Hélida Vieira da Silva Xavier - Constituição psíquica e psicopatologia nos textos do "jovem Lacan"

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA

HÉLIDA VIEIRA DA SILVA XAVIER

CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA E PSICOPATOLOGIA NOS TEXTOS DO “JOVEM
LACAN”

Maceió
2017

HÉLIDA VIEIRA DA SILVA XAVIER

CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA E PSICOPATOLOGIA NOS TEXTOS DO “JOVEM
LACAN”

Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em
Psicologia da Universidade Federal de
Alagoas, como requisito parcial para
obtenção do título de mestre em
Psicologia.
Orientador: Prof. Dr. Charles Elias Lang.

Maceió
2017

Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecária Responsável: Helena Cristina Pimentel do Vale
X3c

Xavier, Hélida Vieira da Silva.
Constituição psíquica e psicopatologia nos textos do “jovem Lacan” /
Hélida Vieira da Silva Xavier. –2017.
107 f..
Orientadora: Charles Elias Lang.
Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Psicologia. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Maceió, 2017.
Bibliografia: f. 103-107.
1. Psicanálise lacaniana. 2. Psicopatologia. 3. Autismo. 4. Lacan, Jacques, 19011981. I. Título.
CDU: 159.964.2

AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, pelo afeto, incentivo incondicional e, sobretudo, por transmitirem o
não-saber necessário para que eu desejasse saber; às minhas “irmães”, pelo suporte e amizade
que aprendemos a cultivar desde nossa infância.
Ao meu orientador Charles Elias Lang, que me presenteou com uma bússola,
apontou o horizonte e disse: a desconstrução é o norte. Teimosa, tomei o caminho do sul e
descobri que pouco importa a direção, a desconstrução está em todos os sentidos, literalmente.
Aos professores desta banca, por aceitarem o convite de compô-la e oferecerem suas
contribuições a esta pesquisa desde o momento de sua qualificação.

Na Universidade Federal de Alagoas:
Aos meus colegas de grupo de pesquisa com os quais caminhei durante os dois anos
de mestrado, partilhando conhecimento, leituras, releituras, alegrias e angústias inerentes ao
processo de escrita.
Aos meus colegas de turma, por compartilharem algo mais do que suas questões de
pesquisa e conhecimento, juntos dividimos anseios, bons momentos e cervejas.
Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, incansáveis
incentivadores e mestres desde os tempos da graduação, minha gratidão por transmitirem
conhecimento de forma instigante e respeitosa, por acolher cada questão apontando não
respostas e sim caminhos possíveis.
Aos membros do colegiado, pela aprovação da minha mobilidade acadêmica no
Programa de Pós-Graduação Psicanálise: Clínica e Cultura da UFRGS.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul:
À professora Marta Regina de Leão D‟Agord, pela hospitalidade com que me
acolheu em seu grupo de pesquisa durante minha mobilidade acadêmica e pela generosidade
com a qual transmite seu saber.

Aos amigos e colegas da UFRGS, pela afetuosa disponibilidade na troca de ideias,
não sem um chimarrão ou café.
Aos professores do PPG Psicanálise: Clínica e Cultura, por cada aula que para mim
foram como sarais de poesias.

Aos membros do Studio de Psicanálise, colegas de trabalho e também amigos de
longa data que participam da minha formação profissional e pessoal.
À minha amiga-irmã Regina Nagamine, pela constante e também suave presença
tornando esta trajetória mais divertida.
À Jacyara Calheiros, pela leitura e cuidadosa revisão do texto.
À Rita Vasconcelos, pela supervisão afetuosa deste novo percurso acadêmico.
À Ana Silvia Lang, que durante anos sustentou um espaço onde pude traduzir o
“impalavrável”.
À Diana Corso, por me ensinar que não se deixa um estrangeiro pensando sozinho.
À CAPES, agência financiadora desta pesquisa, cujo apoio concedido foi
fundamental para o seu andamento.

Mon père est mort il y a un an. Je ne crois pas à cette théorie selon laquelle on devient
réellement adulte à la mort de ses parents; on ne devient jamais réellement adulte.
Michel Houellebeck

RESUMO
Esta pesquisa apresenta uma leitura da temática da constituição psíquica e sua articulação
com a psicopatologia, circunscritas a partir de um corpus textual escrito por Jacques Lacan
nos anos de 1938 a 1949. Para responder à questão de como Lacan pensava a constituição
psíquica e a psicopatologia antes da década de 50, foram elencados como objeto de pesquisa
quatro textos de Lacan, são eles: Os complexos familiares na formação do indivíduo: ensaio
de análise de uma função em psicologia (1938/1998); Formulações sobre a causalidade
psíquica (1946/1998); A agressividade em psicanálise (1948/1998); e, O estádio do espelho
como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica
(1949/1998). De início, propõe-se ao leitor uma incursão no plano epistemológico de Imre
Lakatos e sua metodologia para os Programas de Investigação Científica (PIC), para então
apresentar-se o programa de investigação científico lacaniano, no qual Lacan é assimilado
como um conjunto de textos a serem lidos e interpretados. Consideração que introduz a
orientação metodológica desta pesquisa psicanalítica: uma estratégia de leitura/escritura
desconstrutiva, fundamentada na atitude filosófica derridiana e efetivada por três modos de
ler, acompanhar e interpelar, são eles: leitura clássica/sistematizante, leitura hermenêutica, e
leitura próxima, atenta e desconstrutiva. A partir disso, para responder à questão sobre a
constituição psíquica e a psicopatologia nos textos do jovem Lacan, empreende-se uma leitura
hermenêutica destes escritos, delimitando seus contextos internos e externos de produção. Em
seguida, é abordada a proposta lacaniana da estruturação subjetiva efetivada pelo
encadeamento sucessivo no psiquismo de três complexos e suas respectivas imagos. A
temática da psicopatologia nos textos do jovem Lacan se esboça numa análise das psicoses e
das neuroses de tema familiar. Por fim, expõe-se uma leitura da atual problemática do autismo
com base na elaboração teórica e psicopatológica do jovem Lacan.

Palavras-chave: Constituição psíquica. Psicopatologia. Jacques Lacan. Estádio do espelho.
Autismo.

ABSTRACT

This research presents a thematic reading of the psychic constitution and its relationship with
psychopathology, circumscribed from a textual corpus written by Jacques Lacan in between
the years 1938-1949. To answer the question of how Lacan thought the psychic constitution
and the psychopathology before the 50's, four of Lacan's texts were selected as objects of this
research: Family complexes in the formation of the individual (1938/1998); Presentation on
Psychical causality (1946/1998); Aggressiveness in Psychoanalysis (1948/1998); and The
mirror stage as formative of the function of the I as revealed in psychoanalytic experience
(1949/1998). In the beginning, a foray is proposed into the epistemological level of Imre
Lakatos and his methodology for Scientific Research Programmes (SRPs), and from that
point on the Lacanian scientific research program is presented, in which Lacan is assimilated
as a set of texts to be read and interpreted. Such consideration introduces the methodological
framework of this psychoanalytic research: a reading/writing deconstructive strategy, based
on Derrida's philosophical attitude and actualized by three different ways of reading,
following and questioning a text. They are: classical/systematizng Reading,
hermeneutic reading and the close and deconstructive reading. From this, to answer the
question about the psychic constitution and psychopathology in the young Lacan's texts, a
hermeneutic reading of them is carried out, aiming at delimiting its internal and external
production contexts. Then, the Lacanian proposal on subjective structuration is approached by
underlining the successive linkage in the psyche of three major complexes and their respective
imagos. The theme of psychopathology in young Lacan's texts is outlined in an analysis of
psychoses and neuroses with family-relative themes. Finally, it is presented a reading on
current autism issues based on the very young Lacan's theoretical and psychopathological
developments.

Keywords: Psychic constitution. Psychopathology. Jacques Lacan. Mirror stage. Autism.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO....................................................................................................................... 11
1. O QUE É UM PROGRAMA DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA?
UM PASSEIO PELA DÉMARCHE FREUD-LACANIANA.............................................14
1.1. A subversão psicanalítica no campo da pesquisa......................................................... 14
1.2. A Metodologia dos Programas de Investigação Científica:
Popper versus Kuhn................................................................................................................ 16
1.3. Do falsacionismo metodológico de Karl Popper ao falsacionismo sofisticado
de Imre Lakatos...................................................................................................................... 17
2. PROGRAMA DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA LACANIANO............................. 21
3. PESQUISA PSICANALÍTICA E A ESTRUTURA MOEBIANA DO TEXTO........... 24
3.1. Do texto aos pressupostos de leitura: prescrições fundamentais................................. 27
3.2. Estratégias de leitura-escritura na pesquisa psicanalítica:
nas trilhas da desconstrução.................................................................................................. 28
3.2.1. Leitura clássica/sistematizante........................................................................................ 30
3.2.2. Leitura hermenêutica...................................................................................................... 31
3.2.3. Leitura próxima, atenta e desconstrutiva........................................................................ 32
4. AS HERANÇAS TEÓRICO-CONCEITUAIS DO JOVEM LACAN........................... 35
4.1. O jovem Lacan................................................................................................................. 35
4.2. Lacan leitor de Émile Durkheim.................................................................................... 38
4.2.1. A família conjugal e o declínio do direito paterno......................................................... 39
4.2.2. Lei da contração familiar................................................................................................ 40
4.3. O palco de uma escrita: o jovem Lacan......................................................................... 43
4.4. Lacan leitor de George Politzer...................................................................................... 53
4.5. O adeus a Durkheim e as boas-vindas a Lévi-Strauss.................................................. 55
5. A CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA NO JOVEM LACAN: OS COMPLEXOS
FAMILIARES E A SUBLIMAÇÃO DAS IMAGOS.......................................................... 56
5.1. Complexo do desmame e imago materna: nostalgia de morte ou a sublimação........ 59

5.2. A nostalgia originária para Lacan: a mãe ou o pai?.................................................... 61
5.3. Complexo da intrusão e imago do outro: dramas do narcisismo................................ 63
5.4. O complexo de Édipo na perspectiva do jovem Lacan................................................. 68
5.4.1. Complexo de Édipo: a instauração da imago paterna e das trocas sociais..................... 69
5.5. Tese sócio-clínica do jovem Lacan: a imago paterna em declínio............................... 75
5.6. Declínio social da imago paterna versus declínio da função paterna.......................... 79
6. PSICOPATOLOGIA NOS TEXTOS DO JOVEM LACAN......................................... 83
6.1. Psicoses de tema familiar: a estagnação da sublimação............................................... 84
6.2. Causalidade psíquica e identificação: a fórmula geral da loucura............................. 87
6.3. Neuroses de tema família................................................................................................ 90
6.4. As neuroses de transferência relidas por Lacan........................................................... 91
6.5. As neuroses de caráter e a anomia social....................................................................... 93
7. UMA LEITURA SOBRE O AUTISMO A PARTIR DOS TEXTOS
DO JOVEM LACAN.............................................................................................................. 94
7.1. Estádio do espelho e autismo.......................................................................................... 95
7.2. Falha no transitivismo..................................................................................................... 98
8. CONCLUSÃO..................................................................................................................... 101
REFERÊNCIAS...................................................................................................................... 103

11
INTRODUÇÃO

A questão que norteia a produção desta dissertação diz respeito a dois temas, o
primeiro, a constituição psíquica do sujeito, e o segundo, concerne à psicopatologia. Ambos
foram considerados a partir de um corpus textual escrito por Jacques Lacan num período
específico, a saber, de 1938 a 1949, ou seja, nos primórdios de sua articulação teórica no
campo psicanalítico.
A pergunta inicial foi: como Lacan pensava a constituição psíquica do sujeito e a
psicopatologia num período anterior à década de 50 (época marcada pelo enlace da
psicanálise lacaniana com o estruturalismo e a linguística)? A partir deste questionamento,
esta pesquisa investiga a temática da constituição psíquica do sujeito e sua articulação com a
psicopatologia, tomando como objeto de pesquisa quatro textos de Lacan: Os complexos
familiares na formação do indivíduo: ensaio de análise de uma função em psicologia
(1938/1998); Formulações sobre a causalidade psíquica (1946/1998); A agressividade em
psicanálise (1948/1998); e O estádio do espelho como formador da função do eu tal como
nos é revelada na experiência psicanalítica (1949/1998).
Para edificar esta dissertação sua escrita foi organizada em oito capítulos. No primeiro
propõe-se ao leitor uma incursão na epistemologia de Imre Lakatos (1989) e sua metodologia
para os Programas de Investigação Científica (PIC), não sem antes passar pelo falsacionismo
metodológico de Karl Popper e pela estrutura das revoluções científicas de Thomas Kuhn.
Percurso que serve para introduzir a participação da teoria psicanalítica no arcabouço
epistemológico de Imre Lakatos, uma vez que sua proposta de história da filosofia da ciência
não se divide entre filosofia da ciência natural versus filosofia da ciência social, como
propõem Popper e Kuhn. Vale enfatizar que este capítulo foi reflexo das discussões no grupo
de pesquisa Psicanálise e desconstrução no cotidiano acerca da história da filosofia da
ciência, assim como um efeito da disciplina obrigatória Fundamentos da Psicologia, cursada
durante o mestrado. Este primeiro capítulo prepara o terreno para o segundo, no qual,
seguindo o caminho metodológico proposto por Lakatos, apresenta-se o programa de
investigação científico lacaniano, dotado de núcleo firme e uma heurística. Neste PIC, Lacan
é assimilado como um conjunto de textos a serem lidos e interpretados.
Considerar Lacan como um texto ou um conjunto de textos introduz a proposta do
terceiro capitulo, no qual é abordada a orientação metodológica desta pesquisa psicanalítica: a

12
estratégia de leitura desconstrutiva (FIGUEIREDO, 1999). Tal estratégia parte da premissa
desconstrutiva derridiana e tem como prerrogativa a admissão de protocolos de leitura, a
consideração dos contextos de produção do texto e dos pressupostos do leitor na atividade
interpretativa. Esta estratégia metodológica se implementa por três modos de ler, acompanhar
e interpelar, distintos pela forma singular como abordam o sentido e a alteridade do texto, são
eles: leitura clássica/sistematizante, leitura hermenêutica, e leitura próxima, atenta e
desconstrutiva.
No quarto capítulo, empreende-se a leitura hermenêutica dos textos de Lacan. Nele são
apresentados os contextos internos e externos de produção desses textos, buscando responder
por que foram escritos, quem foi o jovem Lacan, quais foram suas influências filosóficas,
sociológicas, psicanalíticas, políticas, como estava organizada a sociedade psicanalítica
francesa no referido momento.
O quinto capítulo engendra uma resposta para a questão sobre a constituição psíquica
no jovem Lacan. Tem como principal argumento as noções descritas no texto Os Complexos
Familiares, que se referem ao desenvolvimento subjetivo do homem, efetivado pelo
encadeamento sucessivo no psiquismo de três complexos e suas respectivas imagos;
desenvolvimento possível no cerne da família conjugal e paternalista. Para tanto, Lacan faz
uma releitura do complexo de Édipo freudiano, considerando sua dupla incidência no
psiquismo – o supereu e o ideal do eu – tributária do relativismo sociocultural do edipismo.
Outro ponto considerado neste capítulo diz respeito ao momento que Lacan retoma a noção de
estádio do espelho, previamente teorizado em 1936, cuja conclusão conceitual foi alcançada
no texto de 1949.
Neste mesmo capítulo, apresenta-se uma discussão acerca da tese do declínio social da
imago paterna – proposta por Lacan no texto Os Complexos Familiares –, suas releituras
contemporâneas no âmbito psicanalítico (LEBRUN, 2004, 2010; MELMAN, 2008;
ZAFIROPOULOS, 2002, 2015) e possíveis articulações, aproximações e/ou distanciamentos
em relação ao declínio da função paterna. A reflexão sobre as problemáticas do declínio da
imago social do pai e do declínio da função paterna se justifica por se tratarem de duas
concepções de falência vinculada à instância paterna, em voga no âmbito do debate
psicanalítico atual sobre a infância e as manifestações psicopatológicas contemporâneas.
O sexto capítulo traz a temática da psicopatologia nos textos do jovem Lacan, no qual
efetua uma análise psicopatológica no âmbito da família, interpretando as psicoses e as

13
neuroses de tema familiar. No tema das psicoses, é possível demarcar dois momentos
complementares nas teorizações do jovem Lacan: o primeiro destaca a ideia de uma
estagnação na sublimação como mote da psicose; o segundo abrange as reformulações que
versam sobre a causalidade psíquica e a fórmula geral da loucura, descritas no texto
Formulações sobre a causalidade psíquica, de 1946.

No tocante às neuroses, Lacan

empreende uma releitura das neuroses de transferência, onde as neuroses de caráter
possibilitam distinguir certas relações constantes existentes entre as formas típicas das
neuroses modernas (as de transferência) e a estrutura da família na qual cresceu o sujeito.
Por fim, no sétimo capítulo, efetua-se uma leitura do autismo a partir dos textos do
jovem Lacan e de autores contemporâneos, pesquisadores das problemáticas psicopatológicas
que emergem na infância (BERGÈS; BALBO, 2002, 2003; JERUSALINSKY, 2011;
LAZNIK, 2013). Dito de outro modo, apresenta-se um ponto de vista da atual problemática
do autismo fundamentado na elaboração teórica e psicopatológica do jovem Lacan. A partir
do encontro dos textos lacanianos e dos demais autores, dois conceitos centrais nas
formulações teóricas do jovem Lacan se destacaram no plano de leitura do autismo: o estádio
do espelho e o transitivismo.
Este estudo se inclina sobre um tema que não cessa de se inscrever na literatura
psicanalítica sobre crianças: a constituição subjetiva na sua contingência em relação à
alteridade. A especificidade desta pesquisa reside em retomar os primórdios das elaborações
de Jacques Lacan acerca da estruturação psíquica, onde a instituição familiar conjugal assume
papel importante na edificação subjetiva, tanto na sua vertente de articulação simbólica como
efeito do panorama sociocultural que instaura as coordenadas estruturantes dos laços sociais.

14
1. O QUE É UM PROGRAMA DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA? UM PASSEIO
PELA DÉMARCHE FREUD-LACANIANA

1.1. A subversão psicanalítica no campo da pesquisa
Do acordo com Freud (1923[1922]/1996), o vocábulo psicanálise abrange três
dimensões: um procedimento de investigação de processos anímicos que, de outra forma, são
quase inacessíveis; um método terapêutico para tratar distúrbios neuróticos; e, uma
compilação de concepções psicológicas, fundando, gradualmente, uma disciplina científica
nova. Portanto, método de investigação, método clínico e teoria dos fatos são indissociáveis
no avanço do saber psicanalítico (GUERRA, 2010). Frente às considerações sobre o que é a
psicanálise indicadas por seu inventor, é possível destacar a preocupação de Freud em
demarcar o estatuto epistêmico e metodológico da psicanálise dentro do campo das ciências
da natureza (Naturwissenschaften), por exemplo, ao utilizar palavras como procedimento,
método e disciplina para descrevê-la.
Desde os primórdios de suas descobertas no âmbito da neurologia, Freud jamais
renunciou à ambição de conferir à psicanálise um status científico. Contudo, a especificidade
do conhecimento inaugurado por Freud demarcava dificuldades no tocante à sua episteme. Ao
destituir a consciência de seu lugar de centro da vontade humana, descobrindo o inconsciente,
as pulsões e suas consequências, Freud promoveu uma ruptura no sujeito da consciência,
autônomo e racional, justamente aquele que produz a ciência.
Para tornar-se um discurso científico, a psicanálise deveria retificar essa parte que
cinde o sujeito, posto que, a ciência se faz mediante o recalque daquilo que mobiliza o
cientista (PALOMBINI, 1996). Todavia, a psicanálise elegeu como objeto de pesquisa o
desejo humano; seu objeto de pesquisa é aquilo que determina a ação humana, o discurso
científico e o filosófico. Do ponto de vista desses discursos, a psicanálise não passa de uma
metalinguagem, que, simultaneamente, pretende-se transmitir como um notório discurso do
conhecimento. “Eis o paradoxo de uma ciência do inconsciente” (PALOMBINI, 1996, p. 36).
Mesmo com todo o esforço teórico-empírico para erigir-se como conhecimento
científico genuíno, inúmeras críticas epistemológicas foram feitas à ciência do inconsciente

15
elaborada por Freud, dentre as quais destacam-se: o empirismo lógico1 e o falsacionismo
crítico de Karl Popper. Contudo, uma vertente epistemológica possibilita a inscrição do
pensamento freudiano como um projeto científico, trata-se da Metodologia dos Programas de
Investigação Científica (MPIC) de Imre Lakatos (1922-1974).
A presente pesquisa se filia à esfera epistemológica desenvolvida pelo filósofo da
matemática e ciência húngaro Imre Lakatos. Imre Lipschitz2 foi um filósofo, matemático e
físico de origem judia, que evitou a perseguição nazista mudando seu nome para Lakatos. Sua
família não teve tanta sorte, a mãe e a avó morreram em Auschwitz. Tornou-se um comunista
depois da Segunda Guerra Mundial, juntando-se ao Partido Comunista Húngaro, mais tarde
sendo designado ao posto de oficial sênior no Ministério da Educação Húngaro.
As discussões internas no Partido promoveram uma cisão e levaram Lakatos à prisão
stalinista por três anos sob a acusação de revisionismo. Após sua liberação, retornou à vida
acadêmica e, apesar das mudanças em seus pontos de vista políticos, envolveu-se novamente
em questões partidárias. Com a invasão da União Soviética, Lakatos deixou a Hungria e
partiu para a Inglaterra. Na London School of Economics ele trabalhou em seus estudos sobre
a filosofia da ciência, dedicando-se a temática até sua morte, em 1974. Estudioso da filosofia
da ciência e da matemática, não é possível compreender o edifício epistemológico de Lakatos
sem considerar suas principais influências: a teoria do conhecimento de Karl Popper, a
estrutura das revoluções científicas de Thomas Kuhn, o pensamento de Hegel, Kant e Pierce.
As linhas biográficas sobre o autor apresentadas acima resgatam os contextos externos
e internos no momento de produção de sua Metodologia dos Programas de Investigação
Científica, um valioso esquema que lança uma nova luz sobre o progresso do conhecimento
em qualquer área científica de investigação, considerada pelo próprio autor como uma versão
sofisticada do falsacionismo metodológico de Popper.

1

Os empiristas partem do pressuposto de que a psicanálise deve sujeitar-se aos critérios de verificabilidade de
outras disciplinas, ou seja, deve aceitar a validação empírica. Nestes termos, a psicanálise deve apresentar
enunciados que se submetam a procedimentos de controle experimental, apontando fatos definitivos e não
ambíguos, por meio de uma linguagem operacional. Na perspectiva dos empiristas lógicos, a teoria psicanalítica
não funda um progresso decisivo em relação ao animismo e a seus sucedâneos. O ideal, de acordo com os
pressupostos positivistas, seria reduzir a psicanálise a uma teoria comportamentalista. Empreendimento realizado
com sucesso, notadamente nos Estados Unidos, no qual psicanalistas americanos reformularam princípios
básicos da teoria psicanalítica, recriando-a como uma psicologia do ego. (BASTOS, 2009).
2
As informações biográficas de Imre Lakatos foram selecionadas do seguinte site: http://www-history.mcs.stand.ac.uk/Printonly/Lakatos.html

16
1.2. A Metodologia dos Programas de Investigação Científica: Popper versus Kuhn
Imre Lakatos apresentou, pela primeira vez, a Metodologia dos Programas de
Investigação Científicas no Colóquio Internacional de Filosofia Científica, realizado no ano
de 1965 na cidade de Londres. Como discípulo de Karl Popper, Lakatos defendia o
racionalismo crítico como ingrediente crucial do crescimento objetivo do conhecimento
científico – argumento que embasa seu principal ponto de controvérsia com relação à
perspectiva de Kuhn. De acordo com Lakatos (1989), o avanço da ciência na perspectiva de
Thomas Kuhn estava atrelado à sucessão de períodos da ciência normal, impulsionada por
revoluções irracionais de cunho ideológicos, jogos de interesses, acasos, arbitrariedades que
punham em xeque pesquisas concorrentes. No panorama kuhniano, a ciência progride por
crises, tensões, rupturas, revoluções no interior de um paradigma, acordos políticosepistemológicos selados entre os cientistas de determinada comunidade, os quais definem
entre si o selo científico de suas produções.
Na visão de Lakatos (1989), na perspectiva das revoluções científicas arquitetadas por
Kuhn, não há lógica racional no progresso da ciência, senão uma psicologia do
descobrimento. Lakatos vai além em suas ponderações ao afirmar que as revoluções
científicas do epistemólogo norte-americano são irracionais, constituindo-se como objeto de
estudo da psicologia das massas.
No campo dos debates epistemológicos, as divergências nem sempre têm o caráter
opositivo e destrutivo, pois nem tudo são espinhos entre Lakatos e Kuhn, assim como nem
tudo são flores entre Lakatos e Popper. A metodologia para Programas de Investigação
Científicas defendida por Lakatos une críticas tanto à Popper quanto à Kuhn, ao solucionar
problemas não resolvidos pelos dois (NETO, 2008).
De acordo como Feyerabend (1970), a visão de ciência que deve substituir a de Kuhn
é a síntese das duas descobertas seguintes. Composição que consiste na confluência entre a
descoberta de Popper, de que o avanço da ciência é promovido pela discussão crítica de
visões alternativas, e a descoberta de Kuhn da função da tenacidade. A síntese consiste na
afirmação de Lakatos de que a proliferação3 e a tenacidade4 não pertencem a períodos
sucessivos da história da ciência, mas estão sempre co-presentes.

3

Para Lakatos é desejável que haja a proliferação de teorias concorrentes. Contrariando Kuhn, o autor propõe
que a história da ciência não seja o reflexo da sucessão de teorias, mas sim a competição entre visões teóricas
rivais (NETO, 2008).

17
Para prosseguir, antes de conceitualizar a MPIC lakatosiana, uma digressão torna-se
necessária para lançar luz sobre o falsacionismo metodológico de Karl Popper, posto que o
filósofo húngaro dedica-se a análise e correção de certos aspectos das ideias popperianas,
elaborando (não sem manter a pertinência das colocações de seu mestre) o falsacionismo
sofisticado.

1.3. Do falsacionismo metodológico de Karl Popper ao falsacionismo sofisticado de Imre
Lakatos
O filósofo da ciência Karl Popper (1902-1994) figura no rol dos mais influentes
filósofos do século XX. Popper cunhou o racionalismo crítico e rejeitou com veemência tanto
o verificacionismo quanto o indutivismo, até então os critérios de demarcação entre o campo
científico e a pseudociência da época.
Na perspectiva de Popper o progresso científico não deve se basear nas verificações,
muito menos na inferência indutiva. De acordo com o filósofo, uma teoria poderá ser
considerada científica sem contar com uma única evidência favorável, enquanto que outra
pode ser pseudocientífica ainda que conte com evidências autênticas. Em outras palavras, o
que determina o caráter científico ou não de uma teoria independe da comprovação dos fatos,
da alta probabilidade com que a evidência favorável é demonstrável mediante experimentação
(LAKATOS, 1989).
Como solução ao problema da indução empirista, Popper propôs o princípio da
falseabilidade no bojo metodológico e prescritivo da ciência, aplicável somente a enunciados
aptos a serem falsificados pela experiência. A premissa popperiana defende o seguinte: a
cientificidade de uma teoria reside na especificação por antecipação de um experimento
crucial (ou uma observação) que possa falseá-la; enquanto que é pseudocientífica frente à
impossibilidade de identificar tal falseador potencial. Melhor dizendo, o cientista deve
esquadrinhar a teoria em busca de provas de falsidade desta. Caso encontre uma ínfima
refutação à teoria, mesmo que esteja mergulhado em um oceano de observações positivas que
4

Tenacidade é um termo retirado dos postulados de Kuhn, significa que a teoria não seja abandonada apenas
porque foi falseada, como defende Popper. O cientista fará o possível para mantê-la, ignorando os
contraexemplos que atacam a teoria e em contradição com o justificacionismo, com o intuito de convertê-los em
exemplos corroborares (NETO, 2008). “A natureza pode gritar „não‟, mas a inteligência humana (contrariamente
ao que sustentam Weyl e Popper) sempre é capaz de gritar com mais força. Com recursos suficientes e alguma
sorte, qualquer teoria pode defender-se „progressivamente‟ durante muito tempo, ainda que seja falsa”
(LAKATOS, 1970, p. 146).

