Erise Veloso de Amorim Padilha - Território e subjetividade: uma pesquisa sobre a Comunidade de Pescadores do Jaraguá

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Dissertação - Erise Veloso de Amorim Padilha.pdf
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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA

Erise Veloso de Amorim Padilha

TERRITÓRIO E SUBJETIVIDADE: UMA PESQUISA SOBRE A COMUNIDADE DE
PESCADORES DO JARAGUÁ

Maceió
2017

ERISE VELOSO DE AMORIM PADILHA

TERRITÓRIO E SUBJETIVIDADE: UMA PESQUISA SOBRE A COMUNIDADE DE
PESCADORES DO JARAGUÁ

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa
de Pós-Graduação em Psicologia do Instituto de
Psicologia da Universidade Federal de Alagoas
como requisito parcial para a obtenção do título de
Mestre em Psicologia.
Orientadora: Profª. Drª. Simone Maria Hüning.

Maceió
2017

Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Bibliotecária Responsável: Janaina Xisto de Barros Lima
P123t

Padilha, Erise Veloso de Amorim.
Território e subjetividade : uma pesquisa sobre a comunidade de pescadores
de Jaraguá / Erise Veloso de Amorim Padilha. – 2017.
109 f.: il.
Orientadora: Simone Maria Hüning.
Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Psicologia. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Maceió,
2017.
Bibliografia: f. 102-109.
1. Territorialidade. 2. Subjetividade. 3. Narrativa. 4. Comunidade de
pescadores de Jaraguá – Maceió (AL) – Memória. 5. Psicologia social. I. Título.
CDU: 316.6 (813.5)

Aos pescadores e às marisqueiras da Vila dos Pescadores de Jaraguá.

AGRADECIMENTOS
À minha orientadora, Simone Maria, pela sensibilidade e disposição ao encontro. Agradeço
pela parceria dedicada e cuidadosa ao longo desses anos e por estimular, em mim, a
desacomodação, o incômodo e a vontade de transformação, apontando sempre a possibilidade
e a necessidade de uma prática militante, afetada e implicada ética e politicamente. Obrigada
pela escuta e pelo olhar atentos, por entender e acolher minhas angústias, por respeitar meu
tempo e meu ritmo. Obrigada pela amizade.
À Enaura, Francinete, dona Lena e Neide, participantes e também autoras dessa
dissertação, por terem topado construir junto conosco esse trabalho. Obrigada pela parceria,
confiança, amizade, e pelo compartilhamento de suas histórias de vida. Agradeço também à
Cecília, ‘seu’ Dioclécio, Erivelton, Graça, Juarez, Marina, Mariana e dona Odicéia, pelo
acolhimento carinhoso de sempre. E a todas/os as/os demais moradoras/es da comunidade,
meu agradecimento pela sua resistência e luta por uma cidade melhor e mais justa.
Ao Grupo de Pesquisa Processos Culturais, Políticas e Modos de Subjetivação: Aline, Alison,
Alisson, Bárbara, Carlysson, Dayse, Felipe, Graciele, Larissa, Leonardo, Lucas, Luiza,
Rosy, Rodrigo, Tathina, Vanderli e Wanderson, pela parceria, pelos momentos de
descontração, pelas angústias compartilhadas e pelas contribuições a esse trabalho.
Ao professor Marcos Mesquita, pela parceria afetuosa. Obrigada por todas as contribuições
ao longo da minha formação, dos grupos de pesquisa e extensão até mais esse trabalho, e por
carinhosamente ter aceitado fazer parte da banca de defesa.
À professora Lisandra Moreira, pelas inúmeras contribuições feitas ao trabalho, pela
parceria no Grupo de Pesquisa e por generosamente ter aceitado participar da banca de defesa.
Ao professor Frederico Costa, pelas contribuições atentas e afetuosas a esse trabalho.
Obrigada por abraçar a mim e à Vila. Às professoras Maria Auxiliadora e Marília Silveira,
pelas generosas contribuições durante o percurso do mestrado. E à Anna Júlia Giurizatto,
por estar sempre disposta a ensinar e a aprender, por ser professora e amiga.
Ao Wanderson, pelas contribuições ao logo do mestrado, desde o auxílio na elaboração do
projeto de pesquisa até as sugestões cuidadosas na construção, reconstrução e desconstrução
da dissertação e de mim mesma. Obrigada pela amizade e por olhar a lua comigo. E à Aline,
pelas críticas e sugestões sempre competentes e generosas. Obrigada pela amizade, pelas
palavras de apoio e incentivo, por dividir angústias e compartilhar conhecimento.
Aos funcionários do Programa de Pós Graduação em Psicologia da UFAL, em especial à
Liliane, pelas conversas e pelos socorros.

À minha mãe, Sônia, eu agradeço pela vida. Por sempre ter me dado todo o suporte e
investimento (material e afetivo) necessários para o meu crescimento; pelo amor, cuidado e
dedicação incansáveis e incondicionais. Obrigada por ser minha melhor amiga e meu porto
seguro.
Ao meu pai, Celso, pela serenidade, pelas palavras de incentivo, pelos gestos de carinho, por
me estimular a lutar pelo que eu acredito e me ajudar a acreditar num mundo melhor.
Obrigada também pelas massagens para destravar depois de horas de escrita e pelas caronas
até o Sobral.
Aos meus irmãos, Eric e Emersom, por sempre me apoiarem, acolherem e fortalecerem. E às
minhas irmãs, Maiara e Sofia, pela alegria do reencontro e pelos abraços apertados e sem
pressa.
À Ia, por todo o cuidado e carinho de sempre; pela ternura e sensibilidade que envolvem e
inspiram. Por ser uma das criaturas mais lindas que eu conheço. Obrigada por ser uma
segunda mãe para mim, um anjo da guarda. Obrigada por ser só amor.
À Anna, pela “sorte de um amor tranquilo”. Agradeço pelo companheirismo; pelas palavras e
pelos silêncios sempre acolhedores e cuidadosos; pelo apoio e incentivo nos momentos de
desgaste, pela paciência e compreensão nos momentos de estresse e pelo colo nos momentos
de angústia. Obrigada pela presença (mesmo quando distante) e por me trazer paz.
À tia-mãe-amiga Solange e ao Hélcio, pela acolhida cuidadosa, afetuosa e silenciosa nos
momentos de fuga dos barulhos da minha casa. E também pelas conversas para descontrair e
repor as energias, pelo cafezinho para levantar o ânimo e pelas torradinhas e bolos para
alegrar a taurina faminta.
À prima, meio irmã, meio mãe, Layse, pelo apoio, cuidado e amor de sempre. Agradeço,
ainda, por inspirar através do exemplo. E à Isadora, pelos abraços demorados, pelo socorro
generoso e cuidadoso durante a dissertação e por também abraçar a Vila e a cidade.
Ao Juliano, pelo (re)encontro lindo dessa vida, por ser o irmão que eu escolhi. Por ouvir e
acolher minhas angústias e medos e por me incentivar a superá-los; por estar sempre aqui, ali
e onde mais eu precisar; por me trazer de volta para realidade nos momentos de divagação,
por me empurrar para voos quase forçados nos meus momentos de covardia e hesitação e por
torcer para que eu voe sempre mais alto. Obrigada por ‘entender essa minha transição’.
Ao Anderson, por estar sempre ao meu lado, ‘até quando eu tenho uma dor de barriga’; por
sempre me acolher, proteger e comprar todas as minhas brigas. Obrigada pela torcida
incansável, pela cumplicidade e amizade de sempre; obrigada por rir meu riso e chorar meu
choro como se fossem seus.

Às ‘supermelhoresamigas’, Ana, Laís, Laísa e Rita, pela amizade que me acompanha há
tantos anos; pelas conversas sem pressa, pelos abraços apertados e pelos reencontros sempre
gostosos, que trazem leveza aos dias.
À Drika e à Belinha, por tornarem as coisas sempre mais alegres. Obrigada pelo
companheirismo e afeto de todas as horas, pelos sorrisos e pelos brindes pela vida afora.
À Wanessa (B2), pela parceria e sintonia que deram alegria e força em tantos momentos.
Obrigada pelas vezes que complementou meus pensamentos, traduziu meus sentimentos e
compartilhou minhas angústias. “O barco que nos leva é um”.
A todas/os as/os companheiras/os que abraçaram a Vila, por acreditarem e lutarem por uma
cidade melhor. Em especial: Amanda Duarte, Ana Luiza Azevedo, Ávila Menezes, Belinha
Rocha, Dalmo Almeida, Danielle Henrique, Emersom Padilha, Everaldo Dantas, Felipe
Miranda, Frederico Costa, Gabriel Magalhães, Gaio Buendía, Gustavo Marinho,
Juliana Sousa, Liana Barradas, Marcos Mesquita, Marcus Vinícius, Marluce
Cavalcante, May Honorato, Nichole Dellabianca, Nicolle Freire, Parmênides Justino,
Rafael Soriano, Simone Maria, Sirlene Gomes, Vanessa Lima, Viviane Rodrigues,
Wanessa Oliveira e Yuri Gabriel. Agradeço por tantas batalhas que lutamos lado a lado ao
longo desses anos. Foi muito enriquecedor caminhar com vocês.
Aos colegas da turma de mestrado, Adriano, Carol, Fabíola, Hélida, Kaanda, Karine,
Karoline, Priscila e Renatinha, pelas contribuições generosas em sala de aula, nos
corredores e até nos banheiros, pelo apoio e pelas angústias compartilhadas e aliviadas. Em
especial, à Lara, pela amizade que vem desde a graduação; e à Lívia, pela amizade e pela
companhia em tantos momentos de estudo e escrita.
À turma 2009.1, pelos momentos de aprendizado e companheirismo, pelos laços que
surgiram e que permanecem. Agradeço em especial à Anielly, Jonathan, Leilane e Mariana,
por me estimularem a estudar para seleção do mestrado. E, ainda: Anielly, obrigada por correr
até a reitoria para fazer nossas inscrições. Jonathan, obrigada por não me deixar desistir.
Aos membros do Núcleo Edis, pelos anos de aprendizado e parceria. Em especial, à Ana
Cecília, pela amizade e pelos momentos de descontração.
Aos amigos que a vida me deu, que de uma forma ou de outra, se fazem presentes e seguem
comigo: Amanda Barros, Bel, Bereva, Bilu, Bruno Chaves, Camila Figueiredo,
Carlysson, Carolina Correia, Carolina Lins, Clara Alana, Diana Sarmento, Hélida,
Hélton, Kátia Regina, Laila, Lívia Barbosa, Luna Oliveira, Mirelle Camargo, Paulinha,
Pedro Luger, Raísa Bittencourt, Valéria, Vitinho e Walkíria.
À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas – FAPEAL, pelo apoio financeiro.

Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar, ai
Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar

Andei por andar, andei
E todo caminho deu no mar
Andei pelo mar, andei
Nas águas de Dona Janaína
A onda do mar leva
A onda do mar traz
Quem vem pra beira da praia, meu bem
Não volta nunca mais
(Dorival Caymmi)

RESUMO
Essa pesquisa buscou problematizar a relação existente entre territorialidade e
subjetividades, considerando o contexto histórico e político da Comunidade de Pescadores
do Jaraguá. Essa comunidade foi, durante os últimos 20 anos, alvo de um conflito relativo ao
direito de permanência no território onde se situava há mais de 40 anos, no bairro de
Jaraguá, na cidade de Maceió-AL. Conflito que resultou, em junho de 2015, no despejo das
famílias que ali residiam e trabalhavam, e na demolição do espaço físico da comunidade.
Diante desses acontecimentos, considerou-se importante o registro das histórias de vida e de
memórias de moradores da antiga comunidade através de suas narrativas, buscando conhecer
suas relações de pertencimento com o território, bem como discutir como a mudança de
território e a demolição da antiga comunidade tem afetado a vida dessas pessoas em
aspectos como trabalho, relações sociais e práticas culturais. Dessa forma, consideramos a
relação entre territorialidade e produção de subjetividades a partir dos seguintes aspectos: a)
elementos da história da comunidade e da vida das pessoas; b) território pensado a partir dos
modos de viver, habitar e trabalhar e c) território pensado como espaço de produção de
modos de subjetivação. Situada no campo da Psicologia Social, essa pesquisa parte do
diálogo com o pensamento de autores como Michel Foucault, Giorgio Agamben e Walter
Benjamin, destacando a importância de trabalhar com as histórias e memórias dos sujeitos
assumindo o compromisso ético e político de uma narrativa que se preocupe em rememorar
e contar as histórias dessas/es trabalhadoras/es da pesca que tiveram suas vozes ignoradas ou
mesmo silenciadas em diversos espaços. Assim, apontamos para a importância de se pensar
e produzir conhecimento e práticas de intervenção que façam ecoar essas vozes, sem deixálas caírem no esquecimento. Compreendemos território e subjetividades a partir de sua
relação de coprodução, ou seja, território e subjetividades se constituem na medida de suas
relações. Tomamos o território como lugar de vida, de produção de subjetividades, de
cultura e de relações sociais entre sujeitos, ao tempo em que esses sujeitos produzem e
instituem o território ao habitá-lo. Nele, se situa uma história possível a partir da
rememoração. Deste modo, a partir dos autores mencionados, tomamos a memória como um
importante analisador e problematizador das condições sociais, colocando em análise
práticas que, em nome do progresso, desfazem relações sociais de forma violenta ao
desconsiderar a produção cultural e de memória dos sujeitos e seus territórios de habitação.
Palavras-chave: a) território; b) subjetividade; c) memória d) narrativas.

ABSTRACT
This research sought to problematize the relation between territoriality and subjectivities,
considering the historical and political context of the Jaraguá Fishermen's Community. During
the last 20 years, this community has been the target of a conflict regarding the right to remain
in the territory where it was located for more than 40 years, in the Jaraguá neighborhood, in the
city of Maceió-AL. Conflict that resulted, in June of 2015, in the eviction of the families who
lived and worked there, and in the demolition of the community’s physical space. In view of
these events, it was considered important to record the life stories and memories of the
inhabitants of the old community through their narratives, seeking to know their belonging
relations with the territory, as well as discussing how the change of territory and the demolition
of the old community has affected the life of these people in aspects such as work, social
relations and cultural practices. Thus, we consider the relation between territoriality and
production of subjectivities from the following aspects: a) elements of the history of
community and people's lives; b) the territory studied from the ways of living, inhabiting and
working and c) territory conceived as a space for the production of modes of subjectivation.
Located in the field of Social Psychology, this research starts from the dialogue with the
thought of authors such as Michel Foucault, Giorgio Agamben and Walter Benjamin,
highlighting the importance of working with the stories and memories of the participant
subjects assuming the ethical and political commitment of a narrative that is concerned with
remembering and telling the stories of these fishing workers who had their voices ignored or
even silenced in various spaces. Therefore, we point to the importance of thinking and
producing knowledge and intervention practices that echo these voices without letting them fall
into oblivion. We understand territory and subjectivities from their relation of co-production,
i.e., they are constituted in the measure of their relations. We comprehend the territory as a
place of life, production of subjectivities, culture and social relations between subjects, at the
time when these people produce and institute the territory by inhabiting it. In it, there is a
possible story from the remembering. Thus, from the mentioned authors, we take memory as
an important key to analyze and problematize social conditions, analyzing practices that, in the
name of progress, undo social relations in a violent way by disregarding the cultural and
memory production of the subjects and their territories of habitation.
Keywords: a) territory; b) subjectivity; c) memory d) narratives.

SUMÁRIO

1.

Introdução ....................................................................................................................... 13

1.2

Território e subjetividade........................................................................................... 20

2.

Aspectos teórico-metodológicos ..................................................................................... 22

2.1

Desacomodar é preciso – Diálogos entre a Psicologia e o pensamento foucaultiano 24

2.2

Narração: uma potência de rememorar no/com o escuro .......................................... 26

2.3

Pesquisadora no escuro - Sobre o meu lugar de pesquisadora-narradora.................. 28

2.4

Sobre a aproximação com as narrativas .................................................................... 29

3.

Uma rede de histórias – A Comunidade de Pescadores, sua gente e suas memórias 31

3.1

O bairro de Jaraguá e sua história.............................................................................. 32

3.2

Os pescadores em Jaraguá ......................................................................................... 36

3.3

A comunidade Vila dos Pescadores de Jaraguá......................................................... 39

4.

A luta pelo território ....................................................................................................... 48

4.1

A remoção da Comunidade de Pescadores de Jaraguá .............................................. 68

4.2

Um território sem sua comunidade ............................................................................ 85

4.3

Uma comunidade sem seu território .......................................................................... 87

5.

Considerações Finais .................................................................................................... 102

REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 105

13
1. Introdução

Decidi começar pelo começo: Que comunidade é/era essa? O que me levou até ela? O
que me fez ficar? Assim, inicio essa dissertação falando um pouco sobre a Comunidade de
Pescadores na qual e com a qual a pesquisa se realizou, descrevendo suas geografias, suas
cores, sua gente... contando um pouco sobre como cheguei até ela e sobre as pessoas e
histórias de vida que tive a oportunidade de conhecer. Situarei, ainda, brevemente o contexto
histórico e político da comunidade e me localizarei nesse meio de caminho. Importante
pontuar que o que contarei nesse primeiro momento é a minha narrativa a respeito da
comunidade, sua história e contexto, uma narrativa que se constrói a partir das experiências e
vivências que tive, dos encontros que esse lugar me proporcionou. Assim, não tenho a
pretensão de trazer a definição ou verdade absoluta sobre a comunidade e seus moradores,
mas de compartilhar uma narrativa entre várias possíveis, essa que trago na memória.
Durante aproximadamente sessenta anos, existiu, em Jaraguá, bairro histórico da
cidade de Maceió-AL, mais especificamente em sua orla marítima, uma comunidade de
pescadores, conhecida como Comunidade de Pescadores do Jaraguá ou Vila dos Pescadores
de Jaraguá, com suas casas e gente simples, seus barcos e materiais de pesca, e suas histórias
de vida unidas e banhadas pelo mar de Jaraguá.
Era 2009, ano em que acabara de entrar na faculdade de Psicologia na Universidade
Federal de Alagoas, em Maceió. Naquele mesmo ano aconteceu o XV Encontro Nacional da
Associação Brasileira de Psicologia Social (XV ENABRAPSO) na cidade, no qual fui
monitora cultural sob a orientação/coordenação dos professores Marcos Ribeiro Mesquita e
Simone Maria Hüning, que recentemente haviam conhecido a comunidade e sua situação
política: a comunidade era alvo de um conflito com a Prefeitura Municipal de Maceió,
relativo ao direito de permanência no território onde se situava. Assim, a partir do diálogo
com a direção da Associação de Moradores e Amigos do Bairro de Jaraguá (AMAJAR),
resolvemos, juntos, compartilhar a situação da comunidade com os participantes do encontro.
A ideia foi montar uma exposição de fotografias para apresentar a comunidade e apresentar
um abaixo-assinado que solicitava sua permanência no território onde se localizava. Foi nesse
momento que tive oportunidade de conhecer a Vila dos Pescadores de Jaraguá, que até então
era, para mim, apenas um aglomerado de barracos à beira-mar, uma favela.

14
Fui até a comunidade para tirar fotos para a exposição e lá, pude conhecer Enaura 1,
trabalhadora da pesca, nascida na comunidade e presidenta da AMAJAR. Bastou alguns
minutos de conversa para que ela começasse a contar um pouco sobre a história de sua luta
junto à comunidade. Enquanto falava, Enaura me levava por entre as casas simples e ruelas
estreitas. Era um dia ensolarado e ela dizia ser algo bom, porque se tivesse chovido, estaria
cheio de lama e eu poderia sujar os meus pés. Olhei para o chão, cuidadosa, e ela sorriu.
Seguimos. Eu era uma pessoa ‘de fora’ preocupada em não melar os pés, mesmo sem tanta
lama.
Conversar com Enaura e fotografar aquela comunidade me fez enxergá-la de outra
forma. Não era simplesmente um aglomerado de casas à beira-mar. Não era uma ‘favela’, no
sentido pejorativo comumente utilizado sem grandes cuidados por pessoas tão ou mais ‘de
fora’ quanto eu. Era uma comunidade de pescadores, de pessoas simples e trabalhadoras, que
dividiam o dia a dia umas com as outras, que cuidavam dos filhos enquanto trabalhavam
tratando o pescado nas portas de suas casas ou na beira da praia. Era a comunidade sobre a
qual Enaura falava com orgulho e carinho. Parei de olhar para o chão e passei a olhar para as
pessoas, para as crianças brincando, para as marisqueiras descascando camarão, para os
pescadores que chegavam da maré, para aquele lindo mar azul e para os barcos coloridos, que
davam ainda mais cor ao horizonte. Um cenário tão bonito e cheio de cores, que parecia uma
pintura, com aquele azul brilhante do mar, o verde, vermelho, amarelo e laranja dos barcos, as
peles negras e queimadas de sol daquelas pessoas. Meus olhos se adaptavam a uma nova
forma de olhar pra aquela gente.
O diálogo com a comunidade se manteve após o encontro da ABRAPSO. Os
professores Marcos e Simone permaneceram indo à comunidade durante algum tempo,
vivenciando e conhecendo seu cotidiano de luta, suas demandas e construindo junto com a
comunidade possíveis estratégias de ação e parceria. Pensou-se que seria importante
formalizar esse contato institucionalmente, através de projetos de extensão viabilizados pela
Universidade Federal de Alagoas, onde ambos eram professores do curso de Psicologia.
Assim, nos anos seguintes (2010, 2011, 2012 e 2013), através do Programa Institucional de
Bolsas de Iniciação à Pesquisa-Ação (PIBIP-AÇÃO), fiz parte da equipe de trabalho dos

1

Os nomes presentes ao longo da dissertação são os nomes verdadeiros das pessoas que participaram direta ou
indiretamente da pesquisa. Seus usos foram autorizados pelas participantes em gravação de áudio, meio
escolhido para a obtenção do Termo de Consentimento, conforme resolução no 501/2016-CNS. Número de
protocolo de registro da pesquisa na Plataforma Brasil: 50773415.1.0000.5013

15
projetos de extensão realizados na e com a comunidade, podendo acompanhar de perto a luta
dos moradores pela permanência em seu território e pela reurbanização de sua comunidade.
Guiada por Enaura na maioria das idas à comunidade, pude conhecer ao longo dos
anos que se seguiram muitas personagens que compunham a história da Vila. Pessoas que
dividiram comigo suas experiências, suas memórias, seu dia a dia de trabalho e luta. Aos
poucos, fui me familiarizando com aquele lugar e com sua gente. Pude me aproximar mais
daquele contexto que até pouco tempo parecia tão distante de mim e da minha realidade e
conhecer melhor algumas mulheres que, hoje, constroem junto comigo essa dissertação. Dona
Lena, Neide, Francinete e Enaura são as testemunhas que narram aqui, junto comigo, suas
histórias e uma história da Vila dos Pescadores de Jaraguá.
São muitas as pessoas que poderiam estar aqui (e de certa forma, estão, já que as
narrativas dessas mulheres encontram coro e eco em muitas outras vozes da comunidade,
mesmo não sendo unânimes), mas alguns motivos especiais colocam essas mulheres à frente
dessas narrativas: questões de afeto e de luta. De afeto, porque criamos, ao longo desses anos,
fortes vínculos que facilitaram o contato e o convite para participarem dessa pesquisa, bem
como o acolhimento e o aceite para construírem a dissertação junto conosco. De luta, porque
são mulheres que sempre estiveram e estão na frente de batalha contra as dificuldades
cotidianas que uma cidade e sociedade excludentes, machistas, racistas e classistas lhes
impuseram e impõem sempre que tentam lhes dizer quais os seus lugares no mundo por serem
mulheres, negras e marisqueiras. De luta, sim, porque decidiram resistir diante dessas
dificuldades e imposições e não permitir que seu gênero, sua cor, seu trabalho e sua pobreza
definissem ou limitassem os lugares por onde poderiam circular, morar e trabalhar. Pelo
contrário, seriam condições que lhes fariam sentir pertencentes a uma comunidade e dariam
ainda mais impulso para lutarem pela sua gente e pelo seu território.
Essas mulheres de luta vêm contar suas histórias e trazem seus nomes verdadeiros
como assinatura de suas falas. Orgulhando-se de sua história, quando perguntadas sobre como
gostariam de ser chamadas na dissertação, optaram por seus nomes ou apelidos, como quem
diz ‘eu não tenho porque me esconder’, ou como elas mesmas disseram: “eu não tenho nada a
temer a Prefeitura, pode colocar meu nome.” (Francinete), ou “é bom que eles tenham mesmo
[acesso ao meu nome], para eles se conscientizarem da burrice que eles fizeram.” (Neide).
Francinete e Neide são as “irmãs teimosas”, como Francinete fala em tom de humor e
orgulho, se referindo a forma como são conhecidas pela Prefeitura devido ao fato de sempre
terem se recusado a sair de Jaraguá. Naturais do estado do Rio Grande do Norte, vieram para
Alagoas ainda pequenas (com nove e três anos de idade respectivamente). O tio, pescador e

16
dono de barco, veio antes e se instalou no município de Piaçabuçu-AL, onde seguiu
desenvolvendo suas atividades de pesca. Gostando do lugar, convidou o pai das irmãs, ‘seu’
Dioclécio, para vir trabalhar com ele. Dioclécio veio, também gostou da cidade e voltou para
buscar o restante da família. Dois anos depois, a família Oliveira de Souza veio para Maceió,
se instalando em Jaraguá. Na época com onze e cinco anos, Francinete e Neide, junto com
mais três irmãs (Marina, Cecília e Ingrácia), começavam a fincar suas raízes no novo lugar.
Agora com quarenta e cinco anos, Francinete, mais conhecida como Pepeta, é mãe de
quatro filhos, duas meninas e dois meninos, e avó de dois netos, todos nascidos em Maceió e
criados na Vila até a remoção. Trabalhou como marisqueira da infância até a remoção da
comunidade, quando arrumou um emprego fora, já que permanecer trabalhando em Jaraguá
em meio a tantas lembranças, saudades e dores era difícil para ela, que escolheu Jaraguá para
chamar de lar. Mas apesar da tristeza que sente ao se deparar com o vazio que agora está no
lugar de sua comunidade, vez ou outra Fancinete vai até Jaraguá para tratar camarão com a
irmã, já que sente falta do ofício. A caçula, Francineide, mais conhecida como Neide, segue
trabalhando com a pesca em Jaraguá. Marisqueira desde muito cedo, não se vê fazendo outra
coisa da vida, embora estar no espaço onde ficava a comunidade antes da remoção lhe
desperte, também, sentimentos bastante dolorosos, já que lá fincou suas raízes, como o pé de
amêndoas plantado na casa de sua mãe, que ainda permanece no local: “A única coisa que
sobrou do terreno foi o pé de amêndoa da casa da minha mãe. Quer dizer, então quando eu
vejo aquele pé de amêndoa, só Deus sabe como meu coração fica...” Hoje com trinta e nove
anos, é mãe de um casal de filhos que, assim como os primos, nasceram em Maceió e foram
criados na comunidade até a remoção. Ambas as irmãs fizeram parte da Associação de
Moradores da Vila, lutando ao lado de Enaura pela permanência da comunidade em Jaraguá.
Dona Lena, também se juntou à luta pela permanência da comunidade em Jaraguá.
Hoje com cinquenta e cinco anos, nasceu na comunidade e desde então só se sente
verdadeiramente em casa naquele pedaço de terra. Mãe de nove filhos (dos quais três
faleceram logo cedo) e avó de dez netos. Teve seu primeiro filho aos 21 anos de idade e desde
então foi pai e mãe ao mesmo tempo, como ela diz orgulhosa, se desdobrando para suprir as
necessidades de sua família: “Eu fui mãe com 21 anos, tive 9 filhos. Dos 9, o Senhor deixou 6
pra ‘mim’ cuidar. Os três, Ele tomou conta dos 3. Dois com meses e um com três anos e
pouco, que foi uma coisa que ele comeu e acabou passando mal. E aí ficou os 6 pra ‘mim’
cuidar. Eu sempre fui pai e mãe dos meus filhos, continuei na minha luta, trabalhando pra
cuidar deles.” Embora com pouco estudo, sempre buscou aprender, lutar e trabalhar
incansavelmente para cuidar dos seus. Chegou a trabalhar na construção de um dos principais

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shoppings da cidade, o antigo Shopping Iguatemi, hoje Maceió Shopping, enquanto
trabalhava também como marisqueira na comunidade, somando as rendas e tendo no mar sua
principal fonte de renda: “E assim, estudei até o oitavo ano e não terminei os estudos. Mas
tinha o cuidado, né, tive o cuidado de aprender. Não tive muito incentivo, mas aprendi o que
pude. [...] Trabalhei na construção do Shopping Iguatemi, hoje é Maceió Shopping.
Trabalhei lá. Mas aí não dava pra suprir, né, porque o salário naquele tempo, em 88, me
parece... Que o Iguatemi tem 30 anos, né? É, eu acho que é. Minha filha da época, ela tem
29, ela tinha 1 ano e alguns meses... Pronto, minha vida foi virada, assim... Foi dedicada pra
vila, porque era minha fonte de vida, né, de renda, de tudo. E voltada pros meus filhos,
porque eu sempre fui pai e mãe, sempre fui tudo deles. Voltada nisso.”
Tal qual dona Lena, outra filha da terra é Enaura, nascida e criada na comunidade de
Jaraguá, sequer existia quando os pais vieram do município de Maragogi, litoral norte de
Alagoas, para Maceió. Logo que chegaram à capital alagoana, se instalaram num bairro não
tão longe de Jaraguá, mas distante para quem se deslocava a pé. Seu pai, pescador, todos os
dias enfrentava longa caminhada até o mar de Jaraguá para seguir com seu trabalho. Em
pouco tempo fez amizade com os moradores da comunidade e logo conseguiu comprar fiado
(sem dinheiro) uma casinha. Já com um lugar de moradia garantido, trouxe a mulher e a duas
filhas para morar na comunidade de pescadores, em Jaraguá. E foi nessa casinha que, em
1969, Enaura nasceu.
Crescendo na comunidade, desde muito cedo começou a aprender o ofício de
marisqueira com a mãe. Seu pai comprou um barco, também fiado, e para pagar a dívida ela, a
mãe e as irmãs ajudavam tratando peixes. Quando tinha aproximadamente dezoito anos, seu
pai voltou para Maragogi. Enaura permaneceu em Jaraguá com o restante da família,
trabalhando como marisqueira para ajudar a mãe. Tempos depois, por volta de 1996, quando a
Prefeitura começa a ameaçar a remoção de famílias da comunidade que não fossem de
pescadores, sua mãe, agora sem o marido pescador, vende a casa em que morava e vai
embora. Enaura, casada com um pescador, permaneceu na comunidade, onde teve seus dois
filhos. Separou-se do primeiro casamento. Além de trabalhar como marisqueira, para
complementar a renda, passou a vender frutas e alguns objetos, como roupas e brinquedos na
comunidade. Sempre trabalhou bastante. Passou a dar aulas de reforço para as crianças da
comunidade e foi aí que recebeu convite para se tornar alfabetizadora de jovens e adultos da
Vila, o que fez durante quase três anos. Foi também convidada para participar do Programa
Esporte e Lazer do Ministério dos Esportes (PELC), sendo monitora do projeto na
comunidade em 2008. Nesse tempo, fez alguns cursos de formação de educadora, conheceu

18
alguns projetos e foi a partir daí que percebeu a importância de se retomar a associação de
moradores da comunidade (que existia desde 1988 mas que à época estava pouco atuante),
para dar seguimento a projetos na comunidade de forma mais organizada. E foi assim que se
tornou presidenta da Associação de Moradores e Amigos do Bairro de Jaraguá.
Ainda não me apresentei. Eu sou Erise, mulher, branca, de classe média, solteira e sem
filhos. Moro na casa da minha mãe num condomínio fechado não tão ‘chique’, estudei em
colégios particulares a vida toda, me graduei em Psicologia na Universidade Federal de
Alagoas e, hoje, estou concluindo o mestrado em Psicologia na mesma instituição. Moro no
mesmo lugar desde que nasci e nunca sofri ameaças de despejo ou expulsão. Não sei pescar.
Aprendi a tratar camarão recentemente, na comunidade de pescadores de Jaraguá, mas ainda
demoro um bocado para descascar o crustáceo se comparado às mulheres que me ensinaram a
fazê-lo. Pois é, não era e não sou moradora da comunidade de pescadores, sequer trabalho
com a pesca. Não perdi minha casa, não fui expulsa do lugar que vivia. Não pertenço ao
mesmo lugar de experiência ou de fala daquelas pessoas. Por mais que eu estivesse e esteja
ali, próxima, vivenciando diversos momentos e sentimentos com elas, eu não pertencia e não
pertenço aquele lugar. Mas aquele lugar e aquelas pessoas me afetaram.
Me afetaram de muitas formas, mas gostaria de compartilhar, nesse texto, ao menos
um pouco dessas afetações, porque penso que são importantes para pensarmos sobre nossas
práticas dentro e fora da universidade e para pensarmos sobre as violências cotidianas a que
somos submetidos e que também reproduzimos em nossas ações e/ou omissões. Violências
que agem quando fechamos os olhos ou quando olhamos sem o real interesse de enxergar.
Aquela comunidade existiu durante mais de sessenta anos ali em Jaraguá. Eu nasci e
vivi em Maceió toda a minha vida até então. Passei incontáveis vezes pelo bairro, olhei várias
vezes a orla, os prédios históricos, mas nunca enxerguei a comunidade. Eu a olhava muitas
vezes, mas nunca me ocupei em realmente entender o que meus olhos viam. Aquelas pessoas
foram historicamente submetidas a uma série de violências, foram abandonadas pelo Estado e
pela cidade. Foram abandonadas por nós, que passamos sem enxergá-las.
A comunidade foi, durante os últimos 20 anos, alvo de um conflito relativo ao direito
de permanência no território onde se localizava. Conflito este que resultou, em junho de 2015,
na expulsão das famílias que ali residiam e trabalhavam, e na demolição do espaço físico da
comunidade. Parte dessas famílias foi transferida para um conjunto habitacional no bairro do
Trapiche da Barra, distante cerca de 4km do local onde a comunidade se localizava
anteriormente, já o restante das famílias se dispersou por diversos outros bairros da capital
alagoana. Diante desses acontecimentos, cabem as perguntas: por quantas Enauras, donas

19
Lenas, Francinetes e Neides passamos sem conhecer, sem sequer olhar no dia a dia de nossas
cidades? Quantas remoções violentas de comunidades pobres já aconteceram e acontecem
sem que nos demos conta de que esses eventos também são responsabilidade nossa, dizem
respeito a um modelo de cidade que vivemos e construímos? E dizem respeito, também, ao
nosso não olhar para a cidade.
Benjamin (1989) nos ajuda a pensar na importância de passar pelos lugares com um
olhar atento, ocupado em realmente enxergar a vida nos espaços das cidades. Para ele, é
necessário que haja um investimento no nosso modo de olhar, uma mudança na forma como
nos relacionamos com os espaços das cidades para que possamos investigar a vida urbana na
medida em que a vivenciamos.
Eu não enxerguei aquela comunidade até o ano de 2009. Só passei a enxergá-la
quando, na universidade, me deparei com professores que se interessaram em conhecê-la e me
conduziram até ali. E digo isso para lembrar a mim, a esses professores e a quem mais estiver
nesse lugar privilegiado que é a universidade, o lugar do saber-poder científico, o peso de
nossas práticas, e a importância de sairmos de nossas salas de aula em direção ao encontro
com o outro. E a importância também, de fazermos algo relevante socialmente com nosso
lugar privilegiado de fala.
A partir de nossa experiência com a comunidade de pescadores de Jaraguá, com
Enaura, dona Lena, Francinete e Neide, acreditamos que um caminho possível e potente para
construirmos algo realmente relevante é, de fato, o encontro. Sobretudo o encontro disposto a
conhecer o outro e a trabalhar junto com ele. E foi conhecendo a comunidade e essas
mulheres, suas histórias de violências, lutas, resistências e afetos, que percebemos a
importância de contar essa história e de pensar, a partir dela, sobre territórios e subjetividades.
Construir essa pesquisa e escrever essa dissertação não foi fácil. Falar sobre o que
considero umas das maiores violências e injustiças que já aconteceram na história da minha
cidade, lembrar e reviver (porque trazer à memória não é simplesmente relembrar um
passado, mas tem implicações e afetações num presente vivo) tantos sentimentos fortes em
cada linha que escrevi, tanto as coisas boas de que sinto falta, quanto as ruins, que doem até
hoje, foi um processo bastante pesado e doloroso, mas escolhemos transformar essa dor em
luta através dessa dissertação, reconhecendo a potência de contar essas histórias trazendo-as
para o presente e possibilitando um compartilhamento de experiências. Queremos registrar
um pouco dessas vidas que, conhecendo uma história diferente da que conhecemos, têm a
possibilidade de mudar nosso presente (SCISLESKI; HÜNING, 2016).

