Mariana de Almeida Andrade - "Relação entre acidente vascular cerebral e habilidades sociais em adultos"
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1
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA - MESTRADO
MARIANA DE ALMEIDA ANDRADE
RELAÇÃO ENTRE ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL E HABILIDADES SOCIAIS
EM ADULTOS
Maceió
2018
2
MARIANA DE ALMEIDA ANDRADE
RELAÇÃO ENTRE ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL E HABILIDADES SOCIAIS
EM ADULTOS
Dissertação apresentada ao Programa de Pós
Graduação
em
PsicologiaMestrado
da
Universidade Federal de Alagoas, como requisito
parcial para obtenção do título de Mestre em
Psicologia.
Orientador: Prof. Dr. Lucas Cordeiro Freitas
Área de concentração: Processos Cognitivos e
Medidas Psicológicas
Maceió
2018
3
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Bibliotecária Responsável: Janis Christine Angelina Cavalcante – CRB: 1664
A553r
Andrade, Mariana de Almeida.
Relação entre acidente vascular cerebral e habilidades sociais em adultos
/ Mariana de Almeida Andrade. – Maceió, 2018.
87 f.
Orientador: Lucas Cordeiro Freitas.
Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Psicologia. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Maceió,
2018.
Bibliografia: f.74-76.
Apêndice: f. 77.
Anexos: f. 78-87.
1.
Habilidades sociais – Adultos. 2. Acidente vascular cerebral.
3. Competência social. 4. Processos cognitivos. 5. Medidas psicológicas I. Título
CDU: 159.922.2
4
FOLHA DE APROVAÇÃO
5
À voinha Zilda (em memória), que mesmo com tão pouca formação
técnica, foi inspiração na busca de conhecimento.
6
AGRADECIMENTOS
Minha imensa gratidão ao professor Doutor Lucas Cordeiro Freitas, pela confiança,
suporte, orientação e puxões de orelha nesses últimos dois anos, sem os quais eu não teria
amadurecido como estudante e profissional.
À minha mãe Mariane Almeida e minha vó Zilda Almeida (em memória), pelo
apoio e por me proporcionarem educação e os princípios que me tornaram a cidadã e
profissional que sou.
Ao meu irmão Eduardo Borba, que me cuidou como um pai a uma filha, em especial
nos anos iniciais de minha graduação. O que nos une vai muito além dos laços de sangue, é o
amor.
Ao meu tio Max Almeida, que muito tempo atrás me lembrou que eu tinha potencial
para chegar até aqui e ir além.
À Claudionor Andrade, meu companheiro de vida, meu amigo leal, aquele que
compra meus sonhos e minhas loucuras.
À minha filha de quatro patas Nina, pelas mordidinhas de amor que recebi durante
madrugadas sonolentas de estudo.
À família De Paula (Jailton, Marina, Mainah e Talita), que me acolheram quando
precisei e não cessam em me fazer bem.
Aos professores Doutor Lucas Guimarães Cardoso de Sá e Doutora Sheyla
Fernandes, por aceitar participar da banca de defesa, compartilhando suas ideias, sugestões e
pontos de vista.
Aos professores Doutor Paulo Angélico e Doutora Sheyla Fernandes, pelas valiosas
contribuições dadas no seminário avançado.
Ao professor Luís Costa, que se disponibilizou a coorientar meu estágio docência,
quando meu orientador precisou se ausentar.
Aos professores que contribuíram de forma ímpar para minha formação acadêmica,
professor Doutor Henrique Simões e professor Doutor Francis Justi.
À turma 2009.1, em especial Amanda Cota e Leilane Ferreira, pela amizade que
está para além dos muros da UFAL.
À Anielly Oliveira, amiga, cúmplice, ombro amigo com quem eu sei que posso contar
nos momentos de alegria e no partilhar de angustias.
7
Aos amigos que o mestrado me presenteou, em especial Carolina Correia, Camila
Carnaúba, Jessyca Brennand e Jorge Jr.
À Mirella Nobre, pela generosidade em se dispor a ajudar, mesmo com uma agenda
tão atribulada.
Ao amigo Emanuel Cordeiro, pela disponibilidade de me ajudar sempre que precisei.
Às instituições nas quais as coletas dos dados desse estudo foram realizadas.
À amiga Jousy Pimentel, que me abriu as portas da ADEFAL e meu mostrou
exemplo de profissionalismo e empatia.
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por
conceder os recursos que possibilitaram meus estudos.
A todos os leitores.
8
RESUMO
Estudos têm apontado um crescente número de indivíduos acometidos por lesões encefálicas,
existindo nesses quadros várias origens, sendo uma delas a interrupção do sistema vascular.
Dentre as lesões encefálicas adquiridas o Acidente Vascular Cerebral (AVC) é considerado
um problema de saúde pública que merece bastante atenção, por apresentar como
consequência, entre outros fatores, o comprometimento de habilidades sociais. O presente
estudo teve como objetivo investigar a relação entre AVC e déficits nas habilidades sociais
em adultos, na medida em que possibilitariam a construção de estratégias de treinamento para
promoção de uma melhor convivência entre indivíduos lesionados e familiares, auxiliando na
atenuação dos déficits associados a tais lesões e na busca de maior independência e qualidade
de vida. Foram entrevistados 100 indivíduos, com idades entre 18 e 59 anos, dos quais 50
estavam em tratamento nas instituições especializadas em reabilitação Associação Pestalozzi
de Maceió (7) e Associação dos deficientes físicos de Alagoas (ADEFAL) (43) que
compuseram o grupo 1 (com histórico de AVC) e 50 indivíduos eram estudantes da Educação
de Jovens e Adultos (EJA), período noturno da Escola Estadual Deputado Nenoí Pinto, que
compuseram o grupo 2 (sem histórico de AVC). Os instrumentos utilizados foram uma
anamnese, o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) e o Inventário de Habilidades Sociais
(IHS-Del-Prette). Os resultados mostraram que uma porcentagem elevada dos indivíduos com
histórico de AVC se posicionaram na classificação Bom repertório de Habilidades Sociais
(Abaixo da média), com um maior comprometimento na habilidade relacionada à abordagem
de pessoas desconhecidas. A comparação dos repertórios de habilidades sociais entre os
grupos, sugerem que os participantes com AVC demonstraram possuir repertórios de
habilidades sociais mais elaborados que os participantes sem AVC. Os resultados não
indicaram, de forma geral, indícios de repertórios deficitários de habilidades sociais como um
todo. Os resultados indicam também, que o estado cognitivo dos participantes não se
relacionou com o repertório de habilidades sociais desses. Esses resultados salientam a
importância de estudos que tenham por objetivo a elaboração de instrumentos específicos de
habilidades sociais de indivíduos que sofreram AVC.
Palavras-chave: Habilidades sociais. Acidente Vascular Cerebral. Competência Social.
9
ABSTRACT
Studies have pointed out an increasing number of individuals affected by brain lesions, having
in these frames several origins, one of them being the interruption of the vascular system.
Among acquired brain lesions Cerebral Vascular Accident (CVA) is considered a public
health problem that deserves a lot of attention, as it presents, among other factors, the
compromise of social skills. The present study aimed to investigate the relationship between
stroke and social skills deficits in adults, as it would allow the construction of training
strategies to promote a better coexistence between injured and family members, helping to
alleviate the deficits associated with such lesions and in the quest for greater independence
and quality of life. A total of 100 individuals, aged between 18 and 59 years, of whom 50
were being treated at the Associação Pestalozzi de Maceió (7) and the Associação dos
deficientes físicos de Alagoas (ADEFAL) (43) were included in group 1 (with a history of
stroke) and 50 individuals were students of the Youth and Adult Education (EJA), nocturnal
period of the Escola Estadual Deputado Nenoí Pinto, who composed group 2 (no history of
stroke). The instruments used were an anamnesis, the Mini Exame do Estado Mental (MEEM)
and the Inventário de Habilidades Sociais (IHS-Del-Prette). The results showed a high
percentage of individuals with a history of stroke who were classified as Good Repertoire of
Social Skills (Below average), with a greater impairment in the ability to approach unknown
people. The comparison of the social skills repertoires between the groups suggests that the
participants with stroke showed to have more elaborate repertoires of social skills than the
participants without stroke. The results did not indicate, in general, indications of deficit
repertoires of social skills as a whole. The results also indicate that the participants' cognitive
status was not related to their social skills repertoire. These results highlight the importance of
studies aimed at the elaboration of specific social skills instruments of individuals suffering
from stroke
Key Word: Social skills. Stroke. Social Competence.
10
LISTA DE FIGURAS
Figura 1- Número de artigos selecionados nas buscas realizadas nos bancos de dados ........ 29
11
LISTA DE QUADROS
Quadro 1- Portfólio de Habilidades Sociais .......................................................................... 24
12
LISTA DE TABELAS
Tabela 1- Características sociodemográficas e clínicas dos participantes ............................. 52
Tabela 2- Análise de equivalência entre grupos para as variáveis idade e escolaridade ....... 53
Tabela 3- Análise de equivalência entre grupos para a variável sexo .................................... 53
Tabela 4- Médias e desvios- Pedrão dos escores por itens do MEEM....................................54
Tabela 5- Médias e desvios- padrão dos escores dos itens do IHS-Del Prette e porcentagens
das alternativas de respostas ................................................................................................... 54
Tabela 6- Classificação do repertório de habilidades sociais dos participantes de ambos os
sexos, referente ao escore global do IHS-Del Prette ............................................................... 54
Tabela 7- Classificação do repertório de habilidades sociais dos participantes do sexo
feminino .................................................................................................................................. 55
Tabela 8- Classificação do repertório de habilidades sociais dos participantes do sexo
masculino ................................................................................................................................ 57
Tabela 9- Análise da variável histórico de AVC em relação aos postos médios do IHS-Del
Prette por subescalas ............................................................................................................... 58
Tabela 10- Análise da variável histórico de AVC em relação ao posto médio do IHS-Del
Prette ....................................................................................................................................... 58
Tabela 11- Análise dos escores no IHS-Del Prette por subescala entre os sexos .................. 59
Tabela 12- Análise dos escores entre os sexos por item no IHS-Del Prette .......................... 59
Tabela 13- Pontos de corte em relação ao escore global do MEEM ..................................... 60
13
LISTA DE SÍMBOLOS
α- Letra grega alfa
χ- Letra grega qui
ρ- Letra grega ro
14
SUMÁRIO
1
INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 17
2
BASE CONCEITUAL .............................................................................................. 19
2.1
Acidente Vascular Cerebral (AVC) ............................................................................ 19
2.2
Habilidades Sociais (HS) ............................................................................................ 21
3
REVISÃO SISTEMÁTICA DE LITERATURA ................................................... 28
3.1
Método ........................................................................................................................ 28
3.2
Resultados ................................................................................................................... 29
3.3
Considerações gerais sobre o conjunto de estudos ..................................................... 41
3.4
Questão problema ....................................................................................................... 41
4
ESTUDO EMPÍRICO .............................................................................................. 43
4.1
Objetivos ..................................................................................................................... 43
4.1.1 Objetivo geral .............................................................................................................. 43
4.1.2 Objetivos específicos .................................................................................................. 43
4.2
Método ........................................................................................................................ 44
4.2.1 Delineamento de pesquisa ........................................................................................... 44
4.2.2 Descrição do local do estudo ...................................................................................... 44
4.2.3 Participantes ................................................................................................................ 45
4.2.4 Instrumentos ................................................................................................................ 46
4.2.4.1 Inventário de Habilidades Sociais (IHS – Del Prette) ................................................. 46
4.2.4.2 Mini exame do estado mental (MEEM – Bertolucci) ................................................. 47
4.2.4.3 Anamnese .................................................................................................................... 48
4.2.5 Procedimento de coleta de dados ................................................................................ 48
4.2.6 Procedimento de análise de dados............................................................................... 48
4.2.7 Considerações éticas ................................................................................................... 50
5
RESULTADOS ......................................................................................................... 51
5.1
Normalidade da distribuição........................................................................................ 51
5.2
Descrição da amostra................................................................................................... 52
15
5.2.1 Características sociodemográficas e clínicas dos participantes................................... 52
5.3
Análise da equivalência entre os grupos...................................................................... 53
5.4
Análise dos escores globais no MEEM na amostra de participantes com AVC.......... 54
5.5
Características do repertório de habilidades sociais pelo IHS-Del Prette na amostra de
indivíduos com AVC............................................................................................................... 55
5.5.1 Análise dos escores por item....................................................................................... 55
5.5.2 Análise dos postos percentílicos do IHS-Del Prette pelos escores globais................. 57
5.6
Características do repertório de habilidades sociais pelo IHS-Del Prette na amostra de
indivíduos com AVC comparada à amostra de indivíduos sem AVC..................................... 58
5.7
Análise das diferenças entre o sexo e o repertório de habilidades sociais pelos escores
globais, fatoriais e por item do IHS-Del Prette na amostra de indivíduos com AVC............. 60
5.8
Análise das diferenças entre idade e o repertório de habilidades sociais pelos escores
globais no IHS-Del Prette....................................................................................................... 62
5.9
Análise dos escores globais do MEEM e a relação com os escores globais e fatoriais
do IHS-Del Prette.................................................................................................................... 62
6
DISCUSSÃO .............................................................................................................. 64
7
LIMITAÇÕES E PESQUISAS FUTURAS ............................................................ 71
8
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 73
REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 74
APÊNDICE ............................................................................................................................ 77
APÊNDICE A Anamnese........................................................................................................ 77
ANEXOS ................................................................................................................................ 78
ANEXO A – Inventário de Habilidades Sociais (IHS – Del Prette) ....................................... 78
ANEXO B – Mini Exame do Estado Mental (MEEM) .......................................................... 79
ANEXO C – TCLE Grupo 1 ................................................................................................... 80
ANEXO D – TCLE Grupo 2 ................................................................................................... 82
ANEXO E – Atestado do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA-UFAL) .............................. 84
16
ANEXO F – Autorização de Pesquisa 1 ................................................................................. 85
ANEXO G – Autorização de Pesquisa 2 ................................................................................ 86
ANEXO H – Autorização de Pesquisa 3 ................................................................................ 87
17
1
INTRODUÇÃO
Tem crescido significativamente o número de leitos, nas clínicas de emergências
médicas, ocupados por indivíduos que apresentam quadros de lesão encefálica (SOHLBERG;
MATEER, 2011; GOUVEIA et al, 2001; GAMBA; KIPLAN, 2011). Nesses quadros
consideram-se três dimensões, a saber: distribuição, gravidade e o tipo de patologia
causadora. A distribuição é considerada como focal, multifocal ou difusa, sendo a primeira
diretamente relacionada ao seu tamanho, localização e profundidade, a segunda semelhante a
primeira, exceto quando a lesão é bilateral, aumentando, assim, o grau de limitação e a
terceira quando uma ampla extensão da área do tecido cerebral é afetada (SOHLBERG;
MATEER, 2011). Quanto à gravidade, variam desde concussões leves, lesões que acarretam
inabilidades graves a óbito (FUENTES et al, 2014; HAMDAN; PEREIRA, 2012). Com
relação às patologias causadoras, são inúmeras desde distúrbios provenientes de forças
mecânicas externas a distúrbios infecciosos.
Existem muitas origens de dano cerebral. Na primeira, o dano pode ser resultado de
uma força mecânica, nos casos em que a cabeça bateu ou entrou em contato com alguma
superfície rígida, como um para-brisa, existindo, assim, uma translação de forças do ponto de
contato com a cabeça, na maioria dos casos ocorre simultaneamente à perda total ou parcial
da consciência e ocasionais fraturas cranianas; segundo, forças de aceleração-desaceleração
acontecem quando de repente a cabeça para, mas o cérebro continua na direção original do
movimento e, então, a cabeça ricocheteia na direção oposta; terceira, hipóxia cerebral, em
outras palavras, a lesão se dá pela falta de suprimento de oxigênio no cérebro, comum em
casos de paradas cardíacas; outra causa de lesão ocorre com a interrupção do sistema vascular,
quando as artérias cerebrais são obstruídas (casos de tromboses cerebrais).(SOHLBERG;
MATEER, 2011).
Dentre as lesões encefálicas adquiridas, o Acidente vascular cerebral (AVC) é
considerado, junto com suas sequelas, um problema de saúde pública que merece bastante
atenção. De acordo com a literatura consultada, o mais comum, nos casos de lesões por AVC
são o acometimento de pessoas em idade avançada, mas também podem acometer pessoas
jovens. De acordo com dados do ministério da saúde, o número de jovens com histórico de
lesões por AVC vem crescendo, talvez devido a precárias condições basilares de saúde, tais
como hipertensão arterial e colesterol alto, em muitos casos resultados de dietas pouco
18
balanceadas, tabagismo, consumo exagerado de bebidas alcoólicas, etc (FALCÃO;
CARVALHO, BARRETO; LESSA E LEITE, 2004).
A lesão cerebral é, atualmente, uma das principais causas de morte e deficiências e de
acordo com Finch et al (2015) uma das consequências desse tipo de lesão, é o
comprometimento do que ele denomina habilidades de comunicação social. Tais habilidades
são descritas por ele como verbais e não verbais, que permitem que os indivíduos se
expressem e compreendam os significados das ações de diferentes pares, em um diversificado
leque de ambientes (FINCH et al. 2015). Esses dados podem ser relevantes, tendo em vista o
impacto que danos cerebrais podem acarretar ao comportamento.
O objetivo geral do presente estudo foi verificar a relação entre acidente vascular
cerebral e déficits nas habilidades sociais em adultos. Os objetivos específicos do estudo
foram: (1) Caracterizar o estado cognitivo dos indivíduos acometidos por AVC, por meio do
Mini- Exame do Estado Mental (MEEM); (2) Identificar déficits e recursos em habilidades
sociais de indivíduos com histórico de AVC, em comparação com a amostra normativa do
instrumento IHS-Del Prette; (3) Identificar déficits e recursos em habilidades sociais de
indivíduos com histórico de AVC, em comparação a indivíduos sem histórico de AVC; (4)
Verificar a relação entre o sexo, a idade e o repertório de habilidades sociais de indivíduos
com histórico de AVC e (5) Verificar a relação entre o estado cognitivo e o repertório de
habilidades sociais em pessoas com AVC.
A presente dissertação é apresentada considerando a seguinte ordenação: A primeira
sessão traz as bases conceituais; a segunda sessão traz a revisão sistemática de literatura; a
terceira sessão traz os pormenores do estudo empírico (Objetivos, método, participantes,
instrumentos utilizados na coleta de dados, descrição da análise dos dados coletados); a quarta
sessão traz os resultados do estudo; a quinta sessão traz a discussão com base nos resultados
obtidos; a sexta sessão traz as limitações da pesquisa; a sétima sessão traz as considerações
finais e por fim são trazidos os elementos não textuais finais (Referências, apêndices e
anexos).
19
2
BASE CONCEITUAL
O objetivo da presente sessão é apresentar as bases conceituais do Acidente Vascular
Cerebral (AVC), trazendo dados epidemiológicos, classificação e causas do dano, assim como
as bases conceituais das Habilidades Sociais, termo aqui abordado como campo teórico
prático e também como conceito que mantem estreita relação com os conceitos de
Competência social e Desempenho social. Essa sessão traz também a descrição das 10 mais
importantes classes de habilidades sociais (DEL PRETTE E DEL PRETTE, 2017) e suas
respectivas subclasses.