18
lhe garantem veracidade, deve eliminá-la sem pestanejar e elaborar outra teoria que possa
provar o fenômeno em análise – até que esta última tropece em novas refutações (LAKATOS,
1989).
Outro posicionamento de Popper no que tange a história da ciência diz respeito ao
caráter provisório e conjectural da própria ciência. Ou seja, nenhuma teoria poderá garantir a
imutável e eterna cientificidade: todas as teorias são falíveis – eis o que os historiadores e
filósofos das ciências convencionam caracterizar como falsacionismo dogmático de Popper.
Como exemplo clássico, lança o caso da física mecânica de Newton ultrapassada pelos
avanços na física propostos por Einstein com a teoria da relatividade. Exemplo que indica o
aspecto crucial defendido por Popper para a definição de ciência: só é considerada ciência a
teoria que seja refutável.
Contrariamente ao que se poderia pensar – evitar o erro para manter a cientificidade da
teoria –, no falsacionismo metodológico os erros são bem-vindos, mais do que isso, errar é o
verbo combustível do motor da ciência na visão popperiana. Sendo preferível que uma teoria,
que almeje o título de ciência fidedigna, apresente condições para que os erros venham à tona
e, assim, novos cientistas possam falseá-la.
No tocante às teorias sociais e psicológicas, Popper não se furtou ao estudo da teoria
marxista e freudiana. Ao aplicar seu rigor racionalista crítico e refutacionista sobre os estudos
de Karl Marx e Sigmund Freud, Popper concluiu que tais edifícios teóricos não passam de
pseudociências – discurso metafísico ou, em termos kuhnianos, pré-paradigmáticos –, uma
vez que não são falseáveis. Para um popperiano, a psicanálise seria científica se os freudianos
estivessem dispostos a esclarecer os fatos que os induziriam a abandonar a psicanálise. Como
se negam a fazê-lo, mediante a refutação, a teoria psicanalítica se converte em uma
pseudociência. Portanto, a epistemologia popperiana assimila tal proposição como um
petrificado dogma pseudocientífico, uma vez que os pressupostos da psicanálise, longe de
serem refutados, são continuamente confirmados (BASTOS, 2009). De forma sucinta, eis o
princípio metodológico e prescritivo da falseabilidade de Karl Popper que deve operar nas
teorias que ambicionam o atestado cientificista. Então, o que o falseabilismo de Lakatos traz
de inovador?
Para Lakatos (1989), a falseabilidade de uma teoria não constitui critério suficiente
para descartá-la, o que se sucede é o contrário, os cientistas mantêm suas investigações a
despeito da incongruência evidenciada no caminho. Se os cientistas continuam suas pesquisas,

19
mesmo diante de um contrassenso, o que então caracteriza uma teoria como científica? Na
redefinição de Lakatos, o falseamento é posto de lado e o jogo da ciência se conduz senão
pelo enfrentamento entre teorias rivais, onde a refutação de uma depende do êxito total da
rival. Logo, surge a questão do que deve ser considerado como êxito total. Aqui não se trata
de provar que a teoria é falsa, mas, como forma de superar a antagonista, deve-se propor outra
melhor do que aquela que foi falseada. Ou seja, não há refutação, mas sim excesso de
conteúdo empírico corroborativo em relação à rival (teorias e fatos novos).
Neste terreno epistemológico, Lakatos lança sua Metodologia dos Programas de
Investigação Científica, onde cada programa é composto por uma série de teorias, em
rivalidade com outros programas. Este contínuo embate teórico configura a essência da
história da ciência. Nas palavras do autor:
a história da ciência tem sido, e deve ser, uma história de programas de
investigação competitivos (ou, se quiserem, de „paradigmas‟), mas não tem
sido, nem deve vir a ser, uma sucessão de períodos de ciência normal:
quanto antes se iniciar a competição, tanto melhor para o progresso. O
“pluralismo teórico” é melhor que o “monismo teórico”. (LAKATOS, 1989,
p. 92).

Um Programa de Investigação Científica (PIC) consiste basicamente em um núcleo
firme e uma heurística. Este núcleo é o conjunto de proposições metafísicas que, por decisão
dos defensores do programa, são consideradas não testáveis, irrefutáveis. A heurística é uma
poderosa maquinaria para a solução de problemas, que assimila as anomalias e as converte em
evidências corroboradoras. Divide-se em heurística positiva, vista como o conjunto de regras
que indicam quais padrões de investigação devem ser seguidos, e heurística negativa, as rotas
de pesquisa a serem evitadas.
Os membros do programa seguem à risca a heurística positiva, ignorando anomalias,
trabalhando em prol da defesa do núcleo firme. Ao redor deste centro constroem um cinturão
protetor composto por hipóteses auxiliares. É o cinturão de deve receber o impacto de
contestações e pode ser ajustado, ademais substituído, para proteger o núcleo.
Conforme assinala Lakatos, a teoria da gravitação de Newton, a teoria da relatividade
de Einstein, a mecânica quântica, o marxismo, a teoria freudiana são todos programas de
investigação científica dotados, cada um, de um cinturão protetor flexível, de um núcleo
firme, pertinazmente definido e de uma elaborada heurística para a solução de

20
problemas/anomalias. Todos eles, em qualquer etapa de seu desenvolvimento, têm problemas
não solucionados e anomalias não assimiladas. (LAKATOS, 1989).
A metodologia de Lakatos define como revoluções científicas a superação racional de
um programa de investigação por outro. Entre dois programas rivais, um é progressivo
quando seu desenvolvimento teórico antecipa o desenvolvimento empírico, isto é, enquanto
prediz com êxito fatos novos até então desconhecidos; é regressivo se o seu desenvolvimento
teórico atrasa em relação ao seu desenvolvimento empírico, ou seja, apenas oferece
explicações post hoc, seja para descobertas casuais, fatos previstos ou descobertos por um
programa rival5.
Enquanto isso, o programa derrotado pode continuar resistindo durante muito tempo,
defendendo-se com hipóteses secundárias incorporadas em seu cinturão protetor, ao passo que
estas ainda não alcançaram a recompensa do êxito empírico, quer dizer, não se tornaram
corroboradoras. Isto porque, esclarece Lakatos (1989, p. 96), “é muito difícil derrotar um
programa de investigação que está defendido por cientistas imaginativos e de talento”.
O critério metodológico de Lakatos é um programa de investigação historiográfica. O
historiador das ciências que utiliza a metodologia lakatosiana deve adotar o seguinte
procedimento: 1) oferecer uma reconstrução racional do caso; 2) buscar comparar a
reconstrução racional com a história real e criticar ambas: a reconstrução racional, por falta de
historicidade e a história real por falta de racionalidade. Tendo estas balizas em mente, o
historiador da ciência localiza no passado programas rivais e mudanças de problemas
progressivas e degenerativas. Foi exatamente o que Lakatos fez com os programas de
Newton, de Einstein, de Prout, de Bohn, entre outros casos que examina no seu livro A
metodologia dos programas de investigação científica (1977). A metodologia só aprecia os
programas de investigação, por meio de uma explicação racional; não impele, nem dá
conselhos aos cientistas sobre como chegar a teorias progressivas, nem sobre o que devem
fazer os cientistas diante de programas degenerativos, somente aponta as características
objetivas dos programas.
O que Lakatos (1989) fez foi caracterizar o crescimento racional do conhecimento a
partir de um conjunto de regras metodológicas que se dedica ao estudo histórico e crítico das
5

No interior de um PIC, uma teoria será regularmente eliminada por uma teoria melhor. Uma teoria é
considerada melhor em relação a outra se apresentar conteúdo empírico excedente ou se tiver maior poder
heurístico. É almejável que cada etapa do programa se constitua uma mudança de problemática consistentemente
progressiva (NETO, 2008).

21
ciências. Resumidamente, a unidade de crescimento é o PIC (marcado pelo núcleo, cinturão
protetor, heurística), os programas podem ser progressivos ou degenerativos, cujo crescimento
se dá pelo êxito dos programas progressivos sobre os degenerativos. Esta síntese serve para
introduzir a participação da teoria psicanalítica no arcabouço epistemológico de Imre Lakatos,
uma vez que sua proposta de história da filosofia da ciência não se divide entre filosofia da
ciência natural versus filosofia da ciência social.

2. PROGRAMA DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA LACANIANO

Quando se trata de Jacques Lacan, como ele é pesquisado? Como as pesquisas o
classificam? Como um sistema de pensamento, como uma teoria, como uma área do
conhecimento? Seguindo o caminho metodológico proposto por Lakatos, nas linhas desta
pesquisa Lacan é considerado como um programa de investigação científica, dotado de núcleo
firme e heurística. No interior deste PIC, Lacan é assimilado como um conjunto de textos a
serem lidos e interpretados.
Freud deu início a um programa de investigação psicanalítico e desde o seu
surgimento no final do século XIX, inúmeros pesquisadores se uniram e se unem, com o
intuito de defender o núcleo firme irrefutável deste programa: a teoria do inconsciente. Eles
seguem uma heurística positiva, o conjunto estruturado de pistas e problemas a serem
estudados, sobre como transformar as versões refutáveis do programa, e ainda, como
modificar e complicar o cinturão protetor com hipóteses auxiliares diferentes. Assumem as
três dimensões intrínsecas da psicanálise conforme Freud a conceituou em 1923[1922]:
procedimento de investigação, método terapêutico e compilação de concepções psicológicas.
A heurística negativa corresponde às direções as quais os psicanalistas/pesquisadores devem
se desviar, os contraexemplos, as refutações, ignorando-os por manter em seu horizonte o
compromisso de elaborar novas teorias. De igual maneira, para alcançar um caráter
progressivo, o programa de investigação psicanalítico deve ser capaz de antecipar fatos
empíricos novos.
Para Lakatos (1989), o núcleo firme de um programa não nasce dotado de força.
Requer um processo longo e lento de ensaios e erros, hipóteses, conjecturas, refutações, até
conseguir certa firmeza e transformar suas teses centrais em enunciados universais. Ora, a

22
teoria do inconsciente e suas pulsões (é possível acrescentar ainda a da sexualidade infantil),
notadamente subversiva da moral de sua época, não sucumbiu às críticas e resistências
advindas de várias frentes que tentaram minar sua base teórica e empírica.
Nos primórdios deste programa, Freud e os membros da Sociedade Psicológica das
Quartas-Feiras, a despeito do oceano de anomalias e críticas, mantiveram o compromisso de
elevar a psicanálise ao estatuto de conhecimento científico genuíno. Os primeiros
psicanalistas/pesquisadores incrementaram conteúdo teórico de forma consistente ao cinturão
protetor. No entanto, outros desenvolveram suas próprias hipóteses auxiliares, a tal ponto que
acabaram por se afastar do núcleo firme, conduzindo-os assim, a elaboração de um novo
programa. Por exemplo, a psicologia analítica de Carl Gustav Jung e a teoria da sexualidade
de Wilhelm Reich, ambos partiram das considerações psicanalíticas freudianas, contudo,
tornaram-se dissidentes e seus programas se converteram em rivais do originário.
Não obstante, a vertente teórica e empírica da psicanálise progrediu século XX
adentro. Freud seguiu no embate externo e interno ao programa, em defesa da teoria do
inconsciente, enquanto que, simultaneamente, retificava hipóteses e teorias (por exemplo, a
passagem da primeira para a segunda tópica) para ratificar o núcleo.
A teoria psicanalítica se disseminou pela Europa e na França uma geração de
psicanalistas também se lançou na empreitada de engrossar as fileiras do cinturão protetor
desta teoria. Jacques Lacan foi o mais célebre entre os membros francófonos envolvidos nesta
tarefa, suas questões sobre a constituição do sujeito e do eu, sobre a formação do analista e da
não-relação entre o homem e a mulher, formaram o núcleo firme de seu programa de
investigação científica. Tarefa que demandou a reformulação das hipóteses auxiliares
(desenvolvidas por Freud) à luz de outros PIC, tais como a filosofia, o surrealismo, a
antropologia estrutural, a linguística, a matemática, a lógica, a topologia, etc.
Jacques Lacan revolucionou a psicanálise e a recolocou na classe dos programas que
preveem fatos empíricos novos, com a retomada de uma linha progressiva, conservando a
consistência dos enunciados singulares e sem desfigurar o núcleo firme (a ego psychology
norte-americana assinala um exemplo de mutilação do núcleo sob a consigna de preceitos
cognitivistas, na qual a psicanálise fora reduzida a uma cientificidade asséptica e
presumivelmente neutra, visando à ordem adaptativa). Mesmo diante de poderosos rivais,
como as neurociências, incansável autora de refutações, o programa de investigação científico

23
psicanalítico e sua sucessão de teorias se mantém resistente no embate com outros programas
rivais6.
Pode soar estranho, uma ciência que se arroga subjetiva, depositária da tutela do
inconsciente há mais de um século, transitar pela objetividade do racionalismo crítico
idealizado por um discípulo de Karl Popper. Não resta dúvida que a continuidade que
relaciona seus membros até os dias atuais (em torno de um núcleo, cinturão e heurística) e a
capacidade de antecipar com sucesso novos fatos será a inequívoca mostra de que o programa
psicanalítico é progressivo.
Como exemplo cabal do avanço do programa psicanalítico, é possível sublinhar o
seguinte recorte histórico: Freud apontou um fato sociológico, a falência da família patriarcal
e de seu chefe, como noção capital para construção de sua teoria do complexo de Édipo e de
castração. Mais tarde, Lacan destaca o termo declínio social da imago paterna como um fato
sociológico novo e o toma para compor a base de sua teorização sobre a estruturação psíquica
do sujeito. A partir deste fato sociológico, antecipa o desenvolvimento empírico: eclosão de
uma crise psicológica, produzindo as neuroses contemporâneas. Em outras palavras, temos o
declínio da imago paterna como um “fato novo” que oportunizou a transformação teórica
lacaniana e seu progresso em relação às outras.
Esse fato ainda é utilizado por psicanalistas/pesquisadores da teoria psicanalítica
lacaniana, agora sob a roupagem de declínio da função paterna. Outros membros do
programa lacaniano (LEBRUN, 2004, 2010; MELMAN, 2008; ZAFIROPOULOS, 2002,
2015) se debruçaram sobre as consequências que a bancarrota da figura paterna (como imago
e/ou função) ainda se mostra capaz de produzir no âmbito social e clínico. No transcurso desta
pesquisa será elucidada a diferença entre declínio da imago paterna e declínio da função
paterna.

6

Vide recente debate provocado pela declaração do neurocientista Ivan Izquierdo de que a psicanálise fora
ultrapassada pelas modernas pesquisas do cérebro, sendo não mais um tratamento de saúde, senão um exercício
estético (Entrevista “Estudos de neurociência superaram a psicanálise”, diz pesquisador brasileiro. Folha de
São Paulo, 18/06/2016). A resposta não tardou, dias depois o psicanalista Paulo Gleich publicou uma reflexão
sobre a declaração de Izquierdo (Coluna “A psicanálise foi superada?”. Sul21, 21/06/2016), em seguida, o
psicanalista Alfredo Jerusalinsky e a neurocientista Diana Jerusalinsky saíram em defesa da psicanálise e
publicaram uma resposta (Coluna “Onde fica o inconsciente?”. Zero Hora, 24/06/2016).

24
3. PESQUISA PSICANALÍTICA E A ESTRUTURA MOEBIANA DO TEXTO

Delineado o plano epistemológico o próximo passo concerne ao método que esta
pesquisa adota. A pesquisa em psicanálise se concretiza em diversas modalidades de
investigação, onde inúmeras são as propostas para efetivá-la, quer seja no campo da prática
clínica, quer seja fora do contexto clínico, notadamente, ao inscrever-se no campo
universitário. Uma primeira proposta a ser considerada sobre a pesquisa psicanalítica, diz
respeito ao seu desdobramento em dois vértices: psicanálise em intensão e psicanálise em
extensão, perspectiva demarcada por Lacan em seu texto Proposição de 9 de Outubro de 1967
sobre o analista da Escola.
A psicanálise em intensão se refere à pesquisa conduzida pelo método clínico, onde
psicanalista é também um pesquisador ao efetivar o trabalho clínico de investigação dos
processos psíquicos do paciente. Nesta modalidade de investigação o problema de pesquisa
emerge das questões que interpelam o pesquisador na atividade clínica. A construção de caso
clínico é uma forma possível de pesquisa nesse âmbito. Na esfera da psicanálise em extensão
encontramos pesquisas que prescindem da atividade clínica como meio de produção de saber.
Esta perspectiva de pesquisa propõe a articulação da psicanálise com produções culturais, em
que textos, filmes, produções artísticas e fenômenos socioculturais são tomados como objeto
de pesquisa. No campo da psicanálise em extensão podemos destacar a pesquisa psicanalítica
de cunho teórico.
Figueiredo e Minerbo (2006) também esquematizam o campo de pesquisa em
psicanálise a partir de uma dicotomização entre dois eixos de articulação nos quais as
investigações psicanalíticas podem ser concentrar. No primeiro eixo, destacam as pesquisas
em psicanálise, enquanto no segundo eixo, delimitam as pesquisas com o método
psicanalítico. Figueiredo e Minerbo (2006) partem da seguinte questão: “o que se faz quando
se pretende estar fazendo „pesquisa em psicanálise‟ e mais especificamente, quando se está
„pesquisando com o método psicanalítico‟”? (p. 258).
No eixo das “pesquisas em psicanálise” reúnem-se atividades de produção do
conhecimento que estabelecem distintas relações com a psicanálise, nas quais: a teoria
psicanalítica (suas ideias, suas práticas) pode tornar-se “objeto” de exame sistemático,
histórico ou mesmo epistemológico; ou, conceitos do repertório psicanalítico são utilizados
como dispositivo de investigação e compreensão de fatos sociais e subjetivos. Esses estudos

25
em psicanálise, não necessariamente contam com a presença de um psicanalista atuante
(FIGUEIREDO; MINERBO, 2006).
No segundo eixo, as “pesquisas com o método psicanalítico” se caracterizam pela
imprescindível presença de um psicanalista atuante. São modos de pesquisa que “podem ter
como alvo, entre outros, processos socioculturais e/ou fenômenos psíquicos transcorridos e
contemplados fora de uma situação analítica no sentido estrito” (FIGUEIREDO; MINERBO,
2006, p. 259). A ênfase em tal proposta de pesquisa, incide na relação do “pesquisadorsujeito” com o “objeto”, a “teoria”, os “instrumentos” que dispõe, em que estes termos
passam por transformações ao longo do processo de pesquisa, não saindo incólumes. A
propósito, espera-se que, no decorrer do processo e ao final do percurso da pesquisa, estes
termos são sejam os mesmos do início da investigação.
O efeito de transformação esperado no “pesquisador-sujeito” também se estende para
o “objeto”, quer seja um paciente, quer seja uma comunidade, um filme, ou mesmo um texto.
No que se refere ao texto, sua leitura cuidadosa e livre possibilita novas interpretações,
propiciando a descoberta e reinvenção do que foi escrito. Resgatando as palavras dos autores:
um texto, ao ser bem lido, renova-se e sai da experiência de leitura em
direção a um porvir que, por outro lado, fazia parte, como possibilidade, do
que o texto já „era‟ mas a que não acederia sem o concurso do leitor que
responde, do seu modo, a tal apelo (FIGUEIREDO; MINERBO, 2006, p.
261).

Ao sublinhar tais proposições sobre a pesquisa em psicanálise na universidade, vem à
tona a polarização entre pesquisas. De um lado se encontram as pesquisas caracterizadas por
um viés clínico e propósito terapêutico (específico ou podendo se caracterizar como efeito
transformador do encontro “pesquisador-sujeito” e “objeto”). Do outro lado estão as pesquisas
que prescindem de um pretenso ou ideal contexto clínico, emoldurando a articulação da
psicanálise com produções culturais, em que textos, filmes, produções artísticas e fenômenos
socioculturais são tomados como objeto de pesquisa.
Outro aspecto que se destaca é o fato de que todas as modalidades descritas acima,
para efetivarem-se, invariavelmente, adotam um corpus textual como objeto de estudo, quer
seja um conjunto de textos escritos por algum teórico, quer seja um texto produzido pelos
participantes da pesquisa (entrevistados) ou mesmo por pacientes. Isto porque na conjuntura
da clínica psicanalítica a narrativa do paciente forja um tecido textual polissêmico. A potência

26
da clínica reside, por excelência, na exploração desta polissemia do significante, assim
disposta em uma estrutura de textualidade.
As reflexões iniciais supracitadas acerca das metodologias de pesquisa em psicanálise
conduzem ao lugar central que o texto assume nas referidas investigações. Inferência que
demanda, de imediato, esclarecimentos sobre a concepção de texto admitida nesta pesquisa,
cujo viés converge no sentido dos pressupostos desconstrucionistas de Jacques Derrida (19302004).
Jacques Derrida indagava-se sobre a questão de que a ciência, a filosofia e a literatura
partilham do mesmo suporte material através do qual se apresentam ao mundo: o texto.
Consideração fulcral do princípio que norteia sua proposição desconstrutiva: o aforismo il n’y
a pas de hors-texte, cuja tradução e interpretação livre é: “nada há além do texto, que não
seja, já ou ainda, texto” (LANG; BARBOSA, 2012, p. 93). Com este aforismo Derrida
(1967/1995) denota o caráter textual de toda a realidade, inscrita em diferentes sistemas
simbólicos.
Da proposição não há fora-texto derivam-se duas formas textuais: texto no sentido
restrito e texto no sentido amplo. A primeira trata-se de algo escrito em livros ou
eletronicamente, em formas arquiváveis; a segunda, tem-se aquilo que é considerado como
realidade não textual, mas que também tem estrutura de texto, refere-se à textualidade inscrita
em filmes, acontecimentos cotidianos, produções culturais (LANG; BARBOSA, 2012).
A máxima não há fora-texto ressalta a estrutura moebiana do texto, logo, sua
derivação em sentido amplo e sentido restrito não opera na lógica “ou um...ou outro”, mas
sim, simultaneamente. Basta pensar que um texto restrito tece uma amplitude textual e viceversa, pois tudo é texto. “Assim, não se poderia mais falar, com propriedade, em um sujeito
que se relaciona com uma realidade, mas em uma leitura que, simultaneamente, produz um
texto e um leitor” (LANG; BARBOSA, 2012, p. 94). Segundo a proposição derridiana, não se
trata de uma realidade externa ao sujeito, a qual ele busca desvendar ao lançar-se no mundo; o
autor postula que, a partir do encontro com o mundo, produz-se uma leitura da realidade.

27
3.1. Do texto aos pressupostos de leitura: prescrições fundamentais
Antes do mergulho na trama de conceitos e temática da estratégia desconstrutiva de
leitura-escritura como metodologia de pesquisa psicanalítica, convém considerar algumas
questões preliminares concernentes à própria atividade de leitura e escrita. Afinal, o que é ler?
O que é um texto?
Acredita-se que o escrever precede o ler, pois para que se possa ler é preciso que algo
tenha sido escrito. Para Vilém Flusser (1920-1991), filósofo tcheco naturalizado brasileiro e
autor do livro A escrita: há futuro para a escrita? (2010), escrever nada mais é que um modo
de leitura, em que os sinais gráficos são escolhidos dentre outros para então serem
organizados em linhas, perfilados.
Etimologicamente, ler vem do latim legere que significa escolher, selecionar. O ato de
selecionar designa-se “eleição”; a competência para eleger, “inteligência”; o resultado desta
ação denomina-se “elegância”. Assim como a escolha dos sinais gráficos antecede o dispor
em linhas, a eleição-leitura (seleção dos sinais) precede o escrever (FLUSSER, 2010). Ler e
escrever são verbos incessantemente conjugados durante o processo de produção de um texto.
Basta pensar que para escrever um artigo outras produções escritas serão previamente lidas,
para compor o corpo teórico e argumentativo do pretenso texto acadêmico.
Já texto vem do latim texere que significa tecido, e é composto por linhas, derivado do
latim linea, que equivale a fio de linho (FLUSSER, 2010). “Textos são, contudo, tecidos
inacabados: são feitos de linhas (da corrente) e não são unidos, como tecidos acabados, por
fios (a trama) verticais” (FLUSSER, 2010, p. 63). Em consequência, o texto constituiu-se
como um produto semiacabado, demandando acabamento daquele que o lê. Conforme afirma
Flusser (2010, p. 64), “quem escreve tece fios, que devem ser recolhidos pelo receptor para
serem urdidos. Só assim o texto ganha significado”. Completude atingida por cada leitor a sua
própria maneira.
O entrelaçamento entre a noção de texto para Derrida e a concepção de escrita e leitura
para Flusser (2010) resulta em um fio de Ariadne no labirinto das estratégias metodológicas
de leitura-escrita. Para continuar, resta saber o que as pesquisas psicanalíticas na academia
fazem com um texto, como leem um texto. Numa pesquisa, ler caracteriza-se então como o
procedimento investigativo. Entretanto, ler um texto, ou seja, nos aproximarmos do textual

28
sobre o qual os sentidos serão tecidos, não é uma atividade ingênua, automática, que dispensa
a consideração de pressupostos.
As considerações de Campos e Coelho Jr. (2010) abordadas no artigo Incidências da
hermenêutica para a metodologia de pesquisa teórica em psicanálise oferecem embasamento
à discussão sobre o modo como os pressupostos de leitura são articulados ou suprimidos em
pesquisas no campo psicanalítico. Os autores destacam o fato de que as pesquisas dedicadas
ao estudo sistemático de textos parecem prescindir de um instrumental de leitura. Em geral,
no trabalho de pesquisa pautado pelo estudo teórico como estratégia de investigação, a
descrição dos textos é privilegiada em detrimento da problematização dos pressupostos da
leitura a ser empreendida.
Frente a isto, os autores constatam a “presença de certa ingenuidade metodológica na
interpretação dos textos” (CAMPOS; COELHO JR., 2010, p. 248). Caso não problematizem
os pressupostos da leitura, alguns investigadores adotam a negação dos pressupostos como
prescindíveis à investigação/leitura, ou partem da ideia de que estes são compartilhados por
todos os leitores.
Em linha semelhante, Lang e Barbosa (2010) corroboram com os autores citados e
enfatizam que na pesquisa teórica, em geral, costuma-se excluir ou subestimar a apresentação
da metodologia e dos protocolos de leitura que regem a pesquisa. Comumente, os
pesquisadores aludem de forma sintética a tipologia metodológica como uma revisão
bibliográfica – com frases como “leitura crítica dos textos e de seus comentadores
contemporâneos” – ou pesquisas bibliográficas, suprimindo os pressupostos que conduzem as
leituras dos textos elencados na dita revisão.

3.2. Estratégias de leitura-escritura na pesquisa psicanalítica: nas trilhas da
desconstrução
A partir do exposto acerca de alguns aspectos conceituais e metodológicos de leitura
na pesquisa psicanalítica, é possível demarcar a especificidade da metodologia que baliza a
construção do presente estudo. Contrariamente à perspectiva descrita nos parágrafos acima, da
estratégia desconstrutiva deriva uma metodologia que demanda a admissão de protocolos de
leitura, da consideração dos contextos de produção do texto, dos pressupostos do leitor na
atividade interpretativa (LANG; BARBOSA, 2015).

29
Tem-se como ponto de partida a concepção de que na atividade de leitura o leitor
interage com o texto, assume uma posição ativa no processo de leitura, atribui sentidos
próprios e, por conseguinte, produz conhecimento a partir do texto lido. Consequentemente,
ler não pode se caracterizar como uma atividade natural, simplória, diretiva, trivial,
transparente (LANG; BARBOSA, 2010).
Circunscrito o terreno da estratégia desconstrutiva de leitura e seus pressupostos, o
aporte metodológico que norteou esta pesquisa se apoia nas formulações de Luís Claudio
Figueiredo (1999) descritas em seu livro Palavras cruzadas entre Freud e Ferenczi, no qual
propõe o plano de metodologia próxima, atenta e desconstrutiva. Partindo da premissa
desconstrutiva derridiana, Figueiredo elenca e caracteriza três modos de ler, acompanhar e
interpelar, distintos pela forma singular como abordam o sentido e a alteridade do texto. São
eles: leitura clássica/sistematizante, leitura hermenêutica, e leitura próxima, atenta e
desconstrutiva.
Os textos eleitos como objeto de estudo são os escritos de Lacan que vão de 1938 a
1949: Os complexos familiares na formação do indivíduo: ensaio de análise de uma função
em psicologia (1938/1998); Formulações sobre a causalidade psíquica (1946/1998); A
agressividade em psicanálise (1948/1998); e, O estádio do espelho como formador da função
do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica (1949/1998). Todos publicados no
Brasil pela editora Jorge Zahar, integrando a coleção do Campo Freudiano no Brasil, dirigida
por Jacques-Alain e Judith Miller, com assessoria brasileira de Angelina Harari.
Os complexos familiares é o único texto que não se encontra nos Escritos devido a seu
tamanho. Segundo Miller (2005), Lacan concordou com a indicação de seu editor de
prescindir dele nos Escritos, que tem quase 1000 páginas. A versão brasileira examinada neste
estudo foi a traduzida por Marco Antonio Coutinho Jorge e Potiguara Mendes da Silveira
Júnior. E para os demais textos, localizados nos Escritos, as versões estudadas foram as
traduzidas por Vera Ribeiro.
Tais informações são relevantes à medida que estruturam os horizontes externos para a
interpretação do texto. De partida se configura o pano de fundo sui generis de uma leitura
desconstrutiva, em que não só a arquitetura dos conceitos se faz relevante, como também são
significativos os dados sobre a trama histórica, as traduções, as edições.

30
3.2.1. Leitura clássica/sistematizante
De acordo com Figueiredo (1999), na modalidade de leitura clássica/sistematizante
o(s) sentido(s) do texto pode(m) ser desvendado pelo leitor. Esta concepção de leitura está
alicerçada em dois pressupostos metafísicos. O primeiro diz respeito ao sentido como
transcendente ao texto, algo que subjaz, que se encontra além de suas linhas. Nestes moldes
de leitura o sentido transcendente existe em si mesmo, é dado pelo autor e pode ser acessado
pelo leitor tal qual o autor “quis dizer”. Trata-se de uma leitura avessa ao leitor, ao contexto
de leitura, à época, onde o sentido será sempre o mesmo. Desse modo, as leituras
sistematizantes são consideradas dogmatizantes, como aquelas que engessam o sentido a ser
alcançado pelo leitor à medida que avança na busca pelas “teses” do texto.
O segundo pressuposto metafísico é o da unidade – o sentido como idealidade
almejada numa leitura –, concebido como algo precedente e prevalente sobre a diferença.
Nesta concepção, desconsidera-se assim o acaso, a polissemia do texto, as ambiguidades que
podem emergir de sua leitura, ou mesmo os impasses emergentes na transposição entre
idiomas. O sentido mantém-se estático e intrínseco à obra independente das traduções ou
articulação das palavras.
A leitura clássica protege as teses e o sentido unívoco do texto. Toda a rede de
remissão dos elementos textuais elaborada pelo autor trabalha para conduzir o leitor a um
único lugar, o lugar comum do sentido apriorístico do texto. Por isso são close and closed
reading. Dito isto, a boa leitura será aquela que segue pelo caminho clássico, reduzindo,
fixando, esterilizando possíveis sentidos, evitando assim, o “lobo mau polissêmico”
(FIGUEIREDO, 1999).
Para efetivar uma leitura clássica, além do corpus textual do jovem Lacan descrito
acima, foram selecionados outros autores, psicanalistas leitores de Lacan e críticos de sua
obra. As produções textuais elencadas denotam a vigente pertinência do manuscrito lacaniano
no tocante a interpretações atuais no âmbito sócio-clínico. Para tal fim, alguns textos que
estruturam esta sessão são: Um mundo sem limites: ensaio para um crítica psicanalítica do
social (2004) e O mal-estar na subjetivação (2010), ambos do psiquiatra e psicanalista
francês Jean-Pierre Lebrun, também membro da Association Lacanienne Internationale;
Lacan y las ciencias sociales: la declinación del padre (1938-1953) (2002) do sociólogo e
psicanalista francês Markos Zafiropoulos, pesquisador associado ao Centro de Pesquisa em
Psicanálise, Medicina e Sociedade; Jogo de posições da mãe e da criança: ensaio sobre o

31
transitivismo (2002), dos psicanalistas franceses Jean Bergès e Gabriel Balbo, membros da
Association Lacanienne Internationale.

