Kaanda Barros Ribeiro - Posicionamentos de pais na gravidez, parto e pós-parto
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA
KAANDA BARROS RIBEIRO
Posicionamentos de pais na gravidez, parto e pós-parto
Maceió
2017
2
KAANDA BARROS RIBEIRO
Posicionamentos de pais na gravidez, parto e pós-parto
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas, como requisito
parcial para a obtenção do grau de Mestre em
Psicologia, sob orientação da Profª Drª Maria
Auxiliadora Teixeira Ribeiro.
Maceió
2017
3
Folha de Aprovação
AUTORA: KAANDA BARROS RIBEIRO
Posicionamentos de pais na gravidez, parto e pós-parto
Dissertação submetida ao corpo docente do
Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas em 27/ 03/ 2017.
________________________________________________________________
Profª Dra. Maria Auxiliadora Teixeira Ribeiro, UFAL (Orientadora)
Banca Examinadora:
_______________________________________________________________________________
Prof. Dr. Jorge Luiz Cardoso Lyra-da-Fonseca, UFPE (Examinador Externo)
________________________________________________________________________________
Profª Dra. Telma Low Silva Junqueira, UFAL (Examinadora Interna)
4
Dedicado ao meu pai, Irapuam Augusto Ribeiro, por ser um grande exemplo de paternidade
amorosa e presente, aos pais participantes dessa pesquisa e a todos os pais que buscam ser o
melhor que eles podem para seus/suas filhos(as).
5
AGRADECIMENTOS
À Deus que foi quem primeiro despertou em meu coração o desejo por esse mestrado e me
apoiou ao longo de todo o percurso;
À minha família, meu pai Irapuam, minha mãe Tereza e minha irmã Kandeia pelo apoio
sempre constante em todos os momentos;
À minha orientadora, professora Maria Auxiliadora (Xili), por ter sido uma grande mestra na
arte de lecionar, pesquisar, escrever, orientar e se relacionar. Não poderia ter tido uma
companheira melhor nesta jornada, cujos aprendizados e vínculo transpõem a academia;
Ao professor Dr. Jefferson Bernardes por ser um exemplo de quem vive os princípios do
referencial teórico-metodológico com o qual trabalha. Sou grata pela oportunidade de
conviver com um ser humano e profissional tão admirável;
Ao professor Dr. Jorge Lyra pelo acompanhamento da minha trajetória desde a Banca da
Qualificação até hoje, e em especial pelo acolhimento e orientação na mobilidade discente na
UFPE;
À professora Dra. Telma Low pela gentil colaboração desde antes de/e na Banca da
Qualificação até hoje e pelo incentivo constante;
Aos queridos e queridas colegas do mestrado Nilton, Stephane, Adriano, Hélida e em especial
Renata (companheira mais presente), amizades que construí ao longo deste percurso; e
Aos pais que participaram da oficina desta pesquisa pela gentil colaboração, sem os quais esta
dissertação não seria possível.
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RESUMO
Objetiva compreender os posicionamentos de pais/homens durante a gravidez, parto e pósparto de suas companheiras. Para tal, utiliza como ferramenta metodológica uma oficina, que
proporciona o diálogo com oito homens, com idade entre 24 a 43 anos, classe média e
escolaridade de nível superior, que estão vivenciando a experiência da paternidade pela
primeira vez. Apoia-se no referencial teórico-metodológico das práticas discursivas e
produção de sentidos, fundamentado na perspectiva do construcionismo social. Os
posicionamentos foram identificados através dos repertórios linguísticos produzidos pelos
participantes durante a oficina e analisados em diálogo com a literatura sobre paternidade. São
eles: “pai que cuida”, “pai que se vincula”, “pai que educa”, “pai que muda/se adapta”, “pai
participante”, “pai expectador, “pai que não sabe/impotente”, “pai que sabe” e “pai que faz
mediação”. Esses posicionamentos dialogam com as nomeações de “novo pai” presentes na
literatura que correspondem a uma maior participação dos pais nos cuidados com os(as)
filhos(as) e envolvimento emocional na relação com eles(as). A paternidade, para esses pais,
se constrói na relação paterno-filial, pela vinculação afetiva através de ações de cuidado, cuja
experiência implica em mudanças.
Palavras-chave: Paternidade. Masculinidades. Posicionamentos. Gravidez. Parto. Pós-parto.
7
ABSTRACT
It aims to understand the fathers/mens positions during pregnancy, delivery, and postpartum
of their partners/wives. To this end, it uses as a methodological tool a workshop, which
provides the dialogue with eight men, their ages between 24 and 43, middle class and higher
education level, who are living the fatherhood experience for the first time. It is supported on
the theoretical-methodological framework of discursive practices and the production of
meanings, based on the perspective of social constructionism. The positions were identified
through the linguistic repertoires produced by the participants during the workshop and
analyzed in dialogue with the literature about fatherhood. They are: “father who takes care”,
“father that binds”, “father who educate”, “father who changes/adapts himself”, “participating
father”, “watching father”, “father who doesn’t know/helpless”, “father who knows” and
“father who does mediation”. These positions interact with the "new father" appointments in
the literature, which correspond to a greater participation of the fathers in the care of the
children, and emotional involvement in the relationship with them. The fatherhood, for these
parents, is built in the paternal-filial relationship, by the affective bonding through care
actions whose experience implies changes.
Keywords: Fatherhood. Masculinities. Positions. Pregnancy. Delivery. Postpartum.
8
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Objetivos principais das produções sobre paternidade, seus/suas autores(as) e data
de publicação............................................................................................................................ 21
Tabela 2: Perfil Social dos Participantes da Pesquisa...............................................................44
Tabela 3: Repertórios e posicionamentos dos pais sobre paternidade e as nomeações
encontradas na literatura...........................................................................................................47
Tabela 4: Posicionamentos dos pais na gravidez......................................................................54
Tabela 5: Posicionamentos dos pais no parto e nascimento.....................................................62
Tabela 6: Posicionamentos dos pais no pós-parto....................................................................77
Tabela 7: Glossário sobre paternidade/pai incluindo posicionamentos, nomeações e
repertórios produzidos na revisão de literatura realizada em maio de 2016.............................96
9
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ACOLHER
Núcleo de humanização para o parto e nascimento
ADOAL
Associação de Doulas de Alagoas
AME
Grupo de Apoio e Assistência ao Parto Normal
BVS
Biblioteca Virtual em Saúde
CAPES
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de nível Superior
CF 88
Constituição Federal de 1988
CESMAC
Centro de Estudos Superiores de Maceió
CEP
Comitê de Ética em Pesquisa
CRAS
Centro de Referência da Assistência Social
GAMA
Grupo de Apoio a Maternidade Ativa
GEMA
Núcleo de Pesquisa Feminista sobre Gênero e Masculinidades
HIV
Vírus da Imunodeficiência Humana
INESPE
Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa
SciELO
Scientific Eletronic Library Online
SUS
Sistema Único de Saúde
PHPN
Programa de Humanização do Parto e Nascimento
PNAISH
Política Nacional de Atenção Integral a Saúde do Homem
QVU
Qualidade de Vida Começa no Útero
UFAL
Universidade Federal de Alagoas
UFPE
Universidade Federal de Pernambuco
VO
Violência Obstétrica
10
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... 15
1. O QUE SE DIZ SOBRE PATERNIDADE? UM PERCURSO PELA LITERATURA
CIENTÍFICA ....................................................................................................................................... 20
1.1 Revisão da Literatura Científica .................................................................................................. 21
1.2 O “Pai Provedor”......................................................................................................................... 22
1.3 Transição do modelo de “pai provedor” para o “novo pai” ........................................................ 26
1.3.1 Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos ............................................................................. 26
1.3.2 Discussões sobre gênero e paternidade ................................................................................ 29
1.4 O “Novo Pai” .............................................................................................................................. 32
1.5 Paternidades ................................................................................................................................ 35
2. O CAMINHO TEÓRICO-METODOLÓGICO ........................................................................... 37
2.1 O referencial teórico ................................................................................................................... 37
2.1.1 Construcionismo Social e Psicologia ................................................................................... 37
2.1.2 Práticas Discursivas e Produção de Sentidos ........................................................................... 40
2.2 A escolha do método ................................................................................................................... 43
2.3 O contato e a seleção com os participantes ................................................................................. 44
2.3.1 Perfil dos Participantes ......................................................................................................... 45
3.1 Repertórios dos pais sobre paternidade ....................................................................................... 50
3.1.2 Pai que cuida ........................................................................................................................ 52
3.1.3 Pai que educa........................................................................................................................ 54
3.1.4 Pai que muda/ se adapta ....................................................................................................... 55
3.2 Posicionamentos dos pais na Gravidez ....................................................................................... 56
3.2.1 Pai que se vincula ................................................................................................................. 57
3.2.2 Pai que cuida ........................................................................................................................ 59
3.2.3 Pai que muda/ se adapta ....................................................................................................... 60
3.2.4 Pai participante ..................................................................................................................... 61
3.3 Posicionamentos dos pais no Parto/Nascimento ......................................................................... 64
3.3.1 Pai que não sabe/ impotente ................................................................................................. 66
3.3.2 Pai que sabe .......................................................................................................................... 69
3.3.3 Pai expectador ...................................................................................................................... 71
3.3.4 Pai Participante..................................................................................................................... 72
3.3.5 Pai mediador......................................................................................................................... 73
3.3.6 Pai que cuida ........................................................................................................................ 74
11
3.4 Parto Humanizado: uma questão de sorte ou confiança? ........................................................... 75
3.5 Nascimento: “partolândia” dos pais ............................................................................................ 77
3.6 Posicionamentos dos pais no Pós-parto ...................................................................................... 79
3.6.1 Pai que se vincula ................................................................................................................. 80
3.6.3 Pai que muda/ se adapta ....................................................................................................... 83
3.6.4 Pai participante ..................................................................................................................... 85
4. O PERCURSO TRILHADO ATÉ ESTE MOMENTO ............................................................... 87
4.1 Ponto de chegada? Não, apenas considerações sobre o caminho trilhado. ................................. 92
APÊNDICE .......................................................................................................................................... 99
APÊNDICE A – Tabela 1: Glossário sobre paternidade/pai incluindo posicionamentos, nomeações e
repertórios produzidos na revisão de literatura realizada em maio de 2016. .................................. 101
APÊNDICE B - Ficha de Contato Inicial com os Participantes..................................................... 103
APÊNDICE C – Formulário de Caracterização do Perfil Social dos Participantes ........................ 104
APÊNDICE D – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido..................................................... 105
12
APRESENTAÇÃO: PONTO DE PARTIDA
O percurso se faz em uma trajetória que comporta deslocamentos e
paradas. As paradas envolvem lugares e posições, e os deslocamentos,
modos e obstáculos à passagem. Pensar o posicionamento é também
pensar de onde partimos (DIEHL; MARASCHIN; TITTONI, 2006, p.
413).
Tornar-se pesquisadora é um processo que implica aprender a posicionar-se diante de
uma comunidade científica, tanto no que concerne a uma visão epistemológica, ontológica,
ética e política, como na escolha de uma temática. A partir da compreensão da pesquisa como
percurso, detenho-me a refletir sobre como a minha trajetória acadêmica e profissional
delineou o problema de pesquisa dessa dissertação. Inicio me apresentando e assim
delimitando o ponto de partida pessoal que perpassa todo esse trabalho. Sou Kaanda, mulher,
branca, 29 anos, solteira, heterossexual, classe média, psicóloga e aprendiz de pesquisadora.
O meu caminho com esse tema de pesquisa não foi trilhado de maneira solitária.
Estive e estou acompanhada de diversas outras vozes que possibilitaram diálogos e reflexões
na construção desse trabalho. Portanto, inspirada na dissertação de Ana Luiza Cataldo da
Silva (2015) e nas problematizações de Sharon Walker (2015) minha escrita será em primeira
pessoa do singular (eu) para expressar vivências e pensamentos particulares e na primeira
pessoa do plural (nós) quando for fruto de uma construção coletiva com a minha orientadora,
colegas, estudantes, professores e professoras, profissionais, entre outros. Espero com isso
facilitar ao leitor a distinção entre a minha voz e dos outros pesquisadores(as),
colaboradores(as) e participantes.
Durante a graduação em psicologia no Centro de Estudos Superiores de Maceió
(CESMAC) me aproximei do tema gravidez e maternidade, especificamente na disciplina de
Psicologia Social Comunitária, na qual minha equipe tinha que desenvolver um projeto de
intervenção na comunidade e fizemos um grupo de apoio às gestantes. Em 2010, comecei a
pensar sobre o meu trabalho de conclusão de curso e decidi escrever sobre as implicações da
relação afetiva mãe-bebê durante a gravidez.
No último ano da graduação, em 2011, tive a oportunidade de estagiar num Centro de
Referência da Assistência Social (CRAS) na cidade de Maceió, no qual uma das atividades foi
acompanhar o grupo de gestantes. Essa experiência começou a despertar em mim algumas
reflexões sobre o lugar destinado ao homem durante a gravidez, ao perceber que a maioria
dessas mulheres iam para o grupo sozinhas ou acompanhadas de suas mães. Alguns homens
ficavam próximos ao grupo, porém do lado de fora do círculo. Certa vez, um deles perguntou
13
sobre a alteração de humor na gravidez e comentou como isso estava afetando a relação
conjugal. Esse foi o primeiro momento no qual refleti sobre as repercussões que a gestação
provocava no homem e também na relação do casal e que isso deveria ser considerado por
nós, profissionais da saúde.
Quando terminei a graduação, em janeiro de 2012, sabia que queria me aprofundar
nessa área e no primeiro semestre desse ano fiz um curso de educadora perinatal no Grupo de
Apoio a Maternidade Ativa (GAMA) em São Paulo. Esse foi um dos momentos no qual a
importância da participação paterna foi discutida, não só na gravidez, mas também no parto e
puerpério, auxiliando-me a ampliar o olhar em relação à paternidade.
No segundo semestre de 2012, fui morar em Juazeiro do Norte-CE e lá trabalhei como
psicóloga numa clínica chamada Maternar, onde tive a possibilidade de realizar atendimentos
psicológicos a gestantes e puérperas e grupos de educação perinatal abertos aos pais e
outros(as) acompanhantes, como as avós. Essas foram as minhas primeiras oportunidades de
dialogar com esses pais, de incluí-los nas minhas falas e questionamentos e assim ouvi-los.
Essa experiência foi crucial para que passasse a compreender o ciclo gravídico-puerperal
como um evento familiar, no qual a participação do pai era importante para ele, mãe e bebê.
De volta a Maceió, em 2014 retomei o meu trabalho como psicóloga perinatal numa
clínica particular. Durante esse ano tive contato com o Grupo Roda Gestante (Grupo de Apoio
ao Parto e Nascimento Humanizados) e acompanhei algumas reuniões nas quais eu pude
perceber uma participação cada vez maior dos pais, não só na presença física, mas também
nos relatos emocionados daqueles que tiverem a oportunidade de participar do parto e
nascimento dos(as) seus/suas filhos(as).
Realizei, em parceria com profissionais da área, alguns workshops de Preparação para
o Parto para gestantes e acompanhantes, nos quais muitos pais participaram. Chegavam
resistentes pela manhã, justificando que estavam ali “porque ela me obrigou”, “porque fui
arrastado”, mas iam se soltando durante o dia, aprendendo técnicas de auxílio à parturiente,
sendo incentivados a recepcionar o(a) filho(a) no nascimento e terminavam o dia, agradecidos
pela oportunidade de aprender mais sobre esse processo.
Ainda em 2014, decidi participar da seleção do mestrado em psicologia da
Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e escolhi a linha saúde, clínica e práticas
psicológicas, por estar mais próxima da minha atuação profissional e considerar mais
adequada para o tema do pré-projeto que foi “Psicologia Perinatal no Brasil” cuja pretensão
(nada realista, descobri depois) era identificar e entrevistar as psicólogas que atuavam no ciclo
gravídico-puerperal nas principais capitais do país.
14
Ingressei no mestrado em 2015, com esse pré-projeto, contudo comecei a perceber que
o tema da paternidade estava me rondando aonde quer que fosse. No I Seminário Alagoano
sobre Parto e Nascimento e no Fórum Perinatal que participei como ouvinte e palestrante,
ambos em março, fui questionada quanto à participação do pai, especialmente no parto e
nascimento. Estive também, desde 2014, como professora da disciplina Psicologia do Gestar e
Maternar, na pós-graduação de enfermagem obstétrica do Instituto Nacional de Ensino e
Pesquisa (INESPE), em algumas cidades do interior de Pernambuco e Paraíba. Durante essas
aulas, tive a oportunidade de dialogar sobre a participação paterna nos serviços de saúde,
desse “não lugar”, sócio historicamente construído para os pais durante a gravidez, parto e
pós-parto (LYRA, 1997). Várias questões e reflexões começaram a emergir a partir dessas
experiências e também das oficinas de cuidados com o bebê, que me surpreenderam com a
quantidade de pais presentes.
Num encontro do grupo de pesquisa PROSA do mestrado em psicologia na UFAL,
comentei sobre as resistências dos profissionais e das instituições de saúde quanto à
participação do pai no parto e nascimento e o professor Dr. Jefferson Bernardes falou que essa
questão daria uma pesquisa e que ainda daria tempo de mudar o meu tema, se quisesse
realizar essa pesquisa no mestrado. Esse foi o momento crucial no qual tudo se encaixou,
percebi o quanto eu já estava inserida nesse “campo-tema”.
Esse conceito de campo-tema1, discutido por Peter Spink (2003) - que propõe a noção
de campo não relativo a um posicionamento específico, mas sim à situação atual de um
assunto - proporcionou-me refletir sobre minha inserção na temática da paternidade no ciclo
gravídico-puerperal. A partir disso, compreendi o quanto já estava imersa em diferentes
possibilidades de diálogo e reflexão sobre o tema, incluindo: lugares, experiências,
documentos, notícias, conversas formais e informais.
Diante do meu envolvimento no campo-tema da paternidade, conversei com a minha
orientadora acerca da possibilidade de mudar o projeto e ela me apoiou nessa jornada cujo
maior fruto é esta dissertação.
Peter Spink (2003) provoca reflexões quanto aos sentidos de “ir a campo” nas pesquisas em psicologia social,
até então associados à ideia de ir a um lugar específico fora do laboratório, o qual seria o habitat natural dos
sujeitos da pesquisa. Ele propõe outro termo “campo-tema”, no qual a noção de campo refere-se a todas as
possibilidades de discussão e reflexão sobre o tema, não apenas na vida acadêmica, mas, sobretudo, no cotidiano
do(a) pesquisador(a).
1
15
INTRODUÇÃO
Ao propor discutir sobre paternidade, sabíamos que não estávamos “inventando a roda,
mas trilhando por caminhos já abertos em outros momentos, nos planos teóricos e políticos,
no Brasil e internacionalmente”, como afirmam Margareth Arilha, Benedito Medrado e
Sandra U. Ridenti (2004, p. 15) referindo-se a temática homens e masculinidades, considerada
pano de fundo para a produção teórica sobre o campo-tema da paternidade.
O interesse pelos estudos acerca da masculinidade tem sua origem reconhecida na
década de 60, a partir dos movimentos feministas, e posteriormente, gay e lésbico que
promoveram reflexões críticas sobre as desigualdades sociais pautadas na diferenciação
sexual e favoreceram discussões sobre identidades sexuais. Desde então, estudos sobre o tema
se multiplicaram, especialmente no nível internacional.
As teorias feministas questionaram a noção de sujeito universal do positivismo e
possibilitaram que uma nova história da ciência fosse contada, a partir do interesse em
visibilizar também o protagonismo social, político e científico das mulheres. As décadas de 70
e 80 foram marcadas por uma grande produção feminista, cuja ênfase estava nos trabalhos
sobre a mulher e a feminilidade, o que obscureceu a produção teórica sobre homens e
masculinidades (ARILHA; MEDRADO; RIDENTI, 1998).
O ponto de partida do movimento feminista contemporâneo no Brasil foi situado,
convencionalmente, na segunda metade dos anos 70 e, seguiu a tendência internacional de ser
um movimento de mulheres e para as mulheres, dos quais os homens e/ou a masculinidade
eram excluídos, se excluíam ou se situavam apenas como contraponto. Um marco importante
nessa trajetória foi uma nova perspectiva conceitual dentro do feminismo internacional,
assumida também no Brasil: a adoção de uma dimensão relacional de gênero (LYRA, 1997).
Tal perspectiva se configurou como um giro dentro do movimento feminista, ao deixar
de considerar gênero como sinônimo de mulher para entender o conceito como categoria
analítica, que nos convida a pensar nas relações de poder desigual que perpassam não somente
as relações entre homens e mulheres, mas também entre mulheres-mulheres e entre homenshomens.
A partir dessa virada no feminismo que abriu espaço para a entrada do homem nas
discussões, especialmente no que se referia à saúde e direitos sexuais e reprodutivos, emerge
o tema da paternidade, nas décadas de 80 e 90. A Conferência Internacional de População e
Desenvolvimento realizada no Cairo, em 1994, é considerada um marco na inserção dos
homens nas políticas públicas nesse campo, mesmo que tenha sido através do estereótipo de
16
que eles são irresponsáveis em relação aos direitos sexuais e reprodutivos, devido a dicotomia
mulher-reprodução e homem-produção, devendo ser capturados por políticas e programas de
saúde e educados para se tornarem responsáveis (ARILHA, 1999).
A produção acadêmica ocidental sobre os estudos sobre gênero seguiu essa mesma
linha de argumentação por muitas décadas. Tais produções se consolidaram através de
trabalhos escritos prioritariamente por pesquisadoras que discutiam os homens e o masculino
como faces malditas (MEDRADO, LYRA, 2014).
Nessa dissertação intitulada “Posicionamentos de pais na gravidez, parto e pós-parto”
nosso interesse é contribuir com a discussão sobre o campo-tema da paternidade na
contemporaneidade e no Brasil. Por tal razão, apontamos brevemente o percurso histórico
dessa temática, citando alguns dos marcos principais dessa trajetória.
Um deles foi a fundação do Instituto PAPAI em 1997, com a proposta de refletir a
invisibilidade da experiência masculina no contexto da vida reprodutiva e no cuidado com as
crianças, uma iniciativa pioneira na América Latina. Desde então, tem se constituído como
uma referência nacional e internacional na promoção e realização de eventos científicos,
ações sociais, programas, campanhas e projetos de pesquisa sobre homens, paternidade e
masculinidades, através de parcerias e redes, a partir de uma perspectiva feminista de gênero
(MEDRADO; LYRA, 2015).
Outro marco que pode ser compreendido como um incidente crítico na produção
científica sobre a paternidade em nosso país foi a criação do Programa de Humanização no
Pré-natal e Nascimento (PHPN)2, em 2000, que entre outras práticas/orientações incentiva a
presença do pai no parto/nascimento/pós-parto. “[...]. Os incidentes críticos, no cotidiano da
pesquisa, performam acontecimentos produzindo zonas de visibilidade e decibilidade”
(GALINDO; RODRIGUES, p. 182), ou seja, são eventos ou documentos - não
necessariamente considerados de grande relevância histórica – que produzem efeito no
campo-tema.
Dentro dessa perspectiva, a lei 11.108 de 7 de abril de 2005 também pode ser
considerada um incidente crítico. Essa lei garante às parturientes o direito à presença de 1
(um/uma) acompanhante - durante todo o período do trabalho de parto, parto e pós-parto
imediato - no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), que deve ser indicado pela própria
parturiente (STORTI, 2004). Mais recentemente a criação da Política Nacional de Atenção
2
O PHPN foi instituído pelo Ministério da Saúde através da Portaria/GM nº 569, de 1/6/2000, subsidiado nas
análises das necessidades de atenção específica à gestante, ao recém-nascido e à mãe no período pós-parto. Seu
objetivo primordial é assegurar a melhoria do acesso, da cobertura e da qualidade do acompanhamento pré-natal,
da assistência ao parto e puerpério às gestantes e ao recém-nascido, na perspectiva dos direitos de cidadania.
17
Integral à Saúde do Homem (PNAISH)3, em 2009, também tem promovido avanços
importantes na discussão e efetivação de políticas públicas para os homens/pais.
Os movimentos sociais e políticos (com destaque ao movimento feminista e ao
movimento da humanização do parto e nascimento), as mudanças nos âmbitos das políticas
públicas de saúde reprodutiva, algumas garantias de direitos no âmbito legal, bem como o
surgimento de perspectivas feministas de gênero, configuraram o contexto propício para o
questionamento dos lugares histórico e culturalmente determinados aos pais/homens no
âmbito da saúde e direitos sexuais e reprodutivos.
Autoras feministas da década de 1980, como Joan Scott, criticaram uma leitura binária
das relações de poder entre os gêneros, argumentando que “[...] o poder é relacional e não
pode ser unicamente identificado na figura de um dominador (homem)” (MEDRADO,
LYRA, 2014, p.3). Essa crítica é o primeiro ponto de partida para uma perspectiva feminista
de gênero, o segundo é o reconhecimento da masculinidade como plural (MEDRADO,
LYRA, 2014).
Assim, os homens, outrora compreendidos a partir de quatro lugares simbólicos
(LYRA, 2008): irresponsável (na contracepção), contaminador/transmissor (DST/AIDS),
marido/companheiro agressor (violência contra a mulher) e pai desertor (que não assumia a
paternidade), passam a ter outros posicionamentos configurados nas práticas discursivas
produzidas a partir dos diferentes campos citados anteriormente. De acordo com Mary Jane
Spink, as práticas discursivas podem ser compreendidas como “[...]– as maneiras pelas quais
as pessoas, por meio da linguagem, produzem sentidos e posicionam-se em relações sociais
cotidianas” (2010, p. 26).
O conceito de posicionamento nos auxilia a discutir sobre paternidades numa
perspectiva dinâmica, interativa e dialógica, como uma alternativa ao uso dos termos “lugar”
e “papel” que denotam fixidez. Segundo Bronwin Davies e Rom Harré (1990 apud SPINK
2010, p. 36) posicionamentos são “[...] posições de pessoas assumidas (conscientemente ou
não) no processo de interação como produtos da interação. São todas as maneiras em que as
pessoas, por meio de suas práticas discursivas, produzem realidades sociais e psicológicas”.
Os posicionamentos são, portanto, frutos da interação social ao mesmo tempo em que
produzem realidades. Assim, podemos identificar uma transição importante no que concerne
3
A PNAISH foi instituída pela Portaria GM/MS nº 1.944, de 27 de agosto de 2009 e tem como objetivo ampliar
e facilitar o acesso com qualidade da população masculina na faixa etária de 20 a 59 anos, às ações e aos
serviços de assistência integral à saúde da Rede SUS, mediante a atuação nos aspectos socioculturais, sob a
perspectiva relacional de gênero.
18
aos posicionamentos dos pais na gravidez, parto/nascimento e pós-parto, o que incide
diretamente no campo nas masculinidades.
Raewyn (na época Robert) Connell em seu livro Maculinities (1995) usou
propositalmente o termo no plural para discutir sobre os jogos de poder 4que organizam
socialmente as masculinidades a partir de um conceito central, a masculinidade hegemônica,
tida como branca, heterossexual e dominante (MEDRADO, LYRA, 2014).
[...] é um modelo cultural ideal, não sendo, portanto, atingível, por praticamente
nenhum homem. Contudo, como padrão, ele exerce um efeito controlador, através
da incorporação de ritualização (no sentido antropológico) das práticas da
sociabilidade cotidiana e de uma discursividade que exclui todo um campo emotivo
considerado feminino e subordina outras variedades (MEDRADO, LYRA, 2002, p.
64).
Como modelo cultural ideal produz sentidos e práticas normativas sobre os homens,
engendrando também uma paternidade hegemônica, denominada na literatura como o “pai
provedor”5. Descrito como aquele pai que não participa do ciclo gravídico-puerperal, é pouco
envolvido emocionalmente nos cuidados dos(as) filhos(as), tem como principal “função” o
provimento financeiro e exerce a autoridade do lar (SCHRAIBER; GOMES; COUTO, 2005).
Contudo, grande parte das pesquisas aponta para uma redefinição do “papel do pai”,
afirmando que antes esse estava limitado à “função social” de provedor e agora apresenta
novos sentidos caracterizados através de termos como: pai nutridor, paternidade
participativa, paternidade cuidadora, novo pai, referindo-se ao homem que demonstra maior
interesse e participação nos cuidados com os(as) filhos(as) ainda bebês (CHRISTINA;
BUCHER-MALUSCHKE, 2008).
A partir desse panorama, surgiram algumas reflexões iniciais: Quais os posicionamentos
de pais de Maceió-AL durante a gravidez, parto e pós-parto de suas companheiras/esposas?
Quais os sentidos produzidos sobre a vivência da paternidade que mais se destacam para esses
pais? Qual é a relação entre paternidades e masculinidades na vivência deles?
Temos como objetivo principal compreender os posicionamentos de pais/homens na
gravidez, parto e pós-parto de suas companheiras/esposas a partir de diálogos com aqueles
que passaram recentemente por essa experiência pela primeira vez. A relevância social desta
pesquisa consiste em discutir os diversos posicionamentos vivenciados por esses pais/homens
durante o ciclo gravídico-puerperal, a fim de construir conhecimentos que promovam abertura
4
Foucault faz uma distinção entre relações de poder e estados de dominação. Um estado de dominação é o
total bloqueio de um campo de relações de poder, tornando tais relações imóveis e fixas. Quando fala de poder
Foucault usa propositadamente o termo relações para marcar o potencial de mobilidade desse (MEDRADO,
LYRA, 2014).
5
Utilizo aspas em alguns termos para destacar que eles são repertórios linguísticos retirados dos textos
referenciados e que produzem sentidos sobre os quais produzimos críticas.
19
à diversidade de possibilidades de ser pai, favorecendo a discussão sobre o exercício de
paternidades construtoras de vínculos afetivos e de relações conjugais/familiares mais
equitativas.