2.1
Acidente Vascular Cerebral (AVC)
O AVC apresenta, dentre outras, sequelas neuropsicológicas residuais, ainda que as
sequelas físicas tenham sido superadas. O número de jovens adultos que sobrevivem após
AVC cresce a cada ano em todas as classes socioeconômicas, o que acarreta um custo
significativo à sociedade e à economia, por se tratar da principal causa de incapacidades
neurológicas e de importantes disfunções motoras e cognitivas, sendo a segunda maior causa
de morte no mundo, com aproximadamente 6 milhões de pessoas por ano, caracterizando,
assim, cerca de 10% de todos os óbitos mundiais (BOTELHO; MACHADO; ARAÚJO;
ASSIS, 2016). O Brasil registrou, no ano de 2013, 156,715 mil internações referentes aos
diversos tipos de AVC (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2014). Ainda que progressiva, esse tipo
de lesão implica risco de lesões secundárias posteriores, aumentando a complexidade do
tratamento terapêutico (FUENTES et al 2014).
O AVC, mais comumente chamado de “derrame”, refere-se a um problema
neurológico, temporário ou permanente, focal ou abrupto, decorrente de um processo
patológico dos vasos sanguíneos encefálicos. Este pode classificar-se como isquêmico (devido
a entupimento) ou hemorrágico (devido a rompimento) dos vasos, sendo o primeiro tipo o
mais frequente. O AVC, de forma geral, se relaciona com doenças vasculares anteriores,
como arteriosclerose, hipertensão arterial e diabetes, sendo a maior parte dos casos causada
por bloqueio de uma artéria cerebral, existindo três principais causas: 1) trombose cerebral ou
formação de uma obstrução em artéria cerebral; 2) embolia, ou quando a obstrução ocorre em
outra parte do corpo e posteriormente se instala em uma artéria cerebral e 3) hemorragia, ou
seja, a ruptura de vasos sanguíneos (FUENTES et al, 2014). Dessa forma, o grau de perda
funcional irá depender da área específica na qual ocorreu a lesão e qual a extensão do dano.
20
Como supracitado, o AVC pode ser classificado em dois tipos, a depender do
mecanismo que o originou: isquêmico ou hemorrágico. O AVC do tipo isquêmico diz respeito
a qualquer processo durante o qual um tecido não recebe os nutrientes indispensáveis ao
metabolismo das células, em outras palavras, quando o tecido cerebral é privado do
fornecimento de sangue arterial, a célula entra em sofrimento, o que poderá acarretar, a
depender da intensidade do mesmo, perturbações funcionais. Se essa privação do tecido durar
menos que 24 horas, seus afeitos podem ser reversíveis, caracterizando, assim, o que
convencionou classificar como Acidente Isquêmico Transitório (AIT); porém se essa privação
ultrapassar 24h, poderão instalar-se lesões definitivas e irreversíveis. O AVC do tipo
hemorrágico, é consequência de um fenômeno antagônico ao da isquemia: a extrapolação de
sangue para fora dos vasos. A hemorragia cerebral está relacionada essencialmente com a
hipertensão arterial, pois, o aumento crônico da pressão nas artérias, sobretudo se ignorado ou
mal tratado, conduz à uma fragilização das paredes das artérias, o que pode resultar em
ruptura e consequente hemorragia (GOMES CANCELA, 2008).
De acordo com Gomes Cancela (2008), existem vários problemas e alterações
provocadas por AVC: alterações das funções motoras (tais como o tônus postural, hemiplegia
-paralização de um lado do corpo); alterações da função sensorial (tais como distúrbios
visuais, diminuição da sensibilidade tátil); alterações da função perceptiva (tais como posição
no espaço, percepção de profundidade); alterações da comunicação (tais como afasias) e por
fim alterações no comportamento, interesse do presente estudo (GOMES CANCELA, 2008).
O AVC pode afetar diversas regiões cerebrais, muitas das quais estão ligadas à
competência social, tais como estruturas do mesencéfalo, córtex frontal, temporal e parietal
entre outras. O dano em qualquer dessas regiões pode resultar em uma variedade de déficits
sociais (ANDERSON et al, 2014). Para Mosh, Max e Tranel (2005), indivíduos expostos a
danos neurológicos frequentemente apresentam déficits em alguns domínios das habilidades
sociais, tais como comprometimento no funcionamento interpessoal, definido pelos autores
como uma alteração na capacidade do indivíduo de manter relações sociais normais com seus
pares, como amigos e familiares.
21
2.2
Habilidades Sociais (HS)
A comunicação social eficaz requer uma complexa interação entre habilidades
cognitivas, auto -monitoração dos conteúdos verbais e familiaridade com as fronteiras e
convenções sociais. Indivíduos expostos a condições neurológicas e psiquiátricas
frequentemente experimentam dificuldades de relacionamento, diminuição dos contatos
sociais e redução de atividades de recreação e lazer (DRISCOLL; DAL MONTE;
GRAFMAN, 2011; FINCH et al, 2015). De acordo com Driscoll, Dal Monte e Grafman
(2011) déficits no desempenho social podem incluir interrupções na aquisição ou aplicação de
habilidades sociais básicas ou complexas.
Os conceitos habilidades sociais e competência social são frequentemente empregados
como sinônimos, mas a literatura traz definições distintas, umas enfatizando a questão da
funcionalidade do comportamento, outras enfatizando os seus conteúdos verbal e não verbal.
De acordo com Del Prette e Del Prette (2017) o termo Habilidades Sociais (HS) faz referência
a um campo teórico-prático que, em sua gênese enfatizou a produção de conhecimentos sob as
abordagens cognitiva, comportamental e sociocognitiva, com importantes contribuições
conceituais, empíricas e práticas. Atualmente, os programas de Treinamento de Habilidades
Sociais (THS) são aplicados a diversos campos da Psicologia. Para que se possa entender o
campo é necessário ter domínio de alguns conceitos, a saber: competência social, habilidades
sociais e desempenho social.
Para Murta (2005) HS dizem respeito a comportamentos necessários a uma relação
interpessoal bem-sucedida, conforme parâmetros típicos de cada contexto e cultura. Para Del
Prette (2005; 2017) as HS referem-se a um construto descritivo dos comportamentos sociais
valorizados em determinada cultura, com alta probabilidade de resultados favoráveis para o
indivíduo, seus pares e comunidade, que podem contribuir para um desempenho socialmente
competente, considerando os parâmetros da comunidade em que estiver inserido, favorecendo
um relacionamento saudável e produtivo com as demais pessoas.
A competência social é um termo avaliativo, que reflete o julgamento de alguém,
tendo como base critérios pré-definidos. A competência social relaciona-se com déficits de
comportamento, entendido não apenas como ausência de um comportamento específico, mas
também quando um comportamento emitido não atinge certos critérios estabelecidos para sua
competência. Dito de outra forma, a “competência social é entendida como comportamento
que produz o melhor efeito no sentido de equilibrar reforçadores e assegurar direitos humanos
22
básicos, com ênfase na maximização de trocas positivas entre os interlocutores” (DEL
PRETTE; DEL PRETTE, 1999). A competência social é considerada um indicador bastante
preciso de ajustamento psicossocial e de perspectivas positivas para o desenvolvimento,
enquanto que um repertório social pobre pode constituir um sintoma ou correlato de
problemas psicológicos (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2005).
Em suma, a competência social refere-se à capacidade do indivíduo de organizar
pensamentos, sentimentos e ações em função de seus objetivos e valores, articulando-os às
demandas imediatas e mediatas do ambiente (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2005). É
importante salientar o caráter relativista da competência social, pois o julgamento sobre a
competência ou incompetência será sempre determinado com base em um conjunto de normas
ou expectativas relacionadas às características pessoais dos interlocutores e às características
da situação e cultura local (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 1999).
Existem três estilos de desempenhos sociais, que são definidos didaticamente em
termos de reações, a saber: as reações não-habilidosas passivas, que compreendem
comportamentos apresentados pelo indivíduo para lidar com as demandas interativas do
ambiente, que comprometem sua competência, tais como incômodo, mágoa, ressentimento;
Reações habilidosas, que contribuem para a competência social, por sua coerência entre
componentes abertos e encobertos, adequação às demandas e consequências obtidas; e por fim
Reações não habilidosas ativas, que se expressam predominantemente na forma aberta de
agressividade física ou verbal, negativismo, ironia, autoritarismo e coerção (DEL PRETTE;
DEL PRETTE, 2005).
Del Prette e Del Prette (2001) abordam de forma resumida as diferenças entre os
conceitos aqui abordados:
O desempenho social refere-se à emissão de um comportamento ou sequência de
comportamento em uma situação qualquer. Já o termo Habilidades Sociais aplica-se
à noção de existência de diferentes classes de comportamentos sociais no repertório
do indivíduo para lidar com as demandas das situações interpessoais. A competência
social tem sentido avaliativo que remete aos efeitos do desempenho das habilidades
nas situações vividas pelo indivíduo (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2001, P. 31)
O estudo das HS deve considerar três importantes dimensões, são elas: a) Dimensão
pessoal (comportamentos da pessoa, seus pensamentos, sentimentos, aparato fisiológico e
características demográficas). A essa dimensão estão associados os termos ‘molar’ e
‘molecular’, que dizem respeito respectivamente à análise de habilidades globais, tais como
expressão de sentimentos; e habilidades componentes, tais como contato visual, volume de
23
voz e entonação. De forma teórica qualquer comportamento pode ser avaliado em sua
molaridade ou molecularidade, pois o que é molar em determinado recorte, pode ser
molecular em outro, tornando, assim, obrigatória a relativização dos referidos termos; b)
Dimensão situacional (incluem os contextos físicos onde as pessoas vivem, os papéis sociais e
os padrões comportamentais que são valorizados e constrangidos) e c) Dimensão cultural
(normas e valores compartilhados por uma sociedade que define, delimita, valoriza e reprova
comportamentos dependendo do contexto em que são apresentados e dos interlocutores
presentes nas relações) (CASALI-ROBALINHO; DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2015).
As habilidades interpessoais possuem um caráter situacional-cultural, pois grande
parte das normas que regulam a forma como as pessoas se comportam em sociedade é
estabelecida pelo grupo social a que pertencem, em termos de gênero, papéis sociais ou
ocupacionais, filiação institucional (religião, seita, entidade filosófica ou política), contexto
geográfico etc. (BANDEIRA; ROCHA; FREITAS; DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2006).
Embora já se tenha uma quantidade razoável de informações sobre as funções isoladas
dos componentes das Habilidades Sociais (HS), a compreensão de suas combinações na
produção de um comportamento social competente requer, ainda, investimento em pesquisa.
Porém, existe um consenso, relativo, sobre alguns dos principais componentes das HS (DEL
PRETTE; DEL PRETTE, 1999).
A organização dessas classes e subclasses pode ser denominada de Portfólio de
Habilidades Sociais, que consistem em uma listagem de classes e subclasses de HS relevantes
e pertinentes às tarefas e papéis sociais, assim como, à etapa de desenvolvimento do
indivíduo, que incluem também os componentes não verbais e paralinguísticos (DEL
PRETTE; DEL PRETTE, 2017).
De acordo com Del Prette e Del Prette (1999), no âmbito da Psicologia, as
investigações têm privilegiado a dimensão pessoal, principalmente a comportamental, embora
a própria definição de comportamento implique relação com o contexto situacional em que
ocorre.
No Quadro 1, estão contidas as principais classes de Habilidades sociais, que podem
ser requeridas pelo indivíduo em todas as etapas de desenvolvimento e papéis sociais, que
porventura venha a ser assumidos no decorrer de cada uma delas. De acordo com Del Prette e
Del Prette (2017) essas classes são reconhecidas como extremamente relevantes ao longo do
ciclo vital.
24
Quadro 1- Portfólio de Habilidades Sociais
Classes de Habilidades Sociais
Subclasses de Habilidades Sociais
1 Comunicação
Iniciar e manter conversação, fazer e responder
perguntas, pedir e dar feedback, elogiar e agradecer
elogio, dar opinião, a comunicação irá ocorrer tanto
de forma direta (face a face) como de forma indireta
(através
do
uso
de
meios
eletrônicos);
na
comunicação direta, a verbal está sempre associada à
não
verbal,
que pode complementar,
ilustrar,
substituir e às vezes contrariar a verbal.
2 Civilidade
Cumprimentar e/ou responder a cumprimentos (ao
entrar e ao sair de um ambiente), pedir “por favor”,
agradecer (dizer “obrigado/a”), desculpar-se e outras
formas de polidez normativas na cultura.
3 Fazer e manter amizade
Iniciar conversação, apresentar informações livres,
ouvir/fazer
manter
confidências,
contato,
sem
demonstrar
gentileza,
invasivo,
expressar
ser
sentimentos, elogiar, dar feedback, responder a
contato, enviar mensagem (e-mail, bilhete), convidar
/aceitar convite para passeio, fazer contatos em datas
festivas
(aniversário,
Natal,
etc.),
manifestar
solidariedade diante de problemas.
4 Empatia
Manter contato visual, aproximar-se do outro, escutar
(evitando interromper), tomar perspectiva (colocar-se
no lugar do outro), expressar compreensão, incentivar
a confidência (quando for o caso), demonstrar
disposição para ajudar (se for o caso), compartilhar
alegria e realização do outro (nascimento do filho,
aprovação no vestibular, obtenção de emprego, etc.)
5 Assertivas
Defender direitos próprios e de outrem, questionar,
opinar, discordar, solicitar explicações sobre o porquê
de certos comportamentos, fazer e recusar pedidos,
expressar raiva, desagrado e pedir mudança de
comportamento,
desculpar-se
e
admitir
falhas,
25
manejar críticas (aceitar críticas, fazer críticas, rejeitar
críticas), falar com pessoas que exercem papel de
autoridade.
6 Expressar solidariedade
Identificar necessidades de outro, oferecer ajuda,
expressar apoio, engajar-se em atividades sociais
construtivas, compartilhar alimentos ou objetos com
pessoas deles
necessitadas, cooperar, expressar
compaixão, participar de reuniões e campanhas de
solidariedade,
fazer
visitas
a
pessoas
com
necessidades, consolar, motivar colegas a fazer
doações.
7 Manejar conflitos e resolver problemas Aclamar-se exercitando autocontrole diante de
interpessoais
indicadores emocionais de um problema, reconhecer,
nomear
e
definir
o
problema,
identificar
comportamentos de si e de outrem associados à
manutenção ou solução de problemas (como avaliam,
o que fazem, qual a motivação para a mudança),
elaborar alternativas de comportamentos, propor
alternativas de solução, escolher, implementar e
avaliar ada alternativa ou combinar alternativas
quando for o caso.
8 Expressar afeto e intimidade (namoro, Aproximar-se e demonstrar afetividade ao outro por
sexo)
meio de contato visual, sorriso, toque, fazer e
responder perguntas pessoais, dar informações livres,
compartilhar acontecimentos de interesse do outro,
cultivar o bom humor, partilhar de brincadeiras,
manifestar gentileza, fazer convites, demonstrar
interesse pelo bem estar do outro, lidar com relações
intimas
e sexuais,
estabelecer
limites
quando
necessário.
9 Coordenar grupo
Organizar a atividade, distribuir tarefas, incentivar a
participação de todos, controlar o tempo e o foco na
tarefa, dar feedback a todos, fazer perguntas, mediar
interações, expor metas, elogiar, parafrasear, resumir,
distribuir tarefas, cobrar desempenhos e tarefas,
26
explicar e pedir explicações, verificar compreensão
sobre problemas.
10 Falar em público
Cumprimentar, distribuir o olhar pela plateia, usar
tom de voz audível, modulado conforme o assunto,
fazer/responder perguntas, apontar conteúdo de
materiais
audiovisuais
(ler
apenas
o
mínimo
necessário), usar humor (se for o caso), relatar
experiências pessoais (se for o caso), relatar
acontecimentos, agradecer a atenção ao finalizar.
Fonte: Elaborado pela autora com dados extraídos de Del Prette; Del Prette (2017, p.28-30)
A comunicação humana não se restringe unicamente às trocas de mensagens verbais,
sendo esse tipo de comunicação linguística somente a parte mais visível dos processos de
relações interpessoais. De acordo com Del Prette e Del Prette (1999), a comunicação não
verbal ocorre quando são utilizados recursos do próprio corpo, excluindo-se a vocalização. As
HS descritas no Quadro 1 são compostas por elementos verbais, que são impactados pela
forma como são verbalizados, assim, uma análise minuciosa dos déficits e recursos em HS
deve contemplar também componentes não verbais e paraliguisticos, que caracterizam a
topografia dos desempenhos sociais.
A subclasse dos componentes não verbais é constituída pelos componentes: 1) olhar e
contato visual; 2) sorriso; 3) gestualidade; 4) expressão facial; 5) postura corporal; 6)
movimentos com a cabeça; 7) contato físico e 8) distância/proximidade; já a subclasse de
componentes paraliguísticos é constituída por: 1) latência, que faz referência ao intervalo de
tempo entre a fala de uma pessoa e a resposta da outra; 2) duração, referente ao tempo em que
uma pessoa permanece falando sem interrupção; 3) volume, referente à altura da voz, 4)
velocidade,
referente à quantidade de palavras em relação ao tempo de fala; 5) ritmo,
referente à alternância de pausas e entonações da fala; 6) tonalidade, que faz referência à
qualidade do som da fala (aguda, grave, suave) e 7) fluência, que faz referência à qualidade da
dicção e modulação da fala. Essas funções da comunicação não verbal são agrupadas em
cinco tipos, a saber: substituição da linguagem, regulação da comunicação, apoio à
comunicação verbal, complementação da linguagem e contradição da linguagem (DEL
PRETTE; DEL PRETTE, 1999).
A classe dos componentes cognitivo-afetivos postula que, o comportamento social é
afetado pelos sentimentos e cognições que o indivíduo elabora: sobre seu interlocutor (classe
27
social, competência, atratividade etc.), sobre a situação social (estressante/tranquila, etc.) e
sobre seus próprios comportamentos e consequências dos mesmos na situação. Os principais
componentes cognitivos das HS são: conhecimentos prévios (sobre a cultura e o ambiente),
expectativas e crenças (planos, metas valores etc.), e estratégias e habilidades de
processamento (decodificação, resolução de problemas, empatia etc.). Para Morrison e
Bellack citados por Del Prette e Del Prette, (1999, p. 86), o indivíduo não pode apresentar um
desempenho eficaz se não recebe e processa adequadamente os estímulos interpessoais
relevantes. Nesse sentido, o indivíduo deve ser capaz de fazer uma leitura do ambiente social,
isso implica no reconhecimento e na decodificação dos sinais presentes na situação social,
particularmente aqueles associados às mensagens verbais e não verbais dos interlocutores;
deve estar capacitado para a resolução de problemas, que é definida como um processo
integrado, comportamento-cognição-afeto, através do qual o indivíduo procurar identificar,
descobrir e criar meios adaptativos e efetivos para enfrentar os problemas que encontra em
sua vida diária; deve ser capaz de executar a auto-observação, que refere-se a capacidade de
descrever a si mesmo em termos de pensamentos, sentimentos e ações; capacidade de
autoinstrução, que consiste de prescrições ou comentários feitos pelo indivíduo a si mesmo,
que orientam, mantêm, intensificam ou interrompem seu comportamento e empatia, que é
concebida como a capacidade de perceber o sentimento da outra pessoa e expressar a
compreensão desse sentimento (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 1999).
