Vanderli Melo da Silva - A constituição dos processos de urbanização como objeto da Psicologia no Brasil
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA
VANDERLI MELO DA SILVA
A CONSTITUIÇÃO DOS PROCESSOS DE URBANIZAÇÃO COMO OBJETO DA
PSICOLOGIA NO BRASIL
Maceió-AL
2016
VANDERLI MELO DA SILVA
A CONSTITUIÇÃO DOS PROCESSOS DE URBANIZAÇÃO COMO OBJETO DA
PSICOLOGIA NO BRASIL
Dissertação para o Curso de Mestrado em
Psicologia do Programa de Pós-Graduação
em Psicologia da Universidade Federal de
Alagoas.
Orientadora:
Hüning.
Maceió-AL
2016
Profa.
Dra.
Simone
Maria
2
A Deus, que me permitiu chegar até aqui.
AGRADECIMENTOS
À Verene, minha mãe, por ser meu porto seguro, pelo seu amor e cuidado tão
valorosos e incondicionais em todos os momentos da minha existência.
À minha avó amada, Josefa, que alegra os meus dias com sua doçura e seu amor
tão bonitos.
Ao meu pai, Mariano, que, de onde estiver, sei que cuida e olha por mim.
Ao querido Jorge, que tem sido um companheiro de jornada tão importante, me
ensinando a olhar o mundo com delicadeza e curiosidade.
À minha orientadora, Simone Hüning, pelo esforço, atenção e incentivo
fundamentais na produção desta pesquisa.
À Neuza Guareschi e Marcos Azambuja pelas avaliações e contribuições ao
trabalho.
À CAPES que me concedeu bolsa de estudo durante um período importante do
tempo de pesquisa.
Aos professores que me marcaram de alguma forma, contribuindo com seus
conhecimentos ao longo deste mestrado: Lisandra Moreira, Marcos Mesquita,
Frederico Alves, Nadja Vieira, Henrique Simões e Heliane Leitão.
Aos colegas do grupo de pesquisa, que me propiciaram reflexões fundamentais para
a produção deste trabalho.
Aos meus colegas de turma, que compartilharam comigo as angústias, aflições e
alegrias de ter um curso de mestrado ocorrendo ao mesmo tempo em que acontece
a vida.
Às amigas que o mestrado me trouxe e que estiveram de um modo muito especial
em momentos importantes deste percurso: Aline Kelly, Ana Luiza, Valéria Vanessa e
Simone Lopes.
Aos amigos que a psicologia me presenteou e que já há muito tempo seguem
comigo nas horas mais significativas, trazendo alegria pra celebrar e força pra
prosseguir: Adeilson Vital, Thais Tavares, Lidiane Freitas, Patricia Lívia, Alysson
Cavalcante.
RESUMO
Os processos de urbanização no Brasil são historicamente atravessados por
práticas excludentes e segregacionistas que põem em evidência a violação dos
direitos à cidadania e à liberdade da maior parte da população. A maneira como
esses processos sociais são pensados, praticados, construídos, modificados
historicamente e dispostos é permeada pela produção de processos de subjetivação
que, por vezes, naturalizam práticas de segregação e determinados discursos
excludentes, sendo uma questão importante a ser problematizada pela psicologia
enquanto um campo do conhecimento que trabalha os processos subjetivos. O
objetivo geral desta pesquisa é conhecer e analisar de que maneira os processos de
urbanização passam a constituir alvo de interesse nos estudos da psicologia no
Brasil. Definimos como objetivos específicos: analisar quais são as problematizações
feitas em relação aos processos de urbanização na produção de conhecimento em
psicologia; identificar quais referenciais teóricos e métodos estes artigos tomam pra
discutir os processos de urbanização; discutir as transformações e contribuições do
conhecimento produzido pela psicologia em relação à abordagem dos processos de
urbanização. Para tanto, tomamos a revisão de literatura e a análise histórica como
uma ferramenta para apreender a produção da psicologia sobre os processos de
urbanização e a psicologia histórica de Nikolas Rose para subsidiar a análise desta
produção. Concluímos que os processos de urbanização na psicologia foram
gradativamente tomando mais espaço, ganhando amplitude e periodicidade, assim
como as formas pelas quais se tratou e estudou esse tema. Analisamos que, mesmo
coexistindo diversas práticas em todo o percurso histórico de tomada desse objeto,
foi-se constituindo na psicologia um afastamento de questões teóricas e
metodológicas pautadas em olhares individualizantes sobre o urbano em detrimento
de problematizações que privilegiam os processos de urbanização como uma
construção social.
Palavras-chave: Processos de urbanização. Psicologia. Psicologia Histórica.
ABSTRACT
Urbanization processes in Brazil are historically crossed by exclusionary and
segregationist practices that highlight the violation of the rights of citizenship and
freedom of the majority of the population. How these social processes are thought,
practiced, constructed, historically modified and arranged is permeated by the
production of subjectivity processes that at times naturalize segregation practices
and certain exclusionary discourses, an important issue to be problematized in
psychology as a field of knowledge which studies the subjective processes. The
objective of this research is to know and analyze how urbanization processes now
constitute the subject of interest in psychology studies in Brazil. Thus, we seek as
specific objectives: to analyze what are the problematizations made in relation to
urbanization processes in the production of knowledge in psychology; identify which
theoretical frameworks and methods these articles take to discuss the urbanization
processes; discuss the changes and contributions of knowledge produced by
psychology in relation to the approach of urbanization processes. For this, we take
the literature review and historical analysis as a tool to grasp the psychology
literature on urbanization processes and the historical psychology of Nikolas Rose to
support the analysis of this production. We conclude that the urbanization processes
in psychology were gradually taking more space, gaining amplitude and frequency,
as well as the ways in which was treated and studied the subject. We analyzed that
even coexisting several practices throughout the historical course of making this
object, it was constituing in psychology a distance from theoretical and
methodological issues guided in individualizing views on urban rather than
problematizations that privilege the processes of urbanization as a social
construction.
Keywords: Urbanization processes. Psychology. Historical Psychology.
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 – Descritores utilizados na busca periódicos científicos brasileiros:
Arquivos Brasileiros de Psicologia, Psico e Psicologia e Sociedade ... .21
Quadro 2 – Apresenta o ano, volume e o número das revistas que não foram
acessadas ............................................................................................. 23
Quadro 3 – Traz o resultado das estratégias de busca realizadas nas bases de
dados selecionadas, segundo os critérios de inclusão e exclusão ........24
Quadro 4 – Apresenta, em ordem cronológica de publicação, os artigos a serem
analisados: volume, número, ano, autor e seus principais objetivos e
instrumentos ...........................................................................................27
SUMÁRIO
1
INTRODUÇÃO................................................................................................. 8
2
ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DO ESTUDO........................... 14
2.1
Análise histórica .......................................................................................... 17
2.2
Produzindo dados ........................................................................................ 18
2.3
Revisando e selecionando .......................................................................... 22
2.4
Apresentando os materiais ........................................................................ .25
3
CONSTITUIÇÃO HISTÓRICA DE UM NOVO OBJETO .............................. 33
3.1
Percursos da psicologia na problematização do urbano ........................ 33
3.2
Urbano: espaço de controle, adaptação e sentimentos do indivíduo .... 36
3.3
A constituição do urbano como um espaço de produção subjetiva e
construção social ........................................................................................ 39
3.4
Relações dicotômicas na produção do urbano ........................................ 46
4
ESTRATÉGIAS DE PRODUÇÃO DE SABER SOBRE O URBANO ........... 50
5
TRANSFORMAÇÕES E CONTRIBUIÇÕES ................................................ 65
6
CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................... 79
REFERÊNCIAS ............................................................................................. 85
8
1 INTRODUÇÃO
Esta pesquisa se propõe a análise das produções científicas da psicologia no
Brasil que têm como temática a interface da psicologia com os processos de
urbanização. Para isso, trabalhamos com os periódicos brasileiros Arquivos
Brasileiros de Psicologia, Psico e Psicologia e Sociedade. Os conceitos aqui
trabalhados
foram
tratados
na
perspectiva
da
psicologia
social,
a
qual
compreendemos, em concordância com Silva (2004), como um campo de saber no
qual o social, que é seu objeto, não pode ser tomado como natural. Nessa
concepção o social é perpassado por uma multiplicidade de construções humanas
que se transformam constantemente a partir de constituições históricas.
Realizamos uma revisão de literatura em articulação com autores que
discutem e problematizam esse campo embasados pela concepção de social
apresentada para refletir sobre uma temática ainda muito incipiente na produção da
psicologia brasileira: a discussão dos processos de urbanização como objeto da
psicologia.
Vale ressaltar que, entendendo que este trabalho se constrói em meio a uma
diversidade de outros saberes, não pretendemos dar conta de um conhecimento
geral ou mais legítimo, mas de uma produção local e parcial diante da multiplicidade
de outras formas de conceber nosso objeto de estudo (SANTOS, 1999). Assim, o
conhecimento produzido neste trabalho se faz como mais uma perspectiva de saber
dentre outras possíveis ou disponíveis, portanto se pauta no ―reconhecimento da
existência de uma pluralidade de formas de conhecimento‖ (SANTOS e MENESES,
2010, p. 54).
Desse modo, recusamos qualquer perspectiva de verdade que seja tomada
como algo único, legítimo, imutável, pois concordamos com Santos (2012) quando
traz que ―é a verdade, ela própria, um acontecer, mais do que um acontecimento‖ (p.
54). Com isso, não nos incubimos da precocupação de desvelar ou aferir um
conhecimento mais verdadeiro ou mais universal, uma vez que não tratamos, nesta
pesquisa, os saberes como estáticos, naturais ou neutros. Partimos de uma
concepção de saber processual, produzido constantemente, a partir de contextos
específicos (SANTOS, 2012). Assim, o conhecimento científico neste trabalho se
constitui como uma dentre outras ―práticas de conhecimento que possibilitam ou
impedem certas intervenções no mundo real‖. (SANTOS e MENESES, 2010, p. 50).
9
Afirmamos também a relevância do tipo de conhecimento que produzimos em
psicologia por suas implicações éticas e políticas e sua importância na
transformação da realidade (ROSE, 2008). Por isso, partimos de uma produção que
busca contribuir com novos olhares para as construções históricas tomadas como
evidentes, produzindo rupturas nesse campo de saber. Aproximamo-nos da temática
dos processos de urbanização com o intuito de que esse conhecimento produzido
possa repercutir na construção de políticas públicas que atentem para os processos
de subjetivação na proposição de projetos de urbanização.
De acordo com Santos (1993) os processos de urbanização no Brasil
iniciaram-se no século 18 e tiveram avanço a partir do processo de expansão do
capitalismo e a industrialização do país. Com isso, os grandes centros urbanos
começaram a se tornar polos criadores de pobreza, para onde se atrai e se mantem
grande parte da população pobre sob condições de existência degradantes. Essas
condições dizem respeito a um modelo socioeconômico e espacial de cidade que se
desenvolve em associação com a pobreza, incidindo na construção de periferias
onde a população vive em situações miseráveis (SANTOS, 1993). Coimbra (2001)
traz que uma das primeiras cidades brasileiras urbanizadas foi o Rio de Janeiro, que
importou o modelo parisiense de urbanização pelo qual se implantaram formas
segregacionistas do espaço público, pautadas numa visão higienista de sociedade . A
autora afirma que a partir desse modelo, entendia-se que todos aqueles
considerados vagabundos, mendigos, operários, assalariados e toda a população
pobre da cidade, adoecia o ambiente e trazia ameaças aos ricos. Assim, em nome
do desenvolvimento, essas pessoas são expulsas das áreas centrais da cidade e
vão formar os chamados ―territórios dos pobres‖ (COIMBRA, 2001, p. 96), as
grandes periferias das grandes cidades, onde passaram a viver em condições
miseráveis, com recursos precários de moradia, saúde, saneamento básico ou
transporte (COIMBRA, 2001). Se constituindo de forma insalubre, são nesses
espaços onde os discursos hegemônicos sobre violência e criminalidade ecoam e
geram relações cada vez mais marcadas pela exclusão, marginalização e
segregação. (COIMBRA, 2001).
A criação dos territórios urbanos no país negligencia os princípios de
cidadania e liberdade que assinalam os pressupostos de uma sociedade
democrática (SANTOS, 1993). Dessa forma, esses processos urbanos, pautados em
10
uma noção moderna de urbanização, se produzem a partir de uma lógica de
funcionamento baseada em práticas excludentes que tentam conciliar pobreza e
desenvolvimento de mercado (CALDEIRA, 1997). Essas transformações modificam
as relações de uso e compartilhamento dos espaços públicos e evidenciam os
processos de urbanização que compõem o sofrimento e as problemáticas que
permeiam os discursos sociais.
Esse tema interessa à psicologia social à medida que a maneira como esses
processos
sociais
são
pensados,
praticados,
construídos,
modificados
historicamente e dispostos é permeada pela produção de processos de subjetivação
que, por vezes, naturalizam práticas de segregação e determinados discursos
excludentes sobre urbanização de risco, segurança, violência, etc.
Além do mais, a própria psicologia, nas suas mais variadas correntes teóricas,
metodológicas e práticas goza do status de ciência e espaço de saber construindo
discursos que se produzem como autorizados e legítimos, se inserindo em
estratégias de governamentalidade que, muitas vezes, se arrogam de um saber para
produzir relações de poder e processos de subjetivação marginalizadores que vão
se construindo e naturalizando ao longo da história (COIMBRA, 2001).
Diante disso, a relevância desse estudo está em compreender como,
historicamente, a psicologia se apropriou e produziu esses temas que envolvem
processos de urbanização. A partir disso, procuraremos questionar: como a
psicologia se aproxima e constitui a temática dos processos de urbanização? Como
são produzidos os discursos sobre os processos de urbanização nesse campo de
conhecimento?
Propomos uma reflexão sobre os efeitos dessa articulação entre processos de
urbanização e psicologia. Faremos uma discussão crítica das publicações que têm
sido veiculadas no campo de saber da psicologia. Várias disciplinas, como Ciências
Sociais, Arquitetura, Urbanismo e Geografia Humana e Política procuram oferecer
um olhar para essas produções dos espaços urbanos (HÜNING, 2015), mas poucas
voltam-se à problematização da produção da psicologia sobre os processos de
urbanização.
Nosso intuito, como pesquisadores desta ciência humana e social é fazer uma
revisão de literatura, seguida de uma análise histórica a respeito do que a psicologia
produziu sobre os processos de urbanização. Construiremos essa análise como
11
[...] uma maneira de utilizar investigações do passado para permitir
pensar de forma diferente sobre o presente, para interrogar aquilo
que em nossa experiência contemporânea tomamos como certeza,
através de um exame das condições em que nossas formas atuais
de verdade tem sido possíveis.1 (ROSE, 1991, tradução nossa).
Entendemos que a produção da psicologia é um importante campo de
constituição de saberes e de verdades, assim, analisamos as condições que
possibilitaram esses conhecimentos a fim de pensar as verdades e concepções
sobre esses processos de urbanização na psicologia.
A forma pela qual a história da psicologia vem sendo construída,
tradicionalmente perpassa uma ordem linear, cronológica e naturalizada, geralmente
narrada a partir de uma perspectiva evolucionista que parte de um paradigma
considerado menos evoluído e um mais avançado (GUARESCHI et al., 2013).
Rompendo com uma perspectiva histórica clássica (GUARESCHI, et al., 2013)
defende-se aqui uma maneira diferente de pensar os processos históricos que
demarcam as articulações entre psicologia e processos de urbanização, colocando
em questão o modo pelo qual os processos de urbanização passam a constituir
problema e objeto nos estudos da psicologia no Brasil. Entendemos que a relação
entre psicologia e os processos de urbanização está em constante transformação,
de forma que não pretendemos naturalizar esse encontro, mas discutir a história da
produção dos processos de urbanização como objeto de conhecimento da
psicologia.
Seguindo Rose (1991), que propõe uma história crítica da psicologia,
entendemos que nosso propósito é esmiuçar as relações carregadas de
ambiguidades entre a ética, a produção do conhecimento e as formas de poder.
Desse modo, a partir de Guareschi et al. (2013), recusamos a perspectiva histórica
tradicional de narrativas da construção dos saberes e tomamos como perspectiva
―demarcar os acidentes, inversões e desvios que evidenciam, não a unidade de uma
história de um campo de saber, mas as suas fragmentações e heterogeneidades‖
(p.150). Assim, com a nossa proposta, objetivamos apontar a multiplicidade de
discursos teóricos no campo da psicologia e problematizar a produção de saber
nesse campo e seus efeitos de verdade sobre os territórios urbanos.
1
[…] a way of utilising investigations of the past to enable one to think differently about the present, to
interrogate that in our contemporary experience which we take for granted, through an examination of
the conditions under which our current forms of truth have been made possible.
12
Sendo esse um campo de interesse da psicologia enquanto ciência política e
social, questionamos as aproximações e interseções da psicologia com as temáticas
referentes aos processos de urbanização e de que maneira a psicologia tem
compreendido e veiculado esses discursos.
A fim de viabilizar esse estudo propomos um objetivo geral e três objetivos
específicos, apresentados a seguir:
Objetivo geral:
Conhecer e analisar de que maneira a psicologia brasileira se aproxima e
constitui a temática dos processos de urbanização.
Objetivos específicos:
Analisar quais são as problematizações feitas em relação aos processos de
urbanização na produção de conhecimento em psicologia;
Identificar quais referenciais teóricos e métodos a psicologia toma para
discutir os processos de urbanização;
Discutir as transformações e contribuições do conhecimento produzido pela
psicologia em relação à abordagem dos processos de urbanização.
Após o Capítulo 2, que tratará dos aspectos teórico-metodológicos do
trabalho, os capítulos seguintes serão estruturados a partir dos objetivos específicos
da pesquisa. Assim, a análise feita a partir do primeiro objetivo específico
(Constituição histórica de um novo objeto) corresponderá ao Capítulo 3; a discussão
segundo objetivo específico (Estratégias de produção de saber sobre o urbano) será
feita no Capítulo 4 da pesquisa; finalmente, o terceiro objetivo (Transformações e
contribuições) será abordado no quinto capítulo.
No terceiro capítulo trabalharemos as aproximações entre psicologia e
processos de urbanização no Brasil e suas constituições históricas. Articularemos a
discussão dos dados referentes ao primeiro objetivo específico proposto no estudo:
analisar quais são as problematizações feitas em relação aos processos de
urbanização na produção de conhecimento em psicologia. Assim, a partir dos
estudos encontrados na literatura sobre tais propostas, discutiremos o modo como
elas começam a ingressar nos estudos na psicologia e como se constituem novas
concepções dos processos de urbanização nesse campo de saber.
No quarto capítulo refletiremos sobre as legitimações e rupturas na produção
teórica da psicologia. Procuraremos discutir os princípios teórico-metodológicos pelo
13
quais a psicologia tem se norteado na abordagem dos processos de urbanização e
sua produção em torno dos projetos de construção dos espaços urbanos na cidade.
Serão analisadas as formas pelas quais os discursos das diversas construções
científicas que fundamentam essas práticas afirmam e dão visibilidade a
determinadas concepções de sujeito. Assim, nos debruçamos sobre a análise dos
argumentos e os saberes convocados e autorizados pela psicologia para corroborar
a construção dos territórios urbanos.
No quinto capítulo trataremos das problematizações e contribuições da
psicologia à temática dos processos de urbanização. Abordaremos, então o terceiro
objetivo específico proposto. Para isso, discutiremos as transformações e
contribuições do conhecimento produzido pela psicologia em relação à abordagem
dos processos de urbanização. Buscaremos explanar as críticas e considerações da
psicologia em torno dos processos de urbanização e analisar se essas construções
fazem alusão às questões que envolvem cidadania e liberdade nos espaços
urbanos.
No Capítulo 6 faremos as considerações finais do trabalho e retomaremos
alguns pontos que se destacaram nas reflexões feitas ao longo da pesquisa.
Traremos os principais resultados das discussões apresentadas nos capítulos
anteriores, procurando estabelecer uma articulação entre as questões abordadas em
toda a dissertação. Espera-se que a pesquisa possa contribuir com a produção de
conhecimento na psicologia aproximando-o da temática dos processos de
urbanização e que esse conhecimento produzido possa colaborar na construção de
políticas públicas que visem projetos urbanos de valorização da vida na cidade.
14
2 ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DO ESTUDO
De acordo com Silva (2004), as produções sociais não são naturais, sendo
necessário deixar de tomá-las como algo evidente e passar a constituí-las como
problema. Isso quer dizer que as práticas sociais não são resultado de uma natureza
que produz modos de existência inerentes ao desenvolvimento humano, mas se
constituem como uma multiplicidade que só pode ser construída numa relação de
forças atravessadas por um determinado campo histórico. A autora afirma que, por
vezes, as práticas sociais são naturalizadas e qualificadas como aquilo que constitui
aspectos inerentes às relações humanas. Quando isso ocorre é porque negou-se
esse social como uma produção histórica, tomando-o somente como um espaço.
Com isso, o social é reduzido às relações que os indivíduos, nos seus locais
comuns, trocam ou compartilham.
Desse modo, quando nos propomos a problematizar a história das
aproximações entre psicologia e processos de urbanização, nosso objetivo não é
reduzir essa prática social complexa a um discurso, a uma prática evidente,
justificada como pertencente a uma natureza, mas problematizar seu aspecto de
―um saber que produz os objetos dos quais fala‖ (GUARESCHI, et al., 2013, p. 151).
Para pensar a nossa perspectiva de psicologia social, concordamos com Silva
(2004) quando diz que é preciso desnaturalizar o social, de modo que, ao invés de a
psicologia explicar o social, ―é o próprio social que deve explicar o surgimento da
psicologia moderna.‖ (SILVA, 2004, p. 12). A autora coloca em questão a
necessidade de se compreender ―a partir de que momento o social passa a ser
formulado como um problema que requer um tipo de intervenção específico‖ (p. 14).
Assim, aponta que o social só passa a ser tomado como problema quando as
relações informais já não conseguem mais dar conta do funcionamento social. A
partir disso, criam-se um corpo de profissionais especializados em solucionar as
perturbações causadas pela desordem social, uma vez que as intervenções comuns
já não são mais capazes de resolvê-las. A autora coloca que, a partir dessas
transformações, a psicologia social, então, se torna necessária para intervenção
nesse social que se torna problemático à sociedade, se diferenciando de outras
áreas da psicologia.
Situamos, neste estudo, a compreensão da produção da psicologia sobre os
processos de urbanização como um objeto no qual nos implicamos no sentido de
15
produzir uma análise sobre essa relação. Assim, interessa-nos pensar como a
produção de verdades em psicologia contribui e relaciona-se à produção dos
territórios urbanos e suas práticas.
Para problematizar a maneira como os processos de urbanização passam a
constituir alvo de interesse da psicologia no Brasil faremos, inicialmente, uma
revisão de literatura para identificar e organizar a produção acadêmica da psicologia
sobre os processos de urbanização, dando visibilidade à multiplicidade de discursos
que constituem nosso objeto de estudo.
