Gline Cavalcante Costa - "A maternidade sob o olhar de adolescentes grávidas".
DISSEERTAÇÃO FINAL PARA ENVIAR! 05.10.2018 e imprimir.pdf
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
GLINE CAVALCANTE COSTA
A MATERNIDADE SOB O OLHAR DE ADOLESCENTES GRÁVIDAS
Maceió
2018
GLINE CAVALCANTE COSTA
A MATERNIDADE SOB O OLHAR DE ADOLESCENTES GRÁVIDAS
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas, como
requisito parcial para obtenção do grau de
Mestre em Psicologia.
Orientadora: Profa. Dra. Paula Orchiucci
Miura
Maceió
2018
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus pelo amor incondicional e por todo o
cuidado, acompanhando-me nessa trajetória tão significativa em minha vida. Gratidão
também por guiar meus pensamentos e minhas condutas, consolando minhas
angústias e oferecendo abrigo nos dias difíceis. Paizinho, graças a Ti, pude percorrer
um caminho de forma digna, serena e motivadora, a paz de estar na Tua presença foi o
meu abrigo, engrandecendo-me enquanto pessoa.
Às adolescentes, participantes desta pesquisa, por aceitarem o convite e confiarem
em mim, revelando suas intimidades e segredos, dando cor, brilho, significado e
sentido à esta produção.
À minha querida orientadora, Dra. Paula Miura, pelo acolhimento e paciência ao
me apresentar o mundo acadêmico, quando eu nada conhecia. Professora, nosso
encontro e convivência me fortaleceram a seguir no mestrado, pois com você aprendi,
ainda mais, a respeitar a pessoa humana, e a ter ética nas minhas pesquisas e nas aulas
que, graças ao seu apoio, pude ministrar. Com tantas adversidades, que permearam a
minha vida enquanto mestranda, apoiei-me na sua receptividade e compreensão, e seus
ensinamentos ficarão para sempre na memória e no coração!
Agradecimento especial e com muito afeto à minha família, principal unidade
incentivadora dos meus sonhos. Meus pais, Sidilene e Zenou, são exemplos de
cuidado, acolhimento e proteção, investiram na minha educação e acompanham com
muito entusiasmo cada conquista, além de serem exemplos de profissionais que se
identificam com a profissão, exercendo suas funções de forma tão honrosa. Amo-os
incondicionalmente.
Meus
irmãos,
Mariana
e
Pedro
Jorge,
são
exemplos
de
união,
companheirismo e desempenho profissional, muito obrigada por tudo!
Minha avó Glyne, agradeço a senhora por acompanhar a minha educação,
desde a lancheira, e por se interessar por minhas histórias, e pelos acontecimentos que
permearam minha vida ao longo desses anos.
Minha prima, Ana Amália, quanta gratidão pelo amor que transborda nas suas
ações, tratando-me com tanto valor e apreço. És um exemplo de profissional e
pessoa, que me espelho tanto.À minha amada tia Eliana Torres, exemplo de resiliência,
que tempestade nenhuma conseguiu derrubar. Ensinou-me a encarar os dias nublados,
para descansar nos dias de sol, que educação, amor e dedicação ao próximo são os
maiores investimentos.
Ao meu namorado, Elvis Paffer, que me incentiva incansavelmente, fazendome enxergar a beleza nas coisas simples da vida e a na minha profissão. Obrigada por
acompanhar com muita paciência e compreensão esse processo tão significativo para
mim.
À banca de defesa, composta pela Professora Dra. Heliane Leitão e Professora
Dra. Leila Tardivo, por aceitarem fazer parte desse momento e pela disponibilidade em
ler o meu trabalho e realizarem considerações que certamente irão engrandecer a
produção. Agradeço também pelas correções e sugestões na minha qualificação, que
foram essenciais para a continuidade e elevação da qualidade da minha pesquisa.
À grande amiga que o mestrado me presenteou, Valéria Brandão, pela
sintonia e compartilhamento de planos, artigos, livros e conhecimentos, tornando esses
momentos tão especiais. Sua companhia tornou a caminhada mais leve e prazerosa,
obrigada por se fazer presente nos momentos desafiadores e oferecer um ombro amigo
sempre que precisei. Sua leveza, bom humor e simpatia me encantam!
Às companheiras de orientação que ainda continuam na caminhada, Marianna
Ribeiro e Luciana Vieira, pelo carinho, amizade, apoio e compartilhamento de ideias,
constituímos laços de afinidade que ainda vão perdurar por muito tempo!
Aos alunos do grupo de pesquisa da Professora Dra. Paula Miura, e da disciplina
de Psicologia do Desenvolvimento I, na qual fiz meu estágio docência. A vocês, sou
grata pelo carinho e respeito com que me receberam, importando-se com as
contribuições que eu tinha para oferecer, tornando o meu estágio e as reuniões tão
prazerosas. Tenho certeza que futuramente encontrarei excelentes colegas de profissão!
"De tudo ficaram três coisas...
A certeza de que estamos começando...
A certeza de que é preciso continuar...
A certeza de que podemos ser interrompidos
antes de terminar...
Façamos da interrupção um caminho novo...
Da queda, um passo de dança...
Do medo, uma escada... Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro!"
(Fernando Sabino)
RESUMO
A gravidez na adolescência é um fenômeno complexo e multifacetado, devendo ser considerados
os processos intrapsíquicos e psicossociais para uma compreensão ampla da situação. Algumas
pesquisas buscam analisar os significados da maternidade para as adolescentes, e apontam para a
correlação da gravidez com projetos de vida nessa faixa etária, já outros estudos alertam para o
impacto negativo da gravidez na adolescência na escolarização e na entrada no mercado de trabalho.
Também são fatores importantes de serem percebidos as relações sociais, familiares e com os
companheiros/namorados que permeiam a vida desse público investigado. Diante do exposto, este
estudo teve como objetivo geral compreender e analisar como se dá o processo de
desenvolvimento da maternidade junto das adolescentes grávidas. E, como objetivos específicos:
identificar o contexto social, histórico, escolar, cultural, os projetos de vida e o ambiente familiar das
adolescentes grávidas; investigar a experiência da maternidade vivenciada pelas adolescentes na
gravidez.Trata-se de estudos de casos com um caráter exploratório, descritivo e qualitativo.
Participaram da pesquisa quatro adolescentes grávidas e foram utilizados os seguintes instrumentos:
formulário de caracterização do perfil socioeconômico e de produção e reprodução social;
entrevista semiestruturada; e Procedimento de Desenho de Famílias com Estórias. A aplicação dos
instrumentos foi feita em um único encontro com as participantes, realizado na residência de
uma adolescente, em uma Unidade Básica de Saúde, e no Hospital Universitário de Alagoas. A
análise dos dados foi realizada pelo estudo do conteúdo das entrevistas e do formulário, bem como
pelas expressões não verbais observadas durante o encontro com as jovens. Os Desenhos de Famílias
com Estórias foram analisados conforme as recomendações de Trinca, Tardivo, tendo também como
base referencial para análise dos desenhos, Hammer. Observou-se características socioeconômicas
diversificadas, mas que mostraram a semelhança onde todas as adolescentes não residiam com seus
companheiros em uma casa própria e que apresentavam algumas privações nesses aspectos.
Outro elemento alertou para contextos em que a falta de incentivo ao engajamento educacional e
outras possibilidades, também pode contribuir para o planejamento e associação da maternidade
como um projeto de vida. Com a análise da entrevista, os conteúdos foram agrupados, de acordo
com a relevância identificada, em quatro categorias temáticas, sendo elas: Brincadeiras da infância;
Relacionamento com familiares, esposo e amigos; O bebê imaginado e desejado; e Projetos de
vida. Complementando os outros instrumentos, o Desenho de Famílias com Estórias, proporcionou
uma compreensão de aspectos significativos e latentes das adolescentes, corroborando com os
conteúdos manifestos obtidos na entrevista. Por fim, pôde-se concluir com este trabalho, que
houve uma relação entre o exercício da maternidade com o apoio familiar recebido, onde as
adolescentes que contaram com uma rede de apoio satisfatória e protetiva, desde a infância,
demonstraram mais disponibilidade e engajamento na maternidade. Porém as adolescentes que
conviveram com um ambiente familiar abusivo e não protetor, apresentaram dificuldades nesse
processo, atribuindo outros significados ao nascimento do bebê. Alerta-se, então, para a
importância de intervenções para com essa demanda, contribuindo na ressignificação de
experiências dolorosas, assim como a elaboração de novas pesquisas de caráter qualitativo e
longitudinal, para oferecer um panorama mais completo da problemática.
Palavras-chave: Gravidez na adolescência. Maternidade. Relações familiares.
ABSTRACT
Adolescent pregnancy is a complex and multifaceted phenomenon, and intrapsychic and psychosocial
processes should be considered for a broad understanding of the situation. Some studies seek to analyze
the meanings of motherhood for adolescents, and point to the correlation of pregnancy with life
projects in this age group. Other studies also point to the negative impact of teenage pregnancy on
schooling and labor market entry. They are also important factors of being perceived the social, familiar
and with the companions / boyfriends relations that permeate the life of this public investigated. In view of
the mentioned, this study had as general objective to understand and analyze how the process of
development of maternity takes place among pregnant adolescents. And, as specific objectives: identify
the social, historical, school, cultural, life projects and family environment of pregnant adolescents; to
investigate the experience of motherhood experienced by adolescents during pregnancy. These are case
studies with an exploratory, descriptive and qualitative character. Four pregnant adolescents participated
in the study and the following instruments were used: form of characterization of the socioeconomic
profile and of production and social reproduction; semi structured interview; and Procedure of Drawing
Families with Stories. The instruments were applied in a single meeting with the participants, carried out in
the residence of a teenager, in a Basic Health Unit, and in the University Hospital of Alagoas. Data analysis
was performed by studying the content of the interviews and the form, as well as by the nonverbal
expressions observed during the meeting with the young women. The Drawings of Families with Stories
were analyzed according to the recommendations of Trinca, Tardivo and Hammer. Diverse
socioeconomic characteristics were observed, but they showed the similarity where all the adolescents
did not live with their companions in a house of their own and that they presented some privations in these
aspects. Another aspect alerted to contexts in which the lack of incentive to educational engagement
and other possibilities can also contribute to the planning and association of motherhood as a life project.
With the analysis of the interview, the contents were grouped, according to the relevance identified,
in four thematic categories, being: Childhood games; Relationship with family, spouse and friends; The
imagined and desired baby; and life projects. Complementing the other instruments, the Stories Drawing
with Families Procedure provided an understanding of significant and latent aspects of the adolescents,
corroborating with the manifest contents obtained in the interviews. Finally, it was possible to
conclude from this study that there was a relationship between the exercise of motherhood and the
family support received, where adolescents who had a satisfactory and protective support network,
from childhood, showed more availability and commitment in the maternity. However, adolescents
who lived with an abusive and non- protective family environment presented difficulties in this
process, attributing other meanings to the bay‟s birth. Thus, the importance of interventions for this
demand is highlighted, contributing to the re-signification of painful experiences, as well as the
elaboration of new qualitative and longitudinal researches, to offer a more complete panorama of the
problem.
Key Words: Teenage pregnancy. Maternity. Family relationships.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 - O presente que Deus me deu .............................................................................. 49
Figura 2 - A família perfeita ................................................................................................ 50
Figura 3 - Sem Deus não somos nada ................................................................................. 51
Figura 4 - A melhor viagem ................................................................................................ 53
Figura 5- Desenho de uma família ...................................................................................... 59
Figura 6 - Desenho da família que gostaria de ter .............................................................. 61
Figura 7 - Desenho que alguém não está bem .................................................................... 62
Figura 8 - Desenho de sua família ...................................................................................... 64
Figura 9 - A família toda unida ........................................................................................... 69
Figura 10 - O pai e mãe brincando ..................................................................................... 70
Figura 11 - Se um dia a minha irmã arrumasse um homem para tomar conta dela,
seria melhor ......................................................................................................................... 72
Figura 12 - O pai e a filha unidos ....................................................................................... 73
Figura 13 - Família reunida ................................................................................................. 79
Figura 14 - Minha família ................................................................................................... 80
Figura 15 - Desenho que alguém não está bem .................................................................. 81
11
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 13
2 ADOLESCÊNCIA ...................................................................................................... 14
2.1 GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: REVISÃO DE LITERATURA....... 18
2.1.2 Significados/Experiências da Maternidade Adolescente .............................. 19
2.1.3 Gestação na Adolescência, Educação e Mercado de Trabalho................... 21
2.1.4 Relacionamento da Gestante com Familiares e Equipe de Saúde ................. 23
2.1.5 Experiências de Parto e Puerpério ..................................................................... 27
2.1.6 Gravidez na Adolescência e produções com referencial winnicottiano ........ 28
2.2 Considerações sobre a Revisão de Literatura ...................................................... 29
3 RELAÇÕES FAMILIARES E GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA ................. 31
4 JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS ............................................................................. 40
5 MÉTODO ..................................................................................................................... 43
5.1 Desenho de Famílias com Estórias ......................................................................... 44
5.1.1 Relacionados ao grafismo:.................................................................................. 45
5.1.2 Relacionados ao conteúdo das histórias: ......................................................... 45
6 RESULTADOS .......................................................................................................... 46
6.1 Caso 1 - Vitória........................................................................................................ 46
6.1.2
Entrevista semiestruturada.............................................................................. 46
6.1.3
Desenho da família com estória .................................................................... 50
6.2Caso 2 - Valentina.................................................................................................... 56
6.2.2
Entrevista semiestruturada .......................................................................... 56
6.3 Caso 3 - Jamyle .......................................................................................................... 67
6.3.2 Entrevista semiestruturada ................................................................................ 68
6.3.3 Desenho da família com estórias ....................................................................... 71
6.4 Caso 4 - Bruna ........................................................................................................... 76
12
6.4.2 Entrevista semiestruturada ................................................................................ 77
6.4.3 Desenho de famílias com estórias ...................................................................... 80
7 DISCUSSÃO ................................................................................................................ 85
7.1 Brincadeiras da Infância ......................................................................................... 86
7.2 Relacionamento com Familiares, Esposo e Amigos............................................. 88
7.3 O Bebê Imaginado e Desejado ................................................................................ 92
7.4 Projetos de Vida........................................................................................................ 94
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 97
REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 100
APÊNDICES ................................................................................................................. 105
APÊNDICE A................................................................................................................ 106
APÊNDICE B ............................................................................................................... 108
APÊNDICE C ............................................................................................................... 110
APÊNDICE D ............................................................................................................... 113
13
1 INTRODUÇÃO
A presente pesquisa faz referência à temática da gravidez na adolescência e
do respectivo desenvolvimento da maternidade, entendendo que o fenômeno se
desenvolve em um período de transição da etapa evolutiva da gestante, implicando
na ruptura de hábitos e interesses egocêntricos, característicos do período
adolescente.
Para proporcionar uma compreensão teórica da temática, o trabalho foi
organizado em capítulos, sendo divididos didaticamente da seguinte forma: na
introdução aborda -se sobre adolescência, apresentando o significado dessa fase
a partir do resgate de concepções psicanalíticas do desenvolvimento psicossexual,
articulando com a condição psíquica, da presença de sentimentos indefinidos e
ambivalentes no jovem. Também em condutas para com os adultos e seus cuidadores,
bem como na forma de experienciar a impulsividade típica a partir de experiências
sexuais propriamente ditas, o contato com os grupos, enquanto representantes e
agentes de identificações e o isolamento e afastamento de figuras parentais.
Sobre a gravidez na adolescência, apresenta-se a revisão de literatura a cerca
da temática investigada, em que estão contidas as produções encontradas e
suas respectivas contribuições, ampliando a percepção e proporcionando alternativas
de investigação do tema a partir das considerações encontradas. Sobre as Relações
familiares e gravidez na adolescência, tem-se a intenção de apresentar e discorrer
sobre o conceito de família, articulando a sua importância para a saúde emocional de
adolescentes grávidas. Assim, apresenta-se um pouco da teoria Winnicottiana, que
norteia toda a pesquisa, e outras contribuições psicodinâmicas.
Recorreu-se a esses referenciais teóricos para abordar o período do
desenvolvimento intrauterino, relacionando com cuidados maternos e com as
experiências de adolescentes grávidas com suas famílias de origem, bem como com
as famílias que estão por constituir.
O capítulo 2 a p r e s e n t a a j u s t i f i c a t i v a e o s o b j e t i v o s . N o c a p í t u l o
3 apresenta-se os métodos utilizados, contextualizando-os com a empregabilidade
do estudo de caso e com os objetivos deste estudo. Também definiram- se os aspectos
abordados
na
utilização
de
cada
instrumento
específico
(formulário
de
caracterização do perfil socioeconômico de produção e reprodução social,
14
entrevista semiestruturada, e
Desenho de Famílias
com
Estórias), além de
proporcionar uma definição quanto à finalidade e adaptação para a pesquisa em
si, indicando o que identificar em cada instrumento.
Na sessão dos resultados, poderão ser encontradas as descrições do processo
de coleta do material, expondo as concepções, sentidos e experiências das
participantes, gerando considerações e familiarizando o leitor com as demandas e os
conteúdos identificados. Para a discussão, as análises descritas são decorrentes da
compreensão do processo da maternidade, experienciado pelas jovens do estudo,
articulando-os com os referenciais teóricos propostos e sinalizando para a relevância
na consideração da relação existente entre contextos e experiências de vida com o
objeto de estudo.
Por fim, nas considerações finais, salientou-se que a gestação proprimamente
dita, na adolescência, não se tornou um fator incapacitante para o exercício de uma
maternagem
suficientemente
boa,
porém
a
relação
estabelecida
com
as
experiências significativas do ambiente familiar de cada adolescente que fizeram
parte desse estudo, repercutiram diretamente nas condutas maternas observadas, e
nos significados e sentidos atribuidos aos bebês em suas vidas. Sendo assim,
evidenciou-se que as adolescentes que conviveram com um ambiente abusivo,
durante a infância, necessitam de intervenções, atenção e cuidados constantes.
Diante das descrições realizadas, gerando um fio condutor para o
entendimento do fenômeno pesquisado, entende-se a relevância dessa contribuição
teórica no auxílio e compreensão das repercussões psíquicas e emocionais de uma
gestação na adolescência e, consequentemente, no exercício da maternidade inserida
em ambientes com as especificidades identificadas.
2 ADOLESCÊNCIA
Adolescer marca o conflito e o processo de crescimento preparatório para
o ingresso no universo adulto e maturação da personalidade. Sabe-se que neste
período evolutivo, reaparecem conflitos infantis, retomando problemáticas antigas, que
precisam ser elaboradas. Consequentemente, o sujeito adolescente encontra-se em um
período que precisa ser compreendido a partir dos modos particulares de sentir,
tolerar e experienciar impulsos emergentes. “Esta é uma fase que precisa ser
efetivamente vivida, é essencialmente uma fase de descoberta pessoal. Cada
15
indivíduo vê-se engajado numa experiência viva, num problema do existir”
(WINNICOTT, 1961/2013, p.115).
As mudanças nas várias esferas da vida do jovem, acarretam em impulsos no
desenvolvimento e uma diversidade de experiências que variam de acordo com os
níveis maturacionais apresentados. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS),
cronologicamente é um período que pode ser delimitado entre as idades de 10 a 19
anos. (OMS, 1986), que dão subsídios para as demais mudanças e condutas
observadas. Observa-se uma constante busca do adolescente por respostas e
resoluções imediatas diante de seus conflitos iminentes, gerando, assim, sentimentos
de incertezas e angústias ao perceberem que não existem soluções imediatas para os
problemas enfrentados. A alternância de emoções, gostos e opiniões dos
adolescentes são percebidos pelos adultos e pelo meio social como indefinições,
inconstâncias e como um sujeito imaturo e incapaz de fazer escolhas e tomar as
próprias decisões.
Para Winnicott (1961/2013), a oscilação entre condutas de dependência e
rebeldia, mesclando traços típicos de imaturidade e impulsividade, exige do ambiente
a estabilidade necessária para o acolhimento dessas inconstantes demandas, fazendo
com que esse adolescente se sinta amparado física e socialmente.
Entende-se, então, que o passar do tempo, em dias, meses e anos, ajuda
o adolescente a descobrir no seu íntimo o equilíbrio do bom e do mal, do ódio e
da destruição, que acompanham a restauração do self. A maturidade almejada
deriva-se desse processo contínuo de autodescoberta de novas possibilidades de se
relacionar consigo e com o ambiente. Assim, “A imaturidade é um elemento
essencial da saúde na adolescência. Só há uma cura para a imaturidade, e esta é a
passagem do tempo, e o crescimento em maturidade que o tempo pode trazer”
(WINNICOTT, 1968/1975, p.198, grifos do autor).
Torna-se pertinente expor também as contribuições psicodinâmicas de Blos
(1985/1994), ao englobar e ressaltar a complexidade e complementariedade de
mudanças distintas operando nos níveis biológicos e sociais, diferenciando a
puberdade como as transições corporais e o aparecimento de caracteres sexuais
secundários da adolescência, referindo-se aos processos psíquicos de adaptação e
elaboração da pubescência. Nesse contexto, Blos enfatiza que:
Não só é certo que os adolescentes de ambos os sexos são profundamente afetados
16
pelas mudanças físicas que ocorrem em seus corpos, como também, num plano mais
sutil e inconsciente, o processo de pubescência afeta o desenvolvimento de seus
interesses, seu comportamento social e a qualidade de sua vida afetiva. (BLOS,
1985/1994, p. 9).
Nesse período, o comum estado de luto diante da perda do corpo e do
universo, sonhos e planos infantis exige esforços psíquicos suficientes para auxiliar no
processo de elaborações e resoluções, fundamentais para o engajamento em novos
projetos de vida e na apropriação do “novo corpo”, decorrente das alterações
biológicas da puberdade. Trata-se assim de uma etapa evolutiva que implica
adaptações para a construção de novos significados diante de conflitos emergentes
e referentes aos estágios de desenvolvimento psicossexuais que antecedem o
período de latência (MACEDO et al., 2010), ou seja, após a passagem pelas fases de
desenvolvimento típicas da infância, os alvos das pulsões que estavam direcionadas
para um objeto específico passam a ser deslocados para novas escolhas objetais e
interesses em experiências sociais e sexuais propriamente ditas.
A relação com o ambiente, expressas por atividades lúdicas sublimadas, com
o desenvolvimento educacional típico do período conhecido como latência, passa a
ser preparatória e intermediária para o engajamento na adolescência. Sendo assim,
esta fase é reconhecida como a fase genital do desenvolvimento psicossexual, que
vem após a passagem pelo período de latência (BLOS, 1985/1994). Isso traz à
tona, conflitos, fixações e interesses sexuais anteriormente apaziguados.
Por tratar-se de um longo período, com diversas complexidades e
multiplicidade de experiências, torna-se interessante recorrer à divisão didática
proposta por Blos (1985/1994) na compreensão das características predominantes
em cada fase, que se inicia com a adolescência inicial, em que experiências de
autoerotismo como atividades masturbatórias e o despertar para a sexualidade
propriamente dita são comuns, após sensações desencadeadas pela puberdade.
Porém, ainda permanecem a predominância de comportamentos e condutas
infantilizadas, divergindo da adolescência propriamente dita, podendo-se observar a
abertura para experiências de contatos sociais e relacionais com o meio externo a
partir do desligamento do investimento nos pais. Assim, culminando no engajamento
em grupos para identificar-se, definir sua identidade, sentir-se protegido e realizar
experiências impulsivas a partir da sensação de autorização vinda dos pares e das
figuras de admiração.
17
Com o tempo, ingressa na adolescência final, em que pode experimentar uma
certa estabilidade afetiva e no processo de autoconhecimento, as escolhas amorosas
idealizadas são substituídas por escolhas mais maduras e reais, sendo possível o
planejamento de projetos de vida e escolhas profissionais.
Nessa direção, as modificações típicas e frequentemente observadas em
meninas, como o ato de priorizar atividades grupais, tendo no grupo um representante
semelhante para seus atos, foram descritas por Deutsch (1974/1977) a partir da
seguinte perspectiva:
A exteriorização de uma vida de fantasia sobrecarregada; o controle das tensões e
anseios pela atenção crítica do público; a exibição de emoções, sem sentimentos de
culpa (“todas nós estamos fazendo isso”); Os rompantes violentos de grande
excitação sexual; a competição ciumenta com outras moças, na qual não há
vencedor; e, acima de tudo, a satisfação com um laço erótico ainda existente com
suas próprias amigas. Tudo isto constitui o pano de fundo psicológico para a
primeira formação de grupo da adolescência inicial [...]. (DEUTSCH, 1974/1977,
p.89).
Ainda, segundo Winnicott (1961/2005), tolerar as mudanças do id, manifestas
no ego, exige flexibilidade e auxílio do psicanalista e de adultos para a manutenção
de um repertório psíquico no jovem, capaz de suportar os impulsos biológicos e
sociais, incertezas e oscilações a partir da intensidade de sentimentos ambivalentes,
configurando assim um período de crise em que “A cura da adolescência vem com o
passar do tempo e do gradual desenrolar dos processos de amadurecimento; Estes
de fato conduzem ao final, do aparecimento da pessoa adulta [...]” (WINNICOTT,
1961/2013, p. 116).
Entende-se que em condições desfavoráveis há a presença de um ambiente
falho e intrusivo, incapaz de contingenciar e tolerar a imaturidade e as testagens
frequentes, comuns nos adolescentes, em que pais e cuidadores resistem em aceitar o
estilo de vida típico da fase, exigindo posturas e responsabilidades excessivas para a
aquisição de uma maturidade “forçada”, o que implica na ocupação de papéis
sociais indesejáveis, ou simplesmente negligenciam ou se incomodam com o
despertar e ganhos observados. Desse modo, “muitas das dificuldades por que
passam os adolescentes, e que muitas vezes requerem a intervenção de um
profissional, derivam de más condições ambientais” (WINNICOTT, 1961/2013, p.
117), englobando, assim, a multiplicidade de ambientes e modos de convivência,
essenciais para a constituição psíquica e para o crescimento pessoal.
18
Ressalta-se, porém, que as perdas, oposições e atuações típicas do período
da adolescência são características necessárias para o processo de amadurecimento
que o jovem precisa experienciar para se tornar um adulto saudável, capaz de
manejar seus impulsos internos. Sendo assim, a vivência desta fase deve contribuir
para a aquisição de recursos e estratégias, para futuramente saber lidar com o
aparecimento de novas imposições, normas e desafios do mundo adulto.
2.1 GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: REVISÃO DE LITERATURA
Foram pesquisados na base de dados indexados na Biblioteca Virtual de
Saúde (BVS), no portal de periódicos da Capes e na plataforma Scientific
Library Online (Scielo), no período de julho a novembro de 2016, artigos a partir dos
seguintes
descritores:
“Gravidez
na
adolescência”,
“maternidade”,
“teoria
Winnicottiana” e “relação mãe- bebê”. Eles foram colocados para a coleta, de forma
pareada (combinação simultânea de dois descritores), totalizando seis combinações:
“Gravidez na adolescência e relação mãe-bebê”; “Gravidez na adolescência e
produções com o referencial winnicottiano ”; “Gravidez na adolescência e
maternidade”; “Teoria Winnicottiana e maternidade”;
“Relação mãe-bebê e
maternidade” e “Relação mãe-bebê e teoria Winnicottiana”.