Para tal, partimos do referencial teórico-metodológico das Práticas Discursivas e
Produção de Sentidos (SPINK, 1999), fundamentado na perspectiva do construcionismo
social (GERGEN,1973), dialogando com uma matriz feminista de gênero (MEDRADO;
LYRA, 2008).
Esta dissertação é apresentada em quatro capítulos. O primeiro é uma revisão de
literatura sobre o tema paternidade, que nomeamos dialógica, pautadas em Montuori (2005) e
Walker (2015), tecida a partir das leituras das publicações acadêmicas encontradas nos bancos
de dados e costurada com discussões teóricas e conceituais.
No segundo capítulo discutimos sobre o caminho percorrido na construção dessa
dissertação, explicitando o referencial teórico-metodológico (construcionismo social e
Práticas Discursivas e Produção de Sentidos) e apresentando o conceito de posicionamento
(DAVIES; HARRÉ, 1990).
O terceiro capítulo contém a discussão sobre os posicionamentos dos pais na gravidez,
parto/nascimento e pós-parto, articulando os enunciados produzidos na oficina com os
repertórios presentes na literatura e as discussões teóricas que nos fundamentam.
No quarto capítulo realizamos uma análise do percurso teórico e metodológico
trilhado durante o mestrado, discutindo sobre os resultados mais relevantes da pesquisa.
Finalizamos, tecendo algumas considerações finais sobre a jornada, num exercício de
reflexividade.
20
1. O QUE SE DIZ SOBRE PATERNIDADE? UM PERCURSO PELA LITERATURA
CIENTÍFICA
Este capítulo é construído a partir de três eixos: a revisão de literatura dialógica,
adotando a base teórica e metodológica do construcionismo social, dialogando com a
perspectiva feminista de gênero.
Apresentaremos uma revisão de literatura sobre paternidade, que nomeamos dialógica,
pautadas em Alfonso Montuori (2005) e Sharon Walker (2015), tecida a partir das leituras das
publicações acadêmicas e costurada com discussões teóricas e conceituais. O autor e a autora
problematizam a tendência meramente reprodutiva nas revisões de literatura.
O primeiro considera a revisão de literatura como uma investigação criativa, fruto do
processo de inserção e participação do revisor dentro de uma comunidade científica, a partir
do diálogo com aqueles que a compõe, afirmando que ela "[...] emerge do diálogo entre o
revisor e o campo” (MONTURI, 2005, p.375). Já Walker (2015) aprofunda essa concepção
ao discutir que cada texto fala com outros, como numa interanimação dialógica,
compreendida como a dinâmica da interação que possibilita que um diálogo ocorra
(BAKTHIN, 2011).
Podemos compreender a revisão de literatura dialógica como uma estratégia
metodológica de análise do que se fala sobre determinado tema dentro de uma comunidade
científica. Realizamos essa análise, a partir da identificação dos e da discussão sobre os
repertórios linguísticos – “as unidades de construção das práticas discursivas, o conjunto de
termos, lugares comuns, figuras de linguagem” (SPINK; MEDRADO, 2013, p. 27) - acerca
da paternidade presentes na produção acadêmica.
O diálogo com a perspectiva feminista de gênero se faz necessário para auxiliar na
análise dos repertórios e problematizar os efeitos das nomeações encontradas na revisão, que
em sua maioria promovem fixidez na discussão sobre paternidade. O olhar de gênero amplia a
compreensão do tema, promovendo pluralidade ao conceito de paternidade. Elegemos o texto
“Por uma matriz feminista de gênero” (MEDRADO; LYRA, 2002) como referencial para esse
capítulo porque discute de maneira didática quatro eixos fundamentais na definição de gênero.
21
1.1 Revisão da Literatura Científica
O tema da paternidade no ciclo gravídico-puerperal foi pesquisado através de um
mapeamento da literatura científica, acessada em base de dados, em outubro de 2015 e maio
de 2016. As bases de dados consultadas foram: SCIELO (Scientific Eletronic Library Online),
BVS (Biblioteca Virtual em Saúde) e CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de nível Superior) e acessadas com os descritores: Paternidade; Paternidade AND Gravidez;
Paternidade AND Parto; Paternidade AND Nascimento; e Paternidade AND Pós-Parto.
Os critérios utilizados para o refinamento do material acessado foram: I -Temático:
produções que abordassem o tema de interesse; II- Linguístico: estudos publicados em língua
portuguesa porque nosso interesse é compreender como a temática tem sido discutida no
Brasil; III – Cronológico de publicação: não delimitamos uma data mínima com o propósito
de visualizar como esse tema tem sido discutido ao longo do tempo. Essa busca resultou num
total de sessenta artigos, dissertações e teses.
A partir da leitura dos resumos e tomando como referência os descritores utilizados na
busca, classificamos as produções acadêmicas em eixos temáticos: paternidade, paternidade
na gravidez, paternidade no parto e nascimento, paternidade no pós-parto e paternidade no
ciclo gravídico-puerperal. Neste capítulo, apresentaremos o primeiro eixo (paternidade), a
literatura classificada nos outros eixos contribuiu para o diálogo entre a produção científica e
as falas dos participantes da pesquisa, portanto será apresentada nos capítulos posteriores.
No eixo paternidade as produções científicas foram agrupadas por objetivos comuns
na tabela abaixo.
Tabela 1: Objetivos principais das produções sobre paternidade, seus/suas autores(as) e data de
publicação.
Objetivos principais das produções sobre paternidade, seus/suas autores(as) e data
de publicação
Objetivos principais
Discutir sobre os significados ou sentidos
atribuídos à paternidade
Autores(as)/ Data
JÚNIOR; SIQUEIRA; REZENDE, 2011;
FREITAS et al, 2009 e DA SILVA, 2015
Compreender os sentimentos dos homens em
relação à paternidade
FREITAS; COELHO E SILVA, 2007 e
GABRIEL; DIAS, 2011
Promover reflexões a respeito da paternidade na CÚNICO; ARPINI, 2013 e STAUDT, 2007
contemporaneidade
Discutir paternidade e sua relação com
masculinidade, gênero e identidade
COSTA, 2002; RIBEIRO; GOMES;
MORREIRA, 2015 e HENNIGEN;
GUARESCHI, 2002
22
Revisão de literatura sobre o tema
OLIVEIRA; SILVA, 2011 e VIEIRA et al,
2014
Problematizam a inserção do homem no campo
da saúde reprodutiva e saúde do homem
SIQUEIRA, 2000 e SCHRAIBER; GOMES;
COUTO, 2005
No nosso posicionamento epistemológico, pautado no construcionismo social, para
compreender um tema, é necessário conhecer os discursos sobre ele e refletir sobre as práticas
discursivas que circulam ao seu redor.
Usaremos o repertório "práticas discursivas" para todas as formas através das quais
as pessoas ativamente produzem realidades sociais e psicológicas. Nesse contexto,
um discurso é entendido como o uso institucionalizado da linguagem e de sistemas
de sinais do tipo linguístico. A institucionalização pode ocorrer ao nível disciplinar,
político, cultural e de pequenos grupos. Pode também haver discursos que são
desenvolvidos ao redor de um tópico específico, tal como gênero e classe. Os
discursos podem competir entre si ou podem criar versões da realidade distintas e
incompatíveis. Conhecer alguma coisa é conhecer os repertórios de um ou mais
discursos (DAVIES; HARRÉ, 1990, p. 2-3).
Tendo esse conceito como base, e considerando o caráter performático da linguagem,
nossa revisão de literatura foi guiada pelos seguintes questionamentos: O que se diz sobre
paternidade? Quem fala? E como se fala? A performatividade pode ser compreendida como
“a propriedade que determinados enunciados linguísticos têm de afetar a construção de
realidades” (IBÁÑ EZ, 2001, p. 47). Essa propriedade é considerada generalizável à
linguagem como um todo, quando fundamentada na teoria dos Atos de Fala de John Austin
(1955), segundo o qual dizer, é também e sempre, fazer, ou seja, a maneira como se fala sobre
determinado tema, constrói esse tema.
Identificamos nos artigos, a predominância de uma estrutura padrão na discussão sobre
paternidade que focaliza a transição entre dois modelos: o primeiro deles está atrelado ao
repertório “pai–provedor” ou “provedor” (FREITAS et al, 2009; OLIVEIRA; SILVA, 2011;
GABRIEL; DIAS, 2011; VIERA et al, 2014) e o outro é caracterizado pelo repertório “novo
pai” (TARNOWSKI et al, 2005; CHRISTINA; BUCHER-MALUSCHKE, 2008; MARTINS,
2009; JÚNIOR; SIQUEIRA; REZENDE, 2011). Neste capítulo, seguimos a mesma lógica da
estrutura encontrada nas produções científicas para estabelecer os subtítulos, facilitando o
diálogo com a literatura.
1.2 O “Pai Provedor”
23
Os artigos vão fundamentar a discussão sobre o pai provedor focalizando a concepção
de família ao longo do tempo, especialmente no que concerne à concepção de criança, a
definição de “papéis” para homens e mulheres, e a relações entre pais e filhos(as).
Compartilhamos com Cúnico e Arpin (2013) a compreensão da família como um
sistema complexo que apresenta um contínuo processo de modificação em sua composição e
dinâmica. Evitamos o repertório “família” e preferimos “famílias” para apontar a diversidade
de modelos que coexistiram e coexistem. Assim, a discussão que é feita a seguir retrata o
modelo familiar predominante em determinados momentos históricos e suas implicações nos
conceitos de paternidade.
Um aspecto discutido pelos(as) autores(as) é o lugar ocupado pela criança nessas
configurações familiares. Segundo Cúnico e Arpin (2013) nas famílias medievais as crianças
permaneciam em suas casas somente até a idade de sete ou nove anos, quando eram levadas
para a casa de outras pessoas com o objetivo de aprenderem os serviços domésticos. Os(as)
filho(as) eram tratados como adultos(as) em miniatura. A partir do século XV, e de maneira
crescente nos séculos subsequentes, as famílias, em especial da burguesia rural ou urbana,
passam a concentrar-se em torno da criança, criando maior proximidade emocional na relação
entre pais e filhos(as). Isso ocorreu principalmente devido a ascensão da “família moderna”,
também chamada de “nuclear” ou “conjugal burguesa”, nas quais predominavam os valores
emergentes da burguesia do século XVIII tais como: o amor entre os cônjuges e a sua união
em benefício do bem-estar dos(as) filhos(as), maior interesse com a educação da prole e o
fortalecimento de relações hierárquicas entre homens e mulheres oriundas do sistema
patriarcal.
Essa aproximação emocional, contudo, ocorreu na relação materna-filial, mas não na
relação paterna-filial, que é explicada por Beltrame e Bottoli (2010), como decorrente de uma
rígida e clara divisão sexual do trabalho, que servia para sustentar a ordem familiar e
econômica vigente na era moderna. Cabia aos homens o papel de provedor financeiro e
protetor da família, sendo a figura de autoridade do lar. Foi nesse contexto que emergiu a
concepção do pai provedor e da mãe cuidadora. As mulheres tinham a função de exercer a
maternidade e as funções de cuidados da casa, dos(as) filhos(as) e do marido, dedicando-se às
atividades do espaço doméstico e privado.
Essa di-visão pode ser compreendida através do conceito de gênero, pois não apenas a
famílias, mas todas as demais instituições propagaram/propagam as diferenças sexuais como
fundamento dessa organização social.
24
Assim, o suposto destino biológico da mulher à maternidade tem sido construído por
meio de símbolos, de prescrições religiosas, jurídicas, educacionais, das
organizações sociais e das identidades subjetivas. Em contrapartida, o masculino, ao
ser associado ‘à produção e administração da riqueza’, é afastado do ‘reino’ da
reprodução a não ser pelo sêmen fecundante (MEDRADO; LYRA, 2008, p. 823).
A consolidação deste modelo familiar produziu/produz múltiplas implicações na vida de
homens e mulheres, especialmente no que concerne à divisão de tarefas no ambiente familiar
e no estabelecimento de lugares fixos e limitantes para pais e mães. Os homens foram
vinculados à esfera da produção/vida pública, enquanto que as mulheres foram fixadas na
esfera doméstica/vida privada. A função de provedor, entretanto, passou a enfraquecer diante
das dificuldades dos homens arcarem sozinhos com as despesas de casa e de
conseguirem\manter seus empregos. Paralelamente, a imagem de esposa com a qual sempre
estivera acostumado a lidar começou a se desfazer. As mulheres estavam se reinventando,
levando os homens a lidar com as novas exigências de: estar mais presente em casa, passar
mais tempo com os(as) filhos(as), demonstrar mais afeto para com a família, dividir as tarefas
domésticas e os cuidados com as crianças, entre outros.
É neste contexto que surge a família dita contemporânea ou pós-moderna, que
pressupõe a união, ao longo de uma duração relativa, de dois sujeitos em busca de relações
íntimas ou realização sexual (ROUDINESCO, 2003 apud BELTRAME; BOTTOLI, 2010;
PEREIRA, 2011). Relação esta que pode ser rompida quando o companheirismo e/ou os
objetivos em comum já não existam mais. O casamento perde, pois, o seu caráter indissolúvel.
Consequentemente, o número de divórcios, separações e recomposições conjugais
aumentaram consideravelmente, o que trouxe à tona uma multiplicidade de arranjos
familiares.
As famílias contemporâneas emergem nesse contexto de “desnaturalização das
prescrições e práticas sociais atribuídas a (e incorporadas e naturalizadas por) homens e
mulheres”, citada por Medrado e Lyra (2008, p. 815) como o primeiro aspecto do marco
conceitual de uma Matriz Feminista de Gênero. O que dialoga com uma postura reflexiva, que
produz uma abertura à revisão crítica das práticas institucionais (SPINK, 2010). Essa
tendência
à
problematização
nos
âmbitos
científicos,
institucionais
e
sociais
possibilitou/possibilita a desnaturalização dos lugares tradicionalmente ocupados por pais,
mães, homens e mulheres.
Entretanto, a função de “provedor” está muito presente na compreensão e vivência da
paternidade, como podemos identificar na pesquisa de Freitas et al (2009) na qual a
paternidade foi descrita como aquisição de um novo encargo social. Nessa pesquisa, o
25
repertório dito com mais frequência pelos pais foi “responsabilidade”, tanto no sentido de
provisão financeira e de resguardar a segurança familiar, como no sentido de educar,
transmitir valores e estabelecer limites, fortalecendo a noção de homem/pai como figura de
autoridade do lar.
O sentido é uma construção social, um empreendimento coletivo, mais precisamente
interativo, por meio do qual as pessoas – na dinâmica das relações sociais
historicamente datadas e culturalmente localizadas – constroem os termos a partir
dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta (SPINK;
MEDRADO, 2013, p. 22).
Na pesquisa Freitas et al (2009) identificamos que há uma manutenção do repertório
“provedor”, contudo ele adquire novos sentidos, pois os pais entrevistados demonstraram
preocupação em acompanhar o desenvolvimento de seus/suas filhos(as) de maneira mais
próxima, participativa e afetuosa, abrindo espaço para o posicionamento do “pai provedor”
também enquanto provedor emocional.
Costa (2002) contribui para essa discussão, identificando em sua pesquisa, que “fazer
filhos” comprova o atributo físico da paternidade, porém não é suficiente para ser pai, é
necessário conseguir “sustentá-los” e “educá-los”. A capacidade de sustentar/prover
financeiramente foi considerada enquanto uma responsabilidade masculina associada ao
atributo moral da paternidade.
Mesmo que os entrevistados reivindiquem dimensões femininas na masculinidade,
como cuidar de crianças ou executar determinadas tarefas domésticas, o trabalho
remunerado e o sustento dos filhos continuam sendo tomados como prerrogativas
normativas masculinas. Assim, a masculinidade pode comportar dimensões da
feminilidade na paternidade, como cuidar dos filhos; mas não comporta o pai não ser
provedor. Com base nos meus dados e naqueles trazidos pela bibliografia, talvez
essa possa ser indicada como uma característica hegemônica da masculinidade
(COSTA, 2002, p. 345).
Tais pesquisas apontam para um momento de transição, no qual a concepção de pai
provedor está presente, porém outros posicionamentos são vivenciados pelos homens/pais,
incluindo ações antes associados somente às mulheres/mães. Contudo, essas pesquisas ainda
mantem uma visão bipolar de gênero, reforçando a dicotomia.
26
1.3 Transição do modelo de “pai provedor” para o “novo pai”
Identificamos que em geral os estudos relacionados ao tema paternidade se
desenvolvem a partir de modelos normativos. Neste subtópico, discutiremos os fatores, que
nas produções acadêmicas acessadas, são apresentados como facilitadores do “momento de
transição entre antigos e novos papéis”, conforme expressão utilizada por Beltrame e Bottoli
(2010). As contribuições dos(as) autores(as) circulam em torno de dois eixos principais na
discussão sobre a “evolução” sociocultural e histórica dos conceitos e dos “modelos” de
paternidade.
O primeiro eixo foi nomeado como “saúde e direitos sexuais e reprodutivos” porque
convergem reflexões que problematizam a inserção do homem\pai no campo da saúde
reprodutiva (SIQUEIRA, 2000) e na saúde do homem (SCHRAIBER; GOMES; COUTO,
2005). E nomeamos o segundo eixo de “discussões sobre gênero e paternidades” porque
convergem discussões sobre paternidade e sua relação com masculinidades, gênero e
identidade (COSTA, 2002; HENNIGEN; GUARESCHI, 2002; RIBEIRO, GOMES,
MORREIRA, 2015).
1.3.1 Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos
Desde os primórdios da humanidade que a sociedade se organiza em torno da divisão
sexual de trabalho, gerando um conjunto de atribuições tradicionalmente associados ao
feminino e masculino que são revistas ao longo da história (MARTINS, 2009). A partir da
década de 1960, os movimentos feministas promoveram propostas de mudanças nas
condições de vida de homens e mulheres em prol de uma sociedade mais justa, provocando
grande impacto sobre a conformação das instituições (MEDRADO; LYRA, 2008). A
perspectiva dos direitos reprodutivos surge a partir desses movimentos que buscavam
visibilizar e discutir as desigualdades presentes nas relações entre os dois sexos referente à
participação nos processos sexuais e reprodutivos (SIQUEIRA, 2000).
Nesse contexto, alguns fatos podem ser compreendidos como incidentes críticos para a
produção de pesquisas voltadas à temática da paternidade na área da saúde e direitos sexuais e
reprodutivos. O Brasil vivenciou entre a década de 80 a 90 uma epidemia de HIV (Vírus da
Imunodeficiência Humana), cuja manifestação da doença por ele gerada (AIDs) era
aproximadamente cinco vezes maior no sexo masculino do que no feminino. Atrelado a isso,
o teste de DNA para comprovar a paternidade foi criado em 1985 e chegou ao Brasil em 1990
27
(Laboratório GENE). A conferência sobre População e Desenvolvimento realizada no Cairo,
em 1994, foi um marco nesse movimento, ao contribuir para a definição da saúde reprodutiva
relacionada ao campo de direitos a uma vida sexual satisfatória e as decisões sobre
reprodução a partir do acesso a informações (SIQUEIRA, 2000).
O Programa de Ação da Conferência de Cairo foi analisado por Margareth Martha
Arilha Silva (1999) na sua dissertação de mestrado, na qual comparou os sentidos
relacionados ao repertório “responsabilidade na reprodução” presente no documento com as
falas de homens e mulheres residentes em São Paulo. Ela aponta que nos dois casos a
“responsabilidade na reprodução” produz sentidos de encargo ou dever. Contudo, enfatiza o
caráter normativo da linguagem do documento, que engendra o estereótipo de que homens em
geral são irresponsáveis, devendo ser capturados por políticas e programas de saúde e
educados para se tornarem responsáveis. Enquanto no documento, o sentido predominante
associado ao repertório “responsabilidade” era de que os homens precisam ser educados para
prevenir a gravidez; na fala dos participantes da pesquisa a gestação e paternidade tornava-os
mais responsáveis.
Uma das entrevistadas pelo professor Jorge Lyra (2007) para a sua tese de doutorado como uma das atrizes do movimento de humanização do parto - discute sobre a entrada dos
homens no campo da saúde e direitos sexuais e reprodutivos, afirmando que isso se deu por
“vias muito tortas”. Ela aponta quatro lugares simbólicos construídos para esses homens nos
documentos e políticas/programas desse campo: irresponsável, contaminador e agressor. O
homem é posicionado enquanto irresponsável através de discursos que o afirmam como
aquele que não colabora com a contracepção porque não quer usar os métodos de prevenção
ou aquele que não se responsabiliza pela sua reprodução, abandonando a mulher quando ela
engravida, o pai desertor. O homem também é posicionado enquanto aquele que transmite as
DSTs/AIDs, o transmissor, discurso muito presente nos programas de prevenção do HIV. E
por último, ele é posicionado como marido/companheiro agressor, aquele que
violenta/subjuga as mulheres.
[...]. Mas aí ele (o homem) aparece pelo meio. Ele não é na realidade política
nenhuma ainda. Então ele aparece como alguém que deve se comportar bem para
que não sobre para as mulheres. Ou elas engravidam sem querer, ou elas sejam
infectadas. Ou elas sejam agredidas e assim por diante. Assumir essa
responsabilidade que aparece muito na esteira do surgimento da produção de
evidências sobre a vulnerabilidade de gênero das mulheres [...]. (LYRA, 2007, p.2)
Os homens surgem no contexto dos documentos e programas no âmbito da saúde e
direitos sexuais e reprodutivos não enquanto sujeitos de direitos, mas como sujeitos a quem
deveriam exigir que assumissem a responsabilidade pelas consequências da sua própria
28
sexualidade e reprodução, enfatizando as ações de cuidado à mulher. Posicionando as
mulheres como vulneráveis que devem ser protegidas pelos homens.
Os repertórios linguísticos utilizados nessas produções, tais como “heterossexualidade
compulsiva” e “necessidade de conquista” consolidaram uma concepção do homem enquanto
prejudicial à própria saúde e das suas parceiras sexuais (SCHRAIBER; GOMES; COUTO,
2005). O homem foi posicionado como irresponsável por seus comportamentos de risco
(SIQUEIRA, 2000) em especial pela necessidade de usar métodos contraceptivos, num
contexto de política de controle de natalidade internacional e nacional que influenciou
diretamente as conferências e documentos por elas gerados (LYRA, 2008).
O segundo componente do marco conceitual na Matriz Feminista de Gênero que é a
dimensão relacional, ela nos ajuda a problematizar esses lugares fixados, ao ressaltar que
relacional não implica complementaridade, mas assimetria de poder, nos provocando a ir além
da vitimização de algumas (mulheres) e da culpabilização de outros (homens) (MEDRADO;
LYRA, 2008).
A entrada dos homens na política de saúde e direitos sexuais e reprodutivos aconteceu
através de uma perspectiva instrumental e/ou utilitarista para promoção da saúde das
mulheres, porque a discussão inicial que predominava nesse campo era focada na prevenção e
promoção da saúde delas. Porém, a preocupação com a população masculina tonou-se
crescente, inicialmente nas pesquisas científicas, o que depois refletiu na formulação das
políticas públicas. Siqueira (2000) aponta algumas razões para isso: reconhecimento de que os
trabalhos em saúde reprodutiva focalizando apenas a mulher eram insuficientes para a
compreensão do fenômeno; nova perspectiva de enxergar o homem como sujeito que tem suas
próprias particularidades que precisam ser consideradas e os movimentos feministas que
denunciavam a desigualdade de gênero.
Dentre os estudos sobre masculinidades, destaca-se o tema paternidade nas produções
científicas. Schraiber et al (2005) citam como um dos motivos desse fenômeno a diversidade
de questões que ainda não foram exploradas pelas pesquisas, tais como: vivência dos pais;
mudanças no tradicional posicionamento de provedor diante das transformações sociais,
econômicas e políticas; novos arranjos familiares em famílias monoparentais ou
homossexuais, entre outras.
Assim, a construção progressiva da presença dos homens no campo da saúde
reprodutiva se desenvolveu através de duas perspectivas distintas: quando se justifica o
controle do comportamento irresponsável masculino para a prevenção da saúde das mulheres
ou quando se focaliza a reprodução como processo relacional, recuperando-se as
29
especificidades das discussões de gênero. A primeira perspectiva promove uma maneira de
conceber o homem como auxiliar da mulher, que não executa adequadamente seus papeis e
responsabilidades na área sexual e reprodutiva. A segunda, favorece a noção do homem como
sujeito de necessidades concretas que devem ser consideradas, não apenas em sua relação
com a mãe e os(as) filhos(as), mas na constituição da sua própria masculinidade e na vivência
da sua paternidade (SIQUEIRA, 2000).
Podemos também relacionar essas perspectivas ao modelo de saúde centrado no corpo,
no indivíduo, na perspectiva de tratamento/cura da doença, com ênfase no saber/poder médico
que ainda prevalece na construção das políticas públicas desse setor. Ao mesmo tempo que as
questões de gênero ainda parecem apartadas do fazer da/na saúde, favorecendo a (re)produção
de práticas discursivas que reduzem e fixam lugares e posições hierárquicas e dicotômicas
para homens e mulheres. Um exemplo disso é como o foco da/na saúde da mulher ainda
parece ser a sua saúde reprodutiva.
1.3.2 Discussões sobre gênero e paternidade
Há autores(as) (STAUDT, 2007; CÚNICO; ARPIN, 2013; VIEIRA et al, 2014) que
apontam como condições que possibilitaram a emergência de uma “nova paternidade” ou
“novo pai”, os seguintes fatores: a revolução industrial; os movimentos feministas; a entrada
das mulheres no mercado de trabalho; o avanço dos métodos contraceptivos que
proporcionaram um maior controle quanto à reprodução e maior liberdade sexual; a
possibilidade do divórcio e as mudanças na legislação (CFB 1988) relacionadas a alguns
aspectos familiares, como suposta superioridade do homem sobre a mulher, casamento como
a única maneira de constituir família.
Transformações sociais e econômicas, tais como: o aumento das cidades, o crescimento
populacional, o acirramento da concorrência com menores ofertas de emprego e o
desenvolvimento cada vez mais intenso do sistema capitalista contribuíram para a necessidade
do aumento de ingresso econômico na família. Consequentemente, a inserção de mulheres
burguesas, brancas e casadas/donas do lar no mercado de trabalho é criada por uma
necessidade do capital. Grande parte delas, tornaram-se corresponsáveis ou em alguns casos,
as únicas responsáveis pelo sustento familiar. O que gerou mudanças nas relações conjugais,
familiares e nos espaços públicos e políticos.
Porém, essa inserção ocorreu de modo desigual, já que até hoje nós mulheres lutamos
por equiparação salarial e para que tenhamos mais oportunidades de ocupar cargos de alta
30
gestão/poder. As conquistas femininas no campo profissional não isentaram as mulheres de
suas atribuições domésticas, de maneira que, na grande maioria dos casos, passaram a viver
uma dupla jornada de trabalho, enquanto que muitos deles permanecem apenas com o
trabalho remunerado, contribuindo assim para a manutenção da desigualdade entre os sexos
(TARNOWSKI et al, 2005).
Em decorrência disso, movimentos feministas e de mulheres, junto a outros movimentos
sociais dos anos 60, provocaram questionamentos sobre dicotomias como privado-público,
divisão doméstica do trabalho e o cuidado com as crianças foi fundamental na produção de
outras/novas masculinidades e paternidades.
Esse processo de libertação dos grilhões da tradição - considerado por Staudt (2007) e
Spink (2000) como uma das características marcantes do nosso tempo - favorece o
enfraquecimento das estruturas de classe, transformações das relações afetivas e familiares e
uma ética pautada no individualismo que amplia as possibilidades de ser/estar no mundo,
gerando diversidade de estilos de vida. Entretanto, isso não ocorre de maneira linear ou
uniforme, ao contrário, caracteriza-se mais por continuidades e rupturas.
Estamos vivenciando um contexto de indefinições, no qual coexistem elementos que
produzem a manutenção de uma estrutura familiar mais tradicional, enquanto surgem outros
que se contrapõe ou se diferenciam desse modelo (COSTA, 2002; STAUDT, 2007;
OLIVEIRA; SILVA; 2011; VIEIRA et al, 2014). As redefinições nas identidades pessoais e
conjugais promovem mudanças nos arranjos familiares e consequentemente na vivência da
parentalidade (TARNOWSKI et al, 2005; SILVA; PICCININI, 2007; BELTRAME;
BOTTOLI, 2010). As novas/outras configurações familiares são um exemplo da
complexidade
que
marca
esse
tempo:
famílias
divorciadas,
recasadas,
adotivas,
monoparentais, produções independentes, uniões homoafetivas.... (STAUDT, 2007;
MEDRADO; LYRA, 2009).
Um dos aspectos tradicionais que se mantém em nossa cultura é a associação direta e
naturalizada entre gênero feminino e vida reprodutiva, a maternidade muitas vezes é
compreendida como um instinto natural das mulheres. Dessa maneira, as mulheres acabam
assumindo a tarefa de corresponder a esse papel que culturalmente lhes é imposto (STAUDT,
2007).
As teorias sobre gênero nos auxiliam a refletir sobre como as diferenças entre os sexos
transformam-se em desigualdades, estabelecendo relações de poder. Izquierdo adota o
conceito de gênero como categoria analítica para compreender desigualdades sociais, a partir
da compreensão de que a desigualdade fundamental entre homens e mulheres reside nas
31
formas como os seres humanos se relacionam na produção da sua existência, ou seja: “[...] a
sociedade se acha estruturada em dois gêneros, o que produz e reproduz a vida humana, e o
que produz e administra riquezas mediante a utilização da força vital dos seres humanos”
(IZQUIERDO, 1994, p. 49 apud MEDRADO; LYRA, 2008, p. 816).