Para subsidiar nosso trabalho de levantamento de materiais e trazer maior
organização a nossa produção de dados seguimos, inicialmente, algumas
orientações do método de revisão sistemática de literatura. É importante enfatizar,
no entanto, que utilizamos nesse trabalho somente alguns passos desse método.
Este método foi tomado exclusivamente como ferramenta de produção e
organização dos dados em virtude da forma sistemática e rigorosa que propõe para
a seleção dos materiais que aqui nos interessa. Não perdemos de vista, entretanto,
que nosso objetivo final não coincide com o da revisão sistemática de literatura,
inclusive em função das diferenças epistemológicas entre esse tipo de pesquisa e a
que embasa este trabalho. Isso porque na revisão sistemática de literatura, que tem
como origem os estudos clínicos, há um objetivo de esclarecer controvérsias, se
distanciando do nosso objetivo que é dar visibilidade aos diferentes discursos, sem
chegar a uma síntese. Porém, tomamos as etapas iniciais já sistematizadas pelo
método de revisão sistemática de literatura, a fim de organizar nossos materiais e
compormos um quadro de referência, a partir do qual pudéssemos seguir por outros
percursos de análise.
De acordo com Linde e Willich (2003, apud SAMPAIO e MANCINI, 2007), a
revisão sistemática de literatura é um método que busca deixar explícitos todos os
passos e decisões tomados na investigação de maneira sistematizada e crítica dos
procedimentos. Os autores afirmam que esse tipo de pesquisa envolve as
informações de vários textos que foram produzidos separadamente sobre um tema
específico, mas que o resultado do seu conjunto reúne informações que podem ser
confrontadas. Além disso, esse resultado pode auxiliar na construção de novas
investigações.
16
Assim, apesar de não assumirmos os mesmos pressupostos ou objetivos, os
procedimentos de identificação e organização dos materiais propostos pela revisão
sistemática de literatura, nos ajudam na primeira etapa da pesquisa em questões
como a análise da inclusão ou não dos materiais a partir dos critérios inicialmente
estabelecidos, bem como sua ordenação e apresentação contribuindo, assim, com o
rigor na produção dos dados e a sua melhor visibilidade. A partir disso, seguimos os
procedimentos de análise propostos por Rose (1996), inspirado em Foucault, que
abordaremos adiante.
A revisão sistemática de literatura obedece a uma sequência de passos a
serem percorridos que são: delimitação da pergunta de pesquisa; busca de
evidência de que o trabalho inclui todas as produções relevantes; revisão e seleção
dos estudos; análise da qualidade metodológica dos estudos e; apresentação dos
resultados (SAMPAIO e MANCINI, 2007). Desses passos, seguimos a delimitação
da pergunta que orienta o trabalho, a revisão, seleção e apresentação do material.
Não realizamos a análise da qualidade metodológica, pois em consonância com as
perspectivas de análise inspiradas no trabalho de Foucault (2005), dentre as quais
nos situamos, não nos interessa avaliar a qualidade epistemológica desses
trabalhos, mas refletir sobre aquilo que eles produzem em termos de novos
discursos e práticas. Os resultados são apresentados no sentido de evidenciar a não
unidade dos discursos sobre um mesmo objeto, no caso, a questão do urbano.
Sampaio e Mancini (2007) afirmam ainda que, uma vez definida pergunta de
pesquisa, o pesquisador deve incluir todos os artigos que tenham importância ou
impacto na conclusão da revisão. Eles trazem que a busca de evidência inclui ―a
definição de termos ou palavras-chave, seguida das estratégias de busca, definição
das bases de dados e de outras fontes de informação a serem pesquisadas.‖ (p. 85).
Dessas indicações, seguimos a definição dos termos e sua busca, porém não
realizamos uma busca exaustiva das produções, tampouco de todos os tipos de
produções acadêmicas, delimitando nosso campo a artigos publicados em apenas
três periódicos, selecionados em função da sua relevância para a psicologia
brasileira.
Sampaio e Mancini (2007) ressaltam que na etapa de seleção dos estudos é
necessário que pelo menos dois pesquisadores revisem os títulos e os resumos que
foram trazidos até aqui por meio das seleções anteriores. Os autores colocam a
17
importância de que essa análise seja feita de forma ―independente e cegada,
obedecendo rigorosamente aos critérios de inclusão e exclusão definidos no
protocolo de pesquisa.‖ (p. 86). Eles alertam que, se houver alguma dúvida durante
a leitura do título e do resumo, o artigo completo precisa ser acessado de modo a
contemplar todos os estudos importantes para a revisão sistemática de literatura.
Consideramos essa uma etapa importante para este estudo de maneira que esse
processo foi realizado integralmente2.
Para Sampaio e Mancini (2007), a análise da qualidade metodológica dos
estudos depende da validade dos estudos utilizados. Os autores destacam que
‖nesta fase é importante que os pesquisadores considerem todas as possíveis
fontes de erro.‖ (p. 87). Essa etapa, no entanto, como já mencionado, não foi
realizada, porque além de uma diferença entre as análises epistemológicas (que
justificariam esse procedimento), consideramos, a partir de uma perspectiva
foucaultiana, que os efeitos de verdade dos discursos não provêm de sua qualidade
epistemológica.
Na fase de apresentação dos resultados, os artigos incluídos são
apresentados em um quadro com suas principais características e resultados
(SAMPAIO e MANCINI, 2007). Em relação a esse passo, organizamos as principais
conclusões de cada estudo, buscando apontar o que elas constituem para a
psicologia.
Desta forma, adotamos esses procedimentos a fim de organizar e analisar os
dados desta pesquisa. Uma vez composto um quadro esquemático que possa dar
visibilidade ao nosso material de pesquisa, prosseguimos nossa análise buscando
evidenciar as construções discursivas que perpassam o objeto de pesquisa.
2.1 Análise histórica
Para a análise dos materiais que resultaram da primeira etapa de organização
e produção dos dados e de revisão de literatura, nossa atenção se voltará aos
diversos discursos que a psicologia tem construído na produção dos processos de
urbanização. Nessa etapa analisaremos os materiais a partir de questionamentos
que se desdobram de nossos objetivos de pesquisa.
2
Uma leitura e seleção inicial foi realizada pela mestranda e a segunda leitura pela orientadora.
18
Para isso, utilizaremos a análise histórica proposta por Nikolas Rose (1996)
como um instrumento de teorização que possibilita refletir sobre as condições em
que se estabeleceram o que entendemos como verdade e como realidade. De
acordo com o autor, uma história crítica tem o fundamento de fragilizar aquilo que
nos é apresentado socialmente como sólido, necessário, intocável. Fazer uma
história crítica possibilita ―pensar contra o presente‖ (ROSE, 1996), tratando as
produções sociais que nos são apresentadas cotidianamente a partir de novos
horizontes e condições de possibilidade, rompendo com uma construção que impõe
um juizo e posibilitando percursos que levem a diversas práticas e olhares.
Com isso, nossa intenção não é uma análise que busque uma síntese do que
se produz sobre o tema na psicologia, mas uma reflexão sobre a construção dos
processos de urbanização, simultaneamente como objeto e campo da psicologia,
vista por diferentes perspectivas e analisada por diferentes abordagens teóricometodológicas e epistemológicas. Buscamos a não unidade e a dispersão nesse
conjunto de enunciados sobre os processos de urbanização, afastando-nos e
afastando-o de uma condição essencialista. Interessa-nos sua produção.
Assim, fundamentamos nossa perspectiva de trabalho em autores como
Foucault (2005), Rose (2008) e Hüning et. al (2014), sem seguir um roteiro prédeterminado de análise. É a partir de nossas interrogações que tomamos esses
textos como enunciados da psicologia sobre os processos de urbanização. Assim,
interrogamos de que maneira a psicologia brasileira se aproxima e constitui a
temática dos processos de urbanização? Quais são as problematizações feitas em
relação aos processos de urbanização na produção de conhecimento em
psicologia? Quais referenciais teóricos e métodos a Psicologia toma pra discutir os
processos de
urbanização?
Quais as transformações e
contribuições do
conhecimento produzido pela psicologia em relação à abordagem dos processos de
urbanização?
2.2 Produzindo dados
O trabalho se propõe a uma revisão de literatura seguida da análise histórica
(ROSE, 1996) dos trabalhos que tratam dos processos de urbanização produzidos
pelos periódicos Arquivos Brasileiros de Psicologia, Psico e Psicologia e Sociedade.
19
Para isso, foi feita a leitura dos artigos publicados nesses periódicos que
corresponderam aos critérios de busca apresentados a seguir.
Iniciamos a produção dos dados do trabalho com uma pesquisa bibliográfica,
a fim de pensar as aproximações da psicologia com a problemática da urbanização.
Como campo de investigação para questionar de que maneira o uso dos espaços
públicos constitui problema para a psicologia no Brasil procedemos à análise de
artigos publicados em três periódicos de psicologia brasileiros.
A decisão de selecionar artigos publicados em periódicos científicos para
nossa pesquisa se dá por sua existência estar vinculada a uma cultura científica, o
que lhe confere atenção e importância no meio científico e acadêmico, sendo um
importante instrumento de disseminação do conhecimento (VILELA, 2011). De
acordo com Jacó-Vilela (2011, p.285) ―Trata-se de um acervo de conhecimento e de
um instrumento didático, que possibilita a visibilidade da produção científica, a troca
entre os pares e a validação das pesquisas.‖
A autora traz as qualidades dos periódicos científicos ou técnicos ressaltando
suas especificidades em relação a outras formas de registrar e fazer circular o
conhecimento. Assim, ela aponta benefícios como sua rápida editoração e
divulgação, a amplitude de seu alcance, principalmente pelas publicações online; e o
fato dos periódicos serem especializados, o que pode dificultar o acesso ao mesmo
tempo em que dá mais legitimidade ao seu campo científico de estudo. (JACÓVILELA, 2011)
Jacó-Vilela (2011) ainda trata da importância dos periódicos para os estudos
históricos, porque são ―fonte de resgate da memória e de recuperação dos dados
que servirão de base para novas pesquisas; como também representa a
recuperação de toda uma época e das relações sociais e culturais que nela se
estabeleciam.‖ (p. 287). Para autora, o periódico:
[...] propicia resgatar a história de um campo, suas continuidades e
rupturas, seu significado naquele momento. Além disso, permite
leituras internas a ele próprio, tais como: editoração, autores mais
frequentes, origens (institucionais e teóricas); análises que permitem
uma avaliação transversal dos temas, situando historicamente sua
construção e importância. (JACÓ-VILELA, 2011, p.285).
Sendo assim, foram feitas as análises dos periódicos Arquivos Brasileiros de
Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Psico, da Pontifícia
20
Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Psicologia e Sociedade da
Associação Brasileira de Psicologia Social.
A escolha de Arquivos Brasileiros de Psicologia se justifica por essa
publicação ser uma das mais antigas no campo da psicologia no país e por se
propor a oferecer o olhar da psicologia através de campos científicos diversos,
buscando ―acolher e difundir a diversidade das produções científicas e profissionais
da Psicologia e áreas afins‖ (ARQUIVOS..., 1949), o que pressupõe uma diversidade
muito grande de temas em psicologia.
A escolha da revista Psico se deu também pelo seu longo tempo de
circulação na psicologia. Outros pontos de eleição dessa revista são o seu alcance,
por veicular suas publicações online, e o seus objetivos de ―difundir e promover o
conhecimento científico da Psicologia e áreas afins, através da publicação de artigos
originais sobre temáticas que privilegiem pesquisas empíricas ou revisões
sistemáticas de literatura.‖ (PSICO, 1981), o que permite vislumbrar uma grande
quantidade de material já analisado, suscitando novas questões na psicologia.
A seleção de Psicologia e Sociedade se deu por seu enfoque em privilegiar
pesquisas e discussões numa perspectiva da psicologia social que, sendo campo de
interesse deste trabalho, contribuirá diretamente para as análises e discussões feitas
aqui (PSIC. SOC., 1986).
A partir da pergunta de pesquisa definida: de que maneira os processos de
urbanização passam a constituir alvo de interesse da psicologia no Brasil?, foi
realizado um levantamento dos volumes desses periódicos, inclusive os que não
estão online. Inicialmente entramos em contato com grande parte desse material
sem possuir claros critérios de inclusão e exclusão dos mesmos, sendo que,
posteriormente, esse contato nos ajudou a pensar escolha de nossas palavraschave. Acessamos, então, o maior número possível de volumes dos periódicos, a
partir da sua disponibilidade nos nossos veículos de acesso, que será detalhada
adiante. Em seguida analisamos cada revista, utilizando como critério de seleção,
em primeiro lugar, as publicações que traziam no título, temáticas e palavras que
previamente tinham relação com os processos de urbanização: processo de
urbanização, urbanização, urbanismo, urbano, urbana, cidade. Todas essas
palavras foram pesquisadas no singular e no plural. Os números das revistas que
não estão online foram acessados através das bibliotecas da Pontifícia Universidade
21
Católica do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Com essa
conformação chegou-se ao número de 12 descritores, como é mostrado no quadro a
seguir:
Quadro 1 – Descritores utilizados na busca periódicos científicos brasileiros:
Arquivos Brasileiros de Psicologia, Psico e Psicologia e Sociedade.
DESCRITORES
1
2
3
4
5
6
1.1
PROCESSO DE URBANIZAÇÃO
1.2
PROCESSOS DE URBANIZAÇÃO
2.1
URBANIZAÇÃO
2.2
URBANIZAÇÕES
3.1
URBANISMO
3.2
URBANISMOS
4.1
URBANA
4.2
URBANAS
5.1
URBANO
5.2
URBANOS
6.1
CIDADE
6.2
CIDADES
Total
12
Fonte: autora.
Com a configuração desses 12 descritores, consolidou-se o instrumento de
acesso inicial ao material. Nos meses de janeiro e fevereiro de 2015 foi realizado o
processo de identificação dos artigos nos três periódicos, Arquivos Brasileiros de
Psicologia, Psico, e Psicologia e Sociedade. Foram incluídos na pesquisa os
arquivos que datavam da inauguração das respectivas revistas até o ano de 2014.
22
2.3 Revisando e selecionando
Essa etapa foi construída por duas pesquisadoras3, que analisaram a
pertinência da inclusão do material de acordo com o que estes abordavam e com
sua relação com o foco da pesquisa.
Vale ressaltar que, mais do que encontrar as palavras-chave selecionadas no
título, no resumo, ou no texto de cada material, buscamos analisar em conjunto, o
título, o resumo e o texto completo, verificando, a partir dessa leitura, se o conteúdo
dos artigos de psicologia selecionados trazia como discussão os processos de
urbanização.
O objetivo dessa fase foi garantir a inclusão de todos os trabalhos que
abordavam como tema os processos de urbanização tratados nesta pesquisa.
Uma vez selecionados os artigos a partir dos descritores elencados na fase
anterior, obtivemos um material a ser passado por uma nova análise, a fim de
selecionarmos somente as produções que continham a presença da discussão
sobre os processos de urbanização. Iniciamos com a leitura dos títulos dos artigos,
quando, diante dessa leitura restou dúvida sobre o que abordava o artigo, foi lido o
resumo a fim de confirmar a presença da discussão dos espaços urbanos no texto.
Quando a leitura do resumo não foi suficiente para essa confirmação, foram feitas as
leituras dos artigos completos, para identificar a veiculação da temática que se
pretende selecionar. Alguns artigos, em sua maioria os mais antigos, não
apresentavam resumo. Nesse caso, diante da leitura do título e não confirmação da
presença da discussão foi feita a leitura do artigo completo. Muitos trabalhos
abordavam o urbano unicamente como cenário da discussão que tematizava o
artigo. Esses trabalhos não entraram na nossa seleção.
A atual revista Arquivos Brasileiros de Psicologia foi fundada com o nome
Arquivos Brasileiros de Psicotécnica em 1949 pela Fundação Getúlio Vargas –
UFGV. A partir de 1968 até 1979 foi editada com o nome Arquivos Brasileiros de
Psicologia Aplicada. Em 1992 a revista foi assumida pelo Programa de PósGraduação em Psicologia da UFRJ. Dessa revista foram analisados seus sessenta e
seis volumes, que iniciam da sua data de fundação. Cinquenta e quatro volumes
desses periódicos foram encontrados online no site da biblioteca digital da Fundação
3
A autora e a orientadora desta pesquisa.
23
Getúlio Vargas4 e no site da Universidade Federal do Rio de Janeiro5. Os outros
doze, que se referem aos volumes 43 a 54, foram acessados na versão impressa
nas bibliotecas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro.
O periódico Psico tem quarenta e cinco volumes, publicados a partir do ano
de 1971. Desse periódico foram encontrados trinta e cinco volumes impressos e dez
volumes na página eletrônica da revista6. Dessa revista, todos os volumes foram
incluídos na pesquisa, excetuando-se quatorze números dentre esses volumes, que
não foram encontrados nos arquivos consultados para a pesquisa. O quadro a
seguir expõe a descrição desse material:
Quadro 2 – Apresenta o ano, volume e o número das revistas que não foram
acessadas.
Ano
Volume / número
1982
V4/N°2 e V5/N°1
1984
V8/ N°2 e V9/ N°1
1987
V13/ N°2 e V14/N°1
1988
V15/ N°2 e V16/N°1
1989
V17/N°2 e V18/ N°1
1990
V19/N°2 e V20/ N°1
1991
V21/ N°2
1999
V30, N°2
Fonte: autora
Já os volumes de Psicologia e Sociedade totalizam vinte e seis publicados até
2014. Sua primeira publicação consta em 1986 e a revista disponibiliza a maioria
dos volumes online. Foram acessados todos os artigos que estavam disponíveis nos
4
Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/abp>, acesso em 06 de janeiro de 2015.
Disponível em: <http://seer.psicologia.ufrj.br/index.php/abp/issue/archive>, acesso em 06 de janeiro
de 2015.
6
Disponível em:
<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistapsico/issue/archive?issuesPage=1#issues>,
acesso em 08 de janeiro de 2015.
5
24
sites da Associação Brasileira de Psicologia Social7, Scielo8 e na página da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul9 na internet, até o dia 10 de janeiro de
2015. O Quadro 3 apresenta o processo de inclusão e exclusão dos artigos.
Selecionamos aqueles com data de publicação até o mês de dezembro de 2014.
Quadro 3 – traz o resultado das estratégias de busca realizadas nas bases de dados
selecionadas, segundo os critérios de inclusão e exclusão.
Palavras-chave:
processo
de
urbanização,
processos
de
urbanização,
urbanização,
urbanizações,
urbanismo,
urbanismos,
urbano,
urbanos,
urbana, urbanas, cidade, cidades.
Base de dados:
Arquivos
Brasileiros
de
Psicologia.
Resumos em que
constava a presença
da discussão sobre
os processos de
urbanização.
Base de dados:
Psico.
Resultados das buscas (n 25)
Resultado das buscas (n 14)
Artigos Selecionados (n 12)
Artigos Selecionados (n 7 )
Base de dados:
Psicologia
&
Sociedade.
Resultado das buscas (n 32)
Artigos Selecionados (n 21)
)
Leitura dos artigos
completos para
confirmação.
Análise
segundo
pesquisador.
Artigos incluídos (n 11)
Artigos incluídos (n 6)
Artigos selecionados (n 1)
Artigos selecionados (n 3)
Artigos incluídos (n 17)
do
Artigos selecionados (n 13)
Total (n 17)
7
Disponível em: < http://www.abrapso.org.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=539>, acesso em 10
de janeiro de 2015.
8
Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issues&pid=01027182&lng=en&nrm=iso>, acesso em 10
de janeiro de 2015.
9
Disponível em: <http://www.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/archive.php>, acesso em 10 de janeiro de 2015
25
Fonte: autora
Dos volumes analisados da revista Arquivos Brasileiros de Psicologia, 25
artigos foram selecionados pelo título, 12 foram selecionados pelo resumo e 11
foram selecionados na leitura completa.
Na análise da revista Psico 14 artigos foram selecionados pelo título, 7 foram
selecionados pelo resumo e 6 foram selecionados na leitura completa.
Os volumes analisados da revista Psicologia e Sociedade resultaram em 32
artigos selecionados pelo título, 21 foram selecionados pelo resumo e 17 foram
selecionados na leitura completa.
A análise do segundo pesquisador englobou os artigos resultantes da etapa
de seleção dos resumos, o que incluiu também os artigos selecionados na leitura do
conteúdo pelo primeiro pesquisador. Assim, após a revisão do segundo pesquisador
foi selecionado 1 artigo da revista Arquivos Brasileiros de Psicologia, 3 artigos da
revista Psico e 13 artigos da revista Psicologia e Sociedade. Com essa seleção
chegamos ao número de 17 artigos a serem analisados.
Vale ressaltar que nessa seleção feita pelo segundo pesquisador realizou-se
um corte significativo de palavras-chave que tinham sido incluídas pelo primeiro
pesquisador nas primeiras etapas de seleção, ficando somente as palavras que
diziam respeito mais diretamente à discussão em questão, o que excluiu um número
significativo de trabalhos. Outro critério tomado pelo segundo pesquisador nessa
seleção foi incluir os artigos que, de fato, traziam os processos de urbanização como
tema, uma vez que muitos deles, apesar de trazer o urbano, o abordava unicamente
como cenário de uma outra discussão.
É importante colocar que a escolha desses três periódicos descritos acima
deixa de fora outras produções (livros, teses, dissertações e artigos publicados em
outros periódicos), portanto não damos conta de tudo o que se publicou sobre o
tema. No entanto compreende-se que essas produções da psicologia trazem
elementos suficientes para se pensar as questões propostas por essa pesquisa,
mesmo que de modo não exaustivo.
2.4 Apresentando os materiais
O quadro a seguir apresenta detalhes dos artigos selecionados a partir de
critérios de inclusão e exclusão predefinidos para a análise. Nela explanaremos os
26
principais aspectos das produções a serem selecionadas que repercutirão na análise
proposta. Deste modo, organizamos o material selecionado no Quadro 4, a seguir,
ordenando os artigos a partir de sua data de publicação, do mais antigo ao mais
recente. Destacaremos as suas referências, títulos e autores, palavras-chave,
objetivos, ferramentas teórico-metodológicas e as principais conclusões. Esse
quadro, embora bastante esquemático e resumido, nos permite uma visão geral do
material analisado e será discutido nos capítulos seguintes.
Quadro 4 – apresenta, em ordem cronológica de publicação, os artigos a serem
analisados: volume, número, ano, autor e seus principais objetivos e instrumentos.
27
Ano - Vol/N.
P&S10: 1987 - Ano III, n. 3.
P&S: 1990 – Ano VI, n. 9.
―Acaba Mundo‖: da proposta de Proprietários e posseiros urbanos:
urbanização a um projeto de interações./ Marília Machado.
ecologia humana em favela./
Elizabeth Bomfim; Maria Lima e
Marília Machado.
