então, eu era uma pessoa, sei lá, não tenho nem como
explicar como é que eu era antes. Eu era triste mesmo,
eu era uma pessoa que a família não engolia.
Depois de muito tempo eu pensando eu vim reaver as
coisas e vi que realmente a minha família tinha razão.
Tem razão de ter virado as costas pra mim. Porque
esse irmão que eu tenho lá em cima é o único que gosta
de mim né?! Esse que tem lá no Tabuleiro dos Martins.
Esse era o único que gostava de mim, mas até ele não
aguentou, não aguentou mais. E ele ficava triste
quando eu “tava” bebendo. Só que também eu nunca
menti pra ele. Quando ele chegava o pessoal dizia: “Ele
não ta bebendo não irmão C.”. Aí eu dizia: “Tô
bebendo sim, já tomei tantas doses”. Aí ele ficava
“doidinho”, já não tinha sossego de cuidar de nada
mais. A mulher dele brigava com ele por causa de
mim. Aí foi esse tempo, foi até eu resolver ir embora de
vez e largar todo mundo sossegado.

79

Família

Brigas

Pensamento
Cadeia

Pensamento

Família

Brigas

Coragem

Família

Mas quando eu era jovem eu era triste, então eu não
culpo minha família não. Eu culpo a mim mesmo. Só
que agora “tá” um pouco meio tarde pra gente rever
esse negócio aí.Agora só ele se aproximando de mim
pra ver como é que eu “tô” mudado realmente.
Aqui eu já “tive” vários desentendimentos, várias
desavenças, mas só bate boca besta e parei. Não fiz o
que eu fazia antes. Porque antigamente se eu tivesse
um bate boca com alguém, eu “ia” logo para as vias de
fato. Não dava chance pra ninguém. Eu não dava
chance porque eu pensava que se eu vacilasse ele não
“ia” dar chance pra mim. Então eu não dava chance
pra ninguém, fazia besteira mesmo.
Mas hoje eu penso duas vezes antes de fazer alguma
coisa. Hoje em dia eu tenho que pensar.
Ou eu penso ou eu vou parar na cadeia de novo e vou
sofrer um bocado. Já “tô” ficando velho mesmo e
cadeia não é lugar de velho. Cadeia é lugar desses
meninos novo que andam aprontando.
Esse menino não pensava em nada. Ele só agia. Tanto
que meu irmão falava uma frase pra mim: “Cabeça
que não pensa o corpo padece”. Porque eu agia e não
pensava em nada. Não pensava nas consequências, não
pensava em nada, só agia. Só fazia as coisas erradas e
não pensava em nada. Pra mim eu “tava” certo, só
quem “tava” certo no mundo era eu, o resto “tava”
tudo errado.
Eu tinha muitas pessoas que gostavam de mim e
davam apoio, mas da rua. Mas da família mesmo não
gostavam de mim, ninguém gostava. Até minha tia que
gostava de mim, às vezes tinha raiva de mim e me
criticava.
E eu ficava zangado com ela e “ia” pra rua beber de
novo, “ia” aprontar. Brigava direto. Mesmo quando eu
dormia no cemitério, dormia dentro das caatingas.
Porque eu aprontava e os caras queriam me pegar, aí
eu ficava escondido por uns tempos e depois eu voltava
pra casa de novo.
Pra você ver que eu não tinha nenhum medo. Porque
dormia fora e depois voltava pra casa. Aí quando tinha
um carro diferente “arrodeando” eu já colava no carro
e já perguntava o que ele queria. Porque eu não “tava”
nem aí, andava armado.
Isso quando eu “tava” na casa da minha tia ainda em
Delmiro Gouveia. Minha tia gostava muito de mim.
Mas perto dessa tia eu nunca aprontei não. Essa outra
tia foi porque eu morei com ela. De vez em quando ela
me criticava quando ela via que “tava” demais. Aí o
ódio subia ainda mais. Ela reclamava que eu “tava”
fazendo a coisa errada. Ela só dizia: “Não vai beber

80

Família

Família

Morte

Drogas

Brigas

não! Você quando bebe, você já não presta”. Daí ela
falava: “Também parece o pai. Esse ‘diacho’ é
igualzinho ao pai”. Só falava assim pra mim. Aí aquilo
ali pra mim era uma crítica terrível, eu não gostava
muito do meu pai.
Aí depois eu comecei a andar na casa do meu pai e
meu pai que não gostava de mim. Eu ajudava a família
dele, ajudava ele, mas meu pai nunca gostou de mim
porque minha madrasta fazia minha caveira para o
meu pai. Minha madrasta sempre dizia que gostava de
mim como se eu fosse filho, na frente, por trás eu
pegava ela falando de mim direto com ele. Tanto que
meu pai morreu intrigado de mim e eu nunca mais fui
lá na casa dele. Meus irmãos por parte de pai chamou
pra eu ir lá e eu disse: “Não vou! Eu disse a vocês,
quando eu estivesse com raiva de vocês, vocês iriam
descobrir. E eu não vou mesmo não”. Aí nunca mais eu
fui lá. Nunca mais tive contato com eles.
Minha irmã disse que eles estão tudo em São Paulo,
mas eu não tenho um pingo de vontade de ir pra lá.
Porque eu fui criticado por eles lá também, justamente
por essa madrasta minha botando todos eles contra
mim também.Eu nunca mais fui lá e nem pretendo ver
nenhum deles, só se eu aparecer por aí em Delmiro
Gouveia e ele “tiver” lá, aí eu converso. Mas pra
procurar ele eu não procuro mais. Apesar de que eu
não procuro nenhum deles. (pausa curta). Porque no
dia que eles quiserem me encontrar para falar comigo.
Ele sabe que eu “tô” aqui. Liguei pra ele assim que
cheguei, então ele deve saber que eu “tô” aqui. Se ele
quiser me ver, ele vem aqui. Falei pra ele que eu
“tava” no albergue, se ele quiser me ver, ele sabe onde
me encontrar.
E esse menino que eu falo, que de vez em quando, ou
seja em mim, eu tinha tipo uma sombra. Uma vez até
uns irmão falou que eu tinha a sombra da morte nas
costas. Mas Deus é mais!
Eu tinha uma sombra triste porque toda vez que eu
bebia, toda vez que eu fosse beber no bar, tinha que
beber com os amigos.
Porque se eu fosse beber no bar, arrumava confusão
toda vez. Não tinha primeira vez que eu bebesse no bar
pra não arrumar confusão. A não ser que eu tomasse
uma cerveja, um conhaque e saísse. Mas se eu
permanecesse no bar, arrumava confusão. Era um
sangue doce, o cara olhava pra mim eu já encarava o
cara. O cara vinha com pergunta e aí pronto, já dava
confusão. Aí minha família tinha medo disso aí.
Sempre, sempre eu fazendo besteira.

81

Agressão

Agressão

Culpa

Perdão

Moradia

Aí meus irmãos antigamente quando eu era criança
eles batiam em mim. Menos esse daqui de cima, ele
nunca bateu em mim não. Mas os outros batiam em
mim direto. Depois que eu fiquei velho, quando eles
“tão” brabo, se eu falar alguma coisa e der um berro,
todos param. Se eu gritar, se eu falar para parar a
confusão eles ficavam calado. Até meu irmão mais
velho “tava” discutindo com a minha sobrinha, eu
digo: “Para com isso, cala boca aí rapaz, não é isso
não. É assim, assim, assado”. Num instante se calou,
baixou a cabeça bufando, mas não falou nada. Aí
minha sobrinha chegou lá e falou: “Até painho tem
medo do tio C.”. Aí eu falei pra ela calar a boca pra ele
não bater na menina, pra ele não ouvir. Ele judiou
muito de mim. Eu prometi matar ele, mas depois de
velho ele não quis mais se meter comigo não. Que eu
apanhava muito dele, esse aí foi o que mais judiou de
mim.
O irmão mais velho batia em mim que a marca nas
costas dá a grossura de um dedo. Ele batia com
mangueira e deixava as marcas nas costas, ficava os
calombos. Ficava parecendo uma zebra de tão listrado.
Ele batia, judiava mesmo de mim com fio, com correia
de “ventuinha” de carro. Ele batia de murro. Quando
eu segurava, quando fiquei mais forte comecei a
segurar. Aí pronto, aí peguei um ódio nele. Mas hoje
em dia eu não odeio ele não. Mas na época se ele
procurasse confusão comigo eu mandava ele pra outro
lugar. Brincando, sem dó, nem piedade.
Agora eu não tenho raiva dele não.Às vezes eu tenho
raiva de mim mesmo. Entendeu? Porque eu aprontei
muito. Então ele não tem culpa. O culpado mesmo era
eu. A não ser esse mais velho aí que tem um pouquinho
de culpa porque ele era quem judiava de mim desde
quando eu era criança. Eu cuidava da casa, cuidava da
minha sobrinha e quando ele chegava já batia em mim.
Aí não dá pro caraperdoar esse negócio. O cara pode
perdoar da boca pra fora, mas fica cravado. A gente
não esquece nunca.
Apanhava, tinha vez que eu corria na madrugada.
Meia noite eu saía pra outro bairro longe pra
caramba. Saía de meia noite e chegava três horas da
manhã na porta da minha irmã. Aí a sogra da minha
irmã me chamava, chamava minha irmã e mandava
“bota” eu pra dentro. Às vezes ela me chamava pra
dentro. Aí dizia: “O B. já queria bater no seu irmão!
Seu irmão ‘tá’ aí”. Me colocavapra dentro, daí eu “ia”
dormir e passava uns dois dias na casa dela. Depois ela
levava eu lá na casa dele.

82

Agressão

Tranquilidade
Pensamento

Brigas
Drogas

Família

Esperança

Aí ele ficava olhando pra mim, aí pronto, aquilo ali ele
já guardava pra outra surra. Aquela raiva ele já
guardava pra bater dobrado e podia ter certeza que o
couro caía. Aí mandava eu ir pra praia tomar banho
toda vez que me batia, toda vez. Ele judiava muito de
mim.
Mas tenho raiva dele agora não. Agora eu “tô”
tranquilo com ele. É triste!
Esse menino era praticamente sem alma. Não tinha
alma. Esse menino aí era um menino que não pensava.
Quer dizer, pensava em algumas pessoas né?! Em
algumas, mas na família dele só via o bicho.
Porque qualquer coisa que dissesse com esse menino,
ele ficava muito nervoso, muito zangado.
Aí procurava logo desabafar na cachaça e nas drogas.
Complicado! Às vezes eu chegava “emaconhado”,
cheio de cachaça em casa.
Minha tia só fazia olhar pra mim e eu me “entocava”
no quarto e “ia” dormir.Ela não falava nada. Ela
deixava para reclamar comigo no dia seguinte quando
eu “tava” bom. Mas essa minha irmã reclamava na
mesma hora que eu “tava” bêbado. Aí eu ficava
nervoso.
Mas eu não tinha dó de ninguém e nem de mim
mesmo. Agora graças à Deus mudou um pouco e “tô”
tentando mudar a cada dia mais. É só isso mesmo.

Quadro 3: Narrativa 3

UNIDADE
TEMÁTICA
Indefinido

Agressão

Trabalho

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
É porque é assim, eu não tinha nada né. Não ganhava
presente, não podia brincar muito, tinha que carregar
água pra minha cunhada lavar a roupa. Esse negócio
assim.
Eu tinha que trabalhar praticamente. E meu irmão
“botava” eu pra ir buscar um bujão na cabeça e se
trouxesse rolando e se passasse a mão e tivesse areia,
ele batia. Ele queria que eu trouxesse na cabeça. Eu
era jovem ainda. E era longe, não era perto não. E ele
judiava muito de mim.
Minha cunhada dizia que eu não queria carregar água,
que os vizinhos não “queria” mais que carregasse
água, que lá na casa de meu irmão não tinha água. E
eu tinha que carregar as dos vizinhos. Aí ela gastando
muita água os vizinhos não queria mais dar água. Aí
ela ficava dizendo que era eu que não queria carregar.