20
Assim, tomando a concepção de história como ciência e como possibilidade de
rememoração (PINHO, 2008), escolhemos contar uma história sobre a comunidade de
pescadores de Jaraguá através das narrativas de algumas de suas moradoras. Queremos, a
partir dessas narrativas, registrar histórias de vida e memórias da comunidade e, através
desses registros, problematizar as relações existente entre território e subjetividades.
Pretendemos, ainda, investigar como a mudança de território tem afetado a vida dessas
pessoas.

1.2 Território e subjetividade
Desde o século XVIII, com a derrubada das cidades medievais para a construção de
um novo modelo de cidade, a sociedade ocidental vem se deparando com o fenômeno urbano.
Nessa mesma época, graças a esse novo fenômeno, as cidades passaram a ser tomadas como
objetos de interesse para o conhecimento científico positivo e racional (RODRIGUES;
BAPTISTA, 2010), mas não apenas na esfera da concepção físico-espacial, mas articuladas a
“uma mudança nos modos de existência, no campo da subjetividade ou, mais especificamente,
na construção da individualização da subjetividade.” (RODRIGUES; BAPTISTA, 2010, p.
422). Nesse sentido, espaços e subjetividades passam a se articular, mas ainda como numa
relação entre duas realidades distintas epistemológica e ontologicamente, já que a
subjetividade permanece sendo compreendida como fenômeno individual, presente numa
concepção de sujeito racional, dotado de uma essência a priori, e o espaço, como uma
materialidade objetiva, racional e ainda “palco onde o indivíduo e a sociedade seriam alvos e
agentes de modificações” (RODRIGUES; BAPTISTA, 2010, p. 423).
Assim, é comum encontrar materiais que abordem as temáticas do território e da
territorialidade considerando apenas suas dimensões espaciais geográficas, bem como a sua
relação com os processos de subjetivação numa perspectiva de relação entre dualidades. No
Brasil, pode-se dizer que essas temáticas se configuraram como campo de interesse
recentemente para a Psicologia, inseridas nas discussões sobre os espaços urbanos e sobre os
processos de urbanização e os fenômenos a eles relacionados (HÜNING, 2015b).
No presente trabalho, compreendemos território como construção social, considerando
suas dimensões social, política, econômica e cultural (ALBAGLI, 2004). Ou seja, é tomado
como um fenômeno que só existe e é pensado/concebido de determinadas formas se inserido
numa determinada sociedade e cultura. Expressa, assim, um mundo particular e suas
condições específicas, próprias de sua constituição (VILHENA, 2002).

21
Dito isso, torna-se importante pensar o território para além de delimitações espaciais
geográficas, buscando compreendê-lo como um “campo de construção da vida social”
(VILHENA, 2002, p.49), a partir do qual ocorrem os processos de subjetivação, bem como
um campo resultado de construção social atravessado por relações de saber e poder. Pode-se
dizer, então, que a configuração territorial ocorre situada em um contexto histórico e político
vinculado às formas de governo das populações e a ações políticas, ocupadas em constituir
modos de ser administráveis (FOUCAULT, 1979; 2008). Assim, pensar o território implica
pensar sua relação de coprodução da emergência e do funcionamento dos processos de
subjetivação (FOUCAULT, 1995).
Koga (2003) nos ajuda a pensar na apropriação do território a partir da intervenção
realizada pelos sujeitos. Nesse sentido, a autora utiliza também o termo territorialidade,
entendido como uma maneira singular de apropriação do espaço, de uso da terra e do
território. Segundo ela, “[...] a territorialidade se faz pelos significados e ressignificações que
os sujeitos vão construindo em torno de suas experiências de vida em dado território.” (p. 38).
O conceito de territorialidade relaciona-se, também com o sentimento de pertencimento e a
relação dos sujeitos com o espaço geográfico que ocupam (ALBRAGLI, 2004). Destaca-se,
assim, a importância de considerar a relação de pertencimento de um sujeito situado em um
território quando se pretende compreender os espaços locais - ou territórios existenciais
(“sítios”) – (ZOAUAL, 2006), ao mesmo tempo em que compreender esses espaços nos
auxilia a entender os sujeitos que ali constroem a si mesmos e ao lugar (CAVALCANTI,
2012). Nessa direção, Paula (2004) afirma que “todo desenho territorial é uma construção
subjetiva, [...] depende da ação de um “sujeito” que institui o território.” (p. 76), e,
acrescentamos aqui, de um território que institui um sujeito.
Nesse sentindo, consideramos as articulações entre território e subjetividade a partir de
sua “tessitura co-constitutiva” (RODRIGUES; BAPTISTA, 2010, p. 423), nos aliando a
proposta de Rodrigues e Baptista (2010), que se propõem a pensar as articulações entre
espaço e subjetividade a partir “dos processos que narram as tramas e embates que constituem
o indivíduo – enquanto suporte hegemônico da experiência moderna – e o espaço ordenado e
racional das grandes cidades.” (p. 423). Assim, a presente pesquisa pretende pensar sobre a
relação “co-constitutiva” entre território e subjetividade, considerando o contexto político,
histórico e cultural da Comunidade de Pescadores de Jaraguá.

22
2. Aspectos teórico-metodológicos

Desde a formação do pensamento Ocidental Moderno o conhecimento é concebido
como produto da luz da razão, apontando para a necessidade de se iluminar algo para
descobrir a verdade. De lá pra cá, muitas certezas foram produzidas no campo da ciência a
partir dessa ideia de uma necessidade de ‘enxergar com clareza’, postulando, assim, a
importância das evidências na construção do conhecimento. Nessa lógica, o que importa, o
que deve ser considerado para comprovar ou provar algo é o que a luz mostra e revela aos
nossos olhos (SCISLESKI; HÜNING, 2016).
Assim, esses caminhos iluminados e iluminadores têm sido encarados e percorridos
como forma única de se produzir conhecimento. Arrisco dizer que nos acostumamos a
conduzir nossas pesquisas (assim como a nós mesmos) pelos caminhos iluminados. Talvez
por nos sentirmos mais seguros e confortáveis, talvez pelo desejo do reconhecimento entre
nossos pares de que estamos fazendo algo ‘realmente científico’. Consequentemente,
aprendemos a iluminar para ver melhor, para acessar melhor determinado objeto de
conhecimento e não deixar passar qualquer detalhe, qualquer evidência. E nos relacionamos
com o outro – aquele que nosso conhecimento ilumina – nos distanciando, ocupando lugares
distintos e assimétricos: nós, pesquisadores, detentores do saber e eles, os sujeitos pesquisados
ou objetos de pesquisa sobre os quais produzimos conhecimento através da iluminação.
Mas os efeitos dessa epistemologia das luzes não se restringem a forma como
pensamos e produzimos conhecimento, mas se relacionam, também, com as formas de
organização das cidades:
A epistemologia da luminosidade, para além dos modos como pensamos a produção
do conhecimento, nos constitui e relaciona-se às formas como habitamos diferentes
espaços e nos relacionamos com outros seres que habitam zonas de luzes ou
escuridão. Relaciona-se assim, a formas de inteligibilidade e produção de sentidos
sobre espaços e seus habitantes, que produzem, entre outras coisas, realidades de
violência e segregação. Constitui-nos como seres com uma capacidade seletiva de
ver e não ver. (SCISLESKI; HÜNING, 2016, p. 14)

Um dos efeitos da epistemologia da luminosidade é a produção de sombras, de zonas
de invisibilidade e marginalidade, e consequentemente, de subjetividades também invisíveis.
Na presente dissertação, tomamos a Vila de Pescadores do Jaraguá como uma dessas zonas
sombrias, invisíveis, e propomos uma outra relação com essa comunidade, uma outra forma
de produzir conhecimento, reconhecendo o escuro como um lugar possível e potente de
caminhar. Escolhemos nos afastar de nossa zona de conforto e segurança e seguir em direção

23
ao desconhecido não para iluminá-lo, mas para nos embrenharmos em seu escuro, tendo em
mente que ‘nós podemos’, sim, apagar as luzes.
Chega para todo homem o momento em que ele deve pronunciar este “eu posso”,
que não se refere a uma certeza nem a uma capacidade específica, e que, no entanto,
o compromete e o coloca inteiramente em jogo. Este “eu posso” além de qualquer
faculdade e de qualquer savoir-faire, essa afirmação que não significa nada, coloca o
sujeito imediatamente diante da experiência talvez mais exigente – e, no entanto,
ineludível – com a qual lhe seja dado medir-se: a experiência da potência.
(AGAMBEN, 2006, p. 13).

Assim, na presente pesquisa nos lançamos em direção ao escuro com a proposta de
construir uma pesquisa que, em vez de lançar luzes à escuridão em busca de uma verdade
última, lance a pesquisadora em direção ao escuro, transformando a luminosidade dos tons
quentes e frios em tons de preto e cinza, tendo em vista que o escuro é a cor da visão em
potência (AGAMBEN, 2006).
Para adentrarmos esse escuro, partimos do diálogo com o pensamento do filósofo e
jurista italiano Giorgio Agamben, do filósofo francês Michel Foucault e do filósofo e ensaísta
alemão Walter Benjamin, que embora se situem em tempos e lugares distintos, têm em suas
obras, elementos que nos afetam e ajudam a pensar e construir essa pesquisa no e com o
escuro, nos conduzindo a um olhar diferente, a um movimento de ‘não-ver’.
Para Agamben (2006), o princípio da visão traz consigo tanto a potência de ver quanto
a de não-ver, sendo essa última não simplesmente uma ausência de toda potência, mas a
existência de uma possibilidade de privação. Nas palavras do autor: “Aquilo que é assim 'tido'
não é uma simples ausência, mas tem na realidade a forma de uma privação [...], ou seja, de
algo que atesta a presença daquilo que falta no ato. Ter uma potência, ter uma faculdade
significa: ter uma privação” (p. 15). Ou seja, a potência de não-ver é aquela que ‘escolhe’ não
ser colocada em prática (ao menos não de forma usual), ela não passa ao ato não por uma
incapacidade, mas por uma opção. Assim,
Quando, pela ausência de fontes luminosas ou porque estamos com os olhos
fechados, não vemos objetos externos, isso não significa para a retina a ausência de
todas as atividades. O que acontece, ao contrário, é que a falta de luz coloca em
função uma série de células periféricas chamadas off-cells, que produzem aquela
auto-afecção particular da retina que nós chamamos de escuro. A escuridão é
realmente a cor da potência, e a potência é essencialmente a disponibilidade de uma
steresis [privação], potência de não-ver. (AGAMBEN, 2006, p. 19)

Assim, a potência de não-ver surge no contexto da pesquisa como a possibilidade de
‘colocar em função’ uma outra forma de olhar e de construir a nossa prática, que se desenrole
à/na sombra, tomando-a como possibilidade criativa que nos permite conduzir a algo
diferente, que talvez precise de uma espécie de adaptação dos sentidos para se fazer perceber
e exercer. Escolhemos nos privar da luminosidade para, então, reaprender a olhar e a guiar-

24
nos a partir e em direção ao escuro, para enxergarmos a Comunidade de Pescadores de
Jaraguá, seus moradores e suas narrativas através desse escuro. Mas como produzir
conhecimento fora da luminosidade? Como orientar-se no escuro? Não pretendemos dar
respostas conclusivas a essas perguntas, mas de certa forma, mostrar que é possível e
necessário apagar as luzes e pensar outras possibilidades de produção de conhecimento, que
se coloquem lado a lado com o escuro “e com aqueles que o habitam” (SCISLESKI;
HÜNING, 2016, p. 10), sem a pretensão de iluminá-los, mas de se deixar afetar e escurecer
por/com eles.
2.1 Desacomodar é preciso – Diálogos entre a Psicologia e o pensamento foucaultiano
Adotando como posicionamento epistemológico esse diálogo com o escuro, trazemos
Foucault em nossa caixa de ferramentas (Foucault, 1979) para pensar alguns aspectos da
pesquisa, desde a escolha do tema e a construção do problema até a produção e a análise dos
dados, além da própria forma como compreendemos o ato de pesquisar, considerando as
implicações éticas e políticas dessa ação. Nesse sentido, seu pensamento possibilita que nos
questionemos permanentemente sobre nossos objetos/temas de interesse e sobre a nossa
prática e relação com eles, constituindo o que Hook e Hüning (2009) chamaram de
“metodologia de desconfiança e crítica” (p. 103).
Pode-se dizer que o pensamento do filósofo gera uma ‘confusão’ que nos leva ao
estranhamento do hoje, a um movimento de questionamento sobre o mundo a nossa volta.
Assim, surge uma “atitude de permanente reflexão e transgressão” (VEIGA-NETO, 2003, p.
31) que nos possibilita ser, fazer e pensar de uma forma diferente da que aprendemos
(FOUCAULT, 2000), contestando o que está dado como verdade e os diversos mecanismos
que constituíram e constituem essa verdade. Em outras palavras, o trabalho de Foucault é
“desterritorializar, desfamiliarizar, levar ao estranhamento” (VEIGA-NETO, 2003, p. 30).
Assim, na presente pesquisa o diálogo com esse autor aparece como uma possibilidade
de refletir acerca de nossas práticas de pesquisa em psicologia - que tem historicamente se
construído na perspectiva de iluminar nossos objetos de conhecimento - questionar sobre
como enxergamos determinados assuntos como problemas e sobre o que e como pensamos
sobre eles, levando-nos a problematizar como determinados objetos tornam-se problemas
numa dada sociedade e como passam a aparecer no discurso científico (HÜNING, 2014b).
O reconhecimento do e a atenção ao caráter histórico da constituição dos objetos e
problemas de pesquisa, significa em não tomar tais problemas ou objetos como
dados para a ciência, mas interrogar sobre sua entrada no campo do conhecimento, o

25
que, por sua vez, permite o questionamento das soluções/práticas engendradas por
tais problemas (HÜNING, 2014b, p. 134).

Através desse movimento de autocrítica, ou melhor, de “crítica da crítica” (VEIGANETO, 2003, p. 28) ou hipercrítica (VEIGA-NETO, 1995) é possível questionar se podemos
pensar diferente do que pensamos e perceber diferente do que vemos - um momento
indispensável para continuar a olhar ou a refletir (FOUCAULT, 1998). E é nesse momento
que nos deparamos com a possibilidade da potência de olhar para e através do escuro.
Nesse movimento de “desacomodação” de nossas formas de pensar e produzir
conhecimento (HÜNING; GUARESCH, 2009) nos colocamos frente a possibilidade de
questionar a forma como historicamente temos produzido pesquisas que se constroem
seguindo a lógica das luzes da qual falávamos há pouco. E, na medida em que nos
questionamos sobre nossas práticas, nos deparamos com a possibilidade/potência de fugir
dessa lógica, de apostar no trabalho com e no escuro.
Assim, longe das luzes, o trabalho com Foucault não pretende a prescrição de soluções
para os problemas pesquisados, ao mesmo tempo em que se recusa a buscar uma única
resposta correta e conclusiva para situações consideradas problemáticas (HÜNING, 2014b),
ou a construção de um conhecimento verdadeiro acerca da realidade, uma vez que o
conhecimento e as noções do que é verdadeiro e real são construídos social e historicamente,
através de relações de saber e poder (VEIGANETO, 2003). Mas não se quer com isso negar a
existência do conhecimento, de discursos de verdade e da realidade, mas apontá-los como
construções sociais e dessa forma, dizer que são plurais e mutáveis e que só existem e se
sustentam de determinadas formas se inseridos num determinado contexto. Contexto esse que
deve ser constantemente interrogado.
Assim, pode-se dizer que Foucault nos convida a pensar diferente do que pensamos
(NARDI; SILVA, 2014), mas sem prescrever como fazê-lo. Não existe o caminho nem um
lugar aonde chegar (VEIGA-NETO, 2003), mas a possibilidade de uma liberdade de se chegar
a vários lugares. Uma liberdade que Veiga-Neto se refere como homeopática, ou seja, uma
liberdade “concreta, cotidiana e alcançável nas pequenas revoltas diárias, quando podemos
pensar e criticar o nosso mundo” (2003, p. 26):
Meu papel [...] é o de mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que
pensam ser; que elas têm por verdadeiros, por evidentes, alguns temas que foram
fabricados num momento particular da história, e que essa suposta evidência pode
ser criticada e destruída. (FOUCAULT, 2006, p. 295)

Nesse sentido, pode-se dizer que uma das principais potências de se trabalhar com

26
Foucault, que é uma potência política2 e ética, é essa possibilidade de liberdade a que seu
pensamento conduz.

2.2 Narração: uma potência de rememorar no/com o escuro
O caminho que escolhemos seguir ao encontro desse escuro foi orientado pela escolha
da narração, tal como pensada por Walter Benjamin (1987a), como possibilidade de
construção e de condução da pesquisa. O diálogo com esse autor nos possibilitou pensar a
relação entre história, memória e narrativa frente ao contexto histórico, social e político da
comunidade de pescadores de Jaraguá. Um contexto onde se tenta apagar violentamente as
histórias e memórias de seus moradores, que na lógica das luzes foram relegadas ao
silenciamento e ao esquecimento.
É no escuro que encontramos essas histórias que não foram contadas ou que foram
contadas mas não ouvidas e os destroços que foram deixados para trás na edificação de uma
história iluminada, falsamente universal. Falsamente universal, porque constrói uma história
que não contempla a rememoração do passado em sua integralidade, mas elege o quê e como
contar, e sobre o que, deixando de lado a história dos “vencidos” (BENJAMIN, 1987b). Essa
aparente universalidade remete para Benjamin, segundo Gagnebin (2013), “à dominação de
uma classe e às suas estratégias discursivas” (p. 17). Assim, a autora sugere que essa história
deve ser “interrompida, desmontada, recortada e entrecortada” (p. 17).
Para Benjamin (1987b;), o caminho para construir uma história verdadeiramente
universal é a integração dos “pequenos” na universalidade que os excluiu. Mas não uma
integração pacífica, que consistiria em incluir o excluído numa história já constituída, mas
uma integração conflituosa, que traga à tona as histórias dos “pequenos” não para reconciliar
com a “grande história” – falsamente universal – mas para romper com a continuidade
histórica, destruindo a ideologia dos vencedores e promovendo uma universalidade que
atribuiria “valor absoluto à vida do indivíduo” e que veja “o todo em cada parte”, construindo,
assim, uma universalidade não reacionária. (MATE, 2011).
Rememorar o passado não implica simplesmente restaurá-lo, mas também uma
“transformação do presente tal que, se o passado perdido aí for reencontrado, ele não fique o
mesmo, mas seja, ele também, retomado e transformado” (GAGNEBIN, 2013, p. 16;
BENJAMIN, 1987b). Apenas restaurar o passado implicaria na manutenção da forma
dominante de fazer história, colocando o presente como herança, reconstrução e continuidade
2

Nardi e Silva (2014) fazem uma discussão sobre a potência política do trabalho de Foucault para se pensar os
modos de fazer pesquisa, mais especificamente na Psicologia Social.

27
de um passado que lhe serve como selo e garantia (MATE, 2011), o que não é a nossa
proposta.
A história da Vila de Pescadores de Jaraguá tem vários personagens, narradores,
testemunhas, interlocutores, mas quem tem contado sobre ela, ou melhor, que tem sido ouvido
a

seu

respeito

não

são

os

protagonistas

(moradores).

O

acontecimento

da

remoção/transferência de seus moradores e da demolição do espaço físico da comunidade, por
exemplo, foi e ainda é contado pelos ‘vencedores’, contadores da grande história que se torna
oficial. Diante desse contexto, a narração surge como possibilidade de contar uma(s) outra(s)
história(s), que foi ignorada ou silenciada pela gestão municipal e por boa parte da mídia e da
sociedade. Assumimos, aqui, o compromisso de rememorar essas histórias que foram
deixadas para trás, trazendo as narrativas que foram ofuscadas pela luminosidade das histórias
dos vencedores, a fim de estabelecer uma “nova ligação entre passado e presente”
(GAGNEBIN, 2013, p. 16) reconhecendo a atualidade das injustiças do passado para
denunciá-las e promover algo de justo no presente, tendo em vista que “o que torna a justiça
justa não é o juízo justo, mas a presença de todas as injustiças. [...] a consciência que a
humanidade tem de todas as injustiças cometidas, de todas as causas abertas, de todos os
direitos pendentes.” (MATE, 2011, p. 121).
Compreendendo que rememorar e contar uma história é uma ação política e ética, que
tem como possibilidade e responsabilidade fazer justiça aos vencidos, não deixar que suas
experiências

caiam

no

esquecimento

(SCISLESKI;

HÜNING,

2016),

seguimos

compartilhando, contando juntas essas histórias e buscando fazê-las ecoar. Histórias que
falam de violências e de resistências, de afetos, de luta, que falam da Vila dos Pescadores de
Jaraguá. Esperamos que as narrativas de Enaura, dona Lena, Francinete e Neide irrompam o
presente, a história oficialmente contada pelos vencedores, que venham à tona como os
detritos do passado regurgitados pelo solo, dos quais nos fala Didi-Huberman (2013)
(BAPTISTA, 2016). Que possibilitem uma continuidade no contar a história, não permitindo
seu esgotamento. (BENJAMIN, 1987a; BAPTISTA, 2016). Que anunciem a memória que
tem a potência de editar, montar, desmontar e interromper a continuidade de uma narrativa em
direção ao futuro (BAPTISTA, 2016). Queremos, assim, recolher e registrar essas histórias
que falam da não unidade da vida, das infâmias, infelicidades e desgraças produzidas pelo
conhecimento e pelo progresso, e trazê-las para o campo de produção de conhecimento no
escuro (SCISLESKI; HÜNING, 2016). Esperamos que essa pesquisa sirva como uma
denúncia ao que aconteceu e que possibilite que essas histórias existam, vivam e nos afetem
no presente.

28
No contexto dessa pesquisa, os pescadores e as marisqueiras da Vila dos Pescadores
de Jaraguá são pensados como os infames de Foucault (2003), os vencidos de Benjamim
(1987b). Como essas vidas que, “animadas por uma violência” (FOUCAULT, 2003),
ganharam destaque na sociedade pela sua tragédia, pela sua derrota, pela sua exposição
cotidiana ao abandono e à morte. Modos de vida que, no contexto de nossa sociedade e
cidade, são dispensáveis, e por isso puderam ser jogados para o lado, como entulhos sem
serventia na construção de uma cidade do progresso, de uma cidade para o turismo. São os
escombros de uma história que dispensa olhar para seu passado e para o seu presente de
violências.
Essa comunidade teve e ainda tem suas histórias ignoradas, marginalizadas, numa
tentativa de silenciá-las. E foi na busca por esse não silenciamento, por fazer ecoar essas
histórias, que escolhemos trabalhar com as narrativas e memórias de moradoras da
comunidade, para que elas contem um pouco de suas histórias e despertem em nós “um certo
efeito de beleza e de terror” (FOUCAULT, 2003). Entendemos que diante dos silêncios, da
prevalência dos discursos da classe dominante, dos vencedores à frente das histórias, lidar
com a memória significará “lidar com uma substância presente, mas em muitos casos
desconsiderada” (CAVALCANTI, 2012).
A história tantas vezes falha, incompleta, parcial, manipulada, não exclui da
existência aquilo que ela porventura não transcreve, aquilo que “não entra” em sua
escrita, mas que é tacitamente transmitido, no próprio viver humano. Nesse sentido
podemos mencionar os registros orais, as tradições, as práticas cotidianas, a
memória dos lugares. (CAVALCANTI, 2012, p. 15)

2.3 Pesquisadora no escuro - Sobre o meu lugar de pesquisadora-narradora
Compreendo, aqui, a narração não somente como uma forma de contar histórias, mas
como um formato de pesquisa e como uma postura de pesquisa. Nesse sentido, ao mesmo
tempo que ela dá forma a essa investigação, ao texto e à escrita, também dá forma a mim, a
minha prática e postura enquanto pesquisadora. Assim, não sou mais apenas pesquisadora,
mas sim uma ‘pesquisadora-narradora’ e tive de aprender a sê-lo. Explico melhor: quando me
propus a ouvir as histórias daquelas mulheres, a ouvir suas narrativas para a partir daí,
compartilhá-las nessa dissertação e narrar, eu também, uma história e construir essa pesquisa,
fui levada a uma série de posturas necessárias para a realização do que propunha. Não se
tratava de fazer perguntas, mas de conversar; e mais do que conversar, ouvir. Não tinha um
roteiro estruturado ou semiestruturado. O roteiro que se seguia era o delas. E nós não
costumamos aprender a conversar ou a ouvir na universidade, ao menos não sem um olhar
clínico, sem um setting, sem o controle de uma série de variáveis. Então foi necessário

29
aprender algo novo para construir algo novo. Precisei conduzir e adaptar minha visão ao
escuro, o que demandou um estranhamento, um desconforto inicial diante de uma prática que
eu não tinha familiaridade.
Ainda assim, escolhi trabalhar com a narração porque reconheci nela a possibilidade
de fazer uma pesquisa diferente das que vêm sendo realizadas mais comumente na academia,
uma pesquisa que ao trabalhar com as falas dos sujeitos, não o faz como quem ‘dá voz’ aos
‘entrevistados’, mas que reconhece a existência e potência dessas vozes que não precisam ser
dadas, mas ouvidas e compartilhadas. Uma pesquisa que assume o compromisso ético e
político de ouvir essas várias vozes (incluindo a minha) e fazer ecoar as histórias contadas
como uma possibilidade de registro e denúncia do que aconteceu àquela comunidade, tendo
em vista que a narrativa, assim como pontuou Benjamin (2012) jamais se esgota e,
conservando suas forças, é capaz de desdobramentos ainda depois de muito tempo.
Desse modo, me aproximo das histórias e narrativas da comunidade reconhecendo que
existem diferenças entre nossos lugares de experiência e de fala, entre os lugares de
pesquisador e pesquisado, mas apostando e reconhecendo, também, a possibilidade e
necessidade de diminuir as assimetrias existentes no processo da pesquisa (HÜNING, 2014b).
Assim, procuro me alinhar às figuras do cronista e do catador de Benjamin (1987; 2006),
buscando, através da escrita desse trabalho (uma escrita que se faz com as narradoras),
possibilitar que os acontecimentos e os vencidos apareçam e contem, aqui, suas próprias
experiências e memórias, trazendo suas histórias para o presente e expondo a atualidade das
injustiças e violências sofridas.

2.4 Sobre a aproximação com as narrativas
Procuramos nos aproximar das narrativas dessas mulheres como quem conversa com
alguém que desperta nossa curiosidade, nosso interesse em conhecer sua história. Ou como
alguém que, já conhecendo um pouco das histórias de alguém e por considerar essas histórias
bastante importantes e potentes, quer registrá-las para contar também para outras pessoas. A
ideia era ouvir o que elas tinham para contar sobre suas histórias de vida, sobre seu dia a dia
na comunidade antes e depois da remoção e o que mais surgisse nesse meio de conversa.
Nos encontramos no Residencial Vila dos Pescadores, novo local de moradia da
comunidade após a remoção. As conversas foram gravadas em áudio com a devida
autorização de cada uma. Não utilizamos Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE) escrito, entendendo que seu uso, em uma comunidade formada em sua maioria por

30
pessoas de baixa escolaridade, que poderiam ter dificuldades para ler e/ou assinar o
documento, poderia gerar desconforto e constrangimento nos participantes. Além de que o
uso de um documento que necessitaria de assinatura poderia gerar desconfiança nos
moradores, visto que durante o processo de conflito com a Prefeitura Municipal, muitos
tiveram problemas referentes a assinatura de documentos que não conseguiam ou tinham
dificuldades para ler e entender e tinham de assinar mesmo sem ter certeza quanto ao seu
conteúdo. Assim, solicitamos dispensa do termo escrito, mas não do consentimento, que
passou a ser realizado através de gravação de áudio. Para tanto, ao início de cada conversa,
prestava esclarecimentos sobre a natureza da pesquisa, seus objetivos, método etc., falava
sobre o uso dos nomes, perguntando como elas gostariam de ser chamadas, e sobre a
possibilidade delas pararem a conversa a qualquer momento e mesmo desistirem de participar
da pesquisa, explicava que outras pessoas teriam acesso ao material produzido e tirava
dúvidas. Após esses esclarecimentos iniciais, pedia pra que elas contassem um pouco de suas
histórias e seguíamos conversando. Em alguns momentos fazia perguntas mais específicas,
que surgiam a partir das próprias falas das narradoras. Assim, seguimos sem roteiro
preestabelecido.
Quanto ao uso das narrativas na dissertação, escolhemos trazer as falas das narradoras
da Vila no corpo do texto, junto ao que eu, pesquisadora, escrevo e conto. Sem recuo e sem
tamanho de fonte reduzido, mas em itálico e entre aspas, para sinalizar que a fala não é de
minha autoria. A proposta é que nossas narrativas se encontrem e complementem, para que
contemos juntas, uma história da Vila dos Pescadores de Jaraguá. Suas vozes não aparecerão
aqui simplesmente como citação ou ilustração de uma história que eu estou contando. Mesmo
porque de certa forma, essas mulheres e suas memórias e narrativas é que são a própria
história da comunidade, a história que queremos contar.
Assim, trazer as narrativas de Enaura, dona Lena, Francinete e Neide junto à minha
não é uma escolha meramente estética, mas uma escolha que aposta numa proposta de
pesquisa que se constrói, se realiza e se escreve junto. Queremos, com isso, diminuir a
distância de nossas vozes e a verticalidade dos nossos lugares de fala, diminuindo as
assimetrias existentes na escrita da pesquisa.
Importante pontuar que a história que contaremos não tem a pretensão de ser a história
verdadeira e absoluta sobre a comunidade e sobre o que aconteceu. Ela dá conta apenas dos
nossos olhares, dos nossos pontos de vistas, meus e das narradoras, sem a pretensão de
esgotar o assunto ou as tantas outras possíveis histórias que ainda podem ser contadas.
Contaremos, assim, a partir de nossas experiências e vivências na comunidade, um pouco

31
sobre a história da Vila dos Pescadores de Jaraguá, sobre o cotidiano dos moradores, sobre a
luta pela permanência e sobre os desdobramentos da remoção.
3. Uma rede de histórias – A Comunidade de Pescadores, sua gente e suas memórias
“[...] a Vila acordava cedo, porque os pescadores acordam cedo.”
(Dona Lena)

Dona Lena fala de seu lugar, do lugar que dividiu durante cinquenta e três anos com
homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras da pesca, que acordavam cedo para
seguirem seu ofício, acordando, assim, também a sua comunidade, em Jaraguá. Falar do lugar
é falar também das pessoas, e a história da comunidade de pescadores de Jaraguá se mistura
com as histórias e memórias dos pescadores e das marisqueiras que constituíram aquele lugar,
que construíram suas vidas naquele ‘pedaço de terra’ e que deram um significado além,
tornando-o uma ‘comunidade de pescadores’, seus lares.
Mas afinal, o que faz de um dado espaço um lugar singular, com histórias a serem
contadas? As pessoas e suas memórias. A história tem a memória como matéria prima e a
memória do lugar é a própria memória dos sujeitos, que transformando o espaço para o seu
viver lhe atribuem um significado. O espaço, quando recortado pelos sujeitos para habitar o
mundo, é que configura o lugar (CAVALCANTI, 2012). Assim, tendo em vista que a
realidade dos lugares se estabelece a partir dos rastros do humano (LE GOFF, 2003), de suas
memórias, nos ocuparemos em contar um pouco desses rastros e desse humano que
transforma o lugar e se transforma no ato de fazê-lo.
Tendo em vista que um dos objetivos desse trabalho é registrar histórias de vida e
memórias de moradores da comunidade, contaremos um pouco da Vila dos Pescadores de
Jaraguá presente nas memórias de nossas quatro narradoras. Compartilharemos um pouco da
história da comunidade, das histórias de sua gente e de sua luta pelo lugar. Mas essas histórias
não serão contadas somente por mim, mas também por essas mulheres com quem tive a
oportunidade de conversar.
Para tanto, partiremos do início: o surgimento da Vila dos Pescadores de Jaraguá. Para
contar essa história, precisaremos contar, também, um pouco sobre a história do bairro de
Jaraguá, já que a história do lugar conta um pouco de sua gente.

