Viviane Soares Nunes - Da diferenciação do sexo à diferença sexual: Um estudo psicanalítico.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA
VIVIANE SOARES NUNES
DA DIFERENCIAÇÃO DO SEXO À DIFERENÇA SEXUAL:
UM ESTUDO PSICANALÍTICO
Maceió
2016
VIVIANE SOARES NUNES
DA DIFERENCIAÇÃO DO SEXO À DIFERENÇA SEXUAL:
UM ESTUDO PSICANALÍTICO
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Psicologia da Universidade
Federal de Alagoas, como requisito parcial para a
obtenção do título de Mestre em Psicologia.
Orientadora: Profa. Dr.ª Susane Vasconcelos Zanotti.
Maceió
2016
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecário Responsável: Valter dos Santos Andrade
N972d
Nunes, Viviane Soares.
Da diferenciação do sexo à diferença sexual: um estudo psicanalítico /
Viviane Soares Nunes. –2016.
103 f.
Orientadora: Susane Vasconcelos Zanotti.
Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Psicologia. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Maceió, 2016.
Bibliografia: f. 95-103.
1. Diferença sexual. 2. Sexualidade. 3. Sexo e psicanálise. 4. Freud, Sigmund,
1856-1939. ―Pequeno Hans‖. I. Título.
CDU: 159.964.2
AGRADECIMENTOS
À Professora Dr.ª Susane Vasconcelos Zanotti, minha orientadora da graduação à pósgraduação, pela orientação, incentivo, profissionalismo e confiança na construção deste
trabalho. A aposta, o cuidado e a paciência foram imprescindíveis para a conclusão desta
dissertação. Um agradecimento especial por dar lugar ao meu desejo de estudar psicanálise e
incentivar para que este ultrapasse os limites da Universidade Federal de Alagoas.
À Professora Dr.ªMarta Regina de Leão D'Agord, pelas contribuições para este
trabalho na banca de qualificação.
À Professora Dr.ª Edilene Freire de Queiroz pelas considerações no ato da defesa desta
dissertação.
Ao Professor Dr. Charles Elias Lang, professor na graduação e pós-graduação, pelos
ensinamentos dentro e fora da sala de aula. Obrigada pelas indicações de leitura e
contribuições no momento de qualificação deste trabalho.
Aos demais professores do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFAL,
Prof.ª Dr.ª Adélia Augusta Souto de Oliveira, Prof. Dr. Henrique Jorge Simões Bezerra, Prof.
Dr. Jefferson de Souza Bernardes, Prof. Dr. Jorge Artur Peçanha de Miranda Coelho, Prof.ª
Dr.ª Maria Auxiliadora Teixeira Ribeiro, Prof.ª Dr.ª Nadja Maria Vieira da Silva por todas as
inquietações e discussões em sala de aula.
Aos colegas da turma de mestrado, Alysson Cavalcante dos Santos, Carolina
Cavalcante Lins Silva, Carolina Lopes César de Cerqueira, Clarissa Tenório Ribeiro
Bernardes, Cristiane Muritiba da Fonseca, Darlan dos Santos Damásio Silva, Dionis Soares
de Souza, Éricka Patrícia Santos Feitosa, Gabrielly Cristinne C. D. de Melo, Gilberto
Eleutério da Silva Júnior, Hélton Walner Souto Santos, Jéssica Bazilio Chaves, Juliano
Bonfim dos Santos, Stephane Juliana Pereira da Silva, Valéria Vanessa Ferreira dos Santos e
Verônica Santos da Silva pelas discussões e apoio nos momentos de angústia. Em especial
aos colegas de linha de pesquisa, Ana Paula Monteiro Rêgo, Eyre Malena Ferreira de
Figueirêdo, Nilton Santos da Silva e Welison de Lima Souza.
Aos parceiros na jornada de pesquisa, Alessandra Cansanção de Siqueira, Fabíola
Brandão da Silva, Gabriela Costa Moura e Thiago Félix Maurício. Obrigada por estarem
presentes nos momentos de inquietações e angústias neste desafio.
Aos demais colegas do grupo de pesquisa, Aline Emílio da Mota Silveira, Amora
Sarmento Santana, Caio César da Paz Santos, Fernanda Rezende, Emanuele Gomes, Isadora
Veiga, Jade Sarmento Santana, Marina Silvestre Barbosa, Edcarla Melissa de Oliveira
Barboza, Thaysa Maria Guedes de Oliveira Melo
À Kyssia Marcelle Calheiros, sempre com palavras de incentivo.
À revisora desta dissertação, Melissa Suárez Cruz, pela disponibilidade, desde o
início, em ler e contribuir com este estudo.
À Marília Torres, pela parceria de sempre, da graduação ao mestrado, da vida
acadêmica à vida profissional e pessoal. Obrigada pela amizade e por todo o apoio.
Às amigas do ―grupo das sete‖: Laísa Malta Costa de Messias, Manon de Oliveira
Mello, Marianne Machado de Souza, Karolline Hélcias Pacheco Acácio e Renata Baraldi
Sobral Calheiros pela amizade e escutas preciosas.
Às amigas Jacqueline de Melo, Paula Andrade e Tamires Monteiro pela amizade,
pelas sábias palavras, sobretudo pela escuta e pelo apoio constante.
À amiga Vívian Marcella, pela parceria e amizade solidificadas no Ensino Médio e
fortalecidas ao partilhar das experiências, angústias e incertezas na busca pelo título de
Mestre.
Aos meus pais, Valdivan e Remilda, pelo apoio constante e por todo amor.
À minha irmã, Mariana, pelo carinho, paciência e cuidado, em especial no primeiro
ano do mestrado.
À minha prima Thayza Karlla, pelas muitas caronas noturnas à nossa cidade natal,
Arapiraca.
Aos meus amigos e familiares, pela torcida. Parece impossível nomear um a um.
Contudo, fica a minha gratidão.
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela
concessão de bolsa de pesquisa durante o curso do Mestrado, possibilitando o meu
aperfeiçoamento profissional e científico.
RESUMO
O interesse pelo tema desta dissertação é oriundo de questionamentos acerca dos efeitos do
nascimento de crianças com Distúrbios da Diferenciação do Sexo (DDS), condição genética
que muitas vezes dificulta a primeira definição do sexo: se menino ou menina. A
diferenciação do sexo, do ponto de vista anatômico, é estabelecida a partir da distinção dos
órgãos genitais e, do ponto de vista genético, com base no exame do cariótipo. E do ponto de
vista psíquico, como se institui a diferença sexual? A presente pesquisa investiga o estatuto da
diferença sexual na teoria freudiana. Discute-se a concepção de sexualidade segundo as
noções de pulsão, zonas erógenas, aberrações sexuais, bissexualidade e complexo de Édipo. A
partir da análise do ―Pequeno Hans‖, destaca-se a importância da sexualidade infantil e dos
complexos de Édipo e de castração na diferença sexual, em detrimento dos aspectos anátomobiológicos. Conclui-se que o sexo é um enigma para qualquer criança e que a diferença sexual
institui-se em torno do falo como representação psíquica.
Palavras-chave: diferença sexual. sexualidade. Freud. Pequeno Hans.
ABSTRACT
The interest for the theme of this dissertation came out from questions about the effects
of the birth of children with Disorder of Sex Differentiation (DSD), genetic condition
that often makes harder to identify the first definition of the sex: whether the baby is a
boy or a girl. The sex differentiation, from the anatomic point of view, is settled since
the distinction of the genitals and, from the genetic point of view, based on a karyotype
exam. And from the psychic point of view, how does the sexual difference institute
itself? This very research investigates the statute of the sexual difference into Freud‘s
theory. The sexuality conception is discussed according to the drive notions, erogenous
zone, sexual aberrations, bisexuality and Oedipus complex. Since the analysis of the
―Little Hans‖ case, stands out the importance of the infantile sexuality, the Oedipus
complex and the castration complex into sexual difference, to the detriment of the
anatomic and genetic aspects. It is concluded that the sex is a puzzle for any child and
that the sexual differentiation institute itself around the phallus as a psychic
representation.
Keywords: sexual difference. sexuality. Freud. Little Hans
SUMÁRIO
1
INTRODUÇÃO......................................................................................................
8
2
O “X” DA QUESTÃO............................................................................................
16
2.1 Os Distúrbios da Diferenciação do Sexo (DDS)..................................................
18
2.2 “É menino ou menina?”: a diferenciação do sexo...............................................
24
2.3 Psicanálise e diferença sexual................................................................................
32
3
A SEXUALIDADE NA TEORIA FREUDIANA.................................................
39
3.1 As exigências corporais..........................................................................................
40
3.2 A sexualidade infantil e curiosidade.....................................................................
43
3.3 As zonas erógenas...................................................................................................
45
3.4 O normal e o patológico.........................................................................................
50
3.5 A bissexualidade....................................................................................................
53
3.6 O complexo de Édipo no menino e na menina....................................................
57
A DIFERENÇA SEXUAL NO CASO “O PEQUENO HANS”........................
66
4.1 Todos têm “pipi”?..................................................................................................
66
4.2 Hans e o complexo de Édipo..................................................................................
70
4.3 Sexualidade e diferença sexual..............................................................................
82
5
CONCLUSÃO.........................................................................................................
92
REFERÊNCIAS......................................................................................................
95
4
8
1
INTRODUÇÃO
O interesse pelo tema desta dissertação é oriundo de questionamentos acerca dos
efeitos do nascimento de crianças com Distúrbios da Diferenciação do Sexo (DDS), condição
genética que, muitas vezes, dificulta a primeira definição do sexo: se menino ou menina
(GUERRA-JÚNIOR; MACIEL-GUERRA, 2010b). Como categoria diagnóstica, os
Distúrbios da Diferenciação do Sexo são definidos como uma doença congênita com
constituição atípica, seja ela cromossômica, gonadal, sexual ou anatômica e pode, ou não,
provocar o desenvolvimento de genitália ambígua (MENDONÇA, 2010).
Esta nomenclatura é usada desde o ano de 2005, quando se acordou entre especialistas
membros da Lawson Wilkins Pediatric Endocrine Society (LWPES) e da European Society
for Paediatric Endocrinology (ESPE), em Chicago (EUA), que o uso do termo ―distúrbio da
diferenciação do sexo‖ seria o que melhor atendia às necessidades da condição genética
(DAMIANI; GUERRA-JUNIOR, 2007; MENDONÇA, 2010). Destaca-se que é possível
encontrar estudos recentes acerca da condição genética através do termo ―intersexualidade‖ e
estudos anteriores com termos ―anomalias da diferenciação do sexo‖ ou ―hermafroditismo‖.
Também é possível encontrar, em obras literárias, referências que retratam esta
condição desde a antiguidade, no entanto, com nomenclaturas diferenciadas. Há registros
datados de 2.000 anos antes de Cristo que indicam o nascimento de pessoas andróginas e que
tal característica era considerada um mau presságio (MACIEL-GUERRA; GUERRAJÚNIOR, 2010a). Também é possível encontrar tais referências na mitologia grega, através da
figura de Hermafrodito, o qual deu origem ao termo ―hermafrodita‖, alguém que possui a
presença de ambos os sexos (PAULA; VIEIRA, 2015).
No mito grego, Hermafrodito, filho de Hermes e Afrodite, tinha uma beleza rara e
desperta a paixão de Salmacis, uma ninfa. Após a rejeição, ela pediu aos deuses que os
unissem e jamais os separassem. Seu pedido foi então, atendido, e eles foram fundidos em
uma só pessoa, com os dois sexos (SILVA et al, 2006; GUERRA-JÚNIOR; MACIELGUERRA, 2010a).
Destaca-se também a obra de Michel Foucault ―Herculine Barbin: o diário de um
hermafrodita‖. A obra retrata a história da francesa Adélaide Herculine Barbin, nascida em
meados do século XIX. Ao realizar uma consulta médica, identificou-se que além do órgão
genital feminino, Herculine também possuía o masculino.
9
Nos casos como o de Herculine, em que ocorre a ambiguidade genital, a designação do
sexo fundamentada na anatomia é dificultada, ou seja, torna-se difícil definir o sexo, com base
nos genitais externos. Nos casos em que não há ambiguidade genital, o DDS pode ser
identificado em crianças com base em formações defeituosas dos órgãos genitais, e na
adolescência, através da manifestação de características sexuais do sexo oposto ou da
ausência de características próprias da puberdade (MACIEL-GUERRA; GUERRA-JÚNIOR,
2010a).
No cenário atual brasileiro, o tema das diferenças entre os sexos está em evidência.
Encontram-se diversas discussões sobre o tema, cujas áreas de interesses são as mais
diferenciadas, tais como: política, religião, ciências naturais, ciências humanas, dentre outras.
Tais áreas discutem hoje questões relacionadas ao sexo, escolhas sexuais, gênero, dentre
outras. Parte destas pesquisas considera que existe uma norma, um padrão. O objeto de estudo
nestes casos é, portanto, aquilo que se apresenta como um desvio em relação à norma
(DAMIANI; STEINMETZ, 2010).
Destaca-se que atualmente existem movimentos os quais defendem a intersexualidade
como um terceiro sexo, uma condição, dentro da discussão sobre gênero. Com base nisto, é de
grande importância frisar que não é objetivo desta pesquisa discutir acerca do gênero, visto
que a proposta é a realização de um estudo psicanalítico sobre a diferença sexual, e, parte-se
de uma categoria de diagnóstico médico, os Distúrbios da Diferenciação do Sexo.
Destaca-se a polêmica atual que envolve o poder de escolha quanto ao sexo do bebê
quando a concepção for realizada com o método de reprodução assistida, através da
fertilização in vitro. Esta é uma possibilidade, a partir do avanço da ciência, no entanto, no
Brasil existe um consenso ético o qual estabelece que este procedimento não é permitido no
país (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2011).
No cotidiano também é possível deparar-se com a questão do sexo de forma
costumeira. Atualmente é comum a realização de um evento antes do nascimento do bebê,
nomeado como ―Chá da revelação‖. Trata-se de uma espécie de chá de bebê com uma
inovação: caracteriza-se por um evento através do qual é feita a revelação do sexo do bebê
para os presentes, inclusive para os próprios pais. A ideia é que apenas uma pessoa tenha o
conhecimento do sexo do bebê e ela é a responsável por organizar o evento. A revelação do
sexo acontece em forma de brincadeira, geralmente no momento de partir o bolo. Assim, se o
recheio do bolo for azul indica que o bebê é um menino, se o recheio for rosa, trata-se de uma
10
menina. Este exemplo destaca a importância do sexo no cotidiano, sobretudo quando se trata
de um bebê ou de uma criança.
Nos casos de DDS, a não definição e a incerteza do sexo podem causar situações de
frustração e de angústia (ZANOTTI; XAVIER, 2011), sobretudo nos dias atuais, quando
temos o apoio da ciência e da tecnologia para antecipar cada vez mais a definição do sexo do
bebê. Neste sentido, a definição do sexo de um bebê apresenta-se como emergencial. É,
geralmente, um dos primeiros questionamentos que a mãe gestante ouve sobre o seu bebê: ―já
sabe o sexo?‖, ―é menino ou menina?‖ e é também uma das primeiras informações que ela
quer saber.
No entanto, com base na diferença do sexo, é possível identificar duas grandes
vertentes, as quais são caracterizadas através de posicionamentos opostos: uma identificada
pela primazia do biológico, que entende que o sexo é estabelecido pelo organismo, baseado,
inclusive, na anatomia genital; e a outra que considera que a definição do sexo não se
restringe ao biológico, considerando aspectos subjetivos.
Sabemos que antes do avanço na tecnologia, somente era possível saber o sexo do
bebê após o seu nascimento. Posteriormente, ele recebia o nome próprio. Atualmente é
possível saber o sexo do bebê com o exame de ultrassonografia, que geralmente é realizado
entre a 17ª e 20ª semana de gestação. Assim, através deste exame, é possível visualizar a
anatomia do bebê e avaliar a presença malformações em geral e a morfologia genital durante
o pré-natal. Com o avanço da ciência, o exame de ultrassom morfológico oferece a análise de
malformações congênitas (NETO el al, 2009) e a identificação do sexo do bebê com maior
precisão.
Nos exames de ultrassonografia, a diferenciação do sexo é realizada a partir da
identificação da presença ou da ausência de caracteres que indicam o sexo masculino. Assim,
se o bebê apresenta sinais que apontem que ele pertence ao sexo masculino, então, o médico
informa à família de que se trata de um menino. No caso das meninas, esta definição é
apresentada a partir da ausência de sinais do sexo masculino (GUERRA-JÚNIOR; MACIELGUERRA, 2010b).
Hoje é possível saber o sexo do bebê ainda mais cedo, a partir da oitava semana de
gestação. O exame de sexagem fetal é uma análise do DNA fetal, a partir de uma amostra de
sangue da mãe. Nele, o que se tenta identificar é a presença de fragmentos do cromossomo Y,
o que determina o sexo masculino no ser humano (LEVI; WENDEL; TAKAOKA, 2003).
11
Assim, da mesma forma como acontece no ultrassom, se há ausência desta informação,
infere-se que se trata de uma menina. Com tantas alternativas, torna-se cada vez mais comum
a urgência em saber se o filho será um menino ou uma menina.
A diferenciação do sexo, do ponto de vista anatômico, é realizada a partir da distinção
dos órgãos genitais, a qual divide os seres humanos em dois sexos distintos: o sexo masculino
e o sexo feminino. Partindo deste princípio, considera-se que a diferença é estabelecida a
partir de uma lógica binária entre os sexos, cujo fundamento para esta diferenciação é a
anatomia. Desta maneira, ao nascer um bebê, inicialmente é a anatomia da genitália que
oferece elementos para que o médico possa definir o sexo da criança.
Do ponto de vista genético, a diferenciação do sexo é realizada a partir da informação
cromossômica, com base no exame do cariótipo, o qual indica o cromossomo de número 46
como XX para menina e XY para o menino (MELLO; SOARDI, 2010). Tais aspectos
apontam-nos que a diferenciação do sexo, a partir da lógica organicista, é realizada com base
em aspectos biológicos, baseados da anatomia genital, na informação cromossômica, dentre
outros.
E do ponto de vista psíquico, como se institui a diferença sexual? Esta é a pergunta
que norteou o presente estudo, o qual se constitui como uma pesquisa teórica em psicanálise,
com base no referencial de Sigmund Freud. Trata-se de um estudo teórico fundamentado nas
discussões sobre pesquisa acadêmica em psicanálise (GARCIA-ROZA, 1991; MONTE, 2002;
MOREIRA, 2010)
A partir das suas investigações acerca da pulsão, Freud inaugura a concepção de
sexualidade infantil. Segundo o autor, existe uma sexualidade pré-genital, ou seja, uma
sexualidade que é antecedente àquela até então conhecida, iniciada na puberdade (FREUD,
1905/2003). Haveria, portanto, sexualidade na infância, ou melhor, a sexualidade seria
infantil. Segundo Elia (1995), em Corpo e sexualidade em Freud e Lacan, a ideia contradizia
as premissas biológicas, as quais compreendiam que só existiria sexualidade quando o corpo
estivesse pronto para a procriação. Este foi um grande passo dado por Freud para o
rompimento da concepção de uma sexualidade baseada unicamente no organismo.
Com base nisto, este estudo objetivou investigar o estatuto da diferença sexual na
teoria freudiana. Utiliza-se o caso ―O Pequeno Hans‖, publicado por Freud, que retrata a
análise de uma criança com cinco anos que estava às voltas com as diferenças anatômicas
entre os órgãos genitais feminino e masculino e entre os órgãos genitais humanos e dos
12
animais. Isto nos indica que, a princípio, a questão para Hans parece se localizar no órgão, o
que é revisto ao longo da investigação, a partir da própria teoria freudiana. Destaca-se que
neste caso a questão da diferença sexual e da sexualidade infantil é retratada de forma
evidenciada, o que justifica a eleição deste caso clínico como fonte de investigação.
Acerca da pesquisa em psicanálise no espaço da Universidade, Garcia-Roza (1993)
afirma esta deveria reproduzir a experiência clinica no espaço acadêmico. Porém, o autor
ressalta que isto seria nada além de uma transposição da clínica privada para a universidade,
e, sendo assim, questiona se não seria então uma pesquisa clínica ao invés de uma pesquisa
acadêmica. É com este argumento que o autor defende que a pesquisa acadêmica em
psicanálise não pode ser diferente de uma pesquisa teórica.
Botella e Botella (2003) afirmam que o objeto de estudo da psicanálise não se detém
ao acontecimento em si e a sua interpretação, pois não se trata de uma ciência experimental
que se relaciona com o objeto exterior, o qual é passível de mensuração. A psicanálise,
segundo os autores, interessa-se pelo inconsciente e suas produções. Portanto, não se trata de
uma ciência formal, visto que não pode ser aplicada a demonstrações como em outras ciências
de natureza positivista e, sendo assim, seus métodos jamais poderão ser comparados aos
métodos científicos clássicos.
Uma das características que diferencia a pesquisa psicanalítica dos demais tipos de
pesquisa é o fato dela não buscar, em seus objetivos, a necessidade de uma generalização de
resultados. A pesquisa psicanalítica parte do principio de que seus resultados possuem
relevância ao provocar uma mudança na forma como os pesquisadores em psicanálise irão
posicionar-se frente aos novos sentidos produzidos a partir do texto que torna a pesquisa
pública (IRIBARRY, 2003).
Com relação à metodologia neste tipo de pesquisa, Costa (2010b) afirma que na
psicanálise não há dominância de apenas uma metodologia. Há diversidade teórica em
psicanálise, bem como há diversidade teórica em outros campos de conhecimento como, por
exemplo, a física. Assim, não existe apenas uma psicanálise, temos as teorias de Freud, Lacan,
Melanie Klein e Winnicot, por exemplo (COSTA, 2010b). Nesta direção, também não se pode
falar de uma forma única de investigação de pesquisa em psicanálise, justamente por
considerar um campo vasto e diverso (COUTO, 2010).
Assim como na pesquisa clínica em que o sujeito está implicado da mesma forma que
o pesquisador, na pesquisa teórica isso também ocorre (TAVARES; HASHIMOTO, 2013).
13
Iribarry (2003) explica isto ao apresentar a questão transferencial na pesquisa teórica. O autor
afirma que ao longo da pesquisa nos textos, o pesquisador estabelece uma relação de
transferência entre ele e os conteúdos investigados. Assim, no momento em que lê, estuda, e
analisa, o pesquisador não está somente trabalhando a nível racional, mas também a nível
subjetivo.
Figueiredo (2001) ressalta que isto é possível desde que dois espaços sejam
preservados: o espaço da ignorância e o do desejo de conhecer. É com base no que preconiza
este autor que se estruturou esta pesquisa. Desta forma, a busca pelo desconhecido e o desejo
de construir novas produções, a partir do encontro com os textos estudados, foi o que
impulsionou a investigação.
Considerando a aproximação entre teoria e clínica na psicanálise (GARCIA-ROZA,
1993), a escolha pelo uso do caso clínico freudiano, para a investigação neste estudo,
converge no que afirma Vorcaro:
o essencial na abordagem do caso clínico na pesquisa em psicanálise é a função de
exponenciar o saber adquirido com os ensinamentos do caso, tornando-o capaz de
interrogar, reformular, distinguir ou ultrapassar o que já foi explicitado pela
generalização teórica psicanalítica (2010, p. 15).
Na mesma direção, Zanotti et al (2015) em ―Psicanálise e universidade: considerações
sobre o caso clínico em pesquisas‖ destacam a importância do uso do caso clínico em
pesquisas teóricas em psicanálise. Para as autoras, a ilustração e discussão de casos permitem
que haja um aprofundamento de conceitos da teoria psicanalítica. As autoras lembram que foi
através desta prática que Freud avançou na construção da sua teoria com relação à
metapsicologia e quanto à direção do tratamento.
Com base no apresentado, a presente dissertação divide-se em três capítulos, os quais
foram construídos com base no questionamento norteador da pesquisa. O primeiro capítulo
apresenta e discute os Distúrbios da Diferenciação do Sexo (DDS), tema através do qual
surgiu o interesse para a presente pesquisa.
É importante salientar que neste capítulo foram utilizadas produções e estudos do
campo da saúde, além de pesquisas na área da psicanálise, sobretudo da área da medicina
genética. Tais produções foram consideradas relevantes, já que a proposta foi contribuir com
os estudos acerca dos Distúrbios da Diferenciação do Sexo, categoria diagnóstica própria do
conhecimento médico. Destaca-se que publicações com a temática dos DDS ainda são
escassas, o que justifica a eleição de um livro como fonte principal para a coleta de dados e de
14
investigação, intitulado Menino ou Menina? - Distúrbios da Diferenciação do Sexo dos
autores Guerra-Júnior e Maciel-Guerra (2010), além de artigos e outras publicações da área.
Os demais textos que auxiliaram na investigação são artigos científicos, capítulos de
livros e produções de pesquisas de pós-graduação, como mestrado e doutorado. A busca dos
artigos foi realizada nas plataformas Scientific Electronic Library Online (SciELO) e na
Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). A busca de dissertações e teses ocorreu no Banco de
Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), na
biblioteca digital Domínio Público e em bancos de dados de programas de pós-graduações.
Para a busca, de forma geral, foram usados os descritores ―diferença sexual‖, ―diferenciação
sexual‖, ―diferença dos sexos‖, ―distúrbio da diferenciação do sexo‖, ―intersexualidade‖ e
―psicanálise‖. A busca ocorreu através de uso de cada descritor e da combinação de dois ou
mais deles. Não foram estabelecidos critérios quando ao período de publicação dos artigos.
Os resultados foram categorizados em dois principais eixos: pesquisas na área da
saúde, dentre os quais estão textos da medicina, enfermagem, entre outros; e textos do campo
psicanalítico. A primeira categoria de textos é apresentada no primeiro capítulo desta
dissertação, o qual se configurou como a revisão de literatura. Os textos encontrados da área
da psicanálise foram utilizados tanto na revisão de literatura, como na discussão localizada ao
longo dos outros capítulos.
Assim, ainda no primeiro capítulo, discute-se a diferença sexual, sob a ótica da
psicanálise no intuito de introduzir a questão deste estudo. Desta forma, discute-se a atuação
da psicanálise na clínica dos DDS, ao mesmo tempo em que se introduz algumas
contribuições de Freud acerca da diferença sexual.
No segundo capítulo, discute-se a teoria de Freud acerca da sexualidade. Para tanto, o
capítulo recebeu uma divisão em tópicos, os quais foram eleitos com base no texto ―Tres
Ensayos de teoria sexual‖ (FREUD,1905/2003), fundamental na presente pesquisa. Deste
modo, discute-se temas considerados pertinentes para a elaboração do estudo, tais como: a
pulsão, a sexualidade infantil e a curiosidade, as zonas erógenas, as aberrações sexuais, a
bissexualidade e o complexo de Édipo. O objetivo deste capítulo é introduzir a teoria
freudiana na medida em que se investiga a sexualidade e o estatuto da diferença sexual na
teoria em questão, com o intuito de possibilitar uma fundamentação teórica e embasamento na
construção do presente estudo. É importante ressaltar que autores contemporâneos que
sustentam suas produções nas concepções freudianas também foram consultados neste
momento da pesquisa.
15
O terceiro capítulo reserva-se à discussão da diferença sexual, fundamentada na teoria
de Freud, a partir de informações e fragmentos do caso clínico ―O Pequeno Hans‖ (FREUD,
1909/2003). Desta forma, inicialmente se apresenta o caso e suas particularidades e em
seguida discute-se o estatuto da diferença sexual no caso clínico em questão, a partir da teoria
do complexo de Édipo. Do mesmo modo, contribuições de pesquisadores contemporâneos
acerca da diferença sexual em psicanálise auxiliaram na discussão proposta, tais como
Ceccarelli (1998; 1999a; 1999b; 2008; 2010), Ansermet (2003; 2014) e Paula e Vieira (2015).
16
2
O “X” DA QUESTÃO
O presente capítulo destina-se a discutir dois principais temas que nortearam a
presente investigação, a saber: a diferenciação do sexo, a partir de estudos realizados na área
da saúde, sobretudo no campo da medicina genética; e a diferença sexual sob o ponto de vista
da psicanálise. Salienta-se que o ponto de partida para este estudo foram os Distúrbios da
Diferenciação do Sexo (DDS), tema também discutido neste capítulo.