PSICO: 1990 - V. 20, n. 2.
Gabriel Moser e a Psicologia da vida
urbana./ Entrevistado por: Vinícius
Jockyman.
Palavraschave
Urbanização;
favela.*
Entrevista; vida urbana; Psychologie
Environnementale.*
Objetivos
Relatar a trajetória da construção
de um projeto de urbanização feito
pela Universidade Federal de
Minas Gerais para a favela ―Acaba
Mundo.‖
Título/Autor
ecologia
humana; Posseiros; Interação, favela;*
Observar durante quatro anos uma Apresentar uma entrevista de Gabriel
favela central de Belo Horizonte que Moser sobre a Psicologia da vida
se forma há quarenta e cinco anos em Urbana
terrenos pertencentes a proprietários
privados.
Ferramentas
Apesar de citar alguns termos
teóricoligados à psicanálise, o artigo não
metodológicas deixa claro seu referencial teórico.
Se faz uma análise de documentos
resultantes
de
reuniões
da
Universidade Federal de Minas
Gerais sobre a construção de um
projeto de urbanização de favelas.
O artigo não explicita diretamente o
referencial teórico adotado, mas faz
uma
análise
interacionista
das
entrevistas realizadas com dezoito
posseiros e três proprietários.
Entrevista não deixa clara a abordagem
teórica, mas é referenciada por
questões e termos da psicologia
comportamental, onde é apresentada a
Psychologie Environnementale como
alternativa aos problemas da vida
urbana.
Principais
conclusões
Conclui que posseiros e proprietários
urbanos interagem a partir de
contendas, porque sustentam lógicas
próprias que justificam suas ações.
Traz que as sobrecargas decorrentes da
periferia nos centros urbanos faz
necessário que sejam empregados
muitos esforços para adaptação dos
sujeitos à cidade.
10
Traz a necessidade de pensar o
lugar que o profissional ocupa
numa relação de transferência e
contratransferência estabelecida
com os favelados. Aponta a
proposta de um projeto de
ecologia humana na favela.
Psicologia e Sociedade
*Esses trabalhos não apresentam palavras-chave, de modo que estas foram atribuídas pelo pesquisador a partir de sua interpretação e análise do material.
28
(continuação)
ABP11: 1997 - V. 49, n. 4.
O que querem da cidade, as
adolescentes?/ Lucia Rabello de
Castro.
P&S: 2010 - V. 22, n. 1.
Aprendizaje
situado:
creación
y
modificación de prácticas sociales em el
espacio público urbano./Pablo Páramo.
Explorar
as
possibilidades
subjetivas - de participação social,
de
pertencimento
e
de
identificação – que a cidade
propicia a adolescentes mulheres
do Rio de Janeiro.
Ferramentas
A autora não deixa claro o
teóricoreferencial teórico utilizado, mas
metodológicas se norteia por autores que
trabalham a partir de uma
abordagem social. Ela propõe três
dimensões analíticas. A cidade
como: a) desenraizamento, b) a
transformação dos valores e c)
desamparo radical.
Principais
Conclui que para as adolescentes
conclusões
mulheres a cidade é assustadora,
porque é violenta e é dominada
por um ideal masculino.
Analisar o papel do espaço público urbano
como palco para a implementação de
contingências sociais orientadas para a
criação e manutenção no tempo de práticas
culturais que contribuam para a convivência
entre os cidadãos.
A partir da psicologia comportamental faz
uma análise metacontingencial para garantir
a manutenção das práticas socialmente
desejáveis nos espaços públicos
Urbanos.
A partir dos escritos do filósofo alemão
Walter Benjamin, articular subjetividades e
espaços através de imagens.
Traz que a metacontingência é importante
para a pedagogia urbana, na medida em
que propõe um conceito molar que se faz
efetivo na mudança de comportamento dos
indivíduos nos espaços abertos.
Conclui que as imagens benjaminianas
apontam
para
uma
política
do
contemporâneo que possibilita interpelar
um mundo que parece não ter saída.
Ano - Vol/N.
Título/Autor
Palavraschave
P&S: 2010 - V. 22, n. 3.
Cidades-imagem:
afirmações
e
enfrentamentos
ás
políticas
da
subjetividade./ Ana Cabral Rodrigues; Luis
Antônio dos Santos Baptista.
Adolescentes; cidade; condições Aprendizage por reglas; convivencia Subjetividades;
espaços
urbanos;
de subjetivação; mulheres.
ciudadana;
espacio
público; imagem.
metacontingencias; práctica cultural.
Objetivos
11
Arquivos Brasileiros de Psicologia
Utiliza os escritos de Walter Benjamin e se
norteia por conceitos e questões que se
pautam em uma abordagem social para
analisar algumas imagens da Paris de
Haussmann, das cidades invisíveis de
Ítalo Calvino e de Nápoles, narrada por
Walter Benjamin.
29
(Continuação)
Ano - Vol/N.
Título/Autor
P&S: 2011 - V. 23, n. 2.
Jovens em situação de rua:
espaço, tempo, negociações
de sentido.12/ Hugo Juliano
Duarte Matias.
PalavrasJovens;
rua;
etnografia;
chave
espaço; tempo.
Objetivos
Investigar as determinações do
ambiente físico e social das
ruas e da paisagem discursiva,
construída em negociações de
sentido com outros grupos,
sobre
as
condições
de
existência dos jovens.
Ferramentas
A partir de uma abordagem
teóricosócio-histórica,
faz
uma
metodológicas pesquisa etnográfica, realizada
durante três meses, em
Natal/RN, com grupo de
pessoas em situação de rua
predominantemente
jovens
entre 16-18 anos.
Principais
Existe um descompasso entre
conclusões
as condições de vida dos
jovens em situação de rua e as
diversas formas de enunciar o
espaço das ruas.
12
P&S: 2012 - V. 24, n. 1.
P&S: 2013 - V. 25, n. 2.
Tribos urbanas: os processos coletivos de Arte, loucura e cidade: a invenção de
criação no graffiti./ Janaina Rocha Furtado.
novos possíveis./ Mariana Tavares
Cavalcanti Liberato e Magda Dimenstein.
Graffiti; processo de criação; grupos; tribos
urbanas.
Refletir sobre os processos de criação coletiva
no graffiti urbano de Florianópolis.
Arte; loucura; cidade; saúde mental;
sociabilidade.
Discutir as possibilidades trazidas pela
arte no contexto da desinstitucionalização
da loucura.
Não deixa clara a perspectiva teórica, mas se
afina à psicologia sócio-histórica, utilizando as
referências de Vigotiski para fazer uma
entrevista com seis grafiteiros da cidade de
Florianópolis, pertencentes a crews diferentes
e faz observações, registros fotográficos e
filmagens de suas atividades criadoras na
cidade.
Os espaços são significados pelo grafiteiro
como materiais do seu processo criador.
Apropriando-se dos espaços urbanos o graffiti
se contrapõe a uma ordem hegemônica que
dita os modos de comunicar e se expressar.
O trabalho não explicita o referencial
teórico, mas se faz a partir de
pressupostos da psicologia social, que
toma Foucault, Deleuze e Guattari como
referências. Apresenta imagens que
ajudam a refletir sobre a potência da arte
e debate de ações do Projeto Arte e
Saúde.
Estão sendo produzidos acontecimentos
micropolíticos que possibilitam outras
formas de convivência com a diferença,
com o território e com a experiência
estética.
No contato inicial que fizemos com o material de análise, este trabalho chamou atenção da primeira pesquisadora. Apesar de não termos optado por inserir nenhuma das
palavras-chaves de seu título na nossa pesquisa, ele foi avaliado pelas duas pesquisadoras como uma produção que traz a discussão dos processos de urbanização como
tema, de modo que resolvemos incluí-lo no nosso material de análise.
30
(continuação)
Ano - Vol/N.
Título/Autor
PSICO: 2013 - V. 44, n. 3.
Repercussões
Psicossociais
da
Acessibilidade Urbana para as Pessoas
com Deficiência Física./ Sâmara Corrêa
Lima; Maria Freitas; Larissa Santos.
P&S: 2013 - V. 25, n. esp. 2.
As
crianças
na
cidade
e
o
acompanhamento terapêutico. / Ana Maria
Meira.
Palavraschave
Deficiência
física;
Acessibilidade
urbana; Inclusão social; Aspectos
psicossociais.
Analisar as repercussões psicossociais
da acessibilidade urbana para as
pessoas com deficiência física.
Acompanhamento
terapêutico; City;
subjectivity;
psicanálise; criança; arte; educação.
consumption; politics.
Objetivos
Ferramentas
O artigo não deixa claro seu referencial
teóricoteórico, mas utiliza conceitos da
metodológicas psicologia social. Trata-se de uma
pesquisa qualitativa, realizada por meio
de
entrevista
semiestruturada
e
tratamento de dados pela Análise de
Conteúdo.
Principais
Diz que as barreiras físicas na cidade
conclusões
se configuram como desencadeadores
de exclusão social das Pessoas com
Deficiência.
Refletir
sobre
o
acompanhamento
terapêutico
com
crianças
e
os
desdobramentos possíveis em sua
relação com a cidade, o espaço urbano, a
psicanálise, a educação e a arte.
Não explicita o referencial teórico
utilizado, mas dialoga com autores que
fazem referencia a uma abordagem social
para fazer uma observação participante
no projeto Cidade das Crianças, em Porto
Alegre.
P&S: 2013 - V. 25, n. 1.
The cities of need: capitalism and
subjectivity in the contemporary
metropolis./ Luis Antônio dos Santos
Baptista.
urbanism;
Refletir sobre as articulações entre
subjetividade e capitalismo.
É construído a partir de uma
abordagem
social.
Utilizando
referências de Walter Benjamin, faz
uma análise da vida social nas
metrópoles contemporâneas.
Conclui que é possível encontrar em Conclui a necessidade de se ocupar a
lugares públicos da cidade espaços cidade e intervir a partir do olhar para
subjetivantes, marcados por traços de os seus paradoxos.
cidadania, a partir de trocas possíveis
entre crianças, a arte e a cultura.
31
(continuação)
Ano - Vol/N.
Título/Autor
P&S: 2013 - V. 25, n. 2.
Cidades sutis: dispersão urbana e
a rede de saúde mental./ Luis
Arthur Costa e Tânia Mara Galli
Fonseca.
Palavraschave
Reforma Psiquiátrica; urbanismo; Índígenas; urbano; devir; diferença.
genealogia; contemporaneidade.
Objetivos
Problematizar
o
percurso Discutir as questões que se colocam a partir da
genealógico que possibilita o atual presença crescente das populações indígenas nos
arranjo entre a cidade de Porto centros urbanos.
Alegre e sua assistência em
saúde mental.
Ferramentas
Faz referência a conceitos de
teóricoFoucault utilizando o método
metodológicas cartográfico para fazer uma
genealogia dos movimentos que
tomaram os encontros entre a
saúde mental e a cidade.
Principais
Conclui
a
necessidade
conclusões
problematizar a cidade e a
reforma psiquiátrica, a fim de se
chegar a outras formas e
estratégias de intervenção no
campo da saúde mental e sua
relação com o urbano.
P&S: 2013 - V. 25, n. 2.
P&S: 2014 - V. 26, n. 1.
Para desacostumar o olhar sobre a presença do
indígena no urbano./ Bianca Sordi Stock e Tania Relações estéticas de catadores
de material reciclável com a
Mara Galli Fonseca.
cidade: os passos da pesquisa./
Daiani Barboza e Andreia Zanella.
Pesquisa em psicologia, fotografia,
cidade, dialogia, catadores de
material reciclável.
Apresentar
e
discutir
os
procedimentos
metodológicos
adotados em uma pesquisa que
investigou
as
relações
de
catadores de material reciclável
com a polifonia urbana.
Traz as ferramentas conceituais propostas por
autores da Filosofia da Diferença, assim como as
formulações atuais da antropologia para refletir de
que maneira as populações indígenas têm
experimentado a cidade.
A partir de uma perspectiva
dialógica, trabalha com registros
de imagens feitas pelos catadores,
observação participante e análise
dialógica do discurso.
Quando os indígenas agenciam o urbano em devirfloresta implicam a relação com a alteridade como
forma de subjetivação. A lógica binária-identitária
acaba por se ver forçada à diferença, pois é
retirada do ponto de vista onde se acostumou a
estar e forçada à diferença em que reside a
possibilidade de multiplicidade e devir na cidade.
São inúmeros os problemas dos
catadores, mas são enormes as
suas contribuições para a cidade, a
partir da forma como eles lidam
com o que têm acesso nas lixeiras
e
transformam
em
objetos
utilitários.
32
(continuação)
Ano - Vol/N.
Título/Autor
Palavraschave
Objetivos
PSICO: 2014 - V. 45, n. 3.
Um oásis urbano: dois estudos das interações pessoaambiente na praça Kalina Maia, Natal/RN./ Cíntia Camila
Viegas; Eduardo da Silva e Gleice Elali.
Psicologia ambiental; praça; lazer; socialização de idosos;
observação comportamental.
Apresentar duas pesquisas (independentes) embasadas na
literatura de psicologia ambiental, realizadas na Praça
Kalina Maia (Natal/RN), visando compreender seu uso.
Ferramentas
A partir da psicologia comportamental utiliza métodos de
teóricodiário de campo, entrevistas e observação comportamental
metodológicas (mapeamento ou naturalística).
Principais
conclusões
Conclui que a maneira como diferentes grupos se apropriam
do espaço e o (re)significam, de uma forma diferente da que
foi projetada, configura-se como uma diversidade no urbano
que corresponde ao que se busca produzir na cidade.
Fonte: autora
P&S: 2014 - V. 26, n. esp.
Primavera urbana: a ilha deserta interroga as multidões./
Rodrigo Lages e Silva e Luis Antônio dos Santos Baptista.
Capitalismo; multidão; práticas sociais; psicologia.
Fazer uma apreciação da imbricação da qual emergem a
modernidade científica, o liberalismo e a racionalidade
política clássica e suas relações com o modo de produção
capitalista.
A partir de uma abordagem social, amparado nas reflexões
de Foucault, faz uma narrativa da vida numa ilha deserta
apresentada pelo romance Robinson Crusoé, que pode ser
na sua versão original em Defoe ou na sua recontagem por
Michel Tournier.
Conclui a necessidade de um olhar crítico para o nosso
tempo e da problematização das estruturas de poder que
constroem a subjetividade e a experiência capitalista da
urbe.
A partir dos dados produzidos pela revisão de literatura e expostos no quando acima, temos uma relação importante e uma
organização de temas, construções teórico-metodológicas e conclusões que nos permitirão um melhor olhar sobre a produção dos
dezessete arquivos selecionados na pesquisa.
33
3 CONSTITUIÇÃO HISTÓRICA DE UM NOVO OBJETO
Neste capítulo trabalharemos as aproximações entre psicologia e processos
de urbanização no Brasil. Articularemos a discussão dos dados referentes ao
primeiro
objetivo
específico
proposto
no
estudo:
analisar
quais
são
as
problematizações feitas em relação aos processos de urbanização na produção de
conhecimento em psicologia. Por meio dos artigos encontrados nos materiais de
análise, discutiremos o modo como os processos de urbanização começam a
ingressar nos estudos da psicologia e como se constituem novas concepções do
urbano nesse campo de saber. Procederemos, então, abordando e refletindo sobre
os principais temas, questões e problemas tratados nesses trabalhos.
3.1 Percursos da psicologia na problematização do urbano
A partir dos métodos de eleição das publicações, escolhidos neste trabalho,
observamos que consta na psicologia uma publicação que aborda como tema os
processos de urbanização em 1987 (BOMFIM et al., 1987), na revista Psicologia e
Sociedade, dois trabalhos datados de 1990, publicados, um pela Revista Psico e o
outro pela Psicologia e Sociedade (MACHADO, 1990; JOCKYMAN, 1990). Em 1997
temos um trabalho no periódico Arquivos Brasileiros de Psicologia (CASTRO, 1997).
Os próximos trabalhos que tratam da temática dos processos de urbanização vão
ser abordados somente em 2010 nos periódicos selecionados nesta pesquisa, na
revista Psicologia e Sociedade (PÁRAMO, 2010; RODRIGUES e BAPTISTA, 2010).
Na mesma revista identifica-se uma publicação em 2011 (MATIAS, 2011), uma
datando de 2012 (FURTADO, 2012) e cinco referentes ao ano de 2013 (LIBERATO
e DIMENSTEIN, 2013; COSTA e FONSECA, 2013; MEIRA, 2013; BAPTISTA, 2013;
STOCK e FONSECA, 2013). No mesmo ano, em 2013, a revista Psico também
lança uma publicação que trata da temática (LIMA et al., 2013) e no ano seguinte fez
uma nova publicação (VIEGAS et al., 2014). No ano de 2014 a revista Psicologia e
Sociedade abordou mais uma vez o tema em duas de suas publicações (BARBOZA
e ZANELLA, 2014; SILVA e BAPTISTA, 2014).
A periodicidade dos materiais que abordam a temática dos processos de
urbanização nas publicações da psicologia varia muito a depender do período
histórico. Apesar das primeiras publicações em psicologia no Brasil datarem de 1949
com a revista Arquivos Brasileiros de Psicologia, vemos que a primeira publicação
34
que aborda o tema consta de 1987 (BONFIM et al., 1987). Esta primeira publicação
é veiculada na revista mais nova em termos de inauguração, a revista Psicologia e
Sociedade. E passam-se trinta e oito anos de práticas psicológicas e produções
científicas brasileiras até a problemática dos processos de urbanização estrear nas
publicações da psicologia, considerando os periódicos analisados.
Essa primeira publicação, no entanto, não aparece ainda como artigo, mas no
eixo publicado ―Comunicação de trabalho,‖ resultante dos trabalhos publicados nos
anais do II Encontro Nacional e II Encontro Mineiro de Psicologia Social. Três anos
depois da primeira publicação temos uma prevalência maior de artigos num único
ano e a inserção da temática em outra revista, a revista Psico. Assim, em 1990,
considerando os três periódicos analisados, dois artigos são publicados, um pela
revista Psicologia e Sociedade (MACHADO, 1990), que já trabalhara a temática em
1987, e outro pela revista Psico (JOCKYMAN, 1990). A publicação da Psico, porém,
não trata de um artigo, mas de uma entrevista feita com um professor, Gabriel
Moser, da Universidade de Paris que visitara a Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul (PUCRS) para uma palestra sobre seu método de trabalho, a
Psychologye Environnementale (Psicologia Ambiental). A publicação da Psicologia e
Sociedade deste mesmo ano também inseriu a temática através de um dos
trabalhos publicados em seus anais do VI Encontro Nacional de Psicologia Social.
Assim, as três primeiras publicações nos periódicos analisados que abordam temas
em interface com os processos de urbanização, não se apresentam como artigos,
mas como entrevistas ou anais de encontros acadêmicos. De qualquer forma,
registramos aqui sua ocorrência, pois sinalizam as primeiras abordagens da
psicologia, nas bases consultadas, aos processos de urbanização.
Sete anos depois, em 1997, a revista Arquivos Brasileiros de Psicologia
estreia a publicação do tema com um artigo completo que trata das questões
urbanas (CASTRO, 1997). Este artigo abordou o urbano como um espaço de
construção e de possibilidades subjetivas para adolescentes que habitam a cidade.
O urbano aqui aparece como uma construção relacionada a uma codependência
com a subjetividade.
De 1997 até a próxima publicação, em 2010, há um intervalo de 13 anos onde
não foram identificados nos periódicos incluídos nessa pesquisa, trabalhos que
abordassem nosso tema de estudo. Nos anos seguintes nota-se uma periodicidade
35
maior de artigos que trabalham as questões urbanas. Há publicações em 2010 (2
artigos), 2011 (1 artigo), 2012 (1 artigo), 2013 (6 artigos) e 2014 (3 artigos). No
entanto, 2013 traz o número máximo de publicações anuais identificadas na
abordagem da temática dos processos de urbanização na psicologia: seis no ano.
Assim, acompanhamos que nos últimos anos essa temática tem tomado mais
espaço e se tornado mais frequente nas produções acadêmicas da psicologia.
Essas transformações não só configuram mudanças e novidades nas
temáticas abordadas pela psicologia ao longo dos anos, mas a partir das leituras dos
artigos, observa-se que não só as temáticas foram ganhando amplitude e
periodicidade, como também as formas pelas quais a ciência psicológica tratou e
estudou esses temas. Pode-se acompanhar que não há uma unidade temática,
teórica ou metodológica nas questões que são abordadas pela psicologia na
interface com esse amplo tema dos processos de urbanização.
Os temas trabalhados nesses artigos são vários. Os textos ―`Acaba Mundo`:
da proposta de urbanização a um projeto de ecologia humana em favela‖ (BOMFIM
et al., 1987) e ―Proprietários e posseiros urbanos: interações‖ (MACHADO, 1990),
respectivamente, trazem como temática a urbanização de favelas, um enfocando as
questões estruturais que vão envolver uma discussão com a psicologia e o outro as
questões de posse. No trabalho ―O que querem da cidade, as adolescentes?‖ e
―Jovens em situação de rua: espaço, tempo, negociações de sentido‖ de Castro
(1997) e Matias (2011) se aborda a adolescência e a juventude na cidade.
Em 2010 e 2014 os artigos ―Aprendizaje situado: creación y modificación de
prácticas sociales em el espacio público urbano‖13 (PÁRAMO, 2010) e ―Um oásis
urbano: dois estudos das interações pessoa-ambiente na praça Kalina Maia,
Natal/RN‖ (VIEGAS et al., 2014) trabalham a modificação de comportamentos
urbanos. Em 2010, 2013 e 2014 os textos ―Cidades-imagem: afirmações e
enfrentamentos às políticas da subjetividade‖ (CABRAL e BAPTISTA, 2010), ―The
cities of need: capitalism and subjectivity in the contemporary metropolis‖14
(BAPTISTA, 2013) e ―Primavera urbana: a ilha deserta interroga as multidões‖
(SILVA e BAPTISTA, 2014) trazem como tema a produção de subjetividade na
13
14
Aprendizagem situada: criação e modificação de práticas sociais no espaço público urbano.
As cidades da necessidade: capitalismo e subjetividade na metrópole contemporânea.
36
cidade. O artigo ―Tribos urbanas: os processos coletivos de criação no graffiti‖, de
Furtado (2012), trabalha com os grupos urbanos.