Foram
adotados
os
seguintes
critérios
de
inclusão:
texto
completo
disponível, artigos, ano de publicação entre 2010-2015, idioma português,
periódicos nacionais, produções que abordassem perspectivas relacionais, subjetivas
e qualitativas da temática investigada, e tratar especificamente da gravidez na
adolescência.
Optou-se como critério de exclusão produções que divergiam da temática
do trabalho tais como: pesquisas quantitativas, sobre malformação do bebê, parto
humanizado, dificuldades de aprendizagem na criança e pesquisas com ênfase nos
aspectos orgânicos. Por identificar poucos trabalhos que abordassem a temática com
o enfoque
da
psicanálise
Winnicottiana,
referencial
teórico
adotado
pela
pesquisadora, acrescentaram-se os artigos de: Leitão (2011); Miura et al. (2016),
Miura et al. (2015) e Tardivo et al. (2014), compondo uma categoria.
Foram identificados nesta revisão um total de 156 artigos. Desses, 83 pertenciam
ao portal de periódicos da CAPES, 73 da Biblioteca Virtual de Saúde e 29 a Scielo.
Porém, após a leitura dos resumos, enquadramento nos critérios propostos e descarte
19
do material repetido, foram feitos refinamentos dos materiais, obtendo 126 artigos, e
após a leitura na íntegra, chegou-se a uma amostra final de 30 artigos.
Puderam-se observar, na amostra final, 13 artigos publicados em revistas da
área da Psicologia, 12 artigos da Enfermagem e 5 da Saúde Pública. Com relação aos
locais de produção do estudo propriamente dito e não das localidades das revistas, o
Rio Grande do Sul obteve o total de 18 artigos, seguidos de São Paulo, com 6
artigos; Paraná com 3 artigos; Minas Gerais, Rio Grande do Norte e Santa Catarina,
com 1 artigo cada.
A análise dos textos advindos da revisão realizada possibilitou a identificação
das seguintes categorias temáticas: Significados/experiências da maternidade;
gestação na adolescência, educação e mercado de trabalho; relacionamento da
gestante com familiares e equipe de saúde e; experiências de parto e puerpério. Por
fim,
acrescentou-se
a
categoria
de
gravidez
na
adolescência:
Perspectiva
winnicottiana, a partir do resgate de produções relevantes sobre a temática.
Percebendo-se, assim, que alguns artigos tratavam de mais de uma temática, foram
incluídos em mais de uma categoria.
2.1.2 Significados/Experiências da Maternidade Adolescente
A gravidez na adolescência surge em um período caracterizado por
transições, idealizações, incertezas e pela real possibilidade de experimentação de
impulsos sociais e sexuais, concretizando, assim, a abertura para relacionamentos
com novas figuras de convívio. Apresentou-se constante, entre os artigos, pesquisas
sobre a compreensão de significados e experiências durante a gestação, a partir dos
estudos sobre a maternidade em adolescentes grávidas e não-grávidas, sendo eles:
Costa et al. (2014), Farias, Moré Patias e Dias (2013) e Santos e Motta (2014).
Ao realizar uma pesquisa envolvendo 10 mães adolescentes que deram a luz
entre os 12 e 14 anos, Farias e Moré (2012) expõem que, a partir da experiência
gestacional, as jovens relataram adquirir mais responsabilidade por suas vidas
reprodutivas, reformulando planos e interesses para com os estudos, os parceiros e
outros projetos pessoais. A significação de uma gestação que produz a busca por
elaborações psíquicas para o enfrentamento de desejos e demandas, típicas dessa fase
do desenvolvimento, “no entanto, a singularidade nos resultados encontrados
possibilita uma compreensão significativa ao campo de estudo, na medida que
20
evidencia processos satisfatórios de adaptação à gravidez [...]” (FARIAS; MORÉ,
2012, p. 596).
Segundo Costa et al. (2014), diante do impacto da notícia de uma gestação
não planejada na adolescência, a princípio, encara-se como algo árduo e difícil,
havendo despreparo diante da situação. Com o tempo, agregam-se sentimentos à
identidade de mãe e pai, passando a ter novas atitudes na vida, como priorizar a
nova constituição familiar, e suas demandas, por conta da existência de um filho. É
o que demonstrou na pesquisa, com a intenção de compreender a experiência da
gravidez na adolescência a partir do relato de puérperas e pais adolescentes,
realizando entrevista direta com 11 casais (COSTA et al., 2014).
A atribuição de sentido da maternidade permite significados favoráveis a partir
de quem vivencia diretamente essa experiência. É o que afirma a pesquisa de Patias e
Dias (2013), ao compararem opiniões de 50 adolescentes gestantes com 50
adolescentes não gestantes, entre 13 a 19 anos, com resultados que apontam para
percepções mais positivas, ou seja, agradáveis e ideais sobre a maternidade por
parte das adolescentes gestantes entrevistadas, do que as adolescentes não gestantes,
alertando para o risco de idealizações por parte desse primeiro grupo e ausência
de recursos ao lidar com as dificuldades encontradas no exercício da maternidade
em si.
Santos e Mota (2014) tiveram contato com 3 adolescentes gestantes, residentes
de um abrigo, para analisar os significados da experiência da maternidade para
elas, e concluem, a partir dos relatos, que independentemente da idade em que se
encontram, para algumas mulheres, o fato de estar na posição de cuidadora, de
mãe possibilita o estabelecimento de um lugar e de uma função social, propiciando
reconhecimento no ambiente em que estão inseridas.
As pesquisas identificadas demonstram que durante a gestação, há um processo
de desenvolvimento da maternidade, exigindo da figura materna e adolescente,
responsabilidades e abdicações. E, mesmo as adolescentes descrevendo o
acontecimento de uma gravidez como árduo e difícil, demonstraram abertura para
o
engajamento
na
função
materna,
estando
emocionalmente
satisfeitas.
Especificamente com relação às adolescentes institucionalizadas, as investigações
realizadas, apontaram para a aquisição de
reconhecimento
ao
tornarem-se
mães.
papéis
Também
sociais,
propiciando
foi enfatizado
sobre
o
as
particularidades e singularidades na atribuição de sentidos por parte de adolescentes
21
grávidas.
2.1.3 Gestação na Adolescência, Educação e Mercado de Trabalho
O levantamento e a investigação realizados também identificaram artigos de
autores como: Kudlowiez e Kafrouni (2014), Merino et al. (2013), Nunes (2012),
Ogido e Schor (2012), Patias et al. (2011), Soares e Lopes (2011) e Vieira et al.
(2013),
que
possibilitaram
observar
o
fenômeno
de
forma
complexa
e
multideterminada. Estes estudos apontaram para a relação entre projetos de vida,
educação e mercado de trabalho de adolescentes grávidas, articulando-os com o
contexto socioeconômico e as experiências vividas e comumente compartilhadas
pelas adolescentes em suas localidades de habitação.
Nunes (2012) realizou entrevistas com 10 adolescentes, grávidas ou mães, entre
16 e 18 anos de idade, com a finalidade de analisar o lugar da maternidade para
meninas de camadas populares, expondo, assim, a condição histórica que propõe a
consolidação da gravidez como algo inerente ao universo adulto, no qual prioriza-se
a produtividade e a contribuição da mulher para a sociedade. Identificou que
comumente as adolescentes gestantes são englobadas em uma perspectiva excludente
e pejorativa, quando na verdade a falta de incentivo e de investimento educacional,
característicos em cenários de desigualdades social, mantêm a gravidez como um
projeto de vida, gerando realizações e reconhecimentos.
Em concordância com a revisão sistemática de literatura realizada por Patias et
al. (2011) sobre maternidade e gestação na adolescência, os autores consideram
que a gravidez na adolescência é constantemente percebida como extremamente
viável em um sistema socioeconômico menos favorecido e ineficaz nos cuidados
ofertados aos jovens, sendo associada a uma representação positiva que pode
possibilitar o acesso a um projeto de vida valorizado socialmente.
As poucas possibilidades de autorrealização contribuem para a reprodução
geracional de um determinado estilo de vida. Kuldlowiez e Kafrouni (2014)
empreenderam a compreensão dos projetos de vida de adolescentes gestantes entre 13 e
19 anos e, com a aplicação de entrevistas semiestruturadas, explicam que o desejo
predominante nas participantes era de retomar os estudos quando o bebê exigisse
menos cuidados, porém, elas não articularam essa expectativa com as condições de
apoio político e social necessárias para a realização do almejado. Nessa direção,
22
“sem espaços de reflexão e introdução de novos elementos na criação de seus
projetos de vida, para as adolescentes,
que se encontram na condição
de
supranumerários, a maternidade se converte em um precário projeto construído [...]”
(KULDLOWIEZ; KAFROUNI, 2014, p. 236).
Com relação à escolaridade propriamente dita, a pesquisa de Vieira et al.
(2013) teve como objetivo a análise do cuidado com o bebê e do autocuidado de
13 mães adolescentes no puerpério, em que 46% dessas adolescentes possuíam o
ensino médio incompleto e 7% pararam os estudos no ensino primário. Apontaram
então para uma relação entre a incidência da gravidez na adolescência e o baixo
índice de escolarização, em casos de a adolescente abandonar os estudos antes
mesmo de engravidar, perdendo contato com o ambiente educacional que auxilia na
promoção da conscientização e no fornecimento constante de informações, atuando
como um fator protetivo capaz de fornecer suporte social para a conscientização da
gravidez.
Em muitos casos, acontece também o abandono dos estudos após a descoberta
da gestação, como apontado por Merino et al. (2013), que desenvolveram um estudo
qualitativo para compreender as dificuldades experienciadas, bem como as formas
de enfrentamento após o nascimento do bebê das participantes adolescentes.
Refletiram então que se torna dificultoso conciliar atividades educacionais com a
nova função de cuidar de um filho, implicando em não frequentar mais a escola e no
estabelecimento de outras prioridades. Soares e Lopes (2011) pesquisaram com
participantes com características semelhantes das citadas, ou seja, mães adolescentes,
mas atentaram-se para as que moravam em assentamentos rurais, buscando conhecer
as vivências da gestação nesses locais, afirmando que “a falta de creches públicas, do
acesso à escola e opções de emprego estão na base dessas dificuldades de
reinserção social das jovens mães [...]” (SOARES; LOPES, 2011, p. 807),
agravando-se quando não há o incentivo da família para o retorno à instituição
escolar.
Diante da compreensão dos respectivos artigos, observou-se que em
determinados contextos socioeconômicos desfavorecidos, há uma prevalência no
índice de adolescentes grávidas que atribuem à gestação como um projeto de vida
e a possibilidade de se sentirem valorizadas em seus ambientes de convívio,
fazendo com que essas jovens priorizem o exercício da maternidade, comumente
abdicando da escolarização, antes mesmo de engravidar. A falta de acesso a
23
instituições e a falta de outras oportunidades profissionais e de vida também
contribuem para a incidência do fenômeno e para a dificuldade relatada referentes
à capacitação e ao ingresso no mercado de trabalho. Vale ressaltar que não foram
identificadas pesquisas com adolescentes de classes socioeconômicas média e alta,
inviabilizando qualquer conclusão generalizada sobre a relação socioeconômica,
mercado de trabalho, projeto de vida e gravidez na adolescência.
2.1.4 Relacionamento da Gestante com Familiares e Equipe de Saúde
Os seguintes artigos, Barreta et al. (2011), Braga et al. (2014), Cabral e
Levandosky (2012), Gomes et al. (2011), Lopes (2010), Marin (2011), Martins et
al. (2014), Merino (2015), Miura; et al (2014), Oliveira et al. (2015), Santos et al.
(2012), Santos et al. (2014), Santos et al. (2015), e Swchwartz et al. (2011)
retrataram a importância do apoio social oferecido por familiares e profissionais da
saúde para uma gestação saudável e o fortalecimento do papel materno pela
adolescente.
Swchwartz et al. (2011) buscaram as percepções de 12 adolescentes
primigestas, em relação ao apoio recebido durante a fase gestacional. A partir da
utilização de entrevistas semiestruturadas, genogramas e ecomapas, identificaram
que as mães e os parceiros são as principais fontes de apoio, proporcionando a
superação de conflitos e medos e que a gravidez proporcionou reconciliações com o
pai do bebê.
Martins et al. (2014) entrevistaram adolescentes grávidas para entender o
processo de constelação da maternidade nesse grupo e, ao analisar o conteúdo
referente ao autoconhecimento e ao processo de construção da identidade, do
material coletado, concluiram que “a formação da identidade adolescente também se
caracteriza pela mudança da forma que o indivíduo se relaciona com seus pais”
(MARTINS et al., 2014, p. 294), priorizando, assim, a manutenção de contatos com
pares, presentes no ambiente externo que possam se identificar e compartilhar novas
experiências.
Com a pesquisa já citada na categoria anterior, Merino et al. (2015)
também expõem a necessidade e importância do suporte social para que a
adolescente possa exercer a maternidade, ressaltando, porém, o desejo por parte
delas em ter autonomia e controle sobre o bebê em um determinado momento,
24
alegando angústia e repulsão diante de cuidados prescritivos, abusivos e sistemáticos
de outros, repercutindo diretamente em sua autoestima.
A figura da mãe-avó, aquela com a prática de cuidar e que detém um
saber advindo da experiência, como um importante auxílio para o desenrolar da
maternidade, foi apontada a partir de Cabral e Levandowsky (2012), em que
analisaram as representações de 3 mães adolescentes primíparas sobre suas próprias
mães e os aspectos intergeracionais presentes na relação com o bebê. Com o respaldo
da teoria psicanalítica, fazem a seguinte afirmação: “Durante o exercício da
maternidade, na busca por um modelo materno próprio, a mulher pode reviver com
intensidade as identificações com a própria mãe da infância e da atualidade”
(CABRAL; LEVANDOWSKY, 2012, p. 544).
Lopes et al. (2010) entrevistaram 47 mães primíparas cujo o foco da entrevista
era a investigação da presença de figuras femininas de apoio e o sentimento em
relação à maternidade no primeiro trimestre de vida do bebê, em que a maioria das
mães entrevistadas relataram a importância de terem experienciado esse apoio.
Consequentemente,
Mães que não puderam contar com o apoio de uma figura feminina mais
experiente, que lhes servisse de modelo de mãe ou que as liberasse para se
preocupar apenas com seu filho, descreveram-se como atrapalhadas para lidar
com os cuidados do bebê e demais tarefas relacionadas à maternidade. (LOPES;
et al., 2010, p. 302).
As consequências da ausência de apoio materno, atualizadas na gestação na
adolescência, foram detalhadamente investigadas pelo estudo de caso de Miura; et al
(2014), de uma adolescente grávida que experienciou violência doméstica materna,
durante a infância. Concluiram assim, que os episódios de maus tratos prejudicaram o
desenvolvimento e amadurecimento da jovem, apresentando indícios de reproduzir
sua história de vida com o seu bebê.
Outro suporte social relevante, apontado por pesquisadores, é a presença
do companheiro da mulher, atuando como aquele capaz de auxiliar na maternagem
e na identificação da mãe em atender as demandas do bebê. Santos (2015), com o
objetivo de conhecer o papel da avó no cuidado de filhos de mães adolescentes,
através de entrevistas semiestruturadas a 14 adolescentes, também incluiu o pai do
bebê enquanto agente cuidador e protetor delas.
As adolescentes que relataram ter tido apoio da família, principalmente da mãe, ou
25
do parceiro durante a gravidez, ou de amigos, revelaram uma maternidade mais segura,
mais confiante, em que elas, mesmo não tendo planejado a gravidez, se mostraram
desejosas de ter a criança e com motivação para cuidar dela. (SANTOS, 2015, p.58).
Porém, Marin et al. (2011), ao investigar a constelação da maternidade no
contexto da gravidez na adolescência, com a participação de 3 adolescentes grávidas
primíparas, mostraram que a ausência de apoio paterno no período gestacional não é
suficiente para incapacitar a mulher e seu desempenho em cuidar do filho que está
sendo gerado, mas quando é percebido o auxílio paterno, aumenta-se a
autoconfiança, aceitação das alterações corporais e as sensações positivas ao se
tornar mãe. Os autores ainda recomendam “[...] que equipes de saúde estejam
atentas a essa situação, em especial na gestação e nos primeiros anos de vida da
criança, em que o apoio social tende a ser ainda mais relevante [...]” (MARIN et al.,
2011, p. 253).
Ao fazer uso de entrevistas narrativas para o acesso às expectativas de
mães adolescentes para o futuro, Santos (2014) percebeu relatos, por parte dos
sujeitos entrevistados, sobre a percepção estigmatizante vinda dos profissionais de
saúde que atendem essa demanda. E se posiciona, ao entender que gravidez na
adolescência não pode continuar a ser vista pelos profissionais de forma
homogeneizante e estigmatizada, tendo em vista que a adolescente de fato
experimenta a vida sexual e pode tomar suas próprias decisões de forma consciente.
A
alta
incidência
do
fenômeno
em
populações
economicamente
desfavorecidas expressa a importância do desenvolvimento de serviços que articulem a
atual realidade de adolescentes grávidas com construções de planos e perspectivas
viáveis. A descrição das ações de uma equipe de enfermagem para com esse
público pode ser encontrada em Barretta et al. (2011), afirmando que intervenções
com essa finalidade minimiza as dificuldades das jovens e contribuem para a saúde
materno-infantil, havendo necessidade de outras contribuições para contemplar
diversos cenários. Os autores trazem que:
No entanto, ainda emergem realidades que não foram trabalhadas em estudos
preliminares, como muitas pessoas morando no mesmo cômodo que o bebê,
fumando e sem preocupação com o trabalho, além de avós que tomam para si o
bebê e não deixam a adolescente sequer amamentar. (BARRETTA; et al, 2011,
p.534).
Buscando analisar as percepções de 20 participantes referentes ao público
26
já descrito sobre as formas de apoio social recebidas, Braga et al. (2014)
identificaram percepções tanto de apoio quanto de abandono vindas do ambiente
de convívio das adolescentes. Acrescentaram então, que as práticas dos serviços de
saúde que promovem a cooperação são importantes para a transformação dessas
situações de vulnerabilidade, assegurando os direitos das adolescentes para terem uma
gravidez saudável.
Oliveira et al. (2015) atentaram-se para a formação dos agentes comunitários
de saúde e, consequentemente, se interessaram em investigar as atuações desses
profissionais com as adolescentes grávidas, aplicando entrevista semiestruturada e
diários de campo. Ressaltaram, então, a importância dos agentes comunitários de
saúde na atuação com essa demanda, pelo estabelecimento de vínculo com a
comunidade na qual residem e exercem suas funções laborais, porém, afirmaram
ainda que uma escuta sensível diferenciada e a valorização de aspectos afetivos
devem prevalecer na mesma intensidade dos aspectos clínicos formais. A existência
de programas educacionais e de saúde que auxiliem para além de medidas
contraceptivas e aspectos de prevenção, e privilegiem a assistência ligada ao
cuidado e trocas positivas de afetos, ultrapassando os protocolos formais, ajudam no
conhecimento do próprio corpo e das responsabilidades da adolescência, e ingresso na
vida adulta.
Santos et al. (2012) analisaram a relação entre profissionais de saúde e
adolescentes grávidas, de 22 atendimentos ambulatoriais, individuais e em grupo,
no período de pré-natal. Concluíram que “…a adolescente gestante espera que a
atenção de profissionais de saúde supra suas necessidades de esclarecimentos
sobre o processo gestacional e a oriente quanto aos cuidados que lhe assegurem uma
gestação saudável e um
parto
seguro”
(SANTOS
et
al.,
2012,
p.776).
Consequentemente, diante de adversidades, salienta-se a solidificação dessas
práticas e serviços capacitados e disponíveis no território de convívio da gestanteadolescente, para intervir precocemente fortalecendo o contato da díade e
contingenciando as angústias emergentes.
Então, pode-se considerar que a parceria desses profissionais com as
adolescentes grávidas favorecem a validação de sentimentos ambivalentes e
incertezas típicas dessa etapa evolutiva, juntamente com a orientação de práticas
diárias que serão integradas na rotina da adolescente a partir do nascimento do bebê,
além de proporcionar e encorajar para possíveis encaminhamentos através da
27
detecção de desordens e sinais disfuncionais desde a gestação até o período do
nascimento, amenizando os danos tanto para a adolescente quanto para o seu bebê.
No que se refere às relações e atitudes de apoio vindas de familiares, as
pesquisas enfatizaram a importância dessa assistência, ao proporcionar a superação
de conflitos e medos das gestantes adolescentes. Dentre as figuras dos familiares de
convívio, foram destacadas pelos autores, a avó e o pai do bebê, como relevantes no
empoderamento e desenvolvimento da maternidade, por parte das adolescentes.
2.1.5 Experiências de Parto e Puerpério
Trabalhos de Gomes et al. (2011), Martins et al. (2014), Pontes e Cantilino
(2014), Martins et al. (2014), Pinheiro (2013) e Pontes (2014) mostram a importância
do auxílio e preparação para o parto e o pós-parto, em que existem fantasias
durante a gestação, produzindo expectativas e angústias.
Essas fantasias atualizadas nesses momentos, geram grande ansiedade e
insegurança, sendo então uma preocupação mencionada. Gomes et al. (2011), por
exemplo, realizaram uma pesquisa, entrevistando 7 adolescentes primigestas e
primíparas, entre 15 e 17 anos, para entender as representações sociais acerca do
parto. Assim, afirmam que o modo de assistência prestado pela equipe de
enfermagem interfere no parto e puerpério da adolescente gestante que vive por si
só um período de crise e merece receber um cuidado humanizado e legitimador por
parte desses profissionais, definindo que:
Essa modalidade de cuidar requer uma equipe capacitada e sensível às
especificidades desse grupo etário, com vistas a proporcionar às adolescentes
gestantes um parto humanizado, por meio da adoção incondicional de princípios
éticos, humanísticos e com a garantia de seus direitos legais. (GOMES et al.,
2011, p. 305).
Essa atenção à gestante no momento de dar à luz exige sensibilidade e
manejo diante de casos que impliquem percalços na consolidação da relação mãebebê, como demonstrou Pontes (2014) ao analisar a relação de partos tidos como
traumáticos com o desenrolar do vínculo da dupla, mostrando a influência negativa
dessa experiência com o desenvolvimento
do
afeto
entre
ambos.
Assim,
demonstrando “A importância do diagnóstico precoce sobre o parto traumático e
em mulheres no pós-parto e encaminhamento daquelas puérperas que porventura
28
relatem algum tipo de transtorno emocional” (PONTES, 2014, p. 297).
A partir da leitura dessas perspectivas, destaca-se para a contribuição de
estratégias, a partir de uma escuta das dificuldades vivenciadas, com a finalidade
de minimizar o sofrimento e formar uma rede de auxílio e encorajamento no
parto e puerpério diante das especificidades presentes na gestante e mãe adolescentes.
2.1.6 Gravidez na Adolescência e produções com referencial winnicottiano
Foram
pesquisados
artigos
que
servissem
de
referência,
fornecendo
contribuições que tratassem especificamente da gravidez na adolescência com o
referencial teórico da psicanálise winnicottiana. Fazem parte dessa categoria as
seguintes contribuições: Leitão (2011), Miura et al. (2016), Miura et al. (2014),
Barrientos et al. (2014), Santos e Motta (2014) e Santos e Zornig (2014).
Miura et al. (2014) apresentaram e analisaram um estudo de caso de uma
adolescente grávida, vítima de violência intrafamiliar e toxicodependente, utilizando
a entrevista semiestruturada. Demonstraram o auxílio do referencial teórico adotado
para a compreensão da problemática enfrentada pela jovem, articulando-o com o
relacionamento inicial com uma mãe abusiva, em um ambiente intrusivo, interferindo
na constituição psíquica espontânea da adolescente.
Complementarmente, Miura et al. (2016) também realizaram um estudo de
caso semelhante, mas com uma adolescente gestante, vítima de violência
intrafamiliar e acolhida institucionalmente, com o objetivo de compreender as
repercussões da violência no desenvolvimento emocional da jovem, bem como em
sua relação com seu bebê. Entrevistaram a adolescente e a psicóloga da instituição,
chegando à conclusão de que a ausência de suporte familiar pode atuar como fator
que interrompe o desenvolvimento emocional e de maternagem da mulher,
interferindo na saúde emocional da mãe e do bebê. Alerta-se, então, para a
importância de a instituição atuar como um espaço terapêutico para essa demanda.
Buscando
compreender
adolescentes grávidas
diante
as
da
potencialidades
situação
de
e
vulnerabilidades
violência
doméstica
de
sofrida,
Barrientos et al. (2014) mostram que grande parte das adolescentes do estudo
também sofreram violência intrafamiliar, e que caracterizar a violência como algo
natural não protege a jovem mãe e seu bebê. Assim, torna-se necessária a
manutenção de uma rede de apoio social e profissional para com essa problemática.
29
Santos
e
Motta
(2014),
que
tiveram
suas
contribuições
descritas
anteriormente, afirmaram que as três adolescentes gestantes investigadas, que também
residiam em uma instituição para mães adolescentes, buscaram, por meio de uma
relação de afeto genuíno, reestabelecer a confiança no meio e em seus semelhantes. As
autoras revelaram que:
A necessidade do indivíduo de "sustentação" (holding) se estende ao longo de sua
vida, embora varie quanto ao seu grau de dependência e pela maneira como se
apresenta. O envolvimento afetivo dos pais ou de alguém que substitua essa função,
a empatia, a reciprocidade e a segurança são condições indispensáveis para que o ser
humano se desenvolva e sinta-se compromissado com seus semelhantes. (SANTOS;
MOTTA, 2014, p. 523, grifos dos autores).
Já Leitão (2011) realizou um trabalho teórico que pretendia considerar o
desenvolvimento da “preocupação materna primária”, em mães adolescentes,
concluindo que, para Winnicott, “[...] trata-se de uma experiência fundamental na
preparação da mãe e em sua capacitação para oferecer os cuidados que atendam às
necessidades do bebê, oferecendo seu desenvolvimento emocional [...]” (LEITÃO,
2011, p.6)
Santos e Zornig (2014) discutiram a noção winnicottiana de “preocupação
materna primária”, analisando a função do outro materno nos primórdios de vida
psíquica do bebê, gerando, assim, a seguinte reflexão:
A mãe que fracassa ao refletir o bebê não lhe devolve seu próprio mundo interno,
mas o invade com sua reação, com seu próprio gesto enquanto sujeito em sua
alteridade radical, numa posição de exterioridade que não permite a captação e
devolução para o bebê de seus estados físicos e psicológicos. (SANTOS; ZORNIG,
2014, p. 86).
A semelhança no conteúdo dos artigos aponta para a relevância desse
referencial teórico, gerando uma perspectiva norteadora que contempla a questão
investigada,
porém,
não
se
detendo
apenas
a
aspectos
intrapsíquicos,
contemplando o ambiente e, consequentemente, a disponibilidade deste no
fornecimento de cuidados para a maternidade adolescente.