OBS

83

Agressão

Mudança

Abandono

Família

Mudança

Mulheres

Abandono

Família

Mudança
Abandono

Aí meu irmão chegava em casa e batia em mim. Toda
vez eu apanhava dele, toda vez. Aí fui crescendo e
criando um menino que não gostava de ninguém.
Fiquei com raiva mesmo. Toda vez sendo judiado à
toa. Aí eu fiquei nervoso.
Eu apanhava demais e vivia sendo jogado de uma casa
pra outra. “Ia” pra Salvador, de Salvador vinha pra
Delmiro, de Delmiro vinha pra Maceió, de Maceió
voltava pra Delmiro Gouveia e de Delmiro pra
Salvador de novo. Vivia sempre jogado, “dum” canto
pra outro. Eu era criança ainda. Aí na minha
adolescência eu passei aqui em Maceió, com dezoito
anos eu completei aqui em Maceió. Mas, minha vida
foi assim. Desde pequenininho, desde novinho que era
pra lá e pra cá.
Aí já era um desgosto grande. Porque eu me sentia
como um cachorro vira-lata. Eu me sentia como um
bicho perdido no mundo, um cachorro jogado no
mundo.
Então eu via as outras crianças tudo tendo casa, sendo
feliz com os pais e eu sozinho ali sem ninguém. Porque
eu não tinha meu pai comigo. Eu já vim andar na casa
de meu pai já depois que eu “tava” de maior. Que eu
vim conhecer meu pai com dezoito anos, quando eu
“tava” com dezoito anos foi que ele veio aí em Maceió.
Então eu comecei a andar na casa dele. Aí mesmo
assim depois de velho que eu continuei nesse batido:
São Paulo, Maceió, Salvador, Delmiro Gouveia e a casa
de meu pai. Ficava nessa jogada aí. E eu não regulava
direito do cérebro mesmo porque pra digerir esse
negócio aí é complicado. Aí quando eu “tava” já de
maior mesmo, com trinta e poucos anos foi que eu vim
abrir a mente e vim procurar um lugar.
Aí foi que eu comecei a arrumar gente, morar junto
com mulher, essas coisas, passar “uns tempo”com
uma, daí separava e passava uns tempo com outra. E
assim foi que eu comecei a viver né.
Mais quando eu era criança era assim. Era triste. Já
jogado no mundo de um canto pra outro. Aí não tinha
como. Só isso mesmo. Jogado igual cachorro vira-lata.
(suspiro)
A única que ainda durava um bocado comigo em casa
era minha tia, essa de Delmiro Gouveia. Mais foi tanto
que quando ela morreu, ela e minha outra tia lá de
Piranhas, aí eu ganhei o mundo. Não achei mais
solução. Morreu ela, minha tia e meu paino meio da
páscoa. No meio da páscoa morreu todos três logo.
Aí eu ganhei o mundo, não fiquei mais por aqui. Nessa
época que eu fui embora daqui.
Só isso mesmo. Tristeza!

84

Narrativas do Tempo Presente (quadros 4, 5 e 6)
Quadro 4:

UNIDADE
TEMÁTICA
Emprego

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
O que faz eu estar ainda em situação de rua é que eu
não tenho emprego entendeu. Não tenho condições
financeiras, não tenho emprego. Não tenho como me
erguer novamente.

Moradia

Tá faltando uma casa que agora a dona J. fez a
inscrição habitação pra mim e eu consegui.
Coordenadora Que essa dona J.é uma estrela de luz pra mim né, ela é
do Serviço de minha vida.
Acolhimento
(antigo
albergue)
Moradia
Ela vai conseguir uma casa pra mim já.Já fez a
habitação e eu vou morar no meu cantinho.
Cidadão
E vou viver minha vida novamente né, normal. Uma
vida de cidadão, se Deus quiser porque ultimamente...
Moradia
Eu tinha conseguido uma casa lá em Cuiabá, morava
com a mulher e tudo. Mas perdi a casa pra ela e fiquei
na rua de novo, em situação de rua. Aí “vim me”
embora pra cá.Aí agora aqui eu fiz a habitação, vou
conseguir a casa de novo. Já tá tudo certinho, só
esperar agora em dezembro talvez eu consiga minha
casa. Só isso aí. “Tô” pra conseguir minha casa se Deus
quiser! Eu consegui uma casa em Cuiabá, cheguei a
morar na casa com a mulher, mas a mulher começou a
me colocar na parede e queria que eu fosse embora de
qualquer jeito.
Brigas
Quando foi no dia “deu” ir embora aí ela, a gente
brigou e deu no que deu.
Cadeia
Fui parar na cadeia.
Benefício

Aí eu perdi o benefício que eu tinha também, tive
benefício. Lá em Cuiabá eu já recebia o benefício e
agora eu vou ver se consigo de novo o benefício. Mas lá
eu tinha meu benefício.

Emprego

Trabalhava e ainda ganhava mil conto por mês, ainda
fazia serviço fim de semana, feriado eu fazia esse
servicinho e ganhava um troquinho. Não ficava parado
maneira alguma.

OBS

85

Conhecimento

Agora aqui não, aqui eu “tô” parado de tudo quanto é
jeito. Não tenho conhecimento, aqui eu não tenho
nenhum, aí fica difícil pra mim. Que o que importa é o
conhecimento, a pessoa tendo conhecimentoa pessoa
consegue serviço, consegue essas coisas.

Família

Se eu conseguir minha casa eu vou lá em cima, converso
com meu irmão, converso com meus primos e consigo
minhas coisinhas e com meu irmão vou ver se consigo
um servicinho pra eu me manter né. É isso aí!
O benefício que eu recebia era o auxílio doença,
problema psicológico.
E o cadastro da habitação foi no “minha casa, minha
vida”. A casa em Cuiabá eu ganhei de um colega meu.
Teve em área de risco aí ele saiu da casa pra ganhar
uma casa e eu fiquei na casa dele. Aí aquela casa que
era dele ficou sendo minha, ele me deu. Aí só que a
mulher teve o olho grande e começou a crescer o olho e
a querer ficar com a casa. Arrumei a casinha todinha e
ela quis ficar com a casa.
Aí ela acabou me batendo, aí eu me zanguei. Eu “tava”
bêbado e tinha tomado remédio aí meti o pau nela
também. Meti a faca nela, deu um “desmantelo” lá.
Agora aspauladas eu lembro vagamente, mas desse
negócio de faca eu não lembro não.
Aí fui pra cadeia, passei um ano e onze meses. Todo
mundo na cadeia lá gostava de mim. Tinha uns pessoal
lá que gostava, a maioria e a maioria é o que importa.
Alguns tinha raiva, mas não tinha coragem de
enfrentar. Eu era meio enjoado lá dentro também, eu
não era boa peça também não. Aí pronto! Saí da
cadeia.
E fui procurar meu destino, fiquei no albergue.
Aí foi meu julgamento. Fui julgado. Aí fui liberado
porque caiu por lesão corporal.
E não foi tudo aquilo que eladizia. Ela falou que eu bati
nela com taco de sinuca e dentro de casa não tem
sinuca, nem tinha taco. E ela enganchou num...eu
enganchei na corrente do cachorro e lá não tinha
cachorro entendeu? Porque o nosso cachorro era uma
cachorrinha que tinha fugido. E ela inventou muita
mentira.
Só que a advogada foi muito boa e caiu tudo por terra,
aí eu fui só condenado por lesão corporal. Baixou tudo
pra lesão corporal, aí era seis meses de reclusão e como
eu já passei um ano e onze meses eu saí livre pela
portada frente sossegado entendeu?
E ela ficou com a casa que ela queria né? Só isso! Isso
tudo em Cuiabá.

Benefício
Moradia

Brigas

Cadeia

Moradia
Cadeia
Mulheres

Cadeia

Moradia

Refere-se
à mulher
com quem
ele morava

86

Coordenadora
do Serviço de
Acolhimento
(antigo
albergue)

Emprego

Família
Moradia

Conhecimento
Emprego

Benefício

Transtorno
Mental

Benefício

Agora quando eu cheguei aqui encontrei essa estrela,
esse anjo de luz, a minha princesa J.Essa J.tá no meu
coração, ela fez muita coisa por mim, ela me ajuda
muito. Quando tem qualquer problema eu “vô” lá
conversar com ela e ela me atende muito bem,
entendeu? E é assim, dona J.tá sendo uma mãe pra
mim. Uma mãe que eu não tive. Ela tá sendo uma mãe
mesmo. E eu gosto muito da dona J. Ave Maria, se
alguma pessoa falar mal da dona J. E num lugar desse
não falta quem fale né?eu fico com o coração
apertado.Mas como não pode brigar, não pode fazer
nada aí eu também fico calado. Que ela sabe que a
maioria do pessoal fala dela. Na frente fala bem e atrás
fala mal. Mas eu não tenho o que falar mal dela, pra
mim ela é um anjo de luz, ela é minha estrela guia. Não
tem pra onde. É isso aí.
Não tenho emprego e “tô” esperando essa casa.Eu “tô”
aqui nesse lugar e não tem condições “deu” sair pra
longe pra procurar um emprego.
Também “tô” no aguardo que meu irmão me procure,
na esperança que um dia meu irmão apareça aí.
“aqui”
Aí eu fico por aqui sempre.
refere-se
ao
albergue
E também não tenho conhecimento.
Quem tem profissão pra arrumar emprego é difícil,
imagina eu que não tenho profissão. Tô com 49 anos e
não tenho uma profissão.
Vou tentar ver se consigo o benefício. Já vai ser o mês
que vem, dia 10 do mês que vem, 08h40min da manhã.
Aí eu vou ver se consigo receber o benefício de volta
que aí já melhora, já ajuda. Aí eu “tando” no meu
canto eu vou ver o que eu consigo fazer com esse
benefício. É isso aí.
O benefício que vou tentar é de problema psicológico,
mas não sei o que é. Da outra vez quando eu fui pegar
minha carteirinha de ônibus, diz que era... meu Deus do
céu, diz que era esquizofrenia. O médico explicando pro
outro que “ia” ficar no lugar dele, aí ele explicou que
era esquizofrenia. Aí eu coloquei isso na cabeça. Aí eu
fui e perguntei pro outro médico e o outro médico disse:
“não é esquizofrenia, você não tem esquizofrenia”.
Então, eu não sei o que é. Porque um disse uma coisa e
o outro já disse que é outra e agora “vamo” vê aí com
esse médico, o que ele vai resolver pra mim.
Vou ver se consigo, se eu não conseguir também a vida Refere-se
ao
continua.
benefício

87

Moradia
Emprego

Moradia

Família

Moradia

Mulheres

Moradia

Eu tendo meu cantinho eu tenho que correr atrás de
qualquer jeito.
Eu vô querer trabalhar porque um salário também é
meio complicado, não dá. Eu vô vê se trabalho como
servente de pedreiro, qualquer coisa que dê pra
trabalhar eu trabalho.
E a casa só falta esperar o sorteio. E se Deus quiser sai
esse sorteio aí e eu fico contente. Assim que disser: “óh
o seu nome saiu no diário oficial”.
Aí eu já vou procurar meu primo, já vou procurar o
meu irmão pra poder eles me ajudarem com os móveis,
com as coisas né? Da minha casinha. Porque eles
querem ver eu quieto num canto, então essa é a
oportunidade. E eu já tô velho também e não “tô”
aguentando mais andar não.
É a oportunidade “deu” me estabelecer num canto.
Porque agora eu tô sozinho, vou ficar sozinho no meu
canto.
Não quero saber de “muié” pra perturbar meu juízo
não. Porque essas “muié” desmantelada de albergue
pra mim não tem futuro. Isso aí não é “muié” não, isso
é “baguio”. Isso aí tudinho tem problema com droga,
tem problema com bebida, tem problema com a
família. É a mesma coisa do “homi”, talvez pior que o
“homi”. Porque o homem já é desmantelado mesmo,
mas quando a “muié” chega a ficar numa situação
dessa é porque boa coisa não é. E a minha eu tirei numa
casa dessas. Tirei, ela disse que tinha parado de usar
droga. Eu acreditei, dei a maior força. Fiquei, fiquei e
quando foi morar comigo poucos dias depois “tava”
chupando que nem uma cascavel, parecendo que “tava”
chupando um doce bem gostoso de tanto fumar pedra.
Aí eu chegava em casa e eu já percebia porque eu
ajudava lá no albergue de Cuiabá. Aí eu percebia que
ela tinha usado. E eu dizia: “já usou essa porcaria aí?”.
E ela: “larga minha vida, você não tem nada a ver com
minha vida não... que não sei o que, não sei o que”. Aí
começava a discutir, só brigava comigo e eu fazia rir e
brincar e tudo. Aí acabou no que acabou, deu o
problema que deu. Então a vida continua, larguei ela
pra lá e foi viver a vida dela, morrer com as próprias
mãos. E eu “tô” tocando minha vida pra frente.
Agora vou viver no meu cantinho sossegado, sem
ninguém pra encher minha paciência.

