Adriana Pitta Ramos Rocha - O padastro na Família Recasada: Uma Análise da produção Acadêmica Brasileira

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DISSERTAÇÃO ADRIANA PITTA.pdf
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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA

ADRIANA PITTA RAMOS ROCHA

O Padrasto na Família Recasada: Uma Análise da Produção
Acadêmica Brasileira

MACEIÓ
2015

ADRIANA PITTA RAMOS ROCHA

O Padrasto na Família Recasada: Uma Análise da Produção
Acadêmica Brasileira

Trabalho apresentado ao Programa de Mestrado
em Psicologia da Universidade Federal de Alagoas
como requisito parcial para obtenção do grau de
Mestre em Psicologia.
Orientador: Prof. Dra . Heliane de Almeida Lins
Leitão

MACEIÓ
2015

Folha de Aprovação

ADRIANA PITTA RAMOS ROCHA

O Padrasto na Família Recasada: Uma Análise da Produção
Acadêmica Brasileira

Dissertação de Mestrado, apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal
de Alagoas, como requisito parcial para obtenção do
grau de Mestre em Psicologia. Aprovado em

Prof. Dra Heliane de Almeida Lins Leitão (Orientadora)

Banca Examinadora:

Profa Dra Hulda Helena Coraciara Stadtler (Examinadora externa)
Universidade Federal Rural de Pernambuco

Prof. Dra . Adélia Augusta Souto de Oliveira (Examinadora interna)
Universidade Federal de Alagoas

iv

Aos meus filhos Pérola, Agnes e Samuel e meu marido
José Carlos, que são, respectivamente, enteados e
padrasto, por todo ensinamento prévio sobre o padrasto
na família recasada.

Agradecimentos

Partindo da ideia do ensaista francês Jean de La Bruyère que diz que não há no
mundo exagero mais belo que a gratidão, quero aqui expressar exageradamente toda
minha gratidão a Deus e aos “anjos" que Ele colocou junto a mim durante a construção
deste trabalho.
Deus, que sempre deixa explícita a Sua presença em minha vida.
Minha orientadora Profa Dra Heliane de Almeida Lins Leitão que foi fundamental com
seus ensinamentos, incentivo e paciência.
Profa Dra Adélia Augusta Souto de Oliveira que me deu um suporte valioso num
momento importante.
Todos os professores do programa, que compartilharam conosco seus saberes.
Profa Dra Hulda Helena Coraciara Stadtler e Profa Dra Adélia Augusta Souto de
Oliveira, que aceitaram o convite para participarem da banca de avaliação dessa dissertação.
Minha família: meus pais, Gisele e Romildo, minhas irmãs, Isabelle e Jeane e meu
marido, José Carlos, que foram incansáveis em me apoiar emocionalmente, financeiramente e na correria do dia a dia de uma mãe de três filhos.
Meus três filhos, Pérola, Agnes e Samuel, que foram exemplares ao compreenderem
tantos “nãos" e tantas ausências minhas.
Minha querida prima Roseanne por sua disponibilidade e carinho de sempre.
Amigas queridas, Roberta e Milana, que estavam sempre me dando incentivo e “empurrões".
Luciana, Sílvia e Conceição, minhas Diretoras na escola em que trabalho, que acreditaram em mim e abriram mão da minha presença no ambiente de trabalho em diversos
momentos ao longo desses dois anos de estudo.
Querida Walkíria Souza, que navegou comigo no mesmo barco e no mesmo mar às vezes
calmo, às vezes turbulento, e que também está chegando ao fim dessa jornada vitoriosa.
v

vi
Querida Dra Audinei, que me deu uma ajuda preciosa e necessária para a finalização
desse processo.

Recebam todos, o meu imenso MUITO OBRIGADA!

