Valéria Vanessa Ferreira dos Santos - Da historicidade como argumento ao argumento como historicidade: Sentidos presentes nas publicações da Revista Psicologia & Sociedade entre os anos de 1986 - 2015
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
Valéria Vanessa Ferreira Dos Santos
DA HISTORICIDADE COMO ARGUMENTO AO ARGUMENTO DA
HISTORICIDADE: SENTIDOS PRESENTES NAS PUBLICAÇÕES DA REVISTA
PSICOLOGIA & SOCIEDADE ENTRE OS ANOS 1986-2015
Maceió
2016
1
VALÉRIA VANESSA FERREIRA DOS SANTOS
DA HISTORICIDADE COMO ARGUMENTO AO ARGUMENTO DA HISTORICIDADE:
SENTIDOS PRESENTES NAS PUBLICAÇÕES DA REVISTA PSICOLOGIA &
SOCIEDADE ENTRE OS ANOS 1986-2015
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de
Pós-Graduação
em
Psicologia
da
Universidade
Federal de Alagoas, como requisito parcial para
obtenção do grau de Mestre em Psicologia .
Orientadora: Profª. Drª. Adélia Augusta Souto de
Oliveira.
Maceió
2016
2
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecário Responsável: Helena Cristina Pimentel do Vale
S237d
Santos, Valéria Vanessa Ferreirados.
Da historicidade com argumento ao argumento da historicidade : sentidos
presentes nas publicações da Revista Psicologia & Sociedade entre os anos
1986-2015 / Valéria Vanessa Ferreira dos Santos. –2016.
92 f.
Orientadora: Adélia Augusta Souto de Oliveira.
Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Psicologia. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Maceió,
2016.
Bibliografia: f. 77-80.
Apêndice: f. 81-92.
1. Psicologia social – Brasil. 2. Historicidade. 2. Sentido (Psicologia).
4.Periódicos científicos. 5. Revista Psicologia & Sociedade. I. Título.
CDU: 316.6
3
4
In memorian de Eric Alexandre Ferreira dos Santos (Eric
Ferraz) do qual fui impedida de compartilhar este tempo.
5
AGRADECIMENTOS
À FAPEAL, pela bolsa de financiamento a esta pesquisa.
Aos professores do Programa de Pós-graduação em Psicologia que me ensinaram tanto sobre
perguntar mais que responder.
Aos meus colegas de turma do mestrado que compartilharam debates interessantes em aula
comigo.
Um agradecimento especial ao Hélton e ao Juliano que, cúmplices de longa data, me
acompanharam também neste processo compartilhando viagens, experiências, confusões,
ideias, angústias... enfim: amizade.
Ao Bruno e aos meus pais, companheiros afetivos perenes nestes dois anos.
À minha orientadora, parte significativa deste projeto.
Aos colegas de orientação Lívia e Gilberto, parceiros na alegria e, principalmente, na tristeza.
6
RESUMO
Esta pesquisa objetiva descrever e interpretar os sentidos de historicidade das publicações na
revista Psicologia & Sociedade de 1986 (ano de sua fundação) até 2015. Compreendemos
historicidade como experiência social e subjetiva com o tempo. A historicidade permeia
grande debate acerca do objeto e da epistemologia do conhecimento, podendo ser tomada
como objeto, pela área da História, ou como argumento, em especial quando trazida ao debate
por outras áreas do conhecimento. Este estudo parte do debate empreendido na chamada
“crise” da psicologia social, em que a crítica a uma perspectiva de fazer científico traz a
historicidade como argumento para reivindicar um conhecimento sócio-historicamente
situado. Analisamos os sentidos de historicidade através de uma pesquisa por descritores à luz
da teoria vigotskiana sobre a palavra. A análise deste estudo se caracteriza por duas fases: a
descritiva e a interpretativa. A amostra de materiais resultou da pesquisa pelas ocorrências
de sete descritores: historicidade, histórico, históricos, história, histórias, histórica e
históricas. Na parte descritiva utilizamos dois métodos diferentes correspondentes à
disposição material das edições da revista: o primeiro para organizar as edições não alocadas
na plataforma Scielo que vão de 1986 a 2001, e a segunda para as edições online já alocadas
na plataforma Scielo de 2002 até 2015; para os primeiros verificamos a ocorrência de
quaisquer dos descritores nos trabalhos dispostos nas edições da revista e chegamos a 183
trabalhos, já para as outras edições entre 2002 e 2015 obtivemos 232 trabalhos. Para este
último intervalo temporal foi necessária a fase de intercruzamento (evita repetições de artigos)
dos descritores e obtivemos 186 artigos de 2002 a 2015. Identificamos como resultado 369
trabalhos com ocorrências de quaisquer dos descritores no intervalo de tempo total definido
nos objetivos desta pesquisa (1986-2015). Para os fins a que se destina esta pesquisa, as
ocorrências do descritor historicidade foram escolhidas para aprofundamento na fase
interpretativa, o descritor está presente em 13 artigos. Vimos que historicidade é um conceito
trazido como argumento importante na fundamentação das abordagens escolhidas nos artigos
ou na caracterização dos temas abordados, no entanto pouco definido. Em geral, seu uso,
quando referenciado, faz alusão à perspectiva marxista e/ou à psicologia social crítica.
Concluímos que a historicidade é trazida como argumento nas publicações da psicologia
social e cumpre um papel relativo ao debate da chamada “crise” da psicologia social em trazer
um caráter de desnaturalização ao que referencia. No entanto, se naturaliza como conceito não
referenciado em profundidade. Este trabalho pretende contribuir para uma avaliação do uso
dos conceitos nos sistemas teóricos e critica o uso indiscriminado da palavra “historicidade”
pouco definido no debate contemporâneo.
Palavras-chave: historicidade; sentido; psicologia social brasileira; revista Psicologia &
Sociedade
7
ABSTRACT
This research aims to describe and analyze the historicity of senses of the publications in
Psicologia & Sociedade magazine 1986 (year of its foundation) until 2015. We understand
historicity as social and subjective experience with time. Historicity permeates great debate
about the object and the epistemology of knowledge, it may be taken as an object, by history
area, or as an argument, especially when brought to the debate in other knowledge areas. This
study of the discussion undertaken in the social psychology “crisis”, in which the critical a
scientific perspective brings to the historicity as an argument to claim a socio-historically
situated knowledge. We analyze the meanings of historicity through a search for descriptors
by the light of Vygotskian theory of the word. The analysis of this study is characterized by
two phases: a descriptive and interpretive. The sample materials resulted from the search for
occurrences of seven descriptors: historicidade, histórico, históricos, história, histórias,
histórica e históricas. In the descriptive part we used two different methods corresponding to
the material provision of magazine editions: the first to organize the issues not allocated in
Scielo platform ranging from 1986 to 2001, and the second for the online editions already
allocated in 2002 Scielo platform 2015 ; for the first we checked the occurrence of any of the
descriptors in the works arranged in the editions of the magazine and came to 183 jobs, while
for the other editions between 2002 and 2015 we obtained 232 jobs. For the last time interval
was required to intercrossing phase (avoid repetitions of articles) descriptors and we got 186
articles from 2002 to 2015. We identify as a result 369 jobs with instances of any of the
descriptors in the total time interval defined in the objectives of this research ( 1986-2015).
For the purpose it is intended this research, the events descriptor historicity were chosen to
deepen the interpretative phase, the descriptor is present in 13 articles. We conclude that
historicity is a concept brought as an important argument in the grounds of the approaches
chosen in the articles or in the characterization of the themes, however poorly defined. In
general, their use when referenced, alludes to the marxist and / or critical social psychology
perspective. We evaluate that historicity is brought as an argument in the literature of social
psychology and plays a role in reference to the discussion of the "crisis" of social psychology
to bring a denaturalization of character to that reference, however it is naturalized as a concept
not referenced in depth. This work aims to contribute to an evaluation of the use of concepts
in theoretical systems and criticizes the indiscriminate use of the word "historicity" poorly
defined in the contemporary debate.
Keywords: Historicity; Meaning; Brazilian Social Psychology; Psicologia & Sociedade
8
LISTA DE TABELAS
TABELA 1. Ocorrências discriminadas por descritor e por ano (não discrimina os trabalhos
individualmente) de 1986 a 1991............................................................................................................38
TABELA 2. Ocorrências discriminadas por descritor e por ano (não discrimina os trabalhos
individualmente) de 1992 a 2001............................................................................................................39
TABELA 3. Organização dos trabalhos por descritor nas publicações de 2002 a 2015.........41
9
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1. Descritor “historicidade” e ocorrências por ano (2002-2015)...............................42
Gráfico 2. Descritor “histórico e sua variação com „s‟, ocorrências por ano (2002-2015).....43
Gráfico 3. Descritor “história” e sua variação com „s‟, ocorrências por ano (2002-2015).....43
Gráfico 4. Descritor “histórica” e sua variação com „s‟, ocorrências por ano (2002-2015)....44
Gráfico 5.Todos os descritores intercruzados, ocorrências por ano (2002-2015)...................44
10
LISTA DE ABREVIATURAS
ABRAPSO
Associação Brasileira De Psicologia Social
ALAPSO
Associação Latino-Americana de Psicologia Social
AVEPSO
Associação Venezuelana de Psicologia Social
MIT
Massachusetts Institute of Technology
11
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 11
2. POR QUE A HISTORICIDADE? UMA PERGUNTA POSSÍVEL E
NECESSÁRIA. ....................................................................................................... 13
2.1 Da historicidade como objeto ................................................................................... 14
2.2 Da historicidade como argumento............................................................................. 20
2.3 Da historicidade, a psicologia e a psicologia social ................................................... 24
3. MÉTODO ................................................................................................................. 30
3.1 Pressupostos metodológicos ..................................................................................... 30
3.2 Procedimentos metodológicos......................................................................................35
4. ANÁLISE DESCRITIVA: OS DESCRITORES E SEUS MOVIMENTOS
TEMPORAIS E HISTÓRICOS .................................................................................. 38
5. DA HISTORICIDADE COMO ARGUMENTO: SENTIDOS DE
HISTORICIDADE NAS PUBLICAÇÕES DA REVISTA PSICOLOGIA &
SOCIEDADE ................................................................................................................ 44
6. O ARGUMENTO DA HISTORICIDADE: CONSIDERAÇÕES FINAIS ............ 72
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................... 75
8. APÊNDICE ............................................................................................................... 79
12
1. INTRODUÇÃO
Há diversas formas de se conceber o que é a historicidade num sistema teórico. Este
parece ser um grande debate gerado pelas várias leituras acerca do que impulsiona o
desenvolvimento da história e como ela pode ser definida. De forma sistemática ou não, há
sistemas teóricos de filósofos e historiadores a elaborarem sobre este processo.
A nosso ver, a historicidade pode ser compreendida como a possibilidade de uma
experiência humana, social e subjetiva através do tempo. Para além da descrição física da
natureza, funcionamento e propriedades do tempo, a historicidade nos remete a uma
conformação significativa de uma experiência que se dá nesta dimensão temporal.
Na perspectiva dessa pesquisa, partimos da possibilidade de se abordar a historicidade
de formas distintas, mas relacionadas: a historicidade como objeto e a historicidade como
argumento. No primeiro caso, entendemos que, pela especificidade que requer, a historicidade
será por excelência referente¹ da História como conhecimento específico. Já no segundo caso,
tomada como argumento, a historicidade terá uma lugar funcional de uso e, em particular,
como recurso argumentativo em outras áreas do conhecimento humano.
Nos dois casos, falar de historicidade nos remete a questionar como uma forma de se
pensar uma conformação significativa do tempo é possível hoje, contextualizando o debate
feito pela contemporaneidade que caracteriza o que chamamos de “crise do tempo”, em que o
projeto moderno - enquanto forma específica de apreender o real - é localizado temporal e
espacialmente de forma a ser criticado por diferentes perspectivas. Falar de historicidade
também parte e procede a questionar como a conformação desta experiência – de
historicidade- pôde ser expressa em sentidos diversos, em contextos específicos e diferentes
do debate contemporâneo.
O debate feito por esta pesquisa parte da historicidade como argumento no contexto da
psicologia social. A questão que nos direciona indaga sobre os sentidos de historicidade a
partir das publicações de uma revista acadêmica icônica da área da psicologia social no
___________________________________________________________________________
1. Optamos pelo termo referente em vez de objeto em vista de haver debates sobre qual deve ser o objeto da História que não
cabe no debate feito nesta pesquisa. Referente nos pareceu mais adequado em vista de sua maior generalidade, definido aqui
como o elemento do mundo extralinguístico, real ou imaginário, ao qual remete o signo linguístico, num determinado
contexto sociocultural e de discurso, o referente parte da idéia de que nossa relação com o real não é imediata de forma a
compor sempre um construto que vai se conformar num objeto, discurso, narrativa e etc.: um signo. Para essa discussão de
forma mais aprofundada, ainda que introdutória, partimos da discussão feita por Blikstein (2003).
11
Brasil: a revista Psicologia & Sociedade, periódico da Associação Brasileira de Psicologia
Social. O contexto sócio-histórico (espaço-temporal) em que essa pergunta se insere, parte do
debate contemporâneo sobre a experiência social e subjetiva com o tempo - que definimos sob
a categoria historicidade - para pensar, sob a forma das ocorrências de descritores que
conformem este conceito, como ele foi significado ao longo de suas publicações desde sua
fundação em 1986 até agora.
Para isso, trazemos a perspectiva de Vigotski (2004; 2010) na sua discussão
epistemológica do lugar da ciência e sua proposição teórica sobre significação. Entendemos
que o autor nos ajuda a pensar como a ciência psicológica constroi seu objeto e produz
conhecimento, bem como o processo de significação composto na formação de um conceito é
interessante para os estudos da psicologia.
Nesta pesquisa pretendemos identificar e analisar que sentidos de historicidade estão
manifestos nas publicações da revista aqui escolhida. Para isso, organizamos a dissertação nos
seguintes capítulos: Capítulo 2: “Por que a historicidade? Um pergunta possível e necessária”
– este capítulo nos deu subsídios para compreender os regimes e as perspectivas de
historicidade e pensar a historicidade como pergunta possível e necessária em seus aspectos
epistemológicos e políticos; Capítulo 3: “Método” - Discute os pressupostos epistemológicos
adotados nesta pesquisa, bem como os procedimentos efetuados para construção da mesma;
Capítulo 4: “Análise descritiva: os descritores e seus movimentos temporais e históricos” –
neste capítulo apresentamos as ocorrências de historicidade encontradas através da pesquisa
dos descritores escolhidos (historicidade; histórico; históricos; histórica; históricas; história;
histórias) e um mapa descritivo de como estes aparecem nas publicações da revista Psicologia
& Sociedade pela observação de suas ocorrências. Capítulo 5: “A historicidade como
argumento: sentidos de historicidade nas publicações da revista „Psicologia & Sociedade’” –
escolhemos o descritor “historicidade” e apresentamos uma análise interpretativa acerca de
cada ocorrência em seu contexto argumentativo e avaliamos os sentidos de cada uma das
ocorrências e o Capítulo 6: “O argumento da historicidade: considerações finais” – em que
apresentamos uma avaliação dos aspectos epistemológicos e teóricos que cada sentido
identificado resguarda.
12
2. POR QUE A HISTORICIDADE? UMA PERGUNTA POSSÍVEL E
NECESSÁRIA.
Para os fins a que se destina esta pesquisa, é importante ressaltar as formas diferentes
como abordamos a historicidade enquanto palavra passível de investigação. A historicidade
como conceito – descritor -, analisada de forma descritiva e interpretativa aqui, é trabalhada
sob duas perspectivas não-excludentes que dizem respeito à forma como ela pode ser pensada
num contexto de pesquisa e análise, são elas: a historicidade como objeto e a historicidade
como argumento.
Como objeto, a historicidade é apresentada como categoria passível de se questionar
em virtude do conceito de regimes de historicidade (HARTOG, 2014) em que é tanto possível
quanto necessário perguntar sobre os sentidos diferentes em que a historicidade se apresenta
em virtude dos arranjos diferentes em que a experiência temporal pode ser configurada.
A historicidade como objeto é abordada aqui para fins de contextualização do debate
que, por excelência é feito pela história como conhecimento específico. Apesar de
considerarmos que este debate tem a virtude de ser pertinente à teoria do conhecimento em
vista de perpassar qualquer sistema teórico e/ou filosófico, não nos cabe esgotar, tampouco se
propor a analisar, a dimensão ontológica (como objeto) em que este é apresentado nas
diferentes áreas do conhecimento filosófico e científico.
Não se trata de defender ou não as divisões disciplinares que remontam à história da
ciência, mas de se estabelecer os limites e as possibilidades que este estudo e outros da mesma
natureza podem resguardar na delimitação de seus objetos e objetivos.
Como argumento, a historicidade aparece na função de qualificar algo, como
dimensão a ser considerada em virtude de que sobre qualquer coisa ou acontecimento sempre
se pode falar sobre, narrar, contar uma história, historicizar, seja na expectativa de esgotá-lo
enquanto descrição real ou na ciência de ser mais uma forma de concepção acerca do qual.
Como questiona Hartog (2014, p. 26), esta propriedade permite a pergunta a qualquer sistema
filosófico ou científico: “Por que ordem do tempo eles são sustentados? De que ordem são
portadores ou sintomas? De que „crise‟ do tempo, os indícios?”.
Destas perguntas, podemos inferir o lugar fundamental que um regime de historicidade
exerce na qualificação do real num tempo-espaço determinados. Ao sustentar, num sistema
teórico, uma forma de se conceber a experiência social e subjetiva com o tempo – a
historicidade - nos informa acerca da (des)naturalização do tempo. Podemos dizer, inclusive,
que é precisamente essa a sua função.
13
“É histórico!” ou “possui historicidade” dirá aquele que argumenta em favor da
desnaturalização de determinado objeto. Mas a pergunta que fica é: o é, mas em que sentido?
Com que propósito? Qual o lugar que a historicidade ocupa no debate empreendido? De que
maneira ele é feito?
Contemporaneamente, enquanto se fala de “crise do tempo”, de diferentes formas de
acepção de arranjos do tempo (presente-passado-futuro), faz sentido dizer apenas de algo que
possui historicidade? São estes questionamentos que, em respeito a um debate atual e extenso
da teoria da história, se fazem necessários a todo e qualquer contexto em que se invoque a
historicidade como argumento.
Estes questionamentos, da historicidade como argumento, é que direcionarão esta
pesquisa no contexto da produção acadêmica da Psicologia, em particular nas publicações da
revista da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO): a Psicologia & Sociedade.
2.1 Da historicidade como objeto
Falar de historicidade como objeto faz sentido na medida em que se admite que
existem arranjos diversos sobre como se pode descrever uma experiência social e subjetiva
com o tempo. Neste sentido, ao se falar de historicidade, como propõe Hartog (2014), falamos
então de regimes de historicidade.
Historicidade é definida como:
[...] esta experiência primeira de estrangement, de distância de si para si
mesmo que, justamente, as categorias de passado, presente e futuro
permitem apreender e dizer, ordenando-a e dando-lhe sentido. (HARTOG,
2014, p. 12).
Esta experiência primeira é uma experiência de natureza social, na medida em que é
compartilhada num espaço-tempo determinados e também subjetiva por expor uma forma
possível de como cada um pode compreender e questionar sua relação com o tempo no
decorrer de sua existência e organizar de diferentes formas as suas relações com o mundo e o
tempo.
Já regimes de historicidade, Hartog define como
[...] apenas uma maneira de engrenar passado, presente e futuro ou de compor
um misto das três categorias [...]. Conforme domine a categoria do passado, do
futuro ou do presente, a ordem do tempo resultante não será evidentemente a
mesma. (2014, p.11)
14
Apesar da pouca distinção que o autor faz entre os dois conceitos no decorrer de seu
livro “Regimes de historicidade: presentismo e experiências com o tempo”, regime de
historicidade é concebido como “uma categoria de equilíbrio sempre provisório e instável e
que tem a função de descrever uma conformação social do tempo (presente, passado e
futuro)” (id.).
Bem como nos indaga Hartog: “‟historicidade‟, por quê? De Hegel a Ricouer,
passando por Dilthey e Heidegger, o termo remete a uma longa e pesada história filosófica.”
(2014, p.12) Neste trabalho, esta categoria nos é importante na medida em que nos remete a
diferentes arranjos da experiência temporal produzindo sentidos diversos acerca de como esta
pode ser caracterizada.
Se para esta experiência cabem diferentes formas de caracterização, cabe indagar
sobre estas formas. A palavra historicidade, que pode resguardar sentidos diferentes, é
colocada então como objeto possível do qual se interessa, especificamente, esta pesquisa.
As diferentes formas como essa experiência social e subjetiva com o tempo pode ser
caracterizada remonta à história da própria História. Desde a civilização grega com os mitos e
uma temporalidade não-linear em que:
Os gregos tinham uma visão cíclica e repetitiva da história: crescimento e
decadência, vida e morte. A ordem que existe no universo, acessível ao
pensamento, não revela uma sucessão linear e teleológica, mas a estabilidade
do ser. (REIS, 2006, p. 15).
Até que, em detrimento da valorização grega do passado e do presente, o passado e o
futuro tornaram-se assimétricos com os romanos, e o futuro se tornou o foco da pergunta da
história. Isto representou uma mudança em relação à forma como se experienciava o tempo e
a cultura ocidental. (Id., p. 16)
O regime de historicidade romano é marcado pela ideia de história universal, discurso
necessário à justificação do desejo expansionista de dominação do mundo do Império
Romano. Este regime passa por reformulações, em vista da perda do lugar de sustentação
política do discurso religioso de teleologia histórica universal para a salvação que era seu
aliado, de forma que engloba as mudanças acontecidas na Europa. Sobre isso, nos explica
Reis:
A herança romana, que favorecera a expansão de Roma, devia passar por
ajustes para continuar apoiando a Europa ocidental em sua expansão, agora
por todo o mundo. Tal como estava, depreciando tanto a ação e o sucesso
neste mundo, desvalorizando tanto as novas e enormes conquistas européias,
tornara-se um entrave ao expansionismo ocidental. Os europeus continuaram
(e até mais radicalmente), como os romanos, a agir em nome da fé cristã.
Mas a hora era de reinvenção da teologia, de recriação do discurso sobre
15
Deus, a fim de que os apoiassem eficazmente na continuidade da produção
da história universal, ou seja, na conquista e na salvação da humanidade
universal. (ibidem, p. 19)
Este processo constitui a chamada modernidade que, em termos de regime de
historicidade, é herdeira marcada pela idéia de história universal construída com os romanos.
Certamente é deste regime de historicidade que podemos dizer de uma crise temporal na
contemporaneidade. O impacto que a modernidade imprimiu nesta relação, bem como
perspectivas que problematizam o regime de historicidade moderno nos interessam nesta
medida.
Hartog (2014, p. 19) nos fala sobre o curso da história recente, marcado pela queda do
muro de Berlim e dissolução da União Soviética, bem como a ascensão de múltiplos
fundamentalismos que abalaram, de maneira brutal e duradoura, nossas relações com o tempo.
Koselleck (2006) nos explica que o tempo histórico é produzido pela tensão entre a distância
criada entre o campo da experiência, por um lado, e o horizonte da expectativa de outro; no
caso dos tempos modernos, podemos caracterizá-lo pela assimetria entre a experiência e a
expectativa, pela sua abertura ao futuro e ideiais de progresso.
Alguns eventos históricos e a emergência de alguns ideiais caracterizam a
modernidade, segundo Mancebo (2002): a consolidação do capitalismo, a Reforma
Protestante, o modelo de racionalidade que preside a ciência moderna e a organização dos
Estados Nacionais nas diversas regiões da Europa. As mudanças que Mancebo (id.) descreve
da Renascença ao Iluminismo conformam um período de mudanças e transições do qual
emerge a reificação da Razão e do indivíduo.