88

Mulheres

Se arrumar é uma pessoa que eu primeiro tenho que
conhecer a família, tenho que conhecer todo mundo pra
ver o temperamento da pessoa. Não vou mais me
agarrar com a primeira coisa que vem porque eu não
ando desesperado mesmo. Eu sou feio, mas não tô
desesperado não. É isso aí.

Indefinido

Vou tocar minha vida pra frente se Deus quiser. É o
que eu mais quero.
Tranquilidade Esse tempo de tormenta já passou, eu agora “tô” muito
mais sossegado.
Coordenadora Quando eu cheguei aqui eu ainda era meio estourado,
do Serviço de mas a pessoa maravilhosa que a dona J.é, ela
Acolhimento
conversando comigo amoleceu meu coração.
(antigo
albergue)
Indefinido
Meu coração ficou igual a uma manteiga, passa a faca,
afunda a faca, coração mole.
Brigas
E agora já tive muita discussão aqui.
Transtorno
Mental
Indefinido

Porque um lugar desse aqui que “tô” fazendo meu
tratamento, num lugar desse aqui não é um lugar pra
uma pessoa que nem eu.
Porque sempre tem uma pessoa pra encher a paciência.
Aqui é o sistema da rua, a gente não ouve nada, não vê
nada e não fala nada e é isso aí. Só isso mesmo.

Quadro 5:

UNIDADE
TEMÁTICA
Tranquilidade
Moradia
Agressão

Tranquilidade

Remédio

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
Agora eu penso nas pessoas né? Não penso em fazer
maldade com ninguém, só penso em sossego.
Só penso em conseguir minha casinha pra poder
viver minha vida em paz.
Só penso em tocar minha vida pra frente, não penso
mais em fazer maldade que antes eu pensava em
fazer maldade.Qualquer “discussãozinha” que eu
tinha guardava no coração e ficava com aquela

mágoa. Aí ficava pensando em fazer maldade
com a pessoa, primeiro vacilo que me dava eu
fazia maldade. Eu achava que “tava” me
defendendo, “tava” fazendo o certo, mas
sempre é o errado.
Então, hoje em dia eu “tô” mais tranquilo, “tô”
mais sossegado. Só isso! É por causa da
tranquilidade.
Por causa dos remédios que eu “tô” tomando. Logo

OBS

89

quando eu cheguei aqui tinha um rapaz que encheu
minha paciência muito, aí eu fiquei com vontade de
catar ele. Aí indo pro CAPS de novo, comecei a
tomar remédio, comecei a dormir normal
novamente.
Tranquilidade
Aí fiquei tranquilo até hoje, até hoje eu “tô”
tranquilo. O pessoal já me conhece, ninguém enche
minha paciência mais, o pessoal não me incomoda.
Então eu deixo eles pra lá e eu fico no meu canto e
eles ficam no canto deles.
Drogas
Eles fumam as porcaria deles pra lá e eu fico
fumando meu “porranquinho”, fico no meu
cantinho quieto. Aí eu fico fumando meu cigarrinho
de fumo e nem eles me incomodam e nem eu
incomodo eles. Eles nem me pedem cigarro porque
sabem que eu não “do” também. Eles têm dinheiro
pra comprar maconha e “num” tem dinheiro pra
comprar um pacote de fumo? O cigarro de
maconha é 5 reais e o pacote de fumo é 2 reais.
Então eu não “do”. Porque não é ruindade não, é
porque se eles têm dinheiro pra gastar porcaria,
eles podem muito bem sustentar o vício deles. Eu
não vou sustentar o vício de ninguém.
Tranquilidade
Aí pronto, ninguém me incomoda e eu fico no meu
canto quieto, eles ficam no canto deles. Fico
sossegado, continuo sossegado.
Coordenadora do Dona J. já conversou comigo tudo certinho, disse
Serviço
de que era pra fazer meu tratamento direitinho. E até
Acolhimento
hoje eu “tô” obedecendo as ordens dela né, o que
(antigo albergue) elamandou eu fazer e eu “tô” fazendo.
Tranquilidade
“Tô” ficando sossegado. Quando acontece confusão
eu falo o que tem que falar e vou para o meu
quarto.
Brigas
Já teve até um que disse que “ia” me pegar aí fora,
no mesmo instante eu saí pra fumar, ele saiu e foi lá
pro outro lado e eu fiquei do lado de cá. Aí pensei:
“que homem é esse que diz que ‘ia’ me pegar e não
veio?”. Já saí na intenção dele me pegar, aí já com
um pouco de maldade no coração. Porque às vezes
a gente tem um minuto de loucura, cada um tem
um minuto de loucura. E nesse minuto aí faz
besteira sem saber. Às vezes quando o ódio vem no
coração da gente, a gente faz besteira. Quando a
gente vê já fez besteira.
Tranquilidade
Então é isso aí que eu procuro me controlar. Vê o
que falo, vê o que faço pra poder não incomodar
ninguém e não me incomodar também. E não
atrapalha minha vida. É isso aí! Eles sabem o
limite, sabem que não podem mexer comigo e eu
fico no meu canto e eles ficam no canto deles. E é

90

Brigas

Tranquilidade

Tristeza

Preocupação

assim que a gente toca a vida, assim que a banda
toca. Aí eu fico tranquilo no meu canto e eles ficam
tranquilo no canto deles, não tem problema
nenhum. Fico sempre sossegado pra não dar
trabalho para o pessoal da casa, para os
funcionários porque os funcionários são pessoas
excelentes também.Eles tratam a gente bem
entendeu? Tem hora que uns ficam nervoso às
vezes, mas a gente respeita o lado deles e eles
respeitam o lado da gente também. São tudo boas
pessoas, pra mim não tem gente ruim não, tudo
gente boa e é assim mesmo.
O problema é não tocar em mim, enquanto “tiver”
discutindo “tá” bom. Mas se tocar em mim, bater
em mim com alguma coisa aí o remédio não dá
jeito, ninguém dá jeito. Ainda hoje em dia, nada dá
jeito.Porque o que aconteceu lá atrás com minha
mulher foi porque ela bateu em mim, então se a
pessoa “triscar” em mim aí pronto! Aí me perdoe
porque eu não vou me segurar não. Faço de tudo
pra não brigar,mas também se a pessoa tocar em
mim aí a briga “tá” certa mesmo. Aí a confusão é
grande, o cara pode correr porque se ele bater em
mim ele pode correr, ele não fique não porque se
ele ficar ele leva. Eu não vou bater em ninguém
porque eu não sou pai de ninguém, mas eu já faço
coisa ruim mesmo.
É só isso aí mesmo, é só não mexer comigo que eu
fico tranquilo no meu canto. Meu remédio já é para
controlar o meu nervo pra eu ficar tranquilo. Fico
sossegado o dia todo, durmo sossegado, mas se a
pessoa mexer comigo eu não me controlo não, já é
de mim mesmo. Não sei o que é isso não, só sei que
é de mim.
Falo de coração mole porque hoje em dia eu gosto
das pessoas, eu tenho dó das pessoas quando as
pessoas “tão” com problema eu fico triste, fico
muito, muito triste. Quando eu não posso ajudar a
pessoa eu também fico triste. Daí quando eu vejo os
irmãozinho lá fora pedindo comida, por exemplo,
quando não tem mais comida, aquilo ali eu fico
triste pra caramba porque eu não posso fazer nada.
E quando tem alguma pessoa com problema aqui
dentro doente ou alguma coisa assim eu fico triste
também.
Então meu coração amoleceu muito porque antes
eu podia ver a pessoa doente e eu não “tava” nem
aí, podia ver a pessoa com fome e eu não “tava”
nem aí. Hoje em dia não, hoje em dia eu me
preocupo, hoje em dia eu fico triste. É só isso aí o

91

Moradia

Tranquilidade

coração mole, porque eu me preocupo com os
irmãozinho, principalmente quando tem uma
pessoa que é gente boa e bebe ou faz alguma coisa
de errado aqui que é posto pra fora. Aquilo ali me
corta o coração.
Eu não posso fazer nada que o cara não vai com a
regra da casa. Todo lugar tem regra, até na própria
casa da gente a gente impõe regra. Porque se não
tiver regra não vai pra frente, tendo mais de uma
pessoa dentro da casa tem que ter regra se não vira
bagunça. Então, é isso aí.
Eu sou muito tranquilo porque eu já “tô” um
bocado de tempo aqui e graças à Deus nunca mais
teve problema, “tô” sossegado, não briguei com
ninguém, só isso. Muito sossegado mesmo.

Quadro 6:

UNIDADE
TEMÁTICA
Tranquilidade

Pensamento

Tranquilidade

Pensamento

Abandono
Amizade

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
É um pouco difícil de falar sobre a gente, pra
falar sobre a gente mesmo é mais complicado
do que falar sobre os outros. Mas, essa pessoa
tranquila que eu “tô” vendo agora é uma
pessoa que mudou bastante no decorrer do
tempo, com a idade também né?
A idade vem chegando e a gente vai tendo outro
pensar, a gente vai pensando diferente, a gente
vai abrandando mais o coração, a gente vai
observando as coisas como elas são e o que é
certo e o que é errado a gente tem que
distinguir um do outro pra poder toda hora
não “tá” errando a gente erra direto.
Mas quando a gente “tá” numa certa idade, a
gente tem mais cautela. É isso aí! O homem de
hoje em dia é mais sossegado porque procura
ver as coisas primeiro né?
Procura ver direito pra não errar. Então é isso
aí, a gente observando as coisas pra não errar,
aí a gente vai se tornando uma pessoa melhor.
A gente quando faz as coisas sem pensar a
gente faz besteira direto e a gente fazendo
pensando a gente vai melhorando um
pouquinho cada dia mais. Só isso mesmo!
Antes eu não gostava muito de ninguém, não,
pra mim não era apegado a ninguém.
Hoje em dia eu me apego às pessoas, faço
amizades.Antigamente eu não tinha muita

OBS

92

Tranquilidade

Amizade

Preocupação

amizade porque qualquer besteirinha a
amizade sumia e era complicado.Então hoje em
dia eu consigo fazer mais amizade, conversar
mais. Tem um senhor aqui que eu converso
com ele direto, sento ali do outro lado e fico
conversando com ele a tarde todinha. Toda vez
que saio pra fumar, saio mais ele e fico sentado
mais ele conversando, batendo papo. Peguei
uma afinidade com ele. Antigamente não tinha
esse negócio, gostava de andar sozinho.
Quando andava em grupo, era um grupo de
cabra desmantelado também.Então, hoje em
dia eu procuro as pessoas mais velhas, mais
tranquilas pra poder andar com elas, pessoas
que não façam coisa errada. Eu “tô” tentando
mudar né? Tentando mudar mesmo. É isso aí!
Quando ando com as pessoas tranquilas me
ajuda porque quando a gente quer fazer uma
besteira, “tá” um pouco nervoso, essas pessoas
tem que dar conselho: “se acalme, pára com
isso, deixa pra lá, larga de mão”. Eles ajuda
dando conselho.
As pessoas fazem as coisas erradas, são pessoas
boas, mas usa droga, usa bebida e não consegue
parar. Então eu tenho pena dessas pessoas
porque eu também já fui assim entendeu?
Então eu sinto pena, porque estão tentando
ajudar elas e elas não querem ser ajudadas.
do Dona J. tenta ajudar esse povo, mas eles não
de quer ser ajudado.

Coordenadora
Serviço
Acolhimento
(antigo albergue)
Preocupação

Drogas

Agressão

Às vezes por displicência, mas porque não
sofreu consequência por aí ainda pra poder
parar com essas coisas. Eu sinto pena porque
essas pessoas não conseguem se livrar dessa
maldição. Porque pra mim esse negócio aí é
uma maldição. As pessoas pensam que é
safadeza, mas não! Só quem sabe o que é, é
quem já “teve” dentro e sabe o que é isso. Isso
aí é uma tristeza, como um vício qualquer.
Qualquer vício, nenhum presta. De jogo, de
droga e bebida, nenhum presta. Então é isso aí
que eu tenho pra dizer.
Às vezes essas pessoas faz maldade sem querer,
porque as pessoas que usa essas coisas aí,
bebida, esses negócio, fazem as besteiras sem
querer, fazem por instinto. Porque fazem
mesmo, mas sem maldade, muita gente faz sem
maldade. Aí faz a besteira, quando vai ver já

93

Indefinido

Pensamento

fez.
Aí diz: “eu sou o cara!” e naquilo ali bota na
cabeça que é o cara e diz que não tem pena de
ninguém e fica por isso mesmo, mas se a pessoa
parar para pensar direitinho, a pessoa vai pelo
certo, ela vai ver que esse negócio aí “tá”
errado.
Ele vai procurar piedade, porque antes eu fazia
assim também. Agora eu “tô” pensando antes
de fazer as coisas, penso duas vezes. Então é
isso aí, a pessoa tem que procurar fazer a coisa
certa. Só isso mesmo.