2.2 Considerações sobre a Revisão de Literatura
A prevalência dos estudos encontrados sobre a temática do relacionamento
30
da gestante adolescente com familiares e equipe de saúde proprorcionaram uma
discussão acerca da relevância da constituição e manutenção de relacionamentos e
suportes sociais e
profissionais
especificidades
gestantes adolescentes. Proporcionando, assim, proteção,
das
para
atuar
a
partir
das
características
e
aceitação e encorajamento no exercício de uma maternagem suficientemente boa e
saudável. Os artigos também alertaram para a elaboração de práticas interventivas
que acolham e cuidem, para além de métodos prescritivos e formais, os casos de
gravidez na adolescência.
As produções sobre a temática da gravidez na adolescência, educação e
mercado de
trabalho
enfocaram
apenas
adolescentes
vindas
de
contextos
socioeconômicos desfavorecidos, e demonstram que a gravidez neste período, para
muitas dessas jovens, significa a realização de um projeto de vida. Também foi
observado nos artigos que as adolescentes que viviam em locais onde há pouco incentivo
para engajamentos em projetos educacionais e preparação para o ingresso no
mercado de trabalho tinham grandes dificuldades em engajar-se na escola e em
empregos, convertendo a maternidade como algo possível e acessível, perpetuando
um estilo de vida.
Sobre a categoria referente às experiências de parto e puerpério, as
contribuições identificadas complementaram as demais categorias, ao expor sobre a
importância de uma atenção digna e humanizada para as adolescentes grávidas,
auxiliando na posterior recuperação e no cuidado dessas mães com seus bebês. E,
sobre o direito à assistência, acompanhamento especializado durante a gravidez,
incluindo atendimento digno e de qualidade no pré-natal, parto, puerpério e ao
neonato.
A baixa prevalência de trabalhos abordando a temática da compreensão e
atribuição de sentidos na gestação, alertou a pesquisadora para as experiências e
particularidades na atribuição de significados referentes à maternidade adolescente,
não adotando assim perspectivas universais e generalizantes sobre o objeto de estudo,
mas estando disponível para apreende-lo a partir das singulares. Consequentemente,
foram identificadas poucas produções que abordassem especificamente a gravidez na
adolescência a partir do referencial teórico da psicanálise winnicottiana, o que
respalda a importância da pesquisa aqui empreendida. Porém, a revisão realizada
revelou características específicas referentes aos aspectos sociais, culturais e
psíquicos, que devem ser levados em consideração
para
a
compreensão
do
31
fenômeno
e
do
objeto
de
estudo.
3 RELAÇÕES FAMILIARES E GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
Este capítuloisa a compreensão de aspectos psíquicos e emocionais presentes
nas relações familiares e suas possíveis repercussões no desenvolvimento da
maternidade em adolescentes grávidas. Esses fatores referentes ao ambiente familiar,
segundo Winnicott (1964/2013), são imprescindíveis para o entendimento do
desenvolvimento precoce do ser humano, a partir da noção da relevância dos cuidados
maternos para a estruturação do psiquismo infantil. Sendo assim, as especificidades e
vivências nos contextos nucleares relacionais tornam-se fundamentais para as trocas
de experiências afetivas, emocionais e internalizações de modelos parentais, sociais e
de comportamentos, fundamentais para o desenvolvimento de uma maternagem
suficientemente boa.
O conceito de família remete a configurações que se moldam em prol dos
membros constituintes para realizar ações que se adaptem ao novo, “dentre alguns dos
papéis principais da família nuclear, estão a promoção da socialização e a educação
dos filhos, a provisão financeira e a geração de proteção e afeto [...]” (BAPTISTA et al.
2012, p.16). Percebendo-a enquanto instituição social primária, “[…] família é um dado
essencial da nossa civilização […]” (WINNICOTT, 1957/2013), que fornece subsídios
para a criança constituir-se enquanto sujeito socializado e flexível, aberto para novas
experiencias, satisfazendo as necessidades básicas do ser humano a partir de ações e
atitudes vindas dos cuidadores.
Winnicott (1957/2013) descreveu os fatores de integração e desintegração na
vida familiar, sendo os fatores integradores aqueles capazes de proporcionar saúde e
um bom relacionamento entre os membros, facilitando a criatividade e o desenvolvimento
espontâneo. Sobre os fatores desintegradores, são complicadores que interferem
negativamente na dinâmica da família, repercutindo física e emocionalmente. O autor
afirma: “procurei salientar a importância dos fatores integradores e desintegradores que
afetam diretamente a vida familiar e provém do relacionamento entre um homem e
uma mulher casados e das fantasias conscientes e inconscientes de sua vida sexual”
(Idem, 1957/2013, p.63).
Um dos fatores nocivos é a violência intrafamiliar que interfere ao longo de toda
a vida nos membros da família que vivenciaram esse tipo de violência, podendo ser
32
compreendida a partir de constantes práticas abusivas nos níveis físicos, psicológicos,
sexuais, negligência, permanecendo um sistema de cuidados que interrompe o
processo de amadurecimento emocional de todos componentes desta família. Manifestase em um contexto de intimidade e convivência entre os membros, formando um
núcleo insuficientemente bom e de produções perturbadoras.
Segundo Miura et al (2011), crianças que foram vítimas desse tipo de violência
têm maiores propensões a se tornarem agressores ou vítimas de agressão, a terem
dificuldades de estabelecer vínculos, a desenvolver distúrbios psicopatológicos, entre
outras complicações. Complementando, Miura; Tardivo; Barrientos (2016) observaram
que adolescentes que vivenciaram experiências traumáticas de violência intrafamiliar
durante a infância, costumam reeditar
essas experiências infantis
de
maneira
aterrorizante. Então, preocupa-se com a preservação da saúde emocional dos sujeitos que
conviveram nesses contextos e que, posteriormente, poderão constituir suas próprias
famílias. “Nos casos de violência intrafamiliar, podemos hipotetizar que o ambiente não
é suficientemente bom, ou seja, não há condições favoráveis suficientes para atender às
necessidades do bebê [...]” (MIURA; TARDIVO; BARRIENTOS, 2016, p. 334).
Em casos de adolescentes grávidas, procura-se atentar para a disponibilidade
interna e os fatores externos do ambiente que venham a interferir na preparação para
receber o bebê e na capacidade de oferecer os cuidados, pois, no decorrer da gestação, a
dedicação e priorização materna para com o bebê fortalece o vínculo e a estabilidade para
que o feto possa amadurecer para o nascimento. A gestação na adolescência implica um
desafio duplo para a gestante, na constante busca incerta de identidade e construção
de sua autoimagem, necessitando transpor a imaturidade característica desse período
para se identificar com o seu bebê e proporcionar-lhe os devidos cuidados necessários
para o seu desenvolvimento físico e emocional, em um momento de autodefinição e
reestruturação da personalidade.
Deutsch (1974/1977) ressalta a importância da constituição familiar, ao explicar
o acontecimento da gravidez durante a adolescência a partir de relação primitiva e
inerente às fases psicossexuais da menina com uma mãe fálica, detentora de
autoridade e poder, havendo um sentimento de simbiose entre ambas. Por isso,
ao engravidar, há uma tentativa, por parte da adolescente, em retornar e reviver
períodos de seu desenvolvimento. Para a autora, a gravidez é algo de natureza
compulsiva, o que torna as ações e tentativas de prevenção por parte dos
profissionais ineficazes e, comumente, as gestações tendem a repetir-se. Deutsch
33
complementa, dizendo que:
Sua gravidez compulsiva não é a expressão do desejo e da necessidade de uma
mulher de ser mãe. Elas normalmente são abandonadas pelo pai da criança,
principalmente porque não se desenvolveu nenhum laço emocional entre ele e a
moça. Sejam quais forem as complicações trágicas que possam desenvolver-se na
realidade da moça, a compulsão pode persistir e a moça pode repetir a experiência.
(DEUTSCH, 1974/1977, p. 106).
Por ainda apresentar comportamentos infantis e dependentes, o apoio e
proteção para com a adolescente gestante deve estar presente com fins a fazê-la
sentir-se capaz e acolhida para a incorporação e o desempenho da maternidade, como
ressalta Winnicott, ao dizer: “É claro que a mãe imatura ou doente de alguma outra
forma precisa de um tipo especial de ajuda por parte da pessoa que cuida de seu
caso [...]” (WINNICOTT, 2012/1957, p. 67). A interação com o ambiente
circundante pode atuar como fator protetivo ou desintegrado desse processo de
crescimento. Assim, “o desenvolvimento, em poucas palavras, é uma função da
herança de um processo de maturação, e da acumulação de experiências de vida;
mas esse desenvolvimento só pode ocorrer num ambiente propiciador [...]” (Idem,
1960/2011, p. 27).
Winnicott (1960/2013) denomina de forças ou cobertura protetora essa
capacidade do ambiente de convívio da mãe, em protegê-la diante do estado de
vulnerabilidade em que se encontra, durante a gestação e após o nascimento do bebê,
preparando e mantendo um espaço no qual ela possa dedicar-se ininterruptamente ao
seu bebê, sem se preocupar com funções domésticas e laborais, por exemplo.
Complementa ainda que diante do fracasso em prestar auxílio, ela entra em
contato com sua fragilidade e suas falhas, atualizando defesas e prejudicando a
relação e vinculação da díade. Assim, “tais enfermidades podem ser ocasionadas,
em certa medida, por um colapso da cobertura protetora, um colapso daquilo que
permite à mãe estar voltada para dentro e esquecer todos os perigos externos
enquanto dure sua preocupação materna (WINNICOTT, 1960/2013, p. 23).
Com isso, “ela necessita de apoio por esta época, que é melhor dado pelo pai
da criança, sua mãe, pela família e pelo ambiente social imediato. Isso é terrivelmente
óbvio, mas apesar disso precisa ser dito” (Idem, 1963/2007, p. 81). O auxílio não
deve ser confundido com o autoritarismo ou indulgência, mas sim para possibilitar a
“autorização” e o conforto necessários para que a adolescente possa elaborar e
34
ressignificar os novos desafios, produzindo novos sentidos e projetos de vida, a partir
de sua nova realidade, em que o ato de dedicar-se ao seu bebê deve ser priorizado.
Ressalta-se, assim, a necessidade de amparo e proteção, em diversas
circunstâncias, para com a mãe, que também precisa sentir-se cuidada, livre de
ameaças externas e de seus próprios impulsos destrutivos, e expectativas
constantemente atualizadas nesse período. Em casos patológicos, “onde a mulher
normal precisa de orientação, a que está doente precisa de amparo e encorajamento”
(Idem, 1957/2012, p. 67). As práticas de assistência também devem incluir os demais
membros da família, da rede social da mãe, enfatizando o apoio recebido para a
dedicação ao ser em desenvolvimento e construção de um ambiente suficientemente
bom. Nesse sentido, “a existência da família e a preservação de uma atmosfera
familiar resultam do relacionamento entre os pais e do contexto social em que vivem”
(Idem, 1957/2013, p. 61).
Consequentemente, enfatiza-se a importância de um ambiente criativo e
potencializador,
composto
por
pessoas
que
reconheçam
a
importância
da
maternidade para a saúde física e psíquica, valorizando a capacidade da adolescente
em dedicar-se a essa função, fornecendo formas de cuidados com múltiplas
variedades, mas na existência concomitante da capacidade de proporcionar atenção
suficiente para auxílio da árdua e interessante tarefa da maternidade e suas
implicações no surgimento em um período tão crítico do desenvolvimento, como é na
adolescência.
No período intrauterino, a mãe precisa conduzir a existência de outro ser que
depende inteiramente dela e necessita pertencer a um lugar afetivo. “Cada vez mais se
comprova, empiricamente, que o feto pode sentir mudanças repentinas no ritmo cardíaco
da mãe, bem como suas movimentações bruscas ou o efeito de uma alimentação tóxica
ou desregrada” (DIAS, 2003, p. 59). Por isso, estando inserida em uma família abusiva,
as consequências podem prejudicar tanto o desenvolvimento do bebê quanto a
função de cuidadora em gestantes que aindam precisam conviver com a imaturidade da
adolescência.
Durante o período gestacional, depende da mãe para que o feto possa
permanecer com estabilidade necessária, adaptando-se à temperatura intrauterina,
à alimentação, movimentos e trocas afetivas, preparando-se para o dia em que irá
chegar ao mundo. Então, essas experiências, anteriores ao nascimento, significam
que “tudo isso é próprio do início, e de tudo isso provêm as imensas
35
complexidades que abrangem o desenvolvimento emocional e mental do bebê e da
criança” (WINNICOTT, 1967/1975, p.154).
O estado de disponibilidade em voltar-se para seu filho, cuidando para que
ocorra tudo bem na gravidez, escolhendo o nome, planejando o nascimento e criando
imagens sobre sua possível fisionomia e características, além de iniciar um modo
de comunicação rudimentar com o feto, identificando-se com ele, foi descrito
com as seguintes palavras:
Já escrevi muito sobre esse assunto, sob o título „Preocupação materna primária‟. Nesse
estado, as mães se tornam capazes de se colocar no lugar do bebê, por assim dizer.
Isso significa que elas desenvolvem uma capacidade surpreendente de
identificação
com o bebê, o que lhes possibilita ir ao encontro das necessidades básicas do
recém-nascido, de uma forma que nenhuma máquina
pode imitar, e que não pode ser ensinada [...]. (WINNICOTT, 1964/2012, p.30).
Esse processo natural, que antecede o nascimento e permanece em média
por algumas semanas, não pode ser confundido com uma psicopatologia ou um
estado esquizoide da personalidade. Trata-se de uma preparação para receber e
manter vivo um novo sujeito em formação. Os momentos interacionais na
gravidez são necessários também, para propiciar o estado de vir-a-ser do bebê
(WINNICOTT, 1963/2013), ou seja, um plano para a sua existência, com
realizações, investimentos e expectativas, que se inicia na interação da díade. “A
mãe que é capaz de se devotar, por um período, a essa tarefa natural, é capaz de
proteger o vir-a-ser do seu bebê” (Idem, 1963/2013, p. 82).
Porém, diante da subjetividade materna que se consolida a partir do processo
de amadurecimento pessoal ao longo da vida de cada um, também pode-se implicar
percalços e a existência de distúrbios expressos por mães incapazes de mergulhar
e aceitar essa experiência, negligenciando-a ou optando por uma “fuga para a
realidade”. Assim, não elegendo essa tarefa como prioridade, dedicando-se
concomitantemente a outras funções, ou por uma preocupação patológica excessiva,
identificando-se com o bebê, por um período longo demais, impedindo seu
desenvolvimento espontâneo (Idem, 1960/2011), além de que, “qualquer reação ou
falha de adaptação, causa uma reação no lactante, e essa reação quebra o vir-a-ser”
(Idem, 1963/2013, p. 82).
A concepção ontológica do humano refere-se ao sujeito em formação desde a
vida intrauterina, capaz de sentir, experienciar e armazenar vivências primitivas e
36
constitutivas para a personalidade. Winnicott (1965/2013) descreve que em algum
momento na gestação, as experiências vindas do ambiente externo da mãe, passam a ser
absorvidas e integradas no psiquismo do bebê, inclusive momentos de frustração, onde o bebê
sente, que sua expectativa não se realizou plenamente. Com isso, “a partir desta espécie de
relato descritivo podem-se encontrar provas da existência de um indivíduo, antes do processo
de nascimento” (WINNICOTT, 1965/2013, p.46).
Durante a gravidez, desenvolve-se um novo membro da família, que depende
initerruptamente dos cuidados da mãe para sobreviver e amadurecer, sendo necessária a
provisão ambiental para permitir que esse feto amadureça progressivamente. “O termo
„processo de maturação‟ se refere à evolução do ego no self, inclui a história completa do id,
dos instintos e suas vicissitudes, e das defesas do ego relativas ao instinto” (WINNICOTT, 2007,
p. 81). Ou seja, nesse processo complexo, há uma contribuição significativa do ambiente de
convívio materno, adaptando-se e oferecendo condições favoráveis para a mãe e seu bebê, e
as tendências hereditárias complementam esse desenvolvimento maturativo.
Os cuidadores colaboram assim, para o processo de desenvolvimento de um
novo habitante, que inicia sua jornada no corpo da mãe, depois em seus braços, e
posteriormente no lar propiciado pelos pais (WINNICOTT, 1963/2013). Sendo
assim, considera-se que a gestação, enquanto um processo físico e psicológico, é
preparatória para o nascimento e que a partir de um momento indefinido, os registros
de experiências absorvidas pelo feto são armazenadas e permanecem no aparelho
psíquico do bebê. Assim como os processos interacionais entre ambos, inserindo o
bebê em uma cadeia de pertencimento a uma estrutura familiar e de cuidados.
Corroborando com isso, “evidências clínicas permitem presumir que, tanto a
movimentação
quanto a
quietude, experienciadas na vida intrauterina, são
significativas para eles e, de algum modo, ficam registradas” (DIAS, 2003, p. 158).
Portanto, sabe-se que “as últimas semanas de vida do bebê no útero, afetam o seu
desenvolvimento corporal, e é possível pensar no início de uma sensação geral de
segurança (ou insegurança) (...)” (WINNICOTT, 1970/2013, p. 72).
Nesse espectro, sobre o nascimento do bebê e a vida extrauterina, Winnicott
assevera: “gostaria de dizer que nestas primeiras e importantíssimas semanas de vida
do bebê, os estágios iniciais de seus processos de amadurecimento têm sua primeira
oportunidade de se tornarem experiências do bebê [...]” (WINNICOTT, 1957/2012,
p. 8). Ao nascer, desenvolve-se a partir de uma relação indissociada com a figura
materna, em que o estado inicial caracterizado pela condição não-integrada desse
37
novo ser enfatiza a relevância de um contato contínuo por parte da mãe capaz de
priorizar momentaneamente as necessidades de seu bebê sobre suas próprias
necessidades.
Com o passar do tempo, afirma Winnicott (1967/1975), a separação entre
ambos acontece naturalmente, de acordo com o ritmo do bebê e do ambiente,
estando a mãe atenta para, se tudo correr bem, proporcionar o contato do recémnascido com a realidade externa, oferecendo-lhe experiências que possibilitem o
amadurecimento por meio de atos rotineiros e trocas de olhares.
Sobre a percepção do bebê ao olhar para o rosto da figura materna,
Winnicott (1967/1975) associa essa visão a um espelho, capaz de refletir e traduzir
em sua face as emoções e linguagens expressas pelo filho, fazendo-o reconhecer e
sentir-se seguro diante de uma realidade progressivamente identificada e elaborada.
Afirma, então, que o bebê se reconhece no rosto da mãe, devido à capacidade
subjacente
dela
em
decodificar
as
demandas
do
bebê,
expressando-as
espontaneamente em sua fisionomia.
Há casos, porém, em que a mãe não se encontra acessível e disponível,
não reagindo às expressões de seu bebê. Winnicott traz: “Muitos bebês, contudo, tem
uma longa experiência de não receber de volta o que estão dando. Eles olham e não se
veem a si mesmos. Há consequências: primeiro, sua própria capacidade criativa
começa a atrofiar-se [...]” (Idem, 1967/1975, p. 154). Assim, ao não se reconhecer
na fisionomia materna e enxergar literalmente o rosto da mãe, pode haver uma
interrupção no autoenriquecimento e nas trocas significativas desse bebê com o
mundo. Portanto, os cuidados inerentes à maternagem implicam interesse na
priorização e tradução desse ser em desenvolvimento.
Nessa perspectiva winnicottiana (1963/2007), afirma-se que a maternagem
suficientemente boa, ou seja, impulsionadora da organização e saúde do bebê, necessita
de três atitudes e componentes básicos:
O holding enquanto capacidade de sustentação física e emocional, com
o
representante
simbólico
da
contingência
dos
elementos
momentaneamente
desorganizados inerentes a esse estágio de
desenvolvimento do bebê, garantindo a segurança e contenção para
proporcionar a tarefa de integração necessária;
Handling, significando o manuseio, ato de apalpar, utilizar as mãos em
estruturas físicas corporais, nomeando-as, auxiliando-as na distinção da
realidade interna e externa, além da internalização de limites e no auxílio
da constituição psicossomática, garantindo o estado de personalização;
E, por último, em que já há uma independência parcial da figura cuidadora
38
em si, a apresentação de objetos, percussora do estabelecimento de novas
relações objetais e da sociabilidade (WINNICOTT, 1963/2007).
Winnicott (1963/2007) também ressalta sobre os estados do crescimento
emocional, que se iniciam com a dependência absoluta, caracterizados por uma
provisão contínua de necessidades para além do campo instintivo do bebê, e exigindo
um alto grau de adaptação materna para manter a necessária ilusão de onipotência
já descrita e a satisfação imediata de necessidades do demandante.
Pensa-se, portanto, paralelo às possibilidades de análise e compreensão, na
valorização de uma ética do cuidado, expressa por validar o conhecimento
materno, reconhecendo a capacidade da mãe em cuidar, proteger e assegurar seu
bebê física e emocionalmente, independente de cuidados prescritivos e formais.
Dessa forma, “ao mesmo tempo o cientista, se assim desejar, pode olhar com
admiração para o conhecimento intuitivo da mãe, que a torna capaz de cuidar de seu
bebê independente de qualquer aprendizado [...]” (WINNICOTT,1950/2012, p.14).
Prevalece um paradigma com ênfase na intersubjetividade e no protótipo de
uma relação de cuidado para a sobrevivência, em que o bebê de fato existe e
permanece vivo, devido à existência concomitante de uma mãe que contingencia e o
percebe, adaptando-se a singularidades de seu bebê, dotando-o de características e
significados desde o período gestacional. Nessa perspectiva, “o importante é que eu
sou não significa nada, a não ser que eu, inicialmente, seja juntamente com outro
ser humano que ainda não foi diferenciado [...]” (Idem, 1950/2012, p. 9, grifos do
autor).
Winnicott (1971) enfatiza a importância em considerar e entender o estágio
do desenvolvimento emocional primitivo do sujeito, afirmando assim a existência
de uma tendência inata ao amadurecimento como constituinte do ser humano desde o
mais remoto período de vida, expressa por um potencial criativo com múltiplas
potencialidades em seu existir. Porém, há uma interação com o ambiente no qual esse
bebê está inserido, cabendo à figura materna uma apresentação em pequenas doses
dessa realidade objetiva que o circunda. O autor traz que “há uma tendência ao
desenvolvimento que é inata [...]. Todavia, esse crescimento natural não se constata
na ausência de condições suficientemente boas [...]” (WINNICOTT, 1957/2005, p.
6), e complementa, afirmando que “interessamo-nos pela riqueza da felicidade que
se constrói na saúde e que não se constrói na falta de saúde psiquiátrica, mesmo
quando os genes poderiam levar a criança à realização” (Idem, 1968/1975, p.192,
39
grifos do autor).
Entende-se por essas condições a criação e manutenção de circunstâncias
que propiciem o bem-estar, a continuidade-do-ser, com saúde e estabilidade para o
bebê, promovendo um cuidado individualizado, a partir das necessidades emergentes
dele, com a disponibilidade da mãe enquanto representante humano do ambiente
capaz de dedicar- se a essa tarefa. O autor acrescenta: “Quando o par mãe-filho
funciona bem, o ego da criança é de fato muito forte, pois é apoiado em todos os
aspectos [...]” (WINNICOTT, 1960/2013, p. 24).
40
4 JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS
A presente pesquisa faz referência à temática da gravidez na adolescência e do
respectivo desenvolvimento da maternidade, entendendo que o fenômeno se desenvolve
em um período de transição da etapa evolutiva da gestante, implicando na ruptura de
hábitos e interesses egocêntricos, característicos do período adolescente. Na interação da
díade mãe-bebê, torna-se indispensável o movimento materno de voltar-se ao seu bebê,
preparando o ambiente físico e psíquico para a sua chegada e posterior cuidado de suas
demandas, que só podem ser decifradas e entendidas a partir de uma relação contínua de
acompanhamento do desenvolvimento e disponibilidade psíquica e emocional para trocas
de afetos.
Ao reorganizar as suas representações de família para ocupar o papel
materno, desconstruindo e estabelecendo novos conceitos e modos de convivência e
relacionamentos, a adolescente necessita integrar formas de cuidar que priorizem
seu bebê, “suspendendo” temporariamente suas necessidades particulares. Portanto,
entende- se que:
O grande desafio no ato de cuidar é ter consciência do momento em que se deve
implicar na relação e o momento em que se deve parar, em que se deve estar mais
reservado, possibilitando o equilíbrio necessário para que o sujeito que requer cuidados possa
ser acolhido e sustentado quando houver necessidade e também ser chamado à vida como
sujeito diferente do agente cuidador. (MIURA, 2014, p.187).
Por isso, um dos aspectos importantes de ser observado durante a gravidez
é o ambiente familiar da mulher, composto pela família de origem e/ou pelo seu
companheiro. Para Winnicott, quando o ambiente da mulher grávida, que deveria
ser protetor, é instável e invasivo, ele deixará a gestante ainda mais vulnerável,
estando sujeita aos “distúrbios mentais puerperais” (WINNICOTT, 1960/2005, p.
23). Essas condições dificultam a mãe de estar disponível ao bebê, e um fracasso
dessa função protetora torna-se um fator essencial na constituição de uma
maternagem não suficientemente boa.
Dessa forma, a presença, capaz de acolher e contingenciar angústias,
propiciada pelo ambiente com a mulher grávida é importante também para o
desenvolvimento da “preocupação materna primária”, sendo um estado de
sensibilidade exacerbada que se inicia na gravidez e perdura por alguns meses
após o parto, para que a mãe possa, espontaneamente, adaptar-se às necessidades do
41
bebê (Idem, 1956/2000). Quando não há essa
família
ou
os
próprios
profissionais
provisão
ambiental, alguém
da
de saúde precisam exercer essa função
protetora.
Diante do exposto, é importante conhecer o ambiente (físico, familiar e
amoroso) da adolescente grávida, com o intuito de compreender o desenvolvimento da
relação mãe- bebê. Além disso, é fundamental perceber o quanto a própria
imaturidade na adolescência pode afetar esse processo. Esse contexto se mostra
interessante de ser observado e entendido devido à própria condição de ser
adolescente e gestante simultaneamente, tornando-a vulnerável, e necessitando de
auxílio e acompanhamento durante o processo gestacional e após o nascimento de
seu filho. Salienta-se, assim, a importância do interesse e abertura para a
investigação das especificidades, sentidos e experiências singulares que se processam
nesse período.
Os altos índices de gravidez na adolescência revelam uma realidade
crescente e preocupante, que não pode ser negligenciada. De acordo com o Fundo
das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, 2015), a região da América Latina e
Caribe apresentam as maiores taxas de fecundidade adolescente, depois da África
subsaariana. Na América Latina, um terço das gestações correspondem a menores de
18 anos, sendo 20% delas menores de 15 anos. Altos são os índices em países em
desenvolvimento que enfrentam problemáticas adversas. De acordo com o Banco
Mundial (2013), o Níger encontra-se no topo da lista, com 205 meninas, a cada mil,
que são mães entre os 15 e 19 anos. O Brasil é o 49° colocado, com 70 a cada mil
meninas, dessa mesma faixa etária, que deram a luz em 2013.