Os Distúrbios da Diferenciação do Sexo (DDS), segundo Guerra-Júnior e MacielGuerra (2010b), são problemas congênitos que dificultam a definição do sexo ao qual o
indivíduo pertence. Nestes casos, apenas a anatomia dos órgãos genitais externos não
fornecem fundamentos suficientes ao médico para fazer tal constatação e, sendo assim, tornase necessária uma investigação complexa, rápida e eficaz, geralmente realizada por uma
equipe interdisciplinar (MACIEL-GUERRA, 2010b).
Conforme destacado, a discussão deste capítulo é construída a partir das contribuições
de dois principais campos do saber: a medicina e a psicanálise. A medicina, em especial a
medicina genética, que se ocupa com o processo e investigação e diagnóstico do sexo das
pessoas com DDS; e a psicanálise, que além de proporcionar espaço de escuta para estes
sujeitos, considera que a sexualidade não deve ter seu caráter reduzido ao biológico,
atribuindo à subjetividade um lugar de destaque.
Após uma revisão das contribuições nas áreas da psicanálise e da medicina acerca do
tema, foi identificado o uso de vários termos que se assemelham em sua escrita, aspecto que
demandou a compreensão dos termos utilizados em cada pesquisa.
Com base nisto,
diferenciá-los como termos que são utilizados em campos diferentes tornou-se fundamental,
visto que cada área tem o seu conhecimento específico e contribui nas investigações e estudos
a partir dele. Termos como ―diferenciação do sexo‖, ―diferenciação sexual‖, ―diferença
sexual‖, e ―diferença dos sexos‖ são passíveis de serem confundidos devido à semelhança
entre eles, no entanto, ressalta-se que cada um deles possui uma significação distinta.
É possível encontrar na área da medicina estudos relacionados aos Distúrbios da
Diferenciação do Sexo, os quais trazem como tema central a ―diferenciação sexual‖. Segundo
Mello e Soardi (2010), trata-se de um processo hormonal que leva ao fenótipo sexual de cada
individuo, ou seja, que contribuem para o desenvolvimento dos genitais externos e internos e
17
para a maturação sexual esperada no período da puberdade. Ou seja, refere-se a um processo
que ocorre no organismo.
O termo ―diferenciação do sexo‖ é encontrado na nomenclatura Distúrbios da
diferenciação do sexo e por isto não foi possível identificar, dentro da literatura investigada,
uma definição isolada para o termo. No entanto, é possível inferir, através da leitura das
produções sobre DDS, que diferenciação do sexo trata-se do processo de investigação e de
diagnóstico, o qual busca a definição do sexo de um individuo.
Os termos ―diferença dos sexos‖ e ―diferença entre os sexos‖ são encontrados em
pesquisas as quais possuem o gênero como tema central. Neste sentido, de uma forma ampla,
trata-se de pesquisas as quais discutem as desigualdades sociais a partir de discussões sobre o
gênero (CECCARELLI, 1999a; ROCHA, 2003; COLLING, 2015).
Com relação à ―diferença sexual‖, termo usado nesta pesquisa e encontrado nas
pesquisas na área da psicanálise, Ceccarelli (2008) em seu texto ―Onde se situa a diferença?‖
afirma que é difícil sabermos em que ela consiste e questiona-se onde ela se situa. Para ele, o
que está em jogo são modalidades que devem ser tratadas separadamente, embora sejam
frequentemente superpostas. Estas modalidades referem-se a sentimentos que se manifestam
por ―eu sou menino‖ ou ―eu sou menina‖ e não consideram o que o pesquisador chama de
―diversidade dos órgãos sexuais‖, e, portanto, parte da lógica binária dos sexos; o outro
sentimento manifesta-se por ―eu sou masculino‖ ou ―eu sou feminina‖. Este se trata de um
sentimento que, embora tenha sua construção de uma forma discreta, é mais complexo do que
o primeiro. Além disto, depende da situação edipiana e dos ideais socioculturais nos quais a
criança se encontra inserida, sendo retomado durante a puberdade.
Em ―Diferenças sexuais...? Quantas existem?‖ Ceccarelli (1999a) afirma que, neste
caso, o que interessa é se existem diferenças psíquicas entre os sexos e questiona se a
diferença anatômica garante a diferença psíquica. Segundo o pesquisador, Freud destaca as
diferenças sexuais como diferenças entre o desenvolvimento sexual do menino e da menina e
as diferenças no supereu no homem e na mulher e que só é possível estabelecê-las através do
pulsional (CECCARELLI, 1999b).
18
2.1 Os Distúrbios da Diferenciação do Sexo (DDS)
Hughes (2008), em seu artigo intitulado ―Disorders of sex development: a new
definition and classification‖, define os DDS como ―qualquer problema observado no
nascimento em que a genitália é atípica em relação aos cromossomos ou gônadas‖ (p. 119,
tradução nossa). Na mesma direção, Mendonça (2010, p. 80) define DDS como ―toda doença
congênita na qual a constituição cromossômica, gonadal, sexual ou anatômica é atípica‖. A
autora afirma que em casos de DDS pode ocorrer a impossibilidade de identificar o sexo pela
mera observação dos genitais externos. Isto ocorre quando a genitália é ambígua. Marques-deFaria et al (2010, p. 497) afirmam que são considerados DDS ―as situações clínicas
conhecidas no meio médico como genitália ambígua, ambiguidade genital, intersexo,
hermafroditismo verdadeiro, pseudo-hermafroditismo (masculino ou feminino), disgenesia
gonadal, sexo reverso, entre outras (2010, p. 497). Spindola-Castro em seu artigo ―A
importância dos aspectos éticos e psicológicos na abordagem do intersexo‖ caracterizou estes
casos como sendo de ―emergência médica e social‖ (2005, p. 47).
Considera-se relevante destacar que as publicações brasileiras sobre o tema as quais
referem-se aos Distúrbios de Diferenciação do Sexo apresentam-se através de diversas
nomenclaturas, assim, o assunto é tratado muitas vezes através do termo ―intersexualidade‖
(SPINDOLA-CASTRO, 2005; PAULA; VIEIRA, 2015) , ou ainda ―Ambiguidade Genital‖
(SILVA et al, 2006; MARQUES-DE-FARIA, 2010).
O termo Distúrbios da Diferenciação do Sexo é um termo considerado novo. Damiani
& Guerra-Júnior (2007), no artigo ―As novas definições e classificações dos Estados
Intersexuais: o que o Consenso de Chicago contribui para o estado da arte?‖, afirmam que
diante de desconfortos causados por alguns termos e dos impasses na solução de problemas
por conta do uso de terminologias como intersexo, hermafroditismo, dentre outras, alguns
especialistas reuniram-se em Chicago para discutir e elaborar um consenso sobre o assunto e
sobre o termo a ser usado.
No artigo, Damiani & Guerra-Júnior (2007) afirmam que o termo ―Anomalias da
Diferenciação Sexual‖ (ADS) ou, em inglês, Disorder of Sex Development (DSD), foi
identificado como o ideal, visto que não apresentava nem sentido duplo nem pejorativo. É
importante destacar que o estudo foi publicado no ano de 2007 e que, atualmente, o termo
19
utilizado no português é Distúrbios da Diferenciação do Sexo – DDS (GUERRA-JÚNIOR;
MACIEL-GUERRA, 2010b).
Paterski et al (2010) em ―Impact of the consensus statement and the new DSD
classification system‖ afirmam que a proposta no Consenso foi de substituir um termo que
apresentava muitas conotações. No entanto, os autores destacam que o termo proposto não é
em si concretamente descritivo, mas é um termo global, capaz de abranger de forma ampla
um sistema de classificações proposto.
Para Mendonça (2010), a nomenclatura ideal deve ser flexível diante das novas
informações e estudos. Assim, termos como ―hermafroditismo‖, ―intersexo‖, ―pseudohermafroiditismo‖, ―reversão sexual‖, os quais foram usados durante algum tempo, foram
evitados posteriormente e caíram em desuso por serem considerados estigmatizantes.
Hemesath (2010) afirma que a mudança nos termos deu-se como resultado de
discussões sobre as questões éticas envolvidas na forma de lidar com o tema. A autora ressalta
que, além disto, foram consideradas as possíveis repercussões sociais e psicológicas do uso de
cada termo. Para ela, o termo ―intersexo‖, por exemplo, não seria o ideal por indicar um
terceiro sexo ou um sexo intermediário, o que poderia trazer confusão para essas pessoas.
No entanto, é importante destacar que existem estudos que apresentam culturas,
pesquisas e movimentos os quais defendem que casos de pessoas com ambiguidade genital
devem ser vistos como um terceiro sexo, o sexo ambíguo (ANSERMET, 2003; MACHADO,
2005b). Machado (2005b) apresenta em seu artigo as considerações de Herdt1, autor que
defende a existência de uma terceira categoria para pensar o sexo, com o propósito de
desconstruir a ideia de ―natureza binária‖. A proposta é de construir uma nova forma de olhar
para a questão do sexo, não mais baseada no corpo, na genitália. Seria uma estratégia, que
Machado (2005b) chama de ―teórico-conceitual‖, com o intuito de mostrar que nem todas as
culturas tratam a questão com base em classificações anatômicas/biológicas, devendo ser,
portanto, segundo Herdt, uma construção histórico-cultural. Segundo Ansermet (2003), nos
Estados Unidos atualmente existe um movimento que propõe manter a anatomia destas
pessoas, por acreditar que a correção cirúrgica é uma forma de segregar, excluir este terceiro
sexo.
1
HERDT, Gilbert. Preface.; Introduction: Third Sexes and Third Genders. In: Third Sex, Third… Op.cit., pp.1181.
20
Spindola-Castro (2005) apresenta um percurso histórico quanto ao posicionamento da
medicina frente aos DDS, dividindo-o em três momentos: a era das gônadas, a era cirúrgica e
a era do consenso. É importante destacar que naquele momento o termo utilizado era
―intersexo‖. Segundo a autora, a medicina atenta para a questão dos DDS no ano de 1896,
quando buscaram critérios para definir o sexo nestes casos. O ―sexo verdadeiro‖ era
estabelecido a partir da anatomia das gônadas, ou seja, o que era levado em consideração era a
presença (ou não) de ovários ou testículos. Assim, não eram avaliados a função dos tecidos
ovariano ou testicular, o aspecto do genital, o tamanho do pênis ou a presença da vagina (ou
de mamas), dentre outros. Este momento a autora intitulou de ―Era das gônadas‖.
Com o avanço na tecnologia e nas pesquisas, casos de pessoas ―hermafroditas
verdadeiros‖ foram identificados e oficialmente descobertos e a definição gonadal começou a
ser reavaliada no ano de 1915. Desta forma, concluir-se-ia que as características físicas do
sexo não correspondiam, necessariamente, àquilo que indicavam as gônadas, informação que
apontava a não dependência de um aspecto com relação ao outro. Porém, mesmo com a
discussão, dois aspectos permaneciam: a necessidade de manter claramente as divisões entre
os sexos e a ideia de que cada corpo teria apenas um sexo, o qual não dependeria dos órgãos
sexuais. Iniciava, então, um período denominado ―Era cirúrgica‖ (SPINDOLA-CASTRO,
2005).
Neste momento, era indicado que os médicos diagnosticassem um único sexo para
estes indivíduos e que eliminassem as características incompatíveis com o sexo diagnosticado.
Assim, na medicina, o sexo era diagnosticado por um clínico e estabelecido por um cirurgião.
Esta conduta era reconhecida como ideal para a orientação de pacientes com ambiguidade
genital (SPINDOLA-CASTRO, 2005). Para Damiani e Steinmetz (2010) a genitália é
ambígua quando oferece dificuldade para o médico (considerado conhecedor das variações da
normalidade de uma genitália externa) atribuir o sexo ao individuo, este geralmente criança.
Assim, de acordo com Spindola-Castro (2005), a fim de garantir a ―saúde mental‖ e
uma identidade de gênero, as pessoas com ambiguidade genital deveriam submeter-se à
correção dos genitais por meio de cirurgia, a qual garantiria àquele paciente a possibilidade de
manter relações sexuais e de reproduzir-se. A ambiguidade genital, portanto, tornou-se uma
―emergência médica‖, para a qual a resolução caberia à equipe multiprofissional sem a
participação dos familiares. O propósito seria de criar a criança como um menino ou como
uma menina a partir da escolha feita quanto ao sexo, a fim de obter indivíduos que sejam
21
fisicamente adequados ao sexo escolhido, que tenham aderência ao tratamento hormonal, boa
relação familiar, dentre outros (SPINDOLA-CASTRO, 2005).
Este posicionamento buscaria evitar o que a autora chamou de ―confusões
psicológicas‖, as quais poderiam acontecer tanto nas pessoas com ambiguidade genital,
quanto em seus pais. E o assunto deveria ser evitado nos núcleos familiares, priorizando
termos genéricos, a fim de evitar dúvidas quanto ao sexo determinado pela equipe médica. A
autora afirma que este posicionamento perdurou e foi inquestionável durante 40 anos. Na
década de 1990 as pessoas com DDS passaram a ser ouvidas, alguns posicionamentos
médicos que correspondiam à ―Era Cirúrgica‖ começaram a ser criticados e, assim, iniciaramse várias discussões e ―uma fase de revisões de conceitos e de condutas‖ as quais são
fundamentadas a partir da escuta destas pessoas (SPINDOLA-CASTRO, 2005).
É possível identificar no texto de Spindola-Castro (2005) outra era na história da
medicina, a qual é apresentada pela autora a partir da discussão de Jonh Money no artigo
intitulado ―Hermaphroditism, gender and precocity in hyperadrenocorticism: psychological
findings‖, publicado no ano de 1955. Segundo Spindola-Castro (2005), Money aponta que,
em pessoas com DDS, parâmetros como gênero e sexo de criação poderiam ser considerados
mais confiáveis no tocante ao futuro comportamento do que aspectos biológicos, como o sexo
cromossômico, hormonal e anatomia da genitália, dentre outros. Para sustentar sua discussão,
a autora conta que para Money, a criança nasce com uma ―neutralidade psicossexual‖ a qual
permitiria localizá-la na posição de homem ou de mulher. Esta ideia foi sustentada a partir de
pesquisas com pessoas adultas com DDS, as quais foram criadas em oposição às informações
biológicas e independentes da anatomia genital e, assim, foram ―adaptadas‖ ao sexo
designado ao nascimento. Iniciou-se, então, a ―Era do Consenso‖. É importante ressaltar que o
texto da autora foi publicado no ano de 2005, ano em que aconteceu um evento o qual se
chamou ―Consenso de Chicago‖ e que foi inspiração para a intitulação desta nova era
(DAMIANI; GUERRA-JÚNIOR, 2007).
Segundo Spindola-Castro (2005), estabeleceu-se, assim, que a criação ou o ambiente é
a principal influência quanto ao posicionamento futuro da criança, enquanto que em
momentos anteriores isto era estabelecido pela natureza. A autora destaca uma informação
pertinente: apesar de serem posicionamentos diferentes, em ambos os casos o médico é a
pessoa que define o sexo do paciente e o corpo avaliado seria o fundamento para tal decisão.
Em ―‗Quimeras‘ da ciência: a perspectiva de profissionais da saúde em casos de
intersexo‖, artigo no qual Machado (2005a) apresenta uma pesquisa realizada com equipes de
22
saúde sobre o DDS, a autora afirma que a inclusão de novos profissionais a partir de uma
equipe interdisciplinar é vista como uma inovação neste tipo de prática. Estes profissionais
ajudam na tomada de decisão quanto ao futuro do paciente e, para tanto, são acionadas
diferentes especialidades, cada uma com a sua atribuição, com seu saber específico, conforme
ressalta a autora.
Desta forma, cabe aos médicos da endocrinologia preocupar-se com o bom
funcionamento do órgão e considerar as funções reprodutiva e sexual, com o propósito de
―normalizar as funções de indivíduos mulheres ou homens‖ (MACHADO, 2005a, p. 71, grifo
do autor). Assim, segundo Machado (2005a), a função reprodutiva refere-se à questão da
fertilidade, enquanto a sexual refere-se à resposta ao estímulo hormonal (aumento do pênis e
ereção, nos homens e desenvolvimento de mamas e menstruação para as mulheres).
A genética se atém ao diagnóstico clínico, o qual é complexo e depende de vários
fatores. Assim, ele ―é capaz de ver inúmeras possibilidades no que se refere ao sexo de uma
pessoa‖ (MACHADO, 2005a, p. 71). A pediatra é quem primeiro recebe estes pacientes e
atém-se a salvar vidas, analisar o risco de vida, a partir de investigações quanto à quantidade
de sal no organismo em questão (MACHADO, 2005a).
Por fim, Machado (2005a), destaca o psicólogo como parte desta equipe. A ele cabe
preocupar-se inicialmente com a família do paciente (caso se trate de uma criança). A autora
considera que o ―psiquismo‖ é construído de forma adequada se houver clareza sobre a
questão anatômica. Assim, a pretensão é estabelecer coerência entre o sexo definido para a
criança e o seu comportamento com relação a ele. Por fim, o médico cirurgião seria aquele
que constrói um corpo de menino ou o corpo de menina.
Machado (2005a) afirma que estas especialidades contribuem, cada uma com o seu
saber, na decisão sobre corrigir uma genitália para o sexo feminino ou para o sexo masculino.
Mas destaca que há posições hierárquicas do saber no tocante a esta decisão. Desta forma,
para tal decisão são privilegiados alguns aspectos: a materialidade genética, a possibilidade de
construção dos genitais, a questão endocrinológica e os fatores psicossociais. Porém, a autora
ressalta que a medicina genética ocupa uma posição peculiar neste processo, pois constrói um
tipo de saber sobre o corpo que é diferente das outras áreas, por não se prender às
classificações anatômicas, ou seja, não se atém ao modelo binário dos sexos e consideram
várias possibilidades.
23
Sobre a cirurgia, Machado (2005a) afirma que existe um acordo entre os médicos de
que esta deve ser realizada até no máximo dois anos de idade da criança. Mas ressalta que,
dentro da classe, existem aqueles que se questionam se as pessoas não poderiam decidir isto
quando estivessem na idade que permitisse tal decisão, por se tratar de algo referente ao seu
próprio corpo. É importante destacar que a autora não discute qual idade seria esta. Segundo
Machado (2005a, p. 76) ―a necessidade cirúrgica se constrói como uma resposta à necessidade
lógica da sociedade de pensar um individuo como masculino ou feminino‖.
Para Spíndola-Castro (2010), o objetivo inicial da cirurgia é possibilitar uma
convergência entre sexo e gênero designados, além de possibilitar aos pais um benefício
psicológico, pois, segundo a autora, a maioria dos pais não consegue suportar esta situação e
demandam urgência em inserir a criança no contexto social. Em médio prazo, afirma a autora
que, a partir da cirurgia, é possível um crescimento do individuo com menos problemas
psicológicos quanto às diferenças físicas ao comparar-se com outras crianças. Já a longo
prazo, a cirurgia possibilita uma atividade sexual considerada satisfatória.
Machado (2005a) refere-se à diferenciação do sexo como ―cascata de eventos‖ por
necessitar de uma gama de investigações e de um conjunto de informações a ser considerado.
Seria um ―quebra-cabeça‖ no qual as peças necessariamente não teriam um encaixe perfeito
entre si e que o produto final não é conhecido previamente. Para a autora, estas peças seriam
as diferentes visões que cada área de conhecimento tem acerca do corpo e das diferenças do
sexo. O que chama a atenção nesta pesquisa é que, no tocante ao trabalho do psicólogo, ainda
que a família seja considerada, ou que alguns médicos atualmente levem em conta a
possibilidade do próprio paciente decidir quanto ao seu sexo; não foram citados ao longo do
estudo o desejo e a participação dos familiares (ou do próprio paciente) neste processo de
decisão. A família foi apresentada como um apoio e uma aliada na construção do bem-estar
do paciente posteriormente à definição do sexo.
A este respeito, Zanotti e Xavier (2011) em ―Atenção à saúde de pacientes com
ambiguidade genital‖, com base em uma pesquisa realizada em hospital público do Nordeste,
afirmam que esta conduta não é mais utilizada nos serviços os quais atendem pacientes com
DDS com genitália ambígua. Segundo as autoras, as ações dos profissionais no cenário da
saúde mostram outra realidade e ressaltam a importância da participação da família no
processo de investigação diagnóstica e no tratamento. Assim, no espaço investigado, o
processo de diferenciação e definição do sexo da criança necessariamente envolve equipe
multiprofissional e a família.
24
A medicina brasileira atual (GUERRA-JÚNIOR; MACIEL-GUERRA, 2010b)
considera que a diferenciação do sexo deve ocorrer através do diagnóstico e da classificação,
de acordo com a sua etiologia, com base nas orientações do Consenso. Segundo Mendonça
(2010), os DDS classificam-se em quatro grandes grupos, os quais se subdividem: 1. DDS
associado a anormalidades cromossômicas; 2. DDS 46, XY; 3. DDS 46, XX; 4.
Indeterminado. De acordo com a autora, para que haja a diferenciação do sexo, é necessário
realizar exames de imagem, exames hormonais e bioquímicos, além de uma avaliação
citogenética (avaliação a partir do estudo dos cromossomos, sua estrutura e sua herança,
aplicado à prática da genética médica).
2.2 “É menino ou menina?”: a diferenciação do sexo
Sabe-se que, a partir do momento em que a mãe descobre que está grávida, é comum
surgirem perguntas quanto à evolução da gravidez e ao desenvolvimento do bebê. Neste
sentido, dois questionamentos são recorrentes, de forma praticamente concomitante: 1. ―O
bebê é perfeito?‖; 2. ―É menino ou menina?‖.
No tocante à segunda pergunta, Mello e Soardi (2010) afirmam que, no caso de DDS,
a diferenciação do sexo do bebê, de uma forma geral, é feita a partir da presença ou da
ausência do cromossomo y no cariótipo. Segundo Machado (2005b), o cariótipo é o conjunto
de cromossomos de um indivíduo e os cromossomos sexuais, os quais geralmente se
apresentam por um par (XX ou XY), são os que possibilitam a diferenciação do sexo
genético. Neste sentido, Mello e Soardi (2010) afirmam que a diferenciação do sexo com base
no cariótipo seria uma ―diferenciação masculina‖, visto que é a presença ou a ausência do
cromossomo y que determina se o sexo é masculino ou feminino.
Segundo Moraes et al (2010) até seis semanas após a fertilização o embrião humano
possui potencial bissexual e apresenta primórdios de gônadas (glândulas sexuais
representadas pelos ovários nas mulheres e pelos testículos nos homens) e de genitais
idênticos para ambos os sexos e, por isso, não é possível realizar uma distinção de forma
macro ou ainda microscopicamente entre embriões que virão a ser meninos ou meninas. A
este momento dá-se o nome de período indiferenciado, por não existir diferenças anatômicas e
histológicas entre os embriões de diferentes sexos cromossômicos (GRINSPON; REY, 2010).
25
Seria, portanto, a partir deste período que é possível acontecer o processo de diferenciação e
de determinação sexual (MORAES et al, 2010).
Segundo Rey e Grinspon (2010), o processo de diferenciação sexual fetal acontece em
três etapas: o período indiferenciado, o período de determinação gonadal e a diferenciação dos
genitais internos e externos. O primeiro, o chamado período indiferenciado, corresponde ao
momento em que se formam estruturas – idênticas nos dois sexos- que servem de base para o
desenvolvimento dos órgãos genitais, conforme apresentado anteriormente; O período de
determinação gonadal, segunda etapa deste processo, consiste na diferenciação das cristas
gonadais. Isto ocorre de formas distintas no sexo masculino e no sexo feminino. No caso do
sexo masculino, a diferenciação na direção do sentido testicular será determinante quanto ao
restante dos órgãos genitais em etapa posterior da vida fetal e quanto ao desenvolvimento dos
caracteres sexuais masculinos na puberdade; já no caso do sexo feminino, a diferenciação
ovariana não é responsável pelo desenvolvimento dos genitais na vida fetal, somente na vida
puberal. Por último, ocorre a diferenciação dos genitais internos e externos, que depende de
forma direta e indireta da produção (ou não produção) de hormônios testiculares, além de
outros fatores os quais não são hormonais (GRINSPON, 2010).
Moraes et al (2010) destacam que a determinação e a diferenciação sexual são
processos os quais fazem parte vários eventos celulares distintos. Estes eventos, interligados
uns aos outros, são regulados por um conjunto complexo de genes e de proteínas que se
organizam de forma hierárquica. Além disto, os autores destacam que alguns dos processos de
determinação e de diferenciação sexual ocorrem durante o período embrionário, outros
durante o período fetal e alguns só podem ser realizados após o nascimento.
Para Mello e Soardi (2010), o processo de determinação e diferenciação sexual dividese em três etapas, a saber: 1. determinação do sexo cromossômico (se XX no caso de
mulheres ou XY no caso de homens); 2. diferenciação das gônadas em testículos, para o sexo
masculino; ou ovários, no caso do sexo feminino. Isto ocorre a partir da diferenciação dos
órgãos genitais internos e externos masculinos ou femininos com base na identificação da
presença ou da ausência de testículos; 3. diferenciação sexual secundária, a qual corresponde
à resposta de tecidos aos hormônios produzidos pelas gônadas para completar o fenótipo
sexual. Os processos de determinação e de diferenciação sexual influenciam no
desenvolvimento dos genitais internos e externos, assim como na maturação sexual durante a
fase da puberdade (GUERRA-JÚNIOR; MACIEL-GUERRA, 2010b).
26
É importante ressaltar que para alguns autores os termos ―determinação sexual‖ e
―diferenciação sexual‖ não são sinônimos, ou seja, não tratam da mesma coisa. Segundo
Moraes et al (2010), o processo de determinação sexual é aquele que resulta na formação de
gônadas em ovários ou testículos, enquanto que a diferenciação sexual está relacionada aos
processos posteriores, como a formação dos ductos genitais e dos órgãos sexuais. Desta
forma, a diferenciação sexual está ligada a ações hormonais que originam os fenótipos
masculino ou o feminino (MELLO; SOARDI, 2010).
Para Rey e Grinspon (2010), no processo de diferenciação sexual dos seres humanos
encontra-se o desenvolvimento de órgãos genitais. Segundo os autores, isto ocorre em dois
momentos, o primeiro durante a vida fetal e, posteriormente, durante a puberdade. No
primeiro caso, o da diferenciação sexual fetal, os processos que nele são envolvidos são
controlados fundamentalmente por fatores hormonais.
Após o nascimento, os genitais mudam muito pouco em termos morfológicos até o
momento da puberdade. Alguns meses depois do nascimento há o predomínio de hormônios
diferentes na menina e no menino. No caso das meninas, a produção do hormônio feminino
pode desenvolver folículos ovarianos e a produção de outro hormônio o qual estimula o
desenvolvimento das mamas e das mucosas do útero e da vagina. No caso dos meninos, as
concentrações de alguns hormônios aumentam no primeiro mês de vida enquanto que a
produção de outros hormônios diminui na segunda metade do primeiro ano de vida. Neste
período existe um aumento do volume testicular que não é detectável através da palpação
(GRINSPON; REY; 2010).
Grinspon e Rey (2010) afirmam ser por volta dos 6 aos 8 anos de idade que são
produzidos hormônios, tanto na menina quanto no menino, os quais podem resultar no
desenvolvimento de pelos pubianos e de outros sinais como acne, pele gordurosa, dentre
outros. Porém ressaltam que o início do desenvolvimento puberal na menina acontece por
volta dos 8 anos, enquanto que nos meninos ocorre a partir dos 9 anos. Os autores enfatizam
que esta idade é atualmente controversa e existem variações segundo as populações e grupos
étnicos.
No caso das meninas, o desenvolvimento puberal manifesta-se visualmente com o
aparecimento do botão mamário e com o estímulo das secreções vaginais e do trofismo
uterino (nutrição fundamental que abrange as trocas metabólicas dos tecidos do útero). Podese afirmar que a menina está clinicamente na puberdade quando aparece o botão mamário. A
menarca (primeira menstruação) ocorre após o pico de crescimento puberal, o qual coincide
27
com o crescimento e elevação da mama e da auréola e com o surgimento de pelos pubianos
(GRINSPON; REY, 2010).
Nos meninos, testículos, escroto e pênis permanecem do mesmo tamanho da infância
até a fase pré-puberal. O desenvolvimento puberal é identificado quando o volume testicular
por apalpação alcança 4mL, o que caracteriza que ele está em puberdade. Posteriormente
ocorre o aumento peniano, dos testículos e do escroto e o desenvolvimento significativo de
pelos pubianos (GRINSPON; REY, 2010).