A consolidação do capitalismo como sistema de produção, além das profundas
mudanças econômicas desenvolveu pessoas livres das relações servis do mundo feudal,
sujeitos livres para estabelecerem contratos de trabalho, o que teve, certamente,
consequências para a subjetividade de então. A reforma protestante recusou a autoridade da
tradição e a mediação restrita da Igreja para a salvação humana, colocando o indivíduo como
responsável através de suas ações terrenas, em relação direta e isolada com deus, o que
contribuiu para a consolidação de uma experiência individualizada. O modelo de
racionalidade científica com representantes como Bacon e Descartes instaurou um sujeito
autoconsciente, que domina a própria vontade o que pressupunha o controle do sujeito
motivado, portador de tendências, desejos, movimentos passionais e instintivos. A
organização dos estados nacionais na Europa em que a autoridade do rei se transforma e
aumenta com o advento de um Estado Absolutista contribuiu para a consolidação da nova
16
ordem econômica e social que se construía na Europa Ocidental e para a intensificação de
uma experiência individualizada, característica autêntica da modernidade.
A subjetivação moderna construiu um homem livre, que age sob a reflexividade da
Razão, sem referência universal para orientar a tensão e o conflito que definiram a mudança
moderna. Reis (2006, p. 28) nos diz sobre essa tensão resguardada no conceito de
modernidade em que ao mesmo tempo se rejeita o passado de universalismo cristão para
forjar um presente secularizado nos séculos XIII – XVI, no século XVIII, depois de conflitos
religiosos, guerras civis, o uso da força cerceando a liberdade e a consciência a serem
expressas no âmbito público.
Retomamos os conceitos de Koselleck (2006) de campo de experiência e horizonte de
expectativa em que a distância entre ambos constitui o que o autor denomina de tempo
histórico. A tese do autor é de que, na era moderna, a diferença entre experiência e
expectativa aumenta progressivamente e que, na verdade, só se pode conceber a modernidade
como um tempo novo a partir do momento em que as expectativas distanciam-se cada vez
mais das experiências de até então. A secularização do conhecimento e descentralização
social do poder eclesiástico permitiram esse distanciamento porque:
Enquanto a doutrina cristã dos últimos fins impunha limites intransponíveis
ao horizonte de expectativa – ou seja, até meados do século XVII,
aproximadamente -, o futuro permanecia atrelado ao passado. A revelação
bíblica, gerenciada pela Igreja, envolvia de tal forma a tensão entre
experiência e expectativa que elas não podiam separar-se. (KOSELLECK,
2006, p. 315).
No entanto, com a Modernidade, entre outros aspectos, veio o abalo da revelação
bíblica como orientação exclusiva à vida social de forma que emergiu:
[...] a descoberta de um novo horizonte de expectativa, o que terminou
ganhando a forma do conceito de progresso. [...] O objetivo de uma
perfeição possível, que antes só podia ser alcançado no além, foi posto a
serviço de um melhoramento da existência terrena, que permitiu que a
doutrina dos últimos fins fosse ultrapassada, assumindo-se o risco de um
futuro aberto (id., p. 316).
Essa descoberta de um novo horizonte de expectativa se dá principalmente pelas
experiências proporcionadas desde a colonização ultramarina até o desenvolvimento da
ciência e da técnica que também modificaram o espaço da experiência, de forma que o
conceito de progresso, nos diz Koselleck (2006, p. 317), só foi criado no final do século
XVIII para reunir as tantas novas experiências desenvolvidas nos séculos anteriores.
17
A ideia de progresso sintetiza a perspectiva do novo homem, moderno, como sujeito
da história e produtor do seu futuro. Nas palavras de Koselleck, “o progresso é o primeiro
conceito genuinamente histórico que apreendeu a diferença temporal entre experiência e
expectativa” (2006, p. 320). A ideia de progresso aponta para uma única direção da
experiência humana no tempo. A história retorna como possibilidade de realização plena do
homem em detrimento da redenção divina para dar de novo direção ao homem moderno que a
perdera com a dissolução do poder da explicação e orientação divina. A busca pela
autoconsciência e pela liberdade forjadas como valores vigentes pela modernidade se dá no
curso histórico de uma história universal, única e singular.
Já no século XIX, aprofundada no século XX, uma nova relação com a temporalidade
se constitui, a razão moderna é criticada e colocada em xeque. A proposta moderna que
prometia a liberdade e o avanço por meio do conhecimento livre e racional, bem como a
dominação instrumental da natureza que proporcionariam o desenvolvimento e o progresso do
homem se vê ao redor de campos de concentração, bombas nucleares e duas guerras mundiais
de forma que passa a ter todo o seu projeto de libertação questionado como sistema de
opressão.
Reis (2006) nos diz que com esse sentimento pessimista de crítica ao projeto moderno
passa-se a compreender que a universalidade dos valores e da história representava o que o
autor chamou de “expansionismo metastático” dos valores particulares da Europa e seu
interesse em instrumentalizar o mundo.
Autores como Marx e Freud, mesmo com produções, em determinadas leituras,
ligadas ao projeto moderno, são considerados grandes críticos de sua perspectiva da história
como produto e realização plena da autoconsciência e da liberdade através de uma perspectiva
de descentramento do sujeito, seja pelo conceito de inconsciente freudiano ou pelo de
ideologia marxista (REIS, 2006; BIRMAN, 1997). É no século XX, herdeiro das
considerações destes e outros teóricos, que se consolida então a crise da Razão moderna.
Na introdução de sua obra “A condição pós-moderna”, Harvey (2008) nos descreve
uma antinomia que emerge do contexto de crise da razão moderna entre modernidade e pósmodernidade e nos diz:
Geralmente percebido como positivista, tecnocêntrico e racionalista, o
modernismo universal tem sido identificado com a crença no progresso
linear, nas verdades absolutas, no planejamento racional de ordens sociais
ideais, e com a padronização do conhecimento e da produção. O pósmoderno, em contrate, privilegia a heterogeneidade e a diferença como
forças libertadoras na redefinição do discurso cultural. A fragmentação, a
18
inderteminação e a intensa desconfiança de todos os discursos universais ou
(para usar um termo favorito) “totalizantes” são o marco do pensamento pósmoderno. (p. 19).
É precisamente pelo seu regime de historicidade que a modernidade é mais duramente
criticada, visto que aparece como pilar de sustentação do esquema totalizante que ordena. Por
isso que Harvey (id.) nos acrescenta que o que há de comum nas várias mudanças filosóficas,
científicas e teóricas que este momento testemunha é a rejeição das “metanarrativas” que ele
define como as “interpretações teóricas de larga escala pretensamente de aplicação universal”.
Podemos reafirmar então a importância de se pensar regimes de historicidade para os
tempos hodiernos. Na pós-modernidade o universal se decompõe e se multiplica e a grande
narrativa também se fragmenta em múltiplas de forma a desacreditar a razão. Essa descrença
questiona o sentido histórico moderno orientado pela realização da experiência humana na
história e deslegitima o governo da história pela razão.
O regime de historicidade moderno ganha destaque na medida em que nos diz
contemporaneamente, traduzido na sua crise temporal, sobre a historicidade como objeto de
questionamento na sua forma mais direta. É a partir desta possibilidade que se dá o interesse
desta pesquisa de identificar, descrever e analisar as nuances desta palavra: historicidade.
De forma geral, a caracterização sobre o desenvolvimento da história - ou como se
pode denominar: a historicidade - é importante para os estudos da psicologia na medida em
que nos diz sobre concepções acerca da experiência humana subjetiva e social num
determinado sistema teórico.
Falar sobre historicidade nos diz acerca da conformação dessa experiência social
organizada num presente-passado-futuro, numa temporalidade. Logo, abordar sobre a
historicidade, um objeto da História como campo de conhecimento específico, para a
psicologia pode ser pertinente numa abordagem que se proponha a descrever e interpretar
como essa experiência é e pode ser concebida.
Apesar da importância da preocupação com a historicidade como pergunta possível de
ser pertinente tanto à psicologia quanto, no nosso argumento, para qualquer área do
conhecimento que se debruce sobre fenômenos humanos, aborda-lá por excelência como
objeto cabe à História. Desta forma, nossa abordagem para com a discussão se dá via
historicidade como argumento, ou seja, a forma como ela pode ser apresentada como
referência funcional no contexto do debate de outras áreas que não a História propriamente
dita.
19
Em particular para a psicologia social, área de convergência entre campos distintos como a psicologia e as ciências sociais -, este tema se apresenta como importante por também
trazer à luz do debate uma experiência humana social e subjetiva que, por se estabelecer num
arranjo de tempo determinado, nos diz também sobre perspectivas de mudança social. A
historicidade é pertinente instrumento quando expõe relações de poder a partir do
distanciamento temporal numa relação sujeito-objeto, bem como na definição do objeto de
pesquisa em si quando se diz deste ter “historicidade” ou não. A historicidade também é
pertinente argumento quando pode avaliar estas mesmas categorias pela via de sua
desnaturalização.
É sobre estas duas perspectivas que podemos falar de historicidade como argumento:
na sustentação de perspectivas desiguais de poder através de um distanciamento temporal
entre organizações sociais diferentes e/ou numa relação sujeito-objeto; e quando da
caracterização do próprio objeto a ser estudado. Sobre estes aspectos se trata o capítulo
seguinte.
2.2 Da historicidade como argumento
Neste capítulo, tratamos de como a historicidade pode ser trazida como argumento em
campos diferentes que o da História, para então delimitarmos qual o seu lugar argumentativo
na Psicologia e na Psicologia Social.
Quando não tomada como objeto, a historicidade aparece como argumento importante
a ser considerado em áreas diferentes do conhecimento. Na área científica, ela pode ser
expressa de duas formas 1) na sustentação de uma relação desigual de poder: que pode ser
expressa tanto em relações entre formas de organização social e/ou sociabilidades diferentes,
quanto numa relação de pesquisa expressa na delimitação da relação sujeito-objeto, em
particular nas ciências sociais; e 2) na caracterização do objeto a que determinada área se
propõe a estudar, em particular no caso de estudos sociais que tomam como objeto de estudo
relações humanas de várias ordens.
Para falar destes aspectos da historicidade como argumento, vale retomar as perguntas
que Hartog (2014) faz ao falar de regimes de historicidade como categoria e dizer suas
preocupações sobre os fenômenos: “Por que ordem do tempo eles são sustentados? De que
ordem são portadores ou sintomas? De que „crise‟ do tempo, os indícios?”. (2014, p. 26).
20
Trazendo estes questionamentos ao contexto da historicidade como argumento, também a
historicidade pode: sustentar, ser sintoma e indício de relações desiguais de poder.
Falar deste aspecto remonta à história da cultura ocidental em que o sentido
teleológico e universal da história cumpre um papel político determinado, como nos diz Reis
(2006):
A cultura ocidental se interroga sobre a sua identidade, que generaliza como
problema do homem universal. Esse esforço obsessivo para atribuir um
sentido inteligível, universal, à “vida humana” se explica pelo fato de a
cultura ocidental não possuir uma identidade sem fissuras e de precisar
justificar seu expansionismo pelo mundo. Ela se esforça para se integrar, luta
para se reconhecer em sua totalidade, para poder se expandir com a
legitimação de um discurso claro e distinto, irretorquível (p. 14)
É a partir de uma perspectiva de historicidade enquanto argumento que a cultura
ocidental busca autointegração e autorreconhecimento, e que, neste mesmo processo, produz
uma relação desigual de primazia em relação ao que não se refere a si mesma. Em outras
palavras, o regime de historicidade aqui em questão sustenta, é sintoma e indício de uma
relação desigual de poder em que a cultura ocidental se autoproclama total e se impõe como
parâmetro universal até ao que não lhe pertence.
Boaventura de Sousa Santos, pesquisador preocupado com o status das lutas sociais na
pós-modernidade, desenvolve vários conceitos e avaliações acerca de como uma ordem do
tempo sustenta o pensamento ocidental e quais as problemáticas que isso traz no âmbito das
ciências sociais, mais especificamente para se pensar perspectivas de emancipação social.
Em seu artigo “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências”,
Boaventura de Sousa Santos (2002) fala sobre alguns conceitos importantes para o seu
sistema teórico e argumenta em favor de estratégias que subvertam o lugar de poder da cultura
ocidental sustentado por uma perspectiva de experiência social com o tempo, ou seja, uma
perspectiva de historicidade:
Em primeiro lugar, a compreensão do mundo excede em muito a
compreensão ocidental do mundo. Em segundo lugar, a compreensão do
mundo e a forma como ela cria e legitima o poder social tem muito que ver
com concepções do tempo e da temporalidade. Em terceiro lugar, a
característica mais fundamental da concepção ocidental de racionalidade é o
fato de, por um lado, contrair o presente e, por outro, expandir o futuro.
(SOUZA SANTOS, 2002, p. 239).
Boaventura chama de razão indolente esta que caracteriza a cultura ocidental e a
apresenta de quatro formas: a razão impotente, a razão arrogante, a razão metonímica e a
razão proléptica. Não cabe aos objetivos deste trabalho trabalhar cada razão descrita em sua
21
indolência, como define o autor, mas vale citar que cada uma delas se refere a um aspecto
desta razão indolente de forma a caracterizar uma racionalidade totalizante que reproduz
desigualdade.
Uma das razões que Boaventura (2002) descreve como parte da razão indolente, a
razão proléptica, diz respeito justamente a uma concepção linear da história em que há pleno
domínio do futuro em virtude de se saber exatamente o que dele esperar, como uma sucessão
direta e imediata do presente. Logo, ainda que se resguarde as especificidades dos termos em
seus sistemas teóricos, também aqui a historicidade - entendida como experiência social e
subjetiva com o tempo -, ocupa um lugar importante de avaliação sobre lugares desiguais de
poder.
Podemos perceber que a historicidade, em seus arranjos diversos, tem o potencial de
ser concebida como argumento a reproduzir relações desiguais de poder, em particular na
cultura ocidental com seu projeto totalizante. Logo, perguntar acerca dos sentidos em que a
historicidade pode ser experenciada pode nos dizer sobre engrenagens de sustentação de
sistemas de significados que ao se colocarem num lugar de historicidade total, querem
subjugar toda e qualquer possibilidade diversa de se experenciar o tempo.
No campo estrito da ciência, a historicidade como argumento de reprodução de poder
desigual também é um quesito importante de avaliação. O aspecto de reprodução de poder a
partir da historicidade pode ser observado na relação pesquisador-pesquisado quando se
observa certa distância no lugar de experiência temporal de cada um.
Sobre isso, Johannes Fabian, em seu livro “O tempo e o outro: como a antropologia
estabelece seu objeto”, analisa usos do tempo como formas de construir o objeto da
antropologia. Para isso, ele questiona: “O que é que os antropólogos tentam alcançar com seus
múltiplos e desorganizados usos do tempo” (2013, p. 61). Ele explica várias formas em que o
tempo aparece na constituição do discurso antropológico e indica que não é necessária uma
referência temporal direta para indicar o distanciamento que o constitui. Como ele argumenta,
bastam expressões como “arcaico”, “primitivo”, místico” ou avaliações de sociedades
contemporâneas das quais se diz “praticar uma economia da idade da pedra” que o
distanciamento temporal se efetiva da mesma forma (id., p.66).
Não nos deteremos nos pormenores da função de cada tempo definido no discurso
antropológico com base no trabalho de Fabian (2013), mas sua análise nos ajuda a pensar
como o argumento da experiência social e subjetiva com o tempo admite formas distintas de
sustentar relações desiguais de poder. Ele fundamenta uma crítica que perpassa todas as
22
formas do discurso antropológico se apropriar do tempo e adverte para o fato de existir “uma
persistente e sistemática tendência em identificar o(s) referente(s) da antropologia em um
Tempo que não presente do produtor do discurso antropológico” (Ibid., p. 67).
Esta tendência a que Fabian (2013) se refere, consiste na distância temporal que o
pesquisador – antropólogo, no caso da crítica específica dele – está em todo contexto de
estabelecimento de objeto que a antropologia possa elaborar. Ele chama essa distância de
alocronismo da antropologia que quando faz isso nega o que ele chama de coetanidade.
A coetanidade, negada pela antropologia segundo o argumento de Fabian, diz respeito
ao compartilhamento do tempo de todos os envolvidos. Sobre esta, que alguns argumentam
ser inerente ao processo de interação social que pressupõe a intersubjetividade, contraargumenta Fabian (Id.): a coetanidade tem ser criada e toda comunicação é, em última
instância, esta criação.
A crítica que Fabian faz à Antropologia nos ensina muito acerca de como a
experiência social e subjetiva com o tempo, ou seja, perspectivas de historicidade sintetizam
relações de poder e como, na caracterização de qualquer referente uma escolha consciente ou
não sobre uma perspectiva de historicidade pode ser argumento de sustentação destas
relações.
A historicidade como argumento (re)vela uma discussão sobre a história, mas também
uma discussão política. Bem como o próprio Fabian (Ibid., p.34) adverte: “a construção do
objeto da antropologia por meio de conceitos e dispositivos temporais é um ato político” e
completa em outro momento do texto: “não há conhecimento sobre o Outro que não seja
também um ato temporal, histórico, político.” (ibid., p. 40).
É neste sentido que a historicidade deve perpassar todas as formas de conhecimento,
disciplinas científicas ou não. A historicidade explicita um argumento, bem como definimos
aqui, que sustenta, é sintoma ou indício – em referência às perguntas de Hartog – de um
sistema de conhecimento.
Para falar do segundo aspecto da historicidade como argumento que, definimos estar
presente na caracterização de um referente, invocamos a discussão tal como ela aparece na
psicologia, de forma geral, quando pensamos a caracterização do seu objeto de acordo com
uma referência a uma experiência social e/ou subjetiva que se dá na dimensão temporal, ou
seja, de possuir historicidade ou não; e em particular na psicologia social quando se diz de seu
objeto de forma semelhante, mas no contexto do que é chamado de “crise” da psicologia
social. Sobre isso, os capítulos que se seguem tratarão de forma específica.
23
2.3 Da historicidade, a psicologia e a psicologia social
O debate acerca da historicidade como um elemento inerente aos processos
psicológicos se remete à própria história da Psicologia como ciência. Desde a concepção de
uma psicologia científica podemos dizer que este elemento permeia grande debate acerca do
objeto e da epistemologia do conhecimento psicológico em sua relação com a temporalidade.
Como nos afirma Abib (2009), a Psicologia, como projeto de ciência, é apresentada de
forma clara nos projetos de James e Wundt, que se esforçam para descaracterizar este
conhecimento em relação à metafísica quando aqueles fazem duras críticas a esta última. Na
proposta de Wundt, em especial, em seu projeto de psicologia empírica, a distinção entre a
Völkerpsychologie (Psicologia dos Povos) e a sua Psicologia experimental e fisiológica pode
nos dizer acerca deste debate desde o início do desenvolvimento da psicologia como projeto
científico, em que a psicologia fisiológica utiliza o experimento para a análise de processos
psíquicos mais simples; e a psicologia dos povos investiga os processos psíquicos superiores
através da observação dos produtos mentais. (ARAÚJO, 2007).
Segundo Lopes (2011), uma questão importante acerca desta diferença epistemológica
entre a psicologia experimental e a dos povos de Wundt nos remete já a questão de como
conceber a experiência com a temporalidade em sua relação com os processos psicológicos:
(...) a Völkerpsychologie complementa a psicologia individual na medida em
que mostra as peculiaridades do desenvolvimento psíquico coletivo, que,
entre outras coisas, tem outra temporalidade, estabelecendo, assim, uma
independência relativa dos indivíduos (os “produtos psíquicos criados nas
culturas” permanecem por gerações e por isso não se restringem à
consciência individual). Essa diferença de temporalidade impede a
aplicação do método experimental nesse campo, ao mesmo tempo em que
permite o emprego da observação aproximando metodologicamente a
Völkerpsychologie das ciências do espírito, sobretudo, da etnologia e da
antropologia. (LOPES, 2011, pp. 93-4, grifo meu).
Desde os primeiros projetos da psicologia como ciência, a forma como a dimensão
temporal se configura pode afetar a constituição do que se pode chamar objeto da psicologia e
que métodos são possíveis para se pesquisar sobre ele. O lugar da temporalidade, a que se
refere Lopes (Id.) para falar do problema que Wundt encontrou em seus estudos na
caracterização do objeto e do método da nova ciência – a psicologia -, nada mais é do que a
dimensão social do objeto a que a Psicologia dos Povos se destina estudar. Apreendemos a
historicidade aqui como o caráter social da temporalidade a que Wundt se referia.
24
No caso da história da Psicologia Social, mais especificamente, como campo
interdisciplinar caracterizado por uma diversidade epistemológica grande e em interlocução
clara com disciplinas como as Ciências Sociais e Políticas, este debate também acontece.
Na história da Psicologia Social moderna podemos dizer que essa disputa
epistemológica toma corpo na chamada “crise da Psicologia Social” ocorrida no princípio dos
anos 1970. Na “crise‟, a hegemonia da psicologia social de inspiração positivista e
experimental forte, com seu desenvolvimento em solo norte-americano, tem suas bases
questionadas, em particular pela sua identificação do ato de conhecer com o de experimentar,
a formulação de leis gerais e uma única forma de se conceber a produção do conhecimento.
Desta forma, a reivindicação de um conhecimento localizado temporal e espacialmente e
orientado politicamente aparece em formas distintas de resistência ao positivismo
hegemônico.
Segundo Farr (2008), a Segunda Guerra Mundial propiciou um nível de
desenvolvimento à psicologia social semelhante àquele que tiveram os testes psicométricos
com a Primeira Guerra. O autor salienta a importância de estudos como os da série de
volumes The American Soldiers, sob supervisão do sociólogo Stouffer e cita algumas
contribuições importantes ao campo da Psicologia Social. Uma delas seria ter propiciado um
modelo para programas de doutorado interdisciplinares em Psicologia Social depois da
guerra. Este aspecto, nos diz Farr (2008), deu espaço para a consolidação de grupos em várias
partes dos Estados Unidos, com destaque para o Instituto de Tecnologia de Massachussets
(MIT) do qual Lewin, um dos mais importantes psicólogos pesquisadores em dinâmica de
grupo, fazia parte depois de ir da Alemanha refugiar-se nos EUA antes da Segunda Guerra
Mundial.
É a chamada era da psicologia social moderna, um fenômeno que Farr (2008) vai
caracterizar como caracteristicamente americano, em particular com uma psicologia social
cognitiva forte fruto de uma disputa entre a fenomenologia e o positivismo, uma briga entre
uma perspectiva que vem da Europa e outra norte-americana com a qual se deparam os
psicólogos austríacos e alemães da Gestalt ao chegar em território americano. Este conflito
ocorre em solo norte-americano, mas acontece no diálogo com uma perspectiva européia.
A Psicologia Social hegemônica nos EUA, uma forma psicológica que surge como
subdisciplina da Psicologia e não da Sociologia, nos diz Farr (2008), é a preferida de manuais
de Psicologia como o Handbooks of Social Psychology pelo contexto de sua hegemonia e a
perspectiva positivista de seus editores. Assim, podemos considerar o positivismo como uma
25
perspectiva que não influencia apenas a disputa epistemológica dentro da Psicologia Social,
mas também sua história e como ela pode ser contada.
Esta Psicologia Social – chamada na literatura de Psicologia Social psicológica
(GARRIDO; ALVARO, 2015) - tem uma inspiração positivista forte em que o ato de
experimentar se identifica com a ação de conhecer e sua relação com empirismo (BOECHAT,
2009) se apresenta neste aspecto. Essa relação ainda resguarda o lugar que se atribui, nestas
perspectivas, ao juízo da experiência e à relação de causa e efeito entre os fenômenos para se
chegar na regularidade das leis naturais, em que “o verdadeiro espírito positivo consiste
sobretudo em ver para prever, em estudar o que é a fim de concluir disso o que será, segundo
o dogma geral da invariabilidade das leis naturais.” (COMTE, 1978, p. 50). Ainda sobre estes
aspectos na conjunção dos pressupostos entre o positivismo e o empirismo podemos dizer
que:
(...) o empirismo, levado às suas últimas consequências, não admite a
necessidade dos juízos de experiência, e não atribui validade senão restrita
às leis que explicam, em termos de causa e efeito, as regularidades dos
fenômenos naturais (BOUTHOUL, 1966 apud BOECHAT, 2009). O
positivismo, pelo contrário, dá um passo além e culmina numa verdadeira
ontologia. E essa ontologia caracteriza-se pela indistinção, no plano dos
fenômenos, entre aqueles que dizem respeito ao homem e aqueles que
concernem aos demais objetos. (BOECHAT, 2009, p. 48)
Por esta ontologia que não discrimina fenômenos especificamente humanos que
pesquisadores criticam esta perspectiva que objetifica e coisifica o homem (id.). Autores
como Keneth Gergen e Lupicinio Iñiguez, pesquisadores de uma orientação filosófica
construcionista, por exemplo.