3.2.2. Leitura hermenêutica
O modo de leitura hermenêutica desenvolvido por Figueiredo (1999) considera as
proposições dos filósofos H.-G. Gadamer e Richard Rorty. Na leitura hermenêutica o
interpretar “envolve a aceitação, a procura e/ou a construção de um fundo para que algo se
configure” (FIGUEIREDO, 1999, p. 10). Para tal empreendimento interpretativo é necessário
considerar e problematizar os contextos ou horizontes externos e internos ao texto. Nessa
concepção de leitura, por sua vez, contextualizar/descontextualizar/recontextualizar os
horizontes do leitor e do texto são condições sine qua non para interpretar e conceber
sentidos.
Os horizontes externos situam o texto num campo histórico e contingente, abrindo
possibilidades de interpretação e produção de sentidos. Já os horizontes internos são as redes
intratextuais que conectam os elementos do texto, conferindo-lhes lugar, função e sentido
(FIGUEIREDO, 1999). As leituras hermenêuticas consideram que para construir sentidos, os
pressupostos do leitor, os pressupostos do autor, assim como o contexto histórico e social em
que a obra foi escrita, devem ser considerados como balizas.
No

tocante

a

esta

pesquisa,

a

leitura

hermenêutica,

ou

seja,

cont./recon./descontextualizante dos textos do jovem Lacan objetivou constituir/reconstruir
seus horizontes externos e internos. Os horizontes externos correspondem ao contexto
histórico, político e social em que o texto foi produzido, sobre quais questões Lacan se
debruçava na década de 30, como estava organizada a psicanálise francesa neste período, por
qual razão escreveu sobre a família, a gênese do eu e do sujeito e, no terreno da
psicopatologia, se dedicou a teorização e terapêutica da psicose. Para isto, foram utilizadas
produções de conteúdo biográfico, escritas pela psicanalista Elisabeth Roudinesco, a saber: La
batalla de cien años: historia del psicoanalisis em Francia Vol II (1993), Jacques Lacan:
esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento (2008), Lacan, a despeito de tudo
e de todos (2011).
Acerca dos contextos internos, são apontadas as conceptualizações teóricas e
filosóficas que influenciaram as teorizações de Lacan no referido período, tais como: a prova

32
do espelho de Henri Wallon; considerações sobre o transitivismo de Elsa Köhler e do próprio
Wallon; a filosofia de Hegel apresentada pelo filosofo da ciência Alexandre Kojève; o
complexo de Édipo, a segunda tópica e elaborações sobre o narcisismo advindos da doutrina
freudiana; a psicologia concreta da George Politzer; a sociologia de Émile Durkheim e etc. O
exame do arcabouço sociológico de Durkheim acerca da família conjugal é crucial não apenas
para compreender a gênesis do corpo teórico lacaniano, mas também para assimilar os
aspectos da tese do declínio social da imago paterna que se prolongam no campo
psicanalítico hodierno (ZAFIROPOULOS, 2002).

3.2.3. Leitura próxima, atenta e desconstrutiva
Esse modo de ler, acompanhar e interpelar deriva dos trabalhos de Jacques Derrida.
Em 1967, Derrida concebe o termo déconstruction, que não pode ser entendido como um
conceito, um método, uma crítica, ou uma análise, posto que visa subverter as noções de
conceito e método. Segundo o filósofo franco-argelino, o neologismo desconstrução não
dispõe de uma significação clara e unívoca, contudo, enfatiza que esta não consiste numa
destruição (DERRIDA, 1985/1998).
Seguindo um esquema heideggeriano, a desconstrução opera no interior dos discursos
fundadores do pensamento metafísico ocidental. Visa a decomposição dos discursos da
filosofia, da história, da literatura, da fenomenologia, da psicanálise, revelando seus
pressupostos, ambiguidades, contradições, tendo em vista a possibilidade de reconstruí-lo e,
por conseguinte, de ampliar seus limiares (PEDROSA JUNIOR, 2010).
A estratégia desconstrutiva de leitura de textos implementa-se em dois momentos
desconstrutivos. No primeiro, identifica-se os pares de oposições e se inverte a hierarquia dos
conceitos, propondo o segundo termo como principal (VASCONCELOS, 2003). Conforme
ressalta Derrida (1967/1995, p. 54), “desconstruir a oposição é primeiro, num determinado
momento, derrubar a hierarquia”. Em seguida, sucede o segundo momento, que Derrida
propõe como jogo.
A perspectiva da desconstrução arrevesa a hierarquia tradicionalmente determinada
entre um termo e seu oposto conexo para, posteriormente, instituir “não a redução de um
conceito a outro, [...], mas o jogo, como a incessante alternância de primazia de um termo
sobre o outro, produzindo, assim, uma situação de constante indecisão” (VASCONCELOS,

33
2003, p. 75). Portanto, a estratégia de leitura desconstrutiva não pretende destruir o texto, mas
visa à inversão e deslocamento da ordem de conceitos que sustenta sua estrutura, em busca de
novos conceitos, de significados ocultos, subentendidos ou denegados pelo próprio texto
(LANG; BARBOSA, 2012).
Para Derrida (1967/2008), a linguagem do texto é fluída, ambígua, fugindo,
incessantemente, de uma identidade, de um significado preciso. Logo, o texto pode assumir
convenções variadas, adquirir significados ao invés do que ele significa. A abordagem
desconstrutiva propõe um desmonte do que foi, implícita ou explicitamente, instituído ao
texto através de jogos de palavras, elementos ambíguos, referências sugestivas,
pressuposições nebulosas até para o próprio autor.
Assim, a monumental autoridade semântica, clara, precisa e lógica do texto é
desmontada: ao invés de um significado, pode assumir infinitas interpretações. Derrida
(1985/1998) concede ao leitor a liberdade de adicionar sentido, intenção e atitude, pois as
palavras, dispostas em linhas na escritura, são como caixas de ressonância propensas à livre
interpretação do leitor.
Com a fluidez da linguagem em detrimento da fixidez da identidade da palavra com
seus objetos, Derrida instaura a indecidibilidade do significado. A palavra “não extrai seu
valor senão de sua inscrição em uma cadeia de substituições possíveis, naquilo que se chama,
tão tranquilamente, de um „contexto‟. [...] em que ela substitui ou se deixa determinar por
tantas outras palavras” (DERRIDA, 1985/1998, p. 24).
Como exemplo é possível pensar na palavra inconsciente. Para significar o que é o
inconsciente precisamos considerar o texto, contexto e o subtexto, inclusive a edição e
tradução utilizada. A esta altura, pode-se pensar que um inconsciente tem caráter mais
autêntico que outro, contudo, se incorre no mesmo erro que a atitude desconstrutiva depõe
contra, a saber, a lógica metafísica ocidental baseada em noções binária que se opõem, sendo
uma sentença verdadeira ou falsa (DERRIDA, 1967/1995).
Ler, acompanhar e interpelar o texto de forma atenta e desconstrutiva implica ater-se
não apenas as suas “teses” (significado clássico), mas também àquilo que é nebuloso, omitido,
ignorado, operações próprias da leitura clássica. Neste modo particular de ler, o sentido não
está dado de antemão, não precede, muito menos prevalece em relação ao leitor e seus

34
pressupostos. O sentido será construído no intervalo entre leitor e texto, produto do encontro
que ocorre entre ambos (LANG; BARBOSA, 2012).
Na leitura próxima, atenta e desconstrutiva o que precede e prevalece na atividade
interpretativa é o traço diferencial do leitor (FIGUEIREDO, 1999). Tal enfoque encontra
ancoragem na premissa derridiana sobre o caráter absolutamente heterogêneo da textualidade,
como “sendo constituída de diferenças e de diferenças de diferenças” (DERRIDA, 1972/2005,
p. 52-3).
Ao conduzir ao extremo a diferença e, consequentemente, a indecidibilidade entre as
diferenças, o sentido se distancia da “presença” de uma verdade absoluta. Verdades soberanas
e plenas, na visão de Derrida, são construções textuais arbitrárias que difundem pressupostos.
Assim como os textos produzem uma realidade eles também disseminam a “presença” (em
sua estrutura mesma que sustenta uma superfície de linguagem) de uma verdade
transcendental da metafísica ocidental.
Para pensar esta ideia derridiana de verdade como construção textual autoritária um
questionamento sobrevém como exemplo: quem seria o detentor da verdade última e absoluta
sobre o inconsciente? A partir do traço diferencial do leitor, a leitura desconstrutiva impede
que a teoria psicanalítica seja subjugada por um autor ou um grupo como detentor da verdade
única, e impele que o leitor se coloque como o autor de mais uma versão da verdade. A
propósito, o conceito de verdade nas reflexões filosóficas de Derrida, além de não outorgar o
caráter de absoluta e una, consente a efemeridade. Logo, a verdade é o efeito de uma leitura, é
temporal e se sustenta por elementos textuais. A verdade é a fluidez da linguagem, esta, por
sua vez, foge a um significado preciso (DERRIDA, 1967/2008).
Na concepção de Derrida (1967/1995), tudo o que encontramos na linguagem é um
sistema de diferenças, e o significado emerge dessas diferenças sutis e múltiplas, não sendo
possível sintetizar as muitas nuanças da diferença encontrados na linguagem, em um simples
e único fundamento lógico que determine a identidade. Perante esta perspectiva, Figueiredo
(1999) assinala que, “um sistema de traços diferenciadores é o que opera invisível e
inaudivelmente na formação do sentido e isso significa que a „intenção do autor‟, o „objeto
intencional‟ e o „referente‟ não podem vir a ser e a operar senão no campo previamente
constituído das diferenças” (p. 14). A diferença prevalece porque cada unidade de sentido se
implica numa rede de traços diferenciais, destituída de um significado central e único.

35
Sendo assim, ao considerar que “o texto é outro para si mesmo” (FIGUEIREDO,
1999, p. 9), a estratégia de leitura desconstrutiva assume a alteridade do texto no processo de
edificação de sentidos. Ler um texto psicanalítico de modo atento, próximo e desconstrutivo
significa se lançar na exploração das tensões do texto, suas trilhas perdidas, deslegitimadas,
com o intuito de instabilizar e temporalizar seu sentido canônico apriorístico, injetando
vitalidade ao texto em análise.
Nesta pesquisa, ler, acompanhar e interpelar os textos do jovem Lacan segundo a
proposta metodológica de Figueiredo (1999) demandou ater-se não somente às suas “teses”
consensuais, ou mesmo à configuração de um pano de fundo histórico e contingente para
produção de sentidos. No percurso de uma leitura desconstrutiva, o leitor atento é aquele se
mantém vigilante às “„impurezas‟, às „irregularidades‟, às „fraturas‟ de que o texto é feito, as
alteridades do/no texto” (FIGUEIREDO, 1999, p. 17). O que são as impurezas, as
irregularidades, as fraturas do texto? Suas notas rodapé, citações, interpretações do autor,
conceitos e termos utilizados, a diagramação, notas do editor e/ou tradutor.
O que se pode elaborar sobre a constituição subjetiva e o autismo tomando como
fundamento a cena de leitura dos manuscritos fontes e objetos de pesquisa? Nas linhas deste
trabalho, apresenta-se uma leitura acerca da estruturação psíquica e de temas da
psicopatologia contemporânea elaboradas por Lacan. Somado a isso, expõe-se em algumas
páginas uma leitura da hodierna problemática do autismo, fundamentada na elaboração
teórica e psicopatológica do jovem Lacan.
Os sentidos que dão corpo a essa dissertação foram construídos no intertexto, ou seja,
na relação entre o texto e o pesquisador-leitor, no durante e no depois da leitura (incluindo os
efeitos das leituras clássica e hermenêutica). Pois como bem sublinha Derrida (1972/2005),
ler significa acrescentar um fio novo ao tecido do texto, ação que emerge como efeito das
exigências suplementares.

4. AS HERANÇAS TEÓRICO-CONCEITUAIS DO JOVEM LACAN
4.1. O jovem Lacan
Delimitados o objeto de estudo, objetivos e metodologia, o próximo passo desta
pesquisa se configura pelo empreendimento da leitura hermenêutica dos textos do jovem

36
Lacan. Mas de antemão emerge a dúvida: quem foi o jovem Lacan? De onde surge essa
denominação?
Nos mais de 80 anos do programa de investigação cientifica de Lacan, a complexa
obra do psicanalista francês tem sido objeto de inúmeras interpretações. A obra de Jacques
Lacan compreende um vasto conjunto de textos resultantes desde a transcrição de seus
seminários e entrevistas, como da produção avulsa de escritos para colóquios, enciclopédia,
revistas da área psicanalítica e outras.
Muito se fala e escreve acerca da relação entre a psicanálise e outras disciplinas, tais
como a filosofia, a literatura, a linguística, a lógica, a matemática, o estruturalismo, a biologia,
a psiquiatria, as artes plásticas, a política, a antropologia, a mitologia, a educação, etc.
Contudo, pouco ou nada se estuda sobre o laço que une uma parte de seus escritos aos
trabalhos dos investigadores nas ciências sociais. Este elo epistemológico costuma ser
negligenciado pelos psicanalistas comentadores de Lacan como se a omissão deste aspecto
genealógico do corpus teórico lacaniano não obstaculizasse a compreensão do mesmo.
Markos Zafiropoulos (2002; 2015), psicanalista e sociólogo francês, se dedica à
discussão dos embasamentos sócio-antrópológicos que nutriram os textos de Lacan no início
de sua incursão no campo psicanalítico. De acordo com Zafiropoulos (2002), Lacan foi
influenciado pela Escola Francesa de Sociologia e na linha de frente estão os sociólogos
Émile Durkheim e Marcel Mauss. Igualmente, empreendeu uma leitura dos etnólogos William
Halse Rivers, Bronisław Malinowski, Ruth Benedict, Margaret Mead, como “preparação”
para seu encontro cientifico – no pós-guerra – com Claude Lévi-Strauss.
O encontro com a antropologia estrutural de Lévi-Strauss, a partir da década de 50,
operou modificações em toda galáxia conceitual do universo teórico de Lacan. O paradigma
estruturalista de Claude Lévi-Strauss dominará o que o próprio Lacan chama de “retorno a
Freud”. Neste momento, Lacan retifica seus embasamentos antropológicos, se despede de
Durkheim e adere à antropologia estruturalista de Lévi-Strauss. Este retorno, que se faz pelo
caminho levistraussiano, marca o início oficial do ensino de Lacan, datado em 1953. Retorno
que se institui menos como uma reelaboração da teoria freudiana do que como o nascimento

37
da doutrina lacaniana7. Portanto, conforme assinala Zafiropoulos (2002; 2015), há mais do
que uma discreta aproximação entre Lacan e as ciências sociais.
A convergência das investigações de Lacan em direção ao arcabouço sociológico de
Émile Durkheim conduziu Zafiropoulos (2002) nomear este período como o momento
durkheimiano de Lacan. De 1938 a 1953, o embasamento sociológico de Durkheim foi capital
nas elaborações de Lacan, a ponto deste formular a tese de declínio social da imago paterna,
a qual deduziu da lei da contração familiar elaborada pelo sociólogo.

Perante a lei da

contração familiar, a tese proposta por Lacan assinala o “empobrecimento do poder
identificatório das famílias e a degradação do complexo de Édipo”, agora incapaz de garantir
a harmoniosa constituição subjetiva e social dos filhos e filhas (ZAFIROPOULOS, 2002, p.
12). Os pormenores da tese sócio-clínica elaborada em 1938 por Lacan serão desenvolvidos
no subcapítulo 6.5.
Os trabalhos de Lacan que vão de 1938 a 1953 compilam o momento que Zafiropoulos
(2002; 2015) convencionou nomear como o período do jovem Lacan. Contudo, o corpus
textual do jovem Lacan objeto de estudo da presente pesquisa foi demarcado no capítulo
anterior e vai até 1949, ano da última publicação que sinaliza a influência sociológica de
Durkheim dentro do campo de teorizações sobre constituição psíquica do sujeito.
A relevância deste conjunto de textos se sustenta na evidente antecipação de algumas
discussões e reflexões que ocuparam Lacan em seus trabalhos posteriores e seminários. São
textos com notável potencial teórico que trazem à tona as problemáticas do imaginário, do
narcisismo, da agressividade e da constituição psíquica (NAVARRO, 2011). Textos que
formam uma elaboração preciosa da antropologia lacaniana que abrangem desde o estudo da
dinâmica familiar, sua composição e o valor social do pai, passando pelas condições sociais
do edipismo, até apresentar um programa que tem consequências em relação à constituição
psíquica, bem como as catástrofes que podem alterar o transcurso de tal estruturação,
culminando

nos

avatares

psicopatológicos

e

sintomáticos

contemporâneos

(ZAFIROPOULOS, 2015).

7

Segundo Zafiropoulos (2015), Lacan era, sem dúvida, freudiano, no que concerne à origem e na forma de
proceder, ainda que não o tenha sido, no que diz respeito a uma série de conceitos acerca dos quais teve a
honestidade de sublinhar os pontos de divergência sobre determinada problemática (freudiana), por exemplo, a
universalidade do Édipo, ou ainda, a teoria do narcisismo. Não obstante, este retorno se trata de uma retificação
subjetiva da posição de Lacan frente ao saber psicanalítico e, em primeiro lugar, ao saber de Freud. As
investigações de Lacan objetivam resolver o que em seu juízo são problemas cruciais da clínica do sujeito e,
simultaneamente, problemas da clínica do social, mostra de uma epistemologia com credenciais freudiana.

38
De acordo com Navarro (2011), outro ponto que se destaca acerca do estudo do jovem
Lacan concerne à tentativa de reduzi-lo somente à problemática do imaginário, notadamente,
no que se refere a uma simplificação ao estádio do espelho, desconsiderando a complexidade
e possíveis releituras deste corpus textual. Assim, na presente pesquisa, tomou-se por
empréstimo o posicionamento de Navarro, no que tange sua consideração da potência
interpretativa do conjunto de textos do jovem Lacan, conceituada como uma obra aberta, viva
e susceptível de “fornecer novas inteligibilidades para questionar fenômenos socioculturais
atuais que despontam no presente mostrando suas descontinuidades e radical carência de
sínteses, completude e finalização” (NAVARRO, 2011, p. 13).
Ao se considerar que as bases durkheimiana e freudiana compõem os principais
horizontes internos do período lacaniano em questão, convém realizar uma incursão nos
termos sociológicos elaborados pelo pai da sociologia francesa, Émile Durkheim. A leitura
hermenêutica dos textos em questão demanda a análise das referências que Lacan utiliza ao se
referir, por exemplo, à família conjugal, à anomia, à degradação moral. Em função disso,
cumpre esclarecer alguns pontos cabais do embasamento sociológico de Durkheim sobre a
evolução da família, para compreender a conjuntura da elaboração teórica de Lacan entre
1938 e 1949.

4.2. Lacan leitor de Émile Durkheim
Lacan divergia de Freud em pontos teóricos específicos: a universalidade do Édipo, a
primazia do pai no complexo de castração, sobre a teoria do instinto de morte, a teoria do
narcisismo, da formação do supereu, do ideal do eu e do eu ideal. Sendo um jovem
psicanalista e ainda se aprofundando nos conceitos (empreitada que o conduzirá a seu retorno
a Freud), buscou noutras referências o que não o satisfazia no corpo doutrinal freudiano.
Assim, se aproximou da sociologia de Durkheim e Mauss, de etnólogos norte-americanos, de
alguns pós-freudianos e também dos trabalhos de Henri Wallon e outros. O principal, sem
dúvida, fora Durkheim, conforme destaca Zafiropoulos (2002) que dedicou o livro Lacan y
las ciencias sociales: la declinación del padre (1938-1953) a uma análise e discussão
pormenorizada do encontro entre Lacan e a sociologia moderna.
É sobre o corpo sociológico durkheimiano que Lacan apoia seus primeiros textos
psicanalíticos. Mas, afinal, quais são os conceitos que Lacan toma de empréstimo do

39
sociológico francês para teorizar sobre o desenvolvimento psíquico do homem e seus
percalços em estreita relação com a dinâmica da família?
Em 1938, Lacan elabora uma tese sobre o declínio social da imago paterna que será
discutida com minúcia adiante. Por ora, uma antecipação dos pontos sobre os quais esta tese
se organiza: a fecundidade subjetiva do complexo de Édipo não é estável e depende do valor
da imago paterna no grupo familiar; imago que está sujeita às condições sócio-históricas da
estruturação e funcionamento do grupo familiar; o valor da imago paterna que fundamenta o
complexo de Édipo está em declínio, como efeito da lei da contração familiar que conduziu a
evolução da instituição familiar paterna ao longo dos tempos. Evolução que consiste na
transformação de suas formas primitivas amplas (organizadas segundo a lógica da linhagem
simbólica correspondente a uma soberania do patriarca) à sua forma atual reduzida e
conjugal. A forma conjugal da família é profundamente marcada por interesses matrimoniais
gerenciados pela figura de um pai de poder e autoridade restritos, onde uma espécie de
carência mórbida pode apresentar-se no ponto máximo desta declinação. Eis os primeiros
termos durkheimianos a se destacarem, a lei da contração familiar, que conduziu ao advento
da família conjugal (ZAFIROPOULOS, 2002).

4.2.1. A família conjugal e o declínio do direito paterno
Data de 1892 o texto La famille conjugale8 de Durkheim, fruto de seu Curso Público
de Sociologia, ministrado na Faculté de Lettres de Bordeaux (publicado postumamente na
Revue Philosophique, em 1921). Na aula “A família: a partir da família patriarcal” Durkheim
(1892/1921) oferece a noção de família conjugal, a passagem abaixo é importante para
conceituá-la, por isso será preciso fazer uma citação extensa do texto não traduzido em
português:
A família conjugal resulta de uma contração da família paternal. Esta incluía
o pai, a mãe e todas as gerações originadas deles, salvo as filhas e seus
descendentes. A família conjugal já não inclui mais que o marido, a mulher,
os filhos menores e solteiros. Há, com efeito, entre os membros do grupo
assim constituído, relações de parentesco bastante característica, e que
existem entre eles, e nos limites onde se estende o poder paternal. O pai deve
alimentar o filho e fornecer sua educação até que este alcance a maioridade.
[...]. Mas quando o filho está em idade de casar, ou quando é legitimamente
8

DURKHEIM, Émile. La famille conjugale. Revue Philosophique. Paris, n. XCI, 1921, pp. 2-14. Acessado em
18/01/2017 e disponível em:
http://classiques.uqac.ca/classiques/Durkheim_emile/textes_3/textes_3_2/famille_conjugale.pdf

40
casado, todas as relações cessam. [...]. Ele pode, sem dúvida, continuar a
habitar a casa do pai, mas sua presença não é mais do que um fato material
ou puramente moral; não há mais quaisquer consequências jurídicas que ele
(filho) tinha na família paternal. [...] Em todo caso, uma vez casado, a regra
é que ele se torne independente. Sem dúvida ele (o filho casado) segue
ligado a seus pais, ele deve alimentá-los em caso de enfermidade e,
inversamente, ele tem direito a uma parte determinada da fortuna familiar,
[...]. Essas são as únicas obrigações jurídicas que sobrevivem (das formas
anteriores de família). Não há nele nada que recorde o estado de dependência
perpétua que estava no fundamento da família paternal e a família patriarcal.
Estamos, portanto, em presença de um tipo familiar novo. Visto que seus
únicos elementos permanentes são o marido e a mulher e que todos os filhos
abandonam cedo ou tarde a casa, proponho chamá-la de família conjugal. (p.
4.)

Assim se define a família que Lacan tomou como referência e salientou sua excelência
na introdução do texto de 1938. Definição a princípio jurídica, posto que as análises de
Durkheim fazem referência à evolução do direito que regula a família. Logo, tal perspectiva
enfatiza menos o declínio do poder do pai sobre os filhos do que a declinação jurídica de sua
autoridade. Como reflexo do declínio da autoridade paterna, Durkheim aponta a perda de
poder social do grupo familiar e sua amplitude no curso da história. Atrelada a esta limitação
do poder do pai se soma a intervenção do Estado na totalidade do funcionamento da família
conjugal (ZAFIROPOULOS, 2002).
Consideração esta que reverbera nas elaborações teóricas do jovem Lacan, onde a
declinação do poder do pai no âmbito social e jurídico, assim como o desprestígio do grupo
familiar, compõem o que ele nomeou como condições sociais do edipismo, ou seja, além de
relativizar a abrangência do complexo de Édipo, subordinou seu surgimento (e da própria
psicanálise) à família conjugal.

4.2.2. Lei da contração familiar
A passagem da família paterna para a forma conjugal foi possível devido a uma
operação de contração que Durkheim nomeou como a lei da contração familiar, organizadora
de toda a história da instituição familiar, cuja forma conjugal caracteriza o ponto culminante
desta evolução. Mas, afinal, do que trata essa lei paradigmática no progresso das formas da
família?

41
O estudo da família ensinou a Durkheim que quanto mais extensas são as relações com
o meio social, mais a instituição familiar se contrai para preservar a possibilidade de gerenciar
seus conflitos internos e, portanto, sua competência de reprodução. Deste ponto de vista, a
dinâmica da contração modifica não só o tamanho do grupo familiar, mas também sua
estruturação, seu vínculo com os bens e a conjuntura das relações entre seus membros. Em
outras palavras, ao se contrair em volume, se modifica também a maneira como a família se
constitui. A consequência máxima da contração é a fragilidade extrema do laço familiar.
A família conjugal, tal como descrita acima por Durkheim, se deriva da família
paterna que, por sua vez, se origina de uma contração da família primitiva. Para entender a
transformação de uma à outra a partir da lei da contração que ordena a sucessão de suas
formas, torna-se necessário compreender o funcionamento de cada uma em função da história
que a precedeu.
Nas formas primitivas das famílias, um grupo de pessoas havia se organizado segundo
a lógica de um comunismo originário (reunião ao redor de “haberes” comunes), que fazia
depender as relações do grupo doméstico pela propriedade coletiva e sagrada das coisas. Da
posse coletiva das coisas se deduzia então o laço de parentesco entre as pessoas reunidas em
grupos amplos e de modo relativamente autônomo em relação aos laços de consanguinidade
(ZAFIROPOULOS, 2002).
A concentração da família resulta no advento do poder patriarcal e da propriedade
privada e faz originar o chefe de família, de tal modo que rompe o governo das coisas,
condensa e transfere a condição sagrada do patrimônio em beneficio da figura do pai. Mas, ao
mesmo tempo que as coisas perdem seu caráter sagrado, abre-se espaço a um sistema de
“objetos profanos” que exigem a invenção do direito da propriedade individual.
A propriedade individual inaugura uma nova possibilidade de trocas (inclusive com
pessoas de fora do grupo) que contrariam a lógica da família nos moldes patriarcais. Neste
sentido, Durkheim enfatiza o antagonismo entre a família patriarcal e a sociedade conjugal,
não podendo desenvolver-se paralelamente. Isto porque, se a família sustenta um forte
sentimento de unidade (característico do comunismo familiar), se contrapõe a possibilidade de
que algo do patrimônio familiar comum corra o risco de cair em mãos erradas (sob o regime
da comunidade dos bens conjugais).

42
De acordo com Durkheim (1892/1921), a sociedade conjugal se desenvolveu primeiro
nos povos germânicos, aonde a decadência relativa da família paterna face ao progresso da
economia dos bens matrimoniais conduziu à formulação definitiva da noção de comunidade
dos bens conjugais no século XIII. Em acréscimo, a influência da Igreja e, por fim, do Estado,
teriam configurado a organização da família em sua forma moderna e conjugal.
Em particular, compete enfatizar os efeitos da expansão do poder estatal moderno no
processo de enfraquecimento do poder familiar e na decadência de seu chefe, podendo,
inclusive, a partir da lei de 1889, despojá-lo totalmente de seus direitos. Com as mudanças,
coube ao Estado, através do Código Cívil, o regime de fixação das regras de funcionamento,
da composição e até da definição mesma da família. Em suma, a soberania do pai na família
patriarcal (ou paterna) é sucedida pela soberania do Estado na complexa família conjugal.
Complexidade que se deve ao legado das formas superadas de sua evolução.
Durkheim também adverte sobre as incidências subjetivas de sua lei da contração,
emergentes como contrapartida da progressiva debilidade da consciência familiar. O
sociólogo acentua que a fragilidade do patrimônio doméstico do grupo familiar apresenta-se
acompanhada pela debilidade da consciência e pelo nascimento de um individualismo
moderno, no qual suas formas mórbidas egoístas promovem um universo de desarranjos
passionais, a anomia, a miséria moral e até a morte voluntária.
Lacan (1938/2002), sem dúvida durkheimiano, tangencia as mudanças no grupo
familiar – passagem da família primitiva à família patriarcal e depois à família conjugal – no
decorrer da história, descritas na introdução dos Complexos Familiares:
[...] a família primitiva desconhece os laços biológicos de parentesco [...].
Além disso, o parentesco só é reconhecido por intermédio de ritos que
legitimam os laços de sangue e, quando necessário, criam laços fictícios:
fatos do totemismo, adoção, constituição artificial de um agrupamento
agnático como a zadruga eslava. Do mesmo modo, segundo nosso código, a
filiação é demonstrada pelo casamento. (p. 14-5).

Este é o corpo sociológico sobre o qual se sustenta o jovem Lacan, principalmente
para compor o texto de 1938, onde utiliza o saber articulado por Durkheim sobre a evolução
da família e suas incidências morais para instituir uma clinica psicanalítica procedente da lei
da contração familiar formulada pelo pai da sociologia francesa.