32
3.1 O bairro de Jaraguá e sua história
Essa história começa antes mesmo da existência de uma Alagoas independente de
Pernambuco. Acontece que, embora a historiografia tradicional alagoana aponte o surgimento
de Alagoas como um território delimitado a partir de 1817, com a emancipação em relação à
capitania de Pernambuco, existe uma outra leitura dos fatos, apontada pelo historiador Dirceu
Lindoso (2005), que fala de uma Alagoas enquanto realidade autônoma desde um período
muito anterior a esse. Uma autonomia que se deu gradativamente e teve como balizadora a
presença significativa das águas, que viriam a determinar a configuração de uma
espacialidade antes mesmo de se tornar oficialmente reconhecida e independente (LINDOSO,
2005; CAVALCANTI, 2012).
Ainda segundo o autor (2005), a delimitação de 1817 teria serventia apenas para
formalização de um território que, na prática, já era bastante definido por seus
ocupantes/habitantes, que tiveram as águas como fator determinante na instituição do lugar:
“É a água, e não as montanhas e terras secas, que faz das Alagoas uma realidade geográfica
distinta do resto da capitania de Duarte Coelho. A hidrografia alagoana criou a autonomia
geográfica das Alagoas antes que um ato real estabelecesse a autonomia política” (LINDOSO,
2000, pp. 45-46).
Segundo Cavalcanti (2012), a constituição dos primeiros povoados em solo da futura
Alagoas data do século XVI, e estariam relacionados ao resguardo de passagens de vários rios
importantes, ao norte, e à defesa do território, ao sul. Esses povoados atuaram como indutores
das ocupações da futura província das Alagoas. Posteriormente, já no século XVII, o
povoamento seria consolidado abarcando, agora, as imediações das lagoas Mundaú e
Manguaba. A autora acredita que a ocupação portuguesa na região tenha se dado, inclusive,
devido tanto a “abundância do solo encharcado do tipo massapé” (p.43) quanto pelo
“potencial de navegação das lagoas, associado à existência de portos naturais na faixa
costeira, configurando um território facilmente acessível por meio de rotas lacustres e
terrestres, de modo a facilitar o escoamento da produção” (p. 43).
Aqui Jaraguá começa a se destacar, sendo, dentre os ancoradouros, o mais importante:
“entre os ancoradouros, o mais importante viria a se firmar na enseada de Jaraguá, em terras
da futura cidade de Maceió” (CAVALCANTI, 2012, p. 43). Assim, a expansão do território
em torno da região lagunar, somado ao movimento em busca de Jaraguá, possibilitaram o
surgimento de Maceió, ensaiados nesse período.
Os primeiros registros de ocupação no território atestam a existência de uma escritura

33
de 1611, que declaram a existência de uma casa de telhas em Ioçara (parte do atual bairro da
Pajuçara), enseada vizinha a de Jaraguá, de propriedade do português Manuel Antônio Duro,
que em 1609 recebera a doação de uma sesmaria (COSTA, 1981; CAVALCANTI, 2012).
Contudo, segundo Pereira (2015), índios Caetés já ocupavam a região, utilizando a enseada de
Jaraguá como porto. Barros (2009) afirma que existem evidências que indicam a presença de
grupos indígenas ao longo de toda a costa do estado de Alagoas, que desde a época colonial
“se valiam das boas condições do ancoradouro de Jaraguá para o desenvolvimento de suas
práticas. Entre elas, a da pesca. (p. 6).” Para Pereira (2015), o estabelecimento da residência
do colonizador português e o registro desse feito como a primeira ocupação no território
revelam um processo histórico que, desde a época colonial, possibilita a substituição da
comunidade local por “setores da elite colonizadora” (p. 34), que apropria-se do espaço para
finalidades econômicas.
Existem, pelo menos, duas versões sobre o surgimento de Maceió: uma delas associa o
início e crescimento da cidade à existência de um engenho de açúcar, localizado no centro da
cidade; outra, aponta Jaraguá como ponto central no desenvolvimento da capital alagoana,
incluindo aí, a presença de pescadores neste processo, tanto na composição da população
quanto como parte constituinte da classe trabalhadora (PEREIRA, 2015; BARROS, 2009).
Segundo Barros (2009), o historiador Moacir Medeiros de Sant'Ana contesta a versão
sobre o engenho, afirmando que o surgimento de Maceió teria acontecido a partir de uma
pequena aldeia de pescadores, em Jaraguá, e que em suas pesquisas teria encontrado um
documento que provava que, por estar localizado em uma área indevida para o cultivo de
cana-de-açúcar, o engenho Massayó teria moído apenas duas vezes, o que demonstraria que
sua participação não foi decisiva para o crescimento da cidade. Coadunando com essa
afirmação, a museóloga Cármen Lúcia Dantas, em entrevista para o portal de notícias online
Gazetaweb sobre o bairro de Jaraguá3, afirma que “Não se sabe quando isso aconteceu, mas o
historiador Moacir Sant’Ana encontrou documento de 1724 que já fala em um pequeno
comércio que existia nessa área de pescadores.”
O que percebemos em relação a essas versões, é que, na verdade, elas falam a partir de
pontos de vistas diferentes. Acontece que se falamos sobre o surgimento de Maceió enquanto
'cidade', temos que levar em consideração o que se entende por cidade, seu conceito; nesse
sentido, não é incorreto falar que Maceió surgiu no Centro, graças, em parte, à edificação do
engenho, visto que é a partir daí que surge o núcleo embrionário da cidade, com a praça
Matéria do site de notícias Gazetaweb em 26 de maio de 2013, intitulada “Jaraguá: do apogeu à decadência”
Disponível em: http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=223660
3

34
cívica, os poderes, dando forma ao que seria um núcleo urbano. O fato é que economicamente
esse núcleo não se sustentaria sozinho.
Assim, Cavalcanti (2012) defende que o povoado começa a surgir no século XVII
graças, em parte, à edificação do engenho, mas fundamentalmente “à consolidação da rota
para transporte de mercadorias em direção à enseada de Jaraguá.” (p. 45). Existiam, ainda,
outras rotas além da principal, que se destinavam ao transporte de pessoas e coisas variadas,
que seguiam em direção às saídas ao sudeste e ao norte de Maceió, o que possibilitou o
surgimento de diversos povoados. Esses novos núcleos, somados aos de Jaraguá e do Centro,
constituirão a futura cidade. Assim, pode-se dizer que o povoamento de Maceió fincou suas
raízes não a partir da tradição colonizadora dos senhores de engenhos, mas a partir da
destinação comercial da cidade (CAVALCANTI, 2012).
Mas se pensamos no surgimento de Maceió a partir de sua ocupação territorial,
entendemos que Jaraguá foi, sim, um dos principais núcleos de povoamento do território,
formado por um povoado de pescadores, que participou de forma bastante ativa e relevante no
crescimento da futura ‘cidade’, antecedendo até mesmo o núcleo central, formado pelo
engenho. Assim, temos, de um lado, a importância de Jaraguá como porto, que garantiu a
sustentação econômica do território, e, de outro, a importância como um dos núcleos de
povoamento mais antigos no sítio da atual cidade de Maceió, a partir de sua enseada natural, o
que demonstra sua inegável importância pra cidade. E aqui, cabe um adendo: é importante
lembrarmos que antes mesmo dos colonizadores portugueses invadirem4 o Brasil, essa terra já
era habitada.
Embora não existam registros oficiais, seguiremos a partir da versão que coloca
Jaraguá no centro dessa história, já que é essa história que queremos contar: uma narrativa
que conta das águas e dos pescadores, não dos engenhos e seus senhores. Essas histórias
“oficiais” já são largamente contadas (mesmo que também sem registros oficiais que as
comprovem) e são, desde sempre, em sua maioria bastante excludentes. Poderíamos nos
perguntar “por que, não havendo registros oficiais de nenhuma das versões, a mais contada é a
do engenho Massayó?”. Ambas são baseadas em histórias orais, mas pode-se dizer que
aparentemente é mais interessante contar as histórias que trazem os senhores como
protagonistas, o que não seguiremos fazendo. Na verdade, é importante problematizarmos
sobre a importância que é dada aos registros chamados “oficiais” em detrimento das falas dos
sujeitos, das histórias contadas e, principalmente, das histórias contadas e/ou protagonizadas
4

Utilizamos a noção de 'invasão' porque entendemos que a chegada dos portugueses e sua permanência no
território não se deu de forma pacífica, havendo grande conflito com a população que já se encontrava no local.

35
pelos vencidos.
Independentemente da versão que se tome como verdadeira sobre o surgimento de
Maceió, o que podemos observar é que os pescadores estiveram desde muito tempo em
Jaraguá e foram parte importante no processo de povoamento e desenvolvimento do bairro e,
consequentemente, da cidade. Segundo Pereira (2015), “a pesca era atividade mais antiga do
bairro, na verdade, o que deu origem ao lugar” (p. 39). Craveiro Costa (1981), se referindo ao
início do povoamento de Jaraguá, nos diz que “da margem esquerda do riacho afora, além do
alagadiço, diante do mar, uma ou outra habitação rústica de pescadores e gente de labores
marítimos. O bairro de Jaraguá começa a surgir.” (CRAVEIRO COSTA, 1981). O riacho
citado chama Salgadinho, que fica cerca de 1 km do local onde a Vila se localizava até mais
recentemente, antes de sua remoção e demolição. Assim, é notório que a história dos
pescadores de Jaraguá se encontra e se confunde com a própria história da cidade, tendo em
vista sua importância na formação e configuração social da capital (antes mesmo de ser
capital), a partir do bairro de Jaraguá.
Tendo em vista que, como nos diz Walter Benjamin (1987), habitar é deixar rastros,
entendemos que conhecer a história do lugar nos aproxima das pessoas que ali viveram e de
suas histórias, de seus rastros. E agora que contamos um pouco da história do lugar-bairro,
contaremos, também, um pouco da história do lugar-comunidade, contando, assim, um pouco
das pessoas de que o lugar nos fala, tendo em vista que, como nos diz Cavalcanti (2012),
conhecer o lugar possibilita que conheçamos também os sujeitos que o habitam ao mesmo
tempo em que conhecer os sujeitos nos conduz a uma compreensão do lugar e de suas
relações com ele.
A análise do lugar permite ver os traços do homem, que condiciona o espaço e é
condicionado por ele, no ato de fazê-lo. É preciso, então, entender o homem de que
o lugar nos diz. Contar a história de um lugar significa investigar o humano que o
constituiu, compreender suas motivações. (CAVALCANTI, 2012, p. 8)

Assim, contaremos um pouco das histórias das mulheres que, construindo e
vivenciando o lugar, narrarão sobre ele, sobre o lugar que ao habitar, transformaram em
comunidade, em uma Vila de pescadores. Essas mulheres narrarão uma história diferente da
que vem sendo contada e tomada como oficial (falsamente universal), já que contada pela
Prefeitura e por boa parte dos veículos de comunicação, pelos vencedores, enfim. Entendemos
que as pessoas que melhor podem falar sobre o que aconteceu, sobre o cotidiano da
comunidade, sobre a luta pela permanência e sobre as consequências da remoção em suas
vidas, são os próprios moradores, que vivenciaram e vivenciam os acontecimentos

36
diariamente. Assim, a história que contaremos é uma história dos vencidos e contada também
por/com eles.
Para tanto, contaremos um pouco sobre a chegada dos pescadores em Jaraguá e sobre
alguns movimentos que resultaram na ocupação do território e na formação da comunidade.

3.2 Os pescadores em Jaraguá
A aldeia de que falava Sant'Ana e as habitações de que fala Craveiro Costa não se
localizavam exatamente onde encontramos a comunidade de pescadores até mais
recentemente, antes de sua remoção e demolição - mesmo porque aquela área só passou a
existir por volta de 1940, a partir do assoreamento proveniente da construção do cais do Porto
de Maceió; antes, a área não existia como solo seco e a maré adentrava até onde se encontra a
Praça Dezoito de Copacabana (Figuras 1 e 2). Por volta da década de 1940, os pescadores se
encontravam nas proximidades da Associação Comercial, que se localiza também em Jaraguá,
cerca de quinhentos metros (500m) do Porto.
Figuras 1 e 2 – Vista da Praça Dezoito de Copacabana

(Fonte:
https://culturaeviagem.wordpress.com/2013/03/02/situacoes-inusitadas-ii-a-estatua-daliberdade-de-maceio/)

37

(Fonte:
https://culturaeviagem.wordpress.com/2013/03/02/situacoes-inusitadas-ii-a-estatua-daliberdade-de-maceio/)

Acontece que desde o surgimento de Jaraguá até 2015, os pescadores ocuparam
diferentes espaços pelo bairro, se reorganizando e reconfigurando, numa dinâmica marcada
pelo “vai e vem das migrações, ora espontâneas, ora forçadas” (PEREIRA, 2015, p. 34). Com
o crescimento da cidade e a valorização econômica de Jaraguá, os pescadores, que outrora
foram essenciais para o desenvolvimento socioeconômico da capital, passam a ser relegados e
a ter seu território espremido e empurrado em detrimento das novas edificações. Até que por
volta dos anos 1970, se estabelece, enfim, a ocupação mais recente - localizada ao lado do
Porto de Maceió até sua remoção - que no futuro, passa a ser conhecida como Comunidade de
Pescadores de Jaraguá, ou Vila dos Pescadores de Jaraguá. É importante marcar a diferença
quando falamos em pescadores em Jaraguá e pescadores de Jaraguá, e mais ainda, quando
falamos em comunidade de pescadores de Jaraguá.
Trazemos essas diferenciações para falar de algo que não trata simplesmente de
formas diferentes de falar da mesma coisa, mas sim de momentos distintos, que dizem
respeito, primeiro, a uma ocupação e sua localização em um bairro (Jaraguá), e
posteriormente, a uma comunidade, apontando para uma questão identitária quando fala em
comunidade de pescadores (não comunidade de outra coisa) e de Jaraguá (não de qualquer
outro lugar). Falar 'Comunidade de Pescadores de Jaraguá' ou 'Vila dos Pescadores de
Jaraguá' nos aponta para uma relação de identificação e pertencimento com o trabalho (de
pescadores) e com o lugar (de Jaraguá), e para uma delimitação territorial que se estabelece a
partir dessa identificação e do afeto pelo e com o lugar, e não apenas por uma questão
geográfica.
A noção de comunidade sofreu várias transformações ao longo dos anos, sendo
influenciada sobremaneira pelos contextos históricos e políticos que a atravessavam. Segundo

38
Scarparo e Guareschi (2007) o termo comunidade é polissêmico e tem fornecido amplas e
diversificadas possibilidades de problematização para diferentes campos de saber. No campo
da Psicologia, o conceito de comunidade passou a figurar como referencial analítico apenas
nos anos 70, com o surgimento da Psicologia Social Comunitária, o que constituiu um aspecto
epistemológico importante, uma vez que representou a opção por uma teoria crítica que
interpreta o mundo com a intenção de transformá-lo. (SAWAIA, 2008).
Nessa relação com a psicologia, comunidade vem sendo delineada por uma
“hipervalorização romântica do passado que reforça uma identificação única e homogênea”
(PRADO, 2008, p. 210), trazendo a noção de comunidade sempre a partir dos “limites da
dimensão individual e da vontade geral, da liberdade pessoal e da igualdade social” (id.). Para
Prado (2008), a utopia que permeou o ideário de comunidade na psicologia deve transformarse numa utopia menos totalitária e abstrata, buscando seu conteúdo nas mudanças éticoafetivas, apontando para formas de relação que rompam com a dicotomia entre indivíduo e
coletividade.
Para Scarparo e Guareschi (2007), restringir a questão das relações comunitárias em
dicotomias antagônicas que polarizam conceitos (como por exemplo individualismo e
coletividade), possibilita o fortalecimento das lógicas de naturalização que adotam e impõem
modelos fechados, impedindo o surgimento dos processos de criação humana. Segundo as
autoras,

essas

dicotomias

“traduzem

universos

fechados,

sem

possibilidades

de

problematizações e, consequentemente sem produção de pensamentos e modos de existência.”
(p. 103) Concordamos com as autoras, quando dizem que o conceito de comunidade precisa
ser pensado a partir dos contextos em que está inserido, tendo em vista os sentidos que produz
e, consequentemente, as práticas que abriga. Para elas, poder-se-ia falar na comunidade como
um não-lugar, uma utopia, mas também como modo de falar de um lugar no qual pessoas
convivem e contam com a alteridade. Nesse sentido, trazemos a noção de comunidade
considerando o contexto da Vila dos Pescadores, um contexto que fala de uma convivência a
partir de um território, que fala de uma prática em comum relacionada a pesca, e, mais tarde,
sobre uma luta em comum pelo território.
Assim, cientes dos apontamentos e críticas a respeito da noção de comunidade e de
seus usos, seguiremos utilizando o termo não para definir ou delimitar uma identidade
homogênea, centralizada ou totalizante, mas para fazer eco com a definição que uma de
nossas narradoras trás de ‘sua’ comunidade, uma definição que não pretende ser universal,
mas que fala a partir de um lugar e de uma experiência; do lugar e da experiência de Enaura:
“Viver em comunidade é totalmente diferente de quando você mora num bairro, que você

39
conhece seu vizinho, mas muito mal você encontra com ele. Em comunidade você vê todo dia,
você conversa todo dia, você conhece os pequenos, os mais velhos, a gente tem uma liberdade
de mandar pra casa quando via na rua sozinho ou fazendo alguma coisa errada... E sempre
foi assim, uma grande família. Sempre foi assim.”
Para Enaura, viver em comunidade é compartilhar um cotidiano em comum, é ter
proximidade com as pessoas que habitam o mesmo lugar e que formam uma grande família.
Essa compreensão dá conta da comunidade Vila dos Pescadores de Jaraguá e do modo como
uma moradora enxergava o lugar que vivia e as relações que ali aconteciam. Não é uma
compreensão que se pretende normativa, ou que pretende se ‘aplicar’ a todas as comunidades.
É uma compreensão que não era unânime, que encontrava conflitos que demonstravam
justamente a heterogeneidade da comunidade. Mas que ainda assim, fala de algo que essas
pessoas dividiam em comum. Desse modo, a identidade pesqueira e territorial da qual
falávamos há pouco não se refere a uma identidade homogênea, centralizada ou totalizante,
mas, como nos diz Prado (2008), se apoia numa ideia de sujeito plural e construtor da
diversidade da identidade pessoal.

3.3 A comunidade Vila dos Pescadores de Jaraguá
A partir dos anos 1970, ocupando uma nova porção do território-Jaraguá (Figura 3), a
comunidade se estabelece e se desenvolve.
Figura 3 – Localização da comunidade (círculo verde indicado por seta) em Jaraguá
(delimitado em vermelho)

(Fonte: Google Mapas, 2017. Editado pela autora)

40

Segundo relatos de moradores5, a comunidade começa a aumentar à medida que se
intensifica o fluxo migratório dos trabalhadores rurais e da pesca de outras cidades para a
região, que não tendo condições financeiras de se manterem em outras localidades, foram
acolhidos na comunidade. Há relatos de famílias que já trabalhavam com a pesca quando
chegaram à comunidade, e ali continuaram a exercer o ofício (CAVALCANTE, 2016), como
é o caso de Francinete e Neide e de suas famílias: “[Minha história] Começa há uns aninhos
atrás quando eu vim pra cá, né. Na verdade, eu não sou alagoana, sou natural do Rio Grande
do Norte, mas adotei Alagoas como minha terra natal. Eu amo Alagoas, né. Onze anos de
idade eu vim pra cá. Meu tio tinha barco de pesca, irmão da minha mãe. Aí, ele convidou o
meu pai para vir pescar com ele, meu pai veio, gostou, aí, com o tempo, ele foi buscar a
família e trouxe a família toda. Foi quando a gente veio pra cá, a nossa infância... A gente só
não nasceu, se criou aqui, né. Aí, todo mundo veio. Crescemos, casamos, construímos
família. Nós, irmãs, todas nós somos do Rio Grande do Norte, potiguar, mas a nossa família,
nossos filhos, é tudo alagoano. Mariana é alagoana, filhos alagoanos. (Francinete).”
“Cheguei lá na Vila com cinco anos de idade. Nós somos do interior do Rio Grande do Norte.
O meu pai... Por ser pescador, meu tio veio primeiro, né? Ele saiu lá do Rio Grande do
Norte, a gente veio. Só que a gente veio não pr’aqui pra Maceió, [veio] pra praia chamada
Pontal do Peba, que é também uma beira de praia, né? [...] Mas, a gente morava lá. Com
cinco anos de idade me mudei pra cá. Aí, a gente começou a morar aqui, eu comecei a me
desenvolver, né? Casei, tenho dois filhos, né, a Maria Eduarda e o José Vinicius, uma de
nove anos e um de treze anos agora.” (Neide)
Além da questão das migrações, outro fator que colaborou para o crescimento da
comunidade foi o crescimento das famílias que ali residiam, como também podemos perceber
nas narrativas supracitadas e na fala de mais uma de nossas narradoras, Maria Enaura, que nos
diz: “a comunidade tinha poucas famílias, com o tempo ela foi crescendo porque eles
casavam entre si, então foi assim que a comunidade cresceu, né?”. Assim, os moradores se
relacionavam, tinham filhos, os filhos cresciam e tenham outros filhos, a família crescia e
formava outros núcleos familiares, o que levava à construção de novas moradias e novos
barcos para que os filhos, já adultos, morassem na comunidade e trabalhassem com a pesca,
que era passada de pais para filhos.
5

Relatos dos moradores da Comunidade de Pescadores do Jaraguá, presentes no material elaborado pela
AMAJAR para solicitação de inscrição da comunidade no livro de Registro, Ofícios e Modos de Fazer dos
Ofícios de Pesca Tradicional, via procedimento administrativo no Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (IPHAN), sob nº 01403.000171/2010-49.

41
Muitos moradores nasceram na comunidade e, permanecendo no lugar, fincaram suas
raízes e seus afetos, numa relação de pertencimento com o território que eu não conseguiria
traduzir, me limitando, assim, a apresentar dona Lena e sua fala sobre seu ‘lugar de vida’:
“Vou começar dizendo que eu sou filha da terra. Nasci e me criei em Jaraguá. Toda a minha
vida eu vivi ali, né? Trabalhei fora algum tempo, já bem adulta. Mas assim, a minha vida foi
a Vila, né? Se eu posso assim dizer. Foi a Vila. Porque eu cresci... Eu nasci, cresci, casei, tive
filhos, criei os meus filhos, né? E assim, pra mim, falar da Vila, eu sou até suspeita, vamos
dizer assim, né? Porque assim, o meu carinho por aquele lugar é grande demais. Por ser o
meu natural e assim, por tudo que a gente vai vivendo, né, vai vivenciando, vai gostando, né,
e assim, vai acrescentando na vida da gente, no dia a dia e assim, pra mim, a Vila é tudo. É a
minha vida. E assim, se eu pudesse estaria lá ainda, né?”
Enaura é também uma dessas pessoas que nasceram na comunidade: Eu sou Maria
Enaura, morei toda a minha vida na comunidade, né, até os 45 anos... E falando da minha
história de vida, assim, eu, quando eu cheguei na comunidade a minha mãe tava grávida de
mim, quando ela foi pra lá, dois meses depois eu nasci. Ela chegou em 69 e a minha vida toda
foi na comunidade, toda a infância... Com orgulho do seu lugar de nascimento, Enaura com
frequência mostra sua certidão de nascimento, onde consta que nasceu na praça em frente à
comunidade. Ela explica que como a Vila não era reconhecida oficialmente, como um
endereço nos registros, não seria possível colocar o local de nascimento exato, então a
alternativa foi colocar a Praça Dezoito de Copacabana, já que era o lugar oficialmente
reconhecido que ficava mais próximo. Enaura mostra a certidão também para afirmar a
relação que tem com Jaraguá e com a comunidade e mostrar que essa história é antiga,
explicitando a relação de pertencimento com o lugar.
E mesmo quem não nasceu no lugar, narra esse afeto, construído no dia a dia da
infância, como Francinete, que nos diz: “É, a minha infância, minha filha, eu amei a minha
infância ali em Jaraguá. Até hoje quando as meninas falam “Mora onde?”, eu digo “Eu
moro no Trapiche, mas a minha terrinha natal é Jaraguá. Porque eu amava, amava não,
amo, sou apaixonada por Jaraguá, principalmente ali na Vila, onde eu morava.”
A comunidade era habitada principalmente por trabalhadores e trabalhadoras da pesca
artesanal, cada qual desenvolvendo suas funções (pescadores, marisqueiras, vendedores de
pescado, construtores de barcos, tecedores de redes etc.), atuando de forma tradicional,
vivendo quase que exclusivamente das atividades pesqueiras. Os moradores viviam “em
dependência direta do vento, das marés e do que o mar pode oferecer de recursos para sua
sobrevivência em cada dia, o lugar que essa comunidade vive é uma extensão do mar, o canto

42
de recolhida para descanso e de recomeço diário.” (Dossiê da Vila de Pescadores do Jaraguá,
2011, encaminhado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN6).
Podemos entender que se tratava de uma comunidade tradicional, tendo em vista o
conceito jurídico apresentado no Decreto 6040/2007 (que institui a Política Nacional de
Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais), que estabelece
comunidades tradicionais como
grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem
formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos
naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e
econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos
pela tradição. (BRASIL, 2007)

Assim, se tratava de uma comunidade tradicional que tinha na pesca e nas atividades
dela decorrentes a sua fonte de subsistência. O ofício da pesca, como conhecimento
tradicional, era passado para as gerações mais novas desde cedo, de forma espontânea, através
do próprio cotidiano da comunidade e do convívio das crianças e adolescentes com os
familiares trabalhadores da pesca, que se desenrolava num ambiente que proporcionava o
contato com a atividade de forma muitas vezes lúdica, divertida. “A minha infância foi toda
ali, a gente brincava, trabalhava com camarão, com pesca, era disso que a gente sobrevivia.
Ia pro colégio, quando chegava, sempre ali na praia. O mundo da gente era ali. Pra você ter
uma ideia, a gente só veio descobrir, assim, negócio de Centro, outros bairros, a gente já
tava mocinha, quando começou as paqueras, né, que saía, que fugia dos pais, sem os pais
saber. Mas enquanto isso, minha filha, enquanto criança era lá, tomando banho de praia,
pulando daqueles barcos, aquele cais não era... aquele muro era todo aberto, a gente tinha
acesso a ele, a gente ia até pro outro lado, tinha uma ponte lá, a gente escalava tomando
banho, né, Marina? [Marina é outra das 5 irmãs, que também morava na comunidade]
Tomando banho, pulando de lá, era gostoso demais. A nossa infância foi assim, de
brincadeiras, muitas brincadeiras. Quantas vezes, meu Deus, eu não apanhava mais as
minhas irmãs, porque pegava a varinha de pesca do meu irmão, do meu primo e ia pescar
escondida. Era, meu irmão, a gente ia pescar escondido lá nos barcos. A gente pegava a
linha e ia pescar, aí a gente, como a gente não sabia jogar a linha ainda, aí linhava e ficava
aquele nó! Aí, meu irmão com raiva, vinha dizer à minha mãe e minha mãe ia e batia na
gente por causa dessa bendita linha. Mas a gente, eu mesma, já pesquei… A única pescaria
que eu ainda não fiz lá em Jaraguá foi de arrastão [rede de malha pequena], mas já pesquei
sardinha, já pesquei de carceia, tudo lá, agulhinha, tudo lá em Jaraguá.” (Francinete)
6

Procedimento administrativo nº 01403.000171/2010-49 do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

43
Mesmo quando as brincadeiras não se relacionavam diretamente com a pesca, o
ambiente ocupado pelas crianças para outras brincadeiras era o da Vila, o que lhes
proporcionava uma vivência do/no contexto da pesca e o desenvolvimento de uma relação de
afeto com o lugar: “Quando criança, o meu lazer era pular corda, jogar, pular amarelinha,
que não era nem amarelinha, nesse tempo a gente chamava avião, pular avião, pular corda.
Os meninos era jogar ximbra, que pra os outros é bolinha de gude, né? E assim, a vida era
essa. […] Mas assim, eu lembro da Vila, das coisas que tinha... Dos depósitos que tinha, da
fábrica de gelo que tinha. Que quando meu pai chegou, o meu pai tinha 11 anos, ela tava em
construção a fábrica de gelo, a Cibrazem, ela tava em construção. Dos barcos de pesca, dos
pescadores, dos moradores antigos, que pescavam de jangada e pau roliço, que era uma
jangada que colocava uns rolos pra ela descer pro mar, uma jangada meio que quadradinha.
Era uns tanques que tinturavam as redes de pesca, né, colocavam lá uma tintura e botava a
rede e depois colocava pra secar no varal. Das pessoas que secavam peixe, tratavam,
lavavam dentro de uma rede com um balaio, uma coisa, e colocava pra secar. E assim, a
infância da gente foi, vamos dizer assim, foi aquilo ali, né? Não tinha muita coisa pra gente
fazer, vamos dizer assim. Era voltado pr’aquilo ali, pra Vila. Voltado pra Vila. Tudo que a
gente pensasse em fazer não é aqui, é ali mesmo. E aí o amor vai se multiplicando, né, pela
Vila. Vai se multiplicando e aí vai crescendo e chega a 10, 12 anos, chega adolescência, e aí
vai chegando a fase adulta... E a outra parte da história vocês puderam acompanhar, que aí
já foi a parte do mais triste. Teve a parte alegre, de quando a gente conheceu vocês; teve a
parte triste, que foi a da retirada, da nossa luta... Mas fui feliz quando vivi na Vila.” (Dona
Lena)
Os dados levantados pelo Laboratório da Cidade e do Contemporâneo, em 2006, a
respeito da Vila dos Pescadores de Jaraguá, confirmam a representatividade da transmissão da
tradicionalidade pela convivência cotidiana comunitária: 37,17% das pessoas aprenderam o
ofício com parentes, 26,86% com a convivência com os demais residentes e 10,07% com a
simples observação. Segundo Cavalcante (2016),
O ofício da pesca é passado para os meninos muito cedo. Ainda crianças dividem o
tempo de estudo com a pesca. Outros aprenderam o ofício e repassaram o “saber
fazer” para as gerações de descendentes que permaneceram na Vila. Os pais
levavam os filhos para pescar, as mães ensinavam às meninas a tratar o peixe e todo
esse aprendizado tem sido passado entre as gerações de forma espontânea, sem que a
criança se sinta obrigada a trabalhar. Inclusive, há crianças que aprendem o ofício
com a mera observação dos adultos, sem que lhes ensinem. De acordo com tais
descrições, constatou-se que a passagem do conhecimento tradicional era efetuada
no cotidiano da comunidade, das gerações mais antigas para as mais novas, o que só
reforça a necessidade do ambiente de trabalho se aliar ao doméstico.
(CAVALCANTE, 2016, p. 38)

44
Essa convivência cotidiana comunitária foi lembrada e contada em mais detalhes pelas
narradoras, que falaram do dia a dia na comunidade, desde a infância, contando um pouco da
história da comunidade, de suas próprias histórias e lembranças e da relação com o lugar e
com a rotina da pesca: […] meu pai era dono de barco e a gente, eu com 6, 7 anos, a gente
tratava peixe, aquele peixinho pequeno pra secar, eu, minha mãe, minhas irmãs... Então a
vida da gente foi assim, sempre trabalhando com pescado até eu casar. Então assim, é uma
vida calma [...] E a gente tem lembranças da praia, que era bastante limpa, do pescado que
era muito... Meu pai chegava com muito peixe de dentro do mar, ele pescava de carceia.
Quando na época do camarão, ele pescava camarão também, era bastante, camarão era
muito, muito mesmo. O barco de arrastão chegava com muito peixinho pequeno, que era o de
secar. Então assim, as lembranças que a gente tem é essa, de uma mudança de muito pescado
e com o tempo veio a escassez e hoje tá bastante difícil. Mas assim, passei minha vida toda na
comunidade, com 7 anos fui pra escola, estudava ali perto, no colégio Ladislau Neto, e a
gente estudava pela manhã e à tarde chegava produção, os peixes, a gente tratava junto com
minha mãe, e era uma comunidade calma... Eu acho que era uma época que os filhos
respeitavam os pais e os pais tinham controle sobre os filhos, que trabalhavam junto com os
pais... […] Então assim, era uma época boa, a gente estudava de manhã, à tarde chegava
produção, a gente tratava até horas da noite, e no outro dia, de manhã, lavava, botava pra
secar e ia pra escola. Era um tempo bom, né, a gente se divertia, a gente trabalhava se
divertindo, era uma época boa. E várias lembranças a gente tem dessa questão da vida da
gente que era só naquele espaço... [...] Assim, logo no começo, quando eu era pequena, a
rotina da gente era: acorda de manhã, vai lavar os peixes, botar pra secar e depois, logo...
Assim, na década de 70, onde a comunidade nem tinha nem água nem energia, a gente 4h da
manhã, minha mãe dizia: “Vamo pegar água”. A gente pegava água dum prédio que era a
delegacia do segundo distrito, que é o prédio que hoje é o MISA [Museu da Imagem e do Som
de Alagoas]. Então ali era uma delegacia, delegacia de segundo distrito, e a gente pegava
água lá. Então toda a comunidade tirava água de lá. Então a gente vinha, e a minha mãe:
“4h da manhã”, por conta de que... por conta de carro, que já tinha uma movimentação de
carro. Tinha uma pista de barro, aquela pista, a Cícero Toledo, era uma pista de barro e a
gente ia pegar água. Então a gente acordava 4h da manhã, pegava água, enchia tudo, aí
depois tirava o peixe do sal, colocava no balaio, levava pra praia, lavava – a praia era
limpinha, a gente entrava com água na cintura – botava no balaio, balançava, lavava todo o
peixe, botava no varal, nas esteiras, estendia, e aí tomava café e ia pra escola. Largava entre
11h30 e 12h, aí a gente ia pra casa e aí a mãe dizia: “tem que virar o peixe”, aí a gente

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tirava a roupa, vestia outra roupa e ia pra praia, virava todo o peixe junto com ela e quando
terminava... ou as vezes eu e minha irmã... e quando terminava a gente vinha pra casa. 3h da
tarde a gente ia apanhar os peixes pra trazer pra casa, e essa hora era a hora que já tava
chegando outros peixes. A gente trabalhava bastante, mas a gente gostava do que fazia e
outra coisa... Quando era no dia de sábado minha mãe ia pro mercado, aí comprava meia
arroba de batata, meia arroba de inhame, no caso, 7kg e meio, né? Que a arroba é 15kg. Aí
minha mãe comprava meia arroba de batata, meia arroba de inhame, meia arroba de
macaxeira. Comprava na CEASA [central de abastecimento]. E aí, assim, não faltava nada
pra gente. A gente comia bastante peixe, mas era com batata... A gente quase não comia pão.
E se alimentava bem, né? E aí meu pai gosta muito de peixe, só come peixe, mas comprava
carne, comprava galinha, comprava charque... E aí a gente vivia bem. Trabalhava, mas a
gente vivia bem. E isso era todos da comunidade. Então a gente vivia numa comunidade de
pescadores, mas que ninguém passava fome porque quem não queria os peixes, vendia pra
comprar carne... Então assim, a gente trabalhava, mas também comia, ninguém passava
fome, né? Então assim, essa era a rotina. E aí até meu pai vender o barco. E aí a gente já
mudou a rotina. E em 2008 começa a associação. Além disso, muitas pessoas... a vida das
meninas e das mulheres era fazer filé de camarão de outras pessoas, que tinham na
comunidade. Os donos de barco ou daquela pessoa que pegava toda a produção pra vender,
e ele mandava as mulheres fazer o filé. (Enaura)
Interessante notar que do outro lado da pista tinha água, mas na comunidade, não.
Muitas vezes, quando não era possível pegar água na delegacia, os moradores tinham de
quebrar canos na pista, que pouco depois eram consertados pela municipalidade. Ou seja, a
Prefeitura sabia do problema de falta de água na comunidade, mas não fazia nada. O que
demostra sua omissão, seu abandono àquela coletividade desde sempre. O Estado ia até a
comunidade para empurrá-la para o canto, espremê-la, para fechar os canos quebrados na
pista, mas não para agir em benefício daquelas pessoas, porque são vidas que podem ser
desinvestidas.
Apesar das dificuldades, a comunidade seguia. As atividades relacionadas à pesca
faziam parte do cotidiano das crianças, que estudavam, brincavam, se divertiam trabalhando e
trabalhavam se divertindo. Mães e filhas tratavam o pescado juntas, o que possibilitava que as
crianças ficassem sob os cuidados das mulheres da comunidade e aprendessem o ofício. E
assim os moradores seguiam construindo e vivenciando o cotidiano de uma comunidade de
pescadores. A minha vida lá sempre foi de trabalho, desde os meus sete anos de idade que eu
trabalho, né? Eu quando tinha sete anos, eu tratava peixe, tirava camarão dos outros... Com

46
meus treze/quatorze anos comecei a secar peixe com a minha mãe, né, que minha mãe secava
peixe, então a gente ajudava ela. Com meus quinze anos, fui enfrentar feira, né, pra aprender
a negociar, a vender pescado na feira. E sempre, sempre trabalhando, né. Quer dizer, a gente
ali em Jaraguá, além de Jaraguá ser próximo ao porto, que é o coração de Maceió, construiu
uma comunidade. (Neide)
“Lá, a gente via a hora que o barco saía, a hora que o barco chegava. Mesmo a gente
em casa deitada dormindo, a gente acordava com o vizinho “Oh, fulano” gritando “olha a
hora da maré, vamo pra maré!”, e a gente tava acostumado já... “Vamo pescar! olha a
hora!”, eles riam. Aqueles navios de turista chegavam, a gente ia pra lá olhar, passear de
barco, ficar na beira da praia, tomar banho lá na ponte. [...] Tomava banho à vontade.”
(Francinete) Era um cotidiano onde o mar e a pesca estavam sempre presentes, desde a hora
que os pescadores acordavam até a hora que iam dormir.
“[…] Eu nasci num lugar rico em tudo, né? Rico em tudo. Porque tudo que você
procurasse, lá você encontraria. Aí, assim, a gente tinha que levantar cedo, que a Vila, como
meu pai dizia, né, (é que ele já está em memória) ele dizia assim, que a Vila acordava cedo,
porque os pescadores acordam cedo. E eu quando criança ainda, já me adaptei a esse clima,
né, até hoje acordo cedo. Misericórdia, acho que a única no prédio 7 hoje que acorda cedo
sou eu mesmo. É assim, a gente acordava muito cedo e tinha que carregar água porque lá
não tinha, e tinha que limpar a frente da casa, tinha que ir com a minha mãe secar os peixes.
Você já foi lá, um pouquinho mais na frente. Mas quando não tinha, a gente tinha que
carregar água, tinha que tirar os camarões, tratar peixinho... Os costumes que a gente tinha,
que era diferente do povo lá de fora, né, da vida lá fora... Que é do saber fazer, como o
pessoal sempre colocou pra gente. Era do cuidado de tratar o peixe, de colocar pra secar as
pessoas que colocavam, do cuidar da comida, aquela preocupação de ir tratar o peixinho, de
ir tirar o camarão, né, de ganhar o seu dinheirinho. As comidas que a gente inventava, né? O
lazer da gente...” (Dona Lena)
Dona Lena fala em um “povo lá de fora”, de uma “vida lá fora”, indicando que
existiam, entre a comunidade e o restante da cidade, diferenças e distâncias que não falam
simplesmente de aspectos geográficos, mas acima de tudo, de aspectos sociais e culturais, que
se expressavam nos costumes, nas comidas e no lazer que os diferenciavam de um outro que
estava fora da comunidade e que, estando fora, vivia de modos distintos.
Boa parte dos moradores da Vila não circulava muito pela cidade, apenas por alguns
7

Referindo-se ao prédio para onde foi transferia após a remoção da Vila.