Em Alagoas, Almeida e Trindade (2016) analisaram os dados disponíveis
no Sistema de informações sobre nascidos vivos, Sinasc do DataSUS, Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Atlas do Índice de Desenvolvimento
Humano dos Municípios (IDHM/2013) e Departamento de Atenção Básica/Cobertura
Populacional da Estratégia de Saúde da Família, revelando uma realidade com um
aumento significativo de 4,16% de adolescentes que engravidaram, na faixa de 10 a
14 anos, no período de 2000 a 2010. Em 2000, o número de nascidos vivos de
meninas nessa faixa etária foi de 797 e em 2010 chegou a 836.
Consequentemente, torna-se relevante a produção dessa pesquisa que se
dispõe a investigar a temática da gravidez na adolescência. Diante disso, uma
inquietação que se colocou foi: Como se dá o desenvolvimento do processo da
42
maternidade em adolescentes grávidas?
Desta forma, o objetivo geral desta pesquisa consistiu em compreender e
analisar o processo de desenvolvimento da maternidade junto as adolescentes
grávidas. E como objetivos específicos: identificar o contexto social, histórico,
escolar, cultural, os projetos de vidas e o ambiente familiar dessa população; e
investigar a experiência de maternidade vivenciada pelas adolescentes grávidas.
Com isso, entende-se pelo desenvolvimento da maternidade, o processo de
identificação da gestante com seu bebê, no caso desta pesquisa das adolescentes
grávidas, também com a constituição do bebê imaginado, desejado, com a
reorganização do papel da gestante na sua família e na família que está sendo
constituída, bem como com o amadurecimento para o estado de preocupação
materna primária descrito por Winnicott (1964/2012), como uma condição de
identificação materna com o bebê, fazendo-a decifrar as necessidades do mesmo.
Esse assunto será aprofundado no cápitulo 4 (Relações familiares e gravidez na
adolescência).
Para nortear as investigações e análise dos dados foi adotada a teoria da
psicanálise de Winnicott (1896/1971), a partir de suas contribuições sobre as
temáticas de interesse. Utilizou-se também autores que adotam a abordagem
psicodinâmica e que desenvolveram pesquisas sobre as temáticas da adolescência,
gravidez na adolescência e maternidade. Com o intuito de articular o material
identificado,
com
a
compreensão teórica e prática do desenvolvimento da
identificação da gestante com o seu bebê, com a constituição do bebê imaginado, e
com o conceito descrito por Winnicott, denominado de Preocupação materna
primária, elementos que compõe o processo da maternidade, e auxilia no
entendimento da relação dessas mães com seus bebês, após o nascimento
43
5 MÉTODO
Este estudo tem um caráter exploratório, descritivo e qualitativo, visando a
compreensão de experiências subjetivas de adolescentes grávidas. A escolha do
método qualitativo ocorreu em função de propor o entendimento do significado do
fenômeno investigado para a vida das pessoas, realizando uma interpretação a partir
da perspectiva dos sujeitos, trazendo e produzindo conhecimentos originais
(TURATO, 2005). Foram convidadas para participar desta pesquisa quatro
adolescentes grávidas.
A coleta dos dados foi realizada na casa de uma das participantes, em
uma Unidade Básica de Saúde, e no setor da maternidade no Hospital
Universitário de Alagoas. O projeto de pesquisa foi enviado ao Comitê de Ética em
pesquisa da Universidade Federal de Alagoas e obteve o parecer favorável de número
1.541.569. As adolescentes foram convidadas a participar deste estudo pela
pesquisadora, a qual oportunamente lhes explicou a finalidade da pesquisa, sendo
solicitado o preenchimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)
(ver anexo I) pelo responsável legal das adolescentes e o Termo de Assentimento pelas
adolescentes (ver anexo II).
Trata-se de estudos de casos, em que, segundo César (2005), o critério de
amostragem não se baseia na incidência do fenômeno, mas sim no interesse em
compreender suas complexidades e variáveis, e o número de casos escolhidos não
estará relacionado com os dados estatísticos de níveis de significância. Para Yin
(2015), a utilização de estudos de casos possibilita uma investigação em
profundidade e generalizações epistemológicas e analíticas.
Ao investigar a temática da gravidez na adolescência, a partir das
experiências subjetivas de quatro adolescentes grávidas, recorreu-se à triangulação
com outros métodos para possibilitar uma compreensão abrangente, diante da
complexidade multideterminada do fenômeno (PERES; SANTOS, 2005). Desta
forma, foram aplicados os seguintes instrumentos: a) formulário de caracterização
do perfil socioeconômico e de produção e reprodução social, com a finalidade de
auxiliar na compreensão de aspectos referentes ao contexto socioeconômico,
histórico, cultural e do ambiente familiar das gestantes adolescentes (ver anexo III);
b) entrevista semiestruturada (ver anexo IV), com roteiro delineado, em que
estiveram contidas as seguintes temáticas: história de vida e projetos de vida antes
44
da gestação; sua história escolar e de amizade; o processo gravídico e o bebê
imaginado e desejado; relações familiares e relações com o pai do bebê; após o
nascimento do bebê, quais os projetos de vida; e c) Procedimentos de Desenho de
Famílias com Estórias (TRINCA, 2013).
As análises das entrevistas semiestruturadas foram realizadas com base no
conteúdo delas mesmas (BARDIN, 2011) e os referenciais teóricos que embasaram
os conteúdos identificados nas entrevistas e nas observações foram a psicanálise
winnicottiana e outros referenciais psicodinâmicos. Também nas descrições dos
desenhos, na intenção de complementar os pressupostos estabelecidos e oferecer
uma análise detalhada, utilizou-se o referencial de Hammer (1991), ao propor
contribuições referentes aos aspectos gráficos de cada produção.
5.1 Desenho de Famílias com Estórias
Esse procedimento clínico desenvolvido por Trinca (1986), utiliza-se de
recursos gráficos e verbais para possibilitar uma investigação ampla e compreensiva
de aspectos inconscientes do indivíduo relacionados a fantasias, angústias e defesas,
com enfoque na dinâmica familiar experienciada, percebida e imaginada pelo sujeito.
Assim, “consiste na aplicação e na interpretação de uma série de quatro consignas
determinadas: desenhe uma família qualquer, desenhe uma família que gostaria de
ter, desenhe uma família em que alguém não está bem e desenhe a própria
família” (TRINCA, 2013, p. 211). Ainda segundo o autor, para a aplicação, é
necessário que o examinando esteja sentado em uma mesa e o examinador posicione
uma folha de papel na horizontal, espalhando sobre a mesa lápis preto (grafite) e
doze lápis de cor com cores diversas. (Ibidem).
Após a aplicação de cada unidade de produção, e o estabelecimento de vínculo
e confiabilidade necessários, segue-se com um protocolo, solicitando ao examinando
que conte uma história associada ao desenho e responda a um “inquérito”, feito pelo
examinador,
para
esclarecer
possibilitando novas
e
associações.
compreender
questões
do
material
obtido,
“Ele figura um meio de proporcionar um
aprofundamento das fantasias expressas de modo gráfico-verbal” (TRINCA, 2013, p. 23).
Ao final, pede-se o título da produção.
Para Trinca (2013), ao estimular o examinando a contar histórias, há a
oportunidade de expressão indireta de conflitos, a partir de enredos, personagens,
45
temas, traços e dramas, o que possibilita o contato com conteúdos latentes
relacionados a fantasias inconscientes, angústias e defesas, com o enfoque nas
relações familiares. Nesse contexto, “se a formação básica do psiquismo se dá no seio
da família, é tarefa importante apresentar um procedimento que permite acesso aos
objetos internalizados, os quais são determinantes da constituição da personalidade
como um todo” (LIMA, 2013, p.232).
É uma técnica destinada a populações diversificadas, de qualquer faixa etária.
Para a realização da pesquisa, foram dadas as instruções mencionadas, de forma
individual, para as quatro gestantes adolescentes, sendo necessários os seguintes
materiais: folhas de papel em branco, sem pauta, de tamanho ofício; lápis preto
(grafite) e caixa de lápis de cor de doze unidades (TRINCA, 2013). A teoria
psicanalítica de Winnicott, assim como as contribuições de Hammer (1981) e as
recomendações de Trinca e Tardivo (2010) embasaram a análise do material
coletado, fundamentada nos seguintes itens identificados:
5.1.1 Relacionados ao grafismo:
1
- Figura humana ou não humana; 2- Tamanho e localização;
2
Membros presentes ou ausentes;
3
Membros: Família nuclear, de origem ou outras;
4
Elementos de apoio;
5
Sequência: Formas se mantêm ou mudam;
6
Na sequência, as formas do desenho se mantêm ou se modificam?
5.1.2 Relacionados ao conteúdo das histórias:
1 Figuras de identificação;
2 Angústias e conflitos básicos;
3 Utilização de defesas;
4 Soluções para os conflitos;
5 Principais sentimentos;
6 Personagens principais.
46
6 RESULTADOS
6.1 Caso 1 - Vitória
6.1.1
Formulário para caracterização do
perfil
socioeconômico
e
de
produção e reprodução social
Vitória tem 18 anos, se autodeclarou branca, nasceu em Maceió, Alagoas,
cursou o ensino médio completo, não tem histórico de repetência, porém
interrompeu o curso de técnico de laboratório ao descobrir que estava grávida. A
adolescente não está trabalhando no momento. Teve a menarca aos 13 anos, a
primeira atividade sexual aos 15, e dois parceiros no último ano. Também afirma
ter feito uso de métodos contraceptivos, especificamente a camisinha. Casou ao
descobrir que estava grávida, e está em um relacionamento de um ano e quatro
meses com o pai do bebê. É a primeira gestação, não foi planejada, iniciou o prénatal já no primeiro trimestre. A jovem não fuma, não faz uso de álcool e nem de
outras drogas. Mora com a mãe, de 36 anos, o pai, de 43 anos, o esposo de 18 anos e
um irmão, de 14 anos. Sua mãe engravidou aos 20 anos. Sua casa tem seis cômodos e
dois quartos, com luz elétrica, água da rede pública, esgoto e coleta de lixo. Diz que
no bairro em que mora há a ocorrência de muitos acidentes de trânsito.
6.1.2
Entrevista semiestruturada
A entrevista semiestruturada com a adolescente foi realizada em fevereiro de
2017, em seu sexto mês de gestação. A jovem foi indicada para participar do estudo,
por uma conhecida, sendo necessário um contato prévio da pesquisadora com seu
esposo, para que ele autorizasse e entendesse a intenção da pesquisa. Com um
semblante facial representando disponibilidade para interagir e relacionar-se com a
pesquisadora, Vitória se apresentou e sentiu-se à vontade para iniciar um diálogo
e responder aos questionamentos solicitados. A entrevista foi realizada no
domicílio da adolescente, e durante a entrevista, estavam presentes apenas a dupla
(pesquisadora
e
pesquisadora
no local, fazendo-a
empreendida.
entrevistada),
a
jovem
preocupou-se
em
aconchegar
a
sentir-se
à vontade para iniciar a proposta
47
No início do encontro, buscou-se esclarecer a proposta da pesquisa,
alertando sobre a voluntariedade na participação e o sigilo das informações
reveladas por Vitória, em que demonstrou compreensão das informações e
interesse em saber sobre como funcionam as pesquisas nas universidades. Após
uma
interação
espontânea,
em
que explicou as informações solicitadas,
prontamente, a jovem compreendeu sobre os Termos de
Consentimento
e
Assentimento e aceitou que o encontro fosse gravado, além de fornecer seu
número para contato.
Ao ser solicitada a escolher um nome fictício para ser identificada,
escolheu Vitória, que diz representar o resultado dos percalços de sua trajetória e
que admira assim o significado do nome. Na realização dessa coleta, apenas Vitória e
a pesquisadora estavam presentes no local, facilitando o estabelecimento de um
vínculo suficientemente bom, capaz de promover a livre expressão de falas e de
afetos.
O primeiro questionamento feito para a adolescente foi para que falasse sobre
sua infância, do que se recordava e era significativo para ela. Expressou, assim, um
sentimento de saudades ao se lembrar das brincadeiras de sua infância, repetindo
ao longo da entrevista os jogos que brincava na porta de casa e na escola onde “Não
gostava de estudar, gostava de ir para brincar” (sic), sempre mantendo contato
com meninos, participando assim de brincadeiras que “não eram” consideradas de
meninas: ximbra, esconde-esconde e bola. “No tempo que eu nasci... foi mais tudo
menino. Eu fui uma das únicas meninas da família. Então, eu brincava só com os
meninos... Era brincadeira de ximbra, de bola, e... eu sempre fui assim, esperta
demais” (sic). O ambiente de lazer da vizinhança de Vitória parece ter sido
suficientemente bom, fazendo-a identificar-se com esse ambiente e, mesmo sendo a
única menina, sentia-se incluída pelos amigos. Diferente de quando frequentava a
escola, que não tinha interesse, não se identificava com os estudos, tentando
resgatar as brincadeiras “da rua” (sic), como algo que pudesse tornar o ambiente
escolar mais prazeroso.
Mesmo Vitória dizendo não gostar de estudar, foi o contato com uma
professora, na segunda série do ensino fundamental, que fez com que a jovem se
sentisse aceita e segura no local, dando a impressão de que a profissional exerceu
para além da função de educadora, também a função de cuidadora, preocupando-se
com as necessidades e o desenvolvimento emocional de sua aluna. Então, ao ir
48
para a escola, pôde se adaptar, lidando de forma saudável com esse novo espaço de
convívio, a partir do contato com a professora, realizando uma apresentação
progressiva dessa realidade educacional que acircundava. Entretanto, precisou
mudar cinco vezes de escola, devido à qualidade no ensino e mudança de
residência, perdendo o contato com a professora, mas passando a identificar-se com
ela, gostando de brincar de “escolinha” (sic).
Ao se deparar com as responsabilidades do mundo adulto, Vitória se
assustou e percebeu que não era mais a mesma criança que brincava “mais de dez
horas por dia” (sic). Quando questionada sobre o que mudou desde quando era
criança, até hoje, disse que atualmente não pode mais brincar. Essa condição de
adolescente instalou a nostalgia das memórias de uma infância que cronologicamente
não volta mais.
Posteriormente, foi questionada sobre o relacionamento com os pais, e
afirmou que sempre teve uma boa convivência e que ambos se fizeram muito
presentes em sua vida, “dando carinho, mas também puxando a orelha quando era
preciso” (sic). Quando souberam da gravidez da filha, a princípio não aceitaram,
mas pouco tempo depois, acolheram Vitória e convidaram seu esposo para morar
com eles.
O cuidado e carinho propiciados pela família auxiliaram a jovem na
preparação para a chegada de seu bebê, contribuindo na dedicação para com ele e
na aquisição do sentimento de autoconfiança. Foi questionada sobre quem iria
acompanhá-la no parto, e afirmou ter escolhido sua mãe, por ser uma pessoa
importante em sua vida, sentindo-se segura ao seu lado. Também ressaltou que a
genitora a acompanha em todas as consultas do pré-natal. Ainda em referência aos
seus pais, Vitória
demonstrou
alternar comportamentos de autonomia com
dependência, dizendo: “Eu sinto falta de quando eles faziam tudo pra mim e eu não
precisava fazer nada” (sic), o que demonstra a existência de um sentimento de
ambivalência, ao oscilar em condutas amadurecidas para tornar-se adulta, com o
desejo de retroceder e re-experienciar brincadeiras e momentos de sua infância,
refletindo, assim, as tentativas de elaboração do luto do universo infantil, nessa etapa
evolutiva.
Com relação ao seu esposo, afirmou que este a apoia, que é companheiro, mas
não forneceu mais informações. Observa-se que a principal referência de s e g ur a
nç a e pr ot e ç ã o para Vitória, neste momento da gravidez, é sua mãe.
49
Para ela, a gravidez passou a ser associada à condição de isolamento
social, contando que após descobrir a gestação, frequentemente não encontra mais
as amigas, saindo apenas com os pais e o esposo. “Não ando com ninguém... Assim,
com o Júnior, minha mãe, só. Que é assim, quando a pessoa casa, vem filho e tal...
seus amigos são sua família. Também elas têm, assim, trabalho, têm faculdade... não
têm como tá como antes, assim, saindo e tal... Só de vez em quando, quando eu
completo ano ou elas, a gente marca pra se ver” (sic). Os sentimentos de
conformismo, aceitando a restrição do seu ciclo social à família, alternam-se com
o desejo de poder realizar os planos de criança, fazer faculdade e frequentar outros
locais, com outros públicos, assim como as amigas fazem.
Vitória contou que sempre quis ser mãe, desde pequena, porém quando
descobriu que estava grávida, “foi um choque!” (sic), pois não esperava, e sobre
sua reação: “Fiquei um pouco triste... veio até pensamentos assim „-Ai, meu Deus,
eu não sei se eu vou ter‟, não sei, ficava assim pensando. Mas, depois, fui pegando
amor... começou os „chutinhos‟, mexendo. A primeira vez que eu escutei o
coraçãozinho... aí fui pegando amor” (sic).
Quando criança gostava de brincar com uma boneca específica: “eu só gostava
de brincar com uma bem moreninha que eu tinha... porque ela tinha jeito de ser
menino, aí botava roupa de menino nela... por isso que eu tinha vontade de ser mãe
de menino (sic). Por ter convivido boa parte de sua infância com meninos,
adaptando-se às brincadeiras e rotinas, imaginava ser mãe de um, investindo
emocionalmente nessa expectativa.
O esposo também gostaria de ser pai de um menino, e Vitória enfatizou a
decepção dele ao descobrir o sexo do bebê, narrando que ao fazer os ultrassons,
após saber que o bebê era uma menina, dizia para o esposo: “Já pensou se der
menino?” (sic), o que demonstra a fantasia, também presente ao ser questionada,
quando descobriu que estava grávida, de como imaginava que seria a gestação: “Não
sei... Eu nunca, assim, parei pra pensar as consequências da gravidez, só imaginava
assim, segurando o bebê” (sic). O nome do bebê foi escolhido, se chamará M.,
nome que remete Vitória a experiência de sua infância, inserindo o bebê em um
contexto mais familiar.
Após perceber os movimentos fetais do bebê, começou a dar vida,
imaginar e deslocar características físicas e familiares para o feto: “Acho que vai ser
gordinha... por causa da genética da família. Vai ser gordinha, mas acho que vai
50
puxar a mim, acho que vai puxar a mim... os cabelos cacheadinhos” (sic). Ao sentir
as modificações reais de seu corpo, passou a assegurar a existência de outro ser
em desenvolvimento, inserindo-o assim, na cadeia familiar, ao transmitir os valores
transgeracionais.
Abordou-se, também, a temática dos projetos de vida, e mesmo sem sentir
interesse pelos estudos, Vitória afirmou que as matérias que mais gostava, quando
estudava na escola, eram educação física e biologia, e que tinha o sonho de se
tornar veterinária.
Terminou o ensino médio e iniciou um curso de técnico de laboratório, que
precisou ser interrompido devido à gravidez. Percebeu-se a frustração de Vitória, ao
notar que vive um estilo de vida diferente do das amigas, que trabalham e fazem
faculdade. Disse também que engravidar não estava nos seus planos, e lamenta por
ter que abrir mão de algumas perspectivas e projetos que havia planejado com o
esposo: “A gente tava com planos de fazer concurso em Pernambuco... assim, pra
investir no nosso futuro. E justamente no tempo que a gente tava se organizando...
foi que veio a notícia que eu tava grávida e tal. E eu também tava fazendo cursinho e
curso técnico. Tive que parar” (sic).
Ao saber que estava grávida, seu esposo ficou doente, sem voz e com
febre, e Vitória contou que foi “sistema nervoso” (sic), que ele gostaria de ter uma
casa, ganhar mais dinheiro, e a chegada do bebê fez com que ele se mudasse para a
casa dos sogros e deixasse o cursinho preparatório para concursos, que fazia.
Atualmente, inclui sua filha em suas novas perspectivas, tentando se adaptar à nova
realidade: “A gente quer ir para a nossa casa, começar, assim, quando ela tiver
maiorzinha, procurar fazer concurso. Investir, assim, no meu futuro, porque... não
dá pra ficar assim dependendo sempre...” (sic).
6.1.3
Desenho da família com estória
Foi solicitado que Vitória desenhasse quatros desenhos, e em seguida
contasse uma história após cada produção, respondendo ao inquérito e adicionando
um título. Das doze cores oferecidas para a realização dos desenhos, a adolescente
utilizou apenas o lápis grafite, de número 2. Segue a compreensão de aspectos
relacionados ao grafismo e ao conteúdo das histórias, de cada produção.
51
6.1.3.1 “O presente que Deus me deu” (desenho de uma família)
Figura 1 - O presente que Deus me deu
Vitória: “Ah, minha família. Assim, sabe, tipo, eu, J. (esposo), e a bebezinha,
né... Estamos passeando, lazer...” (sic).
Pesquisadora: “Onde vocês gostam de passear?”
Vitória: “Ah, tanta coisa, ver o pôr do sol na praia, passear na natureza... E tem um
parque municipal aqui de lado...e a igreja também...”.
Pesquisadora: “E a bebê que você falou, está inclusa nos passeios?”.
Vitória: “Sim, com certeza”.
Percebe-se
que
as
figuras
humanas
estão
representadas
de
forma
esquemática, com a inclusão dos membros do corpo (braços, pernas, orelhas,
olhos, nariz e boca), cabelos e vestimentas. Estão localizadas na região inferior
esquerda do papel, porém, próximo ao centro do papel, indicando assim uma leve
tendência a comportamentos impulsivos pela busca de satisfação imediata de
necessidades
emocionais
(HAMMER,
1981),
tipicamente
presentes
em
adolescentes e também observados na representação gráfica de desenhar sua filha,
que irá nascer, como criança e não como bebê. As figuras podem ser consideradas
de tamanho médio, revelando uma autoestima realista e uma autopercepção
coerente e saudável (Ibidem). Vitória também desenhou a si própria e o esposo.
Não há elementos de apoio na produção, porém é típico desenhar assim para quem não
tem aptidão.
Com relação ao conteúdo da história, Vitória se inclui no enredo, dizendo
tratar-se de um passeio entre ela, o esposo e sua filha, que está a caminho. Escolheu
um momento prazeroso para representar a relação estabelecida com a família que
vem construindo, demonstrando aceitação e disponibilidade em cuidar de sua
52
filha. Progressivamente, introjeta o papel de mãe, agregando-o nos hábitos e
interesses que constumava fazer. Percebe-se a apropriação, por parte da
adolescente, de sua nova configuração familiar, caracterizando essa família como
sua. Observa-se a filha já crescida na rotina e atividades de lazer dos pais,
compartilhando passeios e hábitos que comumente são realizados pelo casal.
6.1.3.1 “A família perfeita” (desenho da família que gostaria de ter)
Figura 2 - A família perfeita
Estória: “Ah, aqui tá todo o mundo junto, e andando sempre unidos. Um
protegendo o outro. E sempre um esperando os outros” (sic).
Pesquisadora: “Certo. E nesse desenho, quem são esses três?”
Vitória: “O pai, a mãe e o filhinho”.
Pesquisadora: “E o que você acha que eles têm de perfeito?”
Vitória:
“É
porque
família
perfeita
não
existe,
sempre
tem
brigas,
desentendimentos... Mas o importante é que neles (desenho), nunca um
abandona o outro”.
Nesse
desenho,
as
figuras
humanas
são
substituídas
por
animais,
especificamente “uma família de pintos” (sic). As figuras são de tamanho pequeno,
fazendo referência a sentimentos de inadequação e com tendências ao retraimento
(HAMMER, 1981), e estão localizadas na região inferior esquerda do papel, onde,
segundo Hammer (Ibidem) indica tendências ao imediatismo e sentimentos de
insegurança e inadequação, típicos da imaturidade da adolescência.
Ao ser questionada, Vitória referiu-se tratar de um pai, uma mãe e um
53
filho. Devido a essas tendências identificadas, percebeu a possibilidade da
adolescente projetar-se numa perspectiva futura, já que, assim como no desenho, está
formando uma nova família, com o esposo e a filha que irá nascer. Utilizando
então, os animais como representantes e como um meio indireto de comunicar seus
desejos na formação da nova configuração familiar.
Descreveu tratar-se do pai, da mãe e do “filhinho” (sic), que estão sempre
juntos e não se separam, expressando a idealização e expectativa de Vitória para com
sua própria família em formação, a partir também de suas experiências prévias de
cuidado e proteção, fornecidos por seus genitores e que nunca a abandonaram. A
utilização de animais para expressar esse contexto descreve uma forma de projetar
e expressar suas expectativas para o
futuro, utilizando-os como aparentes
“substitutos” de sí e dos familiares (filha e esposo).
Para a adolescente, o conceito de perfeição é a proximidade e proteção entre
os membros da família, na qual ela acrescentou que família perfeita não existe,
demonstrando flexibilidade para manejar e compreender possíveis intercorrências
nas relações familiares. Percebeu-se, também, nessa produção, a mãe estando
próxima ao filho,
e assim como no desenho anterior,
retratou
sua nova
configuração familiar, apropriando-se e aceitando essas mudanças em sua vida.
6.1.3.2 “Sem Deus não somos nada” (desenho da família que alguém não está bem)
Figura 3 - Sem Deus não somos nada
Estória: “As pessoas quando tão longe de Deus elas nunca, nunca... estão bem. E
mesmo que elas demonstrem estar, mas elas nunca estão. Então, o melhor lugar
para se estar, uma família quando se está bem, é perto de Deus, né...” (sic).
54
Pesquisadora: “E quem são essas pessoas aqui?”
Vitória: “Ah, são um casal... tipo, são o pai e a filha, e a mãe... ou então vice e
versa, ou a mãe e o filho”.
Pesquisadora: “E qual a situação você considera tá? Aqui ou aqui?”
Vitória: “Aqui. Na igreja”.
Pesquisadora: “E o que faz a igreja ser esse lugar tão importante para você?”
Vitória: “Os planos de Deus, sempre tem um propósito, né?!”
As figuras humanas estão representadas de forma sistemática com a inclusão
dos membros do corpo (braços, pernas, orelhas, olhos, nariz e boca). As figuras
estão localizadas ao longo de todo o papel, ocupando tanto as regiões esquerda
quanto da direita, indicando comportamentos autodirigidos, autocentrados e
emocionais (Ibidem). Os membros não se referem a pessoas específicas, e verificase a presença de elementos de apoio na produção, como a igreja e o local de festas.
Considera-se o entrelaçamento dos aspectos com o conteúdo dessa
produção, ao fazer referência ao posicionamento atual de Vitória acerca da
relevância da prática religiosa em seu cotidiano, repercutindo em seu estilo de vida.
Em outro momento durante a coleta de dados, Vitória comentou que, junto
com sua família, tem o hábito de frequentar semanalmente a igreja evangélica. Em
sua história, diz tratar-se de um casal que pode ser a mãe e o filho, ou a esposa e o
esposo, em que um deles (esposo ou filho) não está indo para a igreja e sim para as
festas, iludindo-se com uma falsa ideia de felicidade. Porém, de forma semelhante à
história, conta que quando a mãe se converteu à religião, o pai não gostava de
frequentar a igreja, o que a deixava muito triste e quando conheceu seu esposo, este
se converteu durante o namoro. Devido à crença religiosa, a adolescente estabeleceu
uma relação de salvação e esperança, o que auxilia no conformismo de sua condição
atual (estar grávida, não fazer faculdade e sair pouco com as amigas), sendo a
confiança em Deus, a solução para a problemática que vivencia.