Sem nos determos em pormenores teóricos que dizem respeito a outros aspectos tão
importantes quanto na diferença epistemológica e caracterização da crítica, na obra destes
autores (GERGEN, 2008; IÑIGUEZ, 2003) o argumento da historicidade dos fenômenos
como elemento intrínseco à constituição destes aparece como um dos elementos primordiais
de crítica à perspectiva positivista. A obra de Gergen “Psicologia Social como História”
(1973/2008), em particular, - mesmo com todas as críticas às limitações da sua argumentação
(BOECHAT, 2009) -, se apresenta como um marco na história da Psicologia Social e sublima
um movimento de crítica a esta perspectiva que já vinha perdendo sua hegemonia como
elemento inquestionável.
Em seu artigo, cujo objetivo “(...) é demonstrar que a psicologia social é
principalmente um inquérito histórico”, Gergen (2008) nos fala da importância de se
26
considerar o elemento historicidade como aspecto que marca os princípios da interação
humana e que, longe de se apresentarem como estáveis de forma a serem apreendidos a partir
dos métodos ligados ao positivismo, sempre ligados à predição, experimentação e formulação
de leis gerais, deveriam ser estudados a partir de outra perspectiva, e esta será marcadamente
histórica.
O contexto que está instaurado é o que é chamado de “crise da Psicologia Social”, em
que o ramo da Psicologia Social que se estabeleceu a partir da Segunda Guerra Mundial, com
promessas e expectativas acerca da reconstrução do mundo e a minimização de conflitos
começa a ser questionado, em meados da década de 60, apontando limitações do positivismo
na compreensão de uma realidade social pouco otimista e a necessidade de se perguntar além
do que é, para “como se deu” e “por quê”, o que inclui diretamente a historicidade na
abordagem epistemológica dos fenômenos, se apresenta fortemente (LANE, 1989).
Na América latina, essa crise foi exposta no Congresso da Sociedade Interamericana
de Psicologia em Miami em 1976 e também no Peru em 1979 (BERNARDES, 2013). Ainda
segundo Bernardes (Id.), em resistência à Psicologia Social de inspiração norte-americana,
acusada de descontextualização de seus objetos, desinteresse político pelos problemas sociais
e individualização do social praticada pela ALAPSO (Associação Latino-Americana de
Psicologia Social, surgida na década de 60), surgem a AVEPSO (Associação Venezuelana de
Psicologia social) e a ABRAPSO (Associação Brasileira de Psicologia Social) com o objetivo
de agregar Psicólogos Sociais que questionavam essa perspectiva positivista do fazer
científico. No Brasil, podemos dizer que a criação da ABRAPSO é um dos principais marcos
da história recente da psicologia social (CRUZ; VAN STRALEN, 2012).
A revista Psicologia & Sociedade, como periódico da ABRAPSO foi criada só em
1986 e sua publicação esteve muito ligada aos encontros regionais e nacionais, publicando os
trabalhos completos destes eventos. Sua publicação é periódica e anual até 1989, quando
temos uma publicação a cada dois anos. Já em 1992 é iniciado um hiato e sua publicação é
retomada em 1996, quando a revista toma o caráter de periódico científico com a publicação
de artigos devidamente submetidos e avaliados por pesquisadores designados para tal. Em
2002 a publicação é vinculada à base Scielo e passa a ser publicada via online.
Analisar as publicações da revista Psicologia & Sociedade nos diz sobre sua história e
pode contribuir para a Psicologia brasileira, considerados e resguardados os aspectos políticos
e teóricos implicados desde sua criação em meio à “crise” da psicologia social. Desta forma,
27
nesta pesquisa pretendemos analisar as publicações desta revista e contribuir para uma
Psicologia que pense a si mesma, uma análise crítica interna da própria Psicologia.
Na criação da ABRAPSO em seu contexto de “crise” da área, novas tendências
teóricas e práticas são pensadas por uma parcela significativa dos psicólogos sociais
brasileiros (CRUZ.; VAN STRALEN, 2012). A perspectiva que se desenvolveu então foi a
chamada Psicologia Social crítica, de clara inspiração nos pressupostos do materialismo
histórico e dialético e seguindo autores como Vigotski (1896-1934) e Leontiev (1903-1979).
Os trabalhos de Silvia Lane em colaboração com outros autores (LANE; CODO, 1989;
LANE; SAWAIA, 1995) vieram sistematizar os parâmetros desta Psicologia que ficou
conhecida como a perspectiva sócio-histórica.
Podemos dizer, por ora, que essa perspectiva marca as tendências teóricas que são
sustentadas em reação ao positivismo e empirismo da psicologia social experimental até então
hegemônica. Com uma perspectiva de historicidade característica e central para esta
abordagem teórica - muito ligada ao marxismo -, este elemento aparece como um ponto de
sustentação importante para a crítica aos pressupostos empiricistas e positivistas de
neutralidade, experimentação e cientificismo.
Sem nos determos nos pormenores teóricos em vista de resguardar a diversidade de
respostas à “crise”, podemos caracterizar a historicidade como um elemento que, de maneira
geral, ocupou um lugar importante de crítica e reivindicação de um conhecimento localizado
temporal e espacialmente e orientado politicamente em formas distintas de resistência ao
positivismo hegemônico.
No entanto, se é verdade que do encontro entre Psicologia e História podem advir
novas possibilidades críticas para a Psicologia (MANCEBO; JACÓ-VILELA.; ROCHA,
2003), também é verdade que, no debate contemporâneo, a historicidade é alvo de debate
intenso sob a perspectiva de se pensar que arranjos são possíveis e necessários acerca da
experiência social e subjetiva com o tempo.
Segundo Cruz e Van Stralen (2012), nas últimas três décadas, uma diversidade de
perspectivas metodológicas, epistemológicas, políticas e éticas têm se desenvolvido na
psicologia social, o que influencia diretamente a formação, atuação e produção científica dos
psicólogos sociais que pesquisam e/ou atuam na área. Desta forma o campo tem tido suas
pautas modificadas ao longo dos anos e debates que outrora estavam em cena são suprimidos
por outros que, bem como aqueles, podem ser perenes ou não.
28
Bem como os temas dos debates, os conceitos que são usados também são elementos
importantes de avaliação. Tendo em vista as diferentes epistemologias que se desenvolveram
e os debates que entraram em pauta, pretendemos também colocar em debate a historicidade.
Compreendemos que estudar os sentidos como a palavra se desenvolve ao longo dos anos
pode nos dizer sobre o uso da palavra e os contextos significativos em que ela tem sido usada
para fins de avaliação da sua função argumentativa e sobre o lugar que o conceito,
resguardado na ocorrência da palavra, é empregado em cada publicação analisada.
Entendemos que, apesar da diversidade teórica e epistemológica da área, as
concepções acerca deste elemento podem ser diversas ou não, manifestas ou não e nos dar
boas pistas de como a psicologia se define e se repensa em vista de uma necessidade teórica,
metodológica, ética ou política.
Compreender como ela se comporta ao longo dos anos de publicação da revista
Psicologia & Sociedade pode nos dizer sobre a pluralidade de uma Psicologia que, quiçá,
permaneça em “crise” ou sobre permanências cujas possibilidades, articulações e
consequências serão apresentadas.
29
3. MÉTODO
3.1 Pressupostos metodológicos
Esta pesquisa é uma análise descritiva-interpretativa sobre os sentidos da palavra
historicidade nas publicações da revista Psicologia & Sociedade. Pretende-se construir uma
avaliação de como este conceito se desenvolve ao longo das publicações do periódico. Neste
capítulo, pretendemos descrever os pressupostos e os procedimentos desta construção.
Partimos da perspectiva qualitativa de fazer científico, isso implica em dizer, dentre os
diferentes sentidos em que esta afirmação pode ser apresentada, numa perspectiva diferente da
forma positivista e empiricista clássicas de fazer ciência, em que a partir do lugar neutro de
pesquisador, desvela-se uma realidade empírica para desenvolver teorias gerais do
ordenamento do real.
Neste sentido, o caráter empírico, característico da epistemologia positivista, é
ressignificado e lhe é outorgado um lugar diferente, de forma a reconhecer o status das idéias
e do conhecimento teórico como elemento essencial da produção acadêmica para apontar
mudanças nas representações gerais do objeto da ciência (REY, 2002, p.7). O empírico aqui é
uma construção teórica organizada a partir dos objetivos desta pesquisa que tem sua
relevância espaço e temporalmente delimitada às questões que busca delinear, nunca num
movimento de esgotamento, nem sequer de aproximação probabilística da realidade, mas de
aprofundamento e de uma interpretação possível para contribuir com o lugar que a psicologia
social tem e quer se colocar.
No século XVII, pôde-se testemunhar como os princípios do empiricismo numa busca
pelo conhecimento através da observação e a da experiência se consolidavam. René Descartes
é sempre citado como um estudioso que marca este período e é considerado contribuinte
direto para a história da psicologia moderna (SCHULTZ; SCHULTZ, 2007, p. 33) em sua
tentativa de resolver o problema filosófico que circunda os debates acadêmicos na ciência
psicológica até hoje: o problema mente-corpo.
O positivismo comteano, já no século XIX, aparece como outra doutrina que fará parte
dos pressupostos do conhecimento dito científico: reconhece-se apenas o conhecimento de
fenômenos de natureza diretamente observável. Além destes, Schultz e Schultz (2007)
acrescentam o materialismo como pressuposto da ciência moderna, em que se pressupõe a
descrição e explicação do universo através das propriedades da matéria e da energia.
No caso específico da ciência psicológica, onde situamos o debate desta pesquisa de
forma geral, quando se fala numa forma diferente de fazer científico daqueles ligados ao
30
positivismo e ao empiricismo, é necessário dizer também da crise que esta ciência teve que
enfrentar para se consolidar enquanto ciência, que a coloca num dilema ontológico: no
momento em que reconhece seu objeto de estudo como elementar, a nova ciência pouco se
consolidava como tal considerando-se o projeto moderno de neutralização da subjetividade
empírica e a pouca viabilidade de sua submissão aos pressupostos metodológicos e
epistemológicos de formular leis gerais com caráter preditivo; já no contexto em que seu
objeto permanecia nebuloso, também não se consolidava como conhecimento independente,
correndo o risco de ser anexada a outra disciplina (FIGUEIREDO, 2010, p 22-3).
Para pensar acerca destes aspectos, apresentaremos a perspectiva desenvolvida por
Vigotski, muitas vezes chamada de histórico-cultural ou sócio-histórica. Esta abordagem tece
críticas importantes aos parâmetros de cientificidade instaurados pelos pressupostos do
empirismo, do positivismo e do materialismo mecanicista, de forma a pensar o materialismo
dialético como pressuposto na superação da crise que se instalara no conhecimento
psicológico.
Ao procurar superar a concepção idealista da consciência e o enfoque biológico
mecanicista do comportamento, Vigotski (2004) afirma que o desenvolvimento humano se dá
pelo caráter ontológico das relações sociais:
A Psicologia científica estabeleceu como sua tese básica o fato de que o tipo
psicológico do homem moderno é um produto de duas linhas evolutivas. Por
um lado, este tipo moderno de ser humano foi desenvolvido em um longo
processo de evolução biológica da qual a espécie biológica homo sapiens
surgiu, com todas as suas características inerentes do ponto de vista da
estrutura do corpo, as funções de vários órgãos e certos tipos de reflexos e
atividades instintivas que foram fixados hereditariamente e que são passados
de geração em geração. [...] Mas junto com o início da vida social e histórica
humana e as mudanças fundamentais nas condições às quais o homem teve
de se adaptar, o curso subsequente da evolução humana também mudou
radicalmente. (p. 197).
Essa mudança radical representa uma distância qualitativa entre a experiência
especificamente humana e a animal caracterizando as funções psicológicas superiores. A
experiência histórica do homem permite a sua adaptação ativa à natureza. Este objeto
caracteriza a dimensão ontológica da preocupação dos trabalhos de Vigotski, que, como
epistemólogo, se debruçou sobre os rumos que tomara a jovem ciência e analisou
sistematicamente o que chamou de “crise da psicologia”: as contradições metodológicas e
epistemológicas que marcavam este conhecimento.
31
Em seu artigo “O Significado Histórico da Crise da Psicologia. Uma investigação
metodológica” (1926/2004) ele analisa o que denomina de “crise da psicologia” de forma
sistemática e propõe a constituição de uma psicologia geral que pudesse sintetizar os
pressupostos do conhecimento psicológico e caracterizar a cientificidade da Psicologia.
Foi nos pressupostos do materialismo dialético que Vigotski viu a possibilidade da
construção dessa psicologia sintetizadora em que o movimento dialético do objeto e as
contradições inerentes à sua constituição como tal nos dirão sobre sua dinâmica real. O caráter
materialista e monista de seu objeto, compreendido numa abordagem dialética, representa um
marco importante do ponto-de-vista epistemológico, rompendo com o dualismo cartesiano e a
visão positivista da ciência, caracterizados pela dicotomia sujeito/objeto e o mecanicismo na
abordagem dos fenômenos.
Vigotski (2004) em sua discussão epistemológica, preocupado com os pressupostos da
ciência psicológica, se debruça sobre esta questão e formula diferenças entre o fato científico
e o fato real:
O fato real e o fato científico distinguem-se precisamente um do outro pelo
fato de que este último constitui o fato real reconhecido em determinado
sistema, isto é, uma abstração de certos traços da inesgotável soma de signos
do fato natural. O material da ciência não é constituído pelo material natural
cru, mas pelo material logicamente elaborado que se destaca de acordo com
um determinado signo. (p. 234)
Com esta afirmação, não podemos falar em neutralidade científica, tampouco de
fenômenos de natureza diretamente observável, visto que cada observação encerra um
mecanismo indireto, mediado pelo signo. Há de se salientar que a relação inversa também
vale, na mesma medida em que podemos dizer que o fato científico não encerra a inesgotável
soma de signos do fato natural, todo fato cientifico contém “um sedimento da realidade
concreta e real de cujo conhecimento científico surgiu (...). Ou seja, a qualquer conceito,
ainda que se trate do mais abstrato – do último – corresponde um certo grau de realidade,
representada no conceito em forma abstrata, segregada da realidade”. (Id., p. 232).
Para Vigotski, o informe verbal, ou a linguagem como podemos afirmar, em última
instância, ocupa outro lugar:
O próprio interrogatório não consiste em extrair do sujeito suas próprias
vivências. A questão é radicalmente distinta em princípio. A pessoa
submetida à prova não é testemunha que declara sobre um crime que
presenciou (seu antigo papel), mas é o próprio criminoso e, o que é mais
importante, no momento do crime. Não se trata de um interrogatório depois
do experimento; é uma parte orgânica, integrante do próprio e não se
32
diferencia em absoluto dele, salva na utilização dos próprios dados no curso
do experimento.(ibid., pp 15-6).
Este lugar, que podemos chamar central na questão da legitimação do conhecimento
nesta perspectiva, nos fala de como é possível concebermos experimento para a além dos
parâmetros do empiricismo e como a interpretação é considerada não um ruído a ser polido no
fazer científico, mas sim um elemento não apenas legítimo como também fundante e
constituinte da construção do conhecimento.
O lugar da linguagem em relação à inteligibilidade do real aparece então para elucidar
essa questão. Vigotski (2010) ao tratar disso, cita os trabalhos de Edward Sapir que explica:
O mundo da experiência deve ser sumamente simplificado e generalizado
para que seja possível simbolizá-lo. Só assim se torna possível a
comunicação, uma vez que a experiência indivisa vive numa consciência
indivisa e, em termos rigorosos, é incomunicável. Para tornar-se
comunicável ela deve ser inserida numa determinada classe que, por acordo
tácito, a sociedade considera como unidade. (p. 12)
Os significados são a unidade de análise que Vigotski, preocupado com a
especificidade do humano, encontra em suas elaborações. Esta unidade, resguardando os
elementos tanto do pensamento quanto da linguagem, contém a chave para pensarmos como
se dá a relação entre meio social e cultural na constituição psicológica dos sujeitos.
Em razão da nossa ação no mundo como práxis2, (re)construímos o real psiquicamente
através dos significados compartilhados e construídos socialmente, de forma que, neste
processo, damos sentido peculiar à realidade social. Os significados, como partícula elementar
de generalização tanto do pensamento quanto da linguagem, estabilizam precariamente nossas
experiências com o mundo, para, no entanto, logo a desestabilizarem através desta mesma
experiência em nosso desenvolvimento ontogenético. Desenvolvimento que se dá com o
processo de abstração e formação de conceitos desde a forma de contato infantil com o
mundo, presa na concretude da identificação do referente e a palavra até o pensamento
abstrato com um movimento dinâmico entre estes elementos que constituem o signo:
[...] no processo de desenvolvimento histórico da língua, modificam-se a
estrutura semântica do significado das palavras e a natureza psicológica
desses significados, [...] o pensamento lingüístico passa das formas inferiores
e primitivas de generalização a forma superiores e mais complexas, que
encontram expressão nos conceitos abstratos, e, finalmente, no curso do
___________________________________________________________________________
2. Práxis, entendida aqui como conjunto de atividades humanas que engendram não só as condições de produção, mas, de um
modo geral, as condições de existência de uma sociedade. (BLIKSTEIN, 2003, p. 54.)
33
desenvolvimento histórico da palavra, modificam-se tanto o conteúdo
palavra quanto o próprio caráter da representação e da generalização da
realidade na palavra. (VIGOTSKI, 2010, pp 400-1).
O processo de significação acontece de forma dinâmica, mesmo como atos de
generalização e, portanto, de estabilização; a mesma palavra pode resguardar sentidos
diferentes. O sentido, mesmo com pouca notoriedade nos estudos sobre a contribuição da
perspectiva de Vigotski (GÓES; CRUZ, 2006), se apresenta como elemento importante da
dinâmica do processo de significação e pode ser definido como:
[...] a soma de todos os fatos psicológicos que ela (a palavra) desperta em
nossa consciência. Assim, o sentido é sempre uma formulação dinâmica,
fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. O significado
é apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de
algum discurso e, ademais, uma zona mais estável, uniforme e exata. Como
se sabe, em contextos diferentes, a palavra muda facilmente de sentido. O
significado, ao contrário, é um ponto imóvel e imutável que permanece
estável em todas as mudanças de sentido da palavra em diferentes contextos.
(VIGOTSKI, 2010, p. 465).
O sentido é o elemento de desestabilização no processo de significação, ao passo que o
significado o de estabilidade, a dinâmica entre estes define o processo significativo, podemos
dizer então que o significado da palavra se desenvolve em relação com o sentido.
Como parâmetro, tomamos um conceito de historicidade como categoria generalista,
em outras palavras, como significado que consiste em: experiência social e subjetiva que se dá
no tempo (presente-passado-futuro). Analisaremos de forma sistemática o contexto sintático
da ocorrência do descritor – da palavra - e o conteúdo manifesto de sentido em que seja
apresentado, de forma a interpretar se está clara uma concepção específica de historicidade no
texto e analisá-la à luz da sua relação com a psicologia social e suas implicações teóricopolíticas.
Concebemos o processo de significação como elemento da constituição do sujeito em
relação com o mundo e autêntico elemento de análise do caráter localizado do conhecimento.
As experiências destes sujeitos são consideradas como elemento primordial de análise em
relação com o pesquisador na dinâmica de construção da pesquisa. No caso desta pesquisa, o
processo significativo acontece por meio da interpretação do pesquisador frente ao sentido
manifesto no texto em vista da especificidade do material empírico aqui em questão ser
apresentado de forma textual-documental nas publicações de uma revista científica.
34
Objetivamos conhecer as concepções de historicidade da psicologia social brasileira
abrapseana, bem como descrever e analisar estas concepções em suas diferentes nuances e
sistemas teóricos ao longo das publicações para, então, discutirmos as implicações teóricas e
metodológicas para esta mesma psicologia hoje.
Nos diferentes trabalhos a serem analisados, todas as publicações da revista Psicologia
& Sociedade, esperamos encontrar rupturas e permanências ao longo dos anos em padrões a
serem descritos e estabelecidos pela própria pesquisa a partir da descrição de como este
conceito aparece via descritores. A forma como fazemos isso será descrita a seguir.
3.2 Descrição dos procedimentos
O material empírico desta pesquisa é formado por todas as publicações da revista
Psicologia & Sociedade desde sua primeira edição em 1986 até 2015. Acompanhamos desde
seu caráter estritamente impresso e ligado às publicações dos trabalhos completos dos
encontros, até sua total digitalização e publicação de artigos acadêmicos avaliados por pares.
Para analisar os sentidos das concepções de historicidade das publicações da revista
Psicologia & Sociedade, revista da Associação Brasileira de Psicologia Social, separamos em
duas partes distintas: a de descrição e a de análise, apenas para fins de organização, não
correspondendo a momentos radicalmente distintos da pesquisa, pois eles se intercruzam em
alguns procedimentos. A primeira corresponde a todos os procedimentos envolvidos na
organização dos materiais e ocorrência dos descritores, caracterizando a formação do material
de análise; a segunda parte corresponde à análise interpretativa dos materiais organizados e
descritos na primeira. Neste item do capítulo 3, trataremos da primeira parte.
Gostaríamos de ressaltar que o que é compreendido como “organização dos materiais”
já corresponde a fins analíticos e respeita os limites e interesses resguardados pelo objetivo
desta pesquisa de forma a contemplar uma perspectiva de fazer científico que, apesar de
considerar a manifestação positiva de sua unidade de análise no seu material de pesquisa,
compreende esta como uma forma de concepção de análise perante um fim delimitado
objetivamente no desenho desta pesquisa de forma a afirmar que toda organização de dados
numa pesquisa qualitativa segue deliberadamente um construto e um argumento teórico de
interpretação.
A referida revista foi criada em 1986 a partir da transformação de um boletim com o
mesmo nome e teve seu primeiro número editado em janeiro de 1986. A partir de 2002 a
revista passou a ser disponibilizada na plataforma Scielo até a corrente data, de forma que
35
todos podem ter acesso ao seu conteúdo online pela plataforma em que há a possibilidade de
acesso aos artigos de forma sistematizada através de descritores, combinação de descritores e
outras informações como datas, autores, etc. Já as edições anteriores estão disponíveis no site
http://www.abrapso.org.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=539 e podem ser acessadas em
seu pleno conteúdo, no entanto, não de forma sistematizada, requerindo o acesso a cada
edição por vez (uma edição, um único arquivo).
Para a parte descritiva e organizativa do material, foram utilizados dois métodos
diferentes de organização e categorização que correspondem à disponibilidade dos materiais
(todas as edições da revista). São eles: 1) acesso a cada edição de 1986 até 2001 por vez e
pesquisa de ocorrência dos descritores e 2) acesso via plataforma Scielo e categorização a
partir de descritores. Nesta pesquisa, utilizamos os seguintes descritores a fim de obter as
diferentes variações de palavras em que concepções de historicidade podem estar
resguardadas adjetivando ou qualificando o fenômeno psicológico ou complementando um
argumento teórico psicossocial: “historicidade”; “histórico”; históricos”; “histórica”;
“históricas”; “história” e “histórias”.
Para os fins descritivos a que se destina esta pesquisa, entendemos que o emprego
destes descritores nos ajuda a dar um panorama mais amplo acerca de como uma experiência
social e subjetiva com o tempo aparece nas publicações. No entanto, apenas um deles será
trabalhado na parte interpretativa desta pesquisa, este aspecto será justificado e apresentado
no capítulo 5.