O conceito de gênero como categoria nos permite compreender as relações de poder, o
que corresponde ao terceiro marco conceitual da Matriz Feminista de Gênero.
Joan Scott propõe uma definição de gênero a partir da conexão integral entre duas
proposições: “(1) o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas
nas diferenças percebidas entre os sexos e (2) o gênero é uma forma primária de dar
significado às relações de poder”. Ou, mais precisamente, “o gênero é um campo
primeiro no interior do qual, ou por meio do qual, o poder é articulado”. Ela propõe
que precisamos adotar a perspectiva foucaultiana de poder, entendido como jogos
desiguais inscritos em práticas discursivas que constituem “campos de forças
sociais”(MEDRADO; LYRA, 2008, p. 58).
Por muito tempo, o único ou principal poder atribuído ao feminino foi a capacidade de
gerar, parir, amamentar e cuidar dos(as) filhos(as). O mito do amor materno foi criado para
reafirmar esse posicionamento da mulher como a única responsável pelos cuidados com os
bebês e crianças, construindo a ideia de que as mães eram instintivamente e naturalmente
mais capazes de cuidar e amar do que os homens, o que era justificado pela sua biologia
(STAUDT, 2007).
Essa redução das mulheres à maternidade é decorrente de um sistema patriarcal que
valoriza culturalmente as atividades da mãe e dona de casa como funções sociais relevantes,
porém não oferecem um custo/remuneração. Assim elas dão conta de uma atividade social
essencial para que muitos homens estejam no espaço público, político, produtivo e
remunerado.
Essas discussões sobre gênero e maternidade/paternidade, levam-me a associar com a
escuta em meu trabalho como psicóloga perinatal e psicoterapeuta na clínica, relacionada às
mães/mulheres que exigem de si mesmas darem conta sozinhas dos cuidados com o bebê. E
como consequência, o sentimento de culpa emerge, porque elas raramente acham que são
boas o bastante. Atrelado a isso, enfrentam grande pressão familiar e social para manifestarem
todas as características da maternidade idealizada, na qual o amor pelos(as) filhos(as) tem de
superar todo o cansaço, estresse, sem expressar emoções como tristeza, raiva, impaciência...
Por outro lado, quando reclamam da ausência ou pouca colaboração paterna, costumo
perguntar como elas permitem/aceitam/incentivam a participação do pai e, na grande maioria
das vezes, elas percebem que não estavam possibilitando/facilitando a participação paterna.
Segundo Staudt (2007) alguns pais se sentem inseguros, desajeitados e incapazes,
sentimentos reiterados pelas mulheres da família que costumam revelar sua “superioridade”
32
em relação aos homens na habilidade de cuidar. Nesse sentido, há um jogo de poder, muitas
vezes sutil ou imperceptível que pode desautorizar, desestimular ou desresponsabilizar os pais
frente aos cuidados e envolvimentos com os(as) filhos(as).
Tal autora me fez lembrar de algumas situações nas oficinas de amamentação e
cuidados básicos com o bebê - que facilitei junto com outras profissionais - nas quais
observava alguns pais expressando essa construção cultural de que os cuidados maternos são
imprescindíveis, enquanto que os paternos não. Identificava isso quando os bebês começavam
a chorar e eles não conseguiam, ou nem tentavam acalmar, e já entregavam para a mãe
dizendo “tem horas que é só com a mãe” ou “o pai não tem seio”.
Por outro lado, é recorrente ouvir depoimentos de pessoas que convidam pais para rodas
de conversa, palestras e oficinas relacionadas ao ciclo gravídico-puerperal e eles não se
interessarem ou perguntarem “o que eu vou fazer lá?”, como se esse espaço não os coubesse,
o que é facilmente aceito. Assim, muitos pais/homens também gozam do privilégio de se
manterem em suas zonas de conforto, afinal o trabalho reprodutivo é cansativo e nãoremunerado.
Para além de uma leitura dicotômica, podemos compreender a complexidade dessas
relações que não se limitam a mulher-vítima e homem-algoz ou vice-versa (MEDRADO;
LYRA, 2014). Logo, diante de uma perspectiva relacional de gênero, ambos os sexos/gêneros
tem benefícios e prejuízos na manutenção de lugares fixos, por isso a importância de
produções que favoreçam a problematização dessa fixidez.
1.4 O “Novo Pai”
As pesquisas retratam o perfil do “novo pai” através de repertórios como “pai nutridor”,
“paternidade participativa”, “paternidade cuidadora” para referir-se ao homem mais
participativo nos cuidados com os filhos ainda bebês, e mais envolvido emocionalmente na
relação com eles/elas, dividindo com a mãe as responsabilidades nos cuidados com a casa e
com as crianças (CHRISTINA; BUCHER-MALUSCHKE, 2008).
O repertório “pai cogenitor” criado por J. H. Pleck e E. H. Pleck (1997) descreve esse
novo “modelo” de paternidade, que tem como característica principal a divisão de
responsabilidades na criação dos(as) filhos(as). Atrelado a esse repertório, estão alguns
comportamentos paternos, tais como: o envolvimento afetivo com as crianças, “auxílio” à
mãe nos cuidados diários e na educação dos filhos, e a participação no desenvolvimento da
criança, desde o nascimento até a fase adulta. Esse “modelo” é considerado ideal até os dias
33
atuais, gerando uma categoria de “pai ideal” que seria aquele que cuida, brinca, instrui e
demonstra afeto e amizade por suas crianças, ou seja, que desempenhe funções múltiplas,
sendo mais participativo e envolvido (BANDEIRA et al., 2005; LAMB, 1997 apud VIEIRA
et al, 2014). Aspectos de continuidade e de ruptura em relação ao modelo paterno tradicional,
são apontados pela revisão de literatura produzida por Vieira et al (2014, p. 39):
[...] os resultados das pesquisas ora indicam expressivo envolvimento do pai com a
família, ora sinalizam distância entre o ideal de comportamento paterno e o real,
com a figura paterna pouco se envolvendo no cuidado prestado aos filhos e nas
tarefas domésticas [...]
Há a criação de uma escala entre o “pai ideal”, o melhor pai, aquele que é mais
participativo e o “pai real”, o pior pai, aquele que é mais ausente. Tal conhecimento
caracteriza-se como classificatório, reducionista, pautado em binarismos e universais. Nossa
proposta, ao contrário, é favorecer a complexidade, diversidade e singularidade das vivências
humanas, buscando compreender o contexto sociocultural, histórico e as produções
discursivas que possibilitam a construção de diversas paternidades.
Se por um lado esperamos ou até exigimos do homem maior sensibilidade e o exercício
de uma paternidade mais responsável e participativa, por outro é necessário considerar que o
próprio contexto sociocultural não favorece isso, como afirmam Cúnico e Arpin (2013, p. 34):
“Contudo, pode-se pensar na desigualdade entre o que está sendo exigido do homem moderno
e as condições que a sociedade e a legislação dispõem para que tais mudanças aconteçam”. A
criação de meninos e meninas é diferente. Enquanto elas são incentivadas desde pequenas a
brincarem de casinha e de mãe, a maioria deles é repreendido se tiver interesse nessas
brincadeiras. A mulher passa a sua existência sendo “treinada” para o exercício da
maternidade, enquanto os homens nem vivenciam o lúdico e quando se deparam com um bebê
real nos braços têm a sensação de que “caíram de paraquedas num universo totalmente novo”
(frase dita por um pai no Café com as Doulas6).
Entre as reflexões sobre as dificuldades/possibilidades no exercício de uma paternidade
mais participativa, ressaltamos o quarto e último elemento do marco conceitual da Matriz
Feminista de Gênero como um dos fatores mais importantes: “identificar e problematizar os
estereótipos de masculinidades e paternidades que refletem o modelo binário e fixo de homem
e de mulher no nível da política, das instituições e organizações sociais” (MEDRADO;
LYRA, 2008, p. 823).
6
Encontros abertos e gratuitos realizados no ano de 2015/2016 pelo grupo ACOLHER (Núcleo de Humanização
do Parto e Nascimento) em parceria com a Clínica de Psicologia QVU para casais grávidos ou no pós-parto em
Maceió-AL.
34
As políticas de saúde têm expressado maior valorização da temática paternidade,
incentivando a participação dos pais nos serviços de saúde sexual e reprodutiva, por exemplo,
na Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH). A estratégia Rede
Cegonha – entendida como prioritária na atenção à saúde da mulher –, ao visar à melhoria da
assistência ao pré-natal, nascimento e puerpério, menciona a importância da presença paterna
em tais momentos, com ênfase nas consequências que gera à saúde da mãe e do bebê. O pai é
posicionado então como um instrumento de promoção de saúde para a mulher e o(a) filho(a),
não sendo considerada a relevância dessa vivência para a saúde dele.
Na área da saúde, novas estratégias no âmbito da saúde da mulher e da criança vêm
apostando no pai cuidador como parceiro na promoção da saúde dessa díade. Uma das
dificuldades da presença paterna nos serviços de saúde “materno-infantil” refere-se à relação
da paternidade a uma masculinidade hegemônica distanciada do autocuidado e da participação
nos eventos do ciclo gravídico-puerperal (pré-natal, parto e consultas pediátricas),
historicamente associados ao feminino. Por outro lado, quando os pais se fazem presentes
nesses espaços, muitos deparam-se com dificuldades institucionais dos(as) profissionais de
saúde que não os reconhecem como participantes desses serviços e nem como sujeitos de
necessidades e desejos próprios que precisam ser considerados (RIBEIRO et al, 2015).
Podemos pensar que os pais/homens da contemporaneidade enfrentam diversas
dificuldades no âmbito legal ao buscar exercer uma nova/outra paternidade. O tempo da
licença paternidade infinitamente inferior do que o da licença maternidade é um exemplo
claro disso. A guarda dos(as) filhos(as) em processos de separação é outro exemplo, pois a
primazia materna no cuidado dos(as) filhos(as) ainda é predominante nas decisões judiciais,
embora venham acontecendo alguns avanços, como as guardas alternadas e compartilhadas.
Neste sentido, vale considerar que os aspectos legais têm contribuído na manutenção de um
modelo mais tradicional de parentalidade (STAUDT, 2007).
Dessa maneira, apesar de identificarmos na literatura forte referência ao novo pai, este é
um modelo de paternidade em consolidação, já que persistem dificuldades culturais e
institucionais na construção de outros lugares para o pai na gravidez, parto e pós-parto. Ainda
precisamos avançar bastante na legislação, políticas de educação e saúde e assim criar as
condições de possibilidade para uma vivência da paternidade de maneira mais ampla.
Contudo, concordamos com Hennigen e Guareschi (2002, p. 61) que criticam aqueles
que enxergam o “novo pai” como um ponto de chegada, esperado e ‘redentor’. Quando
concebido desta forma, pressupõe a existência de uma espécie de essência de pai a ser
alcançada por todos. O ser humano é muito mais complexo, as diferentes posições que assume
35
respondem a um emaranhado de forças advindas de suas localizações sociais. Consideramos
que compreendê-las é bem mais produtivo que traçar metas politicamente corretas, como
afirmam essas autoras.
O percurso de inserção em novos tempos e novas exigências ocorre de forma lenta e
gradual, o que permite identificar que as duas paternidades, tradicional e
contemporânea, são exercidas simultaneamente – tanto no mesmo tempo e no
mesmo lugar por homens diferentes como em diferentes momentos e lugares pelo
mesmo homem, na busca de melhor cumprir o que supõem ser o essencial ao
desenvolvimento dos filhos (OLIVEIRA; SILVA, 2011, p. 358).
Apesar das autoras situarem a complexidade que envolve a vivência paterna, se
restringem a uma compreensão binária de modelos sobre a paternidade, “o tradicional” e o
“contemporâneo”, mesmo citando que há continuidades e rupturas entre esses dois
parâmetros. Nós preferimos a utilização do repertório paternidades por acreditar que ele se
aproxima mais da complexidade da experiência paterna que pode ser vivenciada de diversas
maneiras, não se limitando a modelos pré-estabelecidos sócio historicamente e referendados
pela literatura científica.
1.5 Paternidades
Neste último subtítulo somos provocadas a partir da seguinte questão: Que paternidades
têm sido produzidas através da análise dos repertórios linguísticos identificados nessa revisão
de literatura? O uso recorrente dos repertórios “papel do pai”, “funções” e “tarefas” (SILVA;
PICCININI, 2007; BELTRAME; BOTTOLI, 2010) reflete uma tentativa de homogeneizar o
exercício da paternidade. Expressões como “caminho que um pai deve trilhar”, “como a
paternidade deve ser exercida” ou “o modelo que tem que seguir” (OLIVEIRA; SILVA,
2011) denotam uma lógica normativa de que há um caminho certo, uma maneira correta de
ser pai, o que pode invisibilizar outras possibilidades.
Problematizamos o uso frequente do repertório “o pai” em quase todos os trabalhos
lidos na revisão de literatura (COSTA, 2002; RIBEIRO; HENNIGEN; GUARESCHI, 2002;
STAUDT, 2007; FREITAS et al, 2009; GABRIEL; DIAS, 2011; OLIVEIRA; SILVA, 2011;
CÚNICO; ARPINI, 2013; VIEIRA et al, 2014; GOMES; MORREIRA, 2015). Porque a
escolha de usar esse termo no masculino e singular? Em nós, essa escolha produz o sentido da
paternidade enquanto uma categoria universal e presumiria a existência de uma forma
correta/essência de ser pai.
Por tais razões, elegemos o repertório paternidades como mais apropriado ao nosso
compromisso epistemológico, ontológico e ético-político de promover uma abertura à
36
diversidade de possibilidades de ser pai, favorecendo a discussão sobre o exercício de
paternidades construtoras de relações familiares mais equitativas. Aproxima-se assim do
conceito de masculinidades (CONNEL, 1995) na proposta de promover a visibilidade da
multiplicação de formas de se viver a masculidade (MEDRADO; LYRA, 2014, p. 3).
Para nós, não há algo intrínseco ou determinado a priori no ser pai, o que existem são
diferentes produções discursivas sobre a paternidade que geram posicionamentos distintos.
O posicionamento, como é por nós utilizado, é o processo discursivo através do qual
os selves são situados nas conversações como participantes observáveis e
subjetivamente coerentes em linhas de história conjuntamente produzidas (DAVIES;
HARRÉ, 1990, p. 4).
Não se trata de um determinismo linguístico, mas de um processo dinâmico e interativo
entre as pessoas e as práticas discursivas que produzem práticas sociais e os próprios sujeitos.
A partir da construção desta revisão de literatura dialógica sobre paternidade,
identificamos a utilização frequente de repertórios como “modelos”, “papéis” e “identidade”
que denotam sentidos de previsibilidade, normatização, transcendência e fixidez.
Problematizamos a utilização de modelos normativos que podem engessar os sentidos e
práticas relacionas à paternidade. Acreditamos que uma padronização do exercício da
paternidade pode provocar a negação ou desvalorização de outras possibilidades de ser pai,
muitas vezes desconsiderando o contexto social e cultural nos qual essas paternidades são
construídas e vivenciadas.
Isso promoveu inquietações, que se configuraram como questionamentos norteadores da
pesquisa: como discutir sobre paternidades dando ênfase a multiplicidade de maneiras de ser
pai ao invés de buscar reproduzir/construir padrões? Quais os posicionamentos que pais
residentes em Maceió-Al têm vivenciado em suas experiências na gravidez, parto/nascimento
e pós-parto? Qual a relação existente entre as diversas nomeações sobre paternidade
construídas na revisão de literatura e os diálogos com os pais participantes dessa pesquisa?
Considerando que é contraproducente lançar críticas sem propor outros caminhos,
finalizamos esse capítulo apontando o conceito de posicionamentos como uma das possíveis
alternativas epistemológicas e éticas na construção de conhecimentos sobre paternidades. Tal
conceito produz sentido de pluralidade e dinamicidade e nos ajuda a problematizar discursos
autoritários que promovem a hierarquização de saberes, modos de vida e práticas sociais
(SPINK, 2000; IBÁNEZ, 2001).
As diferentes nomeações sobre paternidade/pai e as definições correspondentes
construídas nessa revisão de literatura foram organizadas num glossário que está disponível
no Apêndice A dessa dissertação.
37
2. O CAMINHO TEÓRICO-METODOLÓGICO
Neste capítulo explicitamos o caminho teórico e metodológico trilhado para responder
as inquietações e perguntas de pesquisa que emergiram após a revisão de literatura dialógica
sobre o tema paternidade. Partindo do pressuposto de que diferentes formas de se falar
para/sobre os pais constroem diferentes paternidades, acreditamos que o mesmo sujeito pode
experienciar a paternidade através de diferentes posicionamentos ao longo da sua história de
vida (DAVIES; HARRÉ, 1990 trad. SPINK, 1996).
Sendo assim, essa pesquisa teve como objetivo geral: compreender os posicionamentos
de pais na gravidez, parto e pós-parto. E como objetivos específicos: analisar os repertórios
linguísticos sobre paternidade presentes na literatura; identificar os posicionamentos
vivenciados em cada etapa do ciclo gravídico-puerperal por um grupo de pais; discutir a
relação entre as paternidades produzidas discursivamente pelos pais e as nomeações
construídas na revisão de literatura dialógica.
2.1 O referencial teórico
Temos como referencial teórico-metodológico as Práticas Discursivas e Produção de
Sentidos (SPINK, 1999) fundamentada na perspectiva do Construcionismo Social (GERGEN,
1973). A Produção de Sentidos é situada dentro de três perspectivas: como forma de
conhecimento que se afilia à perspectiva construcionista; no âmbito da psicologia social, a
partir da análise das práticas discursivas; e dentre várias correntes voltadas ao estudo da
linguagem (SPINK, 2004). Abaixo são apresentadas essas três perspectivas.
2.1.1 Construcionismo Social e Psicologia
O construcionismo pode ser compreendido como um movimento de contestação à
ortodoxia da ciência, cuja emergência só foi possível num contexto de reflexividade científica
a partir do que Spink (2010) denomina Modernidade Tardia, Ulrich Beck (1993) chama de
Modernidade Reflexiva, enquanto outros nomeiam como pós-modernidade. Ela justifica sua
nomeação para enfatizar o caráter processual desse momento no qual ainda não há uma
ruptura tão nítida entre a modernidade clássica e as mudanças que estamos vivenciando. Esse
processo é marcado por continuidades e rupturas como Lupicínio Iniguez-Ruerda (2012, p.
113) busca definir “[...] nem chega a ser um movimento, uma época, uma trajetória, um
38
sistema, ou um nada, mas uma emergência, uma segregação dos processos culturais, políticos,
científicos, de cidadania, etc”.
Três características da Modernidade Reflexiva são apontadas por Spink (2010) como
fundamentais
para
o
argumento
construcionista:
globalização,
individualização
e
reflexividade. Dentre eles, ela destacou a reflexividade como sendo a principal ponte para
compreender o construcionismo.
A reflexividade tem dupla face: de um lado é uma atitude intrínseca à própria
ciência que começa a olhar para si mesma e a quebrar certas hegemonias. Abre-se,
por exemplo, o debate metodológico. É imperativo haver método único para todas as
ciências? [...]” (SPINK, 2010, p. 7).
Esses e outros questionamentos vêm problematizar o que Ibáñez (1991) denominou de
‘retórica da verdade’. No que concerne a produção de conhecimento algumas das principais
características discursivas da pós-modernidade estão relacionadas à crítica à racionalidade e à
emergência do relativismo epistemológico. A razão não é mais vista como emancipadora e
sim como totalizante, pois na medida em que legitima “a Verdade”, a objetividade e o
conhecimento fundamentado, esconde e exclui interesses de outros grupos e coletividades. O
relativismo epistemológico defende que não há realidade que seja independente da maneira
pela qual nos referimos a ela. Esse posicionamento é resultado de uma série de contribuições
teóricas, tais como a de Karl Popper com a crítica ao “verificacionismo” que se opõe à ideia
de que algumas experiências, provas, experimentos são suficientes para apontar a resposta
sobre a totalidade de determinado fato e a de Thomas Kunh (1970) que enfatiza o papel dos
fatores sociais na produção do conhecimento (sociologia do conhecimento) (INIGUEZRUERDA, 2012).
A segunda face da reflexividade é externa, emerge ‘de fora’ da ciência, a partir da
crítica aos produtos da ciência e desempenha um papel importante na emergência da
preocupação com as questões éticas da pesquisa. “Por muito tempo tivemos uma ciência
desenvolvida como prática ensimesmada, uma prática que não abria as portas do laboratório à
inspeção pública. Bastava entregar ao público o resultado final da pesquisa: um novo
medicamento, uma nova vacina, uma nova tecnologia” (SPINK, 2010, p. 8). Agora, tudo pode
ser inspecionado e questionado, principalmente devido ao avanço da tecnologia da
informação e aos órgãos de regulação. Assim, o processo metodológico na produção do
conhecimento precisa ser explicitado, não apenas por uma noção de rigor, mas principalmente
por questões éticas.
39
O construcionismo na psicologia surge como crítica a alguns aspectos que Tomás
Ibáñez (2001) chama de ingenuidades perigosas, ingenuidades por serem adaptações dos
preceitos e métodos das ciências naturais ao próprio objeto de estudo da psicologia e de
perigosas pelo seu efeito de torná-la um dispositivo autoritário. As duas ingenuidades que ele
aponta como crítica à Psicologia Tradicional são: a crença da existência de uma realidade
independente do nosso modo de acessá-la (dimensão ontológica/epistemológica) e a defesa de
que existe um modo de acesso privilegiado capaz de conduzirmos, graças a objetividade, à
realidade tal como é (dimensão metodológica).
Olharemos brevemente para o percurso histórico da Psicologia Social a fim de situar a
produção de sentidos. O sonho da Psicologia Científica, compreendida como método que
possibilitasse
a
demonstração
e
generalização
de
resultados,
predominava
no
desenvolvimento dessa área de conhecimento, constituindo uma Psicologia Social
experimental e individualista. Especialmente a partir de meados dos anos 70 uma reação a
esse paradigma dominante começou a desenhar-se através de duas principais correntes: a
valorização da observação dos comportamentos em seu ambiente natural (LORENZ;
TINBERGEN, 1966 e BOLWBY, 1988) e o estudo do comportamento em seu ambiente
natural (GOFFMAN, 1959,1963 e MOSCOVICI, 1961).
Esse período se caracterizou por uma virada metodológica contra a psicologia de
laboratório que teve implicações sobre a definição do objeto da Psicologia Social. Surgiram
importantes reflexões críticas enfocando: a naturalização dos fenômenos psicológicos, que
nos leva a desconsiderar que as teorias e conceitos são frutos de processos socioculturais que
os constituem e legitimam; e a despolitização da disciplina, que faz negligenciar o poder
legitimador de um campo de saber (ISRAEL; TAJFEL, 1972; ARMISTEAD, 1974;
HEATHER, 1976 e BARÓ, 1989).
A proposta do estudo da Produção de Sentidos por meio das Práticas Discursivas se
apoia na perspectiva da Psicologia Social Crítica que emerge como fruto dessas reflexões,
virada metodológica e redefinição do objeto de estudo da Psicologia Social e também da
influência do construcionismo social.
Um dos precursores dessa discussão sobre o construcionismo é Kenneth Gergen, que
em 1985 publicou o artigo intitulado “O Movimento Construcionista Social na Psicologia
Moderna” que se tornou clássico como texto introdutório à postura construcionista na
Psicologia. Nesse texto, afirma que “a investigação construcionista preocupa-se com a
explicitação dos processos por meio dos quais as pessoas descrevem e explicam o mundo em
que vivem” (GERGEN, 1985 apud SPINK, 2010, p. 9). Esse autor usa o termo galáxia
40
construcionista para definir o fenômeno do Construcionismo como algo amplo, generalizado,
heterogêneo ao redor de um conjunto de preocupações e formulações comuns que se situa em
uma posição de ruptura com boa parte dos pressupostos que configuram o que chamamos de
“ciência normal” (GERGEN, 1985 apud RIBEIRO, 2011). Discutiremos abaixo as principais
características do construcionismo.
A postura epistemológica adotada pelo construcionismo opõe-se às escolas empiristas e
racionalistas, que compreendem o conhecimento como algo pré-existente, pronto para ser
descoberto, e como algo produzido dentro da mente das pessoas. Na perspectiva
construcionista o conhecimento é:
[...] algo que as pessoas fazem juntas. Consequentemente, resulta numa socialização
do conhecimento que passa a ser algo que construímos juntos por meio de nossas
práticas sociais e não algo que apreendo do mundo. Talvez seja por isso que essa
vertente do conhecimento suscita tanto interesse na Psicologia Social, pois se trata
fundamentalmente de uma teoria social do conhecimento (SPINK, 2010, p. 9).
O conhecimento é resultado de uma construção coletiva, nossas explicações de como
são as coisas não se encontram nas mentes individuais ou nas estruturas sociais, mas sim nos
processos interativos dos quais participamos cotidianamente.
Ibáñez afirma que na inversão construcionista tanto o objeto como o sujeito são
tomados como construções sociais. Sendo o conhecimento uma construção social, é
o conhecimento socialmente produzido que constrói ambos, o sujeito e o objeto
(SPINK, 2010, p.10).
A concepção ontológica do construcionismo parte da relação indissociável entre sujeitoobjeto. “[...]. Um objeto só passa a ser realidade para nós quando passamos a nos relacionar
com ele, ou seja, “não há nenhuma realidade independente do acesso que temos a ela”
(INIGUEZ-RUERDA, 2012, p. 120) e isso sempre é permeado pela linguagem, nas
convenções sociais que definem aquele objeto.
[...] o Construcionismo traz para a pesquisa uma postura desreificante,
desnaturalizante, desessencializadora que radicaliza ao máximo a natureza social do
nosso mundo vivido e a historicidade de nossas práticas. Em suma, Ibáñez propõe
que o que tomamos como objetos naturais são objetivações decorrentes de nossas
construções, de nossas práticas. [...] (SPINK, 2010, p. 10).
O construcionismo social é antiessencialista, ou seja, defende que nem o mundo, nem as
pessoas têm uma natureza determinada a priori. Nesse caso, a concepção de indivíduo e de
consciência individual e mesmo de subjetividade é problematizada.
2.1.2 Práticas Discursivas e Produção de Sentidos
41
Na perspectiva das Práticas Discursivas e Produção de Sentidos (SPINK, 1999), a
definição de linguagem é influenciada pela filosofia da linguagem de Bakhtin (1994), que a
concebe como uma forma de ação social, constituída dialogicamente na interação social.
[...] como psicólogos sociais, o interesse maior é no papel da linguagem na interação
social. Daí o termo Práticas Discursivas. A linguagem em uso é tomada como
prática social e isso implica trabalhar a interface entre os aspectos performáticos da
linguagem (quando, em que condições, com que intenção, de que modo) e as
condições de produção (entendidas aqui tanto como contexto social e interacional,
quanto no sentido foucaultiano de construções históricas) (SPINK, 2010, p. 26).
O que está em pauta nas análises discursivas das Práticas Discursivas e Produção de
Sentidos é a linguagem em uso. Em nossa análise buscamos trabalhar a interface entre os
aspectos performáticos da linguagem e as condições de produção, que incluem tanto os
aspectos do contexto interacional e social, quantos os aspectos históricos e culturais. Spink
(2010) desenvolveu uma matriz que engloba todos esses aspectos contextuais através de uma
análise que considera a perspectiva temporal em três tempos O primeiro refere-se a:
[...] longa história de circulação dos repertórios linguísticos na sociedade e o fato de
que eles não desaparecem ao deixarem de estar preso às condições de sua produção.
Permanecem vivos nas produções culturais da humanidade passíveis de serem
reativados como possibilidades de sentidos (SPINK, 2010, p.33).
O Tempo Vivido refere-se ao período de socialização no qual os repertórios
linguísticos são aprendidos e ressignificados, é o tempo da história de vida pessoal, registrado
pela nossa memória. Já o Tempo Curto, é o momento aqui e agora no qual ocorre a
interanimação dialógica e a produção de sentidos.
Sentido é uma construção social, um empreendimento coletivo, mais precisamente
interativo, por meio do qual as pessoas - na dinâmica das relações sociais
historicamente datadas e localizadas - constroem os termos a partir dos quais
compreendem e lidam com os fenômenos a sua volta (SPINK; MEDRADO, 2013, p.
22).
Nós trabalhamos com a noção de tempo de um passado presentificado, ou seja, que se
presentifica pelos usos e efeitos de repertórios linguísticos do Tempo Longo e pela memória
pessoal do Tempo Vivido no Tempo Curto onde ocorre a produção de sentidos (SPINK, 2010).
A perspectiva linguística que vem sendo usada na Psicologia Social de cunho
construcionista opõe-se à compreensão da linguagem como um ato de criação individual ou
função psíquica, (concepção essencialista) bem como a linguagem como sistema abstrato de
formas linguísticas (concepção estruturalista), defende, pois, a interação verbal como a
realidade fundamental da língua.
42
Quando enfatizamos a performatividade da linguagem estamos nos referindo ao que
Ibáñez esclarece como uma das maiores características do Giro Linguístico 7(2001, p. 39). “A
linguagem se instituía assim como ‘constitutiva’ das coisas, mas do que meramente
‘descritiva’ delas, deixando de ser palavra acerca do mundo para passar a ser ação sobre o
mundo”. A linguagem constrói o mundo e nossa experiência psicológica. Como ação social
ela é sempre interativa, fruto de uma dialogia seja interna (pensamentos) ou externa.
Na perspectiva da linguagem em uso, o sentido é sempre interativo: os enunciados
de uma pessoa estão sempre em contato ou são endereçados a uma outra pessoa e
esses endereçamentos se interanimam mutuamente, mesmo quando os diálogos são
internos; ou seja, na perspectiva bakhtiniana não existe o monólogo (SPINK, 2010,
p. 35).