43
4.3. O palco de uma escrita: o jovem Lacan
O ponto de partida desta aventura hermenêutica ao longo dos contextos externos e
internos do jovem Lacan é a década de 30. No início dos anos 30, Jacques-Marie Émile Lacan
era um jovem psiquiatra que, num percurso clássico de formação, se dedicou ao estudo da
clínica das doenças mentais e do encéfalo no Hospital Sainte-Anne, localizado em Paris,
hospital no qual se tornou interno, dividindo a sala de plantão com Henri Ey, Pierre Mâle,
Pierre Mareschal e Henri Fréderic Ellenberger. E foi no anfiteatro do Saint-Anne que Lacan
deu início a sua famosa apresentação de doentes.
A incursão de Lacan na psicanálise teve como motor principal a atitude surrealista. O
encontro com o surrealismo de Salvador Dalí operou em Lacan uma transformação na
apreensão da linguagem no domínio das psicoses. Neste momento de evolução do seu
pensamento, Lacan lia a obra de Freud e localizava no surrealismo o instrumento que faltava à
teorização da paranoia (ROUDINESCO, 2008).
O principal escrito de Lacan produzido na primeira metade da década de 30 foi a
elaboração de sua tese De la psychose paranoïaque dans ses rapports avec la personalité,
defendida em 1932. Trabalho que opera uma síntese de três domínios do saber: a clínica
psicanalítica, a doutrina freudiana e o surrealismo. Essa síntese se apoiava também sobre uma
admirável compreensão da filosofia – Spinoza, Jaspers, Nietzsche, Husserl e Bergson. A tese
de medicina ainda é uma obra de psiquiatria, embora sendo, de igual modo, um texto
psicanalítico. A tese sobre a paranoia marcou os novos rumos do pensamento de Lacan,
capturado de vez pelo saber psicanalítico – tal como a saga do infans na frente do espelho,
ironicamente, objeto de suas investigações neste período. Período que coincide com outro
dado de sua formação: ele passa a frequentar o divã de Rudolf Loewenstein, onde
permanecerá por seis anos. Lacan encerrou sua conturbada análise em 1938 (ROUDINESCO,
2008).
Ainda no tema da formação de Lacan, o ano de 38 também assinala o momento em
que ele se tornou membro da Sociedade Psicanalítica de Paris (Société Psychanalytique de
Paris – SPP) e junto à Sacha Nacht, Daniel Lagache, Pierre Mâle, Marc Schlumberger, John
Leuba e outros, integrantes da segunda geração de psicanalistas da SPP. Todos aderem a uma
sociedade que se mantém sob a égide da Associação Psicanalítica internacional (International
Psychoanalytical Association - IPA).

44
Os anos de 1933/4 foram marcados pelo acesso a um novo horizonte filosófico. O
convívio com Alexandre Koyré, Henry Corbin, Georges Bataille e Alexandre Kojève, em
particular, lhe permitiu a entrada numa modernidade filosófica que passava pela leitura de
Husserl, Nietzsche, Hegel e Heidegger. Sob a ótica da historiadora Elisabeth Roudinesco
(2008), não fosse essa iniciação, a obra de Lacan teria permanecido condicionada ao saber
psiquiátrico ou a uma assimilação acadêmica dos conceitos freudianos.
Ao passo que Lacan ia estreitando laços com um círculo intelectual moderno do qual
se abastecia de conceitos para reformular suas teorizações, ele foi se afastando do meio
psiquiátrico que, a essa altura, já reconhecia seu valor. Os dois filósofos que ascendem como
fonte primeira das reelaborações de Lacan na segunda metade da década de 30 são Alexandre
Kojève e Henri Wallon.
Por intermédio das palavras de Kojève, uma geração de pensadores descobriu as
palavras-chave da filosofia de Hegel. No decorrer dos seis anos de seu seminário, a palavra
deste homem se converteu na linguagem mesma da modernidade. Através de seus
ensinamentos, Lacan aprendeu conceitos e um estilo de ensino que fez sucesso em seus
seminários nos anos 50, a leitura e comentário de textos.
Dos ensinamentos de Kojève, Lacan apreendeu três conceitos capitais que serão
empregados a partir de 1936: “o eu [je] como sujeito do desejo, o desejo como revelação da
verdade do ser, o eu [moi] como lugar de ilusão e fonte de erro” (ROUDINESCO, 2008, p.
150). Essa tríade conceitual reaparece combinada ao tema da psicogenia da loucura e da
essência da família nos textos de Lacan publicados entre 1936 e 1949, a saber: Os complexos
familiares na formação do indivíduo (1938/2002), Formulações sobre a causalidade psíquica
(1946/1998) e a segunda versão do Estádio do Espelho (1949/1998).
A notória influência de Wallon na doutrina do jovem Lacan remonta à relação que
estabeleceram na Sociedade de Psiquiatria, onde se encontraram em diversas oportunidades
entre 1928 e 1934, sendo 1934 o ano que Lacan toma conhecimento da famosa prova do
espelho enunciada por Wallon no livro Les origines du caractere chez l’enfant: les préludes
du sentiment de personnalité9. Inspirando-se na (ou apropriando-se da) experiência
walloniana, Lacan a utilizou como estrutura para desenvolver seu conceito do estádio do
espelho, enunciado em Marienbad no ano de 1936 (ROUDINESCO, 1993, 2008, 2011).
9

WALLON, Henri. As origens do caráter da criança: os prelúdios do sentimento de personalidade. São Paulo:
Difusão Européia do Livro, 1971.

45
De acordo com Roudinesco (2008), esta famosa aventura walloniana do espelho se
estabelece como uma novela de Lewis Carroll. As histórias do filósofo convertido em médico
versam sobre cães, gatos, patos, crianças, que atravessam espelhos e observam com deleite ou
indiferença seu reflexo resplandecente. O tom fantástico de Carroll, ludicamente evocado por
Roudinesco, se dissipa ao descrever os passos que Wallon segue em seu experimento
científico. Wallon compara as reações dos animais com as das crianças, comprovando a
presença de posturas diferentes, segundo a idade.
A experiência walloniana da prova do espelho apoia-se na ideia darwiniana segundo a
qual a transformação de um indivíduo em sujeito demanda o atravessamento dos desfiladeiros
de uma dialética natural10. No plano dessa transformação, que para a criança equivale à
resolução de seus conflitos, a experiência do espelho é um ritual de passagem que ocorre entre
seis e oito meses de vida. Ela viabiliza para a criança o reconhecimento e a unificação de seu
eu no espaço. Para Wallon, a prova do espelho especifica a passagem dialética do especular
ao imaginário e do imaginário ao simbólico (ROUDINESCO, 2008).
Lacan toma de “empréstimo” a prova do espelho de Wallon e transforma a experiência
psicológica em uma teoria da organização imaginária do sujeito. A primeira mudança é a
conversão da prova em estádio, ou seja, refere-se a uma “posição”, fazendo desaparecer toda
referência a uma dialética natural qualquer (maturação psicológica ou progresso do
conhecimento) que permita ao sujeito unificar suas funções. A partir de então, o estádio do
espelho torna-se uma operação psíquica, ou mesmo ontológica, matriz que proporciona, por
antecipação, o devir imaginário do eu e da alteridade, através de uma identificação com a
imagem especular.
Munido deste arsenal teórico-conceitual, Lacan participa, pela primeira vez, de um
congresso da IPA, realizado em Marienbad no ano de 1936. Freud, doente, ficara em Viena, e
a cidade de Marienbad, próxima da Áustria, fora escolhida para que Anna pudesse socorrer
seu pai em caso de emergência. Nessa época, na efervescência das Grandes Controvérsias, um
clima bélico inspirava os debates que opunham os defensores de Melanie Klein e os de Anna
Freud, a propósito da psicanálise de crianças.
10

A concepção da psicologia para Wallon se baseia numa dialética das transformações, cuja noção de
desenvolvimento tem um papel central. Seu interesse se firma no fator orgânico, ligado à maturação do sistema
nervoso central, inseparável das influências do fator sociocultural na determinação daquele. Seu ponto de vista
consiste em construir uma psicobiologia, assumindo assim uma postura interacionista. No campo da infância,
Wallon funda as bases de sua pesquisa, definindo o objeto da psicologia como um atravessamento entre duas
situações: a sucessão descontinuada de estádios, através de suas retificações em termos de crises, o que indica o
passo do estado infantil à situação adulta.

46
Neste contexto institucional, Lacan apresentou suas elaborações acerca do estádio do
espelho. Contudo, ao cabo de 10 minutos de exposição, Ernest Jones (o então presidente da
IPA) o interrompeu, alegando falta de tempo. Descontente, Lacan não entregou sua
comunicação às autoridades competentes, posto que o texto não figura nas atas do congresso.
Por fim, Lacan abandona o congresso e decide acompanhar as Olimpíadas de Munique.
O itinerário tumultuoso deste texto histórico iniciado em 1936 só ganhou a versão
como publicação em 1949, reinventado para um novo congresso da IPA, em Zurique. Antes
da versão publicada nos Escritos, Lacan inseriu o essencial sobre o estádio do espelho em
uma parte do artigo sobre a família, publicado em 1938 na Enciclopédia Francesa.
A Enciclopédia Francesa foi um empreendimento idealizado pelo Ministério da
Educação da França, e se destinou a dar conta do estado da cultura moderna, ao estilo da
filosofia das luzes. Tratava-se de um inventário dos conhecimentos humanos, tendo o homem
como o objeto real e central de estudo (ROUDINESCO, 1993).
A origem da Enciclopédia data do ano de 1932, onde o historiador Lucien Febvre,
responsável pelo projeto, solicita a Henri Wallon que este elabore uma espécie de catálogo da
vida afetiva que integraria uma “paleontologia psíquica”. Wallon aceita a proposta de Febvre
e, em 1934, começa o volume VIII da Enciclopédia, a qual intitula La Vie Mentale e ocupa a
parte Circonstances et objets de l'activité psychique. Diante da empreitada nada simples,
Wallon reúne outros colaboradores, entre eles: Pierre Janet, Charles Blondel e Georges
Dumas, Eugène Minkowski, Paul Schiff, Édouard Pichon, Benjamin Logre, Daniel Lagache e
Jacques Lacan.
Enquanto Pichon se encarregou do artigo sobre a psicanálise e Lagache se dedicou ao
campo da sexualidade, a Lacan coube a seção La Famille, título com o qual o artigo foi
publicado (Wallon convidou Lacan em 1936, mas o texto só ficou pronto em 1938, após
inúmeras reelaborações feitas por Lacan, Febvre, Wallon e Rose Celli (colaboradora de
Febvre) com o propósito de torná-lo menos incompreensível). Em 1984, o artigo sobre a
família foi publicado com outro título: Os complexos familiares na formação do individuo:
ensaio de análise de uma função em psicologia. O texto sobre a família constitui a última
contribuição escrita de Lacan no período do entre guerras, retornando à escrita apenas em
1945 (ROUDINESCO, 1993).

47
De acordo com Roudinesco (2008), o texto sobre a família conjuga legibilidade e
obscuridade, da mesma forma que denota o momento de transição em que o pensamento
lacaniano se encontrava. “Lacan incluía nesse balanço o conjunto de sua reelaboração
conceitual anterior à guerra – dai o caráter simultaneamente sintético e programático do texto”
(p. 199). A trama teórica do texto é composta por uma amálgama de considerações clínicas e
psicopatológicas, aliadas a uma análise de distintas teorias psicanalíticas, antropológicas e
sociológicas, a fim de compreender o status e evolução da família ocidental (ROUDINESCO,
2011).
Nos Complexos familiares é possível encontrar conceitos e noções que posteriormente
serão desenvolvidas e servirão de arcabouço para o conjunto de seu ensino, tais como:
complexo do desmame, imago do seio materno, transmissão via linguagem/simbólico, apetite
da morte, nostalgia do todo, identificação mental, estádio do espelho, supereu arcaico,
declínio da imago paterna, primazia da pulsão ante o instinto (ROUDINESCO, 2008).
As fontes que embasam tais termos matrizes da doutrina lacaniana procedem de
diferentes horizontes do saber. Destaca-se uma miscelânea de disciplinas que haviam nutrido
o pensamento de Lacan até então: uma associação entre o vocabulário da psiquiatria –
presente na tese de 1932 – e a terminologia da escola psicanalítica francesa; considerações
kleinianas; a influência filosófica de Wallon e Kojève, que viabilizou uma leitura não
biológica e fenomenológica da doutrina freudiana; uma análise sociológica da família –
especificamente no que se refere à família conjugal instituída por Émile Durkheim –, efeito da
frequentação do Colégio de Sociologia, da leitura do sociólogo e antropólogo Marcel Mauss;
e, por fim, reflexões embasadas em considerações do biólogo e filósofo alemão Jakob von
Uexküll (ROUDINESCO, 2008).
Na primeira parte do texto, opõe complexo ao instinto para interpretar as três
estruturas que contribuem para a formação do psiquismo. Tomada por Freud da escola de
Zurique, a palavra complexo denomina um conjunto de representações que podem ser tanto
conscientes como inconscientes. O complexo é designado por Lacan como o fator concreto
que permite compreender a estrutura da instituição familiar, considerada entre o fenômeno
cultural que a determina e os vínculos imaginários que a organizam. As três estruturas,
dispostas de maneira hierárquica e sucessiva, formavam o modelo de toda interpretação do
desenvolvimento subjetivo. Nela se encontravam o complexo do desmame, o complexo de
intrusão e o complexo de Édipo. Na segunda parte, Lacan interpreta a questão dos complexos

48
em patologia em função da síntese que elaborou na primeira parte; faz um balanço de seus
próprios trabalhos no domínio da psicose, acrescentando-lhe uma perspectiva freudiana no
tocante às neuroses (ROUDINESCO, 1993).
Em termos sociológicos e antropológicos, o parecer de Lacan a respeito da família
ocidental considera a crise da modernidade que havia afetado as sociedades europeias. Crise
organizada em torno de uma nova bipolarização das ordens do masculino e do feminino,
revelando-se na decadência da autoridade paterna, bem como da família paternalista, e na
feminização da sociedade ocidental, através de uma virilização do princípio feminino.
Em termos de evolução do sistema de pensamento lacaniano, Os Complexos familiares
é um texto que representa um momento crucial na formação da doutrina deste autor. “Opera
uma vasta síntese, ainda que confusa e elíptica, na qual o wallonismo é reinterpretado desde o
ponto de vista freudiano, elaborado, por sua vez, em termos de kojevismo” (ROUDINESCO,
1993, p. 150). Ou seja, além de apresentar uma síntese da conversão da noção de Wallon da
prova do espelho transformada no conceito do estádio do espelho, Lacan revisa a doutrina do
complexo de Édipo. A isto se integra a teoria acerca da psicose, cuja origem remonta à tese de
1932. Vale ainda ressaltar o fato de que, em todo o texto, Lacan não cita Wallon, o que pode
traduzir-se como uma tentativa de apagar o nome do psicólogo e outorgar a si próprio como o
único introdutor do termo.
Fosse por essa posição perante seu antecessor, fosse por convicções teóricas, o texto
de 38 sobre a família rendeu a Lacan algumas críticas. Entre os que reagiram, na primeira fila
encontra-se Édouard Pichon, que redigiu na Revue Française de Psychanalyse uma resposta
intitulada “A família perante o Sr. Lacan”11 (1939). Roudinesco (2008) descreveu o ocorrido
da seguinte forma:
Pichon dirigiu-se a Lacan vilipendiando-o, começava por dar-lhe uma lição
de gramática, recriminando-o por usar jargão, criar neologismos e empregar
palavras de maneira imprópria. [...]. Na realidade, estava furioso com a
maneira pela qual Lacan se apropriava, sem declará-lo explicitamente, dos
conceitos e noções utilizados por seus predecessores: o próprio Pichon,
Codet e Laforgue. Embirrava também com os ataques sarcásticos que ele
lançava contra autores que não se dignava nomear. Mas o essencial da
diatribe incidia sobre a diferenciação entre duas palavras: cultura e
civilização. (p. 207-8. Grifos da autora).

11

PICHON, Édouard. La famille devant M. Lacan. Revue Française de Psychanalyse, vol. 11, n° 1, p. 107149, 1939. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k1103926/f111.image.langFR

49
A discordância entre Pichon e Lacan girava em torno da questão da discriminação
entre cultura e civilização. Na visão de Pichon, Lacan utilizou a palavra cultura (fato pessoal)
ao invés da palavra civilização (fato coletivo). Acontece que o universalismo de Lacan
rejeitava o discurso maurrasiano fundado na pretensa superioridade da civilização francesa
sobre as demais culturas, em especial, a kultur alemã, concebida como uma interioridade
individual. A antropologia moderna adotada por Lacan sustenta a ideia de uma universalidade
da razão e da cultura humana diante da natureza, frente a quaisquer que fossem as diferenças
internas a essa cultura e a essa razão. Ao passo que o universalismo de Pichon não era
igualitário, fixava suas bases na pretensa superioridade da civilização francesa, e é nesta
perspectiva que ele recrimina Lacan por ser “alemão”, isto é, por suas raízes filosóficas
hegelianas e marxistas.
O ano de 1939 na história do movimento psicanalítico é marcado pela morte de Freud,
a data: 23 de setembro. Enquanto na Alemanha Ernerst Jones instaura uma política de
colaboração com os nazistas, na França a situação se desenha de maneira distinta, o horizonte
da psicanálise se modificava, em razão da ascensão da segunda geração francesa na SPP
composta por Jacques Lacan, Sacha Nacht, Daniel Lagache e Françoise Dolto.
Lacan não publicou nos anos de guerra, o que não significa dizer que seu pensamento
tenha permanecido inalterado, ou mesmo que foi um período improfícuo de suas ideias e
escrita. Sua vida, seus costumes, suas amizades se transformaram. Em 1945, suas questões se
situavam na relação entre o individual e o social, o que o conduziu à problemática da essência
do vínculo social, transpondo a esfera familiar e adentrando no panorama da psicologia
coletiva com todo sentido freudiano que cabe ao termo. Assim como todos os psicanalistas de
sua geração, Lacan constatou a proficuidade da teoria freudiana na análise do regime político
autoritário (nazista e fascista). Todavia, levou em conta a noção do declínio da imago paterna
para analisar tanto o devir da família moderna nas sociedades industriais, como a supremacia
concedida ao chefe no nazismo (ROUDINESCO, 2008).
Assim, Lacan renovava sua leitura da doutrina freudiana à luz do hegelianismo, dando
prosseguimento àquela efetuada antes da guerra. E não era por acaso que Lacan defendia a
vigente necessidade de um abandono definitivo de todo organicismo em matéria de
psiquiatria. “Pois tal revisão da tese freudiana do primado do eixo vertical ia de par com a
aceitação de uma concepção exclusivamente psicogenética da personalidade humana”
(ROUDINESCO, 2008, p. 243).

50
Lacan foi mobilizado a tal ponto por essa ideia que, no Colóquio de Bonneval de
1946, teceu críticas severas à teoria organo-dinamicista de seu amigo Henri Ey, mesmo que
ambos concordassem em combater a doutrina do constitucionalismo. Ao se opor ao organodinamicismo, Lacan pôs em evidência a causalidade psíquica como causa única da loucura.
Sua contraposição à doutrina de Ey o levou a reconhecer, pela primeira vez, Gaëtan Gatian de
Clérambault como seu único mestre em psiquiatria, apesar de ter escolhido, em 1932, o ensino
mais dinâmico de Henri Claude, a quem devia a concepção estrutural e psicogenética da
loucura.
O texto do colóquio de Bonneval que brindou Henri Ey com o enunciado crítico
lacaniano foi Formulações sobre a causalidade psíquica (1946). Nesse período, Lacan
abandona sua teoria da personalidade com base na filosofia de Spinoza, renunciando a
fenomenologia psiquiátrica da qual foi partidário até 1932, e a substitui por uma
fenomenologia vinculada à filosofia de Hegel, Husserl e Heidegger, oriunda da frequentação
da escola francesa dos historiadores das ciências (ROUDINESCO, 2008).
Nas Formulações Lacan expõe sua perspectiva da causalidade psíquica com base
numa leitura hegeliana da loucura, especificamente, e considera a famosa dialética do senhor
e do escravo para derivar sua fórmula geral da loucura, aplicável em qualquer fase do
desenvolvimento dialético do ser humano. Tais proposições o conduziram a refletir sobre a
condição da liberdade humana. Nas palavras filosóficas, quiçá poéticas, de Lacan
(1946/1998):
Longe de ser para a liberdade “um insulto”, ela (a loucura) é sua mais fiel
companheira, e acompanha seu movimento como uma sombra. E o ser do
homem não apenas não pode ser compreendido sem a loucura, como não
seria o ser do homem se não trouxesse em si a loucura como limite de sua
liberdade. (p. 177)

A noção do estádio do espelho reaparece no texto de 1946, no qual Lacan concebe o
estádio do espelho como o acontecimento que marca a própria gênese psicológica do homem,
ao instaurar as relações imaginárias fundamentais num comportamento exemplar de uma certa
fase do desenvolvimento. Reporta-se também aos Complexos familiares, apontando a
escansão da história do desenvolvimento psíquico como uma história de renúncias (aos
objetos das imagos).

51
Ao voltar ao tema da psicogênese da loucura, Lacan trata o desfecho do delírio,
motivado por um mecanismo que se refere à agressão suicida do narcisismo (bem mais do que
à autopunição). Pois, ao golpear violentamente sua imagem ideal, o louco atinge a si mesmo.
Estas formulações prepararam o terreno para a exposição acerca da agressividade apresentada
no XI Congresso dos psicanalistas de língua francesa, em Bruxelas, no ano de 1948.
A agressividade em psicanálise é o título da apresentação que deu origem ao texto
homônimo. No referido texto, Lacan retoma todos os temas enunciados em seus textos
precedentes. Inicia por uma leitura da segunda tópica, distingue o eu [moi], referência
imaginária, do je, indicativo de uma posição do sujeito e incorpora ainda algumas ideias
kleinianas. Divide o texto em cinco partes propostas como teses, resumidas da seguinte forma:
a primeira tese propõe a agressividade como uma experiência subjetivante. A segunda tese
destaca que a agressividade se apresenta na experiência como intenção agressiva e como
imagem de desmembramento corporal (agrupadas nas imagos do corpo despedaçado). A
terceira tese concerne ao impulso de agressividade posto em cena pela técnica analítica, onde
a transferência negativa induz uma paranoia dirigida. Por esse motivo, Lacan toma por
empréstimo a ideia kleiniana da posição paranoide e faz do eu uma instância de
desconhecimento organizada numa estrutura paranoica a ser considerada na experiência de
análise. Posição que leva Lacan a concordar com a perspectiva de Melanie Klein acerca da
necessidade de conceder um lugar primordial à transferência e de não fazer do eu o lugar de
uma apropriação do isso. A quarta descortina a questão da tendência agressiva correlativa a
um modo narcísico de identificação, determinante da estrutura formal do eu. É nessa parte que
o autor utiliza a noção de estádio do espelho para tratar da gênese do eu e do objeto. Na quinta
e última tese, Lacan traz à tona a dialética hegeliana do senhor e do escravo para salientar a
função própria da agressividade na ontologia humana, como uma das coordenadas
intencionais do eu humano, cujo papel se faz presente na neurose moderna e no mal-estar na
civilização.
Como se pode ler, na edificação de suas primeiras teorias, o jovem Lacan manteve em
pauta a gênese do eu e do sujeito sob o holofote da filosofia moderna alemã, do pensamento
de Wallon e da doutrina freudiana. Percurso que será coroado no XVI Congresso da IPA
realizado em Zurique no verão de 1949. Entre os representantes da SPP estavam Lacan,
Lagache, Nacht, Bonaparte e Leuba. Treze anos depois, Lacan voltou à temática especular
numa exposição intitulada O estádio do espelho como formador da função do eu [je] tal como
nos é revelada na experiência analítica. Todavia, a exposição marca o giro na evolução de

52
seu pensamento, pois “as teses enunciadas em 1949 não eram mais as de 1936, e Lacan
colocava, doravante, a psicanálise sob o signo de uma filosofia não freudiana do sujeito – o je
diferenciado do eu – que devia opor-se radicalmente a toda filosofia oriunda do cogito”
(ROUDINESCO, 1993, p. 269).
O texto de 1949 torna evidente o efeito em Lacan da frequentação do seminário de
Kojève. As exposições de seu mestre hegeliano o conduziram a interrogar-se sobre a gênese
do eu pela via de uma reflexão filosófica acerca da consciência de si. Por conseguinte, Lacan
fez uma leitura da segunda tópica e do narcisismo freudiano, indo no sentido oposto a ego
psychology, para formular sua teoria do imaginário.
Quanto à reelaboração freudiana de 1920, dois caminhos se abriam. O primeiro
equivalia fazer do eu o resultado de uma diferenciação progressiva do isso, operando como
representante da realidade e encarregado de manter as pulsões; o segundo, por via oposta,
consistia em considerar a gênese do eu como uma série de operações fundadas na
identificação com imagos advindas do outro. A segunda opção foi a escolhida por Lacan, e
são as concepções resultantes desta escolha que ele apresenta na versão de 49 do estádio do
espelho, ao demonstrar que a experiência de assunção jubilatória da imagem do corpo
unificado (eu [moi]) manifesta “a matriz simbólica em que o je se precipita numa forma
primordial, antes de se objetivar na dialética das identificações com o outro e antes que a
linguagem lhe restitua, no universal, sua função de sujeito”. (LACAN, 1949/1998, p. 97).
Sobre o narcisismo, Lacan tomou um caminho contrário ao de Freud. O ponto crucial
da constituição da imagem corporal e do eu no ensino de Lacan denota a essencialidade do
outro nesse processo. “O eu se constitui a partir da imagem do semelhante, sem a qual não
haveria possibilidade alguma de constituição do eu. Portanto, a origem é o semelhante e sua
imagem” (EIDELSZTEIN, 2015, p. 18). Ao passo que o oposto se esboça na lógica proposta
por Freud na teorização do narcisismo, cujo processo de formação do eu prescinde do outro.
Em termos de dinâmica libidinal, a libido deve retornar sempre ao próprio eu, e o outro tornase um recurso para o caminho da satisfação do eu. De acordo com Eidelsztein (2015), fazer
coincidir a teoria do narcisismo de Freud com o estádio do espelho de Lacan é um engano
comum no campo psicanalítico, posto que os autores partem de posições contrárias em
relação à preponderância da imagem do outro na constituição do eu.
Perante esta distinção – e por outras influências – o jovem Lacan será considerado
mais kleiniano que freudiano. No texto sobre a família, ele já havia deduzido o paralelismo

53
existente entre sua elaboração teórica e as teses de Melanie Klein (1882-1960). As questões
da psicanalista inglesa eram, simultaneamente, paralelas e heterogêneas às suas. Apesar de ter
tomado vias diferentes, Lacan, assim como Klein, questionou o estatuto do sujeito, a
estruturação das relações de objeto, o papel arcaico da ligação edipiana, a posição paranoica
do conhecimento humano, etc. (ROUDINESCO, 1993, 2008). Ambos teorizaram sobre a
loucura associada à dialética do sujeito humano, elegendo o campo da psicose como âmbito
de trabalho e pesquisa; assim como ela, Lacan explorou os mais arcaicos elementos da relação
de objeto, com o intuito de resolver o enigma da condição imaginária do homem; por fim,
tanto um, como o outro, abordaram o corpus teórico freudiano a fim de insuflar-lhe um novo
impulso. Contudo, enquanto Melanie Klein utilizou os conceitos forjados por Freud para
efetuar sua reelaboração no próprio interior do pensamento freudiano, Lacan nutriu seu
pensamento com disciplinas e saberes exteriores ao freudismo: psiquiatria, surrealismo,
filosofia, sociologia, antropologia.

4.4. Lacan leitor de George Politzer
Uma terceira influência de viés filosófico na herança do jovem Lacan fica por conta de
George Politzer (1903-1942), filósofo e teórico de origem húngara, de quem Lacan adota a
noção de psicologia concreta. Lacan faz eco aos estudos de Politzer tanto nos Complexos
familiares quanto no texto Formulações sobre a causalidade psíquica de 1946.
Exímio leitor de Freud, George Politzer publicou, aos vinte e cinco anos, o livro
Crítica dos fundamentos da psicologia: a psicologia e a psicanálise (1928/1998), uma crítica
à teoria dos sonhos e do inconsciente freudiano. Trata-se de uma obra de epistemologia da
psicologia, onde Politzer tem como objetivo demolir as bases da psicologia científica, sem
distinção de tendência, inaugurando a noção de psicologia concreta.
Politzer apresenta aos psicólogos a questão sobre o status científico e filosófico de seu
objeto. “Entre a física, ciência „objetiva‟ na terceira pessoa, e a psicologia, ciência da primeira
pessoa, não há lugar para outro campo científico que seja capaz de estudar, na terceira pessoa,
os fatos da primeira” (ROUDINESCO, 1993, p. 75). Contudo, a psicologia aspira exercer essa
tarefa. É neste sentido que a crítica politzeana à psicologia recai sobre a impessoalidade com
que se aproxima de seu objeto, ao vazio de significado, sobretudo, uma concepção rígida dos
comportamentos individuais. Sob esta etiqueta, Politzer localiza a psicologia abstrata,

54
clássica, experimental (laboratorial) que descreve fatos psicológicos desassociados de um
sujeito.
À psicologia abstrata opõe o princípio da psicologia concreta que toma por objeto o
estudo do que Politzer denominou “drama da vida” do homem, seus desejos, seus atos, seu
devir histórico, respeitando suas idiossincrasias e não delimitando conceitos (memória,
inteligência, imaginação). Assim, a posição de Politzer tem por efeito ligar uma estrutura a
uma história, uma subjetividade a uma dinâmica evolutiva, por isso rechaça a perspectiva de
um sujeito plenamente dono de seus atos. Ao objetivar quebrar o marco da psicologia, toma o
freudismo como instrumento, defendendo a psicanálise como psicologia científica
propriamente dita, legítima psicologia concreta (PASTRE, 2006).
Os fundamentos da psicologia concreta inspiraram as elaborações do jovem Lacan
deste o período de sua tese. Em 1938, outorga a psicologia concreta como o único método de
observação e análise capaz de acessar a estrutura cultural da família humana. Em 1946, dedica
à psicologia concreta as seguintes linhas:
foi com um sentimento assim, bem sei, que o grande espírito de Politzer
renunciou à expressão teórica em que teria deixado sua marca indelével, para
se dedicar a uma ação que iria arrebatá-lo de nós irreparavelmente. Pois não
percamos de vista, ao exigir, seguindo os passos dele, que uma psicologia
concreta se constitua como ciência, que nisso estamos apenas nas
postulações formais. Quero dizer que ainda não conseguimos estabelecer a
mínima lei em que se paute nossa eficácia. (LACAN, 1946/1998, p. 162)

Na citação acima, Lacan se refere à tentativa, por parte dos psiquiatras presentes na
jornada de Bonneval, de delimitação do objeto da psicologia com base no estabelecimento de
uma fenomenologia da relação psicanalítica, tal qual vivida entre médico e doente. Ou seja,
essa menção a Politzer embasa sua crítica aos defensores do organo-dinamicismo de Henri
Ey. Nas páginas finais do texto, Lacan define o conceito de objeto em que se fundaria uma
psicologia científica: a imago.
George Politzer marcou os rumos da psicanálise na França, influenciou não só Lacan,
igualmente se firma como influência filosófica para Maurice Merleau-Ponty, Jean Paul Sartre
e Michel Foucault. Politzer teve um final trágico, em 1942 foi preso, torturado e executado
pela Gestapo por ser militante comunista. Sua esposa também foi detida e enviada a
Auschwitz, falecendo em 1943.