As autoras Siviero-Miachon e Spíndola-Castro (2010) alegam que além do que fora
apresentado, existe o que se pode chamar de ―diferenças sexuais cerebrais‖, entendimento este
construído a partir de pesquisas as quais demonstraram que o ―cérebro é um órgão
sexualmente dismórfico‖ (SIVIERO-MIACHON; SPÍNDOLA-CASTRO, 2010, p. 62), ou
seja, significa que o cérebro pode assumir formas diferentes a depender do sexo do indivíduo.
A partir destas pesquisas, as quais tinham como amostra ratos, descobriu-se que o hipotálamo,
nos seres humanos, é uma das principais áreas cerebrais em que são identificadas as
diferenças sexuais. Assim, parte do órgão é nitidamente maior nos homens quando comparada
a mesma área nas mulheres. Em contrapartida, existiria outra área cerebral que teria um maior
volume nas mulheres do que nos homens.
Siviero-Miachon e Spíndola-Castro (2010) destacam que ainda não é conhecido o
significado funcional destes dismorfismos, mas que algumas destas estruturas neurais
encontram-se numa área do cérebro responsável pela ―regulação do comportamento
reprodutivo‖. E que aos dois e três anos de idade este tipo de diferença sexual já é evidente,
pois os hormônios sexuais masculinos influenciam na formação dessas estruturas dismórficas.
Neste sentido, segundo as autoras Siviero-Miachon e Spíndola-Castro (2010), existe a
chamada ―diferenciação sexual cerebral‖, que é uma consequência de alterações permanentes
no cérebro e nas suas funções, com interações entre os neurônios em desenvolvimento e o
ambiente. Este processo ocorre posteriormente à diferenciação dos órgãos sexuais,
influenciado, sobretudo, pela presença de hormônios sexuais que atuam nas células cerebrais
em desenvolvimento. A partir disto, os circuitos cerebrais desenvolvidos serão ativados
durante a puberdade pelos hormônios sexuais.
Ainda sobre a discussão que fazem Siviero-Miachon e Spíndola-Castro (2010), as
autoras afirmam que existem efeitos significativos dos hormônios sexuais - tanto produzidos
antes do nascimento, como os que são produzidos após o nascimento – na diferenciação
28
sexual do cérebro de humanos, os quais influenciam no comportamento relacionado ao sexo.
Isto se apresenta em brincadeiras, escolha de parceiros, no próprio comportamento com os
pais, além da percepção espacial. Neste sentido, as autoras destacam a importância da ação de
hormônios masculinos no estabelecimento do comportamento de pessoas do sexo masculino,
no entanto, ressaltam que o hormônio não é o único determinante do comportamento e
destacam outros fatores como o social, o psicológico e o biológico.
Por fim, Siviero-Miachon e Spíndola-Castro (2010), afirmam que as estruturas
cerebrais são capazes de influenciar nas diferenças sexuais cerebrais e no comportamento, na
identidade de gênero, no papel sexual, na orientação sexual e nas diferenças sexuais quanto ao
aprendizado, o comportamento e agressividade.
Em se tratando do sexo genético, Moraes et al (2010) afirmam que este é estabelecido
através da fertilização de um óvulo normal por um espermatozoide que contém o cromossomo
x ou y. Conforme anteriormente citado, isto determinará a qual sexo biológico a criança
pertence. Caso haja uma falha genética nestes processos, de determinação e de diferenciação
sexual do embrião, instaura-se os chamados Distúrbios da Diferenciação do Sexo (DDS), os
quais podem ocasionar a Ambiguidade Genital (genitália ambígua).
Paula e Vieira (2015) em ―Intersexualidade: uma clínica da singularidade‖, destacam
que, nos casos de Ambiguidade Genital, o diagnóstico pode acontecer em dois momentos
distintos: no momento do nascimento, caso a anatomia genital apresente algum problema que
seja detectável imediatamente; e em momento posterior, considerado tardio, quando as
modificações corporais que deveriam acontecer na puberdade não aparecem. As autoras
destacam que o momento do diagnóstico é importante nestes casos, pois as intervenções e
conduções médicas serão diferentes a depender do momento no qual a descoberta foi feita.
Bittencourt & Ceschini (2010) afirmam que na diferenciação e definição do sexo, além
das características genéticas, anatômicas e hormonais, deve-se considerar os aspectos
psicológicos e sociais. Para as autoras, para que haja congruência entre os sexos
cromossômico, gonadal, genital e endocrinológico é necessário que haja também uma
identificação do individuo com o sexo em que lhe é atribuído.
Assim, para Bittencourt & Ceschini (2010), neste período, o elemento mais
significante na condução do tratamento é o apoio emocional, o qual exige da equipe
profissional sensibilidade e habilidade. Para as autoras, quando se trata de recém-nascidos, é
importante considerar o funcionamento da família diante da sociedade. Assim, vários
29
elementos sociais e culturais devem ser considerados como determinantes neste momento. Os
autores ressaltam, ainda, que é importante o diagnóstico e o tratamento, se possível, precoces
e justificam que no caso de recém-nascidos, isto buscaria evitar danos e sequelas psicológicas
e sociais. Para eles, no caso de um diagnóstico tardio, a atuação e conduta da equipe
profissional devem buscar a minimização e a reparação dos possíveis danos.
Sobre o acompanhamento da família de pessoas com DDS, Bittencourt & Ceschini
(2002) afirmam que se deve respeitar a opinião, dúvidas, medos e valores de cada grupo
familiar. Isto ajudará a família a identificar ou aceitar aquilo que se apresenta como melhor
para o paciente e, além disto, possibilita que os próprios pacientes tenham condição de fazer
suas escolhas (com exceção do paciente recém-nascido).
Com base no que afirma Clavreul (1978) em seu livro A ordem médica - poder e
impotência do discurso médico, a diferenciação do sexo é considerada, como uma conduta do
mestre. O autor faz uso deste termo por se tratar de um processo investigatório no qual o
médico recolhe o máximo de informações (no caso do DDS determinação do sexo
cromossômico, diferenciação das gônadas, etc.) e agrupa-os de forma a organizá-los numa
certa ordem lógica. Assim, desta organização o médico extrai um ―produto‖ que seria a
definição do sexo.
Assim, o médico se serve do lugar do saber e da sua autoridade para obter o máximo
de informações e prescrever exames com o propósito de estabelecer um diagnóstico com o
maior grau de certeza possível. Da mesma forma, cabe a ele mesmo decidir o que fazer a
partir do diagnóstico e se empenhar para que esta decisão seja aceita. O autor destaca que
nesta situação o doente é visto como aquele que nada sabe acerca da sua doença e que o
médico, de quem o paciente não deve duvidar, é quem sabe melhor qual o bem para o
paciente (CLAVREUL, 1978)
Neste sentido, Figueiredo (1997, p. 88) em ―Vastas confusões e atendimentos
imperfeitos – a clínica psicanalítica no ambulatório público‖ afirma que ―quem sabe sobre o
‗remédio‘ é o médico‖. Assim, é próprio do saber médico sanar o sofrimento que se apresenta
através de um conjunto de sinais e sintomas específicos no organismo dos pacientes.
Askofare (2006) em ―A arqueologia do cuidado: da prática ao discurso‖ afirma que a
medicina que temos nos dias atuais é produto de uma medicina grega. Os gregos nos séculos
IV e V passaram por uma mudança no tocante a forma de lidar com as doenças: rejeitaram a
crença de que elas eram causadas por deuses e introduziram a ideia de ―naturalização da
30
doença‖. Além disto, houve a ―laicização do cuidado‖: a medicina tornou-se uma aptidão (e
não mais um dom a uma pessoa ou descendência) e quem a adquirisse deveria usá-la ―com a
arte, com o método e o saber‖ (ASKOFARE, 2006, p. 162).
O médico, portanto, é aquele que sabe sobre a doença dos pacientes, é aquele que a
nomeia, aquele que permite localizar a queixa do paciente nas classificações nosológicas e é
quem tem o poder de atenuar o sofrimento causado por ela. O diagnóstico, sob o ponto de
vista médico, contribui para retirar, ou amenizar, a angústia do paciente diante de um não
saber. Assim, aquilo que o paciente sentia, questionava e não conseguia ser interpretado a
partir do seu próprio saber, encontra um sentido (CLAVREUL, 1978). Clavreul (1978, p. 45)
afirma que ―sobre este sentido novo o médico afirma que tem ou pode ter a mestria, o
domínio (maitrise)‖.
Clavreul (1978) traz um exemplo disto ao citar estudos em medicina genética,
sobretudo os estudos do cariótipo. Segundo o autor, em casos de fetos suscetíveis de
apresentarem alguma anomalia cromossômica, o estudo realizado a partir do exame do
cariótipo permite determinar o sexo do bebê antes mesmo que ele nasça. Desta forma, a partir
da transmissão dos seus resultados pela pessoa do médico, pode-se considerar que ―nasceu‖ a
criança, pois o anúncio do sexo permite a escolha do nome dentre outras. Assim, é a partir do
posicionamento do médico, junto ao seu processo de investigação que envolve exames, que o
paciente e a família, a partir do diagnóstico, têm a resposta de algo que até então lhes é
desconhecido: o sexo genético.
Gaspard (2012) em ―Discurso médico e clínica psicanalítica: colaboração ou
subversão?‖ afirma que a prática médica não se restringe a uma sábia observação de um corpo
e das doenças, nem à prescrição de medicamentos, nem tampouco à solicitação de exames e à
construção de diagnósticos. Para ele, faz parte desta prática deparar-se com as questões de
seus pacientes, suas angústias e inseguranças.
Nessa mesma direção, Figueiredo (1997) afirma que, para que o médico possa cuidar
do sofrimento de seus pacientes, é preciso ter a paciência e escutá-los de forma a ―traduzir‖ a
queixa a fim de chegar a um diagnóstico. Desta forma, a autora considera que à pessoa que se
queixa atribui-se legitimidade, ainda que seja pequena em comparação à pessoa do médico.
Assim, existe veracidade na fala do paciente quanto as suas sensações e sofrimento. Cabe ao
médico, portanto, explorar estas informações até determinado ponto onde este escolherá os
procedimentos cabíveis. A autora faz uma relação com ao tratamento medicamentoso e
31
afirma: ―tomar remédio nunca é um ato isento da participação do sujeito que, por sua vez,
nunca se revela de modo transparente e unívoco ao médico‖ (FIGUEREDO, 1997, p. 88).
Pinheiro (2014), em sua dissertação de mestrado ―A psicanálise e a primazia do
biológico‖, afirma que o avanço nas técnicas de imagem cerebral, dos exames e dos achados
da ciência no tocante às doenças, contribui para que atualmente se busque no organismo, ou
até mesmo no cérebro, todas as respostas para questões subjetivas que afetam o homem na
contemporaneidade. Assim, queixas como ansiedade, depressão, compulsão, dentre outros,
são investigados com base no funcionamento (ou não) cerebral, a fim de encontrar as
soluções, as quais podem ser medicamentosas ou até mesmo por meio de treinos
comportamentais.
A medicina, portanto, com o aparato da biologia, ocupa-se com questões relacionadas
ao organismo e também nele busca as suas respostas. No entanto, muitas vezes precisa buscálas em outras disciplinas para que chegue a um sentido quanto ao sofrimento dos seus
pacientes (PINHEIRO, 2014). Isto não exclui o fundamento da medicina quanto ao par de
opostos normal/patológico, ao crer que a saúde é a ausência de doença. Assim, para Pinheiro
(2014, p. 17) ―a medicina mantém sua intenção normativa e univerzalizante, propondo-se a
dar conta do homem como um todo e criando padrões a serem seguidos por ele‖.
Gaspard (2012) destaca que, ainda que os médicos tenham como principal objeto de
trabalho a doença, isto não garante que ele não se depare com o sofrimento psíquico,
perturbações, a interferência de uma patologia com problemas sociais, existenciais, dentre
outros. Desta forma, segundo o autor, a escuta seria algo presente no âmbito do exercício
clínico do médico, mas que ocupa um lugar não prioritário em função de constantes novidades
tecnológicas.
Ao lugar prioritário da escuta, Gaspard (2012) atribui ―práticas auxiliares e
complementares‖ como as da psicologia. Para o autor, é como se os serviços de medicina,
diante de tantas opções tecnológicas inseridas em um tempo onde a eficácia e a produtividade
estão em jogo, se abstivessem da função da escuta.
Zanotti e Monlléo (2012b), ao discutirem a interlocução entre psicanálise e genética
no âmbito do SUS, com base na Conferência sobre o lugar da psicanálise na medicina, de
Jacques Lacan, afirmam que a medicina admite a psicanálise como uma contribuição, uma
ajuda exterior, com a finalidade de assistência terapêutica. As autoras ressaltam que este é um
lugar que alguns psicanalistas queiram conservar, mas defendem que -―incluir o discurso
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psicanalítico nesse espaço em que a determinação biológica ou o contexto social
desresponsabilizam o sujeito por seu sofrimento é um dos desafios dessa prática que aposta na
fala e no saber inconsciente‖ (ZANOTTI; MONLLÉO, 2012b, p. 251). Neste sentido, a
psicanálise, ao sustentar-se na escuta, conduta a qual difere da medicina, contribui nas
investigações na clínica dos DDS. Com base nisto, a seguir serão apresentadas algumas
contribuições da psicanálise neste contexto.
2.3 Psicanálise e diferença sexual
O interesse em investigar a diferença sexual na psicanálise data desde seus primórdios
com Freud em ―Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia anatómica entre los sexos‖
(1925/2003). Na contemporaneidade, alguns autores tais como Ansermet (2003) e Ceccarelli
(1999a; 2008) se ocupam com o tema e com questões a ele relacionadas.
Freud (1925/2003) afirma que a diferença entre o homem e a mulher, é definida não
pela anatomia genital, mas pelo posicionamento psíquico frente às diferenças entre os sexos.
Acrescenta ainda que este processo de diferenciação inicia-se na infância, a partir da
experiência da criança no Complexo de Édipo.
Neste sentido, Paula e Vieira (2015) afirmam que a clínica dos DDS traz para o campo
da psicanálise a constatação de que a intervenção deve ser orientada com base na
subjetividade da criança, ou até mesmo nos questionamentos que ela é capaz de fazer. Isto
seria, necessariamente, fazer uma clínica a qual acredita que na infância há sexualidade e
elaboração psíquica.
Para Paula e Vieira (2015) a psicanálise, em seus estudos sobre a sexualidade,
apresenta outros aspectos no tocante à diferenciação do sexo como a subjetividade, a
participação subjetiva dos pais e a sexualidade infantil. Com base nisto, as autoras destacam, a
partir de suas experiências clínicas, que a revelação do diagnóstico de DDS deve ser discutida
pela equipe, sobretudo se a criança ou o individuo já estiver um sexo estabelecido, divergente
do identificado a partir dos exames. A intenção da discussão em equipe é avaliar como aquele
indivíduo pode beneficiar-se com as intervenções médicas. Para isto, as autoras afirmam que a
33
decisão quanto ao sexo é tomada considerando a história daquela pessoa e o percurso
realizado no tocante a esta identificação (PAULA; VIEIRA, 2015).
Nos casos de genitália ambígua, Paula e Vieira (2015) alegam que a definição do sexo
da criança, que normalmente é feita de forma simples, torna-se complexa diante de uma
anatomia que não apresenta evidências. As autoras destacam que a descoberta do DDS, com
ambiguidade genital, pode acontecer em dois momentos distintos: no nascimento, caso o seja
possível perceber, na anatomia genital, modificações evidentes; ou na fase da puberdade,
quando as modificações próprias desta fase não acontecem. Paula e Vieira (2015) ressaltam
que o momento em que este diagnóstico acontece é importante, pois as intervenções médicas
são distintas e dependem do momento em a descoberta da ambiguidade genital acontece.
Para Ansermet (2003), em ―Clínica da origem: a criança entre a medicina e a
psicanálise‖, a criança nasce menino ou menina, e, sendo assim, nos casos de ambiguidade
genital a diferença é inexistente, partindo da concepção binária dos sexos. E, se a
diferenciação não é feita, os sinais entre o igual e o diferente se desfazem. Assim, não seria
possível pensar a diferença.
Uma consequência disto, para Ansermet (2003), seria a segregação daqueles que são
atingidos pela marca da ambiguidade genital, por não ser possível o estabelecimento da
diferença a partir da lógica binária. Sendo assim, estas pessoas são colocadas à parte,
afastadas, isoladas. O autor relembra que isto é o que acontece ao longo da história com os
hermafroditas, os quais eram visto como anormais e, como consequência, condenados a
desaparecer e, caso houvesse mudança de sexo, eram condenados à morte. Para Ansermet
(2003a, p. 149), ―tratava-se, portanto, de restabelecer uma diferença absoluta‖.
A alternativa proposta pela medicina para lutar contra esta segregação é a realização
da cirurgia de correção. No entanto, Ansermet (2003) lembra que durante muito tempo os dois
sexos coexistiram nos hermafroditas, ainda que isto trouxesse para eles destinos não
desejáveis. Hoje, é possível ter a ―última palavra‖, a escolha do sexo, através de técnicas
modernas as quais buscam a modificação do sexo anatômico. Assim, o autor destaca que nos
dias atuais pode-se intervir na procriação, no material genético, no organismo, no entanto,
questiona-se: ―quais são as consequências deste poder de manipulação?‖ (ANSERMET, 2003,
p. 158).
Para Zanotti et al (2009), não há como prever e nem medir estes efeitos, pois, ainda
que a cirurgia seja realizada nos primeiros meses de vida, a marca da ambiguidade genital já
34
se fez presente e quando nos referimos às questões subjetivas, a premissa da cirurgia como
uma resolução não nos garante resultados.
Neste sentido, Paula e Vieira (2015) ressaltam a importância da avaliação diagnóstica,
em momento posterior à discussão sobre o diagnóstico, a partir de dois eixos. O eixo
biológico, realizado junto a médicos, que devem examinar o indivíduo a fim de investigar o
sexo na esfera do organismo; e o eixo psíquico caracterizado pela escuta do sujeito pelo
psicanalista.
Askofare (2006) afirma que algo separa a psicanálise da medicina e da ciência: a
descoberta do inconsciente. O autor afirma que desde o primórdio da psicanálise, com Freud,
há nova concepção de causalidade que não a orgânica, ou a natural, como entendia a medicina
grega. Introduz-se a ideia de causalidade psíquica, ou melhor, da causalidade pela linguagem.
Pinheiro (2014) afirma que ainda que a psicanálise tenha nascido da medicina, pois
Freud era médico, representou uma ruptura epistemológica com o campo da medicina, por se
ocupar com as formações inconscientes e inaugurar uma noção de corpo a partir do conceito
de pulsão, como a fronteira entre o mental e o somático, tal como defendia Freud
(1915/2003).
Assim, diferente da medicina, a psicanálise não investiga o organismo. Ela se interessa
por uma demanda que não é priorizada pelo saber médico. Nos seus três ensaios, Freud
(1905/2003) descreve o corpo como uma organização libidinal que se opõe ao corpo orgânico
e defende que aquele se constitui de uma forma singular. Além disto, Freud (1905/2003)
afirma que ele não está exclusivamente direcionado à finalidade da reprodução.
Para Elia (1995), com base em Freud, o corpo da psicanálise não é um corpo
essencialmente orgânico, ou seja, um corpo o qual não é o organismo. Trata-se em psicanálise
de corpo pulsional, ―um corpo-efeito do investimento pulsional‖ (p. 96) e, assim sendo, o
corpo não é dado, bem como considera a medicina.
Na mesma direção, Fernandes (2011), autora do livro Corpo, inspira-se no termo
freudiano ―psicopatologia da vida cotidiana‖ e usa o termo ―psicopatologia do corpo na vida
cotidiana‖ para discutir a subjetividade que permeia o corpo. Desta forma, a autora defende
que o corpo é capaz de produzir sofrimentos e sintomas, ainda que possa haver prazer nestas
manifestações.
Freud (1914/2003) em seus estudos já apontava a importância de se considerar os
aspectos subjetivos da sexualidade. Em ―Introducción del narcisismo‖, ele afirma que a
35
criança, antes mesmo de nascer, já ocupa o imaginário dos pais. Desta forma, a gravidez é
pautada por expectativas, ideais dos pais, sonhos, etc. Para Zanotti e Xavier (2011), a
identificação de uma genitália ambígua, ou seja, de que há uma disparidade entre aquilo que
fora idealizado e aquilo que é observado, choca os pais, de forma que ultrapassa os limites
daquilo que é considerado ―aceitável‖.
Nesta direção, Paula e Vieira (2015) ressaltam que desde as contribuições de Freud,
sabe-se que os pais ocupam lugar importante no processo de constituição psíquica e da
identidade sexual dos filhos e o diagnóstico de DDS pode gerar angústia, comprometendo o
momento de escolha do nome e do registro da criança, dentre outros.
Sobre os diferentes lugares ocupados por psicanalistas e médicos, Besset e Espinoza
(2009) em ―Sobre laços, amor e discursos‖ afirmam que, dentro da proposta da psicanálise, a
abertura do sujeito para a responsabilização por seu sofrimento é uma condição. Segundo as
autoras, a psicanálise atua numa lógica inversa ao apaziguamento da dor, assim, possui uma
forma distinta de lidar com o sofrimento: ao invés de medicamentos, ou de promessas
milagrosas de curas ou de felicidade, a psicanálise oferece a escuta.
Na mesma direção, Ansermet (2003) distingue essas duas clínicas: a clínica médica é
uma clínica do olhar, enquanto a clínica psicanalítica é uma clínica do ouvido, por orientar-se
pelo que o sujeito enuncia. Desta forma, a medicina captura através do olhar, o corpo; e a
psicanálise, ao fazer uso da escuta, constitui-se como uma clínica do sujeito a partir daquilo
ele enuncia, e assim possibilitaria uma apreensão daquilo que não é possível através do olhar.
Neste sentido, para a psicanálise, o conteúdo manifesto fisicamente por si só não basta.
Da realidade do sujeito também faz parte aquilo que não vemos e, desta forma, a psicanálise
se ocupa também com aquilo que não é dito (ANSERMET, 2003).
Neste sentido, o instrumento da medicina seria um ―olho clínico‖ que
pretende tudo englobar, tudo conter, tudo dominar, tudo conservar, e que, com este
fim, associa-se a próteses cada vez mais sofisticadas. Trata-se de um olho ávido,
mesmo se, em seu discurso materializante, objetivante, a clínica médica procura
negar a evidencia dessa emergência pulsional (ANSERMET, 2003, p. 10).
No tocante à psicanálise, o instrumento seria um ―ouvido clínico‖ para a escuta de um
corpo tal como ele emerge na dimensão subjetiva, um corpo falante que apenas o sujeito pode
revelar. Desta forma, a psicanálise considera que o sujeito é aquele que sabe melhor qual é o
seu bem e que ninguém conhece este bem antes dele próprio (ANSERMET, 2003).
36
Com relação aos pais, Ansermet (2003a) afirma que eles querem filhos que estejam
situados em um sexo ou no outro, e por isto, não aceitam a solução proposta pelo movimento
americano de manter a anatomia, configurando-se um terceiro sexo. Para o autor, o
diagnóstico de DDS com genitália ambígua rompe o ideal construído pelos pais. Assim, a
criança que antes era inserida no desejo dos pais e nas expectativas dos pais fica de alguma
forma desamparada. Diante disto, segundo Ansermet (2003a), cabe aos pais encontrar formas
de redirecionar o investimento libidinal na criança.
Nesta direção, no texto ―Adoção de filhos biológicos em casos de distúrbio do
desenvolvimento do sexo‖, Zanotti e Monlléo (2012a), a partir de uma orientação lacaniana,
discutem que a filiação não é algo natural, ou seja, que não se sustenta pela determinação
biológica entre pais e filhos. Segundo as autoras, todas as crianças devem ser adotadas,
independente da filiação biológica existente. Neste sentido, ao considerar que a marca de um
DDS pode causar situações de frustração e de estranhamento, as autoras destacam a
importância de escutar estes pais e acompanhá-los na trajetória de se tornarem pais e mães,
processo que envolve uma ―adoção‖ simbólica (BASSOLS, 2005).
Zanotti e Xavier (2011) afirmam que a incerteza quanto ao sexo, seja do recémnascido, adolescente ou adulto, silencia as partes. Trata-se, segundo as autoras, de uma
realidade que produz conflitos, mal-estar, angústia, estranheza e frustração. Diante deste
cenário, as autoras salientam a importância da escuta clínica na condução de casos como
estes, a qual foi destacada pelos entrevistados, profissionais que atuam diretamente com esta
demanda, e caracterizada como atuação essencial no tocante ao auxilio de pacientes e
familiares.
Zanotti e Monlléo (2012b) apresentam a prática com DDS em um Hospital
Universitário, com o enfoque para a atuação da genética e da psicanálise. Segundo as autoras,
a impossibilidade se reconhecer o sexo anatômico produz impasses os quais influenciam
diretamente a conduta dos profissionais e a relação e organização familiares. Tais impasses
estão diretamente relacionados à nomeação, registro civil, relação pais-filhos e, sendo assim,
no processo de constituição do sujeito.
O diagnóstico tardio de um DDS, segundo Zanotti e Monlléo (2012b), também é uma
situação delicada, pois envolve sofrimento e angústia. Isto acontece pois contradições entre o
corpo biológico e a autoimagem, aspecto comum em todos os indivíduos, apresentam-se de
forma escancarada nos casos de DDS. São exemplos disto a manutenção de órgãos genitais de
37
tamanho infantil, meninos que durante a puberdade desenvolvem as mamas ou apresentam
sangramento uretral cíclico em decorrência da existência de útero e mulheres que não
menstruam. Para as autoras, neste contexto a psicanálise pode auxiliar o sujeito a suportar o
real que se apresenta.
É importante salientar que Zanotti e Monlléo (2012b) reconhecem que há posições e
discursos distintos entre a psicanálise e a medicina, no entanto, destacam que este trabalho
parte do ponto em que as áreas encontram-se, ou seja, a clínica (ANSERMET, 2003), e
considera-se a particularidade de cada caso de DDS atendido.
Para Ansermet (2014) em ―Medicina e psicanálise: elogio do mal-entendido‖, ainda
que a psicanálise proceda do particular e a medicina se ocupe de universais, é possível uma
interlocução entre os saberes, desde que a psicanálise admita passar por este ―mal-entendido‖
sem que se queira contorná-lo ou evitá-lo. Além disto, o autor afirma que, para trabalhar com
psicanálise no universo da medicina, é preciso abordar as questões a partir do ―registro real do
inconsciente‖ em detrimento de um ―registro real da ciência‖. Isto implica ressituar as
questões universais em uma clínica do sujeito, uma clínica do particular e da contingência.
Ainda sobre a sua experiência, Zanotti e Monlléo (2012b) afirmam que o trabalho em
parceria com outras áreas de conhecimento é importante na condução dos casos, no entanto,
destacam que a alusão à teoria médica e à teoria psicanalítica foi necessária para que se
encontrassem soluções quanto às ações. As autoras ressaltam que nas reuniões, as quais
aconteciam discussões sobre os casos atendidos, identificou-se o ―peso das palavras‖ nos
casos de DDS, e foi a partir deste reconhecimento que houve a busca, naquele contexto, em
possibilitar um espaço de fala para pais e/ou pacientes com DDS. O objetivo era ―fazer valer a
ética da psicanálise e a emergência do sujeito inconsciente‖ (ZANOTTI; MONLLÉO, 2012b,
p. 261).
Neste sentido, Zanotti e Monlléo (2012b) afirmam que, na realidade estudada, uma das
condutas estabelecidas seria possibilitar um espaço de fala e de escuta a estes sujeitos. Assim,
a direção do tratamento, orientada pela psicanálise, não consistiria em descobrir o ―verdadeiro
sexo‖ e adaptá-lo a ele, mas em escutar o sujeito em seu desejo.
Elias (2008), em ―Psicanálise no hospital: algumas considerações a partir de Freud‖,
afirma que Freud, inspirado por Charcot, descobre que os pacientes têm algo a mais que
querem dizer e que merecem e devem ser escutados. Este seria o ponto de partida para a
38
prática da psicanálise no contexto do hospital e que podemos transpor para a atuação na
clínica do DDS.