Em 2013 o artigo ―Repercussões Psicossociais da Acessibilidade Urbana para
as Pessoas com Deficiência Física‖ (LIMA et al, 2013), traz a discussão da
acessibilidade. No mesmo ano o trabalho ―Para desacostumar o olhar sobre a
presença do indígena no urbano‖ (STOCK e FONSECA, 2013) discute a presença
do índio na cidade e as questões que se colocam a partir disso. Em 2014, no artigo
―Relações estéticas de catadores de material reciclável com a cidade: os passos da
pesquisa‖ (BARBOZA e ZANELLA, 2014), vai ser trabalhado o tema dos catadores
de material reciclável. Em 1990, um artigo, e em 2013 três artigos, nessa ordem,
―Gabriel Moser e a Psicologia da vida urbana‖ (JOCKYMAN, 1990), ―Arte, loucura e
cidade: a invenção de novos possíveis‖ (LIBERATO e DIMENSTEIN, 2013),
―Cidades sutis: dispersão urbana e a rede de saúde mental‖ (COSTA e FONSECA,
2013) e as ―As crianças na cidade e o acompanhamento terapêutico‖ (MEIRA,
2013), ligam, tanto a psicologia ao campo de estudo dos processos de urbanização,
como trazem a discussão ligada à psicologia, a da saúde mental, atrelada ao urbano
em suas temáticas.
3.2 Urbano: espaço de controle, adaptação e sentimentos dos indivíduos
Algumas
produções
selecionadas
neste
trabalho
trazem
problemas
direcionados a questões ligadas às ciências naturais, abordam o urbano como um
espaço de controle, adaptação e sentimentos dos indivíduos, com problematizações
que se norteiam pela adequação do indivíduo ao espaço (BOMFIM et al.,1987;
MACHADO, 1990; JOCKYMAN, 1990; PÁRAMO, 2010; VIEGAS et al., 2014). Nessa
vertente se defende a existência de uma maneira natural e mais saudável de habitar
os espaços urbanos, sendo preocupação da ciência desvelar o modo funcional e
adequado de transitar na cidade e descobrir técnicas de manutenção de
comportamentos que propiciem a adaptação dos sujeitos a esse território.
O texto ―´Acaba Mundo`: da proposta de urbanização a um projeto de
ecologia humana em favela‖ (BOMFIM et al, 1987) traz a descrição de um projeto de
intervenção urbana numa periferia do estado de Minas Gerais e descreve as
principais dificuldades enfrentadas por aquela população, assim como a postura da
universidade diante da demanda do projeto de urbanização daquele local. O artigo
37
questiona as condições ambientais daquele espaço urbano concluindo que a
universidade precisa montar um projeto de ecologia humana que modifique a
situação ambiental dos indivíduos daquela comunidade, focando principalmente nos
quesitos higiene e limpeza. Assim, os pesquisadores entendem que aquele território
urbano precisa de técnicas de autocuidado, que higienizem aquela população,
conduzindo suas práticas e ensinando-os a viver. (BOMFIM et al,1987).
À medida que fomos realizando a leitura dos outros materiais e nos
debruçando sobre o conjunto de publicações que possuem como temática a
discussão dos processos de urbanização, nos deparamos constantemente com
outros materiais que colocam como problema a adaptação do indivíduo ao urbano,
trazendo questões que naturalizam a cidade como um cenário onde o humano se
comporta e se adapta, ou assim deveria. Alguns dos outros trabalhos escritos
posteriormente abordam a temática dos processos de urbanização de modo
semelhante no que se refere ao tipo de problema que discutem, alguns deles
apontando as questões urbanas e compreendendo que a maneira como os espaços
urbanos são geridos é natural e adaptável. (MACHADO, 1990; JOCKYMAN, 1990;
PÁRAMO, 2010; VIEGAS et al., 2014).
No artigo que inicia nosso estudo, supracitado, essa questão sobre como criar
formas de higienização e adaptação urbanas aparece de forma explícita na
colocação do problema como é exemplificado na citação a seguir:
Nesse momento, a questão nos parece ser: como resolver o
problema dos favelados, sem que haja o emprego de tratores e
outros métodos violentos, garantindo-lhes não apenas a posse da
terra, mas também as condições (de higiene) para permanecerem no
espaço ocupado sem serem obrigados pela especulação imobiliária a
irem favelar em outro lugar? (BOMFIM et al, 1987, p. 69).
Os trabalhos intitulados ―Gabriel Moser e a psicologia da vida urbana‖
(JOCKYMAN, 1990) e ―Proprietários e posseiros urbanos: interações‖ (MACHADO,
1990), colocam a questão como um problema de adaptação. O primeiro é uma
produção que consiste numa entrevista com um psicólogo especialista em
Psychologie Environnementale Gabriel Moser. O texto traz como problema a
necessidade de detectar, diagnosticar e elaborar prognósticos sobre as disfunções
comportamentais que afetam as cidades e ressalta a importância de um projeto de
controle social eficiente que atue nas regiões pobres das grandes cidades a fim de
solucionar a questão da violência e do vandalismo:
38
As sobrecargas decorrentes das periferias das grandes cidades
exige esforços múltiplos de adaptação. A história da humanidade nos
mostra que somos capazes de nos adaptar a condições muito
diferentes daquelas onde nossos ancestrais evoluíram. O problema
está em saber qual o custo dessa adaptação. (JOCKYMAN,1990, p.
186).
O texto ―Proprietários e posseiros urbanos: interações‖ (MACHADO, 1990)
problematiza o espaço urbano enfocando a relação entre proprietários e posseiros
de um espaço urbano como uma relação de interação social. O trabalho busca
analisar essas interações urbanas a fim de compreender os mecanismos que geram
conflitos entre esses dois grupos: os favelados e os proprietários do espaço onde a
favela foi construída. Preocupando-se em analisar uma mostra representativa dessa
população, compreende a relação entre proprietários e posseiros como resultado de
posicionamentos e sentimentos divergentes que produzem o problema da favela:
Posseiros e proprietários urbanos, de acordo com o que enunciam em
seus respectivos discursos, mantêm entre si relações de contenda;
cada parte em litígio é capaz de justificar suas ações e sustentá-las
numa lógica que lhe é própria. O adversário é representado como o
inimigo e nele localizado o problema da favela (MACHADO, 1990, p.
9).
Em 2010, um artigo intitulado ―Aprendizaje situado: creación y modificación de
prácticas sociales em el espacio público urbano‖ (PÁRAMO, 2010), vai problematizar
o urbano como um espaço de adaptação orientado por contingências sociais. O
artigo traz como questão a importância de se analisar as causas e consequências
dos comportamentos urbanos e a necessidade de se considerar uma aprendizagem
social determinada por regras. Assim, apresenta como estratégia de melhora da
convivência no espaço urbano um modelo de programação de contingências
independentes para o estabelecimento técnicas de autorregulação que resultem na
aprendizagem de comportamentos socialmente desejáveis no ambiente urbano,
assim, toma como questões:
O que faz com que um cidadão que se autorregule não dependa da
presença da autoridade? O que fazer para que esta autorregulação
seja comum a todos os cidadãos? Qual é o papel do espaço público
na aprendizagem e manutenção de uma prática social como a do
comportamento urbano responsável? Por que a recusa em chamar a
atenção de um conterrâneo? (PÁRAMO, 2010, p. 132, tradução
nossa).15
15
Qué hace que um cidadano se autorreguley no dependa de La presencia de La autoridad? Qué
hacer para que esta autorregulacón sea común a toda La ciudadanía? Qué papel juega el espacio
39
Passando-se quatro anos, a perspectiva adaptacionista do espaço urbano
figura mais uma vez nas problematizações da psicologia sobre a produção do
espaço urbano. O artigo ―Um oásis urbano: dois estudos das interações pessoaambiente na praça Kalina Maia, Natal/RN‖ (VIEGAS et al, 2014) enfatiza sua
articulação com a psicologia ambiental e apresenta dois estudos que abordam,
respectivamente, as atividades de lazer e a socialização de idoso nesta praça. O
artigo ressalta a importância do acesso das pessoas a ambientes não construídos
como uma estratégia de manutenção do equilíbrio físico e mental. Assim, o trabalho
traz essa questão a partir da citação de autores que compõem seu referencial
teórico:
[...] a literatura no campo da Psicologia Ambiental ressalta a
importância do ser humano usufruir de áreas não construídas para
manter seu equilíbrio físico e mental, em especial as que permitem
contato com a natureza, que, além de produzirem afastamento dos
estressores urbanos, alimentam o simbolismo, a liberdade e o prazer,
funcionando como ambientes restauradores da saúde (GEHL, 2007;
KAPLAN; KAPLAN & RYAN, 1998; KORPELA et al., 2010; RYAN et
al., 2010; THOMPSON, 2007 apud VIEGAS et al 2014, p. 306).
Esse conjunto de trabalhos nos mostra essa perspectiva do urbano como algo
externo ao sujeito, ao qual ele se adapta ou não se adapta. Esta questão tem uma
força nas nossas análises de psicologia, atravessando sua história na produção dos
processos de urbanização.
3.3 A constituição do urbano como um espaço de produção subjetiva e
construção social
Para
situar
o
modo
como
algumas
produções
da
psicologia
que
apresentaremos adiante rompem com práticas adaptacionistas e individualistas,
assim como nas condições que possibilitaram à psicologia problematizar o social e
considerar a subjetividade na produção do urbano, antes de apresentar os materiais
que trabalham nessa perspectiva, traremos algumas reflexões de Nikolas Rose para
pensar as manutenções e rompimentos com tais práticas.
Rose (1996) aponta para a relação histórica da psicologia com práticas
naturalizantes dos seus objetos quando coloca que sua tradição científica prescinde
uma preocupação com produções que buscam evidenciar processos históricos que
público em el aprendizaje y mantenimiento de uma practica social como La de comportamientos
urbano responsables? Por qué el rechazo al llamado de atención Del conciudadano?
40
vão sendo tomados como naturais, como, por exemplo, a maneira como se narra a
sua própria história (ROSE, 1996). O autor afirma que não é raro nos depararmos
com textos que tratam da história da psicologia afirmando que esta tem um longo
passado e uma história curta. No entanto, esse longo passado se justifica por fazer
parte de uma tradição de especulação sobre a natureza humana e as doenças da
alma. Já sua história curta se refere ao seu rompimento com a metafísica, com a
especulação e ao seu reducionismo que se deu a partir da adesão ao ―método
experimental no século XIX‖ (ROSE, 1996).
Rose (1996) diz que esse modo de fazer ciência, evidenciando questões
históricas, é carregado de uma ―ingenuidade epistemológica‖ (ROSE, 1996) que
parece tão desejável quanto olhar para os interesses dos cientistas que escrevem
essas histórias. E assinala a importância de avaliar o papel decisivo que esses
textos históricos têm na construção da imagem e da realidade e, por assim dizer, na
formação de todos os estudantes da disciplina.
Georges Canguilhem (1968, 1977 apud ROSE, 1996) afirma que essa
maneira de construir o saber é um caminho para se contar uma ―história recorrente‖
(ROSE, 1996). Ele diz que esse modo de abordar os fatos históricos tem a ver com
uma necessidade dessas ciências de se identificar com concepções passadas a fim
de estabelecer uma unidade de saber, construindo uma tradição de busca contínua
de compor e acumular os conteúdos dos fenômenos estudados. Assim, essa ciência
vai se construindo, ignorando todos os processos históricos e sociais e se
prendendo às construções históricas especificas de pensadores do passado. De
acordo com Rose (1996):
É inevitável que, a partir dessa perspectiva, o objeto de uma ciência
– a "realidade" que ela procura fazer compreensível – pareça
ahistórica e associal. Há antecipadamente às tentativas para estudálo, sempre existiu da mesma forma, e todos esses pensadores do
passado estavam girando em torno de uma realidade que
permaneceu a mesma. Portanto, o trabalho desses pensadores
podem ser dispostos em uma história em ordem cronológica, o que
corresponde a um progresso para o objeto. Qualquer alteração dessa
evolução uniforme pode se reintegrar à narração através das noções
de precursor, gênio, preconceito e influência.16 (ROSE, 1996,
tradução nossa).
16
Es inevitable que, desde esa perspectiva, el objeto de una ciencia —la ―realidad‖ que ella procura
hacer inteligible — parezca ahistórica y asocial. Existe con antelación a los intentos de estudiarlo,
siempre existió en la misma forma, y todos esos pensadores del pasado estuvieron dando vueltas
alrededor de una realidad que siguió siendo la misma. Por ende, los trabajos de esos pensadores se
41
A partir do ano de 1997 vemos que começam a aparecer as primeiras
publicações que rompem com esse modo de fazer história e ciência. São trabalhos
que reivindicam nos seus problemas uma relação histórica, narrada a partir da
relação do sujeito com o espaço. Nessas produções as problematizações em torno
do urbano partem de uma relação com a subjetividade. Nos problemas que
discutem, a cidade aparece como produto da relação subjetiva do sujeito com o
espaço.
O primeiro trabalho abordado nessas publicações a considerar essa relação é
intitulado ―O que querem da cidade, as adolescentes?‖ (CASTRO, 1997). Este artigo
aborda a cidade como um espaço de possibilidades subjetivas que vão sendo
construídas à medida que se ampliam as práticas de participação social,
pertencimento e identificação. O artigo questiona o que a cidade do Rio de Janeiro
propicia para suas moradoras adolescentes e advindas de diferentes experiências
culturais. E conclui que é necessário problematizar radicalmente a vida coletiva e a
maneira como a cidade tem configurado as formas de convivência nos espaços
urbanos:
Assim, a rua parece ter se esvaziado de qualquer sentido mais amplo
de convivência social, que contemporaneamente migrou para outros
espaços fechados, como os shoppings, os bailes e os cinemas.
Certamente desmorona-se o sentido da rua como espaço de
encontro. (CASTRO, 1997, p. 89).
O próximo artigo que questiona a cidade como um espaço produzido pela
subjetividade se trata de um texto intitulado ―Jovens em situação de rua: espaço,
tempo, negociações de sentido‖ (MATIAS, 2011). O trabalho é formulado a partir de
uma pesquisa realizada com um grupo de jovens em situação de rua por três meses.
É um trabalho que debruça seu olhar sobre o urbano a partir de uma relação entre a
cidade e a subjetividade, destacando sua construção a partir dos sentidos atribuídos
pelos jovens ao seu espaço:
Este relato pretende que os sentidos que a rua assume hoje – risco,
inclusive – também têm história, que o processo de sua construção
está intrinsecamente relacionado à condição social da rua, como um
espaço de negociação em que um grupo, num regime específico de
ocupação do espaço, enfrenta dificuldades, também histórica e
socialmente construídas, no esforço de produzir suas próprias formas
pueden ordenar en un relato organizado cronológicamente, que corresponde a un avance hacia el
objeto. Cualquier alteración de ese avance uniforme se puede volver a integrar a la narración
mediante las nociones de precursor, genio, prejuicio e influencia.
42
de existência; o que, por sua vez, implica outras consequências
sociais, psicológicas e físicas. (MATIAS, 2011, p. 237).
No artigo ―Tribos urbanas: os processos coletivos de criação no graffiti‖, de
Furtado (2012), o urbano é problematizado como um espaço produzido pela
subjetividade. A intervenção dos grafiteiros na cidade é tratada como um processo
de criação coletiva e expressão de novas formas de viver nos espaços urbanos.
Assim, o artigo assinala que a relação entre os grafiteiros e a cidade depende de
intervenções conjuntas e trocas afetivas que permitam reinventar a cidade e eles
mesmos.
[...] os grupos de graffiti são menores e se definem como um grupo
de amigos que se vincula pela prática comum do graffiti com a qual
também almejam reconhecimento e visibilidade, porém, por meio de
relações outras. As crews de graffiti se organizam, entre outros
motivos, em função desse vínculo social e dos seus sentidos para os
integrantes. (FURTADO, 2012, p. 221).
Todos os seis artigos de 2013 consideram a constituição mútua entre sujeito e
espaço, assim tratam da cidade como um espaço produzido pela subjetividade como
veremos a seguir. ―As crianças na cidade e o acompanhamento terapêutico‖
(MEIRA, 2013), busca compreender o urbano como um cenário do qual a psicologia
pode tomar auxílio ao processo terapêutico infantil. O artigo apresenta experiências
e reflexões sobre a cidade como um espaço que gera sentimentos, relações e
aprendizagens e podem contribuir no tratamento psicológico infantil. O texto não traz
o urbano como tema, mas aborda a temática da saúde mental na cidade, o que
possibilita pensar uma questão tradicional da psicologia e das análises mais
individualizantes: a saúde mental das crianças articulada ao espaço urbano. Sendo
assim, este nos permite pensar essa relação numa perspectiva que discuta sujeito e
espaço.
Neste trabalho, rompem-se os diagnósticos que marcam o sujeito,
muitas vezes alienados na medicalização, sendo transfigurados no
momento em que a subjetividade encontra novas referências e novos
laços. No anonimato da metrópole, a história singular, inúmeras
vezes amarrada a signos diagnósticos, dá lugar a novas imagens
possíveis do encontro com o outro. (MEIRA, 2013, p. 42)
O outro trabalho é intitulado ―Repercussões da acessibilidade urbana para
pessoas com deficiência física‖ (LIMA et al, 2013) e fundamenta-se na ideia de
urbano como um cenário de vivência, necessidades e aprendizagens para pessoas
com deficiência. Desta forma são feitas entrevistas com oito cadeirantes, moradores
43
do espaço urbano, a fim de analisar quatro categorias: apropriação do espaço
urbano e vivência do sentimento de autonomia versus dependência; experiências no
espaço urbano; limites e superações; e importância da acessibilidade urbana para o
processo de inclusão social.
Dessas vivências do indivíduo, inclusive baseadas em fatos descritos
por outros, emergem valores e sentimentos que implicam nos
significados, no sentimento de pertencimento ou repulsa e nos
vínculos emocionais sobre esse ambiente. O que nos faz
compreender que experiências negativas com a cidade podem
dificultar a construção desses sentidos de pertença. (FREITAS &
SANTOS, 2013, p. 364).
O trabalho intitulado ―Para desacostumar o olhar sobre a presença do
indígena no urbano‖ (STOCK e FONSECA, 2013) traz o termo ―Cidade Subjetiva‖ (p.
283) para explicar a noção de urbano sustentada na sua análise, entendendo,
portanto, a cidade como um espaço de coexistências em que os diferentes grupos
se apropriam de forma singular da construção desse urbano. As autoras explicam
essa noção do urbano como um espaço subjetividade e produção social a partir da
seguinte citação:
[...] pode ser pensada no sentido de uma obra de arte coletiva, visto
ser o espaço não apenas organizado e instituído, mas também
esculpido, apropriado por este ou aquele grupo. O urbano
corresponde a uma forma de encontro e dispersão dos elementos da
vida social. (STOCK e FONSECA, 2013, p.283 apud FONSECA,
2003, p. 256).
Os outros três artigos de 2013 que trabalharam o urbano a partir dessa
perspectiva de produção subjetiva são: ―Arte, loucura e cidade: a invenção de novos
possíveis‖ (LIBERATO e DIMENSTEIN, 2013), ―The cities of need: capitalism and
subjectivity in the contemporary metopolis‖ (BAPTISTA, 2013) e ―Cidades sutis:
dispersão urbana e a rede de saúde mental‖ (COSTA e FONSECA, 2013). O
primeiro artigo supracitado trabalha a partir de uma perspectiva de urbano como um
espaço que pode ser vivenciado por meio da arte. O objetivo principal do trabalho é
discutir as possibilidades da arte no contexto da desinstitucionalização. Desse modo,
o urbano aparece como cenário de reflexão sobre as possibilidades da saúde mental
articuladas à arte, alavancadas por meio de um projeto intitulado ―Projeto arte e
saúde‖, que promove ações que buscam tratar a arte como um meio de lidar com a
diferença e vivenciar a cidade.
44
Tomamos como premissa básica debater sobre os espaços
construídos no território urbano que possibilitam o contato com a
diferença, apresentando a arte como estratégia de potencialização
de novos modos de existência e de lutas coletivas, bem como
questionamo-nos acerca dos embates e encontros que os espaços
da cidade, através da articulação de diferentes redes, podem
possibilitar na construção de outros modos de relação com a
diferença. (LIBERATO e DIMENSTEIN, 2013 p. 273).
O artigo ‖The cities of need: capitalism and subjectivity in the contemporary
metopolis‖ (BAPTISTA, 2013), baseado nos estudos de Walter Benjamim, entende o
espaço urbano como um espaço de produção subjetiva e se propõe a uma reflexão
sobre as articulações entre capitalismo contemporâneo e subjetividade. Assim,
ressalta nas suas análises a descartabilidade das relações sociais, a busca
insaciável do prazer, a indiferença e o individualismo.
Tradicionalmente, a Psicologia Social dicotomiza os pares: cidadesubjetividade e mobilidade-sujeito. O principal efeito desta
dicotomização é que a cidade é considerada como um ambiente que
intervém ou se relaciona com o mundo interior, como se a
materialidade urbana não contivesse, nas suas linhas, as formas
singulares de viver o tempo, de dar sentido para o corpo, à alteridade
e para nós mesmos. 17(BAPTISTA, 2013, p. 54, tradução nossa)
No artigo ―Cidades sutis: dispersão urbana e a rede de saúde mental‖
(COSTA e FONSECA, 2013) os autores utilizam a perspectiva de urbano como um
processo de construção subjetiva que eles propõem compreender articulado à rede
de assistência em saúde mental da cidade. Assim, através de um percurso
genealógico o artigo problematiza as transformações da cidade e suas atuais
práticas de assistência em saúde mental:
A visibilização desta rede de condições de possibilidade serve,
assim, para problematizar a cidade e a reforma psiquiátrica em seus
rumos atuais, permitindo-nos pensar outras estratégias para intervir
neste campo de tensões a partir do agenciamento entre urbanismo e
clínica sem reduzir um ao outro, mas antes formando novos
hibridismos entre eles. (COSTA E FONSECA, 2013, p. 28).
O texto ―Primavera urbana: a ilha deserta interroga multidões‖ (SILVA e
BAPTISTA, 2014) a partir de uma perspectiva foucaultiana, fazendo conexões com
sua estética da existência, se propõe a análise da narrativa apresentada pelo
romance de Robinson Crusoé, a fim de debater as implicações éticas e políticas do
17
Traditionally, Social Psychology dichotomizes the pairs: city-subjectivity and mobility-subject. The
principal effect of this dichotomization is that the city is regarded as an environment which intervenes
or relates with the inner world, as if the urban materiality did not contain in its lines the singular forms
of living the time, of giving sense to the body, to the alterity and to ourselves.
45
fazer científico no campo da psicologia frente à formas contemporâneas de
resistência ao capitalismo.
Que doravante comentar o estado atual das coisas não está
separado da ação de produzir novos sentidos possíveis para elas,
sentidos antes impensáveis, de tal maneira que é preciso tornar-se
outro para pensá-los. Conhecer deixa de ser uma questão de mera
percepção passiva do que está dado para aproximar-se da narrativa.
Contar a história do mundo em transformação significa tomar parte
na sua usinagem. (SILVA e BAPTISTA, 2014, p. 34).