55
4.5. O adeus a Durkheim e as boas-vindas a Lévi-Strauss
Depois de 1938, Lacan retomou a questão do declínio do pai no texto O mito
individual do neurótico em 1953, ano do início de seu empreendimento de retorno a Freud.
Considerando os limites desta pesquisa, ainda que o citado texto de 53 não tenha sido objeto
de investigação/leitura, vale a apresentação de um fragmento, a título de descoberta, para
indicar o rumo que Lacan seguiu a partir nos anos 50:
Afirmamos que a situação mais normativizante da vivência original do
sujeito moderno, sob a forma reduzida que é a família conjugal, está ligada
ao fato de o pai ser o representante, a encarnação de uma função simbólica
[...]. A assunção da função do pai pressupõe uma relação simbólica simples,
em que o simbólico recobriria plenamente o real. Seria preciso que o pai não
fosse somente o nome-do-pai, mas representasse em toda a sua plenitude o
valor simbólico cristalizado na sua função. Ora, é claro que esse
recobrimento do simbólico e do real é absolutamente inapreensível. Ao
menos numa estrutura social como a nossa, o pai é sempre, por algum lado,
um pai discordante com relação à sua função, um pai carente, um pai
humilhado, como diria o sr. Claudel. (LACAN, 1953/2008, p. 39-40. Grifos
do autor)

Ainda que neste trecho Lacan recorra ao termo família conjugal e à situação de
estrutura social para explanar a falta de recobrimento entre o real e a função do pai – que de
acordo com Paul Claudel12 conduz à sua humilhação – finda por revelar sua adesão às chaves
claudelianas de seu diagnóstico de 1938, ao deixar de lado suas fontes durkheimianas. Em
outras palavras, no momento em que muda de universo conceitual, filiando-se ao
estruturalismo, Lacan abandona a referência a Durkheim e recorre ao poeta e dramaturgo
francês Paul Claudel (ZAFIROPOULOS, 2002).
O texto O mito individual do neurótico é a primeira publicação de Lacan em que
aparece a noção de nome-do-pai. Inspirando-se na etnologia, ele traz um dos principais casos
de Freud, o do Homem dos Ratos, para o qual se vale das regras de interpretação dos mitos
propostas por Lévi-Strauss. Nele surgem as referências à tríade real, simbólico e imaginário, a
função e a estrutura.
O deslocamento que se produz em 1953, em termos conceituais, concerne à passagem
do valor social do pai de 1938 ao valor estrutural e propriamente simbólico de seu nome
(diferença que culmina no afamado termo declínio da função paterna, que será discutida no

12

Publicado pela primeira vez na La Nouvelle Revue française em 1919, Le Père humilié de Paul Claudel é a
terceira tragédia da trilogia Les Coûfontaine, e trata-se de um drama que gira em torno da questão do pai e da
temporalidade de seu poder.

56
próximo capítulo). Em resumo, o que se opera é a mudança de ênfase no papel das
circunstâncias familiares ou das condições sociais do edipismo em benefício do poder do
nome-do-pai como símbolo ou, mais precisamente, da função simbólica que norteia o destino
do homem. A lógica desta função se pauta nas regras propostas pelos especialistas das
ciências sociais, etnólogos e linguistas, que sucederam Durkheim nos embasamentos
antropológicos de Lacan (ZAFIROPOULOS, 2002).
A hipótese de Lévi-Strauss quanto à noção de parentesco permitiu a Lacan repensar as
fundações do universalismo edipiano proposto por Freud, alicerçado não mais no sentimento
de um temor natural do incesto, mas na existência de uma função simbólica assimilada como
lei da organização inconsciente das sociedades humanas. Logo, com a entrada em cena da
antropologia de Lévi-Strauss, o complexo de Édipo passou a figurar no quadro de um
universal simbólico e deixou de ser pensado como um universal natural.
Em termos históricos, Zafiropoulos (2002) comenta que, ao mesmo tempo em que
Lacan avança na elaboração da teoria do nome-do-pai, ele retifica sua posição subjetiva com
respeito ao nome-do-pai da psicanálise. Procede assim, um ato inaugural que funda um novo
campo analítico, adequado ao que nesse período é posto em manifesto na clínica analítica
lacaniana: a fecundidade do pai morto, de seu nome e de sua palavra.
Por fim, convém frisar mais um dado histórico. “Esta nova visita ao monumento
paterno não incumbirá unicamente a sua posição teórica e clínica frente ao complexo paterno,
mas também a sua própria postura com referência a Freud e a instituição fundada pelo pai da
psicanálise, a Associação Psicanalítica Internacional” (ZAFIROPOULOS, 2002, p. 197). Foi
em 1953 que Lacan se demitiu da Sociedade Psicanalítica de Paris e se juntou a Daniel
Lagache, Françoise Dolto, Juliette Favez-Boutonier e Blanche Reverchon-Jouve na Sociedade
Francesa de Psicanálise, perdendo a qualidade de membro da IPA.

5. A CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA NO JOVEM LACAN: OS COMPLEXOS
FAMILIARES E A SUBLIMAÇÃO DAS IMAGOS

Lacan pode não ter nomeado seu ambicioso ensaio sobre a família como uma
teorização acerca da constituição da subjetividade. No entanto, a leitura crítica que perfaz do

57
complexo de Édipo freudiano, sob um prisma sócio-antropológico, o conduziu a ultrapassar a
proposta de um verbete enciclopédico para alcançar o status de uma conceituação acerca da
estruturação da subjetividade e das neuroses contemporâneas em sua estreita relação com a
configuração familiar ocidental.
Nas primeiras linhas do texto de 38, Lacan evidencia que não está interessado na
dimensão biológica propriamente dita da configuração familiar, e se aborda este aspecto, a
partir de dados etológicos ou da fisiologia humana, é para demarcar sua posição antagônica a
toda tentativa de reduzir a família humana a um fato biológico. Essa é a linha diretriz que
Lacan segue no início do texto, apontando a diferença entre o comportamento animal e a
família humana a partir do que ele designa como “sentimento de paternidade”, sendo
improvável atribui-lo a um modelo biológico (IZCOVICH, 2011). Sentimento de paternidade
que pode ser facilmente derivado do provérbio romano mater semper certíssima, pater semper
incertus, onde os laços de parentesco se firmam não pela hereditariedade, senão pela
enunciação. Acrescenta Lacan (1938/1998, p. 12): “nesse domínio, as instâncias culturais
dominam as naturais, ao ponto de não se poderem considerar paradoxais os casos em que
umas substituem as outras, como na adoção”.
Outro aspecto que se destaca na Introdução concerne à dimensão cultural como aquilo
que especifica a família humana. Ainda que Lacan aponte alguns traços de comportamento
instintivos, similares aos da família biológica, as instâncias culturais dominam as naturais e
instituem o que ele chama de “economia paradoxal dos instintos” (p. 11). Em 1938, interessa
a Lacan uma aplicação da “experiência psicanalítica” para dar conta do concreto e dos fatos
da família como objeto e circunstância psíquica, ou seja, nunca objetivando os instintos, mas
sempre os complexos – estes condicionados por fatores culturais, à custa dos naturais.
O autor sublinha então uma definição do termo complexo13 como um conjunto de
reações psíquicas (representações, afetos, fantasias) que reproduz certa realidade do meio
ambiente, de modo duplo, como forma e como atividade. Como forma se impõe ao
desenvolvimento, fixando uma realidade datada, ou seja, representa sobre uma forma fixa
certa

realidade do desenvolvimento. Como

uma

atividade incita repetições

de

comportamentos, de emoções vividas, quando certo número de experiências se apresenta. Em
seu conteúdo, o complexo se compreende por referência a um objeto.
13

Apesar de apresentar o complexo como uma antítese do instinto, Lacan não nega ao complexo algum
fundamento biológico. O complexo só ocasionalmente tem uma relação orgânica, quando ele supre uma
insuficiência vital pela regulação de uma função social.

58
Os complexos têm para Lacan o papel de organizadores do desenvolvimento psíquico,
sendo tanto conscientes como inconscientes, dos quais se deduzem atos falhos, sonhos,
sintomas que incitarão a interpretação por parte do psicanalista, para pôr em relevo as
representações inconscientes dos complexos, suas imagos. Conforme indica, só a experiência
psicanalítica desvela essa espécie de reverso dos sentimentos familiares (conscientes) que
constituem os complexos inconscientes. É justamente por convocar os elementos
inconscientes dos complexos familiares que a psicanálise desvela um continente
epistemológico propício para explicar a dinâmica da família, o desenvolvimento psíquico dos
sintomas e as crises psicológicas, uma das quais haveria permitido – segundo Lacan – a
descoberta do complexo de Édipo.
Conforme escrito acima, nos Complexos Familiares o jovem Lacan elabora um
programa que pode ser denominado como uma primeira concepção teórica da constituição
psíquica, engendrada pelo encadeamento sucessivo de três complexos: complexo do desmame,
complexo de intrusão e complexo de Édipo. Cada complexo é composto por sua respectiva
imago, a saber, imago materna, imago do outro (ou também chamada de imago do duplo, ou
do semelhante) e imago paterna (ZAFIROPOULOS, 2002, 2015; NAVARRO, 2011). Já os
três objetos dos complexos apresentados por Lacan são: o seio materno, o outro como
semelhante, o pai como objeto de identificação.
A título de conceituação, o vocábulo imago utilizado por Lacan (1938/2002) inscreve
no inconsciente os dois núcleos da representação do modelo familiar: matriarcado e
patriarcado (ROUDINESCO, 2008). Segundo o Dicionário Internacional de Psicanálise
(2005), imago deriva da psicologia junguiana e refere-se a um protótipo inconsciente de
personagens, designando a maneira como o sujeito apreende o outro, sendo elaborado a partir
das primeiras relações intersubjetivas reais e fantasmáticas com os componentes do círculo
familiar. No dicionário organizado por Roudinesco e Plon (1998) tem-se a seguinte definição
da palavra imago: trata-se de uma representação inconsciente por meio da qual um sujeito
institui a imagem que possui de seus pais.
O termo imago atravessa todos os textos do jovem Lacan. Lacan utiliza o termo sob as
seguintes variantes: imago materna, imago paterna, imago do duplo/outro/semelhante, imago
do corpo próprio, imagos do corpo despedaçado. Mas afinal, o que é imago para Lacan? De
acordo com Izcovich (2011), “a imago é definida como os restos, como o traço no psiquismo
de uma relação. Logo, imago materna é constituída pelos restos da relação com a mãe

59
biológica” (p. 13). O mesmo ocorre com a imago paterna, com o corpo despedaçado, com o
corpo próprio. Izcovich (2011) relaciona o termo imago ao termo significante, que Lacan
utilizará após a introdução da categoria de simbólico. A imago é a representação inconsciente
do complexo condicionante de uma modalidade de comportamento repetitivo. Precisamente, o
que Lacan enunciará depois de 1950 para evocar o que é um significante no inconsciente.
Um pouco antes, em 1946, Lacan lança luz sobre o que seria uma imago e qual seria
sua função no psiquismo. Questiona-se: “terá então a imago a função de instaurar no ser uma
relação fundamental de sua realidade com seu organismo?” Ao que responde linhas depois:
“nenhuma experiência terá contribuído mais do que a psicanálise para manifestá-lo, e a
necessidade de repetição que ela (imago) mostra como efeito do complexo expressa isso com
bastante clareza” (p. 183). Por fim, Lacan conclui suas formulações sobre a causalidade
psíquica designando a imago como o objeto próprio da psicologia, cuja função será
implementar a “identificação resolutiva de uma fase psíquica, ou, em outras palavras, uma
metamorfose das relações do individuo com seu semelhante” (p. 189).
Ao longo do texto sobre os complexos familiares, Lacan descreve um percurso para o
devir da estruturação da subjetividade, seguindo o caminho dos três complexos supracitados,
ao passo que especifica as consequências clínicas e sociais do “desenvolvimento normal”,
também aponta as consequências psicopatológicas para o psiquismo caso se produza uma
fixação em algum deles.

5.1. Complexo do desmame e imago materna: nostalgia de morte ou a sublimação
Remonta ao período do Congresso de Marienbad (1936) a noção de prematuração
específica do nascimento do homem, defendida por Lacan no marco da teorização sobre o
estádio do espelho e que será um dos fios condutores do texto de 1938. Tal ideia refere-se ao
homem como um animal de nascimento prematuro: o ser humano tem a particularidade de vir
ao mundo quando ainda não está pronto, dependerá totalmente do outro para sobreviver. Além
do mais, será acometido pelo afã de sensações corporais em diversas partes de seu corpo,
vivência que Lacan nomeará de angústia do “corpo despedaçado” (1949/1998, p. 100). A
experiência do corpo despedaçado põe em jogo as vivências mais arcaicas do sujeito, capazes

60
de mobilizar uma fantasmagoria marcada pela desintegração agressiva que, por sua vez, se
converte na mais íntima vivência de morte14.
É neste período inicial do infans que o complexo do desmame toma seu lugar. O
complexo do desmame consolida no psiquismo a relação da alimentação sob uma forma de
dependência parasitária, exigência imposta pelas necessidades dos primeiros meses de vida do
homem. Complexo regido pela supremacia da imago materna (LACAN, 1938/2002), funda
arcaicos e estáveis sentimentos, ligando o indivíduo à família. Trata-se do mais primitivo
complexo do desenvolvimento psíquico.
Embora se caracterize por uma função biológica da lactação, o desmame no homem é
regulado pela cultura e será um acontecimento traumático que deixa no psiquismo o traço
permanente da relação biológica que ele interrompe. Ao mesmo tempo, o traumatismo do
desmame reativa o trauma da separação entre criança e mãe no nascimento: o desmame
congênito do homem.
Para Lacan (1938/2002), o trauma do desmame provoca uma crise em nível de
subjetivação e se repercute como a primeira tensão vital a ser resolvida “em intenção mental”
(p. 24), cuja solução se apresenta entre duas opções possíveis. O dilema que se coloca tão
prematuramente para o homem corresponde a aceitar ou a recusar o desmame.
A recusa do desmame funda o aspecto positivo do complexo: a imago do seio
materno. Esta imago domina toda a vida humana, tal qual um apelo à nostalgia do todo.
Entretanto, a imago precisa ser sublimada, por um lado, para permitir que novos vínculos
sociais se estabeleçam, por outro, para a integração de novos complexos ao psiquismo. À
medida que se resiste às novas determinações necessárias ao progresso da subjetivação, a
imago, salutar na origem, converte-se em fator de morte. Na fixação ao complexo, a tendência
psíquica à morte se sobressai (apetite da morte) e revela-se em suicídios do tipo "nãoviolentos", denotando o princípio oral do complexo: greve de fome na anorexia mental,
envenenamento lento de algumas toxicomanias por via oral, regime de fome das neuroses

14

Tanto no texto Estádio do Espelho, Os Complexos Familiares, A agressividade em Psicanálise e Formulações
sobre a causalidade psíquica, Lacan retomará o tema da prematuração orgânica do homem e a angustia do corpo
despedaçado marcado pela experiência de mortificação. Esta fantasmática mostra-se nos sonhos e sintomas,
particularmente no momento em que a análise do inconsciente toca num acervo arcaico de fixações. Emergem
imagens que atormentam o homem tais como: imagens de castração, emasculação, mutilação, desmembramento,
desagregação, eventração, devoração, explosão do corpo. Lacan (1948, p. 107) as agrupa em “imagos do corpo
despedaçado”.

61
gástricas. De acordo com o autor, ao abandonar-se à morte é o reencontro com a imago da
mãe que o sujeito intenta.
Em suma, Lacan enfatiza que o indivíduo tem duas saídas: escolher a sublimação da
imago materna, decisão que permitirá a entrada no grupo social (uma escolha pela vida); ou
enveredar pela sedução mortífera da nostalgia da mãe, no qual se deduz o anseio pela morte e
os transtornos da oralidade.

5.2. A nostalgia originária para Lacan: a mãe ou o pai?
Nos Complexos Familiares, Lacan (1938/2002) preconiza o complexo do desmame
como instaurador dos sentimentos mais arcaicos e estáveis que vinculam o indivíduo à
família, elevando a imago materna ao status de base da institucionalização familiar do sujeito.
Via pela qual Lacan confere ao complexo do desmame o fundamento de uma nostalgia pela
mãe nos primórdios (orais) da constituição subjetiva, em oposição à nostalgia pelo pai
apontada por Freud (ZAFIROPOULOS, 2002).
Do ponto de vista freudiano, recorda Zafiropoulos (2002), o ato de canibalismo
familiar fora perpetrado contra o pai (devorado pelos filhos no banquete totêmico). Para Freud
(1913-14/1996), o pai chega a seus filhos, antes de tudo, pela boca e para com ele há uma
nostalgia crônica “oral” do sujeito, no princípio mesmo da sua institucionalização. Ou seja, se
trata de uma nostalgia pelo pai na raiz de toda formação religiosa e na origem da humanidade.
De acordo com Zafiropoulos (2002), a nostalgia pela mãe será a versão lacaniana de
uma espécie de “dívida alimentar” nas origens dos laços sociais em contraposição à versão
paterna que Freud construiu em Totem e Tabu (1913-14/1996). “Aposta que chega até os
ideais políticos do homem que dão forma as nostalgias da humanidade animadoras da vida
social” (p. 36). Daí a nostalgia pela mãe se reconhecer no cerne das nostalgias da
humanidade: “miragem metafísica da harmonia universal, abismo místico da fusão afetiva,
utopia social de uma tutela totalitária, todas saídas da obsessão do paraíso perdido de antes do
nascimento e da mais obscura aspiração à morte” (LACAN, 1938/2002, p. 30).
A importância crucial que Lacan confere em 1938 à nostalgia pela mãe remonta a um
mal-estar ontológico da criança, a separação prematura de sua matriz pelo nascimento. Lacan
ainda destaca o traumatismo do nascimento como um chamado ao grupo, o chamado de uma

62
regulação da função social que supre a prematuração orgânica dos primeiros anos. A
propósito, Lacan (1946/1998) chega a nomear os primórdios do ser humano como fase de
miséria vital, tamanho peso traumático, iniciado no nascimento e que se repercute no trauma
do desmame. Nesta relação orgânica primeva e vital se inscreve a imago materna nas
profundezas do psiquismo, onde sua sublimação é, sobretudo, difícil, ao mesmo que põe em
jogo a constituição da subjetividade em seu elo com a cultura.
Ainda no texto de 1938, faz-se importante considerar outro ponto de divergência entre
Lacan e Freud no que se refere ao instinto de morte15. Ao abordar a tendência à morte como
característica do psiquismo humano, Lacan recupera o “querer morrer” conceituado por
Freud. A sedução mortífera da nostalgia pela mãe, que motivaria os suicídios não violentos
característicos de uma fixação no complexo de desmame (toxicomanias, anorexias, bulimias),
assume, nos complexos familiares, o lugar da teoria freudiana do instinto de morte. Nas
palavras de Lacan (1938/2002, p. 34) “o mal-estar do desmame humano, a fonte do desejo de
morte, reconhecer-se-á no masoquismo primário”. O masoquismo na economia dos instintos
vitais que levou Freud a afirmar um instinto de morte.
Lacan retorna a falar sobre o instinto de morte dez anos mais tarde, no texto A
agressividade em psicanálise (1948/1998), e desta vez reflete sobre a tendência mortífera da
agressividade associada, unicamente, ao instinto de morte. Para tanto, inicia seu texto
sublinhando o conceito freudiano de instinto de morte como uma aporia em sua doutrina, cujo
propósito era de formular uma experiência humana no registro biológico. Aporia a qual Lacan
salienta situar-se no cerne da noção de agressividade, delimitando sua função constitutiva do
sujeito e notória função na clínica.
Zafiropoulos (2002) destaca uma questão importante sobre a crítica que Lacan faz a
Freud no tocante a sua perspectiva da natureza metapsicológica das tendências mortíferas.
Lacan fundamenta a relação subjetiva com o grupo na nostalgia pela mãe (ou por sua matriz)
biologicamente determinada, (devido à prematuração vital e à relação de oralidade). Não só
isso, ele também propõe a sedução mortífera dessa nostalgia como um substituto para a teoria
do instinto de morte elaborada por Freud, a seu ver, demasiado marcada pelo biologicismo. O
que Zafiropoulos (2002) ressalta é que, curiosamente, a própria nostalgia pela mãe teorizada

15

Segundo Zafiropoulos (2002) a eleição pelo termo instinto de morte como tradução para pulsão de morte foi
feita por Lacan em 1938. Na edição dos Complexos Familiares feita pela Imago (objeto desta pesquisa), é
utilizado o termo instinto de morte como tradução de instinct de mort presente na versão em francês da Seuil.

63
por Lacan como versão do instinto de morte também está determinada por uma relação de
causalidade biológica.

5.3. Complexo da intrusão e imago do outro: dramas do narcisismo
Depois da análise das seduções mortais do complexo do desmame, Lacan prossegue
sua análise do processo de estruturação subjetiva mediante a ocorrência do complexo da
intrusão, a porta de saída do primeiro complexo. O estádio do espelho corresponde ao declínio
do desmame. Em virtude da sublimação da imago materna, outra advém, a imago do outro16.
No complexo da intrusão, Lacan retoma a teorização sobre o estádio do espelho a
partir da perspectiva da rivalidade fraterna, atrelada ao papel traumatizante do irmão na
constituição da imago do outro e na formação do eu. Já no texto de 1949, Lacan segue o
desdobramento de seu pensamento sobre a constituição do eu na dependência da imagem do
outro, no entanto, toma a imagem especular como mote principal para a formação da imago
do outro. Tanto em 1938, como em 1949, Lacan traz à tona a instauração da estrutura
narcísica do sujeito na dependência da imago do outro. Em ambos, o estádio do espelho é
vivido como mais um drama na constituição da subjetividade.
É a imago do outro que oferecerá ao sujeito a possibilidade de antecipar sua unidade
corporal, seja por meio da fascinação jubilosa da unidade da imagem do semelhante no
espelho, seja pela identificação mental com o irmão no lugar de intruso. Assim, e através de
uma identificação com esta imago, se torna oportuna a constituição de uma imagem ideal de
si mesmo (o eu ideal), que propicia uma unidade corporal possível e a configuração do eu
(LACAN, 1938; 1946; 1948; 1949).
Por volta dos seis ou dezoito meses, a criança frente ao espelho reconhece a imagem
de uma criança e se interessa por essa silhueta que nada mais é que uma duplicação de si.
Contudo, a criança vê outra criança e busca brincar com esta, movimenta-se, ri, a procura
atrás do espelho. Em seguida, a criança percebe que esse outro a sua frente nada mais é do
que sua imagem refletida. Nesse momento ela é capturada pela imagem unificada de seu
corpo, acontecimento marcado por intenso regozijo (LACAN, 1949/1998).

16

A imago do outro também pode surgir no texto como imago do semelhante ou imago do duplo. Neste trabalho
utilizaremos o termo imago do outro.

64
A imagem dada pelo espelho forja uma unidade corporal que se configura como uma
antecipação frente à imaturidade orgânica da criança. Lacan (1938/2002) ressalta que neste
momento a imagem especular representa, de forma intuitiva, a unidade afetiva perdida de si
mesmo: “o que o sujeito dela saúda é a unidade mental que lhe é inerente. O que ele
reconhece nela é o ideal da imago do duplo” (p. 37). Imago, também nomeada como Gestalt
em 1949, que recobrirá o corpo esfacelado, dando uma unidade ilusória ao organismo e um
fim à angústia. É neste sentido que Lacan (1949/1998) enfatiza a compreensão do estádio do
espelho como um ato de identificação, onde se esboça a primeira dialética das identificações,
ainda que ilusória, pois está alicerçada na alienação. Não obstante, a criança detém uma
imagem de si própria, à parte da materna, podendo agora instituir uma relação com a
realidade.
Outro fator crucial correlato à emergência da alienação consiste no fato de que a
imagem com a qual a criança se identifica não será precisamente seu reflexo no espelho, mas
com os contornos humanos em geral, representado, paradigmaticamente, pelo outro. Logo, a
imagem de si assim obtida é, simultaneamente, da criança e do outro. Em suma, a imago do
complexo de intrusão conjuga identidade e alteridade. Portanto, a identidade própria sempre
será algo que vem de fora, pois, é, primeiramente, como um outro que o sujeito obtém uma
referência. Por esta perspectiva que Lacan (1938/2002) assinala o alto preço a ser pago pela
absorção especular, além da confusão entre o que é próprio e o que é do outro, o indivíduo se
vê confrontado a uma contrapartida mortífera, sentido pleno extraído do mito de Narciso.
Neste ponto a vivência de intrusão que dá nome ao complexo entra em cena. Em meio
à conquista da unidade corporal, a imagem do espelho, a imago do outro é vivenciada como
intrusiva da própria relação que se sustenta com a mãe. Esse outro aparece como um
convidado indesejado e instala uma situação triangular, pondo em jogo o mecanismo do
ciúme que, segundo Lacan, se “revela como o arquétipo de todos os sentimentos sociais”
(1938/2002, p. 39).
A identificação afetiva que surge do reconhecimento do irmão como um outro dispara
o gatilho do ciúme, ponto de partida da chamada agressividade primordial dirigida ao outrointruso. Neste sentido Lacan salienta que “na situação fraterna primitiva a agressividade se
demonstra secundária à identificação” (p. 33). É por essa razão que Lacan remonta as
Confissões de Santo Agostinho para abordar a estrutura do ciúme infantil e seu papel na
gênese da sociabilidade: “Vi e observei uma [criança], cheia de inveja, que ainda não falava e

65
já olhava, pálida, de rosto colérico, para o irmãozinho colaço” (LACAN, 1938; 1946; 1948).
O irmão não desmamado só atrai uma agressão especial porque repete no sujeito a imago da
situação materna e, com ela, o desejo de morte.
A discussão sobre a função da agressividade na estruturação subjetiva percorre o lastro
teórico dos textos do jovem Lacan, cujos pormenores são descritos no texto A agressividade
em Psicanálise, de 1948. Nele, Lacan outorga à agressividade um papel condicionante no
marco da estruturação narcísica que caracteriza a formação do eu e de seus objetos,
permitindo compreender toda sorte de atipias no devir do eu e da relação erótica que
estabelece com esses objetos. A agressividade integra os movimentos de um psiquismo em
constituição, no momento em que a imago do outro, que levou à jubilação, se torna objeto de
intrusão. Para Lacan, a importância da tendência agressiva também se evidencia como um
índice para a compreensão da neurose moderna e do mal-estar na civilização.
Neste momento da relação com a imago do outro também se circunscreve o que Lacan
chama de transitivismo (1938; 1946; 1948; 1949). De antemão cabe situar alguns dados sobre
o conceito de transitivismo para contextualizar a leitura que Lacan faz dele. Trata-se de uma
noção que integra o vocabulário da psiquiatria alemã no final do século XIX. O termo provém
das observações que pesquisadores da época fizeram de determinados comportamentos de
pacientes psicóticos, por exemplo, ao trombarem com um objeto ou baterem parte de seu
corpo em uma parede, acariciavam este objeto ou a parede, ao invés de o fazerem com o
corpo próprio. Nessa época, os psiquiatras supuseram que algum fenômeno em ação conduzia
o paciente a transferir para a parede algo que era impossível de perceber no próprio corpo
(SILVEIRA, 2003).
Em seguida, Wallon transpôs o transitivismo do campo da psiquiatria para o da
psicologia. A partir de uma releitura do trabalho de Elsa Köhler propôs outra versão para o
conceito de transitivismo. Na perspectiva de Wallon (1934), o transitivismo seria um
fenômeno característico do desenvolvimento infantil normal e concerne a uma indeterminação
entre o eu e o outro, entre o agente da ação e o agente passivo.
Coube a Lacan realizar um diálogo com a psicologia walloniana, integrando ao campo
psicanalítico o conceito de transitivismo, posteriormente retomado e desenvolvido por Bergès
e Balbo (2002). Esse diálogo se inicia em 1936 no texto sobre estádio do espelho, onde Lacan
faz alusão ao transitivismo, retomando o conceito no ensaio de 1938 sobre a família, desta
vez, com enfoque freudiano, ampliando sua função de articulador, da patologia à

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normalidade. “Lacan esclarece a elaboração psicanalítica insuficiente e a limitada articulação
do conceito com os mecanismos de identificação e, por via de fato, com as relações do sujeito
com tudo o que lhe é outro” (BERGÈS E BALBO, 2002, p. 15).
O transitivismo se engendra nos precoces acontecimentos do desenvolvimento infantil
e denota um momento da constituição subjetiva em estreita relação com a especularidade e a
agressividade, com o sadismo e o masoquismo. No que diz respeito à criança, o transitivismo
apresenta-se do seguinte modo: uma criança que cai ou bate uma parte de seu corpo em algum
obstáculo e nada manifesta em relação ao ocorrido, outra criança que observa a cena, esfrega
sua perna e se queixa do golpe sofrido pela primeira criança. O transitivismo em relação à
mãe caracteriza-se da seguinte forma: diante da situação em que a criança sofre um golpe e
não manifesta nenhuma reação, a mãe, impulsionada pelo afeto, nomeia o ocorrido com um
“ai!”, e a criança, que ainda não compreende o acontecido, se identifica com o discurso
materno que lhe outorga um corpo capaz de sentir dor. Nas duas referências, o transitivismo
responde a situação em que me machuco e é o outro que sofre (BERGÈS; BALBO, 2002).
Nos textos do jovem Lacan, o processo de transitivismo descrito se refere ao
reconhecimento mútuo entre crianças, de seis meses a dois anos, condicionado a uma
diferença de idade estreitamente limitada, para que se opere uma similitude e adaptação entre
os parceiros. Sob estas condições, o transitivismo normal conduz a um momento de indecisão
entre o fascínio e a agressividade imaginária a respeito do outro. Confusão paradoxal em que
“cada parceiro confunde a parte do outro com a sua própria e com ele se identifica; mas que
ele pode sustentar essa relação numa participação propriamente insignificante desse outro e
viver, então, toda a situação sozinho, tal como é manifestado pela discordância, às vezes total,
entre suas condutas” (LACAN, 1938/2002, p. 32).
O transitivismo se traduz como uma verdadeira captação pela imagem do outro. Lacan
(1948/1998) exemplifica o fenômeno: num transe completo, a criança bate em seu colega e
lhe acusa de ter recebido dele o golpe que lhe aplicou; ou ainda, participa do tombo de seu
amiguinho, sem ter caído. Será pela identificação que ela experiencia um conflito entre duas
atitudes opostas e complementares, “cuja ambivalência estrutural suas condutas revelam com
evidência, escravo identificado com o déspota, ator com o espectador, seduzido com o
sedutor” (p. 116).
Relacionada à agressividade e à especularidade, Lacan (1948/1998) sublinha que o
transitivismo se expressa pela busca de destruição do outro usurpador, que toma o lugar do

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sujeito junto ao seio materno. “A imagem do irmão desmamado só atrai uma agressão
especial porque repete no sujeito a imago da situação materna e, com ela, o desejo de morte”
(LACAN, 1938/2002, p. 35). Na medida em que essa imagem é refletida para mim como o
que levaria a minha destruição, desencadeia uma resposta em espelho, de maneira agressiva.
Por exemplo, quando duas crianças são deixadas juntas brincando e em algum momento se
confundem e se agridem, o que está posto na reação de destruição do outro é o medo de
perder (e, consequentemente, a tentativa de manter) a integridade narcísica conquistada.
Para Bergès e Balbo (2002), o transitivismo será um processo princeps na constituição
da subjetividade, produto da função materna, pois, primeiramente, é a mãe quem transitiva a
criança desde seu nascimento. Os tropeços neste processo de transitivismo da criança,
constituição do eu e seus objetos encontram-se no cerne de manifestações atípicas, tais como
o autismo e as psicoses, processo a ser descrito num capítulo à parte.
A identificação com o irmão e a concomitante agressividade dirigida a ele, por via de
seu assassinato sádico, é a saída para o suicídio inerente ao reencontro com o abismo
insondável da imago materna. Daí advém a importância crucial do complexo de intrusão
como solução saudável do complexo do desmame.
Na ausência da imagem do outro – da imagem especular para organizar a estrutura
narcísica e instaurar um limite eu-outro – o sujeito se movimenta num continente imaginário
de intrusão, influência e desdobramentos paranoides, propenso de se tornarem crônicos ao
passo que o grupo familiar se reduz à mãe e à frátria. Impasse observável na clínica quando o
universo familiar não oferece solução paterna para a solução fraterna que, por sua vez, se
converte em psicopatologia (ZAFIROPOULOS, 2002).
No complexo da intrusão, frente ao ciúme por identificação despertado pelo intruso,
duas vias se abrem para o desfecho do ordenamento psíquico e progresso para o complexo
seguinte:
ou ele (o sujeito) reencontra o objeto materno e vai se agarrar à recusa do
real e à destruição do outro; ou, levado a algum outro objeto, ele o recebe
sob a forma característica do conhecimento humano, como objeto
comunicável, já que concorrência implica ao mesmo tempo rivalidade e
concordância. [...] ele encontra o outro e o objeto socializado (LACAN,
1938/2002, p. 39).