É a partir das noções de endereçamento e vozes que o conceito de posicionamento é
possível, partindo de uma concepção imanentista, na qual a linguagem só existe em ocasiões
concretas de linguagem em uso. Para nosso processo de análise, é fundamental identificar os
endereçamentos que ocorrem na dialogia, ou seja, identificar para quem endereçada cada fala.
Porque diante de diferentes endereçamentos teremos a construção de diferentes
posicionamentos.
O conceito de posicionamento é desenvolvido por Bronwin Davies e Rom Harré
(1990) como uma alternativa diante dos conceitos de papel e identidade para facilitar o
pensamento de psicólogos sociais orientados linguisticamente. Enquanto identidade é uma
noção mais estrutural e fixa, o posicionamento é absolutamente fluído e contextual.
São posições de pessoas assumidas (conscientemente ou não) no processo de
interação como produtos da interação. Posicionar-se implica navegar pelas múltiplas
narrativas com que entramos em contato e que se articulam nas práticas discursivas.
O posicionamento, como é por nós utilizado, é o processo discursivo no qual os
selves são situados nas conversações como participantes observáveis e
subjetivamente coerentes em termos das linhas de história conjuntamente
produzidas. (SPINK, 2010, p. 37).
Ou seja, o self não é algo rígido, ao contrário, ele possui múltiplas posições de pessoa
(subject position) que se constroem através de linhas de histórias produzidas discursivamente
em determinadas situações. Spink (2010) recorre à metáfora do currículo para exemplificar
como isso acontece, observando que dependendo da empresa e da vaga a que estivermos
concorrendo, encaminhamos versões diferentes do nosso currículo, para que sejam mais
apropriados para aquele contexto, enfatizando alguns aspectos em detrimento de outros. O
“Expressão que esteve em moda nos anos 1970 e 1980 para designar uma certa mudança que ocorreu na
filosofia e em várias ciências humanas e sociais, e que as estimulou a dar uma atenção maior ao papel
desempenhado pela linguagem, tanto nos próprios projetos dessas disciplinas quanto na formação dos fenômenos
que elas costumam estudar” (IBÀÑEZ, 2004, p. 19).
7
43
mesmo ocorre quando vamos nos apresentar, dependendo da situação e de para quem estamos
falando (endereçamento), utilizaremos repertórios distintos. Podemos identificar isso quando
comparamos nossa forma de apresentação habitual, quando estamos em situações pessoais
informais com situações profissionais.
“[...]. Trata-se de uma mesma pessoa posicionada de formas variadas numa
conversação. Embora variadamente posicionada, nós podemos querer dizer que esta
mesma pessoa experiencia aquele aspecto do self que está envolvido na
continuidade de uma multiplicidade de ‘selves’” (DAVIES; HARRÉ, 1990, p. 3).
O posicionamento é considerado como um fenômeno da ordem da conversação, que é
definida como “uma forma de interação social, cujos produtos são também sociais, como por
exemplo, as relações interpessoais” (DAVIES; HARRÉ, 1990, p. 2). A conversação é uma
ação conjunta na qual o que uma pessoa diz pode posicionar a outra (posicionamento
interativo) ou podemos nos auto posicionar (posicionamento reflexivo). Spink alerta que esse
processo não é necessariamente intencional:
[...]. Então, na dinâmica da interação, podemos até nos posicionar conscientemente
de alguma forma específica, mas no fluxo da interação o interlocutor pode nos
posicionar de forma tal que exija uma reorientação (ou reiteração) da posição inicial
(SPINK, 2010, p. 37).
A noção de posicionamento é uma contribuição à compreensão de pessoa, dessa forma,
podemos compreender um sujeito dinâmico que se constrói e se modifica através de suas
diferentes posições, produzidas discursivamente em contextos distintos. A própria concepção
de sujeito é revisitada, podendo ser compreendida como:
A série ou conglomerado de posições, subject-positions, provisórias e não
necessariamente irrevogáveis, nas quais a pessoa é momentaneamente designada
pelos discursos e pelo mundo que ele/ela habita (SMITH, 1988 apud DAVIES;
HARRÉ, 1990, p. 3).
Assim, um mesmo pai pode se posicionar e ser posicionado de diferentes maneiras em
momentos distintos a depender dos discursos nos quais ele circula e de fatores socioculturais e
econômicos.
A importância do conceito de posicionamento para essa pesquisa é a de corroborar com
o objetivo da dissertação de compreender as várias posições de sujeito de um mesmo pai nas
diferentes situações vivenciadas nas suas interações sociais.
2.2 A escolha do método
Para alcançarmos os objetivos desta pesquisa, a escolha da oficina como método
baseou-se no referencial teórico-metodológico. Segundo Spink; Menegon; Medrado (2014),
44
na oficina, a fala circula de forma direcionada, contudo livre, o que permite aos participantes
uma maior expressão das suas opiniões e sentimentos e favorece a interanimação dialógica.
A oficina traz recursos oriundos da dinâmica de grupo, do grupo focal e das rodas de
conversa. Da primeira, herda a criatividade das atividades e estratégias que enfatizam a
plasticidade das interações grupais. Da segunda, traz a condução dos exercícios pelo
facilitador, focalizando um tema específico. E da terceira, compartilha a visão dos encontros
grupais como espaços favoráveis para analisar as relações de poder (SPINK; MENEGON;
MEDRADO, 2014).
[...], ressaltamos o potencial das oficinas em promover o exercício ético e político,
pois ao mesmo tempo em que geramos material para análises, criamos um espaço de
trocas simbólicas que potencializam a discussão em grupo em relação a temática
proposta, gerando conflitos construtivos com vistas ao engajamento político de
transformação (SPINK; MENEGON; MEDRADO, 2014, p. 32).
Elegemos a oficina como ferramenta metodológica porque ela favorece a sensibilização
temática e promove a reflexão e o diálogo. Além disso, é um método que oportuniza o
encontro, a dialogicidade e favorece o compartilhamento de experiências, algo raro entre os
pais/homens - especialmente nos serviços de saúde - para refletir sobre um tema que também
tem pouca oportunidade de circular livremente.
Após a escolha do método, procedemos com todo o trâmite necessário junto ao Comitê
de Ética em Pesquisa (CEP/UFAL) para conseguir a liberação de autorização, sob número
51411315.9.0000.5013, submetido em 29 de setembro de 2015, através da Plataforma Brasil.
2.3 O contato e a seleção com os participantes
A pesquisa foi realizada com pais que vivenciaram recentemente a experiência de
acompanhar gestação, parto e pós-parto dos(as) seus/suas primeiros(as) filhos(as). A fim de
selecionar estes participantes, realizei um contato com os grupos que fazem parte do
movimento de Humanização do Parto e Nascimento de Alagoas, tais como: Roda Gestante
(grupo de apoio à gestação, parto humanizado e maternidade e paternidade ativas), Jardim das
Comadres (parto domiciliar assistido e grupo de apoio à mulher no ciclo gravídico puerperal),
ACOLHER (núcleo de humanização para o parto e nascimento), Clínica de Psicologia QVU
(qualidade de vida começa no útero), AME (grupo de apoio e assistência ao parto normal) e
ADOAL (Associação de Doulas de Alagoas). Escolhi tais grupos devido meu fácil acesso, já
que circulo entre eles e\ou conheço os(as) profissionais que os compõe, bem como alguns pais
que participaram ou participam deles.
45
Criei um texto convite e uma arte simples com um resumo dos objetivos e metodologia
da pesquisa que foi divulgado nas redes sociais (WhatsApp, Facebook e Instagram) para
alcançar esses grupos. Pautada na ética dialógica, preferi entrar em contato direto com as
mulheres participantes desses grupos pedindo para que elas conversassem com os seus
maridos sobre a pesquisa e que caso eles tivessem interesse e disponibilidade me enviassem o
número do telefone deles, que eu entraria em contato. Fiz o contato direto e pessoal, com
alguns pais do grupo ACOLHER, nos encontros presencias os quais participava.
Entrei em contato com os pais via WhatsApp para me certificar de que eles preenchiam
os critérios de inclusão, bem como esclarecer dúvidas e obter o endereço eletrônico de cada
um. Critérios de inclusão: pais primíparos (pela primeira vez); ter um(a) filho(a) que tenha
entre 1 a 18 meses de idade; viver com o(a) filho(a) e a mãe do bebê desde o início da
gravidez até o momento da pesquisa. Critérios de exclusão: residir fora do estado de Alagoas
e ter menos de 18 anos de idade.
Encaminhei por e-mail a Ficha de Contato Inicial (anexo 3), o Formulário de
Caracterização do Perfil Social (anexo 4) e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE) (anexo 5). Na Ficha de Contato Inicial, além dos dados pessoais e de contato básicos,
também ofereci 4 possibilidades de dias e horários diferentes para a realização da oficina e foi
eleito aquele que teve a maior aderência, infelizmente alguns pais, mesmo interessados, não
puderem participar por estarem indisponíveis no dia e hora agendados. A importância e o
resultado do Formulário de Caracterização do Perfil Social é descrito a seguir.
Depois de definida a data, hora e local da oficina, confirmei pelo WhatsApp a presença
dos pais que já haviam sido contatados e solicitei deles e de colegas do mestrado (via e-mail
do grupo de pesquisa) a indicação de outros pais para a pesquisa já que não havíamos
conseguido alcançar o número mínimo de 8 pais. Entrei em contato com os pais indicados (3)
e repeti o mesmo procedimento, todos puderem participar na data agendada e conseguimos
atingir o número mínimo de participantes.
2.3.1 Perfil dos Participantes
Todo o conhecimento produzido nessa dissertação foi com pais/homens que possuem
características bem específicas que os diferem de outros grupos sociais. Algumas dessas
características como o fato de serem homens, pais, heterossexuais, casados/união estável,
estavam presentes direta ou indiretamente nos critérios de seleção. Outras, porém, como os
46
marcadores sociais de cor/raça, nível socioeconômico e de escolaridade, não foram
determinados a priori, mas fruto, também, de todo o processo de seleção dos participantes.
A noção de contexto e indexicalidade são centrais para a análise das Práticas
Discursivas e Produção de Sentidos e para a compreensão dos posicionamentos dos
pais/homens coproduzidos nessa pesquisa. O princípio da indexicalidade8, parte da
compreensão de que nenhum conhecimento pode ser entendido fora do seu contexto: “a
indexicalidade refere-se à situacionalidade, ou vinculação com o contexto: o sentido muda à
medida que a situação muda” (SPINK, 2013, p. 64).
Tendo esse princípio como base, solicitei que eles preenchessem o Formulário de
Caracterização do Perfil Social dos Participantes, composto de questões fechadas para o
levantamento das seguintes informações: idade, cor/etnia, escolaridade, estado civil,
profissão, renda mensal, quantidade de filhos(as), idade e sexo do bebê e se vivenciou
gestação, parto e pós-parto.
Seguimos com a responsabilidade do(a) pesquisador(a) em descrever e explorar o
contexto de pesquisa, a partir de Spink (2013). Esse contexto inclui a caracterização da
pesquisadora (apresentação), dos participantes (apresentados com nomes fictícios criados por
mim) e do local.
Tabela 2: Caracterização do Perfil Social dos Participantes da Pesquisa.
Perfil Social dos Participantes da Pesquisa
Pai
8
Idade
do Pai
Escolaridade
Renda
mensal
(salários
mínimos)
Estado
Civil
Cláudio
33 anos
Idade do(a) Sexo do(a) Cor/
Filho(a)
Filho(a)
Etnia
1 ano e 1
mês
Masculino Pardo
Crença/
Religião
Espírita
Pós-Graduação
Entre 5 a 8
Casado
André
34 anos
8 meses
Feminino
Pardo
Católica
Luciano
26 anos
3 meses
Feminino
Branca
Católica
Pós-Graduação Entre 3 a 5
Ensino Superior
Inc.
De 1 a 2
Casado
União
Estável
Marcelo
43 anos
53 dias
Masculino
Pardo
Não possui
Pós-Graduação
Entre 5 a 8
Casado
Eduardo
28 anos
Feminino
Pardo
Não possui
Pós-Graduação
Acima de 8
Casado
Márcio
34 anos
7 meses
1 ano e 29
dias
Masculino
Branco
Evangélica
Pós-Graduação
Acima de 8
Casado
Walter
36 anos
10 meses
Masculino
Pardo
Evangélica
Pós-Graduação
Entre 5 a 8
Rafael
24 anos
9 meses
Feminino
Branca
Católica
Pós-Graduação
Entre 3 a 5
Casado
União
Estável
“[...]. Na perspectiva realista o controle da indexicalidade dá-se a partir dos critérios de validade e
fidedignidade. A validade refere-se ao grau de correspondência entre a medida e o que está sendo medido; a
fidedignidade, por sua vez, é definida pela replicabilidade dessas medidas. Os dois critérios estão associados ao
instrumento de medida ou de acesso à realidade” (SPINK, 2013, p. 64).
47
Os participantes dessa pesquisa têm idade entre 24 a 43 anos, sendo que a metade deles
está entre 30 a 40 anos. A idade dos bebês varia de 53 dias a 1 ano e 1 mês, estão todos(as) no
primeiro ano de vida, o que favorece a lembrança da gestação, parto e nascimento e enriquece
a troca de experiências sobre o pós-parto. Com relação ao sexo dos bebês, tivemos a mesma
quantidade de meninas e meninos.
Cinco dos oito pais se denominaram pardos e três se definiram da cor branca. Em
relação à religião/crença, três se identificaram como católicos, dois evangélicos, dois
afirmaram não possuir religião e um disse ser espírita. O perfil de escolaridade dos
participantes é um dado que devemos levar em conta, pois quase todos, com exceção apenas
de um, possuem pós-graduação, alguns com mestrado.
O nível de escolaridade desses pais é algo que se reflete em suas narrativas e
consequentemente em seus posicionamentos, como discutiremos no próximo capítulo. Cinco
possuem a renda mensal acima de 5 salários mínimos, dois possuem 3 a 5 salários mínimos e
um com 1 a 2 salários mínimos. Em geral, podemos afirmar que os participantes dessa
pesquisa possuem uma condição socioeconômica bem favorável, o que permite que eles
tenham acesso a informações e serviços diferenciados do que a maioria da população de pais
brasileiros tem.
Diante disso, podemos afirmar que os participantes dessa pesquisa têm um perfil
específico e especial: são pais/homens pertencentes a famílias de camadas médias. Além
disso, quase todos esses pais estavam envolvidos direta ou indiretamente com o Movimento
de Humanização do Parto e Nascimento o que possibilita a eles acesso conhecimentos e
assistência médica que ainda são para um público privilegiado. Este movimento tem como
umas das suas principais pautas de militância a inserção e participação do pai/homem durante
a gravidez, parto e pós-parto, com o objetivo de promover uma maior equidade na divisão das
tarefas domésticas e no cuidados com os(as) filhos(as). Portanto, esses participantes já
estavam mais voltados a se identificarem com o que a literatura denomina de “novo pai”.
Busquei considerar essas peculiaridades em todo o processo de análise.
A oficina aconteceu na Clínica de Psicologia QVU no Edifício Harmony Trade Center,
sala 311 no bairro da Jatiúca na cidade de Maceió-AL que é o meu local de trabalho como
psicóloga perinatal e psicoterapeuta. Alguns fatores foram considerados nessa escolha:
praticidade de poder organizar e utilizar sem precisar pedir autorização, não ter custo com
aluguel, tamanho do espaço físico e conforto necessário para acolher os pais, estacionamento
gratuito e de fácil acesso para os participantes e excelente localização. Compreendemos,
contudo, que os elementos não-humanos também constituem as práticas discursivas (SPINK;
48
MENEGON; MEDRADO, 2014). Assim, a localização da sala evoca um ambiente de classe
média.
2.4 Descrição das etapas da oficina
Durante toda a oficina houve a gravação em áudio das falas dos participantes (com
ciência e autorização dos mesmos), necessária para que fosse realizada a transcrição literal
das falas, material base do processo de análise. Contamos com a participação de uma
colaboradora, Renata Laureano, colega de mestrado, com o propósito de ampliar as
possibilidades de registro, incluindo informações sobre as linguagens não verbais, como as
posturas corporais e as interações grupais. Portanto, eram duas pesquisadoras (não-mães) com
um grupo de pais/homens.
A oficina aconteceu no mês de julho do ano 2016, num sábado no horário das 09h às
13h e foi dividida em cinco etapas. A primeira foi denominada apresentação, na qual eu pedi
para que os pais se apresentasse e falassem sobre o motivo que os levaram a aceitar participar
da pesquisa.
Logo em seguida realizamos a primeira atividade, nomeada de associação livre, na qual
foram distribuídos post-it e canetas para que os participantes escrevessem palavras que
vinham a sua mente quando ouviam o termo “paternidade”. Quando todos concluíram, os
post-it foram anexados a uma cartolina e todas as palavras lidas. Após a leitura, novas
perguntas foram lanças ao grupo: algumas dessas palavras se destacaram mais para vocês?
Ouvir essas palavras fizeram vocês pensar em outras palavras?
Depois iniciamos a terceira etapa da oficina que consistiu nos pais escreverem numa
folha de papel A4 em tópicos, palavras, expressões ou frases sobre o que foi significativo
durante a gravidez. A pergunta norteadora foi: Como foi ser pai durante a gravidez? Eles
tiveram um tempo para escrever e depois começaram a compartilhar suas experiências.
A quarta etapa consistiu na mesma orientação que a anterior, porém agora com o foco
nas vivências mais marcante para eles no parto e nascimento. Novamente eles tiveram um
tempo para escrever e depois compartilharam.
A quinta etapa manteve a mesma orientação das anteriores, com o interesse em saber
sobre as vivências deles após o nascimento do bebê. A pergunta norteadora foi: como está
sendo a sua experiência de ser pai do nascimento até agora?
49
A sexta e última etapa foi um momento de avaliação da oficina, no qual eu pedi que os
pais pudessem dar um feedback através de uma palavra ou frase sobre como tinha sido
participar da pesquisa.
Segundo tal roteiro e baseadas no artigo sobre oficina (SPINK; MENEGON;
MEDRADO, 2014) informamos aos pais/homens que nosso encontro teria a duração média
de duas horas e trinta minutos, contudo, deixamos o tempo de fala livre, de maneira que a
oficina durou quatro horas. Isso só foi possível porque estávamos fundamentas por uma ética
dialógica (SPINK, 2000), na qual os roteiros e prescrições normativas servem apenas como
uma referência. A ética dialógica, pautada numa perspectiva construcionista, está
comprometida com um dos principais pressupostos sobre a natureza da produção do
conhecimento: a pesquisa pensada como prática social (SPINK, 2000). E sendo prática social,
flui com a dinamicidade das interações humanas, não se mantém presa aos roteiros de
pesquisa.
50
3. A JORNADA DE SER PAI NA GRAVIDEZ, PARTO/NASCIMENTO E PÓSPARTO
Neste capítulo apresentamos a discussão sobre os posicionamentos dos participantes da
pesquisa em relação à paternidade e às etapas do ciclo gravídico-puerperal, articulando os
enunciados produzidos na oficina com os repertórios linguísticos presentes na literatura e as
discussões teóricas que nos fundamentam.
Inicialmente serão apresentados os repertórios discursivos produzidos na primeira etapa
da oficina, que corresponde à associação livre. A seguir, discutimos sobre os posicionamentos
dos pais/homens na gravidez, parto/nascimento e pós-parto, tecendo um diálogo entre as
paternidades produzidas discursivamente pelos pais e as nomeações construídas na revisão de
literatura dialógica.
A partir da leitura da transcrição literal da oficina, analisamos os repertórios
linguísticos e categorizamos dez posicionamentos: pai que se vincula, pai que cuida, pai que
educa, pai que muda/se adapta, pai participante, pai que não sabe/impotente, pai que sabe, pai
expectador, pai participante e pai mediador.
O conceito de posicionamento (DAVIES; HARRÉ, 1990) representa uma ruptura com
os conceitos como papel e identidade - que apresentam uma noção essencialista e de fixidez por estar relacionada a outro referencial epistemológico. Logo, os posicionamentos descritos a
seguir não são adjetivos-qualitativos e sim produtos sociais co-construídos na interanimação
dialógica.
3.1 Repertórios dos pais sobre paternidade
A fim de identificar os posicionamentos dos pais em relação à paternidade procedemos
da seguinte forma: as palavras escritas pelos pais, associadas ao termo paternidade, foram
listadas e agrupadas em conjuntos, nos quais são identificados os possíveis posicionamentos
dos pais, correlacionados às nomeações presentes na literatura (ver Apêndice A).
Tabela 3: Repertórios, posicionamentos dos pais e nomeações da literatura sobre paternidade.
Repertórios, posicionamentos dos pais e nomeações da literatura sobre paternidade
Repertórios dos Pais
Posicionamentos
Nomeações da Literatura
51
amor
carinho
afeto
felicidade
alegria
confiança
sonho
graça
realização
amizade
amigo
companheiro
parceria
diversão
Pai que se vincula
Novo Pai
Pai Contemporâneo
Pai Cogenitor
dedicação
doação
atenção
acolhimento
compreensão
paciência
diálogo
Pai que cuida
Paternidade Participativa
Novo Pai
educação
exemplo
referência
espelhamento
caráter
família
futuro responsabilidade
disciplina
firmeza
Pai que educa
Paternidade Emergente
Paternidade Participativa
Paternidade Tradicional
mudança de planos
mudança
adaptação
escolhas
renúncias
desafio
aprendizado
Pai que muda/se adapta
Novo Pai
Pai Presente
Pais Cuidadores
3.1.1 Pai que se vincula
Os repertórios dos participantes relacionados a sentimentos (amor, carinho, alegria etc.)
e interação (amizade, companheiro, parceria) foram identificados como pai que se vincula. A
associação da paternidade com vínculo é recente, pois prevalece a do pai como o provedor e
disciplinador, enquanto a interação e a afetividade estabeleceram-se como funções maternas.
Portanto, esses repertórios sinalizam outros sentidos construídos por esses pais, aproximandose do que as pesquisas nomeiam como “novo pai”.
O psicanalista britânico W. Bion foi o responsável por cunhar o termo vínculo (link em
inglês) e também por estudar como os vínculos se formam e funcionam ao longo da vida e
52
descrever suas várias modalidades. Para ele os vínculos são “elos de ligação – emocional e
relacional – que unem duas ou mais pessoas, ou duas ou mais partes de uma mesma pessoa”
(ZIMERMAN, 2010, p. 24).
Na literatura, encontramos semelhança entre os repertórios dos participantes da pesquisa
elencados na primeira linha da tabela e aqueles presentes na definição de pai congenitor:
“‘modelo ideal’ de paternidade, pai que cuida, brinca, instrui e demonstra afeto e amizade por
suas crianças, desempenha funções múltiplas, mais participativo e envolvido” (J. H. PLECK;
E. H. PLECK, 1997 apud VIEIRA et al, 2014).
Walter comenta, durante a etapa da associação livre, como a palavra diversão chama a
sua atenção:
[...] Eu nunca imaginava que ser pai é chegar em casa e o menino quer brincar... Pra
mim é uma coisa tão...., não importa onde ele esteja ele me vê chegando e já vem
correndo, ele quer brincar e eu não posso fazer mais nada, tenho que brincar...
Ele expressa surpresa com essa sua experiência de se ver brincando e interagindo com o
filho como uma das suas principais experiências como pai.
Outra definição que dialoga com o posicionamento de pai que se vincula é a do pai
contemporâneo, cuja ênfase é no envolvimento afetivo e aceitação dos sentimentos e
ambivalência que permeiam a relação parental (GOMES; RESENDE 2004 apud OLIVEIRA;
SILVA, 2011), conforme expressa Eduardo:
Como viver, desfrutar dessa experiência tão maravilhosa, sem que ela contemple
diversas outras problemáticas que por mais que a gente se prepare, planeje, não dá
pra previamente estabelecer uma compreensão total ou se preparar para todos os
acontecimentos, sendo que todas as situações são extremas né, o sentimento bom é
bom demais, o amor é amor demais, a felicidade é felicidade demais, agora
preocupação é preocupação demais (risos de todos), quando a gente fica triste é
triste demais...
Ele traz a ambivalência e complexidade da sua vivência como pai, que por mais que seja
maravilhosa, também tem as suas problemáticas. Eduardo também aponta a intensidade
emocional dessa experiência. O pai que se vincula posiciona-se como aquele que compreende
que é por meio da interação pai-filho(a) que o vínculo se constrói, possibilitando a troca de
afetos e o estabelecimento da relação parental, complexa e intensa.
3.1.2 Pai que cuida
O cuidado tem sido historicamente atribuído às mulheres, não apenas os cuidados com
as crianças, mas também com as pessoas idosas e doentes da família e com a casa. Em nossa
cultura tem-se o entendimento de que a mulher é naturalmente uma boa cuidadora, essa
53
tendência de naturalizar o cuidado mascara o fato de que saber cuidar é uma habilidade que se
aprende ao longo da vida. As meninas desde cedo são incentivadas através das brincadeiras
infantis e no cotidiano da vida familiar a exercitar ações de cuidado, enquanto os meninos são
repreendidos quando querem “brincar de casinha” ou de “brincar de boneca” porque isso “não
é coisa de homem”. A associação direta e natural entre mulheres e cuidado, leva também à
construção da ideia de que as mães são as principais ou únicas responsáveis pelos cuidados
com os(as) seus/suas filhos(as) (LYRA, 2004).
Por tal razão, a relação entre paternidades e cuidado é algo recente, fruto dos
movimentos feministas em prol de relações familiares mais equitativas no que concerne à
divisão de responsabilidades nos cuidados com a casa e com os(as) filhos(as). Jorge Lyra
(2004, p. 91-92) afirma que:
[...]. Ampliar a aceitação do cuidado desempenhado pelos pais pode expandir seu
lugar junto aos filhos, o que faz com que os homens tenham mais facilidade para
prover as necessidades das crianças, e desenvolver outros tipos de cuidado.
Assim alguns homens têm reivindicado o direito a exercer a função de cuidadores, se
posicionando como pais que cuidam. O exercício do cuidado entre pais e filhos(as) pode
favorecer aos homens o desenvolvimento do cuidado em outras áreas da sua vida,
especialmente o autocuidado. Partindo dessa premissa a Política Nacional de Atenção Integral
a Saúde do Homem (PNAISH) desenvolveu o eixo paternidade e cuidado como uma das suas
vertentes prioritárias. Esse eixo tem por objetivo:
[...]engajar os homens no acompanhamento da gestação, do parto e do puerpério de
suas parceiras e nos cuidados no desenvolvimento da criança no intuito de fomentar
novos modos de fazer e fortalecer as relações e os vínculos[...] (BRASIL, 2016, p.
14).
A relação entre cuidado, vínculo, afeto e envolvimento parental está presente na
literatura e também nas falas de alguns pais que participaram da oficina. Os repertórios
elencados na segundo linha da tabela (dedicação, doação, atenção, acolhimento, compreensão,
paciência, diálogo) referem-se a ações de cuidado e, portanto, de pais que se posicionam
como “pais que cuidam”.
Na literatura uma das definições de “novo pai” dialoga com o posicionamento “pais que
cuidam”: Participação mais efetiva do homem no cotidiano familiar, especificamente no
cuidado com filhos (HENNINGER; GUARESCHI, 2002). O conceito de “paternidade
participativa” também pode ser relacionado com esse posicionamento: Cuidado e
envolvimento constante no cotidiano dos filhos - alimentação, higiene, saúde e educação
(SUTTER; BUCHER-MALUSCHKE, 2008).
54
O cuidado com os(as) filhos(as) pode ser vivenciado em diferentes situações, durante a
oficina, Márcio traz como exemplo de amor sua dedicação e paciência na troca de fraldas
(higiene):
[...] Nesse momento eu vi o que era amor, ele destruía a minha obra prima que nesse
momento era a fralda, e ele fazia xixi e olhava pra mim de novo, naquele momento
eu disse tá aqui um dos exemplos de amor, porque com o mesmo amor eu voltava a
limpar e se ele fizesse isso dez vezes, dez vezes eu fazia sem nenhuma raiva. [...].
Por outro lado, André narra sobre sua doação, compreensão, paciência e acolhimento na
experiência da introdução alimentar da sua filha (alimentação):
[...]. Aí você vai fazer a comidinha, prepara tudo ali né (risos) bem direitinho né, e
você vai fazer aquilo ali cara, você dá pra criança, ela fecha a boca e não quer de
jeito nenhum né, aí você pensa vamos tentar o método BLW9 né, aí você dá os
pedaços pra ela, e no primeiro pedacinho ela joga no chão (risos de todos) aí você ri
da situação né, mesmo dando trabalho né. Você sozinho, tem que se virar ali com a
criança, porque você tá preparando e ela ali chorando, abusada e você consegue dar
conta de tudo, mesmo quando a coisa não sai do jeito que você quer o que você
sente não é raiva né. Você sente... por isso o amor né, muito amor por cuidar de um
bebê, é nesse sentido né que eu refleti.
André fala que é necessário muito amor para cuidar de um bebê, já o Márcio fala que
percebeu o amor pelo seu filho numa das ações de cuidado com ele. Esses pais expressam que
há uma relação direta entre cuidado e amor, um fortalece o outro. Podemos dizer que o amor
não é algo a priori para esses pais, ele se constrói e se fortalece através dos cuidados diários
que eles dispensam às/aos seus/suas filhos(as), como afirma Walter:
E pra mim assim não tem mágica, nem magia, é o dia a dia, é um sentimento que é
crescente, pelo menos o nascimento não foi uma coisa maravilhosa não, mas hoje
ser pai para mim é uma coisa maravilhosa, porque é um... se existe mágica, se existe
milagre, é o milagre do dia a dia, da construção cotidiana, dessa relação pai-filho.