De acordo com Del Prette e Del Prette (1999) a classe dos componentes “respostas
fisiológicas”, diz respeito a um conjunto de variáveis organísmicas que afetam ou são afetadas
pelas situações interpessoais significativas ou estressantes. Os principais componentes
fisiológicos ativados nessas situações são: taxa cardíaca, respostas eletromiográficas
(tensão/relaxamento muscular), respiração, resposta galvânica da pele (sudorese) e fluxo
sanguíneo. Esses componentes de forma geral estão associados a uma série de emoções
negativas, tais como: ansiedade, medo e fobia social.
28
3
REVISÃO SISTEMÁTICA DE LITERATURA
A presente sessão apresentará os pormenores da revisão sistemática de literatura aqui
realizada. Serão descritas a forma como as buscas foram realizadas nas bases de dados. Serão
descritos como e quais foram os critérios de inclusão/exclusão utilizados, assim como, os
resultados obtidos através das leituras dos artigos recuperados – os resultados descrevem a
autoria dos estudos, seus objetivos gerais, participantes, instrumentos utilizados na coleta de
dados e os principais resultados obtidos. E por fim são tecidas considerações sobre os
resultados encontrados na revisão da literatura recuperada.
3.1
Método
Uma revisão sistemática tem como finalidade reunir evidências científicas de qualidade
sobre um assunto pré-determinado para responder a uma questão específica de pesquisa.
Utiliza métodos sistemáticos explícitos com o intuito de minimizar o risco de viés,
aumentando assim a confiabilidade e precisão dos resultados para uma melhor tomada de
decisão em saúde (RIERA; TORLONI, 2010).
Foram realizadas buscas nas bases de dados eletrônicos BVS, Eric, PsycInfo, PubMed,
Scielo e Science Direct. Foram pesquisados os descritores social skills, interpersonal
relationships, social competence, interpersonal communications, todos relacionados ao
descritor stroke, nas seis bases de dados citadas. Não foram encontrados registros, com o
cruzamento dos descritores supracitados, nas plataformas de busca Eric, PsycInfo e Scielo.
Foram incluídos nessa revisão apenas os artigos que se enquadraram em critérios pré
definidos, que foram: 1) manter relação com a temática em questão, contendo pelo menos um
dos componentes das habilidades sociais associados a lesões provenientes de AVC; 2)
tratarem-se de relatos de pesquisas empíricas e 3) terem sido publicados nos últimos quinze
anos. Foram excluídos desta revisão artigos não empíricos.
Foi realizada a leitura dos resumos do material recuperado nas buscas em bases de
dados eletrônicos realizadas no de maio de 2017, a fim de verificar quais estudos eram
pertinentes aos objetivos deste trabalho. Nos casos em que houve dúvida em relação à
inclusão ou não do artigo, foi realizada a leitura completa do artigo.
29
A Figura 1 descreve as estratégias utilizadas para a busca nas bases de dados referidas,
bem como o número de artigos encontrados e selecionados de acordo com os critérios prédefinidos para esta revisão sistemática. Ao todo, foram incluídos e analisados 14 artigos.
Base de dados: BVS, Eric, PsycInfo, PubMed, Scielo e Science Direct.
Descritores: social skills and stroke; interpersonal relationships and
stroke; social competence and stroke e interpersonal communications and
stroke.
Aplicação dos critérios de
inclusão e exclusão
Resultados das buscas:
49 artigos
Selecionados e
incluídos:
14 artigos
Figura 1- Número de artigos selecionados nas buscas realizadas nos bancos de dados.
Após a seleção dos artigos e aplicação dos critérios de inclusão/exclusão, foi realizada
a leitura dos mesmos. Os artigos selecionados para essa revisão são todos em língua inglesa e
nenhum artigo foi encontrado no português brasileiro, sugerindo assim, a escassez de estudos
que abordem esse relação no país. Atendendo aos critérios de inclusão, todos os artigos são
relatos de pesquisa empíricas, publicadas nos últimos 15 anos e descrevem a relação entre
AVC e pelo menos um componente das HS.
3.2
Resultados
Mosh et al (2005) investigaram resultados neuropsicológicos e de funcionamento
social em uma amostra de 29 pares de crianças e adultos, com idades médias de 6 anos, nas
crianças e 56 anos nos adultos, comparando-os em relação aos danos, considerando os fatores
localização e extensão da lesão decorrente de AVC. A amostra foi selecionada através de
exames de imagem que constavam de seus prontuários, decorrentes de suas respectivas
internações por episódio de AVC no Hospital das Clínicas da Universidade de Iowa;
posteriormente foram avaliados através de uma bateria de testes neuropsicológicos, dentre os
30
quais o Wechsler Adult Intelligence Scale, 3ed. (WAIS-III), Wechsler Intelligence Scale for
Children, 3ed. (WISCIII), Wide Range Achievement Test – Revised (WRAT-R) fizeram
parte. O funcionamento social foi avaliado simultaneamente a avaliação neuropsicológica por
meio da Classificação clínica baseada em escalas, nos participantes adultos, com a finalidade
de avaliar a conduta social no que tange relações interpessoais gerais de cada participante,
assim como a classificação da família (o autor não se aprofunda) e do status de emprego. A
avaliação nas crianças necessitou de uma adaptação quanto ao status de emprego, que foi
tratado como status educacional.
Os principais resultados mostraram que o desempenho
social no adulto após histórico de AVC apresentou alterações de moderadas a graves em todos
os domínios das relações interpessoais, assim, como resultados inferiores no funcionamento
social como um todo (status de emprego, status interpessoal, que diz respeito a capacidade de
manter relacionamentos interpessoais saudáveis). Os autores sugerem que, esses resultados
em adultos se relacionem, em parte, a déficits em alguns domínios das habilidades sociais.
Teasdale e Engberg (2005) observaram que a maior parte dos estudos que se debruçam
sobre os efeitos do AVC sobre seus sobreviventes eram limitados no sentido de que,
normalmente, eram estudos bastante seletivos, priorizando amostras pertencentes a uma única
instituição e se concentram em acompanhamentos de curto prazo, considerando até um ano
após o insulto cerebral. Visando dar conta dessas lacunas investigativas, os autores
propuseram um estudo de investigação das consequências psicossociais do AVC, com um
acompanhamento de longo prazo (5, 10 e 15 anos após o AVC). Participaram desse estudo
uma amostra de 346 indivíduos, selecionados através do Registro Nacional do Hospital
Dinamarquês (Plataforma digital onde se encontram os registros de todas as internações na
Dinamarca desde 1979, incluindo data de admissão, códigos hospitalares e de departamento,
assim como diagnósticos e datas de alta). Após uma triagem por data de internação,
localização geográfica (residência fixada em um dos cinco condados dinamarqueses), idade
que possuíam no momento do insulto (o estudo só contou com indivíduos que possuía dezoito
anos ou mais na data do insulto), dados clínicos confirmados nos hospitais em que foram
internados, terem seu atual endereço confirmado, se chegou ao número de indivíduos
supracitado.
Os instrumentos utilizados na etapa de apresentação foram dois questionários,
enviados juntamente com uma carta de apresentação referente ao AVC anterior sofrido pelo
indivíduo e explicitando o propósito do estudo. O primeiro questionário envolveu questões
psicossociais, tais como o efeito do AVC no emprego, relações familiares, outras relações
31
sociais e atividades de lazer; o segundo questionário foi o Nottingham Health Profile (NHP),
que compreende declarações relativas a problemas atuais do dia a dia. Os principais
resultados indicam que os níveis de dificuldades cognitivas e emocionais após o AVC
parecem ser elevados e crônicos. Sobre os status de emprego, o estudo encontrou que apenas
uma pequena parcela dos indivíduos que, antes do AVC, trabalhavam, conseguiram retomar o
emprego. Sendo a proporção menor para os indivíduos que sofreram o AVC a cinco anos e
maior para os que sofreram a dez e quinze anos (TEASDALE E ENGBERG, 2005).
Os autores argumentam que as relações sociais e o apoio social são identificados como
fatores importantes para a qualidade de vida após o AVC. Nesse amostra a maioria dos
indivíduos considerou suas relações sociais razoavelmente alteradas. Os autores tomam as
relações sociais como a habilidade de manejar as relações com familiares, amigos e
companheiros de trabalho de forma suficiente (TEASDALE E ENGBERG, 2005). Os
resultados sugerem, então, que após o AVC os indivíduos apresentaram maiores dificuldades
em manejar de forma satisfatória suas relações interpessoais.
Kwok et al (2006) investigaram determinantes da qualidade de vida relacionada à
saúde (QVRS) durante o primeiro ano após o AVC. Esse estudo contou com a participação de
303 indivíduos do serviço de reabilitação hospital universitário Price of Wales Hospital em
Hong Kong. Foi usado como critério de inclusão o tempo decorrido do AVC, que foi até 7
dias e como critérios de exclusão indivíduos que apresentassem condições pré mórbidas
moderadas ou severas, residentes em lugares distantes do hospital, que pudessem inviabilizar
visitas domiciliares e se estivessem em estágio terminal de câncer ou possuíssem insuficiência
renal.
Os instrumentos utilizados foram, inicialmente a análise de prontuários, fornecendo
informações sobre resultados no Índice Barthel, com resultados sobre a gravidade do AVC
sofrido, o Lawton instrumental activities of daily living (IADL), relacionado a resultados da
qualidade de atividades da vida cotidiana, o Geriatric Depression Scale (GDS), com
resultados sobre os sintomas depressivos, o Chinese Mini-Mental State Examination (MMSE),
com resultados cognitivos em uma versão chinesa e por fim o World health Organization
Quality of Life (Versão Hong Kong). Os principais resultados apontam que durante o primeiro
anos de AVC a QVRS auto relatada deteriorou-se significativamente em termos de interações
sociais. Os autores previam que os resultados da QVRS melhorariam com o tempo, como o
reajuste psicológico, físico e social de forma geral aconteciam, mas não foi o que os
resultados mostraram. A análise feita revelou que a interação social e questões ambientais (a
32
dimensão de questões ambientais, são consideradas pelos autores como utilizar transportes, ter
acesso à informação, ter acesso a serviços de saúde, atividades de lazer, suficiência financeira
e segurança no lar.), componentes da QVRS, foram significativamente inferiores aos 12
meses que aos 3 meses que seguiram o AVC. O declínio na “interação social”, um dos
domínios da QVRS, sugere que os indivíduos que sofreram AVC tiveram uma relação pessoal
piorada (os autores não especificam como se deu essa piora de forma prática, mas o contexto
sugere que se refira à uma piora em parâmetros de uma relação interpessoal bem sucedida)
com familiares e/ou amigos. Os autores apontam que os resultados também sugerem que a
depressão tem papel determinante na QVRS, pois os efeitos negativos da depressão pós AVC
está associada a uma recuperação funcional deteriorada. Os dados relacionados aos efeitos
negativos do AVC após um ano, leva a conclusão, de acordo com os autores, de que todos os
indivíduos acometidos por AVC devem ser acompanhados por profissionais da saúde por pelo
menos um ano (KWOK et al, 2006).
Schmid et al (2012) investigaram as relações entre características demográficas,
clínicas e psicológicas e o funcionamento social 4 meses após o AVC e avaliaram se a
melhora nos sintomas depressivos esteve associada ao funcionamento social nesse período.
Participaram desse estudo 371 indivíduos, que haviam participado de um estudo anterior
denominado Activate-Initiate Monitor (estudo que incluiu um ensaio d intervenção cínico
randomizado dentro de um estudo de corte com sobreviventes de AVC com e sem depressão.
Foram utilizados dados demográficos e clínicos de base, que incluíram histórico de depressão,
cognição e comorbidades médicas globais. A depressão foi avaliada através do Patient Health
Questionaire-9 (PHQ-9); a gravidade do dano causado pelo AVC foi avaliado pelo National
Institute of Health Stroke Scale (NIHSS) e o domínio da função social foi medido através do
Stroke- Specific Quality of Life (SSQoL).
Os principais resultados apontam que as variáveis relacionadas à depressão foram os
únicos fatores associados ao funcionamento social em todo o corte com depressão. De acordo
com os autores, nem o estado funcional nem a gravidade do dano foram associados de forma
independente com o funcionamento social em nenhum dos cortes (com e sem depressão). Os
autores sugerem que esse resultado indica que não é a gravidade da depressão pós AVC, mas
sim a melhoria dessa que mais influencia o funcionamento social durante a recuperação.
Schmid et al (2012) citam que seus resultados convergem com os resultados encontrados por
outros autores que, associaram a depressão a preditores negativos de participação social de
dois a quatro anos após o AVC (SCHMID et al, 2012).
33
Anderson et al (2014) investigaram a competência social de crianças com AVC e de
crianças com doença crônica, comparando-as a controles saudáveis. Fizeram parte das
amostras 36 crianças com histórico de AVC, quinze com asma crônica e 43 controles
saudáveis, totalizando assim, 94 crianças, entre 6 e 15 anos de idade. Foram aplicados
questionários com os pais e as crianças, e essas foram submetidas a uma varredura (exame de
imagem) e uma avaliação neurológica. Os autores observaram que pouca importância tem
sido dada ao impacto do AVC na competência social de crianças e os estudos que se
debruçam sobre a temática examinam a competência social após AVC de forma global,
relatando má socialização e dando ênfase às dificuldades de implementação das habilidades
sociais em situações de vida, sendo poucos os estudos que examinam os domínios sociais
específicos após AVC pediátrico. As crianças com histórico de AVC apresentaram níveis
mais baixos de participação social em comparação com controles saudáveis, assim como as
crianças com doença crônica apresentaram menor ajuste social, porém, os resultados sugerem
que a competência social insuficiente não é simplesmente resultado da lesão cerebral ou da
doença crônica, mas também das experiências vivenciadas por essas crianças após o insulto
cerebral, como a resposta à hospitalização, a necessidade de cuidados médicos constantes
entre outros.
Foram identificadas diferenças entre os resultados das medidas com os pais e as
medidas de autorrelato, sendo essa discrepância do informante sugerida, pelos autores, como
falta de autoconsciência, efeito do insulto cerebral sofrido. Mesmo diante disso, os autores
consideram as percepções das crianças como particularmente valiosas. Sobre isso, os autores
acreditam que medidas mais objetivas de competência social devam ser incorporadas afim de
se investigar essas discrepâncias. De forma geral o estudo conclui que crianças com histórico
de AVC apresentaram maior comprometimento no ajuste social e na participação social se
comparadas a controles saudáveis, diferentemente dos resultados da comparação entre
crianças com asma crônica, que mostraram resultados bem mais sutis quando comparadas a
controles saudáveis. A extensão da lesão foi um preditor dos resultados sociais, pois crianças
com lesões menos extensas apresentaram menos desajuste do ponto de vista social. E por fim,
as relações familiares, fator proximal, contribuíram significativamente para a competência
social (ANDERSON et al, 2014).
D’ Aniello et al (2014) investigaram o perfil psicológico observado mais de uma no
após o AVC em sobreviventes de AVC crônico. Participaram desse estudo 81 indivíduos com
o primeiro ou segundo diagnóstico de AVC, originários da unidade de Psicologia clínica do
34
Istituto Auxologico Italiano. Foram utilizados como instrumentos de medida o Mini mental
state examination (MMSE) e o Clock drawing teste, para traçar o perfil cognitivo; a Frontal
Assessment Battery, para avaliar as funções executivas; o Raven’s colored progressive
matrices, para avaliar a habilidade de raciocínio não verbal e abstrato; a versão italiana do
Hospital Anxiety and Depression Scale (HAD Scale) foi utilizado para a avaliação psicológica
da ansiedade e depressão; o Short-Form Healthy Survey (SF-36) foi utilizado para avaliar os
domínios sociais e físicos auto percebidos e o Psychological General Well-Being Index
(PGWBI) avaliou estados de humor (ansiedade, depressão, bem estar positivo, autocontrole,
saúde geral e vitalidade).
Os principais resultados mostraram que, em indivíduos que sofreram AVC,
apresentam maiores níveis de ansiedade, se comparadas aos sintomas depressivos. De acordo
com os autores a depressão e a ansiedade podem ocorrer independentemente uma da outra. No
caso da ansiedade, pode aumentar ao logo do tempo, em face das consequências negativas do
insulto, já os sintomas depressivos, são comumente mais encontrados no estágio agudo do
dano cerebral (D’ANIELLO et al, 2014).
Everts et al (2014) investigaram o funcionamento cognitivo, o resultado motor,
resultados comportamentais e a qualidade de vida de crianças que sofreram infarto cerebral e
quais as variáveis que influenciaram na reabilitação. Compuseram a amostra 21 crianças que
apresentaram episódios de AVC entre o nascimento e o décimo oitavo ano de vida. Os
participantes foram submetidos a avaliações cognitivas; a inteligência geral foi avaliada
utilizando o Wechsler Intelligence Scale For Children (WISC-III) ou Wechsler Adult
Intelligence Scale (WAIS); a memória episódica verbal foi avaliada utilizando a versão alemã
do California Verbal Learning Test (CVLT); as memórias visuais de curto e longo prazo
foram avaliadas utilizando o Rey -Osterrieth Figure (REY- Figure); as funções executivas, a
linguagem e a percepção visual foram avaliados utilizando os subtestes do WISC-III. O
estado de alerta (prontidão) e a atenção dividida foram avaliados utilizando a bateria de testes
padronizada, com estímulos visuais e auditivos, Test of Attentional Performance (TAP), e por
fim as funções motoras foram avaliadas utilizando a Largo’s motor scales.
Os principais resultados não apontam a ocorrência de deficiências sociais em crianças,
divergindo dos resultados encontrados em estudos com adultos (MOSH; MAX; TRANEL,
2005), onde essas se apresentam associadas à lateralização da lesão. Apesar de não ter sido
encontrada associação entre localização da lesão e evolução cognitiva em pacientes
pediátricos, os autores afirmam que existe consenso de que a maioria das crianças apresenta
35
problemas em diversos domínios. Foram encontrados déficits cognitivos moderados,
deficiências motoras, problemas comportamentais e em alguns aspectos da qualidade de vida.
Problemas relacionados à aprendizagem e atenção foram encontrados, assim como maior grau
de impulsividade e ansiedade se comparado à uma população típica. Os autores frisam, que
devido à pequena amostra do presente estudo, não se pode inferir se os resultados
comportamentais se devam ao episódio de AVC ou à exacerbação de problemas
comportamentais anteriores ao insulto cerebral (EVERTS et al, 2014).
Ryck et al (2014) investigaram a prevalência de depressão pós AVC e avaliaram quais
fatores neurpsicológicos, clínicos ou funcionais estão associados à depressão durante 18
meses que seguiram ao AVC. Este estudo fez parte de um estudo maior (Middelheim
Interdisciplinary Stroke Study, sobre avaliação de diversos aspectos de pacientes com AVC
isquêmico ou ataque isquêmico transitório). Participaram do estudo 222 indivíduos,
recrutados na unidade de AVC do Institute Born-Bunge, na Bélgica. O critério de inclusão foi
que, os sintomas de AVC agudos correspondessem aos critérios diagnósticos da Organização
Mundial de Saúde – OMS para AVC isquêmico ou hemorrágico.
Foram utilizados no estudo o Functional Independent Measure Scale (FIM) e Índice
Barthel, afim de avaliar o nível de independência pós AVC; o National Institute of Health
Stroke Scale (NIHSS), para medir a gravidade do dano cerebral; já a qualidade de vida foi
medida através da versão belga-holandesa do Stroke Impact Scale (SIS) ; as funções
cognitivas foram avaliadas através Mini Mental State Examination (MMSE) e os sintomas
depressivos foram avaliados através do Cornell Scale of Depression (CSD) e Montgomery
and Åsberg depression rating scale (MADRS). Os participantes foram avaliados em grupos,
que se dividiram em 1, 2, 6, 12 e 18 meses após o episódio de AVC (RYCK et al, 2014).