Com base no apresentado a partir das contribuições de autores contemporâneos,
propõe-se, no próximo capítulo, um retorno à teoria freudiana, a qual fundamentou grande
parte dos estudos atuais em psicanálise acerca da diferença sexual. Neste sentido, o próximo
capítulo reserva-se a discutir a teoria de Freud acerca da sexualidade, a partir de aspectos
fundamentais como as noções de pulsão, zonas erógenas, aberrações sexuais, bissexualidade e
complexo de Édipo.
39
3 A SEXUALIDADE NA TEORIA FREUDIANA
A teoria da sexualidade de Freud está presente ao longo de sua produção e seu início
data dos primórdios dos seus estudos. O estatuto da diferença sexual é identificado na obra
freudiana na medida em que Freud avança na sua teoria da sexualidade. Com base nisto, este
capítulo visa discutir a concepção de sexualidade na teoria freudiana, a partir das noções de
pulsão, zonas erógenas, aberrações sexuais, bissexualidade e complexo de Édipo.
Em ―La sexualidad en la etiologia de las neurosis‖, publicado no ano de 1898, Freud
(1898/2002) já apresentava o início daquilo que se tornaria mais tarde a sua teoria da
sexualidade. Segundo o autor, não se deve ignorar a vida sexual das crianças, pois estas são
capazes de vivenciar todas as ―operações sexuais psíquicas‖ (FREUD, 1898/2002, p. 272,
tradução nossa).
Salienta-se que no ano de 1905, Freud inicia efetivamente os seus estudos sobre a
teoria da sexualidade com a publicação de ―Tres ensayos de teoría sexual‖ (FREUD,
1905/2003). Ele afirma que as crianças têm sexualidade e discute características,
particularidades e especificidades da sexualidade infantil. E vai além: para ele, a sexualidade é
sempre infantil, em qualquer tempo, e é importante para todo e qualquer ser humano.
Em ―Sobre las teorías sexuales infantiles‖, Freud (1808/2003) acrescenta que as
experiências sexuais infantis, no momento em que acontecem, produzem efeitos minimizados
e, o mais importante, são os efeitos posteriores, os quais ele chama de ―retardados‖, que
surgem após o desenvolvimento infantil. É importante salientar que quando Freud iniciou a
sua obra, ainda não havia teorias psicológicas do desenvolvimento (MOTA, 2005). Com base
nisto, o uso do termo ―desenvolvimento infantil‖ na presente pesquisa trata-se da mera
reprodução do termo utilizado por Freud e, assim, é importante destacar que não é possível
afirmar que Freud era desenvolvimentista.
Para fundamentar a sua teoria acerca da sexualidade, Freud (1905/2003) faz uso das
concepções de pulsão, sexualidade infantil e complexo de Édipo, temas apresentados ao longo
do presente capítulo.
40
3.1 As exigências corporais
Para Freud (1905/2003), a pulsão é um conceito de delimitação entre o anímico e o
físico. Trata-se do ―representante psíquico de uma fonte endossomática de estímulos que flui
continuamente‖ (FREUD, 1905/2003, p. 153, tradução nossa).
Em seu texto dedicado à discussão teórica sobre a pulsão, ―Pulsiones y destinos de
pulsión‖, Freud (1915/2003) afirma que a pulsão não se trata de um mero estímulo mental,
pois existem estímulos à mente que não se tratam de pulsões, os quais seriam de natureza
fisiológica. Outro aspecto que Freud destaca neste texto é que, por ser a pulsão algo no corpo,
e não exterior a ele; e por se tratar de uma força na qual o impacto é constante, e não
momentâneo, não se pode fugir dela.
Destaca-se que antes mesmo de Freud (1905/2003) produzir o texto específico sobre
pulsão, ele faz a distinção entre esta e o estímulo. Para o autor, a pulsão diferencia-se do
estímulo por este ser relacionado às excitações externas isoladas as quais surgem de forma
externa ao indivíduo. Já pulsão seria uma representação psíquica de uma estimulação interna.
Quanto ao termo, destaca-se que nem sempre o termo ―Trieb‖ fora traduzido na língua
portuguesa por ―pulsão‖. Elia (1995), em seu livro no qual discute a sexualidade na
psicanálise freudiana e lacaniana, analisa o uso do termo ―instinto‖ para a tradução do termo
freudiano. Segundo o autor, Freud com o conceito de Trieb tentou ―conceitualizar o quase
inconceitualizável‖ (ELIA, 1995, p. 46, grifo do autor), pois se trata de um conceito que
provoca confusões em seu entendimento e também na sua tradução. Freud (1933b/2001, p. 88,
tradução nossa) afirma: ―a teoria das pulsões é, por assim dizer, nossa mitologia. As pulsões
são entidades míticas, grandiosas em sua indeterminação‖.
Diante da confusão na tradução do conceito, é comum tomá-lo a partir do discurso
psicobiológico. É o que acontece com edição em português Standart Brasileira. Nela, Trieb é
traduzido por instinto. Salienta-se que tal edição não foi traduzida direto do alemão, texto
original freudiano, mas da sua versão em inglês (ELIA, 1995).
Elia, com base na psicobiologia, descreve instinto como
um padrão fixo invariável de comportamento, comum a todos os indivíduos de uma
mesma espécie, voltado para um objeto específico e pré-determinado de satisfação,
que o é precisamente por garantir que sua finalidade seja alcançada (1995, p. 47).
41
É com base neste conceito que Elia (1995) apoia a tradução do Trieb freudiano por
pulsão e não por instinto. Segundo ele, a pulsão ―não prescreve comportamentos, muito
menos fixos e invariáveis‖ (ELIA, 1995, p. 47), não é comum a todos os indivíduos, ainda
que sejam da mesma espécie, nem tampouco possui ―objeto específico, adequado e muito
menos pré-determinado‖, aspecto este que mais a diferencia a pulsão do instinto (ELIA, 1995,
p. 47). Com entendimento próprio à psicanálise e contrastante ao da psicobiologia, Elia
(1995) afirma que o Trieb freudiano exige o trabalho psíquico, assim sendo, não se relaciona
ao comportamento, mas ao corpo, que se difere do organismo.
Elia (1995, p. 47), ainda com base em Freud, afirma que ―a pulsão sempre se satisfaz‖,
mas destaca que ela não é absoluta, pois isto só aconteceria se ela tivesse um objeto específico
pré-estabelecido. Trata-se, portanto, de algo que é parcialmente satisfeita e, assim sendo, é
parcialmente insatisfeita. Desta forma é sempre relançada, em busca da satisfação através de
um objeto.
Neste sentido, Elia (1995) faz o uso de conhecimentos matemáticos e propõe que o
conceito de pulsão seria caracterizado através do uso de colchetes abertos no conjunto de
números reais. Neste caso, os colchetes abertos estariam num espaço onde o zero se localiza,
para demonstrar que o zero não é um número positivo e nem um número negativo. Desta
forma, o autor defende que o conceito de pulsão na obra de Freud, um conceito limite, não
seria somático e nem psíquico, sendo, portanto, de outra ordem.
No volume traduzido para o português denominado ―As pulsões e seus destinos‖ da
coleção ―Obras incompletas de Sigmund Freud‖, cuja tradução foi realizada por Pedro
Heliodoro Tavares, o conceito de pulsão é apresentado por
um conceito ―fronteiriço‖ entre o anímico e o somático, como representante psíquico
dos estímulos oriundos do interior do corpo que alcançam a alma, como uma medida
de exigência de trabalho imposta ao anímico em decorrência de sua relação com o
corporal (FREUD, 1915/2014, grifo do autor).
O tradutor destaca que ―Grenzbegriff‖, de uma forma geral é traduzido como
―conceito limite‖, no entanto, ressalta que nesta tradução optou-se por evidenciar a ideia de
fronteira (grenze) entre os domínios do conhecimento que o conceito de pulsão perpassa
(TAVARES, 2014).
Para Freud (1915/2003), o melhor termo para caracterizar a pulsão é ―necessidade‖ e o
que elimina essa necessidade é a ―satisfação‖. O autor afirma que as pulsões teriam
42
finalidade, fonte e objeto. A finalidade seria sempre a satisfação, a qual seria obtida com a
eliminação da estimulação provinda da fonte da pulsão. Convém destacar que a finalidade da
pulsão é a mesma sempre, mas que os caminhos para se chegar a ela são distintos.
O objeto da pulsão trata-se do meio através do qual a pulsão atinge a sua finalidade.
Segundo Freud (1915/2003), o objeto é aquilo que há de mais diversificado na pulsão e não
está ligado originalmente a ela. Destaca-se que o objeto geralmente é algo familiar e muitas
vezes é uma parte do corpo do individuo. Além disto, o objeto pode ser sempre modificado e
essa mudança possui papeis importantes ao longo dos variados destinos da pulsão.
Quanto à fonte da pulsão, em sua publicação anterior, Freud (1905/2003) afirma que é
um processo excitatório em um órgão e a sua meta é a eliminação deste estímulo orgânico.
Posteriormente, Freud (1915/2003) caracterizou a fonte da pulsão como o processo que ocorre
no órgão ou em parte do corpo (objeto da pulsão) no qual o estimulo é representado
mentalmente por uma pulsão. O autor destaca que as fontes da pulsão não são objetos de
estudo da área da psicologia por serem conhecidas somente por conta da sua finalidade.
Salienta-se que no texto no qual Freud (1915/2003) discute a pulsão, o autor destaca
dois tipos de pulsão: as pulsões do Eu e as pulsões sexuais. Ressalta-se ainda que a biologia
não reconhece a sexualidade como uma função do individuo tal como outras, pois à
sexualidade caberia somente a reprodução e preservação da espécie. Assim, a partir desta
lógica a pulsão sexual não deveria ser igualada às pulsões do Eu.
Neste sentido, as pulsões sexuais, ao surgirem, estariam ligadas às pulsões do Eu e
separar-se-iam posteriormente. As pulsões do Eu seriam pulsões de autoconservação e as
pulsões sexuais buscavam o ―prazer do órgão‖ (FREUD, 1915/2003) É importante destacar
que, para Freud (1915/2003), estas pulsões só assumiriam função reprodutora em momento
posterior e é neste momento que é possível identificá-las como pulsões sexuais.
Ao avançar na teoria da sexualidade, Freud (1920/2001) afirma que o Eu é o
reservatório original da libido. Desta forma, a libido é tirada do objeto e retorna para o Eu, o
que ele chamou de introversão. Assim, a libido do Eu estende-se para a libido do objeto e
aquelas que permanecem no Eu são chamadas de narcísicas. Para Freud (1920/2001), o Eu
tornou-se, portanto, um objeto sexual e ocupa lugar de destaque entre eles.
Em seu texto ―Doutrina das pulsões‖, Freud (1940c/2014, p. 23) descreve como
pulsões ―as forças que supomos existir por trás das tensões motivadas pelas necessidades do
Isso. Elas representam as exigências corporais feitas à vida anímica‖. As pulsões são de
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natureza conservadora e apresentam-se de várias formas. Para Freud (1940c/2014), é possível
identificar na prática um grande número de pulsões.
A partir destes estudos e da correlação entre as pulsões e a sexualidade, Freud
(1905/2003) afirma que a sexualidade existe desde a infância e que na infância ela se
apresenta com características e particularidades próprias. Este tema é aprofundado a seguir.
3.2 Sexualidade infantil e curiosidade
Através dos seus estudos acerca da pulsão, Freud chega à conclusão de que a
sexualidade não se trata de um fenômeno exclusivo da vida adulta, ou seja, que surge na fase
puberal, mas percebe que as crianças também possuem experiências sexuais e, portanto, são
seres eróticos e erotizáveis (ELIA, 1995). Freud (1905/2003), a partir da sua experiência na
clínica, descreveu a sexualidade como infantil. Para Elia (1995), Freud defendeu que fora da
clínica a sexualidade infantil não existe, pois esta é própria do saber psicanalítico.
Neste sentido, a sexualidade infantil não seria uma precursora da sexualidade adulta,
mas se trata de um saber ―irredutível, incomparável e incompatível com toda e qualquer
derivação conceitual a partir da sexualidade não-freudiana‖ (ELIA, 1995, p. 57). Assim, para
a psicologia, de uma forma geral, ―a infância, ou o infantil da sexualidade, caracterizaria,
neste contexto, uma etapa do desenvolvimento de um indivíduo tomado em seu ciclo vital,
etapa esta que a função sexual seria infantil, isto é, imatura‖ (ELIA, 1995, p. 40, grifo do
autor). Ele acrescenta que esta concepção é diferente na psicanálise, a qual acredita que o
homem é incapaz de abandonar posições de prazer que foram atingidas desde uma pequena
idade e, sendo assim, as repetem indefinidamente. Neste sentido, não se trata da sexualidade
como um não mais infantil, mas de um infantil que define o modo próprio de ser sexual dos
humanos (ELIA, 1995, grifos do autor).
Também a partir dos seus estudos clínicos, Freud (1908c/2003) percebe que as
crianças são pesquisadoras, investigadoras. É possível identificar estes aspectos nos seus
casos publicados nos textos ―Un recuerdo infantil de Leonardo da Vinci‖ (FREUD,
1910/1999) e ―Análisis de la fobia de un niño de cinco años‖ (FREUD,1909/2000). Segundo
Ansermet (2003, p. 25) a investigação sexual infantil trata-se de ―um desejo sexual de saber‖.
44
Freud (1908c/2003) em ―Sobre las teorías sexuales infantiles‖, afirma que a primeira
teoria sexual infantil provém do desconhecimento das diferenças entre os sexos. Em
consequência disto, a criança atribui posse do pênis a todas as pessoas, sejam elas homens ou
mulheres, pois usa o órgão genital masculino como referencial de uma forma geral. Isto
acontece porque o pênis é, na infância, a principal zona erógena e o mais importante objeto
sexual autoerótico. No caso das meninas, isto também acontece, pois parte-se da ideia inicial
de que a menina também possui este órgão. Este aspecto é discutido ainda neste capítulo.
Para Freud (1908c/2003), frequentementeas investigações sexuais são associadas a
uma atividade sexual masturbatória, o que poderia ser reprovado pelos pais. A curiosidade
sexual na infância apresenta-se também através do interesse acerca da concepção humana e
do nascimento dos bebês (FREUD, 1905/2003). Segundo Freud (1910/1999), as crianças
negam as informações restritas as quais são lhes passadas e recusam a fábula da cegonha.
Desta forma, ainda que a historinha seja aparentemente acatada pela criança, ela geralmente a
recebe de forma silenciosa, porém com uma grande desconfiança. Deste modo, observam as
mudanças corporais em sua mãe provocadas pela gravidez e encontram soluções anatômicas
para as suas dúvidas, as quais estariam, portanto, no corpo materno.
Sobre a questão da origem da vida, Ansermet (2003) afirma que o saber infantil acerca
da origem das crianças passa pelo mito, pelo conto, pela lenda. O autor destaca a lenda da
cegonha e afirma que a depender da região onde ela é contada, ela é alterada. No entanto,
Ansermet (2003) ressalta que mesmo com as adaptações para torná-la mais próxima da
realidade, isto não garante que ela seja eficaz para responder as questões das crianças.
Quanto às investigações sexuais do menino sobre a origem dos bebês, Freud
(1908c/2003) atribui ao órgão genital masculino um lugar de destaque. Afirma não parecer
lógico para a criança a relação do pai com este acontecimento, visto que dizem que o bebê
também é dele. Assim, o pênis possuiria algum papel neste acontecimento enigmático. A
comprovação disto estaria na excitação do membro diante de tais atividades mentais da
criança. Atreladas a esta excitação estariam impulsões que a criança não conseguiria explicar,
bem como compulsões confusas a um ato violento, a esmagar ou romper algo ou a abrir um
buraco em algum lugar.
Freud (1908c/2003) ressalta, porém, que quando a criança parece aproximar-se da
resolução da sua questão – a existência da vagina e a inferência da penetração do pênis
paterno na mãe como ato gerador do bebê no corpo materno – a criança não possuiria
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alternativa outra a não ser interromper sua investigação. A impossibilidade se instaura diante
da sua própria teoria de que sua mãe possui um pênis, como um homem.
Assim, destaca-se o que fora mencionado por Freud (1905/2003): a crença infantil de
que se os bebês estão dentro do corpo materno, eles só poderiam nascer através da passagem
anal. Esta hipótese se daria após a criança crer na possibilidade do nascimento pelo umbigo
ou através de um corte na barriga, assim como aconteceu com o lobo na história da
Chapeuzinho Vermelho (FREUD, 1905/2003). Tais soluções eram, posteriormente,
esquecidas pelas crianças, motivando-as a encontrar outra teoria do nascimento (FREUD,
1908c/2003).
A possibilidade de vir ao mundo como uma massa fecal, por exemplo, não é
considerada pelas crianças como degradante, por não ter sido, ainda, desaprovada por
sensações de entojo. A teoria de que a criança sairia pelo canal anal seria, portanto, a mais
válida, sobretudo por ser verdadeira para tantos animais e, sendo assim, a única que parecia
mais provável (FREUD, 1908c/2003).
Assim como a teoria do nascimento, como fruto da curiosidade sexual na infância,
Freud (1905/2003) afirma que também é comum o interesse em observar os órgãos genitais
ou de manipulá-lo. Em seu texto, ―Tres ensayos de teoría sexual‖, Freud (1905/2003) afirma
que a sensação de cunho visual é o caminho mais frequente pelo qual é despertada a excitação
libidinal. Isto pode ser motivado pela progressiva ocultação do corpo, originária da
civilização. Assim, esta sonegação manteria ativa a curiosidade sexual, cuja ambição seria
completar o objeto sexual através da revelação das partes ocultas (FREUD, 1905/2003). Neste
sentido, o olho apresenta-se como uma zona erógena, tema a ser discutido no próximo tópico.
3.3 As zonas erógenas
Freud (1923b/2003) em ―La organización genital infantil‖ afirma que a força
impulsiva do órgão genital masculino se expressa, neste período da infância, especialmente
como uma urgência de investigação, como curiosidade sexual. Assim, muitos atos de
exibicionismo os quais, mais tarde seriam avaliados como manifestações de libertinagem,
aparecem em análise como experiências entendidas a favor da pesquisa sexual.
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Os órgãos do corpo são passíveis de propiciar dois tipos de excitação, estas baseadas
em diferenças da natureza química. Segundo Freud (1905/2003), uma destas categorias possui
especificidade sexual e a outra seria referenciada como pulsões do Eu. Na primeira opção, o
órgão em causa é referido como a zona erógena da pulsão parcial que parte dele. A pulsão
parcial seria parte de um conjunto de pulsões cujo todo é assumido como pulsão sexual.
No tocante ao destino das pulsões, Freud (1915/2003) afirma que a reversão no
contrário pode ser considerada um destes destinos, visto que, segundo o autor, existem forças
que impedem a realização da pulsão. Assim, existiriam defesas contra as pulsões, as quais se
tornariam também um dos seus destinos. A reversão no contrário é um exemplo disto. Tratase da conversão da atividade em passividade e a inversão de conteúdo. Assim, a reversão se
relacionaria apenas às metas da pulsão. Substitui-se, portanto, a meta ativa: no caso, o olhar
pela passiva, ser olhado. A volta contra a própria pessoa seria entendida, assim, por considerar
que o exibicionismo é um voyeurismo voltado para o próprio corpo. O essencial no processo,
portanto, seria a mudança de objeto com a meta inalterada.
Neste sentido, Freud (1915/2003) dá o exemplo do par de opostos voyeurismoexibicionismo, cujas pulsões têm por metas olhar e mostrar-se. Segundo o autor, o processo
poderia ser apresentado através da seguinte forma: o olhar como atividade dirigida a um outro
objeto; o abandono do objeto e a volta da pulsão de olhar para uma parte do próprio corpo, e,
assim, a reversão em passividade e a constituição de uma nova meta – ser olhado; a
introdução de um outro indivíduo, para o qual o primeiro se mostra, a fim de ser olhado.
Desta forma, a pulsão do olhar é autoerótica no início da sua atividade e pode até ter um
objeto, mas o encontra no próprio corpo. Freud (1915/2003) também dá o exemplo da
reversão no contrário nos casos do par sadismo-masoquismo e afirma que a lógica de
funcionamento é a mesma.
O sadismo, segundo Freud (1905/2003), corresponde a um elemento exagerado e
agressivo da pulsão sexual. O autor afirma que na linguagem cotidiana o sadismo corresponde
a atitudes meramente ativas ou violentas para com o objeto sexual até chegar em uma
satisfação, a qual é condicionada de forma exclusiva a maus-tratos. Já o masoquismo está
relacionado à vida sexual e, quanto ao objeto sexual, a atitudes passivas. Destaca-se, neste
caso, a satisfação através da dor física, ou até mesmo psíquica, vindo do objeto sexual. O
masoquismo é, para Freud (1905/2003), nada mais é do que uma continuação do sadismo, o
qual se volta para a própria pessoa. Nesta situação, portanto, o masoquista assumiria, de
início, o lugar de objeto sexual.
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Ao apresentar o conceito de zona erógena nos Três Ensaios, Freud (1905/2003) afirma
que nos casos do voyeur e do exibicionista, o olho corresponderia a uma zona erógena. O
exibicionista, ao fazer uso da exibição através da exposição dos seus órgãos genitais, espera
também ele próprio seja observado. Mais do que isto, ele espera que os genitais de quem
observa também sejam mostrados (Freud, 1915/2003).
Para Freud (1905/2003), o olhar é o meio, através do qual se desperta excitação, mais
frequentemente usado. Segundo o autor, a prática de cobrir partes do corpo, a qual surgiu com
a civilização, é uma forma de manter ativa a curiosidade sexual. Assim, busca atingir o objeto
sexual através do desvelamento das partes corporais ocultas.
No caso do sadista e do masoquista, caracterizados pela dor e ações cruéis, é a pele
que se apresenta enquanto zona erógena. Neste sentido, ela deixa de ser um órgão sensorial do
corpo e passa a ser um órgão de excitação. Assim, sobre zona erógena, considera-se o órgão
como causa de excitação, a qual é especificamente sexual, da onde partem pulsões parciais.
Trata-se de aparelhos ―acessórios‖ os quais funcionam como os próprios órgãos genitais
diante das excitações. (FREUD 1905/2003).
A fim de ilustrar o que seria uma zona erógena, Freud (1905/2003) apresenta como
exemplo a sucção. Para o autor, esta prática nos ensina que parte da pele ou da mucosa, diante
de alguns tipos de estímulo, pode provocar excitação, uma sensação de prazer. É importante
destacar que, para ele, o que se relaciona com a produção da sensação de prazer está muito
mais ligado à qualidade do estímulo do que necessariamente à parte do corpo. Neste sentido,
zona erógena pode ser qualquer parte do corpo.
Destaca-se que Freud (1905/2003) afirma que existem zonas erógenas que são por si
só predestinadas, a exemplo da pele, ao tomar o exemplo da sucção. A sucção apresenta-se
desde o período de lactância e caracteriza-se pelo movimento rítmico repetitivo no contato
dos lábios com qualquer outro ponto da pele que esteja ao alcance do bebê. Salienta-se que a
sucção, no início, está vinculada à necessidade do alimento, porém posteriormente o ato se
desvincula do propósito de nutrição. A criança que se apresenta com o hábito da sucção,
investiga o seu corpo a fim de sugar alguma parte dele. Assim, encontra algumas áreas
capazes de produzir excitação, tais como os mamilos, a genitália, ou até mesmo o dedão do
pé.
Ainda neste exemplo, Freud (1905/2003) faz referência ao mamar e afirma que a este
ato estão aliados momentos de absorção da atenção da mãe, que o leva o bebê ao
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adormecimento ou à excitação. A esta situação pode ligar-se a fricção de alguma parte
sensível do corpo (como seios ou genitália) e pode ser a partir desta fricção que as crianças
iniciam a masturbação.
Freud (1905/2003) afirma que outras partes do corpo também são de interesse e
investigação neste momento da infância, tais como as mucosas da boca e do ânus. Alguns
bebês revelam, desde a tenra idade, gostar de reter as fezes e recusam-se a esvaziar seus
intestinos porque obtêm prazer no ato de defecar. (FREUD, 1908a/2003)
Com relação à zona genital, Freud (1905/2003) destaca que ela não desempenha na
infância a sua principal função, que seria a da reprodução; mas nesta fase primeva é capaz de
provocar satisfação mediante a sua estimulação, inclusive através do ato de urinar, através de
sua higienização e de excitações acidentais, além da relação já citada com a lactância. Para o
autor, as atividades sexuais provenientes desta zona erógena são os indícios do começo da
vida sexual ―normal‖ (FREUD, 1905/2003, p. 179), visto que se trata de parte dos órgãos
sexuais.
A partir de seus estudos sobre as zonas erógenas, Freud (1905/2003) conclui que antes
de se estabelecer o papel principal da zona genital, a vida sexual se constitui através de
organizações as quais ele denominou de ―pré-genitais‖. Trata-se de fases, as quais seriam
atravessadas sem muitas dificuldades e são denominadas fase oral e fase anal.
Vale destacar que quando Freud discute as fases em sua teoria da sexualidade, o autor
não se refere à superação de etapas, trata-se de fases que coexistem e se sobrepõem de forma
simultânea sem que haja uma lógica prévia, ou seja, não ocorre numa lógica de
desenvolvimento. Além disto, é importante também frisar que Freud faz uso de termos ―etapa
final‖ ou até mesmo ―organização completa‖, no entanto, em sua obra o autor ocupa-se em
demonstrar que a pulsão sexual, na medida que é parcialmente satisfeita, é parcialmente
insatisfeita e, sendo assim, a completude final é inexistente. Nas palavras do autor: ―... os
processos exigidos para o estabelecimento de um desfecho normal não simplesmente se
consumam ou se ausentam, consumam-se sim parcialmente‖ (FREUD, 1940d/2010, p. 43,
grifo do autor) e ainda: ―na verdade a organização genital é aí alcançada, mas enfraquecida
pelas porções de libido que não cooperaram com as outras e permanecem fixadas em objetos e
metas pré-genitais‖ (FREUD, 1940d/2010, p. 43).
A fase a qual denominou oral ocorre quando a zona erógena principal é a boca,
conforme apresentado. Nesta fase não há uma cisão entre a atividade sexual e nutrição.
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Assim, o objeto de uma atividade, segundo Freud (1905/2003), é também o da outra. Freud
(1940d/2014) afirma que esta fase serve, sobretudo, para a autoconservação através da
alimentação, no entanto, ressalta não se pode confundir a função fisiológica com a
psicológica. Como resíduo desta organização pode-se considerar o chuchar, pois a atividade
sexual, neste ato, desliga-se da atividade de alimentação (FREUD, 1905/2003).
Na organização sádico-anal, a atividade produzida pela pulsão organiza-se em torno da
dominação da musculatura do corpo, sobretudo da mucosa erógena do intestino. Relaciona-se
com o que destacamos acerca da zona anal. Neste momento, a divisão de opostos que
acontece na vida sexual constitui-se através da diferenciação ativo e passivo (FREUD
1905/2003), tema que será apresentado posteriormente.
Para Freud (1940d/2014), há uma grande satisfação encontrada na agressão e na
função da excreção. O autor ressalta que impulsos sádicos aparecem isoladamente na fase
oral, mas com maior proporção na sádico-anal. Freud destaca que o sadismo, nestas situações,
situam-se em um contexto libidinal e afirma que ―é uma mistura de pulsões e de aspirações
puramente libidinais com outras puramente agressivas, uma mistura que, a partir daí, não
cessa de manifestar‖ (FREUD, 1940d/2014, p. 39).
Posteriormente, Freud (1923b/2003) em ―La organización genital infantil‖ acrescenta
a sua obra uma nova fase a qual ele denominou de fase fálica. Segundo ele, este seria o
momento de desfecho da sexualidade na criança e aquele que mais se aproximaria da
sexualidade assumida no adulto. Aqui a diferenciação que a criança faz é entre ter o órgão
genital masculino e ser castrado. Ou seja, não existe a ideia de par de opostos masculino e
feminino, mas apenas a ideia de masculinidade.
Desta forma, é no texto de 1923 que Freud (1923b/2003) destaca claramente a
proximidade da sexualidade na criança da sexualidade do adulto e afirma que ela não se limita
unicamente ao surgimento da escolha do objeto. Segundo o autor, a principal característica da
organização genital na infância é justamente aquela que a diferencia da organização final no
adulto, ou seja, apenas um órgão genital para ambos os sexos, o masculino. A partir disto, o
autor conclui que o que está em jogo neste momento não seria o pênis, mas o falo.