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Em suma, ou o sujeito reconhece o outro como comunicável e chega à socialização, ou
reencontra o mortífero objeto materno, rechaçando o real e fixando-se a uma possibilidade de
destruição do outro que tende à paranoia.
Com a fixação no complexo da intrusão (do qual o complexo de Édipo permitirá sair),
o sujeito corre o risco de permanecer abandonado aos dramas da especularidade, onde a
identificação fraterna (a princípio saudável frente ao engodo da sedução materna) ameaça
confrontá-lo com um cortejo dos impasses narcísicos, apresentados por Lacan (1938/2002):
proliferação das psicoses, eleição do objeto homossexual, fetichismo sexual, psicose
paranoica com delírio de filiação, da usurpação, de expoliação, da intrusão, de influência,
transmutações delirantes do corpo, neurose hipocondríaca, etc.
Segundo Zafiropoulos (2002), Lacan ainda considera outro aspecto do complexo da
intrusão. Quando o intruso sobrevém, é apenas após o complexo de Édipo que ele é priorizado
com prevalências no plano das identificações parentais, de teor afetivo mais denso e mais
abundante de estrutura, tornando-se objeto de amor ou ódio para o sujeito.
Por fim, ao intruso, o complexo que se segue é o de Édipo que introduz a imago
paterna, cartada decisiva no panorama da estruturação subjetiva. Para Lacan, o lugar do pai no
complexo de Édipo é de extrema importância, de tal maneira que a fecundidade deste
complexo será tanto maior quanto mais alto seja o valor do pai na ordem familiar. “Já se trata
da fecundidade subjetiva que permite ao sujeito ter, graças a esse complexo, acesso a face do
Outro, ou da fecundidade cultural, mais precisamente, suas virtudes idealizantes
indispensáveis para a produção cultural e a história das sociedades” (ZAFIROPOULOS,
2002, p. 46).

5.4. O complexo de Édipo na perspectiva do jovem Lacan
Eis o arremate final no esquema para pensar a constituição subjetiva proposto por
Lacan. O complexo de Édipo constitui, através de um remanejamento das identificações, uma
saída possível ao problema do transitivismo, do ciúme, da agressividade, da especularidade e
da ambivalência inerentes da absorção narcísica referente à imago do duplo, em que culmina
o complexo de intrusão (ZAFIROPOULOS, 2002, 2015).

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Se no complexo de intrusão tínhamos um panorama formado pelo eu, o outro e a mãe
(da satisfação das necessidades), no complexo de Édipo os lugares da situação triangular
serão tomados por uma rivalidade distinta. Desse modo, o terceiro lugar na triangulação será
(ou não) ocupado pela imago de um estranho na família, ao qual se confere a capacidade de
introduzir, enfim, o sujeito na alteridade, na realidade, nos intercâmbios e nas relações sociais.
Um terceiro que se interponha na relação dual mãe-filho: o lugar da imago paterna.
Na reelaboração do jovem Lacan acerca do papel do complexo de Édipo no psiquismo
humano é possível destacar mais uma contraposição teórica em relação a Freud. Se para Freud
o Édipo cumpre uma função na gênese das neuroses conforme as dificuldades que houvesse
transposto em seu percurso e resolução, para Lacan (1938, 1946) a experiência edípica (e com
ela a imago do pai) surge como um fato positivo da vida subjetiva, inclusive denota seu
aspecto sadio, como uma forma de esquivar-se da asfixia característica da estrutura narcísica.
Nas palavras de Lacan (1946/1998, p. 184), “uma certa „dose de Édipo‟” será necessária na
constituição do mundo da realidade, na organização das categorias temporal e espacial. Por
possibilitar a sublimação da realidade, no complexo de Édipo jaz a base para o progresso das
culturas e desenvolvimento das produções simbólicas das sociedades.

5.4.1. Complexo de Édipo: a instauração da imago paterna e das trocas sociais
Freud evidenciou o conceito de complexo na descoberta de fatos edipianos por meio
da análise das neuroses. Para Freud, o complexo de Édipo constitui-se como elemento
psicológico que define as relações psíquicas na família humana, dando-lhe forma e
subordinando todas as variações sociais da família (LACAN, 1938/2002). Perante tais
considerações iniciais, Lacan propõe conduzir uma revisão do complexo de Édipo,
considerando as estruturas mentais, bem como os fatos sociais, que permitam situar a família
paternalista na história para, em seguida, esclarecer a neurose contemporânea.
Deste modo, Lacan retoma considerações psicanalíticas acerca da vida sexual infantil,
em que as pulsões genitais atingem seu ápice aos quatro anos, constituindo assim uma
“puberdade psicológica”, prematura à puberdade fisiológica. Neste estádio, o desejo
propriamente dito da criança fixa-se num objeto, amiúde o progenitor do sexo oposto
(reativação do objeto mãe). São estas pulsões que dão base ao complexo, a frustração destas
compõe seu nó.

70
Em geral, a frustração é atribuída pela criança a um terceiro objeto que se opõe como
obstáculo à satisfação dessas pulsões: o progenitor do mesmo sexo. Ainda que de modo
genérico, a frustração é acompanhada de repressão educativa, em vistas de impedir qualquer
realização das pulsões sexuais, notadamente, sua realização masturbatória.

Com isto, o

responsável pela repressão e frustração das pulsões ocupará no psiquismo da criança o duplo
lugar de agente de interdição do incesto à mãe e, ao mesmo tempo, aparece como o exemplo
de transgressão da mesma lei. Como efeito à repressão sexual, se instala no psiquismo da
criança uma rivalidade dirigida ao interditor do acesso ao objeto desejado.
Tamanha rivalidade conduz ao desfecho da crise edipiana, que se institui por um duplo
processo: o recalcamento das pulsões sexuais no período de latência até a puberdade, dando
lugar a interesses propícios às aquisições educativas; e a sublimação da imago parental que
perpetua na consciência um ideal representativo. A importância genética fundamental desses
processos inscreve no psiquismo duas instâncias permanentes que apontam em sentidos
diversos: em termos de interdição, se instaura a instância do supereu, com propósito de
repressão da sexualidade; em termos de sublimação da realidade, se constitui a instância do
ideal do eu, associada às identificações com o interditor como aquele que poder aceder à mãe.
Tanto as instâncias psíquicas, ideal do eu e supereu, como seus respectivos efeitos,
sublimação da realidade e repressão da sexualidade, são os elementos imprescindíveis para a
incorporação do sujeito à realidade e à cultura como tal, assim como para a assunção de um
lugar na partilha dos sexos (LACAN, 1938/2002).
Assim, Freud formula uma teoria da família ao “descobrir que desenvolvimentos tão
importantes para o homem quanto os da repressão sexual e do sexo psíquico estavam
submetidos à regulação e aos acidentes de um drama psíquico da família” (LACAN,
1938/2002, p. 44). A repressão sexual exercida pelo progenitor do mesmo sexo constituirá o
âmago do complexo de castração – fantasia sustentada por um duplo movimento afetivo
dirigido ao progenitor rival: agressividade e temor.
Para Freud, esta fantasia consistia, sobretudo, na mutilação de um membro. Contudo,
para Lacan, a partir do material da experiência analítica, a fantasia de castração é antecipada
por toda uma sucessão de fantasias de despedaçamento do corpo, em que se encontram,
regressivamente, deslocação, desmembramento, eviração, eventramento, devoração e/ou
amortalhamento. Em síntese, a angústia da fantasia de castração tem seus primórdios na
angústia do despedaçamento corporal e “representa a defesa que o eu narcísico, identificado a

71
seu duplo especular, opõe à renovação de angústia que, no primeiro momento do Édipo, tende
a abalá-lo: crise que não ocasiona tanto a irrupção do desejo genital no sujeito quanto o objeto
que ele reatualiza, a saber, a mãe” (LACAN, 1938/2002, p. 51).
O complexo de Édipo marcará todos os níveis do psiquismo do homem. Lacan chega a
criticar os teóricos da psicanálise que definiram de forma ambígua suas funções e o
restringiram a um “eixo segundo o qual a evolução da sexualidade se projeta na constituição
da realidade, esses dois planos divergem no homem por uma incidência da repressão da
sexualidade e sublimação da realidade” (LACAN, 1938/2002, p. 46. Grifos do autor).
É por intervir sobre uma relação vital (mãe-criança-pai) que o complexo de Édipo
contribui para a constituição da realidade. Esta função do complexo tem correlação com a
maturação da sexualidade. De outro modo, se por um lado o complexo de Édipo sublinha o
auge da sexualidade infantil, constituindo-se como a causa da repressão que restringe imagens
da latência até a puberdade, por outro lado também é o momento de sublimação da realidade.
Os efeitos da repressão da sexualidade e sublimação da realidade são designados como
supereu, de caráter inconsciente, e ideal do eu, consciente para o sujeito.
Conforme assinala Lacan, esse duplo efeito resultante da solução do drama edípico
(supereu e ideal do eu) marca a identificação do sujeito com a imago do progenitor do mesmo
sexo. A análise da identificação edipiana permite reconhecer as contradições que a imago
parental desempenha no sujeito: por um lado, a imago do pai inibe o desejo sexual de forma
inconsciente; por outro, a salvo de um desconhecimento, preserva essa função para um
retorno futuro. Tal afastamento sob essas duas formas (inconsciente e desconhecimento)
determina a primeira sublimação da realidade.
Contudo, ressalta Lacan, o objeto de identificação é aquele que se põe como obstáculo
e reprime o desejo sexual. Fato que determina a singularidade da identificação edipiana: no
complexo de Édipo o que erige o objeto de desejo em sua nova realidade é a defesa narcísica
do sujeito. Esse momento, em que surge o objeto da identificação edipiana, situado como
impedimento ao desejo, “fornece o protótipo da sublimação, [...], é essa luz do espanto que
transfigura um objeto dissolvendo suas equivalências no sujeito e o propõe não mais como
meio para a satisfação do desejo, mas como polo para as criações da paixão” (LACAN,
1938/2002, p. 53).

72
Na constituição da imago parental, a estrutura edípica designa ao pai a função de
sublimação em sua forma mais elevada, uma vez que a imago da mãe na identificação edípica
traz à tona a ingerência das identificações primordiais (a nostalgia pela mãe, a imago materna
e o abandono à morte). Quanto à imago do pai, Lacan ainda ressalta o efeito que a morte do
pai durante o momento do complexo de Édipo suscita na vida do sujeito de maneira a
“estagnar” o progresso da realidade no plano da estrutura narcísica. Tema o qual Lacan
(1938/2002) aponta para fatos da clínica, onde o grupo familiar tornado incompleto se
caracteriza como oportuno ao surgimento das psicoses e casos de delírio a dois.
Aqui emerge uma questão crucial para Lacan a respeito das imagos que precisam ser
consideradas no percurso do processo de estruturação subjetiva. As imagos, definidas como
aquilo que permanece da relação com o outro no inconsciente, demandam um suplemento
para que se tornem eficazes e operacionais: a operação de sublimação.
As imagos precisam ser sublimadas, operação suplementar tida como saudável, que
comporta uma incidência em relação às diferenças nas estruturas clínicas. Lacan salienta este
fato no decorrer dos Complexos familiares, destacando os efeitos psicopatológicos de fixação
nos complexos, caso as imagos não sejam sublimadas. Nestes termos ele define a psicose
como um ponto de reversão da sublimação. Isto é, o sujeito tem acesso à sublimação, mas não
de maneira estável. Nas palavras de Lacan (1938/2002, p. 71): “é preciso procurar a causa
dessa estagnação da sublimação, na qual vemos a essência da psicose”. Conforme já fora
assinalado acima, vale acrescentar que Lacan faz equivaler à imago materna não sublimada o
instinto de morte.
No plano da dinâmica edípica, tanto a imago materna como a paterna mobilizam da
mesma maneira o processo de repressão (constituição do supereu) e o de construção
identitária (que erige o ideal do eu). Todavia, Lacan assinala o fato de que na doutrina
freudiana, a atividade de repressão parte unicamente do lado paterno, para ambos os sexos.
Quer dizer, o fantasma de castração encontra-se deduzido da ameaça paterna, único agente de
interdição que sustenta a lei para o menino e para a menina. Essa visão freudiana está
subordinada à concepção universalista de um Édipo submetido a um imaginário a-histórico da
ordem familiar (ZAFIROPOULOS, 2002).
É neste aspecto que Lacan relembra a relevância da participação materna na origem da
atividade de repressão sexual e da ordem familiar, em contraposição à valorização que Freud
concede à dominação do varão, o único a quem adjudica a instituição da lei para o sujeito do

73
Édipo e do social. No que concerne à repressão sexual, Lacan (1938/2002) destaca “para
definir no plano psicológico essa gênese da repressão, devemos reconhecer na fantasia de
castração o jogo imaginário que a condiciona, na mãe o objeto que a determina” (p. 51. Grifo
nosso). Portanto, o princípio da repressão e, consequentemente, a formação do supereu não
depende, ao ver de Lacan, de uma dominação masculina, manifesta no temor ao pai vigente
na referência do fantasma de castração. A repressão advém também do protótipo materno
incitado pelo desejo genital do Édipo, que relança o fantasma do corpo fragmentado. Na
continuidade da repressão engendrada pelo temor ao pai e o medo do “despertar materno”
(imago materna) é que o sujeito se antecipará numa identificação edípica com o objeto que se
opõe ao triângulo edípico.
Na dinâmica última do Édipo, do enfrentamento entre imago paterna e imago materna,
a primeira domina a segunda, tanto em sua vertente repressiva como em sua vertente de
idealização. Enquanto a imago materna (e o fantasma do corpo fragmentado) predominava na
repressão sexual e formação do supereu, Lacan (1938) relata que a antiguidade da imago
materna se transforma numa desvantagem na gênese do ideal do eu, cuja imago paterna toma
a dianteira. Sendo assim, no plano da idealização e na dinâmica repressiva, a imago paterna
reina.
Não obstante, Lacan (1938, 1946) toca em outro ponto importante de sua leitura sobre
o complexo de Édipo, no qual o triunfo da imago paterna sobre a materna, no tocante à
formação das identificações, está sujeito à relatividade sociológica. Em suma, do ponto de
vista lacaniano, a imago paterna só concentra a função de repressão e a de idealização do
Édipo à custa da determinação sociocultural da família paternalista. É por amarrar numa
antinomia repressão e sublimação na imago paterna que o complexo de Édipo extrai sua
fecundidade. Antinomia que ultrapassa o drama individual, cujos efeitos de progresso se
estendem e integram um imenso patrimônio cultural: estatutos jurídicos, inspirações
criadoras.
Doravante, a perspectiva lacaniana de relativismo sociológico do Édipo se opõe à
defendida por Freud, que sublinhava uma concepção universalista do complexo de Édipo.
Portanto, o ponto de remate da constituição psíquica do sujeito (a saída pelo Édipo) não é
inerente à forma deste complexo, isto porque o complexo de Édipo não é universal e supõe
que suas modalidades se modificam de acordo com as condições de funcionamento das
famílias, estabelecidas, por sua vez, pela evolução sócio-histórica das sociedades. Vale evocar

74
que Lacan define o complexo como a unidade funcional do psiquismo condicionada por
fatores culturais, posto que não corresponde a funções vitais, mas à insuficiência congênita
dessas funções.
A relatividade sócio-histórica conclamada por Lacan sustenta uma espécie de incerteza
quanto à constância paterna, e inclusive na forma de uma insondável ameaça de abandono
pelo pai. O efeito desta ameaça se esboça numa idealização da família paternalista como a
única organização familiar capaz de propiciar as condições sociais do edipismo, e a mais
favorável para a estruturação subjetiva e produção cultural. Lacan (1946/1998) trata
especificamente disso na passagem abaixo:
ele (complexo) só pode surgir, evidentemente, na forma patriarcal da
instituição familiar, mas nem por isso deixa de ter um valor liminar
incontestável; estou convencido de que, nas culturas que o excluíam, sua
função devia ser exercida por experiências iniciáticas, como aliás a etnologia
nos permite ver ainda hoje, e seu valor de fechamento de um ciclo psíquico
decorre de ele representar a situação familiar, na medida em que, por sua
instituição, esta marca no cultural o recorte do biológico e do social. (p.
185).

Na versão lacaniana de 1938 do complexo de Édipo temos em jogo um duplo produto:
a constituição subjetiva e o desenvolvimento das formações culturais e produções das
sociedades. Por isso, Lacan (1938/2002) associa as culturas matriarcais à “estagnação dos
grupos primitivos” (p. 57), em contraste com as culturas baseadas no patriarcado, onde
“vemos assim afirmar-se dialeticamente na sociedade as exigências da pessoa e a
universalização dos ideais” (p. 57). Acrescenta que na primeira fila das ditas culturas
patriarcais vigora o povo judeu. É sob esta perspectiva que a imago paterna triunfa sobre a
sedução mortífera da imago materna no que concerne também à fecundidade cultural.
Em vista disto, a deferência com a qual Lacan destaca o papel da imago do pai se
deixa perceber notavelmente na formação da maioria dos grandes homens. Mesmo entre
aqueles que dirigiram críticas contra a família paternalista, no século XIX, não são os que
menos carregaram sua marca.
O pretenso afrouxamento da autoridade paterna no liame familiar não afligia Lacan,
conforme afirma. Contudo, concebe um termo para circunscrever os efeitos sociais e
psicológicos da falência do modelo familiar patriarcal, vigente durante décadas nas
sociedades ocidentais, organização em que o pai – pater familias – era dotado de uma
autoridade suprema e incontestável no seio da família. Lacan se refere a essa falência como o

75
declínio social da imago paterna, evidenciado numa imagem do pai desvalorizado
socialmente (ZAFIROPOULOS, 2002).

5.5. Tese sócio-clínica do jovem Lacan: a imago paterna em declínio
Conforme descrito acima, em 1938, Lacan cunhou o termo declínio social da imago
paterna para nomear um acontecimento sociocultural que desestabilizou o regime dos laços
familiares e sociais no final do século XIX, o qual marcará a genealogia da civilização
contemporânea ocidental. Esse acontecimento delineou um contexto propício para Lacan
pensar as transformações em curso na configuração da família e de seus efeitos na
constituição dos sujeitos, assim como – em virtude disso – nos novos modos de apresentação
das estruturas psicóticas e neuróticas (RUFFINO, 2014).
Lacan situa historicamente o momento desencadeante do declínio social da imago
paterna na “conjugalização” da instituição familiar pela influência da Igreja (reflexo da
influência das teses de Durkheim), que colocou em primeiro plano no laço matrimonial a livre
eleição da pessoa e, dessa maneira, fez com que a instituição familiar desse o passo decisivo à
sua configuração moderna. Outro fato é a revolução social e econômica do século XV, na qual
a burguesia ascendeu socialmente e assistiu-se ao surgimento da psicologia do homem
moderno (ZAFIROPOULOS, 2002).
A tese da bancarrota social da imago paterna e de todos os seus ideais considera ainda
a crise da modernidade que a sociedade europeia atravessou no final do século XIX. Crise
presumida dos avanços econômicos e geopolíticos derivados, sobretudo, das revoluções e
pós-revoluções que influenciaram a configuração da instituição familiar. Conforme sublinha
Lacan (1938/2002, p. 60) em seu texto, trata-se de um:
declínio condicionado pelo retorno de efeitos extremos do progresso social
no indivíduo, declínio que se marca, sobretudo, em nossos dias, nas
coletividades que mais sofreram esses efeitos: concentração econômica,
catástrofes políticas. [...]. Declínio mais intimamente ligado à dialética da
família conjugal, por exemplo, na vida americana, das exigências
matrimoniais.

Apesar de assinalar não se afligir com o pretenso afrouxamento da autoridade paterna
no liame familiar, Lacan retifica o encadeamento de um grande número de efeitos

76
psicológicos, as neuroses contemporâneas, determinadas pela imago de um pai sempre
carente, ausente, humilhado, dividido ou postiço. Nesta imago será possível reconhecer uma
carência social da autoridade paterna, que vem a exaurir o impulso instintivo e a afetar a
dialética das sublimações. Outro efeito associado ao mitigar social da autoridade paterna diz
respeito ao advento de uma crise psicológica, a qual, presume Lacan, se deve o descobrimento
da própria psicanálise, nascida do punho de um filho do patriarcado judeu, na Viena do final
do século XIX.
Afinal, a que falência Lacan se refere ao teorizar sobre o declínio social da imago
paterna? Cabe frisar o social do termo, pois ele deriva da referência durkheimiana a partir da
qual Lacan dá significação a sua leitura sobre a falência do pai na família moderna. Isto
porque Lacan não teoriza sobre a ocorrência de um declínio puro e simples da imago paterna;
o único declínio que ele postula é da formação social da imago paterna. Tanto a imago
paterna quanto as suas derivações, reflexos da saída do Édipo – supereu, ideal do eu e eu ideal
–, atualmente estão em declínio no social (RUFFINO, 2014).
Lacan se refere à imago paterna como uma formação social que está suscetível de
declinar e que vem declinando consideravelmente no ocidente, operante apenas como uma
“referência coletivamente compartilhável e como um facilitador do laço social entre aqueles já
constituídos por modalidades relativamente semelhantes de imago paterna inscrita em seu
inconsciente” (RUFFINO, 2014, p. 197. Grifo nosso).
Pois bem, trata-se então de uma referência coletiva de filiação transmissível entre
crianças de uma comunidade o que está em franco declínio na contemporaneidade. Os efeitos
deste declínio vão desde alterações nas formas da sociabilidade contemporânea, modificações
na organização edípica (mesmo que não ponha tal organização em risco), até mutações nas
configurações das estruturas psicopatológicas (RUFFINO, 2014).
Para Zafiropoulos (2002) não resta dúvida sobre a proliferação, no campo
psicanalítico, de teses que associam o declínio social paterno ao mal-estar moderno de seus
filhos. O eco da tese lacaniana de 38 se propaga, de modo insistente, no âmbito de discussões
psicanalíticas contemporâneas sobre os modos de estruturação subjetiva – “nova economia
psíquica” (MELMAN, 2008) – e o estabelecimento/decomposição dos laços sociais, ora
preconizando um retorno ao poder patriarcal, ora antevendo um diagnóstico atual sombrio
(LEBRUN, 2004, 2010, ZAFIROPOULOS, 2002, 2015).

77
Contudo, não basta apenas repetir em versões filosóficas, sociológicas e psicanalíticas
que a imago paterna (e a família patriarcal) está em declínio para justificar a atualidade do
mal-estar; é preciso saber de onde se fala em termos antropológicos e clínicos. Sobre quais
fontes os autores contemporâneos se apoiam para diagnosticar a causa de neuroses que
afligem o sujeito contemporâneo e, inclusive, da invenção da psicanálise.
Os Complexos Familiares é o texto de referência invocado como embasamento
epistemológico da tese sobre o declinamento da imago do pai, contudo é necessário examinar
seu esqueleto, especialmente para sublinhar o valor clínico que Lacan concede à imago
paterna na clínica da estruturação subjetiva, desenvolvida em 1938; do mesmo modo, é
importante analisar a “qualidade” freudiana dos fundamentos teóricos que lhes são próprios
neste momento, assim como verificar a qualidade científica das fontes que fundam sua visão
antropológica sobre a família.
Em seu livro Lacan y las ciências sociais: La declinación del padre (1938-1953),
Zafiropoulos (2002) evidencia quatro ideias essenciais, a saber: (1) que a bancarrota do pai de
família é um acontecimento comprovado; (2) a falência sócio-histórica da autoridade do
patriarca – e, de modo geral, da instituição familiar – constitui uma das causas cruciais da
fundação da psicanálise; (3) o anseio de Freud estaria voltado (em parte) para uma vontade de
revalorização simbólica da instância paterna; e (4) que Jacques Lacan, por meio de um
sistemático “retorno a Freud”, almejaria reintroduzir a imagem do pai na condição de uma
função imprescindível para a organização da família – e do psiquismo do sujeito.
Estas quatro ideias apontarão em direção à perspectiva que sustenta o advir da
psicanálise como resultante da falência do poder social da instância patriarcal e que seu
programa (ao menos em parte) teria como fim uma ratificação do poder do pai outrora
perdido, indispensável para o bom funcionamento da família e a harmoniosa estruturação
subjetiva das gerações. Sem o primado desta imago nas fundações da família – segundo
nostálgicos autores do campo psicanalítico – seguiremos sendo testemunhas da propagação de
estados „fronteiriços‟ com seu cortejo de narcisismos e sintomas modernos que particularizam
a atualidade de nosso mal-estar (ZAFIROPOULOS, 2002).
Dado que o surgimento da psicanálise é tributário da decadência da imago do patriarca
no seio da instituição familiar, Freud estará às voltas com uma vontade de revalorização
simbólica do pai. Enquanto que, em 1922-1923, Melanie Klein inclinará a psicanálise para o
viés das relações arcaicas com a mãe, ao passo de quase fazer prescindir a figura do pai.