A relação paterna-filial é uma construção diária através dos cuidados cotidianos que
possibilitam a emergência e o desenvolvimento do amor que fortalece o vínculo afetivo e
promove o desejo cada vez maior do pai de interagir e cuidar do(a) seu/sua filho(a).
3.1.3 Pai que educa
Os
repertórios
da
terceira
linha
(disciplina,
firmeza, educação, responsabilidade, referência, espelhamento, caráter, futuro, família)
relacionam-se ao posicionamento do pai enquanto aquele que educa. Tanto no sentido
9
O chamado Baby-ledWeaning (Desmame Guiado pelo Bebê) consiste em oferecer a comida em pedaços e
permite que o bebê se sirva sozinho.
55
disciplinador, ou seja, impor limites, regras, castigos e ter firmeza, quanto no sentido da
responsabilidade de ser um exemplo moral, no qual o(a) filho(a) irá se espelhar para
desenvolver o seu caráter, o que implica no futuro dessa família. Para Costa (2002) a
educação é o atributo moral da paternidade. Em nossa compreensão a educação dos filhos não
está relacionada exclusivamente à paternidade, ela é uma das dimensões do cuidado que pode
ser exercida tanto pelo homem/pai, mulher/mãe ou demais cuidadores(as).
Tais
repertórios
dialogam
com
a
definição
de
paternidade
tradicional
“Responsabilidade de dar permissões, controlar a família via críticas e recomendações à mãe,
prover alimentos, impor castigos, disciplinar e, ocasionalmente, brincar e compartilhar de
passeios familiares” (MUZIO, 1997 apud SUTTER; BUCHER-MALUSCHKE, 2008) que
engloba a concepção de pai provedor “Provimento financeiro, chefe, hierarquia, relações de
poder” (CÚNICO; ARPIN, 2013), porém não se restringe a ela.
Parte das pesquisas acessadas (COSTA, 2002; FREITAS et al, 2009; VIEIRA, 2014)
aponta que a concepção de “nova paternidade” não excluiu as “funções paternas”
tradicionalmente associadas ao pai provedor, ao contrário, as incorpora às novas funções e
maneiras diferentes de vivenciar a relação paterna-filial. É o que podemos identificar nas
palavras de Eduardo“[...]a gente pode perceber que há pelo menos duas colunas básicas a
partir das quais a gente pode separar tudo né. Uma parte com relação ao amor, carinho,
compreensão e outra parte relacionada à dedicação, responsabilidade, desafios. [...]”.
Essa separação também está presente na pesquisa de Freitas et al (2009), na qual o
repertório “responsabilidade” apareceu com maior frequência na fala dos participantes, tanto
no sentido de provisão financeira e segurança familiar, como no sentido de educar, transmitir
valores e estabelecer limites.
Interessante pensar nessa aparente dicotomia, como se os repertórios reponsabilidade,
limites, não pudesse ser associados ao exercício do cuidado, como expressão também de
amorosidade. O que identificamos é que para os participantes dessa pesquisa as paternidades
se constroem a partir de um vínculo afetivo que desperta diferentes sentimentos, bem como a
responsabilidade e desafio de educar seus filhos(as), não apenas com a preocupação de
discipliná-los(as), mas também de se tornarem pais que sejam uma referência positiva para
seus eles(as).
3.1.4 Pai que muda/ se adapta
Mudança e adaptação são repertórios recorrentes na fala desses pais, aparecem
praticamente em todos os momentos do ciclo gravídico-puerperal. Para eles paternidade
56
implica mudanças, sejam elas pessoais, familiares, sociais ou econômicas. Como afirma o
Walter:
E eu também achei interessante ‘mudança de planos’ apesar que eu queria ser pai,
mas você tem que replanejar a sua vida toda, mudar tudo que as vezes tinha coisa
que você queria fazer e agora não é bem mais só a sua vontade, repensar em função
da criança, se for alguma coisa que favoreça, que ajude né... .
Ser pai significa saber\aprender a lidar com os desafios de fazer escolhas que muitas
vezes significam renúncias de planos anteriores e indicam necessidade de adaptações,
conforme Walter complementa “É eu concordo também que mesmo com todo planejamento,
com todo sonho que envolve a chegada, acho que toda a mudança acontece mesmo e a palavra
‘desafio’ é saber lidar com essa mudança [...]”.
Em suma, o que discutimos a partir dos repertórios da associação livre, paternidade para
esses pais é a relação com os(as) filhos(as) que se constrói pela vinculação afetiva através de
ações de cuidado e educação, cuja experiência implica em mudanças. Que podem estar
associadas com as nomeações: pai que se vincula, pai que educa, pai que cuida, pai que
muda/se adapta.
3.2 Posicionamentos dos pais na Gravidez
Dos sessenta trabalhos encontrados na revisão de literatura sobre paternidade, apenas
sete enfocavam a paternidade na gravidez, o que nos indica que este não é um tema
privilegiado nas pesquisas sobre paternidades. Associamos com o que afirmam Freitas;
Coelho; Silva (2007, p. 137)
Para muitos homens, sentir-se pai é um fato que só ocorre posterior ao nascimento, e
em alguns casos, mesmo após a chegada do filho(a), o sentimento de paternidade
ainda não é tão perceptível.
Tal citação dialoga com a fala de Marcelo “[...]. Eu nunca me senti pai durante a
gestação. Não me senti, acho que esse sentimento veio mesmo depois do parto. [...]”, contudo
Marcelo justifica essa ausência de sentimento de paternidade, devido à gravidez de risco da
sua esposa que o deixou muito mais preocupado com o estado de saúde dela, do que com o
filho.
Na pesquisa de Freitas; Coelho; Silva (2007), tiveram pais que relataram o sentimento
de paternidade a partir da notícia da gravidez, outros apenas quando perceberam os
movimentos do bebê no útero, aqueles que só se sentiram pais no nascimento e um que
relatou que esse sentimento se manifestou apenas quando o filho já estava maior. Esses
57
resultados corroboram com os encontrados na pesquisa de PICCININI et al (2004) na qual
muitos pais estiveram envolvidos de diversas maneiras durante a gestação de suas
companheiras, mostrando-se emocionalmente conectados à gestante e ao bebê. No entanto,
outros revelaram dificuldades quanto ao envolvimento com seu filho, apresentando uma baixa
ligação emocional com a gestação.
Se há pais que não conseguem realmente envolver-se com seu/sua filho(a) em nenhum
momento da gestação, também há aqueles que participam o máximo possível e mostram uma
grande disponibilidade emocional para esta experiência. Na nossa pesquisa, a grande maioria
dos participantes relataram sentir-se pais durante a gravidez, assumindo os posicionamentos
apresentados na tabela abaixo.
Tabela 4: Repertórios e posicionamentos dos pais na gravidez.
Repertórios e Posicionamentos dos Pais na Gravidez
Repertórios
Sensação de pai mesmo
Posicionamentos
Pai babão
Extasiado com a notícia
Alegria emocional extrema
Posiciona-se como Pai que se vincula
Mão na barriga, beijo, carinho
Conversava com o Pedro [filho] todos os dias
Uma alegria assim, uma coisa muito eufórica
Cuidador
Cuidado
Posiciona-se como Pai que cuida
Mudança de planos
A mulher muda um pouco
Mudanças gerais na casa e na rotina
Posiciona-se como Pai que muda/ se adapta
Mulher nova
Embarquei com ela [esposa]
Cada exame era uma sensação muito interessante
Casal grávido
Posiciona-se como Pai participante
Engravidar junto
3.2.1 Pai que se vincula
Alguns/algumas autores(as) afirmam que os pais muitas vezes não conseguem criar um
vínculo concreto e sólido com o bebê durante a gravidez porque diferentemente das gestantes,
não têm uma experiência de mudanças corporais e alterações físicas e emocionais visíveis.
Eles(as) consideram que a formação do vínculo entre pai e filho(a) costuma ser mais lenta,
consolidando-se gradualmente após o nascimento e no decorrer do desenvolvimento da
criança (MALDONADO; DICKSTEIN; NAHOUM, 1997 apud PICCININI et al 2004).
58
Contudo, sentir essas mudanças físicas não são hoje a única forma que possibilita a
construção do vínculo com seus\suas filhos(as) durante a gravidez. Identificamos no relato
desses pais que as novas tecnologias, principalmente a ultrassonografia, favorecem sentir a
concretude da existência do bebê e consequentemente da experiência da paternidade. Os pais
relataram maneiras próprias, que os vincularam aos(as) filhos(as) durante aquele momento,
pela mediação da mãe, dos(as) profissionais de saúde e dos exames.
Na literatura o vínculo precoce entre pai-filho(a), ainda na gestação, é correlacionado
com um maior envolvimento afetivo com o(a) filho(a) no pós-parto e maior predisposição a
compreender e oferecer apoio as suas esposas (FREITAS; COELHO; SILVA, 2007).
Os pais se posicionaram como aqueles que se vinculam emocionalmente com os(as)
filhos(as) através da experiência de sentir o bebê, seja ouvindo os batimentos cardíacos,
sentindo os chutes na barriga ou vendo imagens do ultrassom. Marcelo expressa como o
exame o auxiliou na confirmação do sentir-se pai
[...] mas o primeiro exame que conseguiu verificar o batimento cardíaco, deu uma
sabe... um negócio (sorriso)... Aí bate aquele sentimento né, poxa realmente é
verdade né, eu vou ser pai. [...].
André também relatou que se sentiu pai ao ouvir as batidas do coração da sua filha:
[...]. A minha sensação de pai mesmo foi quando ela foi fazer o exame e tinha os
batimentos... Rapaz, ali dá um baque né (vários falando ao mesmo tempo
concordando) tipo nossa e... [...].
As vivências emocionais mais intensas relatadas pelos pais durante a gravidez, referemse ao momento da notícia da gestação, como afirma Luciano "[...]. E...quando me deu a
notícia parecia que não era verdade, fiquei muito besta, fiquei já um pai babão...[...]" e
Cláudio Jorge: "[...]. Ela me disse isso numa sexta-feira e eu passei 3 dias sem dormir
extasiado com a notícia porque realmente é a notícia pela qual eu esperei por toda a minha
vida. [...]". No momento de confirmação através do exame de ultrassom, conforme os relatos
acima, e no momento da descoberta do sexo do bebê como relata Márcio “[...]. Mas aí quando
foi a notícia de homem, eu entrei... eu acho que eu entrei numa alegria emocional extrema que
eu não parava de rir (risos geral) [...]”.
Outras maneiras do pai estabelecer a relação afetiva com o bebê é por meio do contato
com a barriga da mãe, como comenta Cláudio Jorge:
[...].Conversava com Pedro todos os dias mesmo sem saber se era Pedro ou Júlia,
então desde a descoberta, mão na barriga, beijo, carinho... Aí eu conversava muito
com ele, tanto é que no ato do nascimento, quando eu falei do nada ele olhou pra
mim e isso me marcou muito.[...].
59
Contudo, a construção desse vínculo não implica apenas no contato com emoções
consideradas positivas e agradáveis. De acordo com a definição de pai contemporâneo a
“vivência da paternidade” inclui envolvimento afetivo e aceitação de sentimentos
ambivalentes (GOMES e RESENDE 2004 apud OLIVEIRA, SILVA, 2011), como podemos
identificar na fala de Eduardo:
[...] A gente abriu o resultado e tava lá que ela estava grávida. É
assim... eu lembro que os sentimentos foram muito confusos naquele
momento, eu fiquei com uma alegria assim, uma coisa muito eufórica
de querer falar logo para nossa família e ao mesmo tempo eu fiquei
com muito medo, achando que era responsabilidade demais , e agora
que concretizou esse negócio, até o momento eu tava só curtindo... a
parte de fazer é é... aquele negócio né, eu acho um momento muito bo m
pro casal. E agora já chegou, como é que vai ser, aí bateu aquela... pelo
menos na minha perspectiva, foi dúbio né , muita responsabilidade, a
concretização de uma coisa que a gente queria muito e agora aconteceu
na realidade né, agora sim. [...].
A vivência do período gestacional é também, segundo Bornholdt; Wagner; Staudt,
(2007), bastante intensa para muitos homens, em decorrência de diversos fatores emocionais
tais como: identificação do pai com a esposa grávida, ambivalência em relação à paternidade
e ao processo de adaptação à nova configuração familiar, e do pouco ou nenhum espaço para
expressão dos seus sentimentos, que é consequência das construções de masculinidades fixas,
rígidas e machistas.
Diferentes sentimentos no ciclo gravídico-puerperal, também foram identificados na
pesquisa com pais, de Reberte e Hoga (2010), tais como ansiedade, nervosismo, preocupação
e insegurança, que tendem a aumentar de intensidade com a proximidade do parto. Esse
resultado é importante, porque desnaturaliza a ideia de que somente as mães vivenciam
mudanças emocionais nesse período e nos incentiva a considerar que esses pais também
apresentam demandas que necessitam de acolhimento, inclusive nos serviços de saúde.
3.2.2 Pai que cuida
Devido a uma gravidez de risco que deixou a esposa acamada durante meses, Marcelo
expressa claramente que não se sentiu como pai, o posicionamento que ocupou durante a
gestação foi de cuidador da mãe do seu filho.
[...] E eu, eu tive uma experiência um tanto diferente, por conta do que eu já falei né,
a gente vinha tentando engravidar já tinha uns 6 anos, casados há dez anos, e ao final
conseguiu engravidar, mas durante toda a gestação, foi uma gestação muitíssimo
complicada, ela passou acho que de 6 a 7 meses de repouso absoluto e eu tava sem
trabalhar porque estava de licença por ocasião do mestrado, e a licença que era pra
ser do mestrado acabou sendo uma licença pra ficar com ela, né. Então eu fui
cuidador da minha esposa a gestação toda, e...chegou um momento da gestação que
60
eu não pensava mais em criança, eu só pensava nela, né (hehehe), na esposa, porque
em alguns momentos eu senti a possibilidade de perder até a esposa por conta da
delicada gestação [...].
A situação de Marcelo pode ser considerada um caso bem específico de dificuldade de
estabelecer um vínculo com o(a) filho(a) durante a gravidez justificada pela situação de saúde
delicada da sua esposa. Outros justificativas foram encontrados na literatura, como o fato de
muitos pais não saberem como interagir com seus/suas filhos(as) durante a gestação o que
pode estar relacionado à ausência de modelos de pais participativos (PICCININI et al 2009)
ou a presença do sentimento de exclusão, comumente encontrado nos pais neste período
(PICCININI et al 2004).
Entretanto, o posicionamento do pai enquanto cuidador na gestação pode representar
uma forma de vinculação afetiva com o bebê por meio da gestante. É o que identificamos na
fala de Luciano que também se posiciona enquanto cuidador da sua esposa, porém
justificando isso como uma extensão do cuidado e preocupação que passou a desenvolver em
relação a sua filha Ariel, desde que ela ainda estava no ventre de sua mãe.
"[...] E o que eu percebi após receber essa notícia um cuidado que eu comecei a ter
com ela [gestante] até um pouco exagerado (sorriso) qualquer coisa que ela ia pegar
mais pesada eu dizia não, não faça isso não, uma preocupação com Ariel né [...]"
(Luciano)
Poderíamos associar essas falas ao exercício da paternidade com a esposa, mediante o
posicionamento desse pais como cuidadores delas.
3.2.3 Pai que muda/ se adapta
O repertório “mudança” é retomado por Rafael junto a outros da etapa de associação
livre para fazer referência às mudanças de planos que ele teve que fazer quando descobriu que
iria ser pai:
[...] lembrando agora das palavras né, do desafio, da renúncia, da mudança de
planos... É, naquela época eu tinha alguns planos, eu estava com uma viagem
marcada para o Rio de Janeiro, ia fazer um semestre lá, um intercâmbio, na UFRJ...
E assim, eu soube, fui buscar o resultado do exame num dia e a viagem estava
marcada para a próxima semana, e... eu decidi ficar em Maceió, não viajei, queria
curtir a gravidez, queria ficar perto dela também, e a minha decisão foi essa, na hora
que eu soube do resultado, eu já desmarquei a viagem, conversei com minha
orientadora, disse que não iria mesmo.[...]
Outras mudanças são apontadas pelos pais. André fala sobre as mudanças emocionais
da sua esposa durante a gestação e como que ele necessitou de muita paciência e diálogo para
se adaptar "[...]. A paciência né, porque eu acho assim que a mulher ela muda um pouco né,
61
fica mais sensível, mais emotiva, e aí tem que ter muito diálogo né, a gente teve muito isso
né... [...]". Márcio também fala das transformações da sua esposa e cita as mudanças de rotina
como fatores que podem gerar dificuldades na convivência conjugal:
[...] A logística de como dormir na cama muda, você não tem mais uma esposa full
time pra você (risos) puxar ela assim e dizer “venha minha filha, bora, bote a
cabecinha aqui no meu ombro...” (risos) porque vem ela e uma barriga. Ela tem que
posicionar-se porque em determinados momentos da gravidez ela já não pode mais
ficar deitada do jeito que ficava e mudanças gerais na casa e na rotina. E isso foi
motivo de amadurecimento apesar de já 9 anos com minha esposa, casados há um
bom tempo, a gente se viu num momento “ei, pera aí, se não a gente vai começar a
ter problemas sérios de convivência” porque é tudo muito novo, e a mulher que era a
sua mulher, já não é mais a sua mulher naquele contexto que você tinha, é uma
mulher nova né. [...]
O fato de estar lidando com uma "mulher nova” somado às demais mudanças
decorrentes da gravidez, foi tomado para Márcio como uma oportunidade de amadurecimento
da relação conjugal.
3.2.4 Pai participante
O envolvimento paterno na gestação inclui comportamentos de participação em
atividades relativas às gestantes e aos preparativos para a chegada do bebê - como
acompanhar consultas e exames de pré-natal, preparar enxoval e quarto do bebê - e também se
manifesta através do apoio emocional proporcionado à mãe, da busca de estabelecer um
vínculo com o bebê, bem como das preocupações e ansiedades destes pais (PICCININI et al
2004).
Uma das definições de novo pai dialoga diretamente com o posicionamento do pai
participante “participação nas responsabilidades relativas à saúde reprodutiva e cuidado com
os filhos” (COSTA, 2002). André fala dessa participação relacionada às escolhas referentes à
via de nascimento e tipo de parto e presença nas visitas com as doulas10:
[...]. Ela já tinha tipo 7 meses e a médica que ela estava fazendo o pré-natal era tipo
cesarista, e ela decidiu que ia fazer o parto normal, e quando a gente teve as
primeiras consultas com as doulas lá tipo, aí tem aquele - nossa o que é que é isso né
- parto normal, as violências que a mulher sofre e eu converso muito com ela, eu e
minha esposa e a gente... eu embarquei com ela. [...].
Márcio enfatiza as reações emocionais a cada exame que ele acompanhou durante a
gestação:
“A acompanhante treinada, além do apoio emocional, deve fornecer informações a parturiente sobre todo o
desenrolar do trabalho de parto e parto, intervenções e procedimentos necessários, para que a mulher possa
participar de fato das decisões acerca das condutas a serem tomadas durante este período” (MINISTÉRIO DA
SAÚDE, 2001, p. 64).
10
62
[...]. Cada exame era uma sensação muito interessante, ele precedia da expectativa,
aí ele dava preocupação né, alívio e alegrias, era sempre isso (sussurros de
concordância “hum rum”), era bem assim, nesse sentido todos eles foram nessa
ordem: expectativa, preocupação, um alívio seguido de alegria. [...].
A participação paterna também se deu através da presença nos grupos de apoio ao parto
humanizado, como relata Eduardo:
[...]. Na verdade a gente começou a participar de grupos antes dela engravidar, o
grupo Roda Gestante 11que talvez vocês conhecem, acho que uns 6 meses antes dela
engravidar, a gente era o único casal que não estava grávido, mas já estava lá e foi
muito bom pra mim pra eu me preparar para o que seria o parto né. [...].
Em relação à participação de pais em grupos no pré-natal, Reberte e Hoga (2010)
afirmam que tais grupos se configuram como espaços de acolhimento, compartilhamento,
aprendizado e apoio. Alguns benefícios da participação nesses grupos no que concerne às
vivências paternas são: compartilhar das experiências de forma mais intensa; melhor
compreensão da mulher grávida e consequentemente melhora na qualidade do suporte
oferecido a ela; maior integração do casal.
Cláudio Jorge utiliza o repertório “engravidar junto” para explicar que buscou participar
de tudo o que fosse possível com relação à gravidez: "[...] eu fiz questão de engravidar junto,
eu até coloquei aqui 'engravidar junto', eu fiz questão de engravidar junto com ela, de
vivenciar todas as rotinas dela, o que fosse possível claro, eu vivenciava com ela...[...].
Identificamos que grande parte dos pais da nossa pesquisa participaram ativamente da
gravidez, acompanhando as consultas e exames do pré-natal e também em grupos de apoio a
humanização do parto e nascimento e equipes e doulas. Contudo, mesmo presente
fisicamente, o pai pode ter a sua participação comprometida pela forte concepção de gênero
impregnada nele e nos(as) profissionais de que o pré-natal é um espaço para a gestante e o
bebê, reforçando o lugar do pai apenas como provedor, assim muitas de suas demandas
podem sequer ser identificadas, quanto mais atendidas (CABRITA et al, 2012).
A gestação e mais especificamente o pré-natal, não são reconhecidos como espaços
destinados também aos pais/homens, o que expressa claramente uma reprodução da divisão
sexual do trabalho. Nos postos de saúde a linguagem verbal e não verbal é toda focada na
mulher e/ou no bebê, desde cartazes e fotos nas paredes, até a presença feminina maciça,
incluindo os termos da assistência como “grupo de gestantes” e não de casais ou pais
grávidos, tudo isso contribui para gerar um ambiente que inibe a presença masculina.
11
Grupo de apoio à gravidez, parto e maternidade/paternidade ativa em Maceió-AL, atuando desde 2012, tem
uma importante contribuição no Movimento de Humanização do Parto e Nascimento no estado de Alagoas. Foi
criado e é mantido por um grupo de coordenadoras que são mulheres/mães ativistas. Realizam encontros abertos
e gratuitos sobre diversos temas referentes ao ciclo gravídico-puerperal.
63
Contudo, para o Ministério da Saúde (2005 apud CABRITA et al, 2012) a participação
familiar no processo de gravidez representa um fator positivo e deve ser sempre encorajada
tanto nas consultas como nas atividades de grupo, incluindo a preparação do casal para o
parto e durante a internação para o pós-parto.
Uma iniciativa interessante da coordenação da PNAISH sobre a inclusão do tema
paternidade e cuidado na gravidez foi a criação do Pré-Natal do Parceiro como uma estratégia
para qualificar a atenção à gestação, parto e ao nascimento, estreitando a relação entre
trabalhadores(as) de saúde, comunidade e, sobretudo aprimorando os vínculos afetivos
familiares dos usuários e usuárias nos serviços ofertados. A cartilha do Pré-Natal do Parceiro
(2016) apresenta um fluxo do pré-natal da gestante e do parceiro, traz um fluxograma
ilustrativo da participação do homem no pré-natal, parto e puerpério, além de informações
legais sobre os direitos dos pais. A coordenação nacional da Saúde do Homem está realizando
capacitações das equipes em vários estados do país, para que essa estratégia seja conhecida e
executada. Nós consideramos esse movimento um avanço significativo para favorecer uma
maior inclusão e acolhimento dos pais/homens nos serviços de saúde voltados à assistência ao
ciclo gravídico-puerperal.
Resultados da pesquisa nacional “Os cuidados masculinos voltados para a saúde sexual,
a reprodução e a paternidade a partir da perspectiva relacional de gênero”12 (2016) indicou
uma significativa participação masculina no pré-natal (79%), contudo somente a metade dos
pais participou da maioria das consultas e o maior impedimento relatado (quase 90%) foi a
necessidade de trabalhar. Logo, para que haja uma maior participação paterna no pré-natal
não adianta apenas melhorar os serviços de saúde. É preciso também, a criação de leis
trabalhistas que abonem a falta do pai, quando ele for acompanhar as consultas e exames,
porque esse é um fator que prejudica muitos trabalhadores formais de se fazerem presentes
nesses momentos. Outro dado que nos chamou atenção foi o baixo índice de relatos de
oferecimento do pré-natal masculino (16,2%) o que indica que o programa não está
consolidado e aponta a predominância do foco da assistência na gestante e no feto.
12
Pesquisa realizada de dezembro de 2013 a julho de 2016 pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da
Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz (IFF\Fiocruz), com verba do Fundo
Nacional de Saúde, em parceria com a Coordenação Nacional de Saúde do Homem (CNSH), do Departamento
de Ações Pragmáticas Estratégicas (Dapes), da Secretaria de Atenção à Saúde (SAS), do Ministério da Saúde
(MS). Teve como objetivo geral subsidiar as coordenações estaduais e municipais de saúde do homem das 27
unidades federadas no que se refere à promoção dos cuidados masculinos voltados para a saúde sexual, a
reprodução e a paternidade a partir da perceptiva relacional de gênero e das diretrizes da PNAISH.
64
3.3 Posicionamentos dos pais no Parto/Nascimento
Historicamente, o parto e o nascimento eram considerados eventos familiares que
aconteciam em domicílio. A mulher geralmente era assistida por uma parteira e outras
mulheres da sua confiança e o homem se mantinha distanciado desse universo. A presença da
mãe era considerada muito importante, enquanto que a parteira representava o símbolo da
experiência e do conhecimento. Assim, a mulher tinha em torno de si uma rede de apoio
feminina. No século XX, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, em decorrência das
elevadas taxas de mortalidade materno-infantil, iniciou o processo de hospitalização e
medicalização do parto. O homem, na figura do médico, passa a protagonizar esse processo
através de rotinas hospitalares e intervenções técnicas. A família, por outro lado, foi afastada
da mulher e do bebê nesse processo (BRÜGGEMANN et al, 2005).
A transição do modelo de atenção ao parto e nascimento, da parteira para o médico
obstetra, significou também uma mudança na forma de conceber a gravidez e o nascimento.
Há uma transformação do paradigma sobre a experiência de parto que deixa de ser algo
domiciliar, fisiológico e familiar para se tornar hospitalocêntrico (que entende e privilegia os
hospitais como centros disseminadores de saúde), patológico e iatrocêntrico (centrado na
figura do médico). Assim, o parto começa a ser visto como um problema de saúde que
necessita de intervenção médica e o corpo da mulher passa por um processo de
objetificação/instrumentalização a serviço do saber/poder médico e do Estado (JONES, 2012).
A discussão sobre a presença do homem enquanto companheiro e pai durante o parto e
nascimento no Brasil se apresenta na literatura através de duas perspectivas principais, uma
legalista e outra do âmbito da saúde. A primeira refere-se à lei 11.108 de 7 de abril de 2005
que altera a Lei no 8.080\90, para garantir às parturientes o direito à presença de 1 (um/uma)
acompanhante - durante o todo o período do trabalho de parto, parto e pós-parto imediato - no
âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), que deve ser indicado(a) pela própria parturiente
(STORTI, 2004). Na segunda, o foco maior incide sobre as discussões sobre saúde e direitos
reprodutivos, situando o Programa Nacional de Humanização do Parto e Nascimento (2002)
como marco importante, já que entre as práticas citadas nesse documento, encontra-se a
garantia da presença do pai no parto\ nascimento\pós-parto.
É importante destacar que ter participado do parto e nascimento do(a) filho(a) foi um
dos critérios de inclusão para os participantes dessa pesquisa, entretanto resultados da
pesquisa nacional “Os cuidados masculinos voltados para a saúde sexual, a reprodução e a
65
paternidade a partir da perspectiva relacional de gênero” (2016) menos de 40% dos pais
assistiram ao parto e a justificativa principal (46,9%) foi porque o serviço não permitiu,
seguido daqueles que afirmaram não querer (21,9%).
A primeira constatação que fazemos diante desses dados é a de que a Lei no. 8.080\90
não está sendo cumprida em quase metade dos partos. Uma das prováveis explicações para
esse resultado, além da concepção de gênero é o fato de não termos uma política efetiva para
garantia dessa lei. Quanto ao não desejo do pai de estar presente no momento do parto e
nascimento, sabemos que isso é um direito e não uma obrigação, mesmo porque a lei é uma
conquista da mulher e o(a) acompanhante escolhido por ela não precisa ser o pai do bebê.
É possível identificar também, marcadores sociais, econômicos e de raça\cor nesses
dados, a partir de outras pesquisas, como afirmam Diniz et al (2014, p. 151):
Este estudo mostrou que ter a presença contínua de um acompanhante durante o
parto na maioria dos serviços ainda é um privilégio para as mulheres com maior
renda e escolaridade, de cor branca, pagando pela assistência, e que tiveram uma
cesariana. [...].
Nesta pesquisa foi possível identificar diversos posicionamentos vivenciados pelos pais
durante o trabalho de parto, parto, nascimento e pós-parto imediato, em diferentes contextos
referentes ao local do parto (hospitalar\domiciliar), ao acompanhamento médico (plantonista
ou particular), via de nascimento (normal ou cesárea) e presença ou não de familiares ou
profissionais, conforme tabela abaixo.
Esses posicionamentos, de acordo com Davies e Harré (1990) podem ser interativos,
quando o que uma pessoa diz posiciona a outra, ou reflexivos, quando nos (auto)
posicionamos. Nos relatos sobre as experiências de parto e nascimento identificamos uma
maior frequência de posicionamento interativo. Constatamos que as narrativas desta etapa da
oficina contêm os diálogos entre os(as) diversos(as) atores(as), nos quais muitas outras vozes
são presentificadas, como a dos(as) médicos(a), enfermeiro(as), doulas, esposas e familiares,
favorecendo a ocorrência desse tipo de posicionamento.
Tabela 5: Repertórios e posicionamentos dos pais no parto e nascimento.