Para Freud (1940d/2014), durante a fase fálica o órgão genital infantil feminino segue
desconhecido, o que existe é uma analogia do clitóris ao pênis. Neste momento, a sexualidade
infantil chega ao seu ápice e segue em declínio. É a partir disto, que meninos e meninas têm
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destinos distintos. Sobre isto, é importante destacar que estes aspectos serão retomados de
forma mais detalhada, posteriormente, ao discutir-se o complexo de Édipo.
Ao considerar que a criança não possui uma moralidade, ou seja, é desprovida de
vergonha e, além disto, em alguns momentos sente satisfação com o desnudamento do corpo,
Freud (1905/2003) afirma que ela, através de algum tipo de sedução, possa ser encaminhada
para todas as transgressões possíveis. Isto se explica porque, o que ele chamou de excesso
sexual, que seria a vergonha, o nojo e a moral, ainda não teriam surgido ou apresentavam-se
de forma parcial. Por isto, Freud (1905/2005) caracteriza a criança como um ―perverso
polimorfo‖ e afirma que a perversão, neste caso, é o ponto de partida para a organização da
sexualidade.
Assim, neste caso, a perversão não se trata de algo patológico, que se apresentaria
como um desvio em relação a uma norma. Por conseguinte, é importante destacar o sentido
que Freud atribui em sua teoria àquilo que, no senso comum, é reconhecido por
normal/aberração. O item que se sucede é destinado a esta discussão, a qual se fundamenta em
Freud a partir de casos de hermafroditismo, aspecto relevante para este estudo.
3.4 O normal e o patológico
Freud (1905/2003) em ―Tres ensayos de teoría sexual‖ inicia sua discussão com a
reflexão sobre as representações pré-estabelecidas e definidas pela opinião popular acerca de
questões da natureza as quais muitas vezes são absorvidas pelo senso comum. Uma delas seria
acerca da sexualidade, que não existiria na infância, sendo manifestada somente na
puberdade. Isto se daria juntamente com a experiência de atração de um sexo pelo outro, com
o objetivo de união sexual, ou mesmo atos que chegassem a isto. Neste ponto, Freud
(1905/2003) afirma que se trata de dados que retratam de uma forma infiel a realidade. Para
ele ―se olharmos com atenção, percebemos que estão repletos de erros, imprecisões e
conclusões precipitadas‖ (FREUD, 1905/2003, p. 123, tradução nossa).
A partir desta introdução, Freud (1905/2003) constrói sua teoria acerca do objeto
sexual e do alvo sexual e sobre os ―desvios‖ com relação à concepção pré-estabelecida a qual
foi apresentada acima e chega à discussão acerca da degeneração. Para ele, degeneração é o
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termo usado para caracterizar casos nos quais existem ―muitos desvios graves em relação à
norma‖ (FREUD, 1905/2003, p. 126, tradução nossa) ou casos em que o funcionamento do
organismo ou capacidade de sobrevivência do indivíduo apresentam-se prejudicados.
Segundo Freud (1905/2003, p. 126, tradução nossa) ―tornou-se habitual atribuir à
degeneração todos os tipos de manifestação patológica que não sejam de origem estritamente
traumática ou infecciosa‖. Para o autor, esta concepção é muito ampla, o que faria com que
fossem abarcadas até mesmo funções nervosas em seu funcionamento ideal, isso o levou a
questionar quais seriam os benefícios desta concepção.
Assim, Freud (1905/2003) descartou a associação entre degeneração e inversão, por
exemplo. Para ele, inversão trata-se de casos os quais o objeto sexual do homem não é a
mulher, mas sim outro homem, e vice-versa. Afirma que é possível encontrar a inversão em
pessoas que não possuem outro grave desvio da norma e que também não possuem algum tipo
de deficiência. Além disto, o autor destaca que nos povos antigos a inversão (a qual é
retratada nos dias atuais por homossexualidade) era frequente e difundida em povos selvagens
e primitivos. Para ele, o conceito de degeneração, portanto, seria estabelecido em uma
civilização que ele chamou de ―elevada‖ (FREUD, 1905/2003).
Freud (1905/2003), neste momento, questiona o que seria a norma e, a partir disto, o
que seria o desvio desta norma. Para Elia (1995), Freud parte do que ele chama de
―aberração‖ para investigar a verdade sobre o ―normal‖. Tratava-se, portanto, segundo Elia
(1995) de um método de estudo característico de Freud: ―o aberrante é, aqui, aquilo que diz a
verdade sobre o ‗normal‘, o avesso do quadro, que, ao revelar suas entranhas, desnuda a sua
verdade‖ (ELIA, 1995, p. 43).
Cabe aqui, apresentar a contribuições de Freud (1919b/2003) no texto intitulado ―Lo
ominoso‖. Neste texto, o autor desenvolve uma teoria acerca do estranho, aquilo que nos
assusta e nos causa horror. Em seu estudo, Freud (1919b/2003) faz uma análise dos termos
alemães heimlich e unheimlich, os quais significam ―familiar‖ e ―estranho‖, respectivamente.
Assim, demonstra que heimlich é um termo que abarca tanto o sentido de familiar quanto o de
estranho, visto que estranho é denominado unheimlich, ou seja, o termo anterior precedido de
um prefixo. Assim, conclui que o estranho trata-se de uma categoria do assustador que nos
remete ao que nos é conhecido, familiar. Desta forma, o estranho não faz alusão a algo novo
ou alheio, mas a algo que nos é conhecido.
52
Desta forma, pode-se partir da ideia freudiana sobre o estranho para analisar sua
concepção acerca daquilo que é considerado aberração. Freud (1919b/2003) considera a
quebra do conceito de estranho como algo pertencente à categoria do desconhecido e o
desvincula da ideia de inusitado, assumindo sua familiaridade. Com a mesma lógica, Freud
(1905/2003) usa como objeto de estudo o que é visto como desviante de um padrão para
investigar o que é dito como ―normal‖.
Nesta direção, Elia (1995, p. 42-34, grifos do autor) afirma que ―Freud se vale sempre
do verbo comum para produzir um senso incomum (...) porque a própria natureza do saber por
ele inventado o exigia: o discurso teórico é o discurso do inconsciente‖. Elia (1995) ressalta
que o inconsciente na teoria de Freud é constituído por letras comuns.
O sentido dessas palavras, que é sempre subversivo, transgressivo do saber vigente,
do senso comum, e introdutor do novo. É esta a arte de Freud: produzir um sentido
novo, revolucionário, utilizando-se de palavras correntes da língua comum: verbo
comum, senso incomum (ELIA, 1995, p. 43).
Neste sentido, o termo ―normal‖ em Freud, assim como outros termos na sua obra, não
é utilizado para caracterizar uma normatividade a partir de uma ideia de que existiria um
―normal‖ e um ―anormal‖. Para ele, o anormal, o patológico trata-se do que conhecemos
como ―normal‖. Nesta direção, Elia (1995, p. 43-44), afirma que ―o patológico, em Freud, é o
próprio ‗normal‘ em outra configuração, a configuração do avesso, do fragmento, da
evidenciação daquilo que a configuração dita ‗normal‘ tem precisamente por função
esconder‖.
Assim, o patológico, o aberrante, seria uma via de acesso a uma verdade, a qual não
seria possível fora da aberração, pois se trataria de uma realidade a qual não fora confessada,
que estaria velada sob a enganosa ideia de normalidade (ELIA, 1995).
Nas palavras de Freud:
a experiência obtida com os casos considerados anormais nos ensina que há, neles,
entre desejo sexual e objeto sexual apenas uma solda, que corríamos o risco de não
vê-la por causa da uniformidade do quadro normal, em que a pulsão parece trazer
consigo o objeto (1905/2003, p. 134, tradução nossa).
Freud (1905/2003, p. 135, tradução nossa) acrescenta: ―a experiência ensina que entre
os loucos não se observam perturbações da pulsão sexual diferentes das encontradas entre as
pessoas sadias, bem como em raças e classes inteiras‖. Com base nisto, Elia (1995) ressalta
que a associação entre pulsão e objeto na teoria freudiana não se trata de um engano qualquer,
53
pois coloca em questão aquilo que é a base da teoria, que é justamente não haver previamente
um objeto adequado para a pulsão, como ocorre no instinto. Nas palavras de Elia:
o quadro normal é aquele em que a pulsão se parece com o instinto, parece
comportar-se como ele, se faz passar por ele: a pulsão é a vertente aberrante do que
se faz passar, no quadro normal, por instinto, é o que se evidencia quando,
abandonando-se as ilusões da normalidade, revela-se a estrutura. (ELIA, 1995, p.
45).
Freud (1905/2003) usa o exemplo de casos de hermafroditismo para fundamentar a sua
teoria da bissexualidade. Segundo o autor, existem estudos que datam do final do século XIX
os quais apontam que o ser humano ou é homem ou é mulher. No entanto, Freud afirma:
a ciência, porém, conhece casos em que os caracteres sexuais parecem confusos e é
portanto difícil determinar o sexo no campo anatômico. A genitália destas pessoas
reúnem características masculinas e femininas (hermafroditismo). Em casos raros,
os dois tipos de aparelho sexual coexistem totalmente desenvolvidos
(hermafroditismo verdadeiro) (1905/2003, p. 128, tradução nossa).
Para Freud (1905/2003), os casos de hermafroditismo, vistos como anormalidades,
facilitam a compreensão da formação que ele chamou de ―normal‖. Segundo o autor, ―certo
grau de hermafroditismo anatômico constitui a norma; em nenhum indivíduo masculino ou
feminino de conformação normal faltam vestígios do aparelho do sexo oposto‖ (FREUD,
1905/2003, p. 129, tradução nossa).
Ainda neste estudo, Freud (1905/2003) sugere o termo ―hermafroditismo psíquico‖
para caracterizar casos em que se apresentam sinais de bissexualidade não somente no campo
da anatomia, mas também no campo psíquico. Como exemplo, ele sugere um cérebro
feminino num corpo masculino. No entanto, logo o autor preocupa-se em afirmar que não é
possível inferir uma relação direta entre o hermafroditismo anatômico e o que ele chamou de
hermafroditismo psíquico.
Com base no apresentado e com o intuito de dar continuidade a esta discussão, o item
a seguir reserva-se à discussão da bissexualidade, tema que se configura como essencial na
investigação acerca da diferença sexual na teoria freudiana.
3.5 A bissexualidade
54
Freud (1905/2003) escreve sobre a bissexualidade para defender que, desde idade
precoce, os indivíduos do sexo masculino e do sexo feminino possuem características de
ambos os sexos, que persistiriam sem função ou se modificariam após um tempo, na tentativa
de exercer outras funções. Desta forma, todos os indivíduos teriam uma predisposição
bissexual que, posteriormente, transformaria-se em monossexualidade, com a atrofia dos
resquícios do outro sexo.
Freud (1905/2003) destaca os estudos de Krafft-Ebing que apontam existir áreas no
cérebro de todos os indivíduos as quais são masculinas e femininas, bem como acontece com
os órgãos sexuais, que se desenvolvem na puberdade, por influência de glândulas sexuais. No
entanto, Freud (1905/2003) questiona tal informação e alega que não nos cabe pressupor que
existam áreas cerebrais para as funções sexuais, como sabemos existir para a função da fala,
por exemplo, pois para o autor, a sexualidade possui caráter subjetivo.
Ainda neste artigo, Freud (1905/2003) afirmou que a sexualidade feminina possui
caráter inteiramente masculino e alegou que a libido é de natureza masculina, com base na
pulsão, a qual é sempre ativa. Assim, a libido, independente de ser no homem ou na mulher,
será sempre de natureza masculina, ou seja, ativa. Portanto, neste texto o autor já estabelecia
como sinônimos de atividade e passividade características masculinas e femininas,
respectivamente, e defendia que a passividade e a atividade estariam presentes em ambos os
sexos, porém de diferentes formas.
Faz-se importante destacar que Freud, antes mesmo de sua publicação datada do ano
de 1905, já apresentava indícios de uma discussão futura sobre tais questões. Em ―Manuscrito
K - Las neurosis de defensa (un cuento de navidad)‖, Freud (1896a/2001), no tópico o qual
discute sobre a neurose obsessiva, faz uma ligação direta entre a atividade, nos homens, e a
passividade, nas mulheres. Ainda no mesmo ano, em ―Nuevas puntualizaciones sobre las
neuropsicosis de defensa‖, Freud (1896b/2002) faz uma correlação entre a passividade e a
histeria, atribuindo-as às mulheres. Além disto, estabelece correlações entre a atividade e a
masculinidade e entre a neurose obsessiva e o sexo masculino.
Freud (1914/2003) em ―Introducción del narcisismo‖ ao diferenciar libido do Eu e
libido do objeto acrescenta que a libido, embora masculina, divide-se não somente quanto ao
seu tipo de satisfação – ativo ou passivo – mas também quanto ao tipo de objeto para qual se
direciona esta satisfação. Assim, para Freud (1914/2003), a libido poderia ser investida em
objetos, chamada de libido objetal, ou para o Eu, libido do Eu.
55
A questão da atividade e da passividade foi retomada em outros momentos na obra
freudiana. Freud (1923b/2003) retoma o assunto ao definir fases as quais a criança passa até
chegar ao desfecho final de sua sexualidade e afirma que, no estágio de organização prégenital, denominado sádico-anal, ainda não existe o masculino e o feminino, o que existe é
uma antítese entre o ativo e o passivo. E, sendo assim, a diferença entre os sexos é pautada
através da presença ou da ausência do pênis, já que a vagina até o momento é ignorada, ou
melhor, é inexistente. Em outras palavras, a questão para a criança estaria entre possuir um
órgão genital masculino ou não.
Freud (1931/2001) afirma a bissexualidade em ambos os sexos, porém é mais fácil de
identificar nas mulheres do que nos homens. Isto se deve ao fato de que, anatomicamente, o
homem possui apenas um órgão sexual, o pênis, enquanto a mulher possui dois: a vagina,
correspondente ao órgão genital feminino, e o clitóris, análogo ao órgão masculino. Além
disto, o autor afirma que a vida sexual da mulher é dividida em duas etapas, a primeira de
caráter masculino e a segunda de caráter feminino. Este aspecto é apresentado com maiores
detalhes no tópico destinado ao tema do complexo de Édipo
Segundo Freud (1925/2003), para ser conduzida à feminilidade, a menina precisaria
afastar-se da masculinidade e da masturbação, a qual possuiria caráter essencialmente
masculino. Desta forma, a menina deveria voltar-se contra esta atividade prazerosa e, assim,
ocupar uma posição passiva. A discussão é retomada posteriormente por Freud (1931/2001)
em ―Sobre la sexualidad feminina‖ onde afirma que a persistência na masturbação as
conduziria à masculinidade. O distanciamento da masturbação aconteceria após uma
proibição que, estabelecida pela pessoa da mãe ou por um substituto materno, apresentaria
repercussões em tempo posterior, a fim de libertar uma satisfação que fora frustrada
anteriormente.
Em ―La feminidad‖, Freud (1933a/2001) afirma que, mesmo de forma atrofiada, partes
do aparelho sexual masculino aparecem no corpo feminino e vice-versa. Desta forma, o autor
afirma que esta característica parece apontar, do ponto de vista da anatomia, características de
ambos os sexos, porém com destaque maior para um deles. No entanto, destaca-se que, para o
autor, aquilo que constitui o sexo masculino e o sexo feminino não se restringe à anatomia
genital.
Para Freud (1923b/2003), somente após este desenvolvimento sexual ter chegado à
―etapa final‖, na puberdade, é que a antítese sexual é constituída pelo masculino e pelo
feminino. Assim, na fase fálica configura-se o que seria a masculinidade, mas não a
56
feminilidade. Costa (2010a), em seu livro Édipo, explica que isto ocorre porque, para o autor,
há a ausência da representação psíquica do sexo feminino e, sendo assim, a diferença sexual
organiza-se em torno da posse ou não do falo. Neste sentido, o que está em questão neste
momento não mais é a posse ou não do pênis, mas posse ou não do falo.
Destaca-se que o estudo freudiano sobre a sexualidade infantil é estabelecido a partir
de investigações acerca do órgão genital masculino, o pênis. Desta forma, frente às diferenças
sexuais, o menino seria aquele que possuiria o pênis e a menina se definiria pela ausência do
mesmo. No entanto, conforme fora destacado, isto é revisto na medida em que Freud avança
em sua teoria.
Freud (1923b/2003) utiliza o termo ―falo‖ para referir-se à unidade organizadora pela
qual o individuo irá se estruturar, a partir da sexualidade. Sobre isto, Freud declara:
a característica principal dessa ―organização genital infantil‖ é, ao mesmo tempo,
sua diferença da organização genital final do adulto. Ela consiste no fato de, para
ambos os sexos, somente é considerado um órgão genital, o masculino. Portanto, o
que está presente não é uma primazia do órgão genital, mas uma primazia do falo
(1923b/2003, p. 146, tradução nossa, grifo do autor).
A esse respeito, Zanotti et al (2011) afirmam que o que se considera, portanto, não são
os órgãos genitais, mas o falo, a partir do lugar atribuído ao pênis. Na mesma direção, Elia
(1995), com base em Freud, ressalta que no inconsciente não há a representação da dualidade
de órgãos e, sendo assim, não há representação psíquica daquilo que se apresenta de forma
empírica na realidade genital anatômica. O que se apresenta no inconsciente não são os órgãos
genitais, mas o falo, e este não é o pênis (ELIA, 1995).
Destaca-se que existem movimentos feministas os quais consideram que o que está em
jogo na teoria freudiana é o pênis e por isto posicionam-se criticamente por considerar o autor
falocêntrico (ELIA, 1995). Elia (1995) ressalta que não é disto que tratam os estudos de
Freud, pois não há a predileção de um órgão em detrimento do outro, o que entra em questão
é justamente um órgão que pode faltar, o falo. Este introduz subjetivamente a dimensão da
castração e aponta a incompletude em relação ao sexo. Assim, a diferença sexual inscreve-se
na forma de imparcialidade.
Assim, ―o falo só pode impor-se ao e no inconsciente como inscrição da sexualidade,
da diferença sexual, na medida em que referir-se, dialeticamente, à falta‖ (ELIA, 1995, p. 68).
Se o falo tratasse de uma mera representação do órgão genital masculino, não seria capaz de
atingir às condições as quais Freud exigiu com relação a sua teoria do inconsciente. Esta é a
57
razão pela qual a diferença anatômica entre os sexos somente se insere no inconsciente por
suas consequências. Se o falo tivesse a representação do órgão genital masculino não existiria
razão para vincular o sexual ao inconsciente (ELIA, 1995).
Ainda a este respeito, Poli (2007), em ―Feminino/Masculino‖, afirma que para Freud,
as diferenças e as suas consequentes fantasias não são resultados de um destino anatômico
estabelecido previamente, mas de um suporte psíquico em um símbolo, o falo:
ele consiste no reconhecimento de um valor (a virilidade) e sua atribuição àqueles
que possuem uma determinada conformação anatômica. É, pois, o momento na
infância que essa atribuição de valor é vivenciada e significada pela criança — o que
se confunde imaginariamente com o índice corporal (POLI, 2007, p. 21).
Barroso (2004), ao discutir o tema em ―Primeira contribuição: o falo e a diferença dos
sexos‖, afirma que a noção de falo em Freud, completamente antievolutiva, separou a
sexualidade de uma visão psicogenética, a qual defende que o sexo chega às crianças a partir
das maturidades neurológica e hormonal, dentre outras. Esta concepção, segundo a autora,
também desassociou a sexualidade de aspectos cronológicos, fundamentados numa lógica
desenvolvimentista que desconsidera o inconsciente. Por fim, a autora destaca que a noção de
falo na teoria freudiana desvincula a referência anatômica, até então considerada determinante
no tocante à diferença sexual.
Poli (2007) ressalta que pelo fato de se tratar do falo, e não do pênis, ambos, meninos
e meninas, não estão livres do complexo de castração. Desta forma, possuir o falo implica,
para os meninos, uma identificação a qual se dá com a figura do pai. Já as meninas, as quais
possuem, como objeto de amor, o pai, concluem que suas mães não possuem o falo. Assim,
buscam-no em seu pai. Sendo assim, a partir das contribuições de Freud, considera-se que o
apoio da diferença entre fálico e castrado está nas relações entre a criança e seus pais.
Neste sentido, Barroso (2004) afirma que se fôssemos questionar a Freud como o sexo
chega às crianças, sua resposta seria que o sexo chega através do Édipo, ou seja, do complexo
de Édipo. Este tema, discutido no próximo item, é considerado na teoria psicanalítica
freudiana, constituinte da sexualidade.
3.6 O complexo de Édipo no menino e na menina
58
Freud (1924/2003) em ―El sepultamiento del complejo de Edipo‖ afirma que o
complexo de Édipo revela-se como fenômeno central do período sexual da primeira infância.
Defende que se trata de um processo de constituição ao qual todos se submetem. O autor
apoia-se na obra de Sófocles denominada ―Édipo Rei‖ para construir sua teoria. A obra retrata
a lenda grega de Édipo, que era filho de Laio e Jocasta, rei e rainha de Tebas. O mito descreve
a tragédia em que Édipo é destinado a matar o seu pai e casar-se com a sua mãe (COSTA,
2010a). Para Freud (1925/2003, p. 275, tradução nossa), o complexo de Édipo ―é uma coisa
tão importante que não pode deixar de produzir consequências, independente do modo que o
indivíduo nele se introduz ou o abandona‖.
O complexo de Édipo está ligado à fase fálica da sexualidade infantil e é o ponto
central na organização psíquica. É importante ressaltar que na sua conferência ―Desarrollo
libidinal y organizaciones sexuales‖ Freud (1917/2000) iniciou o entendimento de que haveria
uma equivalência do complexo de Édipo nos meninos e nas meninas. Para ele, o menino teria
a mãe como objeto e o pai representaria uma barreira nesta relação. Com as meninas a lógica
seria a mesma: interesse por seu pai e ódio por sua mãe, por julgá-la rival.
No entanto, isto é revisto no ano de 1925 em ―Algunas consecuencias psíquicas de la
diferencia anatómica entre los sexos‖ ao constatar que é no momento no complexo de Édipo
que a diferença entre os sexos é instaurada, a partir da situação psíquica nele envolvida.
Assim, observa particularidades no complexo de Édipo na menina que não podem ser
desconsideradas.
Freud (1925/2003), a partir dos seus estudos acerca do complexo de Édipo, demarca
então, a sexualidade como não sendo biológica, mas constituinte da posição resultante de uma
organização psíquica. Com base nos ensinamentos de Freud, Costa afirma:
todos os seres humanos, em função da sua constituição bissexual, possuem, ao
mesmo tempo, características masculinas e femininas. Entretanto, a assunção de
uma posição subjetiva masculina ou feminina é tributária ao que acontece na
infância do sujeito na sua passagem pelo Édipo (2010a, p. 31).
Segundo Freud (1924/2003), o complexo de Édipo, em um primeiro momento,
constitui-se de uma representação inconsciente, cujo aparecimento se dá em idade muito
precoce, na qual se exprime o desejo sexual ou amoroso da criança e uma aversão para com o
genitor do mesmo sexo. Posteriormente, no fim dos seus estudos, Freud afirma que
59
nenhum individuo se limita às formas de reação de um único sexo, mas sempre dá
lugar àquelas do sexo que lhe é oposto, assim como seu corpo apresenta, junto com
os órgãos desenvolvidos de um dos sexos, rudimentos atrofiados do outro,
rudimentos que frequentemente se tornaram inúteis (1940e/2014, p. 127).
Assim, Freud (1940b/2001) nos alerta sobre a necessidade de se considerar a
constituição bissexual dos indivíduos, conforme apresentado anteriormente. Desta forma, faznos refletir que devemos ter cuidado ao fazermos uma análise simplista do complexo de
Édipo: o menino ama a sua mãe e hostiliza o pai e o inverso aconteceria com a menina.
Além disto, Freud (1940b/2001) afirma que o Complexo de Édipo possui orientação
tanto passiva como ativa. Sendo assim, segundo o autor, não podemos usar a equação
―empírica, convencional e claramente inadequada‖ (FREUD, 1940e/2014, p. 127) de que seria
masculino tudo que é ativo e feminino o que é passivo. Mais do que isto, afirma que o Édipo,
no menino, leva-o a identificar-se com o pai e a desejar ocupar o lugar dele com relação aos
cuidados recebidos pela mãe. Porém, ao mesmo tempo, deseja ocupar o lugar de sua mãe
enquanto objeto de amor do pai, o que fora apresentando por Freud (1925/2003) como uma
atitude essencialmente feminina. Aqui vale lembrar que, no início da sua obra, Freud
(1905/2003) estabeleceu uma relação entre masculinidade e atividade e feminilidade e
passividade, como mencionado neste estudo, no entanto, ao longo dos seus estudos, esta
compreensão foi alterada.
Em ―El yo y el ello‖, Freud (1923a/2003), ao retratar o complexo de Édipo, antes
mesmo de escrever um texto direcionado ao tema, afirma que no caso do menino, a primeira
grande identificação é feita com os pais. Isto seria fruto do reconhecimento da diferença entre
os sexos, pois, antes disto não há, ainda, a distinção entre o pai e a mãe.
Ao discutir sobre o complexo de Édipo, Freud (1925/2003) afirma que o menino,
assim como a menina, tem suas primeiras experiências sexuais a partir da relação com a sua
mãe, através da amamentação e dos cuidados diários de higiene. O menino desenvolve,
portanto, uma catexia objetal por sua mãe, relacionada ao seio materno, e o pai identificandose com ele. Assim, a relação do menino com a sua mãe e com o seu pai acontecem de forma
paralela, até o seu desejo com relação a sua mãe fica mais intenso, de forma a perceber o pai
como aquele que dificulta a satisfação deste desejo (FREUD, 1923a/2003). Destaca-se queo
tema do complexo de Édipo no menino é melhor detalhado no capitulo 3, em item reservado
ao tema.
Com relação às meninas, Freud (1924/2003) afirma que não acontece da mesma forma
que no menino. Para o autor, ―a distinção morfológica tende a expressar-se em diferenças de
60
desenvolvimento psíquico‖ (p. 185, tradução nossa). Ao retratar este aspecto, Freud
(1925/2003, p. 270, tradução nossa) afirma que ―a menina esconde problemas a mais que os
meninos‖. Nas palavras de Poli (2007, p. 31) ―para que a feminilidade possa emergir, é
preciso um trabalho a mais‖. É importante ratificar que antes do complexo de Édipo, o rumo
da sexualidade em ambos os sexos segue na mesma direção. No entanto, é a partir desta fase
que ele diferencia-se, de acordo com a experiência edipiana.
Para Freud (1905/2003), num momento inicial, a mãe é o objeto de amor para toda e
qualquer criança, independente do sexo. Tal discussão é realizada em seu texto ―Tres ensayos
de teoría sexual‖. Segundo a teoria freudiana, o primeiro objeto de amor da criança é o seio
materno, de onde é possível obter sua nutrição. Assim, o amor pelo seio materno constituir-se
o início de uma relação amorosa entre a criança e sua mãe.
Destaca-se que a fase na qual a menina encontra-se ligada intensamente a sua mãe, a
qual, conforme já citado, Freud chamou de fase pré-edipiana e, é de suma importância. Freud
(1931/2001) ressalta, inclusive, que este momento possui relevância muito maior para a
sexualidade das mulheres do que para a sexualidade dos homens. Para ele, muitos fenômenos
da vida sexual feminina, os quais por algum motivo não foram compreendidos anteriormente,
podem ser entendidos através de uma referência a este momento.
No artigo intitulado ―Sobre la sexualidad femenina", Freud (1931/2001) reserva um
estudo sobre a sexualidade feminina e suas particularidades. Neste texto, Freud afirma que,
assim como no menino, é na relação com a mãe que a menina tem suas primeiras experiências
sexuais a partir da amamentação, da nutrição, da higiene pessoal e dos cuidados maternos.
Também é nela que elas descobrem a sua atividade fálica característica, a masturbação do
clitóris.
Neste sentido, segundo Freud (1931/2001), no início da vida da criança, o papel
desempenhando pela pessoa a qual está responsável pela higiene infantil culmina na fantasia,
que geralmente transforma a mãe ou a cuidadora em sedutora. O autor usa o termo ―sedução
real‖ para referir-se a esta relação. Assim, a sedução real é considerada como algo bastante
comum e se dá a partir de cuidados como acalmar a criança ou pô-la para dormir.