78
Conforme citado acima, na vertente francesa, Jacques Lacan reintroduzirá a imagem do pai
como uma função simbólica salutar na estruturação subjetiva, instaurada nas bases da
composição familiar.
Seria então possível vislumbrar, nas formulações lacanianas sobre a família ocidental
contemporânea, uma nostalgia do pai? Estaríamos diante de um vigoroso apelo à
revalorização de um pai destronado, desmoralizado perante a família e a sociedade? De
acordo com Zafiropoulos (2002), contrariamente ao engajamento de psicanalistas numa
reverência ao “defunto patriarca” (p, 18) invocado em nome da paz, a tese lacaniana não
consuma uma espécie de nostalgia pelo pai. Essa tentativa de restauração da imagem do pai,
regulada por um imaginário social que fundamenta sua autoridade, assim como funda
religiões (que em nome de um Deus disseminam ações terroristas e derramamento de sangue
ao longo do século XX e XXI), compete mais seguramente a um sintoma neurótico17.
Na mesma linha argumentativa, Roudinesco (2011) assinala que Lacan esteve longe de
empreender uma batalha para reestabelecer o lugar de supremacia do pai, como fazem
atualmente os nostálgicos. Pelo contrário, ele estava convencido da bancarrota da antiga
autoridade paterna e, com isso, afirmava que toda tentativa de restituição do patriarcado
resultaria numa caricatura, num artifício, ou mesmo em posturas políticas totalitárias. Em
contrapartida, da mesma forma, recusava o apelo às pretensões libertárias, hedonistas ou
posições comunistas que intentam suprimir a família.
O tema sobre a nostalgia do pai em Lacan também ganha perspectiva na letra de
Izcovich (2011). O autor é mais um dos que afirmam que Lacan não é nostálgico, pelo
contrário. Quando Lacan (1938/2002, p. 60) escreve: “não somos daqueles que se afligem
com um pretenso afrouxamento do liame familiar”, demonstra sua posição como um
antinostálgico. Lacan não se coloca como que entristecido pela evolução dos costumes e pela
queda dos valores tradicionais.
Segundo a interpretação de Izcovich (2011), Lacan já demarca uma constante, a
função do analista como aquele que deve ter em conta, na sua prática, o que constitui a
atualidade no social e a forma como são tecidos os laços que unem os humanos. Izcovich
ainda acrescenta que Lacan formula uma conclusão oposta, pois considera essa crise social
fecunda a ponto de fomentar condições para o surgimento da psicanálise. “A ideia de Lacan,
17

Tais investidas religiosas em nome da paz e moral perdida encerram um caráter prejudicial tanto para o sujeito
como para o social – perspectiva assinalada por Freud em seu trabalho O futuro de uma ilusão (1927/1996).

79
portanto, está em contrassenso à dos analistas de hoje, já que propõe que é justamente esse
contexto de crise familiar na Viena de Freud que propiciou a invenção da psicanálise”
(IZCOVICH, 2011, p. 12).

5.6. Declínio social da imago paterna versus declínio da função paterna
Entre o declínio social da imago paterna e o declínio da função paterna há uma
distância teórica e temporal de conceituação. São duas concepções de falência referidas à
instância paterna que comumente conduz a confusões teóricas, especialmente no que diz
respeito à instauração do pai no psiquismo do sujeito. Ou ainda, a discussão finda numa
redução causal entre declínio da imago paterna e declínio da função simbólica do pai, tema
corrente entre nostálgicos da figura do pai (LEAL, 2010). Assim, qual a diferença entre esses
dois declínios? Quais elementos compõem a análise lacaniana?
De antemão, a questão temporal sobrevém, a teorização de 1938 sobre a imago
paterna fundamentada na sociologia de Durkheim antecipa – mesmo que não seja o
fundamento último, posto que Lacan se remete a Paul Claudel, conforme apresentado no
subcapítulo 4.5 – a conceituação sobre a função paterna, no retorno a Freud, proposto no
texto O mito individual do neurótico, de 1953. Retorno baseado na problemática estruturalista
de Lévi-Strauss, arcabouço antropológico que muniu Lacan dos conceitos cruciais para a
elaboração da noção de nome-do-pai, sustentada pela ordem simbólica e pelo valor estrutural
de sua função (ZAFIROPOULOS, 2002, 2015).
Em termos gerais, de um lado tem-se a vulnerabilidade sociocultural da figura do pai
e, do outro, a condição da função psíquica deste na constituição subjetiva. Elas convergem de
alguma forma e se complementam? Ou, de modo inverso, elas se mantém distantes, ainda que
versem sobre a noção declinante do pai na psicanálise?
Entre os comentadores de Lacan há os que defendam uma espécie de colaboração
entre os conceitos e os que sejam partidários do desencontro. Na primeira ala se destacam
autores como Lebrun (2004; 2010) e Melman (2008), com Ruffino (2014) apresentando uma
linha argumentativa semelhante; na segunda ala Zafiropoulos (2002; 2015) encabeça a
discussão, na qual Leal (2010) também infere com posicionamento confluente. Ambas as
leituras serão consideradas para fornecer um panorama de como os textos do jovem Lacan,

80
em particular suas conceituações sobre o pai, vêm sendo interpretados por seus comentadores
contemporâneos.
Os primeiros autores detalham essa distinção considerando as transformações
discursivas sobre a autoridade do pai no social, como fora descrito no subcapítulo acima, para,
em seguida, considerar a participação da figura do pai e seus efeitos de transmissão simbólica
na constituição psíquica do sujeito.
Jean-Pierre Lebrun (2004; 2010) é um dos autores que se dedica à análise da clínica e
do social à luz das transformações no âmbito da família, em especial, da figura do pai. No
livro O mal-estar na subjetivação (2010), Lebrun convoca o leitor a uma discussão sobre as
novas formas de subjetivação, partindo de uma reflexão sobre a família contemporânea e do
processo de subjetivação.
Segundo Lebrun (2010), a história da paternidade não deixa dúvida quanto ao declínio
social do pai (ou ainda declínio da função patriarcal), o qual concerne à tese lacaniana do
declínio social da imago do pai. Conforme vem sendo apresentado nesta dissertação, é o pai
das sociedades ocidentais reconhecido no lugar de uma autoridade transcendente que vacila.
Os efeitos do declínio do pai do patriarcado podem ser vislumbrados como o “sintoma maior
de nosso social atual, no que ele segue em cortejo tanto com a evolução da democracia como
com os progressos das tecnociências e com o desenvolvimento do liberalismo econômico” (p.
15).
Para dar embasamento ao declínio do poder do pai (função do patriarca) na família
contemporânea, Lebrun (2004) se dedica ao estudo no campo jurídico da história da
paternidade, da filiação e da passagem do conceito de autoridade paterna para o de coautoridade parental. Esse último acarretou a supressão do conceito de autoridade em proveito
do conceito de responsabilidade, denotando que “os deveres dos pais são superiores a seus
poderes, estes cada vez mais diminuindo frente aos direitos subjetivos da criança” (p. 25). Por
conseguinte, a nova situação assinala uma preponderância da mãe em detrimento do pai.
O autor ressalta ainda a influência das ciências biológicas, sobretudo a genética, no
estabelecimento do laço de filiação paterna. O direito, aliado à ciência genética, promovem,
como um dito suplemento de verdade, a paternidade fundada no genitor, crendo ser possível
respaldar com segurança a filiação no fato biológico. Retrocedendo àquilo que o direito da
filiação outorgou se distanciar, de que a “paternidade não era tanto questão de hereditariedade

81
quanto de palavra e que pai e genitor de modo algum deviam ser assimilados” (LEBRUN,
2004, p. 26).
Neste ponto, segundo Lebrun, reside a apreensão psicanalítica da paternidade em que
um pai supõe acesso à dimensão simbólica, à linguagem, e tem a ver com a constituição
psíquica do sujeito e de sua realidade. A partir daí, emerge a questão de como o pai se
presentifica para o sujeito, como é apresentado pela mãe.
Na compreensão psicanalítica, o pai se constitui como o primeiro outro/estranho para a
criança. Ao entrar no sistema mãe-filho, além de promulgar a lei que sustenta o interdito do
incesto da mãe, introduz a castração por intermédio da repressão da sexualidade da criança.
Na perspectiva de Lebrun a castração se efetiva em dois níveis como primária e secundária.
No primeiro nível, a mãe reconhece que há um terceiro, é o pai na fala da mãe. Este é o pai
simbólico, operante na primeira separação mãe-filho. Para que o terceiro se inscreva em
definitivo, será imprescindível a intervenção do pai real18, o pai da castração secundária que
concretiza a solução para o transitivismo da relação mãe-filho.
Esta dupla operação de castração funda o exercício da função paterna. Primeiro, a
função do pai se cumpre como pai simbólico, agente da castração primária, efetivando a
operação da metáfora paterna, e, assim, permitindo que se produza a significação fálica.
Segundo, a função paterna entra em jogo sob o encargo do pai real, agente da castração
secundária; intervenção sustentada pelo desejo próprio de um ser vivo de carne e osso
(LEBRUN, 2004, 2010). Portanto, a função paterna é então entendida como o lugar (e não o
papel) que o pai ocupa para a mãe e para a criança, possibilitando a estruturação no aparelho
psíquico da capacidade de substituição significante. Neste sentido, a função paterna coincide
com a função da linguagem (LEBRUN, 2010).
Qual será então a relação entre o declínio social da imago paterna e a função paterna?
A preocupação social apontada por Lebrun sobre a função paterna concerne ao lugar do pai no
social19. Não basta apenas a mãe reconhecer no pai essa referência paterna (ou naquele que
ocupa essa posição para ela), será fundamental que essa função do pai seja ratificada no
âmbito social, que o social homologue o que é sustentado no âmbito privado. A sociedade

18

Considerado aqui conforme a distinção efetivada por Lacan em 1956-57. A função paterna assume uma
distinção fundamental em pai real, pai simbólico e pai imaginário (LACAN, 1956-57).
19
Ruffino (2014) expõe posição similar no texto Em torno do conceito lacaniano de declínio social da imago
paterna.

82
deve sustentar a pertinência da intervenção daquele que desempenha a função de contrapeso
paterno tanto em relação à criança quanto em relação à mãe (LEBRUN, 2004).
É sobre o enfraquecimento (ou ausência) do respaldo social da intervenção paterna
junto à criança e à mãe que versa a tese do declínio da imago paterna. Atualmente, o lugar
para o pai está invalidado e engendra o declínio evocado: ocorreu algo no social que tornou
nulo esse lugar para o pai. Lebrun (2004) associa a bancarrota dos pais (do patriarcado) ao
progresso do projeto científico – de início, com a genética –, que subverteu a autoridade do
pai. A hipótese que delineia em seu texto Um mundo sem limite (2004) é que o advento do
discurso da ciência e, sobretudo, sua realização vigente, subverteu profundamente o equilíbrio
até então em jogo na família, cena da elaboração da realidade psíquica do sujeito e caldeirão
da vida social, e que isso dificultou, então, a possibilidade do exercício da função paterna.
Contudo, Lebrun (2010) salienta que o declínio do patriarcado (da imago social do
pai) não equivale ao declínio da função paterna, eminentemente simbólica. Portanto, a função
patriarcal não coincide com a função paterna, ainda que sua diferenciação resguarde
interações recíprocas. A ressalva categórica do autor, no tocante à subjetivação, refere-se ao
fato de que o declínio do patriarcado não acarreta, impreterivelmente, o declínio da função
paterna na estrutura, isto é, não consiste na privação da legitimidade do exercício real da
função paterna na família (LEBRUN, 2010. Grifo nosso). Sendo a função paterna decisiva
para a constituição do aparelho psíquico, ela necessita, decerto, “passar pelo exercício real de
um pai que quer precisamente consentir em desempenhar o pai concreto e que
tradicionalmente podia se apoiar na função patriarcal para sustentar sua legitimidade” (p. 19).
De acordo com Lebrun (2004, 2010), atualmente o pai real não dispõe mais do suporte
do patriarcado como fonte de legitimação para intervir junto a seu filho, não se sentindo
reconhecido como a figura que estabelece limites, figura esta que o social acredita ter-se
emancipado. Como consequência, deslegitimado em sua autoridade pelo discurso social, o pai
busca junto a seu filho o apoio do qual foi despojado.
Lebrun (2010) conclui que o enfraquecimento do patriarcado seria capaz de ratificar o
enfraquecimento da função paterna, uma vez que essa não é outra senão a função linguageira.
Resultado que pode, de modo igual, não ocorrer. Para engendrar o processo de subjetivação,
faz-se necessário que aquele que ocupa o lugar de pai real não renuncie a sua tarefa, ainda que
não disponha mais da legitimidade histórica de outrora.

83
A posição de Zafiropoulos que se contrapõe à descrita nos parágrafos acima pode ser
concisamente exposta considerando os distintos arcabouços sociológicos assimilados por
Lacan para conceituar e, por conseguinte, diferenciar imago paterna e função paterna.
Portanto, a fronteira teórico-conceitual facilmente se desenha tornando o declínio da imago
social do pai irredutível ao declínio da função simbólica do pai20.
De modo geral, em 1938, Lacan adere ao diagnóstico de um declínio do poder social
do pai (imaginário) calculado desde o panorama de Durkheim, pondo em relevo tudo o que
tem de nocivo nesse declínio, para em 1953 mudar de posição, se filiar ao estruturalismo de
Lévi-Strauss, desvinculando este pai do social da eficácia simbólica de seu nome, com a
finalidade de pôr acento, na dissimetria estrutural entre o real e a ordem simbólica.
No Mito individual do neurótico, Lacan (1953) também faz referência aos efeitos que
um pai humilhado pode gerar no psiquismo. Entretanto, avessa à posição de 1938, a
humilhação do pai de família já não se refere mais a sua falta de poder social, ou de sua
carência de legitimidade perante o seu grupo doméstico. Na concepção de 1953 de Lacan,
desde o ponto de vista de seu valor simbólico, todo pai é mais ou menos discordante, por ser
estruturalmente inapto para recobrir o real. Incapacidade que se traduz em humilhação.
Com isso, a causa da humilhação do pai de família já não deve ser buscada tanto em
sua falta de poder social, como na parte do progresso de seus filhos que escapa à função
simbólica de seu nome. Eis onde reside o declínio da função paterna, na ineficácia simbólica
da transmissão do nome-do-pai (ZAFIROPOULOS, 2002).
Por fim, diante das assimetrias analíticas entre Pierre Lebrun e Markus Zafiropoulos, é
possível concluir que, em primeira e última instância, o declínio da imago social do pai é
irredutível ao declínio da função simbólica do pai.

6. PSICOPATOLOGIA NOS TEXTOS DO JOVEM LACAN

Recapitulando, até aqui foi descrito e examinado o trajeto que Lacan articula para
fundar uma teorização sobre a formação da subjetividade humana, utilizando o saber
20

Posicionamento semelhante ao de Zafiropoulos (2002; 2015) pode ser encontrado na dissertação de Fernanda
Andrade Leal, intitulada O pai ou a função paterna em Lacan de A família (2010).

84
articulado de Durkheim sobre a evolução da família (e suas consequências morais).
Especificamente, partiu-se da apresentação de uma leitura e análise dos contextos internos e
externos do corpus textual em estudo; em seguida, a pesquisa adentrou no empreendimento de
uma análise dos fatores concretos da psicologia da família: seus complexos e suas respectivas
imagos; neste ínterim, a diretriz da pesquisa apontou as incidências psicopatológicas
resultantes dos percalços no próprio trajeto proposto pelo jovem Lacan.
Contudo, na segunda parte dos Complexos familiares Lacan prossegue em sua análise
psicopatológica do grupo familiar, apresentando uma clínica psicanalítica dependente, tanto
em suas formas como em sua existência mesma, da lei da contração familiar. Em outras
palavras, Lacan interpreta as psicoses e as neuroses de tema familiar em função da síntese que
elaborou na primeira parte de seu texto (ROUDINESCO, 1993, 2008).
O alcance clínico que Lacan confere aos complexos familiares parte de um ponto de
vista funcional. Nas psicoses, os complexos cumprem uma função formal, em que nos delírios
prevalecem os temas familiares por sua consonância com a estagnação que as psicoses
instituem no eu e na realidade. Já nas neuroses, os complexos cumprem uma função causal,
onde as incidências familiares se encontram na origem dos sintomas e das estruturas segundo
as quais as neuroses são responsáveis pela divisão, introversão e inversão da personalidade.
A partir desta dupla observação inicial, Lacan põe acento nas psicoses e,
posteriormente, nas neuroses.

6.1. Psicoses de tema familiar: a estagnação da sublimação
No texto dos Complexos familiares, é possível demarcar um segundo momento em
que o jovem Lacan se dedica à discussão acerca da causalidade psíquica na psicose, no qual
aponta os complexos familiares no lastro de motivação e tema dos sintomas na psicose. Em
1938, ele mantém a sua tentativa de compreender as causas das psicoses por um viés menos
orgânico e mais psicológico, ressonâncias da elaboração de sua tese em 1932.
Neste sentido, Lacan traz à tona no texto de 1938 a tese Da psicose paranoica em sua
relação com a personalidade (1932), este como resultado do primeiro momento em que se vê
às voltas com a causalidade psíquica da loucura. Na tese de 1932, ele isola de modo original e
singular – em relação à nosologia da época – um caso de psicose sob o nome de paranoia de

85
autopunição, onde busca interpretar os fenômenos mentais de um delírio em função da
história concreta21 do sujeito. Fundamenta-se na teoria da libido de Karl Abraham para
defender que a gênese da psicose se firma no conflito moral de Aimée estabelecido com sua
irmã. “Logo, ele vai trabalhar este caso à luz de uma fixação no complexo fraterno, que
justificaria a existência de uma fixação na gênese do supereu” (FERNANDES, 2001, p. 83).
Nos Complexos familiares, Lacan conserva a posição teórica de 1932, sobretudo, não
exclui a existência de uma personalidade constituída pelas relações do eu, do supereu e do
ideal do eu. Propõe uma dinâmica diferente nas relações entre as instâncias psíquicas, onde o
supereu impõe à personalidade seus efeitos punitivos mais radicais e o ideal do eu se afirma
numa objetivação evasiva, propícia às projeções repetitivas.
Todavia, com o progresso de seu estudo sobre o tema, reconhece que a psicose (em
sua forma mental) concerne à reconstituição de estádios do eu, prévios à personalidade, onde
a cada um desses estádios corresponde um objeto, “toda a gênese normal do objeto na relação
especular do sujeito com o outro, ou como pertinência subjetiva do corpo despedaçado, se
reencontra, numa série de formas de estagnação, dos objetos do delírio” (LACAN,
1938/2002, p. 66-7).
Relação especular e corpo despedaçado remetem ao complexo de intrusão e seu
objeto, a imago do outro. É consoante a esse aspecto que Lacan estabelece conexões entre o
complexo fraterno e a paranoia, manifestas pela regularidade dos temas de filiação, de
usurpação, de espoliação, a qual sua estrutura narcísica se expressa em temas paranoides da
intrusão, da influência, do desdobramento, do duplo e de todas as transformações delirantes
do corpo.
A psicogenia da psicose se configura, segundo Lacan, no ponto de reversão da
sublimação no momento que marca a realização edipiana. Reversão que limita a realidade do
objeto na psicose. A ereção do objeto se manifesta por um sentimento de estranheza, de
choque, de enigma, de significações.
O objeto na psicose pode se estabelecer de distintas formas, traduzindo-se na estrutura
de narcisismo primário, o qual se deteve (vale lembrar que o Édipo é uma identificação
secundária, cuja função é a sublimação). A forma do objeto pode se produzir e revelar na

21

Neste período, Lacan não cita Politzer, contudo, como foi destacado, inspirava-se nos trabalhos deste autor
sobre a psicologia concreta (ROUDINESCO, 2008).

86
crise. Por exemplo, no delírio de reivindicação o objeto permanece irredutível a qualquer
equivalência ou possibilidade de compensação por outro objeto. No delírio persecutório, o
supereu não fora recalcado, se revelando no sujeito em intenção repressiva e surgindo como
objeto apreendido pelo eu, vulnerável às ameaças reais ou imaginárias, representado por um
adulto castrador ou pelo irmão intrusivo.
Na psicose alucinatória, o eu arcaico expressa sua decomposição na expiação, na
adivinhação, no desvelamento, cujo duplo, outrora objeto de identificação especular, agora se
mostra como um inimigo ao sujeito,
seja como eco do pensamento e dos atos nas formas auditivas verbais da
alucinação, cujos conteúdos autodifamadores marcam a afinidade evolutiva
com a repressão moral, seja como fantasma especular do corpo em certas
formas de alucinação visual, cujas reações-suicidas revelam a coerência
arcaica com o masoquismo primordial. (LACAN, 1938/2002, p. 68)

A partir de tais apontamentos, Lacan propõe um panorama geral a respeito da
causalidade psíquica nas psicoses, cujos objetos, construídos nas relações familiares,
desempenham um notável papel no eu, seja como motivos das reações mórbidas do sujeito,
seja como temas de seu delírio. Os complexos familiares isolados nas psicoses (e não latentes
como nas neuroses) são apenas efeitos virtuais e estáticos de sua estrutura, das representações
em que o eu se estabiliza.
As interrogações sobre influência dos temas familiares na causalidade psíquica
conduzem Lacan a se posicionar com prudência neste período de sua teorização. Época em
que Lacan se encontra num momento de encruzilhada entre o fim de sua carreira como
médico psiquiatra e o início de sua prática como psicanalista. Assim, do mesmo modo que
pondera sobre a necessidade de considerar o determinismo endógeno de algumas afecções
mentais, ele acentua a pertinência de que os estudos classificatórios considerem que os
complexos familiares são capazes de proporcionar-lhes uma direção sistemática, segura, que
ultrapasse a pura observação.
A prudência de Lacan (1938/2002, p. 71) se traduz na seguinte citação:
resta estabelecer se os complexos que desempenham esses papéis de
motivação e de tema nos sintomas da psicose também têm um papel de causa
em seu determinismo; e essa questão é obscura. Quanto a nós, se quisemos
compreender esses sintomas através de uma psicogênese, estamos longe de
ter pensado com isso reduzir o determinismo da doença.

87
Em 1938, Lacan tateia a questão do determinismo da psicose, a princípio pelos
sintomas, e retorna ao tema em 1946, no texto Formulações sobre a causalidade psíquica.
Antes de 1946, as reflexões de Lacan sobre a loucura se limitam ao exame dos fatores
propriamente familiares dos delírios. Com base em sua prática clínica como psiquiatra, isolou
a correlação da paranoia a uma anomalia da situação familiar. Para validar sua hipótese da
estagnação da sublimação como essência da psicose, Lacan afirma que a instância do ideal do
eu se forma em virtude dessa situação anômala familiar, segundo o objeto do irmão
(complexo da intrusão), que oferta o modelo arcaico do eu.
Entretanto, o autor salienta a pertinência das condições psicológicas desempenhando
um papel determinante na psicose, particularmente notável nos casos de delírio a dois. Casos
constantemente encontrados num grupo familiar descompletado, no qual o isolamento social
que ele propicia surte seu efeito máximo no “casal biológico” (mãe-filha/filho; entre irmãos,
como no caso das irmãs Papin).
Até 1938, Lacan confere ênfase ao social/cultural e mantém-se prudente quanto ao
viés biológico no determinismo da psicose, reflexo de sua transição paulatina da psiquiatria
para a psicanálise. Sem rejeitar a causalidade orgânica, Lacan sublinhava que esta se dispunha
fora das categorias da psicogenia. A causa orgânica não desaparece do quadro clínico,
simplesmente é posta em segundo plano. De uma só vez, ele recusava a tese de Sérieux e
Capgras, segundo a qual haveria um núcleo da convicção delirante, a de Clérambault sobre a
síndrome do automatismo mental, e a de Ernest Dupré sobre os quatro pontos cardeais da
construção paranoica.
O texto de 1946, pronunciado nas jornadas psiquiátricas de Bonneval, encerra um
terceiro momento do jovem Lacan quanto ao tema da causalidade psíquica da psicose,
declarado numa crítica ao organo-dinamicismo de Henri Ey, ao qual se somam formulações
acerca da fenomenologia da loucura.

6.2. Causalidade psíquica e identificação: a fórmula geral da loucura
Os textos do jovem Lacan cumprem o marco primordial nas formulações lacanianas
sobre a psicose e a causalidade psíquica. Na tese de 1932, Lacan sustenta a hipótese segundo
a qual os mecanismos psíquicos de autopunição da paranoia teriam uma origem social,
determinados por uma fixação no complexo fraterno que justificaria a existência de uma

88
fixação na gênese do supereu. Ideia que se perpetua no artigo de 1938, com acento no
processo de sublimação da imago (FERNANDES, 2001).
Alguns anos depois, mais especificamente em 1946, Lacan desdobra tais formulações
para estabelecer uma articulação entre identificação e causalidade psíquica, desta vez
destacando a função da imago. Na realidade, Lacan retoma tal problemática, pois os
primórdios desta discussão remontam ao texto sobre o estádio do espelho, onde destaca o
papel da imago do outro na captura identificatória à qual o sujeito se submete (FERNANDES,
2001).
As reformulações de Lacan acerca da causalidade psíquica em 1946 têm como ponto
de partida uma crítica à doutrina organo-dinamicista de Henri Ey e a discussão gira em torno
da psicogênese e organogênese das psicoses. A doutrina de Ey defende a junção entre a
neurologia e a psiquiatria e a discussão gira em torno da psicogênese e organogênese das
psicoses. Em suma, Henry Ey discorda de uma psicogênese pura dos transtornos mentais, em
que a psicose procede de um déficit energético capaz de perturbar o equilíbrio do sujeito,
induzindo-o a tendências instintivas que escapam ao controle da atividade consciente. Ou
seja, Ey perpetua o pensamento de um dualismo psicofisiológico.
A proposição lacaniana, não opõe psicogênese a organogênese, pois equivaleria a
manter uma simetria original entre o psíquico e o orgânico. Pelo contrário, Lacan propõe o
termo psicogenia como substituto da psicogênese e da organogênese, priorizando uma
estrutura mental da personalidade. Para Roudinesco (1993), é assim que Lacan se distancia do
dualismo, repousando a psicogenia em uma “dialética da personalidade inconsciente, única
capaz de isolar uma causalidade psíquica, sem eliminar, não obstante, o fundo orgânico que se
encontra simplesmente dissociado do psiquismo” (p. 139). Já a doutrina de Ey se baseia em
uma degradação da personalidade, onde o inconsciente se converte na expressão das partes
degradadas da personalidade humana. A doutrina lacaniana, pelo contrário, supõe uma teoria
estrutural da personalidade irredutível a qualquer noção de déficit ou degradação, outorgando
ao inconsciente o lugar mesmo da estrutura psíquica. Como em Freud, Lacan sublinha que as
tendências mórbidas provêm de organização inconsciente do sujeito (ROUDINESCO, 1993).
A proposição teórica de Lacan em 1949 sobre a fenomenologia da loucura se estrutura
no que nomeia como “fórmula geral da loucura”, fundamentada na filosofia de Hegel, e
proposta como universal e aplicável em qualquer fase do desenvolvimento dialético do ser

89
humano, realizada sempre num mecanismo de identificação ideal. (LACAN, 1946/1998, p.
173). No trecho abaixo, Lacan específica seu enfoque:
Digo “fórmula geral da loucura” no sentido de que podemos vê-la aplicar-se
particularmente a qualquer uma das fases pelas quais se realiza mais ou
menos, em cada destino, o desenvolvimento dialético do ser humano, e de
que ela sempre se realiza ali como uma estase do ser, numa identificação
ideal que caracteriza esse ponto de um destino particular. (LACAN,
1946/1998, p. 173)

No texto de 1946, assim como no de 1938 e no de 1948 (Agressividade em
psicanálise), Lacan desdobra alguns aspectos clínicos da sua tese sobre a psicose paranoica.
Interessado pela constituição do eu, Lacan, por intermédio da teoria do estádio do espelho,
confere ao eu uma estrutura paranoica, transformando assim a ideia de tensão social, tal como
foi apresentada na tese, para a ideia de uma tensão entre o eu e o outro, semelhante,
adversário (FERNANDES, 2001).
Por fim, vale sublinhar que o tema da psicopatologia no jovem Lacan, no que se refere
à psicose, se orienta em consideração à ordem sociológica, fazendo eco dos estudos de
George Politzer, e buscando argumentos em uma tradição que vem desde Kant, Hegel
passando por Freud, Dilthey, Husserl, Jaspers, Merleau-Ponty e Heidegger.

6.3. Neuroses de tema família
Adentrar no terreno das neuroses em Freud é considerar a pertinência do complexo
que as causam, o complexo de Édipo. Freud ousou de várias maneiras, não só no conteúdo de
suas pesquisas; em sua prática terapêutica, ele se interessou pelo que se costumava
negligenciar, o conteúdo dos sintomas. Foi assim que ele decifrou as causas desses sintomas,
apontando em sua origem uma sedução ou revelação sexual precoce, sofrida na infância, no
aconchego e segurança das trocas familiares.
A constelação familiar, objeto sobre o qual Freud se debruçou para esquematizar suas
pesquisas acerca da gênese do sintoma, é sintetizada por Lacan (1938/2002) com as seguintes
palavras:
o nascimento de um irmão, precipita tal formação, exaltando por seu enigma
a curiosidade da criança, reativando as emoções primordiais de sua ligação

90
com a mãe pelos sinais de sua gravidez e pelo espetáculo dos cuidados que
ela dá ao recém-nascido, cristalizando enfim, na presença do pai junto a ela,
o que a criança advinha do mistério da sexualidade, o que ela sente de seus
impulsos precoces e o que ela teme das ameaças que lhe proíbem a
satisfação masturbatória. (p. 75)

Deste grupo familiar emerge o complexo nodal das neuroses ao que Freud consagrou
com o nome de complexo de Édipo, responsável por traumatismos precoces que desembocam
em sintomas, cujas relações do grupo familiar são capazes de determinar atipias na
constituição mesma do complexo.
Com este preâmbulo, Lacan assinala sua admiração pelo descobrimento freudiano e a
sutileza de Freud ao explorar as causas familiares das neuroses. Entretanto, Lacan relê a
constituição da dupla incidência do complexo de Édipo no psiquismo – o supereu e o ideal do
eu – à luz da situação de separação que a análise da angústia faz reconhecer como primordial,
a do nascimento. Recorre então à sua concepção de estádio do espelho para esclarecer a ideia
da formação do eu, em comum progresso, com o outro e o objeto. A seu ver, o estádio do
espelho:
estende o traumatismo suposto dessa situação a todo um estádio de
despedaçamento funcional; ela reconhece, desde esse estádio, a
intencionalização dessa situação em duas manifestações psíquicas do sujeito:
a assunção do dilaceramento original sob o jogo que consiste em rejeitar o
objeto, e a afirmação da unidade do corpo próprio sob a identificação à
imagem especular. (LACAN, 1938/2002, p. 78)

Todavia, Lacan faz uma ressalva sobre a plena diferenciação do eu, que se cumpre na
soleira do conflito da sexualidade infantil, só então ela cumpre sua função quanto à espécie:
assegurando a correção psíquica da prematuração sexual, onde o supereu recalca o objeto
inadequado primeiro alvo do desejo; e o ideal do eu, que orienta a escolha do objeto adequado
à maturação puberal, via identificação imaginária. Momento de acabamento que coincide com
o de síntese especifica do eu na idade dita da razão, a adolescência.
É neste nó existencial, dramático e traumático que o complexo de Édipo se revela, na
dependência de um duplo encargo: ocasiona o progresso narcísico e o acabamento estrutural
do eu. Ao complexo cabe oferecer as imagos que animam afetivamente essa estrutura e sua
realidade (LACAN, 1938/2002).