Ainda, um outro artigo que trabalha a partir dessa visão da subjetividade
como um espaço de produção do urbano foi identificado em 2014 e se chama
―Relações estéticas dos catadores de material reciclável com a cidade: os passos da
pesquisa (BARBOZA e ZANELLA, 2014). Nesse artigo o urbano é tratado também
como um espaço produzido por uma relação subjetiva. Se propõe a apresentar e
discutir a relação entre catadores de material reciclável de uma cidade com a
polifonia urbana. Assim, buscou-se a compreensão dos significados que os
catadores de materiais recicláveis atribuem a cidade.
Afinal, falar das cidades é falar de subjetividades, posto que pessoas
fazem as cidades cotidianamente, assim como estas as constituem.
As cidades com suas linguagens plurais, conclamam ao convívio do
inusitado, para além do supostamente ―fixado‖ por suas delimitações
territoriais. (BARBOZA e ZANELLA, 2014, p. 54.).
Alguns trabalhos, mais ligados a autores que trabalham com uma perspectiva
social como Foucault, Deleuze, Guattari, Walter Benjamin, trazem a temática do
urbano como um espaço de problematização. Nessas perspectivas o espaço e a
subjetividade também se constroem mutuamente, mas a noção que esses teóricos
trazem é de uma construção constante.
O artigo de Rodrigues e Baptista (2010), intitulado ―Cidades-imagem:
afirmações e enfrentamentos às políticas de subjetividade‖, trata do urbano como
uma articulação entre subjetividades e espaço. O trabalho se utiliza de imagens de
Paris de Haussmann, das cidades invisíveis de Ítalo Calvino e Nápoles, tomando as
articulações do filósofo alemão Walter Benjamin para análise dessas imagens. O
artigo se propõe a descobrir o que essas cidades-imagem afirmam e como elas
contribuem para o campo de estudos da subjetividade.
Diferentemente dessa perspectiva, propomos adentrar as questões
que concernem às articulações entre subjetividade e espaço através
de sua tessitura co-constitutiva, e não de modificações que se
abatem sobre duas realidades epistemológica e ontologicamente
46
distintas. Em outras palavras, propomos uma análise dos processos
que narram as tramas e embates que constituem o indivíduo –
enquanto suporte hegemônico da experiência moderna – e o espaço
ordenado e racional das grandes cidades. (RODRIGUES E
BAPTISTA, 2010, p. 423).
Apesar de haver uma grande quantidade de trabalhos, especialmente a partir
do ano de 2010, que compreendem a relação do sujeito com o espaço com uma
relação co-constitutiva, que não prescinde um dentro e um fora, um biológico e um
social ou uma subjetividade (privada) e um ambiente (público), essa discussão é
longa e constitutiva da psicologia de modo que perpassa todas as suas práticas.
3.4 Relações dicotômicas na produção do urbano
Nessa história das produções da psicologia sobre o urbano, vemos alguns
trabalhos que vão fazer apontamentos interessantes que se dão tanto no sentido de
naturalizar dicotomias na relação entre o público e o privado, como posicionamentos
críticos sobre essa questão.
Rose (2008) faz um apanhado dessa construção histórica da psicologia
atrelada a dicotomias, afirmando que o século XX foi o século da psicologia. E que,
a partir de sua noção de self, não só se consolida como ciência, como também
introduz a compreensão de subjetividade como autonomia, identidade, liberdade e
realização pessoal. Isso levou a uma psicologização da vida coletiva que se
estendeu a várias áreas sobre as quais a psicologia se debruçou. O autor afirma
ainda que esse processo de disseminação da psicologia, no entanto, iniciou-se
como uma tecnologia de individuação, pela qual a psicologia lançou mão de técnicas
de medição para avaliar comportamentos normais e patológicos.
Posteriormente, nas décadas de 1930, 1940 e 1950, essas técnicas de
individuação vão encontrar espaço em práticas coletivas com técnicas de modelação
de atitudes dos sujeitos que os preparassem para atender as demandas que
atendessem aos valores democráticos da sociedade liberal, pluralista e individualista
ocidental. O grupo, então, aparece como uma tecnologia de treinamento de
trabalhadores dóceis e disciplinados para se engajarem nas fábricas e,
posteriormente, nos anos 1980, se tornou a principal técnica de especialistas em
psicologia da empresa e sua difusão de técnicas de self atreladas a pressupostos
neoliberais (ROSE, 2008).
47
Essa dicotomia que atravessa a produção das revistas e as discussões da
psicologia entre individual/social é uma outra questão constante nos materiais de
análise que aparecem sob a forma de espaço público/privado.
Em alguns artigos observamos que se destaca essa relação entre espaço
público e espaço privado como lugares de segurança e perigo, respectivamente. No
artigo de Lúcia Rabello de Castro (1997), ―Afinal, o que querem da cidade as
adolescentes?‖ identificamos nas suas reflexões de análise a produção de uma
crítica à rua como um espaço perigoso e à casa como um espaço naturalmente
protegido,
justificado
pelos
sentimentos
familiares
e/ou
de
funcionamento
comportamental feminino:
Decorrentes desses dois aspectos – obrigações/afazeres e solidão –
que parecem aglutinadores das significações que a espacialidade
―casa‖ parece mobilizar, coloca-se a imobilidade, compreendida aqui
como a fixidez e a permanência que a casa oferece tanto para a
realização de projetos (o estudar, por exemplo), como também o
poder de estar consigo mesma, sem os lufa-lufas que o estar fora de
casa propicia (CASTRO, 1997, p. 88).
A autora observa essa relação na análise que faz sobre as adolescentes e
suas possibilidades de participação social na cidade. Aqui o espaço da casa e a rua
adquirem significados opostos. Enquanto a casa é tomada pela ideia de espaço de
construção, tranquilidade, solidão, a rua é construída por uma noção oposta, de
desconforto, de bagunça.
Um outro trabalho que traz essa problematização é ―Cidades sutis: dispersão
urbana e a rede de saúde mental‖ (COSTA e FONSECA, 2013). Aqui esta questão
vai ser trazida a partir da relação dos hospitais psiquiátricos com a rua:
Da construção de espaços de fechamento para os que fugiam aos
padrões de urbanidade desejados pelos que planejavam e
financiavam a cidade, para que estes pudessem habitar os espaços
públicos destinados à socialização dos cidadãos de respeito,
passamos agora para a cosntrução de espaços de fechamento que
permitam a socialização segura no seu interior. As grades e muros
deixam de ser um isntrumento de aprisionamento dos fluxos no seu
interior para se tornarem, em uma reversão, instrumentos de
fortaleza que impedem a entrada dos fluxos externos em uma
interioridade planejada para o convívio entre iguais. (COSTA E
FONSECA, 2013, p. 26).
Assim, o texto aponta uma questão interessante para pensar como essas
estratégias de segurança foram tomando um percurso inverso. Os dispositivos para
aprisionar pessoas que podiam causar algum dano fora dos espaços fechados, que
48
antes serviam para manter pessoas presas no interior de suas casas ou hospitais,
agora toma o sentido de coibir a entrada de pessoas nesses espaços. A partir disso
é possível pensar no quanto a rua, e todos a quem ela comporta são tomados como
algo perigoso, de modo que a noção de perigo não está somente em ir para rua,
mas na possibilidade de receber essa rua, de ser invadido por ela.
A citação seguinte traz mais uma problematização dessa questão. Apesar de
ser um texto ligado a práticas mais individualizantes, faz um apontamento
interessante em relação a arquitetura urbana, seus portões, seus muros altos e o
trajeto segregado que se faz com o carro em direção a rua como uma estratégia de
segregação e produção dessa divisão entre o público e o privado. O autor diz que:
A cidade Brasileira é estruturada de maneira semelhante às
aglomerações norte-americanas: um centro comercial com grandes
edifícios, cercado de grandes extensões de residências particulares.
No Brasil esses imóveis contam com extrema segurança
(condomínios). Uma tal estrutura urbana faz com que os residentes
peguem seu carro, saiam da garagem e se dirijam para o
estacionamento do seu local de trabalho ou para o supermercado.
Conhecem seus vizinhos? Esse modo de vida aumenta a
segregação social e impede todo o contato entre indivíduos de
origem diferentes, daí a desconfiança com todos que vem de fora, os
estranhos, os estrangeiros. (JOCKYMAN, 1990, p.188).
Retomando o texto do artigo ―Afinal, o que querem da cidade as
adolescentes‖, similarmente às questões dos outros textos que apontam essas
mudanças em relação ao que a rua era e no que ela se tornou, observamos um
trecho que diz que antes a rua era um lugar para se fazer amigos, circular, ponto de
encontro, etc. (CASTRO, 1997). Articulamos os questionamentos desses textos à
discussão de Caldeira (1997) que traz uma perspectiva importante sobre essas
transformações que passaram a constituir o urbano. Para explicar esse processo, a
autora traz como exemplo os desencadeamentos históricos pelos quais esse
processo de urbanização segregacionista se inscreve na cidade de São Paulo,
apontando que, nessa cidade, no início do século, apesar dos ricos viverem em
casas confortáveis e os pobres ocuparem os cortiços, os diferentes grupos sociais
ocupavam espaços próximos uns dos outros nas áreas urbanas. A separação
geográfica entre esses grupos iniciou-se a partir da década de 40, quando se divide
a cidade entre regiões centrais e periféricas. Assim os ricos passam a ocupar as
áreas com infraestrutura, os bairros centrais da cidade, enquanto os pobres viviam a
precariedade da periferia (CALDEIRA, 1997).
49
Nos últimos anos os processos políticos, sociais, econômicos e culturais que
ocorreram em várias cidades do mundo mudaram as configurações pelas quais
esses grupos sociais se inscreviam no urbano nas décadas anteriores. Desse modo,
a segregação urbana passou a existir de um modo diferente, em outros moldes.
Deixou de dizer respeito a distâncias físicas e passou a ser tratada a partir de uma
série de mecanismos complexos de separação entre ricos e pobres. A rua passou a
ser o espaço dos pobres enquanto se investe em espaços construídos e voltados
para o interior (CALDEIRA, 1997).
A autora destaca que sob a ótica da tranquilidade e da segurança, temos
acompanhado o desenvolvimento dos novos desenhos da cidade, em que se
sobressaem edificações para moradia, trabalho, consumo e lazer em espaços que
são privatizados e envoltos por sistemas elaborados de seleção e bloqueio de
qualquer possibilidade de contato com a rua e com seus transeuntes: pobres,
perigosos, vagabundos.
Desta maneira, esses processos de exclusão, de opressão, de preconceito
que têm sido naturalizados e reproduzidos nas problemáticas trazidas por essas
produções da psicologia negam as condições e possibilidades sociais, históricas,
culturais e materiais que governam a produção dos espaços urbanos. Esses
processos, assim como são evidenciados em várias temáticas e problemas dos
trabalhos, são também constituintes de sua construção metodológica, como
veremos no capítulo seguinte.
50
4. ESTRATÉGIAS DE PRODUÇÃO DE SABER SOBRE O URBANO
Este capítulo corresponde ao segundo objetivo específico desta pesquisa.
Nele procuraremos identificar quais referenciais teóricos e métodos a psicologia
toma para discutir os processos de urbanização. Nos voltaremos à discussão de sua
construção de saberes e de quais aspectos teórico-metodológicos estão implicados
nessa produção. Desse modo, reafirmamos que, ao nos propormos a análise desses
materiais que tratam da produção da psicologia sobre os processos de urbanização,
nosso objetivo é problematizar esses materiais como uma produção social e
histórica que mobiliza e produz subjetividades.
Refletiremos, neste capítulo, sobre as legitimações e rupturas na produção
teórica da psicologia. Procuraremos discutir os princípios teórico-metodológicos pelo
quais a psicologia tem se norteado na abordagem dos processos de urbanização e
sua produção em torno dos projetos de construção dos espaços urbanos na cidade.
Serão analisadas as formas pelas quais os discursos das diversas
construções científicas que fundamentam essas práticas afirmam e dão visibilidade
a determinadas concepções de sujeito. Assim, nos debruçamos sobre a análise dos
argumentos e os saberes convocados e autorizados pela psicologia para corroborar
a construção dos territórios urbanos.
Das publicações selecionadas, nove deixaram explícita no texto a abordagem
teórico-metodológica adotada: ―por isso, é possível fazer uma abordagem às
práticas
culturais
que
estão
no
espaço
público
urbano
a
partir
das
metacontingências18‖ (PÁRAMO, 2010, p. 133, tradução nossa), ―propomos articular
subjetividades e espaços através de imagens, estas compreendidas no sentido que
delas podemos apreender a partir dos escritos do filósofo alemão Walter Benjamin.‖
(RODRIGUES e BAPTISTA, 2010, p. 422), ―foram analisadas a construção sóciohistórica da condição da rua e as práticas de espaço desses jovens[...]‖ (MATIAS,
2011, p. 237), ―através de breve genealogia dos movimentos que tomaram tais
espaços, operamos a problematização das transformações nesta cidade[...]‖.
(COSTA e FONSECA, 2013, p. 21), ―As ferramentas conceituais propostas por
autores da Filosofia da Diferença, assim como as formulações atuais da antropologia
acerca do perspectivismo ameríndio, levam-nos a refletir [...]‖ (STOCK e FONSECA,
18
Por ló anterior es possible hacer uma aproximacíon a las prácticas culturales que se sitúan em el
espacio público urbano a partir de las metacontingencias.
51
2013, p. 282), ―Inspirado por Walter Benjamin, entre outros pesquisadores, o autor
apresenta [...]‖ (BAPTISTA, 2013, p. 54), ―A pesquisadora principal percorreu, junto
aos e com os sujeitos desta pesquisa, itinerários diversos, em uma perspectiva
dialógica que a constituiu [...].‖ (BARBOZA e ZANELLA, 2014, p. 53), ―[...] com
destaque às possíveis conexões entre uma estética da existência, tal como proposta
por Michel Foucault [...]‖ (SILVA e BAPTISTA, 2014, p. 25), ―a investigação associou
observação comportamental (mapeamento e análise de vestígios comportamentais),
entrevista e diário de campo da pesquisadora‖ (VIEGAS et al., 2014, p. 307). Desses
trabalhos, dois são referenciados pela psicologia comportamental, e os demais são
trabalhados a partir de uma abordagem social. Na maioria dos artigos, aqueles que
não expuseram explicitamente sua abordagem de trabalho, a identificação das
teorias que, de alguma forma, se afinam com os artigos se deu pela identificação de
termos, autores e das metodologias adotadas nos textos e suas principais relações
teóricas dentro das escolas da psicologia.
Nas primeiras publicações, observa-se marcadamente a presença de termos,
conceitos e métodos vinculados a perspectivas naturalizantes e biologicistas na
abordagem dos trabalhos. Mesmo os trabalhos da revista Psicologia e Sociedade,
que tradicionalmente divulga materiais mais vinculados à psicologia social, na época
em que se iniciam os trabalhos da psicologia que abordam o urbano, é nítida a
prevalência de artigos que trabalhavam com influências das ciências naturais no seu
arcabouço teórico e metodológico, buscando evidenciar as questões que envolvem o
objeto urbano. Assim, temos em 1987 o trabalho ―‗Acaba Mundo‘: da proposta de
urbanização a um projeto de ecologia humana em favela‖ (BOMFIM et al, 1987), e
em 1990 ―Proprietários e posseiros urbanos: interações‖ (MACHADO, 1990),
identificados como ligados à psicanálise e
ao interacionismo, respectivamente,
nesses três primeiros anos da inserção do tema dos processos de urbanização na
produção da psicologia. Houve uma dificuldade em identificar o referencial teóricometodológico no primeiro trabalho, mas pelo que se pôde analisar, apesar da
presença de termos da psicanálise nas suas problematizações, propõe nas suas
conclusões um projeto de ecologia humana, que se vincula a uma perspectiva
interacionista do social.
Em 1990 e 2010 vemos dois trabalhos que referenciam a psicologia
comportamental na abordagem do urbano (JOCKYMAN, 1990; PÁRAMO, 2010). Um
52
publicado pela revista Psico e o outro publicado na Psicologia e Sociedade. O
primeiro artigo trata do urbano a partir da perspectiva da psicologia ambiental, que
compreende a cidade como um espaço de adaptação dos indivíduos. Dependendo,
assim, de padrões comportamentais para que determinadas sociedades possam ser
mais ou menos bem sucedidas. Já o segundo trabalho referenciado pela psicologia
comportamental segue a mesma perspectiva do urbano, que é a de cenário para a
implementação de contingências sociais que resultem numa melhor convivência
urbana. Nessas perspectivas apesar da discussão do urbano ser trabalhada como
tema, ele vai, a partir desses posicionamentos teórico-metodológicos, sendo
conduzida como cenário para a produção de comportamentos, como um ambiente
de adaptação dos sujeitos.
Em 1997 vemos o que, inicialmente, parece ser uma ruptura em relação aos
referenciais teórico-metodológicos na abordagem da temática dos processos de
urbanização. As teorias marcadas por práticas e métodos mais individualizantes
deixam de figurar entre as abordagens com as quais se problematiza as questões
urbanas e passam a compor as publicações as teorias que focam o social como
campo de análise. Assim, neste período temos um trabalho da revista Arquivos
Brasileiros de Psicologia que vai trazer uma construção metodológica que envolve o
social como campo de possibilidades subjetivas (CASTRO, 1997). Seguindo as
próximas publicações vemos que em 2010, a revista Psicologia e Sociedade
publicou um artigo que utilizou como referencial teórico e metodológico a Psicologia
social, com as ferramentas de autores que discutem e problematizam o social, como
Walter Benjamin (CABRAL e BAPTISTA, 2010). Esse texto abordou o urbano como
tema da pesquisa, entendendo este como uma articulação entre espaço e
subjetividade. Através de imagens, o trabalho se volta a uma produção de sentidos
sobre o espaço.
Com isso, vemos que o fato do tema ter sido discutido em duas abordagens
tão diferentes nesses primeiros anos de aproximação entre a psicologia e os
processos de urbanização sinaliza novos olhares e questões sobre essa temática
neste período. Isso permite pensar o quanto o urbano se aproximou das questões da
psicologia, ou melhor, como e quanto as questões da psicologia tem permitido
problematizar o urbano.
53
Em publicações posteriores, nos anos de 2011 e 2012, respectivamente, há
duas publicações que trabalham com referências que se aproximam dos estudos
sócio-históricos
(MATIAS,
2011;
FURTADO,
2012).
O
primeiro
traz
seu
posicionamento de vinculação a perspectiva sócio histórica e o segundo tem como
articulação os estudos de Vigotski e outros autores que alavancam os estudos
modernos. Nestes trabalhos, a noção de urbano é trabalhada como um espaço de
produção de sentidos para os jovens. A cidade é tratada como um espaço produzido
pelo sujeito e a partir dos sentidos que estes atribuem à cidade.
No mesmo ano, em 2012, segue um trabalho que toma as referências
teóricas e metodológicas de Foucault, Deleuze, Guattari e da psicologia social
(LIBERATO e DIMENSTEIN, 2012). No ano seguinte, mais um trabalho referencia a
psicologia social, trazendo autores como Benjamin e Agamben à discussão (MEIRA,
2013). Em 2013 há um outro trabalho que se utiliza da psicologia social (LIMA et al,
2013).
Após isso, as publicações posteriores selecionadas nesse estudo, vão
referenciar a psicologia social em um dos trabalhos de 2014 (BARBOZA e
ZANELLA, 2014) e a psicologia comportamental em outro trabalho do mesmo ano
(VIEGAS et al, 2014). Nas demais publicações selecionadas aparece a psicologia
social, sendo recorrente as referências de Foucault, Deleuze e Walter Benjamin
nessas produções.
Assim, acompanhamos que a maneira como a psicologia aborda os
processos de urbanização tem traços teóricos e metodológicos muito marcados a
depender dos contornos históricos que permeiam essas produções.
Nos percursos metodológicos que estes artigos tomam, identificamos que o
primeiro trabalho selecionado, ―`Acaba mundo`: da proposta de urbanização a um
projeto de ecologia humana em favela‖ (BOMFIM et al, 1987), segue a proposta de
fazer uma análise de documentos resultantes de reuniões da Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG) para um projeto de urbanização da favela ―Acaba Mundo‖.
As autoras identificam nesses documentos a existência de três vertentes principais
no olhar para esta urbanização no âmbito da Universidade:
1 – A Universidade não tem nada a ver com a favela. Esta é uma
questão dos órgãos estatais. 2 - A Universidade tem o domínio de
um saber que lhe permitiria centralizar decisões e apresentar
soluções sobre a questão de urbanização de favela, desde que para
isso, tivesse recursos financeiros. As favelas são vistas como quistos
54
sociais, que "necessitam de todo e qualquer apoio, auxílio ou serviço
que o governo ou as classes mais favorecidas possam e devam
oferecer" ( ... ) " ... somente as Universidades com todo o seu
potencial humano e o domínio do conhecimento das soluções
requeridas em qualquer dos graves problemas decorrentes da
proliferação destas comunidades carentes - tem condições de
coordenar e promover, a custos sociais compatíveis e desde que
suprida dos recursos financeiros indispensáveis, o encaminhamento
das soluções capazes de promover o desejado equilíbrio social".
Nesta perspectiva, o trabalho é participativo na Universidade e
realizado através "da experiência de seus professores, da
colaboração dos funcionários e da participação desinteressada de
seus alunos". A Universidade proporcionaria "aos carentes a ajuda
necessária a que emerjam do sub-mundo em que vivem para o
convívio da sociedade, a que de direito pertencem" 1. 3 - O trabalho
de urbanização de favela seria congestionado entre Universidade e a
comunidade favelada. Na troca de informação entre o saber
universitário e o saber da comunidade estaria presente a criação de
um espaço do dizer e do ouvir. Recursos financeiros, quando
existentes, seriam organizados e distribuídos de modo a evitar a
perversidade de que maior parte fosse aplicada com o pessoal
especializado e com os órgãos públicos, não alcançando a favela.
Este trabalho supõe o imediato envolvimento com a comunidade e a
equipe de intervenção auto-gestionada. (BOMFIM et al, 1987, p.
70).19
Vários saberes foram convocados para a produção desse projeto, que
carregou, de antemão, esses questionamentos que, por vezes, aproximavam a
comunidade do saber científico representado pela Universidade e, por vezes, a
distanciava desse espaço de saber. Dentre os saberes convocados para respaldar
práticas sobre o processo de urbanização daquele espaço estava o da psicologia
que, nesse trabalho, diante dessas diferentes vertentes pelas quais se propõe
produzir o urbano, se encarrega de questionar o espaço que a favela tem nesse
projeto de urbanização. Para isso envia estudantes a essa favela com o intuito de
compreender os desejos desses moradores e questionar ―o que o psicólogo tem a
dizer num processo de urbanização da favela? - onde "falta tudo"? Os moradores
receberam amavelmente a equipe de psicologia, esperando receber "alguma coisa"
dela, alguma coisa que satisfizesse suas necessidades ou desejos‖ (BOMFIM et al,
1987, p. 70).