Repertórios e Posicionamentos dos Pais no Parto e Nascimento
Repertórios
Impotência
Posicionamentos
Na mão do médico
Posiciona-se e é posicionado (pelo médico(a))
como Pai que não sabe/ impotente
A gente é leigo
Frustrante
Eu quero uma cesárea humanizada
A gente queria normal e a gente estudou várias coisas
Pai é você quem vai olhar lá
Posiciona-se e é posicionado (pelas doulas, pelo
médico, pela esposa) como Pai que sabe
66
Olha, ela não quer fazer, ela não vai fazer episiotomia
Não vai colocar esse colírio
Vem, vem bater foto, vem bater foto!
Tá preparado? Tá com o celular?
Eu filmando tudo
Nem me liguei mais em filmagem
Posiciona-se e é posicionado (pelas enfermeiras e
médica) como Pai expectador
Aí de sexta pro sábado anotei tudo
Eu do lado dela, pegado na mão dela
Tamo junto
Posiciona-se e é posicionado (pelo médico, pela
esposa) como Pai participante
Acompanhando com o movimento, fazendo a massagem
Auxílio logístico
Não quero você acabada em cima da cama com ocitocina
Como é que você quer fazer?
Posiciona-se como Pai mediador (entre a
parturiente e a equipe)
Não filho, é isso aí mesmo, aprende!
A enfermeira veio dar banho, só que pediu para eu dar
banho com ela
A primeira roupa eu que ajudei a vestir que eu estava junto
com a enfermeira
Posiciona-se e é posicionado (pelas enfermeiras e
pela mãe) como Pai que cuida
Deixe, eu vou aprender
Aquela pressão de cuidar
3.3.1 Pai que não sabe/ impotente
Retomamos o conceito de posição de sujeito (subject position) para compreender a
nomeação dada aos posicionamentos a seguir. Segundo Davies e Harré (1990) uma posição de
sujeito torna-se disponível em um discurso. Eles tomam como exemplo o discurso do amor
romântico13 no qual há duas posições complementares disponíveis: o príncipe/herói que têm
agência e a princesa/heroína que em geral é a vítima das circunstâncias e depende do príncipe
para salvá-la.
[...]. Na vida cotidiana, se duas pessoas estão vivendo uma versão da narrativa do
amor romântico, então eles se posicionarão e posicionarão um ao outro nas posições
de sujeito complementares que estão disponíveis a partir do discurso do amor
romântico.[...] (DAVIES; HARRÉ, 1990, p. 8).
13
Não aprofundaremos aqui a temática do mito do amor romântico, porém ressaltamos que ela tem sido
pesquisada por muitos(as) teóricos(as) feministas, especialmente no que tange aos debates acerca da violência de
gênero exercida no contexto das relações afetivo-sexuais heterossexuais. De acordo com Low (2012), um dos
mitos que compõem a noção de amor romântico é o da incompletude dos sujeitos, que se expressa na ideia de
que, especialmente as mulheres, são metade de uma laranja ou uma panela sem tampa, e que, ao encontrarem um
amor "verdadeiro", isto é, o/a parceiro/a "ideal", sua "alma gêmea", se sentirão completas como uma laranja
inteira, uma panela com tampa etc. Esse mito parece re-produzir uma ordem binária, dicotômica e hierárquica,
que estrutura o sistema sexo/gênero reconstrói posições desiguais, opostas e rígidas entre masculino e feminino,
homem e mulher etc. (SCOTT, 1990).
67
Fazendo um paralelo com o discurso médico tradicional alicerçado no modelo
tecnocrático de medicina, teríamos as seguintes posições de sujeito complementares: médico
que tem detêm o saber e o poder de agência e o(a) paciente que não tem o saber nem o poder
de ação. Grande parte da assistência ao parto e nascimento no Brasil baseia-se nesse modelo
que, segundo Davis-Floyd (2012), possui como algumas de suas características principais:
separação mente/corpo, o corpo é visto como uma máquina, o(a) paciente é visto(a) como um
objeto, organização hierárquica e padronização do atendimento, autoridade e responsabilidade
inerentes a(o) médico(a), entre outros. Todos esses aspectos estão presentes nos relatos dos
pais a seguir, nos quais eles se posicionaram ou foram posicionados como quem não
sabe/impotente.
Os repertórios utilizados nas falas desses pais demarcam a posição de não-saber deles
em relação aos médicos(as). A impotência (im+ potência = ausência de poder) é o sentimento
que é citado como resultado de ser posicionado e de se posicionar como aquele que não sabe e
consequentemente não tem poder de agência, ou seja, de escolha e de ação.
[...] Nossa cara, veio um médico, uma médica, muito pior cara! (risos geral) Aí foi
quando eu pensei meu irmão... sabe oh... eu até coloquei aqui, sensação de
impotência velho [...]. Porque você está na mão do médico, o que você vai fazer?
(André).
Rafael dialoga com André e complementa:
[...]. Você fala que o médico e a médica te deixou com uma sensação de
impotência né, não deu uma orientação, deixou você realmente sem ter o que
fazer, porque a gente é leigo mesmo, eles que estudaram durante anos né, a gente
fica na mão deles, [...].
Essas narrativas expressam os jogos de poder presentes nas relações hierárquicas, nesse
caso médico(a)-paciente, na qual o(a) médico(a) é ativo(a) e o(a) paciente (como o próprio
termo aponta) é passivo(a). Walter acrescenta ao diálogo sua experiência no pós-parto
imediato:
Mas eu acho que foi uma experiência ótima, acompanhei o parto, infelizmente
aconteceram umas coisas que eu não queria antes né, quando eu fui perceber a
enfermeira já tinha aspirado, já tinha aplicado o colírio, já tinha feito o procedimento
que teoricamente a gente já tinha planejado que não queria que acontecesse, com
toda essa... acabamos fazendo um planejamento que não ocorreu, então acho que pra
mim isso foi um pouquinho... frustrante, e todo o cenário, do que eu vejo assim no
final foi frustrante...
Esse pai relata o sentimento de frustração especialmente quando as decisões sobre os
procedimentos com o bebê não são respeitadas. Nas maternidades o que prevalece são as
68
intervenções de rotina14 que grande parte dos(as) profissionais continua executando sem se
atualizarem sobre as evidências científicas a respeito ou as próprias diretrizes do Ministério da
Saúde. As normas institucionais predominam diante dos desejos e escolhas pessoais das
famílias que na grande maioria dos casos sequer é ouvida e dificilmente é acolhida.
[...]É... ele foi um médico que... ele gostava de falar algumas piadinhas sabe, que na
hora eu tentava me concentrar pra não perder a cabeça, coisas... fora daquele
momento é... 'É mãe, na hora de fazer foi fácil agora eu quero ver!' (reações de
espanto) e por aí vai, isso e mais coisas, e eu me concentrando muito, Renata [doula]
olhava assim pra mim e balançava a cabeça, no posicionamento de pai naquele
momento eu tinha que manter a calma, porque o parto, mesmo sendo normal, estava
nas mãos dele né[...] (Luciano).
O que Luciano denomina de “piadinhas” é incluído como uma forma de violência
obstétrica, neste caso, violência verbal e psicológica (humilhação, ameaça). O pai expressa
seus sentimentos de raiva e indignação que tiverem que ser contidos por medo de que isso se
revertesse de forma negativa na assistência médica prestada a sua esposa, no parto.
A violência obstétrica (VO) caracteriza-se pela:
Apropriação do corpo e dos processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais
de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e
patologização de processos naturais causando a perda da autonomia e capacidade de
decidir sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de
vida das mulheres. (definição dada pelas leis venezuelana e argentina onde a VO é
tipificada).
Entretanto tal violência ainda não constitui crime tipificado na legislação brasileira 15,
esse fato atrelado ao desconhecimento gera um número muito baixo de denúncias no
Ministério Público e impunidade.
A experiência do André diante da pressão do médico plantonista para que sua esposa
fizessem uma cesariana, sem que houvesse uma indicação real naquele momento e
desconsiderando a escolha do casal pelo parto normal também pode ser incluída como
violência obstétrica:
“[...]. ‘Não doutor, mas ela quer normal né’. Aí ele falou: ‘Oh minha experiência de
médico é a seguinte, ela vai ficar aqui até amanhã, e vai ser cesárea, você vai fazer
cesárea agora ou não?’ [...]”.
14
A antropóloga e pesquisadora sênior da Universidade do Texas em Austin, Robbie Davis-Floyd foi quem
mostrou pela primeira vez que essas condutas hospitalares no parto e nascimento, chamadas de intervenções de
rotina, não eram obra do acaso, determinados pelo hábito ou baseados em evidências favoráveis as gestantes.
Para ela, essas intervenções são rituais inconscientes construídos para enaltecer os pilares constitutivos da
obstetrícia contemporânea: a compreensão cartesiana do mundo (separação corpo/mente) e a defectividade
essencial da mulher (crença de que a mulher é defeituosa e incapaz de parir sem a ajuda médica). (JONES,
2012).
15
Uma pesquisa realizada em agosto de 2010, pela Fundação Perseu Abramo, em parceria com o SESC, mostrou
que uma em cada quatro mulheres (25%), sofre violência no parto. As consequências extremas da violência
obstétrica são: partos degradantes e inumanos, complicações de saúde, estresse psicológico severo, traumas
físicos
e
em
alguns
casos
morte
por
negligência
(https://temosquefalarsobreisso.wordpress.com/2015/06/01/violencia-obstetrica/).Em alguns estados brasileiros
como Santa Catarina a violência obstétrica já é considerada crime.
69
3.3.2 Pai que sabe
O posicionamento pai que sabe só é possível porque no discurso da Humanização do Parto
e Nascimento, baseado no modelo humanístico (biopsicossocial) de medicina, há duas
principais posições de sujeito disponíveis: profissional de saúde e cliente. Contudo, essas
posições de sujeito se definem a partir dos seguintes princípios: mente e corpo como unidade;
o(a) paciente como sujeito relacional; conexão e afetividade entre profissional e paciente;
informação, tomada de decisões e responsabilidade compartilhadas entre profissional e
clientes; ciência e tecnologia contrabalançadas com humanismo; entre outros (JONES, 2012).
Há, portanto, uma corresponsabilidade na tomada de decisões entre o profissional de
saúde e a parturiente e o(a) acompanhante quanto aos procedimentos no trabalho de parto,
parto e nascimento, a partir do pressuposto de que ele(as) também tem saber e poder de
escolha, agência. Identificamos na fala dos pais que participaram da oficina, a informação e o
conhecimento sobre as intervenções com a parturiente e o bebê, o que possibilitou um
posicionamento ativo, como um pai que sabe. Esse posicionamento se manifestou de
diferentes maneiras e momentos como iremos discutir a seguir.
Cláudio Jorge exerceu a função de porta-voz da parturiente, porque é ele quem anuncia
e determina como será o parto, nesse momento ele fala pela sua esposa para o obstetra:
[...]'Dr. Paulo, prepara o bixo, que a gente vai cortar o buxo agora', aí ele [o obstetra]
disse 'Decisão mais certa, aproveite'. Daí então, eu disse bem assim 'Dr. Paulo é o
seguinte já que é cesárea eu quero uma cesárea humanizada' [...].
Os repertórios linguísticos estão no modo imperativo (ordem ou pedido) e não é
possível identificar se a decisão expressa pelo pai foi compartilhada ou não com a parturiente,
já que ele não relatou o posicionamento da sua esposa, no momento de decidir pela cesárea.
Luciano também assumiu o posicionamento do pai que sabe, afirmando como seu
estudo anterior junto com a equipe de doulas lhe proporcionou informação e segurança para
que durante o trabalho de parto resistisse às falsas indicações para uma cesariana e defendesse
com sua esposa a escolha pelo parto normal:
[...]. O parto aconteceu às nove horas da manhã, quando ele [o médico plantonista]
já tinha assumido, foi examinar, já tinha dilatado, e ainda assim não tinha estourado
bolsa nem nada. Aí... minha esposa bateu o pé mesmo junto comigo também, e com
todo o acompanhamento que ela teve com as doulas também, a gente queria normal
e a gente estudou várias coisas [...] que não tem nada a ver, pode tá laçado, pode tá
um monte de coisa, de cabeça pra baixo dá pra nascer normal tranquilamente [...]
(Luciano).
Em outro momento Luciano assumiu a função de protetor do recém-nascido contra
intervenções e rotina indesejadas e\ou desnecessárias. Esse é um lugar no qual as doulas
70
frequentemente posicionam os pais durante as consultas na gravidez e nos grupos de apoio ao
parto e nascimento humanizados. O objetivo maior é que as boas práticas de assistência ao(a)
recém-nascido(a) preconizadas pelo Ministério da Saúde sejam realizadas e as escolhas do
casal respeitadas. As frases a seguir exemplificam bem isso: “[...]. Oh não vou cortar agora
não, deixe parar de pulsar o cordão umbilical[...]” e “[...]. Não vai colocar esse colírio16[...]”.
As doulas também posicionam os pais na cena do parto e nascimento, contudo, no
momento da experiência, tomado pela emoção, nem sempre eles conseguem agir conforme
foram posicionados por elas. É o que relata André:
[...] tudo que eu aprendi lá com as doulas eu não consegui fazer né (risos geral), que
era 'Oh não deixa pôr o negócio no olho do seu bebê. Pai é você quem vai olhar lá.
Pai é não sei o quê...'[...].
Outra função exercida pelo pai que sabe é a de protetor da parturiente contra
intervenções indesejadas durante o trabalho de parto. Nesse momento a parturiente posiciona
o marido como seu defensor diante da possibilidade anunciada pelo(a) médico(a) da
realização de uma episiotomia17. O pai se posiciona como aquele que sabe ao discutir com
o(a) profissional, mesmo quando este(a) fala das possíveis consequências da não realização do
procedimento.
[...] 'Mô eu não quero fazer episiotomia' assim na frente dele, aí eu 'olha, ela não
quer fazer, ela não vai fazer episiotomia'. Aí ele disse 'é, mas é uma responsabilidade
muito grande que você vai ter que carregar porque pode ser que ela fique dilacerada
e tenha incontinência'. Aí eu disse 'Não, mas ela não quer, então não vamos fazer,
não vamos fazer...' [...] (Luciano).
Nesse diálogo é possível identificar com clareza os jogos de posicionamento (entre a
esposa e o marido, o pai e o médico) e também os jogos de poder na relação médico-paciente.
O fato do casal ter estudado sobre as evidências científicas a respeito das intervenções de
rotina durante o parto, os deixou mais seguros para manter as suas escolhas, mesmo diante da
16
É uma solução de nitrato de prata a 1% em cada um dos olhos do recém-nascido no prazo de uma hora após
o nascimento. A prática no Brasil, desde 1977, é realizada para a prevenção da conjuntivite gonocócica, causada
pela bactéria gonococo, que pode ser transmitida pela mãe durante o nascimento, por contato vaginal. O uso de
rotina é muito polêmico porque só é justificado no caso da mulher ter tido gonorreia durante a gestação ou não
ter realizado um pré-natal adequado, entretanto, até em casos de cesariana ele é aplicado. Diante de tanta
controvérsia, a mãe ou o pai tem o direito de recusar o procedimento e assinar um termo de responsabilidade,
oferecido pelo próprio hospital. Normalmente, a comprovação da ausência de doenças ou do tratamento delas
durante
o
pré-natal
serve
de
justificativa
para
dispensar
o
cuidado. Maiores
informações:http://revistacrescer.globo.com/Bebes/Saude/noticia/2015/10/olhos-do-recem-nascido-e-precisopingar-nitrato-de-prata-apos-nascimento.html
17
Incisão efetuada na região do períneo (área muscular entre a vagina e o ânus) para ampliar o canal de parto.
Segundo a OMS (1996), a episiotomia é uma operação ampliadora para acelerar o desprendimento diante de
sofrimento fetal, progressão insuficiente do parto e iminência de laceração de 3º grau (incluindo mulheres que
tiveram laceração de 3º grau em parto anterior). Contudo, seu uso rotineiro pode levar a uma série de
complicações, dentre as quais se destacam: infecção, hematoma, rotura de períneo de 3º e 4º graus, dispareunia
(dor durante o ato sexual) e lesão do nervo pudendo (responsável pela sensibilidade do períneo).
71
ameaça do médico. O pai assume um posicionamento também de mediador da relação mãemédico, apoiando as escolhas da mulher e respeitando sua autonomia.
Há pesquisas, como a de Diniz et al (2014), que relacionam a presença de um/uma
acompanhante a um número menor de intervenções no parto e nascimento dialogando com o
que identificamos também em nossa pesquisa.
O apoio contínuo no trabalho de parto e nascimento é uma intervenção segura e
altamente efetiva para melhorar os resultados maternos e neonatais, com altos
índices de satisfação materna, custo muito baixo, e é um direito das mulheres
brasileiras, conforme estabelecido pela Lei no 11.108/05. [...] (DINIZ et al, 2014, p.
151).
3.3.3 Pai expectador
O posicionamento do pai na cena do parto e nascimento apenas enquanto um expectador
é algo frequente. Espírito Santo; Bonilha (2000) discutem algumas razões apontadas pela
equipe, para justificar a não permissão da presença do pai na sala de parto. Nesse estudo o pai
é considerado pela equipe como um “convidado” que deve obedecer às suas orientações, nem
ele nem a mãe são ouvidos quanto a como gostariam de vivenciar essa experiência.
Uma das funções que a equipe dos(as) profissionais de saúde, especialmente
médicos(as) e enfermeiros(as) tenta impor ou impõe para os pais no momento do parto e
nascimento é o de fotógrafo. André relata como não aceitou ser posicionado dessa forma pela
enfermeira:
[...]. Aí como foi cesárea, eu fiquei do lado de cá e a mulher do lado de lá, não sabe
o que tá acontecendo, inconsciente né, tá... tá... meche aqui, meche ali (riso), e eu
tentava olhar, até onde meu limite permitia né. Aí teve um momento que uma das
enfermeiras disse: 'olha, ela vai tirar!'. Aí ela - 'vem, vem bater foto, vem bater
foto!'. Aí eu - 'Não, não vou bater, toma aí a ...' Entreguei pra ela e uma das
enfermeiras bateu lá a foto.
Enquanto Rafael e Márcio (respectivamente) afirmam que assumiram essa posição:
"[...] E as médicas também na hora do parto. 'E aí pai? Tá preparado? Tá com o celular? Eu
vou tirar agora' [...]". "[...]. Aí chegou lá na hora, já tinha montado os campos e tal, tal, tal, ela
já estava com as pernas abertas para fazer o normal e tal, eu filmando tudo [...]".
Quando a via de nascimento é uma cesariana não há muito espaço para a participação
do pai no centro cirúrgico, por essa razão muitos são posicionados e se posicionam como
expectador. Nesse caso, André se posiciona como acompanhante da sua esposa, mesmo diante
da sua dificuldade pessoal de olhar para aquela intervenção cirúrgica.
[...]E assim, essa foi a experiência marcante que ficou pra mim mesmo. Acompanhei
o parto, assim como você né, por trás, só que eu ficava com um olho nela e outro no
procedimento né. Do primeiro ao último corte, do primeiro ao último ponto,
acompanhei tudo, segurando pra não cair né (risos de todos), porque é uma coisa
muito agressiva né (vários comentários concordando ao mesmo tempo). Corta e tira
72
os pedaços de carne que fica aqui sobrando, é um negócio feio de ver, isso foi bem
marcante [...]
Mesmo quando os pais ocupam o posicionamento de expectador, através das funções
de fotógrafo e/ou filmador durante o trabalho de parto, geralmente deixam esse lugar no
momento do nascimento ou imediatamente depois e justificam isso pela intensidade
emocional vivenciada, posicionando outras pessoas nesse lugar. A fala de Márcio exemplifica
isso:
[...] 'Eu não quero nem saber, filma aí, por favor'. Aí teve uma hora que alguém
disse 'oxi ele pensa que eu sou filmador'. Uma coisa assim (risos de todos). 'Ele
esqueceu comigo[...].
E a de Cláudio Jorge também "[...]. Nem me liguei mais em filmagem, já tinha pego
ele chorando e tudo o mais, aí daí ele já passou pelo pediatra, já limpa direitinho e me entrega
[...]".
3.3.4 Pai Participante
Alguns pais posicionaram-se e foram posicionados pela equipe de assistência (doulas,
enfermeiros(as), médicos(as)) e pela própria parturiente como participantes ativos, durante o
trabalho de parto e parto, assumindo diferentes funções.
Cláudio Jorge monitorou as contrações em casa e entrou em contato com o médico para
informar como estava a evolução do trabalho de parto, função geralmente realizada pela
doula, quando há uma, o que não era o caso.
[...]Só que nesse que não era, começou a contração mais forte pra sexta-feira, aí na
sexta a noite ela começou com uma contração mais forte, uma contração muito forte,
aí eu liguei pro Dr. Paulo Victor e ele: 'Oh, é nesse tempo e nesse ritmo, anote'. Aí
de sexta pro sábado anotei tudo, aí ele ligou sábado de manhã 'E aí?' 'Oh tá do
mesmo jeito'. Aí quando é sábado de manhã começou a aumentar as dores e o ritmo.
Márcio relata que ofereceu suporte físico e psicoemocional à esposa durante o trabalho
de parto. "Ela ficava dançando no chuveiro e eu do lado dela, pegado na mão dela 'E aí,
Luciana?' e ela 'Tá doendo!'. Aí eu 'Beleza, tamo junto' [...]".
O termo acompanhante tem sido utilizado para descrever o suporte por diferentes
pessoas, de acordo com o contexto assistencial envolvido, podendo ser profissionais
(enfermeira, parteira), companheiro/familiar ou amiga da parturiente ou doula. O suporte no
trabalho de parto e parto consiste na presença de uma pessoa que ofereça conselhos, medidas
de conforto físico e emocional, e outras formas de ajuda (BRÜGGEMANN et. al, 2005).
73
Eduardo conta que realizou uma manobra para alívio da dor que é tradicionalmente
exercida pelas doulas e conhecida como "fórceps de parteira":
[...] ela ficou na banqueta e eu fiquei sentado na bola de pilates atrás dela, e a
acompanhando com o movimento, fazendo a massagem, fazendo aquela massagem
que aperta aqui o quadril que antes [do trabalho de parto] é o pior, mas que naquele
momento é o melhor possível para a mulher [...]
Outra forma do pai participar nesse momento é oferecendo suporte à parturiente através
do cuidado com a estrutura física e ambiência, conforme relata Luciano:
[...] aí a gente lá na sala, era muito interessante porque quando começou mesmo as
contrações, ela ficava muito indecisa, várias partes, ela pedia pra eu desligar a luz,
ligar a luz, mandava desligar o ar condicionado, mandava ligar de novo, ia pra
banheira, tomava banho, pegava a bola, fazia todo o procedimento lá [...]
No parto domiciliar, esse cuidado com o ambiente físico e com o suporte para a
recepção da equipe se torna ainda mais necessário, contudo, nesse caso, a equipe assumiu
essas atribuições, liberando Eduardo do lugar que ele próprio havia assumido:
[...]. Aí eu tava tentando dá um auxílio logístico que era a minha parte né, a parte
logística da casa e de massagem na Maria né, de ficar com ela. Só que não foi
necessário porque a equipe ajudou. [...]
3.3.5 Pai mediador
Durante o trabalho de parto, em diversos momentos, o casal precisa tomar algumas
decisões, especialmente no que diz respeito às intervenções com a parturiente e o bebê e a
escolha da via de nascimento. Nestas situações, alguns pais posicionam-se como mediadores
na relação da parturiente com a equipe, exercendo diferentes funções como orientador,
conselheiro e porta-voz.
Cláudio Jorge relata o diálogo com a sua esposa diante da decisão sobre o parto normal
(com intervenções, no caso ocitocina18) ou a cesariana:
[...] acho que o momento é esse que você sempre esperou, não quero você acabada
em cima da cama com ocitocina, lascada e mal paga, sem aproveitar Pedro, muito
menos eu que vou ficar preocupado com você [...].
18
Ocitocina ou oxitocina é um hormônio produzido pelo cérebro e armazenado(a) na hipófise posterior
(Neurohipófise) tendo como função: promover as contrações musculares uterinas; reduzir o sangramento durante
o parto; estimular a liberação do leite materno; desenvolver apego e empatia entre pessoas; produzir parte do
prazer do orgasmo; e produzir medo do desconhecido. Durante o trabalho de parto, parto e nascimento a
ocitocina sintética pode ser injetada num músculo grande (como os glúteos) ou adicionada a um fluido
intravenoso que vai correr através de um cateter para a veia. Utilizada para estimular as contrações, diminuir o
sangramento e estimular a produção de leite, contudo, seu uso inapropriado pode acarretar no aumento das
contrações de forma intensa, o que gera uma maior sensação de dor, podendo promover a necessidade de outras
intervenções, como a analgesia (anestesia na região do períneo) e até a cesariana.
74
Eduardo narra o momento em que o casal estava diante de uma decisão difícil, ir para o
hospital ou permanecer em casa para tentar o que eles realmente queriam, o parto domiciliar.
O pai se posicionou como mediador, dialogando sozinho com a esposa e depois comunicando
a decisão do casal a enfermeira obstetra responsável (Renata).
[...] 'Como é que a gente faz, elas estão dizendo que nós temos que ir para o hospital,
como é que você quer fazer?' Aí ela falou que queria ficar vivendo o trabalho de
parto em casa até enquanto fosse seguro para ela e para a Alice e aí a gente disse
isso para a Renata [...]
Márcio mediou a relação da sua esposa com a irmã dela que durante o trabalho de parto
estava atuando como enfermeira obstetra:
[...]. Aí eu falei assim pra minha cunhada 'Fernanda...'. Aí ela 'Tá começando a ficar
interessante Márcio...' (risos de todos), como ela é enfermeira eu digo 'Eu tô aqui
véi, e aí?'. Aí a Luciana gritava um pouco mais. Foi para o banheiro, ficou um tempo
debaixo do chuveiro, com a água quente caindo nas costas, quando ela voltou pra
sala e deu esse grito. Aí a Fernanda 'Não tá na hora ainda não', minha cunhada. Aí eu
disse 'Luciana e aí?' com a minha esposa. Aí ela disse 'Eu não aguento mais!!!' (risos
de todos) [...]
Márcio teve o cuidado de perguntar a sua esposa o que ela estava sentindo para que
juntos tomassem a decisão de qual seria o melhor momento de irem para o hospital. Nessa
posição de intermediário, ele favoreceu o protagonismo da parturiente.
3.3.6 Pai que cuida
Para os participantes desta pesquisa, a dimensão do cuidar tem emergido nos diversos
momentos da construção da sua paternidade. Contudo, a maneira como cada pai reage ao se
posicionar ou ser posicionado como cuidador difere de um para o outro, enquanto alguns
lidaram com naturalidade, outros sentiram-se inseguros, pressionados e preocupados.
André relata sua surpresa e insegurança quando ainda no hospital a enfermeira o
posicionou como aprendiz de cuidador
[...] 'E agora sou eu quem vou ter que trocar, mas...?'. Cara ali parece que começou a
bater o meu desespero né. 'Oh mãe, vem cá, que eu não tô dando conta não, vem cá'
(risos geral). Aí ela, 'Não filho, é isso aí mesmo, aprende' (risos geral).
Diante da incerteza quanto às novas habilidades que lhe foram solicitadas, André
procura o apoio da sua mãe que reafirma o seu lugar enquanto pai que precisa aprender a
cuidar.
Luciano também relata que a enfermeira o incentivou a dar o primeiro banho e expressa
sua satisfação com essa experiência:
75
[...] Eu dei o primeiro banho também (risos de todos), aliás aconteceu do mesmo
jeito, a enfermeira veio dar banho, só que pediu para eu dar banho com ela, pra
ajudar também e ficar marcado isso aí do primeiro banho nela, e foi perfeito,
coloquei a roupinha [...]
Já Eduardo não se sentiu seguro para dar o primeiro banho sozinho e contou com a
ajuda da enfermeira:
[...] Então é assim, eu também participei muito, a primeira roupa eu que ajudei a
vestir que eu estava junto com a enfermeira, e o primeiro banho que foi 24 horas
depois, foi o banho de ufurô, aquele do balde assim com uma temperatura legal,
simulando o..o... dentro da barriga da mãe né, e eu não tive coragem de dar o banho
sozinho então foi um banho a quatro mãos, eu e a enfermeira [...] (Eduardo).
Nesse caso foi o pai quem solicitou a enfermeira permissão para fazer os cuidados
básicos e insistiu mesmo diante da resistência inicial dela, se posicionando como aquele que
pode aprender a cuidar:
[...]. Aí eu fiz questão da primeira fralda ter sido minha, o mecônio né, acho que o
mecônio, a primeira fralda foi eu que dei o banho. A enfermeira começou e eu disse
'Oh deixa eu terminar'. Aí ela disse 'Não, é porque o pai...'. Aí eu 'Deixe, eu vou
aprender, vou dar um jeito, derrubar eu não vou!', 'Tá bom, cê quer'. Aí eu dei o
primeiro banho, acompanhei, todas as roupas era eu quem trocava [...] (Cláudio).
Uma grande pressão de ser posicionado enquanto cuidador foi sentida por Walter, sem
ter o apoio da sua família para ajudá-lo, de acordo como ele:
[...] Mas, no final, pra mim o choque grande foi os primeiros dias, os dois ou três
primeiros dias, sem conseguir dormir, aquela pressão de cuidar, ter que trocar, todo
o cuidado no hospital, isso pra mim foi... só eu e ela, a gente não tem nenhum
parente aqui, acho que isso pra mim foi uma pressão grande sabe. Eu não conseguia
dormir, sentava numa cadeirinha, mas ficava o tempo todo de olho na criança,
quando eu tava conseguindo dormir ele já acordava, ás vezes alguma coisa
incomodava e ele chorava muito, eu acho que isso pra mim foi... [...]