Freud (1924/2003) afirma que a menina, que inicialmente tem a sua mãe como objeto
de amor, encara o seu clitóris como um pênis, Assim, quando percebe o órgão genital
masculino de um irmão ou de colegas, o qual se apresenta de forma notável e com grandes
61
proporções, o identifica correspondente ao seu órgão, que é pequeno e discreto (FREUD,
1924/2003).
Neste momento, as meninas passam não somente a observar os órgãos do sexo oposto,
mas os compara com os seus, identifica as diferenças anatômicas e recebe estas diferenças
como uma injustiça, assumindo uma postura de inferioridade. Desta forma, mantêm uma
expectativa de que, mais tarde, este órgão possa crescer e, assim, receber um complemento
que o deixasse tão grande quanto o dos meninos (FREUD 1924/2003). Freud (1925/2003, p.
271, tradução nossa) afirma que, em consequência disto, a menina é acometida pela inveja do
pênis: ―ela o viu, sabe que não o tem e quer tê-lo‖.
Assim, a menina apresenta um sentimento de inferioridade com relação àqueles do
sexo masculino, o qual é consequência do seu narcisismo ferido. Porém, ela mantém uma
esperança de um dia possuir tal órgão e, desta forma, tornar-se semelhante a um homem
(FREUD, 1925/2003). Neste sentido, as consequências disto são diversas e fáceis de serem
vividas. Uma delas é o enfraquecimento na relação da menina com o seu objeto de amor – a
mãe. Para Freud (1925/2003), esta situação não pode claramente explicada, mas destaca que a
mãe é quase sempre considerada a responsável pela falta do pênis em sua filha.
Em outro texto, Freud (1931/2001) ressalta que a menina geralmente possui uma série
de motivos para afastar-se da mãe. Assim, ela acredita que sua mãe falhou ao fornecer-lhe
órgão genital ―errado‖, não a amamentou o suficiente, nunca atendeu às expectativas do amor
da menina e, por fim, despertou sua atividade sexual e a coibiu, através da proibição da
masturbação. Desta forma, aos poucos, a menina abandona a ligação que possui com a sua
mãe. Porém, em consonância com a observação em publicação realizada anos antes, Freud
(1931/2001) afirma que todas essas razões, contudo, ainda parecem ser insuficientes para
justificar a hostilidade final da menina para com a sua mãe.
Sobre isto, em ―La feminidad‖, Freud (1933a/2001) afirma que, independente de qual
for a verdadeira situação ocorrida, é impossível que a acusação da criança seja justificável
tantas vezes quantas surgir. E assim destaca que voracidade pelo alimento primeiro é
totalmente insaciável, fato que explica a não superação do sofrimento infantil de perder o seio
materno. Além disto, a chegada de outro filho também pode tornar-se uma acusação contra a
mãe: ―as exigências de amor das crianças são ilimitadas; exigem exclusividade, não admitem
partilhas‖ (FREUD, 1933a/2001, p. 114, tradução nossa).
62
No ano de 1908, Freud (1908b/2003) publicou um texto intitulado ―La novela familiar
de los neuróticos‖, no qual afirma que pequenos fatos da vida tornam a criança descontente e,
por isto, estas começam a criticar seus pais. Segundo o autor,
o sentimento de estar sendo negligenciado constitui obviamente o cerne de tais
pretextos, pois existe sem dúvida um grande número de ocasiões em que a criança é
negligenciada, ou pelo menos sente que é negligenciada, ou que não está recebendo
todo o amor dos pais (...) (FREUD, 1908b/2003, p. 217, tradução nossa).
Quanto à descoberta da menina de não possuir o órgão em questão, destaca-se que ela
não considera que esta falta é de caráter sexual e tenta explicá-la pressupondo que, em algum
momento anterior, possuiu um órgão tão grande, mas que o perdera por castração. Desta
forma, uma das diferenças essenciais entre o sexo feminino e o sexo masculino: a menina
encara a castração como algo que fora, de fato, executado, ao passo que o menino teme a
possibilidade de ser castrado (FREUD, 1924/2003).
Assim, quando a mulher extrapola a tentativa de explicar esta falta como uma punição
a si mesma, inicia a compreensão de que este atributo sexual é universal e, a partir disto,
inaugura e compartilha um desprezo que é sentido pelos homens por um sexo que seria
inferior. E ao alimentar-se com esta opinião, insiste em ser como um homem (FREUD,
1925/2003).
Freud (1923b/2003) já discutia tais questões em ―La organización genital infantil (una
interpolación en la teoría de la sexualidad)‖. Segundo ele, a falta do pênis na menina é vista
por ela como uma punição e, por isto, enfrenta uma tarefa de chegar a um acordo com a
castração em relação a si própria.
Assim, para Freud (1924/2003), a menina buscaria uma compensação, que seria o
desejo de ter um filho. Assim, ―ela desliza - ao longo da linha de uma equação simbólica,
diríamos - do pênis para o filho‖ (FREUD, 1924/ 2003, p. 186, tradução nossa). Desta forma,
instaura-se o complexo de Édipo na menina: ela abandona o desejo de ter um pênis e em seu
lugar assume o desejo de ter um filho. O seu pai, portanto, passa a ser o seu objeto de amor e
a sua mãe, o seu objeto de ciúme (FREUD, 1925/2003). Este aspecto demonstra que o que
está em questão seria o ―ter‖ ou ―não ter‖.
Desta forma, conforme foi apresentado, antes da menina entrar no complexo de Édipo
exige-se dela uma ―dupla mudança‖, a saber: uma mudança na forma de encarar o seu órgão
genital; e uma mudança em seu objeto, que passa de sua mãe para o seu pai. Assim, haveria
63
um abandono na menina de sua posição fálica e a aceitação da castração materna, a qual
conduziria o amor da filha pelo pai – complexo de Édipo (FREUD, 1925/2003).
Neste sentido, enquanto no menino o complexo de Édipo se dissolve sob o efeito do
complexo de castração, é a partir deste complexo que se torna possível e é introduzido o
complexo de Édipo na menina. Para André (1998), com base em Freud, é através do efeito do
complexo de castração que a menina reconcilia-se com a sua anatomia. Neste sentido, André
(1998, p. 24, grifo do autor) destaca que este processo ―parece pouco ‗natural‘‖ e aconteceria
na medida em que a menina quer ter o que falta a sua mãe (ANDRÉ, 1998).
Observa-se, portanto que, nas meninas, o complexo de Édipo acontece de forma
secundária. Antes disto, as operações do complexo de castração são seus precedentes. Elas
antepõem o complexo de Édipo e o preparam. Acerca disto, Freud (1925/2003) destaca
diferenças fundamentais entre o sexo feminino e o sexo masculino em relação aos complexos
de Édipo e de castração. Segundo o autor,
embora, o complexo de Édipo do menino é destruído devido ao complexo de
castração, na menina ele é possibilitado e introduzido por este último. Esta
contradição se esclarece se refletirmos que o complexo de castração produz em cada
caso efeitos no sentido de inibir e limitar conteúdos masculinos e incentivar a
feminilidade (FREUD, 1925/2003, p. 275, tradução nossa).
Desta forma, a partir do complexo de Édipo, surge na menina um desejo, que é por ela
mantido durante algum tempo. Trata-se de receber do seu próprio pai um bebê, como uma
forma de presente – ganhar um filho (FREUD, 1924/2003). Freud (1933a/2001) destaca que a
menina volta-se, então, para o seu pai e isto é, de forma clara, o seu desejo de possuir o pênis
que sua mãe lhe recusou e que, assim, espera obtê-lo de seu pai. Freud (1933a/2001) afirma
que esse desejo do pênis deve ser identificado, portanto, como um desejo feminino ―por
excelência‖.
Assim, ao entrar no complexo de Édipo, a menina não precisa criar novamente um
sentimento hostil por sua mãe. Na verdade, este permanece, visto que agora a mãe, que recebe
do pai da menina tudo aquilo que deseja, torna-se rival de sua filha (FREUD, 1933a/2001).
No entanto, assim como nos meninos, nas meninas o complexo de Édipo também tem o seu
declínio. Porém, Freud (1924/2003) destaca que o complexo de Édipo nas meninas ter maior
duração. Além disto, salienta que seu declínio não pode ser pela via do complexo de
castração, tal como ocorre com o sexo masculino, visto que o complexo de castração já tivera
seu efeito na menina – introduzi-la no complexo de Édipo (FREUD, 1925/2003).
64
Para Freud (1924/2003), o complexo de Édipo na menina é, portanto, aos poucos
abandonado na medida em que o seu desejo em ter um filho com o seu pai não se realiza. Ela
sente satisfação ao acreditar ser, acima de tudo, aquilo que seu pai ama. Porém, em um dado
momento sofre uma dura punição por parte deste pai e, desta forma, é posta para fora daquilo
que Freud (1924/2003, p. 181, tradução nossa) chamou de ―céu‖, ou seja, fora de um lugar
ingênuo.
Freud (1924/2003) sugere que experiências aflitivas deste tipo são inevitáveis, tanto
para a menina quanto para o menino, pois agem no sentido contrário ao conteúdo do
complexo de Édipo. Neste caso, a ausência daquilo que é esperado e a negação constante do
bebê desejado, devem provocar um distanciamento da pequena amante de forma que ela
desista do seu anseio cuja satisfação não é atingida. Desta forma, o fim do complexo de Édipo
se aproximaria.
Sobre isto, Poli (2007) afirma que as contribuições de Freud revelam aquilo que ele
testemunhava em sua clínica. Assim, as mulheres freudianas apresentavam uma extrema
valorização e idealização da maternidade. Desta forma, eram das próprias mulheres que Freud
recebia a mensagem de que a gestação de um bebê - principalmente se ele fosse menino possibilitaria às mulheres uma resolução da sua inveja do pênis. Além disto, a autora destaca a
assertiva de Freud ao afirmar que a ausência desta realização poderia levar estas mulheres a
inserir-se na masculinidade ou a renunciar a sexualidade.
Este aspecto é revisto atualmente, pois, como retrata Nunes (2011), o paradigma
freudiano que associou feminilidade e maternidade não mais é suficiente para definir as
mulheres na contemporaneidade, por existirem inúmeras formas de se inscrever na cultura
atual como mulher, que não exclusivamente através da maternidade.
Com base no apresentado, a diferença entre os conceitos de sexual e genital na teoria
freudiana torna-se evidente. Desde seus primeiros estudos, Freud (1905/2003) demonstra que
a sua teoria acerca da sexualidade não se restringe ao genital e, além disto, engloba muitas
atividades que não se relacionam às genitálias. É assim que, ao longo de toda a sua obra, o
autor demonstra incessantemente que a sexualidade não é determinada pelo organismo, mas
por aspectos subjetivos.
Para objetivo deste estudo, no capítulo que se segue é realizada uma leitura do caso
―O Pequeno Hans‖, no qual se destaca a importância da sexualidade infantil e dos complexos
65
de Édipo e de castração no tocante à diferença sexual, em detrimento dos aspectos anátomobiológicos.
66
4 A DIFERENÇA SEXUAL NO CASO “O PEQUENO HANS”
Este capítulo objetiva discutir como se institui a diferença sexual a partir do caso ―O
pequeno Hans‖. Para tanto, inicialmente são apresentados dados do caso clínico.
Posteriormente, estes são discutidos a partir das considerações de Freud e de comentadores.
4.1 Todos têm “pipi”?
O caso do Pequeno Hans, publicado por Freud em ―Análisis de la fobia de un niño de
cinco años‖ (FREUD,1909/2000), retrata uma criança com cinco anos que vivia tomada de
curiosidade e de questionamentos sobre o órgão genital, sobre o nascimento de bebês e sobre
a diferença anatômica entre os sexos. Além disso, vivia mergulhado em um turbilhão de
sensações ligadas ao Édipo e à castração (FREUD, 1909/2000).
A grande importância que o menino atribuiu ao seu membro sexual refletia-se em uma
incapacidade de imaginar alguém, um semelhante, que fosse desprovido deste constituinte
considerado primordial. Assim, o Pequeno Hans imaginava que tudo que estava ao seu redor
possuía um órgão tal como o seu, sejam homens, mulheres, animais ou objetos inanimados.
Hans foi encaminhado por seu pai para Freud devido ao grande medo de cavalos. É
importante destacar que Freud só encontrou pessoalmente o Pequeno Hans uma vez. A análise
de Hans ocorreu através de cartas, trocadas entre o pai da criança e seu professor, Freud.
Assim, a análise ocorreu através do pai de Hans, a partir do que Freud escrevia nas cartas.
Uma das questões que deixava o pai de Hans intrigado era o costume da criança de
tocar-se e masturbar-se, prática que acontecia em sua pouca idade, antes mesmo do
nascimento da sua irmã, Hanna. Além disto, Hans estava às voltas com o mistério do
nascimento, da concepção e da diferença sexual.
A curiosidade sexual de Hans apresentava-se em tudo aquilo que observava. Sempre
olhava as pessoas, coisas e animais na esperança de encontrar o ―pipi‖ em cada ser que
observava. Assim, de início, não estabelecia diferença entre um objeto animado e um objeto
inanimado e entre os animais e os seres humanos, por crer que tudo o que via possuía um
―pipi‖: ―na estação ferroviária, aos três anos e nove meses, observa como uma locomotiva
67
jorra água: ‗Olha! A locomotiva faz pipi! E onde está o pipi dela?‘‖ (FREUD, 1909/2000, p.
10, tradução nossa).
Para o Pequeno Hans, o hábito de tocar o seu órgão genital era comum, o que era visto
com reprovação por seus pais. Segundo Freud (1909/2000, p. 88): ―a intervenção de sua mãe
aconteceu porque ele gostava de proporcionar a si mesmo sensações prazerosas tocando o seu
membro; o menininho tinha começado a praticar a mais comum forma de atividade
autoerótica‖.
Destaca-se que o Pequeno Hans passou a distinguir objetos animados dos objetos
inanimados pelo critério de ter ou não ter o órgão genital como o dele. Isto aconteceu a partir
das suas observações, aos três anos e meio, pelas quais detectou a característica essencial de
diferenciação entre eles: ―um cachorro e um cavalo têm pipi; a mesa e a cadeira, não‖
(FREUD, 1909/2000, p. 10, tradução nossa).
Suas observações e comparações também estavam presentes em suas fantasias. Certa
noite, Hans saiu de sua cama e foi para a dos pais, no entanto, alegou que não estava com
medo. No dia seguinte, relatou imaginar duas girafas em seu quarto. A diferença entre elas era
que uma era grande e a outra, amarrotada. A girafa grande gritou porque Hans havia levado a
amarrotada para longe. A girafa pequena, que aparentava fragilidade, recebeu cuidados do
menino e quando a girafa grande parou de gritar, Hans sentou em cima da girafa amarrotada
(FREUD, 1909/2000).
Hans questionou se seu pai também teria um ―pipi‖. Ainda com esta idade, ao olhar
fixamente para sua mãe despida, é indagado por ela sobre a razão de observá-la daquela
maneira. Respondeu que estava olhando para verificar se ela também tinha um ―pipi‖ anteriormente já havia questionado isto e recebeu uma resposta positiva da mãe. Neste
momento, Hans afirma que se a mãe tivesse um ―pipi‖, este deveria ser tão grande quanto o de
um cavalo.
Já em relação à Hanna, o Pequeno Hans acreditava que ―pipi‖ da irmã existia e este
era muito pequeno. Trata-se do primeiro momento em que ele se vê confrontado com a
anatomia da irmãzinha. Assim, não negou a existência do pipi, ao contrário, acreditou na
presença do órgão e presumia o crescimento dele (FREUD, 1909/2000).
O nascimento de Hanna também provocou em Hans interesse tanto com relação às
diferenças sexuais, quanto à concepção e ao nascimento. Estes questionamentos surgiram ao
ouvir os gemidos de sua mãe e ao observar bacias e recipientes com sangue e água, após o
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parto de Hanna. Diante desta cena, Hans faz uma comparação: ―‗mas... do meu pipi não sai
nada de sangue‘‖ (FREUD, 1909/2000, p. 11, tradução nossa). Neste momento, Hans fazia
um questionamento quanto à chegada da cegonha e faz uma associação de tudo que observara
naquela cena e que lhe parecia estranho.
Além disto, sua investigação sobre a origem das crianças ficou nítida, inclusive, em
sua fala, ao chamar de ―suas filhas‖ suas amiguinhas Berta e Olga: ―‗minhas filhas Berta e
Olga também foram trazidas pela cegonha‘‖ (FREUD, 1909/2000, p. 13). Percebe-se que, ao
fazer esta colocação, Hans tinha o entendimento de que todo ser, independente do sexo, era
capaz de ter bebês.
Também faz parte deste momento investigativo, a indagação da ligação do pai na
concepção dos bebês. No caso de Hans, isto é representado numa cena na qual ele brinca com
uma boneca, insere um pequeno canivete em um buraco redondo no corpo dela e, em seguida,
afasta suas pernas e deixa o objeto cair para fora do corpo (FREUD, 1909/2000). Para Freud
(1905/2003), neste momento de investigação, há a pressuposição de que os bebês sairiam do
seio materno, ou se recortariam do ventre, ou ainda, sairiam do umbigo, o qual se abriria para
a criança passar. Segundo o autor, há também podem a pressuposição de que os filhos nascem
pelo intestino, como na eliminação fecal, após a mãe comer uma determinada coisa (FREUD,
1905/2003).
Neste período, de intensa curiosidade sexual, também fora manifestado certo
exibicionismo. Hans gostava de ser visto fazendo ―pipi‖: ―no ano passado, quando eu fazia
pipi, Berta e Olga estavam me olhando‖ (FREUD, 1909/2000, p. 19). A partir desta fala,
Freud (1909/2000) concluiu que o garoto sentia prazer em ser observado pelas meninas. Desta
forma, Hans acreditava que os atos de exibicionismo impulsionariam as pessoas a mostrar os
seus próprios órgãos e, assim, ele poderia observá-los e compará-los com os seus.
Isto surgia concomitantemente a uma notória curiosidade em observar os órgãos
genitais das pessoas que estavam ao seu redor e, conforme já citado aqui, a curiosidade
direcionava-se principalmente para com seus pais: ―‗pus o dedo, um pouquinho, no meu pipi.
Então, vi a mamãe toda despida, de camisa, e ela me deixou ver o seu pipi‘‖ (FREUD,
1909/2000, p. 28, tradução nossa). Para Freud (1909/2000), o prazer que uma pessoa sente no
seu próprio órgão genital pode vincular-se com o prazer sexual em olhar os órgãos sexuais de
outras pessoas.
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Destaca-se que Hans expressou várias vezes o seu desconsolo, tanto para seu pai como
para sua mãe, por nunca ter observado os órgãos genitais deles. Para Freud (1909/2000), esta
curiosidade, provavelmente, fora motivada pela necessidade de fazer uma comparação entre
os membros sexuais. Era a partir da observação e da comparação com o seu próprio corpo que
o Pequeno Hans poderia apreender e avaliar o mundo externo.
Hans também relatou um sonho no qual expressava o desejo de que uma das
amiguinhas o olhasse ao ―fazer pipi‖, compartilhasse do ―espetáculo‖ (FREUD, 1909/2000,
grifo do autor). O sonho tratava-se de um jogo de prendas no qual a pessoa a quem pertencia a
prenda era obrigada a urinar. Na verdade, para Freud, o que estava em jogo, neste momento,
era o desejo de Hans de que Berta e Olga pudessem vê-lo fazer pipi (ou o obrigassem a fazêlo). O desejo, portanto, aparecia no sonho claramente disfarçado em um jogo de cobrar
prendas. Para Freud (1909/2000), este sonho confirmou o fato de que o menino tinha o hábito
de observar esta parte do seu corpo.
O exibicionismo de Hans também esteve presente em outros momentos: ―‗mostrei
meu pipi para ela‘(referindo-se a Grete)‖ (FREUD, 1909/2000, p. 28, tradução nossa); ―‗Se
mamãe mostra o seu pipi, eu também posso fazê-lo‘‖ (FREUD, 1909/2000, p. 29, tradução
nossa); e ainda:
―Berta sempre me olha‖ (nada ofendido por isso, mas muito satisfeito); ―ela fazia
isso muitas vezes. No jardinzinho, onde tem rabanetes, eu costumava fazer pipi e ela
ficava do lado de fora da porta da frente e me olhava‖ (FREUD, 1909/2000, p. 51,
tradução nossa).
Outro aspecto importante é que o Pequeno Hans apresentava, por vezes, constipação
intestinal. Para Freud (1909/2000), a zona anal proporcionou ao menino grandes prazeres,
porém não mais do que a zona genital, parte do corpo capaz de propiciar-lhe a mais intensa
satisfação. O Pequeno Hans apresentou constipação desde o início da sua infância, situação
que foi reparada, sem muitas dificuldades, através de uma dieta moderada. Posteriormente, a
constipação voltou a aparecer com certa frequência. O uso de laxantes e enemas era
frequentemente necessário, diante da dificuldade que Hans sentia para defecar.
Sobre isto, Freud (1909/1996) considera que a constipação de Hans pode ter sido uma
forma de proporcionar prazer a si mesmo, um prazer autoerótico. Assim, o prazer estaria em
reter as fezes até que se possa tirar uma sensação voluptuosa da sua evacuação. Neste
sentido, as pulsões parciais, procurariam a satisfação do prazer no próprio corpo. Assim, neste
caso, a satisfação se reteria à região anal (FREUD, 1908a/2003).
70
Estas excitações seriam provocadas a partir das contrações musculares resultantes da
retenção fecal e de sua passagem pelo canal anal, as quais podem proporcionar uma
estimulação da mucosa. Existiria, portanto, uma mistura de sensações diferentes: a dor,
resultante da retenção e a excitação proveniente do estímulo da mucosa anal. Isto explicaria,
para Freud, a recusa de muitos bebês em esvaziar seus intestinos.
Antes da publicação do caso do O Pequeno Hans (FREUD, 1909/2000), Freud
(1908a/2003) em ―Carácter y erotismo anal‖, tratou do assunto. Nele, relaciona o ato de
defecar aos estímulos dolorosos da pele das nádegas, mas também o relaciona a um ato que
proporciona prazer, por estar ligado à zona erógena anal. Pode-se, portanto, afirmar que os
momentos nos quais Hans vivenciou a constipação também faziam parte de sua investigação
sexual, por se tratar de sensações prazerosas as quais ele vivenciava na medida em que a
evacuação era de alguma forma reprimida.
4.2 Hans e o complexo de Édipo
No momento em que acompanhou o caso de Hans, Freud não havia dedicado uma
produção específica sobre o complexo de Édipo. O tema é apresentado ao longo do caso
clínico, publicado no ano de 1909, no entanto, o texto exclusivo dedicado ao tema foi
publicado apenas no ano de 1924, intitulado ―El sepultamiento del complejo de Edipo‖
(FREUD, 1924/2003). Conforme apresentado no capítulo anterior, a produção discute o
complexo de Édipo e articula-o com o conceito de castração. Ressalta-se que, apesar de Freud
ter dedicado apenas um texto à discussão do complexo de Édipo; o tema encontra-se presente,
não somente ao longo do Caso Hans, mas em toda a sua obra, por ter relação direta com o
tema da sexualidade, ponto de interesse em seus estudos.
No caso O Pequeno Hans, a sua relação hostil para com o pai é constatada em diversas
situações. Momentos os quais Hans apresenta o amor pela mãe e o desejo de ausência do seu
pai (ou de sua morte) são identificados ao longo do caso clínico. À mãe, inclusive, dirigia
indícios de seus desejos sexuais nascentes: ―está claro porque ao anoitecer angustia-se demais,
pois, antes de ir para a cama, dele apossava-se de forma intensa a libido, cujo objeto era a mãe
e seu objetivo poderia ser dormir junto a ela‖ (FREUD, 1909/2000, p. 24, tradução nossa).
Hans também apresentava necessidade em ―mimar‖ com a sua mãe. Desejava ficar
sozinho com a sua mãe e dormir com ela. Assim, não queria ficar longe de sua mãe e queria o
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seu pai ―fora do seu caminho‖. Além disto, era de costume de Hans entrar no quarto dos pais,
cedo da manhã, e ser levado por sua mãe de volta para a cama, pois, para ela, isto seria uma
bobagem (FREUD 1909/2000).
Para Freud (1909/2000), este desejo encontrou expressão durante as férias de verão,
momento em que o seu pai estava-se presente mas, em muitos momentos, também ausente.
Tal condição favoreceu a intimidade de Hans com a sua mãe, a qual era responsável pelos
seus cuidados diários.
Neste momento, portanto, o pai é revestido de uma figura de hostilidade. Assim, o pai
é encarado como um rival e surge o desejo de livrar-se dele para que o menino possa assumir
o seu lugar junto a sua mãe. Neste sentido, a relação do filho com o seu pai é permeada de
sentimentos ambivalentes, sobre os quais se sobressaem o amor e o ódio (FREUD,
1923a/2003).
Destaca-se que, no caso clínico em questão, o pai era aquele que era visto como um
rival e, por isso, era hostilizado, mas ao mesmo tempo era alguém a quem o Pequeno Hans
amava, com quem ele se identificava. Além disto, o pai de Hans foi seu primeiro companheiro
de jogos e o seu cuidador. Para Freud (1909/2000), isto gerou um impasse em Hans, a qual
não obteve solução imediata. Destaca-se que, segundo Freud (1909/2000), o amor pelo pai
prevalecera em tempo provisório em Hans e assim, concomitantemente, havia uma supressão
do ódio, ainda que o garoto não pudesse anular tal afeto, pois, este era sempre atualizado e
alimentado em consequência do amor por sua mãe.
Freud (1913/2000) em sua obra ―Tótem y tabú - algunas concordancias en la vida
anímica de los salvajes y de los neurótico‖ aproxima o complexo de Édipo nos filhos do sexo
masculino ao que acontecera na horda primeva. Tal como o pai do Pequeno Hans, o pai
apresentado neste artigo possui a mesma função que no complexo de Édipo, a saber: a
proibição do incesto.
Sabe-se que o Pequeno Hans via-se às voltas, diante de um ódio e de uma rivalidade
com relação ao seu pai, por causa de seus sentimentos para com a sua mãe, e, ao mesmo
tempo, possuía afeição e admiração de longa data pela mesma pessoa. Isto coincide com o
discutido por Freud no mito de totem e tabu. O mito, segundo Costa (2010a), refere-se à
relação dos homens com os seus próprios questionamentos acerca da sua existência, o qual
seria construído pelo próprio homem, diante dos seus impasses existenciais.
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Freud (1913/2000) faz uma analogia do Totem ao Édipo e afirma que o animal
totêmico é, na verdade, um substituto do pai. Para fundamentar sua afirmação, Freud
apresenta um mito, o qual acontecera na era primitiva. As hordas caracterizavam-se por um
grupo pequeno, dentro do qual o ciúme do homem mais velho e mais forte impedia que
houvesse promiscuidade sexual.
Nos primórdios, quando ainda não existia o totemismo, o que caracterizava a horda era
um pai violento e ciumento, que protegia e possuía todas as mulheres. Geralmente este pai era
o mais velho e o mais forte. Na medida em que os seus filhos do sexo masculino iam
crescendo, eram expulsos, pelo seu pai, daquela horda. O filho que não seguisse as regras
seria castrado e morto. Eles deveriam encontrar uma companheira e estabelecer uma horda
semelhante, na qual imperava a mesma proibição. A consequência disto seria a exogamia –
casamento entre membros de grupos diferentes. Posteriormente, isto evoluiu para os totens,
nos quais não poderia haver relações sexuais entre seus membros (FREUD, 1913/2000).
Freud (1913/2000) conta que na época da horda de Darwin, como eram chamadas as
primeiras hordas, irmãos os quais tinham sido expulsos, voltaram, mataram e devoraram seu
pai, de forma que deram fim à horda patriarcal. A partir deste relato, o autor faz uma
correlação e afirma que o animal totêmico seria um substituto do pai.
Totem, segundo o autor,
numa regra geral, é um animal comível, inofensivo, ou perigoso e temido; e mais
raramente um vegetal ou um fenômeno natural (como a chuva ou a água), que
mantém relação peculiar com todo o clã. (...) Os membros do clã totêmico, por outra
parte, tem a obrigação sagrada (sujeita a sanções automáticas) de não matar nem
destruir seu totem e evitar comer sua carne ou tirar proveito dele de outras maneiras
(FREUD, 1913/2000, p. 12, tradução nossa).