Narrativas do Tempo Futuro (quadros 7, 8 e 9)
Quadro 7:

UNIDADE
TEMÁTICA
Moradia

Emprego
Família

Moradia

Emprego

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
Daqui pra frente se Deus quiser vou conseguir a
minha casinha e vou trabalhar pra tocar minha vida
pra frente né? Viver minha vida que já “tava” num
fosso. Agora não, agora eu “tô” querendo construir
minha vida. E eu conseguindo minha casinha, vou
morar no que é meu. Vou viver a minha vida.
Vou trabalhar de novo, vou tocar minha vida pra
frente. É isso aí! É começar a trabalhar.
E com a ajuda de meu irmão eu vou continuar minha
vida, porque pra começar tem que ter a ajuda de
alguém. Eu vou procurar meu irmão pro meu irmão
me ajudar. E aí eu tenho certeza que ele vai me
ajudar. Pra ele arrumar um serviço pra mim. Pra
quando eu me apertar também eu recorro a ele.
Sempre recorri a ele e ele sempre me ajudou. Aí ele
me empresta dinheiro, eu pago a ele quando for pra
pagar algumas contas quando eu estiver sem
dinheiro. Eu sempre procuro ele, aí pego emprestado
com ele e depois eu pago. É isso aí!
Assim, eu tendo minha casinha eu vou “tá” no que é
meu. Vou viver a minha vida, vou reconstruir minha
vida, continuar pra frente. Então é isso aí. Sair do
albergue já é uma vitória. Vou pra minha casinha,
começo a trabalhar, vou comprando minhas
coisinhas, mobiliando minha casa e cuidando da
minha saúde. Aí esse homem aí vai tocar a vida pra
frente, é isso aí, tocar a vida.
Eu vendia prestação. Então eu já posso trabalhar
com isso, mas vou pegar o empréstimo por fora
porque quando estiver em tempo eu tenho como

OBS

94

Cidadão
Moradia
Emprego
Cidadão

Moradia

Família

Celular
Família

recorrer a minha aposentadoria que “tô” ficando
velho né?
É difícil falar sobre a gente mesmo, é difícil.Mas eu
vou me sentir um cidadão de bem.
Porque eu vou ter minha casa.
Vou ter meu trabalho, vou andar com as minhas
próprias pernas, vou me sustentar.
Então o que eu quiser comer eu como, na hora que
eu quiser dormir eu durmo, se eu não quiser dormir
eu não durmo entendeu? Eu vou viver pra mim
mesmo. Não vou viver à custa dos outros, esperando
pelos outros. Porque aqui a gente espera pelos outros
né?

E eu tendo minha casa eu vou viver minha vida. É
isso aí, só isso. Trabalhar e viver minha vida. Tocar
minha vida pra frente, se Deus quiser e ele quer.
Minha casa vai sair, logo, logo “tá” saindo. Já é um
bom começo.“Tô” esperando que saia essa casinha
aí, já sonhei tanto com essa casa, sonhei demais, já
pensei, já fiz muitos planos com a chegada dessa
casa. Conseguir minhas coisinhas, comprar minhas
coisinhas, mobiliar minha casa da maneira que eu
quero. Não deixar faltar nada e trabalhar pra tocar
minha vida pra frente, pra não faltar nada dentro de
casa e sempre ter um troquinho separado pra
quando precisar ter um dinheiro. É isso aí, meu
plano é esse. Agora explicar esses negócio é difícil
porque falar logo na casa já fico agoniado. Agoniado
pela espera, porque “tô” esperando essa casa já tem
dias já. Logo, logo ela sai.
Eu não consegui mais contato com o meu irmão
porque se não eu ia pedir um celular pra pegar
contato com ele, do meu sobrinho e minha sobrinha.
Do meu primo eu tenho na caderneta.
Mas não ligo daqui do albergue, ligo do celular de
alguém. Coloco crédito e ligo.
Quando eu tinha meu celular ligava direto pra ele,
era a única pessoa que eu tinha o número quando
“tava” longe daqui.

O “eu” se
refere
a
cidadão,
pois é o
momento
em que o
entrevistad
o apresenta
uma
autonomia
de
reconhecim
ento por ser
um
cidadão.

95

Celular
Tranquilidade

Mas agora eu não tenho celular porque eu vendi
para comprar os remédios e fiquei sem celular.
Quero viver minha vida sossegado, tranquilo e sem
problemas. Só isso mesmo!

Quadro 8:

UNIDADE
TEMÁTICA
Cidadão

Moradia

Tranquilidade
Moradia

Emprego

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
Esse cidadão de bem é ter minha casa, ter o
meu trabalho, tocar a minha vida pra frente.
Ser cidadão de bem é trabalhar sossegado,
viver minha vida mesmo, sem precisar das
pessoas, tocando minha vida por mim mesmo.
Porque aqui a gente “tá” dependendo dos
outros. Na casa não, na casa a gente vai
trabalhar, vai manter o padrão de vida. É isso
aí!“Tando”
na
minha
casa,
“tando”
trabalhando, eu vivendo as minhas custas
entendeu? Sem depender das pessoas.Aqui não,
aqui a gente depende dos outros. Tem que
esperar a hora pra dormir, esperar o horário
pra comer, tudo tem horário aqui.Na casa da
gente não, na casa da gente a hora que a gente
quiser come, na hora que quiser dormir dorme,
na casa da gente é diferente porque a gente é
que comanda o que a gente faz.Aqui não, aqui
tem regras.Lá na minha casa seria eu que
mandava, a minha regra.
A minha regra é viver minha vida sossegado.
Ver minha TV é tomar meus banhos na hora
certa que aqui na pode.Que às vezes a gente
chega no banheiro e tem gente né?E lá não, lá
vai ser o banheiro só pra mim. Cozinhar minha
comidinha, na hora que eu tiver com fome
comer, pode ser 22hs, 23hs. Querendo almoçar
eu almoço, aqui não, aqui tem que ser no
horário que chega a comida. Então é isso aí! Só
isso!
Trabalhar, chegar em casa na hora certa
sossegado. Se for esse trabalho de vender
prestação, eu posso trabalhar até meio dia e
ficar a tarde todinha em casa. Quando eu
quiser eu trabalho o dia todo.Eu sempre vendi
prestação, às vezes eu trabalhava uma parte do
dia, às vezes eu trabalhava o dia todo. Quando
o dia “tava” bom eu continuava o dia todinho,
mas quando “tava” ruim eu só trabalhava até

OBS

“aqui”
se
refere
ao
albergue

Na palavra
“lá” ele se
refere a sua
futura casa

96

Moradia

Liberdade

Moradia

Tranquilidade

Indefinido
Moradia

meio dia. É isso aí! O serviço aí é sossegado.E
eu já sei o que é que vou fazer. Se não tiver
prestação eu posso trabalhar de ajudante de
pedreiro mesmo. Não tem problema, qualquer
serviço pra mim é bom.
A regra é na hora que quiser comer eu como,
que quiser dormir eu durmo, na hora que
quiser assistir televisão eu assisto.Aqui não
pode assistir até tarde, tem uns programas que
aqui não pode assistir.“Tando” em casa não, a
gente pode assistir a programação sossegado. E
aqui tem essas regras contra a gente.A regra a
favor é a gente chegar na nossa casa e poder
assistir a televisão a hora que quer. Tomar
banho a hora que quer, ter um banheiro só pra
gente, comer a hora que quer, entendeu? A
regra já inverte pra gente. Só isso mesmo!
Isso aí é liberdade, porque aqui a gente não
“tá” na liberdade total.Em casa que a gente vai
“tá” liberto, em liberdade.Aqui a liberdade é
reduzida, tem regra pra tudo. Então, se a gente
sai de manhã só pode voltar meio dia.
Então tem essas regras que em casa a gente
pode chegar a hora que quer pra fazer o que
quer.Mas aqui tem regras e a gente tem que
respeitar. É isso aí!
Ser um cara do bem é ter também uma boa
vizinhança, que converse nas horas vagas, joga
um baralho, um dominó. É só ter que interagir
com os vizinhos.
Eu também não vou ficar trancado no meu
mundinho que aí complica.
Talvez até eu fique trancado no meu
mundinho, só no meu barraco mesmo, na
minha casa mesmo. Muitas vezes é melhor “tá”
dentro de casa do que “tá” com vizinho
arrumando confusão. Então eu posso ficar só
dentro de casa mesmo, do trabalho pra casa.
Vai depender da vizinhança.

“aqui” ele se
refere
ao
albergue

“aqui” ele se
refere
ao
albergue

Quadro 9:

UNIDADE
TEMÁTICA
Tranquilidade

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
Pra mim a regra é viver minha vida sossegado,
viver tranquilo entendeu? Trabalhando, ficar
na minha casa sossegado e manter minha vida

OBS

97

Brigas
Tranquilidade

Emprego

Moradia
Medo

Indefinido

Moradia

Emprego

Moradia

tranquila sem brigas, sem problemas. Essa é a
regra, regra básica.
Assim, no passado eu já tive muitos problemas,
andei com muitos problemas.
Mas agora eu quero tocar minha vida comum,
normal. Sem arrumar problema, viver minha
vida sossegado, sem problema com ninguém.
Nem com justiça, nem com nada. Viver minha
vida tranquilo.
Trabalhando, da minha casa pro trabalho, do
trabalho pra minha casa, sossegado. Só isso aí
mesmo!
Logo cedo eu vou “tá” dentro de casa.
Eu não gosto de andar tarde na rua, não gosto
de andar à noite na rua e de dia eu ando, mas
de noite não. Eu fico quieto no meu canto. Não
gosto de andar de noite nem a pau.
Vou comer na hora que der fome, preparando
a comida e na hora que der fome eu como. Isso
aí é normal.
Eu “tando” na minha casa quando der fome e o
almoço pronto eu já almoço. Se for na hora da
janta vai ser do mesmo jeito. Porque na casa da
gente a gente come a hora que quer. É isso aí.
Isso aí é sem problema. Por exemplo, se o
estômago pedir pra comer às 22hs eu como, se
pedir 22:30hs eu como. Porque geralmente
quando eu “tô” na minha casa eu preparo o
almoço cedo.
A não ser que eu “teja” trabalhando. Se eu
tiver trabalhando aí quando eu chegar é que eu
vou preparar o almoço. Então eu espero o
horário pra quando eu preparar o almoço
poder comer. Mas “tando” o almoço pronto
geralmente eu deixo pronto e vou trabalhar.
Nesse caso aí eu já chego do trabalho e já vou
comer sossegado.
E na televisão vou assistir os programas que eu
gosto que aqui não pode. Só isso mesmo! Agora
é esperar a casa sair, depois que a casa sair eu
vou colocar em ordem os planos. A cabeça da
gente gira a mil grau. Vou mobiliar minha
casinha toda, deixar tudinho do jeito que eu
gosto, do jeito que eu quero. Mas com fé em
Deus eu consigo isso logo.