3.4 Parto Humanizado: uma questão de sorte ou confiança?
Conforme informado anteriormente, os participantes desta pesquisa estão envolvidos
com o Movimento de Humanização do Parto e Nascimento em Alagoas. Participaram dos
grupos de apoio ao movimento, contrataram equipe de parto domiciliar ou de doulas,
buscaram conhecimento e apoio, seja na contratação de um/uma obstetra referenciado(a) por
ser humanizado ou buscando junto ao(as) médico(as) plantonistas vivenciar o mais próximo
possível desse modelo. Portanto, esse foi um tema recorrente no momento da oficina
destinado ao compartilhamento das experiências durante o trabalho de parto, parto e
nascimento. Os repertórios linguísticos que predominaram na discussão sobre o parto
humanizado foram “sorte” e “confiança”, conforme identificamos no diálogo a seguir:
76
Rafael: Num momento como esse é... não deveria contar com a sorte né pra pegar
um bom médico, isso é já era...
Luciano: Já era pra ser sempre né, ter médico bom, sempre humanizados...
André: E aí a falta de respeito né... Oh depois que a gente passou por isso é que a
gente falou a importância de você já pegar o pré-natal com um médico bom né,
porque se a gente soubesse que era bom, pagava o dia dele né, eu não ia pagar o dia
da Maria (obstetra) lá... E a gente ficou né... Eu confiei muito no? Dr. Sandro né,
“confia aí na turma”, ah... heheheh
Não identificável: Não foi bom negócio não...
André: É, mais assim, conclusão né, aí Maria nasceu super bem, a cesárea foi super
bem feita, em casa a gente super bem, a recuperação da Mariana foi perfeita, foi
ótima, e o resultado final foi ótimo, foi Maria com saúde, super bem, então pronto
sabe...
Nesse diálogo a expressão “num momento como esse” enfatiza as características
peculiares do parto e nascimento, por ser um momento tão especial para as famílias, ao
mesmo tempo em que representa uma vivência de grande intensidade e complexidade
emocional. Já o repertório “contar com a sorte”, indica que nem sempre os(as) profissionais
prestam uma assistência humanizada, nas maternidades de Maceió, retratado pela expressão
“era pra ser sempre”, que expressa o desejo de um cenário de assistência humanizado, em
todos os serviços.
Quando o André fala que poderiam ter pago um/uma obstetra particular ao invés de se
submeterem aos/às médicos(as) plantonistas, assinalamos que há um atravessamento
socioeconômico importante nesse comentário porque essa família teria condições financeiras
de buscar uma alternativa, mas e aquelas famílias que não têm essa opção, que realmente
dependem dos plantonistas nas maternidades públicas. Para essas famílias, resta ter “sorte”?
A fala final de André também merece ser discutida porque expressa algo que acontece
com frequência. É muito comum que mães e pais usem a justificativa de que no final tudo
correu bem para buscar se conformar com os meios utilizados para chegar nesse resultado, no
caso, com a cesariana. Com isso, acabam não reclamando, prestando queixas, denunciando ou
indo atrás de seus direitos se os(as) filhos(as) nascem bem e saudáveis.
Luciano e sua esposa também tiveram a assistência médica de plantonistas, contudo, ao
contrário de André, eles conseguiram um parto normal humanizado, mesmo tendo passando
por situação de violência obstétrica. Ele também traz o repertório sorte “[...]. Ah inclusive a
gente teve outra sorte que foi a sala de parto humanizado tava disponível no momento e a
gente foi pra lá [...]”.
O fato de ainda precisar ter “salas de parto humanizado” nos faz pensar que não há as
condições físicas e humanas para a humanização do parto e nascimento em toda a estrutura
hospitalar, mas em apenas uma parte dela. Quem tiver a “sorte” de encontrar essa sala livre irá
77
usufruí-la, quem não tiver essa “sorte”, não terá acesso aos mesmos recursos, especialmente
os não-farmacológicos para o alívio da dor, como: banheiras, banho quente, bolas de pilates,
entre outros.
Por outro lado, o repertório “confiança” também aparece em outras falas, se referindo à
relação entre cliente e profissionais de saúde, como um ponto fundamental do modelo de
assistência humanista para a concretização de um parto e nascimento humanizados. Como
identificamos na fala de Márcio, que justifica o fato de não ter estudado como alguns outros
pais para compreender as intervenções no parto e nascimento, devido sua confiança no
médico, que além de excelente profissional é seu amigo, e pela presença da sua cunhada que é
enfermeira obstetra.
Ele é meu amigo [obstetra] é uma pessoa que eu sempre tive um respeito muito
grande, por tudo isso eu confiei e não me interessei em ler muito, porque às vezes
eu, quanto mais a gente absorve conhecimento, mas a gente ás vezes... crítico, aí eu
falei “não, não quero”, e eu tava sossegado também pela minha, minha, é... cunhada,
que é, trabalhou muitos anos no HU, ainda trabalha, com a parte de obstetrícia, então
eu tava tranquilo.[...]
O Eduardo também relata a importância da confiança na relação entre a família e a
equipe de parto domiciliar:
[...] a gente também pode confiar muito na equipe, na verdade houve uma confiança
mutua a gente tinha que confiar na Renata [parteira] de que ela ia dar a melhor
assistência pra gente e Renata confiou na gente que a gente foi corresponsável né,.
No momento em que a gente decidiu, que a Maria decidiu continuar o trabalho de
parto enquanto fosse seguro para a Alice, a gente tava assumindo um risco né,
porque o mais obvio era levar para o médico imediatamente e a gente não levou. E
assim, deu tudo certo, a Alice nasceu, nasceu saudável em casa, [...]
O repertório “confiança” está relacionado a experiências nas quais houve a contratação
do(a) obstetra ou de uma equipe de parto domiciliar, enquanto que o repertório “sorte” está
associado às experiências com os(as) médicos(a) plantonistas. Logo, para esse grupo de pais,
a assistência humanizada ao parto e nascimento é uma questão de confiança nos(as)
profissionais particulares, com os(as) quais foi estabelecido um vínculo anterior (tanto afetivo
quando financeiro) e de sorte quando se trata dos(as) profissionais plantonistas.
3.5 Nascimento: “partolândia” dos pais
A “partolândia” é um repertório que circula entre os(as) profissionais, doulas, militantes
e pais /mães que fazem parte do Movimento de Humanização do Parto e Nascimento. Refere-
78
se ao estado psicoemocional no qual a parturiente entra quando está na fase ativa do trabalho
19
de parto e perdura até o momento do nascimento.
De acordo com a psicofisiologia 20do parto, a mulher tem um apagamento do neo-córtex
21
o que significa que a sua atividade é diminuída, enquanto que a região chamada de cérebro
primitivo 22é ativada. Em termos comportamentais, a parturiente fica num estado mais
introspectivo, sua capacidade de raciocínio fica diminuída, enquanto que o seu emocional é
intensificado, nesse momento algumas reações podem se manifestar, como choro, gritos,
agressividade, medos, euforia, êxtase, prazer, etc.
Eduardo faz a comparação entre o seu estado emocional no momento do nascimento e o
que ocorre com a parturiente na “partolândia”:
[...] a Renata [parteira] pediu pra eu colocar a mão e eu senti o cabelo da Alice,
pronto a partir dali eu só sei o que aconteceu porque as pessoas disseram né, porque
eu acho que e um negócio parecido com esse da partolândia que ela entra né, porque
eu fiquei o tempo todo chorando muito e me tremia o tempo todo e aguardando
aquele momento e por volta das três e meia, mais o menos, é, não, três e vinte a
Alice nasceu... [...]
Cláudio Jorge não usa o termo “partolândia” porém relata a intensidade de sensações e
sentimentos vivenciada no nascimento do seu filho como a experiência mais incrível da sua
vida:
[...] Aí eu me emocionei logo, sempre me emociono quando eu lembro disso porque
eu acho que é, a coisa mais intensa que existe na vida de alguém, eu acho que... [...]
foi a coisa mais incrível que eu já vi, já senti e já presenciei em toda a minha vida,
acho que foi aquela sensação que eu esperar sentir, eu já imaginava algo muito
semelhante, mas aquém do que foi no momento [...]
Enquanto que a vivência da “partolândia” nas mulheres inicia durante a fase ativa do
trabalho de parto, esse momento de intensa reação emocional e mudança comportamental
acontece nos pais/homens durante o nascimento e pós-parto imediato. Márcio também relata a
sensação de êxtase e de anestesia nesse momento:
[...] aí foi aquele momento, eu cheguei nesse momento de ficar meio ‘o que está
acontecendo?’, tanto que o cara chegou pra mim e disse assim ‘papai, vai cortar o
cordão?’ (faz sinal que não com a cabeça), não foi por receio, nem medo nem nada,
19
Quando as contrações estão uma média de três a cada 10 minutos e a dilatação está acima de 4cm.
É o estudo das relações entre fenômenos psíquicos e fisiológicos.
21
A denominação que recebem todas as áreas mais desenvolvidas do córtex. Recebe este nome pois no processo
evolutivo é a região do cérebro mais recentemente derivada. Essas áreas constituem a "capa" neural que recobre
os lóbulos pré-frontais e, em especial, os lobos frontais dos mamíferos. É responsável por inúmeras capacidades
como o raciocínio abstrato, a linguagem e a resolução de problemas.
22
O cérebro primitivo começa no final da medula e inclui o cerebelo. Esta parte do nosso cérebro se assemelha
ao cérebro dos répteis, daí ser também chamado de cérebro reptiliano. É responsável pela manutenção da vida
(coração e respiração) e locomoção básica, também comanda as nossas emoções mais primitivas: o medo, o
desejo (por alimentos e sexo) e a raiva.
20
79
é que eu estava anestesiado, estava tão em êxtase naquele momento que tipo ‘papai
cortar o cordão, ão, ão, ão...’ (risos de todos).
Os pais/homens geralmente ficam preocupados com o “papel”, a “função” que
precisam desempenhar no processo do trabalho de parto, porém, no momento do nascimento
eles vivenciam uma intensidade emocional que os deixa anestesiados e muitos têm reações e
atitudes inesperadas. O nascimento, seria, portanto, a “partolândia” para esses pais.
3.6 Posicionamentos dos pais no Pós-parto
O sentir-se pai pode iniciar ainda durante a gestação, como vimos nos tópicos
anteriores, porém é a partir do nascimento que a paternidade é vivenciada de forma mais
intensa pelos homens porque eles começam a estabelecer uma relação direta com os(as)
filhos(as). O processo de torna-se pai envolve lidar com mudanças familiares, pessoais,
conjugais, de rotina, subjetivas e profissionais, conforme é apontado pela literatura
(FALCETO et al, 2008; JAGER; BOTTOLI; 2011; GONÇALVES et al, 2013) e também
relatado pelos participantes desta pesquisa.
Entre as mudanças mais mencionadas pelos pais, destacamos a abertura para rever
crenças e valores, possibilitada pela avaliação de si mesmo, das responsabilidades e
prioridades que envolvem a passagem para a paternidade, como percebemos na fala de
Eduardo:
[...] eu digo que eu melhorei muito com a Alice [filha] porque assim todos os
aspectos da minha vida que eu achava que podia dar algum exemplo mal pra ela eu
comecei a modificar imediatamente quando eu soube que ele ia vir no mundo, sabe.
Isso deve ter acontecido com vocês também, questão de alimentação, saúde, de ser
uma pessoa muito sem paciência, de ser muito ansioso, tudo que eu acho que pode
influenciar negativamente a minha filha eu vou moldando né.
Essa transição para a paternidade, pode envolver o processo de auto avaliação que
identificamos na fala de Eduardo e também uma revisão dos modelos parentais, como afirma
Piccinini et al (2004) e podemos observar na fala de Márcio:
[...]. E eu queria na verdade ser sempre o pai que eu não tive, é uma coisa meio
paradoxal né, eu não tive um pai e queria ser o pai que eu não tive, até o dia que eu
percebi que eu não precisava ser o pai que eu não tive, eu só precisaria ser Pai, com
“P” maiúsculo, precisaria ser Pai...
Para compreender as vivências emocionais e concretas da parentalidade, Houzel (2004),
citado por Jager e Bottolli (2011) e Gonçalvez et al (2013), propôs três eixos conceituais: o
exercício, a experiência e a prática. O exercício da parentalidade define um domínio que
transcende o indivíduo, a sua subjetividade e os seus comportamentos, situando cada sujeito
80
por meio dos direitos e deveres dos(as) genitores(as) estabelecidos pela sociedade na qual
vivem. A experiência diz respeito aos aspectos subjetivos, conscientes e inconscientes, da
transição para a parentalidade e da relação dos pais e mães com os(as) filhos(as). Por fim, a
prática engloba as experiências diárias que os pais e mães têm com as crianças, relaciona-se
às interações comportamentais e afetivas nos cuidados e brincadeiras com o(a) filho(a).
As dimensões da experiência e da prática da parentalidade foram identificadas nos
repertórios e posicionamentos dos pais, a partir da seguinte questão provocadora na oficina
“como está sendo ser pai do nascimento até agora?”.
Tabela 6: Repertórios e posicionamentos dos pais no pós-parto.
Repertórios e Posicionamentos dos Pais no Pós-parto
Repertórios
Posicionamentos
Brincar
Curtir com seu filho
Posiciona-se como Pai que se vincula
Converseira comigo
Dedicar [tempo] a minha filha
Felicidade de estar com o meu filho às tardes
Tudo dele [filho] é comigo
Posiciona-se como Pai que cuida
Eu fico de babá, sou babá
A gente teve que adaptar quase tudo
Você se refazer né, relativizar verdades
Posiciona-se como Pai que muda/ se adapta
Precisa fazer adaptações
Vocês são pais presentes
Eu ajudo minha esposa
Posiciona-se e como Pai participante
A gente faz tudo por igual
3.6.1 Pai que se vincula
Refere-se ao pai que estabelece um vínculo afetivo com seu/sua filho (a) que dialoga
com o conceito de envolvimento paterno. De acordo com Silva; Piccinini (2007) enquanto
alguns/algumas autores(as) trazem esse conceito como sinônimo de participação do pai na
família, há aqueles(as) que o entendem como um construto que engloba os seguintes aspectos:
comportamento do pai com o(a) filho(a), cuidados, sentimentos paternos, qualidade da relação
pai-criança, entre outros.
O sentir-se pai tem sido construído, a partir da prática da parentalidade (Houzel, 2004),
ou seja, através das ações de cuidado cotidianas, como na relação de Marcelo com seu filho:
[...]. Pra mim, enquanto ela estava gestante eu não era pai, não era pai. Eu me senti
depois que nasceu e a cada dia vem se fortalecendo, a cada troca de fralda, a cada
choro, a cada banho que normalmente sou eu quem dou, e é aquela coisa né, ele faz
81
cocô em você e você feliz da vida né (riso de todos), todo sujo de cocô e feliz da
vida [...]
Para Marcelo, é a partir do envolvimento e participação do pai nos cuidados diários com
seu filho que ele passa a se sentir e se posicionar enquanto pai. A vinculação também pode
acontecer pela interação através do brincar que podemos relacionar com a palavra “diversão”
dita na etapa de associação livre.
[...] Eu vejo hoje uma coisa incrível, como isso é impressionante, é maravilhoso, é...
cara, ele quer brincar, quer fazer as coisas, começa com uma converseira comigo
alguma coisa que eu não entendo (risos de todos), monta as coisas que ele quer, vai
lá tenta descobrir. Tudo, isso pra mim é uma coisa interessante, sempre senti
vontade disso, acho que viver essa experiência que eu estou vivendo é gratificante,
bem gratificante (Walter).
Walter resume sua experiência da paternidade como gratificante e enfatiza a
importância da interação com seu filho. Com relação a isso, a literatura (BRAZELTON et al
1987 apud GONÇALVES et al, 2013) aponta que a partir do segundo trimestre quando o
bebê evidencia maior tônus muscular, direciona o olhar, sorri intencionalmente e ensaia os
primeiros balbucios, os pais/homens sentem-se mais confiantes para interagir com eles, o que
favorece a consolidação da relação paterna-filial.
Rafael também relata a importância do brincar com a sua filha como a vivência mais
gratificante de ser pai:
[...]. Todo mundo falou aqui que sai cedo pro trabalho, chega em casa cansado, mas
quando ver a criança, o seu neném, dar aquele sorriso, brincar, não tem nada
material que pague, não tem a vida que você vivia antes né. Não lembra nem mais
como é que é uma saída, outra coisa depois do seu filho, então o mais gratificante
mesmo é você chegar em casa e só querer curtir com o seu filho mesmo.
3.6.2 Pai que cuida
Esse posicionamento ressurge no pós-parto, contudo ele é construído a partir de uma
argumentação diferente. Alguns pais relacionam o cuidado diário com os(as) filhos(as) com o
fato de terem renunciado oportunidades profissionais para dispor de mais tempo com eles(as).
O Márcio, por exemplo, saiu de um dos seus empregos e renunciou seus novos projetos
profissionais para participar mais da criação do seu filho.
[...] Eu faço só uma reflexão do quanto que o amor por um filho faz a gente mudar a
percepção e a gente abre mão de algumas coisas que a gente acha que nos
completava. Me completava a capacidade de estudar, de absorver conhecimentos, de
ter um retorno financeiro de um segundo emprego. Isso aí pra mim pela felicidade
de estar com o meu filho as tardes, sei todas as novelas, podem perguntar (risos de
todos). Todas as novelas estou assistindo do Velho Chico a... Vale a Pena Ver de
Novo, estamos lá nós dois juntos, jogando bola, descendo e subindo escada, indo na
cozinha, ele tendo medo da, da folha que corre no chão e o cara eita! É brincar com
82
ele, é ser esteio de segurança e ele chegar na sua perna e você dizer 'pode vim, eu
seguro', é uma folha, mas tá seguro... [...]
Esse relato se assemelha a definição de pais cuidadores como participação constante no
cotidiano dos filhos – no intuito de captar o sentido dado à paternidade e à masculinidade
(SUTTER, BUCHER-MALUSCHKE, 2008). O Eduardo também abre mão de tentar uma
seleção de doutorado para se dedicar mais a filha e ambos falam de uma ressignificação de
valores, prioridades e planos a partir da vivência da paternidade.
[...] Primeiro, eu vou falar da parte acadêmica porque foi uma situação que eu
também vivi e a minha vida passou a ser muito mais tranquila e feliz quando eu
decidi que a dedicação que eu tinha a vida acadêmica eu ia deixar de lado para me
dedicar a minha filha. Não é o filho que atrapalha a vida acadêmica, no meu caso era
a vida acadêmica que estava atrapalhando o tipo de pai que eu queria ser, então
deixa a vida acadêmica de lado e eu vou ser pai que é isso que eu tenho que ser. [...]
Contudo, existe um atravessamento socioeconômico importante nessas falas porque
Márcio e sua esposa são funcionários(as) públicos(as), ele não é o único responsável pela
provisão da casa e nem dependia desse outro emprego para a manutenção financeira da
família. Eduardo também é funcionário público e sua renda mensal possibilita sustentar a
família com tranquilidade. Esses pais podiam fazer escolhas, o que não é a realidade
socioeconômica da maioria dos pais brasileiros. Grande parte necessita, ao contrário, trabalhar
mais para aumentar a fonte de renda e conseguir suprir o aumento dos custos com a chegada
de um(a) filho(a). É o que identificamos na literatura, que enfatiza uma grande queixa quanto
à indisponibilidade de tempo necessária para exercer os cuidados paternos, justificada pela
insuficiência da licença paternidade e a longa jornada de trabalho (OLIVEIRA; BRITO, 2009;
BELTRAME; BOTTOLI, 2010; DA SILVA, 2015).
Além das condições socioeconômicas que favorecem mais tempo para que esses pais
convivam com seus/suas filhos(as), há também uma compreensão do cuidado como algo que
é aprendido. Com relação a disposição para aprender a cuidar temos o relato de Rafael, o
participante mais jovem da pesquisa, cuja gravidez da companheira não foi planejada:
[...] inicialmente nós morávamos na minha casa, junto com a minha mãe, eu, minha
mãe e ela, e ficava ainda indo na casa dela e na minha casa, ficava nessa peteca,
nesse vai e volta. Assim, pais de primeira viagem, mas querendo aprender né com os
pais, tentando absorver ao máximo no dia a dia e dar as caras pra aprender mesmo,
até hoje troco fralda, dou banho, introdução alimentar, acho que pra quem é muito
novo a gente até tá se dando muito bem [...]
André faz um relato bem-humorado da primeira vez que ficou sozinho para cuidar da
sua filha e hoje é ele quem passa a maior parte do dia com ela porque está finalizando o
mestrado e a esposa trabalha fora. Eles decidiram que seria melhor que Maria ficasse com o
83
pai do que numa creche, assim ele teve que aprender a ser um cuidador e hoje exerce essa
função com tranquilidade.
E o medo que dava 'vou ficar sozinho com Maria, e agora?' Porque uma coisa é você
ter suporte da sua esposa (risos de todos). Cara, da primeira vez que ela começou a
chorar e minha esposa não tava eu falei 'meu Deus, velho!' e chorou, chorou, eu falei
'caraca meu, o que é? É fome?' (risos de todos). Aí fui peguei o leite, tive que
aprender também, na raça né. Aí eu fui e coloquei o leite pra descongelar, aí dei, a
criança não quis, a Maria não quis e eu falei 'caramba e agora?!', aí balancei,
balancei, balancei, pô dormiu, porra era sono cara, caraca! (risos de todos) Perdi o
leite, já era! (gargalhadas). Minha esposa falou um monte (risos). Na raça eu
aprendi, aí agora eu já sei, um movimento eu já sei se é fome, e é fantástico reparar
isso também, pô eu fico o dia inteiro né mesmo [...]
Na pesquisa Gonçalves et al (2013) muitos pais (42%) associaram, de modo explícito, a
satisfação com a paternidade à vivência gratificante do envolvimento nos cuidados e cotidiano
do(a) filho(a), que lhes permitia acompanhar o seu desenvolvimento. Podemos identificar
isso na experiência de Cláudio Jorge:
[...] e a introdução alimentar do Pedro quem fez foi eu, a alimentação dele toda é
comigo, toda, almoço, sopa, papinha, tudo dele é comigo, eu faço questão, não é
uma coisa que eu faço como fardo, faço com prazer inclusive. Acordo ás 5horas, vou
no mercado da produção escolher fruta, verdura, legume, eu sou assim, faço dessa
forma e eu estou fazendo exatamente, não é como eu planejei, tô sendo exatamente
como eu queria que eu fosse [...].
3.6.3 Pai que muda/ se adapta
A chegada de um bebê provoca mudanças bruscas na rotina familiar, implica no
desenvolvimento de outras atribuições e consequentemente novas responsabilidades. Esse
posicionamento refere-se à capacidade dos pais em adaptar-se a essas mudanças, enquanto
eles passam por transformações pessoais, conjugais e profissionais.
O nascimento do(a) primeiro(a) filho(a) provoca a ampliação do subsistema conjugal ao
parental, o que promove consequências para a vida do pai e da mãe, tanto para eles como um
casal quanto como homem e mulher, individualmente (BORNHOLDT et al, 2007 apud
JAGER, BOTTOLI, 2011). As mudanças na relação conjugal foram apontadas por alguns
participantes da pesquisa, tal como identificamos no diálogo a seguir:
Eduardo: [...] as dificuldades que a gente teve depois não foi em relação à
paternidade, maternidade e a criança, foi em relação à concepção de casal mesmo,
enquanto homem, mulher e namoro. Essas coisas que são problemas que, depois eu
fui ver com outros amigos que isso acontece com todo mundo né, poxa como é que
pode isso tá acontecendo com a gente... (vários falando ao mesmo tempo)
Cláudio: Tamo junto! (risos)
Márcio: “O meu casamento vai acabar Jorge”, “calma Márcio”, “vai cara”, eu falei
assim pra ele “Jorge, meu casamento vai acabar cara. Eu vou sair de casa”...
Eduardo (P5): Pois é... (vários falando ao mesmo tempo, rindo)
84
Mais adiante o tema é retomado por André e um novo diálogo é construído:
André: [...] eu coloquei nas minhas coisas, diálogo, porque cara! Rola muito atrito,
rola atrito com o bebê, com o casal que antes não rolava né, me entendia tão bem
com a minha esposa, depois a gente começou, e a gente conversa muito, “vamos
refletir um pouco por quê, né?”. E a gente chegou que dorme pouco, você mal tem
tempo de falar as vezes, fica muita coisa acumulada, quando você vai solta um
monte de coisa, e muita vezes você tá cansado, aí você mistura tudo isso, gera um
choque cara, quando você vai conversar só... Aí meio que a gente tentou...
Marcelo: “Você tá tão diferente né?” “você tá tão diferente!”
André: Um fala isso pro outro, né?
Marcelo: Mas é isso aí, os dois com cara de sono, né...
André: É cara, e a gente meio que entra num acordo pra dar conta do bebê.
Márcio: Minha esposa diz “você fala demais na hora errada”, mas pô é a única hora
que tem pra falar (risos de todos).
Diante da chegada do bebê, homens e mulheres se submetem aos horários/rotina dele,
diminuindo significativamente o tempo de diálogo e de contato físico entre o casal. A libido
também é afetada durante o puerpério, geralmente tendo nenhuma (período de resguardo) ou
baixa atividade sexual. Se essas mudanças não forem bem compreendidas, o homem pode vir
a sentir-se isolado, negligenciado pela mulher e afetivamente distante do(a) filho(a),
promovendo conflitos interpessoais. Essa situação de adaptação pode ser melhor vivenciada
quando há parceria e cumplicidade entre os cônjuges, de maneira que um auxilia o(a) outro(a)
a cuidar do bebê, de si mesmos e da relação, prevenindo conflitos conjugais, favorecendo o
vínculo familiar e o exercício da paternidade (MALDONADO, 1980; OLIVEIRA; BRITO,
2009).
O lugar de homem viril, tão comumente determinado diante da masculinidade
hegemônica, bem como da mulher que está "a serviço sexual de seu parceiro" passam a ser
problematizados e demandam ser re-visitados por cada pessoa da relação e pelo casal. Está
presente também nos discursos dos pais/homens participantes da pesquisa, o quão importante
é dialogar sobre isso e escutar de outros que parece ser "comum" a essa fase.
Outro aspecto referente à mudança que apareceu com bastante frequência na oficina
refere-se à capacidade desses pais/homens de adequar/adaptar o que antes do nascimento eles
haviam tomado como regra a seguir às necessidades reais do bebê e da família no pós-parto,
conforme retrata Márcio:
[...] você se refazer né, relativizar verdades, por exemplo, ‘bote seu filho no berço’,
tem dias que tá na cama e vai ficar na cama porque senão ninguém dorme e amanhã
de manhã tá os dois trabalhando e lidando com situações...
O repertório “relativizar verdades” aponta para a dinamicidade das vivências parentais,
em constantes modificações, que os modificam enquanto pessoas, homens, maridos, pais.
Eduardo também relata a mudança de opinião em relação à cama compartilhada:
85
[...] Só que quando a Alice nasceu a gente teve que adaptar quase tudo. Por exemplo
né, a gente pensava que ia fazer, esse esquema da Alice no lugar dela de dormir e a
gente no nosso lugar. No nosso caso, da nossa família, a melhor decisão que a gente
tomou foi a cama compartilhada com a Alice [...].
Identificamos no diálogo a seguir a potência da experiência para repensar pré-conceitos,
mudar concepções e crenças, possibilitando a construção de novos conceitos e de outras
maneiras de compreender o que outrora estava apenas no campo da imaginação e que agora é
vivenciado de forma prática:
Cláudio: [...]. Aí lá no quartel nasceu o meu, o do Márcio, mas sete, oito borda-vidas
nasceram também, filho, e tipo assim o meu nasceu com quinze dias foi o Antônio,
com quinze dias foi a..., de quinze em quinze dias nascia menino. Aí a gente tem um
grupo no WhatsApp, aí todas as angústias, as alegrias, as conquistas a gente divide
lá no grupo...
Pesquisadora: Que legal!
Cláudio: Aí todo mundo fala isso, “não porque o meu dorme num quarto separado”,
“não porque o meu é na cama compartilhada”, “não porque o meu é num berço
dentro da quarto”, aí eu disse “oh gente o melhor jeito é o bem-estar da família
cara!”...
Pesquisadora: É isso mesmo!
Cláudio: Se é agarrado no peito, se é na cama compartilhada, se é no chão, se é no
sofá, meu irmão, é o bem-estar cara!
Eduardo: Até porque cada família tem especificidades, precisa fazer adaptações...
Esses pais não ficaram rigidamente presos a uma teoria ou opinião sobre a melhor forma
de cuidar do bebê, como no exemplo se é melhor dormir no berço ou na cama. São as
mudanças no cotidiano que exigem a construção de suas ações, a partir da própria
experiência, levando-os a questionar os discursos normativos.
3.6.4 Pai participante
O que nomeamos como pai participante dialoga com outras nomeações presentes na
literatura, como “pais presentes”, “novo pai” e “pai cogenitor”. A definição de “pais
presentes”, segundo Gabriel e Dias (2011) é dividir com a mãe os cuidados básicos do filho,
participar dos momentos (bons e maus), compartilhar atividades tipicamente exercidas pela
mãe, dispensar na assistência do filho a mesma quantidade de tempo.
Tal definição aproxima-se daquela de “novo pai” descrita por Ribeiro, Gomes e Moreira
(2015) aquele que é provedor, porém num exercício mais flexível, afetuoso e igualitário no
cuidado com seu filho e companheira" (RIBEIRO; GOMES; MOREIRA, 2015). A busca por
uma divisão equitativa no cuidado com os(as) filhos(as) é identificada na fala de Luciano:
[...] Só que aí ela acorda muito a noite né e eu acordo junto com a minha esposa, eu
chegava do trabalho cansado olheira e tal, bocejando muito e uma estagiária da obra
lá perguntou 'rapaz você está tão cansado' e eu 'é, estou muito cansado Ariel tem
86
acordado muito a noite' e eu até achei estranho porque ela falou 'ué você acorda?'