Os principais resultados apontam que a maior prevalência de problemas de
relacionamento surgiu nos últimos 18 meses, sendo observada nos indivíduos com depressão
pós AVC em comparação com indivíduos com AVC, porém não deprimidos. De acordo com
os autores, foram encontrados sintomas depressivos frequentes durante os 18 meses que se
seguiram ao insulto cerebral. Entre os diferentes grupos, os sintomas depressivos variaram
entre 20% e 28%. Os resultados sugeriram também que os indivíduos com depressão pós
AVC tiveram um pior desempenho dos pontos de vista físico e cognitivo, demonstrando mais
dependência e menos qualidade de vida, em comparação com indivíduos não deprimidos. Os
autores concluíram que de forma geral sintomas depressivos estão associados a redução de
atividades sociais durante o período de 18 meses após o AVC.
36
Lo et al (2014) investigaram a relação entre AVC pediátrico e a competência social em
uma amostra de 51 crianças, das quais 36 com histórico de AVC compuseram o grupo
experimental e 15 com asma crônica compuseram o grupo controle. A amostra foi recrutada
Nationwide Children’s Hospital e no Royal Children’s Hospital. Os participantes foram
avaliados através do Pediatric Stroke Outcome Measure (PSOM), que mensurou o
comprometimento neurológico; Wechsler Abbreviated Scale of Intelligence (WASI), que
avaliou o quociente de inteligência; Wechsler Intelligence Scale for Children-Fourth Edition
(WISC-IV), que avaliou a velocidade de processamento; Child Behavior Checklist (CBC-l),
que avaliou o comportamento em três aspectos, a saber: comportamento geral,
comportamentos internalizantes e comportamentos externalizantes; Assessment SystemSecond Edition (ABAS-II), que avaliou o comportamento adaptativo e por fim o Child and
Adolescent Scale of Participation (CASP) que avaliou a participação social. Os principais
resultados apontaram que os indivíduos com AVC apresentaram piores resultados tanto nos
comportamentos gerais quanto nos comportamentos adaptativos, assim como também
apresentaram piores resultados na escala CASP, sugerindo que o desempenho na participação
social estava prejudicado. Como previsto pelos autores, piores resultados nos componentes
internalizantes e externalizantes demonstraram estar altamente correlacionados com um
menor ajuste social, que de acordo com os autores refere-se às percepções de comportamento
social por si mesmo e por outros (LO et al, 2014).
Os autores concluem que o AVC pode resultar em comprometimento do ajuste social e
da participação, em especial em crianças com déficits neurológicos residuais mais graves, o
que envolve o tipo de lesão sofrida, isquêmica ou hemorrágica, e a extensão do dano
proveniente dessa lesão. É argumentado pelos autores que apesar de os resultados sociais do
AVC pediátrico receberem pouca atenção da comunidade científica, esses são de extrema
importância já que envolvem habilidades necessárias para a interação com o mundo social,
pois o comprometimento social pode resultar em isolamento social e redução da auto-estima
ou na pior das hipóteses acarretar comportamentos anti-sociais e delitivos (LO et al, 2014).
Greenham et al (2015) investigaram a saúde mental e a função social em crianças com
doença crônica, com e sem histórico de AVC e comparando-as a crianças com
desenvolvimento típico, para identificar fatores ambientais que possam influenciar os
resultados. Participaram desse estudo 36 crianças com diagnóstico de AVC, 15 com asma
crônica e 43 crianças com desenvolvimento típico, com idades entre 6 e 15 anos. Para o
estudo foram selecionadas crianças que sofreram AVC do tipo isquêmico, quanto ao grupo
37
com diagnóstico de asma crônica, essa condição foi escolhida por se tratar de uma condição
crônica que não impacta o sistema nervoso central, mas envolve internação e limitações em
relação a participação social, semelhante a condição vivenciada pelas crianças que sofreram
episódio de AVC. A versão abreviada da Wechsler Abbreviated Scale of Intelligence
(Wechsler, 1999) foi usada para avaliar o estado cognitivo. Quanto as características do grupo
com episódio de AVC, o estado neurológico foi avaliado através Pediatric Stroke Outcome
Measure (PSOM); em relação a saúde mental e o funcionamento social foi utilizado o Child
Behavior Checklist (CBCL) para identificar os problemas internalizantes e externalizantes; a
competência social foi avaliada por meio do Social Problems scale (CBCL:SP); a interação
social foi avaliada através de dois questionários, o primeiro foi o Friendship Quality
Questionnaire (FQQ), concebido para avaliar a qulidade das amizades das crianças com o
melhor amigo auto declarado; o segundo foi o Relational Provisions Questionnaire (RPQ),
que avalia a percepção em relação a solidão da criança; a participação social foi avaliada por
meio do Child and Adolescent Scale of Participation (CASP), escala de avaliação pelos pais
sobre a participação da criança em casa, na escola e em situações de vida em comunidade.
Os principais resultados apontam que a presença de lesão cerebral por AVC estava
relacionada exclusivamente com um comprometimento na participação social, mostrou
também que os grupos com histórico de AVC e com asma apresentaram níveis semelhantes
no que tange saúde mental e comprometimento social e que comportamentos externalizantes e
internalizantes nos dois grupos foram estatisticamente superiores quando comparados ao
grupo de crianças com desenvolvimento típico. É importante salientar que os dois grupos
apresentaram maiores comportamentos internalizantes, como ansiedade e depressão e piores
resultados na competência social que as crianças do grupo controle saudável (GREENHAM et
al, 2015).
Rozon e Rochette (2015) investigaram as alterações no sono, na mobilidade, nas
relações interpessoais e no lazer no primeiro ano após o AVC leve e suas associações entre a
presença de sintomas depressivos e a melhoria na participação social, em uma amostra de 186
participantes, com idade média de 63 anos, selecionados em onze hospitais de cuidados
agudos de quatro províncias canadenses. A amostra foi avaliada através do Inventário de
depressão de Beck-II e do Life-H3.1, que visam avaliar estados depressivos e o desempenho
em atividades da vida diária respectivamente.
Os autores argumentam que o AVC pode acarretar uma variedade de consequências
físicas, cognitivas, ambientais e emocionais e somado a fatores ambientais, todas essas
38
deficiências afetam a participação social da pessoa, em especial alterações de humor, como
ansiedade e depressão, fatores de risco para o surgimento de comportamentos não habilidosos;
e de acordo com os autores, na população com histórico de AVC, geralmente, a presença de
depressão está associada com baixos níveis de participação social. Foram feitas avaliações,
através do LIFE-H 3.1 e paralelamente o Inventário de depressão de Beck-II, no primeiro
mês, no sexto mês e um ano após o episódio de AVC. Os principais resultados mostraram
que, a probabilidade de apresentar sintomas depressivos foi significativamente menor um ano
após o episódio que um mês após. Quando comparados em relação aos seus resultados nas
atividades da vida diária e considerando-se a presença de sintomas depressivos, alguns
domínios dos hábitos de vida tiveram melhora considerável entre o primeiro mês e o primeiro
ano após o insulto; o que não é o caso de condução de veículos, participação em atividades
recreativas e esportivas e relações interpessoais de forma geral. De forma pormenorizada, os
participantes que apresentaram sintomas depressivos, apresentaram piores resultados nesses
três domínios nos seis meses que se seguiram após o insulto cerebral (ROZON; ROCHETTE,
2015).
De acordo com os autores, embora alguns domínios dos hábitos de vida tenham
melhorado ao longo do tempo, como é o caso do sono e motricidade, para parte dos
participantes, até 30% não tiveram resultados satisfatórios nem após os seis primeiros meses e
após o primeiro ano do AVC. Uma crítica que os autores tecem, é sobre o tempo de
internação, pois assim que considerados clinicamente estáveis e capazes de exercer atividades
diárias básicas, as pessoas recebem alta, sem que serviços de apoio especializados sejam
oferecidos, desse modo dificuldades complexas, relacionadas aos hábitos de vida, não são
identificadas e tratadas através de terapêutica adequada cerebral (ROZON; ROCHETTE,
2015).
Visser et al (2015) investigaram se indivíduos com e sem sintomas depressivos após
AVC usam diferentes estratégias de enfrentamento e habilidades para resolver problemas e
estas variáveis estão relacionadas com a qualidade de vida/saúde. Os autores conceituam o
enfretamento e a resolução de problemas de formas diferentes; o primeiro fazendo referência
aos esforços cognitivos e comportamentais utilizados para gerenciar situações estressantes e
as emoções que elas geram, enquanto que o segundo se refere ao processo de encontrar
soluções para problemas específicos. De forma geral a resolução de problemas é um processo
de enfretamento, mas nem todo processo de enfrentamento podem ser considerados resolução
de problemas. Participaram desse estudo 166 indivíduos, em reabilitação no Rijndam
39
Reabilitation Center (países baixos) e do Ghent University Hospital na Bélgica. Os critérios
de inclusão foram ter diagnóstico de AVC e idade entre 18 e 75 anos, que estivessem em
reabilitação de AVC, estando apto a participar de terapia grupal. E os critérios de exclusão
foram apresentar transtornos neurológicos progressivos, insuficiente compreensão da língua
holandesa e apresentar afasia moderada ou grave.
Os instrumentos utilizados foram o questionário de cinco níveis EroQol (EQ-5D-5L) e
o Stroke Quality of Life Scale (SSQoLS-12) foram utilizados como medida da qualidade de
vida; As estratégias de enfrentamento foram medidas usando o Coping Inventary for Stressful
Situations (CISS); as habilidades de resolução de problemas foram medidas usando o Social
Problem Solving Inventary-Revised: Short Form (SPSI-R:SF); a depressão foi medida através
do Center for Epidemiologic Studies Depression Scale (CES-D) e a Rakin’s Scale foi utilizada
para medir o nível de independência. Os principais resultados apontam que os mais altos
índices de sintomas depressivos foram encontrados em indivíduos mais jovens,
frequentemente mulheres que sofreram AVC do tipo isquêmico. Os indivíduos com altos
índices de depressão apresentaram piores resultados em todos os domínios da qualidade de
vida/saúde. Os resultados sugerem também que eles também usaram mais enfrentamentos
orientados para a emoção e esquiva e menos habilidades positivas de resolução de problemas
(VISSER et al, 2015).
Törnbom et al (2016) investigaram o impacto físico, cognitivo e emocional autoavaliado e sua associação com a participação social no primeiro mês após o insulto cerebral.
O estudo tem origem em um corte extraído de um estudo longitudinal anterior sobre as
ramificações do AVC (Estudo SALGOT) na Sahlgrenska University Hospital, Gotemburgo,
Suécia. A amostra foi composta por 117 participantes, oriundos de internações, por episódio
de AVC, nas três unidades de AVC do referido hospital. As avaliações foram realizadas
através do National Institutes of Health Stroke Scale (NIHSS), na chegada ao hospital, afim
de se identificar a gravidade do AVC e um mês após o AVC, através do SIS, questionário de
auto- avaliação que estima como o AVC afetou a saúde e a qualidade de vida nos seguintes
domínios: memória e pensamento, emoção, comunicação, atividades da vida diária,
mobilidade, função da mão e força.
Os principais resultados apontaram que os participantes que apresentaram AVC mais
grave perceberam maiores problemas e obtiveram menores pontuações em todos os domínios
do SIS, embora os domínios emoção, memória, pensamento e comunicação fossem mais
elevados que os demais, independentemente da gravidade do AVC. No primeiro mês após o
40
AVC, os participantes avaliaram, de forma geral, que as habilidades comunicativas e a
capacidade de lembrar não eram tão problemáticas quanto a capacidade motora, as demais
atividades da vida diária e a participação social como um todo. No presente estudo, 59% dos
participantes relataram perceber que sua participação social era limitada no primeiro mês, o
que pode ser associado a baixos rendimentos nos domínios físicos. Apesar de a maior parte
dos participantes relatar que dominavam as habilidades básicas essenciais às interações
sociais, esses perceberam também que para alcançar tanto, um grande esforço era empregado.
De acordo com os autores, o presente estudo mostrou que, ainda que os participantes tenham
percebido que suas habilidades comunicativas, cognitivas e emocionais eram satisfatórias, a
maior parte deles relatou que o envolvimento em atividades sociais era bastante limitado
(TÖRNBOM, et al. 2016).
Plante et al (2016) investigaram a associação entre a independência nas atividades da
vida diária na alta da reabilitação e o grau de retomada de papéis sociais seis meses após a
reabilitação em idosos. Participaram do estudo 111 adultos, selecionados em hospitais de
cuidados agudos e instituições de reabilitação em três regiões da província de Quebec,
Canadá. As atividades da vida diária foram medidas através de componentes do Functional
Measurement of Autonomy System (SMAF) e os papéis sociais, foram medidos através do
Assessment of Life Habits (LIFE-H), que incluíam responsabilidades, relações interpessoais,
vida comunitária e domínios de lazer.
Os resultados gerados através do SMAF refletiram perda de independência moderada,
já a expressão dos papéis sociais variaram de acordo com os domínios individuais, com
maiores pontuações no LIFE-H para relações interpessoais e menores pontuações para lazer.
Os demais domínios, capacidade física, linguística, cognitiva e psicológica resultaram em
variadas pontuações. Os resultados também apontaram que a independência nas atividades da
vida diária estavam associadas à retomada de papéis sociais na alta da reabilitação, mas isso
não se aplicou a todos os domínios dos papéis sociais. É o caso do domínio lazer, que de
acordo com os autores pode ser influenciado por outros fatores, como disponibilidade da
atividade, disponibilidade do apoio social ou do transporte. Os autores concluem que a
associação entre atividades diárias na alta hospitalar e papéis sociais, seis meses após
reabilitação, podem variar a depender do domínio da função social que se está avaliando
(PLANTE, et al 2016).
41
3.3
Considerações gerais sobre o conjunto de estudos
Estudos que associam lesões por AVC aos domínios das habilidades sociais, da
competência social e das relações interpessoais de forma geral, não apresentaram uma
sistemática ou uma padronização quanto aos instrumentos utilizados. A maior parte dos
estudos encontrados não trazem os domínios das habilidades sociais como foco de suas
investigações, sendo esses por vezes abordados como desdobramentos de pesquisa ou
resultados secundários. Outro fator importante é que as referidas pesquisas não deixam claro
qual a concepção de habilidades sociais, enquanto campo teórico- prático, é utilizada. Os
estudos são relatos de pesquisas empíricas, porém estão permeados de termos subjetivos e
pouco generalizáveis. De forma geral, os estudos que se propuseram, primária ou
secundariamente, a investigar a relação supracitada privilegiaram a investigação em crianças e
idosos e seus resultados sugeriram que o desempenho social após AVC apresentou alterações
de moderadas a graves alguns domínios das relações interpessoais, assim como, no
funcionamento social, o que poderia explicar o comprometimento nas interações sociais,
recorrentemente citadas pelos autores. Alguns autores argumentaram que o AVC pode
acarretar problemas comportamentais, tantos nos comportamentos gerais, quanto nos
comportamentos adaptativos. Outra questão sugerida pelos resultados desse estudo é a
elevação dos níveis de impulsividade vivenciadas por indivíduos que sofreram lesão por
AVC. Os estudos sugerem também que tanto comportamentos internalizantes quanto
externalizantes são apresentados por esses indivíduos, tais como ansiedade e depressão. Esses
dois componentes não dizem respeito às classes de HS, mas representam fatores de risco para
déficits nessas habilidades.
Os resultados encontrados nessa revisão explicitam a necessidade de se estudar mais
extensivamente a relação entre AVC e HS, a fim de se obter maiores evidências sobre o
potencial dano que esse tipo de lesão pode acarretar ao conjunto de habilidades sociais,
consideradas essenciais para a manutenção de relações sociais satisfatórias.
3.4
Questão problema
Partindo do pressuposto de que déficits em Habilidades Sociais estão relacionados
com o acometimento por lesões cerebrais por AVC, assim como a constatação de que um o
número de adultos com histórico de danos dessa natureza vem crescendo, sem que
investigações que priorizem essa associação sejam realizadas, o presente estudo propõe o
seguinte questionamento geral:
42
Quais classes de Habilidades Sociais, são mais prejudicadas diante de uma lesão
cerebral por AVC em adultos?
43
4
ESTUDO EMPÍRICO
Esta sessão apresentará os objetivos geral e específicos do presente estudo. Em
seguida será realizada a descrição do método, começando pelo delineamento da pesquisa
realizada, a descrição dos locais onde foram coletados os dados, os indivíduos que
participaram do estudo, os instrumentos utilizados na coleta dos dados, assim como procedeu
a coleta e a análise dos dados obtidos. Por fim são trazidas as considerações sobre
procedimentos éticos adotados no decorrer do estudo.
4.1
Objetivos
4.1.1 Objetivo Geral
– Verificar a relação entre acidente vascular cerebral e déficits nas habilidades sociais em
adultos.
4.1.2 Objetivos Específicos
1) Caracterizar o estado cognitivo dos indivíduos acometidos por AVC;
2) Identificar déficits e recursos em habilidades sociais de indivíduos com histórico de
AVC, em comparação com a amostra normativa do instrumento Inventário de
Habilidades Sociais (IHS-Del Prette);
3) Identificar déficits e recursos em habilidades sociais de indivíduos com histórico de
AVC, em comparação a indivíduos sem histórico de AVC;
4) Verificar a relação entre o sexo, a idade e o repertório de habilidades sociais de
indivíduos com histórico de AVC;
5) Verificar a relação entre o estado cognitivo e o repertório de habilidades sociais em
pessoas com AVC.
44
4.2
Método
4.2.1 Delineamento de pesquisa
O presente estudo consiste em uma Pesquisa Correlacional, definida como o
delineamento que permite ao pesquisador determinar a direção e a força da relação entre
variáveis por meio de uma única estatística (KANTOWITZ; ROEDIGER III; ELMES, 2006).
A Pesquisa Correlacional, assim como a maior parte dos estudos Relacionais, examina
variáveis ex post facto, ou seja, os dados coletados não envolvem a manipulação direta de
variáveis, sendo originados de eventos que ocorreram naturalmente. No que concerne a
comparação de dois grupos de sujeitos, procedeu-se à um Quase-Experimento, técnica similar
às análises ex post facto utilizadas nas pesquisas correlacionais, exceto que neste não se
procede uma correlação entre variáveis e sim uma comparação de dois grupos naturais no que
lhes diferencia, neste caso é a variável de sujeito, elemento típico de Quase-experimentos. A
variável de sujeito neste delineamento desempenha o papel de variável independente
(KANTOWITZ, ROEDIGER III, ELMES, 2006; COZBY, 2014).
De acordo com Kantowitz, Roediger III e Elmes (2006), a pesquisa do tipo Quaseexperimental possui vantagens óbvias, pois usam variáveis que ocorrem naturalmente, as
quais muitas vezes possuem um grande interesse intrínseco e implicações importantes na
prática. Por se tratarem de estudos com variáveis de sujeito, o pesquisador pode selecioná-las
ao invés de manipulá-las.
As avaliações das habilidades sociais e do estado cognitivo foram realizadas por meio
da aplicação de instrumentos de medida validados. As entrevistas com o grupo de indivíduos
com histórico de AVC (Grupo 1) foram realizadas de forma individual e por agendamento nas
instituições nas quais estavam em reabilitação no período total de quatro meses e as
entrevistas com o grupo de indivíduos sem histórico de AVC (Grupo 2), foram realizadas em
uma escola pública da capital alagoana, de forma grupal no período de dois dias.