98

ANEXO 2
Entrevistas do participante W. L. S
Narrativas do Tempo Passado (quadros 1, 2 e 3)

Quadro 1:

UNIDADE
TEMÁTICA
Família
Casamento

Drogas
Família

Moradia

Indefinido
Família

Coragem
Acolhimento
Desprezo

Família

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
O que me fez ir morar na rua em primeiro lugar foi a
família porque comecei assim cedo.
Primeiro me casei com 19 anos, não tinha a experiência
mesmo né com a vida de casado. Assim, cara jovem. Aí
passei a ter toda a responsabilidade que eu não queria
né?
E comecei a sair no mundo, me entreguei ao álcool eu a
bebedeira.
E não respeitava mais família, fiquei no mundo mesmo,
abandonei a família e hoje eu “tô” assim perambulando
no mundo assim.
Onde eu chego eu tento fazer daquele local um lar até
eu encontrar uma coisa melhor pra mim. “Tô”
esperando sair daqui pra ver se melhoro e consigo
minha casinha. Isso aqui é o que eu posso lhe falar da
minha vida um pouco. É isso aí o que me fez sair de
casa.
E tem mais coisa né, que certas coisas não dá pra falar.
Não aceitam mais eu dentro de casa, a minha família.
Sou do Ceará e minha família lá do Ceará. Quando eu
tentei voltar eles não abriram mais a porta pra mim e
eu me sinto, pelo que eu fiz, rejeitado. Aí eu não tenho
mais cara de voltar pra casa, pra viver com eles.
Não tenho mais. Como se diz assim: não me acho com
coragem mais.
Aí fico assim no mundo até o dia que Deus quiser e
agradeço por ter sido acolhido aqui.
É isso que eu tenho, tem muitas coisas e fico sem jeito
de falar ao desprezo que me deram e fiquei com
trauma.
Minha mãe me desprezou também. Minha mãe não
quis mais acordo comigo. Meu pai morreu, não cheguei
a encontrar com ele quando “tava” no mundo. E meus
irmãos nunca quiseram assim intimidade assim pra
conversar, botar os papos em dia. Tudo que eu falava
pra eles eu era mentiroso o certo eram eles. Eu não
podia se aproximar da minha mãe que minha irmã
encostada mais velha dizia que eu não prestava.

OBS

“daqui”
refere-se
ao
albergue

99

Drogas
Pensamento

Família
Fé
Esperança

Coragem

Família
Mudança

Família

Mudança

Moradia
Velhice

Drogas

Família

A cachaça destruiu um pouco da minha vida.
Aí não pensava né, mas hoje eu já penso. Mas queria
que fosse antes eu pensasse porque eu acho que é tarde
agora.
Eu prefiro “tá” assim, eu não sei o que acontece lá e eles
não sabem o que acontece comigo aqui.
Eu só peço à Deus mesmo em ter me ajudado e a tocar
minha vida.
Esperança em mudar a minha vida eu não tenho
porque assim, se eu não fiz antes agora que eu não vou
fazer mais.
Não tenho mais condições, eu tenho a experiência só
não tenho mais coragem pra voltar pra família e fazer
de novo. Não tenho mais coragem pra isso. Aí é isso
assim.
Eu abandonei todos da minha família em 2007.
E fui para o mundão. Eu fui pro Maranhão, do
Maranhão fui pra Recife, de Recife eu voltei pro Ceará
de novo, do Ceará fui pro sul pra Santa Catarina, fui
morar em Joenville, fui pra São Paulo e mudei. Aí vim
pra Londrina e hoje eu “tô” aqui.
Quando voltei pro Ceará não me reaproximei da
família, fui pra outra cidade no Ceará e não pra ficar
perto deles. Ninguém sabe onde é que eu “tô” no
momento, nenhum deles. Perdi contato deles tudinho.
“aqui”
Aí de Londrina eu vim pra cá. Aí “tô” aqui agora.
refere-se
à Maceió
Tentando arrumar minha casinha como te falei pra ver
se eu melhoro a minha vida.
Porque desse jeito não dá não, eu “tô” envelhecendo.
Daqui a pouco “tô” com cinquenta anos e aí? Vou viver
como? Em abrigo? Tem condições não.
Foi mais a bebida porque a bebida não leva ninguém a
nada mesmo não. Hoje quando eu tenho uns problemas
aqui eu fico pensando será que eu devo beber outra vez.
Eu não digo que não bebo, mas não para ficar bêbado, é
só para espairecer um pouco. Não bebo mais como eu
bebia antes. Chegou a um ponto que a cachaça fez isso
comigo, a cachaça não, a minha vontade.
E me destruiu lá com minha família, hoje eu me sinto
sem ninguém da minha família. E agora minha família
é onde eu chego, é complicado. Tenho filhos e neta, pra
te falar a verdade eu nem sei a idade dos meus filhos
mais. Não tenho mais contato com eles né. E minha mãe
eu não sei nem se “tá” viva também. Meu padrinho que
eu tive também não sei se ele “tá” vivo. Enfim eu perdi
o contato todos, não tenho comunicação nenhuma mais.

100

Certidão

Esperança
Moradia

Drogas

Indefinido
Tristeza
Fé
Família

Fé

Pensamento
Aprendizado

Emprego

Fé
Esperança
Família

Moradia

Pra pedir o registro meu, nem o nome do cartório eu
sabia direito porque se eu tivesse o contato com minha
mãe ficava mais fácil. Demorou três meses para chegar
a certidão.
E minha vida é assim, vivendo e esperando no que vai
dar.
Vou ficar por aqui porque eu dependo demais deles por “aqui”
aqui, minha vida “tá” na mão deles abaixo de Deus. refere-se
ao
Porque eles podem me ajudar e assim eu “tô” levando.
albergue
Espero seguir meu objetivo e pare com esse negócio de
bebedeira. E isso que fez eu ir pra rua, isso não tiro da
cabeça que foi a bebida. Droga nenhuma eu uso, é a
bebida mesmo. Me envolvi demais com a bebida e
achando bom eu perdi a família, perdi o caráter, perdi
filho, mulher, tudo. Não tenho dúvida que não foi a
bebida, foi a bebida sim. Farra né de adolescente, caí na
conversa dos outros, experimentei primeiro e foi daí
que começou.
Eu acho que é isso mesmo que complicou quase metade
da minha vida.
E eu não quero mais viver assim, não sei mais o que te
dizer. Eu fico triste quando eu lembro.
Eu “tô” pedindo à Deus, sinto muito aqui dentro do
meu coração.
Sinto a falta da minha mãe, dos meus irmãos, da filha
que foi a primeira, lembro tudo de quando ela era
pequeninha. E hoje eu me acho sem nenhum deles.
Às vezes eu me sento ali, fico meditando um pouco
sobre minha vida: “Meu Deus, porque eu passei por
isso?”
Cheguei a chorar ali sentado. Quando eu “tô” deitado
eu fico pensando que eu deveria ter feito antes.
A vida é assim, tem que apanhar para aprender e eu
apanhei demais. E eu não sei não, sei que agora eu
quero caminhar pra frente.
Agora mesmo, amanhã já vou no emprego lá e vou
entregar o currículo. E me disseram eu “tão” pegando
gente que já é possível começar a trabalhar. Aí daí pra
melhor.
Com fé em Deus!
Então minha vida “tá” assim nesse carrossel. Eu quero
que fique do lado certo.
É porque eu não sei mais o que falar assim, mas minha
vida quando larguei minha família ficou assim. Nunca
briguei na rua depois que aconteceu esse problema
comigo da minha separação familiar.
Trabalho em beira de praia, “tô” aqui no albergue, “aqui”
esperando um cantinho pra poder ir e daqui pra frente, refere-se

101

antes eu morava em barraquinho, pedia ajuda e hoje eu ao
albergue
“tô” aqui.
Medo
Eu sofri bastante que eu tinha medo, porque aqui o
pessoal tem que ter medo. Não falo mal de nenhum, o
pessoal qualquer coisinha estoura lá fora. E tenho
medo, peço toda noite à Deus pra mim não fazer coisa
errada. O meu medo é esse de fazer a coisa errada e ser
cobrado porque sempre vem a cobrança.
Fé
E eu “tô” me entregando à Deus e vou tocar a minha
vida, porque eu não tenho outro lugar pra ir até
conseguir minha casa e esse emprego.
Esperança
E eu querendo eu vou conseguir. Quando eu quero uma
coisa eu vou e luto, sem essa bebida. E é tocar a vida
pra frente né? Pra melhoria.
Coordenadora É igual quando a Dona J. fala pra mim, tudo que eu
do Serviço de fizer aqui pra vocês é de bom e eu agradeço ela.
Acolhimento
(antigo
albergue)
Lembrança
E eu “tô” tocando. Não sei mais nem o que falo, não
tenho muita lembrança, só de sofrimento e dói né.
Agora não “tô” bem lembrado não.
Tristeza
“Tô” passando sinceridade e o que realmente aconteceu
e tem mais coisas, durante o intervalo de tempo vai
acontecendo, a gente vai se envolvendo com outras
coisas, aquele sofrimento a gente vai amenizando. Mas
de repente volta tudo que aconteceu e não é bom não.
Se eu for bem analisar mesmo não é bom, é sofrido. Às
vezes pedir um pão, uma água o pessoal não dava nem
água. Andei muito a pé e caindo o couro do pé, caindo
mesmo no asfalto quente. Com sede, com fome, eu bebia
água nos bebedouros dos boi cheia de lama, aí bebi e
matei minha vontade. Me deitava no meio dos matos,
foi mais no sul o sofrimento vindo de lá pra cá. Eu não
quero mais sofrer assim não, quero não.
Roubo
Apanhei, fui roubado quando estava vindo pra cá.
Roubaram minha carteira de trabalho, meus contatos,
meu celular e minha mochila. Aí chegando aqui
consegui tirar tudo de novo.
Tristeza
Daí minha vida “tá” assim, sofrida, mas “tá” melhor do
que eu “tava”.
Moradia
“aqui”
Porque onde eu “tava” não tinha o que eu tenho aqui.
refere-se
ao
albergue
Cuidado
Não tinha um documento, não tinha minha vida assim
de alguém me observando, de me olhar, de querer
conversar comigo e me ajudar.
Fé
Aqui eu “tô” tendo ajuda e tenho ajuda graças à Deus!

102

Cuidado

Indefinido

O pessoal ajuda aqui e o pessoal de fora também, tenho
vários conhecimentos aqui. De vez em quando eu
trabalho com um e com outro, mas é bico. Já “tô” bem
conhecido na cidade, já conheço um bocado de gente.
É isso só que tenho pra dizer.

Quadro 2:

UNIDADE
TEMÁTICA
Família

Tristeza

Mudança
Família

Dinheiro
Confiança

Drogas
Confiança

Família

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
Sobre o acordo, minha mãe não quis mais nada comigo
né?! É porque assim, com meus irmãos não tem mais
jeito. Eu era o cara que abandonou tudo, o que não
tem mais jeito. Eu tentava se aproximar dela e tinha a
irmã que ficava na cabeça dela falando e falando: “O
W. não tem jeito, abandona ele”. E ficavam jogando
ela contra mim e ela nunca se aproximava de mim, só
do meu irmão e dela, da minha irmã.
Aquilo ali me entristeceu, me deixou com as mãos
atadas sem saber se chegava mais nela. Aquilo foi me
distanciando dela e ela se distanciando de mim com a
cabeça feita pelos outros e aquilo me entristeceu.
Aí caí mesmo no mundo.
É igual aquilo que te falei, achei família fora, o laço
familiar achei na rua. Eu não me sinto que tenho
família mais. Na época que meu pai se separou da
minha mãe aí teve esse negócio de ter que ir pra casa
do meu pai, aí vinha pra casa da mãe e passava um
tempo. Aí sempre eles diziam que eu levava conversa
pra lá e trazia conversa pra casa da mãe. Coisa que eu
não fazia e eles diziam que eu era mentiroso que só
vivia trazendo conversa. E eu era visto assim como
mentiroso falando mal de uma família pra outra.
Sempre foi assim.
Quando eu pegava um dinheiro eles falavam que o
meu dinheiro não era aquilo, era mais.
Na verdade nunca fui bem visto por eles e com a
bebida eu perdi a moral mesmo, nunca tive moral com
eles depois que eu bebi. Antes eu tinha, agora não.
Comecei a viajar pra fora aí me perdi, comecei a beber
coisa que eu não bebia e não usava.
Me misturei com os outros aí perdi moral de tudo
mesmo. Ninguém tem mais confiança em mim. Aí que
me destruiu, não é ruim?
Meus irmãos não gostavam da mulher do meu pai e aí
ficavam com raiva de mim porque eu morava lá. Ela
tinha outro filho com meu pai e ficava naquela né de
leva e traz. Depois que meu pai morreu eu não tinha

OBS

103

contato mais com ele.