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bairros dos arredores, e construíam suas rotinas ali, naquele território, que era cenário de seus
afetos uns com os outros. “A gente só saia dali pra ir pro mercado, pra ir no centro e sempre
tava voltando pr’ali, então ninguém mexia com a gente, a gente conhecia todo mundo, dos
pequenos aos mais velhos. Era sempre... Sempre foi assim, né? De estar perto, de cuidar, de
cuidar dos outros... [...] E era assim, era uma época onde todo mundo se ajudava e isso foi
até agora, 2015, quando houve a remoção. Então sempre foi assim.” (Enaura)
E Enaura segue a narrativa, atribuindo essa relação de proximidade e de cuidado com
o outro a um “viver em comunidade”, que é diferente da forma como as relações ‘lá fora’
acontecem, como pontuamos anteriormente: “Viver em comunidade é totalmente diferente de
quando você mora num bairro, que você conhece seu vizinho, mas muito mal você encontra
com ele. Em comunidade você vê todo dia, você conversa todo dia, você conhece os
pequenos, os mais velhos, a gente tem uma liberdade de mandar pra casa quando via na rua
sozinho ou fazendo alguma coisa errada... E sempre foi assim, uma grande família. Sempre
foi assim.” (Enaura) Para ela, a vida em comunidade é compartilhada, construída pelo contato
diário. Tem a ver com convivência, com cuidado e zelo pelos vizinhos, que formam algo
como uma família. Viver em comunidade é compartilhar cotidianamente uma vida e um
território em comum e ter, nesse espaço, o lugar de suas relações e de seus afetos. Essa vida
partilhada num território singular é o que os diferenciava do restante da cidade.
Essas diferenças e distâncias possibilitam pelo menos dois desdobramentos. Quando
encaradas como características particulares e comuns aos moradores da Vila, como traços
identitários do lugar e das pessoas, entendemos o que possibilitou a ‘construção de uma
comunidade’, e mais, de uma ‘comunidade de pescadores’, como Neide pontuou. Mas essas
diferenças e distâncias podem construir o que Enaura chamou de “muro invisível”, que
separava a comunidade das demais pessoas ‘de fora’, que muitas vezes passavam na avenida
onde a Vila se localizava sem sequer olhar para o lado, ou, quando olhavam, era com um
olhar carregado de preconceito, fomentado por discursos que colocavam a existência da
comunidade como um empecilho ao progresso da cidade, algo como ‘uma favela que não quer
deixar de ser favela’, atrapalhando o desenvolvimento urbano.
Importante pontuar que esses desdobramentos não falam de uma comunidade que se
afastava intencionalmente da cidade, ou que se excluía de um contexto urbano maior, como se
os moradores escolhessem não se incluir ou participar da cidade. Na verdade, esse muro
invisível foi erguido não pelos pescadores, mas sim por um modelo de cidade que foi e é
construído de forma bastante excludente, delimitando de forma clara qual o lugar da pobreza.
A cidade é transformada em cidade-mercadoria, um produto de luxo pensado para consumo

48
de visitantes e usuários que por ela podem pagar (VAINER, 2002). Assim, ergue muros
(visíveis e invisíveis) para manter afastados os ‘não pagantes’. Nela, a pobreza não é bemvinda, não tem espaço. Aliás, espaço tem, mas longe do alcance dos olhos dos ricos
consumidores. E na cidade-mercadoria-Maceió, a pobreza dos pescadores e das marisqueiras
era incompatível com a área nobre em que o bairro de Jaraguá se situava e sua presença
empobrecia e barateava o bairro-produto.
Durante nossa conversa, Neide questionava, indignada: “Só o rico tem direito a ficar
na beira da praia?” Para esse modelo de cidade, a resposta é ‘sim’. Então foi decidido que o
lugar dos pescadores e das marisqueiras não era na frente do mar de Jaraguá. E como já dizia
Chico Science, “a cidade não para, a cidade só cresce. O de cima sobe e o de baixo desce”.
Então os pescadores desceram. Foram expulsos de seu território, de suas casas, para dar lugar
a esse “crescimento”, que se constrói baseado numa ideia de progresso que se produz e
sustenta às custas da existência desses “de baixo”. Foram expulsos para a praia do Sobral, no
bairro Trapiche da Barra, porque lá sim é um lugar que pode ser habitado pela pobreza, já que
se trata de uma área desvalorizada economicamente. Mas essa expulsão encontrou resistência
e luta e é sobre ela que vamos falar a seguir.
4. A luta pelo território
Por ocupar um bairro central, considerado por muitos como berço da capital alagoana
e de grande riqueza histórica, cultural, turística e comercial da cidade, a antiga comunidade
tornou-se alvo de sucessivas intervenções por parte da Prefeitura de Maceió (em diferentes
gestões e parcerias), que visavam, ora sua ‘adequação’ a esse cenário de riqueza e de
desenvolvimento do bairro de Jaraguá, ora a remoção de seus moradores, almejando, em
ambos os casos, a implementação de um projeto de turistificação8 do local. Dividiremos essas
intervenções em dois momentos: num primeiro, quando aparentemente planejava-se a
permanência da comunidade no território, com sua revitalização e reurbanização; e num
segundo, quando a sua permanência passa a ser considerada inadequada e incoerente com o
cenário de 'avanço' local e, com isso, planeja-se a sua remoção.
Na década de 1980, o bairro de Jaraguá já figurava como alvo das ações do Estado nos
projetos de urbanização da capital, visando atender a padrões modernos de urbanização, tendo
como intuito transformar Maceió numa cidade moderna e limpa (HÜNING et al., 2017). Mas
“[Turistificação] consiste no (re)ordenamento ou na (re)adequação espacial em função do interesse turístico. É
uma interação entre fixos (território, paisagens etc.) e fluxos (capital, pessoas, padrões e valores culturais) que
influencia as diferentes esferas da organização socioespacial.” (Vasconcelos, 2005, p. 49).
8

49
os projetos de turistificação começam a ganhar contornos mais claros na década de 1990, com
a inserção de Maceió no Programa de Desenvolvimento do Turismo do Nordeste (ProdeturNE). O Prodetur-NE tinha/tem como principal objetivo a promoção do desenvolvimento do
setor turístico na região nordeste, promovendo também a melhoria na qualidade de vida das
populações residentes nas áreas a serem beneficiadas. Teve como focos de atuação a
promoção de melhorias na infraestrutura (saneamento, transporte, urbanização etc.), projetos
de proteção ambiental e do patrimônio histórico e cultural, projetos de capacitação
profissional e empresarial e fortalecimento institucional das administrações de estados e
municípios. (BNB-PRODETUR, sem data).
Assim, os projetos e ações elencados para Maceió contemplariam o abastecimento de
água; a limpeza urbana; melhorias das vias urbanas; esgotamento sanitário; reurbanização;
reassentamento de famílias; revitalização do patrimônio histórico-cultural; restauração e
revitalização de edifícios e praças de Jaraguá; enterramento das redes aéreas de energia e
telefonia; e fortalecimento institucional em âmbito municipal (TECNOLOGIA E
CONSULTORIA BRASILEIRA S.A., 1996, citado por VASCONCELOS, 2005), visando
fortalecer/potencializar as atividades turísticas na/da cidade.
E foi nesse contexto que surgiu e se implementou, com recursos do Prodetur-NE, o
projeto de revitalização do bairro de Jaraguá, que planejava algumas intervenções a fim de
melhorar a infraestrutura turística do bairro. O projeto foi lançado em 11 de agosto de 1995
pelo então prefeito Ronaldo Lessa, e propunha: “a transformação da área urbana do bairro de
Jaraguá, provendo-a de todas as condições para o desenvolvimento de atividades de lazer,
comércio, turismo, cultura, exposições, entre outras, à comunidade de Maceió e aos seus
turistas” (PROJETO DE REVITALIZAÇÃO DO BAIRRO DE JARAGUÁ, 2003, citado por
VASCONCELOS, 2005). A capital alagoana segue, então, as tendências de outros centros
históricos do nordeste, como os de São Luís-MA, João Pessoa-PB, Recife-PE e Salvador-BA,
e se prepara para fortalecer o turismo na cidade, enxergando em Jaraguá um grande potencial
para atrair e atender as demandas dos visitantes.
Para Vasconcelos (2014), o que houve, na prática, foi a efetivação de um modelo de
“urbanização para o turismo” (p. 4), que reproduziu práticas neoliberais, consolidadas em
políticas de gentrificação, ou seja, a transformação e a ressignifação das localidades urbanas
em função de sua valorização e enobrecimento, que ocorreram baseados numa lógica de
mercado para atender às demandas de classes e setores economicamente favorecidos, o que
termina afetando e alterando as dinâmicas das composições dos lugares e excluindo e
expulsando as populações locais de baixa renda, além de incentivar o controle dos espaços

50
pelos aparatos de ordenamento, limpeza e segurança, que visam ao uso das áreas
“enobrecidas” para as classes sociais médias e altas (VASCONCELOS, 2005; LEITE, 2004,
2010).
Segundo Santos (1987; 1996), Coimbra (2001), Outtes (2003) e Hüning (2015b),
desde o final do século XIX e começo do século XX, os modos de planejamento urbano no
Brasil são baseados em um higienismo físico e moral, que costuma se concretizar a partir de
estratégias de produção de preconceito e medo relacionados a determinados espaços e grupos
sociais. Nessa direção, o estigma de favela/favelado desempenha papel fundamental e
norteador nos processos de remoção de moradores de determinadas áreas (BRUM, 2012), já
que serve como justificativa para as intervenções de remoção e limpeza, como no caso da Vila
dos Pescadores de Jaraguá (HÜNING, 2015b).
A partir do momento em que a remoção da comunidade de pescadores passou a ser de
interesse do Estado, uma série de discursos desfavoráveis começaram a ser produzidos em
relação aos moradores, forjando na mídia e no senso comum da população posicionamentos
higienistas, que apontavam a necessidade de remover a comunidade para um lugar melhor,
mais “digno” (HÜNING; MESQUITA, 2015), ao mesmo tempo em que apontavam a
presença da ‘favela’ em Jaraguá como um empecilho ao desenvolvimento do bairro. Não à
toa, a comunidade, como era chamada pelo próprio poder público até então, passa a ser
chamada de “favela” (HÜNING et al., 2017).
Interessante notar que, na mídia, há também essa mudança na forma de se referir à
comunidade, que antes era chamada de “Beira-mar”, como é possível ver em matéria de 1980,
e de Vila dos Pescadores, em outra matéria, de 1991 (HÜNING et al., 2017). A primeira,
falava sobre o cotidiano dos pescadores, sobre o comércio de pescados e, ainda, das
dificuldades enfrentadas pelos moradores da comunidade, que solicitavam ao poder público
investimentos em saneamento, saúde e segurança. O jornal registrava a falta de ação do poder
público voltada para os pescadores, apontando-os como pessoas simples, pouco instruídas,
sem assistência e vítimas da falta de infraestrutura e da violência local. (HÜNING et al.,
2017). Já em 1995, numa matéria que fala sobre o lançamento do Projeto de Revitalização de
Jaraguá, intitulada “Lessa lança hoje o projeto da revitalização de Jaraguá”, fala-se na
construção de uma Vila de Pescadores (sem especificar em qual local) para remanejamento
dos pescadores que habitavam a “favela” próxima ao porto (HÜNING et al., 2017).
Importante pontuar que não se trata simplesmente de uma mudança na forma como se
referiam a essa coletividade e ao espaço ocupado por ela, não se trata da nomeação, mas da
intenção de seu uso, que busca desqualificar os moradores e o lugar por eles habitado, já que

51
as ‘favelas’ e os ‘favelados’ são comumente encarados de forma negativa e preconceituosa.
Nesse caso, há um uso pejorativo do termo. Segundo Brum (2012), existem vários mitos sobre
as favelas, que foram secularmente construídos baseados em acusações contaminadas por
“argumentos preconceituosos, vazios e/ou sabidamente falsos, que lançavam sobre seus
moradores acusações referentes à raça, à origem, aos hábitos, etc.” (p. 28), assim, os
moradores de favelas são vistos como “alheios à vida urbana, vagabundos, perigosos,
criminosos, alienados...” (id.), ou seja, como sujeitos que de certa forma não fazem parte e
ameaçam a sociedade. Esses mitos sustentam as remoções de diversas comunidades/favelas,
supostamente em nome da segurança do restante da população. Nesse sentido, a produção do
estigma de favela/favelado funciona muitas vezes como política de Estado que objetiva pôr
cada vez mais à margem essas pessoas “perigosas”.
Nesse sentido, a comunidade passa a ser chamada de ‘favela’ ao tempo que se
transforma, na grande mídia, em um lugar de tráfico e prostituição – também usados na
tentativa de desqualificar os moradores, já que comumente são ocupações vistas também
pejorativamente –, iniciando-se, assim, todo um processo de marginalização da comunidade,
que começa a sofrer os estigmas produzidos pelos discursos de discriminação (HÜNING,
2014; HÜNING; MESQUITA, 2015). Há, ainda, a tentativa de desqualificar a luta dos
moradores, que, segundo a mídia, teriam interesse em permanecer no local para dar
continuidade às atividades de tráfico de drogas e prostituição. Francinete se defende: “a gente
tava lutando não era pra viver no tráfico, que nem eles falavam, que era traficante, era
prostituta, que nem eles diziam. Nosso sonho era lutar pra conseguir nossas casinhas ali,
nossa Vila urbanizada.”
É posta em prática uma associação entre pobreza e criminalidade, que cria bandidos e
vilões, as chamadas “classes perigosas” (COIMBRA, 2001). Nesse sentido, Coimbra (2001)
chama atenção para o importante papel da mídia de massa na produção de significados e
interpretações sobre o mundo e determinados grupos de pessoas, uma vez que de certa forma,
nos orienta sobre o que pensar e sentir diante de determinados acontecimentos, estimulando e
alimentando esse preconceito e medo do qual falávamos há pouco. A mídia enuncia e faz
circular em nosso cotidiano determinadas práticas e discursos, materializando-os como
verdades e produzindo simultaneamente sujeitos e modos de governo desses sujeitos
(COIMBRA, 2001; SILVA, 2013; TOIA, 2013).
Os discursos veiculados pela mídia sobre a comunidade de Jaraguá e seus moradores
acompanham esses sujeitos operando como estigma e fator agravante de exclusão social.
Nesse sentido, nos faz pensar como esses discursos falam e produzem um território

52
marcado/relacionado a um modo de ser específico, e vice-versa. Discursos que legitimam
formas de governo dos espaços e dos corpos, baseados na lógica da eugenia e da limpeza
urbana e social (COIMBRA, 2001).
Assim, dois movimentos complementares aconteciam:
[...] a produção de discursos a partir de imagens negativas
em torno da vila e uma série de projetos de reestruturação do lugar com
foco na construção de empreendimentos que atendessem aos interesses
da elite econômica local. O primeiro legitimava o segundo; o segundo
satisfazia os interesses e sonhos de setores econômicos e empresariais
médios e altos da cidade. (HÜNING; MESQUITA, 2015, p. 22)

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2010), favela consiste de um
“aglomerado subnormal” e se configura como “conjunto constituído por 51 ou mais unidades
habitacionais caracterizadas por ausência de título de propriedade e pelo menos uma das
características abaixo: - irregularidade das vias de circulação e do tamanho e forma dos lotes
e/ou - carência de serviços públicos essenciais (como coleta de lixo, rede de esgoto, rede de
água, energia elétrica e iluminação pública).” Assim, compreendemos ‘favela’ como uma
construção social e também do conhecimento e de práticas que são convidadas a definir a
subnormalidade de determinados contextos e, colado a isso, de determinadas pessoas.
Tendo em vista a definição de ‘favela’ apresentada, pode-se dizer que as condições
precárias de moradia, o lixo e o esgoto a céu aberto presentes na comunidade eram fatores que
a caracterizariam como tal. Mas aqui é importante compreender esses problemas não como
fatores naturais ou essenciais da comunidade, mas como produtos de um processo de
ocupação e governo das cidades que cria territórios de segregação (HÜNING, 2015b). Ou
seja, a existência desses problemas não era resultado da ação das pessoas que viviam e
trabalhavam no território, era, na verdade, produto sobretudo da ação do Estado, que escolhia
se ausentar, dar as costas para a comunidade, e assim, usar a favelização que ele mesmo criou
para justificar a remoção. Assim, enquanto o conflito relativo à permanência ou não da
comunidade no território se desenrolava, a Prefeitura restringia o acesso dos moradores a
serviços públicos essenciais, como saneamento básico e coleta de lixo, usando a “degradação
ambiental decorrente de sua própria omissão como argumento para a defesa de seus projetos
para a área” (FIOCRUZ, 2010, sem página). “[A gente tava lutando] não era pra viver
naquela imundice. Se a gente vivia naquelas condições não era culpa da gente, porque a
gente não tava no poder, a gente não tava governando, a culpa é dos governantes. Que verba
todos sabem que vem, dinheiro todo mundo sabe que vem pra fazer, e eles nunca tomaram
atitude. Só lembravam ali do pobre em época de eleição. A não ser isso, só difamação,
mentiras e calúnias pra conseguir os objetivos dele.” (Francinete).

53
Muitos moradores também se referiam à comunidade como “favela”, mas é
interessante notar que ainda assim, reconheciam aquele lugar como seu e lutavam por ele não
porque ‘lugar de favelado é na favela’, mas porque aquele espaço - independente da forma
como era chamado - não se definia ou limitava pela precariedade estrutural ou material.
Embora o Estado e boa parte da mídia reduzissem a comunidade à necessidade e à
precariedade, os moradores viam e viviam aquele lugar como seu, como expressão de vida e
potência, para além das dificuldades. O valor da comunidade era outro para aquelas pessoas:
“só o prazer de tá ali, minha filha, é uma vida. É uma vida! Ninguém entende isso não? É
uma vida. É uma vida de luta, é uma vida de trabalho, uma vida... É uma história que eu não
sei nem explicar direito, né, mas só quem vive ali na Vila é que sabe o valor que a Vila ali
tem. O valor sentimental, o valor da amizade, o valor de você ter o seu pão de cada dia ali,
dignamente...” (Neide)
Nessa direção, oportuno ressaltar que mesmo sendo submetida a um processo de
favelização e de tentativa de desgaste de sua identidade, a comunidade mantinha sua relação
com os modos de vida relacionados à pesca e ao território. Assim, um aspecto importante de
se observar, como pontuado no Dossiê da Vila de Pescadores do Jaraguá (2011), é que mesmo
quando chamada de ‘favela’, era/é “favela de pescadores”, ou “favela de Jaraguá”,
sinalizando que a comunidade resgata e mantém uma identidade pesqueira e uma identidade
territorial, mesmo nas condições em que se encontrava.
“Então a gente insistia em ficar porque era a vida da gente ali, a vida. [...] Apesar de
eles falarem que era favela, mas... era barraco de tábua, mas o que tinha num apartamento
da Ponta Verde, tinha no barraco da gente, a verdade era essa. Ninguém ali morria de fome,
que nem eles dizem, muito pelo contrário. Eu acho assim, que a gente por ser pescador, a
gente comia bem melhor que quem mora na Ponta Verde. Essa é a ironia, né? A verdade tem
que ser dita. Porque você comer o camarão fresquinho, peixe fresco, comer lagosta, o que
você quiser, primeiro: sem pagar, é uma grande coisa, né? Então, a sociedade via a gente ali
como um favelado, como morto de fome, mas na verdade, quem entrava na Vila, via que era
completamente diferente do que eles pensavam, né?” (Neide). Bastava que as pessoas se
dispusessem a conhecer a comunidade, para enxergar o que o preconceito embaçava a vista.
Mas o preconceito já estava no olhar de quem se mantinha ‘de fora’ da comunidade e aquele
lugar e aquelas pessoas seguiam sendo um problema para a cidade.
E para dar prosseguimento ao projeto pensado para revitalizar o bairro e, de fato,
turistificar o espaço, era necessário resolver o “problema”, que fora inclusive apresentado pela
Unidade Executora Municipal/Prodetur (UEM) – responsável por gerenciar o projeto – em

54
seu relatório de atividades de março a dezembro de 1996: o “problema ambiental” da antiga
Vila dos Pescadores de Jaraguá (PEREIRA, 2005). Assim, em 1997, a Prefeitura de Maceió
apresenta à SPU os objetivos do projeto de reurbanização da comunidade, assegurando a
permanência de 273 famílias (número que não contemplava a totalidade das famílias que
residiam na comunidade), que tinham relação direta ou indireta com as atividades da pesca e
que seriam contempladas com moradias no local caso a União cedesse a área para efetivação
do projeto.
[...] As obras contempladas no Projeto de Revitalização do Bairro de Jaraguá,
situadas na orla ente o porto de Jaraguá e o Coreto da Avenida da Paz, resumem-se à
reurbanização da vila dos pescadores, que compreende a infra-estrutura da vila,
com saneamento, abastecimento d´água, energia elétrica, pavimentação e drenagem
e a construção de 273 imóveis residenciais, área de lazer e equipamentos
comunitários.
Os recursos necessários estão estimados em R$ 7.919.000,000; sendo toda a infraestrutura financiada pelo BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento e as
construções das habitações sendo contrapartida da Prefeitura Municipal de Maceió.
Neste projeto de Revitalização da Vila dos Pescadores, serão contempladas 273
famílias que dependem direta ou indiretamente da pesca, sendo as demais
remanejadas para outros locais.
Na continuação da revitalização, a orla será urbanizada, no trecho entre o terreno
pertencente à Marinha e o riacho do salgadinho, com passeios, arborização e
estacionamento, além da proposta da construção de uma marina. […] (grifo nosso)
(Ofício 223/UEM/PRODETUR/97 - procedimento administrativo 10465.000270/9876 na SPU, p. 07)

O território onde a Vila se localizava é patrimônio da União, desse modo, para uma
entidade que não fosse a proprietária realizar qualquer empreendimento no local, seria
necessário obter a cessão de uso da área. Assim, em 10 de março de 1998, com o objetivo de
realizar o projeto de “reurbanização da Vila dos Pescadores de Jaraguá”, a Prefeitura de
Maceió requereu à Secretaria do Patrimônio da União (SPU) a cessão de uso da área então
ocupada pela comunidade. O procedimento foi concluído em 18 de outubro de 2004, tendo a
cessão da área direcionada sob a forma de utilização destinada ao projeto de “revitalização do
bairro de Jaraguá”, com a “reurbanização da Vila dos Pescadores”, que seria abastecida com
sistema de água e energia e contaria com melhorias na infraestrutura em seu entorno
(CAVALCANTE, 2016):
Assim, o projeto arquitetônico apresentado para revitalização do bairro incluía a
reurbanização da Vila em Jaraguá, contemplando implantação de sistema de saneamento
básico, coleta seletiva de lixo, abastecimento de água e energia, pavimentação, drenagem,
construção de residências térreas e de sobrado. (PEREIRA, 2005). O projeto para a
“Revitalização da Vila dos Pescadores”, conhecido como “Projeto Pascoal”, já que se tratava
do nome do arquiteto que o elaborou, incluía também a construção de estacionamentos,
mercado modelo, fábrica de gelo, cooperativa de pesca, praças, pontos comerciais, área de

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lazer e esporte etc., e se configurava da seguinte forma:
Figura 4 – Projeto Pascoal:

Fonte: Ação Civil Pública nº 0004070-23.2012.4.05.800, citado por Cavalcante, 2016, p. 140)

Figura 5 – Projeto Pascoal:

Fonte: Ação Civil Pública nº 0004070-23.2012.4.05.800, citado por Cavalcante, 2016, p. 140)

A Prefeitura teria o prazo de um ano, a partir da assinatura do contrato de cessão, para
iniciar a implantação do projeto de reurbanização da Vila dos Pescadores de Jaraguá (ou seja,
até 17 de outubro de 2005), e o prazo de três anos para sua finalização (17 de outubro de
2008). No período previsto para início das obras, o Município de Maceió solicita que seja
anexado ao procedimento administrativo da SPU um ofício, constando o interesse em dar
continuidade ao contrato de cessão, porém com alguns possíveis ajustes (CAVALCANTE,
2016). O fato é que de outubro de 2005 a outubro de 2008 nada foi feito. Com a constatação
de que o prazo pra implantação do projeto havia sido descumprido, a SPU solicita, no dia 5 de
fevereiro de 2009, através de ofício anexado ao procedimento administrativo já citado, um

56
posicionamento da Prefeitura. A resposta do Município veio um mês depois, com a sugestão
de que o contrato fosse prorrogado por mais um ano, para que fossem concluídas as unidades
habitacionais do Conjunto Vila dos Pescadores I e II, no bairro Trapiche da Barra (mapa)
(assunto que não havia sido apresentado para SPU no procedimento administrativo) e, na
sequência, a execução do projeto de reurbanização da Vila de Pescadores do Jaraguá
(CAVALCANTE, 2016), que como veremos mais à frente, não foi planejado para que aquelas
pessoas permanecessem ali.
Nesse intervalo de tempo, entre o lançamento do projeto de urbanização do bairro de
Jaraguá (1995), a solicitação da posse da área para realizar o projeto de reurbanização da
comunidade (1998), a aprovação da solicitação (2004) e o período para início das obras
(2005) e para seu término (2008), houve mudanças na gestão da Prefeitura Municipal de
Maceió, mas todas (Ronaldo Lessa – 1993-1996 –, Kátia Born – 1997-2004 –, Cícero
Almeida – 2005-2012 – e Rui Palmeira – 2013-atual) sempre caminharam em direção a um
projeto de urbanização excludente, que não contemplava a comunidade. Mesmo quando
aparentemente incluíam sua permanência e urbanização no projeto de revitalização de Jaraguá
(como nas gestões de Ronaldo Lessa e Kátia Born), era com o objetivo de tornar a área mais
atrativa para o turismo, menos ‘desagradável’ visualmente, não pensando nos moradores, mas
nos visitantes que presenciariam a existência de uma ‘favela’ numa área com tamanho
potencial turístico. Um fato que indica essa distância entre o projeto almejado pela Prefeitura
e a comunidade é que desde o começo, quando se esteva elaborando o projeto de urbanização
da Vila, diversos órgãos públicos cujos interesses poderiam ser afetados com a cessão da área
para execução do projeto foram contatados, como a administração do Porto de Maceió, a
Capitania dos Portos de Alagoas (Ministério da Marinha), o IBAMA e o IMA, mas não
existe nenhum indício dentro do procedimento administrativo que indique que houve consulta
à própria comunidade, principal interessada e afetada (CAVALCANTE, 2016).
O fato é que paralelamente ao processo jurídico, todas as gestões implementaram um
amplo projeto de remoção da comunidade (PEREIRA, 2005), e nessa direção, algumas
intervenções foram se efetivando, como a remoção de 350 famílias da comunidade, no ano de
2001 (gestão da então Prefeita Kátia Born, sucessora de Ronaldo Lessa). Acontece que a
presença da comunidade era um dos problemas que atrapalhavam/impediam o projeto de
desenvolvimento do bairro almejado pelas gestões municipais e, segundo Pereira (2005), era
“a pedra no calcanhar da prefeita (Kátia Born)” (sem página).
Esta remoção foi financiada pela Petrobras através de convênio com a Prefeitura, uma
vez que a motivação/justificativa para a ação foi a existência de moradias construídas sobre o

57
oleoduto Pilar/BAMAC, localizado entre o Campus Tamandaré e o Cais do Porto, que
colocava em risco os moradores de 40 barracos localizados logo acima do duto e de mais 80
barracos, localizados na faixa de segurança (área determinada a fim de evitar construções
numa distância de cerca de 15 metros do duto). A intenção era resguardar as famílias de
possíveis acidentes envolvendo o oleoduto. Mas é importante salientar que além da
comunidade, outros imóveis foram construídos na mesma faixa de segurança, como por
exemplo, um galpão da Federação Alagoana de Vela e Motor, que permanece irregularmente
na área, embora a Petrobras tenha solicitado providências quanto a sua remoção (PEREIRA,
2005), o que sinaliza que para a Prefeitura, importava apenas a remoção da comunidade,
independente de questões de segurança, e a existência do oleoduto serviria como uma
‘desculpa’ para colocar em prática a sua real intenção.
Desse modo, 120 famílias seriam removidas e realocadas nas proximidades da praia de
Jaraguá ou indenizadas caso preferissem, e para dar início à intervenção, a empresa solicitou
que a Prefeitura realizasse o levantamento e o cadastro das famílias que desejariam ser
realocadas ou indenizadas. Mas se a intenção da Petrobras era a retirada dessas famílias que
ameaçavam o programa de segurança da empresa, a Prefeitura pretendia mesmo remover toda
a comunidade e colocá-la longe dos olhos da cidade e dos visitantes turistas. Nesse sentido, o
Município, em parceria com a UEM-Prodetur-NE e com assessores do então senador
Teotônio Vilela Filho, apresentam uma contraproposta: a remoção de 350 famílias (incluindose 230 que não estavam em área de risco) para áreas já construídas, nos conjuntos Carminha e
Freitas Neto, localizados nos entornos do Conjunto Habitacional Benedito Bentes, na parte
alta da cidade, distante cerca de 20km de Jaraguá (PEREIRA, 2005). Para Pereira (2005) por
ser uma região isolada e distante das áreas nobres e turísticas da cidade, “a Prefeitura
engendrou sua política habitacional no sentido de ali concentrar as populações pobres que
habitavam espaços ilegais e irregulares das regiões da cidade” (sem página).
Após um processo de negociação que não envolveu a principal interessada e afetada –
a comunidade –, e de posse do financiamento da Petrobras, a Prefeitura iniciou a remoção das
350 famílias da Vila dos Pescadores de Jaraguá, num processo violento e desrespeitoso:
As famílias que foram levadas para o Conjunto Carminha, em nome da
reurbanização, tinham que subir nos caminhões sob comando de policiamento
armado, gente gritando, mulheres e crianças que iam e as que ficavam chorando, e
os poucos móveis iam sendo jogados em cima de caminhões. 9 (AMAJAR, 2009)

9

Trecho retirado de publicação do Blog da AMAJAR. Disponível em:
http://amajar.blogspot.com.br/2009/10/antes-de-tudo-conheca-nos.html Acesso em: 14 de março de 2017

58
Os pescadores não tiveram escolha. Foram levados para longe do mar. E não era um
mar qualquer, mas o “seu” mar, como Neide deixa quase em aberto, durante uma pausa em
uma de suas narrativas. “Seu...”, porque era o mar onde suas vidas aconteciam, lá na beira da
praia; porque era o mar onde construíam suas vidas e de onde tiravam o sustento diário de
suas famílias. “Não é de agora que a gente vem sofrendo. Teve a primeira retirada, né? Que
foram pro Carminha. E foi também muito doloroso. Foi uma retirada também muito brusca,
com policiamento do mesmo jeito. E ainda foi... Eu acho assim, que foi mais doloroso porque
as pessoas não tiveram opção pra escolher, tinha que ir. Pescador não tinha essa opção de
ficar perto da praia, tinha que ir pro Carminha, e eles foram. Tanto é que voltaram de novo,
né? Porque assim, a vida do pescador é tá na beira da praia, é tá perto do seu... Do seu mar.
De onde tira o pão de cada dia. Aí, muitos voltaram.” (Neide) O mar era daquelas pessoas
não por uma questão de posse legal, mas por uma posse que fala de uma relação de
pertencimento. Aquele mar era significado pelas pessoas que ali habitavam e suas vidas eram
significadas a partir da relação. E foi para dar continuidade à vida e ao trabalho, que muitos
pescadores retornaram para a comunidade.
Para a sociedade, informada pela imprensa local (que não ouvia a comunidade), a ação
da Prefeitura em parceria com a Petrobras estava beneficiando aquelas famílias ao dar-lhes
moradias dignas, possibilitando que saíssem da situação de risco (sem considerar que 230
famílias sequer estavam sob área de risco) e do contexto de degradação da comunidade (sem
ponderar que a situação de precariedade era de responsabilidade do próprio poder público),
promovendo o desenvolvimento urbano. Mas na prática, a Prefeitura e a Petrobras estavam
tirando famílias de suas casas, de perto do mar, para colocá-las longe dos olhos de famílias
que, tendo dinheiro e poder, teriam 'direito' a desfrutar de uma orla sem 'favela' e sem 'pobres',
num processo de higienização do espaço.
Enquanto a imprensa noticiava que um convênio entre a Prefeitura e a Petrobras
beneficiaria pessoas que estavam sob área de risco com doação de casas, 230
(duzentas e trinta) famílias, que não se encaixavam nessa descrição, também foram
removidas. A justificativa para remoção era de que Jaraguá havia se tornado um
bairro violento, com assaltos e roubos, práticas atribuídas aos “favelados” que
habitavam o lugar, impedindo que se implantasse o projeto de desenvolvimento da
área. (CAVALCANTE, 2016, p. 44)

Contrariando o que era noticiado pela mídia, algumas famílias resistiam à remoção,
demonstrando de alguma forma a arbitrariedade e truculência daquele processo e que a
suposta política habitacional adotada pela Prefeitura não condizia com os desejos e
necessidades das famílias, e que era, na verdade, uma política interessada na remoção da
comunidade para concretização do projeto de revitalização e turistificação de Jaraguá.