4.2.2 Descrição do local do estudo
Os dados do presente estudo foram coletados em três instituições, duas das quais
foram coletados os dados do Grupo 1 e a terceira do Grupo 2. Os dados do Grupo 1 foram
coletados em instituições especializadas em reabilitação física: Associação Pestalozzi de
Maceió e Associação dos deficientes físicos de Alagoas (ADEFAL). Os dados do Grupo 2
foram coletados na Escola Estadual Deputado Nenoí Pinto.
45
A Associação Nacional Pestalozzi oferece serviços a pessoas com deficiência de
Maceió e demais municípios do Estado. Com a missão de prestar serviços com excelência em
educação, saúde, trabalho, assistência social, esporte, cultura e lazer, contribuindo para a
inclusão das pessoas com deficiência intelectual, física, auditiva e visual. Totalizando 11
unidades de atendimento no município de Maceió. (FENAPESTALOZZI, 2018).
A ADEFAL – Associação dos Deficientes Físicos de Alagoas é uma entidade
filantrópica sem fins lucrativos com sede em Maceió-AL e tem como finalidade a defesa dos
interesses das pessoas com deficiência. Desde fevereiro de 1994 a Adefal através do Centro
de Medicina Física e Reabilitação. Em 1996 Adefal consegue o credenciamento com Sistema
Único de Saúde (SUS), em 2001 a Instituição passa ser referência no atendimento de alta
complexidade em Medicina Física e Reabilitação e passa a prestar serviços aos 102
municípios alagoanos (ADEFAL, 2018).
A Escola Estadual Deputado Nenoí Pinto está situada em um bairro periférico da
cidade de Maceió. Em relação a estrutura física, a escola é constituída por dez salas de aula,
uma sala de professores, uma sala de leitura, que funciona também como biblioteca, um
laboratório de informática, uma sala de diretoria, uma secretaria, uma cozinha, banheiros, um
pátio de recreação e uma quadra de esportes. A escola funciona nos horários matutino,
vespertino e noturno, contando com uma equipe docente de 52 professores, entre efetivos e
monitores. São ofertados pela escola as modalidades de ensino fundamental de 9 anos e
Educação de jovens e adultos (EJA). Essas modalidades são divididas em 24 turmas entre os
três turnos.
4.2.3 Participantes
A amostragem foi do tipo não probabilística acidental (COZBY, 2013). Inicialmente a
pretensão era trabalhar com indivíduos com faixa etária entre 18 e 55 anos, mas ao adentrar
nas instituições onde foram realizadas as coletas, percebeu-se que se fosse mantida essa faixa
etária não seria atingido o número mínimo de indivíduos proposto (N=50 para o Grupo 1),
sendo assim, fixamos a faixa etária entre 18 e 59 anos. Foram entrevistadas 100 pessoas, das
quais 50 pertenceram ao Grupo 1 e 50 ao Grupo 2. Os dados relativos aos participantes do
Grupo 1, como supracitado, foram coletados na Associação Pestalozzi de Maceió (N=7) e
ADEFAL (N=43).Os dados relativos ao Grupo 2 foram coletados na Escola Estadual
Deputado Nenoí Pinto, salvaguardando os cuidados em sua escolha, primando pelo
pareamento das características sociodemográficas com o Grupo 1, em termos de sexo, nível
46
de escolaridade e renda familiar, assim como à submissão desses aos critérios de inclusão (ter
no mínimo 18 anos e no máximo 59 anos, não possuir renda familiar acima de 4 salários
mínimos) e de exclusão (apresentar histórico clínico de AVC, diagnóstico de qualquer
comprometimento cognitivo ou fazer uso excessivo de álcool e outras drogas).
4.2.4 Instrumentos
Foram utilizados três instrumentos, sendo um inventário, um teste e um questionário
de investigação clínica e sociodemográfica. O inventário e o teste, consistem em instrumentos
de medida que possuem evidências de validade, um para avaliação do repertório de
habilidades sociais e outro para investigar indícios de comprometimento cognitivo. O
questionário sociodemográfico e clínico incluiu questões sobre o histórico clínico do
indivíduo, renda familiar. Os instrumentos serão descritos a seguir.
4.2.4.1 Inventário de Habilidades Sociais (IHS – DEL PRETTE)
Este instrumento visa a avaliar o repertório de habilidades sociais usualmente
requerido em situações cotidianas (trabalho, família, amigos) por meio de 38 itens, que
descrevem uma relação interpessoal e um possível desfecho. Na resposta a cada item, o
respondente deve estimar a frequência com que reage a uma situação específica, em uma
escala tipo Likert, que varia de 0 (nunca ou raramente) a 4 (sempre ou quase sempre), de 5
pontos, com um escore total entre 0 e 152. O instrumento visa a avaliar os seguintes aspectos:
enfrentamento e autoafirmação com risco; autoafirmação na expressão de afeto positivo;
conversação e desenvoltura social; autoexposição a desconhecidos ou a situações novas e
autocontrole da agressividade em situações aversivas (DI DOMENICO-GRAZZIOTIN;
SCORTEGAGNA, 2016).
Na interpretação dos resultados, quanto menor o percentil, mais o indivíduo tende a
apresentar um déficit em seu repertório de HS e, quanto mais alto o percentil, melhor o seu
repertório em HS. Os valores de 0 a 20 são considerados inferiores (I) e, nesse caso, apontam
déficits em HS. Os percentis de 25 a 45 são considerados médios inferiores (MI), e os
próximos a 50, médios (M), analisados como bom repertório. Valores de 55 a 75 são
avaliados como médios superiores (MS), interpretados como repertório elaborado, e, de 80 em
diante, superiores (S), correspondendo a um repertório bastante elaborado (DI DOMENICOGRAZZIOTIN, SCORTEGAGNA, 2016).
47
Na análise das propriedades psicométricas, o IHS apresentou um padrão de
confiabilidade e de consistência interna satisfatória com um alfa de Cronbach de 0,75;
estabilidade teste-reteste (r=0,90; p=0,001) e validade concomitante com o Inventário de
Rathus (r=0,79; p=0,01; Bandeira, Costa, Del Prette, Del Prette, & Gerk-Carneiro, 2000). Este
instrumento foi validado para uma população universitária de 18 a 25 anos, porém, com base
na experiência do uso deste em uma faixa de idade de 60 anos e mais (CORDEIRO et al
(2007), tendo preservado suas propriedades psicométricas (DI DOMENICO-GRAZZIOTIN;
SCORTEGAGNA, 2016), o presente estudo utilizou o referido instrumento na amostra de
pesquisa entre 18 e 59 anos, com pequenas alterações na leitura do instrumento, onde o
pesquisador optou por trazer sinônimos a algumas palavras que os participantes demonstraram
ter dificuldade em entender.
4.2.4.2 Mini exame do estado mental (MEEM – BERTOLUCCI)
Este instrumento foi denominado de “mini” por concentrar apenas aspectos cognitivos
da função mental, excluindo funções mentais anormais e encobertas. O mesmo tem como
finalidade prática indicar se o indivíduo apresenta indícios de comprometimento cognitivo,
através de questões agrupadas em sete categorias: orientação temporal, orientação espacial,
memória imediata (registro de três palavras), atenção e cálculo, evocação (recordação de três
palavras), linguagem e capacidade construtiva visual. O instrumento conta com um total de 11
itens, de resposta livre, exceto pelos itens 8, 10 e 11, que requerem do respondente que
desempenhe tarefas para avaliação de sua capacidade motora. Sua pontuação total varia de 0 a
30 pontos e seus pontos de corte estão associados ao nível de escolaridade do respondente
(BERTOLUCCI et al, 1994).
Na interpretação dos resultados, são somados os escores atribuídos a cada atividade
completada, resultando num escore global que pode variar de um mínimo de zero pontos,
indicando um maior grau de comprometimento cognitivo, até um total de no máximo trinta
pontos, que por sua vez, indica uma capacidade cognitiva intacta (BRUCKI et al, 2003).
Os valores de corte utilizados foram os propostos por Bertolucci (1994), que
considerou 13 pontos para analfabetos, 18 para indivíduos com baixa e média escolaridade e
26 para indivíduos com alta escolaridade, que compreendiam 1 a 4, 4 a 7 e 8 ou mais anos de
estudo respectivamente. No presente estudo não foram entrevistados indivíduos analfabetos,
sendo assim foram considerados apenas os pontos de corte para baixa e média escolaridade e
alta escolaridade.
48
Na análise das propriedades psicométricas, o MEEM apresentou, em um estudo com
população idosa, um nível satisfatório de confiabilidade e consistência interna, com um alfa
de Cronbach de 0,796 (SANTOS et al, 2010) e em um estudo com diversas faixas etárias
apresentou sensibilidade de 82,4%; especificidade de 97,5% (BERTOLUCCI et al, 1994).
Foram realizadas alterações na versão original deste instrumento, afim de adaptá-lo à
aplicação no Brasil e o presente estudo foi considerada a versão validada por Bertolucci et al
(1994), que teve sua amostra dividida por idade: jovens de 15 a 50 anos, adultos de 51 a 64
anos e idosos acima de 65 anos (BRUCKI et al, 2003).
A escolha desse instrumento se deu primeiro por se tratar de um teste simples, de
rápida aplicação, que dispensa material complementar e conhecimento especializado, podendo
ser aplicado por qualquer profissional que esteja atuando no âmbito da saúde. Ele consiste em
um instrumento de rastreio cognitivo, para pessoas adultas e idosas, mais utilizado no mundo,
com tradução para mais de 35 países. Este instrumento, vem sendo utilizado no âmbito de
pesquisas de forma individual ou como parte integrante de baterias de avaliação
neurológica/neuropsicológica (MELO; BARBOSA, 2015).
4.2.4.3 Anamnese
Entrevista previamente estruturada (Anexo) pela autora com o objetivo de acessar o
histórico clínico e social do indivíduo, que incluiu detalhes de seu quadro clínico,
antecedentes pessoais e familiares e histórico socioeconômico. As informações colhidas nessa
etapa de pesquisa foram analisadas, agrupadas em forma de categorias e contabilizadas em
termos de percentual de frequência no item Descrição da amostra- Características
sociodemográficas e clínicas dos participantes- apresentado nos resultados desse estudo.
4.2.5 Procedimento de coleta de dados
A aplicação dos instrumentos de medida foi realizada pela mestranda pesquisadora. Os
sujeitos do Grupo 1 foram abordados na instituição Associação Pestalozzi de Maceió e
ADEFAL e os sujeitos do Grupo 2 foram abordados na Escola Estadual Deputado Nenoí
Pinto. Os Grupos foram convidados a participar da pesquisa e em seguida foi requerido os
mesmos assinassem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido-TCLE. Cada participante
do Grupo 1 passou inicialmente por uma anamnese, para um melhor aprofundamento de seu
quadro clínico, em seguida foi aplicado o Mini Exame do Estado Mental (MEEM), afim de
investigar indícios de comprometimentos cognitivos e por fim, foi aplicado do Inventário de
49
Habilidades Sociais (IHS), a fim de avaliar seu repertório de habilidades sociais. Essa
aplicação de deu de forma individual, em uma sala, reservada pelas instituições supracitadas,
ao mestrado para proceder com a coleta dos dados. Os participantes do Grupo 2 tiveram seu
repertório de habilidades sociais avaliado por meio do IHS-Del Prette, não sendo necessária a
aplicação do MEEM, uma vez que foram atendidos os critérios de inclusão para o referido
grupo. Aplicação do instrumento foi feita de forma coletiva em uma sala disponibilizada pela
diretora da escola à mestranda para esta coleta. Após aplicação coletiva do IHS-Del Prette, os
indivíduos responderam de forma individual à anamnese. A coleta dos dados do Grupo 2, foi
feita em dois momentos diferentes de forma padronizada.
O tempo de aplicação para o
grupo 1 (aplicação individual), foi de aproximadamente 30-40 minutos por indivíduo e para o
grupo 2 (aplicação coletiva), foi de aproximadamente 20 minutos.
4.2.6 Procedimento de análise de dados
Os dados foram analisados por meio de estatísticas descritivas e inferenciais,
utilizando-se o programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), em sua versão
22.0. Inicialmente, foi utilizado o teste Kolmogorov-Smirnov, para verificar se os dados eram
procedentes de uma população com distribuição normal e, assim escolher se seriam utilizados
testes paramétricos ou não-paramétricos nas demais análises. Comprovada a não normalidade
da distribuição, os testes utilizados subsequentemente foram não-paramétricos.
Foram realizadas estatísticas descritivas das características sociodemográficas dos
participantes, assim como a análise da equivalência entre os dois grupos, realizada por meio
do teste Mann Whitney. Foram realizadas análises por item do IHS-Del Prette, por meio do
teste Qui-quadrado. Para a análise dos postos percentílicos do IHS, assim como o ponto de
corte do MEEM, foram utilizados os valores fornecidos pelos escores globais por participante
nesses instrumentos. As informações fornecidas pela anamnese foram analisadas e agrupadas
em forma de categorias, as quais foram contabilizadas em termos de percentual de frequência.
Foi utilizado o teste U de Mann Whitney para se comparar os postos médios entre os
grupos, considerando os escores globais e os escores por subescala, a fim de se estimar se
existiu diferença estatisticamente significativa entre os resultados dos grupos testados. Para
verificar a associação entre o estado cognitivo e os resultados no IHS foram realizadas
análises de correlação ρ de Spearman. Nos testes inferenciais, foi adotado um intervalo de
confiança de 95% (p<0,05).
50
4.2.7 Considerações éticas
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade
Federal de Alagoas, processo número 66361017.2.0000.5013, parecer de aprovação número
2082138. A coleta de dados foi autorizada pelas instituições, sendo no Grupo 1 mediante
documento assinado em reunião com as equipes médica e o centro de pesquisa e no Grupo 2,
mediante documento assinado em reunião com a diretora geral da escola. Os participantes
foram esclarecidos sobre o anonimato e sigilo de suas respostas. O caráter voluntário de suas
participações, bem como o respeito às diretrizes éticas que regem a pesquisa com seres
humanos foram assegurados.
Os sujeitos foram informados de que sua participação na pesquisa não ocasionaria danos
e desconfortos gerados pela pesquisa, se solicitado, seriam acolhidos e trabalhados com o
suporte do Serviço de Psicologia Aplicada da Universidade Federal de Alagoas (SPA-UFAL).
Os sujeitos foram informados, antecipadamente, sobre a duração aproximada (30-40 minutos)
da entrevista de coleta de dados. A cada participante, foi oferecido um número de telefone da
mestranda pesquisadora responsável e também esclarecido que se necessário fosse, eles
poderiam entrar em contato para tirar possíveis dúvidas e tomar conhecimento do
desenvolvimento da pesquisa.
51
5
RESULTADOS
Esta sessão apresentará os resultados obtidos no presente estudo, na seguinte ordem:
Primeiro, será apresentada a descrição da amostra estudada. Em seguida, a equivalência entre
os grupos estudados. Adiante, serão apresentados os resultados referentes ao estado cognitivo
dos participantes com AVC. Em seguida, a descrição das análises por item e por postos
percentílicos no IHS-Del Prette, e a comparação dos resultados dos participantes, nessas
análises, com a amostra normativa e com o Grupo 2 do presente estudo. No momento
seguinte, serão apresentados os resultados das diferenças entre os grupos, no que circunda o
desempenho global e por subescalas no IHS-Del Prette. Posteriormente serão apresentados os
resultados das análises das diferenças entre sexo, idade e o repertório de habilidades sociais e
por fim os resultados da análise da relação entre os escores globais no MEEM e os escores
globais e fatoriais no IHS-Del Prette.
5.1
Normalidade da distribuição
Para determinar se as análises desse estudo seriam feitas a partir de testes paramétricos
ou não-paramétricos, os escores globais e as subescalas do IHS-Del Prette e os escores globais
do MEEM foram submetidos ao teste de normalidade Kolmogorov-Smirnov. Para que seja
constatada a normalidade das distribuições, a partir desse teste estatístico, o valor de p deve
ser maior que 0.05, neste caso testes paramétricos deverão ser utilizados. Caso o valor de p
seja menor que 0,05, denotando distribuição não normal, as análises subsequentes deverão ser
realizadas por meio de testes não-paramétricos.
Os resultados dessa análise indicaram que os dados do escore global (K-S= 0,116, p=
0,002), assim como os dados das subescalas (S1: K-S= 0,132, p= 0; S2: K-S= 0,253, p=0; S3:
K-S= 0,193, p= 0; S4: K-S= 0,168, p= 0; S5: K-S= 0,267, p= 0) possuíam uma distribuição
não normal. Os resultados referentes ao escore global do MEEM (K-S= 0,214, p= 0) também
apresentaram distribuição não normal. Com esses resultados, as análises que seguem foram
realizadas por meio de testes não-paramétricos para os dados que não apresentaram
distribuição normal.
52
5.2
Descrição da amostra
5.2.1 Características sociodemográficas e clínicas dos participantes
Serão apresentados aqui os resultados das análises das anamneses e subsequentes
categorizações, contabilizadas em termo de percentual de frequência. No que concerne as
características sociodemográficas, de um total de 100 participantes, a maioria era mulher
(54%). A idade média dos participantes foi de 47,7 anos, com desvio padrão de 9,7, com
mínimo de 18 e máximo de 59 anos. Sessenta por cento da amostra possuía Ensino
Fundamental 1. Quarenta e seis por cento relatou ter o status civil de casado. Oitenta e três por
cento dela possuía renda própria, sendo que no Grupo 1, essa renda era majoritariamente
proveniente de Aposentadoria (18%) e Auxílio doença (19%). A maior parte dos participantes
recebia entre um e dois salários mínimos (77%) e 40% dessa renda familiar aproximada era
originária de trabalho formal. As características sociodemográficas e clínicas dos participantes
estão descritas na Tabela 1.
Tabela 1- Características sociodemográficas e clínicas dos participantes
Variáveis
Sexo
Idade
Escolaridade
Estado civil
Possui renda própria
Origem da renda
Renda familiar
Categoria
Feminino
Masculino
18- 30 anos
31- 45 anos
46- 59 anos
Ensino Fundamental 1
Ensino Fundamental 2
Ensino Médio
Ensino Superior
Solteiro (a)
Casado (a)
Separado/Divorciado (a)
Viúvo (a)
Sim
Não
Trabalho formal
Aposentadoria
Auxílio doença
Pensão
De 1 a 2 salários mínimos
De 2 a 3 salários mínimos
Mais de 3 salários mínimos
Frequência Porcentagem
(n)
(%)
54
54%
46
46%
7
7%
27
27%
66
66%
60
60%
24
24%
12
12%
4
4%
29
29%
46
46%
23
23%
5
5%
83
83%
17
17%
40
40%
18
18%
19
19%
6
6%
77
77%
13
13%
10
10%
53
5.3
Análise da equivalência entre os grupos
Foram utilizados dois testes estatísticos para analisar a equivalência entre os grupos
entre os dois grupos amostrais (com e sem histórico de AVC). O primeiro teste utilizado foi o
Mann Whitney, a fim de analisar a equivalência nas variáveis idade e escolaridade. Os
resultados mostraram que em relação às variáveis escolaridade (U=974,000, p= 0,03) e idade
(U= 684,000, p= 0) o valor de p foi menor que valor de α (0,05), indicando que existiu uma
diferença significativa entre os grupos. A Tabela 2 apresenta os resultados das análises de
equivalência referentes às variáveis idade e escolaridade.