6.1.3.3 “A melhor viagem” (desenho de sua família)
55
Figura 4 - A melhor viagem
Estória: “No dia que a gente viajou... nós cinco, nem eu nem meu irmão mais
velho queria ir (risos). Nós fomos e, foi assim, um dos momentos mais marcantes
da minha vida. Foi aí que meu irmão mais velho não tava casado, e eu não tava
casada também... E foi ótimo. Foi uma das partes que mais marcou...” (sic).
Pesquisadora: “E para onde vocês viajaram?”
Vitória: “Para o sítio da minha avó”. Pesquisadora:
“E o que vocês fizeram lá?”
Vitória: “Ah, foi muito bom, a gente foi no natal. Lá, a gente tomava banho de rio,
corria da vaca (risos), subia nas árvores pra comer jaca, era isso...”
Ao fazer referência a um contexto familiar e facilitador de sua livre
expressão, trazendo memórias saudosas da infância, representa as figuras humanas
de forma sistemática, com a inclusão dos membros do corpo (braços, pernas, orelhas,
olhos, nariz e boca) e cabelos. O desenho ocupa uma posição situada entre a região
inferior e superior esquerda do papel, referenciando um comportamento impulsivo
de satisfação de necessidades emocionais imediatas (Ibidem), frequentemente
percebidos e característicos de adolescentes. São consideradas de tamanho
pequeno, representando tendências ao retraimento (Ibidem), também percebidas
pelo modo contido de comunicar-se ao longo da aplicação do procedimento. Os
membros da família nuclear (pai, mãe, irmão mais velho, Vitória e irmão mais
novo), estão representados. Não há elementos de apoio no desenho.
Conta a história de uma viagem que fez com a família, pai, mãe, irmão mais
novo e o irmão mais velho, trazendo a família de origem e retratando uma situação
de prazer. O destino foi o sítio da avó, em uma época que nem o irmão mais velho,
nem Vitória eram casados. Disse que passaram o natal lá e fizeram as seguintes
56
atividades: tomar banho de rio, correr da vaca e comer jaca. A jovem se
reportou a um tempo que brincava livremente e ocupava apenas a posição de
filha, demonstrando uma conduta nostálgica e o desejo de reviver momentos
referentes ao seu universo infantil, em que podia brincar livremente na companhia
dos irmãos.
Demonstrou preocupação e rapidez em terminar o desenho, além de
conflitos relacionados à transição do tempo, implicando nas responsabilidades
atuais, revivendo constantemente a temática da infância. Porém, paralelamente a
essas lembranças significativas, progressivamente vem aceitando e se apropriando
das demandas atuais inerentes a sua condição atual de ocupar os papéis de esposa e
mãe.
6.2
6.2.1
Caso 2 - Valentina
Formulário
de
caracterização
do
perfil
socioeconômico
e
de
produção e reprodução social
Valentina tem 16 anos, se autodeclarou negra, nasceu em Maceió, Alagoas,
cursou ensino fundamental completo, tem histórico de repetência no segundo e
sétimo ano do ensino fundamental e parou os estudos no oitavo mês de gestação.
A adolescente não está trabalhando, porém já trabalhou informalmente como babá.
Teve a menarca aos 13 anos e iniciou a atividade sexual aos 15, com três
parceiros no último ano. Também afirma ter feito uso de métodos contraceptivos,
especificamente a camisinha. Não fuma, não faz uso de álcool e nem de outras
drogas. Não sabe informar a idade que a mãe engravidou pela primeira vez, é a
primeira gestação, não foi planejada, iniciou o pré-natal no primeiro trimestre da
gestação. É casada e está em um relacionamento de quatro anos com o pai do bebê.
Mora com o esposo, de 19 anos, em uma casa alugada de três cômodos e um quarto,
com luz elétrica, água da rede pública, esgoto a céu aberto e coleta de lixo. Diz que
no bairro em que mora há a ocorrência de violência e enchentes.
6.2.2
Entrevista semiestruturada
Foi realizada e m julho de 2017 a entrevista semiestruturada com a
57
adolescente no oitavo mês de gestação. A jovem se destacou das demais, pelo
interesse imediato em participar
da
pesquisa, demonstrando entusiasmo
e
inclinação para protagonizar, não questionando sobre a confiabilidade de seus
dados. No encontro, notou-se a disponibilidade dela para compartilhar sua vida,
expressando-se livremente com um modo de comunicação infantilizado e bom
humor, sorrindo, movimentando-se na cadeira e interagindo constantemente com a
pesquisadora, através de questionamentos e brincadeiras.
A princípio, explicou-se novamente a proposta da pesquisa e dos Termos
de Assentimento e Consentimento necessários, além de pedir autorização para gravar,
que foi consentida facilmente. Ao ser solicitada a escolher um nome fictício para
ser identificada, escolheu Valentina, que seria o nome do seu bebê, caso fosse
menina. A entrevista foi realizada em uma sala de uma Unidade Básica de
Saúde. Durante a aplicação dos instrumentos, estavam presentes apenas a
entrevistada e a pesquisadora, formando um ambiente interativo e facilitador de
comunicação e um vínculo seguro.
A adolescente relatou uma infância vivida em uma área rural de Alagoas,
especificamente em um sítio, onde tomava banho de rio, comia frutas “sem pagar”
(sic) e pulava das árvores. Ao longo da entrevista, sempre se reportava a esse
contexto, alegrando-se ao recordar das brincadeiras e das rotinas de quando era
criança. As lembranças nostálgicas e alegres de Valentina fazem referência a diversas
experiências com outras crianças, “Ah, a gente brincava de se esconder, pega-pega...
muitas brincadeiras, principalmente brincadeiras no rio... Muito bom, tinha uma ponte lá
super, mega alta, a gente gostava muito de pular nos pés de árvore, muitas resenhas” (sic).
O ambiente de lazer de sua vizinhança parece ter sido suficientemente bom,
onde propiciava o desenvolvimento da criatividade e
espontaneidade, despertando
seu interesse e a sensação de bem-estar tão necessários para o desenvolvimento
emocional. Esse ambiente rural composto de relações afetivas, brincadeiras, potencializando
a criatividade e espontaneidade se mostrou importante para Valentina, sendo um período
relembrado de maneira nostálgica, desejando reviver essa experiência: “De tudo da minha
infância, o que eu sinto mais falta é o rio, ah.. o rio! (sic)”.
Começou a estudar aos sete anos e, por isso, com essa idade, mudou-se da área
rural para uma casa na cidade, com o intuito de frequentar regularmente a escola, já
que residia muito distante dela, o que a fez sentir falta dos mergulhos, jogos e de
chupar cana, hábitos que revelam uma infância lúdica e despreocupada com as
58
obrigações inerentes ao universo adulto. Com as implicações trazidas pela mudança
para a cidade, não demonstrou mais interesse e entusiasmo em relatar o que costumava
fazer nessa época, dando respostas vagas, rápidas e imprecisas. Também relatou que
começou a trabalhar informalmente como babá, aos treze anos, e acredita que essa
experiência de ter cuidado de outras crianças poderá auxiliá-la a cuidar de seu filho.
Entretanto, a
partir
da observação dos modos
de
expressão e dos
posicionamentos ao ser questionada, percebeu-se em Valentina, a presença constante
de um universo mágico, muito característico do universo adolescente, expresso a partir
de condutas impulsivas, não refletindo sobre as consequências de suas ações. “Teve
uma vez que eu achei que tava meio gorda, aí fui tomar um chá pra emagrecer, quando
souberam que fiz isso, me trouxeram no posto, pra eu tomar soro, porque fiquei
desidratada” (sic). Também não se apropriando de algun fatos que levaram a mudanças
em sua vida, “eu acho que saí do sítio, pra estudar, mas não tenho certeza, nunca
procurei saber o motivo mesmo, nem sei quanto tempo mesmo faz isso...” (sic), além
de uma postura despreocupada diante das obrigações impostas pela maternidade,
como as orientações fornecidas nas consultas do pré-natal, referindo-se à ingestão
de alimentos saudáveis, repouso e atividade física regular, e por excluir o pai do bebê
nos acompanhamentos com a equipe de saúde. Porém, essas características não a
impediram de vivenciar e dedicar-se à maternidade, a sua maneira, sabendo,
inclusive, manejar os conflitos advindos.
Valentina cresceu convivendo com os genitores, pais de dez filhos. Desses,
nove moravam na mesma casa, sendo sete mulheres e dois homens. Outra irmã, a mais
velha, foi criada pela avó, e Valentina não possui contato com ela. A partir de seu relato,
percebe-se que a convivência com os membros da família, principalmente os irmãos,
se deu de forma constante e saudável, morando no sítio e compartilhando as
brincadeiras de criança e rotinas. Como nesse período não frequentavam a escola,
fizeram, também, o papel de amigos para a adolescente, em que se socializaram
mutuamente e cuidaram para que ela fosse amparada emocionalmente. Apesar de
restrições em consequência de uma moradia precária e da falta de acesso à educação
escolar, devido às condições socioeconômicas desfavorecidas, elementos como
companheirismo e ludicidade eram constantes. Com relação aos pais, disse: “Nossa
convivência era ótima, todo mundo se dava bem” (sic). A rede de apoio recebida pela
jovem demonstra aceitação e disponibilidade em oferecer cuidados, deixando-a
segura para o enfrentamento de novos desafios, como o de gerar um bebê.
59
A convivência com as mulheres da família favoreceu na aquisição de confiança
para que a adolescente se sentisse capaz de cuidar de seu bebê. Ao ser questionada
acerca da maternidade enquanto tarefa, afirmou: “Ah, minha „fia‟...eu tenho comigo são
sete „mulher‟. Aí eu acho que... eu vou me sair bem, elas me ajudam” (sic). A
adolescente se autodefiniu como mãe de primeira viagem, em que nas consultas de prénatal escutou alguns conselhos de outras gestantes que não a agradaram, mas sua mãe,
com sua experiência prévia de dez gestações e exercendo zelo e proteção, esclareceu
e desmistificou ideias que apavoraram Valentina. “É por que o povo fala que: „você não
vai dormir mais, você não vai dormir mais‟. Ai a minha mãe fala: „nem todos meninos
são iguais, tem uns que dorme, tem uns que não dorme, tem uns que sentem mais
cólica, tem uns que não sente muita‟. Aí eu fico nisso, porque sou mãe de primeira
viagem” (sic).
Os conhecimentos advindos da experiência são tão relevantes para a gestante,
quanto os que escuta através das orientações advindas do conhecimento científico da
equipe de saúde. Sendo assim, a genitora de Valentina esclareceu que o ato de cuidar é
individual e que cada bebê demanda de forma diferente, cabendo à mãe conhecer as
particularidades do filho, na certeza que contará com apoio, fazendo-a não se apavorar
diante do inesperado que está por vir.
Também recebeu ajuda de outros membros da família para montar o enxoval,
“A bolsa eu não queria ganhar, queria comprar. Aí eu comprei... do meu bolso. Eu
comprei vermelha... que nós somos regatianos, aí tem que ser tudo vermelho (risos).
Mas, assim, tipo, banheira eu ganhei, negócio de roupinha, o negócio que a mãe dele
(esposo) me deu ao sair da maternidade foi vermelha. Do time dele (esposo), porque nós
somos regatianos né...” (sic). Percebeu-se, assim, a tentativa de inserir o bebê nos
valores e interesses familiares, dando a impressão de pertencimento dele a uma cadeia
geracional, com os interesses desse grupo de convívio.
Com relação ao seu esposo, eles estão juntos há quatro anos. Valentina afirmou
que ele tem interesse em participar do pré-natal, “ele pede pra ir, diz que quer conversar
com as enfermeiras, pra saber se tá tudo bem com o bebê” (sic), mas ela não permite
sua presença, dizendo que não tem “saco” (sic) para acordá-lo e chamá-lo, indo,
assim, sozinha para os atendimentos. Também foram identificados alguns sentimentos
de hostilidade e desqualificação para com ele, ao excluí-lo das consultas e
especificamente na escolha do nome do bebê, em que Valentina diz ser muito comum
e “sem graça”, a escolha feita pelo esposo, modificando o nome para J.H. Antes de
60
engravidar, frequentemente terminava o namoro, alegando não tolerar os defeitos
percebidos e por “enjoar” (sic) dele.
Valentina deseja ser cuidada e de forma egocêntrica, com a prevalência da
sua vontade, como uma adolescente típica para obter atenção do entorno, e, negligencia
algumas responsabilidades para consigo e com seu próprio corpo, exemplificadas
também quando apresentou os primeiros sintomas de uma possível gravidez, mas não
percebeu, cabendo ao marido a responsabilidade de identificar e pedir para que fosse
feito o teste. “Assim, eu não parava pra pensar se eu tinha menstruado no mês passado.
Depois eu parava e pensava: „meu Deus, eu menstruei no mês passado?‟ Não tinha
cabeça, meu Deus... Aí ele falou assim: „Você, a sua menstruação não veio no mês
passado‟, e eu ficava duvidando com ele” (sic). Consequentemente, precisou atentar-se
para as mudanças corporais e as implicações psíquicas dessa transição entre a
representação física do corpo infantil com o corpo de um adulto. A convivência com
seu esposo, também demandou adaptação da adolescente, pois precisou lidar com a
presença constante de uma outra pessoa com o olhar cuidadoso e preocupado,
implicando em mudanças nas suas relações familiares e sociais.
A jovem enfatizou que gostaria de engravidar aos 20 anos, e que ter acontecido
aos 16 foi uma surpresa. “Eu sempre pensei em engravidar depois dos vinte, meu Deus
engravidei muito antes...” (sic). Ao ser questionada sobre como estava sendo sua
gestação, comentou tratar-se de algo muito diferente do que imaginou, acrescentando
que não sabia dos desconfortos e abdicações que uma gestação implica na vida de uma
mulher, se deparando e confrontando a realidade com o que imaginava sobre estar
grávida.
Com relação aos projetos de vida, segundo Valentina, seu sonho desde criança era
ser advogada, mas não se interessava em ir para a escola e estudar as matérias.
Disse que atualmente pensa em ser advogada e mais “outra coisa” (sic), dando a
seguinte resposta: “Tipo... ai meu Deus, fugiu agora tudo da mente (risos). É... eu
pensava em ser policial, mas eu tenho medo de arma (risos). Eu pensava em ser muita
coisa, mas advogada nunca saiu da minha cabeça. Acho bonita as roupas que elas usam
(risos)” (sic). Também identificou-se na escolha da profissão embasada na fantasia de
elegância das advogadas, demonstrando o desejo em querer ser como elas. Afirmou
que sua matéria preferida na escola era português e que não gostava de matemática. Aos
oito meses de gestação, abandonou os estudos, argumentando que era “para parar de
estudar” (sic), mas não sabe o motivo e nem se interessou em questioná-lo.
61
“Disseram que com oito meses não podia mais estudar, mas eu não sei o porquê” (sic).
Ainda pretende ser advogada, mas tem como prioridade os cuidados com o bebê, só
retornando os estudos quando ele estiver maior.
Devido às boas lembranças de sua infância, planeja passear com sua família
(filho e esposo) próximo ao rio, para que o bebê possa desfrutar do que ela desfrutou.
Valentina, então, encontra-se em um estado de identificação com seu bebê, almejando
proporcionar a ele as experiências tão significativas e agradáveis de sua infância, na
tentativa de que possam ser experienciadas também por ele.
6.2.3 Desenho da família com estória
A segunda etapa do encontro consistiu em que Valentina desenhasse
quatro desenhos e, em seguida, contasse uma história após cada produção,
respondendo ao inquérito e adicionando um título. Das doze cores oferecidas para
a realização, a adolescente utilizou uma variedade e, de forma criativa, explorou os
espaços da folha com seus desenhos coloridos e significativos. Segue a
compreensão de aspectos relacionados ao grafismo e ao conteúdo das histórias, de
cada produção.
6.2.3.1 “O sítio” (desenho de uma família)
Figura 5 - Desenho de uma família
Estória: “Ah, são só pai, mãe e o filhinho aqui... No momento eles estão muito
felizes, né?! Como o povo diz, chegou mais um pra alegrar, vai ser o xodó da família”
(sic).
Pesquisadora: “E o que eles estão fazendo aí?” Valentina: “Eles estão passeando” (sic).
62
Pesquisadora: “Onde?”
Valentina: “Na mata, na mata não, digo... É porque eu não sou muito boa com as
palavras, no sítio, indo para o sítio” (sic).
Pesquisadora: “E como eles estão?”
Valentina: “Ele não quer morar no sítio, o pai não quer morar lá, mas como ela tem
medo de ficar sozinha no sítio, tem que ir pra onde ele for, e o filho também”.
Percebe-se que as figuras humanas estão representadas de forma esquemática,
com a inclusão dos membros do corpo (braços, pernas, orelhas, olhos, nariz e boca) e
cabelo. Por estarem localizadas na região inferior, ocupando várias regiões do papel,
predominantemente próximo ao centro e ao lado esquerdo, indicam comportamentos
extrovertidos e impulsivos (HAMMER, 1981), comumente observados nessa fase
adolescente e na maneira como a jovem expressa seus desejos e necessidades
emocionais, buscando satisfações imediatas. As figuras também podem ser consideradas
de tamanho médio, havendo adequação psíquica, ou seja, recursos para adaptação e
manejo da realidade (Ibidem). Valentina desenhou a si própria, o esposo e o filho que
irá nascer, estando no desenho como criança e não como bebê. Os elementos de apoio na
produção são: flor, borboleta e grama.
Percebeu-se a identificação e relacionamento afetivo e mnêmico com o sítio, no
qual Valentina desfrutou alguns momentos de sua infância. Demonstrou o desejo de
retornar ao ambiente, junto com sua nova configuração familiar e proporcionar ao
filho experiências semelhantes as suas e também reviver sua significativa infância.
Demonstrou o interesse e propriedade ao decodificar as
emoções do filho
desenhado, descrevendo-as como semelhantes a suas próprias emoções, em que ambos
estão felizes e desejosos pelo passeio, identificando-se com o mesmo.
Inseriu seu esposo, porém, enfatizou o desinteresse dele em compartilhar da
programação e de morar no sítio. Com essa produção, Valentina pôde realçar
também a divergência existente e a falta de compartilhamento entre ambos, o que
acarreta desentendimentos e ausência do protagonismo paterno na gestação.
6.2.3.2 “Amor” (desenho da família que gostaria de ter)
63
Figura 6 - Desenho da família que gostaria de ter
Estória: “Ah, aqui já tem mais um membro da família né?! É uma menina. E...
passaram os anos, né... ela teve uma menina que já tinha um menino, e... o que ela quer
agora é um cachorro e uma casa maior. Ela no momento está... eu acho que preocupada
porque, como cresceu mais a família e ele não tem um emprego fixo, aí fica aquilo meio...
enrolado” (sic).
Pesquisadora: “E ela, o que ela tá fazendo... da vida?”
Valentina: “Ah, ela cuida do filho”. Pesquisadora: “E como está o seu filho?”
Valentina: “Eu acho que ele é muito simpático”.
Semelhante ao desenho anterior, com relação aos aspectos gráficos, as figuras
humanas estão representadas de forma esquemática, com a inclusão dos membros do
corpo (braços, pernas, orelhas, olhos, nariz e boca) e cabelo. Por estarem localizadas
predominantemente na região inferior esquerda do papel, confirma-se assim, os
indicativos de impulsividade e busca imediata de satisfações de necessidades
emocionais (HAMMER, 1981) já identificados, e podem ser consideradas de tamanho
médio, demonstrando adequação psíquica, com recursos para adaptação e manejo da
realidade (Ibidem). Valentina desenhou a si própria, o esposo e o filho que irá nascer, e
uma filha que pretende ter, estando no desenho como criança e não como bebê. O
elemento de apoio detectado na produção é a grama.
Nessa produção, Valentina projeta seu futuro, com a perspectiva de manter a
estrutura familiar já existente e gerar uma menina, sem excluir seu filho menino, que
no desenho já está com doze anos, e atribui características positivas a ele,
demonstrando
seu
afeto
e interesse
pelo
filho.
Observou-se
aceitação
da
maternidade e priorização dessa função, associando-a com seu projeto de vida ao
afirmar que seu papel é cuidar dos filhos e ao atribuir sentimentos como alegria e
64
prazer na temática desenhada. Porém, percebeu-se o sentimento de desesperança e
desqualificação do esposo ao afirmar que estará sem emprego, acentuando essa conduta
já existente, identificada na aplicação da entrevista, quando o excluiu da participação
nas consultas de pré-natal, alegando não ter “paciência” (sic) para tolerá-lo.
6.2.3.3 “Conselho” (desenho que alguém não está bem)
Figura 7 - Desenho que alguém não está bem
Estória: “A história é que esse menino... ele não obedeceu à mãe. A mãe dele dá
conselho pra ele não ir pra um canto, ele foi. Chegou lá e se arrebentou.
Pesquisadora: “Como foi que ele se arrebentou?”
Valentina: “Ah, batida”. Pesquisadora: “De quê?” Valentina: “De moto”.
Pesquisadora: “Humm. E esse menino, tem quantos anos?”
Valentina: “Dezesseis”.
Pesquisadora: “O que é que ele foi fazer fora de casa?”
Valentina: “Não sei... Ele disse pra mãe dele que ia pra um canto, mas a mãe dele não
sabe se ele foi pra o mesmo canto que ele falou que ia. A gente já soube da notícia que
ele tinha se arrebentado”.
Pesquisadora: “E como essa mãe está?”
Valentina: “A mãe tá triste por dentro, ela tá mais acabada que ele porque ele aqui...
depois que fica bom acho que vai aprontar coisa pior. Mas a mãe, né, que fica...
sofrendo tudo, né? Vendo a situação do filho, vendo que não segura mais o filho. Vendo
que não tem mais jeito...”.
Pesquisadora: “Entendi, e esse outro menino do desenho, quem é?”
Valentina: “É o filho mais novo, quando a mãe soube da notícia do acidente, tava
65
com ele e não tinha com quem deixar, aí ele foi junto. Mas foi bom, porque quando
terminou no pronto socorro, a gente foi lanchar, tomar um caldo de cana.. não tinha
mais o que fazer, ne?! (risos)”
Nessa produção, as figuras humanas estão representadas de forma esquemática,
com a inclusão dos membros do corpo (braços, pernas, olhos, nariz e boca e cabelo),
porém, sem vestimentas. Por estarem localizadas no centro da região inferior, com
predomínio do lado esquerdo e no centro do papel, confirmam comportamentos
impulsivos de busca de satisfação imediata (HAMMER, 1981), e podem se
consideradas de tamanho médio, havendo então ajustamento psíquico, indicando
adaptação e manejo da realidade (Ibidem). Valentina desenhou uma mãe com um filho
adolescente e outro mais novo. Não há elementos de apoio nessa produção.
Ao contar a história, enfatiza a importância de um filho escutar os
conselhos e orientações maternas, e que existem consequências em desobedecer o que é
dito.
Possivelmente, vem incorporando para si o papel materno e teme pelas
imprudências realizadas pelo filho, além de amparar quando ele desobedecer,
identificando-se com o papel materno. Ao longo da produção, enfatizou que o
comportamento imprudente é inerente à adolescência, o que, consequentemente, torna
a mãe de um filho adolescente sem controle. Ao projetar o futuro, Valentina atribui à
condição de mãe a capacidade de pré-dizer o que irá acontecer com o filho, e apresenta
temor com relação ao crescimento de seu bebê, em que não segue mais as orientações
da mãe.
A figura paterna, como também capaz de fornecer orientações, não foi descrita e
nem mencionada. Com relação à outra criança presente, seria um filho mais novo que
não tinha com quem ficar (já que a função da mãe é cuidar dos filhos) e foi buscar o
irmão no pronto socorro. O bom humor e a ludicidade de Valentina se expressam com o
desfecho da história, ao afirmar que todos irão lanchar antes de irem para casa.
6.2.3.4 “Família unida” (desenho da sua família)
66
Figura 8 - Desenho de sua família
Personagens: Esposo, Valentina, Filho que irá nascer, Mãe de Valentina, e irmãs de
Valentina. Os personagens estão descritos da esquerda para a direita.
Estória: “Ela (Valentina) aqui tá grávida... como tá perto, muito perto do bebê nascer,
mas aqui ele (bebê) já tá nascido, ele (esposo) botou ela pra dormir na casa da mãe
porque ele tem medo, não sabe o que fazer (risos)... ah, ele não sabe o que fazer, meu
Deus do céu. E... eu tô dormindo na cama dela (irmã), dessa daqui. Ela (irmã) tá
dormindo com a minha mãe... ela (irmã) não vê a hora do J.H nascer... pra dormir toda
do jeito que ela quiser, meu Deus. Ah, como é bom dormir do jeito que a pessoa quer.
E... deixa eu ver mais... Ele (esposo) tá mais ansioso do que ela... ela não tá com medo”.
Pesquisadora: “E o que ela (Valentina) pensa que vai acontecer após o nascimento do
bebê?”
Valentina: “Ah minha filha, ela pensa que vai... vai mudar muito a vida dela né,
lógico, ela pensa muito se ela vai passar necessidade, dificuldade na vida depois que
ele nascer, né?! Se vai ter algum tipo de problema... fica pensando muito nisso. E outra
coisa, o que ela quer também é... primeiro ela pretende mudar o jeito dela. Pretende
sempre ser uma pessoa... alegre. Pretende educar o filho dela do jeito certo. É... deixa eu
ver mais... Pretende crescer na vida, voltar a estudar, ser o que ela sempre quis ser, né...
advogada... uma bela de uma advogada. E... ser feliz. É... acho que é isso”.
As figuras humanas estão representadas de forma esquemática, com a inclusão
dos membros do corpo (braços, pernas, orelhas, olhos, nariz e boca e cabelo).
Como estão localizadas ao longo da região inferior do papel, porém no centro da folha,
pode indicar uma sensação de “segurança” elevado e controle de impulsos emocionais
(HAMMER, 1991), e por serem consideradas de tamanho médio e pequeno, indicam
ajustamento psíquico, com adaptação e manejo da realidade, e com possíveis
67
períodos de retraimento (Ibidem). Da esquerda para a direita, Valentina desenhou o
esposo, a si própria, o filho que irá nascer na condição de criança, sua mãe e suas
seis irmãs em tamanho menor, alegando que não caberiam na folha. Não há
elementos de apoio nessa produção.
Valentina demonstrou ansiedade em decorrência da proximidade do nascimento
de seu bebê, e segurança por saber que será amparada por sua rede de apoio e pela
sabedoria de sua mãe, que será capaz de ajudá-la quando sentir as contrações
decorrentes do trabalho de parto. Percebe e se prepara para as consequências que irá
experienciar após o nascimento do bebê real, com as possíveis dificuldades
decorrentes de ser mãe na adolescência e dos desdobramentos possíveis na vida do
bebê. Porém, a presença constante das mulheres da família e do esposo de Valentina,
formando uma rede de cuidados, fornece os recursos para a preparação psíquica e
emocional necessária para o exercício da maternagem. Identificou-se ainda a percepção
e o reconhecimento da adolescente que precisa amadurecer, e abandonar condutas
impulsivas para cuidar de seu filho e para realizar seus projetos de vida.