Para a forma de acesso 1) das edições não disponíveis através da plataforma Scielo (de
1986 até 2001) seguem os procedimentos de acesso para cada edição individualmente:
1.1
Baixar
cada
edição
disponível
do
site
http://www.abrapso.org.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=539;
1.2
Pesquisar através da opção “localizar” disponível no arquivo do Microsoft
Word cada descritor por vez;
1.3
Anotar as ocorrências correspondentes para cada descritor e relacionar a
cada trabalho em que este se manifeste tendo a ocorrência se repetido ou
não;
Para organizar o material de análise, anotamos as ocorrências de cada descritor e
cruzamos as informações entre eles para organizar um mapa de ocorrências dos descritores.
Chegamos a 183 trabalhos (ver Apêndice A) que contêm quaisquer dos descritores adotados
36
nesta pesquisa pelo menos uma vez no decorrer do trabalho. Em vista da natureza do material
e a forma de acesso a este, este mapa diz respeito apenas às edições de 1986 até 2001.
Já para o procedimento de acesso 2) através da plataforma Scielo seguimos os
seguintes passos:
1.1 Acesso à página na plataforma scielo referente à versão online da revista;
1.2 Selecionar a opção “pesquisa”;
1.3 Acrescentar o(s) descritor(es), especificar a combinação entre eles (“and” ou “or”);
1.4 Especificar o campo da pesquisa (no título, no resumo, por ano, em todos os
índices, etc.).
Para esta pesquisa, optamos por pesquisar cada descritor separadamente em todos os
índices, depois cruzar os descritores para eliminar artigos repetidos para, por fim, separar as
ocorrências por ano e então iniciar a análise interpretativa. O acesso à base de dados da Scielo
ocorreu em setembro de 2015 incluindo todos os artigos publicados e todas as edições da
revista publicadas desde sua digitalização (2002) até então.
Os resultados do mapeamento quantitativo das ocorrências de todos os descritores é
apresentado no capítulo a seguir.
37
4.
ANÁLISE
DESCRITIVA:
OS
DESCRITORES
E
SEUS
MOVIMENTOS
TEMPORAIS E HISTÓRICOS
Depois dos devidos procedimentos descritos no capítulo anterior, damos início à
apresentação dos resultados obtidos. Neste tópico apresentamos os resultados do mapeamento
quantitativo das ocorrências de todos os descritores em todos os anos desde a criação da
revista Psicologia & Sociedade em 1986 até 2015. Optamos por apresentar o mapeamento por
descritor e por ano para observarmos suas dinâmicas ao longo do tempo.
No caso dos trabalhos entre 1986 e 2001 que não estão disponíveis na plataforma
Scielo, foram anotadas, de acordo com os procedimentos “1” descritos no capítulo anterior,
cada ocorrência de cada descritor de forma a construirmos um mapeamento de todos os
trabalhos em que eles aparecem com os seguintes itens discriminados: quais descritores
aparecem no trabalho e quantas vezes cada um aparece. Este mapeamento está disponível no
apêndice e é disponibilizado para possíveis pesquisas posteriores.
Já para as edições de 2002 até 2015, disponíveis na plataforma Scielo, mapeamos de
acordo com os procedimentos “2” descritos no capítulo anterior. Seguiremos apresentando o
movimento de cada descritor encontrado por meio de quadros e tabelas neste capítulo.
Seguem os resultados:
As ocorrências dos descritores no intervalo temporal de 1986 a 2001, que não estão
disponíveis na plataforma Scielo, estão discriminadas a seguir. Seguem os resultados por ano
e por descritor:
TABELA 1. Ocorrências discriminadas por descritor e por ano (não discrimina os trabalhos
individualmente) de 1986 a 1991
ANO
1986 1986
1987
1988 1988
1989 1989 1990/
N° 1 N° 2
N° 3
N° 4 N° 5
N° 6 N° 7 1991
N° 9
DESCRITOR
(ES)
HISTORICIDADE
HISTÓRICO
HISTÓRICOS
HISTÓRICA
HISTÓRICAS
HISTÓRIA
HISTÓRIAS
6
1
1
10
2
6
20
3
1
9
3
10
3
9
4
37
4
8
2
7
1
31
4
1
26
2
13
4
54
2
3
17
5
12
4
26
1
1
11
3
6
1
41
2
Fonte: (Autora, 2016)
38
TABELA 2. Ocorrências discriminadas por descritor e por ano (não discrimina os trabalhos
individualmente) de 1992 a 2001
ANO
1992 1996
1997
1998 1999
1999 2000 2001
N°
N° 1
N° 1 e N° 2 N° 1
N° 2 N° 1 N° 2
10
2
e2
DESCRITOR
(ES)
HISTORICIDADE
3
2
1
HISTÓRICO
12
32
14
31
11
9
13
38
HISTÓRICOS
3
9
4
6
1
2
6
2
HISTÓRICA
5
21
15
27
11
15
25
HISTÓRICAS
4
2
8
8
1
1
7
10
HISTÓRIA
22
28
14
45
28
28
43
38
HISTÓRIAS
3
2
1
4
2
3
Fonte: (Autora, 2016)
Apresentamos também como resultado importante dessa fase da pesquisa o
mapeamento realizado de todos os trabalhos que contêm quaisquer dos descritores
pesquisados, bem como o movimento de todas as ocorrências dos 7 descritores, devidamente
catalogadas pelo número de vezes em que aparecem no trabalho. Esse mapeamento permite
inferências acerca de como os descritores se comportam ao longo de cada edição, quais deles
aparecem mais e em que trabalhos estão presentes, esse panorama permite uma análise mais
completa do objeto em questão pela sua natureza conceitual, além de servir como ferramenta
e base para pesquisas posteriores acerca do tema. O mapeamento está disponível no Apêndice
A.
Pudemos observar algumas peculiaridades no movimento dos descritores pelas suas
ocorrências. Em 1986, primeiro ano da revista, tivemos dois números de sua edição sendo no
primeiro apenas dois descritores aparecem: “histórico” e “história” com poucas ocorrências
no decorrer da edição. Isso se modifica já no segundo número da revista no mesmo ano em o
número de ocorrências dos descritores que remetem à historicidade cresce substancialmente
com destaque para um trabalho específico em que das 10 ocorrências que a edição apresenta
para o descritor “histórico”, 5 delas são apresentadas apenas neste trabalho: “Fetichismo da
mercadoria e a psicanálise: elementos para um debate” (SILVEIRA, 1986 )
Já na edição de 1987 em seu número 3 da revista, temos maior ocorrência do descritor
“história” com 9 ocorrências. Podemos destacar ainda nesta edição que algumas autoras têm
número significativo de publicações com trabalhos em que há ocorrência de quaisquer dos
descritores adotados nesta pesquisa, são elas: Marília Novais da Mata Machado com 2
trabalhos em autoria: “Relato de experiência” (1987, pp. 137-141); “Sexualidade e
instituições” (1987; pp. 15-18) com ocorrências nesta edição. Outra autora com muitos
39
trabalhos é Elizabeth Bonfim, sendo 3 trabalhos em autoria com ocorrências nesta edição: “O
namoro entre Psicologia e Arte” (1987, pp. 40-43);
“Desnovelando a psicologia da
comunicação de massa” (1987, pp. 106-10); “Aspectos da Psicologia Comunitária e Ecologia
Humana em Cuba” (1987, pp. 132-137). É relevante para fins analíticos destacar a presença
destas como autoras em trabalhos com ocorrências em outras edições e números da revista em
questão como na edição de 1988, número 5 em que as duas autoras têm 2 trabalhos com
ocorrências de quaisquer dos descritores, o que representa grande produção destas em que a
palavra aparece representando certa preocupação de ambas com processos históricos em
consonância com processos psicossociais.
O descritor “historicidade” aparece em poucas ocorrências, aparece já na segunda
edição da revista em 1986 e reaparece apenas em 1989 na edição da revista número 6 e segue
se apresentando: na revista de número 7 do mesmo ano, em 1990 na número 9 para então
aparecer apenas em 1998, 2000 e 2001 dentre os trabalhos anteriores à digitalização da revista
em 2002 através da sua disponibilização na plataforma Scielo. O primeiro trabalho a discutir
concepções de historicidade diretamente aparece através das ocorrências na edição número 7
de 1989: “Psicologia e História: uma relação possível? Ou Psicologia e História: uma relação
necessária!” (ANTUNES, 1989, pp.30-6). Neste trabalho aparecem ocorrências de quase
todos os descritores desta pesquisa, com exceção do descritor “histórias”.
Na revista de edição número 6 de 1989 observamos destaque do trabalho “Marxismo e
Psicologia” (CARVALHO, 1989, pp. 64-75) em que o descritor “histórico” se apresenta em
12 ocorrências.
Em 1992 na edição de número 10 observamos menor ocorrência dos descritores por
trabalho identificado, com exceção de 2 trabalhos: ”Acerca de imagens do pai - Notas para
pensar a paterrnidade no imaginário masculino” (SMIGAY, 1992, pp. 84-97) e “O que é
psicologia comunitária? (GÓES, 1992, pp. 15-23), ambos com
ocorrências de,
respectivamente, 4 e 5 descritores.
Já em 1996, temos na publicação da “Entrevista com Silvia T. M. Lane” grande
número de ocorrências, sendo: [Histórico (8); Históricos (1); Histórica (8); História (6)]. Em
1997 na edição de números 1 e 2 da revista o trabalho que se destaca em número de
ocorrências em determinado descritor, no caso o descritor “histórico” é “Epistemologia
cualitativa y subjetividad" (REY, 1997, pp. 65-90).
Em 1998, na edição de número 2, temos maior número de vezes em que o descritor
“historicidade” aparece em trabalhos diferentes por edição, são eles: “O sujeito e seus modos
40
de subjetivação" (LOPES, 1998, pp. 53-75); “A dimensão ético-afetiva das práticas sociais"
(NOVO, 1998, pp. 95-104) e "A crítica ético-epistemológica da psicologia social pela questão
do sujeito" (SAWAIA, 1998, pp. 117-138).Todos com 1 ocorrência cada um.
Nos anos 2000 e 2001 as edições da revista têm trabalhos que se destacam pelas
ocorrências de quase todos os descritores em alguns trabalhos, no caso da edição de números
1 e 2 de 2000, os trabalhos: "Políticas de identidade: novos enfoques e novos desafios para a
psicologia social" (GUARESCHI, 2000, pp.110-124) e "A psicologia em movimento: entre o
“gattopardismo' e o neoliberalismo” (YAMAMOTO, 2000, pp. 221-233) já no caso da edição
de números 1 e 2 de 2001: “Esquecimento, memória e repetição” (GIACÓIA, 2000, pp. 5891).
Já acerca dos trabalhos disponíveis na plataforma Scielo (2002-2015) temos:
TABELA 3. Organização dos trabalhos por descritor nas publicações de 2002 a 2015
Descritor
Número de trabalhos por
Resultado de intercruzamento entre
descritor
descritores e sua variação sintática
(com “s”)
Historicidade
3
Histórico
71
Históricos
7
Histórica
52
Históricas
12
História
67
Histórias
20
______
77
63
79
Total de todos os trabalhos sem intercruzamento:
232
Fonte (Autora, 2016)
O descritor “Historicidade” não possui variação sintática com “s” nesta pesquisa pela
ausência de ocorrências, mas com os outros descritores percebemos poucos artigos repetidos
entre cada um e sua variação semântica, no entanto o cruzamento intradescritores, ou seja,
entre todos os descritores permitiu o descarte de 46 artigos repetidos e chegamos então ao
número 186 de artigos com ocorrências de quaisquer dos descritores nas publicações da
revista entre 2002 e 2015.
41
Demonstramos a seguir os gráficos dos artigos encontrados na base Scielo (desde
2002) por descritor e ano. Optamos por apresentar as palavras juntas com sua variação no
plural, exceto no caso de “historicidade” que não apresenta resultados. São eles:
Gráfico 1. Descritor “historicidade” e ocorrências por ano (2002-2015)
3,5
3
3
2,5
2
1,5
1
1
1
1
0,5
0
2009
Historicidade
2011
2014
Total
Fonte: (Autora, 2016)
O descritor “historicidade” tem poucas ocorrências neste intervalo de tempo (20022015), sendo apenas 3 no total. Como pudemos observar, não há variação temporal de
freqüência nas suas ocorrências ao decorrer do tempo para este intervalo, logo, a sua
apresentação neste formato se dá estritamente por vias de organização em vista de não ser
possível ter um panorama temporal amplo de seu movimento por meio das ocorrências em
virtude da sua evidente escassez.
42
Gráfico 2. Descritor “histórico e sua variação com „s‟, ocorrências por ano (2002-2015)
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
77
12
1
4
3
3
2
7
5
0
9
7
7
12
5
Histórico(s)
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2010
2011
2012
2013
2014
2015
Total
2009
Fonte: (Autora, 2016)
O descritor “histórico” com sua variação sintática com “s”, tem maior ocorrência nos
anos de 2007 e 2014 com 12 artigos cada em que o descritor aparece.
Gráfico 3. Descritor “história” e sua variação com „s‟, ocorrências por ano (2002-2015)
100
79
80
60
40
20
0
0
1
2
6
4
7
6
7
3
7
9
11
5
História(s)
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2010
2011
2012
2013
2014
2015
Total
2009
Fonte: (Autora, 2016)
O descritor “história” e sua variação sintática com “s” é o que possui mais ocorrências
dentre os descritores escolhidos para esta pesquisa, sendo 79 artigos que possuem ocorrências
com esta palavra. O ano de 2014 é o ano que possui mais ocorrências no intervalo de tempo
citado.
43
Gráfico 4. Descritor “histórica” e sua variação com „s‟, ocorrências por ano (2002-2015)
70
63
60
50
40
30
20
11
10
2
0
0
1
4
3
0
3
4
8
8
13
6
0
Histórica (s)
2002
2010
2003
2011
2004
2012
2005
2013
2006
2014
2007
2015
2008
2016
2009
Fonte: (Autora, 2016)
Este descritor e sua variação com “s” não tem ocorrências em artigo dos anos de 2003,
2008 e 2015.
Gráfico 5. Todos os descritores intercruzados, ocorrências por ano (2002-2015)
200
186
180
160
140
120
100
80
60
40
24
20
3
4
6
10
9
6
13
12
23
20
19
28
9
0
Todos os descritores em cruzamento
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2010
2011
2012
2013
2014
2015
Total
2009
Fonte: (Autora, 2016)
Depois do cruzamento intradescritor e com o descarte de todas as repetições chegamos
ao número total de artigos com ocorrências de quaisquer dos descritores escolhidos.
Percebemos que a variação temporal das ocorrências por ano com todos os descritores tem
variação semelhante à variação do descritor “história” e sua variação sintática com “s” em que
44
as ocorrências aumentam nos anos e 2007 e 2014, bem como todos os descritores têm
aumento neste último ano.
Em virtude dos objetivos desta pesquisa, apenas os trabalhos que contêm o descritor
“historicidade” serão analisados em seus respectivos contextos significativos em que acontece
cada ocorrência, o descritor nos atrai ao trabalho pela excelência de sua aparição, visto que é
exatamente concepções de historicidade que nos interessa investigar nesta pesquisa. Ainda
que procuremos o significado expresso em que ela possa se apresentar através de outros
descritores, é a palavra mesma “historicidade” que nos interessa aqui. A análise interpretativa
de cada ocorrência será apresentada a seguir.
45
5. DA HISTORICIDADE COMO ARGUMENTO: SENTIDOS DE HISTORICIDADE
NAS PUBLICAÇÕES DA REVISTA PSICOLOGIA & SOCIEDADE
Neste capítulo, iremos esmiuçar como aparecem as ocorrências do descritor
“historicidade” utilizado nesta pesquisa. Analisaremos as possíveis diferentes concepções em
que ele poderá ser apresentado nos diferentes trabalhos da revista em que ele foi usado ao
longo de seus 29 anos de existência (2015).
A opção pelo descritor historicidade entre o sete descritores pesquisados neste trabalho
(histórico; históricos; histórica; históricas; história; histórias e historicidade) se deve, em
primeiro lugar, pela necessidade de um recorte específico dentre as inúmeras ocorrências de
cada descritor encontradas na fase descritiva de organização, catalogação e mapeamento desta
pesquisa. Para a interpretação qualitativa neste trabalho, a análise das ocorrências de um
descritor em seus contextos significativos se fez necessária, de forma que permitisse o
aprofundamento da interpretação sobre que concepções estão presentes - e se estão - nas
publicações que a revista Psicologia & Sociedade realizou desde sua fundação.
Em segundo lugar, optamos pelo descritor historicidade pela especificidade dos
objetivos desta pesquisa. Pesquisamos sete descritores com radicais parecidos com o intuito
de apreender o máximo de referências que se relacionassem com o conceito aqui pesquisado,
no entanto, a palavra historicidade em sua dinâmica no processo de construção de sentidos, a
partir da análise do conceito de historicidade que adotamos nesta pesquisa, é que se configura
no nosso objeto.
Os trabalhos serão apresentados por ordem crescente de ano e número da revista, bem
como as ocorrências são trabalhadas na medida em que aparecem nos textos dos trabalhos.
Estão listados abaixo os trabalhos que serão analisados nesta fase:
1- ALMEIDA, Antonio Ribeiro de; MUCCILLO, Gerson; MELO, Lucy Leal de. Quem é
o brasileiro? Uma exploração das características levantadas por Gilberto Freyre e
Sérgio B. de Holanda. Psicologia & Sociedade, Maringá, v. 2, p.43-53, out. 1986;
2- TEJERA, Marisa Estela Sanabria. A questão do coletivo. Psicologia &
Sociedade, Minas Gerais, v. 6, p.81-90, mar. 1989;
3- ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makino. Psicologia e história: uma relação possível?
ou psicologia e história: uma relação necessária. Psicologia & Sociedade, Belo
Horizonte, v. 7, p.30-36, set. 1989;
4- VIOLANTE, Maria Lúcia Vieira. O saber/agir psicológico. Psicologia & Sociedade,
Belo Horizonte, v. 9, p.48-60, mar. 1991;
5- LOPES, J. R. O sujeito e seus modos de subjetivação. Psicologia & Sociedade; 10(2):
53-75; jul./dez.1998;
6- NOVO, H. A. A dimensão ético-afetiva das práticas sociais. Psicologia & Sociedade;
10 (2): 95-104; jul./dez. 1998;
46
7- SAWAIA, B.B. A crítica ético-epistemológica da psicologia social pela questão do
Sujeito. Psicologia & Sociedade; 10 (2): 117-136; jul./dez.1998;
8- GUARESCHI, N. M. F. Políticas de identidade: novos enfoques e novos desafios para
a psicologia social. Psicologia & Sociedade; 12 (1/2): 110-124; jan./dez.2000;
9- YAMAMOTO, O. H. A psicologia em movimento: entre o 'Gattopardismo' e o
neoliberalismo. Psicologia & Sociedade; 12 (112): 221-233; jan./dez.2000;
10- GIACÓIA JR., O. Esquecimento, memória e repetição. Psicologia & Sociedade; 13
(2): 58-91; jul./dez.2001;
11- FOULKES, Benjamín Mayer. El origen de la historiografía: historicidad, escritura y
plus-de-goce. Psicologia & Sociedade, v. 21, 2010;
12- ZANIANI, Ednéia José Martins; BOARINI, Maria Lúcia. Infância e vulnerabilidade:
repensando a proteção social. Psicologia & Sociedade, v. 23, n. 2, p. 272-281, 2011;
13- KAHHALE, Edna Maria Peters; ESPER, Elisa Maria Barbosa. Novas possibilidades
metodológicas: a quebra dos paradigmas qualitativo e quantitativo em Psicologia.
Psicologia & Sociedade, v. 26, n. spe 2, 2014.
Todos estes trabalhos possuem pelo menos uma ocorrência da palavra historicidade e
estas serão analisadas em seu contexto de significação em cada um dos trabalhos
separadamente.
1
- ALMEIDA, Antonio Ribeiro de; MUCCILLO, Gerson; MELO, Lucy Leal de. Quem
é o brasileiro? Uma exploração das características levantadas por Gilberto Freyre e
Sérgio B. de Holanda. Psicologia & Sociedade, Maringá, v. 2, p.43-53, out. 1986;
Já no primeiro ano da revista (ano 1986, número 2) a palavra “historicidade” aparece,
ainda que de forma tímida, visto que há apenas uma ocorrência da mesma em um dos
trabalhos publicados na revista. O trabalho em questão se ocupa de esboçar e explorar
considerações acerca da identidade do brasileiro em sua condição mesma de nacionalidade,
problematizando as possibilidades de resposta a esta pergunta e o lugar do psicólogo social
nesta questão.
A palavra “historicidade” aparece no texto de forma a não ser definida diretamente
como conceito. No entanto, seu lugar argumentativo não é subestimado, visto que condiciona
a possibilidade de se conduzir estudos sobre o – para usar os termos dos autores em questão “ser do brasileiro”.
Um estudo sobre o brasileiro pode, do nosso ponto de vista, ser conduzido se
tem a consciência da sua historicidade. Mesmo um estudo dos seus traços
descritivos: que, segundo julgamos, permanecem durante longo tempo. E o
contexto histórico deste estudo se faz no final do século XX, quando o
brasileiro vive sua mais radical crise: tanto ao nível econômico como moral.
Apesar de reconhecermos a não existência de uma "substância" que suporte
47
o "ser do brasileiro", há que ver, entretanto, que se pode perceber uma
continuidade entre o brasileiro dos séculos XVIII, XIX e XX. Esta
continuidade parece assegurada pelas matrizes culturais, pela língua e pelos
símbolos comuns. Cada geração que chega tem a função de prosseguir um
processo. Ela agrega muito à história comum, mas aprendeu o passado,
integra-o no seu presente para a construção do futuro. (ALMEIDA;
MUCCILO; MELO, 1986, p. 44, grifo meu)
A historicidade aparece então como condição epistemológica a ser considerada em
estudos sobre a identidade do brasileiro, neste trabalho, ainda que não se faça considerações
mais específicas acerca do lugar que essa “historicidade”, não definida diretamente, ocupa e
de que forma isso pode e/ou deve ser feito. Acrescenta-se acerca desta condição de
historicidade “mesmo num estudo dos seus traços descritivos” que, segundo os autores
apresentam perenidade significativa que pode ser verificada temporalmente.
Desta forma, podemos verificar que é estabelecida uma noção de continuidade através
do tempo. Há de se considerar ainda que é citado um não-reconhecimento de uma
“substância” que garanta caráter absoluto à identidade do brasileiro, mas seu caráter de
continuidade através do tempo é assegurado. Podemos questionar então se essa “continuidade
através do tempo” se configura então no que se pode chamar de historicidade, neste trabalho,
e nos parece louvável que sim. Essa continuidade através do tempo aparece ligada à idéia de
processo e assegurada pelas “matrizes culturais, pela língua e pelos símbolos comuns” (Id.),
de forma que, por fim, se afirma o processo histórico de forma continuamente interligada em
que se aprende “o passado, integra-o no seu presente para a construção do futuro” (Id.).
Observamos que a historicidade é trazida no argumento de forma a condicionar a
possibilidade de estudos sobre o brasileiro, ainda que não definida diretamente, o argumento
da historicidade aqui condiciona, basicamente, todo o estudo, em vista de este se tratar
justamente do que a historicidade condiciona. Seu lugar argumentativo aqui, podemos
acrescentar, é forte.
2 - TEJERA, Marisa Estela Sanabria. A questão do coletivo. Psicologia & Sociedade, Minas
Gerais, v. 6, p.81-90, mar. 1989
O artigo em questão trata de pensar o que chama de “questão do coletivo” a partir da
perspectiva de Alain Badiou . O texto questiona se é possível falar algo sobre isto que se
chama coletivo. A autora escolhe falar do coletivo pela via da política:
É possivel que fique a questão: porque assimilar o coletivo ao político? Se
pensarmos o coletivo desde o espaço da identidade do sujeito, da interação,
das vicissitudes da convivência, dos desencontros cotidianos, da marca a
48
partir do juntar-se, da referência à unidade, à fidelidade partidária, é claro
que essa proposta do coletivo dá enquadre a um discurso político, o dos
militantes, o que fala em nome da massa operária, o que resgata a dívida
social, o discurso do Um. (TEJERA, 1989, p. 85)
A partir de uma relação entre coletivo e político feita, de forma muito precária e pouco
sistematizada – característica de todo o texto – é que a autora tenta estabelecer algumas
considerações.