Tabela 2- Análise de equivalência entre os grupos, para idade e escolaridade
Variável
Idade
Categoria
Com AVC
Sem AVC
Escolaridade
Com AVC
Sem AVC
N
50
50
Posto Médio
61,82
39,18
50
50
56,02
44,98
O segundo teste utilizado foi o Qui- quadrado, para analisar a equivalência na variável
sexo. Em relação à variável sexo (χ2= 0,644, p= 0,42), sendo o valor de p maior que o valor
de α, não há evidências suficientes para concluir que tenha existido diferença estatisticamente
significativa entre os grupos, no que tange a variável supracitada. A Tabela 3 apresenta o
resultado referente à variável sexo.
Tabela 3- Análise de equivalência entre os grupos referente à variável sexo
Variável
Categoria
N
Estatística
χ2 ( p)
Sexo
Com AVC
50
0,644 (0,42)
Sem AVC
50
χ2 = Qui- quadrado; p = Probabilidade associada
5.4
Análise dos escores globais no MEEM na amostra de participantes com AVC
54
Serão apresentados aqui os resultados da análise, pelos escores globais individuais, do
estado cognitivo dos participantes com AVC, assim como os resultados das análises por item
no MEEM, a fim de avaliar a frequência de pontuação obtida pelos participantes em cada
item. O MEEM foi aplicado a fim de identificar se os participantes apresentavam indício de
comprometimento cognitivo que pudesse influenciar negativamente nas respostas ao IHS-Del
Prette. Seguindo as normas do estudo original (Bertolucci, 1994) de validação do instrumento
no Brasil, os pontos de corte aqui utilizados foram: 18 pontos para participantes que possuíam
até 8 anos incompletos de estudo e 26 pontos para participantes que possuíam 8 anos
completos ou mais de estudo. Em consonância com a divisão das categorias feita pelo estudo
original, os níveis de escolaridade neste estudo foram divididos em duas categorias: “Ensino
Fundamental 1 e 2” e “Ensino médio e superior”. Os resultados mostraram que 94% da
amostra apresentou resultados que os posicionou acima do ponto de corte.
As Tabelas 4 e 5, apresentam, com base nos escores globais e por itens do MEEM, as
médias e desvios- padrão por item e a quantidade de participantes acima e abaixo do ponto de
corte, considerando as normas do estudo original.
Tabela 4- Médias e desvios- padrão dos escores por itens do MEEM
Item
Média
Desvio- padrão
Orientação temporal
Orientação espacial
Memória imediata
Cálculo
Evocação de palavras
Linguagem 1
Linguagem 2
Linguagem 3
Linguagem 4
Linguagem 5
Capacidade construtiva visual
4,66
4,82
2,84
4,66
2,02
1,96
0,94
2,6
0,76
0,1
0,26
0,51
0,43
0,51
1,06
0,91
0,28
0,24
0,73
0,43
0,3
0,44
Tabela 5- Pontos de corte em relação ao escore global do MEEM
Escolaridade
Frequência
Ponto de corte
Porcentagem (%)
(n)
Acima
Abaixo
Acima
Abaixo
Ensino Fundamental 1 e 2
36
34
2
68%
4%
Ensino médio e superior
14
13
1
26%
2%
Total
50
47
3
94%
6%
55
5.5
Características do repertório de habilidades sociais pelo IHS-Del Prette na
amostra de indivíduos com AVC
5.5.1 Análise dos escores por item
O objetivo dessa análise foi avaliar, de forma individual, a frequência de pontuação
obtida em cada item, pelos participantes com AVC, para assim ter subsídio para inferir sobre
quais as habilidades sociais, especificamente, apresentam maior e menor pontuação. A Tabela
6 apresenta as médias, desvios-padrão e porcentagem de respostas aos itens do inventário.
Cada item possui cinco alternativas de respostas que variam de 0 (nunca ou raramente), 1
(com
pouca
frequência),
2
(com
regular
frequência),
3
(muito frequentemente) a 4 (sempre ou quase sempre). Para organização na tabela 3, as
alternativas de respostas foram agrupadas em três níveis, quais sejam: “0 e 1”, “2” e “3 e 4”.
Tabela 6- Médias e desvios-padrão dos escores dos itens do IHS-Del-Prette e
porcentagens das alternativas de resposta
Item
Média / Desvio-padrão
1. Manter conversas com desconhecidos
2. Pedir mudança de conduta
0,64(1,481)
1,26(1,838)
3. Agradecer elogios
4. Interromper a interrupção do outro
3,96(0,283)
3,24(1,546)
5. Cobrar dívida de amigo
6. Elogiar outrem
3,04(1,726)
3,96(0,198)
7. Apresentar-se a outra pessoa
8. Participar de conversação
1,76(2,006)
0,50(0,995)
9. Falar a público desconhecido
10. Expressar sentimento positivo
1,88(0,895)
3,82(0,629)
11. Discordar de autoridade
12. Abordar para relação sexual
13. Reagir a elogio
14. Falar a público conhecido
15. Lidar com críticas injustas
16. Discordar do grupo
1,52(1,930)
1,86(1,938)
0,82(1,304)
3,26(1,523)
3,32(1,491)
3,06(1,659)
17. Encerrar conversação
18. Lidar com críticas dos pais
19. Abordar autoridade
20. Declarar sentimento amoroso
21. Devolver mercadoria defeituosa
22. Recusar pedidos abusivos
0,34(0,895)
0,52(1,182)
0,86(1,107)
2,22(1,941)
3,92(0,566)
0,64(1,025)
23. Fazer pergunta a desconhecido
24. Encerrar conversa ao telefone
1,16(1,201)
0,62(1,260)
Porcentagens (%)
0e1 2 3e4
84% 0% 16%
68% 2% 30%
0% 2% 98%
20% 0% 80%
24% 0% 76%
0% 4% 96%
56% 0% 44%
78% 18% 4%
14% 74% 12%
2% 10% 88%
62% 2% 36%
50% 6% 44%
68% 22% 10%
18% 2% 80%
16% 2% 82%
22% 0% 78%
86% 10% 4%
82% 6% 12%
60% 36% 4%
44% 2% 54%
2% 0% 98%
70% 28% 2%
48% 44% 8%
78% 12% 10%
56
25. Lidar com críticas justas
3,74(0,965)
26. Pedir favores a desconhecidos
27. Expressar desagrado a amigos
28. Elogiar familiares
29. Fazer pergunta a conhecidos
30. Defender outrem em grupo
31. Cumprimentar desconhecidos
1,18(1,124)
3,54(1,261)
3,90(0,580)
3,50(1,282)
3,18(1,508)
3,82(0,873)
32. Pedir ajuda a amigos
33. Negociar uso de preservativos
34. Recusar pedido abusivo
35. Expressar sentimento positivo
36. Manter conversação
37. Pedir favores a colegas
1,74(1,882)
0,96(1,087)
1,56(1,232)
3,62(1,105)
0,98(1,040)
0,78(1,475)
6% 0% 94%
42% 56% 2%
12% 0% 88%
2% 0% 98%
12% 2% 86%
22% 2% 76%
4% 2% 94%
54% 4% 42%
54% 44% 2%
32% 58% 10%
8%
6% 86%
52% 46% 2%
76% 8% 16%
38. Lidar com chacotas
2,24(1,923)
42%
2% 56%
As pontuações médias dos itens acima variaram de um mínimo de 0,34 a 3,96. Quanto
aos resultados das porcentagens, os itens que apresentaram mais de 80% das respostas, nas
alternativas 0 (Nunca ou raramente) e 1(Com pouca frequência) foram: Manter conversa com
desconhecidos (Item 1), encerrar conversação (Item 17) e lidar com críticas dos pais (Item
18). Na alternativa de resposta 2 (Com regular frequência) nenhum item alcançou mais de
80% das respostas, sendo o maior resultado de frequência 74% no item 9 (Falar a público
desconhecido). Os itens que apresentaram mais de 80% das respostas entre as alternativas 3
(muito frequentemente) e 4 (sempre ou quase sempre) foram: Agradecer elogios (Item 3),
elogiar outrem (Item 6), expressar sentimento positivo (Item 10 e 35), lidar com críticas
injustas (Item 15), devolver mercadoria defeituosa (Item 21), lidar com críticas justas (Item
25), expressar desagrado a amigos (Item 27), elogiar familiares (Item 28), fazer perguntas a
conhecidos (Item 29) e cumprimentar desconhecidos (Item 31); já os itens que presentaram
um resultado de frequência inferior a 5% foram: Participar de conversação (Item 8), encerrar
conversação (Item 17), abordar autoridade (Item 19), recursar pedidos abusivos (Item 22),
pedir favores a desconhecidos (Item 26), negociar uso de preservativo (Item 33) e manter
conversação (Item 36).
57
5.5.2 Análise dos postos percentílicos do IHS-Del Prette pelos escores globais
A classificação do repertório de habilidades sociais dos participantes, com histórico de
AVC, em relação aos escores globais, foi realizada a partir dos dados normativos do estudo
original do IHS-Del Prette, calculado em termo de percentis (Del Prette & Del Prette, 2001).
De acordo com essa classificação, o repertório é dividido em cinco categorias de
percentis (P), a saber: 1) Indicação para treinamento de habilidades sociais (P<25); 2) Bom
repertório de habilidades sociais- baixo da média (P=25 e <50); 3) Repertório médio (P=50);
4) Bom repertório de habilidades sociais- acima da média (P>50 e <75) e 5) Repertório
bastante elaborado (P≥75). O cálculo para obtenção dos postos percentílicos, foi realizado
considerando o sexo de cada respondente, seguindo as normas do estudo original.
Foi verificado na amostra com AVC um percentual de 92% dos participantes
classificados com um bom repertório de habilidades sociais, abaixo da mediana e 8% dos
participantes classificados com um repertório deficitário de habilidades sociais. A Tabela 7
apresenta os resultados da classificação dos repertórios de habilidades sociais dos
participantes de ambos os sexos, referente ao escore global do IHS-Del Prette.
Tabela 7 - Classificação do repertório de habilidades sociais dos participantes de ambos
os sexos referente ao escore global do IHS-Del Prette
Classificação do repertório de Habilidades Sociais
IHS-Del Prette
Repertório deficitário de habilidades sociais (P<25)
Bom repertório de habilidades sociais
(Abaixo da mediana) (P=25<50)
Repertório mediano (P=50)
Bom repertório de habilidades sociais
(Acima da mediana) (P>50 <75)
Repertório bastante elaborado de habilidades
sociais (P≥75)
Total
Amostra
(n)
(%)
4
46
8%
92%
0
0
0%
0%
0
0%
50
100%
Na amostra feminina (25 participantes) foi verificado um percentual de
aproximadamente 86,5% classificadas com um bom repertório de habilidades sociais, abaixo
da mediana e aproximadamente 13,5% classificadas com um repertório deficitário de
habilidades sociais. A Tabela 8 apresenta os resultados da classificação dos repertórios de
habilidades sociais dos participantes do sexo feminino, referente ao escore global do IHS-Del
Prette.
58
Tabela 8- Classificação do repertório de habilidades sociais dos participantes do sexo
feminino referente ao escore global do IHS-Del Prette
Classificação do repertório de Habilidades Sociais
IHS-Del Prette
Amostra
(n)
Repertório deficitário de habilidades sociais (P<25)
Bom repertório de habilidades sociais
(Abaixo da mediana) (P=25<50)
Repertório mediano (P=50)
Bom repertório de habilidades sociais
(Acima da mediana) (P>50 <75)
Repertório bastante elaborado de habilidades
sociais (P≥75)
Total
(%)
3
22
± 13,5%
± 86,5%
0
0
0%
0%
0
0%
25
100%
Na amostra masculina (25 participantes), foi verificado que 98% da amostra foi
classificada em um bom repertório de habilidades sociais e 2% classificado com um repertório
deficitário dessas habilidades. A Tabela 9 apresenta os resultados da classificação dos
repertórios de habilidades sociais dos participantes do sexo masculino, referente ao escore
global do IHS-Del Prette.
Tabela 9 - Classificação do repertório de habilidades sociais dos participantes do gênero
masculino referente ao escore global do IHS-Del Prette
Classificação do repertório de Habilidades Sociais
IHS-Del Prette
Repertório deficitário de habilidades sociais (P<25)
Bom repertório de habilidades sociais
(Abaixo da mediana) (P=25<50)
Repertório mediano (P=50)
Bom repertório de habilidades sociais
(Acima da mediana) (P>50 <75)
Repertório bastante elaborado de habilidades
sociais (P≥75)
Total
5.6
Amostra
(n)
(%)
1
24
± 2%
±98%
0
0
0%
0%
0
0%
25
100%
Comparação do repertório de habilidades sociais entre indivíduos com AVC e
indivíduos sem AVC, por meio do IHS-Del Prette
Serão apresentados, a seguir, os resultados das análises dos escores globais do IHSDel Prette. Essas análises foram realizadas por meio do teste Mann Whitney, para comparar os
postos médios dos dois grupos (Grupo 1 e Grupo 2). Os resultados (U= 900,000, p= 0,016)
demonstraram que p ≤ 0,05, confirmando, mais uma vez, que houve diferença entre os grupos.
59
De forma inesperada, os participantes com histórico de AVC apresentaram um escore global
no IHS-Del Prette mais elevado que os participantes sem histórico de AVC. A Tabela 10
apresenta os resultados da análise da variável categórica histórico de AVC em relação ao
escore global do IHS-Del Prette.
Tabela 10 - Análise da variável histórico de AVC em relação ao posto médio no IHS-Del
Prette
Variável
Categoria
n
Postos Médios
Histórico de AVC
Com AVC
50
57,50
Sem AVC
50
43,50
Serão apresentados na Tabela 11 os resultados da análise do postos médios referente
às subescalas do IHS-Del Prette. As análises foram realizadas por meio do teste Mann
Whitney, e os resultados dos postos médios serão comparados entre os grupos. Os resultados
(S1: U=1079,500, p= 0,236; S3: U=1175,500, p=0,604; S5: U=992,500, p=0,060) mostram
que nas subescalas 1, 3 e 5 (Enfrentamento de risco, conversação e desenvoltura social e autocontrole da agressividade em situações aversivas respectivamente), os valores de p foram
maiores que 0,05, confirmando assim, que não houve diferença entre os grupos; já nas
subescalas 2 e 4 (Auto- afirmação na expressão de afeto positivo e auto- exposição a
desconhecidos e a situações novas respectivamente), os resultados (S2: U=606,000, p=0; S4:
U=330,500, p=0) mostraram que os valores de p foram menores que 0,05, sugerindo que
houve uma diferença entre os grupos.
Tabela 11 - Análise da variável histórico de AVC em relação aos postos médios do IHSDel Prette por subescala
Subescala
Enfrentamento com risco
(Subescala 1)
Auto- afirmação na expressão de
afeto positivo (Subescala 2)
Conversação e desenvoltura social
(Subescala 3)
Categoria
N
Postos Médios
Com AVC
50
53,91
Sem AVC
50
47,09
Com AVC
50
63,38
Sem AVC
50
37,62
Com AVC
50
51,99
Sem AVC
50
49,01
60
Auto – exposição a desconhecidos
ou a situações novas (Subescala 4)
Auto- controle da agressividade em
situações aversivas (Subescala 5)
5.7
Com AVC
50
32,11
Sem AVC
50
68,89
Com AVC
50
55,65
Sem AVC
50
45,35
Análise da relação entre o sexo e o repertório de habilidades sociais pelos escores
globais, fatoriais e por item do IHS-Del Prette na amostra de indivíduos com AVC
Aqui serão apresentados os resultados referentes a análise das diferenças entre o sexo
com base nos escores globais, por subescala e por item no IHS-Del Prette para a amostra com
AVC. As análises foram realizadas por meio do teste Mann Whitney. Os resultados do teste de
Mann Whitney para os escores globais no IHS-Del Prette (U=246,500, p=0,200) mostraram
que a diferença entre os escores globais das amostras feminina e masculina não é
estatisticamente significativa.
Os resultados do teste considerando os escores por subescala mostraram que, não
houve uma diferença estatisticamente significativa entre os escores por subescalas nas
amostras feminina e masculina, exceto pela subescala 4 (exposição a desconhecidos ou
situações novas), onde a amostra masculina apresentou um escore significativamente maior
que a feminina (S1: U=297,00, p=0,756; S2: U=307,00, p=0,908; S3: U=306,00, p=0,897;
S4: U=175,00, p=0,006; S5: U=302,00, p=0,832). A Tabela 12 apresenta os resultados da
análise, entre os sexos, dos escores global e por subescala no IHS-Del Prette.
Tabela 12 - Análise dos postos médios do IHS-Del Prette por subescala entre os sexos
Subescala
Escore Global IHS-Del Prette
Enfrentamento com risco
(Subescala 1)
Auto- afirmação na expressão de
afeto positivo (Subescala 2)
Conversação e desenvoltura social
(Subescala 3)
Sexo
Postos Médios
Feminino
22,86
Masculino
28,14
Feminino
24,88
Masculino
26,12
Feminino
25,72
Masculino
25,28
Feminino
25,24
Masculino
25,76
61
Auto – exposição a desconhecidos
ou a situações novas (Subescala 4)
Auto- controle da agressividade em
situações aversivas (Subescala 5)
Feminino
20,00
Masculino
31,00
Feminino
25,92
Masculino
25,08
Quanto aos resultados na análise por itens, a análise mostrou que a amostra feminina
apresentou valores médios maiores que a amostra masculina nos itens 11 (Discordar de
autoridade), 23 (Fazer pergunta a desconhecidos), 24 (Encerrar conversa ao telefone) e 33
(Negociar o uso de preservativo). Já a amostra masculina apresentou valores médios
significativamente maiores que a amostra feminina nos itens 12 (Abordar para relação
sexual), 18 (Lidar com crítica dos pais), 20 (Declarar sentimento amoroso) e 32 (Pedir ajuda a
amigos). Esses resultados indicam que a amostra masculina, de forma geral, obteve melhores
resultados na avaliação de suas habilidades sociais. A Tabela 13 apresenta os resultados da
análise por item entre os sexos no IHS-Del Prette.
Tabela 13 - Análise dos postos médios por item entre os sexos
Postos médios sexo
feminino
Postos médios sexo
masculino
1. Manter conversas com desconhecidos
2. Pedir mudança de conduta
3. Agradecer elogios
4. Interromper a interrupção do outro
5. Cobrar dívida de amigo
6. Elogiar outrem
26,50
26,36
26,00
25,50
24,50
25,50
24,50
24,64
25,00
25,50
26,50
25,50
7. Apresentar-se a outra pessoa
8. Participar de conversação
9. Falar a público desconhecido
10. Expressar sentimento positivo
11. Discordar de autoridade
12. Abordar para relação sexual*
13. Reagir a elogio
14. Falar a público conhecido
15. Lidar com críticas injustas
16. Discordar do grupo
17. Encerrar conversação*
18. Lidar com críticas dos pais
19. Abordar autoridade
25,50
26,96
26,88
27,52
28,60
21,68
25,50
24,04
24,12
23,48
22,40
29,32
26,06
25,70
26,10
26,70
28,04
23,82
24,94
25,30
24,90
24,30
22,96
27,18
25,90
19,98
25,10
31,02
Item
20. Declarar sentimento amoroso*
62
21. Devolver mercadoria defeituosa
22. Recusar pedidos abusivos
23. Fazer pergunta a desconhecido*
24. Encerrar conversa ao telefone
25. Lidar com críticas justas
26. Pedir favores a desconhecidos
27. Expressar desagrado a amigos
28. Elogiar familiares
29. Fazer pergunta a conhecidos
30. Defender outrem em grupo
31. Cumprimentar desconhecidos
32. Pedir ajuda a amigos
33. Negociar uso de preservativos*
34. Recusar pedido abusivo
35. Expressar sentimento positivo
36. Manter conversação
37. Pedir favores a colegas
38. Lidar com chacotas
26,00
25,16
30,58
28,16
25,46
27,26
25,06
25,52
24,96
24,88
24,52
21,84
29,16
27,64
21,12
27,22
24,32
26,88
25,00
25,84
20,42
22,84
25,54
23,74
25,94
25,48
26,04
26,12
26,48
29,16
21,84
23,36
26,88
23,78
26,68
24,12
*Itens em que a diferença entre os sexos foi estatisticamente significativa.