6.3
6.3.1
Caso 3 - Jamyle
Formulário d e
caracterização
do
perfil
socioeconômico
e
de
produção e reprodução social
Jamyle tem 18 anos, se autodeclarou parda, nasceu em Maceió, Alagoas,
afirmou que devido à idade, cursa o ensino médio noturno, sem histórico de
repetência. A adolescente não está trabalhando, porém, já trabalhou informalmente
como garçonete. É casada e está em um relacionamento de quatro anos com o pai
do bebê. Não fuma, não faz uso de álcool e nem de outras drogas. Teve a menarca
aos 13 anos e o início atividade sexual aos 15, com um parceiro no último ano.
Também afirma ter feito uso de métodos contraceptivos, especificamente a
camisinha.
A genitora engravidou pela primeira vez aos 17 anos, é a primeira gestação
de Jamyle e foi planejada, iniciando o pré-natal no primeiro trimestre da gestação.
Mora com o esposo, de 43 anos, em uma casa de três cômodos e dois quartos,
com luz elétrica, água da rede pública, esgoto a céu aberto e coleta de lixo.
68
6.3.2
Entrevista semiestruturada
A entrevista de Jamyle foi realizada em julho de 2017, com a adolescente no
quarto mês de gestação. Durante sua consulta de pré-natal, estava acompanhada do
esposo, sendo necessária a autorização dele para que a adolescente pudesse
participar da pesquisa. Por isso, a pesquisadora lhe explicou a proposta do estudo e
assegurou sobre a confiabilidade das informações oferecidas por Jamyle. Escolheu
esse nome, por ser o mesmo nome de sua sobrinha, uma criança que “precisa dos
cuidados do pai para ser feliz” (sic), assim como a jovem que se relaciona com o
esposo, na expectativa de obter amparo, lazer e orientação. A entrevista foi realizada
em uma sala de uma Unidade Básica de Saúde (UBS).
Durante a aplicação dos instrumentos, estavam presentes apenas a entrevistada
e a pesquisadora, e demonstrou-se retraída e introspectiva, respondendo apenas o que
lhe era solicitado, cabendo à pesquisadora o estabelecimento de uma postura de
aceitação diante da resistência e fragilidade emocional da adolescente, na tentativa
de proporcionar uma atmosfera de cuidado e proteção, estando com um adulto
capaz de acolher algumas necessidades básicas, para que Jamyle se sentisse
segura de revelar-se enquanto um sujeito de memórias e desejos.
Já no consultório da UBS, no início do encontro, ressaltou-se sobre a
confiabilidade e o quanto a participação da jovem seria importante para a realização
da pesquisa, esclarecendo ainda sobre a utilização dos Termos de Assentimento
e Consentimento, e o uso do gravador, que foi aceito por ela. A entrevista encerrouse, sem insistência da pesquisadora para colher mais informações, devido ao
desconforto e aparente cansaço físico e mental de Jamyle que afirmou não se
recordar dos contatos de telefone para fornecer.
Com o comportamento apático, Jamyle respondeu que quando criança não
brincava. Descreveu a infância como um período difícil, de privações quanto ao
estudo e ao lazer. Morando em um sítio, precisou abandonar a escola devido à
distância que percorria diariamente e à necessidade de realizar os serviços
domésticos, enquanto a genitora trabalhava fora de casa.
Ao ser questionada sobre o que mais gostava de fazer quando criança, ainda
respondeu: “Nada” (sic). Suas poucas palavras expressam um ambiente intrusivo,
incapaz de proporcionar o crescimento e o desenvolvimento espontâneo,
restringindo o ser-criança às obrigações e restrições. Porém, ao longo da
69
entrevista, com os questionamentos da pesquisadora, pôde acrescentar que, em
alguns momentos, brincava com os irmãs, “mas só brincava com as irmãs mesmo.
De
pega-pega, esconde-esconde, essas
coisas”
(sic).
E,
sobre
amizades
estabelecidas nesse período, enfatizou não ter construído vínculos com pares,
“Não tinha amigo, não! Só brincava com minhas irmãs mesmo” (sic). Percebeu-se
na predominância de suas lembranças, um cenário vago e obscuro, e reproduzindo
durante a entrevista a postura semelhante de quando era criança: uma menina que se
submetia ao que considerava uma obrigação.
Filha de pais divorciados, ressaltou a perda de contato com seu pai,
passando a morar com a mãe, duas irmãs e o padrasto em um sítio sem água
encanada. Por trabalhar fora de casa como faxineira, sua mãe pedia para que as filhas
preparassem as refeições e arrumassem a residência. Porém, o modo da adolescente
se relacionar com seu padrasto representou um grande obstáculo ao seu crescimento e
desenvolvimento pessoal. Ele abusava verbalmente, perseguindo e impedindo que
Jamyle e as irmãs se alimentassem. “Meu padrasto escondia uns negócios... uma
bolacha pra gente não comer, ele ficava passando na cara tudo, e dizia que era pra ficar
tudo pra dentro de casa” (sic).
Antes de conhecer seu esposo, também era constantemente impedida de sair
para se divertir, de passear só ao ar livre e ir para a praia, local em que os jovens
constumavam frequentar e onde aconteciam algumas festas. Em um momento raro de
passeio, conheceu seu atual companheiro, que trabalhava como garçom de um bar,
era mais velho e também divorciado. A partir dessa convivência com o pai de seu
bebê, passou a experimentar uma relação genuína de aceitação e valorização,
relacionando-se com alguém capaz de cuidar e “autorizar” sua espontaneidade.
“Baixinho” (sic), como era chamado, supria as ausências e os déficits de cuidados
recebidos por Jamyle, e propiciava o resgate de experiências não vividas pela
adolescente, como a ida para a escola, que se deu de forma efetiva quando ela tinha
quinze anos. Nesse ambiente educacional, costuma encontrar-se com outras adolescentes
que também estão gestantes e afirmou estar conseguindo construir amizades e
conversar sobre assuntos de seus interesses. Quando questionada sobre o que o esposo
representava para si, prontamente respondeu: “Eu digo pra todo o mundo que ele é meu
pai e minha mãe. É isso que ele é: meu pai e minha mãe” (sic).
Atualmente, mora em uma casa, localizada no sítio do atual patrão de seu
esposo, onde este cuida e mantém a segurança da propriedade. Sente-se ainda mais
70
segura para visitar a família, e preocupa-se com a irmã, negligenciada pelo esposo,
que não arrumou um “homem” (sic) para cuidar dela, ficando só com uma
sobrinha pequena, na qual, assim como Jamyle, sofre durante a infância por não ter
um pai que a proteja.
Com relação ao seu bebê, Jamyle ainda não sabe o sexo, e com palavras vagas
e o semblante de indiferença, disse que não imagina quais características e
fisionomia ele terá. A adolescente apresentou dificuldades de abstrações e baixa
energia para investir na construção psíquica do bebê imaginado, tão relevante na
manutenção e no sentimento de prazer durante a gestação. Porém, respondeu que
gostaria de ser mãe de uma menina, para poder arrumá-la, e que se chamará
Manuela. Se for menino, se chamará Carlos, e complementou: “Se for menino, vai
ser bem-vindo, né?! Não tenho preferência não... eu queria que fosse uma menina”
(sic).
Também apresentou dificuldades em imaginar o processo do nascimento do
seu bebê, sem saber informar o tipo de parto que gostaria, nem a maternidade que
poderia dar entrada em casos de emergência. Sem projetar um futuro com entusiasmo
nos hábitos e rotinas, junto com sua nova configuração familiar, Jamyle
continuou fornecendo apenas respostas vagas e dando a impressão da perpetuação
de algumas condutas passivas e conformadas. “Não imagino como será a gente não,
só da gente ser feliz, né?!” (sic).
Com um modo de expressar-se diminuindo o timbre da voz, Jamyle revelou
falta de perspectiva para elaboração de projetos de vida. Disse que quando
criança “não sonhava com nada não” (sic). A relação intrusiva e de privação
emocional experienciada com seus cuidadores durante a infância, especificamente
seu padrasto, contribuiu para a impossibilidade da jovem de concretizar e agir para
o reconhecimento e realização de seus desejos. A ausência de empoderamento
pessoal para revelar-se enquanto sujeito capaz de tomar suas decisões, mostrou-se,
ao longo de toda a entrevista, tratar-se de uma característica marcante.
Mas, após ser questionada novamente, revelou sucintamente um desejo
remoto de tornar-se médica, e com pesar disse não poder, pois não teve
oportunidade de estudar tanto quanto queria e deveria, além de considerar-se
incompetente para seguir essa carreira. Atualmente, pretende cuidar de seu bebê,
não imaginando e nem gerando expectativas para seu futuro.
71
6.3.3
Desenho da família com estórias
Após a entrevista, pediu-se para que Jamyle desenhasse quatros desenhos, e
em seguida contasse uma história após cada produção, respondendo ao inquérito e
adicionando um título. Das doze cores oferecidas para a realização dos
desenhos, a adolescente utilizou apenas o lápis grafite número 2, expressando-se
com um traçado fino e apagado, dificultando a visualização do material, e
solicitando
que
a
pesquisadora
escrevesse
o
título
desejado.
Revelou
significativamente sua dinâmica psíquica. Segue a compreensão de aspectos
relacionados ao grafismo e ao conteúdo das histórias de cada produção.
6.3.3.1 “A família toda unida” (desenho de uma família qualquer)
Figura 9 - A família toda unida
Estória: “Aqui é minha mãe... minha mãe, meu pai, minha irmã mais velha e eu”
Pesquisadora: “Ah, e o que vocês estão fazendo aí?”
Jamyle: “A gente tá numa casa própria, uma casa própria da gente mesmo”.
Pesquisadora: “Ah tá...”.
Jamyle: “Porque a gente não tem uma casa, né”.
Pesquisadora: “Sei. E o seu pai?”
Jamyle: “Meu pai... (silêncio). Meu pai tá com (silêncio)... quando eu vi ele, eu tinha
nove anos, daqui pra lá eu não vi mais. Aí não conheço mais ele”.
Pesquisadora: “E atualmente, quando você retorna para a casa da sua mãe, o que
vocês costumam fazer?”
Jamyle: “Atualmente quando eu vou pra lá, a gente só faz um almoço no feriado e
72
pronto, mais nada”.
As figuras humanas estão representadas de forma defensiva, com uma pressão
do traçado, indicando um nível de energia baixo da adolescente (HAMMER, 1981),
com a inclusão apenas de braços, pernas e cabelos, porém, sem os semblantes faciais
dos personagens. Estão localizadas na região inferior esquerda do papel, alertando para
a existência da tendência de comportamentos impulsivos e busca imediata de satisfação
(Ibidem), inibidas pela predominância de “[...] sentimentos de inadequação e
tendências ao retraimento (Ibidem, p. 46), confirmadas pelo tamanho pequeno das
figuras. Jamyle desenhou a si própria, a mãe, a irmã e o pai, contidos em uma casa
“própria” (sic), como gostaria de ter. Como elementos de apoio nessa produção,
identifica-se a presença de uma casa.
Com relação ao conteúdo dessa história, revelou intensamente a presença da
figura paterna nas rotinas e entretenimentos que a família costumava realizar. Após o
divórcio dos genitores, Jamyle experienciou uma perda significativa em sua vida, não só
pela convivência, mas pela possível proteção que o pai proporcionava para ela e sua
irmã, passando assim a conviver com seu padrasto, diferente de seu pai.
Com o relato da jovem, e as observações, já que “é por meio do ponto de vista
do entrevistador, que pode ser feita uma aproximação do funcionamento mental do
entrevistado” (TRINCA, 2013, p.87), identificou-se o desejo da jovem em retroceder
para um período de sua história em que teve suas necessidades enquanto criança
atendidas e aceitas, e considerava sua família unida.
Além do desejo de conviver regularmente com sua mãe, sua irmã e seu pai,
descritos como felizes por terem uma casa própria e estarem juntos.
6.3.3.2 “O pai e a mãe brincando” (desenho da família que gostaria de ter)
Figura 10 - O pai e mãe brincando
73
Estória: “Aqui „é‟ eu, meu esposo e meu filho...” (sic).
Pesquisadora: “Ah, essa é a família que você gostaria de ter?”
Jamyle: “É”.
Pesquisadora: “Ah, e esse bebê, é menino ou menina?”.
Jamyle: “É menina”.
Pesquisadora: “O que que eles estão fazendo aí?”
Jamyle: “A gente tá em casa, né. Eu, ele, e meu filho”.
Pesquisadora: “E que atividades estão fazendo na casa?”
Jamyle: “A gente ta desenhando, porque toda a criança gosta de desenhar”.
Pesquisadora: “Você gosta de desenhar?”
Jamyle: “Não. Eu acho que eu não sei desenhar bem.”
Pesquisadora: “E como você se sente fazendo isso?”
Jamyle: “Eu tô muito feliz, o importante é ela gostar”.
Assim como na produção anterior, as figuras humanas estão representadas
com características semelhantes, com um traçado de pressão leve, com a inclusão
apenas de braços, pernas e cabelos, porém, sem os semblantes faciais. Estão
localizadas na região inferior esquerda do papel e podem ser consideradas de tamanho
pequeno. Indica-se, então, baixa energia, tendências ao retraimento, sentimentos de
inadequação e condutas impulsivas com satisfação imediata de necessidades
(HAMMER, 1981). Jamyle desenhou a si própria, o esposo e seu bebê, tratando-se de
uma menina. Não há elementos de apoio nessa produção.
Demonstrando aceitação da sua condição de gestante e futura mãe, incluiu seu
esposo e o bebê, formando uma família que gostaria de ter, manifestando o desejo de ser
mãe de uma menina. Percebeu-se que nessa produção Jamyle conseguiu projetar
algumas expectativas para seu futuro, conseguindo imaginar cenas implicadas no
processo da maternidade, como algumas brincadeiras, desenhar e, mesmo afirmando
não sentir interesse em desenhar, irá realizá-la para que sua filha possa fazer o que
gosta.
Com esse estilo de vida, convivendo com seu esposo e a filha, pôde expressar
suas emoções agradáveis, e mesmo com a baixa energia, em alguns momentos, e a falta
de perspectivas percebidas em Jamyle, identificou-se possíveis projetos de vida, que
74
possam vir a trazer realizações para a mesma, sendo esse, o interesse e os cuidados
constantes para com seu bebê que irá nascer e uma convivência harmoniosa com seu
esposo.
6.3.3.3 “Se um dia minha irmã arrumasse um homem para tomar conta dela,
seria melhor” (desenho em que alguém não está bem)
Figura 11 - Se um dia a minha irmã arrumasse um homem para tomar conta
dela, seria melhor
Estória: “Essa aqui é minha irmã, o marido da minha irmã e a filha dela. Que ele
engravidou, e depois que ele soube que minha irmã tava grávida, ele deixou ela. E
minha irmã tá aí, por aí à toa. Não tem pra onde ir... não tem onde morar, fica na casa da
minha mãe e do meu padrasto. Meu padrasto... não é muito bom com ela. Se tá os dois,
todo dia é uma briga dentro de casa. Ele fica... xingando a comida, fica... uma vez ele
esculhambou ela lá, e ela pegou e arroxou a mão na cara dele. E ele mandou ela ir
embora, e aí é isso. Ela fica. indo e voltando, indo e voltando pra casa do pai da minha
sobrinha. E ele quer voltar com ela, só que ela não quer porque ele é muito safado. É
isso...”.
Pesquisadora: “Como você se sente diante dessa situação da sua irmã?”
Jamyle: “Eu queria também que o que tá acontecendo comigo acontecesse com ela
também, né... Que arrumasse um (homem) que tomasse conta dela... dela, da minha
sobrinha... para ela sair daquela casa”.
Nessa produção, mantém-se o padrão de Jamyle com a predominância das
condutas de retraimento e baixa energia que se sobrepõem aos traços impulsivos e a
necessidade de satisfação imediata de demandas emocionais (HAMMER, 1981)
75
considerados ao representar as figuras com um traçado leve, e com a inclusão apenas de
braços, pernas e cabelos, porém, sem os semblantes faciais dos personagens, com um
traçado extremamente leve.
Estão localizados na região inferior esquerda do papel e podem ser considerados
de tamanho pequeno, o que demonstra a presença de sentimentos de inadequação e
retraimento (Ibidem). Jamyle desenhou sua irmã, o esposo desta, e a filha do casal,
figuras significativas e de identificação para a jovem. Não há elementos de apoio nessa
produção.
Ao preocupar-se com a condição da irmã, de ser rejeitada pelo esposo e sofrer
abusos do padrasto, Jamyle atribui a melhora da problemática ao aparecimento de
“um homem”, capaz de cuidar e propiciar benefícios, assim como aconteceu com ela,
revelando aspectos de passividade em sua postura.
Há uma identificação que mobiliza a adolescente a incomodar-se com o que
vem acontecendo com sua irmã, pois antes de conhecer seu atual esposo, Jamyle
experienciou privações e rejeições, demonstrando angústia, receio e temor de reviver
esses momentos com o padrasto abusivo.
A
necessidade
da
presença
paterna
é
intensificada
nessa
produção,
resgatando e atualizando, através dos relacionamentos amorosos, a presença e a função
de um pai protetor, que se afastou da família. Jamyle, então, adota concepções que
corroboram para a confluência entre os papéis de pai e de esposo, associando essa
figura à promoção de zelo e cuidados parentais.
6.3.3.4 “O pai e a filha unidos” (denho da sua família)
Figura 12 - O pai e a filha unidos
Estória: “A família toda unida”.
76
Pesquisadora: “Quem são essas pessoas?”
Jamyle: “Minha mãe, meu padrasto, minha irmã, eu, minha irmã, a minha sobrinha e a
minha outra irmã. A gente tá tudo unido, né, dentro de uma casa... meu padrasto não
tá falando “bosta” pra o lado da minha outra irmã... É isso.”
Pesquisadora: “Humm. E como vocês estão?”
Jamyle: “Alegre, tudo unido. Sem tá ninguém brigando um com o outro. A minha
irmã e meu padrasto brigam muito. Que depois que eu saí da casa do meu padrasto,
tudo melhorou tudo pra mim, e eu não passo mais por isso. Eu queria que eles não
brigassem mais. É isso.”
Jamyle padronizou o modo de expressar-se, com significados que se repetiram
nas quatro produções realizadas. Então, nesse último desenho, as figuras humanas
continuam a ser representadas com a inclusão apenas de braços, pernas e cabelos,
porém, sem os semblantes faciais dos personagens. Estão localizadas na região inferior
papel e podem ser consideradas de tamanho pequeno, indicando sentimentos de
inadequação e condutas de retraimento, além de baixa energia, sobrepondo possíveis
tendências ao imediatismo e satisfação imediata de necessidades (HAMMER,
1981) que são típicas do período da adolescência. Jamyle desenhou sua mãe, as três
irmãs, a si prória, o padrasto e a sobrinha. Não há elementos de apoio nessa produção.
Também nos demais desenhos, nas faces das figuras, não estavam contidas as
expressões faciais, podendo alertar para o possível desconhecimento e falta de empatia
diante da diversidade de emoções experienciadas, também identificadas no semblante
apático da jovem ao longo da aplicação dos instrumentos.
Percebeu-se o desejo de Jamyle em se relacionar com sua família, com uma
nova perspectiva, em que seu padrasto pudesse mudar o comportamento e a forma
como trata os demais membros, principalmente sua irmã, não havendo mais brigas
nesse contexto doméstico. Ressaltou ainda a revolta que sente pela figura do
padrasto e as mudanças ocorridas em sua vida, desde que se afastou da presença e do
convívio diário com ele, que se tornou alguém invasivo e agressivo, impedindo o
desenvolvimento espontâneo de Jamyle e, possivelmente, de sua irmã também.
6.4
6.4.1
Caso 4 - Bruna
Questionário de caracterização do perfil socioeconômico e de produção e
77
reprodução social
Bruna tem 15 anos, se autodeclarou negra, nasceu em Pilar, Alagoas,
cursou o ensino fundamental completo, sem histórico de repetência, interrompendo
os estudos antes da descoberta da gravidez. A adolescente não trabalha e nunca
trabalhou, é casada e está em um relacionamento de 2 anos com o pai do bebê, que
tem 19 anos. Não fuma, não faz uso de álcool e nem de outras drogas. Teve a
menarca aos 13 anos e iniciou a atividade sexual aos 14, tendo dois parceiros no
último
ano.
Também
afirmou
ter
feito
uso de métodos contraceptivos,
especificamente a camisinha. Não se recorda da idade em que a genitora engravidou
pela primeira vez. É a primeira gestação de Bruna e foi planejada, iniciando o
pré-natal no primeiro trimestre da gestação. Mora com a sogra, que não sabe a
idade, três cunhados e duas cunhadas, com as respectivas idades: 7, 9, 11, 13 e 20
anos; em uma casa alugada, de seis cômodos e três quartos, com luz elétrica, água da
rede pública, esgoto a céu aberto e coleta de lixo. Disse que no bairro em que mora
tem episódios de violência, como brigas e homicídios.
6.4.2
Entrevista semiestruturada
Em outubro de 2017, foi realizada a entrevista semiestruturada com Bruna, no
Hospital Universitário, em Maceió, Alagoas, onde estava internada devido a
intercorrências na gestação, caracterizada como de risco. Ao abordar a adolescente,
que estava sentada no corredor da maternidade, e explicar a proposta da pesquisa,
percebeu-se imediatamente a sua resistência, negando-se de imediato em participar do
estudo, alegando estar desinteressada. Tornou-se necessária uma aproximação afetiva
da pesquisadora, sentando-se próxima e afirmando o quanto Bruna iria contribuir,
ajudando a entender o significado de estar grávida, nessa etapa evolutiva, além de
ressaltar acerca da confiabilidade do material obtido, e que ela podia sentir-se à vontade
para partilhar sua valiosa experiência de vida.
Após ter aceitado participar, dirigiu-se para seu leito na enfermaria, local
silencioso, porém, com algumas interrupções passageiras, devido à chegada de sua
acompanhante e de outros funcionários do hospital que se retiraram ao perceber a
realização da coleta. Apesar das especificidades do ambiente, procurou-se falar em tom
baixo e acolhedor, preservando o sigilo e estabelecendo um vínculo com a adolescente.
78
Solicitou-se que a adolescente escolhesse um nome para ser identificada, o que a mesma
prontamente respondeu: “qualquer um” (sic), mas posteriormente acrescentou: “pode
ser Bruna, eu acho bonito” (sic). No decorrer da entrevista, ela mostrava-se
monossilábica, fornecendo algumas respostas imprecisas, necessitando assim de outros
questionamentos para entender o real sentido das afirmações verbalizadas.
Ao iniciar, pediu-se para que Bruna contasse um pouco sobre sua infância e
suas experiências de vida quando criança. Respondeu prontamente que “era normal,
como as outras crianças, eu gostava de brincar, só que a minha irmã batia muito
em mim, me espancava, me fazia trabalhar...” (sic). O tom de voz e o aparente
semblante de apatia foram de encontro com o significado das palavras expressas pela
jovem, apesar de dizer que tinha uma infância como as outras crianças, passou por
momentos dolorosos e de privação constante na presença de uma irmã abusiva que não
permitia o florescer e o ser-criança de Bruna. Após a morte da genitora, quando tinha
apenas dois meses de vida, de um adoecimento que não soube caracterizar, passou a
morar com essa irmã, filha de um outro casamento de seu pai. Infelizmente o cotidiano
da adolescente foi marcado pela violência e autoritarismo, porém, contou que entre
quatro e cinco anos de idade, após repetidas denúncias de vizinhos e de sua madrinha,
foi morar com a avó paterna e o pai, onde passou a ser cuidada, tendo seus direitos
preservados.
Com relação à nova rotina, contou: “Como minha avó era crente, ela não deixava
que eu ficasse na rua, então eu ficava em casa, sem sair, vendo TV” (sic), precisando
adaptar-se a outro contexto com outras especificidades, onde também frequentou a
igreja durante seis anos e depois “acabei enjoando” (sic). Bruna considera ter sido
mais cuidada pela avó, mesmo morando com o pai: “Ele mora comigo e com a minha
avó, como eu fui criada por ela, ele também me criou, só que, assim, como ele bebia
demais, quem mais me criou foi ela (avó), eu me acostumei mais com ela (avó) do que
com ele (pai)” (sic).
Após os episódios de maus-tratos da irmã mais velha, esta ainda se fazia presente,
frequentando a residência que Bruna passou a morar, “às vezes ela ia pra lá, mas não
batia mais não, minha avó não deixava” (sic). Ainda possui mais duas irmãs, mas não
tem contato com elas. Nesse período de afastamento da irmã e da transição para o
novo lar, passou a frequentar a escola pela primeira vez, graças à avó que fez sua
matrícula, passando a socializar-se com outras crianças, e se recordou, “ah! Nós
andava, aprontava com o povo lá do colégio, sentava no fundo da sala, essas coisas...”
79
(sic) e atualmente ainda mantém contato com algumas pessoas da turma, mas
demonstrou fragilidade ao enfatizar não ter uma amizade íntima e alguém para contar.
Ainda com relação ao período escolar, Bruna não manifestou interesse em verbalizar
sobre suas matérias preferidas e, disse: “Só gostava de História e Ciências” (sic).
Sobre as lembranças marcantes dessa época, acrescentou: “não sei o que dizer, no
começo eu gostava de ir, mas depois fui enjoando” (sic), e complementou que
perdeu o interesse em manter os estudos, ocasionando o abandono antes mesmo de
engravidar, ressaltando a falta de persistência e desânimo presentes na jovem diante
de dificuldades.
Percebeu-se um aparente entusiasmo quando foi pedido para que Bruna falasse
um pouco sobre seu relacionamento com o pai do bebê, ressaltando que “é meu
marido” (sic). Nesse momento, pôde-se perceber sua reinvindicação e posterior alívio ao
sentir-se validada pela pesquisadora, que consentiu com a afirmação verbalizada
sobre a condição de estar casada. Apesar de residirem na mesma cidade, considerada
pequena, o casal se conheceu pela internet e, após um vínculo de amizade, quando ele
teve interesse em pedir Bruna em namoro, solicitou a permissão da avó, que
consentiu. Mesmo com a permissão de sua cuidadora, a adolescente ansiava por
mais, impulsivamente queria construir sua própria família, experienciar o casamento e
a possibilidade de ter relações sexuais, ressaltando que “eu nunca tive relações com ele
quando morava na casa da minha avó, só quando fugi de lá” (sic).
Com esse intuito descrito, passou a morar com o atual esposo, aos 14 anos,
e a planejar a gestação. Após a consolidação da gravidez, o esposo foi tentar a vida,
arrumar um emprego no Paraná e, enquanto isso, Bruna passou a residir com a sua
sogra, à espera do chamado para juntar-se ao marido, no outro estado. Seus sentimentos
por ele revelaram uma relação peculiar, em que há o intuito de resgatar e construir uma
estrutura familiar saudável, com essa gravidez.
Por isso, compreende-se que os cuidados e atenção vindos de sua avó, não
foram suficientes para sobrepor um passado de violações e maus-tratos, fazendo com
que Bruna priorizasse essa relação com seu companheiro, sobre as demais, e desejasse o
recebimento da alta médica, para juntar-se a ele e permanecer no Paraná. “O que eu
sinto por ele, é amor, amizade, é tudo isso, ele é minha família, já era pra eu ta lá
com ele, tô só esperando melhorar, ter alta, pra ir pra lá” (sic).