Assim, as tribos as quais possuíam sua organização social relacionada pelo sistema
totemismo, subdividiam-se em menores grupos, ou clãs, os quais recebiam suas
denominações segundo o seu totem. Desta forma, para sustentar a sua afirmação, de que o
animal totêmico seria um substituto do pai, o autor compara-o aos rituais da refeição totêmica
de quando este é morto e devorado pelo clã. Salienta-se que esta era uma prática considerada
proibida no clã.
Os detalhes que Freud (1913/2000) destaca são importantes para a compreensão: os
membros do clã, no momento da refeição totêmica, encontram-se vestidos à semelhança do
totem. Mais do que isto, procuram também imitar sons e movimentos do animal, como se
quisessem de alguma forma evidenciar sua identidade com ele. Acham-se conscientes de que
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aquela prática é considerada proibida, porém, mesmo com tal consciência, o animal é morto e,
posteriormente, pranteado. Além disto, o luto é caracterizado por um evento festivo. Os
membros do clã consideram que consumindo o totem, e assim, a substância sagrada, adquirem
a santidade e, assim, aumentam sua identificação com ele.
A partir disto, percebe-se uma atitude ambivalente na relação com o animal totêmico:
mesmo que a sua matança seja considerada proibida, a ocasião é festiva. E ainda que ele seja
morto, a sua morte é lamentada. Segundo Freud (1913/2000), a refeição totêmica seria uma
comemoração e, assim, uma repetição daquilo que acontecera na horda de Darwin, uma
façanha criminosa e ao mesmo tempo de cunho inesquecível.
Salienta-se que o pai desta época era além do mais forte, o mais temido e o mais
invejado por cada um dos irmãos. Devorá-lo implicava adquirir, cada um deles, uma parte da
fortaleza deste pai. Além disto, a sua morte marcou o começo de muitas mudanças sociais,
morais e religiosas (FREUD, 1913/2000).
Freud (1913/2000) destaca que os irmãos estavam preenchidos de sentimentos
ambivalentes, tal como acontece no complexo de Édipo. Odiavam o pai, que representava um
impedimento para a realização dos seus desejos sexuais – a proibição do incesto no clã – mas,
ao mesmo tempo, o amavam e identificavam-se com ele. A solução foi livrar-se dele e
identificar-se com este pai, mesmo que houvesse um sentimento de culpa.
Destaca-se que o pai morto passou a ter ainda mais forças do que quando era vivo e
buscava impor suas leis. Freud (1913/2000) afirma que, posteriormente, aquilo que fora
imposto pelo pai, foi também proibido pelos próprios filhos. Os irmãos, que se reuniram para
matar o pai, viam-se às voltas com a rivalidade entre eles diante de seus desejos pelas
mulheres. Assim como o pai, cada um queria ter o domínio de todas as mulheres, de forma
que competiam pelo lugar do pai. Porém, nenhum deles possuía força suficiente para vencer
os demais membros. Isto culminaria numa nova organização entre eles, pois a luta resultaria
em nada.
Assim, o motivo o qual levaria os filhos ao assassinato do pai, fora o mesmo
estabelecido entre eles nesta nova organização. Neste sentido, se queriam viver juntos e em
paz, era preciso abrir mão da ideia de onipotência e cumprir uma lei que seria fundamental
para a convivência entre eles: não tocar na mulher da horda, ou seja, estabelecer uma lei
contra o incesto. Somente desta forma eles poderiam tornar-se fortes novamente (FREUD,
1913/2000).
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Freud (1913/2000) destaca o totemismo como uma primeira tentativa de religião, na
qual o animal era tido como um substituto ―natural e óbvio‖ do pai, em cuja relação com ele
tentaria apaziguar o sentimento de culpa, resultante do assassinato, e estabelecer uma
reconciliação com o pai real.
Neste sentido, Freud (1913/2000) considera o totemismo um pacto com o pai. O pai
seria aquele que proporcionaria cuidado, proteção e clemência. Em contrapartida, os filhos
deveriam respeitar-lhe a vida e não repetir o ato que acabara com o pai real. Sobre isto, o
autor afirma: ―a religião totêmica surgiu do sentimento de culpa dos filhos do sexo masculino,
numa tentativa de diminuir esse sentimento e apaziguar o pai por uma obediência a ele que
fora adiada‖ (FREUD, 1913/2000, p. 146-147, tradução nossa).
Freud (1913/2000) retoma o caso O Pequeno Hans neste texto e marca a importância
do totemismo na infância demonstrando, neste caso, a ambivalência de sentimentos de Hans
para com o seu pai e o deslocamento dos sentimentos hostis para um animal, o cavalo, pelo
qual apresentava bastante medo. Assim, no caso do Pequeno Hans, sua fobia foi solução a
uma falha na interdição paterna (FREUD, 1909/2000).
Ressalta-se que, segundo Freud (1913/2000), o deslocamento não é suficiente para
cessar o conflito, visto que ele não é capaz de separar nitidamente os sentimentos
ambivalentes de Hans. Pelo contrário, o conflito é sempre retomado na medida em que o
Pequeno Hans entra em contato com os cavalos, pois, do mesmo modo que a criança
apresentava um medo com relação a cavalos, também demonstrava grande interesse e
admiração por eles.
Nestes dois mitos, do complexo de Édipo e do totemismo, Freud constrói sua teoria
acerca da relação de uma criança com os seus pais. Ressalta-se que a questão que é comum
nas duas versões é o parricídio, ou seja, a morte do pai. Porém trata-se de um assassinato
específico, cometido pelo filho.
No complexo de Édipo, o pai é a figura que proíbe o incesto, por isso a ele é
direcionado sentimentos divergentes, os quais se misturam o tempo todo: o amor e o ódio. O
pai é visto como um rival, como aquele que impede que a criança realize o seu desejo junto à
mãe. Diante deste impasse, o filho deseja a morte deste pai como uma forma de resolução da
rivalidade e do seu conflito interno.
Salienta-se que o Pequeno Hans dormia frequentemente na cama dos seus pais, devido
a um medo que sentia durante a noite. Isto fortaleceu o amor que ele sentia pela mãe, um
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amor edipiano, e, consequentemente, também intensificou sua hostilidade para com o seu pai.
Este amor que sentia pela sua mãe fez com que o menino desejasse que o pai caísse e
morresse, assim como um cavalo que viu cair. No entanto, isto não isentou o garoto de sentir
culpa diante da hostilidade para com figura de seu pai (FREUD 1909/2000).
Para Freud (1923a/2003), é este mesmo pai que tem o poder de executar a castração
como forma de punição. É, portanto, um pai que impõe uma lei. A partir do complexo de
castração, o menino deixa o complexo de Édipo e cria uma identificação com este pai,
gerando uma introjeção de sua autoridade no Eu e formando, assim, o supereu.
Neste sentido, no mito do totemismo, o pai é visto como alguém poderoso, o mais
forte entre os demais, ciumento e que protegia todas as mulheres. Também era alguém que
impunha uma lei, de forma a proibir o incesto. A religião totêmica seria resultado de um
sentimento de culpa presente desde os primórdios, quando o pai fora assassinado pelos filhos
como forma de rebeldia. Assim como no complexo de Édipo, o incesto também é um tema
central, bem como o pai como alguém que irá impedir tal prática. Porém, se a sua morte fora
uma forma de acabar com a horda patriarcal, também apresentou um pai ainda mais forte: sua
lei foi restabelecida pelos filhos que, diante dos seus desejos pelas mulheres, não viam uma
alternativa para manter a ordem entre eles, a não ser o retorno da proibição do incesto.
Por último, destaca-se que em ―Moisés y la religión monoteísta‖ (FREUD,
1939/2001), o pai, na figura de Moisés, é um grande homem, sábio e muito forte. Além disto,
apresentava uma independência, mas queria que todos seguissem seus passos, os seus
mandamentos. Também se apresentava como alguém que impunha uma nova lei, através da
nova religião. Assim, buscava que os judeus acreditassem na sua religião, cuja algumas
características foram herdadas da religião egípcia. O destino também foi a não aceitação por
parte deste povo, que o assassinou. Pode-se inferir, portanto, que na cena edipiana, o pai
relaciona-se de uma forma direta com a castração e com a imposição da lei. O pai é aquele
que exerce uma autoridade, aquele que diz ―não‖ e que é consentido pela mãe e pela
comunidade (PORTE, 1999).
Conforme apresentado no capítulo anterior, no complexo de Édipo, identificado na
fase fálica, há o interesse do menino quanto ao seu órgão genital, apresentado através da sua
manipulação, a qual ocorre a partir destas experiências sexuais iniciais. Posteriormente, o
menino descobre que os mais velhos não aprovam este comportamento (Freud, 1924/2003).
Assim, é comum que o pai seja convocado para efetivar uma ameaça proferida por outrem.
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Freud (1924/2003) destaca a importância desta ameaça, a qual destrói a organização
genital fálica do menino. No caso do Pequeno Hans, a sua mãe alegou que chamaria o Dr. A.
para cortar seu pipi, caso ele não parasse de tocar no seu pênis. Segundo Freud (1924/2003), o
menino na fase edipiana ―não acredita na ameaça ou não a obedece absolutamente‖ (FREUD,
1924/2003, p. 183, tradução nossa). Assim acontecera com Hans, que insistia em tocar o seu
genital mesmo que fosse ―só um pouquinho‖.
Sobre isto, Freud (1908c/2003) afirma que a criança do sexo masculino costuma
encontrar prazer na estimulação do seu pênis com a sua mão. Desta forma, os pais geralmente
surpreendem o filho com a ameaça de cortar-lhe o pênis e o efeito desta ameaça de castração é
proporcional ao valor dado pela criança ao órgão.
É importante destacar que, neste momento, o pai é convocado como aquele que está a
serviço da mãe, aquele que irá efetuar a castração, ou seja, alguém que irá punir o menino por
sua excitação sexual. Conforme foi apresentado acima, é a mãe que introduz este pai. Além
disto, este pai é convocado diante de uma visível impotência da mãe. Neste sentido, cabe
recordar que, neste momento, o menino já o tinha como rival e, ao mesmo tempo, um modelo.
Sentimentos que brigavam entre si por possuir conotações divergentes, ambivalentes.
Foi aos três anos e meio de Hans que sua mãe presenciou este tocar com a mão em seu
―pipi‖ e ameaçou cortar-lhe o membro caso ele continuasse com o ato. Esta foi a ocasião na
qual se instalou o complexo de castração em Hans (FREUD, 1909/2000). Segundo Freud
(1924/2003), a ameaça de castração, fenômeno operador do complexo de castração, é aquilo
que permite que o complexo de Édipo chegue ao fim, diferente do que acontece nas meninas.
Assim, Freud (1925/2003) enfatiza que o complexo de Édipo é tão importante que a
criança que nele se insere e, posteriormente, o abandona, não deixa de sentir seus efeitos.
Portanto, o complexo não é simplesmente reprimido, é ―literalmente fracassado‖ (FREUD,
1925/2003, p. 275, tradução nossa) pelo impacto da ameaça de castração e seus investimentos
libidinais são abandonados e sublimados parcialmente.
O complexo de castração, segundo Freud (1925/2003), dá-se a partir da supressão da
masturbação dos órgãos genitais da criança em sua primeira infância, a qual ocorre de forma
parcialmente violenta. Portanto, pressupõe-se que esta masturbação está vinculada ao
complexo de Édipo e sirva como escape para a excitação sexual que é própria da criança.
No entanto, Freud (1925/2003) ressalta sua incerteza quanto à natureza da
masturbação e questiona se esta possuiria ligação ao complexo de Édipo desde seu início ou,
77
o contrário, se é colocada em relação a ele apenas em um momento posterior, como uma
atividade de um órgão corporal efetuando seu primeiro aparecimento de forma espontânea. O
autor destaca que, de toda forma, o complexo de castração relacionar-se-ia, portanto, à
renúncia nos prazeres do Édipo.
Sabe-se que a mãe de Hans o cercava de cuidados, mimos e a ele tudo permitia. É
notório que seu pai não concordava com o costume de Hans de frequentar a cama do casal.
No entanto, apresentava certa dificuldade no controle da situação e não conseguia proibir o
filho. Assim, a ameaça de castração apresentava-se falha. Ressalta-se que o Pequeno Hans
não era privado dos seus prazeres: ―seus pais, que estavam entre meus mais chegados adeptos,
haviam concordado em não educar seu primeiro filho com mais coibição do que a que fosse
absolutamente necessária para manter as boas maneiras‖. (FREUD, 1909/2000, p. 8, tradução
nossa).
Segundo Freud (1924/2003), o menino, ao observar a região genital da menina,
certifica-se de que existe a ausência de um pênis naquela que ele julgava semelhante a ele
próprio. É após este momento que a castração produz seu efeito. Neste sentido, destaca-se a
reação de Hans ao presenciar darem banho em Hanna. O garoto observa a genitália da irmã e,
ao compará-la com a sua, acha o órgão feminino engraçado. Hans, então, afirma que o ―pipi‖
de Hanna é muito bonito. Para Freud (1909/2000), esta foi a primeira vez que o Pequeno
Hans, ao invés de negar a diferença entre os genitais femininos e masculinos, reconhece-a.
Portanto, para o menino, o pênis estaria presente no corpo masculino e, no caso das
meninas, este fora castrado. Com base nisto, para a criança do sexo masculino, a perda do seu
próprio órgão começa a se tornar possível (FREUD, 1924/2003). André (1998), com base em
Freud, afirma que esta é a condição para que o menino veja o sexo feminino como castrado: é
preciso que ele tenha passado por uma ameaça de castração, tal como aconteceu com o
Pequeno Hans.
Segundo Freud (1924/2003), esta constatação abriria a possibilidade de castração,
pondo fim à satisfação da criança proveniente do complexo de Édipo. Esta possibilidade dá-se
a partir da observação dos genitais femininos, cuja constatação seria de uma falta de um pênis
em alguém semelhante a ele. Isto aparece, no caso, quando Hans observa tanto Hanna quanto
a sua mãe. É assim que surgem os primeiros sinais da descoberta de que elas não teriam esse
atributo, o qual seria supostamente universal. Portanto, é a partir disto que Freud estabelece a
ideia de falo, um pênis enquanto podendo faltar (ANDRÉ, 1998). Trata-se de uma unidade
78
organizadora que estrutura o indivíduo a partir da sexualidade, neste caso, a partir do lugar
que é atribuído ao pênis.
Podemos lembrar que, inicialmente, o Pequeno Hans negou a ausência do pênis na
mãe e na irmãzinha; pois , no entendimento do menino, elas teriam um pênis que cresceria
posteriormente. Somente depois ele constatou a diferença na anatomia da genitália feminina
como um órgão castrado, o que possibilitou pensar na efetividade da sua própria castração,
diante da ameaça proferida por sua mãe. Assim, diante do órgão sexual feminino, identifica
uma diferença, caracterizada pelo tamanho do órgão, o qual é visto como menor, ou pela
ausência dele. No entanto, não o identifica como um sexo feminino, mas sim como castrado.
A partir destas constatações, a perda do seu próprio pênis passa a ser possível
(FREUD, 1924/2003). Além do mais, esta perda seria encarada com uma forma de punição.
No caso do Pequeno Hans, este acontecimento abriu o caminho para a instalação de uma
angústia, por se deparar com a possibilidade de um dia também ficar despossuído deste
membro. As ameaças verbais de castração por parte da sua mãe com o objetivo de proibir a
criança às práticas autoeróticas viriam a intensificar esta angústia e reafirmar a possibilidade
da perda de seu membro (FREUD, 1909/2000).
Assim, diante do impasse entre a necessidade de satisfação pulsional e a possibilidade
da castração, o Pequeno Hans apresenta uma fobia de cavalos. Destaca-se que sua fobia
permitia a Hans uma saída para a angústia de castração e, embora o menino se privasse de sair
para a rua, com medo dos cavalos, o seu sintoma o mantinha perto da sua mãe, sob os
cuidados maternos.
Para Freud (1926/2001), o sintoma de Hans evitava o conflito resultante da
ambivalência de sentimentos do menino, pois, ao mesmo tempo que amava o pai, também
apresentava sentimentos hostis direcionados a ele. Além disto, permitiu ao Eu não mais a
angústia de castração, pois, a angústia pertencente a uma fobia é condicional, assim, ela surge
somente quando o objeto temido é encontrado, o que pode ser evitado. É importante destacar
que o cavalo era um animal facilmente encontrado na época de Hans, pois fazia parte dos
meios de transporte. Assim, Hans impõe uma restrição ao Eu, a fim de protegê-lo.
Segundo Elia (1995), em Freud o sintoma neurótico é uma resposta à impossibilidade
de plena realização do prazer, ou seja, uma reposta à castração. Trata-se de uma solução que
representa um ganho secundário, o qual diminui a sensação de desprazer. Assim, não se trata
79
de um mal do qual o indivíduo quer se livrar, mas de um bem para a experiência de angústia.
Neste sentido, a fobia foi a solução encontrada por Hans diante da angústia de castração.
Assim, se a satisfação do amor no complexo de Édipo custaria seu pênis, a criança se
encontraria em um conflito entre seu interesse narcísico por esta parte de seu corpo e a catexia
libidinal de seus objetos parentais. Diante deste conflito, prevalece a primeira dessas forças: o
Eu infantil voltaria, portanto, as costas ao complexo de Édipo (Freud, 1924/2003).
Salienta-se que, para Freud (1925/2003), só é possível conceber o complexo de
castração a partir da crença da criança de que todos os seres possuiriam um pênis igual ao seu.
Assim, o momento das crenças infantis de que não existiria a diferenciação anatômica entre os
órgãos sexuais masculinos e os femininos seria um acontecimento anterior, ou seja, seria
precondição obrigatória para o complexo de castração. Neste sentido, Freud (1923b/2003), ao
escrever sobre o complexo de castração, afirma que este se compõe de duas representações
psíquicas: a superação da negação, inicialmente observada, da diferença anatômica entre os
sexos e a outra seria uma consequência, a rememoração ou atualização da ameaça de
castração.
Destaca-se que, ao discutir sobre o complexo de Édipo, Freud (1924/2003) declara a
castração como um operador simbólico, ou seja, aquilo que propicia a subjetivação de um
lugar na partilha dos sexos (OLIVEIRA, 2012). Assim, Freud (1925/2003) considera que,
para o menino, o fim do complexo de Édipo dá-se pelo temor de ser castrado, devido às suas
fantasias incestuosas com a sua mãe. Diante da possibilidade de ser castrado, de receber a
punição, o menino deixa o complexo de Édipo, abandonando a catexia objetal, que deve ser
preenchida ou por uma identificação com a sua mãe, ou com a intensificação de sua
identificação com o pai.
Em ―El yo y el ello‖, Freud (1923a/2003) sugere existir um complexo de Édipo mais
completo, sendo positivo e negativo, ou seja, marcado pela bissexualidade encontrada
originalmente na criança. Desta forma, o menino não possui somente uma atitude ambivalente
para o seu pai e assim, possui uma escolha afetuosa para com a sua mãe, mas ao mesmo
tempo também apresenta uma atitude afetuosa para com o seu pai e comporta-se como uma
menina, e, desta forma, os sentimentos hostis são direcionados à mãe. Assim, na dissolução
do complexo de Édipo, as quatro posições agrupar-se-ão e produzirão uma identificação
paterna e uma identificação materna.
80
A identificação paterna manterá a relação de objeto com a mãe, característica do
complexo de Édipo positivo, e substituirá a relação de objeto com o pai, que era presente no
complexo invertido. O mesmo acontecerá quando a identificação for com a mãe – preservará
a relação de objeto com o pai e substituirá a relação de objeto com a mãe. Freud (1923a/2003)
afirma que a intensidade das duas identificações indicará uma ou outra das duas disposições
sexuais.
Deste modo, o resultado desta fase, segundo Freud (1923a/2003), pode ser
considerado o início da formação do Eu, o qual é formado destas duas identificações, de
alguma maneira. A partir disto é que o Eu irá confrontar-se com outros conteúdos seus, tais
como o Ideal do Eu ou supereu. Neste sentido, Freud (1923a/2003) acredita que os pais da
criança, sobretudo o pai, é um empecilho para a satisfação dos desejos edipianos do filho. Isto
faz com que o Eu da criança se fortaleça contra esse obstáculo e, ao mesmo tempo, erga o
mesmo dentro de si, tomando emprestado do pai a sua força.
Em outro texto, Freud (1924/2003) retoma esta questão e reafirma que o supereu,
formado através da introjeção da autoridade do pai no Eu, assume a rigidez do pai e preserva
a proibição do incesto. O autor salienta que quanto mais poder o complexo de Édipo tiver e
mais rapidamente acontecer seu declínio, mais forte será a dominação do supereu sobre o Eu e
isto aconteceria, ou como uma forma de consciência, ou de um sentimento inconsciente de
culpa (FREUD, 1923a/2003).
Assim, o supereu ou Ideal do Eu, sucessor do complexo de Édipo, nasce da
identificação com o pai, e representa os padrões éticos da humanidade e o Eu, representante
do mundo exterior, da realidade. Cabe ao supereu o confrontar como advogado do mundo
interior (FREUD, 1923a/2003).
Ambertin (2009, p. 220) afirma que o pai na obra de Freud ―é um artifício, uma
criação, uma abstração, pois sua função se baseia na instauração da lei que regula o acesso ao
permitido e ao infranqueável do proibido‖. Ceccarelli (1998) em seu texto ―A masculinidade e
seus avatares‖ destaca, ainda, outro fator importante que concerne ao pai, ou àquele que
assume esta função. Segundo o autor, é a partir dos processos identificatórios com o pai que o
filho construirá sua masculinidade. Porém, o autor ressalta que este não é um percurso fácil.
No artigo ―Fetichismo‖ Freud (1927/2001) retoma sua investigação quanto à diferença
sexual e afirma que, diante da anatomia genital feminina, alguns indivíduos reagem de forma
diferente ao que descreveu em 1908, que seria identificar ali um pênis ou ver ali a castração,
81
como acrescentara posteriormente. Segundo o autor, nestes casos, há uma percepção de que as
mulheres possuem um falo; no entanto, tal experiência apresenta-se como desagradável e,
assim, abandonam esta crença. Instaura-se, portanto, um conflito entre o peso da percepção
primeira e a força do seu desejo faz com que há uma rejeição deste fato.
Segundo Freud (1927/2001), o fetiche seria, portanto, uma resposta a este impasse, ou
seja, a atitude dividida quanto à rejeição e a afirmação da castração encontra solução na
construção do fetiche: um substituto para o pênis da mulher, que em algum momento o
menino acreditou existir e que não deseja abandonar. Ou seja, diante de uma recusa em tomar
conhecimento que a mulher não possuiria pênis, o fetiche busca preservar o órgão da
extinção. Assim, o fetiche seria um substituto do falo ausente na mulher e é através dele que
ela pode ser encarada como fálica.
Ressalta-se que neste momento todo este impasse ocorre sem que haja o
reconhecimento do sexo feminino. Neste sentido, o que está em jogo não é a presença do sexo
feminino, mas a castração. Para se acomodar a esta castração, o fetichista encontra um
impasse na divisão castrado/não-castrado (ANDRÉ, 1998).
Freud (1923a/2003) destaca que diante da angústia de castração, o Eu desenvolve
mecanismos de defesa. Para o autor, a criança cujo Eu está a serviço da pulsão é surpreendida
diante de um perigo real. (FREUD, 1940a/2014).
Destaca-se aqui, o Pequeno Hans, que ao deparar-se com a possibilidade de castração,
a qual deveria efetivar-se através da figura do seu pai, ficou dividido entre reconhecer este
perigo e recuar, renunciando à satisfação pulsional; e recusar esta realidade e continuar em
busca da satisfação, convencendo-se de que não há o porquê temer (FREUD, 1909/2000;
1940a/2014). Para Freud (1940a/2014, p. 200), ―trata-se de um conflito entre a exigência da
pulsão e a reclamação da realidade‖.
Freud (1940a/2014) afirma que a criança, no entanto, não faz nenhuma das duas
coisas, aliás, corrige-se o autor, faz as duas de forma simultânea. Assim, ela responde, por um
lado, através de uma recusa da realidade e não aceita qualquer proibição e, por outro lado,
reconhece o perigo da realidade assumindo o medo deste perigo como um sintoma de
sofrimento. Posteriormente, busca livrar-se deste sintoma.
Neste artigo, Freud (1940a/2014) apresenta o que ele chama de ―cisão do Eu‖. Para o
autor, esta solução, por parte da criança, busca a resolução do impasse, através da resposta
para ambas as partes: a pulsão conservará sua satisfação e à realidade é direcionado o seu
82
merecido respeito. No entanto, Freud (1940a/2014) destaca que esta solução só é alcançada
através de uma divisão do Eu, que não mais será curada.
Conforme mencionado, diante da constatação de que as meninas não teriam pênis, o
menino cria um substituto, um fetiche. Desta forma, recusa a realidade, no entanto, salva seu
próprio pênis da castração, pois, não mais precisou temer e seguiu em busca da satisfação.
Assim, transferiu a importância do pênis faltante no corpo da mulher para outra parte do
corpo (FREUD, 1940a/2014).
No entanto, Freud (1940a/2014) ressalta que esta saída não é totalmente bem sucedida,
pois, neste caso, o menino apresenta um sintoma que comprova o reconhecimento deste
perigo. Assim, a lógica é que o menino sofra uma ameaça de castração e, simultaneamente à
criação do fetiche, surge um grande medo de que o pai o castigue. Este medo é, segundo
Freud (1940a/2014), aquilo que silencia o tema da castração.
Em ―Inhibición, síntoma y angustia‖, Freud (1926/2001) destaca que o sintoma do
Pequeno Hans, a sua fobia de cavalos, seria um substituto da angústia de castração. Tratava-se
do medo de um perigo que era real. Assim, ―a maioria das fobias remonta a uma angústia
dessa espécie sentida pelo Eu frente às exigências da libido‖ (FREUD, 1926/2001, p. 104,
tradução nossa).
Assim, o Eu reconhece o perigo de castração e apresenta sinais de angústia, que são
inibidos, e, ao mesmo tempo, forma-se a fobia. Desta forma, a angústia da castração é dirigida
para outro objeto que não mais o pai e assume uma forma distorcida. Sendo assim, o menino
não mais temia a castração pelo pai, mas apresentava um grande medo de ser mordido por
cavalos (FREUD, 1926/2001).
4.3 Sexualidade e diferença sexual
O impasse sobre o que seria um homem e uma mulher caracterizava o momento de
curiosidade sexual do Pequeno Hans. Segundo Freud (1909/2000), o interesse do Pequeno
Hans pelo ―pipi‖ também se apresentava no seu cotidiano, de forma que sua curiosidade
sexual emergia também nas suas relações com os seus pais, com os seus amiguinhos e até no
contato com os animais. Assim, observava com atenção aquilo que lhe era de interesse no
tocante ao assunto, comparava e questionava.
83
Uma das principais indagações que se fazia era quanto ao órgão genital feminino,
observado em sua mãe e em sua irmãzinha, o qual de início relacionava a um órgão masculino
não desenvolvido ou mesmo castrado. Como citado, o questionamento era se sua mãe possuía
um ―pipi‖ e se o ―pipi‖ de Hanna um dia cresceria para ficar igual ao dele (FREUD,
1909/2000). Assim, ao observar Hanna, em um primeiro momento, Hans não se refere à
ausência do pênis no corpo da irmã, mas acredita que o órgão ali está, de tamanho reduzido.
Existe, portanto, a ideia de uma mulher com pênis.
Freud (1908c/2003) declara que
hermafroditas reproduzem de forma fiel a ideia que permeia uma criança, de que é possível
mulher ter pênis ou de que as pessoas podem ter mais de um sexo.
Sobre isto, Freud (1925/2003) em ―Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia
anatómica entre los sexos‖ afirma que a primeira vez que um menino observa o órgão genital
de uma menina, demonstra uma dúvida ou desinteresse. Desta forma, rejeita aquilo que viu,
atenua sua sensação primeira ou tenta colocá-lo de acordo com as suas próprias perspectivas.
Somente após a ameaça de castração é que a observação quanto ao órgão genital no corpo
feminino torna-se, para ele, relevante.