5.8
Análise da relação entre idade e o repertório de habilidades sociais pelos escores
globais no IHS-Del Prette, na amostra com AVC
Aqui serão apresentados os resultados referentes a análise das diferenças entre idade e
o repertório de habilidades sociais, com base nos escores globais no IHS-Del Prette. A
referida análise foi realizada, na amostra de participantes com AVC por meio do teste de
Spearman. Os resultados do teste de Spearman (ρ=0,114, p=0,430) mostraram que não existe
relação entre a variável idade e os escores globais no IHS-Del Prette.
5.9
Análise da correlação entre escores globais do MEEM e os escores globais e
fatoriais do IHS-Del Prette
Aqui será apresentado o resultado da análise da relação entre o estado cognitivo,
avaliado através do MEEM, e os escores globais e fatoriais no IHS-Del Prette. A análise de
correlação foi realizada por meio do teste de Spearman. Relativo a essa relação, os resultados
mostraram que tanto a relação dos resultados do MEEM com os escores globais, quanto com
os escores fatoriais, não foi significativa, pois apesar de as correlações apresentarem um valor
de ρ moderado, nenhum dos resultados apresentou significância estatística (Escore global:
ρ=0,214, p=0,135; S1: ρ=0,054, p=0,710; S2: ρ=0,276, p=0,052; S3: ρ=0,126, p=0,383; S4:
ρ=0,058, p=690; S5: ρ=0,072, p=0,619). Esses resultados indicam que o estado cognitivo,
63
nesta amostra, não influenciou nos resultados da escala de habilidades sociais, em seu
conteúdo global e por subescala.
64
6
DISCUSSÃO
A ordem de apresentação da presente sessão considerará a ordem de apresentação da
sessão de Resultados. Primeiro, serão discutidos os resultados referentes à descrição da
amostra estudada. Em seguida, serão realizadas considerações acerca a equivalência entre os
grupos estudados. Adiante, se seguirão as considerações sobre o estado cognitivo dos
participantes com AVC. Em seguida, serão discutidas as análises por item e por postos
percentílicos no IHS-Del Prette, que possibilitou a identificação da classificação do repertório
de habilidades sociais de indivíduos que sofreram AVC, propiciando também a comparação
dos resultados desses participantes com a amostra normativa e com o Grupo 2 do presente
estudo. No momento seguinte, serão tecidas considerações sobre as diferenças entre os
grupos, no que tange o desempenho global e por subescalas no IHS-Del Prette, investigação
cujos resultados nos forneceram subsídios para inferir sobre a associação existente entre lesão
cerebral por AVC e déficits e recursos em habilidades sociais Serão também realizadas
considerações sobre as diferenças entre sexo, idade e o repertório de habilidades sociais e por
fim considerações sobre a relação entre os escores globais no MEEM e os escores globais e
fatoriais no IHS-Del Prette.
A amostra estudada, em sua maioria (60%) relata não exercer atividade laboral. Desse
montante, 18% tem fonte de renda em aposentadoria, 19% em auxílio doença, 6% em pensão
e 17% não tem fonte de renda declarada, mas recebe auxílio de amigos e parentes. Os 40%
restante da amostra, que exercem alguma atividade laboral, fizeram parte do Grupo 2 desse
estudo, ou seja, participantes sem AVC.
Esses dados são condizentes com os estudos de Mosh et al (2005) e Teasdale e
Engberg (2005), que encontraram nos resultados de seus estudos, que indivíduos que sofreram
AVC, frequentemente apresentam piores resultados no componente do funcionamento social
intitulado “status de emprego”, sendo que apenas uma pequena parcela de indivíduos que
antes do AVC desenvolviam alguma atividade laboral, retomando os “papéis sociais” depois
do AVC (PLANTE, et al. 2016).
Os papéis sociais são culturalmente determinados e envolvem padrões de
comportamentos esperados pelo grupo social (ou autoatribuídos) no exercício de
determinadas funções em contextos e atividades específicas. Excetuando-se, nesses casos,
alguns papéis sociais que desempenham um caráter complementar, como é o caso das
relações pai-filho, esposo-esposa, professor-aluno, que podem ser norteados por padrões
estabelecidos pelos pares envolvidos (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2017). Dessa forma, no
65
que tange à retomada de papéis sociais após AVC, a amostra estudada apresenta resultados
que merecem atenção, considerando que o desempenho competente em determinados papéis
sociais pode ser fundamental para a realização e o bem-estar no envolvimento em tarefas
interpessoais.
Os resultados da análise de equivalência entre os grupos mostraram que, no tocante ao
sexo dos participantes do estudo, não houve um diferença significativa entre os grupos, o que
sugere que eles são equivalentes. Em contrapartida, nas variáveis idade e escolaridade, os
resultados mostraram que há uma diferença significativa entre os grupos, sendo o grupo com
AVC foi composto por participantes mais velhos e o grupo sem AVC foi composto por
participantes mais novos. Quanto à escolaridade, os participantes do grupo com AVC
apresenta-se como mais escolarizado que o grupo sem AVC. Essa diferença entre os grupos
no tocante à idade e escolaridade pode ser explicada pelo fato de que, as idades exatas e o
grau de escolaridade dos participantes do grupo com AVC, assim como detalhes de seus
tratamentos, só foram conhecidas no momento das entrevistas e da aplicação dos instrumentos
de pesquisa. A escolha dos participantes do grupo sem AVC se deu antes do conhecimento
dos dados sociodemográficos dos participantes com AVC, para atender a uma demanda
burocrática de autorização da realização do presente estudo junto ao comitê de ética em
pesquisa, que exige a descrição minuciosa de todos os participantes do estudo. Em suma, a
pesquisadora não teve controle prévio das duas variáveis mencionadas.
Com relação à avaliação cognitiva, realizada por meio do Mini Exame do Estado
Mental (MEEM), em sua versão adaptada (BERTOLOCCI et al, 1994), a maior parte da
amostra com AVC (94%) apresentou escores acima da média, sugerindo que não exibem
indícios de comprometimento cognitivo. Em relação aos 6% que apresentaram escores abaixo
da média, é importante frisar que esses participantes não foram excluídos do estudo por
apresentarem, de forma geral, condições cognitivas suficientes para responder à escala de
avaliação de habilidades sociais. Porém esses participantes tiveram seus escores rebaixados
por não terem tido condições de desempenhar atividades que requeriam habilidades motoras
ainda prejudicadas pelo insulto cerebral, mas que não afetariam seus desempenhos na
avaliação das habilidades sociais.
Esse resultado vai de encontro ao estudo de Teasdale e Engberg (2005), cujo resultado
indicou que os níveis de dificuldades cognitivas e emocionais de indivíduos após AVC foram
elevados e crônicos. A divergência entre os resultados pode se dever a utilização de diferentes
instrumentos, sendo nesse estudo utilizado um instrumento específico para avaliação de
66
habilidades cognitivas, em contraposição ao estudo de Teasdale e Engberg (2005), cujo
instrumento compreendia declarações relativas a problemas vivenciados no dia a dia, após o
episódio de AVC. De acordo com os referidos autores, os danos a longo prazo de
comprometimentos em habilidades cognitivas são grandes, pois estão para além de déficits em
componentes cognitivos como atenção e memória, mas afetam o controle emocional, que
acarretaria o que eles nomearam de problemas psicossociais, que dizem respeito a capacidade
de manejar relações pessoais satisfatórias. Se espera que indivíduos que tenham sofrido danos
cognitivos, tragam consigo dificuldades na habilidade social de manejo de conflitos e
resolução de problemas interpessoais, pois não mais teriam autocontrole frente a indicadores
emocionais de um problema.
O repertório de habilidades sociais foi avaliado considerando os escores por item, por
subescala e escores globais atingidos pelos participantes no IHS-Del Prette. Na análise dos
escores obtidos pelos participantes em cada item do instrumento. Entre os itens de resposta 0
e 1 que obtiveram maiores resultados, mais de 80% de frequência, estão os itens 1 e 18, que
dizem respeito a “manter conversas com desconhecidos” e “lidar com críticas do pais”
respectivamente. Sugerindo que a maior parte da amostra apresentou piores indicadores nos
referidos itens. De forma prática, esses resultados indicam que esses indivíduos podem
apresentar dificuldades fazer novas amizades ou no trato com familiares por demonstrar não
dominar a habilidade de lidar com críticas.
Entre os itens de resposta 3 e 4 que obtiveram mais de 80% de frequência, estão os
itens 21 e 27, sugerindo que grande parte dos participantes com AVC apresentaram bons
indicadores nos itens “devolver mercadorias defeituosas” e “expressar desagrado a amigos”.
Esses resultados podem indicar que esses indivíduos tem condições de defender seus direitos
em uma situação em que se sintam lesados de alguma forma, como também questionar,
discordar e expressar quando estiverem em desacordo com comportamentos emitidos por
outrem.
Na comparação entre os grupos (com e sem AVC) com base nas subescalas 1
(Enfrentamento com risco), 3 (Conversação e desenvoltura social) e 5 (Auto- controle da
agressividade em situações aversivas), os resultados evidenciaram que não houve diferenças
estatisticamente significativas entre os resultados dos dois grupos. Esses resultados indicam
que tanto os participantes do Grupo 1, quanto os do Grupo 2, apresentaram igualmente bons
indicadores de habilidades assertivas, habilidades de comunicação e da habilidade de manejar
conflitos e resolver problemas interpessoais respectivamente.
67
Esses resultados contrariam os achados de Kwork et al (2006), que investigaram
determinantes da qualidade de vida relacionada à saúde durante o primeiro ano após o AVC e
encontraram que durante o primeiro ano após o insulto, foi relatado pelos participantes que
após o AVC houve uma diminuição nas interações sociais, o que os fez colocarem-se na
posição de psicologicamente desajustados, tornado suas reinserções na sociedade ainda mais
problemáticas.
Na subescala 2 (Auto- afirmação na expressão de afeto positivo) os resultados
mostraram que houve uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos sendo que,
os escores médios do Grupo 1 (participantes com AVC) foram maiores que o do Grupo 2
(participantes sem AVC). Esse resultado sugere que os participantes do Grupo 1 apresentaram
melhores indicadores da habilidade de fazer e manter amizade e da habilidade de expressar
solidariedade, em contraposição aos resultados do Grupo 2, que apresentou piores indicadores
nessas mesmas habilidades.
Esse resultado pode ser reflexo do caráter situacional-cultural das relações
interpessoais, pois os dois grupos que compuseram a amostra desse estudo, apesar de
salvaguardarem características socioeconômicas semelhantes, trouxeram em suas respostas ao
inventário suas cargas e experiências pessoais, que regem as normas e valores que esses
compartilham, e como é sabido, os comportamentos fruto dessas experiências são
dependentes do contexto em que são apresentados e dos interlocutores presentes. É possível
considerar que esse resultado possa se dever a uma avaliação do bem-estar subjetivo
(SCHAFER; OLIVEIRA-MENEGOTTO; TESSER, 2010), com base em critérios pessoais,
feita pelo próprio indivíduo que sofreu AVC quanto a sua vida no pós insulto. Afinal, um
AVC, ainda que leve, acarreta alguma dependência, por parte do doente, de cuidados
especiais, e a expressão de afetos positivos, pode ser a maneira que esses indivíduos
encontraram de assegurar esses cuidados, o que uma pessoa “sã” e independente não teria a
necessidade de fazer.
Na subescala 4 (Auto- exposição a desconhecidos ou a situações novas) os resultados
também mostraram que houve uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos.
Os participantes do Grupo 2 obtiveram maiores escores médios que os participantes do Grupo
1. Essa habilidade diz respeito basicamente à abordagem a pessoas desconhecidas. Esse
resultado nos sugere que nessa habilidade, especificamente, os participantes do Grupo 1
apresentaram um desempenho mais comprometido. Esse resultado confirma os achados
Driscoll et al (2015), que aponta que indivíduos expostos à condições neurológicas, como o
68
AVC, frequentemente apresentam dificuldades de relacionamento, assim como foi
evidenciado pelos resultados do grupo com AVC.
As sequelas provenientes do AVC, sejam elas motoras ou cognitivas, são a
concretização de uma processo de perda e lidar com a frustração de ter perdido as capacidades
é bastante difícil. Ao lidar com as perdas e com as mudanças de rotina que elas acarretam
vários sentimentos são gerados e os sentimentos de inutilidade e fracasso são recorrentes.
Esse resultado traz à tona o discurso mais recorrente entre os indivíduos que sofreram AVC
da amostra desse estudo. Esses sentem-se à margem da sociedade por, em muitos casos, não
terem condições de desempenhar tarefas simples e rotineiras. A reclusão, o distanciamento,
pode ser entendido como uma forma de fugir da exclusão que lhes foi imposta pelas sequelas
do AVC. Então, se expor, de forma geral, já lhes é incomodo, e se expor a situações e pessoas
novas pode ser ainda mais desconfortável.
Os resultados das análises por postos percentílicos do IHS-Del Prette, obtida por meio
dos escores globais individuais, mostraram que os repertórios da amostra de participantes com
AVC apresentaram baixa porcentagem (8%) na classificação “Repertório deficitário de
habilidades sociais”, estando a maior parte (92%) da amostra classificada no “Bom repertório
de habilidades sociais (Abaixo da média)”. O cálculo para obtenção dos postos percentílicos,
foi realizado considerando o sexo de cada respondente, dessa forma, foram observados os
resultados da amostra de participantes com AVC e da referida amostra por sexo. Foi
verificado na amostra masculina, composta por 25 participantes, que apenas 2% se enquadrou
na classificação “Repertório deficitário de habilidades sociais”. Na amostra feminina, também
composta por 25 participantes, o percentual na mesma classificação subiu para
aproximadamente 13,5%. Esses resultados sugerem os indivíduos com AVC, participantes
desses estudo, apresentaram, ainda que sutilmente, prejuízo em seu repertório de habilidade
sociais, pois apesar de a maior parte da amostra com AVC se posicionar no “Bom repertório
de habilidades sociais”, esses se posicionaram abaixo da média.
Na comparação entre os grupos (com e sem AVC) com base nos escores globais
obtidos pelos participantes, os resultados mostraram que houve uma diferença
estatisticamente significativa entre os grupos, porém de forma inesperada, os participantes do
Grupo 1 apresentaram escores globais maiores que os participantes do Grupo 2. Esse
resultado sugere que os participantes do Grupo 1 demonstram possuir repertórios de
habilidades sociais mais elaborados que os participantes do Grupo 2.
69
Esses resultados estão em desacordo com os resultados encontrados por Anderson e
outros (2014) e Lo e outros (2014), cujos estudos, concluem que após o insulto cerebral,
crianças apresentaram maior comprometimento no ajuste e participação social quando
comparadas a controles saudáveis. É importante salientar que, a literatura consultada, é
composta, predominantemente, por investigações sobre habilidades sociais após AVC
pediátrico. A divergência de resultados aqui encontrada pode se dever a faixa etária da
amostra utilizada no presente estudo. Os estudos supracitados, dizem respeito à investigações
sobre os danos residuais do AVC sobre as habilidades sociais/competência social em crianças,
diferentemente do presente estudo, cuja amostra é composta por adultos. Outro fator a ser
considerado é que instrumentos de autoavaliação foram utilizados nos estudos de revisão e no
presente estudo. Nos estudos revisados foram utilizadas variadas formas de avaliação, mas
sobretudo, foram utilizados instrumentos específicos para aferição do comportamento e da
participação social em crianças. Em contrapartida, no presente estudo não foi utilizado um
instrumento de medida específico para avaliação de habilidades sociais em indivíduos com
histórico de AVC. A utilização de um instrumento que não considerou a especificidade da
amostra fez-se necessária, devido à escassez de instrumentos validados e/ou disponíveis para
uso geral para uma avaliação específica das habilidades sociais de indivíduos com histórico de
insulto cerebral por AVC.
A análise da relação entre sexo e o repertório de habilidades sociais, realizada com os
participantes com AVC, mostrou que não houve uma diferença estatisticamente significativa
entre os participantes do sexo masculino e participantes do sexo feminino nos escores globais
do IHS-Del Prette. Quanto aos escores por subescala, os resultados não indicaram uma
diferença estatisticamente significativa entre os participantes das duas amostras, exceto nos
resultados da subescala 4 (Auto- exposição a desconhecidos ou situações novas), em que os
escores apresentados pela amostra masculina foram significativamente maiores, o que sugere
que os homens demonstram um maior domínio da habilidade comunicativa a desconhecidos e
situações novas.
A análise dos itens mostrou que os participantes do sexo feminino apresentaram
valores médios significativamente maiores que os participantes da amostra masculina nos
itens 11, 24 e 33, que basicamente fazem referência às habilidades assertivas. Os participantes
da amostra masculina apresentaram valores médios significativamente maiores que os
apresentados pela amostra feminina nos itens 12, 20 e 32, que se referem basicamente às
habilidades de expressão de afeto e intimidade (namoro/sexo). Esses resultados sugerem que
70
os homens apresentaram, em componentes específicos, um repertório mais elaborado de
habilidades sociais que as mulheres. Os resultados aqui encontrados confirmam os achados do
grupo amostral de referência do IHS- Del Prette, que apontou que os indicadores de auto
relato de habilidades sociais indicaram que os homens apresentaram um repertório de
habilidades sociais mais elaborado que as mulheres (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2001). A
análise da associação entre idade e o repertório de habilidades sociais, com base nos
resultados dos escores globais dos participantes, mostrou que não houve uma associação
significativa entre a idade e o repertório de habilidades sociais auto- relatado.
No que diz respeito a avaliação da relação entre o estado cognitivo, avaliado por meio
dos escores globais do MEEM, e o repertório de habilidades sociais, avaliada por meio do
IHS-Del Prette, dos participantes com AVC, os resultados mostraram que tanto para os
escores globais, como para os fatoriais (por subescala) a correlação não foi significativa, em
outras palavras, os resultados obtidos pelos participantes na escala de habilidades sociais, não
teve relação com o estado cognitivo desses participantes. Esses resultados estão em desacordo
com literatura consultada, que considera, que em situações normais, os processos cognitivos
interagem uns com os outros e com processos não cognitivos (STERNBERG, 2010) e o
processamento de informação, comum a toda ação racional, é permeado pelo que Del Prette
(1999) denomina de percepção social, essencial à escolha de comportamentos adequados a
variadas situações sociais, por conseguinte, contribuindo para desempenhos mais elaborados
de habilidades sociais. Nesse sentido, o presente estudo esperava que os estados cognitivos
dos participantes mantivessem relação com os repertórios de habilidades sociais dos mesmos.