A única ocorrência da palavra historicidade presente no texto ocorre no contexto a
seguir: “Trata-se de interromper a comunicação, para que o impossível aconteça na sua
historicidade. É esta possibilidade do impossível o fundamento de toda política que se
propaga mais além de uma simples repetição” (Id., p. 84). De fato, as definições claras não
são uma característica deste artigo, no caso da historicidade também não é diferente.
Apesar da referência a uma perspectiva teórica determinada que é a perspectiva de
Alain Badiou, a historicidade não é definida claramente. No contexto em que a historicidade é
apresentada, a autora afirma, citando Badiou, que o fundamento da política é definido pela
interrupção do comunicável para então o impossível acontecer. A historicidade aparece dando
forma a este impossível do qual a política é condicionada enquanto fundamento. Este
impossível só interessa que aconteça em sua historicidade.
Se a abordagem que a autora escolhe para falar da questão coletivo é justamente a
política, podemos dizer que a historicidade é trazida como argumento a fundamentar a
possibilidade da abordagem escolhida.
3 - ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makino. Psicologia e história: uma relação possível? ou
psicologia e história: uma relação necessária. Psicologia & Sociedade, Belo Horizonte, v. 7,
p.30-36, set. 1989
Neste mesmo ano de 1989, mas no número sete da revista Psicologia & Sociedade,
encontramos três ocorrências do descritor “historicidade” em um único trabalho, o primeiro
que trata da relação entre história e psicologia de forma direta, de forma a apresentar o tema e
o descritor “história” no título.
O trabalho se propõe a dissertar sobre a dimensão histórica dos fenômenos
psicológicos e descreve duas dimensões da relação entre história e psicologia: uma nos diz
sobre a historicidade do fenômeno psicológico e outra sobre os determinantes históricos da
psicologia. É justamente na primeira dimensão que aparece a primeira ocorrência do descritor
“historicidade” neste trabalho. É interessante como o referido descritor – historicidade –
49
aparece duas vezes, das três em que há ocorrências, nos títulos dos subtópicos deste trabalho,
há apenas uma menção da palavra no texto corrido.
A primeira ocorrência está disposta no título do subtópico: “Duas dimensões da
relação entre psicologia e história: da historicidade do fenômeno psicológico aos
determinantes históricos da psicologia” (ANTUNES, 1989, p. 30). O texto que segue então
logo após:
É preciso que se explicite a diferença entre a maneira como o fluxo do tempo
influencia a dimensão psicológica do homem, da maneira como a Psicologia
se desenvolve e se transforma no decorrer do tempo. A primeira instância
refere-se à compreensão da realidade em si e constitui-se em objeto de
estudo da Psicologia. A segunda refere-se à maneira como tal realidade é
apreendida pelas diferentes concepções de ciência, e é, de certa forma, uma
representação de tal objeto. Em outras palavras, pode-se afirmar que a
primeira refere-se à realidade mesma e a segunda à sua representação, sendo
ambas produtos históricos, porem diversamente determinadas e guardando
cada qual sua autonomia relativa. Entretanto, uma e outra necessitam ser
compreendidas também em sua conexão, e é essa tarefa um desafio para os
pesquisadores na área, que urge ser empreendida. (Id.).
Ao diferenciar as duas dimensões que descreve acerca da relação entre Psicologia e
História, percebemos que a palavra historicidade é substituída e conceituada como a “maneira
como o fluxo do tempo influencia” a dimensão psicológica do homem e “histórico”
substituído e conceituado como a maneira como, no caso, a Psicologia, se transforma e se
desenvolve no decorrer do tempo.
No primeiro caso, como dito na citação acima, a historicidade é colocada num lugar de
ontologia em relação com o fenômeno psicológico visto que se refere “à compreensão da
realidade em si e constitui-se em objeto de estudo da Psicologia” (Ibid.), já no segundo caso a
relação entre história e psicologia é descrita como uma questão tanto epistemológica – como
se pode conhecer este objeto - quanto historiográfica – como é descrito conhecimento
produzido ao longo do tempo. A historicidade aparece então como um elemento não só
importante, mas necessário para o conhecimento psicológico, neste trabalho.
Primeiro, é tratada como objeto da psicologia como ciência, pois, no argumento da
autora: “o fluxo do tempo influencia a dimensão psicológica do homem”. Em outras palavras,
a dimensão psicológica do homem possui historicidade, onde identificamos aí o argumento da
ocorrência do descritor aqui em questão. A historicidade é colocada até no lugar de objeto da
psicologia, cabe perguntar, no entanto, o que a autora já antecipa na frase “a maneira como o
fluxo do tempo influencia a dimensão psicológica do homem” (Ibid). De que se trata esta
maneira? Como nos basta a afirmar que há uma maneira e não discorrer sobre ela?
50
Na segunda ocorrência, a palavra historicidade aparece também no título de um
subtópico, que é o segundo do trabalho em questão: “Da historicidade do fenômeno
psicológico”. Nesta parte do texto, permanece o debate acerca da importância da relação entre
história e psicologia a partir da primeira dimensão, esta que disserta acerca da historicidade do
fenômeno psicológico e nos diz:
A compreensão histórica do fenômeno psicológico humano é justamente a
compreensão de suas transformações, ocorridas no fluxo do tempo, através
das relações de mediação entre seus múltiplos fatores e que dão a dinâmica
da realidade psicológica. Em outras palavras, a dimensão histórica não pode
ser apreendida isoladamente, é ela antes a possibilidade de captar a dinâmica
do movimento produzido pelas relações entre as várias determinações que se
fazem presente na psicologia humana. (Ibid., p. 31)
A historicidade é definida pelo autor como o elemento que traz e apreende as
transformações do fenômeno psicológico, e apesar de não poder ser apreendida isoladamente,
é ela que capta, neste trabalho, a conexão entre as outras dimensões que configuram a
psicologia.
Podemos observar o lugar que o argumento da historicidade, trazida como “dimensão
histórica”, ocupa ao não “ser apreendida isoladamente”, pois aparece como fio condutor das
“varias determinações que se fazem presente na psicologia humana”. Podemos inferir um
lugar epistemológico importante dado à historicidade como elemento de conversa entre estas
diferentes determinações, indício interessante da discussão acerca de como a psicologia, como
ciência independente, elabora seu objeto em se relaciona com áreas diversas.
Na terceira e última ocorrência deste trabalho que também é a desta edição da revista,
a historicidade aparece no texto:
Dessa maneira, a compreensão de um aspecto da realidade humana - no caso
o psicológico - implica na intelecção das relações travadas no interior de sua
totalidade, sem o quê, corre-se o risco de ao isolar-se um aspecto, abstraí-lo
da realidade concreta e assim distanciar-se do homem real, finalidade última
do conhecimento que se busca. Assim, compreender a dimensão psicológica
humana implica em ultrapassar os limites do meramente psicológico. É nesse
contexto que se situa a preocupação com a busca da historicidade do
fenômeno psicológico. (Ibid., grifo meu)
A historicidade é trazida no argumento de que sem este aspecto se cometeria erro de se
isolar ou abstrair de uma realidade concreta e de um homem real a que se tem o objetivo de
alcançar com a produção do conhecimento, o aspecto psicológico por si só, neste sentido, não
pode ser sustentado sozinho, se faz necessário o recurso à historicidade, visto que, argumenta
o autor:
51
A Psicologia é em última instância uma representação do fenômeno
psicológico; [...] Disso decorre a necessidade de compreensão da Psicologia
na sua dimensão histórica, como instrumento para se compreender a maneira
como o fenômeno psicológico tornou-se objeto de conhecimento e
principalmente as transformações que tal saber sofreu no decorrer do tempo.
(Ibid., p. 32)
Ainda que, neste trabalho, o autor ressalte de diferentes formas e dimensões a
importância da relação entre psicologia e história de forma a trazer a historicidade como
elemento primordial para se compreender e analisar o fenômeno psicológico, não há um
debate acerca de que maneira essa historicidade como dimensão do psicológico pode ser
abordada pela psicologia de forma direta e específica, no entanto, o argumento que o trabalho
traz é caracterizado pela importância de se afirmar a historicidade como argumento.
4 - VIOLANTE, Maria Lúcia Vieira. O saber/agir psicológico. Psicologia & Sociedade, Belo
Horizonte, v. 9, p.48-60, mar. 1991
Nesta edição da revista que abrange os anos de 1990 e 1991, encontramos apenas uma
ocorrência da palavra historicidade, que aparece no texto “O saber/agir psicológico”, de Maria
Lúcia Vieira Violante. O texto discute e critica as posturas epistemológicas, éticas e políticas
dos psicólogos e da Psicologia como conhecimento.
É enfatizado o desconhecimento da ciência psicológica em relação à realidade
brasileira em termos de populações, instituições e dinâmica social em razão da adoção de
modelos teóricos abstratos nos seus mais diversos aspectos, bem como critica a classe dos
psicólogos pela postura apresentada frente a essa diversidade de abstrações teóricas
(re)produzidas pelos mesmos.
No texto, a autora nos fala da importância de se considerar um sujeito “determinado
sócio-historicamente”, mas acrescenta que este aspecto por si só não é suficiente para a
atuação plena do psicólogo, de forma a recorrer à psicanálise citando Freud, Lacan e
Castoriadis como recurso teórico para realizar esta tarefa.
A palavra historicidade não é conceituada no contexto em que aparece, mas é
apresentada como um conceito numa teoria específica que é o marxismo. Vejamos:
Sem recorrer à teoria revolucionária de Marx sobre a historicidade da
sociedade capitalista, a sensibilidade e o interesse social de Freud, que
poucos reconhecem, por diferentes conveniências, e muitos ignoram, o
conduz a duas afirmações magníficas. (VIOLANTE, 1991, p.54, grifo meu).
52
Não faz parte da discussão deste trabalho discorrer acerca de uma concepção
específica de historicidade, mas a ocorrência da palavra no texto fala de uma conceituação
específica que é a marxista.
Ao falar sobre a contribuição da teoria freudiana para o saber/agir psicológico, a
autora cita a historicidade como um conceito específico da teoria marxista, ainda que não o
defina no texto. A palavra aparece como recurso argumentativo, onde não é um conceito
discorrido, apenas para se apresentar uma outra teoria, a de Freud. De forma que uma é
comparada à outra e a citação da historicidade na teoria marxista é realizada numa insinuação
de que é um caminho obrigatório a se passar quando se fala sobre o tema. Outros conceitos
específicos da teoria marxista são citados no decorrer do texto, como “alienação”, no entanto
o autor citado é Castoriadis.
Essa mútua influência aparece de forma muito direta nas publicações da revista da
Associação Brasileira de Psicologia Social desde o início da revista. Lacerda Jr (2015) nos diz
o quanto essa dupla influência tem lugar específico na história da psicologia social e em
especial, na da psicologia social brasileira de forma que os primeiros trabalhos da psicologia
social crítica no Brasil têm grande inspiração destas teorias por influência tanto da psicologia
crítica européia, como as ideias de Lapassade e psicanalistas argentinos.
O lugar argumentativo da historicidade aqui aparece no contexto significativo de
forma a caracterizar que, pela construção da frase, “a historicidade da sociedade capitalista” é
equiparável à “sensibilidade e o interesse social” de Freud que, é enfatizado em sua
importância argumentativa pelo fato de que “poucos reconhecem” e “muitos ignoram”
(VIOLANTE, 1991, p.54). A historicidade aqui, em particular uma historicidade atrelada ao
projeto marxista, é trazida em meio ao argumento de caracterização de um aspecto importante
a que deve passar qualquer perspectiva: sensibilidade e interesse social. Ainda que perpasse
sistemas teóricos diferentes, no caso do argumento da autora o de Freud, a historicidade é
então lugar obrigatório a ser considerado em qualquer sistema teórico escolhido.
5 - LOPES, J. R. O sujeito e seus modos de subjetivação. Psicologia & Sociedade; 10(2): 5375; jul./dez.1998
Antes de analisarmos de forma específica as ocorrências deste trabalho, é importante
atentar para o hiato que há entre a ocorrência da palavra historicidade na edição da revista de
1990/91 e esta edição de 1998 acompanha um hiato nas edições da revista que aconteceu entre
53
as edições 1992 e a de 1996. No entanto, o hiato entre as ocorrências é maior que o da revista
e se dá entre 1991 e 1998.
Apesar disto, há cinco ocorrências da palavra historicidade nesta edição, sendo estas
distribuídas entre três trabalhos diferentes: “O sujeito e seus modos de subjetivação" (LOPES,
1998, pp. 53-75); “A dimensão ético-afetiva das práticas sociais" (NOVO, 1998, pp. 95-104)
e "A crítica ético-epistemológica da psicologia social pela questão do sujeito" (SAWAIA,
1998, pp. 117-138). Como com os outros trabalhos, analisamos cada trabalho e suas
ocorrências separadamente.
No primeiro trabalho, a palavra historicidade aparece três vezes, sendo duas nas
referências e uma no texto corrido. Este artigo discorre de forma extensa acerca de três
concepções tomadas como registros da consciência humana, suas diferenças e conformações
que são: o indivíduo, a pessoa e o sujeito, sendo este último o centro das elaborações deste
trabalho em que representa a criação de projetos de contra-hegemonia e sua conformação se
reorganiza a partir das relações dialéticas entre sujeito e estrutura social.
O contexto em que a palavra historicidade aparece não traz uma definição para a
mesma e se dá num subtópico acerca da linguagem e processos em curso deste trabalho. É
este:
Uma vez que a linguagem é uma instituição e, como tal, possui caráter
socializador (Berger, 1987), a dimensão costumeiramente denominada de
linguagem erudita, ou formal, tem como princípio ordenar os significados
produzidos nas experiências culturais, no interior de uma estrutura social
determinada. Constitui-se assim objetiva, exterior e coercitivamente como
padrão social, possuindo historicidade e atribuindo autoridade
(legitimidade) ao seu uso, implicando normas e proibições, mas estando
sujeita a transgressões, como qualquer norma. (LOPES, 1998, p. 71, grifo
meu)
Neste caso, a historicidade aparece como uma característica independente que a
linguagem possui, mas que não é definida nem trabalhada na única vez em que o termo
aparece no texto corrido. No entanto há referências no texto sobre uma experiência subjetiva e
social com o tempo, como podemos definir de maneira genérica a historicidade a despeito das
diversas configurações em que esta experiência pode ser estabelecida em sistemas teóricos
e/ou culturais diferentes.
Podemos observar estas referências em:
Repensar a concepção de sujeito na contemporaneidade implica,
primeiramente e sempre, uma reflexão que gera um movimento com dois
pressupostos: o sujeito e o tempo - com sua implicação conseqüente de se
54
pensar um espaço, um lugar, um contexto, um locus para esse movimento.
(Id., p. 53).
Bem como em:
Embora as três concepções aqui em análise possam ser pensadas como
registros ou figuras da consciência humana, suas relações com o tempo são
divergentes: enquanto as concepções de pessoa e de indivíduo se relacionam
com o passado, sendo seu caráter explicativo quase sempre associado à sua
gênese, a concepção de sujeito, ao ser pensada na dimensão da práxis, e
inserida no pensamento crítico sobre o mundo capitalista, é uma concepção
que se reelabora em todos os momentos históricos onde a crítica sobre o
mundo capitalista constata a necessidade de um redirecionamento da práxis.
(Ibid., p. 54)
Essas referências nos dizem sobre uma importância argumentativa da elaboração sobre
a experiência social e subjetiva com o tempo, ou seja historicidade, nas elaborações deste
trabalho, visto que para se pensar o objetivo principal de discussão do mesmo é necessário,
segundo o autor, passar pela discussão do sujeito em relação com o tempo, mesmo com o
conceito não aparecendo como tal. Isto nos faz questionar em que conformações de sentido
parece ser coerente o emprego da palavra historicidade, bem como a necessidade de sua
definição clara nestas conformações mesmas.
A historicidade aqui é tomada como argumento a caracterizar a linguagem e esta, no
contexto significativo em que é apresentada, ocupa um lugar importante de caracterização
pela necessidade de sua utilização, ainda que não definida diretamente. Mas o que chama a
atenção neste trabalho, atenta para como a dimensão histórico-social e política trazida para a
psicologia social que, no nosso argumento, está expressa na palavra-conceito historicidade em
suas ocorrências nos textos analisados, neste caso, não se dá desta forma. Esta característica,
ainda que específica deste trabalho, demonstra um elemento importante: além das
possibilidades argumentativas da historicidade como palavra-conceito e, por isso, como
descritor, traz também as limitações deste na sua força argumentativa.
6 - NOVO, H. A. A dimensão ético-afetiva das práticas sociais. Psicologia &
Sociedade; 10 (2): 95-104; jul./dez. 1998
Ainda nesta edição de 1998, temos uma ocorrência da palavra historicidade em outro
trabalho, é este: “A dimensão ético-afetiva das práticas sociais: algumas reflexões sobre a
produção do conhecimento em psicologia”, de Helerina Aparecida Novo.
Este trabalho trata acerca da relação entre a produção do conhecimento em Psicologia
e as práticas promovidas através dessa produção, pensa esta relação a partir de uma
55
indissociabilidade entre teoria e prática, questiona a naturalização de objetos a partir de uma
diferenciação baseada no trabalho de Sawaia acerca de prática e práxis. Esta última resguarda
um papel de se orientar a partir do efeito ético que produz como intervenção e interpretação
do/no mundo.
A palavra historicidade aqui aparece apenas uma vez, mas não sozinha, ela é acrescida
do prefixo “a”: a-historicidade. Aparece num contexto argumentativo em que, ainda citando
Sawaia, a autora faz referência às críticas que tomaram forma a partir da “crise da Psicologia”
em que as perspectivas mais ligadas aos parâmetros positivistas de produção de ciência são
criticados:
Reportando-se aos movimentos contestatórios da década de 60,
especificamente no terreno da Psicologia, Sawaia (1994) faz uma reflexão
sobre os descaminhos tomados por aqueles que propuseram uma revisão
epistemológica da área, à luz dos pressupostos do materialismo históricodialético. Justamente aqueles que trouxeram a crítica da neutralidade do
conhecimento, questionaram a a-historicidade dos fenômenos humanos,
apontaram a mediação das relações de poder na produção do saber,
acabaram por "reificar o homem e a sociedade em categorias generalizantes
que se bastavam a si mesmas, anulando a necessidade de pesquisas. (NOVO,
1998, p. 96, grifo meu)
O descritor é citado em referência a uma época específica em que a historicidade
aparece como elemento intrínseco a ser considerado no fazer científico, de forma que indícios
da ausência de preocupação com o referido quesito suscita críticas éticas e teóricas. Em
particular, críticas baseadas no materialismo-dialético, como na citação. No entanto a crítica
que, entre outros aspectos, colocava a historicidade como elemento primordial, não é vista
como o suficiente para a plenitude de práticas mais preocupadas ético-valorativamente, como
defende o trabalho citado, e acabaram por contribuir para categorias generalizantes
igualmente problemáticas.
Neste trabalho podemos perceber como a historicidade é colocada num lugar de
importância primordial nas críticas elaboradas pela Psicologia Social Crítica, ainda que tenha
sido citada certa abordagem teórica num tempo específico também. De forma direta, a
historicidade é trazida como argumento a caracterizar, quase obrigatoriamente, a abordagem
aos fenômenos psicológicos.
A historicidade também nos aparece como um termo generalizante que, sem a devida
consideração de seus sentidos dispostos, pode ser apresentada de forma a indicar bastar a si
mesma no contexto significativo em que é apresentada.
A palavra é viva, ressignificada no decorrer de seu uso ao longo do tempo trazendo
consigo a história de formas diferentes de interpretação do real. Cabe-nos negociar qual o
56
propósito significativo de seu uso determinado quando, no uso da palavra como ato, ela é
conceituada. No caso da historicidade, nos faz indagar qual o propósito significativo de seu
uso pouco conceituado e, por isso, não posto à negociação.
7 - SAWAIA, B.B. A crítica ético-epistemológica da psicologia social pela questão do
Sujeito. Psicologia & Sociedade; 10 (2): 117-136; jul./dez.1998
O artigo em questão trata da questão ética e epistemológica da Psicologia Social
fazendo questionamentos acerca de como a Psicologia social tem produzido conhecimento e
como tem pensado sobre este, se produz a partir de efeitos emancipadores e se se coloca a
partir disso.
Escolhe fazer estes apontamentos a partir da categoria de sujeito por afirmar uma
indagação ética e ontológica, em que, a concepção subentendida de sujeito pertencente a
determinado pressuposto teórico, resguarda. Argumenta que o sujeito aparece como uma boa
categoria de análise ética pela primazia do lugar que adquire na contemporaneidade num
projeto ético-libertador requerido como recurso à desilusão para com a epistemologia
característico do final do século XX. (SAWAIA, 1998, p. 118). Por fim caracteriza a categoria
sujeito como um paradoxo científico que tem grandes proporções dentro da Psicologia Social
em perspectivas de ciência diferentes que se desencontram a partir da negação do lugar do
sujeito no fazer científico (Id., p. 120).
Para trazer contribuições aos apontamentos acerca do lugar ético na produção do
conhecimento em geral e na Psicologia, a autora opta por trazer a filosofia espinosiana e
argumenta sua escolha: “escolhi o pensamento crítico-constitutivo de Espinosa, que resgata a
unicidade na multiplicidade e a passagem da fisicidade à eticidade no ser como potência e
ética de constituição, escapando, tanto de solipsismos, quanto de determinismos.” (Ibid.,
p.122).
Neste trabalho, ainda da edição de 1998 da revista em análise nesta pesquisa –
Psicologia & Sociedade -, temos a última ocorrência da palavra historicidade na edição em
questão que são cinco. O contexto argumentativo em que aparece a ocorrência da palavra
historicidade se dá ao falar do pensamento de Espinosa, citando Marilena Chauí, de forma a
ressaltar a contribuição do filósofo para alguns paradoxos das ciências humanas:
Espinosa é o filósofo da liberdade, conforme ressalta Chauí. Seu pensamento
abre a possibilidade à ciência de se exercer como máquina de libertação do
homem e também das ciências humanas, na medida em que supera as teorias
únicas, reunindo idéias que se excluem reciprocamente na história do
57
conhecimento: a de necessidade (das leis da natureza), a da liberdade (da
essencialidade) e da força coletiva das massas (da historicidade). (Ibid., p.
128, grifo meu).
O subtópico do artigo em que se situa a ocorrência é justamente o que se propõe a
discutir como a teoria espinosiana pode contribuir para os questionamentos da psicologia
social, cujo título é “Espinosa e a Psicologia Social Crítica”. A palavra “historicidade‟ aparece
entre parênteses de forma a caracterizar uma relação conceitual entre o que é seguido
anteriormente ao parêntese no texto. De forma a definir historicidade como “força coletiva
das massas”. Não é trazido um conceito mais claro sobre esta definição, nem em que contexto
teórico da história do conhecimento, como é citado no texto, este conceito se situa. Podemos
compreender como a palavra é citada sem referência teórica clara no texto, como verbete de
significado compartilhado a priori.
Apesar da não definição clara e direta, a palavra é citada entre parênteses depois de
citado um dos aspectos importantes de constituição da escolha teórica feita no trabalho em
análise, de forma a caracterizar uma síntese enfática do que segue no contexto da frase. A
historicidade é trazida então como argumento.
8 - GUARESCHI, N. M. F. Políticas de identidade: novos enfoques e novos desafios para a
psicologia social. Psicologia & Sociedade; 12 (1/2): 110-124; jan./dez.2000
Depois da edição de 1998, apenas na edição de 2000 a palavra historicidade volta a
aparecer nos trabalhos da revista Psicologia & Sociedade, pulando duas outras edições sem
ocorrências. Nesta edição há duas ocorrências em trabalhos diferentes, uma em “Políticas de
identidade: novos enfoques e novos desafios para a Psicologia Social” de Neuza Maria de
Fátima Guareschi e “A psicologia em movimento: entre o 'Gattopardismo' e o neoliberalismo"
de Yamamoto.