Posteriormente, o trabalho analisa os relatos dos alunos e as entrevistas
feitas com moradores da comunidade, trazendo as coincidências e conflitos com os
pontos abordados nos documentos resultantes das reuniões que tratavam do projeto
19
No original, a nota de rodapé 1 pontua que essas informações provêem do Ante-Projeto UNI-F AV,
UFMG, 1986.
55
de urbanização proposto pela universidade. O trabalho concluiu, a partir do acesso
aos sentimentos dos sujeitos ―favelados‖ (BOMFIM et al, 1987, p. 71), que a melhor
estratégia estaria num projeto de ecologia humana, na favela, que dê conta de
produzir uma ―arte de viver‖ (BOMFIM et al, 1987, p. 79), higienizando o espaço.
O artigo não explicita o referencial teórico-analítico utilizado, mas usa termos
ligados à psicanálise, o que nos levou a relacioná-lo a esta abordagem:
[...] com efeito, cabe analisar o lugar que ocupamos dentro/fora da
instituição universitária - estamos inscritas nela e detemos um saber
que lhe é próprio, e dela nos afastamos quando estabelecemos
relações de transferência e de contra-transferência com os
favelados. (BOMFIM et al, 1987, p. 79).
Uma das questões que o trabalho aponta como preocupação é a produção
de um projeto de urbanização pela universidade que não leve em conta o desejo
dos moradores da favela, por isso a estratégia metodológica das escutas. No
entanto, a análise deste material, das falas dos moradores, vai produzir um
discurso científico, pela psicologia, baseado numa interpretação voltada ao âmbito
individual.
De modo semelhante, o artigo ―Proprietários e posseiros urbanos: interações‖
(MACHADO, 2010) faz uma pesquisa a partir de um procedimento metodológico que
incluiu a observação feita durante quatro anos a um grupo de proprietários e
posseiros urbanos que conflitavam por um território urbano. Essa observação foi
feita através de entrevistas documentadas em gravadores e material escrito que
registram as falas de 18 posseiros e três proprietários. O trabalho faz uma análise
das interações entre os proprietários e posseiros dos lotes da favela, encontrando
interações no processo de barganha entre os proprietários e os posseiros. Nesses
registros, há denúncias relatando que os proprietários ameaçam ou oferecem
dinheiro para que o posseiro desocupe a terra, assim como que acionam órgãos
públicos para dar subsídio na luta pelo terreno. Assim, o trabalho manuscreve as
falas das entrevistas que exemplificam o que o texto chama de interações e todas as
estratégias, sentimentos, tristezas, lembranças que envolvem o processo de posse
da terra. Todo esse processo é relatado como uma questão que envolve os
posseiros e os proprietários. Outras instâncias, como questões históricas ou a
intervenção dos órgãos públicos são citadas no artigo unicamente como parte das
estratégias das personagens, uma vez que o questionamento da autora gira em
56
torno do modo natural como esses dois grupos gerenciam seus sentimentos e
atitudes na busca de resolução de um conflito que existe entre eles.
A análise feita do trabalho permite chegar a algumas conclusões que giram
em torno dessa produção ter construído um discurso bem individualizante para essa
questão. A questão é feita e analisada como se os conflitos gerados pela
propriedade privada e pela desigualdade social remetessem a situações que
envolvem questões pessoais, individuais. É como se não houvesse outra dimensão
de governo que produzisse pobres e sem-teto, assim toma-se o vínculo entre esses
proprietários e posseiros urbanos como se fosse natural, como se fosse natural
existirem pessoas que têm um teto e outras que não têm. Assim, a pergunta desse
trabalho e sua construção parecem se assentar numa naturalização da pobreza.
O artigo faz referência a uma análise das interações. Entende, assim, que os
vínculos entre proprietários e posseiros são mantidos por projeções de sentimentos,
através de modelos que os donos da terra passam a ser para os posseiros, ou
fantasias de igualdade entre eles, ou mesmo identificação de um com o outro:
Assim, posseiros e proprietários constituem-se também como
modelos. O posseiro almeja ser um dia dono do terreno no qual mora,
ou fantasia já o ser; o barraco é um patrimônio deixado pelo pai ao
filho: as casas melhores são construídas seguindo-se um padrão
classe-média; de seu lado, o pequeno proprietário, sobretudo quando
se compara ao grande proprietário, se identifica ao favelado.
(MACHADO, 1990, p. 22).
Momentos de identificação com o posseiro parecem ser prerrogativas
do pequeno proprietário. Especuladores e grandes proprietários,
diferentemente, realizam projeções, localizando no posseiro
qualidades, sentimentos e mesmo atos que parecem dizer respeito
muito mais a si mesmos. (MACHADO, 1990, p. 23).
Dessa forma, sua análise mostra que os conflitos se dão pelo fato de
posseiros e proprietários partirem de duas lógicas diferentes, dois pontos de vista
distintos.
Esse discurso não permite pensar as questões de exclusão, opressão e
marginalização históricas, sofridas pelos pobres na ocupação dos territórios
urbanos. Ele se assenta em práticas que se comprometem com essas demandas de
pobreza, como se elas estivessem cristalizadas e enraizadas no nascimento destas
pessoas.
Esses dois últimos trabalhos supracitados (BOMFIM E MACHADO, 1987;
MACHADO 1990) chamam atenção nessas produções pelo modo como trazem
57
palavras como ―favelados‖ (BOMFIM E MACHADO, 1987, p. 71; MACHADO 1990,
p. 10), ―desfavelamento‖ (MACHADO, 1990, p. 11), ―favelar‖ (BOMFIM E
MACHADO, 1987, p. 79). Observa-se que nessas primeiras publicações a
utilização desses termos é frequentemente rebuscada nas argumentações dos
trabalhos para se dirigir aos espaços de exclusão urbanos, sendo trazidas de
maneira natural, sem problematizações sobre seu uso. A partir de 1990, vemos
esses termos deixam de compor as produções analisadas neste trabalho.
No artigo ―Gabriel Moser e a Psicologia da vida urbana‖ é feita uma entrevista
com
um
Psicólogo
suíço
radicado
na
França,
estudioso
da
Psychogie
Environnementale (Psicologia Ambiental). O trabalho é iniciado se referindo ao
noticiário brasileiro sobre as manifestações que vinham acontecendo em Paris, nas
últimas semanas, e é feita uma comparação da situação atual, descrita como
―passeatas, quebradeiras, incêndios de carros e roubos‖ (JOCKYMAN, 1990, p.13),
com os acontecimentos de maio de 1968, ―embora sem nenhum conteúdo ideológico
manifesto‖ (JOCKYMAN, 1990, p. 186). Em seguida, apresenta a Psychologie
environnementale como uma especialidade nova e de exigência política nos países
mais avançados da Europa. Assim, prossegue com sete perguntas ao entrevistado,
que consistem em compreender como são produzidos e mantidos os padrões
comportamentais criminosos nas grandes cidades. Numa das questões o
entrevistador questiona: ―as sobrecargas que os indivíduos bem ou mal suportam
nas grandes cidades poderia gerar, paradoxalmente, formas novas de convivência
ou necessariamente conduziriam ao crime?‖ (JOCKYMAN, 1990, p. 186). O
entrevistado responde:
As sobrecargas decorrentes da periferia das grandes cidades exige
esforços múltiplos de adaptação. A história da humanidade nos
mostra como somos capazes de nos adaptar a condições muito
diferentes daquelas onde nossos ancestrais evoluíram. O problema
essencial está em saber qual o custo dessa adaptação. [...] Portanto,
nas grandes cidades a criminalidade é mais frequente porque os
grandes centros urbanos oferecem mais ocasiões de atuação de tais
comportamentos (anonimato e menos controle social), porque eles
abrigam uma população à margem da sociedade, e não porque eles
representam o maior potencial de dano. (JOCKYMAN, 1990, p. 186187).
É interessante pensar como a resposta a essa questão não vai girar em torno
de sentimentos dos sujeitos, como nos trabalhos anteriores que descrevemos, mas
das condições sociais, entendendo esse social não como uma prática constante de
58
produção subjetiva, como se assinala na posição científica desta dissertação, mas
como um ambiente fixo que vai agir sobre o indivíduo, controlando-o mais ou menos.
Sendo questionável, assim, se a concepção de homem que se afirma no texto faz
sentido, e se o indivíduo pode mesmo ser entendido nessa afirmação como não
potencialmente danoso, como não dotado de uma natureza, já que ele precisa ser
controlado e que o autor aponta o principal problema dessa sociedade como a falta
de controle social.
De todo modo há claramente um entendimento, nesse trabalho, de que as
condições são externas aos indivíduos. Há uma dicotomia na relação entre o
indivíduo a e cidade, compreendendo-se o sujeito como apartado dessa realidade,
sendo necessário modificar esse ambiente para que ele consiga controlar e adaptar
o indivíduo. Desse modo, o problema da violência na cidade é veiculado no trabalho
como falta de controle e adaptação.
Em 1997, temos a demarcação do primeiro trabalho que se utiliza de práticas
teórico-metodológicas ligadas ao campo da subjetividade em articulação com o
urbano. Nesse artigo, ―O que querem da cidade, as adolescentes?‖ (CASTRO,
1997), a autora faz uma análise das possibilidades subjetivas que a cidade
proporciona para as adolescentes mulheres do Rio de Janeiro. Para isso faz
entrevistas semiestruturadas e abertas com jovens mulheres do Rio de Janeiro,
residentes em regiões distintas e em condições sociais, econômicas e emocionais
diferentes. Para a análise ela segue três dimensões analíticas: a cidade como: a)
desenraizamento; b) a transformação dos valores; e c) desamparo radical. O
trabalho não explicita o número de participantes da pesquisa, nem a abordagem
teórico-metodológica utilizada, mas referencia autores ligados a discussões que
privilegiam o social como uma prática de produção subjetiva. Tanto as estratégias
metodológicas trazidas no trabalho, como o discurso que essa análise possibilita,
destaca, cronologicamente, uma nova prática da psicologia em suas análises. A
condução desse trabalho é um novo fazer científico, que se produz numa relação
mais horizontal com as adolescentes da pesquisa. A análise vai se dar em torno das
falas e das questões das jovens com a cidade, tentando compreender a construção
dessa demanda a partir da análise de suas determinações históricas e sociais. É um
modo de análise da psicologia que rompeu com estratégias interpretativas e análises
prontas que prescindem uma solução adequada ao problema. Saindo dos
59
determinismos, parece que a preocupação do trabalho está muito mais em trazer à
tona as práticas sociais e históricas das adolescentes mulheres sobre a cidade Rio
de Janeiro e a complexidade destas práticas, do que se colocar no lugar de
solucionar a questão.
O artigo ―Aprendizaje situado: creación y modificación de prácticas sociales
em el espacio público urbano‖ (PÁRAMO, 2010) faz, a partir da psicologia
comportamental, uma análise metacontingencial que visa garantir a manutenção das
práticas socialmente desejáveis nos espaços públicos. A partir dos trabalhos escritos
por Sigrid. S. Glenn, o autor entende a análise metacontingencial como arranjos
sociais situados entre as práticas e os resultados que mantém essas práticas. O
trabalho se debruça sobre as consequências do comportamento e na aprendizagem
por regras, a fim de programar contingências que garantam a manutenção de
práticas urbanas socialmente desejáveis.
A construção teórico-metodológica do trabalho dá visibilidade à concepção de
sujeito como algo passivo às contingências sociais e à articulação entre
comportamentos e consequências sociais. O urbano, então, é apreendido e
analisado em um ambiente que influencia as relações sociais, por contingências que
podem facilitar as interações. Há, no entanto, uma cisão entre a cidade e o
indivíduo. Aqui um é tomado a partir de uma suposta neutralidade em relação ao
outro, de forma que eles não se interpenetram, mas um se adapta ao outro.
Partilhando das mesmas questões e posicionamentos teórico-metodológicos
do trabalho descrito acima, o estudo ―Um oásis urbano: dois estudos das interações
pessoa-ambiente na praça Kalina Maia, Natal/RN‖ (VIEGAS et al., 2014) utiliza, a
partir da psicologia comportamental, métodos de diário de campo, entrevistas e
observação comportamental para análise do espaço urbano. A prática metodológica
desse estudo se baseia na observação e registro das contingências que mantém as
práticas sociais, a fim de fortalecer a retroalimentação das contingências que
produzem práticas socialmente aceitas.
Diante dessas práticas que requerem ajustes e adaptações ao urbano,
descritas a partir desses posicionamentos científicos que procuram neutralizar uma
relação entre o sujeito e o espaço, tomamos uma reflexão do sociólogo Manuel
Castells (2011), que coloca a ideia de urbanização de um modo interessante. Ao
invés de falar de urbanização, diante destas produções que se amparam em
60
discursos que separam e hierarquizam os sujeitos e o território, o autor prefere tratar
da produção de formas espaciais. Para ele é a ideologia de urbanização que se
refere a concentração da população em um certo espaço, no qual constituem-se
aglomerados funcionais, socialmente interdependentes numa relação hierarquizada.
Os trabalhos citados a seguir são construídos a partir de uma noção teóricometodológica vinculada à psicologia sócio-histórica, que trabalha a subjetividade
como constituinte do sujeito e das suas relações com o espaço: o trabalho ―Jovens
em situação de rua: espaço, tempo, negociações de sentido‖ (MATIAS, 2011) a
partir de uma abordagem sócio-histórica faz uma pesquisa etnográfica, realizada
durante três meses, em Natal/RN, com grupo de pessoas em situação de rua,
predominantemente jovens entre 16 e 18 anos. O artigo ―Tribos urbanas: os
processos coletivos de criação no graffiti‖ (FURTADO, 2012) utiliza as referências de
Vigotiski para fazer uma entrevista com seis grafiteiros da cidade de Florianópolis,
pertencentes a crews diferentes e faz observações, registros fotográficos e
filmagens de suas atividades criadoras na cidade.
Assim, as práticas metodológicas descritas acima se situam no campo da
psicologia social, mas com especificidades do discurso que ampara a psicologia
sócio-histórica. Os argumentos aos quais as diferentes práticas desses artigos
remetem se dão em torno do entendimento do espaço urbano construído a partir de
um olhar para as condições históricas, sociais e culturais. Assim, tanto o urbano
como o sujeito, nessas concepções, se constituem e modificam a partir de
mediações que possibilitam essa relação.
Os trabalhos a seguir se amparam nas ferramentas teórico-metodológicas da
psicologia social. O primeiro, ―Repercussões Psicossociais da Acessibilidade Urbana
para as Pessoas com Deficiência Física‖ (LIMA, 2013) trata-se de uma pesquisa
qualitativa, realizada por meio de entrevista semiestruturada e tratamento de dados
pela análise de conteúdo. O artigo ―Relações estéticas de catadores de material
reciclável com a cidade: os passos da pesquisa‖ (BARBOZA e ZANELLA, 2014)
trabalha com registros de imagens feitas pelos catadores, observação participante e
análise dialógica do discurso. Esses textos partem de uma abordagem que permite
pensar os procedimentos metodológicos como ferramentas importantes de amparo à
problematização e transformação do social. Se sustentam em práticas que
produzem reflexões reivindicadoras de mudanças na produção do espaço urbano.
61
O artigo ―Cidades-imagem: afirmações e enfrentamentos às políticas da
subjetividade‖ (RODRIGUES e BAPTISTA, 2010) utiliza os escritos de Walter
Benjamim, se norteando por conceitos e questões que se ligam à psicologia social.
O trabalho analisa algumas imagens da Paris de Haussmann, das ―Cidades
Invisíveis‖ de Ítalo Calvino e de Nápoles, narrada por Walter Benjamin. Assim,
questiona o que as cidades-imagem afirmam e como elas interpelam o campo da
subjetividade. A concepção de humano defendida nesse trabalho é a de um sujeito
que se produz na sua relação com a cidade. A partir da articulação entre a
subjetividade e o espaço, rompem-se as dicotomias que põem, de um lado, o
espaço enquanto realidade objetiva e, do outro, o homem, a subjetividade, como
instância individual. Diferente dessa perspectiva o autor propõe questões que
propiciem uma articulação entre subjetividade e espaço e coloca que:
Este encontro vem no sentido de colocar em discussão uma das
principais questões dos Estudos da Subjetividade: a subjetividade
como domínio da interioridade, que possui como desdobramento o
entendimento dos espaços enquanto outra realidade, externa,
objetiva.‖ (RODRIGUES e BAPTISTA, 2010, p. 423).
Essas questões teórico-metodológicas apontadas na citação estão ligadas à
produção de práticas em psicologia que problematizam o urbano como um campo
de produção dos sujeitos, uma vez que não entende esse espaço como apartado do
sujeito, ou em interação com ele, mas como a constituição mútua. Assim, se liga a
um tipo de pensamento que trata a maneira como os sujeitos ocupam, constroem,
modificam, transitam o espaço urbano como a produção do próprio sujeito.
Alguns outros artigos selecionados trazem visões teórico-metodológicas que
partilham desses mesmos posicionamentos supracitados no modo de compreender
e construir o urbano. O artigo ―Primavera urbana: a ilha deserta interroga as
multidões‖ (SILVA e BAPTISTA, 2014) aborda a psicologia social e, amparado nas
narrativas de Foucault, faz uma narrativa da vida numa ilha deserta apresentada
pelo romance Robinson Crusoé. O trabalho questiona as práticas ético-políticas das
ciências humanas diante das demandas capitalistas. Então critica a tomada da
cidade como um espaço de práticas de consumo capitalistas, prescritivas, e aponta
para um modo de existir no contemporâneo que inclua as práticas de resistência,
tomando resistência como uma prática de liberdade, indicando caminhos para
pensar as pesquisas em psicologia no encontro com forças políticas de resistência.
62
Assim, aponta que, no romance que analisa, sua personagem ao final do livro é um
sujeito sem fronteiras e dicotomias.
Para discutir as questões que se colocam a partir da presença do indígena
nos espaços urbanos o artigo ―Para desacostumar o olhar sobre o indígena no
urbano‖
(STOCK
e
FONSECA,
2013)
escolhe
como
estratégias
teórico-
metodológicas uma discussão a partir de conceitos da filosofia da diferença e as
formulações atuais da antropologia. A partir disso, as autoras fazem reflexões sobre
a maneira como as populações indígenas têm experimentado a cidade e, a partir
dessa relação possam transformar as formas de ocupação desse espaço. Esse
delineamento permite pensar as possibilidades de vida na cidade afirmando um
posicionamento teórico-metodológico feito a partir da noção de homem que se
constrói à medida que produz o urbano.
Com isso, vemos que o humano, nestas produções da psicologia, é entendido
como um ser em constante relação com o mundo, com a vida, com a cidade, que se
efetua na relação com o urbano, com a construção subjetiva que é gerada nessa
relação.
O artigo ―The cities of need: capitalism and subjectivity in the contemporary
metropolis‖ (BAPTISTA, 2013) segue abordagem teórico-metodológica semelhante,
partilhando uma visão de humano livre, rompendo dicotomias entre o homem e o
espaço. O trabalho é construído a partir da psicologia social e faz uma análise da
vida social nas metrópoles contemporâneas. A partir das referências de Walter
Benjamin o texto aponta as singularidades da produção subjetiva no capitalismo
contemporâneo.
Do mesmo modo, partilhando das mesmas visões de homem e demarcações
de construção de práticas de liberdade na psicologia, partem outros dois trabalhos
que, entre outros, explicitam uma articulação entre a psicologia e o urbano. O
primeiro, ―Arte, loucura e cidade: a invenção de novos possíveis‖ (LIBERATO e
DIMENSTEIN, 2013), se faz a partir de pressupostos da psicologia social, que toma
Foucault, Deleuze e Guattari como referências, apresentando imagens que ajudam a
refletir sobre a potência da arte e a debater ações do Projeto Arte e Saúde. O outro
trabalho é ―Cidades sutis: dispersão urbana e a rede de saúde mental‖ (COSTA e
FONSECA, 2013), que faz referência a conceitos de Foucault e da psicologia social
utilizando o método cartográfico. Por fim, ―As crianças na cidade e o
63
acompanhamento terapêutico‖ (MEIRA, 2013), a partir da psicologia social, faz uma
observação participante no projeto Cidade das Crianças, em Porto Alegre.
Esse conjunto de trabalhos parte de metodologias assentadas em discursos
que apontam para uma produção constante dos objetos. Os percursos teóricometodológicos adotados nestas pesquisas dão enfoque a um campo discursivo que
trabalha o urbano como um processo que produz subjetividade, e que é constituído
à medida que se produzem os sujeitos, mutuamente.
Esses trabalhos não prescindem uma dicotomia entre sujeito e território, mas
problematizam as relações na cidade, com a responsabilidade de compreendê-las
como constituintes das pessoas. O artigo ―Arte, loucura e cidade: a invenção de
novos possíveis‖ (LIBERATO e DIMENSTEIN, 2013), traz um apontamento
interessante para pensar o território urbano. Esse trecho explicita bem o discurso
que o conjunto de trabalhos ao qual estamos nos referindo produz: ―é importante
ressaltar que ao falarmos em território não estamos nos referindo somente a uma
região ou distrito administrativo, mas ao lugar onde são tecidas as relações sociais.‖
(p. 275).
Assim, vemos que as principais ligações teórico-metodológicas dos trabalhos
foram com a psicanálise, o interacionismo, a psicologia comportamental e a
psicologia social. Destes trabalhos, cinco foram identificados com percursos teóricometodológicos ligados a perspectivas individualizantes. A maioria abordou o tema a
partir de concepções que tratam o urbano em uma perspectiva social.
É interessante notar que a predominância desses trabalhos que tratam o
urbano como uma construção social trazem, recorrentemente, alguns autores
e perspectivas teórico-metodológicas na abordagem da temática. A psicologia social
aparece muitas vezes nos trabalhos, assim como alguns autores são identificados
com mais frequência construindo essa produção. Só Luiz Antônio dos Santos
Baptista é responsável pela construção de três desses trabalhos, sendo que esse é
um autor que cita e se articula constantemente a teóricos como Walter Benjamin,
Michel Foucault, Nietzsche e Deleuze, que trabalham com perspectivas que atentam
para o social como um campo de problematizações e transformações. Uma grande
parte dos trabalhos utiliza recorrentemente essas mesmas referências.
Apesar da diversidade e coexistência de teorias e métodos que abordaram e
produziram o objeto ‗urbano‘ em todo o percurso histórico feito nesta pesquisa,
64
podemos pensar que essa ligação da psicologia social com os processos de
urbanização parece demonstrar que as ferramentas teórico-metodológicas que
predominantemente têm sido usadas pela psicologia na abordagem dos processos
de urbanização, têm procurado dar visibilidade a esse urbano como uma produção
que, se não constituída socialmente, é pelo menos ligada a esse social.
Assim, a partir do olhar para a construção de saberes e dos aspectos teóricometodológicos que estão implicados nessas produções, temos uma maior
visibilidade das diferentes concepções de sujeito produzidas nesses trabalhos. Com
a identificação das práticas e dos discursos dos diferentes campos científicos pelos
quais percorrem estes textos, partimos para tecer reflexões sobre o que se
identificou nestas produções como contribuições da psicologia para a abordagem
dos processos de urbanização.