Neste sentido, para Freud (1923b/2003), a criança do sexo masculino inicialmente
percebe algo de diferente na anatomia de homens e mulheres, porém não dá ênfase a isto e,
inicialmente, não faz uma relação com seus próprios órgãos. Para o Pequeno Hans, todos os
seres, sendo seres humanos ou animais, possuíam um órgão, assim como o seu. Isto também
acontecia com relação às coisas inanimadas.
Esta parte do corpo, o ―pipi‖, que é excitável, capaz de promover diversas sensações e
passsível a mudanças, tornou-se, centro de pesquisa para o Hans. Ele buscava vê-la em outras
pessoas, a fim de comparar com a sua. E, além disso, portava-se como se esta parte do seu
corpo pudesse e devesse ser maior (FREUD, 1909/2000, 1923b/2000).
Destaca-se que Freud (1925/2003) reserva o texto ―Algunas consecuencias psíquicas
de la diferencia anatómica entre los sexos‖ para discutir questões relacionadas à diferença do
sexo. Porém, destaca-se que tal discussão também é presente em diversas outras produções ao
longo de sua obra. Segundo o autor, a diferenciação sexual é uma consequência da distinção
anatômica entre os sexos feminino e masculino e da situação psíquica nela envolvida. É
importante ressaltar que a discussão que Freud fazia naquela época continua presente também
nos dias atuais e constitui-se tema de grande importância no tocante à questão da sexualidade
humana (ANSERMET, 2003; CECCARELLI, 1999a, 2008).
84
Segundo Freud (1925/2003), o menino chega à conclusão de que o pênis não é uma
propriedade comum a todos os seus semelhantes, e esta descoberta seria motivada após a
visão acidental dos órgãos genitais de uma irmãzinha ou de uma amiguinha. Porém, a esta
constatação não é dada uma importância maior a não ser de um interesse em observá-las
repetidas vezes, a fim de observar e investigar aquilo que lhe intriga.
Ressalta-se, no entanto, que não se deve concluir que a criança efetue prontamente a
generalização a partir da sua observação de que algumas mulheres não possuem o órgão em
questão. Afirma que o menino é impossibilitado de fazê-la porque, segundo Freud
(1923b/2003) ele supõe que na mulher há a falta do pênis.
Neste sentido, destaca-se a fala de Hans: ―Mas se as meninas não têm um faz-pipi,
como elas fazem pipi?‖ (FREUD, 1909/2000, p. 28, tradução nossa). Segundo Freud
(1923b/2003), a constatação desta falta pode ser encarada como resultante de uma castração
como punição. Punição esta devido à presença de impulsos inaceitáveis semelhantes ao que a
própria criança sente. Assim, anterior à suposição de um órgão feminino, ela crê que estas
pessoas são indignas e por isto tiveram seu órgão castrado. Estas mulheres seriam de sua
convivência, as quais ela teve oportunidade de observar. Porém, o menino acredita que as
mulheres pelas quais ele sente respeito, como a sua mãe, por exemplo, reteriam o pênis por
um período prolongado (FREUD, 1923b/2003).
Assim, para Freud (1923b/2003), a ausência do pênis na mulher remeteria a uma
castração. Desta forma, não se trata da ausência do pênis, mas de sua presença de forma
castrada. Posteriormente, quando o menino resgata seus questionamentos acerca da origem e
do nascimento dos bebês, descobre que somente as mulheres são capazes de dar-lhes a luz.
Isto aparece, no Caso Hans, em seus questionamentos sobre o nascimento de Hanna,
diante da afirmação de que do seu órgão genital não saía sangue. Também se identifica este
aspecto quando ele conversa com o seu pai sobre a cegonha e afirma que , antes de ser trazida
pela cegonha, Hanna estava numa caixa - a caixa da cegonha - que era ―vermelha, pintada de
vermelho‖ (FREUD, 1909/2000, p. 62, tradução nossa).
Em outro momento Hans, ao confessar seu medo de carruagens, afirma que só tem
medo quando estas estão carregadas, acontece não teme quando estas estão vazias. Neste
momento, é interrompido por seu pai que o questiona se ele teria medo de ônibus porque estes
tinham muitas pessoas dentro e depois indaga se a esposa também estava carregada quando
estava grávida de Hanna. Imediatamente Hans afirma: ―‗Mamãe voltará a ficar
85
completamente carregada quando tiver outro, quando outro começar a crescer, quando outro
estiver dentro dela‘‖ (FREUD, 1909/2000, p. 76, tradução nossa). Deste modo, Hans
apresentava indicativo de uma compreensão acerca do aparelho reprodutor feminino, a qual
possivelmente aconteceria em momento posterior.
Pode-se citar, também, a fantasia da girafa grande e da girafa amarrotada. Nela, o
Pequeno Hans leva a girafa amarrotada para longe da girafa grande, que grita. Depois disto,
ele senta em cima da girafa amarrotada. A girafa grande representaria o pai que tivera uma
reação de incômodo com estas cenas e a girafa amarrotada seria a sua mãe, a qual ele quisera
trazer para perto e, por fim, dormir com ela (FREUD, 1909/2000).
O que chama atenção nesta fantasia é a relação entre ―grande‖ com relação ao pai e
―amarrotada‖ com relação à mãe. Salienta-se que esta fantasia ocorrera após seu pai informarlhe que as mulheres não possuem pênis. Pode-se, portanto, considerar esta como uma alusão à
diferença sexual: o pai seria aquele que possuiria um pênis, um órgão facilmente observável e
invejável e a mãe teria o órgão ―amarrotado‖, ou seja, castrado. Esta diferença é confirmada
quando Hans afirma que sua irmã, Hanna, é a girafa amarrotada (FREUD, 1909/2000).
Freud (1925/2003) em ―Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia anatómica
entre los sexos‖, apresentou aspectos essenciais os quais diferenciam a vida sexual das
crianças, a partir da descoberta de cada uma frente às diferenças anatômicas entre homens e
mulheres. Assim sendo, mesmo ao fazer o uso da afirmação ―a anatomia é o destino‖
(FREUD, 1924/2003, p. 185, tradução nossa) em um texto publicado um ano antes, Freud
(1925/2003) ocupa-se em defender que a definição do sexo não depende da anatomia dos
órgãos sexuais, mas de seu posicionamento psíquico frente à diferenciação destes.
Sobre isto, Freud afirma: ―com efeito, a distinção anatômica [entre os sexos] deve
expressar-se em consequências psíquicas‖ (1933a/2001, p. 115, tradução nossa). Desta forma,
ele constrói seus estudos e desvincula sexualidade e genitalidade de uma possível relação
direta entre elas e argumenta que é a partir desta diferenciação que surgem as identificações e
as escolhas objetais (ZANOTTI et al, 2011).
Assim, em seus estudos, Freud (1924/2003) afirma que o sexo tem seu destino a partir
da experiência da criança no complexo de Édipo. Neste sentido, no menino, o complexo de
Édipo é o primeiro a ser vivenciado e identificado e, depois, abandonado devido à ameaça de
castração. Nas meninas, o complexo de Édipo possui formação secundária e é entendido como
86
uma resolução ao seu complexo de castração (FREUD, 1924/2003), conforme apresentado no
capítulo anterior.
Faz-se importante destacar que, muitos anos antes destes estudos, Freud (1905/2003),
em ―Tres ensayos de teoría sexual‖, afirmou que a diferenciação entre homem e mulher
apenas seria possível na puberdade. Neste texto, ele afirma que na infância é possível
reconhecer algumas disposições masculinas e femininas, porém a diferenciação ocorre em
fase posterior. Somente anos depois é que Freud constrói a teoria das consequências psíquicas
e afirma que a diferenciação dos sexos tem o seu início na infância, no complexo de Édipo.
Em sua discussão sobre a diferença dos sexos, com o interesse, sobretudo, na
feminilidade; Freud (1933a/2001) faz alguns comparativos entre os sexos feminino e
masculino, ao tempo em que afirma que na fase fálica as diferenças entre os sexos são
eliminadas por suas semelhanças. Neste sentido, Freud (1933a/2001, p. 109, tradução nossa)
afirma que ―a menininha é um homenzinho‖. Desta forma, assim como os meninos
aprenderam a obter sensações prazerosas a partir do seu órgão genital, as meninas também o
fazem com o clitóris, substituto do pênis.
Evidencia-se que o Pequeno Hans olha para a irmã como se esta possuísse um pênis,
porém bem pequeno, ao perguntar ao seu pai se o ―pipi‖ dela iria crescer. A resposta é
afirmativa, porém com uma ressalva ―mas quando crescer não vai ser como o seu‖ (FREUD,
1909/2000, p. 53, tradução nossa). Hans prontamente contesta e afirma saber disto: ―será
assim (ou seja, como é agora) só que maior‖ (FREUD, 1909/2000, p. 53, tradução nossa).
Freud, (1933a/2001) a fim de sustentar a sua afirmação de que nesta fase as
semelhanças entre os sexos de sobressaem, afirma que o menino aprende a obter sensações
prazerosas do seu pênis e, a partir disto, estabelece uma relação entre a sua excitação e as suas
ideias de relação sexual e supõe que o mesmo acontece com a menina.
Para Freud (1933a/2001), a mesma coisa acontece com a menina, a partir da
masturbação do clitóris, que é equivalente ao pênis no caso do corpo masculino. Além disto,
destaca que a vagina, que é o órgão verdadeiramente feminino, neste momento ainda não foi
descoberta por nenhum dos dois sexos. Neste sentido, Freud (1931/2001) afirma que a vagina
é, durante muitos anos, inexistente e não produz sensações até a puberdade, informação esta
que ele mesmo retifica em seguida, ao afirmar que estudiosos asseguram a existência de
impulsos neste órgão desde a infância.
87
No entanto, Freud (1933a/2001) ressalta que, nesta idade, as principais sensações
genitais ocorrem com relação ao clitóris, fato que é modificado posteriormente com a
descoberta da vagina. Assim, a sensibilidade e a importância devem transpor-se de um órgão
para o outro. Contudo, o autor declara que esta é uma das atribuições do sexo feminino, visto
que, para o homem, o órgão que lhe proporciona uma excitação continuará o mesmo, o qual é
retomado na sua maturidade.
Freud (1933a/2001) destaca ainda uma segunda atribuição do sexo feminino: além de
mudar sua zona erógena, a menina também precisa modificar o seu objeto amoroso, ou seja,
passar de sua mãe, seu primeiro objeto de amor, para o seu pai. Isto caracterizaria uma
passagem da menina da fase masculina para a fase feminina. A diferença com relação ao sexo
masculino é que o menino mantém ambos: a zona erógena e o objeto (FREUD, 1933a/2001).
No texto ―Introducción del narcisismo‖, publicado dezenove anos antes da publicação
acima citada, Freud (1914/2003) afirma que o amor objetal completo o qual ele chama de
―amor de ligação‖ seria característico do sexo masculino. Assim, ao menino caberia uma
―supervalorização sexual‖, oriundo do narcisismo da criança, pelo qual há a busca de objeto
amoroso. Isto ocorreria a partir de um enfraquecimento do Eu em relação à libido. Em
contrapartida, com o sexo feminino isto não ocorreria. O amadurecimento dos seus órgãos
sexuais provocaria uma intensificação do seu narcisismo original, o que prejudicaria uma
escolha objetal e, consequentemente, uma supervalorização sexual. Desta forma, as mulheres
desenvolveriam um autocontentamento, de forma que estas amariam apenas a si mesmas.
Assim, ―sua necessidade não é saciada amando, somente sendo amadas‖ (p. 86, tradução
nossa). A partir disto o autor afirma que estas mulheres chegariam a um amor objetal
completo na maternidade, através da criança que gerariam em seu próprio corpo.
Ao retornar para seus estudos sobre as diferenças entre os sexos, através da discussão
sobre a sexualidade feminina, Freud (1931/2001) afirma que a vida sexual da menina é
dividida em duas fases, em detrimento da vida sexual masculina que possuiria apenas uma
fase. Neste sentido, a primeira fase possui caráter essencialmente masculino, enquanto a
segunda seria, por essência, feminina. Assim, para chegar à feminilidade, a menina deveria
fazer uma transição de uma fase para a outra. Enquanto que o menino garantiria a
masculinidade sem, necessariamente, passar por um processo de transição de uma fase para
outra. Freud (1931/2001) salienta que mesmo com a mudança da zona erógena na mulher, do
clitóris para a vagina, a primeira continua a proporcionar-lhe excitações em sua vida sexual
subsequente.
88
Ceccarelli (1999a) ressalta que a diferença dos sexos não é a mesma coisa que
distinção dos gêneros. Para o autor, trata-se de duas modalidades identificatórias, as quais
geram questionamentos que, muitas vezes, são tratados de forma igual, mas deveriam ser
entendidos como questões separadas. São eles: ―sou menino ou sou menina?‖ no caso da
diferença dos sexos e ―eu sou feminina‖ ou ―eu sou masculino‖ para referir-se ao gênero. Para
o autor, a distinção dos gêneros inicia-se na infância e depende da situação edipiana. Trata-se
de uma construção complexa e sutil que somente é completada na puberdade. Já a diferença
dos sexos tem como base a distinção entre pênis e vagina.
Com base nisto, Ceccarelli (1999a), ao investigar as contribuições de Freud, afirma
que, na situação edipiana, a criança não faz correspondência entre o sexo e o gênero. A
criança faz a distinção do que é pai e mãe e se posiciona de um lado ou de outro. Esta
distinção não estaria diretamente relacionada com a distinção da anatomia dos órgãos genitais.
Ceccarelli (1999a) faz uma ressalva quanto ao termo ―diferença‖, usado na tradução
em português do texto de Freud ―A organização genital infantil‖, versão original publicada no
ano de 1923. Segundo Ceccarelli (1999a), no texto freudiano não se trata de ―diferença‖, mas
de ―diversidade‖. O seu entendimento sustentou-se no fato de que, na tradução da obra para o
português, a qual foi publicada no ano de 1976 na Edição Standart Brasileira pela editora
Imago, as palavras ―unterschied” (no português, diferença) e ―verschiedenheit” (diversidade)
são traduzidas de forma indistinta como diferença (CECCARELLI, 1999a).
Na edição em espanhol, a qual é traduzida direto do alemão e publicada pela editora
Amorrotu, no texto ―Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia anatómica entre los
sexos‖, embora tenha no seu título o termo ―diferencia anatómica‖, ao longo dele o termo
usado é ―diversidade anatômica‖. Segue trecho: ―La diferencia entre varón y mujer en cuanto
a esta pieza del desarrollo sexual es una comprensible consecuencia de la diversidad
anatómica de los genitales y de la situación psíquica enlazada con ella‖ (FREUD, 1925/2003,
p. 275). Assim, o termo utilizado é ―diversidad‖, traduzido em português como
―diversidade, variedade, diferença‖ (MICHAELIS, 2009), informação que vai ao encontro do
que Ceccarelli (1999a) defendeu. Assim, a diferença sexual é consequência da ―diversidade‖
anatômica entre os sexos e da situação psíquica ligada a ela.
É importante destacar que isto é revisto na versão em português publicada pela editora
Companhia das Letras, no ano de 2009. Assim, enquanto que na versão publicada no ano de
1996, uma atualização da versão de 1976, usa-se ―distinção anatômica entre os sexos‖
89
(FREUD, 1925/1996, p. 289), na versão publicada no ano de 2009 trata-se de ―diversidade
anatômica dos genitais‖ (FREUD, 1925/2009, p. 266).
Segundo Gorali (2007), no livro Intersexo: una clínica de la ambigüiedad sexual, a
psicanálise descola-se da noção de identidade, com a qual se relaciona o termo ―diversidade‖,
e defende que o sujeito é regido pela identificação. Estas identificações, segundo a autora, não
são fixas, alteram-se, substituem-se. Neste sentido, a diferença em Freud, segundo a autora,
principalmente a pequena diferença, ―é vencida frente ao narcisismo, o qual eleva a própria
imagem à categoria de objeto‖ (GORALI, 2007, p. 20, tradução nossa). Desta forma, Gorali
(2007), de encontro a Ceccarelli (1999a), acredita o termo que melhor condiz com a discussão
proposta é ―diferença‖.
Ainda em ―Diferenças sexuais...? Quantas existem?‖, Ceccarelli (1999a) afirma que
existe uma dificuldade, por parte da criança, quanto à distinção das diferenças sexuais. O
autor explica, com base em Freud, que não haveria o porquê dela basear a distinção dos sexos
no sistema binário da diferença sexual:
para a criança, todos os caracteres sexuais – primários, secundários, sociais - entram
nesta distinção e a ausência de um não implica a presença de outro. Ademais, nesta
fase nada impede a criança de imaginar a existência de um terceiro ou quarto sexo, o
que seria coerente com as fases pré-genitais (CECCARELLI, 1999a, p. 156).
Em outro texto, intitulado ―Onde se situa a diferença?‖ Ceccarelli (2008) discute em
que consiste a diferença sexual e questiona se existe ―lugar‖ onde essa diferença é
estabelecida. Segundo o autor, existem diversas teorias as quais discutem o assunto. Para ele,
nestas discussões existem diferenciados posicionamentos, sobretudo quando se considera que
o sexo anatômico tem um papel determinante na construção da identidade sexual. Assim, as
discussões perpassariam ou pela ideia de que as características anatomo-biológicas seriam
uma ―base‖ para que o sujeito se sinta homem ou mulher, ou se posicionariam de forma
contrária ao acreditar que a anatomia não é determinante neste sentido.
Barros (2011), com base em Freud, em ―Algumas consequências psíquicas da não
diferenciação anatômica entre os sexos‖ afirma que para que um indivíduo se considere
homem ou como mulher é preciso considerar sinais que não se restringem aos sinais
anatômicos. No entanto, a autora afirma que a nossa cultura, apesar das mudanças nas
concepções sobre o tema, é sustentada na partilha binária dos sexos. Assim, não basta ser
homem ou mulher, tem que parecer.
90
Barros (2011) destaca o pensamento da geneticista Anne Fausto-Sterling, a qual
defende que a divisão dos seres humanos em dois sexos não foi realizada de forma natural,
sendo motivada de alguma forma pelos próprios homens. Segundo Fausto-Sterling (2006),
existem cariótipos diversos, os quais ultrapassam a lógica concebida nos dias atuais, ou seja,
uma lógica binária e que são mais presentes no organismo humano do que se possa imaginar,
pois as aparências anatômicas ao indicar um lado ―homem‖ ou um lado ―mulher‖ podem ou
não indicar a presença destes cariótipos diversos.
Zaltzman (1999, p. 94), ao discutir as diferenças sexuais em ―Do sexo oposto‖, afirma
que ―no inconsciente, a diferença dos sexos não tem status quo decisivo; e o modelo
freudiano é mais fiel a uma estrutura inconsciente do que a uma equação estável e fixa‖. Além
disto, a determinação sexual, segundo a autora, não pode acontecer sem a presença de um
outro, seja ele do mesmo sexo ou não. Aqui se destaca a importância complexos de Édipo e
de castração na diferenciação do sexo.
Ceccarelli em ―Psicanálise, sexo e gênero: algumas reflexões‖ destaca o exemplo das
pessoas transexuais e afirma: ―nesta organização pulsional evidencia-se a importância do fato
psíquico e do discurso sobre o corpo, em detrimento de determinações naturais na construção
do sentimento de identidade sexual‖ (2010, p. 277). Segundo o autor, que o que está em jogo
não é uma determinação biológica, mas a escolha subjetiva do sexo. Além disto, não se trata
de uma questão específica de pessoas transexuais; todo ser humano nasce macho ou fêmea do
ponto de vista do biológico e, do ponto de vista da subjetividade, terá que tornar-se homem ou
mulher, o que não é algo evidente (CECCARELLI, 2010).
Podemos aqui lembrar o que foi abordado nos capítulos anteriores, que a diferenciação
do sexo é uma consequência da distinção anatômica entre os sexos e da situação psíquica que
envolve este processo (FREUD, 1925/2003). Nesta direção, Paula e Vieira (2015) afirmam
que Freud, ao estudar a sexualidade e a diferenciação sexual, ultrapassa a discussão dualista
de que a sexualidade ou seria inata ou seria adquirida, e afirma que a sexualidade não é inata e
nem adquirida e que o ser humano submete-se não ao instintual, mas ao pulsional.
Neste sentido, nascer macho ou fêmea não coincide com ser homem ou mulher. Os
seres humanos nascem machos ou fêmeas e, posteriormente, transformam-se em homens ou
mulheres (PAULA; VIEIRA, 2015). Trata-se, portanto, de ―uma construção singular,
particular, e que, por isso mesmo, não pode ser aprendida, mas construída‖ (PAULA;
VIEIRA, 2015, p. 74).
91
Com base no que foi discutido no presente trabalho, destaca-se que, na teoria de
Freud, a diferença sexual inscreve-se, não numa divisão entre dois sexos; mas em torno do
falo, enquanto possibilidade de perdê-lo ou de tê-lo. Assim, não se trata de uma diferenciação
anatômica ou cromossômica, mas de uma posição subjetiva frente aos complexos de Édipo e
de castração.
92
5 CONCLUSÃO
O interesse pelo tema desta dissertação é resultante de questionamentos acerca dos
efeitos do nascimento de crianças com Distúrbios da Diferenciação do Sexo (DDS), condição
genética que muitas vezes dificulta a primeira definição do sexo: se menino ou menina. Esta
pesquisa demonstrou que a diferenciação do sexo, do ponto de vista anatômico, é estabelecida
a partir da distinção dos órgãos genitais e, do ponto de vista genético, com base no exame do
cariótipo. Com base nisto, os capítulos do presente estudo foram elaborados com o objetivo
de analisar como se institui a diferença sexual a partir da psicanálise freudiana.
Segundo a teoria freudiana, a criança que está às voltas com a questão da diferença
sexual, não se baseia em um sistema binário do sexo. Freud demonstra que nas crianças todos
os caracteres sexuais são considerados nesta distinção. Assim, é possível ela imaginar a
existência de outros sexos, que não somente o sexo feminino e o sexo masculino.
Além disto, Freud evidencia em sua teoria da sexualidade que outras partes do corpo,
tais como a boca ou o ânus, podem ser considerados órgãos sexuais e não somente os genitais.
A ausência de um não implica a presença do outro e, neste sentido, a criança pode imaginar a
existência de um terceiro ou quarto sexo, condizente com o que as fases pré-genitais
freudianas.
Além disso, Freud (1905/2003) evidencia que todos os seres humanos apresentam
certo grau de hermafroditismo anatômico, que vai se diluir ao longo do tempo, na medida em
que apenas um sexo passa a sobressair. Destaca-se aqui a semelhança com aquilo que os
estudos na área médica apontam acerca do processo de diferenciação sexual: até seis semanas
em média após a fertilização, o embrião possui potencial bissexual, com características de
ambos os sexos e ainda não é possível fazer a distinção do sexo neste momento. Na mesma
direção, evidencia-se que a bissexualidade é um fator comum a todos.
A partir do caso ―O Pequeno Hans‖, a diferença sexual foi investigada numa criança
de quatro anos. O menino, que se via às voltas com esta questão, tomava seu próprio corpo
como referência e, assim, buscava um pênis em um corpo feminino. Desta forma, sua
investigação baseava-se numa dupla de contrários que era da presença/ausência do pênis. Para
Hans, todo ser humano possuía um pênis, ou desenvolvido ou a desenvolver-se.
Neste sentido, a investigação do Pequeno Hans era orientada pelas questões ―o que é
ser menino?‖ e ―o que é ser menina?‖. Da mesma forma, Hans questionava-se sobre o que é
93
ser pai. Qual seria a implicação do seu pai na sua concepção, já que ele nasceu do corpo da
sua mãe? No entanto, ele conseguia fazer associações com feminino e com o masculino, a
partir de referências maternas e paternas.
Destaca-se que, no caso Hans, inicialmente aquilo que entra em jogo acerca da
diferença sexual não é diferente do evidenciado no processo de diferenciação sexual de um
bebê, por exemplo. Como vimos, em uma ultrassonografia busca-se identificar a presença de
sinais do órgão sexual masculino. É, também, em busca de informações cromossômicas
masculinas, ou seja, da presença ou ausência de sinais do cromossomo Y, que se fundamenta
o exame de sexagem fetal.
No entanto, ressalta-se que a diversidade de órgãos sexuais, identificada através das
variadas zonas erógenas no caso ―O Pequeno Hans‖, demonstra que a questão da diferença
sexual não está na dualidade caracterizada entre ter um pênis ou uma vagina. O que está em
jogo para Freud é ter ou não ter o falo, ou seja, o órgão enquanto possibilidade de falta. Neste
sentido, por se tratar do falo, e não do pênis, ambos, meninos e meninas, não estão livres do
complexo de castração.
Assim, evidenciou-se que a diferença sexual, sob o ponto de vista da teoria freudiana,
não se restringe à anatomia genital e, sendo assim, não basta que o sexo seja definido para que
este seja escolhido pelo indivíduo. Ou seja, para Freud, a diferença apresentada pela anatomia
da genitália não significa uma divisão entre dois sexos e, sendo assim, a anatomia é
insuficiente para dar conta da diferença sexual.
Neste sentido, ser homem ou ser mulher na teoria freudiana não pode ser considerado
um processo natural. O autor demonstrou que não há um padrão na forma como cada um
relaciona-se com a castração e, sendo assim, com relação ao sexo, há uma dissimetria entre
homens e mulheres. Desta forma, a teoria psicanalítica de Freud, bem como o caso clínico
aqui analisado, o Pequeno Hans, apontam a importância da diferença sexual para todo e
qualquer indivíduo.
Freud inaugura, portanto, uma concepção de diferença sexual atrelada a processos
subjetivos complexos e não à definição anátomo-fisiológica. Ele demonstra em seus textos
que, se a sexualidade fosse estritamente biológica, não haveria uma multiplicidade de
possibilidades relacionadas a ela. Destaca-se aqui, os casos de Distúrbios da Diferenciação do
Sexo, ponto de partida da nossa investigação. Tal como Freud (1905/2003) destacou ainda
nos “Três Ensaios‖, esta pesquisa parte de estudos acerca do que é considerado ―aberrante‖, a
94
fim de investigar aquilo que ocorre para todo indivíduo. Ou ainda: segue a concepção
freudiana de que o patológico é o próprio ―normal‖.
Os casos de DDS, sobretudo aqueles com ambiguidade genital, tocam o sexo
morfológico, assim não há o apoio anatômico, bem no ponto onde se instaura uma diferença.
No entanto, pessoas com DDS deparam-se com a mesma predisposição bissexual que aquelas
que não são diagnosticados com esta condição genética. Assim, mesmo que se defina o sexo
através das investigações e dos examesé necessária uma operação simbólica, que se apresenta
para todos. Neste sentido, a diferença sexual se apresenta, portanto, como enigma para todos e
institui-se em torno da relação da criança com os primeiros objetos de amor.
Ressalta-se que a concepção freudiana é, portanto, incompatível com estudos
apresentados no início desta dissertação, os quais destacam a importância do diagnóstico e do
tratamento precoce em casos de DDS, com o intuito de evitar danos e sequelas psicológicas.
Se a diferença sexual não é definida com base no organismo, não há a garantia de prevenção
ou reparação de possíveis danos.
A partir do que foi apresentado ao longo desta pesquisa, surgiu um questionamento, o
qual ultrapassa os objetivos da presente investigação. Tal questionamento se relaciona à
inscrição da diferença sexual nas novas configurações familiares. Como se inscreve a
diferença sexual em casos de famílias monoparentais ou de famílias constituídas por casais
homossexuais? A falta de um dos genitores, ou a presença de duas pessoas do mesmo sexo
provocaria repercussões subjetivas particulares neste processo de escolha do sexo e,
consequentemente, na organização psíquica? Haveria algum tipo de diferença no investimento
dos pais no caso de uma gravidez tradicional e em casos de gravidez fruto de uma fertilização
in vitro?
Tais questionamentos sugerem a realização de futuras pesquisas acerca das
neosexualidades e das novas configurações de família. No entanto, é importante destacar que
a teoria de Freud é construída em torno de uma crítica à normatividade. Foi neste sentido que,
ainda no inicio de seus estudos, o autor estabeleceu uma discussão sobre o ―normal‖ e o
―aberrante‖. Freud conseguia sempre retornar a sua própria teoria a partir do que a clínica e as
mudanças sociais apresentavam-lhe.
No entanto, destacam-se os limites desta pesquisa, ao tempo em que se sugere a
continuidade da mesma, a partir das contribuições de Jacques Lacan acerca da teoria da
sexuação.
95
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