O primeiro trabalho trata de políticas de identidade, um conceito que a autora define
como:
[...] um modo de compreender ações coletivas e individualizadas de uma
forma que não marginalize as experiências de vida das pessoas oprimidas, ou
excluídas da sociedade pelo fato de buscarem reconhecer alguma identidade
cultural e social que seja diferenciada das dominantes. As políticas de
identidade procuram, então, compreender a complexidade e as contradições
da subjetividade humana. (GUARESCHI, 2000, p. 111)
A autora argumenta que há transformações nas relações sociais que têm trazido o
debate acerca da construção da identidade como importante. Cita mudanças como a
58
globalização, novas tecnologias da informação, crise nas instituições que foram
reconfigurando a forma como as pessoas se constituem e são constituídas. A importância de
se pensar a categoria identidade é enfatizada no campo da psicologia e, em particular, no da
psicologia social neste artigo que afirma este objeto como sendo alvo de estudos nas últimas
três décadas na área. (Id., p. 110-11).
Para falar de diferentes teorias e como estas abordam a questão temática do artigo, a
autora divide o trabalho em três partes: a) definição do conceito de política de identidade; b)
história e desenvolvimento do conceito de políticas de identidade; c) discutindo políticas de
identidade e a psicologia social.
A autora cita várias teorias e abordagens diferentes ao longo do texto nestes três
tópicos e traz aspectos da teoria de cada um para discutir o que é chamado de política de
identidade, no primeiro: cita Castoriadis para falar de uma essência criadora em se reinventar
como outras formas de ser; Giroux para falar de resistência; Stuart Hall sobre teorias de
articulação; Laclau e Mouffe sobre identidades não-fixas e sintetiza:
[...] a "prática da articulação" como "a construção de pontos nodais que
fixam parcialmente os significados" é uma tentativa de conter o fluxo das
diferenças, de construir. É o que Teresa de Laurentis (1990) menciona como
sendo a história da teoria feminista, isto é, a história de uma série de práticas
de articulações (p. 269). Assim, é o significado de articulação que emerge
das obras de Hall (1996) e Laclau e Mouffe (1985) que oferece um modo de
compreender a concepção de Políticas de Identidade. Portanto, o tema das
Políticas de Identidade sempre envolve uma mistura complexa de interação,
em variadas proporções, entre discurso e ideologia. A principal razão por
que as questões acerca de ideologia e discurso são centrais na discussão das
Políticas de Identidade, identidade de gênero, identidade racial, ou
identidade sexual, é que os tópicos teóricos suscitados a partir desses
conceitos possam contribuir para as interações relacionais entre políticas de
identidade e o debate atual na psicologia social. (Ibid., p. 114).
É neste primeiro tópico que aparece a única ocorrência da palavra historicidade no
texto:
Castoriadis (1992) fala ainda da reflexão e da deliberação como criações que
podem alterar as leis do próprio ser. Esta alteração não se dá por decreto,
senão pelo questionamento radical e rigoroso de representações e
historicidades de leis e de outras ações e criações humanas, a partir da
questão da validade de júri, isto é, de direito, não de fato. Aponta, ainda, a
exigência da validade de direito como raciocínio filosófico que deve ser
validado, de forma reflexiva e deliberada, pela coletividade. (Ibid., p. 112,
grifo meu)
A autora cita Castoriadis neste trecho e se refere a conceitos dele quando traz a
ocorrência do descritor historicidade. É a única ocorrência em todas as edições da revista em
que a palavra aparece no plural. Não é definida ou referida em nenhum outro momento do
59
texto e é apresentada, bem como outros conceitos de uma diversidade de teorias, de forma
pouco debatida em profundidade.
O trecho em que a ocorrência aparece é um contexto em que a autora traz a teoria de
Castoriadis acerca do é chamado de “alteração das leis do ser” para fundamentar o
posicionamento adotado por ela como perspectiva de sujeito para então discorrer sobre o tema
do artigo em geral, vejamos:
[...] o sujeito neste texto é um sujeito concreto, inserido numa realidade
sócio-histórica, capaz de viver a consciência histórica, tendo o cotidiano
como seu espaço vital, locus de convivência contraditória de determinantes
estruturais e acontecimentos experienciados, de resistência e de reprodução.
A consciência desse sujeito, assim contextualizado, emerge neste processo
não como substância acabada, senão como síntese processual, histórica,
inacabada, resultado da interação do sujeito com as múltiplas relações
sociais que estabelece com seus pares e com os mais diversos quadros da
realidade. O pensamento crítico, nesta perspectiva, remete à ação do sujeito
e depende do grau de autonomia e de iniciativa que ele alcança nas diversas
relações sociais. Este pensamento crítico somente se constrói quando o
sujeito desencadeia processos reflexivos, tomando as práticas cotidianas
como eixo central. (Ibid.)
A partir da caracterização da perspectiva de sujeito que a autora adota neste artigo um sujeito da consciência histórica e inacabada -, ela explica como se pode desenvolver
processos reflexivos para a construção de um pensamento crítico. É aí, neste contexto
argumentativo, que a autora traz a perspectiva de Castoriadis sobre “alterações das leis do
ser”. No argumento em que está inserida, a palavra ocupa um lugar no processo chamado
“alteração das leis do próprio ser” que se dá apenas pelo questionamento das representações e
historicidades destas.
A palavra historicidade caracteriza “leis”, no trecho em que a ocorrência aparece, e
segue a sua concordância no plural, a nos dizer da característica de existirem diversas
historicidades. A perspectiva de Castoriadis na qual se insere a ocorrência da palavra
historicidade é trazida para ratificar a perspectiva de construção de sujeito da abordagem
adotada no texto. Podemos dizer então que, apesar de ser citada num contexto de referência à
outra teoria em que a palavra historicidade possui sentido específico, ela tem um lugar
argumentativo na fundamentação da perspectiva da autora que a cita.
9 - YAMAMOTO, O. H. A psicologia em movimento: entre o 'Gattopardismo' e o
neoliberalismo. Psicologia & Sociedade; 12 (112): 221-233; jan./dez.2000
Já o trabalho de Yamamoto (2000) se propõe a fazer reflexões acerca da profissão do
psicólogo, desde sua regulamentação até mudanças e conformações no perfil profissional de
60
atuação. As análises neste artigo, acerca do panorama discutido pelo autor, são realizadas a
partir do conceito de autonomia. A partir deste, o autor critica a situação atual da profissão ao
identificar a atuação clínica como uma tendência no exercício profissional, em vista da
quantidade significativamente maior de atuantes nesta área em detrimento de outras.
No diagnóstico da profissão construído neste trabalho está também as mudanças
eminentes de como se comporta no mercado a profissão de psicólogo, como por exemplo, o
aumento da atuação em políticas públicas e o trabalho assalariado, ainda que a atuação como
profissional liberal seja muito grande. (YAMAMOTO, 2000, p. 226). Essas considerações
foram feitas a partir de dados estatísticos do recadastramento de profissionais do Conselho
Regional de Psicologia da 6ª região (São Paulo, Mato grosso e Mato Grosso do Sul) e de um
mapeamento realizado com todos os profissionais no/do Rio Grande do Norte.
O autor argumenta o esforço do Conselho Federal de Psicologia em construir
alternativas teórico-metodológicas em relação ao que denomina de tendência da profissão que
segue uma linha privatista, clinica e individualizante, no entanto cita Bock para acrescentar
que:
[...] a opção destas em privilegiar a inserção do psicólogo nas redes públicas
de saúde e de educação, deixa "grande parte da categoria de fora de suas
lutas e reivindicações", que mantém "concepções abstratas (de homem),
carregadas da noção de natureza humana", repondo a autodeterminação
positivista, e sustentando uma prática profissional eminentemente técnica,
sem finalidades sociais ou políticas. (Id., p. 225)
O autor fala de um lugar estritamente técnico de atuação do psicólogo e enfatiza
mudanças na direção de finalidades sociais e políticas. Sua argumentação segue na direção
desta crítica que diz sobre mudanças em aspectos da atuação profissional do psicólogo apenas
secundárias, o que o autor vai trabalhar ao trazer o conceito de “gattopardismo‟ para definir
este fenômeno:
Trata-se de uma referência ao livro "Il Gattopardo", de Giuseppe Tomasi di
Lampedusa. Abordando a decadência da aristocracia e a emergência da
burguesia, em meio ao processo de unificação italiana, uma das lições
políticas que o príncipe Don Fabrizio da Sicília repete é que algo deve
mudar, se não se quer mudar nada. O gattopardismo foi aqui, então,
empregado para expressar a hipótese de que a psicologia muda em aspectos
secundários, mantendo intacto o núcleo central. (Ibid., p. 227).
O neoliberalismo também é citado como elemento a ser considerado na análise do
autor acerca da profissão que, ao determinar a agenda das políticas públicas também consta no
jogo de determinações do fazer do psicólogo que vem se inserindo neste campo. O autor
61
afirma que as características neoliberais de estabelecimento do mercado como instância
mediadora fundamental e a idéia do estado minimalista reduzem a assistência no setor social.
Dessa forma, a ideologia neoliberal e o gattopardismo são elementos a serem
combatidos na linha argumentativa crítica do artigo em questão. Como solução à crítica
apresentada o autor traz o conceito de autonomia que é definido como:
A autonomia de uma profissão pode ser discutida segundo duas perspectivas:
uma técnica, associada ao controle do conteúdo ou conhecimento, enfim, da
base técnica, e a sócio-econômica e/ou política, ou seja, a capacidade
organizativa da profissão e a sua relação com o Estado. É importante
ressaltar que autonomia, no sentido aqui empregado, significando
"capacidade de avaliar e controlar o desenvolvimento do trabalho" constituise em uma categoria necessariamente dinâmica, dependente da correlação
das forças em jogo historicamente postas. (Ibid., p. 220)
A solução é apontada da seguinte forma:
Para superar o "gattopardismo" é fundamental que a psicologia
amplie sua base técnica para dar suporte às novas modalidades de
ação; para aumentar as probabilidades de estabelecimento enquanto
uma profissão socialmente significativa no campo do bem estar, é
necessário transpor os limites da ação profissional e da ética do
indivíduo para a ação política e coletiva, na direção apontada pelas
entidades representativas da categoria, no combate à ideologia e à
agenda neoliberais. (Ibid., p. 230).
Neste sentido, o conceito de autonomia é considerado como elemento resolutivo na
análise escolhida aos problemas encontrados na atuação da profissão de psicólogo do artigo
em questão. Tanto no que se refere a sua base técnica, ou seja, seu escopo teóricometodólogico de atuação e o que lhe diz respeito enquanto especificidade de exercício, quanto
no sentido de capacidade organizativa de se constituir como profissão capaz de articular em
interesse próprio e coletivo em relação ao Estado. Ambos os aspectos enfatizados pelo autor –
base técnica e capacidade organizativa - estão presentes no conceito de autonomia adotado.
Esse contexto, em que o autor traz como solução e perspectiva de análise o conceito de
autonomia, nos é pertinente porque é, ao falar da escolha desta opção de análise do fenômeno,
que aparece a ocorrência da palavra “historicidade” no seu texto.
Apesar de ser a única ocorrência, a historicidade aparece como elemento importante a
constituir a análise escolhida, vejamos:
É Freidson que, evitando as tipologias e caminhando na direção de uma
abordagem que leve em conta a historicidade do processo de
profissionalização, propõe a centralidade da categoria de autonomia.
Autonomia é aqui entendida como a capacidade de uma ocupação, pelo seu
62
lugar na divisão social do trabalho, adquirir o controle sobre a determinação
da essência do próprio trabalho. (Ibid., p. 222)
Associada com o conceito de autonomia que ocupa lugar central na perspectiva da
análise do autor, a historicidade é tida como elemento primordial nesta escolha, apesar de não
definida diretamente, bem como não associada a um sistema teórico específico.
O autor cita Freidson como abordagem interessante para análise do processo de
profissionalização com o conceito de autonomia, faz também, ao citar esta como abordagem
interessante, uma comparação indireta com – podemos supor – abordagens que ele denomina
como tipologias, estas, por sua vez ele argumenta que sejam evitadas embora não o faça em
tom imperativo.
A comparação que o autor faz é usada como elemento argumentativo de justificativa
da escolha da abordagem usada em seu texto e é construída da seguinte forma: 1) uma
abordagem que evite topologias e 2) uma abordagem que leve em consideração a
historicidade. Logo, a escolha se dá pelo conceito de autonomia de Freidson. Fica claro,
portanto, que a historicidade se apresenta como elemento primordial de análise em sua
escolha interpretativa.
10 - GIACÓIA JR., O. Esquecimento, memória e repetição. Psicologia & Sociedade; 13 (2):
58-91; jul./dez.2001
Este trabalho se ocupa de comparar aspectos da teoria nietszcheniana acerca da
genealogia da moral com a metapsicologia freudiana. Para isso, faz pontuações acerca do
lugar outorgado à consciência, um lugar de certeza indelével e unidade clara que ambas as
teorias desconstroem a partir de uma discussão, segundo o artigo, acerca da consciência
moral, de forma que:
Isso significa que tanto Freud quanto Nietzsche podem ser considerados
como pensadores que implodem a noção substancial de subjetividade,
identificada com a unidade da consciência: esta, elemento nuclear da
metafísica da subjetividade, aparece então como uma ilusão superficial do
sistema psíquico, inteiramente impregnada de historicidade, atravessada e
comandada pela economia e dinâmica inconsciente das pulsões. (GIACÓIA,
2001, p. 59)
A citação acima é o contexto em que o artigo apresenta a única ocorrência da edição
de 2001 do descritor historicidade. Aqui, historicidade não é definida claramente, aparece
como referência à subjetividade, identificada com a consciência, esta que é criticada por
ambas as teorias em discussão no artigo. A consciência aqui é caracterizada como uma “ilusão
63
superficial do sistema psíquico”, onde é acrescentada ainda a caracterização de “impregnada
de historicidade”.
Num contexto de crítica à consciência como aspecto definidor do eu, a caracterização
desta relacionada à historicidade pode ser compreendida como quesito que suscita crítica a
esta última também na medida em que é dita como elemento daquilo que é adjetivado como
ilusório. Podemos caracterizar, portanto, o contexto da ocorrência do descritor “historicidade”
como um contexto de crítica, ainda que indireta quando se trata deste elemento em específico.
No artigo em questão aqui, se não se critica diretamente, também não se ressalta a
“historicidade” como elemento importante e constituinte a priori na análise dos processos
psicossociais e/ou psicológicos, bem como quaisquer outros processos.
Cabe, no entanto, questionar que perspectiva de historicidade que se fala ali, visto que
não é definida claramente, tampouco vinculada a algum sistema teórico específico, apesar da
clara referência a uma relação com o conceito de consciência.
De forma geral, a historicidade é trazida como argumento, mas não em favor de um
objeto ou abordagem que, por necessidade via de regra, deve levar em consideração este
aspecto ao ser escolhido. Esse contexto difere de outras ocorrências, neste sentido. A
historicidade aqui ainda é tida como necessária ao argumento, mesmo que não definida
diretamente, mas não mais para enfatizar certo aspecto positivo característico de uma
epistemologia adotada no artigo, mas para trazer ao aspecto criticado um elemento que o
constitui. A historicidade ocupa, portanto, um lugar argumentativo negativo, neste trabalho.
11 - FOULKES, Benjamín Mayer. El origen de la historiografía: historicidad, escritura
y plus-de-goce. Psicologia & Sociedade, v. 21, 2010
Consideramos nas análises desta pesquisa de mestrado este trabalho, mesmo publicado
em outra língua, em vista de se relacionar diretamente aos objetivos desta pesquisa e caber no
critério escolhido para entrar na análise: ser pescado pela ocorrência do descritor
“historicidade”. O descritor não aparece na sua forma plena em vista de aparecer em outra
língua cuja versão é: “historicidad”. Como analisamos os sentidos diferentes em que a
palavra-conceito, expressa no descritor, aparece nas publicações, o radical da palavra, como
aparece no caso deste trabalho em análise, condiz com o significado escolhido como
parâmetro. Logo, consideraremos as ocorrências da palavra “historicidad”.
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Este é, não só o trabalho com mais ocorrências da palavra historicidade já publicado
na revista Psicologia & Sociedade, como o é de forma demasiada: há 57 ocorrências
distribuídas em 8 laudas enquanto todos os outros trabalhos analisados têm um ou duas
ocorrências em geral. O trabalho, diferente do que como pudemos observar em outros
(ANTUNES, 1989; VIOLANTE, 1991; LOPES, 1998; NOVO, 1998; SAWAIA, 1998), não
parte de uma discussão própria da psicologia para fazer uma interlocução direta com o
elemento historicidade (diretamente ou não). Este teve por objetivo definir historicidade,
discorrer como este elemento pode ser abordado pela historiografia e como se relaciona com a
história. Com este objetivo, o autor faz uma relação da historicidade com conceitos da
psicanálise lacaniana (mais-de-gozar) e a desconstrução de Derrida (escritura). Isto para situar
o lugar da historicidade como condição inerente a qualquer objeto, pois na medida em que é,
não se encontra presente a si mesmo imediatamente, de forma a possibilitar o movimento
histórico, assim se tornando efeito da historicidade.
Expressa na característica de partir de um debate da historiografia para relacionar com
a teoria lacaniana - que fundamenta uma perspectiva de abordagem psicológica - e a teoria
desconstrutiva de Derrida, a historicidade aqui é tomada, em primeiro plano não como
argumento, mas como objeto.
A primeira ocorrência aparece na seguinte pergunta: “Cómo situar cada uma respecto
a la historicidad, entendida como su común condición de posibilidad?” (FOULKES, 2001, p.
43). Nesta indagação, o autor se refere à historicidade como condição de possibilidade da
história e da historiografia ambas citadas anteriormente; no contexto em que a indagação se
situa o autor apresenta a que este artigo se propõe:
¿Cómo pensar la diferencia entre la historia y la historiografía? ¿Cómo
arribar a su distinción y en qué términos articularla? ¿Cuál es el objeto de
estudio de la historiografía? ¿Cómo ubicar recíprocamente la historia y la
historiografía? ¿Cuál vendría lógica, e históricamente antes que la otra?
¿Cómo situar cada una respecto a la historicidad, entendida como su común
condición de posibilidad? ¿Qué directrices desprender de nuestra tentativa de
respuesta a estas interrogantes para las labores del historiógrafo y del
historiador? ¿Cómo dar cuenta de la relación entre las labores del
historiógrafo, el desconstructor y el psicoanalista? (FOULKES, 2001, p. 43,
grifo meu).
Estas questões, como cita o autor, vão direcionar a sua linha argumentativa neste
artigo e já nos dá algumas pistas da perspectiva de historicidade que é adotada e que sistemas
teóricos são relacionadas para o seu propósito argumentativo de comparação do trabalho do
historiógrafo, do desconstrutor e do psicanalista.
65
O autor situa então a primeira das questões a que se propõe e diferencia história e
historiografia de forma que esta última: “(...) lejos de venir después de la historia, la
historiografía tiene lugar a la vez que ésta, si no es que estrictamente antes, como su
condición de posibilidad”. A historiografia, tida como condição de possibilidade da história,
se ocupa, por sua vez, da historicidade. E é no contexto de definição desta mesma que
aparecem mais nove ocorrências da palavra. Historicidade é definida neste artigo,
primordialmente, como um paradoxo: “el movimiento que posibilita e imposibilita toda
historia”.
É a partir deste paradoxo que se segue a definição de historicidade: a partir da
impossibilidade do presente coincidir plenamente consigo mesmo. Esta coincidência se
configuraria pela a-historicidade propriamente dita. Desta forma, a historicidade, segundo o
autor, possibilita a história. No entanto, pelo mesmo motivo, nenhuma história pode saturar a
historicidade o que impossibilita a história de se positivar. Vejamos:
El movimiento de la historicidad es un efecto de la imposibilidad misma del
presente y la presencia: se trata de un deslizamiento radicalmente irregular
consecuencia del hecho de que ningún presente puede jamás coincidir
plenamente consigo, estar plenamente presente a sí. Si todo presente es, de
antemano, devenir de, y hacia otros presentes, la coincidencia consigo de la
presencia y los presentes no es sino lo ahistórico mismo. Paradójicamente
entonces, si bien la historicidad es aquello que posibilita toda historia (la
articulación anhelante de la aprehensión de un presente, así se trate de un
presente pasado o de un presente futuro), ninguna historia es capaz de saturar
la historicidad. La historia es un efecto del redoblamiento sobre sí misma de
la historicidad; la historia es la estela producida por la historicidad al
permanecer sujeta su propia acción: la historia es la historicidad de la
historicidad; la no coincidencia de la presencia y los presentes tampoco
coincide consigo (no es una). La historia obligadamente surge ahí, en el
elemento de la historicidad, donde de entrada es imposible. (Id., p. 44, grifo
meu)
O autor ressalta o caráter paradoxal da definição da relação entre historicidade e
história e continua “Por consiguiente, todo intento de una historia estricta del origen (es decir,
de la historicidad como origen de la historia), es vano: la historia no puede acceder a su
propio origen.” (Ibid., grifo meu).
A historicidade é definida, neste trecho, em negação ao entendimento desta ocupar o
lugar de origem da história em virtude da impossibilidade de se empreender uma história da
história, nesta perspectiva. O autor retira da história o caráter reto, linear e positivo em vista
de que nem uma história última das histórias, nem tampouco histórias de história – o que ele
afirma ser o que tem sido classicamente definido como o trabalho do historiógrafo - são
possíveis.
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As duas próximas ocorrências de historicidade aparecem então justamente na
definição acerca de que objeto, portanto, se ocupa a historiografia e o historiógrafo:
[...] el objeto de estudio de la historiografía es el hiato permanente entre la
historicidad y las historias siempre diversas, singulares y transitorias que
intentan articular, capturar, neutralizar, resistir o amaestrar la historicidad.
La necesaria parcialidad de toda historia (su incompletitud, a la vez que su
naturaleza interesada) es, de este modo, la propia orientación crítica de la
historiografía, aquello que le concede su especificidad y con base en lo cual
se sostiene en su peculiar promesa de una historia siempre por venir.
Consecuentemente, la labor del historiógrafo es sin fin: la historia es sin
fin… y también lo es su fracaso. Asimismo, la labor del historiógrafo se
vuelve particularmente urgente ahí donde alguna historia cree haber logrado
saturar la historicidad de la que ha pretendido hacerse cargo. (Ibid., grifo
meu).
A historicidade, definida como comum condição de possibilidade da história e da
historiografia, produz sempre a necessidade da história, ao passo que também jamais pode ser
saturada. Podemos dizer, portanto, que a historicidade produz uma falta em vista da qual se
produz a história que, pela condição de ser produzida pela primeira e ao mesmo tempo tê-la
como fim, jamais consegue esgotá-la.
Neste sentido, o autor compara o lugar que a historicidade ocupa na intervenção
historiográfica à différance constitutiva da escritura para Derrida, e ao mais-de-gozar do
discurso do analista lacaniano. Para estabelecer a homologia entre os três conceitos dos três
sistemas teóricos diferentes, o autor define que, bem como o mais-de-gozar e a escritura, “la
historicidad es conflicto, en primer lugar, consigo misma” (Ibid.) Podemos afirmar a
historicidade, nesta perspectiva, como lugar caracteristicamente de paradoxo e conflito.
Ainda com o intuito de falar sobre a relação historicidade, historiografia e história, o
autor traz um exemplo: cita considerações feitas para com o quadro “A origem do mundo”,
pintado por Gustave Coubert e traça paralelos entre as diversas narrativas feita do quadro de
forma a considerá-lo uma intervenção histórica e historiográfica (Ibid.). Bem ali, onde aparece
mais uma ocorrência da palavra historicidade, que também está incluída nos termos desta
argumentação em consonância com uma análise do quadro, o autor coloca:
El título del presente ensayo hace eco del nombre de la obra de Courbet.