E
nessa
perspectiva
de
constituir
sua
família,
tentando
ressignificar
experiências antigas, Bruna engravidou de forma planejada, deixando de tomar os
80
anticoncepcionais. Ao ser questionada sobre o sexo de seu bebê, disse tratar-se de uma
menina, porém, queria um menino, mas aceitou com facilidade esse fato.
Aparentando um estado de intolerância e cansaço, enfatizou que não imaginava como
seria sua filha, que características teria, o tipo de parto que gostaria de ter, nem as
expectativas para a montagem e escolha do enxoval, apenas acrescentando: “Eu queria
que tivesse algumas coisas minhas e outras coisas dele, vai nascer lá no Paraná, lá tem
uns hospitais grandes, mas não sei em qual vai ser” (sic). Demonstrou assim, sentir-se
despreocupada quanto essas questões, aparentemente depositando sua confiança no
encontro com o esposo. Inclusive, permitindo que ele tivesse participação na escolha
do nome da bebê. Trata-se de um nome composto, E.C, e cada um pôde escolher um
nome, no caso de Bruna, a escolha pelo nome E. se deu desde quando era criança ao
escutar as mães pondo esse nome em suas filhas, fazendo-a ter o mesmo desejo quando
engravidasse.
Para entender os planos e perspectivas futuras de Bruna, fez-se esse
questionamento, e ela, sem entusiasmo e ansiando pelo fim da entrevista, prontamente
repondeu: “Comprar uma casa, e cuidar da minha filha, né?!” (sic). Com essa afirmação,
a adolescente expõe sua atual prioridade, cuidar da filha, e, consequentemente, exercer
a maternidade enquanto função ininterrupta. Ainda ao ser questionada sobre seus
sonhos e desejos quando criança, disse que não possuía, e após alguns segundos
refletindo, respondeu que se passavam várias coisas em sua mente, como ser modelo,
médica, advogada, artista e cantora. Teve-se a impressão que o comportamento
introvertido da jovem a impediu de se expressar livremente durante a entrevista,
escondendo-se através de respostas monossilábicas e de condutas apáticas, aos poucos
revelando o atual significado de sua gestação, a ressignificação de suas experiências
traumáticas infantis, a partir do exercício da maternidade e da constituição de uma
nova família.
6.4.3
Desenho de famílias com estórias
Ao finalizar a entrevista, pôde-se notar as condutas de Bruna, indicando
intolerância e o possível desejo de finalizar o processo, porém, aceitou continuar
participando da última etapa. Demonstrou também resistência ao iniciar os desenhos,
alegando que não conseguiria fazer, precisando do incentivo e encorajamento da
pesquisadora para realizá-los. Das doze cores oferecidas, utilizou apenas o lápis preto
81
número 2. Dos quatro desenhos solicitados, foram desenhados apenas três, estando um
sem título. As produções indicaram a dinâmica psíquica de Bruna, com aspectos
relevantes e significativos de seu funcionamento.
6.4.3.1 “Família reunida” (desenho de uma família qualquer)
Figura 13 - Família reunida
Estória: “É uma família, o pai, a mãe, uma filha e um filho”.
Pesquisadora: “Certo, e o que eles estão fazendo?”
Bruna: “Não sei... passeando”.
Pesquisadora: “Onde?”
Bruna: “Em um parque, com árvores”.
Pesquisadora: “E como eles estão fazendo esse passeio?”
Bruna: “Gostando, felizes”.
As figuras humanas estão representadas de forma esquemática, com a inclusão
dos membros do corpo (braços, pernas, olhos, nariz, boca e cabelo), mas sem as
vestimentas. Com relação aos tamanhos das figuras, por serem pequenas, indicam
sentimentos de inadequação e talvez tendências ao retraimento (HAMMER, 1981), e a
localização superior esquerda demonstra implicações de que o sujeito tende a procurar
a satisfação através da fantasia, em vez da realidade, além de se manter distante,
ocupando uma posição relativamente inacessível (Idem, 1981).
As palavras vagas e impressivas ao descrever a história de seu desenho
confirmam as concepções identificadas acima. Contou que se trata de uma família que
está passeando e, consequentemente, estão felizes fazendo isso. Diferente de sua
82
descrição na entrevista sobre sua família da infância, nesse desenho, representou um
grupo diferente do que experienciou. Sendo assim, considera-se que Bruna pareceu
demonstrar que projetou sua perspectiva de constituir uma família, associando essa
construção com o sentimento de felicidade e realização.
6.4.3.2 “Minha família” (desenho da família que gostaria de ter)
Figura 14 - Minha família
Estória: “É a minha família, depois que eu tiver meus filhos, vai ser muito bom”.
Pesquisadora: “E como vocês estão?”
Bruna: “Feliz”.
Desenhou figuras com a inclusão dos membros (boca, nariz, braços pernas e
cabelos), sem as vestimentas. Com relação aos tamanhos das figuras, por serem
pequenas, indicam sentimentos de inadequação e talvez tendências ao retraimento
(HAMMER, 1981), e a localização superior esquerda demonstra implicações de que
o sujeito tende a procurar a satisfação através da fantasia, em vez da realidade, além de
se manter distante, ocupando uma posição relativamente inacessível (Idem, 1981).
Com a história dessa produção, Bruna evidenciou o quanto a reconstrução de
sua estrutura familiar, com o casamento e o nascimento dos filhos, terá a família que
gostaria, resolvendo suas problemáticas a partir dessas constituições. Confirmando
assim, as tendências de idealizar e recorrer à fantasia para buscar as soluções.
Demonstrou também a importância das figuras do pai e da avó, inserindo-os no
desenho, e afirmando que ambos estarão felizes com o contexto.
83
6.4.3.3 – Bruna não quis acrescentar o título (desenho que alguém não está bem)
Figura 15 - Desenho que alguém não está bem
Estória: “Não sei, deve ter acontecido alguma coisa, o filho brigou com os pais”.
Pesquisadora: “Mas o que especificamente aconteceu?”
Bruna: “Não sei, briga mesmo...”.
Pesquisadora: “Qual dos dois filhos brigou com os pais?”
Bruna: “O menino”.
Pesquisadora: “E como eles estão?”
Bruna: “Tristes”.
Com o desenho idêntico à primeira produção, as descrições desses aspectos
referentes ao grafismo são semelhantes. Desenhou figuras com a inclusão dos
membros (boca, nariz, braços pernas e cabelos), sem as vestimentas. Com relação aos
tamanhos das figuras, por serem pequenas, indicam sentimentos de inadequação e
talvez tendências ao retraimento (HAMMER, 1981), e a localização superior esquerda
demonstra implicações de que o sujeito tende a procurar a satisfação através da
fantasia, em vez da realidade, além de se manter distante, ocupando uma posição
relativamente inacessível (Idem, 1981).
Com a história de uma briga entre o filho e os pais, contou que a família estava
triste com o acontecimento, porém, nos desenhos, as figuras estão sorrindo, o que
demonstra incoerência. “Mas dentro dessa modalidade, há invariantes que que permitem
perceber o que permanecem no entrevistado” (TRINCA, 2013, p. 86). Indiretamente,
percebe-se uma semelhança com o que foi verbalizado em sua história de vida, já que
também teve alguns desentendimentos com o pai que era ausente e fazia uso de álcool, e
84
que por idealizar a nova família que está construindo, deseja que episódios como esse
não aconteçam e os membros possam continuar sorrindo.
6.4.3.4 Desenho da sua família
Nessa última produção, Bruna não quis mais desenhar, alegando que o
segundo desenho já se referia à sua família e que também estava indisposta. Seguindo
recomendações de Trinca (2013), houve uma flexibilidade da pesquisadora, para
proporcionar um clima emocional de livre expressão e aceitação do sujeito.
85
7 DISCUSSÃO
A partir da aplicação do formulário de caracterização do perfil socioeconômico e de
produção e reprodução social, obteve-se um parâmetro dessas condições das
participantes. Na ocasião de coleta do material, as idades das adolescentes vaviaram
entre 16 e 18 anos, estando-as no período da adolescência propriamente dita e
adolescência final (BLOS, 1985/1994).
Os níveis de escolarização variaram, tendo uma completado o ensino médio,
duas terminaram o ensino fundamental e uma iniciou os estudos aos 15 anos. De
acordo com Vieira; et al (2013), existe uma relação entre a incidência da gravidez na
adolescência e o baixo índice de escolarização, inclusive com casos de a adolescente
abandonar os estudos antes mesmo de engravidar, como foi o caso de Bruna.
Valentina abandonou a escola, ao descobrir a gestação, Jamyle passou a frequentar
recentemente a escola e mantém os estudos mesmo com a gravidez, e Vitória concluiu o
ensino médio, mas deixou o curso técnico que estava fazendo. Nenhuma participante
estava trabalhando ou realizando outras atividades. Segundo Merino; et al (2013),
após uma gestação, torna-se dificultoso conciliar a maternidade com atividades
educacionais, em cenários onde não há incentivo para isso.
Todas as participantes encontravam-se casadas ou em união estável com os
parceiros, por o mínimo de um ano e, residiam com outros adultos, com exceção de
Jamyle, que morava apenas com o esposo. As residências eram situadas em locais,
com ocorrências de adversidades, como acidentes de trânsito, falta de coleta de lixo,
esgoto a céu aberto, etc.
O início da atividade sexual, variou entre 14 e 15 anos, e todas disseram já ter
feito uso da camisinha como método contraceptivo. Vitória e Valentina não planejaram a
gestação, mas Jamyle e Bruna sim. Esses últimos casos se entrelaçam com o
posicionamento de Nunes (2012) ao expor que a falta de incentivo e investimentos
educacionais e sociais em jovens de cenários de desigualdade social torna a gravidez
como um projeto de vida, gerando realizações e reconhecimentos. Porém, não se trata
apenas das condições socioeconômicas que levam a esse tipo de ocorrência, mas
também fatores familiares e afetivos, que serão discutidos a seguir.
Ao descobrir a gravidez, as participantes passaram a frequentar o pré-natal no
primeiro trimestre de gestação, indo regularmente. Por tanto, práticas de apoio, vindas
de profissionais da saúde, que lidam com esse público, são importantes para a
86
transformação de situações
de
vulnerabilidade,
assegurando
os
direitos
das
adolescentes, de terem uma gravidez saudável (BRAGA; et al, 2014).
Para auxiliar na análise do material coletado com a aplicação dos
instrumentos, recorreu-se à proposta de Bardin (2011), ao elaborar categorias temáticas
diante dos assuntos significativos identificados na entrevista. Portanto, serão expostas e
detalhadas quatro categorias temáticas que refletem os conteúdos presentes nos
quatro casos investigados, sendo elas: Brincadeiras da infância; Relacionamento com
familiares, esposo e amigos; O bebê imaginado e desejado; e Projetos de vida:
7.1 Brincadeiras da Infância
Essa categoria se refere aos elementos de cada universo lúdico, composto por
brincadeiras, rotinas e planos durante a infância. Vitória e Valentina, ao retratarem
especificamente as brincadeiras que costumavam participar, revelaram uma infância
despreocupada, em um ambiente potencializador capaz de facilitar a livre expressão
da criança. Segundo Winnicott, “a criança traz para dentro dessa área da brincadeira,
objetos ou fenômenos oriundos da realidade externa, usando-os a serviço de uma
amostra da realidade interna ou pessoal [...]” (WINNICOTT, 1961/1975, p. 76). Sendo
assim, a atividade lúdica vivenciada na infância pelas duas adolescentes parece ter
proporcionado amadurecimento emocional a partir de uma ação ativa e criativa, no
ambiente de convívio, contrária à submissão, desejando que seus filhos também
possam experienciar o que viveram.
Já Jamyle e Bruna apresentaram retraimento e dificuldade em falar sobre suas
brincadeiras, e ambas prontamente repetiram que não brincavam. Aos poucos, foram
revelando pequenas atividades, mas o que pareceu predominar em suas falas foi a
convivência nociva e abusiva com alguns adultos nesse período. No caso de Jamyle, com
seu padrasto e com a passividade de sua mãe, e no caso de Bruna, com sua meia irmã.
Por ambas sofrerem a violação de seus direitos, precisaram se proteger,
criando defesas psíquicas para se preservarem e, consequentemente, bloqueando a
espontaneidade
e
descobertas
na
infância,
essenciais
para
o
processo
de
amadurecimento emocional. Por isso, Miura; et al (2016), ao compreenderem as
consequências da violência intrafamiliar, no desenvolvimento de uma adolescente
grávida, mostraram que a experiencia de maus tratos, e a ausência de suporte familiar,
interromperam o desenvolvimento emocional e a maternagem na
jovem,
e
87
consequentemente interferiram na saúde emocional da mãe e de seu bebê. O suporte
familiar, inclui o encorajamento e asseguramento para exploração e engajamento no
meio de forma ativa, espontânea e segura, podendo experienciar a saúde emocional
advinda das brincadeiras durante a infância. A passividade adquirida nas adolescentes
repercute até os dias atuais, na forma como se comunicaram no encontro com a
pesquisadora,
e
se
posicionaram
diante
dos
questionamentos,
mostrando
a
predominância de conflitos infantis inerentes ao desenvolvimento psicossexual,
atualizados na adolescência e também na gestação.
Com essas concepções descritas acima, alerta-se para a importância de atentar-se
que quando o ambiente da mulher grávida, que deveria ser protetor, é invasivo, a
gestante encontra-se ainda mais vulnerável, tornando-se sujeita ao aparecimento de
“distúrbios mentais puerperais” (Idem, 1960/2005). Como sinalizou o estudo de caso
realizado por Miura et al. (2011) com uma adolescente grávida que foi vítima de
violência doméstica durante a infância, afirmando que esse tipo de ambiente, com
maus-tratos, potencializou a vulnerabilidade psicossocial da adolescente.
Não foi encontrada a flexibilidade necessária para o atual manejo das
demandas conflitivas e para o redirecionamento de antigas pulsões que aparecem e
exigem das adolescentes gestantes (MACEDO et al., 2012). Portanto, por não terem
vivido livremente o brincar como um ato criativo e mantenedor da saúde mental, não
tiveram seus potenciais explorados e reconhecidos, além de serem impossibilitadas de
expressarem e descarregarem os conflitos emocionais na brincadeira. “Em outros termos,
é a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento
e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais [...]” (WINNICOTT,
1961/1975, p.63, grifos do autor).
O cenário escolar mostrou-se propício para o brincar e a imaginação sobre o
que se tornar em um futuro próximo. Também aumentaram os repertórios das
brincadeiras através do relacionamento com os pares e professores, pois a partir das idas
à escola, Vitória passou a brincar também de professora. Bruna afirmou que
constumava correr, bagunçar e também atrapalhar as aulas, apresentando condultas de
rebeldia. Valentina, com o comportamento extrovertido e a facilidade em se comunicar,
quando começou a ir para a escola, inseriu-se em brincadeiras diversas com o grupo. A
excessão foi encontrada em Jamyle, que passou a frequentar a escola durante a
adolescência, e repetidamente confirmou que não brincava. O que possivelmente
interfere na forma como se comunica, dando respostas curtas e vagas, e também
88
contribuiu para a aquisição de uma postura submissa diante de pessoas.
7.2 Relacionamento com Familiares, Esposo e Amigos
Nessa categoria, foram encontradas maneiras de se relacionar com pessoas
significativas, percebendo o efeito dessas experiências relacionais na saúde emocional e
na vinculação com o bebê. Cada caso revelou o contato com pessoas significativas que
ocupam papéis estabelecidos pelas jovens. Essa discussão torna-se imprescindível, por
considerar a importância do ambiente de convívio e seus efeitos integradores e
desintegradores na vida das adolescentes que se tornarão mães. Miura et al. (2016)
consideram que a ausência de suporte familiar pode atuar como um fator que
interrompe o desenvolvimento emocional da mulher, interferindo na saúde emocional
da mãe e do bebê. Diante das especificidades, algumas figuras foram destacadas como
relevantes para as participantes.
A avó do bebê, citada com intensidade em Vitória e Valentina, como já dito,
confirmou que “assim, durante o exercício da maternidade, na busca por um modelo
materno próprio, a mulher pode reviver com intensidade as identificações com a
própria mãe da infância e da atualidade” (CABRAL; LEVANDOWSKY, 2012, p.
544). Nessa direção, ambas as jovens demonstraram o intuito de reproduzir, com seus
filhos, a forma como receberam os cuidados maternos, além de terem estabelecido
uma relação de confiança nos saberes e nas perspectivas de auxílio no cuidado com o
bebê, após o nascimento.
As figuras maternas para essas duas adolescentes são sinônimos de
cuidado e proteção, contribuindo para que se sintam encorajadas e amparadas
durante a gestação e no posterior cuidado com os seus bebês. Percebe-se, assim, que
o ambiente de convívio está se preparando para a chegada de mais um membro
da família, havendo uma reorganização para isso, pois Vitória, ao descobrir a
gravidez, passou a morar com o esposo, na casa dos pais, onde foi reformada para
abrigá-los; e Valentina, que mora com o companheiro, irá passar um período na casa
da mãe para que possa ser amparada com o filho. Esta última adolescente ainda
enfatizou na entrevista e nos desenhos o amparo vindo de suas irmãs, em que foi
estabelecida uma parceria significativa desde a infância. Consequentemente, as
necessidades de ambas aparecem como prioridade em suas famílias, que atuam
como uma “capa protetora” (WINNICOTT, 1960/2013) ao cuidar e permitir que as
89
gestantes se dediquem initerruptamente a esse momento de suas vidas e tenham suas
demandas atendidas e as angústias aliviadas.
Com relação à figura paterna, Vitória falou pouco sobre seu pai, mas foi
identificada a associação entre ele como o provedor da família, comerciante, que
mantém a renda. Em algumas descrições em sua entrevista, descreveu como “ótimo”
(sic) o afeto existente entre ambos, e na realização dos desenhos expressou
momentos marcantes e agradáveis na companhia de todos os membros da família
nuclear, incluindo os irmãos, revivendo, a partir da produção gráfica, uma viagem
com lembranças significativas. O que aparece como algo desagradável para Vitória
são as diferenças nas crenças religiosas entre seu pai e sua mãe. Seguindo a
religião da mãe, desaprova o fato de o pai não frequentar a igreja, mas demonstra
conviver bem com isso.
Para
Valentina,
o
pai
apareceu
como
coadjuvante.
As
descrições
generalizadas sobre ele e a sua ausência nas histórias retratadas nos desenhos
revelaram um certo distanciamento afetivo entre ambos. Por isso, a ênfase
relacional da adolescente está nas figuras femininas que convive, recebendo o que
necessita afetivamente desse grupo de mulheres mais experientes. A pesquisa
realizada por Lopes et al. (2010) complementa esse dado descrito, pois investigou
a relevância da presença de figuras femininas de apoio na vida de mães
primíparas, revelando que as mães que não puderam contar com esse tipo de apoio
mostraram-se inexperientes e atrapalhadas para lidar com as implicações da
maternidade.
A figura materna para Jamyle é submissa e passiva, pois, segundo a
jovem, permitia que o esposo (padrasto de Jamyle) maltratasse suas filhas, mantendose em uma relação abusiva. Após o divórcio dos pais, a jovem passou a ter como
referência masculina o padrasto, que a violentava e impedia seu crescimento
espontâneo e criativo. Essa percepção torna-se preocupante, uma vez que Jamyle
não teve referenciais de adultos saudáveis nos quais pudesse se identificar e sentirse protegida diante de adversidades, sendo vítima desse ambiente desintegrador.
Por isso, enfatiza-se “[...] a importância das relações precoces da criança com
seus cuidadores, para o seu bom desenvolvimento, particularmente no que diz
respeito à sua saúde mental” (MIURA et al., 2011, p. 46).
A repercussão dessas experiências nocivas de sua infância é manifestada
pelo desejo de reviver uma relação com a figura paterna, por meio de seu
90
relacionamento afetivo com o esposo, na tentativa de elaboração de conflitos
parentais. É nessa tentativa que se percebe a representação de seu companheiro no
psiquismo de Jamyle, pois, a partir dessa união, pôde voltar a estudar, abandonar a
casa que vivia e sentir-se protegida. Enfatizou também que a função do pai de seu
filho era de cuidar e ajudá-la. Com essa confluência de papeis, a adolescente
atribui muitas expectativas
nessa
relação, idealizando-a e ocasionando um
afastamento da realidade, a partir do desejo em conviver com o pai protetor (na
produção referente à própria família, desenhou o pai inserido no contexto) sonha em
construir uma família que gostaria de ter tido. Sobre isso, “a necessidade de
“sustentação” (holding) se estende ao longo de sua vida, embora varie quanto ao
seu grau de dependência e pela maneira como se apresenta [...]” (SANTOS;
MOTTA, 2014, p. 523).
Em Jamyle, essa necessidade intensa se atualiza, podendo ocasionar
frustrações pelo esposo não corresponder na mesma perspectiva à ânsia que a
jovem necessita de ressignificar suas vivências, além da dificuldade em apropriar-se
da função materna, pois com a gravidez também demonstra ter essa função em sua
vida. Com um traçado leve e o tamanho pequeno das figuras, retratadas nos desenhos,
aparentou fragilidade emocional e baixa energia, o que ocasionou em condutas de
retraimento e o semblante de apatia, alertando para possíveis repercussões no
processo de decodificação das demandas do filho. Ao relatar sobre a fase do
espelho, Winnicott (1967/1975) comenta a importância de a mãe estar bem para se
voltar ao seu bebê e traduzir no olhar as suas emoções, fazendo-o reconhecer-se
no semblante materno. O psiquismo fragilizado de Jamyle pode levar a possíveis
impasses nesse processo afetivo e necessário para o desenvolvimento espontâneo de
seu bebê.
No caso de Bruna, devido ao falecimento da figura materna quando ainda
era bebê, também experienciou episódios de violência intrafamiliar durante a
infância, vindos da irmã que tinha como função exercer o papel de cuidadora. Os
episódios de abuso, ocasionados por esse familiar, atuaram como um fator
desintegrador na vida de Bruna, que impediu o seu desenvolvimento sadio e
espontâneo.
Ao desenhar a sua família, inseriu a avó e o pai juntos da filha e do esposo,
como se todos estivessem compartilhando da mesma rotina, o que demonstra um
apego e reconhecimento a essas figuras, além do respeito pela avó, já que
91
verbalizou que só iniciou sua vida sexual quando não morava mais com ela, e sim
com o esposo. Apesar de idealizar sua partida para o Paraná, a participante pode
apresentar dificuldades de adaptação com o nascimento do bebê, pois estará em
outro estado, não convivendo com sua cuidadora, e também por atribuir altas
expectativas na convivência com seu marido.
Ao ser cuidada, posteriormente, pela avó, houve uma tentativa de reparação
dos episódios de maus-tratos experienciados, pois Bruna afirmou sobre a
preocupação de sua cuidadora, para que ela não saísse muito de casa, além do
incentivo dela para com os estudos de Bruna. Porém, as marcas emocionais da
infância permaneceram na jovem, repercutindo no seu funcionamento relacional
atual, ao adotar uma postura resistente e fechada, apresentando dificuldade de
expressar sua espontaneidade na comunicação.
Referindo-se aos relacionamentos com os esposos, com o caso de Vitória,
demonstrou a flexibilidade de seu companheiro em adaptar-se ao contexto da
adolescente, pois ao descobrir a gravidez, ele converteu-se à religião de Vitória, e
passou a morar com sua família. Juntos, compartilham as idas semanais aos cultos, os
momentos de lazer, com passeios no pôr do sol, e os planos de estudar e prestar
concursos, com o intuito de proporcionar melhores condições de vida para a filha.
Consequentemente, quando a gestante percebe o auxílio vindo do pai do bebê,
aumenta a autoconfiança, a aceitação das mudanças corporais e as sensações
positivas ao tornar-se mãe (MARIN et al., 2011).
Valentina demonstrou não ter o hábito de conviver com o pai, depositando
confiança em sua mãe e nas demais figuras femininas da família. Com o
esposo, observou-se que a adolescente desconsidera sua importância, preferindo
que a mãe a acompanhe tanto no pré-natal quanto no nascimento do bebê. Embora
tenha acatado a escolha do nome do bebê feita pelo esposo.
Bruna apresentou uma expectativa de ter uma nova família e novas
experiências com seu companheiro, priorizando essa relação e fazendo planos de
viver um novo começo a partir do significado atribuído a estar casada e grávida.
Com o funcionamento, identificado
também
nos
desenhos,
demonstrando
retraimento, as altas expectativas da adolescente podem ocasionar frustrações
diante do inesperado e das possíveis dificuldades encontradas ao se deparar com
a realidade em se tornar mãe em outra cidade, experimentando outro contexto em
que o marido passará a maior parte do dia trabalhando.
92
Todas mostraram a disponibilidade de apoio vindo dos companheiros, que
também exerceram a função de “capa protetora” (Idem, 1960/2013), pois, com
relação à gestante, “ela necessita de apoio nessa época, que é melhor dado pelo pai
da criança, sua mãe, pela família e pelo ambiente social imediato [...]” (Idem,
1963/2007). Segundo o relato das adolescentes, eles demonstraram interesse em
participar ativamente das gestações, assumindo os compromissos necessários.
Porém, nos casos de Jamyle e Bruna, a responsabilidade e apoio voltaram-se
exclusivamente para os esposos, tendo as responsabilidades de preservarem a saúde
mental de ambas, atuando como cuidadores, realizando o holding para sustentar as
angústias e desejos das esposas.
Os amigos das jovens ocuparam um papel secundário nos discursos, em que
o repertório e experiências de convívio das adolescentes com os pares mostrou-se
reduzido. Apesar de compartilhar dessa realidade, Vitória enfatizou sobre o quanto a
condição de estar gestante a afastou do contato com suas amizades, reduzindo-as ao
esposo e familiares, que passaram a fazer parte, de forma contínua, de sua rotina,
compartilhando os acontecimentos da gravidez, enquanto os amigos tinham outros
interesses como paqueras e o ingresso na faculdade. Jamyle falou não possuir amigos,
desde a infância, em que as irmãs foram o referencial de amizade para a jovem e,
juntas, compartilhavam rotinas, tristezas e experiências, já que passou a frequentar
recentemente a escola e era impedida de sair para passear – locais propícios para
estabelecer contatos sociais e de amizade. Bruna não demonstrou interesse em manter
amizades da infância, recordou que na escola convivia com amigos que não gostavam
de estudar e que, apesar de ter contato com eles, prefere outras programações, como
ficar com seu esposo. Winnicott (1968/1975) comenta que condições como uma
gestação na adolescência impulsiona, forçadamente, a jovem a abdicar do universo de sua
idade, distanciando-se dos demais e ingressando antecipadamente nas exigências e no
convívio com o universo adulto, o que causa um certo pesar.
7.3 O Bebê Imaginado e Desejado
Aqui, detectaram-se conteúdos sobre a constituição imaginária de um bebê no
psiquismo das adolescentes. Ferrari et al. (2007) discutem sobre a existência do bebê
imaginado, em que a mãe, desde a gestação, investe afetivamente na sua
constituição, dotando-o de características desejadas e compartilhadas pelo grupo, para
93
construir um espaço subjetivo e receber o bebê real. Ou seja, o ser em
desenvolvimento passa a ocupar uma posição no ambiente familiar, havendo
investimentos necessários para sua existência.