65
5 TRANSFORMAÇÕES E CONTRIBUIÇÕES
Neste capítulo trabalharemos o terceiro objetivo específico elencado na
produção dessa pesquisa. Nele procuraremos discutir as transformações e
contribuições do conhecimento produzido pela psicologia em relação à abordagem
dos processos de urbanização.
Trataremos das problematizações e contribuições da psicologia à temática
dos processos de urbanização. Buscaremos expor as críticas e considerações da
psicologia em torno dos processos de urbanização e analisar se essas construções
fazem alusão às questões que envolvem cidadania e liberdade nos espaços
urbanos.
A análise da história dos processos de urbanização na produção da ciência
psicológica brasileira, a partir dos artigos analisados nesta pesquisa, mostra que a
psicologia tem contribuído para que essa temática tome lugar nas discussões e
práticas psicológicas. A análise destes textos destaca que a temática dos processos
de urbanização foi tomando mais espaço na psicologia ao longo do tempo, de forma
que podemos dizer, a partir do contato com esse material, que a história atual da
psicologia é a que reflete a relação mais sintonizada e profunda dessa ciência com
esse objeto de estudo, os processos de urbanização. Ao longo dessa história, e
explicando em alguns pontos a sua distância ou proximidade das reflexões da
psicologia, esse objeto não foi isentado da história que ronda a própria constituição
desta ciência e os posicionamentos que perpassam sua construção e sua prática
advindos desta herança histórica. Assim, o tema dos processos de urbanização na
psicologia, não pôde ser abordado de outra forma, se não a partir dos mesmos
mecanismos, contradições, construções e rupturas históricas que constituem esta
ciência.
Na análise dos artigos estudados nesta pesquisa, observamos que apesar da
demarcação histórica dos nossos estudos iniciarem-se de 1987, os processos de
urbanização só vão ser abordados, de forma tímida, dez anos depois. Hüning (2015)
confirma isso quando diz que apesar da diversidade de temas e abordagens teóricas
no campo da psicologia, os processos de urbanização, a abordagem dos espaços
urbanos e os fenômenos a eles relacionados são alvo de estudo recente nesta
disciplina.
66
Ferreira Neto (2004) explica que essa distância histórica entre a Psicologia e
os processos urbanos tem razões possíveis no fato da relação entre subjetividade e
cidade se inserir no debate entre indivíduo e sociedade.
O autor mostra que a dicotomia entre indivíduo e sociedade parte do princípio
de que o indivíduo é um conjunto fechado que interage e faz trocas com o meio
social que, lhe é externo. Essa perspectiva, trazida pela ciência moderna,
influenciada pelo pensamento cartesiano, trouxe à psicologia a construção do seu
objeto de estudo, a subjetividade, como particular, interna e estática. A partir desta
noção de subjetividade, porém, possibilitou-se a constituição da psicologia como
disciplina autônoma. E, de certa forma, toda a história da psicologia foi perpassada
por essa ideia de interiorização da subjetividade, de modo que, até hoje perdura
essa divisão disciplinar entre estudos psicológicos e sociais (FERREIRA NETO,
2004). Desse modo, ―a disciplina psicologia toma, assim, seu objeto de estudo de
modo desconectado em relação ao espaço social, sofrendo, portanto de um
solipsismo desde seu nascimento como ciência‖ (FERREIRA NETO, 2004).
No entanto, as transformações das décadas seguintes tornam possível essa
relação fundamental e fez-se necessária, por parte de alguns psicólogos, a
problematização dessa relação. De acordo com Hüning (2015), essas aproximações
entre psicologia e processos de urbanização foram se modificando e sendo campo
de problematizações especialmente a partir do ano 2000, quando ampliam-se e
transformam-se as perspectivas teóricas da psicologia latino-americana. Desse
modo, os processos de urbanização deixam de ser um campo de intervenção da
psicologia comunitária e passam a compor diversos estudos e análises que buscam
discutir e desnaturalizar a produção subjetiva desses espaços.
Em pesquisa realizada por Hüning (et al, 2014), na qual são analisados os
resumos dos Anais dos Simpósios da Associação Nacional de Pesquisa e PósGraduação em Psicologia (ANPEPP) entre os anos de 1988 a 2010, observa-se que
os estudos que problematizam os processos de urbanização na psicologia social são
encontrados a partir do ano de 1988. A partir dessa análise os autores dizem que as
mudanças urbanas criam novas formas de se relacionar com a cidade e, portanto,
novas formas de injustiças e exclusão social que vão se ligar a novos processos de
subjetivação, produzindo uma nova agenda para a psicologia social.
67
Assim, temos alguns artigos analisados que, a partir de perspectivas ligadas a
essa noção de subjetividade, tratam as questões urbanas problematizadas em seus
textos como algo separado dos sujeitos. São os cinco trabalhos intitulados: ―‗Acaba
Mundo‘: da proposta de urbanização a um projeto de ecologia humana em favela‖
(1987), ―Proprietários e posseiros urbanos: interações‖ (1990), ―Gabriel Moser e a
Psicologia da vida urbana‖ (1990), ―Aprendizaje situado: creación y modificación de
prácticas sociales em el espacio público urbano” (2010), ―Um oásis urbano: dois
estudos das interações pessoa-ambiente na praça Kalina Maia, Natal/RN‖ (2014).
Esses trabalhos trazem uma discussão ligada a aspectos que compreendem os
sujeitos apartados dos espaços urbanos. Assim, a noção de cidadania trazida nestas
produções parece se distanciar da ideia de liberdade. Os sujeitos, a partir dessa
visão de homem não podem gerir esses espaços, mas somente interagir ou se
adaptar a ele.
As principais questões trazidas nesses artigos giravam em torno de como
criar formas de adaptar o sujeito ao espaço, e eram tratadas a partir da procura de
técnicas mais eficazes a serem instauradas nos sujeitos para a resolução da
situação do espaço em questão.
O primeiro trabalho elencado acima que trata dessas noções é intitulado
―‗Acaba Mundo‘: da proposta de urbanização a um projeto de ecologia humana em
favela‖ (BOMFIM et al., 1987). O trabalho, a partir da proposta colocada aos alunos
e professores do curso de Psicologia Comunitária e Ecologia Humana, de construir
um projeto de urbanização para a favela ―Acaba Mundo‖, passa a problematizar as
formas de pensar em um projeto para aquela população, elegendo como questão
principal da favela sanar suas condições de saneamento básico, saúde e higiene.
Assim propõe um projeto de ecologia humana na favela, a fim de resolver a questão
da urbanização daquele espaço e ensinar-lhe um modo adequado de viver.
Esse primeiro trabalho tem muita importância, porque estreia a temática nas
revistas que selecionamos e já insere na sua problematização uma articulação entre
a psicologia e a produção dos espaços urbanos. Apesar desta produção já se
posicionar com uma inconformidade com as práticas mais verticais de tratamento
dos espaços urbanos pela psicologia, as questões suscitadas e o modo de tratá-las
nesta pesquisa revelam a herança histórica que se dá a partir de uma relação de
poder entre o projeto urbano proposto e o saber acadêmico produzido pela
68
psicologia como adequado para gerir aquele espaço urbano. O trabalho faz em
alguns momentos apontamentos e denúncias importantes para pensar as injustiças
e as condições sociais que produziram aquele espaço urbano, mas reproduz as
práticas de segregação que critica quando se coloca por meio de ações
assistencialistas e técnicas de autocuidado.
Com a proposta do projeto de ecologia humana e a maneira de resolver o que
foi destacado como questão, a higiene do espaço, a favela permanece ocupando o
mesmo lugar segregado na cidade, mas agora com um propósito proposto pela
universidade e o saber científico de ―desfavelar‖ (BOMFIM et al., p. 79), ou agir de
forma a não perturbar os espaços considerados mais importantes no território
urbano. Essas questões urbanas tratadas nesse trabalho e a maneira como foram
tratadas prejudica a construção de um fazer que implique na democratização dos
espaços públicos. Práticas que reivindicam a adaptação do indivíduo ao espaço e
produzem técnicas de conformidade, para que esses sujeitos não precisem circular
em outros espaços urbanos, senão aqueles destinados a ―favelar‖, ao mesmo tempo
em que contribuem para a manutenção destas condições de injustiça, deixam
explícitas o quanto a liberdade de ir e vir na cidade é ferida. Esses posicionamentos
tomam como questão fundamental ações que prejudicam exatamente os princípios
de liberdade de circular nos espaços públicos. Questionar os direitos de saneamento
básico e moradia digna por um viés individualizante, coloca a questão pública no
âmbito da resolução dos indivíduos que, nesse trabalho, ocorreu através de um
projeto de ecologia humana e técnicas de autocuidado.
No artigo ―Proprietários e posseiros urbanos: interações‖ (MACHADO, 1990),
as principais questões são entender como se dão as interações entre os
proprietários e posseiros e como esses discursos sustentam contendas entre esses
dois grupos. Essa questão vai ser tratada a partir da análise dos sentimentos que
envolvem aqueles sujeitos, por suas condições de perda. O posseiro, que é
ameaçado a perder sua atual moradia e o proprietário, que perdeu seu terreno. A
partir dessas questões, resolveu-se tratar os espaços urbanos no referido trabalho
como um espaço de interações, onde ocorrem disputas e conflitos resultantes dessa
situação de insegurança e medo da perda do terreno.
Tanto a problematização levantada sobre a situação dos sem-terra, como sua
escolha de dar enfoque as interações entre a multiplicidade de questões que essa
69
discussão permite, privatizam uma questão que é social. Em nenhum momento o
trabalho se voltou a questionar por que existem essas condições sociais que levam
esses sujeitos a lutarem pela terra. Naturalizou-se e individualizou-se um conflito
que é social, que gira em torno de questões de desigualdade social e propriedade
privada, e tomou-se como questões de contenda entre dois grupos. Esses
apontamentos feitos no trabalho não contribuem para que essa situação urbana
descrita no texto se aproxime da discussão sobre direito, democratização dos
espaços urbanos e cidadania. Porque eles ajudam a produzir uma reflexão sobre o
indivíduo, sobre seus sentimentos e comportamentos diante de uma situação
desconfortável. Mas não colocam em questão o sujeito que teve seus direitos
assegurados e administrados por práticas de governo negados, o direito à moradia e
à dignidade, o sujeito que não é inimigo, nem vítima do proprietário e vice-versa.
No trabalho intitulado ―Gabriel Moser e a Psicologia da vida urbana‖
(JOCKYMAN, 1990), as questões feitas pelo entrevistador ao Psicólogo Gabriel
Moser giram em torno das formas de lidar com a violência e a criminalidade na vida
urbana. Esse é um trabalho interessante, porque marca mais uma produção que
tematiza a própria psicologia em articulação com o espaço urbano.
O tratamento da questão levantada é relacionado pelo psicólogo ao campo da
vulnerabilidade e da desigualdade social, mas estas sendo entendidas como
produtoras de estratégias falhas de controle dos comportamentos dos indivíduos.
Numa das questões que são colocadas, trazendo o contexto brasileiro, o psicólogo
entrevistado remete a situação de violência e segurança à sensação de eficácia
reduzida que os brasileiros têm nas forças armadas.
Esse trabalho, apesar de, em vários momentos, apontar questões importantes
que denunciam o ferimento do direito à cidadania e a construção social de
desigualdade no acesso aos espaços urbanos, trata essa questão de uma forma
muito simplista. A interpretação destes direitos através do controle social e pelo viés
do acesso aos direitos como estratégia de modificação de comportamentos de
violência, faz questionar a ideia de liberdade e cidadania.
―Aprendizaje situado: creación y modificación de prácticas sociales em el
espacio público urbano‖ (PÁRAMO, 2010) é um artigo que questiona sobre como
modificar práticas urbanas socialmente indesejadas e como fazer do próprio espaço
da
cidade
um
lugar
para
implementar
estratégias
de
aprendizagem
de
70
comportamentos mais adequados. Para lidar com essa questão, o autor defende
que a implementação de contingências sociais na cidade. Estas, orientadas para
fortalecer comportamentos adequados a tal ponto que minimize a necessidade de
dispositivos de segurança e autoridades policiais, é trazida como a maneira mais
eficaz de tratar a questão e aproximar os sujeitos de uma participação cidadã mais
efetiva.
Diante desses posicionamentos, trazemos a seguinte questão: esses
comportamentos indesejáveis ou desejáveis seriam determinados por quem? Apesar
do trabalho explicitar no corpo do texto preocupações com o execício da cidadania,
tanto a questão como o modo que o artigo lida com ela remete a posicionamentos
que limitam a liberdade do sujeito à determinações contingenciais, perpassadas por
estímulos e respostas. Além disso, a instauração de práticas que vão ser
compreendidas como
limitadoras
das ações dos sujetos a
determinados
comportamentos, tolhe a noção de liberdade, uma vez que, nesta visão, o sujeito só
se comportará a partir dessas contingências e dos comportamentos escolhidos
como socialmente aceitos.
Um outro trabalho que compartilha desses mesmos posicionamentos é o
artigo ―Um oásis urbano: dois estudos das interações pessoa-ambiente na praça
Kalina Maia, Natal/RN‖ (VIEGAS et al., 2014). Esse trabalho reivindica o papel das
praças como um espaço de influência na qualidade de vida das pessoas e questiona
suas possibilidades de uso. Para isso, procura evidenciar, através de uma pesquisa,
suas possibilidades como espaço de atividades de lazer e de socialização de idosos,
esperando contribuir com a proposta de programas que incentivem seu uso. Apesar
de ser um tema importante para a psicologia, pensar os espaços de lazer e
encontros na cidade, um texto trabalha a partir de reflexões que compreendem esse
lazer e este encontro numa relação vertical. Desse modo, a escolha desses espaços
não passariam pelos sujeitos. A observação dos seus comportamentos no espaço
urbano é o que seria componente para a elaboração de um projeto de construção de
novas praças.
Até este momento, houve uma prevalência maior de artigos que tratavam de
temáticas que trabalhavam os processos urbanos distanciados de uma noção de
liberdade e cidadania. A maioria dos posicionamentos encontrados, até agora,
tomaram essa relação a partir de uma noção de comportamento, e colocando a
71
resolução em estratégias e técnicas de controle. As problematizações se deram
muito mais sobre os processos que constituem as questões suscitadas, do que
sobre os sujeitos e suas interações.
No ano de 1997, começamos a identificar algumas transformações no modo
de questionar e no modo de tratar os processos de urbanização. Essa mesma época
marca a inclusão da palavra e da noção de subjetividade nos estudos. A partir dessa
data, vemos trabalhos que começam a compreender os sujeitos e o urbano em uma
codependência, ou a partir de uma constituição mútua, entre sujeito e urbano.
Assim, esses trabalhos vão trazer diferentes temas articulados ao urbano: ―O
que querem da cidade, as adolescentes?‖ (CASTRO, 1997), ―Cidades-imagem:
afirmações e enfrentamentos ás políticas da subjetividade‖ (RODRIGUES e
BAPTISTA, 2010), ―Jovens em situação de rua: espaço, tempo, negociações de
sentido‖ (MATIAS, 2011), ―Tribos urbanas: os processos coletivos de criação no
graffiti (FURTADO, 2012), ―Arte, loucura e cidade: a invenção de novos possíveis‖
(LIBERATO e DIMENSTEIN, 2012), ―Repercussões Psicossociais da Acessibilidade
Urbana para as Pessoas com Deficiência Física‖ (LIMA et al., 2013), ―As crianças na
cidade e o acompanhamento terapêutico‖ (MEIRA, 2013), ―The cities of need:
capitalism and subjectivity in the contemporary metropolis‖ (BAPTISTA, 2013),
―Cidades sutis: dispersão urbana e a rede de saúde mental‖ (COSTA e FONSECA,
2013), ―Relações estéticas de catadores de material reciclável com a cidade: os
passos da pesquisa‖ (BARBOZA e ZANELLA, 2014) e ―Primavera urbana: a ilha
deserta interroga as multidões‖ (SILVA e BAPTISTA, 2014).
De fato, diferentes articulações com o urbano, mas todos eles enfocando o
olhar do sujeito sobre a constituição do espaço e contribuindo com avanços
importantes em torno da cidadania e da liberdade. Também vão demarcar a noção
de urbano a partir da subjetividade. Vilhena (2002) coloca essa questão quando traz
que, apesar da dimensão simbólica do território se distanciar do desenvolvimento
das teorias psicológicas, o território é um ―agenciador de subjetividades‖ (p. 48). O
espaço, então, é perpassado por processos de subjetivação que implicam a
construção da identidade, uma vez que é no lugar onde se vive que se aprende a
construir os sentimentos e as relações sociais. É a partir do território que ocupamos
que se pode viver o preconceito, segregações e injustiças, assim como se sentir
72
incluído, se sentir pertencido, a depender das possibilidades e facilidades que esse
espaço possa produzir. (VILHENA, 2002).
Essa é uma demarcação interessante nesse trabalho, porque acrescenta uma
transformação importante. Aqui o espaço deixa de ser tomado como algo separado
do sujeito, ao qual ele só pode se relacionar por meio da adaptação ou interação e
passa a se apresentar na psicologia como a própria constituição da vida humana. O
território é tido como um agenciador de processos de subjetivação que implicam na
maneira de produzir a vida e de ver o mundo.
O trabalho ―O que querem da cidade, as adolescentes?‖ (CASTRO, 1997)
questiona as possibilidades subjetivas de adolescentes mulheres na cidade. O
tratamento para essa questão é feito através de novos questionamentos sobre o
espaço e do que ele traz como impossibilidades de participação social para essas
jovens, destacando aspectos como a violência contra a mulher, o desamparo que a
rua coloca a essas mulheres e o machismo envolto nessa discussão.
O texto traz uma preocupação com os aspectos democráticos desta
problemática e coloca que ―no caso das mulheres, poder ter acesso aos dispositivos
culturais implica, não tão-somente oportunizar a convivência social justa e
democrática, como também, quem sabe, a recriação destes dispositivos, de modo
que a cultura, como um todo, se torne mais imbuída de valores femininos‖
(CASTRO, 1997, p. 92). Assim, o artigo produz um olhar para a democratização dos
territórios urbanos quando problematiza essa relação das mulheres com a cidade,
destacando a violência pela qual essas mulheres são atingidas na cidade. Ao
mesmo tempo, vê em estratégias de inclusão das demandas dessas mulheres no
espaço urbano e na sua liberdade de poder ir e vir com segurança, a possibilidade
de mudança desta situação urbana.
O trabalho ―Cidades-imagem: afirmações e enfrentamentos às políticas da
subjetividade‖ (RODRIGUES e BAPTISTA, 2010) contribui com aspectos bastante
interessantes para pensar a democratização dos espaços. Ele questiona a cidade
como um lugar de cristalização e individualização dos sujeitos e traz em seu título a
proposta de enfrentamento às políticas dessa subjetividade cristalizadora na cidade.
Toda a discussão do trabalho vai se dar em cima da problematização desta
subjetividade, que cultiva a separação entre o sujeito e a cidade. Este
questionamento, as imagens da cidade e a subjetividade capitalista que ela produz
73
nos dão elementos para pensar na produção de novas formas de habitar a cidade. O
autores não apontam no texto essas novas formas, mas compreendem que essas
problematizações podem abrir espaço para elas, assim ele diz que ―Abrir espaço
desaloja a subjetividade dos limites do sujeito e as cidades das bordas das suas
margens‖ (RODRIGUES e BAPTISTA, 2010, p. 429). Assinalando, deste modo, a
produção da cidade desmembrada dos limites e interesses políticos e econômicos
capitalistas, e abrindo espaço para onde as subjetividades possam ser
constantemente produzidas e novos espaços possam ser pensados a partir do
sujeito e das condições de possibilidade da cidade.
O trabalho ―Jovens em situação de rua: espaço, tempo, negociações de
sentido‖ (MATIAS, 2011), questiona a maneira como as análises sobre crianças e
jovens em situação de rua são trabalhadas. Essas análises comumente são
trabalhadas questionando o que gera e como se configura sua situação de rico, e
direciona sua pergunta para a história dos sentidos que a rua assume hoje. Assim,
trata essa questão a partir da análise histórica e social pelas quais esses jovens
produzem suas próprias formas de existência na rua.
Esse novo questionamento, trazido pelo trabalho, contribui para romper com
uma tradição segregacionista, que historicamente cria artimanhas para remover
pobres de determinados ambientes. Pensar em jovens em situação de rua a partir
da noção de inadequação, risco, perigo, fere o direito de ir e vir. Além do mais,
resulta em análises que tendem a olhar para a questão dos jovens em situação de
rua pela problemática de ―onde eles deveriam estar?‖ e na criação de estratégias
que deem conta de colocar esses jovens no ―lugar onde se crê que deveriam estar‖
e não onde eles desejam estar. Com a noção das dificuldades históricas e sociais
pelas quais esses jovens passam, analisar as possibilidades de existência a partir da
maneira como eles exploram a cidade e direcionar o olhar para as possibilidades
que suas experiências, possibilita, reivindicar reflexões e formas de pensar o urbano
a partir da ótica desses jovens, guardando princípios de democratização da rua, e
potencializando pensar sobre como essa forma de existência, a partir da relação
com a rua, pode ser desencadeadora de formas de inclusão social (MATIAS, 2011).
Essa análise e os avanços que ela possibilita, em termos de tratar grupos
urbanos a partir de princípios de democracia e liberdade, segue uma noção próxima
a que desencadeia o trabalho ―Tribos urbanas: os processos coletivos de criação no
74
graffiti‖ (FURTADO, 2012). Nesse trabalho a questão principal é pensar as
possibilidades da rua para as tribos urbanas de criação no graffiti. E, mais uma vez,
um grupo urbano que sofre injustiças históricas e sociais não é trabalhado pela
psicologia como um problema, ou a partir do olhar sobre a inadequação do grupo
àquele
espaço.
São
exploradas
suas
possibilidades
de
pertencimento
e
potencializadas as suas formas de expressão e inclusão no espaço urbano. Segue
também, a partir destas mesmas contribuições, o trabalho ―Relações estéticas dos
catadores de material reciclável com a cidade: os passos da pesquisa‖ (SILVA e
BAPTISTA, 2014), que vai fazer um questionamento sobre o olhar de catadores de
material reciclável sobre a cidade. E para tratar a questão, o trabalho procurou
compreender o modo como esses catadores significam a cidade e se implicam sobre
ela, como forma de ampliar os olhares sobre a cidade e incluir outros processos
subjetivos.