59
Segundo Pereira (2005), para que esse projeto fosse efetivado, seria necessário promover o
“enxugamento” da comunidade em cerca de cinquenta por cento, ou seja, das setecentas
famílias que ali residiam, apenas aproximadamente trezentas poderiam permanecer em
Jaraguá, inclusive esse era o número contemplado pelo projeto de reurbanização da Vila.
A revolta, a indignação, o sofrimento expresso nos rostos dos moradores, sobretudo
na ira dos adultos que se comportavam como se estivessem numa guerra, e no choro
dos adolescentes [imagens capturadas nas filmagens em VHS da Polícia Militar de
Alagoas] expostos à situação humilhante e conflituosa, fez ver que na verdade não
estava havendo uma relação harmoniosa entre uma comunidade beneficiada e um
poder que estava fornecendo um benefício. Havia na verdade uma disputa pelo local.
E essa disputa estava se dando no exercício da violência (PEREIRA, 2005, sem
página).

Nos anos seguintes, o projeto de reurbanização da Vila dos Pescadores é deixado de
lado e a comunidade passa a ser alvo de sucessivas tentativas de remoção de seus moradores.
Em 2005, a imprensa local já veiculava notícias sobre a remoção da comunidade, que seria
realocada em um terreno na praia da Avenida (entre a praia de Jaraguá e do Sobral, distante
cerca de 2km da comunidade), o que se daria em contrariedade ao que havia sido firmado com
a SPU. Segundo Pereira (2005), naquele mesmo ano, o então prefeito Cícero Almeida havia
declarado o fim da “favela Jaraguá” ao jornal Tribuna de Alagoas, afirmando que os
pescadores seriam removidos para a praia do Sobral.
Inseguros com a possibilidade da Prefeitura expulsá-los de suas casas, a comunidade
procura o Ministério Público Estadual (MPE) para esclarecimentos e proteção. O MPE
convenciona que a retirada dos moradores não poderá ser efetivada sem que a discussão com
os moradores sobre a possibilidade de sua permanência no lugar de origem (Jaraguá) seja
finalizada e, ainda, que a remoção para a Avenida, Sobral ou qualquer outra localidade estaria
descartada. (CAVALCANTE, 2016). Mas segundo Pereira (2015), não existia qualquer
projeto alternativo da parte da Prefeitura que não incluísse a remoção completa da
comunidade, já que a intenção era construir uma marina em Jaraguá, no lugar da Vila.
Lembrando que já em 1997, no ofício enviado pela Prefeitura para a SPU solicitando a posse
da área para implementação do Projeto de Revitalização do Bairro de Jaraguá, já contava o
interesse em construir uma marina no trecho entre a área pertencente à Marinha e o Riacho
Salgadinho10, ou seja, entre a área ocupada pela Vila e o riacho. E no mesmo ofício, quando
se fala em “reurbanização da vila dos pescadores”, não se menciona claramente a localidade
em que serão construídas as 273 moradias.

10

Riacho distante cerca de 1km do local onde a comunidade se localizava antes da remoção, em Jaraguá.

60
Em 2005, o próprio Plano Diretor de Maceió, situando Jaraguá como área de incentivo
ao turismo, sinalizou a construção de um polo de cultura e entretenimento, bem como a
instalação de um terminal de turismo no Porto, contemplado com a implantação de uma
marina na enseada de Jaraguá (CAVALCANTE, 2016).
PLANO DIRETOR DO MUNICÍPIO DE MACEIÓ – LEI 5.486/2005
Art. 17. As diretrizes para o desenvolvimento do turismo deverão ser
implementadas mediante: (...)
V – apoio ao desenvolvimento empresarial para constituir um pólo cultural e de
entretenimento em Jaraguá;
VI – apoio à instalação de um terminal turístico no Porto de Maceió e
estabelecimento de parcerias para implantação da Marina de Jaraguá;
Art. 53. Constituem diretrizes específicas para a ZEP de Jaraguá:
I – incentivo à implantação de atividades que otimizem os investimentos no
bairro de Jaraguá;
II – incentivo ao uso residencial e de comércio e serviços compatíveis;
III – estímulo às atividades relacionadas ao turismo cultural e lazer;
IV – estímulo às atividades e implantação de equipamentos de lazer náutico
e de pesca;
V – integração das atividades urbanas com o Porto de Maceió;
VI – destinação de amplas áreas públicas com infra-estrutura adequada para
apresentações populares;
VII – integração ao Corredor Cultural de Maceió.
Parágrafo único. A implementação da ZEP de Jaraguá se dará mediante: (...) V –
estudo para implantação de marina na enseada de Jaraguá. (MACEIÓ-AL,
2005, citado por Cavalcante, 2016, p. 34)

Nesse contexto, os investimentos nas atividades e nos equipamentos de pesca surgem
não com o intuito de melhorar a vida das famílias da comunidade ou como forma de
valorização da atividade profissional e de subsistência, mas como possibilidade de estimular o
turismo e o lazer na região. E, como aponta Cavalcante (2016), se por um lado parece que o
estímulo ao turismo e ao lazer da região procuram a integração da comunidade pesqueira de
alguma forma, por outro, na prática, vemos que os investimentos em turismo e lazer não são
considerados compatíveis com a permanência da comunidade.
Nessa mesma direção, em 2007, o Código de Urbanismo e Edificações de Maceió
previu ações para a orla marítima de Jaraguá, que priorizavam o embelezamento e o
investimento em equipamentos públicos com o intuito de estimular o turismo e o lazer na
região. Dentre esses investimentos figurava a construção da marina, já mencionada no Plano
Diretor de Maceió, além de parque aquático e aquários. (CAVALCANTE, 2016).
CÓDIGO DE URBANISMO E EDIFICAÇÕES DO MUNICÍPIO DE MACEIÓ –
LEI 5.593/2007
Art. 379. Na faixa de praia situada entre a Avenida Major Cícero Toledo e a
rebentação, será implantado projeto de agenciamento, priorizando-se o uso para:
I – jardins;
II – estacionamento;
III – equipamentos públicos necessários ao estímulo turístico e ao lazer,
planejados e executados pelo Poder Público Municipal com o objetivo de prover

61
com áreas de apoio a ZEP 1, tais como: a) Marina; b) Parque aquático; c)
Aquários. (MACEIÓ-AL, 2007, p.80-81) (grifo nosso)

Mesmo com o posicionamento do MPE, era noticiado pela imprensa, em 2008, que o
então Secretário de Habitação, Nilton Nascimento, afirmava que o local para onde as famílias
seriam levadas já havia sido determinado pela Prefeitura, que a remoção seria inevitável e que
esse assunto já estava resolvido, sem possibilidade de modificações11. Até que em 2009, com
o encerramento do contrato de cessão da área (que foi extinto sem que as gestões anteriores
realizassem qualquer investimento para de fato reurbanizar a comunidade), a Prefeitura
(gestão de Cícero Almeida, reeleito naquele ano) apresenta uma nova proposta de projeto para
a área: a construção de um centro pesqueiro.
Este novo projeto propunha a construção de uma área para exposição de velas, um
prédio para a associação de moradores e para um museu em memória à Vila dos Pescadores,
um espaço para depósito de materiais e barcos, uma barraca de sorvete, um bar, uma área para
secagem de peixes, um bicicletário, uma fábrica de gelo, estaleiros, espaço para oficinas,
mercado do peixe e estacionamento (Figura nº 7). E, ainda, na área onde se encontrava a
balança de peixe, seriam construídos um palco e uma praça de alimentação (Figura nº 8). Não
são incluídas moradias no local, já que a intenção era remover a comunidade de Jaraguá e
realocar as famílias de pescadores no residencial Vila dos Pescadores, na praia do Sobral, no
bairro Trapiche da Barra, distante cerca de 4km de Jaraguá.
Figura 6 – Localização do Centro Pesqueiro (em amarelo e vermelho):

(Fonte: http://www.maceio.al.gov.br/centropesqueiro/)

Figura 7 – Configuração do Centro Pesqueiro:
11

Fala do então secretário Nilton Nascimento, sobre a remoção das famílias de pescadores de Jaraguá, em
matéria do jornal Gazeta de Alagoas, em março de 2008, intitulada “Prefeitura e União divergem sobre a área”.
O trecho completo: “O secretário de Habitação do município, Nilton Nascimento, disse que a Prefeitura não vai
mais discutir o local de transferência e que as famílias devem ser retiradas até o fim do ano. ‘A transferência vai
ser feita e quem não aceitar vai sair de qualquer jeito’, avisou”. [...]”

62

(Fonte: http://www.maceio.al.gov.br/centropesqueiro/)

Figura 8 – Configuração do Centro Pesqueiro (projeto para área da balança de peixe:

(Fonte: Ação Civil Pública nº 0004070-23.2012.4.05.800, p. 27, citado pro Cavalcante 2016,
p. 47)

Como apontado por Cavalcante (2016), podemos observar na imagem que as áreas a
serem ocupadas pelos pescadores (indicadas nos números 03, 04, 07, 08, 09, 10, 11 e 12)
ocupam menos que a metade da área a ser revitalizada nesse novo projeto, sem contar com a
permanência do armazém de açúcar no território (ele pode, a comunidade, não) e das
instituições localizadas no mesmo espaço, como o clube da Polícia Federal, a área da
Capitania dos Portos e a Federação Alagoana de Vela e Motor (presentes na área, entre a
comunidade e a balança de peixe). O que foi questionado por Francinete: “Agora, pra ele
[prefeito], tem estrutura pra fazer um centro pesqueiro e pras casa da gente não ia ter. Esse
centro pesqueiro foi feito de isopor, pra ter estrutura ali? E aquele galpão [armazém] ali do
lado? Se não era conveniente pra gente, por que aquele galpão [armazém] também não foi
demolido? Por que ele ainda tá ali de pé? E ao lado, a marinha tá construindo um prédio,

63
não sei se é dois ou é três andares. Aí, quer dizer, o único naquela área ali, o único local que
não tinha estrutura, só era as casas da gente. Era o que ali? E era feito de que ali? Ia fazer o
que? Ia botar chumbo, era? E não ia sustentar? E a federação [Federação Alagoana de Velas
e Motor], com aquelas lanchas lá dentro e tudo? Olha, isso é tão revoltante, que até hoje não
me engana, eu não aceito, eu não aceito.”
E em paralelo a esse projeto, circulava na imprensa que a real intenção do prefeito
Cícero Almeida era mesmo a construção de uma marina no local (como já sinalizado de
alguma forma no Plano Diretor e no Código de Urbanismo e Edificações), que possibilitaria
um visual mais atrativo para os turistas e favoreceria a ancoragem dos “barcos grandes de
turismo”12, além dos barcos dos pescadores. Embora a marina não estivesse prevista no
projeto de reurbanização da comunidade apresentado à SPU, sua construção, na enseada de
Jaraguá, estava prevista no próprio Plano Diretor da cidade (CAVALCANTE, 2016) e,
segundo Pereira (2005), sua construção onde antes se localizava a balança de peixe constava
no projeto de revitalização de Jaraguá desde o começo. A permanência da comunidade na
localidade era considerada pelos gestores municipais extremamente inadequada e
incompatível com o cenário de ‘avanço’ local, já que sua presença empobrecia o bairro e eles
almejavam, entre outras coisas, “melhorar o visual da cidade”13. Nesse sentido, a edificação
de uma estrutura de apoio à pesca e de área para o lazer atenderiam ao interesse de disseminar
o turismo na região (PEREIRA, 2005; CAVALCANTE, 2016).
Jaraguá foi o bairro escolhido para receber o Centro de Convenções, atraindo a
realização de vários eventos no Estado e, com isso, turistas. A região vem se
consolidando como um dos espaços de celebração das prévias carnavalescas,
corridas de rua e das festividades de São João, evento realizado no maior dos
estacionamentos, defronte à balança de peixe, onde haverá um palco e uma praça de
alimentação. Quer dizer, a forma com que o bairro se reestruturou nos últimos anos
não comporta a presença de um assentamento humano identificado como precário
pelos próprios diplomas legais. (CAVALCANTE, 2016, p. 48)

Segundo o pesquisador Parmênides Justino Pereira, em entrevista ao portal de notícias
Gazetaweb, eram vários os motivos que levavam a gestão municipal a planejar a remoção da
comunidade do local: “Em todos os estudos que fiz, constatei que há uma pressão por parte de
12

Fala do então Secretário Municipal de Habitação Popular e Saneamento, Nilton Pereira do Nascimento, sobre o
projeto da marina, em matéria do site de notícias Gazetaweb em 4 de outubro de 2009, intitulada “Pescadores de
Jaraguá e Prefeitura de Maceió em “guerra fria’”. O trecho completo: “Visivelmente entusiasmado, o secretário de
habitação expôs com detalhes o projeto da Marina. “Vai ser a coisa mais linda do mundo. Todos esses barcos
grandes de turismo que não têm onde ancorar e acabam por ancorar no porto, agora terão um local próprio. [...]”
Disponível em: http://gazetaweb.globo.com/noticia.php?c=186876&e=13
13
Fala do então prefeito Cícero Almeida, sobre a remoção da comunidade de Jaraguá, em matéria do site de
notícias Gazetaweb em 4 de outubro de 2009, intitulada “Pescadores de Jaraguá e Prefeitura
de Maceió em “‘guerra fria’”. O trecho completo: “Não queremos tirar ninguém de suas casas, apenas melhorar o
visual da cidade”. Disponível em: http://gazetaweb.globo.com/noticia.php?c=186876&e=13

64
grupos influentes ligados a bares, restaurantes e hotéis, para acabar com a comunidade
porque, segundo eles, afugenta turista”14. Nesse sentido, percebem-se interesses higienistas e
sanitaristas, de limpeza urbana e social, motivados por uma lógica financeira e por um projeto
de turistificação local (ALBUQUERQUE, PEIXOTO e ALBUQUERQUE, 2012; HÜNING,
2014a; VASCONCELOS 2005).
Podemos perceber que o novo projeto preocupava-se mais em investir esteticamente
no bairro, na tentativa de impulsionar o turismo na região, do que em oferecer, de fato,
melhorias nas condições de vida das famílias de pescadores. Não se pretendia beneficiar os
moradores, reinserindo as famílias de forma ‘digna’ (o que é dignidade?) na sociedade, com
moradias melhores e condições de trabalho, como o Poder Público alegava, mas retirá-los de
um território potencialmente atrativo para o turismo. Como pontuado por Cavalcante (2016),
“a intenção do projeto não teria sido beneficiar a comunidade com uma “moradia digna” e
condições de trabalho, mas de retirá-la de uma área que seria reestruturada para um mercado
turístico” (p. 49).
“Eu acho assim, se eles queria botar a gente na sociedade, não era longe do local de
trabalho da gente, que fizesse ali mesmo, porque espaço tinha. Tinha não, tem! E esse
terminal pesqueiro não é pros pobres. Se a gente parar pra pensar, não é, porque ali é pra
rico. Porque a partir do momento que a gente saiu dali, eles dizem que vai voltar, mas eu
não acredito.” (Neide). E sobre a suposta dignidade que a intervenção da municipalidade
promoveria, Francinete pontua: “Eles falaram tanto de moradia digna, que lá não era
moradia digna, de dignidade. Dignidade pra eles é o que? Esse par de coisas? Porque pra
mim, dignidade é onde você vive bem, onde você se sente bem ganhando seu pão de cada dia
ali, sem precisar de tá incomodando ninguém, com seu esforço ali, no dia a dia. E aqui
[Trapiche da Barra] não, qual é a dignidade que tem? Dignidade nenhuma.” Albuquerque,
Peixoto & Albuquerque descrevem o novo local de moradia (in)digna:
[...] perto de uma indústria química, de onde, vez por outra, ocorrem vazamentos de
substâncias tóxicas, provocando pânico e a evacuação obrigatória da vizinhança [...]
é separado da praia por uma avenida com quatro faixas de rolamento e fica em frente
a um trecho de mar aberto. Uma localização que dificulta a prática das
diversas modalidades de pesca artesanal. [...] Em função do perigo iminente de
vazamentos de gases venenosos, o mercado imobiliário não demonstra interesse pela
região, inviabilizando o desenvolvimento da cidade no sentido orla-sul desde a
instalação daquela indústria, em 1979 (ALBUQUERQUE; PEIXOTO;
ALBUQUERQUE, 2012, p. 13-14).
14

Fala do pesquisador Parmênides Justino sobre as motivações da Prefeitura de Maceió para a remoção dos
pescadores, em matéria do site de notícias Gazetaweb em 4 de outubro de 2009, intitulada “Pescadores de Jaraguá
e Prefeitura de Maceió em “‘guerra fria’”. Disponível em:
http://gazetaweb.globo.com/noticia.php?c=186876&e=13

65

O lugar escolhido para construção das novas moradias é o lugar onde a pobreza pode
estar: lugar que não é de interesse dos riscos, que não fica ao alcance da visão dos turistas.
Lugar periférico, às margens da ‘cidade-mercadoria’.
O residencial construído para transferência dos moradores, não é encarado como um
novo lar, como a nova Vila de pescadores: “[…] essa nova Vila, que é no Trapiche da Barra,
que pra mim, não é Vila. Pra mim, a verdadeira Vila, tá lá em Jaraguá, porque eu nunca vi
ninguém se mudar e levar o mesmo endereço, isso não existe. Só a Prefeitura que quer
colocar uma coisa que não existe, porque a verdadeira Vila tá em Jaraguá.” (Neide) “Tem
gente que diz que aqui é Vila, eu não creio que aqui seja uma Vila, aqui nunca é, nunca foi e
nunca será uma Vila. Vila sim, Vila dos Pescadores era lá [em Jaraguá], lá era uma Vila de
Pescador, onde todo mundo trabalhava. [...] A verdadeira Vila é lá, sempre foi e sempre será.
Isso eles não vão tirar nunca. Nós somos a própria Vila. Eu me sinto a própria Vila.”
(Francinete) Mais que um endereço, entende-se que não é possível levar a mesma experiência
de lugar quando se muda de território. A verdadeira Vila é onde se construiu uma história, um
dia a dia e uma relação de afeto com o lugar; é onde os pescadores tem seu teto e seu trabalho
alicerçados na terra de suas memórias. E os pescadores, na relação com o lugar-Jaraguá é que
são a própria Vila.
Assim, em um contexto marcado pela insegurança quanto à permanência ou não da
comunidade no território, diante das constantes ameaças de remoção e do novo projeto (ainda
mais excludente que o primeiro), a luta da comunidade começa a tomar ainda mais corpo e
força, agora, de forma mais organizada, através da reorganização da associação de moradores:
“[…] nessa época, em 2008, começou a luta pela moradia. [...] Havia projeto não pra
desocupar, mas pra urbanizar no local [projeto Pascual]. Em 2008 a gente retoma a
associação [de moradores] e aí é que vem, com o prefeito, a gestão do prefeito Cícero
Almeida, que ele começou a querer fazer a retirada. Que já tinha sido aprovado um projeto
pra lá, mas aí ele já viu de maneira diferente e aí veio com a questão da retirada.” (Enaura)
Nesse momento de insegurança e ameaças, a principal bandeira de luta dos moradores
se estabelece: a permanência e urbanização da comunidade em Jaraguá. Mas, como apontado
por Hüning e Mesquita (2015), a luta dos moradores “tratou também do reconhecimento da
comunidade, de suas práticas culturais como forma de existência daquela população e do
próprio direito à cidade.” (p. 23). Não demorou muito para que a luta da comunidade se
desdobrasse em outras ações e projetos, que a fortaleciam e davam ainda mais visibilidade a
sua luta e cultura. Como por exemplo, a inserção da Vila no Programa de Esporte e Lazer do

66
Ministério dos Esportes (PELC) e na rede de Pontos de Cultura, a partir da criação do Ponto
de Cultura Enseada das Canoas: Yar-á-guá, que possibilitou o desenvolvimento de diversas
atividades voltadas para o reconhecimento e fortalecimento de suas tradições e práticas
culturais e, ainda de sua identificação com o território, fortalecendo, assim, também a
identificação enquanto comunidade.
A participação no Programa de Esporte e Lazer do Ministério dos Esportes (PELC) e
na rede dos Pontos de Cultura, a partir da criação do Ponto de Cultura Enseada das
Canoas aproxima ainda mais os moradores de uma identidade demarcada por suas
práticas e tradições, mas também de seu território. Muitos dos trabalhos e atividades
organizados por esses programas colocavam no horizonte as dimensões da cultura e
da comunidade: o olhar que tinham sobre o território, seu cotidiano, suas práticas e
tradições. As práticas de lazer, o trabalho com a capoeira e o maracatu, a
representação da comunidade pelas crianças a partir da fotografia e da pintura
traduzem esse processo que fortalece uma imagem positiva de si. A inserção na
associação, os projetos desenvolvidos por ela, as questões políticas que emergem do
problema da permanência produzem estratégias de luta ao mesmo tempo em que
reforçam formas de se ver, de se perceber enquanto comunidade. A luta pelo
reconhecimento e registro de suas práticas culturais e de trabalho, mais
especificamente a cultura da pesca e a construção de barcos, como patrimônios
imateriais junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
foi expressão desse momento que mesclou política e cultura (HÜNING;
MESQUITA, 2015).

A necessidade de aliar o ambiente de trabalho ao de moradia, tendo em vista as
diversas dificuldades que a remoção geraria no cotidiano das famílias, somado ao sentimento
de pertencimento ao território e à comunidade, impulsionaram os moradores a lutarem pelo
seu lugar, a lutarem pela permanência no território que viviam e trabalhavam quando se
tornaram mais explícitas as investidas da Prefeitura de Maceió na tentativa de retirar a
comunidade do bairro de Jaraguá.
“A luta pela permanência é que assim como eu, muitas pessoas não queriam sair de
lá, né? Diziam assim: “não, eu não me vejo morando em outro lugar.”. E realmente é tudo
bem diferente. E quando a gente diz que não se vê morando... Você mora todo tempo num
local, e é difícil você dizer que gostaria de morar em outro lugar. Principalmente se você não
vê... Não vê vantagem nenhuma, você vê que só piora a vida do morador. E aí, assim, e não
era só eu, eram várias famílias que pensavam dessa forma.” (Enaura)
“A gente insistia em ficar porque além de ser perto do local de trabalho, era... assim,
é a vida da gente ali, a vida. Porque eu morei trinta e cinco anos ali, quer dizer, a gente tava
acostumado ali: Centro [da cidade] perto, médico, escola, quer dizer, uma vida padronizada,
né? [...] A Prefeitura insistiu em tirar, a gente lutando, passamos uns três anos na Justiça,
né? Ciente que a gente ia ganhar, e permanecer na área e fazer nossas casinhas ali, porque
espaço tem, o terreno é enorme. Inclusive aquele armazém ali dentro, que todo mundo passa

67
ali no Jaraguá e vê o armazém... quer dizer, o armazém não prejudicava? Só a Comunidade
que prejudicava?” (Neide)
A “insistência” em ficar não dizia respeito somente a uma localização cômoda por
estar perto do trabalho – o que já seria motivo suficiente –, mas por uma relação de afeto com
o lugar e com a memória de uma história e de um dia a dia vivido ali. Pelas relações que as
próprias histórias de vida daquelas pessoas tinham com o lugar, bem como de um dia a dia
construído e vivenciado no e a partir do território, da comunidade e de seu entorno. Dizia
respeito à relação de pertencimento daquelas pessoas com o lugar e aos seus sonhos: “o nosso
sonho era ver a nossa Vila ali, feita, era eles fazerem a nossa Vila. Era o nosso sonho. Era
pra isso que a gente tava lutando. [...] Nosso sonho era esse, lutar pra conseguir nossas
casinhas ali, nossa Vila urbanizada.” (Francinete)
A permanência dos pescadores em Jaraguá se justificava, ainda, segundo os próprios
moradores, pela necessidade de vigilância permanente das embarcações, que em mudanças
repentinas do clima e das marés, podem ser danificadas, além do fato de o horário de trabalho
ser indefinido, já que depende do horário da maré para saída dos pescadores ao mar, e da
chegada sem previsão das embarcações com os pescados, que mobiliza toda a comunidade
pesqueira na divisão dos diversos serviços relacionados à pesca (PEREIRA, 2005).
Ignorando os afetos e as necessidades das famílias de pescadores, a Prefeitura
permaneceu investindo na tentativa de remover a comunidade. O que se segue são várias
ameaças aos pescadores, relatadas pelos mesmos durante as pesquisas de mestrado (2005) e
doutorado (2015) do pesquisador Parmênides Justino Pereira. Segundo os moradores,
funcionários da Prefeitura iam à comunidade e afirmavam que os moradores teriam que sair
de qualquer forma, que tudo ali seria derrubado, que quem não fosse para os apartamentos no
Sobral iria para um conjunto no bairro Benedito Bentes, que os pescadores que resistissem
iriam perder o direito aos apartamentos e ficar na rua etc. O medo gerado pelas ameaças
constantes, somado à experiência de 2001, levou muitos moradores a aceitarem a
transferência.
Assim, em 2012, foram transferidas de forma mais ou menos voluntária cerca de 300
famílias de pescadores para o conjunto habitacional Vila dos Pescadores. Mais ou menos
voluntárias porque, somado ao medo diante das constantes ameaças, houve uma série de
relatos de coação nesse processo, desde o período de cadastramento das famílias que seriam
transferidas (entre 2005 e 2007) até o momento da transferência propriamente dita (maio de
2012). Segundo Enaura, muitas famílias aceitaram a transferência com medo de perderem a
luta e, ainda, de perderem o direito aos apartamentos no conjunto habitacional, sua única

68
alternativa caso houvesse a desocupação da área: “Até os que vieram, muitos pensavam dessa
forma [não queriam sair da comunidade], só vieram porque... com medo de perder. Medo de
perder, foi esse um dos motivos pelo qual eles vieram logo na frente.” E eu perguntei: “De
perder a luta pela permanência e não ter o local...?”, no que Enaura continuou: “De perder o
local.”
Restaram em Jaraguá cerca de cento e cinquenta (150) famílias, que seguiam
resistindo e lutando pela permanência no território, o que levou a Prefeitura, em setembro de
2013, a entrar com uma Ação Civil Pública contra a comunidade de pescadores e a AMAJAR,
denominados “Coletividade invasora”, com o intuito de expulsar as famílias restantes e
desocupar totalmente a área. O conflito com a Prefeitura se agrava. Assim, diante da
iminência de uma ação de despejo da comunidade, é criado, em 2014, o Movimento Abrace a
Vila, um coletivo articulado por diferentes atores da sociedade civil que apoiavam a luta dos
pescadores e das marisqueiras, assumindo que a questão da permanência da comunidade em
Jaraguá não dizia respeito apenas aos seus moradores, mas a toda a cidade (HÜNING;
MESQUITA, 2015).
O processo durou até 2015 e procedeu favorável à Prefeitura de Maceió, resultando na
remoção da Vila dos Pescadores de Jaraguá. É sobre esse acontecimento e sobre suas
consequências nas vidas dos moradores que vamos contar a seguir.
4.1 A remoção da Comunidade de Pescadores de Jaraguá
Minha filha, o dia da remoção foi o... Eu posso dizer que foi o pior dia da minha vida.
(Neide)

No dia 16 de junho de 2015, a seguinte mensagem circulava em um aplicativo de
mensagens: “URGENTE: Não transitem amanha, quarta feira, pelas proximidades da favela
de Jaraguá!!! Heitor disse que a partir das 4 da manhã uma força policial composta por Bope,
pm, smtt, etc, irá iniciar a desocupação da favela e retirada dos moradores! Com certeza terá
muito tumulto! Evitem... e avisem aos amigos! Serão interditadas as avenidas: Próximo a
secretária de saúde, o hotel Ouro Branco e adjacências.” (sic) E foi assim que, por volta das
16h, a notícia chegou a alguns moradores da comunidade.
Sabia-se da sentença favorável à prefeitura, referente à reivindicação do território onde
a comunidade se localizava, mas nada havia sido comunicado aos moradores sobre a
execução da sentença. Sem saber da veracidade ou não da mensagem, os moradores buscaram
informações junto ao Ministério Público Federal (MPF) e à Defensoria Pública da União

69
(DPU), que acompanhavam o caso. Nada lhes havia sido comunicado. Cogitou-se que a
mensagem não passava de um boato. Na noite do mesmo dia (16), ainda inseguros com a falta
de informação a respeito da situação, a comunidade entrou novamente em contato com o MPF
e foi através de servidores do órgão que se confirmou: a Prefeitura daria início ao processo de
despejo no dia seguinte.
Ao amanhecer, Jaraguá estava com um cenário diferente: enquanto alguns pescadores
se preparavam para iniciar mais um dia de trabalho e outros aguardavam apreensivos o que
estava por vir, as ruas e vias de acesso à comunidade eram interditadas e recebiam um forte
aparato policial, que começou a chegar na comunidade e em seu entorno por volta das seis
horas da manhã para garantir o sucesso da operação. De um lado, a comunidade de pescadores
e alguns apoiadores de sua luta pela permanência (membros do Abrace a Vila, estudantes e
professores da UFAL etc.), do outro, a Polícia Militar e seus vários batalhões (Batalhão de
Operações Especiais - BOPE, Batalhão de Polícia de Rádio Patrulha - BPRp, Regimento de
Policiamento Montado - RPMon (cavalaria), Batalhão de Polícia de Guardas - BPGd e Centro
de Gerenciamento de Crises, Direitos Humanos e Polícia Comunitária - CGCDHPC), Guarda
Municipal e Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT). A força policial
estava ali para garantir a saída (pacífica ou não) dos moradores; as ruas estavam interditadas
para que o restante da sociedade não assistisse às cenas de violência que se seguiriam. Por
volta das sete horas iniciou-se o despejo dos moradores.
“Minha filha, o dia da remoção foi o... Eu posso dizer que foi o pior dia da minha
vida. Eu não desejo isso pro meu pior inimigo. Porque tava na justiça pra vim, né, só que não
foi divulgado. A decisão não foi dada, assim, não chegou no conhecimento da gente. Foi... Eu
me lembro como hoje, meu Pai. Foi um dia 16 de junho, que... Veio pela internet. A gente tem
uma colega que trabalhava no turismo, ela enviou mensagem no celular que os ônibus de
turismo não passassem por Jaraguá naquele dia, no dia seguinte, né, que ia ser interditado
da Praça da Capitania até o [hotel] Ouro Branco, no começo da Pajuçara, que ia ser
interditado. A gente ficou assustada, sem saber que aquela notícia... A gente pensou que era o
que? Que era boato de internet, que o que mais a gente vê é coisa desagradável na internet.
“Gente, a decisão não veio ainda, então eles não podem fazer isso.”. E falaram que ia ter o
BOPE, que ia ter polícia, forças armadas... A gente pensou que isso não existia, a gente só
via isso, até então, em novela, né? Em novela não, em jornal. A gente pensou que nunca isso
ia acontecer com a gente, né? Aí a gente... nesse dia a gente não dormiu, preocupadas, né?
Quando foi, realmente, quando foi 5 horas da manhã, que eu olho pra Avenida, lá vem o
BOPE. Eu disse “Misericórdia, lá vem os homens de preto.”. Quer dizer, foi um choque pra

70
comunidade. A comunidade toda sem esperar. [...]Aí na hora da remoção foi que veio o
BOPE, aí veio o BOPE, [polícia] militar, [polícia] civil... [comissão] direitos humanos tava lá
e não fez nada, promotor tava lá e não fez nada, advogados... quer dizer, tinha muito órgão
lá. Muito órgão, não era pouco não. Pra defender quem? A Prefeitura. A verdade é essa. Pra
defender o pobre não, pra defender a Prefeitura. Que até quando fala “O Ministério Público
é pra defender quem? O povo.”, mas não, nesse caso defendeu a Prefeitura. Porque eles
falaram o que? Se a gente não saísse ia usar a força policial. E ninguém é doido de enfrentar
o BOPE, até porque tinha criança, né? A minha filha mesmo, na época, há um ano atrás, ela
tava com 8 anos, ela acordou e disse: “Mainha, eu não vou pra escola.”, eu disse: “Você vai,
mainha. A mainha vai levar você pra escola, não se preocupe não. A mainha vai buscar você
11 horas.”. Até então, eu atravessei a minha filha na praça, um monte de policial... Quer
dizer, a minha filha ficou traumatizada.” (Neide)
Aquela manhã foi um choque para a comunidade, que não havia sido informada
formalmente sobre a remoção e não esperava aquela paisagem, preenchida pelos “homens de
preto” que, a serviço do Estado, removeriam suas famílias e demoliriam suas casas. O novo
cenário era quase incompreensível, mais parecia história que eles viam na televisão. Alguns
não acreditavam no que viam, outros não entendiam: '“Para que tanta polícia? Não somos
bandidos, somos trabalhadores!!! Sabemos que temos que sair.”'15 Surpreendia, ainda, que
órgãos que deveriam defender e proteger a comunidade, garantir seus direitos, estavam lá
inertes, assistindo à efetivação de uma grande violência sem fazer nada. Fato é que a decisão
judicial e seu cumprimento não serviram para garantir que ‘a justiça fosse feita’, na verdade,
possibilitaram a efetivação/execução de uma grande injustiça. A remoção dos moradores e a
demolição da antiga comunidade, por mais violenta e injusta que tenha sido, aconteceu dentro
da lei, com o seu aval, demonstrando o “poder-de-violência” do direito e do Estado
(BENJAMIN, 2011).
“Eu lutei, eu ganhei, agora a Prefeitura que roubou o direito que a gente tinha, junto
com a justiça, que é de amizade. Eu posso dizer isso porque pelas reuniões que eu fui, por
tudo que eu vivi, o que eu ouvi, o que os advogados falaram, que a Defensoria da União
falou, que ninguém tinha direito de tirar a gente dali e blábláblábláblá e no final eles tiraram
a força... É revoltante. É revoltante você saber que, assim, eles não tinham argumento pra
tirar aquela comunidade dali, a comunidade é em pouco número mas ela tá unida que não

Fala extraída do texto “Imagens do escuro: reflexões sobre subjetividades invisíveis”, de Andrea Cristina
Coelho Scisleski e Simone Maria Hüning.
15

71
quer sair dali. Aí o que que eles fizeram? Usaram a força. Usaram a justiça. Justiça não,
porque pra mim foi Injustiça, né? Porque a Justiça prevalece e a Injustiça, ela usa o que ela
tem mais de... digamos assim, ela tem mais de ruim, que é a... por trás dos panos, a
corrupção, a mentira... E foi isso que a Prefeitura usou. Não usou de... Porque se for jogar
limpo mesmo, a gente tava lá. As casas da gente tavam feitas lá com dignidade.” (Neide)
Benjamin (2011), em sua crítica da violência, chama atenção para a relação entre
violência, direito e poder. Para o autor, a aplicação do direito tem como fim a instauração e
manutenção do próprio direito e, para chegar a esse fim, usa a violência como meio. Ou seja,
a instauração do direito se dá, necessariamente, através da violência, e a aplicação da
violência instauradora do direito garante o poder.
[...] a violência na instauração do direito tem uma função dupla, no sentido de que a
instauração do direito almeja como seu fim, usando a violência como meio, aquilo
que é instaurado como direito, mas no momento da instauração não abdica da
violência; mais do que isso, a instauração constitui a violência em violência
instauradora do direito – num sentido rigoroso, isto é, de maneira imediata – porque
estabelece não um fim livre e independente da violência, mas um fim necessário e
intimamente vinculado a ela, e o instaura enquanto direito sob o nome de poder. A
instauração de poder é, enquanto tal, um ato de manifestação imediata da violência.
(BENJAMIN, 2011, p. 148)

Para Agamben (2008), os dispositivos jurídicos são dispositivos normativos que
possibilitam um manejo, um ordenamento da vida e da morte e tem, como efeito, a produção
de vidas que têm mais ou menos direitos e que valem mais ou menos do que outras. Em
concordância com o autor, entendemos que o julgamento e a decisão a respeito do caso da
Vila de Pescadores de Jaraguá, seguindo sua lógica normativa, serviu justamente para
enquadrar os moradores, seus modos de vida, como vidas que tinham menos (ou nenhuma)
importância e, por isso mesmo, menos (ou nenhum) direito àquele território. Eram vidas
removíveis, vidas que não poderiam estar naquele espaço, já que ali só deveriam circular as
vidas mais importantes, que realmente tinham direito de estar ali. Nesse sentido, o que estava
em jogo não era simplesmente a aplicação e o cumprimento da lei, mas o manejo dos modos
de vida dos moradores da comunidade, que confrontavam a lógica de investimento e
desenvolvimento urbano da cidade (HÜNING, 2014) Assim, embora existissem dispositivos
legais municipais (Lei orgânica do Município), federais (Medida Provisória n 2.220, de 4 de
setembro de 2001) e internacionais (Convenção Sobre os Povos Indígenas e Tribais, 1989 No.
169) que assegurariam o direito a permanência da comunidade naquele território, o resultado
do processo - juntamente com tantos outros casos de remoção de populações pobres no Brasil
-, nos aponta para a prevalência do interesse econômico em detrimento do aspecto humano no
planejamento das cidades (HÜNING, 2015a).