Vitória
e
Valentina
facilmente
idealizaram
características
físicas
e
comportamentais, compondo uma imagem de como gostariam que fossem seus bebês. O
modo de expressarem suas ideias, bem como o aparente estado de humor, sinalizaram o
prazer em investir afetivamente nessa constituição, necessária também para a
manutenção da gestação. Isso impulsionou ambas a frequentarem assiduamemente as
consultas de pré-natal, a escolher um nome significativo e aceitar as implicações da
gravidez, mesmo tratando-se de gestações não planejadas e dos bebês com o sexo
diferente do que imaginaram.
Para Vitória, isso se evidenciou a partir da escolha do nome de sua menina,
remetendo a um objeto de sua infância, e na aparência física que será parecida com ela,
formando uma imagem mental agradável da constituição de sua filha. Valentina
planejou perspectivas para os dois sexos, por isso escolheu ser identificada por esse
nome, que seria de sua bebê, caso fosse uma menina. Com relação ao menino que
estava esperando, afirmou que, assim como ela, seu filho irá gostar muito do rio, e
escolheu o enxoval na mesma cor de seu time favorito.
Demonstraram, então, condições favoráveis para a imersão no estado de
“preocupação materna primária” em que, para Winnicott (1964/2012), é uma
capacidade natural de identificação materna com o bebê, que possibilita fornecer ao
recém-nascido o que necessita no momento exato. Porém, para isso acontecer, é
necessário o investimento afetivo durante a gestação, que facilmente observou-se em
ambas.
Mesmo tendo planejado as gestações, Jamyle e Bruna alegaram não possuírem
uma imagem de como seriam os seus bebês e, ao longo da entrevista, forneceram
informações imprecisas e pouco carregadas de afetos, demonstrando contradições. O
cenário de abusos sofridos, criando uma realidade dolorosa, se associa com a
dificuldade em depositar energia nessa imaginação, “[...] em virtude do contexto em que
geralmente insere-se essa gestação, é possível pensar que dificuldades podem acontecer
na construção do bebê imaginado” (PISCININI et al., 2003, p. 83). Houve uma
apreensão com relação aos casos Jamyle e Bruna, que demonstraram ter vivenciado
experiências familiares abusivas, afetando o processo de amadurecimento emocional,
podendo isso ser observado na apatia e cansaço constantes das jovens perante a vida,
94
confirmando que “onde a mulher normal precisa de orientação, a que está doente
precisa de amparo e encorajamento” (WINNICOTT, 1957/2012, p. 67).
As únicas informações expressas por Jamyle foram que espera que seu bebê
(quando a coleta foi realizada, ainda não se sabia o sexo) receba os cuidados e proteção
que lhe faltaram durante a infância, confirmando a associação da maternidade com o
desejo de ressignificação de conflitos. E Bruna, ao desejar que sua filha se pareça
consigo e com seu esposo. Em decorrência dessas considerações, atenta-se para
possíveis percalços nas duas adolescentes, no que se refere ao estado de “preocupação
materna primária”, em que Winnicott (1960/2011) comenta na implicação de percalços
e na existência de distúrbios expressos por mães incapazes de mergulhar e aceitar essa
experiência.
Por isso, atenta-se que ambas necessitam de cuidados initerruptos e assistência
constante da equipe de saúde, atuando nos níveis profiláticos e terapêuticos” (Idem,
1947/1999)
ao
oferecer
momentos
de
acolhimento
emocional
significativos,
favorecendo o relacionamento e a identificação positiva entre mãe-bebê, além da
elaboração de demandas traumáticas por outras vias e caminhos mais saudáveis, para
além da maternidade.
7.4 Projetos de Vida
Sonhar e idealizar perspectivas e papéis diferentes são características
comumente observadas nos adolescentes. Segundo Bloss (1994), as mudanças de
desejos, condutas e planos, de acordo com a etapa da adolescência que o jovem se
encontra, fazendo-o oscilar no discurso e nas condutas, tornam-se típicas e necessárias
para o processo de amadurecimento.
Essa categoria faz referência aos projetos de vida das participantes. Os casos
revelaram características e planos singulares, ao imaginarem diversas ocupações e
realizações antes da gravidez. Porém, com o acontecimento da gravidez, reorganizaram
seus planos, priorizando o cuidado com o bebê e o papel materno.
Vitória, Valentina e Bruna revelaram sonhos infantis que desabrocharam
enquanto frequentaram a escola, sendo eles: tornar-se médica veterinária, advogada,
policial, cantora, atriz, e tantos outros que são permitidos à criança imaginar. Vitória
gostaria de ser médica veterinária, com a oportunidade de estudar e o auxílio
financeiro, vindo dos genitores, demonstrou que ingressar na faculdade e ter uma
95
profissão seria algo real e possível, pois o ambiente familiar facilitou o incentivo
educacional. Mas, devido à gestação, precisou reformular seus planos, ao pretender
esperar pelo crescimento da filha e, posteriormente, estudar para concurso. O que
também demontra coerência e a possibilidade de realização, já que o marido compartilha
essa realidade, tendo interesse e apoiando-a.
Valentina disse ter o sonho de ser advogada, não pela função do profissional em
si, mas pela beleza das mulheres que a exercem, idealizando a profissão. Acrescentou o
desejo de se vestir como uma advogada, pois acha muito bonito, e também de ser
policial. A adolescente demonstrou uma perspectiva distante da realidade, pois disse
não gostar de estudar, e não saber a função do policial, além de “algemar bandido”
(sic). Após o crescimento do filho, pretende ir para a faculdade, porém, essa afirmação
foi de encontro com seu desenho, ao se projetar e contar que no futuro irá ficar em casa,
exercendo as atividades domésticas e cuidado desse filho que irá nascer, e de outro que
terá posteriormente.
Jamyle iniciou os estudos recentemente com o auxílio do esposo. Disse que
quando criança queria ser médica, mas a falta de acesso à escola e outras oportunidades
de autorealização, e um ambiente infantil de privação emocional destruíram suas
esperanças, e acarretaram na gravidez como um projeto de vida possível e acessível para
ela. No momento, demonstrou só ter interesse em cuidar do bebê que está por vir. Assim
como Bruna, que ao ir ao Paraná, quer se dedicar ao seu lar e sua filha, criando
expectativas e idealizando esse momento. Consequentemente, no imaginário da
população, é comum esperar que
os jovens invistam em condições laborais e
acadêmicas, pois “a maternidade durante a adolescência não é socialmente aceita,
visto que se espera dos jovens a realização de outras atividades que os preparem
para o mundo adulto. Nesse momento, não se espera a ocorrência da conjugalidade e
da parentalidade” (GOMES et al., 2011, p. 31). Porém, confirmando as concepções
detectadas por Patias et al. (2011), em que em determinados contextos há a
possibilidade da maternidade planejada por adolescentes surgir como um projeto de
vida, Jamyle e Bruna revelaram a maternidade como uma oportunidade de
ressignificação
de
momentos
dolorosos alanejando,
então,
a
gravidez
e
encontrando aceitação e valorização vindas do ambiente de convívio, convertendo
em um projeto de vida.
Essas informações, decorrentes do processo de análise do conteúdo do
material coletado, introduzem ao entendimento das práticas dos cuidados maternos
96
impulsionadoras da relação dessas adolescentes com seus bebês. As realidades e condutas
dos mundos internos e externos são imprescindíveis para o exercício diário dessa função,
assim, a preocupação e a atitude materna de se fazer presente de diversas formas,
sabendo o momento exato de fornecer o que o bebê exige, quando ele exige.
Winnicott
(1963/2007)
detalhou
essas práticas, após o nascimento do bebê,
denominando-as holding, handling e apresentação de objetos, enquanto funções a
serem desempenhadas referentes à maternagem suficientemente boa, e também sobre os
níveis de dependência na relação mãe-bebê (Idem, 1963/2007). Por isso, torna-se
relevante a discussão do processo gestacional desse público, já que é na gravidez
que são atualizados e revividos conflitos e momentos infantis fundamentais para a
compreensão da questão investigada.
Já Vitória e Valentina apresentaram uma ampla rede de proteção, estendendo-se
aos demais familiares, especificamente suas mães, que atuam mostrando modelos
saudáveis de identificação. A presença da mãe-avó ofereceu um modo de assistência
pautado nos saberes advindos da experiência, facilitando o holding das angústias e
questionamento das adolescentes, além de favorecer as expectativas e planejamentos
constantes de ambas para apresentarem de forma lúdica e prazerosa a realidade
externa aos bebês. Sendo assim, a gravidez, nesses dois casos, não surgiu com a
função de ressignificação através da maternidade, de experiências traumáticas.
97
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com a intenção de compreender e analisar como se dá o processo de
desenvolvimento da maternidade, em adolescentes grávidas, este estudo cumpriu
com seu objetivo, pois, detalhadamente investigou a temática, considerando as
adolescentes, que fizeram parte da pesquisa.
Quanto aos aspectos socioeconômicos, pôde-se observar que a maioria das
participantes não teve acesso a uma diversidade educacional, nem a moradia segura
durante a infância, e atualmente nenhuma residia em uma casa própria, contando
com o apoio de pessoas próximas que auxiliavam na moradia. Com a gravidez, algumas
abandonaram ou não se sentiram motivadas para continuar frequentando a escola,
impossibilitando ou retardando a formação e capacitação para inserção no mercado de
trabalho de maneira qualificada.
Pôde-se perceber nas entrevistas que o ambiente infantil de Vitória e
Valentina proporcionou ludicidade e criatividade propício para o desenvolvimento
da criança. As adolescentes que conviveram com cuidadores participativos e
receberam incentivo para brincar, detalharam esse período com expectativa e nostalgia,
além de terem descrito minunciosamente os momentos de brincadeiras, diferente de
Jamyle e Bruna que não partilharam dessa experiência saudável, mostrando que a
convivência, durante a infância, com um ambiente intrusivo e ameaçador, afeta as
diversas esferas da vida de uma criança, gerando repercussões futuras, podendo afetar
a forma como a maternidade é percebida e conduzida.
Quanto às relações com os familiares, percebeu-se a relevância da existência de
um ambiente suficientemente bom ao redor das adolescentes, em que a função de
proteção e auxílio são imprescindíveis no processo gestacional, possibilitando segurança
e engajamento materno. As experiências infantis marcaram e contribuíram na
estruturação psíquica das participantes que passaram a estabelecer relações específicas
com seus núcleos familiares. Por isso, quando os cuidados ambientais foram
insuficientes e abusivos, encontrou-se jovens que atribuíam à gestação a possibilidade de
ressignificação de experiências traumáticas.
Com relação aos cônjuges, estes tiveram um papel central para a maternagem
das jovens, auxiliando e fornecendo amparo e proteção. Quando a adolescente convive
com uma rede de apoio presente, atribui-se ao esposo expectativas e planos naturais
referentes à constituição da nova família. Mas, como nos casos de Jamyle e Bruna,
98
em que foram experienciados episódios de violência durante a infância, couberam à
essas figuras a responsabilidade excessiva de proporcionar o apoio que faltou de tornar
um cuidador ininterrupto, contingenciando angústias e incertezas das experiências
vividas. O que se apresentou como um risco, já que essas idealizações geram um
afastamento da realididade e os esposos podem demonstrar-se frágeis e ausentes em
alguns momentos.
Pôde-se perceber quanto às concepções sobre como seriam seus bebês que
estas variaram à medida que as participantes conseguiram investir e imaginar essas
características com espontaneidade. Jamyle e Bruna, que demonstraram retraimento e
condutas apáticas, não conseguiram compartilhar e nem estar disponíveis em investir
nesse processo imagético.
Sobre aos projetos de vida das adolescentes, prevaleceu a gestação como
prioridade, em que Vitória e Valentina puderam reorganizar planos antigos,
substituindo-os pela maternidade e, posteriormente, criando novos projetos. Nas mães
que utilizaram a gravidez como único projeto de vida e, consequentemente,
vislumbraram a possibilidade de ressignificar experiências dolorosas na gestação,
considera-se o risco em apresentarem dificuldades no exercício por não identificarem
os aspectos árduos das maternidades e não demonstrarem flexibilidade para lidarem
com os mesmos e com possíveis frustrações.
Com a utilização dos Desenhos de Família com Estórias para compreender a
expressão de aspectos referentes à personalidade e a relação com a temática familiar,
esseinstrumento complementou o material obtido com a entrevista, mostrando que
cada participante manteve um padrão de expressão e uma forma de comunicar os
sentidos atribuídos às experiências familiares, que repercutem na gestação e nas
percepções para com o bebê que está por vir. Além disso, conflitos e demandas também
foram expressas, mostrando que as experiências infantis permanecem registradas e
carregadas de afetos e significados, constantemente atualizados. Desta forma,
aponta-se para a importância de intervenções e acompanhamentos de profissionais
capazes de proporcionar um acolhimento e uma escuta das problemáticas e conflitos
infantis que repercurtem na atualidade, gerando impasses na construção de uma
maternagem suficientemente boa. Assim, esse tipo de assistência a essa população
pode vir a contribuir na ressignificação de experiências traumáticas, reduzindo a
condição de vulnerabilidade e acentuando o protagonismo das adolescentes durante a
gestação.
99
Portanto, os quatro casos descritos revelaram histórias marcantes e específicas,
compondo as singularidades dos sentidos atribuídos à maternidade nessa etapa
evolutiva, o que marcou as experiências de cada adolescente. Porém, houve elementos
que se cruzaram, aproximando as temáticas verbalizadas e sentidas. Essas jovens
experienciaram o universo de gerar e cuidar de outro ser dependente durante a gestação,
ao mesmo tempo que reviveram seus próprios conflitos pulsionais e existenciais da
adolescência. As imagens, tons de voz, perspectivas, sonhos e desilusões se fizeram
presentes na compreensão das reais demandas encontradas no processo de maternagem
e seus possíveis desdobramentos e significados, na tentativa de produzir uma discussão
ética
e
coerente
com
a
temática
investigada,
subsidiada
pelas concepções
psicodinâmicas.
Esta pesquisa enfocou o processo de desenvolvimento da maternidade junto às
adolescentes grávidas durante o período gestacional, porém a maternidade é um
processo complexo, profundo e singular que deve ser estudado em diferentes
momentos da relação mãe-filho(a). Desta forma, sugere-se a elaboração de novos
estudos qualitativos, de caráter longitudinal, para que haja um
acompanhamento
sistemático dos distintos períodos de desenvolvimento da maternidade, contribuindo
com a problemática e produzindo novas concepções diante da complexidade existente.
100
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publicado em 1961).
. Fatores de integração e desintegração da vida familiar. In:
. A
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YIN, Robert K. Estudos de caso: planejamento e método. 5.ed. São Paulo: Bookman,
2015.
105
APÊNDICES
APÊNDICE A
Termo de Assentimento para
Adolescente
Você está sendo convidado para participar da pesquisa “Potencializando profissionais,
crianças e adolescentes de uma comunidade litorânea de Maceió”. Seus pais permitiram que você
participe.
Queremos saber um pouco sobre sua história de vida e desenvolvimento da
maternidade/paternidade. A(o)s adolescentes que irão participar desta pesquisa têm entre 12 a 19 anos
de idade.
Você não precisa participar da pesquisa se não quiser, é um direito seu e não terá
nenhum problema se desistir.
A pesquisa será feita em uma sala da Unidade Básica de Saúde de seu bairro onde nos
encontraremos de 10 a 15 vezes desde a gravidez até o primeiro ano do bebê. Para isso, serão
feitas entrevistas, será solicitado que faça alguns desenhos e depois do nascimento que brinque
com o bebê. As entrevistas serão gravadas e a interação com o bebê será filmada. As gravações e as
imagens serão de uso apenas para análise, não serão divulgadas.
Você poderá se sentir incomodada(o) ao falar sobre suas experiências, desta forma, caso
queira você pode contar com o nosso apoio no Serviço de Psicologia Aplicada do Instituto de
Psicologia da Universidade Federal de Alagoas, telefone (82) 3214-1786.
Você poderá se sentir bem ao falar de sua história, do processo de
maternidade/paternidade e sobre o desenvolvimento do bebê.
Não falaremos a outras pessoas que você está participando da pesquisa, nem daremos a
estranhos as informações que você nos der. Os resultados da pesquisa vão ser publicados, mas sem
identificar a(o)s adolescentes que participaram.
Quando terminarmos a pesquisa você será informado dos resultados deste
trabalho. Sua participação nesta pesquisa não lhe acarretará nenhuma despesa.
Você será indenizado por qualquer dano que venha a sofrer com a participação na
pesquisa.
Se você tiver alguma dúvida pode nos perguntar. Escrevemos os telefones na parte de baixo
deste texto.
=================================================================
CONSENTIMENTO PÓS INFORMADO
Eu
aceito
participar da
pesquis
a
“Potencializando profissionais, crianças e adolescentes de uma comunidade
litorânea de Maceió”.
Entendi as coisas ruins e as coisas boas que podem acontecer.
Entendi que posso dizer “sim” e participar, mas que, a qualquer momento, posso dizer “não”
e desistir e que ninguém vai ficar furioso.
As pesquisadoras tiraram minhas dúvidas e conversaram com os meus
responsáveis. Recebi uma cópia deste termo de assentimento, li e concordo em participar da
pesquisa.
Endereço do (a) participante-voluntário (a)
Domicílio: (rua, praça,
conjunto):
Bloco:
/Complemento:
/Nº:
Bairro:
Contato de urgência: Sr(a).
Domicílio:
(rua,
Bloco:
/Nº:
/Complemento:
praça,
conjunto)
Bairro:
Endereço das responsáveis pela pesquisa (OBRIGATÓRIO):
Profa. Dra. Paula Orchiucci Miura e Profa. Dra. Adélia Augusta Souto de Oliveira
Instituição: Universidade Federal de Alagoas
Endereço: Av Lourival Melo Mota, S/N.
Bloco: /Nº: /Complemento: Campus A.C. Simões, Instituto de
Psicologia Bairro: /CEP/Cidade: Tabuleiro dos Martins, CEP 57072-900,
Maceió-AL Telefones p/contato: (82) 3214-1786
ATENÇÃO: Para informar ocorrências irregulares ou danosas durante a sua participação no
estudo, dirija-se ao:
Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas
Prédio da Reitoria, 1º Andar , Campus A. C. Simões, Cidade Universitária
Telefone: 3214-1041
Maceió,
Assinatura ou impressão
datiloscópica do (a) voluntário (a) ou
responsável legal e rubricar as demais
folhas
, de
de
Nome e Assinatura do(s) responsável(eis) pelo estudo
(Rubricar as demais páginas)
APÊNDICE B
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (T.C.L.E.) – Pais e/ou Responsáveis
pelo(a) Adolescente (2ª fase da 3ª etapa)
Eu,
_, responsável pelo
que foi
convidad(o,a) a participar como voluntári(o,a) do estudo “Potencializando profissionais,
crianças e adolescentes de uma comunidade litorânea de Maceió”, recebi d(o,a) Sr(a)
, aluno/a(s) do curso de
graduação e/ou pós-graduação em Psicologia, da Universidade Federal de Alagoas, responsáveis por sua
execução, as seguintes informações que me fizeram entender sem dificuldades e sem dúvidas os seguintes
aspectos:
• Que o estudo se destina a conhecer e compreender os processos psicossociais relacionados à
menor
gravidez na adolescência e suas vicissitudes em uma comunidade litorânea de Maceió;
•
Que a importância deste estudo é a de contribuir com a diminuição da gravidez na adolescência
e com a minimização de situações de vulnerabilidade em uma comunidade litorânea de
Maceió;
• Que este projeto deseja identificar as formas de potencialização e enfrentamento de situações de
vulnerabilidade vivenciadas por adolescentes grávidas moradoras de uma comunidade litorânea
de Maceió;
• Que esse estudo começará em agosto de 2016 e terminará em agosto de 2018.
• Que para a realização deste estudo serão realizados de 10 a 15 encontros, desde o início do prénatal até o primeiro ano de vida do bebê, serão realizadas entrevistas, será solicitado que faça
alguns desenhos e após o nascimento, que brinque com o bebê. Cada encontro terá duração
de aproximadamente de 30 minutos. As entrevistas serão gravadas e as interações serão
filmadas. As gravações e as imagens serão de uso apenas para análise, não serão divulgadas.
Após a coleta de dados será realizada análise de conteúdo do material coletado.
• Que os riscos que meu (minha) filho (a) poderá sentir com a sua participação são os seguintes:
lembranças de acontecimentos ocorridos em sua vida.
• Que poderei contar com a seguinte assistência: Serviço de Psicologia Aplicada do Instituto de
Psicologia da Universidade Federal de Alagoas, telefone (82) 3214-1786.
• Que os benefícios que meu (minha) filho (a) poderá esperar com a sua participação, mesmo que
não diretamente são: potencialização no enfrentamento de situações de vulnerabilidade, bem
como no desenvolvimento da maternidade/paternidade.
• Que a participação do (a) meu (minha) filho (a) será acompanhada do seguinte modo: as
pesquisadoras estarão presentes em todas as etapas da pesquisa.
• Que, sempre que desejar, serão fornecidos esclarecimentos sobre cada uma das etapas do
estudo.
• Que, a qualquer momento, meu (minha) filho (a) poderá recusar a continuar participando do
estudo e, também, que eu poderei retirar este meu consentimento, sem que isso me traga
qualquer penalidade ou prejuízo.
• Que as informações conseguidas através da participação do (a) meu (minha) filho (a) não
permitirão a sua identificação, exceto aos responsáveis pelo estudo, e que a divulgação das
mencionadas informações só será feita entre os profissionais estudiosos do assunto.
• Que eu serei informado sobre o resultado final da pesquisa.
• Que o estudo não acarretará nenhuma despesa para o participante da pesquisa.
• Que eu serei indenizado por qualquer dano que venha a sofrer com a participação na
pesquisa.
• Que eu receberei uma via do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Finalmente, tendo eu compreendido perfeitamente tudo o que me foi informado sobre a
participação do (a) meu (minha) filho (a) no mencionado estudo e estando consciente dos meus
direitos, das minhas responsabilidades, dos riscos e dos benefícios que a sua participação
implicam, concordo que dele participe e DOU O MEU CONSENTIMENTO SEM QUE PARA
ISSO EU TENHA SIDO FORÇADO OU OBRIGADO.
Endereço do (a) participante-voluntário (a)
Domicílio: (rua, praça,
conjunto):
Bloco:
/Nº:
/Complemento:
Bairro:
/CEP/Cidade: /Telefone: Ponto de
referência:
Contato de urgência:
Sr(a). Domicílio: (rua, praça,
conjunto)
Bloco:
/Complemento:
/Nº:
Bairro:
Endereço das responsáveis pela pesquisa (OBRIGATÓRIO):
Profa. Dra. Paula Orchiucci Miura e Profa. Dra. Adélia Augusta Souto de Oliveira
Instituição: Universidade Federal de Alagoas
Endereço: Av Lourival Melo Mota, S/N.
Bloco: /Nº: /Complemento: Campus A.C. Simões, Instituto de
Psicologia Bairro: /CEP/Cidade: Tabuleiro dos Martins, CEP 57072-900,
ATENÇÃO: Para informar ocorrências irregulares ou danosas durante a sua participação no
estudo, dirija-se ao:
Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas
Prédio da Reitoria, 1º Andar , Campus A. C. Simões, Cidade
Universitária Telefone: 3214-1041
Maceió,
Assinatura ou impressão
datiloscópica do (a) voluntário (a) ou
responsável legal e rubricar as demais
folhas
, de
de
Nome e Assinatura do(s) responsável(eis) pelo estudo
(Rubricar as demais páginas)
APÊNDICE C
Formulário para caracterização do perfil socioeconômico e de produção e
reprodução social
N° Entrevista:
Data coleta:_
1) Nome:
2) Data de Nascimento:
3) Idade:
4) Endereço:
5) Cidade de Nascimento:
6) Cidade onde mora hoje:
7) Telefone (fixo e celular):
8) Escolaridade:
9) ( ) estudando ( ) parou de estudar. Por quê parou?
10) Repetiu algum ano? ( ) sim ( ) não. Se sim, qual(is)?
Por quê?
11) Raça/Cor: ( ) branca ( ) parda ( ) negra ( ) indígena ( ) amarela
12) Estado Civil: ( ) solteira ( ) casada ( ) união estável ( ) divorciada ( ) viúva ( )
outros
.
13) Com quem mora?
Nome
I
dade
Pare
ntesco
Profissão/a
tua ou não
Esc
olaridade
Se não morar com o pai do bebê. Solicitar
Nome:
Idade:
Profissão/atua ou não:
Escolaridade:
14) Tempo de relacionamento com o pai do bebê.
15) Você trabalha? ( ) sim ( ) não. Se sim, qual trabalho
Quantas horas?
. Direitos trabalhistas garantidos? ( ) sim ( ) não. Remuneração: R$
_
16) Renda familiar: R$
17) Residência: ( ) própria ( ) invadida ( ) alugada ( ) cedida ( ) outros
18) Acesso aos serviços:
a) luz/energia elétrica: ( ) sim (
) não
b) água: ( ) rede pública ( ) poço ( ) outros
c) destino de fezes e urina: ( ) esgoto ( ) fossa (
) céu aberto
d) coleta de lixo: ( ) sim ( ) não
19) Cômodos:
Quartos:
20) Riscos que as pessoas da casa sentem-se expostas: ( ) desmoronamento ( ) enchente ( ) violência ( )
acidente de trânsito ( ) contaminação [lixo, esgoto, córregos, resíduos químicos] ( ) contato com vetores
[insetos e ratos] (
21) Menarca:
) outros
anos
22) Início da atividade sexual:
anos
23) Número de parceiros no último ano:
24) Usava métodos contraceptivos? ( ) sim ( ) não. Se sim, qual(is)?
. Se não, por quê?
25) Número de gestações:
26) Idade da primeira gestação:
_
anos
27) Quantos anos sua mãe tinha quando ficou grávida pela primeira vez?
anos
28) Esta gravidez foi planejada? ( ) sim ( ) não
29) Iniciou o pré-natal em que trimestre? ( ) 1º trimestre ( ) 2º trimestre ( ) 3º trimestre
30) Comparece às consultas de pré-natal regularmente? ( ) sim ( ) não Quantas consultas até o
momento?
31) Você fuma cigarro? ( ) sim ( ) não. Você já fumou? ( ) sim ( ) não.
32) Você faz uso de álcool? ( ) sim ( ) não. Você já fez? ( ) sim ( ) não.
33) Você faz uso de outras drogas? ( ) sim ( ) não. Você já fez? ( ) sim ( ) não.
34) Você já fez uso de cigarro, álcool ou outras drogas durante a gravidez? ( ) sim ( ) não. O quê?
APÊNDICE D
Roteiro da entrevista semiestruturada:
•
Sua história de vida e projetos de vida antes da gestação;
•
Sua história escolar e de amizade;
•
O processo gravídico e o bebê imaginado e desejado;
•
Relações familiares e relações com o pai do bebê;
•
Após o nascimento do bebê, quais os projetos de vida?