91
Com efeito, Lacan (1938/2002) assinala a relatividade do Édipo, sujeito às
eventualidades e caprichos das regulações socioculturais, à medida que a família passou de
paternalista à conjugal, submetendo-o a variações individuais. Anomia que conduziu Freud à
sua descoberta em forma de degradação, a qual Lacan define por um: recalcamento
incompleto do desejo pela mãe, que reativa a angústia e a investigação, própria à situação do
nascimento; abastardamento narcísico da idealização do pai, cuja ambivalência agressiva
(imanente à relação primordial com o semelhante) se evidencia na identificação edipiana.
Essa forma se configura como o resultado comum tanto das incidências traumáticas do
complexo quanto da anomalia das relações entre seus objetos. Só então ele distingue duas
ordens de causas, ou duas ordens de neuroses, derivadas da degradação do complexo de Édipo
resultante da anomia social da sociedade conjugal: as neuroses de transferência e as neuroses
de caráter.

6.4. As neuroses de transferência relidas por Lacan
Lacan empreende uma releitura das neuroses de transferência, que agrupam as fobias,
a histeria e a neurose obsessiva. Em qualquer caso, estas neuroses expressam, de acordo com
Lacan, a degradação da regulação edípica determinada pela anomia social e são,
notavelmente, relidas à luz de sua noção do estádio do espelho.
A fobia, na forma que mais comumente se apresenta na criança, como zoofobia, nada
mais é do que uma forma substitutiva da degradação do Édipo, de forma que o animal que
provoca angústia representa, consoante Lacan (1938/2002), cada aspecto ameaçador das
imagos prevalecentes nos três complexos, a saber: “a mãe como gestante, o pai como
ameaçador, o irmão mais novo como intruso” (p. 80). Contudo, esse mesmo objeto da fobia
constitui para o sujeito uma forma protetora de ideal do eu ou de totem protetor (tal qual nas
sociedades primitivas) que o auxilia a se defender contra a angústia.
Neste ponto Zafiropoulos (2002) adverte que Lacan se distancia da teorização
freudiana das fobias. Freud reconhecia no animal angustiante a figura do pai totêmico
filogeneticamente herdada do ato parricida e sempre ativa no coração do Édipo de cada
sujeito. Por seu lado, Lacan se refere ao duplo valor de angústia e defesa que confere ao
animal totêmico e, por fim, seu caráter de “père-mutation” na configuração da fobia, como
forma substitutiva de um Édipo degradado.

92
No caso da histeria e da neurose obsessiva, Lacan afirma que se caracterizam como as
consequências das incidências traumáticas do complexo de Édipo no progresso narcísico que
pasmam o sujeito e congelam seu desenvolvimento. Na origem de ambas as neuroses se
encontra o protótipo acidental que Freud precisou como a sedução ou a revelação sexual
prematura.
Esses acidentes que surpreendem o sujeito em seu processo de “recolamento”
narcísico sofrem uma clivagem e tendem a ser recalcados no decurso da maturação normal da
sexualidade, arrastando uma parte da estrutura narcísica para o inconsciente. “Essa estrutura
faltará na síntese do eu e o retorno do recalcado corresponde ao esforço constitutivo do eu
para se reunificar. O sintoma exprime simultaneamente essa falta e esse esforço, ou antes, sua
composição na necessidade primordial de fugir da angústia” (LACAN, 1938/2002, p. 81).
Na histeria, o sintoma (retorno do recalcado) incide sobre o corpo e se manifesta,
segundo Lacan, em conformidade com a lógica de um “simbolismo organomórfico”,
congruente com sua teoria do estádio do espelho (aqui denominado estádio do corpo
despedaçado). Quanto ao sintoma do neurótico obsessivo, seu sofrimento estaria então no
pensamento compulsivo. Enfrentando o mesmo trauma que o histérico, o obsessivo busca no
lado do saber ou do conhecimento „mistificar‟ a angústia que acompanha sua divisão mórbida.
Tudo sucede como se a unidade egóica fosse o bem mais precioso do sujeito. Esta
conclusão pode surpreender, contudo, recorda Zafiropoulos (2002), o júbilo que captura a
criança no estádio do espelho infere a coerência existente entre a releitura lacaniana das
neuroses de transferência – impelido pela primazia de uma ética que almeja a unidade do eu22
– e a observação da satisfação narcísica experimentada prematuramente pela criança frente ao
espelho, frente a sua imagem, enfim, unificada e unificante de si mesmo.
Desta maneira, conforme Lacan, o encontro com o sexual provoca uma subversão
narcísica, enquanto que o sintoma expressa uma reivindicação de reparação, e o recordado é,
notadamente, as experiências de regozijo, nas quais a criança no espelho triunfa frente ao
despedaçamento de seu corpo.

22

Retomando as palavras de Lacan (1938/2002): “a tendência pela qual o sujeito restaura a unidade perdida de si
mesmo toma lugar, desde a origem, no centro da consciência. Ela é a fonte de energia de seu progresso mental,
progresso cuja estrutura é determinada pela predominância das funções visuais. Se a procura de sua unidade
afetiva promove no sujeito as formas em que ele representa sua identidade, a forma mais intuitiva é dada, nessa
fase, pela imagem especular. O que o sujeito dela saúda é a unidade mental que lhe é inerente. O que ele
reconhece nela é o ideal da imago do duplo. O que ele nela aclama é o triunfo da tendência salutar” (p. 37).

93
6.5. As neuroses de caráter e a anomia social
As neuroses de caráter possibilitam distinguir certas relações constantes existentes
entre as formas típicas das neuroses modernas (as de transferência) e a estrutura da família na
qual cresceu o sujeito. Elas foram reconhecidas pela pesquisa psicanalítica como os distúrbios
do comportamento e do interesse, relacionadas à idiossincrasia do caráter, se deparando ainda
com o mesmo efeito paradoxal de intenções inconscientes e de objetos imaginários revelados
nos sintomas das neuroses clássicas.
No caso das neuroses de caráter, são as instâncias do supereu e do ideal do eu que
engendram formas anômalas de desenvolvimento, cuja formação de ambas depende dos
objetos parentais ou, mais especificamente, da maneira como se personificam nos pais. Desta
maneira, se assegura a solidariedade mórbida entre as gerações, ao se pôr em primeiro plano
de causas da neurose de caráter a neurose parental. Transmissão que se revela claramente na
clínica, ressalta Lacan (1938/2002). Com efeito, tal neurose se traduz, “por entraves difusos
nas atividades da pessoa, por impasses imaginários nas relações com a realidade. [...] e a
encontramos cada vez mais, como fundo, nas neuroses de transferência”. (LACAN,
1938/2002, p. 85-6).
Como primeira atipia que se define do conflito que o complexo de Édipo implica, em
especial, nas relações do filho com o pai, Lacan sublinha as neuroses de autopunição ou
destino. São neuroses que se manifestam por uma gama de atitudes de fracasso, inibição,
perda, cuja experiência analítica instruiu o reconhecimento de um intuito inconsciente. Em
consequência, elas podem chegar a provocar atos suicidas, dando mostra de uma demasiada
ferocidade do supereu, insondável sem a ruptura de toda a tensão da tradição do tipo
paternalista que até então assegurava uma harmoniosa transmissão entre as gerações.
Um segundo grupo de atipias se revela pela maneira como o Édipo preside a
sublimação da sexualidade. Seus efeitos se expressam por uma animação imaginativa da
realidade, por uma estrutura que se caracteriza pela involução intrapsíquica, que Lacan
designa como “introversão da personalidade” (1938/2002, p. 88). O fomento desta atipia
reside na carência da imago formadora do ideal do eu, que conduziria a uma certa introversão
da personalidade por subdução narcísica da libido. Introversão que se exprime ainda por um
estancamento regressivo nas relações psíquicas do complexo do desmame.

94
Lacan (1938/2002) denota, como exemplo, neuroses causadas por distúrbios de libido
na mãe, onde a frigidez materna se revela clinicamente em inúmeros casos de neurose, da qual
se apreende que a sexualidade, difundindo-se nas relações com a criança, subverteu a natureza
destas. Aqui se encontram também formas radicais de neuroses digestivas sob o termo de
suicídios não violentos, motivadas por tentativas de rupturas caóticas da mãe, ou então o
sujeito permanece num aprisionamento às imagens do complexo, subjugado tanto a sua
instancia letal como a sua forma narcísica.
Por fim, uma terceira atipia da situação familiar é descrita, desta vez, atingindo a
sexualização psíquica, expressa na relação entre a personalidade imaginária do sujeito e seu
sexo

biológico.

Tal

relação

pode

apresentar-se

invertida,

determinando

uma

homossexualidade. Dada a prevalência do princípio masculino nas origens de nossa cultura
demasiado marcada pelos ideais da família paternalista, o ideal masculino ocultaria o
princípio feminino, virilizando certas mães que, ao ver de Lacan, “dão à luz” filhos
homossexuais (LACAN, 1938/2002).
Na ótica de Zafiropoulos (2002), as neuroses de caráter expressam de maneira mais
moderna as circunstâncias sociais da anomia conjugal que degrada o Édipo, ademais, o
reverso inconsciente do operador que regula as relações entre as gerações, a partilha dos sexos
e, mais além, a escolha do destino de cada um: de vida ou de morte.
No final do texto de 1938, Lacan ressalta a noção de caráter para peculiarizar a
morbidez compatível com a carência contemporânea reveladora da declinação final do poder
da familiar paternalista, foco de suas investigações sobre os complexos familiares.

7. UMA LEITURA SOBRE O AUTISMO A PARTIR DOS TEXTOS DO JOVEM
LACAN

Desde a criação e caracterização, em 1911, do sintoma autístico pelo psiquiatra suíço
Eugen Bleuler, para designar a tendência em se isolar observada no quadro patológico que
denominou como esquizofrenia, a psiquiatria infantil não foi mais a mesma. Em 1943, Leo
Kanner, psiquiatra austríaco radicado nos Estados Unidos, escreveu o artigo Autistic

95
Disturbances of Affective Contact23, transformando em distúrbio autístico de contato afetivo o
que antes era um sintoma.
A história detalhada desta transformação, assim como de sua posterior denominação
como transtorno do espectro autístico tal como hoje socialmente é difundido pelo DSM V,
pode ser lida na dissertação de Luciana Carla Lopes de Andrade intitulada O autismo como
uma invenção da psicopatologia moderna, também produzida no PPG de Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas.
A questão da genealogia do termo autismo é importante e deve ser considerada nas
leituras hermenêutica e desconstrutiva, bem como no questionamento e interpretação do
fenômeno da infância, seu desenvolvimento e atual estado de patologização. Todavia, a
consideração da temática do autismo na presente pesquisa se delimita a sua abordagem pela
psicanálise, especificamente, a etiologia do autismo analisada a partir da leitura do PIC
psicanalítico do jovem Lacan.
Parte-se da questão: o que é possível ler sobre o autismo nos textos do jovem Lacan?
Desde já, se destaca o fato de que ele não teorizou sobre este tema, contudo deixou as bases e
fundamentos para que esta tarefa fosse levada adiante por seus sucessores que se dedicaram
ao estudo da psicanálise de crianças. Quatro deles foram considerados na presente pesquisa
para responder a pergunta acima: Alfredo Jerusalinsky, Marie-Christine Laznik, Gabriel
Balbo e Jean Bergès, todos com uma vasta experiência de pesquisa e clínica na área infantil.
Como resposta, duas noções se destacam nas teorizações destes autores: o estádio do
espelho e o transitivismo. A primeira, fruto da elaboração conceitual do jovem Lacan, e a
segunda, notadamente destacada nos textos analisados nesta pesquisa.

7.1. Estádio do espelho e autismo
No campo psicanalítico a prevalência de duas características é considerada para situar
o autismo como um problema de desenvolvimento: o fracasso na construção das redes de
linguagem e os automatismos (JERUSALINSKY, 2012). A rede de linguagem tem valor
adaptativo ao mundo simbólico e se estabelece de modo singular no laço com o semelhante.

23

A versão em português deste artigo, intitulado Os distúrbios autísticos do contato afetivo pode ser encontra no
livro Autismos (1997) organizado por Paulina Schmidtbauer Rocha e lançado pela editora Escuta.

96
Através da rede de relações com pessoas e objetos circundantes se transmite a trama
discursiva que confere significado aos comportamentos automáticos determinados pela
maturação neurológica. No autismo o automatismo se traduz pela forma automática e
repetitiva com a qual a criança manuseia um objeto, reflexo da carência da estrutura
linguística que permite a ela sustentar uma relação lúdica e criativa com este objeto.
Jerusalinsky (2012) é um dos autores que situa a etiologia do autismo no fracasso na
construção desta estrutura linguística responsável pelo estabelecimento na criança da
capacidade de significar o mundo ao seu redor e pela identificação com seu Outro primordial
(geralmente sua mãe). Essa identificação primária marca a entrada no complexo sistema de
identificações denominado por Lacan como “estádio do espelho”, momento a partir do qual
“cada criança contempla as múltiplas variações dos efeitos que sua voz, sua gestualidade e
suas expressões causam no outro”. Dito de outro modo, trata-se do momento em que “ela se
reconhece nos outros e percebe as condições que deve satisfazer para ser reconhecida”
(JERUSALINSKY, 2012, p. 61). São esses traços linguísticos que organizam o intercâmbio
especular, transformando os atos de reconhecimento recíproco entre a criança e seu Outro.
Assim, o que o autor destaca na clínica do autismo infantil precoce como causa nodal
na etiologia desta psicopatologia é o fracasso da função primordial de reconhecimento
recíproco, cujas causas variam desde genéticas e neurológicas até às traumático-psicológicas.
Entretanto, a falha desta fundamental operação de entrada no registro da linguagem revela-se
em todos os casos, impedindo a criança de estabelecer uma relação com o outro familiar e
social.
É na ausência radical de reconhecimento do outro e, consequentemente, na prevalência
de automatismos, que se observa nos autistas a desconsideração do outro, o desvio do olhar
do outro semelhante, assim como a “surdez” especificamente ao outro falante.
Neste sentido que os psicanalistas (JERUSALINSKY, 2011, 2012; LAZNIK, 2013;
BALBO; BERGÈS, 2003) situam o valor do olhar nas origens do sujeito. Olhar que não se
confunde com a visão, pois trata-se do olhar no sentido de presença, cujo olho se apresenta
menos como órgão suporte da visão do que como signo de investimento libidinal (LAZNIK,
2013). Sendo uma experiência de presença, o olhar pode se manifestar igualmente por uma
voz, se expressar ainda no contato físico, olhar que traduz do desejo da mãe por seu filho.

97
O que o olhar traz de primordial na constituição do sujeito é o seu efeito de
antecipação. Uma mãe que olha seu filho não avista o que está aí, mas um vir a ser, um advir,
ela se deixa enganar por uma ilusão antecipadora diante da insuficiência vital de seu bebê.
Por conseguinte, o infans ocupa um lugar de ideal, his majesty the baby, tal como propõe
Freud no texto sobre o narcisismo (LAZNIK, 2013).
Por isso que Laznik (2013) enfatiza em seus escritos o efeito da palavra no olhar do
Outro primordial como instaurador do eu e do corpo da criança. “O não-olhar entre a mãe e o
filho, e o fato de que a mãe não possa se dar conta disso, constitui um dos principais sinais
que permitem formular, durante os primeiros meses de vida, a hipótese do autismo” (p. 49).
Esse não-olhar não necessariamente conduz a uma síndrome autística, mas em todo
caso assinala um obstáculo na instauração do estádio do espelho, comprometendo a
constituição da relação especular com o Outro. A ausência da ilusão antecipadora do olhar do
Outro priva a criança de uma imagem de seu corpo e, consequentemente, dificulta sua
vivência de unidade corporal.
Em síntese, os casos de autismo são aqueles onde a não-instauração da relação
especular evidencia a não-instauração da relação simbólica fundamental – a presença/ausência
materna – não pela falta do tempo de ausência, mas por uma falta fundamental da própria
presença original do Outro, apresentando como efeito a impossibilidade de instauração do
tempo constitutivo do imaginário, por meio da relação especular com o Outro (LAZNIK,
2013).
Conforme foi enfatizado por Lacan (1949/1998), o estádio do espelho é uma
experiência ontológica que marca os primeiros tempos da constituição psíquica, manifestação
da própria matriz simbólica, onde se estabelece a dialética das identificações (primárias, na
identificação com a imago do corpo próprio e secundárias, na identificação com o eu ideal) e
a relação com a realidade circundando a criança. Com a não-instauração do estádio do
espelho, as identificações no autismo findam por se restringir à ordem do um, pois não há
identificação com o outro, uma vez que o outro se suprime. A condição do autista é
sintetizada por Jerusalinsky (2011) da seguinte maneira: “o autista é tão outro que nem sequer
é um” (p. 46). Para ser um é necessário o outro, a condição de alienação no outro. Sem o outro
não há um, não há desejo do desejo do outro, não há sujeito.

98
É justamente por essa supressão do outro que não é possível falar de narcisismo sem o
advento do estádio do espelho (BALBO; BERGÈS, 2003). Isto porque Lacan institui o
estádio do espelho como a experiência do desenvolvimento psíquico situada entre o
autoerotismo e o narcisismo. O estádio do espelho introduz questões que antecedem e
propiciam o surgimento do narcisismo. Assim, a ausência da relação especular conduz a uma
falha na instauração do narcisismo primário.
Se na criança dita autista não foi instituído o estádio do espelho, muito menos o
narcisismo, o que se pode dizer sobre o autoerotismo? A resposta é dada por Laznik (2013):
basta retirar o eros de autoerotismo para deparar-se com o autismo24. Em outras palavras, no
autismo a ligação erótica com o Outro está ausente.

7.2. Falha no transitivismo
Conforme descrito no capítulo 5, o aspecto constitutivo do transitivismo foi um tema
constante nas teorizações do jovem Lacan acerca da estruturação psíquica. Seu ponto de vista
contemplou o fenômeno transitivista com um enfoque no desenvolvimento normal da
subjetividade da criança, como um momento fundamental de captação da imagem do outro
que antecede a própria formação do eu.
Foram os psicanalistas Gabriel Balbo e Jean Bergès que se dedicaram à discussão do
transitivismo na perspectiva da psicopatologia infantil, dedicando à abordagem da temática o
livro Jogo de posições da mãe e da criança: ensaio sobre o transitivismo (2002). Nele os
autores correlacionam o autismo a uma falha na instauração do transitivismo.
Ao longo do livro, Balbo e Bergès apresentam recortes de casos clínicos para
esclarecer que o transitivismo pode se apresentar não só em relação à criança, mas, sobretudo,
em relação à mãe. Sem o transitivismo materno não se configura o transitivismo na criança.
Justamente por essa razão os autores classificam o transitivismo como um processo psíquico
constitutivo do sujeito que depende diretamente da função materna. Quando algum entrave se
24

Além do não-olhar entre mãe e filho, Laznik (2013) ressalta um segundo sinal clínico no diagnóstico do
autismo a não-instauração do circuito pulsional completo deduzido do trajeto pulsional em três tempos descrito
por Freud. Resumidamente, o primeiro tempo tem caráter ativo, no qual a criança busca o objeto de satisfação na
pulsão. O segundo tempo se caracteriza pela experiência alucinatória de satisfação, relacionada com o
autoerotismo. Por fim, o terceiro tempo é o remate do circuito pulsional, nele a criança se oferece como objeto
de satisfação do outro. A dimensão autoerótica do segundo tempo só é validada pela confirmação do terceiro
tempo. No autismo este terceiro tempo está ausente, portanto, anulando o caráter autoerótico do segundo tempo.

99
sobrepõe ao desempenho desta função e consecutivo estabelecimento do vínculo primordial
entre a mãe e a criança, o estabelecimento do transitivismo é posto em risco.
Em resumo, o transitivismo responde ao caso em que uma criança sofre um golpe ou
cai sem reagir e é outra que se queixa sem que o tenha sofrido; ou ainda, um adulto se
acidenta e um outro, que nutre sentimentos pelo acidentado, é quem sofre. Logo, dois fatos se
destacam: 1) na experiência transitivista a complementaridade se dá na direção do outro; 2)
trata-se de um processo que passa necessariamente pelo corpo e o afeta. Têm-se o outro e o
corpo. Estes dois elementos de imediato evidenciam a razão pela qual é possível correlacionar
o autismo à conjuntura da falha no transitivismo, uma vez que no autismo – frente ao que foi
supracitado sobre o estádio do espelho – o outro está ausente a ponto de não ter sido possível
implementar a estruturação da unidade corporal. O transitivismo é por si só um espelhamento.
O que acontece antes dessa falha se estabelecer como desfecho nos casos de autismo?
Para responder a essa questão é preciso retroceder aos acontecimentos precoces do
desenvolvimento infantil, contexto onde se desdobra a operação transitivista entre a mãe e a
criança.
A prematuração vital que marca os primeiros meses de vida da criança a lança num
estado de desamparo que impõe a extrema dependência do outro para que ela possa
sobreviver. Em seus primeiros meses de vida os cuidados do outro (em geral, a mãe) são
essenciais à medida que asseguram a sustentação de necessidades básicas como a
alimentação, a higiene do bebê, a higiene sonora de ambiente, os cuidados com a temperatura,
luz.
Além da atenção com os cuidados puerperais, ao cuidador cabe a tarefa de
proporcionar o paradoxal encontro entre a concretude do organismo do bebê com a estrutura
da linguagem. O caráter paradoxal reside na heterogeneidade dos dois campos, de um lado
tem-se o natural do corpo biológico e, do outro, o campo simbólico e cultural, onde o último
captura o primeiro tendo como resultado o surgimento de um sujeito (BERNARDINO, 2006).
Ao simples cuidar se sobrepõe a função de simbolização da criança, de significação
das experiências que ela vivencia. A tarefa de simbolização demanda do cuidador a presença
de uma particularidade: seu desejo pela criança. Desejo que se expressa nas palavras, no
olhar, no toque, marcando e recortando o corpo do infans, convidando-o a perceber o mundo e
a manifestar-se enquanto olhar, boca, gritos, choro.

100
Esta é a situação original que oportuniza o desencadeamento do transitivismo entre a
mãe e a criança, por intermédio da linguagem. No primeiro tempo do transitivismo tem-se o
espanto, a capacidade da mãe em se espantar com o que o bebê lhe apresenta. Diante de cada
experiência a mãe se pergunta o que seu filho quer, do que ele precisa. Será fome? Frio? Dor?
A criança sabe de algo que a mãe ainda não sabe. Este tempo inicial é instaurado pelo fato de
a mãe supor um saber no seu filho.
O segundo tempo é o de construir hipóteses nos apelos que o filho lhe endereça. Ela se
coloca no lugar dele e põe em jogo um desconhecimento. Sabe-se parcialmente conhecedora
do que se passa. Ela formula uma suposição, antecipa algo a partir de seu saber, coloca em
xeque seu potencial para experimentar corporalmente afetos. Desta forma, o que está em jogo
no transitivismo é a afetação (BALBO; BERGÈS, 2002). Ela pode pensar: “está quente hoje e
você deve estar com calor, lhe darei um banho”. A partir de sua própria experiência frente ao
calor ela golpeia o bebê e lhe oferece o calor. É fundamental que a mãe sustente a
credibilidade de seu saber.
Este tempo assinala o que Balbo e Bergès (2002) nomeiam como golpe de força nãotraumático de caráter ordenador. Com a suposição de hipóteses a mãe limita as experiências
do filho, forçando-o a identificar-se com seu discurso e atribui a ele um corpo. Por exemplo:
diante da situação em que seu filho cai, ela nomeia o ocorrido com um “ai” e a criança, que
ainda não pode compreendê-lo, identifica-se com esse corpo que sente dor concedido pelo
discurso materno. Assim, por um golpe de força, o discurso transitivista limita o
masoquismo/dor da criança, a fim de que, conhecendo a dor, a fome, o frio, aquela evite a
negligência com seu corpo. Em vista disso, a partir do transitivismo materno, os excessos que
a criança experiencia em seus primeiros meses de vida (vivência do corpo despedaçado), vão
tomando forma de frio, sede, fome, dor, com a linguagem (SILVEIRA, 2003).
O terceiro e último tempo do transitivismo denota o que Balbo e Bergès (2002)
chamam de ultrapassagem. Refere-se ao momento em que a mãe consente que a criança se
aproprie do que lhe foi apresentado, testemunhando a subjetivação do outro. Este tempo cabe
à mãe e significa abrir caminho para que a criança não se mantenha atrelada ao dito suposto
materno.
Assim, uma mãe que tem dificuldades em se espantar, em se perguntar, em acreditar
nas suas hipóteses ou mesmo confiar demais nelas, corre o risco de abandonar a criança no
Real, no nada saber. Uma mãe que nomeia um tombo, o frio, a fome, a sede, ajuda a criança a

101
perceber o que acontece consigo e com o mundo que a circunda. São gestos que estão na
contramão do traumático, são ordenadores e balizam a entrada da criança no campo da
linguagem. Uma mãe que transitiva positiva o sofrimento de seu filho tornando presente as
ausências. Nas palavras de Bergès e Balbo (2002): “O dizer da mãe, ao substituir o
sofrimento que ela supõe ter experienciado pelo filho, torna simbólico esse sofrimento e sua
experiência; é nesse sentido que a fala da mãe é recalcante e impõe limites” (p. 25).
Nos casos em que a mãe falha na aplicação da operação transitivista, a criança não
transitiva a si mesma, nem a seu semelhante, pela incapacidade de se afetar pelo outro. De
acordo com Balbo e Bergès (2002), é esta condição que se esboça nos casos de crianças
autistas. A falha no transitivismo consiste na falha da inscrição dos primeiros significantes
oriundos do horizonte da alteridade, significantes que ajudam a criança a formar
representações, percepções, que regulam o funcionamento das funções corporais. O golpe
transitivista liga os acontecimentos do corpo à linguagem, qualquer prejuízo neste tempo
primordial pode comprometer a constituição do psiquismo na criança.

8. CONCLUSÃO

Pesquisar e escrever sobre a psicanálise lacaniana, ou melhor, eleger os textos de
Jacques Lacan como objeto de pesquisa para empreender uma estratégia de leitura
desconstrutiva demanda uma demarcação histórica, filosófica, sociológica de seus textos,
onde cada momento de construção teórica circunscreve o plano de um programa de
investigação científica nos moldes da epistemologia de Imre Lakatos. Assim, em seus
primórdios, foi no encontro com o surrealismo, a fenomenologia psiquiátrica, a filosofia de
Spinoza e a psicanálise freudiana que Lacan buscou compreender a loucura humana, desde
um viés subjetivo em detrimento do organicismo ensinado por seus mestres da psiquiatria.
Foi assim que, capturado de vez pela filosofia moderna transmitida por Kojève,
influenciado pela psicanálise freudiana e pós-freudiana de Melanie Klein, pela sociologia
francesa de Émile Durkheim e pela prova do espelho de Henri Wallon, o jovem Lacan se
lançou no projeto de compreender a gênese do eu e o estatuto do sujeito. É possível falar
sobre uma teoria da constituição psíquica do sujeito se Lacan ainda não dispõe das noções de
estrutura, sujeito, simbólico? Esta foi uma das perguntas que este texto buscou responder.

102
Sim, tanto é possível que Lacan – ainda que não tenha nomeado como uma teorização da
estruturação psíquica – o fez, tomando como base as transformações da família ocidental
moderna deduzidas da sociologia durkheimiana e, desta forma, instituiu a tese do declínio
social da imago paterna. Declínio cujas consequências subjetivas e psicopatológicas Lacan
antecipa no encadeamento das neuroses ditas contemporâneas e no próprio surgimento da
psicanálise no fim do século XIX.
O jovem Lacan lança mão de noções e teorias que dispõe para caracterizar a
constituição psíquica em termos de um encadeamento sucessivo de três complexos,
instaurando no inconsciente suas respectivas imagos, bem como os efeitos psicopatológicos
decorrentes da estagnação em cada complexo. Estabelece um momento ontológico neste
processo, um divisor de águas na estruturação subjetiva e de sua doutrina: o advento do
estádio do espelho. Relê o complexo de Édipo, e suas formações principais, o ideal do eu e o
supereu. No complexo de Édipo considera seu relativismo sociocultural como resultante do
modelo familiar paternalista, para mais tarde o reler a partir das estruturas elementares de
parentesco, pois na década de 50, Lacan atualiza seu programa de investigação científica com
os estudos da antropologia estrutural de Lévi-Strauss e da linguística de Ferdinand de
Saussure, marcando também o início de seu ensino e seminários.
O tema da psicopatologia perpassa toda a teorização do jovem Lacan, onde cada texto
objeto desta pesquisa traz as incidências desta temática, seja no tocante à causalidade psíquica
nas psicoses, seja referente às neuroses de transferência ou de caráter. Lacan se debruça sobre
a problemática da psicopatologia contemporânea sem deixar de lado as questões acerca da
clínica psicanalítica, do lugar da transferência e do analista.
Por fim, cabe destacar que suas interrogações sobre a gênese do eu e do sujeito eram
vivas, pulsantes, se mesclaram a outros temas na busca por respostas, tais como: a
agressividade, o sadismo/masoquismo, o transitivismo, o narcisismo. Em decorrência disso, o
potencial teórico e polissêmico dos textos do jovem Lacan viabilizou uma leitura
metapsicológica sobre a psicopatologia do autismo fundamentada no estádio do espelho.
Leitura que destaca a complexidade e fecundidade deste corpus textual, extrapolando sua
comum redução ao registro do imaginário, para se mostrar capaz de fundamentar teoricamente
este fenômeno da infância contemporânea que atualmente convoca psicanalistas de crianças,
profissionais da saúde e educadores a um diálogo e intercâmbio interdisciplinar constantes.

103
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