O artigo, ―Arte, loucura e cidade: a invenção de novos possíveis‖ (LIBERATO
e DIMENSTEIN, 2013) é um registro importante. Ele marca, em nossa pesquisa, a
primeira questão levantada pela psicologia envolvendo o urbano junto com um
objeto tradicional da psicologia a partir do entendimento de uma relação com a
subjetividade, a saúde mental. A saúde mental, sendo uma área tradicional de
interesse da psicologia, é tomada nesse trabalho em codependência com a
construção e vivência na cidade. Essa reflexão é importante por ser a primeira com
a qual nos deparamos que não só questiona essa relação como afirma sua
necessidade. Apesar do trabalho citar outros trabalhos, de outras fontes e outras
disciplinas que selecionamos neste trabalho, ele se posiciona como um agenciador
que possibilita essa relação nos estudos da psicologia. Essa relação é importante
para pensar a segregação que as instituições de saúde mental imprimem e, junto
com o grito da luta antimanicomial, pensar em espaços urbanos como
possibilitadores de relações que contribuam para a saúde mental da população,
tanto no nível da prevenção como em possibilidades terapêuticas.
Os trabalhos de 2013 ―As crianças na cidade e o acompanhamento
terapêutico‖ (MEIRA) e ―Cidades sutis: dispersão urbana e a rede de saúde mental‖
(COSTA e FONSECA), também trazem uma contribuição similar da psicologia à
temática dos espaços urbanos. O primeiro relaciona o acompanhamento terapêutico,
um instrumento da psicologia, em articulação com a cidade, ampliando as
75
possibilidades da cidade como produtora de novos processos subjetivos que incluam
as demandas de saúde mental da infância. O segundo, além de contribuir para a
uma articulação da psicologia como temática junto aos processos de urbanização,
traz outros aspectos importantes. Problematiza as transformações da cidade e as
possibilidades da rede de assistência em saúde mental na cidade, e trata essa
temática historicizando essa relação, a partir da problematização da lógica binária
que perpassa a rede de saúde mental e a cidade. Como nesse trecho no qual o
artigo exemplifica essa constituição histórica: ―assim, instituía-se uma lógica binária
urbana e psiquiátrica, a qual construía círculos cocêntricos fortemente segmentados
entre si instituindo uma dialética do dentro e do fora.‖ (p. 22).
É importante pensar sobre a demarcação dessa divisão dos espaços urbanos
e dos dispositivos de segurança para que alguns seres humanos não possam
atravessar determinados espaços como uma estratégia tradicional de segregação
urbana. Seja para proteger a rua dos considerados loucos e perigosos, como no
caso das instituições manicomiais, ou para proteger esses espaços fechados dos
loucos e perigosos como pontuado no texto Caldeira (1997). A contribuição de
trabalhos que trazem esta contradição entre promoção de cidadania por meio de
uma rede de saúde mental, ao mesmo tempo em que usa esse dispositivo como um
meio de ferir direitos desta mesma cidadania, tem um papel significativo para pensar
os direitos e a democratização dos espaços urbanos.
Seguindo nossa análise com o trabalho ―Repercussões Psicossociais da
Acessibilidade Urbana para as Pessoas com Deficiência Física‖ (LIMA, et al, 2013),
temos uma outra relação fundamental sendo questionada pela primeira vez na
psicologia, que é a dos espaços urbanos com a mobilidade urbana para pessoas
com deficiência física. O trabalho questiona os aspectos que envolvem a vida e os
direitos das pessoas com deficiência física na cidade e trata essa questão a partir de
uma análise psicossocial. Apesar de usar recorrentemente termos ligados aos seus
objetivos como ―verificar‖, ―percepção‖ (p.363), ―adequado‖ (p. 365), tradicionalmente
ligados à ideia de uma noção segregacionista nos trabalhos que tematizam o espaço
urbano, o artigo traz alguns aspectos importantes no que se refere a aproximação
com direitos de cidadania nos espaços urbanos. E pontua reflexões importantes
sobre a acessibilidade urbana como produtora do sentimento de pertença à cidade e
o reconhecimento da cidadania pelas pessoas com deficiência física.
76
O artigo ―Para desacostumar o olhar sobre a presença do indígena no urbano‖
(STOCK e FONSECA, 2013), problematiza um tema interessante em articulação
com o urbano, as construções que se dão em torno dos modos como os indígenas
habitam a cidade. Esse trabalho questiona a lógica binária capitalista que constrói
olhares sobre o indígena que o colocam na posição de viver do mesmo modo que
viviam há 500 anos ou serem ―brancos‖ (p. 286). Assim, as autoras apontam para
essas categorias binárias que se opõem e se excluem e lançam o olhar para a
relação do indígena com o urbano como um devir, em que é possível, a partir da
alteridade, ampliar as formas de ser e estar no urbano em que coexista a
multiplicidade das subjetividades dos que constituem a cidade.
Os trabalhos ―The cities of need: capitalism and subjectivity in the
contemporary metropolis (BAPTISTA, 2013) e ―Primavera urbana: a ilha deserta
interroga multidões‖ (SILVA e BAPTISTA, 2014), são dois trabalhos que trazem o
nome de um autor em comum, Luis Antônio dos Santos Baptista e, apesar de
enfocarem temas diferentes, trazem questões e contribuições importantes e
similares aos processos de urbanização. O primeiro artigo questiona as articulações
entre subjetividade e capitalismo nas metrópoles contemporâneas e trata a questão
analisando as relações singulares da produção subjetiva através do capitalismo. O
segundo artigo questiona as implicações éticas e políticas das ciências humanas
frente às formas contemporâneas de resistência. Trata essa questão a partir da
análise do modo de produção capitalista, relacionado-o à modernidade científica, ao
liberalismo e à racionalidade política clássica.
Os questionamentos e as formas de tratar essas questões assinaladas
nesses trabalhos se colocam como avanços importantes na contribuição da
psicologia para a produção do espaço. Problematizar as estruturas sociais, políticas
e econômicas que produzem o urbano, questionar os saberes que produzem formas
de existência na cidade, afirma uma postura ética da psicologia, cada vez mais
comprometida com processos que diminuam práticas de opressão. Essa postura tem
fomentado, crescentemente, reflexões e ações sobre o espaço, que aproximam sua
construção de um pensamento democrático. Isso se reflete na produção encontrada
neste trabalho, que explicita que a preocupação com essa temática e sua implicação
no cotidiano tem tomado cada vez mais espaço e tem sido tratada a partir de
questionamentos cada vez mais implicados com o cotidiano e as pessoas.
77
Um ponto importante a ser observado como contribuição desses trabalhos é
que a temática dos processos de urbanização, apesar de ser recente nos estudos da
psicologia, foi pensada a partir das principais construções teórico-metodológicas da
psicologia.
Várias abordagens teóricas e percursos metodológicos que tendem, por
vezes, a legitimar exclusões ou questionar estruturas e provocar rupturas no modo
de construção do urbano olharam para os modos de habitar a cidade. Os
referenciais teóricos adotados nos artigos caminharam por meio da psicanálise, do
interacionismo, da psicologia comportamental, da psicologia sócio-histórica e de
teorias embasadas em autores que problematizam o social, tomadas pela psicologia
social.
Essas várias abordagens teóricas e caminhos metodológicos ajudam a
pensar de que forma cada uma se voltou, nesses trabalhos, para diferentes
concepções de sujeito, assinalando preocupações e focos, configurando a psicologia
de diferentes formas. Rose (1991 apud HUNING et al., 2014) explica que a
psicologia não é simplesmente uma disciplina teórica, uma vez que a psicologia se
insere no cotidiano, produzindo a maneira como vemos o mundo e nos relacionamos
com ele. A partir da inserção dessa ciência na vida comum, produz-se a maneira
como se conduz os relacionamentos, tanto com nós mesmos como com os outros.
Acompanhamos transformações que caminham no sentido de aproximar cada
vez mais a psicologia do urbano e posicionar essa relação junto da produção
subjetiva que perpassa o cotidiano, a vida prática. Os últimos anos de publicações
deixaram clara esta preocupação da psicologia.
A Psicologia tem se aproximado cada vez mais e se posicionado diante dessa
produção subjetiva que envolve a produção dos territórios urbanos. E tem se
debruçado sobre problematizações importantes, abordados temas relevantes que se
voltam para a democratização dos territórios urbanos na sua produção de
conhecimento.
Apesar de a psicologia ter lançado mão de vários referenciais teóricos, é
importante assinalar as contribuições da psicologia social, especialmente nos
últimos anos, se debruçando sobre um maior número de pesquisas relacionadas à
temática dos processos de urbanização e reconstruindo, ao mesmo tempo em que
78
mantendo a discussão, trazendo reflexões que possibilitam pensar em formas de
inclusão nos espaços urbanos.
Essa também é uma contribuição extremamente importante do ponto de vista
da perspectiva teórico-metodológica desse trabalho, que entende o urbano como um
processo, como produtor de práticas sociais que se renovam constantemente,
produzindo sentidos, experiências, subjetividade. Assim como é importante para a
psicologia o movimento de pensar essa temática por diferentes perspectivas, uma
vez que a partir de novas noções de sujeito e de mundo é possível ampliar, englobar
novas demandas, pensar e construir outros objetos. E, a partir deste objeto e destas
perspectivas, eleger novas questões importantes, assim, como o tema dos
processos de subjetivação são um campo importante na psicologia social
atualmente.
Atentar para os estudo dos processos de urbanização é uma ruptura
importante com os temas clássicos da psicologia, uma vez que os primeiros foram,
em grande medida, negligenciados por esse campo de saber. Soma-se a isso, a
relação com o espaço urbano como lugar onde ocorrem inúmeras formas de
segregação, de discriminação, de medo, de desigualdades e de injustiças sociais.
79
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Assinalando essas transformações e contribuições, partimos para as
considerações finais. Nosso objetivo nesta pesquisa foi conhecer e analisar de que
maneira a psicologia brasileira se aproxima e constitui a temática dos processos de
urbanização.
No primeiro capítulo, fizemos uma apresentação e aproximação do campo de
pesquisa dos processos de urbanização. Apresentamos a estrutura do trabalho e a
nossa escolha de fazer os capítulos de análise a partir dos objetivos específicos.
Expusemos a nossa visão teórica e epistemológica, assinalamos as práticas aqui
defendidas e nosso interesse em construir uma pesquisa parcial e local, sem
compromisso com a legitimidade de um conhecimento. Neste capítulo também foi
assinalado o percurso pelo qual nos norteamos na construção deste trabalho, a
psicologia histórica de Nikolas Rose. Desse modo, a fim de organizar o nosso
material de análise, iniciamos a seleção dos documentos dessa pesquisa seguindo
alguns passos da revisão sistemática de literatura, principalmente aqueles que não
comprometeram a perspectiva de conhecimento produzida neste trabalho, em que
não buscamos evidenciar ou esgotar o objeto dos processos de urbanização, mas
produzir reflexões parciais sobre eles. Seguimos com uma revisão de literatura.
Assim, selecionados e organizamos os materiais, que se referem a 17 artigos,
tivemos um quadro expositivo fundamental para a construção dos capítulos
posteriores.
No capítulo seguinte analisamos quais são as problematizações feitas em
relação aos processos de urbanização na produção de conhecimento em psicologia.
Trabalhamos as aproximações entre psicologia e processos de urbanização no
Brasil articulando a discussão dos dados referentes ao primeiro objetivo específico
proposto no estudo: analisar quais são as problematizações feitas em relação aos
processos de urbanização na produção de conhecimento em psicologia. Discutimos
o modo como o urbano começa a ingressar nos estudos na psicologia e como se
constituem novas concepções dos processos de urbanização nesse campo de
saber. Assim, tratamos que o primeiro artigo que traz o tema dos processos de
urbanização é de 1987. Após essa data tivemos outras publicações em 1990, 1997,
2010, 2011, 2012, 2013 e 2014. Nos últimos anos, especificamente a partir de 2010,
acompanhamos uma periodicidade maior das publicações que trouxeram o tema dos
80
processos de urbanização de forma que essa temática tem tomado mais espaço e
se tornado mais frequente nas produções acadêmicas da psicologia, do mesmo
modo que as formas pelas quais se conduziram esses temas.
Apesar de não acompanharmos uma unidade temática, teórica ou
metodológica nesses estudos, vimos que nos primeiros anos os artigos trabalhavam
com perspectivas mais ligadas a uma noção individualizante dos espaços urbanos.
Traziam questões ligadas às ciências naturais e abordando o urbano como um
ambiente
de
controle,
adaptação
e
sentimentos
dos
indivíduos,
com
problematizações que se norteiam pela adequação do indivíduo ao espaço. Nessas
produções identificamos uma maneira natural e mais saudável de habitar os
espaços urbanos e a preocupação da psicologia em descobrir técnicas eficazes de
adequação dos sujeitos à cidade. Esse conjunto de trabalhos mostrou que essa
perspectiva de urbano como algo externo ao sujeito tem uma força nas análises da
psicologia, atravessando sua história de constituição do urbano.
A partir de 1997, temos o primeiro trabalho em que se insere a palavra
subjetividade e um olhar para os processos de urbanização a partir da
problematização do social. Esse trabalho demarca um momento importante na
história desse objeto na psicologia, pois a partir daí surge uma série de outros
artigos que vão trabalhar o urbano a partir da problematização do social,
entendendo-o em constituição mútua com a subjetividade. Da época deste primeiro
trabalho até 2014 vemos que em 14 trabalhos selecionados que datam deste
período, somente 2 vão trazer perspectivas mais individualizantes, o que mostra
uma predominância nas análises que privilegiam o urbano como um espaço de
constituição mútua com os sujeitos nos últimos anos. Essas publicações rompem
com o modo de fazer história e ciência tradicionais e trazem problematizações que
reivindicam uma relação histórica, narrada a partir da relação do sujeito com o
espaço.
Os principais temas e questões abordados e articulados ao urbano nos
trabalhos que selecionamos nesta pesquisa foram urbanização de favelas,
acessibilidade urbana, políticas de subjetivação, catadores de material reciclável,
tribos urbanas, adolescência na cidade, jovens em situação de rua, modificação de
comportamentos na cidade e a interface entre o urbano e a psicologia ou saúde
mental. Esses últimos são trabalhos fazem uma demarcação interessante a partir do
81
ano de 1990, pois vão ligar a psicologia ao campo de estudo dos processos de
urbanização, como vão trazer à temática dos processos de urbanização a discussão
tradicional da psicologia, a saúde mental. Essa demarcação vai configurando
aproximações e suscitando questões que permitem problematizar cada vez mais a
relação entre a psicologia e os processos de urbanização.
Nesse capítulo ainda são tomadas as questões dicotômicas que são trazidas
entre espaço público e espaço privado trazidas nos artigos. Essas noções são
envoltas por uma noção de segurança, mantida pela construção segregacionista dos
espaços urbanos. Desta maneira, esses processos de exclusão, de opressão, de
preconceito que têm sido naturalizados e reproduzidos nas problemáticas trazidas
por essas produções da psicologia, negam as condições e possibilidades sociais,
históricas, culturais e materiais que governam a produção dos espaços urbanos.
No terceiro capítulo, identificamos quais referenciais teóricos e métodos a
psicologia tomou pra discutir os processos de urbanização. Refletimos sobre as
legitimações e rupturas na produção teórica da psicologia. Procuramos discutir os
princípios teórico-metodológicos pelo quais a psicologia tem se norteado na
abordagem dos processos de urbanização e sua produção em torno dos projetos de
construção dos espaços urbanos na cidade.
Foram analisadas as formas pelas quais os discursos das diversas
construções científicas que fundamentam essas práticas afirmam e dão visibilidade
a determinadas concepções de sujeito. Assim, nos debruçamos sobre a análise dos
argumentos e dos saberes convocados e autorizados para respaldar a construção
de um determinado território. Nove trabalhos deixaram explícito no texto a
abordagem teórica adotada. A identificação desses discursos e das abordagens
teóricas correspondentes foi uma etapa difícil, porque muitos deles não pareciam
possuir uma unidade teórico-metodológica, sendo atravessados por diferentes
perspectivas. Desse modo, a ligação da maioria desses trabalhos a algumas
perspectivas teóricas, nesta pesquisa, se deu a partir do olhar para seus temas,
metodologias, autores e suas principais relações teóricas dentro das escolas de
psicologia. A partir desses critérios, identificamos 1 trabalho que tem ligação com a
psicanálise, 1 trabalho que se baseia numa perspectiva interacionista, 3 que se
afinam à psicologia comportamental e 12 que se voltam à psicologia social.
82
Nas
primeiras publicações,
coincidindo
com
os artigos que
fazem
problematizações adaptacionistas descritos no capítulo anterior, as questões teóricometodológicas vão enfatizar construções que se norteiam por esse mesmo olhar,
lançando mão de ferramentas que buscam evidenciar verdades e naturalizar a
análise dos processos de urbanização. Nos trabalhos seguintes as estratégias
teórico-metodológicas vão trazer rupturas com essa prática, dando visibilidade à
subjetividade e aos discursos que constituem os processos de urbanização. A
maioria desses trabalhos trazem recorrentemente a psicologia social a partir da
psicologia sócio-histórica e de teóricos como Walter Benjamin, Michel Foucault,
Nietzsche e Deleuze, que trabalham com perspectivas que atentam para o social
como um campo de problematizações e transformações. Isso parece nos dizer que
mesmo diante da diversidade teórico-métodológica na abordagem do urbano, as
ferramentas que têm sido usadas para construir os processos de urbanização na
psicologia têm feito um movimento no sentido de dar visibilidade a esse objeto como
uma produção social.
No quarto capítulo, discutimos as transformações e contribuições do
conhecimento produzido pela psicologia em relação à abordagem dos processos de
urbanização. Tratamos das problematizações e contribuições da psicologia para a
temática dos processos de urbanização. Abordamos, então, o terceiro objetivo
específico proposto. Para isso, discutimos as transformações e contribuições do
conhecimento produzido pela psicologia em relação à abordagem dos processos de
urbanização. Buscamos expor as críticas e considerações da psicologia em torno
dos processos de urbanização e analisar se essas construções fazem alusão às
questões que envolvem cidadania e liberdade nos espaços urbanos.
Deste modo, a psicologia tem contribuído para que o tema dos processos de
urbanização tome espaço nas suas discussões e práticas. A partir do olhar para o
nosso material de análise, podemos dizer que a história atual da psicologia reflete
sua ligação mais próxima aos processos de urbanização, assim como seu olhar mais
próximo a pressupostos de cidadania e liberdade na construção do urbano. Esse
tema, no entanto, não pôde ser isento dos mesmos mecanismos, contradições,
construções e rupturas históricas que constituem a psicologia. Calcados na
dicotomia propulsionada pelo debate da psicologia entre indivíduo e sociedade,
alguns artigos encontrados, a partir dessa herança, vão conceber o sujeito apartado
83
do urbano e, por conseguinte, tratar a noção de cidadania separada da noção de
liberdade. Suas principais problematizações diziam respeito à criação de formas de
adaptar o sujeito ao espaço e eram tratadas a partir da produção de técnicas mais
eficazes de manejo dos sujeitos para a resolução da situação urbana em questão.
Algumas transformações na psicologia vão trazer a noção de subjetividade e
aproximar o sujeito do social. De modo que vemos a maioria dos trabalhos
publicados a partir de 1997 tratando questões de cidadania a partir do olhar dos
sujeitos para a cidade.
A análise desses artigos posicionou a psicologia tanto na fomentação de
práticas de cidadania como na produção da exclusão e de injustiças sociais no
espaço urbano. No entanto, o fato da temática dos processos de urbanização,
apesar de recente nos estudos desta ciência, ter sido pensada a partir de suas
principais construções teórico-metodológicas é uma contribuição importante da
psicologia para a produção do urbano, porque isso fomenta reflexões e ações sobre
o espaço, que aproximam sua construção de práticas democráticas.
Tanto abordagens teóricas e percursos metodológicos que legitimam
exclusões, como as que questionam estruturas e provocam rupturas no modo de
construção do urbano olharam para os modos de experimentar a cidade. A maneira
como esse conjunto de trabalhos se voltou para diversas visões de homem,
elegendo preocupações e focos sobre o urbano, produz um olhar para a trajetória da
psicologia que tem resultado, nesses trabalhos atuais, em problematizações
importantes e na abordagem de questões relevantes para a cidadania nos territórios
urbanos.
Nessas problematizações destacamos as contribuições da psicologia social
que, ao mesmo tempo em que têm mantido grande parte da discussão nos últimos
anos, vem trazendo reflexões que possibilitam pensar em formas de inclusão nos
espaços urbanos. Esses estudos provocam uma ruptura importante com os temas
clássicos da psicologia, porque o espaço urbano é um lugar que também precisa ser
pensado, olhado com cuidado, pois nele ocorrem inúmeras formas de opressão.
Em resumo, vemos que os processos de urbanização na psicologia foram
gradativamente tomando mais espaço, ganhando amplitude e periodicidade, assim
como as formas pelas quais se tratou e se estudou esse tema. Mesmo coexistindo
diversas práticas em todo o percurso histórico de tomada desse objeto, foi-se
84
constituindo na psicologia um afastamento de questões teóricas e metodológicas
pautadas em olhares individualizantes sobre o urbano em detrimento de
problematizações que privilegiam os processos de urbanização como uma
construção social e aproximam as reflexões sobre o urbano de práticas de cidadania
e liberdade.
Com este trabalho tomamos clareza do quanto o papel da construção dos
processos de subjetivação são importantes para pensar as práticas da psicologia e
para construir reflexões mais comprometidas com a democracia, a liberdade, a
cidadania e uma ética pautada em posicionamentos políticos de valorização da
existência.
Assim, por toda a análise feita neste trabalho perpassou a discussão de como
as produções da psicologia se assentam em suas construções de homem e visão de
mundo, pelas quais foi possível pensar a questão da subjetividade. Observamos, ao
longo das análises que, a depender dessa noção de subjetividade são produzidos
rumos teóricos e metodológicos que aproximam ou distanciam as pessoas da
construção da cidade em que vivem.
Intentamos que este olhar para a diversidade de concepções de urbano
construída pela psicologia permita pensar o lugar dessa ciência na manutenção de
práticas excludentes que ocorrem a partir de uma construção dos espaços,
comumente justificada por concepções que naturalizam divisões e ferem direitos. E
que olhar para as práticas psicológicas na construção do espaço urbano possibilite
identificar e pensar em caminhos que produzam rupturas com demandas políticas e
econômicas que primam pela segregação e periferização dos territórios urbanos. E a
partir disso, se faça com que seja possível pensar o espaço com todos os efeitos
que sua construção gera na produção da vida nos territórios urbanos, permitindo
priorizar essa articulação entre a subjetividade e as produções urbanas.
Esperamos que essa dissertação, que é mais uma construção dos processos
de urbanização pela psicologia, além de demarcar mais uma produção da psicologia
comprometida com a democratização dos espaços públicos, possa também
colaborar com reflexões na produção de conhecimento na psicologia, aproximando-o
da temática dos processos de urbanização, e que esse conhecimento produzido
possa contribuir para a construção de políticas públicas que visem projetos urbanos
de valorização da vida na cidade.
85
REFERÊNCIAS
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do Rio de Janeiro, 1949 - ISSN 1809-5267.
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