72
Segundo Foucault (2008), é a partir do final do século XVIII, em decorrência das
aglomerações urbanas que passam a habitar e a dar forma às cidades, que as políticas de
Estado passam a tomar a vida das populações como alvo de investimento, produzindo
estratégias que têm como foco a delimitação de quais modos de vida devem ser investidos e
em detrimento de outros. O governo das vidas se dá, então, a partir da administração e do
controle das formas de viver. Nessa direção, uma série de práticas ocupadas em garantir uma
urbanização eficiente são articuladas no intuito de controlar a circulação dos homens nas
cidades, atuando sobre os modos de vida e de se relacionar uns com os outros e com o espaço.
É o fato de viverem juntos, de se reproduzirem, de necessitarem, cada um de
seu lado, de certa quantidade de alimento, de ar para respirar, viver, subsistir, é o
fato de trabalharem, de trabalharem uns ao lado dos outros, em ofícios
diferentes ou semelhantes, é também o fato de estarem num espaço urbano
de circulação, é (para empregar uma palavra que é anacrônica em relação às
especulações da época) toda essa espécie de socialidade que deve ser tarefa
da polícia[16]. (id., p. 437-438)

Portanto, compreendemos a remoção da comunidade, bem como o resultado na justiça
contrário à sua permanência, não como acontecimentos isolados, mas como algo que é
possível e desejável que aconteça a partir do momento em que elegemos formas de vida mais
ou menos qualificáveis que outras, que elegemos quais modos de vida têm mais ou menos
direitos de habitar a cidade e quais lugares da cidade. O que aconteceu com os pescadores de
Jaraguá deve ser encarado como o resultado, o produto possível e mesmo esperado no modelo
de cidade que vivemos.
“Construí minha família ali dentro, e do nada, ali tudo a nosso favor… Tudo a nosso
favor... a mesma lei que tirou direito da gente. Eu não entendo isso. E ainda mais aquela
humilhação, interditar rua pra ninguém ver o que eles tava fazendo com a gente, disposto a
tudo se a gente reagisse... tenho certeza que até matar, eles ia matar a gente. Foi um
massacre. Pra mim, eu considero aquilo ali um verdadeiro massacre. Porque eles não só
massacraram a Vila, como assassinaram… Eles assassinaram e mataram os sonhos das
pessoas. O meu sonho, de todos nós que távamos ali lutando, foram destruídos por eles. Eles
acabaram com tudo. [...] A gente sentia… Eu mesmo, tanto eu, quanto o restante, sentimos
humilhados, foi um verdadeiro massacre ali, uma humilhação total. Cenas que vamos levar
pro resto da nossa vida. Os nossos filhos vendo tudo aquilo... [...] Só… Na minha mente só
vem choro. Pr’onde olhava era choro. Eu fui… Pronto, quando amanheceu o dia, já tava lá
pra derrubar tudo. Eu fui levar a minha filha no colégio, e ela sem entender o que tava
Sobre o sentido de “polícia” para essa época, Foucault esclarece que ele não tem a ver com o que hoje
entendemos por polícia. No contexto de sua fala, ele é empregado como “conjunto dos meios pelos quais é
possível fazer as forças do Estado crescerem, mantendo ao mesmo tempo a boa ordem desse Estado” (p. 21)
16

73
acontecendo, a minha filha e as coleguinhas dela, a gente foi levar no colégio e aquele monte
de policial lá, e os caminhões encostando, chegando e derrubando, às vezes não dava nem
chance da pessoa sair toda, já era derrubando. A vizinha lá perdeu móveis, mal ela tirou as
coisas já foi derrubando, por pouco não derrubou na cabeça dela o barraco dela. E as
crianças vendo aquilo sem entender. O que mais me chocou, o que mais me chamou atenção
era as crianças chorando. [..] Pra mim, umas pessoas dessa não tem coração. Fazer o que
eles fizeram com criança, jovem, adulto… Destruir a vida de todo mundo assim...”
(Francinete).
E em meio a esse cenário caótico, mães levavam suas filhas para a escola, conduzindoas por entre os policiais armados que, na sequência, as expulsariam e a seus vizinhos de suas
casas ou, no mínimo, estariam presentes para garantir suas saídas. Na volta da escola, talvez,
essas crianças não encontrassem suas casas de pé. Além delas, muitas outras crianças da
comunidade presenciavam aquelas cenas com lágrimas nos olhos. Algumas pareciam não
entender o que estava acontecendo ou por que seus familiares e vizinhos estavam chorando,
gritando, brigando... Algumas crianças ajudavam a retirar os pertences de suas casas, ora
chorando, ora rindo encarando aquilo talvez como uma brincadeira.
E cercada de tudo isso, Dona Lena prendia o choro pra diminuir a humilhação diante
da tragédia que atingia sua comunidade: “No dia da transferência foi uma coisa que chegou
assim, tão de surpresa, que eu não acreditava, entendeu? Eu arrumando as coisas e aí eu
olhava assim “Mas Deus, eu vou ter que ir mesmo?”, eu sempre dizia isso, né? E a meninas
“Mãe...” não sei o que... E o meu filho, ele olhava assim pra mim como quem diz assim “Ela
não tá acreditando ainda”, né? No ditado daí dos jovens, 'não tinha caído a ficha', vamos
dizer assim. Eu não acreditava realmente que eu tava arrumando as coisas pra vim pr’aqui,
entendeu? E aí eu olhava e fui lá na Nau [apelido de Enaura] e eu olhava e dizia “Deus, o que
é isso?” e a gente via um ar de deboche, né? Eu acho que eu posso dizer nesse tom. Um ar de
deboche por parte de uma entidade, que eu não vou citar o nome... Que eles agiam como se a
gente tivesse em área deles, entendeu? E assim, foi uma coisa que me magoou demais isso.
Mas eu fiquei ali, firme, né? Firme e as minhas meninas olhava pra mim como quem dizia
“Eu não acredito, ela é tão... E não chora, nem nada.” Que eu fiquei, olhe, eu fiquei doente
com a retirada. Doente. Porque eu não chorei, eu disse a Deus que eu não queria chorar.
Veja que situação a minha, eu vendo aquilo tudo e eu disse a Deus “Senhor, eu não quero
chorar, eu não quero que ninguém me veja chorando” enquanto as entidades lá que tavam lá
mexendo com a gente, pra que eles não vissem a gente desesperada com as mãos na cabeça,
né? Pra mim, já era humilhação demais. E chorar pra eles presenciarem... Não. Até que um...

74
tinha um policial que ele disse pra... Eu não ouvi ele dizer pra mim pessoalmente não, mas a
menina disse “Irmã, o policial tava chorando.”. Olhe, isso foi... “Tava chorando? Hum,
conta outra.” com as meninas, né. Aí a menina foi e disse assim: “Tava, irmã. Chorando e
dizendo assim, que nunca viu uma coisa daquela na vida dele”. Quer dizer, uma coisa que
tocou o coração do policial... Porque naquele momento ele era O policial, não era o homem,
era o policial. Que tocou o coração do policial ao ponto dele chorar vendo aquela tragédia
toda que tava acontecendo... Porque não tem outro nome pr'aquilo ali, foi uma tragédia que
aconteceu com a gente naquele dia. E você imagine... Aí eu me coloquei no lugar de todos
aqueles moradores ali e então fiquei dizendo “Deus, se um policial, que jura bater, né...”
Eles dizem aí que eles juram bater no pai, na mãe, lá no juramento deles, dizem, é o que
dizem, que eu não sei. Mas ele ficou sensível com a nossa luta, né? Com nosso sofrimento.
Imagine a gente, imagine... E eu disse a Deus desse jeito, Deus sabe que foi assim, eu disse:
“Imagine a gente que tá hoje saindo, imagine o pessoal que lutou, que sofreu junto com a
gente... Como é que não tá o coração desse povo?” Você entende? Então foi uma coisa que...
Mas aí eu não comentei com ninguém, eu guardei só pra mim. Nem à Nau, né, que é uma
pessoa assim, que eu tenho um carinho muito grande por ela, não comentei, guardei só pra
mim. Eu acho que isso me fez... Foi tão forte, Erise, que eu adoeci, entendeu? Porque eu não
contei pra ninguém, eu guardei, eu não chorei... Fiquei indignada, mas assim, né, forte, de
faz de conta. E não contei pra ninguém, entendeu? E aquilo ali, eu fiquei triste, indignada ao
mesmo tempo, por conta daquilo ali. Então a retirada pra mim foi uma coisa desumana.
Desumana, tá entendo? Porque a gente tinha tudo pra estar lá, tinha tudo pra dar certo, né?
Aí a criatura botou a patinha dela lá, né, e acabou que aconteceu o que aconteceu com a
gente. Aí assim, pra mim, a retirada... Acho que foi, fora os acontecidos ‘pessoal’ na minha
vida, né, foi a pior coisa que me aconteceu, foi a retirada da Vila. Porque eu no ultimozinho
que a Nau dizia “Lena, o pessoal tá dizendo que a gente não tem jeito.”, eu dizia “Nau, ainda
há um fio de esperança”. Eu ainda tinha um fiozinho de esperança que a gente... As outras
saíssem e a gente ficasse. Ainda que um número pequenininho, né, pra lutar. Mas não
aconteceu. Pra mim, realmente a retirada foi uma coisa que marcou, marcou muito a minha
vida. Deixaram marcas enormes, né? Marcas muito grandes que às vezes... E eu creio que um
dia isso vai sair do meu coração, nem vou citar... Existe coisas que Deus precisa tirar do meu
coração, porque existe pessoas daquele dia, daquele movimento, que hoje, um ano depois, se
eu ver até na televisão eu me sinto mal. Porque aquela pessoa, eu sei que aquela pessoa fez
parte do meu sofrimento.” (Dona Lena).

75
Sem aviso prévio e sem apresentação de um plano de desocupação (exigido por
determinação da justiça), as famílias foram pegas de surpresa e sequer tiveram oportunidade
de se preparar para a remoção. Algumas famílias foram mesmo acordadas com a notícia do
despejo. “Não é brincadeira... Você dormir no seu cantinho, mesmo sendo num barraquinho
de tábua, mas tinha sua caminha, seu lençolzinho cheirosinho, sua comidinha na geladeira,
tudo bonitinho, e no outro dia acordar com a pessoa lá, batendo na sua porta dizendo que
você não tem direito mais de ficar ali? Assim, de uma hora pra outra...” (Neide) Em algumas
casas, funcionários a serviço da Prefeitura entravam sem grandes critérios e iniciavam a
mudança de qualquer jeito, não dando tempo dos moradores arrumarem seus pertences. As
pessoas, tratadas como entulhos, tinham que ensacar seus pertences em sacos de lixo dados
pelos funcionários. “Eles tavam entrando na casa da gente, fazendo a mudança, e não deu
tempo nem de arrumar as coisas direito. Não tem aqueles sacos de lixo? Eles deram os sacos
de lixo. Quer dizer, tratou a gente como bicho, como se fosse ninguém. Aí é essa a dignidade
que a Prefeitura quer dar?” (Neide).
Não teve diálogo. As famílias receberam, no máximo, oficiais de justiça que chegaram
em suas portas acompanhadas de policiais federais e informaram que dariam início ao
processo de desocupação e demolição das casas. Segundo Scisleski e Hüning (2016), as
oficiais pediam que os moradores se apressassem: '“Se não saírem logo, entra a polícia. Nesse
ritmo de conversa não vamos terminar isso hoje.”' (p. 21). Nesses momentos, mais uma vez
ficava clara a relação de violência que se estabelecia sobre os moradores, em falas que não
dialogavam, apenas informavam em tom de ameaça que aquelas pessoas deveriam sair rápida
e pacificamente de suas casas, para evitar ‘maiores transtornos’. Nessa direção, quando
perguntada sobre alguma memória forte do dia da remoção, alguma lembrança que a tivesse
marcado, Enaura respondeu: “Do dia da transferência, o poder que eles têm, né? Tinha pra
expulsão. E assim, uma coisa que eu não me esqueço é quando uma pessoa que eu não sei se
era juiz, que chegou pra mim e falou assim: “dona Enaura, a senhora vai, o seu povo vai sair
pacificamente, ou não?” Aí eu falei: “não, a gente vai sair.” Então isso foi uma coisa que
doeu bastante. De ver o poder que eles têm sobre a gente, sobre a comunidade. Porque aí,
assim, foi baixinho, pertinho de mim, tinha muita gente em volta, e quando ele perguntou:
“vai sair pacificamente?” Então assim, a gente sabia que se não houvesse esse... Se o povo
de lá não fosse tão pacífico, ia haver uma guerra grande, né? Que ninguém quer perder o que
tem sem uma moradia, um local, sem ter a garantia de que iria ter uma outra, né? Então...”
(Enaura).

76
Segundo Hüning e Mesquita (2015), agentes responsáveis pelo despejo dos moradores
e pela demolição de suas casas utilizavam expressões como “não tem conversa”, “isso já se
arrastou demais”, “não temos mais tempo a perder”, “vocês sabiam que teriam que sair”.
Ainda segundo esses autores, diversas outras violências e violações à dignidade dos
moradores foram impostas naquele dia:
O despejo ocorreu permeado por inúmeras violações de direitos, desde a falta de
aviso sobre a data de sua realização, como a falta de informação de para onde seriam
levadas as mais de 100 famílias que ficaram sem moradia, violações à dignidade,
falta de atenção especial a crianças, idosos, gestantes e doentes, entre outras. (p. 30)

Aproximadamente 150 famílias viviam na comunidade após a última remoção em
2012; dessas, apenas cerca de 25 haviam sido cadastradas pela Prefeitura para receber
moradia nas unidades habitacionais no bairro do Trapiche da Barra. As demais não tinham
para onde ir. A Municipalidade afirmava que essas famílias não moravam na comunidade na
época em que o cadastro foi realizado (2007), o que não correspondia ao relatado pelos
moradores:
Após o despejo das famílias que moravam na favela de Jaraguá, nesta quarta-feira
(17), muita gente ainda não sabe para onde ir. Por ora, apenas as famílias
cadastradas previamente terão direito a moradias no Residencial Vila dos
Pescadores, construído na Praia do Sobral em 2012. Mas não é o caso da maioria.
São pessoas como a dona Maria Cícera. “Isso é um absurdo, eu moro aqui há 33
anos e não tenho para onde ir. Tenho três filhos e eles vão acabar ficando sem
estudar com a mudança”, lamenta.
Eucina Silva também está na mesma situação. Ela vive no local há 30 anos e não
tem outra casa para ficar.
“Eu nasci aqui e não sei mais o que fazer, tenho quatro filhos, um neto, e ninguém
sabe qual será nosso destino. Se não conseguirmos nada, vamos terminar morando
aqui em frente [na Associação Comercial de Maceió]”, disse. 17
Moradora da Vila há 27 anos, a jovem Doriane Lima diz que está temerosa com a
desocupação porque não sabe para onde vai. “A gente não sabe de nada. Acordamos
com esse monte de polícia aqui, como se a gente fosse bandido. Estou preocupada”,
disse Doriane.18
Lidiane Maria da Silva, que morava há 10 anos na Vila, diz que está incerta quanto
ao seu futuro. “Eu sabia que uma hora eles viriam, mas não sabia o dia nem a hora.
Eles poderiam ter avisado. Moro aqui há 10 anos e hoje vão me levar para algum
lugar que ainda não sei qual é, pois eu não tenho para onde ir. Sem falar que tenho
três filhos que estão sofrendo com isso”, destacou. 19
Trecho de reportagem do site de notícias Tudo no Minuto, intitulada ‘Após despejo, moradores da favela de
Jaraguá dizem não saber onde ficarão’. Disponível em: http://tudonominuto.com.br/?p=25513 Acesso em: 16 de
fevereiro de 2017.
18
Trecho de reportagem do site de notícias Cada Minuto, intitulada ‘Famílias deixam Vila dos Pescadores no
Jaraguá após decisão da Justiça Federal’. Disponível em:
http://www.cadaminuto.com.br/noticia/270523/2015/06/17/familias-deixam-vila-dos-pescadoresno-jaragua-aposdecisao-da-justica-federal Acesso em: 16 de fevereiro de 2017.
19
Trecho de reportagem do site de notícias Cada Minuto, intitulada ‘Moradores resistentes lamentam desocupação
após décadas de existência da Vila dos Pecadores’. Disponível em:
http://www.cadaminuto.com.br/noticia/270524/2015/06/17/moradores-resistentes-lamentam-desocupacao-aposdecadas-de-existencia-da-vila-dos-pecadores Acesso em: 16 de fevereiro de 2017.
17

77

A Prefeitura sequer havia informado quais seriam seus destinos. A única notícia que tinham
era de que teriam que sair de suas casas de qualquer jeito.
Por fim, ficaram sabendo que a proposta da municipalidade era de que fossem
abrigadas na escola municipal Nosso Lar, no bairro de Ponta Grossa (distante cerca de 4km
do bairro de Jaraguá). A proposta não foi bem recebido pelos professores, alunos e seus
familiares, já que as atividades da escola teriam que ser suspensas durante a permanência dos
pescadores na unidade. Assim, moradores do bairro organizaram um protesto, impedindo a
passagem de caminhões que transportavam pertences dos moradores. A diretora da escola
afirmava, ainda, que a Prefeitura havia tido tempo para analisar a situação e organizar a
desocupação de forma mais apropriada, disponibilizando um local adequado para abrigar as
famílias que não estavam cadastradas para receber moradia no Trapiche da Barra. Para ela,
abrigar os moradores num local sem estrutura adequada era um desrespeito.20
Diante da reação dos moradores do bairro onde a escola se localizava, a alternativa do
Município, pensada em pleno processo de remoção, foi a escola municipal Senador Rui
Palmeira, localizada no bairro do Vergel do Lago (distante cerca de 4km do bairro de
Jaraguá), que estava com as atividades suspensas, passando por reformas e, assim como a
primeira opção de abrigo, inadequada para alojar os moradores. Esta nova proposta também
encontrou resistência por parte da comunidade escolar, que foi pega de surpresa. A diretora da
instituição alegava que o lugar não estava em condições de receber os moradores e que a
Prefeitura teve tempo para resolver a situação antes. O representante da construtora
responsável pela reforma da escola alertava que caso as famílias fossem alojadas na escola,
parte das obras seriam paralisadas e que, para isso, a Prefeitura teria que se comprometer com
os riscos e ressarcimento dos danos.21 Novamente houve protesto dos moradores do bairro,
que não aceitavam a ida dos pescadores por receio de que as obras da escola atrasassem e
adiassem o retorno das aulas.
O destino dos moradores desabrigados graças a ação da própria municipalidade
permanecia incerto. Após tantas incertezas, improvisado ainda mais às pressas e sem o devido
cuidado e planejamento, o local destinado para alojar os pescadores havia sido definido: no
bairro do Bom Parto (distante aproximadamente 4,5 km de Jaraguá), a creche Tenente
Informações contidas na reportagem ‘Famílias retiradas da Vila dos Pescadores serão colocadas na escola Rui
Palmeira’. Disponível em: http://www.cadaminuto.com.br/noticia/270528/2015/06/17/diretora-de-escola-diz-quenao-tem-condicoes-de-receber-familias-do-jaragua Acesso em 16 de fevereiro de 2017.
21
Informações contidas na reportagem ‘Após despejo, moradores da favela de Jaraguá dizem não saber onde
ficarão’. Disponível em: http://tudonominuto.com.br/?p=25513 Acesso em: 16 de fevereiro de 2017.
20

78
Madalena, uma obra com estrutura inacabada e inadequada para receber quem quer que fosse.
A creche estava abandonada, já que, segundo Pereira (2015), sua inauguração teria sido
vetada por sindicalistas da educação por não possuir estrutura adequada para funcionamento.
Como estava sem uso, seria o espaço ideal para abrigá-las, independente das condições
precárias, já que o mais importante era que sua presença não ‘atrapalhasse’ ninguém. O local
não possuía instalações elétricas ou hidráulicas, que tiveram que ser improvisadas com
gambiarras. Não havia banheiros, o que foi remediado com instalação de banheiros químicos.
Aqui, cabe a pergunta: Se o local não servia para funcionar como creche, devido às suas
condições, por que serviu para abrigar as famílias de pescadores? O tratamento dado a essas
famílias era o mesmo que davam aos entulhos largados em qualquer lugar, desde que não
incomodasse a vista dos que têm direito a circular numa orla limpa, tanto de lixo quanto de
pescadores.
Em meio a essa confusão (que demonstra mais uma vez a violência e o desrespeito
com que a Prefeitura efetivou a remoção da comunidade pesqueira), certas de que iriam para
rua sem qualquer assistência, num ato de desespero e numa tentativa de pressionar a
Prefeitura a atender suas necessidades, parte das famílias ocupou um galpão abandonado
pertencente à Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), que ficava próximo à
comunidade de Jaraguá. Se dirigiram para o local levando seus pertences e contando com o
apoio de pessoas 'de fora' que apoiavam sua luta. Não demorou muito para que a polícia
aparecesse e tentasse intimidar os ocupantes. As famílias resistiam e reafirmavam que só
sairiam dali quando a Prefeitura propusesse alguma alternativa viável.
Infelizmente tivemos que vir pra cá, pois aqui estamos guardados. Nós não somos
invasores, mas estamos sendo tratados assim. Aqui só tem pescadores. Somos nós
quem colocamos a comida na mesa dos ricos. Não merecemos isso. Só saímos daqui
se a Secretaria de Habitação vier e propor pagar um aluguel social digno. 22

O galpão não tinha condições adequadas para que as famílias permanecessem por
tempo prolongado, mas ao menos elas ficariam perto da antiga comunidade, em Jaraguá.
Ajudamos com mantimentos e com palavras de apoio. O fato de estarmos lá, mesmo sendo 'de
fora', parecia dar alguma força para aquelas pessoas já cansadas diante de tantas violências e
injustiças. As famílias dividiram o espaço do galpão montando uma espécie de moradia sem
paredes, com móveis delimitando os limites de cada um. Uma cozinha coletiva foi montada.
O portão do galpão ficou fechado para evitar que a polícia entrasse com facilidade e
promovesse alguma violência mais direta do que a intimidação, mas a tensão era permanente.
22

Fala de morador da antiga comunidade, em entrevista para reportagem do site de notícias Gazeta Web,
intitulada ‘Famílias retiradas da Vila dos Pescadores ocupam galpão da CBTU’. Disponível em:
http://gazetaweb.globo.com/portal/noticia-old.php?c=396932&e=13 Acesso em: 16 de fevereiro de 2017.

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Apesar da situação desconfortável, os moradores preferiam a permanência no galpão a irem
para o abrigo da Prefeitura, pois na creche, além de terem de lidar com as condições
insalubres do local, não poderiam ficar em posse de seus pertences.
Acho melhor aqui (galpão) do que no abrigo porque minhas coisas seriam levadas
para um lugar e eu ficaria em outro. Durante a demolição, perdi um aparelho de som
e uma TV porque parte de um barraco caiu em cima das minhas coisas. Na Vila,
mesmo com a demolição, muita gente ainda procura seus pertences porque não deu
tempo de retirar tudo.23

Mas com a mesma pressa com que retiraram os pescadores da comunidade, retiraram,
também, do galpão ocupado. No dia seguinte (18), enquanto a remoção ainda acontecia ali
próximo, equipes da Polícia Militar foram acionadas para retirar as famílias do galpão.
Policiais, membros da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) e da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB) foram até a área onde o galpão se localizava e tentaram negociar
a saída das famílias de forma pacífica. Mas sabia-se que de forma pacífica ou não, aquelas
pessoas seriam removidas dali. Militares do Regimento de Policiamento Montado (RPMon)
(cavalaria) se posicionaram em frente à entrada do galpão impedindo que mais famílias ou
pessoas 'de fora' entrassem no local, isolando os ocupantes.
Encurralados e sem alternativas que não envolvessem uma expulsão novamente
violenta, os moradores aceitaram ir para o abrigo improvisado, desde que antes fossem
devidamente cadastrados para que futuramente (não se sabia quando) recebessem moradias.
Na sequência, família por família foi se dirigindo até assistentes sociais que realizariam o
cadastro. Cabe ressaltar, aqui, que diferente da força policial, que foi instalada na comunidade
e no galpão, as assistentes sociais convocadas pela Prefeitura estavam em um ônibus mais
distante da comunidade, longe do ‘show de horrores’, realizando os cadastros dos moradores
que, pacífica e calmamente (lê-se intimidados pela força policial) assinassem seus nomes e se
dirigissem para o abrigo.24
Por fim, parte desses moradores foi ou precária e improvisadamente abrigada na
creche municipal, ou se dispersou pela cidade em busca de abrigo em casas de familiares. As
famílias de pescadores que se enquadravam no perfil estipulado em lei para recebimento de
aluguel social foram informadas posteriormente que teriam o prazo de três dias para saírem do
abrigo e alugarem uma casa, recebendo o valor de R$250,00 (duzentos e cinquenta reais) para
23

Fala de morador da antiga comunidade, em entrevista para reportagem do site de notícias Alagoas 24 Horas,
intitulada ‘Vila dos Pescadores: Polícia Militar cumpre reintegração de posse em galpão no Jaraguá’ Disponível
em: http://www.alagoas24horas.com.br/901156/vila-dos-pescadores-policia-militar-cumpre-reintegracao-deposse-em-galpao-jaragua/ Acesso em: 16 de fevereiro de 2017.
24
Informação colhida em postagem da página Abrace a Vila, no Facebook. Disponível em:
https://www.facebook.com/abraceavila/photos/a.1454549081472130.1073741828.1454090561517982/17247609
11117611/?type=3&theater.