Ello con el fin de destacar que, a partir de dicha pintura, de lo que aquí se
trata es de intentar una aproximación a la fuente, al linaje, al surgimiento, al
proceder, en suma, al paradójico aparecer o hacerse visible de la
historiografía. Asimismo, dicho título pretende aludir al extraño origen (la
historicidad) al que atiende la historiografía, origen que estrictamente no
puede concebirse más que como un no-origen. (Ibid., grifo meu)
67
O autor estabelece neste trecho, ao falar do quadro que propõe como exemplo no fluxo
argumentativo, a historicidade como origem e não-origem da historiografia e da história,
ressaltando mais uma vez seu caráter paradoxo que ele procura esclarecer no texto:
¿En qué sentido es, entonces El origen del mundo asimismo una
intervención en el plano historiográfico? El hecho mismo de la
multiplicación de los discursos de historia acerca de este cuadro tiene el
efecto de suspenderlos en conjunto y de consignar su insuficiencia última:
cualquier perspectiva histórica acerca de El origen del mundo se enfrenta a
toda suerte de consideraciones que anteceden y complican sin remedio su
apropiación histórica definitiva. (Ibid., p.46).
O autor ressalta a impossibilidade da história ser positivada em vista da
inesgotabilidade da historicidade porque “la sombra de la historicidad que pone en marcha
toda historia (del que el propio cuadro es a su vez efecto) reside aún en ella, y ningún
historiador, cualquiera que sea su credo, será capaz de lograr su evicción.” (Ibid., grifo meu).
O autor esclarece, ao falar do quadro, a relação entre historicidade, historiografia e
história. Suas considerações são feitas de forma que, ao fim, a comparação empreendida pelo
autor através das ponderações acerca do quadro “A origem do mundo” é estendida deste a
qualquer objeto, de forma que, todo aquele que se diga histórico será efeito da historicidade.
(Ibid., 49).
Podemos observar que, bem como em outros trabalhos (ALMEIDA, 1986; TEJERA,
1989; ANTUNES, 1989; VIOLANTE, 1991; YAMAMOTO, 2000), a historicidade é
argumentada de forma a ser apresentada como elemento básico característico do fenômeno,
pois, qualquer que seja este, tem o dom de não estar presente a si mesmo e, portanto, ser
histórico, estar sob efeito da historicidade.
Diferente dos outros artigos analisados neste trabalho, a historicidade aqui é trabalhada
de forma direta e definida à luz de sua relação e lugar na/da história como conhecimento
específico, ainda que para falar de seu funcionamento sejam feitas homologias com a escritura
de Derrida e o mais-de-gozar da psicanálise lacaniana.
De forma geral, a historicidade é trabalhada neste artigo de forma a enfatizar um lugar
de paradoxo que produz sempre narrativas diferentes em vista da impossibilidade de
esgotamento da origem do discurso historiográfico: a historicidade.
Ainda que, em primeiro plano, seja tomada como objeto, há um lugar argumentativo
da historicidade, que aqui pode ser considerada a partir da definição do objeto da
historiografia: o hiato permanente entre a historicidade e a história que produz, nas palavras
68
do autor: “[...] historias siempre diversas, singulares y transitorias que intentan articular,
capturar, neutralizar, resistir o amaestrar la historicidad (Ibid., p. 44, grifo meu)
O lugar de efemeridade de toda história na tentativa de positivar o elemento paradoxo
de origem – a historicidade - é estendido a qualquer referente que se queira objetivar,
positivar, tornar definitivo. A historicidade é trazida como elemento argumentativo paradoxal
para enfatizar a multiplicidade necessária que subjaz em sua definição – característica
também da diferànce e do mais-de-gozar trazidos em homologia na discussão - de todo e
qualquer discurso.
Desta multiplicidade se pode dizer que se relaciona com o debate da “crise da
psicologia social” que traz a historicidade como argumento para se contrapor a perspectivas
de positivação do fazer científico, papel que cumpre neste artigo em análise aqui também.
Mesmo trazida num caminho inverso: da historicidade como objeto - numa discussão
empreendida na/da historiografia - para a historicidade como argumento.
12 - ZANIANI, Ednéia José Martins; BOARINI, Maria Lúcia. Infância e vulnerabilidade:
repensando a proteção social. Psicologia & Sociedade, v. 23, n. 2, p. 272-281, 2011
Este artigo fala da discussão acerca de como a criança e a infância passam a ser
preocupação dos esforços do Estado como proteção social. Para isso, recorre à história de
como, a partir de uma perspectiva que compreende a criança num estado de vulnerabilidade
social, cria instituições e dispositivos para atendê-las.
O artigo faz esta discussão através da apresentação dos argumentos empreendidos por
Arthur Morcovo Filho, representante da perspectiva higienista que argumentava em favor de
assistência às crianças desfavorecidas para, erradicar uma série de doenças e mazelas
decorrentes dos problemas sociais vigentes no começo do séculos XX no Brasil, como a
impossibilidade das cidades comportarem com garantias de condições básicas de
sobrevivência a grande quantidade de pessoas que se amontoavam nos centros urbanos
modificados a partir do processo de urbanização e industrialização.
O argumento higienista se direcionava às condições de saúde e higiene precárias, que
produziam o crescimento de várias doenças, mas acreditavam também na limpeza moralmente
construída de mentalidades também. As crianças ocupavam, neste argumento, o lugar
primordial e óbvio de intervenção higiênica de saúde e moral.
69
A autora traz todo um debate acerca de como as crianças e o discurso de proteção, em
vistas de sua condição de vulnerabilidade social, criam condições de possibilidade para
instituições e políticas diversas intervirem num problema que, ela argumenta fazer parte das
contradições do sistema social vigente.
O argumento é trazido no decorrer do tempo (desde o período republicano) para falar
do sistema de assistência social atual que resguarda, segunda a autora, contradições perenes
de forma a sintetizar:
Como vimos, a defesa da proteção social como resposta aos problemas que
perpassam crianças e adolescentes das camadas empobrecidas da população
não é própria deste momento e difuso foi o caminho que precedeu a
compreensão da assistência como atributo político. Como pontuam
Iamamoto e Carvalho (1990), na verdade, a assistência social foi se
configurando ao longo do tempo como um recurso do Estado para enfrentar
demandas que perpassam a questão social, compreendida como um conjunto
de problemas políticos, econômicos e sociais decorrentes da generalização
do trabalho livre na sociedade capitalista. Assim, concluímos que as
condições materiais de vida que, já nos primórdios do século XX, produziam
epidemias, pobreza, desemprego e analfabetismo, seguem a produzir a
necessidade de proteger socialmente a infância, implementando a ela
cuidados. (ZANIANI, 2011, p. 279)
A autora faz um histórico de como se deu a problemática da assistência à crianças em
vulnerabilidade a partir do argumento higienista, através do autor Arthur Morcovo Filho, para
avaliar e criticar a política de assistência hoje. Mas a palavra historicidade não aparece no
texto corrido em momento algum.
Há duas ocorrências do descritor neste trabalho, uma no resumo e outra como palavrachave. Vejamos:
Datam do início do século XX preocupações com o destino da infância
pobre e, na sequência, a necessidade de elaboração de políticas públicas para
atendê-la. Num período que antecede a inserção formal do Estado na
formulação dessas políticas, tomamos como exemplo a atuação do médico
Arthur Moncorvo Filho (1871-1944), que fomentou, nas primeiras quatro
décadas do século passado, um grande projeto de atendimento médico e
assistencial às crianças nominadas “material e moralmente abandonadas”. A
proteção social à infância era apresentada como baluarte de inserção do
Brasil no rol das nações modernas a despeito das contradições sociais que se
acirravam. Voltando os olhos para o passado e resgatando a historicidade
das políticas de atendimento, confirmamos a remota existência de uma
infância desprotegida. Pretendemos com este resgate refletir sobre como tem
sido recorrente a defesa da proteção social, cujos desdobramentos nas
políticas atuais têm outorgado à psicologia um lugar de destaque. (Id., p.
272, grifo meu)
Este é o resumo do artigo em análise, onde a única ocorrência da palavra historicidade
aparece em texto. É peculiar como uma palavra aparece no resumo e como palavra-chave de
70
um artigo e não volta a aparecer no decorrer de 10 laudas. A historicidade aqui aparece como
argumento a ser resgatado, pela abordagem escolhida, para falar das políticas de atendimento
à infância desprotegida.
Podemos observar como o argumento empreendido pela autora se dá através de um
histórico de momentos passados sobre como essa assistência fora concebida. A historicidade
se constitui, portanto neste histórico mesmo, em outras palavras, a historicidade é essa
referência temporal resgatada para argumentar em crítica a um presente que resguarda
características de outrora. A historicidade é trazida em favor de uma desnaturalização de
como a infância é objeto de intervenção hoje:
É fato que os problemas que afligem a infância no Brasil ou em qualquer
parte do mundo possuem novas matizes porque os tempos são outros.
Todavia, ao retornarmos ao passado, surpreendemo-nos com a recorrência de
discursos e apelos que parecem não cair no desuso dada a naturalidade com
que o tema da infância é habitualmente tratado. (Ibid., p. 274)
A historicidade é trazida como argumento a contar na escolha da abordagem utilizada
em favor de uma crítica à abordagem natural comumente utilizada para com o tema tratado no
artigo.
13 - KAHHALE, Edna Maria Peters; ESPER, Elisa Maria Barbosa. Novas possibilidades
metodológicas: a quebra dos paradigmas qualitativo e quantitativo em Psicologia. Psicologia
& Sociedade, v. 26, n. spe 2, 2014.
Este artigo é o último pescado pela verificação da presença de ocorrências do descritor
historicidade feita no intervalo temporal desta pesquisa de mestrado. Bem como o anterior,
possui duas ocorrências da palavra.
Este artigo se propõe a, através da metodologia empregada num trabalho de saúde
denominado “climatério na contemporaneidade”, discutir e apresentar parâmetros para uma
síntese de métodos quantitativos e qualitativos. São apresentadas as ferramentas
metodológicas utilizadas pelo projeto de saúde para fazer uma discussão que, segundo as
autoras, supere as dicotomias expressas em objetividade e subjetividade, bem como
qualitativo e quantitativo. O projeto realizado tem os seguinte objetivos:
[...] verificar se as mulheres no climatério são afetadas pelos fatores
contemporâneos (narcisismo, efemeridade e transitoriedade). Isso significou
apreender os significados e sentidos atribuídos pelas mulheres à sua vivência
climatérica.(KAHALE. 2014, p. 72)
71
Para apreender os significados e os sentidos a que se propõe o projeto as metodologias
utilizadas são: entrevistas abertas semidirigidas, narrativas de vida, escalas de medidas
padronizadas, dados sócio demográficos, análise de conteúdo, tabulação das escalas
utilizadas, aglutinação de todos os dados qualitativos quantitativos por meio de análise
estatística, identificação de clusters e retomada de análise dos discursos agrupando e
nomeando agrupamentos segundo os objetivos da pesquisa. (Id., p. 71).
Não nos deteremos em analisar a extensa lista de ferramentas metodológicas que as
autoras descrevem para chegar no que chamam de “categorias analíticas” em vista de fugir
aos objetivos desta pesquisa de mestrado. O que nos é interessante é que as duas ocorrências
do descritor historicidade, presentes neste artigo em análise, dizem respeito à nomeação de
uma destas categorias analíticas.
A primeira ocorrência está no resumo do artigo e faz referência à categoria analítica a
que chegaram as autoras no processo de interpretação delas. Historicidade é o nome de uma
categoria analítica:
O presente relato propõe uma metodologia materialista dialética de análise
de dados que rompe com os paradigmas qualitativos e quantitativos, numa
perspectiva transdisciplinar e complexa, tomando como categorias analíticas
historicidade, identidade, narcisismo, efemeridade e transitoriedade. Relatase o caso “O Climatério na Contemporaneidade”, que utilizou discursos e
escalas padronizadas. Nos resultados, construiu-se uma articulação entre os
vários tipos de dados, a partir de uma análise estatística fatorial e de cluster
para revelar tanto as semelhanças, quanto as diferenças entre as mulheres
pesquisadas, além da formação de grupos qualitativos, de forma não
arbitrária ou tendenciosa, baseada nas impressões dos pesquisadores.
Demonstra-se criatividade metodológica que contempla a complexidade do
objeto, ao construir um caminho metodológico original, baseado no
pensamento dialético, que abarca tanto a diversidade quanto a totalidade do
fenômeno, demonstrando que qualidade e quantidade, objetividade e
subjetividade são duas faces de uma mesma moeda. (Id., p.70, grifo meu)
Se historicidade é a palavra escolhida para nomear uma das categorias analíticas a que
chegaram as autoras a partir de sua interpretação, levando em consideração os objetivos a que
se destinou o projeto em verificar como aspectos chamados contemporâneos afetam a
vivência climatéria de mulheres, podemos dizer que a historicidade é trazida como argumento
a caracterizar o objeto deste artigo.
A segunda ocorrência aparece no contexto de descrição e definição da categoria
analítica chamada de historicidade:
É no desenvolvimento do capitalismo que as condições sócio históricas estão
postas, para se questionar a noção de história como passagem do tempo da
natureza e do sujeito natural. A questão da história passa a ser uma categoria
analítica: historicidade. Ou seja, os atos e acontecimentos sociais e pessoais
72
são produtos da ação dos homens entre si no mundo; são simbolizados e
possuem intenções e significados construídos no processo de existência.
Nesse processo, constitui-se como identidade e finalidade de si mesmo. (Id.,
p.72, grifo meu)
A palavra historicidade é trazida ao argumento como síntese conceitual a descrever e
nomear uma categoria analítica que diz respeito à “questão da história”, onde visto que “as
condições sócio históricas estão postas”, faz-se necessário nomear uma categoria em que se
possa “questionar a noção de história como passagem do tempo da natureza e do sujeito
natural” (Ibid.).
A questão da história, como definem as autoras, é trazida para dar conta do fato de que
“os atos e os acontecimentos sociais e pessoais são produtos da ação dos homens entre si no
mundo”, desta forma a nomeação da categoria por historicidade é feita via argumentação de
uma passagem do tempo que não é natural e sim permeada de intenção e significado
produzidos pelos homens. A historicidade aqui é trazida ao argumento para dar um caráter
não-natural à passagem do tempo.
Tendo em vista os 13 trabalhos analisados com diferentes perspectivas teóricas de base
e discutindo temas igualmente diversos, o que os une é tomar, em alguma medida a
historicidade como argumento ao longo de publicações que datam desde 1986, até 2014.
Descritos os contextos em que cada ocorrência da palavra-conceito aqui em questão
aparece através da ocorrência do descritor, faz-se necessário avaliar acerca das possibilidades
e limitações em que o uso da historicidade como argumento foi trazido, no contexto das
publicações da revista Psicologia & Sociedade. Expostas as condições em que a historicidade
é trazida como argumento, ocupando lugar funcional; precisamos agora dizer sobre a
argumentatividade que teve ou não a historicidade, o poder que trouxe consigo ao se prestar a
determinado fim.
73
6. O ARGUMENTO DA HISTORICIDADE: CONSIDERAÇÕES FINAIS
Depois de passarmos por cada contexto significativo e expor os sentidos em que a
historicidade foi expressa desde 1986, quando da primeira ocorrência da palavra já no
segundo número de edição, ainda no ano da fundação da Psicologia & Sociedade como
periódico da Associação Brasileira de Psicologia Social, até o ano de 2014 – ano da última
ocorrência analisada - podemos perguntar finalmente: o que a relação historicidade e
psicologia produziu através destas páginas?
A „crise” da psicologia social demandou o recurso a definição do fenômeno
psicológico como primordialmente histórico-social e político, antes de qualquer tentativa de
positivação deste fenômeno frente a uma realidade de contradições sociais que constituíram a
sociedade brasileira. Em vista de considerarmos que o debate empreendido na década de 60
se perpetua em suas bases até os dias atuais na psicologia social enquanto sua diversidade
epistemológica, perguntamos: ainda demandamos deste recurso à historicidade como
argumento? E cabe a nós delinear perspectivas de resposta a essas questões neste capítulo,
mas para isso é necessário falar sobre cada unidade de sentido para caracterizar de forma
ampla o fenômeno em suas rupturas e permanências.
Podemos afirmar que através dos sentidos identificados em diversos trabalhos
(ALMEIDA; MUCCILO; MELO, 1986; TEJERA, 1989; ANTUNES; 1989; VIOLANTE;
1991; NOVO, 1998; SAWAIA, 1998; GUARESCHI, 2000; YAMAMOTO, 2000) a
historicidade foi trazida ao argumento como categoria a ser considerada nas escolhas das
abordagens utilizadas nos trabalhos e na caracterização positiva do fenômeno a ser abordado,
como categoria sobre a qual o debate haveria de passar em razão de sua importância e, quiçá,
sua considerada fundamentalidade.
Mas trabalhos como (GIACÓIA, 2001) se não critica diretamente a historicidade como
conceito ou perspectiva, também não a trata como elemento a priori a ser considerado na
abordagem a ser escolhida. Vale notar que mesmo em trabalhos com filiações teóricas
semelhantes o sentido argumentativo em a historicidade aparece difere como em (GIACÓIA,
2001; VIOLANTE; 1991), em virtude da ênfase diferente que se pretendia discutir em cada
trabalho.
Em sua maioria (ALMEIDA; MUCCILO; MELO, 1986; TEJERA, 1989; ANTUNES;
1989; VIOLANTE; 1991; LOPES, 1998; SAWAIA, 1998; GUARESCHI, 2000;
YAMAMOTO, 2000; GIACÓIA, 2001; ZANIANI, 2011; KAHHALE, 2014) a historicidade
74
não é definida como conceito de forma direta, ou seja, o trabalho em análise não contém de
forma manifesta que conceito de historicidade é adotado, mas em alguns casos (VIOLANTE;
1991; NOVO, 1998) a referência ao sistema teórico marxista foi feita de forma clara. E em
outros casos, há referência à psicologia social crítica (ANTUNES; 1989; NOVO, 1998;
SAWAIA, 1998).
Quando não definida, a historicidade nos leva a pensar que seu significado está
previamente acordado pelos usos que resguardam a estabilidade que um conceito apresenta
em sua generalização. Embora, os significados logo desestabilizem para serem ligados a
outros referentes expressos nos sentidos, a ausência de definição nos trabalhos analisados nos
indicou um significado (generalização) subjacente àquelas ocorrências.
Poucos indícios nos foram apresentados nos textos para identificarmos este possível
significado, mas podemos vislumbrar uma resposta, em vista da especificidade do contexto
em que a revista foi fundada. Tendo em vista que, dentre as respostas diversas que se deram à
crise, no Brasil, a psicologia com inspiração vigotskiana e marxista foi tomada de maneira
hegemônica, expressa no trabalho da pesquisadora Silvia Lane. Avaliamos que se fala da
perspectiva de historicidade ligada a estes sistemas teóricos quando não a palavra não está
definida diretamente. Perspectivas em que a historicidade é marcada pelo materialismo
histórico e pelo materialismo dialético que, na psicologia, estão marcadas na chamada
psicologia social crítica.
Pino (1995) define que perspectivas de história são importantes para se falar da
perspectiva vigotskiana que se inspira na historicidade marxista (materialismo dialético e
materialismo histórico). Historicidade é entendida, nesta perspectiva, como abordagem
dialética geral das coisas, o que compreende os fenômenos como processos movidos pela
contradição de uma relação entre contrários que qualquer generalização resguarda no decorrer
do tempo, mas que subjaz uma idéia de continuidade, de processo; e historicidade entendida
como a história humana, ligada ao materialismo histórico e à idéia de produção material da
vida humana. Podemos encontrar resquícios destas referências, ainda que de forma tímida, em
alguns trabalhos (ALMEIDA; MUCCILO; MELO, 1986; ANTUNES; 1989; GUARESCHI,
2000; KAHHALE, 2014) que não definem historicidade diretamente.
Há ainda, alguns trabalhos que tomam a historicidade como síntese em que a
ocorrência da palavra ocorre apenas no resumo e na nomeação de categorias (ZANIANI,
2011; KAHHALE, 2014), ou como expressa em títulos de subtópicos (ANTUNES; 1989;
75
SAWAIA, 1998). De forma a se constituírem como generalizações sintéticas de fenômenos
não-definidos claramente.
Podemos avaliar que a ocorrência da palavra historicidade está muito ligada, nas
publicações da revista Psicologia & Sociedade, às perspectivas do materialismo histórico e
dialético e à psicologia social crítica. No entanto há trabalhos que não fazem referência a estas
perspectivas como em (FOULKES, 2001) que faz referência à psicanálise lacaniana e à
desconstrução de Derrida cuja função argumentativa de perspectiva de historicidade não se
ligam à idéia de continuidade, mas de paradoxo.
A relação entre os debates temáticos da psicologia, em geral, e da psicologia social,
presentes nas publicações da revista e a historicidade como argumento, cumpre um papel
importante em crítica a uma perspectiva determinada de produção científica, no entanto, como
esta relação tem sido estabelecida? Uma perspectiva de historicidade acabou por ocupar um
lugar histórico de generalização e, podemos dizer, se positivou. Isso se dá na medida em que
se parte do pressuposto de que historicidade é um conceito conhecido previamente,
positivado. Podemos constatar isso nos diversos trabalhos em que, além de ser um conceito
não definido claramente, ele dá vazão ao fundamento de questões importantes dos trabalhos,
como conceitos-síntese de nomeação de fenômenos pouco explícitos.
No debate contemporâneo, em que se fala de crise de tempo e cuja crítica se concentra
em perspectivas de historicidade, tanto no sentido de como referenciá-la enquanto objeto,
quanto como argumento, cabe a indagação acerca de se cumpre-se ainda o papel de
desnaturalização a que foi proposto.
A discussão que cabe agora é a desnaturalização do emprego de um conceito pelo
conhecimento psicológico e psicossocial que não lhe é próprio, mas que, pela interface que
lhe é natural, foi significado de uma forma possível. De forma que, este trabalho se apresente
tanto como diagnóstico deste uso, como parâmetro para novos usos para que esta psicologia
continue em crise.
76
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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.
80
8. APÊNDICE
APÊNDICE A - Mapeamento das ocorrências de todos os descritores por trabalho e
edição da revista de 1986 a 2001
ANO I, N° 1, 1986
1. Intervenção comunitária no posto de saúde da cidade alta: ligeiro histórico – CANIATO,
Angela; [Histórico: (3)]
2. A definição de uma proposta: histórico do curso de psicologia da Universidade Estadual de
Maringá; [Histórico (1)]
3. Encontro de Maringá: o ensino da psicologia social no estado de São Paulo – OZELLA,
Sérgio; [Histórico (1)]
4.