71
7
LIMITAÇÕES E PESQUISAS FUTURAS
Apesar de salvaguardar questões éticas e metodológicas, o presente estudo apresentou
algumas limitações. Primeiro, ainda que este tenha sido realizado em duas instituições
especializadas em reabilitação, alguns critérios de inclusão, como a imposição de uma faixa
etária, dificultou a adesão de possíveis participantes ao estudo. Segundo, a pequena
quantidade de participantes limita a generalização dos resultados. Terceiro, os instrumentos de
medida aqui utilizados, apresentam qualidades psicométricas satisfatórias, porém não são
direcionados para a população do presente estudo, que possui uma característica específica, a
lesão cerebral adquirida. Outra questão quanto ao instrumento de medida utilizado é que a
amostra normativa do referido instrumento foi composta por indivíduos mais jovens e de
maior escolaridade (estudantes universitários) que a amostra do presente estudo. A
experiência do uso desse instrumento em populações adultas e idosas (DI DOMENICOGRAZZIOTIN; SCORTGAGNA, 2016), se mostrou satisfatória, não alterando suas
propriedades psicométricas. Um instrumento direcionado à população do presente estudo
poderia produzir resultados mais precisos. Ainda sobre limitações encontradas no instrumento
de medida, foi que os resultados obtidos para a comparação entre os dois grupos (com e sem
AVC) podem ser resultantes da forma de aplicação do instrumento utilizado. As questões, do
referido instrumento, foram lidas pela pesquisadora e a orientação sobre a possibilidade de se
manifestar sobre o não entendimento de algum termo em alguma questão foi dada antes do
início da aplicação do instrumento. Foi observado, no momento da aplicação, que surgiram
um número considerável de dúvidas quanto a algumas questões do inventário, sugerindo que,
talvez, esses resultados possam ser explicados pelo fato de que a aplicação do IHS-Del Prette
no Grupo 2 foi realizada de forma coletiva. Talvez, outras dúvidas tenham surgido quanto a
algumas questões do inventário e não tenham sido sanadas pela suposição de uma situação
constrangedora frente aos pares e à própria pesquisadora.
Por fim, a ausência de estudos teóricos e empíricos na literatura consultada, tanto na
língua portuguesa, quanto em línguas estrangeiras, sobre habilidades sociais na população
aqui estudada, dificultou uma discussão mais elaborada acerca dos resultados apresentados.
Por outro lado, essa lacuna na literatura evidencia as possibilidades de estudos a serem
realizados sobre as relações entre habilidades sociais e lesões encefálicas.
Uma questão, que não foi alvo de investigação no presente estudo, mas que surgiu no
decorrer do processo de coleta dos dados, foi o alto índice de tratamento medicamentoso para
o diagnóstico de ansiedade e depressão na amostra estudada. A depressão e a ansiedade, como
72
supracitado, são fatores de risco para o surgimento de problemas de comportamentos tanto
internalizantes como externalizantes. Não foi estudada a relação entre as habilidades sociais e
os referidos diagnósticos, mas o estudo dessa relação seria de grande valia, pois de acordo
com Del Prette e Del Prette (2017), os déficits em habilidades sociais estão, de forma geral,
associados a problemas e transtornos psicológicos específicos, dentre eles a ansiedade e a
depressão, por esse motivo são reconhecidos como fatores de risco para o funcionamento
psicossocial.
Apesar dessas limitações e devido à escassez de pesquisas sobre a temática, os
resultados do presente estudo forneceram informações e questionamentos relevantes sobre o
repertório
de
habilidades
sociais
de
indivíduos
que
sofreram
AVC.
73
8
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Objetivou-se com esse estudo, caracterizar o repertório de habilidades sociais de
indivíduos que sofreram AVC e verificar a relação com algumas variáveis, como estado
cognitivo, sexo, idade e escolaridade. Para tanto, procederam-se a análises descritivas,
comparações entre grupos e correlações, compreendendo-se que os objetivos aqui propostos
foram alcançados.
Os
resultados
deste
estudo
permitiram
obter
informações
e
suscitaram
questionamentos sobre o repertório de habilidades sociais na população alvo do estudo. Os
resultados sugerem que, de forma geral, o AVC acarretou prejuízo ao repertório de
habilidades sociais da amostra estudada, porém esse prejuízo foi percebido como bastante
sutil, o que contraria a literatura que aponta déficits de moderados a graves. Os resultados das
análises comparativas entre os dois grupos mostraram que de forma inesperada, os
participantes com AVC demostraram possuir repertórios de habilidades sociais menos
prejudicados que os participantes sem AVC. Esses resultados são, provavelmente, reflexo do
tamanho e das características amostra, dada sua especificidade, ou ainda da falta de um
instrumento de medida das habilidades sociais voltado à população alvo desse estudo. No
tocante aos resultados das análises comparativas entre os sexos, realizada entre os
participantes com histórico de AVC, os resultados mostraram que os homens apresentaram
melhores indicadores em alguns componentes de habilidades sociais específicas que o das
mulheres, confirmando, assim, os resultados do grupo amostral de referência do IHS- Del
Prette (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2001). Quanto aos resultados da relação entre o estado
cognitivo e os repertórios da habilidades sociais, é sugerido que o resultado do primeiro não
se relacionou com os resultados do segundo.
Os resultados aqui apresentados, salientam a importância de estudos que tenham por
objetivo a elaboração de instrumentos específicos de habilidades sociais para a população
alvo, assim como sua utilização em amostras maiores, para que seus resultados sejam mais
facilmente generalizáveis.
74
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de 2017.
77
APÊNDICE
APÊNDICE A- Anamnese
ANAMNESEROTEIRO DE ENTREVISTA PARA AVALIAÇÃO CLÍNICA
Data da realização da anamnese/testes: _________ Examinador: ______________________
1- DADOS DE IDENTIFICAÇÃO
Nome:_____________________________________________________________________
Data de nascimento:___________________ Idade:______ Sexo:_______________________
Escolaridade:___________________ Estado civil:__________________________________
2- HISTÓRICO CLÍNICO
Doença crônica: ( ) Sim ( ) Não Qual:_________________________________________
Uso de medicamentos: ( ) Sim ( ) Não
Qual(is):___________________________________________________________________________________
____________________________________________________________
Casos de internação: ( ) Sim ( ) Não
Ocasião:____________________________________________________________________
Sintomas físicos e/ou psicológicos: ( ) Sim ( ) Não
Qual(is):___________________________________________________________________________________
____________________________________________________________
Uso de bebida alcoólica e/ou outras drogas: ( ) Sim ( ) Não
Qual(is):____________________________________________________________________
3- HISTÓRICO FAMILIAR/SOCIAL
Composição familiar:
__________________________________________________________________________________________
____________________________________________________________
Renda familiar aproximada:_____________________________________________________
Rede de apoio________________________________________________________________
Hábitos de lazer:______________________________________________________________
Inserção em grupos:___________________________________________________________
78
ANEXOS
ANEXO A- Inventário de Habilidades Sociais (IHS- Del Prette)
(Os itens do inventário não foram anexados para não violar os direitos autorais)
79
ANEXO B - Mini Exame do Estado Mental (MEEM)
Funções cognitivas
Orientação temporal
1. Qual é o/a
Pontos Escores
Dia?
1
Mês?
1
Ano?
1
Dia da semana?
1
Hora?
1
Local (prédio)?
1
Local (cômodo)?
1
Bairro ou rua próxima?
1
Cidade?
1
Estado?
Memória imediata
3. Eu vou dizer três palavras (carro, vaso e tijolo) e você irá repeti-las a
seguir. Dê um ponto para cada palavra repetida acertadamente na 1ª vez,
embora possa repeti-la 3 vezes para aprendizado, se houver erros. Use
palavras não relacionadas.
Cálculo
4. Subtração de setes seriadamente. Considere um ponto para cada
resultado correto. Se houver erro, corrija-o e prossiga. Considere correto
se o examinado espontaneamente se auto-corrigir.
Evocação de palavras
5. Pergunte quais as palavras que o sujeito acabara de repetir. Atribua um
ponto para cada acerto.
Linguagem
6. Aponte para um lápis e um relógio. Peça-o para nomear os objetos
mostrados.
7. Faça o paciente repetir “Nem aqui, nem ali, nem lá.”
8. Faça o paciente seguir o comando de três estágios: “Pegue este papel
com a mão direita. Dobre-o ao meio. Coloque-o no chão.”
9. Mostre a frase “FECHE OS OLHOS” e faça-o obedecer o comando.
10. Faça o paciente escrever uma frase de sua própria autoria (Deve-se
compreender o significado. Ignore erros de ortografia ao pontuar).
Capacidade construtiva visual
11. Faça o paciente copiar o desenho o melhor possível. Estabeleça um
ponto se houver 2 pentágonos intersecionados (10 ângulos) formando uma
figura de quatro lados ou com dois ângulos.
1
Total
30
Orientação espacial
2. Onde estamos
3
5
3
2
1
3
1
1
1
80
ANEXO C- TCLE Grupo 1
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (T.C.L.E.) – Grupo 1
Você está sendo convidado(a) a participar do projeto de pesquisa Relação entre Habilidades Sociais e
Acidente Vascular Cerebral em adultos, dos pesquisadores Mariana de Almeida Andrade. A seguir, as
informações do projeto de pesquisa com relação a sua participação neste projeto:
1. O estudo se destina a investigar a possível relação entre acidente vascular cerebral e déficits nas habilidades
sociais em adultos.
2. A importância deste estudo é a de possibilitar a construção de estratégias de treinamento que visem
promover uma melhor convivência entre indivíduos lesionados e familiares, auxiliando na atenuação dos
déficits associados a tais lesões.
3. Os resultados que se desejam alcançar são os seguintes: Em se comprovando a hipótese de estudo, que este
possa contribuir para a construção de políticas públicas que visem o acolhimento de indivíduos lesionados e
suas famílias.
4. A coleta de dados começará em julho de 2017 e terminará em novembro de 2017.
5. O estudo será feito da seguinte maneira: Cada participante responderá inicialmente um questionário com
questões sobre seu estado clínico, em seguida será aplicado o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) e por
fim, será aplicado o Inventário de Habilidades Sociais (IHS). O tempo de aplicação será de aproximadamente
30-40 minutos por participante. Após a aplicação do questionário, do teste e do inventário, os resultados serão
analisados e futuramente publicados.
6. A sua participação será nas seguintes etapas: Aplicação do questionário de questões sobre seu estado
clínico; na aplicação do Mini Exame do Estado Mental (MEEM) e por fim na aplicação do Inventário de
Habilidades Sociais (IHS).
7. Os incômodos e possíveis riscos à sua saúde física e/ou mental são: Tais riscos e incômodos são mínimos,
por não se tratar de procedimentos invasivos, como por exemplo procedimentos cirúrgicos ou com uso de
medicamentos.
8. Os benefícios esperados com a sua participação no projeto de pesquisa, mesmo que não diretamente são:
Sua contribuição para uma atenção diferenciada e sensível às necessidades de pessoas, que como você
sofreram acidente vascular cerebral e possam apresentar alguma mudança nas habilidades sociais.
9. Você poderá contar com a seguinte assistência: Se sentir algum desconforto em relação a algum
procedimento desse estudo, você poderá procurar a pesquisadora, que poderá encaminhá-lo ao Serviço de
Psicologia Aplicada da Universidade Federal de Alagoas (SPA-UFAL).
10. Você será informado(a) do resultado final do projeto e sempre que desejar, serão fornecidos
esclarecimentos sobre cada uma das etapas do estudo.
11. A qualquer momento, você poderá recusar a continuar participando do estudo e, também, que poderá
retirar seu consentimento, sem que isso lhe traga qualquer penalidade ou prejuízo.
12. As informações conseguidas através da sua participação não permitirão a identificação da sua pessoa,
exceto para a equipe de pesquisa, e que a divulgação das mencionadas informações só será feita entre os
profissionais estudiosos do assunto após a sua autorização.
81
13. O estudo não acarretará nenhuma despesa para você.
14. Você será indenizado(a) por qualquer dano que venha a sofrer com a sua participação na pesquisa (nexo
causal).
15. Você receberá uma via do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado por todos.
Eu ................................................................................................................................, tendo compreendido
perfeitamente tudo o que me foi informado sobre a minha participação no mencionado estudo e estando
consciente dos meus direitos, das minhas responsabilidades, dos riscos e dos benefícios que a minha
participação implicam, concordo em dele participar e para isso eu DOU O MEU CONSENTIMENTO SEM
QUE PARA ISSO EU TENHA SIDO FORÇADO OU OBRIGADO.
Endereço d(os,as) responsáve(l,is) pela pesquisa:
Instituição: Universidade Federal de Alagoas- UFAL
Endereço: Condomínio Residencial Central Park, Nº 420, Antares.
Complemento: Bloco 4, Apt. 103.
Cidade/CEP: Maceió/ 57083-050
Telefone: (82) 98815-8711
Ponto de referência: Shopping Pátio Maceió
Contato de urgência: Sr(a). Mariana de Almeida Andrade
Endereço: Condomínio Residencial Central Park, Nº 420, Antares.
Complemento: Bloco 4, Apt. 103.
Cidade/CEP: Maceió/ 57083-050
Telefone: (82) 98815-8711
Ponto de referência: Shopping Pátio Maceió
ATENÇÃO: O Comitê de Ética da UFAL analisou e aprovou este projeto de pesquisa. Para obter mais
informações a respeito deste projeto de pesquisa, informar ocorrências irregulares ou danosas durante a sua
participação no estudo, dirija-se ao:
Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas
Prédio da Reitoria, 1º Andar, Campus A. C. Simões, Cidade Universitária
Telefone: 3214-1041 – Horário de Atendimento: das 8:00 as 12:00hs.
E-mail: comitedeeticaufal@gmail.com
Maceió,
de
de 2017.
Assinatura ou impressão d(a,o)
voluntári(o,a)
Mariana de Almeida Andrade
(Mestranda- PPGP/UFAL)
82
ANEXO D- TCLE Grupo 2
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (T.C.L.E.) – Grupo 2
Você está sendo convidado(a) a participar do projeto de pesquisa Relação entre Habilidades Sociais e
Acidente Vascular Cerebral em adultos, dos pesquisadores Mariana de Almeida Andrade. A seguir, as
informações do projeto de pesquisa com relação a sua participação neste projeto:
1. O estudo se destina a investigar a possível relação entre acidente vascular cerebral e déficits nas habilidades
sociais em adultos.
2. A importância deste estudo é a de possibilitar a construção de estratégias de treinamento que visem
promover uma melhor convivência entre indivíduos lesionados e familiares, auxiliando na atenuação dos
déficits associados a tais lesões.
3. Os resultados que se desejam alcançar são os seguintes: Em se comprovando a hipótese de estudo, que este
possa contribuir para a construção de políticas públicas que visem o acolhimento de indivíduos lesionados e
suas famílias.
4. A coleta de dados começará em julho de 2017 e terminará em novembro de 2017.
5. O estudo será feito da seguinte maneira: Cada participante responderá inicialmente um questionário com
questões sobre seu estado clínico, em seguida será aplicado o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) e por
fim, será aplicado o Inventário de Habilidades Sociais (IHS). O tempo de aplicação será de aproximadamente
25-35 minutos por participante. Após a aplicação do questionário, do teste e do inventário, os resultados serão
analisados e futuramente publicados.
6. A sua participação será nas seguintes etapas: Na aplicação do questionário de questões sobre seu estado
clínico e na aplicação do Inventário de Habilidades Sociais (IHS).
7. Os incômodos e possíveis riscos à sua saúde física e/ou mental são: Tais riscos e incômodos são mínimos,
podendo se tratar de inibição e/ou constrangimento diante do pesquisador ou com o sigilo das respostas
fornecidas. Diante disso, a presente pesquisadora ratifica o caráter voluntário de sua participação neste estudo,
bem como o compromisso de manter o anonimato e sigilo de suas respostas e o respeito às diretrizes éticas que
regem pesquisas com seres humanos.
8. Os benefícios esperados com a sua participação no projeto de pesquisa, mesmo que não diretamente são:
Sua contribuição para uma atenção diferenciada e sensível às necessidades de pessoas, que como você
sofreram acidente vascular cerebral e possam apresentar alguma mudança nas habilidades sociais.
9. Você poderá contar com a seguinte assistência: Se sentir algum desconforto em relação a algum
procedimento desse estudo, você poderá procurar a pesquisadora, que poderá encaminhá-lo ao Serviço de
Psicologia Aplicada da Universidade Federal de Alagoas (SPA-UFAL).
10. Você será informado(a) do resultado final do projeto e sempre que desejar, serão fornecidos
esclarecimentos sobre cada uma das etapas do estudo.
11. A qualquer momento, você poderá recusar a continuar participando do estudo e, também, que poderá
retirar seu consentimento, sem que isso lhe traga qualquer penalidade ou prejuízo.
83
12. As informações conseguidas através da sua participação não permitirão a identificação da sua pessoa,
exceto para a equipe de pesquisa, e que a divulgação das mencionadas informações só será feita entre os
profissionais estudiosos do assunto após a sua autorização.
13. O estudo não acarretará nenhuma despesa para você.
14. Você será indenizado(a) por qualquer dano que venha a sofrer com a sua participação na pesquisa (nexo
causal).
15. Você receberá uma via do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado por todos.
Eu ................................................................................................................................, tendo compreendido
perfeitamente tudo o que me foi informado sobre a minha participação no mencionado estudo e estando
consciente dos meus direitos, das minhas responsabilidades, dos riscos e dos benefícios que a minha
participação implicam, concordo em dele participar e para isso eu DOU O MEU CONSENTIMENTO SEM
QUE PARA ISSO EU TENHA SIDO FORÇADO OU OBRIGADO.
Endereço d(os,as) esponsável(l,is) pela pesquisa:
Instituição: Universidade Federal de Alagoas- UFAL
Endereço: Condomínio Residencial Central Park, Nº 420, Antares.
Complemento: Bloco 4, Apt. 103.
Cidade/CEP: Maceió/ 57083-050
Telefone: (82) 98815-8711
Ponto de referência: Shopping Pátio Maceió
Contato de urgência: Sr(a). Mariana de Almeida Andrade
Endereço: Condomínio Residencial Central Park, Nº 420, Antares.
Complemento: Bloco 4, Apt. 103.
Cidade/CEP: Maceió/ 57083-050
Telefone: (82) 98815-8711
Ponto de referência: Shopping Pátio Maceió
ATENÇÃO: O Comitê de Ética da UFAL analisou e aprovou este projeto de pesquisa. Para obter mais
informações a respeito deste projeto de pesquisa, informar ocorrências irregulares ou danosas durante a sua
participação no estudo, dirija-se ao:
Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas
Prédio da Reitoria, 1º Andar, Campus A. C. Simões, Cidade Universitária
Telefone: 3214-1041 – Horário de Atendimento: das 8:00 as 12:00hs.
E-mail: comitedeeticaufal@gmail.com
Maceió,
de
de 2017.
Assinatura ou impressão d(a,o) voluntári(o,a)
Mariana de Almeida Andrade
(Mestranda- PPGP/UFAL)
84
ANEXO E- Atestado do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA-UFAL)
85
ANEXO F- Autorização de Pesquisa 1
ASSOCIAÇÃO PESTALOZZI DE MACEIÓ
86
ANEXO G- Autorização de Pesquisa 2
ASSOCIAÇÃO DOS DEFICIENTES FÍSICOS DE ALAGOAS
87
ANEXO H- Autorização de Pesquisa 3
ESCOLA ESTADUAL DEPUTADO NENOÍ PINTO