Tristeza
Família

Medo

Desprezo
Família

Tristeza

Família

Coragem
Medo

Tristeza
Fé
Esperança

Mudança
Indefinido

Família

É triste, minha vida foi triste mesmo, não foi fácil.
É por isso que eu sinto falta deles, aí eu lembro do que
eles me fizeram e vem aquele desgosto. Não sei mais
chegar neles, não sei se aproximar, não tenho mais
jeito de dizer para minha mãe e meus irmãos: “olha
aqui como eu ‘tô’”.
Não sei, não vai sair mais nada da minha boca porque
eu fiquei com medo de coisas que eles falaram de mim,
coisas que eu não fazia e um trauma na minha cabeça.
Me condenaram, me desprezaram e fui pro mundo.
Sofri enquanto eles ficavam nos braços de mamãe e
papai. E eu perdi tudinho. E pra falar a verdade pra
você eu não tenho mais amor por eles, eu sinto falta,
mas não é mais aquele amor.
Aí desanimou tudo! É ruim, dói. Você lendo aí as
coisas eu enchi os olhos, chorei um pouco por dentro.
Chorei por dentro porque a história contada, escrita
assim e lendo depois é que a gente vai sentir mais.
Aí vivi minha vida assim e “tô” vivendo, não tem mais
como eu voltar e me sentir com a família. Levei a fama
do leva e traz. Caí no mundo. Meu pai ainda chegou a
me dar um bujão de gás quando me casei, depois me
separei e caí no mundão mesmo. Aí pra frente não tive
mais contato nenhum. Tenho dois filhos, mas não
quero contato nenhum não.
Não tenho coragem. Sabe aquele negócio que você não
tem mais coragem?
Eu acho que não dá mais para encarar, tenho medo
das respostas deles. Então fico com medo quando
escuto a bomba.
Não quero mais sofrer, prefiro ficar no meu cantinho
mesmo.
Com a força de Deus, a benção de Deus.
Tocar a vida pra frente. Penso que é o melhor pra mim
porque quanto mais se envolve nunca vou ser olhado
assim: “olha o W. que ele antes era assim e hoje
assado”.
Agora que saí pro meio do mundo mesmo, o mundo
oferece muita coisa né?!
E eles não tão vendo o que eu “tô” fazendo. Na minha
parte eu “tô” fazendo o certo: “não quero isso e tal”.
Penso assim: “o cara chegou hoje e ‘tá’ pior do que
tava”.
Daqui quando eu for tentar o que eu sou agora,
quando eu tentar mostrar eles já vão ter me
discriminado e arrancado o pescoço. Até minha mãe

104

Coragem
Família
Coragem
Indefinido

Família
Perdão

Lembrança
Fé
Indefinido

mesmo me condena, por causa deles não confia em
mim.
Aí não tenho coragem.
Se fosse só minha mãe eu perdoaria, mas fizeram a
cabeça dela. Eu não quero, prefiro “tá” assim mesmo.
Eu acho que é o melhor pra mim daqui pra frente, não
tenho coragem mais mesmo.
Aconteceu tanta coisa na minha vida que não dá para
acumular, eu não consegui guardar mágoa e não quero
só falar das mágoas, quero falar dos momentos bons.
Eu tive momentos bons com eles, mas eu não lembro
muita coisa assim.
De tanto conhecer pessoas fora a gente vai esquecendo,
perdoando e pra voltar tipo tudo gira ao contrário na
cabeça.
Você perguntando e nós conversando eu lembro muita
coisa.
E entrego pra Deus. Deus sabe o que faz.
Então é isso que eu tenho pra te dizer.

Quadro 3:

UNIDADE
TEMÁTICA
Mudança

Cuidado
Família

Pensamento

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
Na época os momentos bons que eu “tava” te falando é
assim, quando eu saí de Juazeiro que eu fui pra outra
cidade eu comecei a fazer parte na casa da minha tia.
Aí sim já foram me ajudando mais, chegando pra mim
e cuidando.
Mas era aquele tipo, eu ainda desconfiava da minha
família porque tinha os momentos que às vezes sentava
e conversava comigo, me explicava, me acalmava, me
aconselhava e quando “ia” pro jogo ou alguma coisa
minha eu convidava, mas momento bom mesmo foi na
casa da tia. Mas momento bom mesmo eu não tive não,
só depois que me aproximei deles com a tia me
ajudando. Algumas coisinhas que ela me ajudava, não
era tão bom.
Eu falei assim por falar mesmo, porque de bom foram
algumas coisas só. Mas com a tia eu me dei muito
melhor e passei momentos bons, mas não sei te
explicar como era. Bom assim porque ainda “tavam”
me olhando de outro jeito, queriam se aproximar de
mim, mas eu sempre desconfiava, não tinha mais
ânimo nem nada na época que eu era mais novo né? Aí
eu penso assim, não tem muito momento bom não.

OBS

105

Família

Moradia
Família

Emprego
Tristeza

Família

Tristeza

Família

Momento bom foi quando minha tia me mostrou como
ajudar com outro olhar. Eu tinha medo de voltar como
era tudo de novo, aí não confiava em ninguém da
minha família.
Aí eu levei minha vida assim desde que eu saí de casa.
Minha família até ajudou quando minha filha nasceu,
minha irmã me ajudou muito. Mas eu penso assim, era
pela minha filha, não era por mim. Que é igual ela
falou assim: “nós estamos ajudando não é por ele, mas
por causa da criança”. E minha irmã gostava da
minha mulher, mas de mim nunca ajudou pra nada de
conforto e meus irmãos. Se “tavam” me ajudando na
época era tipo assim, falsidade. Como eu “tava” com
minha tia eles queriam mostrar que ajudavam. Eu
ficava na casa da tia e eu contava tudo pra ela, mas
eles não me ajudaram por causa de mim, sentindo
alguma coisa por mim. Eles tinham raiva de mim ou
tem ainda, foi só por causa da minha filha que
ajudaram.
Naquela época eu sempre vendia bacia, tapete e viaja,
ganhava dinheiro.
E só quando eu ganhava dinheiro eles se
aproximavam, mas era pela falsidade. Eu me sentia o
pior ser do mundo perto deles, eu não tinha amor
mesmo assim grande coisa não. Sinceramente, juro por
Deus que eu não tive amor deles, minha mãe já olhava
com outro olhar. Pois é só os momentos pouco mesmo
que eu tive, mas nada não.
Minha mãe “ia” lá em casa, de vez em quando ela “ia”
quando eu “tava” em casa ou tinha alguma coisa pra
fazer, mas era muito rápido que ela ficava. Qual o filho
que não sente dor assim no coração? Porque com os
outros irmãos ela ficava um tempo todinho. E eu me
sentia assim: “poxa, a minha mãe vem aqui e nem
ficava um pouco com a neta e vai embora”. Meus olhos
enchem de lágrimas aqui por dentro só de lembrar.
Minha esposa falava comigo: “W. porque tua mãe fica
pouco tempo e já vai embora?” e eu respondia que não
sabia. Quando eu “ia” na casa da minha mãe, eu
sentava perto da minha esposa porque os outros
irmãos tudo olhava, não sentava perto de mim.
Eu só tenho assim é mágoa dentro de mim, não sei
contar mais atrás não. Não sei se eu tenho amor, não
tem alguma coisa dentro do meu coração. Momento
bom foi muito pouco mesmo, dói por dentro de mim
quando eu vou falar e sinto muito, não lembro muita
coisa.
E outro momento bom que eu “tive” foi com meu pai
antes de viajar, antes dele morrer. Eu tinha mais
atenção do meu pai. Juro por Deus, meu pai era mais

106

Mudança

Família

Lembrança
Mudança
Indefinido

carinhoso comigo, se preocupava comigo. Antes de
casar, quando eu ficava lá eu tinha todo o cuidado,
comprava comida, comprou uma carroça pra mim
vender banana, abacate, essas coisas. Meu pai sempre
gostou de mim, eu não “tava” no momento quando ele
morreu. Meu pai era muito carinhoso, muito apegado
comigo e a mulher dele também. Pra onde meu pai
“ia” me levava. Meu pai sim, Deus me perdoe se eu
“tiver” falando errado da minha mãe, mas eu não sinto
amor dela por mim. Meu pai morreu e eu sinto falta
dele até hoje, já dos outros da minha família eu sinto
falta, mas não tenho coragem de se aproximar mais
deles. Se meu pai tivesse vivo hoje eu “tava” com ele eu
não tinha saído de perto do meu pai, não “ia” “tá”
andando pelo mundo não. “Tava” com minha esposa
ainda, “tava” com a minha família, minha filha, meu
filho, “tava” vivendo perto deles. Minha mãe não dá
porque os outros filhos não gostam de mim mesmo. Já
o meu momento com meu pai foi muito maravilhoso.
Só que eu “tive” que cair no mundo mesmo. Aí
começaram a dizer que eu mentia, levava conversa pra
lá e pra cá, foi daí que larguei tudo como te falei.
Mas não lembro momento bom com a minha mãe, não
tenho lembrança muito não. Meus irmãos por parte de
pai eu cuidava deles quando levava pro colégio quando
eram pequenos. Eu dormia numa rede e era bem
cheirosinha, bem arrumadinha minhas coisas. Eram
momentos bons com meu pai, agora com minha mãe
não tenho mais lembranças não, não tenho mais não.
Se lembrar mais pra frente eu falo, mas agora era isso
mesmo. Deu pra entender?
É melhor eu ficar nessa vida mesmo, no mundão.
Pronto! É só isso mesmo.

Narrativas do Tempo Presente (quadros 4, 5 e 6)

Quadro 4:

UNIDADE
TEMÁTICA
Mudança
Família

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
Assim, viver nessa vida de mundão é igual o que
expliquei.
Eu não tenho mais amor de mãe, irmão, de nenhum
familiar. Eu prefiro assim, aonde eu chegar é construir
uma família e viver nessa vida assim de melhoria né!
Pra mim melhorar, estar com alguém, conseguir essa
casinha, progredir pra frente. Porque pra viver com

OBS

107

Mudança

Emprego
Família

Mudança
Moradia

Família

Fé
Mudança

Família

Esperança

eles eu não vou mais, pra perto da minha mulher eu
não vou mais e dos meus filhos também não. Igual eu
te expliquei, eu não tenho comunicação com eles mais,
não sei daqui pra frente.
E a vida do mundão que eu falo é essa: seguir em
frente e me adaptar em algum lugar mesmo igual aqui
eu “tô”.
Já “tô” me adaptando, já “tô” arrumando uns
trabalhos, uns bicos e vivendo minha vida.
Longe da minha família né! Se um dia eu chegar a me
comunicar com eles tudo bem posso até me juntar a
eles, tipo assim uma sociedade, uma amizade, mesmo
com a falsidade que eles tem. Que eu não queria “tá”
distante deles, eu queria “tá” perto.
E a vida do mundão é essa que eu falo pra ti, não é
viver perambulando.
É aqui, “tá” aqui arrumando minha casinha igual a
dona J. falou pra mim que no mês de março “tá” pra
sair as casas.
E eu tenho plano de arrumar alguém na minha vida e
construir uma família, um laço familiar: mulher e
filho.
Não “tô” tão velho assim e eu espero daqui pra frente
Deus me ajudar.
É isso que eu falo pra ti do mundão. Eu “tô” distante
deles mesmo, daqui pro Ceará é longe. Não sei como
vai ser daqui pra frente, eu acho assim pra mim
melhorar porque eu “tô” aqui melhorando até
conseguir isso. Mundão porque eu quero construir
minha vida aqui, nesse mundão que me referi. Aqui ou
no interior aqui por perto. Porque lá não me sentia
com eles, quando eu viajava eu me sentia no mundão.
Me sinto bem em Maceió.
Eu só fico triste porque eu não tenho mais
comunicação com eles, aproximação. Não sei como eles
estão, como “tá” meu filho, minha filha, minha neta,
minha mulher. E minha mãe quando eu soube ela
“tava” meio doente, ela tinha pressão alta e tinha
problema no coração. A maioria da minha família
morre de ataque né! Meu pai também morreu de
ataque. E meus irmãos, apesar deles não gostarem de
mim, eu sinto ainda o amor no meu coração por eles.
Todo irmão quer saber da vida do outro. Embora eu
ache que eles não queiram saber de mim, mas eu
quero. Meu coração não é tão duro.
Eu acho que deu pra mim responder né? Hoje eu me
preparo para um futuro próximo. Hoje me preparo
para depois, eu planto aqui pra mim colher amanhã
uma coisa melhor. Porque eu arrumando alguém, eu já
tenho como me manter, me estabelecer ali e viver de