80
tal. Esse arranjo seria provisório, até que a Prefeitura finalizasse a construção de moradias no
residencial Parque dos Caetés.
A remoção dos moradores, fossem eles levados para o Trapiche da Barra, para abrigos,
para o Benedito Bentes ou qualquer outro lugar da cidade, foi uma ação arbitrária e injusta,
que prejudicou a vida dos moradores em diversos aspectos, inclusive financeiramente. “Coisa
injusta, você ter suas coisinhas e ir pra abrigo, perder tudo pela tora como muita gente
perdeu... Quer dizer, gente humilde já não tem nada, e perder o pouco que tem é muita coisa,
né? Sem contar com esse conjunto agora, Caeté, que eles [pescadores] vão ter que pagar. É
um absurdo uma coisa dessa. Como é que eles tiram a pessoa da comunidade, né, que tá ali,
não paga casa, não paga aluguel, entendeu como é? Tá ali sobrevivendo porque já tem
aquele orçamentozinho, já sabe o que vai... “Isso aqui é pra feira, isso aqui é pra uma
prestação.”, tá entendendo como é? Aí sai daqui, daquela rotina, e vai pra um conjunto
agora longe, no Caeté, que é no Benedito Bentes... Como é que tiram uma comunidade, seu
local de trabalho, da beira da praia o pescador, e bota pro Benedito Bentes? Isso não existe.
A lonjura que é. Só o rico tem direito a ficar na beira da praia? E fazer hotel, fazer
pousadas? E o pescador? Cadê o direito do pescador de ficar? Aí muitos vão pro Caetés,
muitos ficaram aqui e sem contar que muitos tão no aluguel social. [...] As pessoas vai viver
de aluguel a vida toda?” (Neide)
Para o poder público, pouco importava para onde essas famílias iriam, ou quais as
consequências dessa mudança. O interesse era em atender aos ricos que têm direito à beira da
praia, era em proporcionar ainda mais espaços na cidade que servissem aos donos de hotéis,
pousadas e, claro, às pessoas que, diferente dos pescadores e das marisqueiras, tivessem
dinheiro e poder para frequentar e sustentar a existência desses espaços. Os pescadores
atrapalhavam, empobreciam um bairro com tamanho potencial turístico e econômico. E a
pergunta de Neide ecoa e se mantém no ar: e o pescador? Aparentemente, as famílias da Vila
poderiam passar pelas mais diversas violências e violações, desde que longe dos olhares dos
turistas e dos ‘cidadãos de bem’.
E as violências e violações se seguiam. No a brigo, a situação era desumana: banheiros
químicos sem limpeza e manutenção, ausência de local para banho (que teve de ser
improvisado nos vestiários sem porta do ginásio de esportes ao lado), buracos de galerias de
esgoto abertos, com água empossada e mau odor; falta de água potável, de objetos de higiene
pessoal e de fraldas para as crianças; salas com objetos pontiagudos da reforma inacabada
pondo em risco as famílias; crianças sem ir para escola devido à incerteza daquele cenário.
Para amenizar a situação das famílias, pessoas que apoiavam a permanência da comunidade

81
passaram a levar doações para o abrigo, até que foram proibidas de entrar no local e de levar
os mantimentos por funcionários da Prefeitura. Não havia espaço para todas as famílias e,
para tirar a própria responsabilidade pelo mal planejamento, a Prefeitura alegou que nem
todos ali eram moradores da Vila, o que não era verdade. Cinco gestantes foram
encaminhadas para o abrigo sem qualquer assistência especial, duas delas entraram em
trabalho de parto (incluindo uma adolescente com gravidez de risco), uma permaneceu no
abrigo, onde um berço teve de ser improvisado.
Enquanto

isso, as vinte e cinco famílias anteriormente cadastradas iam sendo

encaminhadas para o conjunto habitacional, onde se depararam com mais situações de
violência: os apartamentos que deveriam ocupar não estavam devidamente preparados para
recebê-las: “quando a gente veio morar aqui [apartamentos no Trapiche da Barra], minha
filha, foi pela misericórdia do senhor. A gente chegou aqui, os apartamentos tinham sujeira
do teto até embaixo, sem porta, sem janela, sem tudo, sem nada! Só as paredes, só as
paredes, só não levaram as paredes porque enfim, acho que não dava… Mas se pudesse,
tinha levado. Tá arrumado hoje porque a gente gastando aos poucos, a gente que fez.
Segundo a fala deles lá, o que eles falaram, do jeito que tá, a gente tem que ir pra lá,
querendo ou não, tem que entrar, do jeito que tá. Então tive que vir, não ia ficar na rua, né,
não ia dar esse gostinho a eles, de perder a nossa moradia pra eles. Como obrigada, viemos.
Mas só Deus e a gente sabe como foi que a gente veio, mas nada pra Deus é impossível.”
(Francinete)
“Os apartamentos não tavam em condição pra moradia. Tava impróprio pra moradia.
Porque do jeito que a Prefeitura fez, colocou a gente, colocou o restante da comunidade nos
apartamentos sem porta, sem janela, sem fiação nenhuma de energia, muitos sem sanitário,
né, com lixo, fezes… Quer dizer, o que mais revolta é isso. Da forma que a gente foi tirado,
como bicho. Como que a gente fosse assim, um bando de animal. […] E outra, ou a gente
vinha pros apartamentos assim, ou senão ia pra abrigo igual os outros. A decisão tava na
gente. O que foi que a gente fez? Como eu e minhas quatro irmãs – somos cinco, né, mas
ficou quatro no mesmo bloco... – Aí eu disse... Eu não queria... Até então, eu disse assim: “Eu
não vou guardar um garfo na minha casa, porque eu não vou pra lá. Juiz, ninguém, justiça
nenhuma vai me obrigar eu ir pra onde eu não quero, ainda mais naquela situação.”, a
minha irmã disse: “Minha irmã, caia na real. Ou a gente vai pra lá... Não tem mais nada que
fazer não. A gente vai pra lá a pulso, ou vai pro abrigo”. Eu não ia pra abrigo com meus
filhos. Como é que eu ia pra abrigo com dois filho? Aí o que foi que a gente fez? A gente se
reuniu, viemos limpar o apartamento... Tanto é que não deu chance pra gente nem limpar o

82
apartamento direito. A verdade era essa. Você imagina, você gastar dois baldes de cloro
puro, em pó, pra limpar, e não sair a inhaca do mau cheiro do apartamento e ser obrigada a
entrar do jeito que tava. Eu mesma passei três dias com o compensado na porta, porque eu
até então tava sem chão, sem saber o que fazer. Tanto é que eu botei, vim...” (Neide)
Neide complementa, ainda, que os apartamentos não foram construídos de acordo com
o que havia sido apresentado no projeto: “Pra quem tá de fora é muito fácil ver ‘Ah, a
Prefeitura tá dando moradia digna’. Não! Ali tá dando nada, é obrigação dela. Se a verba
veio, foi pra ela fazer o benefício pro povo, pra comunidade. E isso aí, não fazem benefício.
Não faz. Porque se for ver o projeto do começo, esses apartamentos era três quartos, sala,
cozinha e área de serviço. Não tem área de serviço. Tem só a cozinha, dois quartos, o
banheiro... e onde é que tá a área de serviço e o outro quarto? Quer dizer, são coisas que se
for mexer mesmo, aí diz que é mentira.”
E na comunidade, a remoção continuava. Uma mulher com criança no colo foi
agredida25, idosos também.26. Em alguns momentos, bastava que algum morador aumentasse
o tom de voz ou questionasse a ação dos ‘homens de preto’ para serem ameaçados ou mesmo
violentados de alguma forma. Alguns moradores que tentavam desesperadamente retirar
materiais reaproveitáveis de suas casas, como telhas, portas e janelas, e até mesmo bens
pessoais, foram impedidos pela equipe que executava o despejo e a demolição das casas. Os
policias chegavam a ameaçar dar voz de prisão enquanto os moradores pediam apenas tempo
para retirada de seus pertences. Algumas dessas pessoas sequer sabiam que suas moradias ou
lojas faziam parte do território a ser desocupado, mas também tiveram que sair às pressas,
muitas vezes deixando para trás objetos de valor material ou sentimental. (PEREIRA, 2015).
Toda essa violência se estendeu também à Mãe Vitória, que não era marisqueira, mas
tinha seu templo religioso de matriz africana no mesmo território da comunidade. O templo,
que em outros tempos havia servido de espaço para realização de atividades do Ponto de
Cultura da comunidade e para reuniões da AMAJAR era, agora, invadido a base de
cotoveladas e empurrões por policiais que levantaram seus santos e demoliram o terreiro.
Assim como em tantas casas pela comunidade, os funcionários da Prefeitura iniciaram a
demolição enquanto ainda tinham pessoas e objetos dentro da casa, inclusive imagens e
utensílios sagrados. Mãe Vitória lamentava, entre lágrimas: “Mais um ato de intolerância. A
25

Informação colhida em postagem da página Abrace a Vila, no Facebook. Disponível em:
https://www.facebook.com/abraceavila/photos/a.1454549081472130.1073741828.1454090561517982/17247609
11117611/?type=3&theater.
26
Informação colhida em postagem da página Abrace a Vila, no Facebook. Disponível em:
https://www.facebook.com/abraceavila/photos/a.1454549081472130.1073741828.1454090561517982/17247609
11117611/?type=3&theater.

83
abordagem foi feia, eles não quiseram acordo! Um desrespeito... O que a prefeitura fez lembra
100 anos atrás, mais uma vez o Quebra!”27. A intolerância religiosa se encontrava com outras,
que tinham também destino certo: as negras e os negros, trabalhadoras/es da pesca ou não,
religiosas/os de qualquer matriz e segmento. E o ponto em comum era a intolerância à
pobreza. Porque, respondendo à pergunta que Neide fez há pouco: sim, para esse modelo
excludente de cidade, só o rico tem direito a estar na beira da praia. De preferência o rico
branco e cristão.
E alheios a todas as violências que se seguiam, os órgãos envolvidos na desocupação,
assim como boa parte da mídia, afirmavam que a operação estava acontecendo como previsto,
pacífica e organizadamente. Mas na verdade, a total falta de planejamento da Prefeitura ficava
clara a cada família que não sabia para onde ir, a cada criança que presenciava aquelas cenas e
chorava de tristeza e medo, a cada pertence perdido e destruído junto com as moradias. E de
todo modo, “ninguém é doido de enfrentar o BOPE”, como já pontuado por Neide. Foram três
dias de expulsão e demolição. Três dias de violência contra aquela comunidade.
E enquanto os pescadores e as marisqueiras eram submetidos a todas essas violências,
no grande estacionamento de Jaraguá iam sendo finalizados os últimos ajustes para realização
do principal evento de São João da cidade, promovido pela Prefeitura de Maceió, que teria
início no dia vinte (20), um dia após a finalização do processo de remoção e demolição da
comunidade, e se estenderia até o dia vinte e nove (29). Se há poucos dias circulava a
mensagem de alerta urgente aos cidadãos de bem para que não transitassem por Jaraguá e
proximidades, já que haveria muito tumulto devido a desocupação da ‘favela’ e remoção dos
moradores, agora a mensagem era de convite ao bairro, devidamente higienizado com a
remoção da ‘favela’ e dos ‘favelados’, para aproveitar as festivas noites juninas.
Durante o evento, o espaço do estacionamento ganhou reforço na iluminação e no
policiamento para passar a sensação de segurança ao público e o bairro se encheu de gente.
Mas não era gente da comunidade, eram, em sua maioria, visitantes de outros bairros e
turistas, que estavam ali apenas para aproveitar os dias festivos e depois seguiriam para seus
territórios, enquanto Jaraguá seguiria vazio, escuro e perigoso para os pescadores, para as
marisqueiras e para os moradores dos arredores. Nos dias que se seguiram, durante a festa,
centenas de pessoas se divertiam, enquanto circulava um panfleto, produzido pelo Movimento
Abrace a Vila, com o seguinte texto:
27

Depoimento recolhido da página Abrace a Vila:
https://www.facebook.com/abraceavila/photos/a.1454549081472130.1073741828.1454090561517982/16090416
46022872/?type=3&theater

84
A festa está bonita? Não para as 119 famílias 28 que, há exatamente uma semana,
foram expulsas de forma perversa pela PREFEITURA DE MACEIÓ, bem aqui ao
lado. Para quem não sabe, esse projeto de remoção da tradicional Vila dos
Pescadores de Jaraguá não é para o bem de “todos”, muito menos dos pescadores e
das marisqueiras, que foram violentamente retirados de suas casas e rotina de
trabalho.
O proclamado Centro Pesqueiro, da Prefeitura, veio para atender interesses privados
de um grupo muito específico, tratorando as necessidades básicas de quem de fato
merece – porque precisa – desse pedaço de terra.
Não deixaremos que isso caia na impunidade! A Vila dos Pescadores é a
história viva da nossa cidade massacrada sob nossos olhos!

Esse cenário festivo nos faz lembrar a narrativa que Primo Levi (1990) faz sobre uma
partida de futebol que ocorreu em um dos campos de concentração de Auschwitz. Os times
eram formados entre membros da esquadrilha de proteção nazista (exército nazista) e
representantes do “esquadrão especial” (como era conhecido um grupo formado por
prisioneiros do campo que ficavam responsáveis pela gestão das câmaras de gás e dos fornos
crematórios). Levi narra: “[...] à partida assistem outros soldados SS e o resto do Esquadrão,
torcendo, apostando, aplaudindo, encorajando os jogadores, como se a partida se desenrolasse
não diante das portas do inferno, mas num campo de aldeia.” (LEVI, 1990, p. 29).
Na festa de São João em Jaraguá, as pessoas dançavam e assistiam às apresentações
das quadrilhas juninas e aos shows, sem se dar conta ou ignorando a grande violência que há
poucos dias tinha acontecido bem ali ao lado. A vida seguia em sua normalidade.
Sobre a narrativa de Levi (1990) – e trazemos para o contexto da festa junina em
Jaraguá – Agamben pontua:
Essa partida poderá parecer a alguém como se fosse uma breve pausa de
humanidade em meio a um horror infinito. Aos meus olhos, porém, como aos das
testemunhas, tal partida, tal momento de normalidade, é o verdadeiro horror do
campo. Podemos, talvez, pensar que os massacres tenham terminado – mesmo que
cá ou lá se repitam, não muito longe de nós. Mas aquela partida nunca terminou, é
como se continuasse ainda, ininterruptamente. Ela é o emblema perfeito e eterno da
“zona cinzenta” que não conhece tempo e está em todos os lugares. Dela provêm a
angústia e a vergonha dos sobreviventes [...]. Mas dela também provém a nossa
vergonha, de nós que não conhecemos os campos e que, mesmo assim, assistimos,
não se sabe como, àquela partida que se repete em cada partida dos nossos estádios,
em cada transmissão televisiva, em cada normalidade cotidiana. Se não
conseguirmos entender aquela partida, acabar com ela, nunca mais haverá esperança
(AGAMBEN, 2008, p. 35).

Eu estava entregando os panfletos durante a festa. Lá, encontrei pessoas conhecidas e
elas lamentaram a remoção dos pescadores enquanto aproveitavam a festa. Após entregar os
panfletos, pensei em ficar um pouco, me distrair. Fiquei por algum momento, mas logo me
senti mal e fui embora. Eu me sentia culpada por ter uma casa para voltar. Me sentia culpada
por estar me divertindo (ou tentando me divertir) enquanto os pescadores e as marisqueiras,
28

Lê-se 150 famílias. Houve desencontro de informações quanto ao número de famílias exato.

85
expulsos de seu território, tentavam recomeçar suas vidas. Esses massacres, dos quais nos
falam Levi (1990) e Agamben (2008) se repetiram aqui, não muito longe de nós.
Aconteceram com essa comunidade de pescadores. Seus efeitos seguem, sua violência segue
ininterruptamente. E é sobre os efeitos desse massacre que falaremos a seguir.

4.2 Um território sem sua comunidade
Com a remoção da comunidade, o que restou em Jaraguá foi um grande vazio. O
bairro, que antes contava com a presença de um povo que carrega consigo parte da história da
cidade, agora parecia morto, assassinado. “Na verdade, eles assassinaram o Jaraguá, o
Jaraguá tá assassinado, foi assassinado, né. Porque quando eu desço pra trabalhar lá, que
eu pego o ônibus, é muito esquisito a rua. Esquisito. Um pé de pessoa não tem mais na rua.
[...] Quando a Vila morava… Até pessoas que trabalham lá próximo, já ouvi da boca de
pessoas que moram lá, que diz que quem dava vida ao Jaraguá, quem dava vida ao Jaraguá
era aquela Vila. Depois que a Vila saiu dali, acabou-se Jaraguá. Jaraguá morreu depois que
a Vila foi retirada dali. Eles assassinaram a Vila, a Vila saiu, Jaraguá morreu.” (Francinete).
O uso dos termos ‘morto’ e ‘assassinado’ não aparecem aqui por acaso, como mera
escolha estética ou sonora. O termo que Francinete trouxe numa narrativa carregada de
indignação e tristeza aparece também em nossa escrita para demarcar a ação de alguém sobre
um outro; nesse caso, a ação da Prefeitura de Maceió sobre os pescadores e sobre o bairro de
Jaraguá. Chamamos atenção para a responsabilidade da ação do despejo e para suas
consequências na vida daquelas pessoas, no cenário do bairro e da cidade e denunciamos a
violência que aconteceu e que vem acontecendo. A Vila foi assassinada e, com isso, Jaraguá
morreu.
O que dá vida aos lugares são as pessoas que o habitam e circulam por ele. São as
pessoas que, na relação com seus semelhantes, ocupam os espaços e lhes dão significado,
afeto e uso. Sem isso, um lugar é apenas um espaço sem qualquer singularidade; na verdade,
deixa de ser lugar. Marc Augé (2008) em sua análise acerca do chamado lugar antropológico,
afirma que é a presença do homem (dele mesmo e dos outros com quem convive no lugar)
que qualifica o espaço e define o lugar, chamando atenção para sua natureza identitária,
relacional e histórica. E é na relação com o lugar e com as pessoas com quem aí convive que
os sujeitos se reconhecem, se constituem e reconstituem, numa experiência estratificada pelo
tempo.

86
Segundo Cavalcanti (2012), o lugar é uma porção do espaço qualificada e significada
pelo homem quando ele a escolhe, em meio a outras porções do espaço, para o seu “habitar no
mundo”. Segundo a autora, pode-se dizer que o lugar é, na verdade, fundado pelo homem no
momento em que por ele é habitado e que se estabelecem vínculos afetivos.
Essa porção do espaço é qualificada pelo homem quando ele a destaca em meio às
inúmeras outras porções de espaço; quando lança sobre ela o seu olhar, dotando-a de
significado, e quando nela se instala, escolhendo-a para o seu habitar no mundo. De
diversas maneiras, portanto, podemos dizer que o homem funda o lugar. Quando o
habita, certamente, mas também quando estabelece outros tipos de vínculo afetivo
[...]. (CAVALCANTI, 2012, p. 22)

Quem dava vida ao Jaraguá eram os moradores da Vila, eram as pessoas ‘de fora’ que
frequentavam a comunidade e que desenvolveram relações de afeto e solidariedade com seus
moradores. Quem dava vida ao bairro eram os eventos culturais organizados pela AMAJAR e
pelo Ponto de Cultura, que levavam capoeira, coco de roda, dança afro e diversas outras
atividades para o interior da comunidade e, tantas vezes, de dentro da comunidade para a
pista, para as praças, para o restante da sociedade. As praças geralmente vazias de gente
ganhavam cores, sons e danças com a presença dos pescadores e das marisqueiras. Quem
dava vida ao bairro era também o som dos tambores tocados pelas crianças do Maracatu
Mirim da Vila e a vendinha do ‘seu’ Dioclécio’, ponto de encontro ideal para tomar uma
cachacinha caseira “pra esquentar o sangue”, segundo o mesmo.
A praça em frente a comunidade ganhava vida quando ocupada pelos moradores e
pelos visitantes que se encontravam para abraçar a luta pela permanência da comunidade, nos
eventos organizados pelo Abrace a Vila, virando palco de diversas atrações e apresentações
de artistas do estado que apoiavam a comunidade. Mas isso não foi considerado no projeto de
revitalização do bairro e tudo isso acabou. A Prefeitura assassinou a comunidade e, com isso,
o Jaraguá. O lugar se tornou, silencioso, deserto, frio. “Com essa retirada, Jaraguá… Eles
sempre falam em revitalizar Jaraguá, mas isso não existe, é só no papel deles, porque com
essa retirada da comunidade, Jaraguá tá morto.” (Neide). Com a remoção, o bairro se
modificou. Aliás, foi modificado por uma urbanização higienista e ‘turistificante’, que além
de tirar a comunidade de seu território, afastou das ruas os moradores das proximidades.
As pessoas quase não circulam mais por Jaraguá. Quando circulam, têm de passar por
entre as ruas vazias do bairro, com medo, já que agora, com a remoção da comunidade que
dava vida ao lugar, se sentem inseguras. “Lá, quando a Vila existia, lá era seguro, agora não
é mais não. [...] Na semana que a Vila foi retirada, menos de um mês, aí começou assalto lá,
assalto constante lá em Jaraguá. As ruas sem segurança. Você chega lá cinco horas, seis
horas no ponto de ônibus e não tem um pé de pessoa na rua, eles ficam com medo. Eu mesma

87
dou graças a Deus quando passa uma lotação que eu pego e venho embora, porque Jaraguá
não é mais o mesmo. Morreu! Morreu! Sabe o que que é morreu? Um cemitério. É, um
cemitério tá com mais vida do que Jaraguá. E não é dito só por mim, porque eu saí de lá não.
Eu escuto isso da boca de pessoas que moram lá, de moradores lá da proximidade de lá, que
falam pra mim. Não só pra mim, mas como pra outras pessoas. Relatam que o assalto lá tá
constante, aumentou o número de assalto, não tem mais segurança.” (Francinete). E Neide
complementa: “Se você chega lá sete horas da noite, tá um deserto, chega faz medo você
passar por Jaraguá. Ali da capitania até o porto, não vê um vivente. Um vivente ninguém vê,
a não ser os pescadores que vêm de madrugada, de bicicleta, arriscando a sua própria vida,
né, pra pescar…” (Neide).
A saída da comunidade do bairro mudou completamente o cenário de Jaraguá, mas
mudou ainda mais a vida dos pescadores. E é sobre essas mudanças que falaremos a seguir,
contando um pouco sobre a vida dos pescadores longe de Jaraguá.

4.3 Uma comunidade sem seu território

Se antes os moradores se sentiam seguros em seus locais de moradia e trabalho, só
precisando andar de casa até a praia para dar início aos seus labores diários, sem riscos, agora
têm que se expor aos perigos que o caminho entre o Trapiche da Barra e Jaraguá lhes impõe
diariamente, já que o trajeto entre os bairros é bastante deserto e inseguro, com relatos
frequentes de assaltos. Como os pescadores não têm horário certo para trabalhar, dependendo
das condições de tempo e maré, têm muitas vezes que se deslocar durante a madrugada,
quando o percurso é ainda mais vazio e arriscado, além de mal iluminado. Um novo cenário
para uma comunidade que está, agora, longe de seu território.
“De lá pra cá [de Jaraguá para o Trapiche da Barra], da [Lojas] Americanas pra cá é
risco. Tem uns pontos de ônibus ali que se você vem só… É pé de amêndoa, ali se esconde o
que não presta. Muitos… O marido da minha irmã já foi assaltado, várias gente já foi
assaltado quando vinha do Jaraguá. Levaram bicicleta, levaram o peixe, o próprio peixe que
o menino trazia pra casa, levaram dinheiro... E aí? Várias pessoas, tem várias pessoas com
relatos que já foram assaltadas ali. Meu cunhado foi um deles. Fora as carreiras que o povo
leva quando consegue ver, perceber que vai ser assaltado e consegue correr, né, e quando
não consegue, é assaltado. Aí, isso pra eles é o que? Dignidade, é? Botar a vida do ser
humano em risco?” (Francinete).

88
Os moradores que saem do residencial Vila dos Pescadores em direção a outras
localidades da cidade, que não o Jaraguá, também são expostos aos perigos das proximidades.
Não existe linha de ônibus que passe em frente ao residencial. Por esse motivo, os moradores
precisam se deslocar até o ponto mais próximo, distante aproximadamente um quilômetro
(1km) do residencial, cerca de quinze minutos andando a pé, sendo obrigados a passar por
ruas pouco movimentadas, mal iluminadas à noite e com assaltos frequentes. “O risco de vida,
que também é bem complicado. A gente morando em Jaraguá não se falava que as pessoas
foram roubadas. Aqui todo mundo falando “ah, me levaram o celular”. Por quê? Porque
quem trabalha ou quem estuda tem que descer no Trapichão [como é conhecido o Estádio Rei
Pelé] e vir todo esse percurso que é bastante longe. Eu não sei a distância, não sei falar
assim a distância, mas é bastante longe vir do Trapichão até aqui. Então 10h da noite, 23h,
21h30... Dependendo do horário... Eu mesma faço esse percurso todos os dias quando venho
da faculdade, e é bastante complicado.” (Enaura).
Além das dificuldades encontradas para o deslocamento até o trabalho, Neide fala
também da dificuldade para ir até a igreja que frequentava e do quanto sente falta de sua
rotina religiosa: “E também que eu mais senti falta em Jaraguá foi a igreja, porque assim, lá
na favela, entrava só duas pistas e tava na igreja. A gente saía, ia pra praia, quando chegava
quatro, quatro e vinte, quatro e quarenta, a missa era de cinco, a gente tomava banho
rapidinho, atravessava a pista e tava na igreja. Quer dizer, a gente nunca perdia uma missa.
E aqui, no Trapiche, só a distância da gente ir pra [Igreja] São José, pegar essa rua do
Pronto Socorro, que é um perigo, assalto direto... Que a violência tá em todo canto, se a
gente vai pela frente aqui do Pronto Socorro, é assalto, se vai atrás, aqui pela distribuidora,
também é assalto, e ainda é pior. Quer dizer, a gente fica até a mercê dos bandidos, né.
Enquanto eu morei trinta e cinco anos em Jaraguá, graças a Deus, nunca fui assaltada,
nunca.”
Para o Estado, não é um problema a vida dessas pessoas estarem em risco, já que,
como pontuado anteriormente, são vidas menos importantes e que valem menos que outras.
Vidas dispensáveis e, por isso mesmo, extermináveis no que diz respeito ao seu corpo, mas
também ao seu modo de vida, sua cultura. Os pescadores e as marisqueiras são o que
Agamben (2010) chama de “vidas nuas”, ou seja, vidas desprotegidas que podem ser expostas
à morte, vidas matáveis. São vidas que não cabem em nosso modelo de sociedade e cidade.
Ou cabem, desde que em seu ‘devido lugar’. Lugar esse que é afastado, escondido dos olhos
das outras vidas mais importantes e de maior valor. Vidas que ocupando seu devido lugar, tem

89
a importância restrita de permanecer aí e abastecer a mesa dos ricos com seu trabalho pouco
valorizado e suas vidas desimportantes.
Além do problema da insegurança, o deslocamento afeta diretamente o orçamento das
famílias dos pescadores, que para seguir com seus labores diários precisam, na maioria dos
casos, gastar com transporte o pouco dinheiro que recebem. Tem também o gasto com
deslocamento das crianças para a escola, já que boa parte delas estuda nas proximidades de
Jaraguá. “Eu posso dizer assim, que lá em Jaraguá nunca me faltou nada, a verdade é essa.
Porque tudo que a gente queria “não, hoje, eu vou trabalhar e comprar isso”, a gente
batalhava e comprava. E aqui no Trapiche não. A gente tem que descer, tirar dinheiro de
passagem, né. Quer dizer, aumentou orçamento de passagem, aumentou colégio, é pagar
transporte pra menino... Quer dizer, aumentou tudo. Quer dizer, se eu gastava cento e
cinquenta lá por semana, aqui eu vou gastar trezentos, quatrocentos. Quer dizer, passar
necessidade, a verdade é essa.” (Neide).
Enaura fala sobre as diversas dificuldades que os trabalhadores da pesca têm
enfrentado após a remoção: “Bom, a gente sabia que ia ser bastante difícil, né? Ia ser
bastante difícil pra aqueles que dependem da pesca sair daqui do Sobral todos dias. É o que
tá acontecendo. Sair do Sobral pra ir pra Jaraguá é sair de madrugada, é arriscar a vida, é o
cansaço, né? Tem pessoas que realmente, assim... A gente já soube... aqui já teve vários casos
de pessoas terem derrame, de ter problema de coração, chegar a morrer... Acho que se dá
também por esse esforço que não se tinha. Você passa a sua vida toda... acorda e vai fazer
aquele trabalho, mas que você não tem o esforço de sair, de se deslocar daqui pra Jaraguá,
principalmente de bicicleta. De madrugada é mais bicicleta. [...] Não tem linha de ônibus, aí
as vezes de moto ou de coisa [lotação], mas pra quem já roda o dia todo aí não faz a lotação
de manhã, de madrugada. Então já é bem difícil. Carro, moto, é bem difícil, mas eles tão
fazendo esse trabalho, então é bastante difícil. [...] Acho que pior do que o custo, é o esforço.
A gente vê... a maioria deles sai 4h da manhã, 4h30, pra voltar 10h, 11h, no sol quente. [...]
Teve um casal que teve AVC um e depois teve o outro, a gente acha que é o esforço, acha que
você... Pra ele e ela que vendiam o peixe na balança, aí passaram a comprar comida feita,
tudo isso já muda. Você já come sal demais, você já não faz... E toda aquela pressão de
você... É brincadeira você ter... Assim, eu sei que muita gente sai de casa de manhã e só volta
à noite. Eles já têm o costume. Mas pra pessoa que tem filho... E a maioria que é assim, nem
tem filho, né? Quem tem essa rotina que já casa e tem essa rotina, às vezes não quer nem
filho, porque sabe que não tem ninguém que cuide. Mas a pessoa que tem filho, sai de manhã
daqui, vai pra Jaraguá e passa o dia todo e só volta a noite, é bem complicado. Não tem

90
como vir. Você vem: você perde de vender. Você vem pra casa... Se você vem de lá pra cá
almoçar, e aí bate aquela preguiça, você não tem nem coragem de voltar mais. [...] Mais o
custo. Então as pessoas que... Pior que o custo é todo o sacrifício que a pessoa faz, o
cansaço. As pessoas tão estressadas demais, tão doentes, ficaram doentes por conta disso.
[...] Então a permanência lá era pelas dificuldades que a gente sabia que quando começasse
a derrubar tudo, ficaria bem difícil de tá se deslocando todos os dias e aí ter que ir de manhã
e só voltar à noite. Você dizer que ganhou um apartamento que você vem só pra dormir, é
bastante complicado. Então você tem gasto da passagem, você tem o gasto do almoço, você
tem o gasto do lanche... Você já ganha pouco e você gasta quase tudo em passagem, em
comida, porque você não consegue nem cozinhar pra si próprio. [...] Tem todas essas
dificuldades. Fora o risco de vida, que também é bem complicado.”
Enaura sinaliza que para além das questões financeiras, há uma outra dimensão do
sofrimento, que é ainda pior: o sofrimento gerado pelo esforço e pelo sacrifício que as
famílias agora são obrigadas a vivenciar diariamente. Demarca-se, aqui, uma violência que se
efetiva sobre um outro, sobre um modo de vida e de organização das rotinas familiares e de
trabalho. Uma violência que conduz essas famílias a terem suas rotinas modificadas e
prejudicadas, já que agora têm seu dia a dia dividido entre seu local de trabalho - para onde
precisam ir mesmo enfrentando diversas dificuldades - e seus apartamentos - que não são
lugares de viver, de morar, mas apenas de dormir, já que passam o dia em Jaraguá.
As dificuldades enfrentadas também dizem respeito ao fato de que, precisando do
espaço para o trabalho, cotidianamente se deparam com a dor de permanecer o dia no local do
qual foram expulsos, de passar o dia trabalhando ali, mas não terem mais suas casas no
mesmo território, não terem mais nem acesso ao lugar ao qual ainda se sentem pertencentes:
“A gente veio aqui em junho, 18 de junho a gente se mudou, mas a ficha não caiu ainda. Juro
a você, a ficha não caiu. Quer queira quer não queira, todos os dias eu tô em Jaraguá, eu
passo o dia todinho lá e só venho pra cá dormir. Adiantou alguma coisa se mudar pra cá?
Mudou em que? Eu sempre digo “Não, minha casa é lá em Jaraguá.”, porque eu passo o dia
todinho que Deus deu. Só venho pra casa dormir. Seis, sete horas da manhã, eu desço de
novo. Eu posso dizer que eu moro no Trapiche? Não. Eu tô o dia todinho em Jaraguá, então
por eu tá trabalhando lá todos os dias, então pra mim é mais doloroso. Em passar lá pela
frente da comunidade e saber que a gente ficava na calçada sentada conversando, é saber
que hoje em dia a gente pode nem pisar, porque é tudo cercado agora. Quer dizer, morei
trinta e cinco anos num local e hoje em dia posso nem pisar onde eu passei a minha vida
toda, é revoltante. É revoltante uma coisa dessa.” (Neide).

91
As condições de trabalho também impõem dificuldades aos trabalhadores da pesca,
demonstrando, mais uma vez, o descaso do Estado com essas pessoas, com seus modos de vida
relacionados à pesca: “Local de trabalho lá não tem estrutura nenhuma. Estrutura nenhuma
tem o local de trabalho lá. O... É pequeno demais pra guardar o material do pessoal pra
trabalhar. Muita gente já fez puxado pra poder as marisqueira não tirar os camarão no sol.
Não tinha água encanada. Depois de muito reclamar foi que botaram água encanada. Mas
nem em todo canto chega. É. Horrível, minha filha. É uma condição sub-humana.”
(Francinete). De fato, essas pessoas são tratadas como sub-humanas, como vidas menos
humanas porque são menos importantes, como pontuamos.
Um dia a dia que já não era fácil, agora tem suas dificuldades dobradas devido a uma
intervenção irresponsável e descompromissada com a realidade da comunidade. “A luta
dobrou. A luta aqui [Trapiche da Barra] é mais. A batalha é maior ainda. É justo você sair
daqui, sair de casa, seu local de trabalho não ser próximo? Aí você é removida pra um lugar
que pra você ir trabalhar, não tem condições, não tem carro pra lá a não ser que você pague.
Muita gente vai a pé, aí vai a pé daqui pra lá, aí chega lá, passa o dia todinho sentada
tirando camarão, aí quando vem cansada do dia a dia, do dia que tava sentada tirando
camarão, voltar a pé de novo? Tem gente que diz “Ah, é bom que faz caminhada”. Sim,
caminhada quando você está na sua casa repousando e você vai caminhar pra sua saúde,
mas pra ir trabalhar? Chegar lá cansada? Nem descansar e já pegar no camarão, e depois
voltar de noite pra casa, a pé? Correndo o risco de ser assaltada?” (Francinete).
A intervenção da Prefeitura mudou radicalmente a vida dessas famílias, prejudicando a
comunidade em diversos aspectos. O Poder Público, que deveria zelar pelo bem-estar da
população, ofertando condições realmente dignas para o povo, não só de moradia e trabalho,
mas de segurança, transporte, educação, lazer e vários ‘etcéteras’, é, na realidade, o
responsável

por

criar

situações

que

fazem

essas

pessoas

passarem

por

dificuldades/necessidades que antes não passavam. E é importante ressaltar, ainda, que se
trata, sim, do celular, da bicicleta e do peixe que foram roubados, da insegurança e do risco
constantes, do deslocamento desgastante que prejudica no trabalho e no orçamento, da
restrição na mobilidade urbana e de uma série de outros fatores. Mas se trata também (e talvez
principalmente) das violência e agressões à dignidade dessas pessoas. Os problemas narrados
por essas mulheres dizem respeito a um cotidiano que foi transformado contra a sua vontade,
abrupta e violentamente. E a pergunta de Francinete ecoa: isso é dignidade?
Francinete desabafa: “É, Erise, é a realidade. Do nada você vê sua vida transformada.
Da noite pro dia. Quando é você que muda, você opta por aquela mudança, aí é você que tá

92
optando por aquilo. Se for bom ou ruim, mas foi você que optou. Mas quando é os outro que
toma decisão por você... Então quer dizer que o ser humano, a vida do ser humano não vale
nada? Não tem… Eu também tenho sentimento, eu também tenho pensamento. Eu preferia ter
optado, assim, eu ter optado, mas não os outro escolher ou optar por mim. Que falta de
respeito é essa? Onde é que ficou o respeito pelo ser humano? Pelo próximo? E aí?”
(Francinete). As vozes dessas pessoas foram extremamente negligenciadas e silenciadas,
enquanto um outro falava em seu lugar e em seu nome, tomando decisões que afetavam as
suas vidas e seu cotidiano.
Se a Prefeitura alegava que o projeto de revitalização elaborado para a comunidade
tinha como prioridade o bem-estar dos moradores, proporcionando condições de moradia e
trabalho dignas, o que vemos na prática é bem diferente. Antes de mais nada, o projeto não foi
elaborado para a comunidade, mas sim para atender demandas do turismo, como já
pontuamos. Não sendo para a comunidade, não foi discutido e elaborado com ela, não teve
participação dos pescadores e das marisqueiras, nem do restante da sociedade civil. Sem as
vozes e mãos dos moradores, o projeto não atendeu às suas demandas.
Não existe dignidade em ser expulso violentamente da casa em que morava, da
comunidade que vivia. Não existe dignidade em, sendo expulso, ser obrigado a arriscar a
própria vida dia após dia para ir trabalhar, levar as crianças na escola ou circular pela cidade.
Não existe dignidade quando não se é consultado a respeito do que é melhor pra sua própria
vida, sobre o que é dignidade para si mesmo. Para a Prefeitura e para o juiz que proferiu
sentença favorável à municipalidade, o Centro Pesqueiro (que até o presente momento não foi
entregue aos pescadores), os apartamentos no residencial longe de Jaraguá, os abrigos
extremamente precários/inadequados, o mixuruca/insuficiente aluguel social, a moradia paga
no distante conjunto Carminha, podem ser elementos que dão dignidade a alguém, mas para a
comunidade, principal interessada e afeta pelas ações efetivadas durante todo esse processo,
não dão dignidade nenhuma. “Pra mim, isso não é dignidade. Dignidade era onde a gente
tava [Jaraguá], que a gente tinha o trabalho da gente perto, a gente tinha... porque dignidade
não é uma casa de tijolo. Pra mim, dignidade é barriga cheia, e aqui [Trapiche da Barra] a
gente não tem. Se a gente não descer pra trabalhar, muita gente aqui passa necessidade, a
verdade é essa. E lá [Jaraguá] não. Lá a gente tinha uma vida prática, pegava muito peixe,
muito camarão, né? A gente esperava os barcos de madrugada pra fazer um pirão de peixe...
Era assim a rotina da gente lá em Jaraguá. A gente dizia: “Oh, fulano vai chegar tal hora.”
“Que hora?” “Doze hora, uma hora [da tarde]”... A gente esperava, porque a gente sabia