Resumo

Esta pesquisa teve como objetivo conhecer e analisar a produção acadêmica
brasileira sobre o padrasto na família recasada. Objetivou, ainda, realizar levantamento bibliográfico de estudos sobre o padrasto, identificar as áreas de
conhecimento vinculadas às pesquisas, identificar os aportes teóricos adotados
nas pesquisas em Psicologia e discutir como a produção acadêmica em Psicologia vem abordando as concepções de padrasto nas famílias recasadas. Para
tanto, foi realizada uma pesquisa bibliográfica sobre o tema a partir de busca
em cinco bases de dados, incluindo periódicos, dissertações e teses: Scielo
Brasil, Index Psi Revistas Técnico-Científicas (Biblioteca Virtual em Saúde Psicologia), Index Psi Teses (Biblioteca Virtual em Saúde - Psicologia), Banco
de Teses da CAPES e Portal da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações do
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). Foram
utilizados os seguintes descritores: padrasto(s), recasamento(s), recasado(s),
família(s) recasada(s), família(s) reconstituída(s) e família(s) recomposta(s).
Foram alvos da pesquisa artigos, teses e dissertações produzidos no Brasil
e publicados até 2013, tendo sido encontrados 421 trabalhos. A partir dos
resumos dos trabalhos foi realizada leitura de reconhecimento e análise preliminar para eliminar repetições geradas pelos múltiplos descritores e bases
de dados, resultando um total de 68 publicações, as quais foram agrupadas
em função das áreas de conhecimento às quais estão vinculadas. A maioria
das publicações (79,4%) está vinculada à área da Psicologia, perfazendo um
total de 54 trabalhos, publicados principalmente a partir do ano 2000. Dos
trabalhos da Psicologia, 45 foram lidos integralmente e submetidos à análise
de conteúdo, enquanto 9 foram excluídos da análise qualitativa porque não
estavam disponíveis na íntegra. Os aportes teóricos mais encontrados foram
Teoria Sistêmica e Psicanálise, seguidos da perspectiva interdisciplinar nos es-

vii

viii
tudos de família, Psicologia do Desenvolvimento Humano e da Família. Foram
elencadas 8 categorias de análise: a diversidade de termos; a família nuclear e a
figura paterna como referências; o padrasto e as funções paternas tradicionais;
a nova conjugalidade materna como porta de entrada para o padrasto; o vínculo afetivo entre padrasto e enteados; a contribuição do padrasto à família;
padrasto e violência sexual; o padrasto e a clínica do recasamento. Apesar
da diversidade de nomenclaturas encontradas, o termo padrasto é o mais utilizado por pesquisadores e famílias. Ao se examinar o lugar do padrasto há
uma tendência de se ter como referência o pai da família nuclear tradicional,
a qual aparece nas expectativas das famílias, pesquisadores e terapeutas de
família. O lugar de autoridade por vezes assumido pelo padrasto é construído
de forma particular em cada família, estando frequentemente associado à sua
função de provedor financeiro. A entrada do padrasto na família se dá através
do seu casamento com a mãe, havendo frequentemente a expectativa de que o
afeto do marido se estenda aos filhos e seja correspondido, o que nem sempre
acontece. O vínculo estabelecido entre padrasto e enteados perpassa a experiência de ser “como um pai” e se sentir “como filho verdadeiro”.Vários estudos
sugerem que o padrasto pode dar uma grande contribuição à vida familiar assumindo um lugar parental próprio, ao lado da mãe e do pai biológico dos seus
enteados. Embora o padrasto apareça associado a casos de abuso sexual contra seus enteados, fato que gera expectativas negativas em relação às famílias
recasadas, os estudos destacam a importância de se examinar o contexto mais
amplo e complexo de violência sexual intrafamiliar. Os terapeutas de família
se deparam com os novos contextos familiares, apoiando-se ora no modelo de
família nuclear tradicional ora nas novas concepções de família emergentes.
Palavras-chave: Padrasto; Família Recasada; Produção Acadêmica; Psicologia.