108

boa com ela, oferecer o melhor porque minha vida
“tava” pior. Não foi tão boa. E eu “tô” tentando
melhorar.
Coordenadora
Dona J. “tá” vendo e “tá” me dando todo o apoio, o
do Serviço de que ela pede eu faço. E daqui pra melhor. Tem meus
Acolhimento
compromissos que eu “tô” cumprindo certinho como
(antigo
Dona J. falou: “faça certo que daqui você vai para sua
albergue)
casa”. Hoje “teve” um probleminha com um colega,
mas conversei com Dona J. e tudo se resolveu. Troquei
umas palavras com o colega porque não sou de ferro,
mas chamei ela e ficou bom.
Moradia
Eu me sinto bem aqui, mas não quero viver “Aqui”
permanente aqui nesse albergue porque não é pra se refere
ao
sempre, é passagem.
albergue
Mudança
E essa vida do mundão que te falo é essa da melhoria
que eu espero ter respondido. A pessoa andando pelo
mundo assim fica sem plano, sem rumo né!
Coordenadora
Aí quando eu vim pra cá pedi apoio, Dona J.
do Serviço de conversou comigo, assim como falo com você aqui. Ela
Acolhimento
disse: “vou te dar um prazo, aí tu vê aí”.
(antigo
albergue)
Esperança
Conversei com a assistente social, nós conversamos e
disse que eu tinha um prazo, mas que não era pra mim
me acomodar. Aí foi que tirei a documentação e os dias
foram passando, agora “tô” progredindo.
Emprego
Na hora que arrumar um emprego vai ficar melhor.
Família
Quem sabe quando eu não tiver com minha casinha eu
não ligo pra minha filha, entrar na internet ver o site
dela, alguma coisa né! De repente eu vejo o número
dela pra se comunicar com ela.
Fé
Eu peço à Deus ajuda e “tá” conversando contigo aqui
eu me sinto mais leve, feliz.
Indefinido
Eu não tinha com quem conversar. Você conta aqui
um segredo e o outro já fica sabendo.
Velhice
E aqui eu desabafo sobre minha vida, eu gosto de
conversar contigo quando você vem aqui. Então é isso
minha vida, eu quero prosperar. Tanto do meu
psicológico como do meu coração e no meu
entendimento. Eu “tô” fazendo por onde, já “tô” com
41 anos, daqui a pouco envelheço mais e aí quem vai
me ajudar? Não vou viver todo o tempo assim.
Quadro 5:

UNIDADE
TEMÁTICA

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA

OBS

109

Amizade
Emprego

Moradia

Família

Emprego
Moradia

Coração

Família

É o que eu te falo, plantar aqui é fazer novas amizades,
novos conhecidos.
“Tô” tendo uma série de trabalho como te falei com os
caminhão, com os menino. Logo, logo “tô” arrumando
um emprego melhor porque vou ter algo com eles lá no
galpão. E daí vou prosperar, vou plantar mais coisa
pra frente. Tendo meu emprego eu vou “tá” melhor
pra poder encontrar minha filha.
O meu plantar aqui é esse pra colher depois. Porque “Aqui”
quando eu tiver apoio aqui eu “tô” podendo ver coisa se refere
melhor, ajeitar minha casinha, montar toda direitinho. ao
albergue
E chegar o ponto de entrar na internet e tentar se
comunicar com minha filha ou alguém da minha
família e progredir pra frente pra ter coisa melhor. Na
minha vontade mesmo pra ser bem sincero pra ti, o
que eu queria mesmo era minha filha, meu filho tudo
perto de mim embora minha mulher não quisesse
mais. Mas com os filhos perto de mim tava de boa. Se
eu não conseguisse uma mulher pelo menos com eles eu
já tinha o coração mais feliz. Pelo menos o contato,
manter o contato. Se eles não quisesse vim eu já teria o
contato. É ruim você ter filho, ter família e não se
comunicar com eles.
Durante esse trabalho que eu “tô” tendo aí eu já juntei
400 reais, 450 reais. É pouquinho né?
Mas não falei nada pra Dona J. pra ela não achar que
já posso alugar uma casinha. Porque esse dinheirinho é
para guardar, aqui não é pra sempre. Pode chegar o
momento de alguém dizer que aqui não dá mais. E eu
tendo meu dinheirinho e eu fico num cantinho até ter
minha casinha. Aí esse negócio que “tô” te falando deu
ter contato com eles é eu ter meu cantinho e ficar mais
a vontade.
Eu quero me sentir com eles no meu coração. Eu “tô”
muito apertado, meu coração “tá” muito apertado
sabe, sem rumo. Sem jeito pra trabalhar, pensando
todo dia a mesma coisa. Toda hora que acordo é a
mesma coisa, eu converso contigo eu me sinto bem,
converso com dona J. e também fico bem. Mas não é
todo dia que se pode manter o contato de conversa né?
Não tem como.
Daí é assim, eu quero ter eles perto de mim. Pra mim
quando chegar do meu trabalho me sentir bem com
minha filha, minha neta. E no caso se eu arrumar
alguém eu sei que ela não vai ser contra né? E eu
quero viver minha vida assim tranquilo. Aí eu “tô”
tentando encontrar minha filha, já falei com um amigo
achar pela internet para pegar alguma informação,
com alguma foto, telefone, essas coisas. Ele pediu para

“Aqui”
se refere
ao
albergue

110

Indefinido

Esperança
Drogas

Indefinido

ir na lan house falar com a filha dele e mexer na
internet pra ver se vai dar certo.
Aqui nem sempre as meninas vão ter tempo pra me
deixar mexer na internet e como fico lá com esse colega
ele deixa eu usar.
Pois então é isso, minha vida de plantar pra colher é a
melhoria, sempre melhorar.
Eu não vou mentir pra ti que antes de ontem eu dei
uma “bicadinha” né? A Assistente Social me chamou e
puxou minha orelha. Eu “farrei”. Molhei o bico (risos).
Mas não foi para prejudicar ninguém. E a Assistente
Social falou pra mim: “Você precisa ir pro CAPS!” e
eu disse que tudo bem. Fui lá e voltei, mas não avancei.
Os que estavam comigo desde ontem estão bebendo e
curtindo, mas eu não tenho nada a ver com a vida
deles. E vão pegar na orelha deles também. Cada um
cada um.
Então era isso. Se tiver mais dias ou perguntas para
fazer eu respondo.

Quadro 6:

UNIDADE
TEMÁTICA
Acolhimento

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA

Eu não tenho nada a ver com a vida de ninguém, cada
um é cada um né? Todo dia a mesma coisa, um sai e se
deita, se levanta e é sempre a mesma coisa. E eu fico
com o coração apertado de ver gente aí fora também
passando o que “tá” passando. Tem a oportunidade
aqui dentro e não sabe acatar com as duas mãos. Uma
coisa assim que é pra se proteger de gente lá fora.
Porque tem muita gente boa, mas também tem muita
gente ruim né? Principalmente nessa época de
carnaval. Semana passada mesmo o rapaz deu duas
facadas bem aqui na frente. A gente “tava” aqui
dentro mesmo.
Moradia
Mas eu me sinto mal, eu fico vendo essa cena e eu “tá”
aqui, não ter conseguido meu barraquinho, a minha
casinha pra eu poder sair.
Medo
Aí pra eu poder sair durante o dia assim, eu entro e
saio, eu fico assim com um aperto dentro de mim e
aquilo pode acontecer comigo. Eu fico assim com meu
coração temente, com medo. Aqui nós não temos
amigos, temos conhecido. É pouca conversa e se falar
demais já querem matar, já querem brigar.
Coordenadora
Querem colocar a gente contra a dona J. contra outras
do Serviço de pessoas daqui. Até com a cozinheira também.
Acolhimento

OBS

111

(antigo
albergue)
Medo

Eu me sinto com o coração apertado não vou mentir
sabe, temente. Fico preocupado porque eu não tenho
conhecimento aqui, tenho poucos meses aqui e nem
chega a ser um ano. É um medo de ser assaltado nessas
pracinhas. Vou andar e volto pro serviço com aquele
troquinho no bolso, tem muito “cheirador” de cola,
muitos “noiado” aí. Eu fico com medo.
Moradia
Aqui mesmo eu nem posso chegar aqui no albergue
que já dá aquele aperto em mim sabe. Daí você pensa
assim: “poxa, não tô no que é meu, não tô na minha
casa”.
Medo
Você se sente inseguro, temente porque aperta mesmo.
Não tem como não te apertar.
Moradia
Mas quando eu entro pra dentro do albergue sempre
tem um ou dois que a gente dialoga um pouco, bate um
papo e aquilo vai espairecendo.
Fé
Vai chegando à noite e tem minhas orações que eu faço
porque eu gosto de orar à noite, pedir à Deus proteção.
A gente com Deus já é do jeito que é imagina sem
Deus.
Medo
Daí eu fico com medo. Eu não sei, eu me sinto
apertado.
Moradia
É aquilo que eu te falo, eu já queria “ta” na minha
cama, na minha casinha já.
Família
É um aperto por essas coisas que “tô” te falando e um
aperto também de não ter meus filhos por perto que
“tá” mais me judiando.
Indefinido
Não pude ter comunicação pela lan house porque
“tava” fechado nesse período. Fui hoje lá também, ele
“tava” ajeitando o carro do irmão dele e a menina
“tava” tomando conta da sobrinha dela que “tava”
doente porque a tia dela tinha viajado.
Coordenadora
Aí fiquei com as mãos atadas sem saber o que eu faço.
do Serviço de A dona J. nunca tem tempo, desde cedo ela não para
Acolhimento
de atender gente, sempre tem alguém para conversar
(antigo
com ela.
albergue)
Medo
Tenho muito medo aqui, esses que vivem na rua não
tem medo de nada, se acostumou. E eu não sou de me
misturar com muitos. Quando chega alguém pra perto
de mim eu já fico “descabriado”, mas tem que ser né?
Pra ter cuidado porque eles são viciados, assassinos
também, usam drogas, roubam, não dispensa nada. Se
te ver com o celular já procuram o jeitinho de dar o
bote. Eu tenho roupa boa, tenho coisas boas, mas eu só
ando assim porque qualquer vacilo eles deixam a gente
nu. “Ontonte” mesmo tem um que fica aqui no
albergue que apanhou duas vezes na cara e esse

112

próprio que é de fora pegou e tomou o dinheiro dele e
devolveu a carteira pro monitor. Aí fico assim com o
coração apertado, temente mesmo.
Tristeza

Indefinido

Medo
Moradia

Indefinido
Medo

Coração

Brigas

Medo
Moradia

Fé
Medo

Indefinido

É esse o caso mesmo e “ta” com meu coração apertado.
E esses dias vai passando e eu tive um sonho: “Meu
Deus tomara que essa casinha já saia logo pra mim ir
pra minha casinha”. Porque às vezes eu não “to” mais
aguentando sabe, aperta mesmo e traz ansiedade. De
repente vem uma tristeza que fica aqui dentro.
Então não posso falar que tenho 400 ou 500 reais
porque se alguém escuta e espalha daí pega o dinheiro
de você e já era.
Eu “tô” ficando com medo, os dias “ta” passando e eu
“tô” ficando com medo.
Dizem que dona J. “ta” com um papel aí pra selecionar
dez pra essas casas e eu “tô” pedindo à Deus que ela já
“teja” pelo menos com a caneta já apontando meu
nome ali. Assim eu já saio fora daqui.
É isso a resposta que eu posso te dar.
Não é fácil quando você acorda de manhã e abre
aquele portão que já sai com aquele suspense porque
esse pessoal não dorme. Eles pedem comida aí fora e se
a gente não dá dizem que somos miserável.
Sinceramente eu “tô” com medo porque eles ficam
marcando as pessoas. É isso! Eu “to” temendo mesmo.
Não tenho nada contra eles e nem eles comigo, mas não
se sabe o que se espera quando sai daqui.
De repente você “ta” com seu coração puro, fazendo o
bem e pra eles não, eles acham que “ta” fazendo o mal.
Nunca é bom pra esse tipo de gente. Não vou dizer que
sou santinho, mas eu tento ser do bem.
Eu vi uma cena aqui na frente que o cara ficou na
cadeira de rodas, foram sete pra cima dele dando
facada e pode acontecer comigo. E era tudo amigo, pra
você vê!
Por isso que eu “tô” temente com o coração apertado,
com bastante medo.
Tenho vontade de sair daqui, mas ainda tenho pouco
dinheiro para me manter. E parece que esse mês “tá”
pra sair as casas.
Tô” pedindo muito à Deus.
Eu sou assim, muito preocupado com a minha vida,
não enxergo só coisa boa, tem coisas difíceis. Sempre
tem os dois lados e eu sempre penso que “tô” fazendo o
meu lado que é certo.
Pois é minha querida, acho que é isso que eu tentei te
responder.