'sim, eu acordo, eu ajudo minha esposa, eu acordo, ela acorda, a gente faz tudo por
igual, eu não sobrecarrego ela' [...]
Nesse diálogo o pai precisa se justificar por ser participativo na criação da sua filha, não
se limitando apenas a função de provedor por estar seguindo as prescrições normativas da
masculinidade hegemônica. Identificamos correlação com a definição de pai cogenitor: pai
que cuida, brinca, instrui e demonstra afeto e amizade por suas crianças, desempenha
múltiplas funções, é mais participativo e envolvido (J. H. PLECK; E. H. PLECK, 1997 apud
VIEIRA et al, 2014) com a fala de Cláudio Jorge:
Dou aula quinta e sexta, então de segunda, de sábado a quarta, os três horários é
todo dele comigo, então tudo do Pedro é comigo. Laura fez a opção de estudar para
um concurso do IFAL também aí eu disse 'Olha, vá estudar e deixe o Pedro comigo',
então todas as noites quem acorda sou eu, não levo como fardo, enquanto ele tá
dormindo eu tô estudando, muitas vezes tô estudando de 22h até umas 2:30h, 3h,
então ele dormindo, eu estudando. [...]
Eduardo se posiciona e posiciona os demais pais da pesquisa como pais participantes.
Ele usa o repertório “pais presentes” no sentido de pais que participam dos cuidados dos(as)
filhos(as):
[...]. Primeira coisa, assim, sobre as vantagens de ter filho não tem como expressar
em poucas palavras né, todos vocês sabem todas as vantagens, se vocês estão aqui é
porque vocês são pais presentes, se não fossem presentes não estariam participando
desse tipo de pesquisa, seria até interessante ter pai que não participam do cuidado
da criança né, pra você (referindo-se a pesquisadora) ter uma visão mais
abrangente... [...]
Essa fala foi direcionada para mim enquanto pesquisadora, questionando a escolha dos
participantes da pesquisa. Posteriormente, me levou a refletir sobre o caminho percorrido até
o momento da oficina: a definição do tema, os critérios para escolha dos participantes (entre
eles, pais/homens que vivenciaram a gestação, parto e pós-parto dos(as) seus/suas filhos(as)),
os canais de divulgação da pesquisa para convidar os participantes (grupos de doulas, de
partos domiciliares...), o local de realização da oficina (no meu consultório num prédio
empresarial num bairro nobre da cidade). Tudo levou a formação de um perfil muito
específico de pais, homens que estão direta ou indiretamente envolvidos com o movimento de
Humanização do Parto e Nascimento em Maceió, e, em sua maioria participam do ciclo
gravídico-puerperal de suas companheiras.
Tal posicionamento, contudo, não foi encontrado de modo prevalente em outras
pesquisas, como a de Falceto et al (2008). Nesse estudo transversal envolvendo famílias de
153 crianças de quatro meses de vida, em Porto Alegre (RS), concluiu-se que é alta a
prevalência de famílias nas quais o pai não tem envolvimento ativo no cuidado de seu filho,
87
ocorrendo em especial quando a relação conjugal é problemática e a mãe não tem trabalho
remunerado.
4. O PERCURSO TRILHADO ATÉ ESTE MOMENTO
Retomo meu ponto de partida com a citação de Diehl, Maraschin e Tittoni (2006, p.
413): “O percurso se faz em uma trajetória que comporta deslocamentos e paradas. As
paradas envolvem lugares e posições, e os deslocamentos, modos e obstáculos à passagem.
[...]”. Eu me apropriei do mestrado como um percurso de tornar-se pesquisadora e aprender a
se posicionar numa comunidade científica em diálogo com seus pares no que concerne ao
referencial teórico-metodológico e campo-tema.
Nesta jornada, partindo do lugar aprendiz de pesquisadora pautada no construcionismo
social, umas das lições mais importante foi a compreensão do conhecimento como construção
social e da pesquisa como uma prática social, sujeita a reflexividade e orientada por uma ética
dialógica23 (SPINK, 2010). Compreendemos a pesquisa como “[...] um encontro negociado
(encontro de distintas reflexividades) a partir das posições assumidas tanto pelo/a
pesquisador/a como pelas pessoas com as quais se relaciona” (SPINK 2014, p. 164). Assim,
esta dissertação é uma versão possível da discussão sobre paternidades que emerge a partir do
nosso diálogo com os(as) autores(as) e com diversos(as) colaboradores(as) que emergiram dos
encontros acadêmicos, profissionais e da vida.
A definição do estudo sobre paternidade na gravidez, parto/nascimento e pós-parto foi
fruto de uma revisão de literatura preliminar na qual pude identificar poucas publicações que
envolviam o ciclo gravídico-puerperal. A metáfora do percurso ganha sentido também na
definição do objeto de estudo, quando partimos do princípio de que a paternidade, assim
como todos os outros conceitos, não estão dados a priori, mas são frutos de uma construção
social que pode ser analisada através de uma matriz que envolve três tempos (SPINK, 2010):
Tempo Longo (longa história de circulação dos repertórios linguísticos na sociedade), Tempo
Vivido (é o tempo da história de vida pessoal) e Tempo Curto (é o momento aqui e agora no
qual ocorre a interanimação dialógica e a produção de sentidos).
23
Envolve uma responsabilidade que extrapola a ética prescritiva e que é pautada pelo reconhecimento dos
processos de interanimação dialógica na produção dos sentidos.
88
Para discutir sobre o Tempo Longo em relação à temática, realizamos uma revisão de
literatura sobre paternidade, a partir do pressuposto de que para compreender um tema, é
necessário conhecer os discursos sobre ele. Nesse momento da pesquisa, lembro que fiquei
em conflito porque não conseguia visualizar a revisão de literatura tradicional - que mais
parece uma mera reprodução do que foi “encontrado”, numa escrita muitas vezes
desarticulada do referencial teórico-metodológico, na qual o(a) pesquisador(a) parece alguém
neutro(a) apenas coletando informações – como uma estratégia coerente com os princípios
epistemológicos, ontológicos, metodológicos, éticos e políticos que me norteavam.
Foi quando nós, do grupo de pesquisa PROSA, tivemos acesso e oportunidade de
discutir o artigo de Sharon Walker (2015) sobre revisões de literatura a partir de uma posição
sistêmica na qual os textos dialogam entre si como numa conversa. Sua inspiração foi um
texto de Alfonso Montuori (2005) – estudado por nós posteriormente – no qual ele propõe
que a revisão de literatura pode ser um processo criativo através de uma postura ativa do(a)
revisor(a) que constrói uma interpretação da comunidade científica a partir do diálogo com
os(as) autores(as) e suas produções.
Diante disso, optamos por realizar uma revisão de literatura dialógica e para tal
analisamos os repertórios linguísticos das publicações selecionadas nos bancos de dados
citados anteriormente. Identificamos, nessa revisão, que a maioria dos(as) autores(as) afirma
que no contexto atual, coexistem elementos que produzem a manutenção de uma estrutura
familiar mais tradicional, enquanto surgem outros que se contrapõe ou se diferenciam desse
modelo (COSTA, 2002; STAUDT, 2007; OLIVEIRA; SILVA, 2011; VIEIRA et al, 2014).
Essas redefinições nas identidades pessoais e conjugais promovem mudanças nos arranjos
familiares e consequentemente na vivência da parentalidade (TARNOWSKI et al, 2005;
SILVA; PICCININI, 2007; BELTRAME; BOTTOLI, 2010).
Essas controvérsias também são sinalizadas por Staudt (2007), quando situa que
enquanto para as mulheres a inserção no mercado de trabalho é mais uma questão de
oportunidades e de “provar competência”, os homens enfrentam questionamentos em relação
à própria masculinidade quando decidem executar tarefas consideradas essencialmente
femininas, como cuidar das crianças. “A mulher pode ser vista como tentando ocupar um
mundo do qual não teria condições de dar conta, enquanto os homens estariam deixando de
ser homens” (STAUDT, 2007, p.43).
O campo de estudos sobre masculinidades possui duas vertentes principais: as produções de
gênero e os estudos sobre homossexualidade, o que ambos têm em comum é a oposição e
89
crítica ao modelo de masculinidade hegemônica (MEDRADO; LYRA, 2002). Tal modelo foi
criado por Raewyn Connell que define masculinidades simultaneamente como
a posição nas relações de gênero, as práticas pelas quais os homens e as mulheres se
comprometem com essa posição de gênero, e os efeitos destas práticas na
experiência corporal, na personalidade e na cultura (1997, p. 35).
Segundo esta autora a masculinidade hegemônica corresponde a um conjunto de
prescrições que numa determinada sociedade é aceito como o ideal de masculinidade que
possui um forte poder de normatização, entretanto representam um modelo quase impossível
de ser alcançado. Visa cumprir com o seu objetivo do patriarcado de garantir a posição de
dominação dos homens e subordinação das mulheres.
O conhecimento que esta pesquisa constrói, possibilita compreender que novas/outras
paternidades favorecem novas/outras masculinidades que não se enquadram no modelo
hegemônico. Duas situações se destacam nesse sentido, o choro, tido tradicionalmente como
algo feminino que simboliza fraqueza e inferioridade e os trabalhos domésticos, também
historicamente relegados como algo de menor valor e de responsabilidade das mulheres.
Eduardo fala que foi chorar escondido da sua esposa e da equipe de parto domiciliar,
para manter a imagem de homem/pai forte e passar segurança para a sua esposa:
[...] Só que nisso, entre um exame e outro, quando a gente sabia que podia ia para o
Dr. Paulo Victor a qualquer momento, eu saia do quarto, deixava a Maria sozinha no
quarto com a doula e começava a chorar, muito preocupado, porque a Maria não
queria isso, queria muito ter o parto em casa, não queria ir pro hospital. Aí assim, eu
me acalmava, me reconstituía e ia pro quarto [...]
André também relata que saiu de perto da cena do parto para sentir-se a vontade de
desabar e chorar sem que ninguém o visse:
[...] Cara, até então eu não tinha chorado né, eu tava... baquiado pela situação, eu
tava tentando assimilar pra falar a verdade, aí quando vem tipo caramba vai ter que
fazer a cesárea e a Mariana não queria, tudo aquilo e ela tomando soro lá, nossa...
deu uma sensação, um turbilhão cara, eu lembro que eu fiquei nossa e até então ela
não me viu, a Mariana não me viu chorando, nem a doula, nem nada, mas teve um
momento que eu entrei nessa sala cara, aí eu comecei a refletir, tá fugindo do
controle, nossa cara, só eu, sozinho ali... eu desabei ali cara, chorei pra caramba. [...]
Nessas falas, apesar de admitirem a fragilidade, expressa pelo choro, apresentam a
necessidade de se esconderem, ainda arraigados no modelo hegemônico de masculinidade, de
que ‘homem não chora’, ou pelo menos não pode demonstrar sua “fraqueza”.
Com relação ao trabalho doméstico, no diálogo abaixo também emerge a contradição
entre as ações em uma nova masculinidade e o modelo tradicional:
Cláudio: [...] lá em casa na cozinha quem manda sou eu.
Márcio: Você é quase uma mulher pô!
Cláudio: É, é verdade (risos de todos).
Márcio: Você curte uma cozinha mais do que todo mundo aqui.
90
Eduardo: Eu também. Trabalho de casa é comigo.
Márcio posiciona Cláudio como mulher devido ao seu interesse e gosto pelas atividades
domésticas, fazendo uma clara divisão do que é trabalho masculino e do que é trabalho
feminino. Por outro lado, Márcio fala sobre isso com naturalidade e até um certo orgulho
pelas suas habilidades, enquanto Eduardo também se sente muito a vontade de revelar seu
gosto pelo “trabalho de casa”.
Talvez, reflete Oliveira (1998), uma postura mais igualitária em relação à parceira incluindo aí a divisão das tarefas domésticas e dos cuidados das crianças - seja possível para
apenas uma pequena parcela de homens, cujo status não colocaria em risco sua masculinidade
e posição de domínio ao adotar atitudes mais igualitárias. Situação que corresponde aos pais
participantes desta pesquisa, que se configuram como homens de classe média.
Essas discussões foram possíveis, pela aproximação e busca do entendimento de como
as teorias feministas e de gênero poderiam me auxiliar a desenvolver um olhar mais crítico
diante das publicações lidas. Esse momento representou deslocamentos pessoais e acadêmicos
significativos que me levaram a uma mobilidade discente na UFPE, no GEMA (Grupo de
Estudos Feministas sobre Gênero e Masculinidades) com a orientação do Prof. Dr. Jorge
Lyra, experiência que contribuiu sobremaneira na produção desse trabalho.
O que é ou deve ser paternidade e o que é ser pai tem norteado muitos dos discursos
presentes na literatura acadêmica, adotando uma tendência normativa, diante da qual
buscamos assumir uma postura crítica. A partir de Montuori (2005) que nos orienta a saber
quem somos e o que queremos falar se pretendemos desenvolver uma voz original na
academia, surgiu a seguinte questão: como desenvolver uma pesquisa sobre a temática sem
incorrer no que estava criticando na revisão? Na Banca de Defesa da Qualificação o Prof. Dr.
Jorge Lyra sugeriu o conceito de posicionamentos (DAVIES; HARRÉ, 1990) como
alternativa.
Este conceito nos auxiliou a não cair na armadilha denominada por Lyra e Medrado
(2002) como a eterna busca da essência. Esta armadilha é descrita como o erro de procurar um
único fundamento para o masculino - que fizemos um paralelo em relação ao pai pressupondo a existência de uma essência natural e inquestionável. O conceito de
posicionamento possibilita discutir paternidades, pautadas na perspectiva de uma psicologia
social de cunho construcionista em diálogo com uma concepção feminista de gênero.
Esse conceito foi útil para a análise dos repertórios dos pais/homens na oficina, como
também me auxiliou no processo de reflexividade. Ao analisar as minhas falas pude
91
reconhecer que me posicionei e fui posicionada de diferentes formas. Enquanto pesquisadora,
não assumi um posicionamento neutro - mesmo porque não acreditamos em neutralidade
científica – ao contrário, me senti afetada pelas histórias que escutei e por vezes esse afeto
transbordou de mim e se manifestou através de comentários e expressões faciais. Também
senti meus olhos lacrimejarem algumas vezes e em pelo menos um momento, lembro bem que
não contive as lágrimas. Meu posicionamento principal durante toda a oficina foi de
pesquisadora, contudo outros posicionamentos foram identificados na interanimação
dialógica, tais como: a psicóloga, a psicoterapeuta, a educadora perinatal e a mulher.
Para discutir o Tempo Vivido e o Tempo Curto dos participantes sobre suas
experiências como pais na gravidez, parto/nascimento e pós-parto elegemos a oficina como
método. As oficinas, além de estratégias metodológicas que propiciam um ambiente
conversacional rico como material de análise, também possibilitam a criação de um espaço de
diálogo entre os participantes, que foi muito valorizado por eles, especialmente pela falta
dessas trocas tanto no cotidiano, como nos lugares institucionalizados.
A partir da análise dos repertórios produzidos durante a oficina alguns aspectos são
ressaltados No primeiro momento de associação livre, os participantes trouxeram repertórios
relacionados a sentimentos (amor, carinho, alegria, etc.) e interação (amizade, companheiro,
parceria) construindo outros sentidos para o termo paternidade, aproximando-se do que as
pesquisas nomeiam como “novo pai”. A paternidade para esses pais se constrói na relação
com os(as) filhos(as), pela vinculação afetiva através de ações de cuidado e educação, cuja
experiência implica em mudanças.
Os posicionamentos dos pais produzidos durante a oficina foram: “pai que cuida”, “pai
que se vincula”, “pai que educa”, “pai que muda/se adapta”, “pai participante”, “pai
expectador, “pai que não sabe/impotente”, “pai que sabe” e “pai que faz mediação”. Dentre
esses, os que foram identificados em todas as etapas da oficina são: pai que cuida, pai que
participa e que muda/se adapta. Tais posicionamentos dialogam com as nomeações de “novo
pai” presentes na literatura que correspondem a uma maior participação dos pais nos cuidados
com os(as) filhos(as) e envolvimento emocional na relação com eles(as).
O que nos leva a inferir que para esses homens, as dimensões recorrentes no processo de
ser pai, que estão presentes desde a gestação até o pós-parto, são o cuidado, a participação e a
mudança. O cuidado tem sido historicamente atribuído às mulheres, portanto a recente
associação entre paternidade e cuidado, favorece à nomeação de novas/outras paternidades,
que produzem novas/outras masculinidades. Isso acontece na medida em que o cuidar passa a
92
ser incorporado como parte da paternidade e
compreendido como ação também do
masculino.
A proposta da Política Nacional da Saúde do Homem, principalmente a partir do eixo
paternidade e cuidado, é que o cuidado com os(as) filhos(as) seja estendido para a(o)
companheira(o), para a casa, favorecendo uma maior participação masculina nas atividades
domésticas e também no autocuidado. Assim, a concepção do cuidado como um atributo
natural do feminino começa a dar lugar a uma cultura de cuidado, que não se limita ao
cuidador, seja ele homem ou mulher.
A dimensão mudança está relacionada à vivência subjetiva da paternidade e refere-se a
mudanças socioeconômicas, familiares, conjugais, de planos, de rotina e também
intrapessoais. Para os participantes dessa pesquisa, tornar-se pai significa aprender a lidar com
os desafios de fazer escolhas, que muitas vezes significam renúncias de planos anteriores e
indicam necessidade de adaptações. A experiência da paternidade revela para eles sua
potência transformadora, que exige o desenvolvimento da capacidade de adequar/adaptar o
que antes do nascimento eles haviam tomado como regra para seguir às necessidades reais do
bebê e da família que se apresentam depois do nascimento. Ser pai implica em mudar valores,
crenças, possibilitando a construção de outras maneiras de compreender e lidar com diversas
situações. Torna-se pai é, portanto, uma oportunidade de crescimento pessoal e
amadurecimento conjugal.
4.1 Ponto de chegada? Não, apenas considerações sobre o caminho trilhado.
O caminho trilhado na seleção dos pais favoreceu o delineamento de um perfil bem
específico desses participantes, conforme foi discutido no capítulo três. Esses pais têm
marcadores sociais, econômicos e de cor/raça que favorecem a construção de uma paternidade
mais participativa. Contudo, nossa escolha não foi aleatória, ela reflete nosso posicionamento
ético-político de discutir nessa dissertação exemplos de paternidades promotoras de relações
mais equitativas entre homens e mulheres.
Apontamos como trilhas possíveis para o avanço desse percurso, pesquisas sobre a
paternidade no ciclo gravídico-puerperal com outros perfis de participantes, que incluam pais
que possuem mais de um/uma filho(a), que vivenciam outras configurações familiares
93
separados, relações homoafetivas), e que possuem diferentes condições socioeconômicas e
raças/cor. Do ponto de vista conceitual, que ampliem as discussões sobre a relação entre
novas/outras paternidades e novas/outras masculinidades, bem como sobre paternidade e
cuidado, sejam através de políticas públicas, eventos, pesquisas ou grupos.
Concluímos que produção científica também pode ser um processo prazeroso, apesar de
serem inevitáveis as angustias do caminho, quando durante a jornada somos movidos(as) pelo
afeto. Defendemos, de um ponto de vista politicamente situado, que a promoção de uma
sociedade mais equitativa requer condições sociais, políticas e econômicas que favoreçam a
participação dos pais nos processos de gestação, parto/nascimento e cuidado das crianças.
A partir desse posicionamento ético e político, me comprometi com os pais
participantes que teríamos um momento de discussão sobre os resultados da pesquisa. Com o
objetivo de alcançar o maior número possível de famílias nessa discussão, desenvolvi um
projeto com o nome Rodas de Conversa sobre o exercício da Paternidade. A proposta é que
sejam realizados quatro encontros, um sobre os resultados da revisão de literatura dialógica e
os outros três serão sobre os posicionamentos dos pais na gravidez, parto e nascimento e pósparto.
94
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Paternidade no Brasil: revisão sistemática de artigos empíricos. Arquivos Brasileiros de Psicologia: Rio de
Janeiro, 66 (2): 36-52.
WALKER, Sharon. Literature reviews: generative and transformative textual conversations. ForumQualitative
Social Research, v.16, n. 3, art. 5, setembro de 2015.
99
APÊNDICE
100
101
APÊNDICE A – Tabela 1: Glossário sobre paternidade/pai incluindo posicionamentos,
nomeações e repertórios produzidos na revisão de literatura realizada em maio de 2016.
GLOSSÁRIO SOBRE PATERNIDADE/PAI
Posicionamentos
Nomeações
Paternidade
Tradicional
Pai Provedor
Pai Provedor
Paternidade
Participativa
Paternidade
Emergente
Novo Pai
Repertórios
Provedor, disciplinador,
envolvimento restrito com os
filhos
Responsabilidade
de dar permissões, controlar a
família via críticas e
recomendações
à mãe, prover alimentos, impor
castigos,
disciplinar e, ocasionalmente,
brincar e compartilhar
de passeios familiares
MUZIO, 1997 apud
SUTTER, BUCHERMALUSCHKE, 2008
Responsabilidade, provedores
materiais e guardiões da família
FREITAS et al, 2009
Divisão sexual do trabalho, ordem
familiar e econômica, provedor,
protetor, autoridade
BELTRAME;
BOTTOLI, 2010
Provimento financeiro, chefe,
hierarquia, relações de poder
Cuidado e envolvimento constante
no cotidiano dos filhos alimentação, higiene, saúde e
educação
Envolvimento ativo com os filhos
e família em várias esferas
(cuidado/educação), participação
nas atividades domésticas
Pai
Envolvimento afetivo, aceitar
Contemporâneo sentimentos/ambivalência
Pai Nutridor
Autores
LEWIS E DESSEN
1999 apud VIERA et
al, 2014
Aquele que mantém uma relação
próxima e empática com os filhos
e compartilha igualmente com a
mãe a função de cuidar das
crianças e atendê-las tanto física
quanto emocionalmente
CÚNICO; ARPIN,
2013
SUTTER, BUCHERMALUSCHKE, 2008
LEWIS E DESSEN
1999 apud VIERA et
al, 2014
GOMES e RESENDE
2004 apud
OLIVEIRA, SILVA,
2011
SUTTER, BUCHERMALUSCHKE, 2008
102
Pai Cogenitor
“Modelo ideal" de paternidade, pai
que cuida, brinca, instrui e
J. H. PLECK e E. H.
demonstra afeto e amizade por
PLECK, 1997 apud
suas crianças, desempenhe funções VIEIRA et al, 2014
múltiplas, mais participativo e
envolvido
Participação nas responsabilidades
COSTA, 2002
relativas à saúde reprodutiva e
cuidado com os filhos
Novo Pai
Pai Presente
Pais
Cuidadores
Provedor, exercício mais flexível,
afetuoso e igualitário no cuidado
com seu filho e companheira
Participação mais efetiva do
homem no cotidiano familiar,
especificamente no cuidado com
filhos
Pai mais participativo
e envolvido na criação dos filhos
Dividir com a mãe os cuidados
básicos do filho, participar dos
momentos (bons e maus),
compartilhar atividades
tipicamente exercidas pela mãe,
dispensar na assistência do filho a
mesma quantidade de tempo
RIBEIRO, GOMES,
MOREIRA, 2015
HENNINGER E
GUARESCHI, 2002
STAUDT, 2007
GABRIEL, DIAS,
2011
Participação
constante no cotidiano dos filhos – SUTTER, BUCHERno intuito de captar o sentido dado MALUSCHKE, 2008
à paternidade e à masculinidade
103
APÊNDICE B - Ficha de Contato Inicial com os Participantes
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO (MESTRADO) EM PSICOLOGIA
LINHA DE PESQUISA SAÚDE, CLÍNICA E PRÁTICAS PSICOLÓGICAS
TÍTULO DA PESQUISA:
Os lugares/posicionamentos dos homens/pais na gravidez, parto e pós-parto
MESTRANDA:
Kaanda Barros Ribeiro
FICHA DE CONTATO INICIAL
1. Nome Completo:
2. Nome da esposa/companheira:
3. Quantidade de filhos(as):
4. Idade dos(as) filhos(as):
5. Nomes dos(as) filhos(as):
6. Vivenciou gestação, parto e pós-parto como esposo/companheiro da mãe do seu(s)
filhos(as)?
7. Tem interesse/disponibilidade em participar da pesquisa?
8. Telefone/WhatsApp:
9. E-mail:
10. Marque qual a melhor opção de dia/hora para você participar do encontro grupal:
a) terça (05 de julho) 19h ás 21:30h –
b) quinta (07 de julho) 19h ás 21:30h
c) sábado (09 de julho) 9:30h ás 12:00h
d) sábado (09 de julho) 14h ás 16:30h
Desde já agradeço a sua atenção! Sua participação é essencial para a realização dessa
pesquisa.
Maceió-AL, _________, ________________________, de 2016.
104
APÊNDICE C – Formulário de Caracterização do Perfil Social dos Participantes
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO (MESTRADO) EM PSICOLOGIA
LINHA DE PESQUISA SAÚDE, CLÍNICA E PRÁTICAS PSICOLÓGICAS
TÍTULO DA PESQUISA:
Os lugares\posicionamentos dos pais\homens na gravidez, parto e pós-parto
MESTRANDA:
Kaanda Barros Ribeiro
FORMULÁRIO DE CARACTERIZAÇÃO DO PERFIL SOCIAL DOS PARTICIPANTES
Nome:
Seu sexo:
Sexo do seu
filho(a):
Cor/etnia:
[ ] Branco
Crença/Religião:
[ ] Católica
Escolaridade
[ ] Ensino
Fundamental
Completo
Renda mensal
média
[ ] Abaixo de 1
salário mínimo
Masculino [ ]
Feminino [ ]
Masculino [ ]
Feminino [ ]
[ ] Pardo
[ ]
Evangélica
[ ] Ensino
Médio
Completo
[ ] De 1 a 2
salários
mínimos
Qual seu estado civil?
[ ] Solteiro
[ ] Casado
[ ] Separado / divorciado / desquitado
[ ] Viúvo
[ ] União estável
[ ] Negro
Sua Idade:
Idade do seu
filho(a):
[ ] Amarelo
[ ] Indígena
[ ] Espírita
[ ] Outras
[ ] Não possui
[ ] Ensino
Superior
Incompleto
[ ] Entre 3 a 5
salários
mínimos
[ ] Ensino
Superior
Completo
[ ] Pós
Graduação
[ ] Entre 5 a 8
salários mínimos
[ ] Acima de 8
salários
mínimos
105
APÊNDICE D – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (T.C.L.E.)
Eu,___________________________________________________e, tendo sido convidado a
participar como voluntário da pesquisa OS LUGARES\POSICIONAMENTOS DOS
PAIS/HOMENS NA GRAVIDEZ, PARTO E PÓS-PARTO, recebi de Kaanda Barros
Ribeiro, psicóloga, mestranda pelo Programa de pós-graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas – UFAL, sob a orientação da Prof. Dra. Maria Auxiliadora
Teixeira Ribeiro, as seguintes informações que me fizeram entender sem dificuldades e sem
dúvidas os seguintes aspectos:
• Que o estudo se destina a:
Compreender os lugares\posicionamentos dos pais\homens na gravidez, parto e pós-parto.
• Que, sempre que eu quiser, serão fornecidas explicações sobre cada uma das fases da
pesquisa;
• Que as informações conseguidas através da minha participação não permitirão minha
identificação, exceto as responsáveis pelo estudo, e serão utilizadas exclusivamente para os
fins da pesquisa;
• Que receberei, das responsáveis pela pesquisa, uma via do TCLE assinada;
• Que os riscos oferecidos por este estudo podem estar relacionados a sentir-me constrangido
ao compartilhar as minhas vivências, pensamentos e sentimentos e que caso isto ocorra,
poderei me retirar e receber atenção do responsável pela pesquisa; e também a qualquer
momento, poderei me recusar a continuar participando do estudo, retirando este meu
consentimento, sem que isso me traga qualquer prejuízo ou problema.
• Que os benefícios oferecidos por esta pesquisa estão relacionados à oportunidade de
compartilhar um espaço de escuta, fala e consequente visibilidade das demandas do grupo
de pais em relação à vivência da paternidade, que poderá favorecer a ressignificação das
experiências pessoais de cada um.
Finalmente, tendo eu entendido perfeitamente tudo o que me foi informado sobre a minha
participação nesse trabalho, e sabendo dos meus direitos, das minhas responsabilidades, dos
riscos e dos benefícios que a minha participação implica, concordo em dele participar e para
isso eu DOU O MEU CONSENTIMENTO SEM QUE PARA ISSO EU TENHA SIDO
FORÇADO OU OBRIGADO.
Endereço do voluntário:
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
Contato de urgência: Kaanda Barros Ribeiro (99638-0088)
Kaanda Barros Ribeiro
Endereço do responsável pela pesquisa:
Av. Lourival de Melo Mota. Tabuleiro do Martins - Maceió-AL.CEP: 57072-970.
Telefone: 3313-0519 / 99638-0088
Maria Auxiliadora Teixeira Ribeiro
106
Endereço do responsável pela pesquisa:
Av. Lourival de Melo Mota. Tabuleiro do Martins - Maceió-AL.CEP: 57072-970.
Telefone: 99972-6146
ATENÇÃO: Para informar ocorrências irregulares ou danosas durante a sua participação no
estudo, dirija-se ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas:
Campus A. C. Simões, Prédio da Reitoria, 1º andar, Sala vizinha a PROPEP, telefone 32141041.
_________________________________, ______ de _____________ de 2016
Assinatura ou impressão digital do(a)
voluntário(a)
Assinatura do pesquisador responsável
Assinatura do orientador (pesquisador) responsável