Crises de um processo de intervenção em postos de saúde: algumas questões sobre a
intervenção em comunidade – SALLES, Leila; [Histórico (1); História (1)]
ANO I N° 2, 1986
5. Psicanálise e marxismo: dilema da psicologia social? – LANE, Silvia T. Maurer; [História
(6); Histórico (2);. Históricos (1);Histórica (2)]
6 Quem é o brasileiro? uma exploração das características levantadas por Gilberto Freyre e
Sérgio B. de Ho1anda - ALMEIDA, Antonio Ribeiro de; MUCCILO, Gerson; MELO, Lucy
Leal; [História (4); Historicidade (1);. Histórico (1)]
7. Psicaná1ise e materialismo histórico: da libertação do homem- SANDLER, Paulo Cesar.
[Histórico (2); Históricos (1);. História (3);. Histórica (1)]
8. Notas sobre um debate de psicologia social - LANDA, Fábio; [Histórica (1)]
9. O fetichismo da mercadoria e a psicanálise. Elementos para um debate - SILVEIRA, Paulo
[Histórico (5);. Histórica (1); História (3)]
10. Alexandre e seus irmãos: psicanálise de Pixotes? - BERLINCK, Manoel; [História (1)]
11. Psicologia social. Um personagem em busca de seu autor - SAMPAIO, Luiz Carlos S;
[história (3); Histórico (1); Histórica (1)]
ANO III, N° 3, 1987
12. Trabalho, participação social e psicologia social – CAMARGO, Brígido Vizeu; [Histórico
(1); História (1); Histórica (1)]
13. O namoro entre psicologia e arte - BOMFIM, Elizabeth de; [Histórico (1); Histórica (1);
históricas (1)];
81
14. Pesquisa e intervenção em bairro - CANIATO, Angela; SALLES, l.eila; [Histórico(2);
História (2)]
15. Desnovelando a psicologia da comunicação de massa – BOMFIM, Elizabeth de ;
[Histórico (1)]
16. Psicologia social e transferência social - CAMARGO, Brígido V.;[ Histórico (3)]
17. Apontamentos para uma critica da reforma do setor saúde
CONY, Laura; [Histórico (1)]
- MEZÊNCIO, Márcia;
18. Relato de Experiência - MACHADO, Marília Novais da Mata;[Histórico (2); Histórica
(1)]
19. Influência junguiana sobre o artístico - BARBOSA, André Versiani; [História (1)]
20. De uma esquisita arte, parte uma esquizoanálise - FONSECA, Simone; [Histórica (1);
Históricas (1); História (2); Histórias (2)]
21. Viagem às utopias: crise no imaginário social - AFONSO, Lúcia; [História (1)]
22. Sexualidade e instituições – MACHADO, Marília Novais Da Mata; [História (3)]
23. Representações sociais e manifestações artísticas – QUEIROZ, Vinicius; GUISOLI,
Andréa; DELFINO, Eliana; BOMFIM. Elizabeth; GUIMARÃES, Luiza; [História (2)]
24. Comunicação e psicologia de massa: a hipótese esquecida –AFONSO, Lúcia; [História
(3); Históricas (1)]
25. A Psicologia Em Cuba – CALVIÑO, Manuel Angel; [História (1)]
26. A luta de ex-favelados pela moradia como parte essencial da formação da consciência
social – CANIATO, Ângela; [História (1)]
27. Uma intervenção psicossociológica numa creche da rede municipal de Vitória-ES –
AMARAL, Maria Helena; BARROS, Elizabeth, DONADIO, Luciene; OLIVEIRA, Arion;
VARANDA, Lienara; [História (1)]
28. Aspectos da psicologia comunitária e ecologia humana em Cuba – BOMFIM, Elisabeth
De Melo; [Históricas (1)]
Ano III, N°4, 1988
29. Crises e alternativas do movimento popular e sindical – PEREIRA, William César
Castilho; [Histórico (1); Históricos (1); Histórica (2); Históricas (1); História (3)]
30. Quem é o brasileiro? – ALMEIDA, Antônio Ribeiro de; [Histórico (3); Histórica (4);
Históricas (1); Histórias (11)]
31. Esboçando um enquadre psicoanalítico-marxista: uma utopia? – VIOLANTE, Maria
Lúcia Vieira; [Histórico (1); Histórica (1); História (3)]
82
32. Uma equipe esquizodisciplinar – WATANABE, Márcia Midôri; [Histórico (1); História
(1)]
33. Uma experiência de ensino da psicologia social marxista na UFPA – CARVALHO, Hilma
Khoury; [Histórico (1); História (1)]
34. A mulher, o homem e as leis – PEREIRA, Rodrigo Da Cunha; [Histórico (1)]
35. Implicações do enfoque social na prática do psicólogo em saúde mental – CANIATO,
Angela; [Histórico (3)]
36. - A questão da mulher como tema da psicologia social - MACHADO, Marília Navais Da
Mata; [Históricos (1); História (1)]
37. Psicologia comunitária – BOMFIM, Elizabeth De Melo; MACHADO, Marília Novais Da
Mata; [Histórica (1); História (4); Histórias (1)]
38. Inferências no campo da intervenção – ALMEIDA, Maria Regina Durães De Godoy;
[História (1); Histórias (1)]
39. Favela: fragmentos – MENEZES, Luciana Maia de;
40. Corpos radiativos, novos estigmas desdobramentos do episódio da violação de uma
cápsula com césio 137, em Goiânia, Setembro/1997 - BOMFIM, Elizabeth De Melo;
MACHADO, Marília Novais Da Mata; [História (1)]
41. Violência: marco inicial e eterno – RIBEIRO, Nilda Maria; [História (1); Histórias (1)]
42. O excesso e a falta – AFONSO, Lúcia; [História (4)]
43. (Nota sobre os papéis femininos) – BRAGA, Paula; [História (1)]
Ano III, N° 5, 1988
44. Identidade: encruzilhada da psicologia social e da antropologia – BOMFIM, Elizabeth De
Melo; [Histórico (1)]
45. O psicólogo e a comunidade: algumas questões – FREITAS, Maria De Fátima Quintal de;
46. Acaba mundo: estudo de uma comunidade favelada – QUEIRÓZ, Lizainny Aparecida
Alves; MACHADO, Marília Novais Da Mata; [Histórico (1); Histórica (1); história (2)]
47. Extensão universitária: implantação do N.A.P. (Núcleo de Assessoria Psicológica) e uma
tentativa de viabilização do vínculo teoria-prática no ensino de graduação – MOREIRA, Alice
Da Silva; ROCHA, Rui Barbosa; [Histórico (5); Históricos (1); Histórica (3); Históricas (1);
História (4)]
48. Por uma sociedade sem manicômios – CARNEIRO, Bianca Guimarães; [Históricos (1)]
49. Reflexões sobre educação popular – TRAJANO, Ana Rita Castro; [Histórica (1); História
(3)]
83
50. A comunitária educação artística das minas dos setecentos – BOMFIM, Elizabeth De
Melo; [Histórica (1)]
54. Constituição de um grupo por e para mulheres na instituição universitária - desventuras de
quem a viveu – SMIGAY, Karin Ellen Von; [História (2)]
55. A sedução – MOREIRA, Maria Ignez Costa; [História (1)]
56. Individualidade - reprodução - família (conflito vivido pela mulher de hoje) –
NOGUEIRA, Cláudia Bueno; [História (7); Histórias (1)]
57. Intelectuais nos movimentos sociais – BOMFIM, Elizabeth De Melo; [História (2)]
58. Cultura e escola: um projeto – VIDAL, Paulo Roberto De Souza; [Histórias (2)]
Ano III, n° 6, 1989
59. A questão do coletivo – TEJERA, Marisa Estela Sanabria
[ Historicidade(1); História (2)]
60. Da ideia de criação à realidade – BOMFIM, Elizabeth De Melo; [Histórico (1); História
(1)]
61. Questões teóricas e metodológicas em psicologia social – LANE, Sílvia Tatiana Maurer;
[Histórico (4); históricos (1); histórica (4); históricas (2); história (12); histórias (1)]
62. Elementos para uma teoria de intervenção psicossociológica em favelas – MACHADO,
Marília Novais da Mata; [Histórico (1); Histórica (3); História(6)]
63. Marxismo e psicologia – CARVALHO, Hilma Tereza T. Khoury; [Histórico (12);
Históricas (1); História (4)]
64. Uma reflexão epistemológica da psicologia social que estamos construindo – NADER,
Rosa Maria; [Histórico (2); História (1)]
65. Pesquisa em movimentos sociais: reflexões sobre uma experiência – PRETTE, Almir Del;
[Histórico (1); Histórica (1)]
66. Experiência de psicologia em um centro de saúde da região metropolitana de Belo
Horizonte – SANTOS, Dirley Lellis Dos [História (3)]
67. Favela em Belo Horizonte: uma realidade que desafia – BAETA, Aléxia Machado
[Histórico (1); História (5)]
68. Itinerários da violência contra a mulher ou: o que dizer da sedução? – SMIGAY, Karin
Ellen Von; SOUZA, Ana Lúcia de; RUBINGER, Maria Da Conceição [Histórica (1); História
(1)]
69. Fotografia como instrumento de pesquisa de representação simbólica – MOREIRA,
Nazareth Pinheiro [Histórico (1); História (1)]
84
70. Do sangue à letra (a propósito de pedagogia e psicanálise) – DÂMASO, Romualdo
[História (2)]
71. Criminalidade e perversidade criadora: a autopoiese dionisíaca – BRAGA, Welber Da
Silva; [Histórico (1); Históricos (1); Histórica (2)]
72. Psicologia social em Minas: história e atualidade – DESLANDES, Keila
[Histórica (1); História (5)]
73. Organização e luta em Araxá ou Araxá - de D. Beja à fábrica de ácido-sulfúrico - signos
de sua época? – PAIVA, Silvânia; [Histórico (2); História (4); Histórias (1)]
ANO IV, NÚMERO 7, 1989
74. Psicologia e história: uma relação possível? Ou psicologia e história: uma relação
necessária! – ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makino; [Histórico (5); Historicidade (3);
Históricos (3); Histórica (6); Históricas (2); História (12)]
75. Uma técnica de análise do discurso: análise gráfica – LANE, Silvia Tatiana Maurer
[Histórico (1)]
76. Considerações sobre aspectos micro-sociais na análise dos movimentos sociais SANDOVAL, Salvador A. M; [Histórico (1); Histórica (1); História (1)]
77. O papel de líderes intermediários nos movimentos sociais em favelas na cidade de São
Paulo – CÁRDIA, Nancy; [Histórico (1); História (1)]
78. Psicologia e movimentos populares: algumas possibilidades de aproximação – NETO,
Genaro Ieno; [História (4); Histórias (1)
79. Os conselhos de saúde: participação ou cooptação? – SPINK, Mary Jane; [Histórico (1)]
80. A forma do informal – SPINK, Peter [Histórico (1)]
81. O psicólogo na comunidade – BOMFIM, Elizabeth De Melo [Histórico (1); Histórica (1);
História (1)]
82. Psicologia social e comunitária – ANDERY, Alberto Abib; [Histórica (4); História (1)]
83. Fragmentos de um trabalho com a comunidade – PIMENTEL, Regina Sileikis [Histórico
(1)]
84. A psicologia na comunidade - LASTÓRIA, Luiz A. Calmon; [Histórico (1)]
85. O bilinguismo em Cabo Verde – CUSTÓDIO, Giordano Tourinho; [Histórico (1);
Históricos (1);História (2)]
86. Abrapso em Minas: um movimento social, uma gestão – BOMFIM, Elizabeth De Melo;
[Histórico (2; Históricas (2); Históricos (1)]
85
ANO VI, NÚMERO 9, 1990/91
87. Contribuições da "dinâmica de grupos" para o estudo de representação social- FILHO,
Edson A. De Souza; [Histórico (1); Históricos (2); Histórica (1); História (2)]
88. O saber/agir psicológico – VIOLANTE, Maria Lúcia Vieira; [Historicidade (1); Histórico
(3); História (5)]
89. Caminhos da consciência: a história de uma luta pela saúde da mulher – ARRUDA,
Ângela; [Histórico (2); História (24); Histórias (2)];
90. Acerca de imagens de pai – SMIGAY, Karin Ellen Von; [Histórico (3); Histórica (1);
Históricas (1); História (2)]
91. Gênero e representações sociais: anotações para uma aproximação dos conceitos –
ROEDEL, Sônia; [Histórica (1)]
92. Experiência piloto de animação cultural comunitária para Corumbá e pantanal sulmatogrossense – PREUSS, Miriam Raja Gabaglia, [Histórico (2); Histórica (1); História (2)]
93. Notas sobre a psicologia da arte em Rudolph Arnheim – KRAISER, Marcelo; [História
(2)]
94. Sobre o processo de criação: algumas considerações – MACHADO, Ana Maria Lé
Sénéchal; [História (1)]
95. Representações sociais de Brasília –FILHO, Edson A. De Souza;
Histórica (1); História (1)]
[Históricos (1);
96. Meninos de rua: a ótica institucional - BOMFIM, Elizabeth De Melo (Coord.);
OLIVEIRA, Adriana Coelho De; WATANABE, Márica Midóri; NASCIMENTO, Marilene
Coura; AFONSO, Marta; PARREIRA, Sandra Marteus; [História (1)]
97. Análise de uma entrevista de pesquisa – MACHADO, Marília Novais Da MatA;
DESLANDES Keila; ALFANO, Marta Elisabete Guimarães [História(1)]
98. Buscando a relação brincar/aprender – PEREIRA, Magali Cecili Surjus; SANTOS,
Romilda Aparecida Cordioli; [Histórico (1); Histórica (1)]
ANO VII, NÚMERO 10, 1992
99. O conceito de comunidade e as práticas psicossociais – ARENDT, Ronald João Jacques
[Histórica (1); Históricas (1); História (1)]
100. O que é psicologia comunitária? – GÓES, César Wagner De Lima [Histórico (4);
Históricos (2); Histórica (4); Históricas (1); História (5)]
101. A dinâmica da organização camponesa, grupo do Urucum, Mato Grosso do Sul –
BRANCO, Maria Tereza Castelo; [História (2)]
102. Ramificações da psicologia social: perspectivas da atuação comunitária
NASCIMENTO, Maria Lívia do; [História (1)]
–
86
103. O espaço (limitado?) das práticas e intervenções em instituições – RODRIGUES,
Heliana; [Histórica (1)]
104. “Transterritorialidade" de um conceito: o imaginário segundo Cornelius Castoriadis –
PASSOS, Isabel Cristina; [História (1); Histórico (1)]
105. Os snos 70 no Brasil e a questão da subjetividade: resgate de uma geração [Histórica
(1)]
106. Representações sociais perto de seu julgamento final? – SOUZA, Edson A. De Souza;
[Histórica (1)]
107. Gênero e subjetividade. Inquietações na psicologia social – ARRUDA, Angela Arruda
[História (1)]
108. Acerca de imagens do pai - notas para pensar a paternidade no imaginário masculino SMIGAY, Karin Von; [Histórico (1); História (2); Históricas (1); Histórias (1)]
109. Gênero e representações sociais: anotações para uma aproximação dos conceitos –
ROEDEL, Sonia; [Histórica (1)]
110. A submissão feminina: até que ponto as lutas emancipatórias da mulher têm alterado
essas condições no que diz respeito à relação conjugal – SIQUEIRA, Maria Juracy;
SCHILLINGS, Ângela; COSTA, Iara; SOUZA, Tatiana P. S; [Histórias (1)]
111. Identidade social e relações de gênero: suas implicações nos estudos psicossociais –
JURBERG, Marise Bezerra; [Históricos (1)]
112. Psicologia e produção da subjetividade - um enfoque marcuseano – SEVERINO, Maria
De Fátima; [Histórico (1)]
113. Trabalho e psicologia social – ATHAYDE, Milton Raimundo Cidreira De; [História (1)]
114. Algumas considerações sobre as determinações do processo de produção na saúde –
SANTOS Abrahão De Oliveira; [Histórico (1)]
115. Trabalho e "saúde psicossocial": apontamentos metodológicos - ATHAYDE, Milton
Raimundo Cidreira de; [Histórico (1)]
116. Fundamentação teórica metodológica para uma proposta de reforma curricular nas áreas:
trabalho e técnicas de exame psicológico – CATÃO, Maria De Fátima F. Martins; [Histórico
(1)]
117. A UERJ em questão" – MANCEBO; Deise; SANTOS, Adriana Rosa Cruz;
NOGUEIRA, Carlos André Soares; VIANA; Cristina Soares; GONÇALVES, Marcelo Pinto;
[Histórico (1); Históricas (1); História (1)]
118. O ensino de psicologia escolar em uma perspectiva social - ZANELLA, Andréa Vieira;
[História (1)]
ANO VIII, NÚMERO 1, 1996
87
119. Entrevista com Silvia T. M. Lane - [Histórico (8); Históricos (1); Histórica (8); História
(6)]
120. Uma abordagem psicossociológica no estudo do comportamento político- CAMINO, L;
[Histórico (4); Histórica (1); Histórias (1)]
121. Notas sobre a psicologia social de T. W. Adorno - CROCHÍK, J.L. [Históricos (3);
Histórica (1)]
122. Contribuições da psicologia social e psicologia política ao desenvolvimento da
psicologia social comunitária - FREITAS, M.F.Q. [Histórico (7); Históricos (3); Histórica (6);
História (4)]
123. Individualismo e modernidade - GENTIL, H.S; [Histórico (1); Históricos (1); Históricas
(1); História (11); Histórias (1)]
124. Paradigmas, corrientes y tendencias de la psicología social finisecular - MONTERO, M;
[Histórico (3); Histórica (1)]
125. Os cursos de Psicologia e os programas de psicologia social: alguns dados do Brasil e da
América Latina - OZELLA, S; [Histórico (3); Histórica (3); História (1)]
126. O pódio da normalidade: considerações sobre a teoria da ação comunicativa e a
psicologia social - PRADO, J. L. A; [Históricos (1); História (1)]
127. Organização como fenômeno psicossocial: notas para uma redefinição da psicologia do
trabalho - SPINK, P. K [História (5)]
ANO IX, NÚMEROS 1 E 2, 1997
128. Entrevista com Frederic Munné [Histórico (3); Histórica (1); História (2)]
129. Pluralismo teorico y comportamiento social - MUNNÉ, F; [Histórica (1)]
130. Epistemologia cualitativa y subjetividad – REY, González; [Histórico (6); Históricos (2);
Histórica (4)]
131. Apariciones del espíritu de la posmodernidad en la psicologia social contemporanea HERNANDEZ, M; [Histórico (1); Histórica (3); Históricas (1)]
132. A gravidez na adolescência nas classes populares: projetos e práticas de atendimento em
saúde e educação - MOREIRA, M. I. C. e Equipe [Históricas (1); Histórias (1)]
133. O conhecimento da sociedade e da cultura: a contribuição da psicanálise - PACHECO
FILHO, R. [Histórico (1); Histórica (4); Históricas (4); História (3)]
134. Aplicações da teoria de representação social à pesquisa na educação - RANGEL, M.
[Histórico (3); Históricos (2); Histórica (2); Históricas (2); História (5)]
135. Comparação dos preconceitos étnico-raciais e da discriminação contra os portadores de
deficiência - SATOW, S.H; [História (4)]
88
ANO X, N ° 2, 1998
140. Entrevista com Regina Helena de Freitas Campos - [Histórico (5); Históricos (3);
Histórica (3); História (18)]
141. Machado de Assis e o poder - COELHO, M. H. M. [História (1)]
142. Lo cualitativo y lo cuantitativo en la investigación de la psicología social – REY, F. L G;
[Histórico (3); Histórica (3)]
143. O sujeito e seus modos de subjetivação - LOPES, J. R [Historicidade (1); Histórico (9);
Históricos (2); Histórica (5); Históricas (1); História (7)]
144. A dimensão ético-afetiva das práticas sociais - NOVO, H. A [Historicidade (1);
Histórico (3); Histórica (2); Históricas (1); História (10)]
145. Relações entre a socialização do gozo e a sustentação subjetiva da racionalidade
tecnológica - RAMOS, C; [Histórico (2); Histórica (6); História (4)]
146. A crítica ético-epistemológica da psicologia social pela questão do sujeito - SAWAIA,
B; [Historicidade (1); Histórico (5); Histórica (1); Históricas (3); História (3)]
147. El construccionismo crítico: su pertinencia en la psicología social comunitaria WIESENFELD, E [Histórico (4); Históricos (1); Histórica (6); Históricas (3); História (1)]
ANO XI, N° 1, 1999
148. Processo de autonomização da psicologia no Brasil - ANTUNES, M. A. M; [Histórico
(5); Histórica (3); Históricas (1); História (4)]
149. Notas sobre a formação ética e política do psicólogo - CROCHÍK, J. L; [Histórico (1);
Histórica (2); História (13)
150. A empresa familiar e sua inserção na cultura brasileira - MACÊDO, K.B; [Histórica (2);
História (4); Histórias (1)]
151. Vida cotidiana, crisis y reajuste cubano en los 90. Una aproximación psicosocial PÉREZ, M; [Histórico (2); Histórica (3)]
152.. Violação de corpos: o estupro como estratégia em tempos de guerra. Uma questão para a
psicologia social? - SMIGAY, K. E. V; [História (1)]
153. Resenha: O próximo distante - TASSARA, E. T. O; [História (3); Histórias (1)]
154. Comentários: O Próximo distante - DAMERGIAN, S; [História (3); Histórias (2)]
89
ANO XI, N° 2, 1999
155. Entrevista com Leny Sato; [História (2)]
156. Considerações não-ortodoxas sobre as cooperativas e o cooperativismo ALBUQUERQUE, F.J. B.; MASCARENO, R.P; [Histórico (1); Históricos (1); Históricas
(1); História (3)]
157. Contextos em mudança e os rumos da pesquisa sobre comprometimento no trabalho BASTOS, A. V. B; [Histórico (2); História (2)]
158. Uma contribuição à construção do conceito de cidadania ativa: as práticas de uma ONG
que atua no campo da AIDS" - CASTRO E SILVA, C. R. [Histórico (3); História (3)]
159. Saúde mental e trabalho: uma revisão sobre o método - CODO, W; SORATTO, L. H;
[História (4)]
160. Expandindo possibilidades: reflexões sobre o processo de organização de um movimento
social de portadores de LER - LIMA, A. B; [Históricos (1); História (9); Histórias (1)]
161. Tempo e trabalho nas organizações: estudo psicossocial com trabalhadores que têm
horario fixo e flexível - MARTINS, M. M; [Histórico (1); História (1)]
162. A falta de ocupações produtivas e o trabalho precário num contexto rural - TRAVERSOYÉPES, M; [Histórico (3)]
163. Ações estratégicas na gestão da Universidade Federal de Santa Catarina: reações dos
participantes - ZANELLI, J. C; [História (3); Histórias (1)]
ANO XII, N° 1 E 2, 2000
164. Entrevista Com Kabengele Munanga – [Histórico (3); Histórica (1); História (2)]
165. O Brasil e sua gente: representações sociais em 500 anos - ARRUDA, A; [Históricos (1);
História (1); Históricas (2); História (2)]
166. La psicologia social como prática político-ética: reflexiones em torno a la arista subjetiva
de las representaciones sociales - BANCHS, M. A; [Histórico (3); Histórica (2); Históricas
(1)]
167. Cooperativismo, cidadania e a dialética da exclusão/inclusão: o sofrimento ético-político
dos catadores de material reciclável - BARBOZA, D; [Histórico (2); Histórica (3); História
(3)]
168. Estradeiros modernos ou capitalistas incondicionais? O cotidiano hippie e suas interfaces
- CANTELMO, F. [Histórico (1); Históricas (1); História (6); Histórias (1)]
90
169. Novos rumos para estudos da identidade em populações indígenas através da semiótica –
DARRAULT; HARRIS I; GRUBITS, S; [Histórias (1)]
170. Políticas de identidade: novos enfoques e novos desafios para a psicologia social GUARESCHI, N. M. F; [Historicidade (1); Histórico (1); Histórica (4); Históricas (3);
História (11); Histórias (1)]
171. Uso, abuso e dependência de drogas: delimitações sociais e científicas - REZENDE, M.
M; [Histórico (1); História (2)]
172. Contornos do risco na modernidade reflexiva: contribuições da psicologia social SPINK, M J. P; [Históricos (2); Histórica (1); História (7)]
173. A noite escura e bela: um estudo sobre o trabalho noturno - VERONESE, .M. V ;
[Histórico (2); Histórica (2); História (2)]
174. A Psicologia em movimento: entre o “gattopardismo' e o neoliberalismo YAMAMOTO, O. H; [Historicidade (1); História (6)]
ANO XIII, N° 2, 2001
175. Critical theory and empirical research in psychology - CARONE, I; [Histórico (1);
História (1); Históricas (2)]
176. Resistence and conformism of psychological monad - CROCHÍK, J.L; [Históricas (2);
História (1)]
177. Seeking for a speculative induction - philosophy and empirical research - DUARTE, R;
[Histórico (5); Histórica (3)]
178. Empirical research of subjectivity and subjectivity in the empirical research GAGNEBIN, J.M; [Histórico (2); Históricos (1); História (2)]
179. Forgettfulness, memmory and repetition - GLACÓLA JR; [Historicidade (1); Histórico
(12); Históricos (1); Histórica (9); Históricas (2); História (13)]
180.. From the misformed subjectivity to the semiformation as subject - LEOMAAR, W;
[Histórico (12); Histórica (11); Históricas (3)]
181. Theodor Adorno: the philosopher of the present - MATOS, O. C. F; [História (3)]
182. Critical theory and empirical research in psychology - SMS, O; [Histórico (3); Histórica
(1); Históricas (1); História (2)]
183. The contribution of critical theory for the constitution of the individual as subject SEVERINO, A. J; [Histórico (3); Histórica (1); História (1)]
91
ANO V, N° 8, 1989/90 e ANO X, N° 1, 1998 não estão disponíveis no site no acesso feito em
setembro de 2014. (http://www.abrapso.org.br/conteudo/view?id_conteudo=539)
92