93
que vinha com o peixe e a gente comia aquele peixinho fresco. Aqui a gente não tem essa
liberdade.” (Neide).
Como já pontuado, não se trata apenas das dificuldades materiais que a remoção
trouxe para essas famílias. Neide sinaliza que dignidade tem a ver com a liberdade de um
cotidiano onde não era necessário se dividir entre trabalhar e morar/conviver com as pessoas
da comunidade, já que se tinha tudo isso num mesmo lugar. E é dessa liberdade de um
cotidiano compartilhado em um território onde se trabalha e se vive que Francinete sente
falta: “Eu sinto falta de tudo. Eu sinto falta de tudo. Principalmente da chegada dos barcos,
quando os barcos chegavam da maré, que a gente ficava lá esperando a produção descer,
que a gente ia tirar camarão, limpar o peixe. Nada disso a gente faz mais. Faz sim, com
sacrifício, né. Não é como você morava lá. Lá, até de madrugada, você se levantava e ia
pegar uma produção. E aqui? Não tem mais, não tem mais condições. Ou você fica lá, dorme
lá, ou então você perde a sua produção. Tem segurança nenhuma lá. Deus sabe, meu Deus,
tudo que eu faria de novo pra voltar pr’ali... Pelo amor de Deus. Não é nem questão de ser
mais fácil. Assim, era porque você tinha a sua infância toda num lugar, como eu já falei,
perto de tudo, convívio com as pessoas que você gosta, no dia a dia. Lá, todo mundo se
ajudava, todo mundo amigo. E aqui, muda radicalmente, da água pro vinho. Lá era tudo mais
fácil em tudo.” Nessa mesma direção, quando pergunto do que Enaura sente falta no cotidiano
da Vila, ela responde: “A praia, as pessoas, que a gente era mais... tinha um contato maior.
Não sei nem explicar... O convívio que era melhor e a gente encontrava mais as pessoas,
conversava... [...] Agora é muito mais difícil você encontrar as pessoas porque as pessoas
sempre tão correndo. Passam o dia lá na comunidade. E aí, assim, bem apressadas em
terminar todo o seu trabalho pra voltar.”
A comunidade, quando em Jaraguá, tinha a capacidade de agregar seus moradores,
uma das características apontadas por Cavalcanti (2012) como mais importantes nos lugares
escolhidos pelo homem. Lá, os moradores se encontravam, conversavam, conviviam.
Acontecimentos que nos remetem ao “lugar praticado” do qual nos fala Michel de Certeau
(2008), um lugar que se anima pela presença das pessoas, que existe a partir das vidas que
nele se movimentam e acontecem. Com a remoção da comunidade, o lugar ‘deixou de ser
praticado’. O novo local de moradia não apresenta a mesma capacidade de agregar as
pessoas. A distância entre o novo local de moradia e o local de trabalho gerou uma grande
mudança no convívio entre os moradores, que agora têm que se dividir entre o lugar onde
trabalham e o lugar onde moram. A mudança no cotidiano e na convivência modificou,
também, as relações, os vínculos e o sentimento de viver em comunidade, que agora se

94
encontram fragilizados. “Eu acho assim, no meu ponto de vista, a Prefeitura acabou com a
Comunidade, acabou com o sentimento das pessoas, do dia a dia. Até os familiares mesmo se
afastaram, depois dessa retirada, né, se afastaram. Uns tão morando em aluguel social,
muitos não tem onde ficar (como a gente tava na pele deles sofrendo junto com eles). [...] A
comunidade acabou, assim, de certa forma. Porque lá era todo mundo vizinho, lá todo mundo
tinha uma rotina de todos os dias tá na beira da praia, não só os pescadores, como as
crianças, como quem não fazia parte da pesca tava sempre ali na beira da praia, tava sempre
na comunidade, tava tirando camarão, todo mundo junto, entendeu? Então a partir do
momento que todo mundo se afastou...” (Neide).
Se antes as famílias compartilhavam um cotidiano em comum, morando e trabalhando
no mesmo território, com os pescadores saindo para pescar, as marisqueiras esperando o
pescado a ser tratado e os vendedores na balança, enquanto as crianças circulavam e
brincavam pelo espaço, junto de suas famílias, agora as rotinas estão diferentes e as famílias
têm de lidar com um convívio reduzido e com uma relação diferente com o lugar. “Mudou.
Mudou completamente, mudou tudo, pra pior, mudou. O que a gente fazia lá, aqui não tem.
Uma área de lazer que tem aqui é uma quadra. [...] Uma praça que não tem parquinho pra
brincar. Lá em Jaraguá tinha, tinha a beira da praia enorme pra brincar. Na frente tinha o
Ponto de Cultura pras crianças, na frente tinha a praça do MISA, as mães ficavam lá sentada
com as crianças brincando. A gente ia tirar os camarões, ficava todo mundo lá reunido
trabalhando, brincando. E aqui, não tem mais isso. Você não vê mais uma criança brincando
que nem lá. Eu não vejo aquela felicidade nessas crianças que vieram pra cá. Os meninos, a
minha filha mesmo, os meninos que eu vejo que vieram por último é mais dentro de casa. Se
não, quando a mãe vai pra lá, que leva eles, aí eu vejo eles brincando lá, tudo feliz, tomando
banho de praia. Pra eles, na cabeça deles, eles ainda não saíram de lá, né. E voltaram a fazer
tudo o que eles gostavam de fazer lá, e aqui eles não fazem.” (Francinete).
Francinete explica que da mesma forma que foi criada em Jaraguá, gostaria de ter
criado as filhas e os netos. Para diminuir as modificações na rotina de uma de suas filhas,
optou por mantê-la estudando na mesma escola em que estudava quando morava em Jaraguá,
mesmo com o gasto a mais com transporte, pois não achava justo tirar a criança do convívio
com colegas de escola e professora, já que com a remoção já estava passando pelas mudanças
de convívio com as outras crianças da comunidade. Um dos netos, de apenas dois anos,
também sente falta de Jaraguá. Mesmo com o pouco tempo que pôde viver ali, já identifica a
comunidade como sua, como ‘sua favelinha’, assim como a filha de Francinete, que ainda
hoje deseja voltar também para ‘sua favelinha’, apontando que desde cedo se sentiam fazendo

95
parte do lugar, que as relações de pertencimento entre os moradores e a comunidade
começavam desde muito cedo. “Assim como eu fui criada lá, eu queria ter criado minhas
filhas e meus netos, mas não foi possível. Também eu não achei justo além de tirar minha
filha do convívio dela, que era a moradia lá, com os coleguinhas... [...] O que já é duro pra
uma criança, sair do convívio dela, que ela nasceu e se criou ali. Até hoje ela fala “mamãe,
eu quero a minha favelinha, eu quero voltar pra minha favelinha”. Menos de dez minutos ela
tava no colégio, andando, e agora não, tem que pagar uma lotação pra levar ela. Aí, tudo
isso, Erise... Eu não achei justo além dela perder o convívio lá da moradia, perder o convívio
no colégio com os coleguinhas. Como é que deve tá a cabeça dela, o psicológico dela, né?
[...] Eu não quero que a minha filha pague pelo erro dos outros não. Aí, eu preferi, pro bem
dela, deixar ela lá. [...] O que mais dói é quando [ela] chega pra mim e fala “mamãe, tô com
saudade da minha favela, da minha favelinha”. Lá, era barraco? Era. Mas era meu. Tinha
uma área só pra ela brincar, pegava as coleguinhas dela e ia brincar. E aqui, ela não tem
mais isso. Tanto ela quanto meu neto. Dói, dói muito, né. [...] Pra você ter uma ideia, no
telefone da mãe dele tem o YouTube, ele mesmo mexe, ele vai lá, minha filha, só coloca
“favela do Jaraguá”. É, dois anos de idade que ele tem, mas os vídeos que ele quer assistir é
só sobre a favela do Jaraguá, ele fala “ó, mamãe, minha favelinha”. É, é de partir o coração,
só ver pra crer. (Francinete)
Mães e filhos perderam a possibilidade de compartilhar um dia a dia em comum, as
crianças perderam o contato com o território onde cresceram, onde brincavam juntas e sob os
olhares de suas famílias. Agora longe de seu território, essas crianças não parecem estar tão
felizes como eram em Jaraguá. “O meu sobrinho de 2 anos, até hoje ele fala na favela...
Chega me dói o coração quando eu levo ele lá. Ele faz “Eu morava aqui.”, porque a única
coisa que sobrou do terreno foi o pé de amêndoa da casa da minha mãe. Quer dizer, então
quando eu vejo aquele pé de amêndoa, só Deus sabe como meu coração fica, porque eu sei
que ali foi tirado a força, a gente não saiu porque a gente quis. E ele, a criança de dois anos,
ela é um computadorzinho, ela lembra. Quer dizer, o psicológico dessa criança de certa
forma tá abalado, né? Não só dela, como muitas crianças. Se você perguntar à maioria das
crianças aqui se prefere aqui no Trapiche ou lá na favela, muitos, eu acho que 70%, vai dizer
que prefere a favela. Que prefere tá lá em Jaraguá.” (Neide)
Assim, o cotidiano das crianças foi bastante afetado. No novo local de moradia, o dia a
dia e as práticas culturais e de lazer mudaram. “A gente vê os meninos muito soltos aí, sem ter
muito o que fazer, sem ter muito... Não ter muito o que acrescentar. Ou eles tão na escola, ou
eles tão na quadra ou eles tão fazendo nada. [...] Essa geração tá se perdendo aí. E assim, se

96
não tivessem tirado isso da gente, esse direito, hoje o Ponto [de Cultura] tava aí, tinha
crescido29. O maracatu, o Dalmo [professor de maracatu que atuava pelo Ponto de Cultura]
com os meninos, que é uma pessoa que a gente nunca mais viu, que os meninos não têm mais
contato, pra você ter uma ideia das coisas. Tinha a Sil [Sirlene, professora de capoeira], né,
que tava com os meninos... E aí... E ia, né, fluindo coisas boas, mas foi se perdendo e hoje eu
não vejo essa geração da gente com muito futuro não. Diferente de lá. Muito diferente. Muito,
porque eles não têm... Eles ficam ociosos, sem ter o que fazer. Vai pra escola, da escola vai
pra casa, vai pra beira da praia jogar bola. Pronto, é isso. Vai pra quadra fazer ‘zuada’
[barulho] de noite. Pronto, mulher, é o que eles têm pra fazer. Na Vila era diferente. Na Vila
eles tinham a preocupação de ganhar o dinheiro deles, né, eles tinham a preocupação de ir
pra escola, de ir pro ensaio do maracatu, de ir pro ensaio com a Sil. Quando o Dalmo e a Sil
não iam, eles ficavam “Nau, cadê o pessoal, não vem não?”, a gente se juntava, saia, ia pra
evento. Quantas vezes eu fui com Enaura pra evento fora, né, do Ponto? Era uma coisa que
juntava a comunidade. A comunidade tava sempre presente, né? Aí tinha os eventos da praça,
você sempre tava por perto participando. Era coisa de longe que vinha, que juntava gente.
Teve os eventos na Vila... Quer dizer, tudo era em prol das nossas crianças, era em benefício
da Vila, das nossas crianças, dos nossos jovens. E hoje, aqui a gente não vê, né? A gente não
vê. Porque foi coisa que acabou e não tem como resgatar. A gente não sabe como resgatar.
Porque se a gente conseguisse resgatar, eu acho que ainda dava tempo, viu? Dava tempo,
porque eu sei que o Dalmo e a Sil e outras pessoas tariam aí, disposto a dar o apoio. Vocês
também, né, enquanto universidade, davam apoio pra gente, suporte pra que a gente
chegasse no que a gente realmente quer pra esses jovens e essas crianças nossas.” (Dona
Lena).
Além de perderem as atividades culturais e de lazer, as crianças perderam também a
possibilidade da presença das mães em seus cotidianos, já que agora trabalhando longe do
lugar de moradia, as mulheres precisam deixar os filhos em casa enquanto vão trabalhar em
Jaraguá. “As mulheres vêm com compromisso de deixar os filhos... Então uma das coisas que
eu acho que é uma das piores que aconteceram, é que lá as mães sempre tavam perto dos
filhos, e aqui já é diferente. Eles ficam enquanto elas vão. Assim, ser criado solto, sem
ninguém e sem nada. Lá a gente ainda tinha o projeto [do Ponto de Cultura]... as mães tavam

29

Com a remoção da comunidade de Jaraguá, o Ponto de Cultura Enseada das Canoas: Yar-á-guá parou suas
atividades, já que no novo local de moradia não existe um espaço físico para seu funcionamento. Para mais
informações: http://alagoasboreal.com.br/noticia/2113/maceio/depois-de-demolido-ponto-de-cultura-enseada-dascanoas-yar-a-agua-suspende-atividades

97
lá e a gente ainda tinha o projeto. Hoje a gente não tem o projeto e eles não tem o projeto e
nem tem as mães perto. É uma coisa bem complicada.” (Enaura)
Neide explica como era o dia a dia com seus filhos antes da remoção: “O dia-a-dia era
de uma mãe presente, né? Presente, porque eu acordava de seis horas da manhã, acordava
os dois, levava os dois pra a escola, onze e meia ia buscar os dois, trazia, o almoço tava
pronto então almoçava, né? Meu filho ia pro Segundo Tempo30, eu ia deixar ele também lá
em Jaraguá e sempre tava em casa. O trabalho era perto, né, na beira da praia. Eu morava
próximo à pista, mas era na beira da praia o meu depósito. Eu ia pra lá, trabalhava, né,
gelava a mercadoria, e voltava pra casa. E eles tavam sempre em casa, o dia todinho eu
acompanhando eles, né... Eles tavam brincando com quem... E aqui eu não tenho essa
liberdade, porque aqui, a partir do momento que eu saio de sete horas da manhã e eles vão
pra escola, né, a outra pessoa vai poder onze e meia/meio dia trazer eles pra casa? Eu não
vou ver o que eles tão fazendo até sete horas da noite. Quer dizer, é pedir a Deus que eles
não andem com inimizade, né? Mas tem uma das irmãs que eles ficam na casa. Mas nem
sempre também ela tá em casa, que ela também trabalha, tem que olhar isso. Como já é
adolescente, eu peço pra ele tomar conta da casa até eu chegar, fazer o que? Eu me sinto
acuada com esse tipo de relação com meus filhos, né? Porque a Prefeitura fez com que a
gente se separasse. Não sou eu não, são muitas mães nessa situação, são muitas crianças
nessa situação. Aí eles falaram que ia dar dignidade. Que dignidade é essa? De tirar o lazer,
de tirar sua autoridade de mãe? A verdade é essa. Aí eu saio de manhã e fica complicado pra
mim. "Olhe, cuidado, meus filhos", né? Responsabilidade eu sei que eu vou ter pro resto da
vida, manter eles na escola... Mas assim, além da Prefeitura interferir nessa relação, de
amigos, sei lá, que tem muitas pessoas que tá distante... A gente sai de manhã, chega de noite
cansada, e entra nos apartamentos, fecha a porta e não vê ninguém. E lá não, lá era o dia-adia, a gente conversava, tava sempre na porta conversando, entendeu como é? A gente saía:
"olha aí meu filho, vou aqui em tal canto”, e aqui não tem isso. Tanto é que as crianças que
veio pra cá, tão perdendo o gosto pela pesca, né? Muitos não tão descendo, porque além de
ser muito longe (são quarenta e cinco minutos), imagine andando quarenta e cinco minutos.
De bicicleta dá vinte/vinte e cinco, dependendo do vento. As crianças não vão sair daqui pra
ajudar a lavar uma rede, como ajudava, a catar uma produção, tá difícil, tanto é que tem
pessoas procurando outro tipo de emprego.” (Neide)

30

Segundo Tempo é um Programa do Governo Federal que funciona no contra-turno escolar, dando suporte para
o desenvolvimento de atividades esportivas, atuando prioritariamente em áreas consideradas de vulnerabilidade
social.

98
Se antes as crianças aprendiam o ofício através do convívio, agora elas estão cada vez
mais distantes das atividades relacionadas a pesca. O que preocupa Enaura, que chama
atenção para o risco de se perder a tradicionalidade da atividade pesqueira. “Olha, a questão
da tradicionalidade, ela acaba porque os jovens não estão continuando. Então você chega na
comunidade, você não vê... O jovem, eu digo aqueles que têm entre 15 e 18 anos, que faziam,
que tavam sempre por perto dos pais. Agora você vai achar esses meninos entre 15... Aliás,
dos 10 aos 18 anos, eles aqui, sem fazer nada. Então esses adolescentes, eles tão aqui sem
fazer nada. Em outros tempos, quando a gente vivia na comunidade em Jaraguá, eles sempre
tavam junto com os pais aprendendo o ofício e ajudando os pais, que é uma coisa que é
obrigação deles, porque o jovem que morava na comunidade de Jaraguá, e que tinha 18
anos, entre 15 e 18 anos, será que o pai vai pegar uma caixa pesada de camarão e o filho não
pode ajudar? Então se o filho não tá ajudando o pai hoje a fazer essas coisas, o que é que ele
pode tá fazendo? Então a gente sabe que isso vai acabar, porque se os jovens não vão mais
pra comunidade pra fazer esse trabalho e os mais idosos, que tem mais de 50 [anos], eles não
tão aguentando mais, então vai acabar a pesca em Jaraguá. Vai chegar um dia que não vai
ter mais.”
“Os filhos dos pescadores que moravam lá, que vieram pra cá, já não estão mais
pescando que nem pescavam lá. Tão fazendo o que? Tão aprendendo a surfar aqui. Por que é
o que? Porque aqui é praia de surfista. Praia de surfista tem é o que? Tem mais é que surfar,
não pescar. Acabou a tradição, acabou tudo! Não tem mais aquela tradição, de passar de pai
pra filho. Acabou. O meu sobrinho mesmo, ele pescava, já não tá pescando mais. Agora, só
vejo ele surfando, porque esse mar é para surf, o mar de pesca é lá em Jaraguá.”
(Francinete)
A mudança de território ameaça a continuidade da cultura da pesca, que produzia e era
produzido pelos sujeitos no imbricamento do habitar, viver e trabalhar no território.
Albuquerque, Albuquerque e Peixoto (2012), apontam para a possibilidade de desarticulação
de toda uma cadeia produtiva significativa, essencial à sobrevivência da comunidade e
representativa de uma tradição na cidade de Maceió, podendo apagar uma parte da gênese da
cidade litorânea, eliminar provas materiais de suas raízes. Apontam, ainda, os riscos
relacionados a não manutenção de vínculos afetivos e comunitários. Entendemos, assim, que
as consequências da remoção da comunidade de seu território vão muito além de uma
mudança de endereço (que já é, por si só, muita coisa). Não só as casas foram destruídas, mas
muito da relação de pertencimento com o lugar e, consequentemente, com a cultura da pesca.

99
Mais que uma mudança de endereço, essas famílias tiveram suas vidas modificadas, seu dia a
dia e relação com o lugar, com o trabalho, com os vizinhos e familiares.
Compreendendo que os sujeitos e os lugares se constituem mutuamente, numa relação
que diz respeito à dimensão do pertencimento, do afeto que se dá no dia a dia, entendemos
que o rompimento violento com a continuidade da vida em Jaraguá prejudica a forma como
essas pessoas vivenciam e se relacionam com um novo lugar ao qual elas não pertencem, pelo
qual não têm afeto. Um lugar que não foi construído por elas, a partir de uma relação
espontânea, mas pela força violenta do poder do Estado.
Não à toa, Dona Lena não se sente bem no novo lugar de moradia, não sente que
aquele é o seu lugar. “Eu não me sinto nesse lugar. Eu sou sincera. Por isso que eu digo a
você que eu era muito bem no Jaraguá, lá na Vila, e eu não me sinto bem aqui. Porque pra
mim, aqui não significa muita coisa, entendeu? Não gosto de tá aqui, tô porque eu não tenho,
né, não tenho pra onde ir e tenho que ficar, entendeu? Mas assim, vontade de estar aqui, me
sentir bem por tá aqui, também não. E assim, falar do lugar, eu não tenho muito o que falar,
né, porque é um lugar que eu não me adaptei, eu não gosto de tá. [...] Eu não me dou bem
aqui mesmo, eu não me sinto bem. É horrível dizer isso, mas eu não me sinto bem, aí eu não
tenho muito o que falar daqui. Mas da Vila, né? Da Vila, misericórdia, da Vila eu tenho o que
falar e muito. [...] Porque assim, sabe, se eu me sentisse bem aqui, eu diria: “Não mulher,
graças a Deus eu tô bem”, mas eu não tô, eu não posso dizer aquilo que eu não sinto. Eu não
gosto disso. Gosto de dizer a verdade.” (Dona Lena)
Em outro momento da conversa, ela explica como se sente morando nos apartamentos
do Trapiche da Barra: “É assim, não existe aquela coisa que você não se vê... Não tem roupa
que você não se vê vestida? Pois eu não me vejo aqui. Estou aqui, mas é como que o meu
coração, a minha mente, tudo, né, vivesse no Jaraguá. Essa semana... Pronto, naquele dia,
você é uma das testemunhas daquela noite, essa última noite que a gente se viu, que eu...
Quando a gente veio embora, aí quando você foi embora... Enaura sabe disso. Aí eu disse...
As meninas subiram, aí eu disse “Já vou pra casa” e não entrei no prédio. As meninas
ficaram “Oxe, Lena, vai pra casa?”, “Vou pra casa”, não entrei no prédio. Quer dizer, eu
não me vi ali, né? Eu não me vejo aqui, apesar de eu estar, eu não me vejo morando aqui. Aí
pra mim, na mudança... A mudança, pra mim, ela não fez... Não foi mudança, não foi
mudança. Pra mim, no meu modo de ver, não foi uma mudança. Eu não me sinto bem e aí pra
mim, é como se não tivesse acontecido nada. Não tenho muito o que falar sobre esse lugar.
Queria falar o contrário, entendeu? Já tá com um ano [a conversa aconteceu em 2016], né,
fez agora, que eu tô aqui, mas eu não vejo mudança, porque lá no Jaraguá, ainda que com

100
pouco espaço, vamos dizer assim, né, pra gente... Mas a gente se sentia bem, entendeu? A
gente se sentia...”
O dia a dia mudou para pior. E em um contexto de grandes e violentas transformações,
as relações com o lugar foram afetadas e prejudicadas. Se em Jaraguá as pessoas sentiam e
vivenciavam uma forte relação de afeto e pertencimento com o lugar em que trabalhavam e
moravam, no novo local, essa relação muda completamente. A configuração do espaço, a
verticalidade da moradia, também causam estranhamento e sofrimento. As lógicas de
funcionamento do espaço e de seu uso mudam. “Lá, morando em Jaraguá, era melhor. Aqui
eu me sinto sufocada, é um local pequeno. Eu moro no primeiro andar, que pra gente que
sempre morou em casa é bastante difícil. Mas... É diferente. Você morando em casa, quando
você bota o pé na rua, você vem, sai, você bota o pé na rua, você... e aqui, você desce a
escada... É meio complicado e difícil. É difícil as pessoas morarem dessa forma. A gente
acha. Você fica mais preso, não consegue... Não tem uma vida... A vida fica diferente.”
(Enaura)
Essas pessoas não se sentem parte do novo espaço, não lidam com o dia a dia do
mesmo jeito e, colado ao fato de se sentirem não pertencentes ao lugar, não o vivenciam como
vivenciavam Jaraguá, não criam raízes. Se deparam diariamente com o sofrimento de estarem
num lugar pelo qual não sentem afeto, um lugar com o qual não estabeleceram uma relação de
pertencimento. “Até hoje eu sofro. Não gosto daqui, não vou mentir, todo mundo sabe. Vim
pra cá porque fui forçada, forçada pela polícia como a gente vê em último jeito, em último
caso. Por pouco, não entrei em depressão. As minhas irmãs tudo em cima de mim porque eu
só vivo dentro de casa. Até hoje, eu vou pro trabalho, quando chego, eu me tranco. É difícil
eu ver minhas irmãs. Quando elas chegam lá em casa, eu tô dentro do quarto trancada. Essa
daqui [apontando pra Marina] fala tanto comigo… Eu não saio pra canto nenhum, é do
trabalho pra casa. Quando eu chego em casa, me tranco. Aí, eu fico pensando na minha vida
de antes, sabe... Na minha agora. Tem hora que eu peço, pedia tanto a Deus pra minha
infância voltar, alguns anos atrás, pra passar lá de volta. Passo por lá e não vejo nada.”
(Francinete). Francinete pensa no passado, querendo trazê-lo de volta, vivenciá-lo novamente.
A memória do lugar se mantém viva.
Nesse sentido, entendemos que apesar de tantas violências, resta, para essas pessoas,
as memórias de uma história que construíram em Jaraguá, em sua comunidade. E foi por isso
que decidimos contar um pouco dessas histórias aqui. Porque lembrar é, de certa forma,
manter vivo. Manter em circulação as violências e injustiças, para denunciá-las, e manter
também os afetos, para seguir existindo. “Assim, apesar dessa retirada brusca, e tudo que

101
aconteceu, mas o que eu tenho em mente é cada bequinho daquele da favela, cada casa...
Ainda me lembro onde é a minha casa. Se você me botar hoje e disser assim “Onde é que
você morava?”, eu vou dizer: “Eu morava aqui, nesse exato local.”, porque ali na faixa de
pedestre era o ponto de encontro de todo mundo, né... Que na frente era a casa da minha
irmã, ao lado era a venda do meu pai e em frente mesmo, na segunda casa era a casa da
minha outra irmã e na quarta casa era minha, eu sei exatamente cada... Quando eu fecho
assim na mente, parece que eu vejo a favela com seus barraquinhos, com seus becos... Tudo,
tudo, tudo. Quer dizer, isso daí nem a Prefeitura nem ninguém vai apagar da mente da gente,
pelo menos isso. Ele [prefeito] ainda não manda no pensamento da gente, graças a Deus,
porque se mandasse, a gente tava lascado, a verdade é essa. Então cada bequinho ali é uma
história que tem, uma história de vida, um carinho que a gente tem muito grande por aquele
lugar. Muito. Eu mesmo... O povo pergunta “Onde você mora?” eu digo “Em Jaraguá”, juro
a você. Eu nunca disse que moro no Trapiche. E a gente foi escorraçado, expulso de Jaraguá,
mas ainda moro lá. O pedacinho que restou da favela, ainda tô lá. Que sobrou um pedacinho
só, naquele pedacinho que eu me seguro até hoje, pra não esquecer. E nunca vou esquecer...
Ah, minha filha, se eu viver cem anos, cem anos eu vou lembrar dessa retirada brusca.
Sempre vou lembrar de onde eu morei.” (Neide).

102
5. Considerações Finais

Ao final dessa dissertação, queremos dizer que essas considerações na verdade não são
finais. E dizemos isso porque esperamos que elas não cessem de considerar e reconsiderar,
que elas não esgotem os assuntos, as narrativas, as possíveis histórias a serem contadas ou as
inquietações acerca das subjetividades e dos territórios.
Buscamos, nessa dissertação, registrar histórias de vida e memórias da comunidade de
pescadores de Jaraguá e, através desses registros, problematizar as relações existentes entre
território e subjetividade, considerando o contexto histórico e político dessa comunidade.
Buscamos, também, investigar como os acontecimentos da remoção e da mudança de
território de moradia afetaram e tem afetado as vidas dos moradores. Para isso, trouxemos as
narrativas de Enaura, dona Lena, Francinete e Neide, que nos conduziram por uma história
sobre a comunidade.
A partir do diálogo com Michel Foucault, Giorgio Agamben e Walter Benjamin, nos
relacionamos com essas narrativas assumindo o compromisso ético e político de construir
uma história do presente, que se ocupou em problematizar as narrativas dos vencedores,
apontando para a possibilidade (e necessidade) de contarmos uma outra história, agora,
trazendo para a superfície os destroços que foram deixados para traz na edificação de uma
história falsamente universal. Apostamos na potência de contar uma narrativa dos vencidos
para interrompermos a falsa linearidade e unanimidade da história contada pelos vencedores e
assim, fazer justiça a essas vidas infames, vencidas, nuas e matáveis.
No primeiro capítulo, apresentamos os aspectos teórico-metodológicos que
atravessaram a construção da pesquisa, situando a escolha pelo trabalho a partir do diálogo
com os autores supracitados e a escolha de trabalhar com narrativas, explicitando o
posicionamento ético, político e epistemológico adotado. Posteriormente, contamos
brevemente sobre como as conversas com as narradoras aconteceram e sobre o tratamento que
as narrativas receberiam na dissertação, como seriam apresentadas no texto e o porquê do
formato escolhido.
No segundo capítulo, buscamos contar um pouco da história da comunidade, sobre seu
surgimento, sobre o dia a dia dos moradores e sobre as relações que construíram e
vivenciaram com o lugar e com as atividades relacionadas à pesca. Nas narrativas de Enaura,
dona Lena, Neide e Francinete sobre a comunidade, e sobre o cotidiano está presente a
dimensão de afeto e de pertencimento com o território, de subjetivação através da relação com
o lugar e com as pessoas que ali viviam e trabalhavam. Elas falam de um modo de existência

103
que se constitui e se desenvolve na relação direta e diária com o lugar ao qual se sentem
pertencentes. Ainda nesse capítulo sinalizamos que em dado momento, devido a uma
compreensão da cidade como um produto a ser vendido, como cidade-mercadoria, esses
modos de existência passam a ser considerados pelo Estado como incompatíveis com o
cenário de ‘avanço’ local, já que não possuem riqueza e poder suficiente para estar ali.
Nessa direção, no terceiro capítulo, contamos como no cenário de uma cidademercadoria a comunidade passou a ser alvo de uma série de tentativas de remoção do local
onde fincou suas raízes e, nesse ínterim, passou a ser alvo de uma série de discursos e práticas
que buscaram desqualificá-la e descaracterizá-la, com o objetivo de construir a imagem de
que os pescadores e as marisqueiras atrapalhavam o desenvolvimento urbano do bairro de
Jaraguá e, por esse motivo, deveriam ser removidos dali, para seu próprio bem e para o bem
da cidade. Assim, o Estado e suas tecnologias de poder se ocupam em exercer sobre esses
modos de vida uma série de violências que tem como fim a remoção de um grupo de pessoas
que são encaradas como vidas menos importantes e como empecilhos ao progresso. Ainda
nesse capítulo, contamos sobre a resistência e a luta dos pescadores e das marisqueiras pela
permanência no território, e para reafirmar e fortalecer sua identidade, suas relações
comunitárias uns com os outros e com o lugar, seus modos de vida. Porque, se por um lado o
Estado agia desqualificando suas existências, por outro, a comunidade resistia e lutava, já que
segundo Enaura: “diz o ditado que “Quem pode, manda; quem tem juízo, obedece”, no nosso
caso, na nossa comunidade, “Quem pode, manda, mas quem tem juízo resiste e luta.’” 31 E
contar essas histórias, trazer à tona essas memórias e narrativas é uma forma de ainda seguir
resistindo e lutando.
Posteriormente, ainda no capítulo três, falamos sobre as consequências da remoção da
comunidade e da transferência para as novas moradias, no bairro do Trapiche da Barra. Esse
novo território é como uma roupa que não cabe, que não serve, porque aqueles corpos,
aqueles modos de vida têm o formato que se molda à comunidade em Jaraguá, se constituíram
e configuraram para caber no território pelo qual têm afeto, onde se sentem pertencentes.
Mas a história que contamos não falou somente daquele pedaço de terra ou daquelas
pessoas que ali viviam, de suas memórias, lutas e de sua relação com o lugar. Falou e fala
também de nós e do modelo de cidade que vivemos e nos interroga: É isso que queremos?
Quanto mais de violência e injustiça seguiremos tolerando? Continuaremos construindo uma
Fala extraída do documentário “Quem tem juízo resiste e luta”, realizado através do edital PIBIP-AÇÃO 2014
(PROEX/PROPEP/UFAL), coordenado pelos professores Marcos Ribeiro Mesquita e Simone Maria Hüning.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ERtismF3kHg&t=1122s
31

104
cidade que expulsa seus habitantes de seus lares? Que levanta santos e derruba terreiros?
Esperamos que não. E esperamos que essa dissertação tenha alcançado e afetado os leitores
tanto quanto nos afetou, que tenha doído e feito sangrar, como um dedo numa ferida aberta
que nunca vai cicatrizar. Que tenha proporcionado a experiência potente que é o encontro com
o outro e possibilitado uma aproximação com uma história de violência e injustiça, mas
também de afetos e de resistência. Esperamos, ainda, que Enaura, dona Lena, Neide e
Francinete, sejam encaradas como exemplos de luta e empoderamento e que aprendamos a
olhar para tantas outras pessoas que estão espalhadas pelas cidades, às vezes por trás dos
muros invisíveis que criamos cotidianamente. Pessoas que devem ter suas vozes ouvidas e
ecoadas.
Gostaríamos de ter contado um outro desfecho para essa história. Mas afinal, o
desfecho que contamos é, infelizmente, o mais comum e esperado em uma sociedade e em um
modelo de cidade que focam no progresso econômico para alguns em detrimento do progresso
humano para outros. Um progresso que produz escombros, que se constrói e mantém em cima
dos destroços e das ruínas dos vencidos. Que produz expulsões, restos, sombras e mortes, e
que precisa deles para se manter em funcionamento. Mas aqui, é importante pontuar que se
por um lado produzimos restos, por outro, produzimos possibilidades de resistências. Nos
restos existe vida, potência, memória. E através do resgate desses restos, do eco das vozes,
memórias e narrativas dos vencidos, é possível resistir, lutar e construir uma nova história.
História que mantenha viva a Vila dos Pescadores de Jaraguá, que mantenha viva nossa
própria história e humanidade.
E o que mais falar, então? “E viveram felizes para sempre”? Acredito que não.
Enquanto a partida de futebol narrada por Primo Levi (1990) seguir acontecendo, enquanto
continuarmos assistindo à ela e permitindo que dela saiam vencedores e vencidos, essas
histórias não vão ter finais felizes. A partida de futebol aconteceu e segue acontecendo. Com
essa comunidade e com outras tantas espalhadas pelo país. O massacre acontece diariamente
com determinados grupos, com determinados modos de vida. Vidas nuas, vidas matáveis,
vidas infames e vencidas. Esperamos que deixemos de assistir a esse espetáculo. Que enfim
entendamos aquela partida de futebol e a expulsão da comunidade de pescadores de seu
território, que nos inquietemos e incomodemos, para, aí sim, acabarmos com sua
continuidade. Do contrário, “nunca mais haverá esperança” (AGAMBEN, 2008, p. 35).

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