113

Narrativas do Tempo Futuro (quadros 7, 8 e 9)
Quadro 7: Narrativa 7

UNIDADE
TEMÁTICA
Moradia

Medo
Moradia

Fé
Moradia

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA

OBS

Eu imagino assim, saindo daqui logo pra minha casa
né? Porque assim, eu “tando” na minha casa eu vou
ter meu espaço, eu não vou “tá” como eu “tô” aqui.
Aqui tem hora pra entrar, tem hora pra sair. Eu vou
ser mais reservado, mais atento do que eu sou aqui.
Porque aqui todos entra e sai, ninguém conhece,
ninguém sabe quem entra e sai. Eu já quero que minha
casa saia pra mim ficar no que é meu e ficar naquela
segurança. Já que é meu eu vou fazer minha
segurança. Aqui você nunca faz sua segurança. O
quarto é aberto, o portão de vez em quando entra
gente aí que ninguém conhece. De repente chega um aí
e tem uma confusão e entra pra dentro do quarto da
gente naquele corre-corre. Aí eu me sinto assim pra
sair logo minha casa, pra mim montar minha casinha,
se preservar mais ainda porque aqui não tem
condições.
Aqui a gente fica com medo, acontece coisa que
ninguém espera. Entra bicho ruim e entra bicho bom.

“Aqui”
se refere
ao
albergue

É isso aí que eu “tô” te falando de “tá” na minha
casinha, na minha segurança mesmo porque eu faço do
jeito que eu quero. Na casa da gente a gente come o
que quer, consegue o que quer, não tem que dar
satisfação pra ninguém.
É você e Deus.
É isso mesmo o significado de “ta” na minha casinha, o
meu querer de “ta” na minha casinha. Porque eu
sempre tive o sonho de ter uma casa, de me manter. Eu
sempre me “manti”. Eu não tinha casa, eu tinha
alugado. Minha casa era toda organizada. E aqui não
dá, é passageiro mesmo e faz um ano já. Eu fico com
vergonha de “tá” aqui. O pessoal já fala “O W. já ta há
um ano aqui e nunca conseguiu dinheiro pra pagar
aluguel”. Eu consegui, mas eu não vou dar uma de
bobo para sair daqui enquanto não sai minha casa. Eu
“tô” lá e não sai minha casa. Aí eu vou comprar as
minhas coisas. É nisso que me sinto assim de querer a
minha casa entendeu? Daqui pra minha casa. Quero
me sentir bem na minha casa. Ter minha segurança,
ter minhas coisas, ter o prazer de entrar dentro da
minha casa.

“Aqui”
se refere
ao
albergue

114

Fé

Mulheres
Moradia

Mulheres

Moradia

Medo
Brigas

Fazer minha oração. Porque quando eu “tô” ali no
quarto que me ajoelho um vai lá e acende a luz, outro
faz barulho. Não! Eu quero um cantinho reservado
para agradecer à Deus, só eu e Deus. Meditar porque
aqui não tem como meditar. Você “tá” aqui
conversando com Deus, mas o pensamento “ta” ali
fora. Aí você já sai do quarto e “vê” aquela multidão.
Um sorrindo e o outro “mangando” da cara da gente.
Já sai espalhando. Por isso eu quero meu cantinho, me
preservar. Eu e Deus.
Igual eu te falei na outra entrevista lá: se aparecer
uma mulher pra mim eu vou viver a minha vida.
Eu quero o meu cantinho pra mim me sentir bem, pra
limpar as minhas coisinhas, passar pano. Aqui some
tudo, mas lá na minha casinha vai ter tudo
arrumadinho. Ter meu banheiro limpo porque nesse
daqui eu não sento com medo de alguma bactéria. Eu
não sou melhor do que ninguém, somos todos igual,
mas eu tenho o meu higiênico também. É isso que eu te
falo, eu quero o meu cantinho pra viver. A senhora
olha a minha caminha aqui é tudo organizado, meu
armário é tudo organizado. O dia de limpeza eu tiro
tudo, eu limpo. Se eu vejo uma mesa suja eu já vou
limpar. E eu quero ter o meu cantinho pra fazer as
coisas do meu jeito, do meu gosto. Pra quando eu
chegar do trabalho, chegar em casa ter aquele
cheirinho de limpo.
Não terei que dar satisfação, a não ser pra minha
mulher. Quando tiver com minha mulher. Vou avisar
onde vou, o que vou fazer.
Eu imagino assim, minha vida assim. Viver no meu
cantinho. Olhando pra esse quadrado aqui eu já
imagino minha casa, meu fogão, geladeira, tudo
limpinho. Minhas coisas de higiene tudo arrumado.
Quando eu morava só a minha casa era limpinha, o
meu banheiro limpinho. Era tudo limpo, eu cuidava de
tudo. Eu gosto de planta também. E sou assim, eu
quero minha vida assim. “Tô” pedindo muito à Deus e
que dona J. consiga minha casinha.
Eu “tô” com medo de “tá” aqui, não sou de me meter
em confusão, mas eu tenho medo.
Ontem mesmo tinha um cara querendo bater num
velhinho e bateu boca com a dona J. aí fora. Não dá
pra confiar em gente assim, fica complicado. Pra muita
gente aí fora nós não tem valor de nada, quem passa aí
já pensa que são tudo marginal, ladrão e embora não
seja todos, sempre tem alguém de bem. Mas o pessoal
de fora não dá valor.

“Aqui”
se refere
ao
albergue

“Aqui”
se refere
ao
albergue

115

Emprego

Tu vai lá e arruma um emprego, um bico pra fazer e já
perguntam: “tu é de onde? Não tem endereço?” Por
isso que quero a minha casa pra ter minhas coisinhas
tudo entendeu? Te juro por Deus, assim não dá. Eu
tenho minha continha da caixa econômica, mas é conta
salário. Mas deposito minha graninha pra me manter.
Coordenadora
A dona J. falou que vai sair esse mês ainda minha
do Serviço de casinha, agora eu vou esperar e eu fico ansioso.
Acolhimento
(antigo
albergue)
Indefinido
Pois é minha querida, é isso!
Quadro 8:

UNIDADE
TEMÁTICA
Tranquilidade

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA

No momento eu me sinto assim um cara mais
reservado entendeu? Mas eu quero ser mais
reservado ainda.
Dinheiro
Por exemplo, eu conseguir um trabalho fixo,
conseguir dinheiro, guardar para o futuro e me
reservar. Reservar o dinheiro não só pra mim, mas
para os meus filhos. Para mais na frente me suprir as
minhas necessidades. Porque a pior coisa que eu vejo
aí é as pessoas sem saber o que querem. Eu quero ter
aquela condição lá na frente, a condição financeira.
Condição de me suprir apesar da minha idade, ou
seja lá como for.
Velhice
Mas não ter nada na vida é ficar sofrendo por aí.
Então eu quero me reservar para o futuro para
conseguir alguma coisa pra mim pra não “tá”
passando dificuldade como eu “tô” aqui.
Envelhecendo nessa situação aqui eu creio que não é
bom, não tem condições. Não tem condições de viver
assim, então eu quero me preservar pra isso, pra
frente, “pro” futuro.
Medo
Me manter na minha idade. É ruim um asilo, é ruim
não ter ninguém, eu tenho medo. Não tenho ninguém
perto de mim igual eu te falei. Não consegui
encontrar com ninguém até hoje. Vai dando medo de
viver assim. Eu quero é me preservar pra isso. Minha
idade “tá” chegando, já “tô” com 41 anos e não “tô”
tendo nada até agora.
Coordenadora do A dona J. falou que a casa só vai sair agora em
Serviço
de setembro.
Acolhimento
(antigo albergue)

OBS

116

Dinheiro

Olha bem aí, setembro! Vai demorar uns seis meses
ainda. Daqui pra setembro tem muita coisa ainda pra
chegar. Daí pra frente eu vou ter que lutar mais e
mais. E guardando e guardando dinheiro. Eu não sei
se de repente sai para alguns e outros não.
Medo
Eu “tô” com medo é disso aí.
Dinheiro
Aí “tô” me preparando mais pra isso. Eu não vou
gastar meu dinheiro. Se eu conseguir mais, o
suficiente, eu vou guardando. Quero comprar o que é
meu para não depender deles aqui. Porque é chato
depender dos outros. Aqui eu não gasto com nada e
eu não vou comprar nada pra mim? Vou guardar
para comprar.
Responsabilidade E lá na frente como vou viver só ganhando dos
outros? Nunca vou me manter? Ter minha
responsabilidade? Acostuma como o povo diz aí. O
povo não sabe ralar para conseguir o que quer, até
um cigarro ficam pedindo. Pelo amor de Deus gente!
Vamos batalhar um pouquinho.
Prevenir
Sempre aparece um bico, mas ninguém quer. Por isso
que quero ir pra frente, me prevenir, me preservar
pra isso, pra mim não ficar nessa. Porque viver de me
dê, me dê não dá. Não tem lógica né? Saio de perto
dessas pessoas. Tem lógica de viver assim? A senhora
acha que tem? Então, o que eu tinha pra falar é isso.
Me prevenir daqui pra frente. Não quero sofrer o que
já “tô” sofrendo hoje aqui. Lá na frente vou ver
melhora pra mim.
Família
Guardar o que eu ganho pra no futuro ter minha
velhice porque eu vou envelhecer mesmo. Acho que é
assim. Eu penso nos meus filhos virem pra perto de
mim, um dia eles vem. Com fé em Deus eu vou ficar
com eles nos meus braços, dar aquele beijo, aquele
cheiro.
Indefinido
Pois é minha querida, é isso aí que eu tenho pra dizer.
Quadro 9:

UNIDADE
TEMÁTICA
Velhice

NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA
Na velhice eu penso que já “tô” com 41 anos, eu sou
chato pra caramba. Eu penso lá na frente na minha
idade mais avançada de me viver assim em asilo, sem
ninguém querer me suportar, me abandonar, sem ter
um parente, sem ter alguém que cuidasse de mim, que
tivesse paciência comigo, um sangue meu entendeu?
Porque o pessoal do asilo tem espaço para ficar, para
cuidar do outro.

OBS

117

Medo

Velhice

Medo

Família

Cuidado
Medo
Dinheiro

Solidão

Família

Velhice

E eu tenho medo é disso, de não ter alguém que cuide
de mim o suficiente, de me deixar à mingua. É, morrer
assim à toa. Eu tenho esse medo. Eu penso assim, se
tiver alguém na minha vida, da minha família e que
cuide de mim com o carinho que eu preciso seria
colaborar comigo e me ajudar. Eu tenho medo de
envelhecer e de não ter ninguém comigo para me
ajudar.
Eu me imagino assim, ficar velhinho sem ter alguém
que cuide de mim o suficiente. Por isso que eu me
previno. E daqui pra frente eu me imagino assim,
velhinho, abusado e chato. Porque eu sou chato. Nessa
idade eu já sou chato, imagino mais velho.
Eu sei que não sou santo, mas num lugar como esse
tem muita gente ruim. Aqui é uma bomba relógio. Tu
dá um passo aqui o outro já te olha com uma cara
ruim.
Daí eu já saio daqui com esse costume, já velhinho as
coisas ficam ruins. Agora tendo alguém da família fica
melhor. Eles vão me cuidar, mesmo que tenha só
interesse e deseje que eu morra logo. Não seria aquela
coisa que “vou te cuidar porque tenho carinho”, não!
É por algum interesse. Mas eu queria alguém da
minha família, alguém do meu sangue.
Eu quero ser cuidado mesmo sendo chato.
Meu medo é ficar sozinho. Não quero “tá” assim igual
eu “tô” vivendo em albergue.
Eu penso que a idade tá chegando e tem que
aproveitar agora para juntar dinheiro. Eu já “tô”
gastando dinheiro com um monte de dinheiro agora,
imagina depois.
Tenho que me manter sozinho e mesmo que eu tenha
alguém com interesse nas minhas coisas eu não estarei
sozinho. Mesmo que me dê veneno pra morrer logo
entendeu? (risos).
E eu já sei quem é minha família, caso me aproxime
deles eu já conheço quem são. O que eu queria mesmo
era ter meus filhos perto de mim. Mas até agora não
consegui encontrar eles na internet.
Mas é isso que eu tenho pra falar e eu acho que “tô”
certo porque não tem condições da gente envelhecer
sem pensar daqui pra frente e com medo.