Abstract

The objective of this research was toget informed about and to analyze Brazilianacademic production about the stepfather in remarried family. It was also
aimed to make a bibliographical survey of studies about stepfather, identify the
areas of knowledge related to these research, identify the theoretical grounds
adopted in Psychology research and to discuss how these productions approach
the stepfather’s conceptions in remarried families. The study was developed
based on five databased research sites about the theme, including journals,
thesis and dissertations: ScieloBrasil, Index Psi RevistasTécnico-Científicas,
Index Psi Teses (Virtual Library in Health - Psychology), CAPES Thesis
database and Portal da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações do InstitutoBrasileiro de InformaçãoemCiência e Tecnologia(IBICT). The following
descriptors were informed: stepfather(s), remarriage,(s), remarried(s), Family(ies), remarried Family(ies), reconstructed family(ies), recomposed Family(ies). It was the target of this research 421 studies, including articles, dissertations and thesis produced in Brazil and published until 2013. By reading
and making a preliminary analysis of the abstracts of these studies, it was possible to eliminate repetitions created by multiple descriptions and databases,
resulting 68 publications, which have been grouped according to the areas of
knowledge, related to the theme. Most of the publications (79,4%) are related
to Psychology, fifty-four studies. They have been mainly published starting
from 2000. Then, they have been fully read, content analyzed and nine were
excluded because they were not fully available. The theoretical approaches
that have been found were Systemic Theory and Psychoanalysis, followed by
interdisciplinary perspective in family studies, Human and Family development. Eight categories of analysis were displayed: term diversity, nuclear family and father figure as references, stepfather and the traditional fatherhood

ix

x
functions, mother’s new marriage as the stepfather inclusion, the affective ties
between stepfather and stepsons and stepdaughters, stepfather’s contribution
to the family, stepfather and sexual violence, stepfather and remarriage advisement.Although a variety of names, most researchers and families use the
term stepfather. By examining the stepfather’s place, there is a tendency of
having as a reference the traditional nuclear family, which appears in families,
researchers, therapists’ expectations. The stepfather’s role of authority is constructed in aparticular way in each family, being regularly assumed to be the
one who provides financial support to the family. Although the affection of the
stepfather towards the mother are given to the children, this does not always
happens. The relationship built among then goes by experiencing being a real
father and son or daughter. Several studies suggest that the stepfather can
give a great contribution to the familiar life, assuming a proper parenthood
place, beside the children’s biological mother and father. Although the stepfather is associated to sexual abuse, which generates negative expectations in
relation to remarried families, studies point out the importance of examininga
broader and complex context of intrafamiliar sexual violence. Family therapists find new contexts of family, based either in traditional nuclear family or
in new conceptions of emerging families.
Key words: stepfather; Remarried Family; Academic Production; Psychology.

Lista de Tabelas

• Tabela 2.1 - Total de publicações encontradas nas Bases de Dados pesquisadas em
função de cada descritor. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18

• Tabela 2.2 - Total de publicações selecionadas para o estudo após leitura exploratória.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

• Tabela 2.3 - Quantitativo de trabalhos selecionados para o estudo, encontrados nas
bases de dados pesquisadas, por área de conhecimento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20

• Tabela 2.4 - Quantitativo de publicações em Psicologia por período. . . . . . . . . . . . . 20

• Tabela 2.5 - Total de Artigos, Dissertações e Teses de Psicologia selecionados para
leitura interpretativa, encontrados nas Bases de Dados pesquisadas, acessíveis e não
acessíveis via Internet.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21

• Tabela 2.6 - Aportes teóricos utilizados nos trabalhos de Psicologia.. . . . . . . . . . . . 22

xi

Sumário

Introdução

1

1 Família e Contemporaneidade: Construções e Reconstruções
3
1.1 Família: um fenômeno social mutável . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
1.2 Mudanças Familiares: subjetividade e autonomia . . . . . . . . . . . . . . 5
1.3 Casamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
1.4 Divórcio: a conjugalidade desfeita . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.5 Recasamento: nova conjugalidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
2 O Caminho Metodológico e Construção de Dados Preliminares

17

3 Sobre o Padrasto na Produção Acadêmica Brasileira
3.1 A Diversidade de Termos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
3.2 A Família Nuclear e a Figura Paterna como Referências . . . . . . . . . . .
3.3 O Padrasto e as Funções Paternas Tradicionais: Autoridade e Provedor . .
3.4 A Nova Conjugalidade Materna: porta de entrada para o padrasto. . . . .
3.5 “Como um Pai”: a construção do vínculo afetivo entre padrasto e enteado .
3.6 Um novo lugar parental: a contribuição do padrasto . . . . . . . . . . . . .
3.7 O Padrasto no Contexto da Violência Sexual . . . . . . . . . . . . . . . . .
3.8 O Padrasto e a Clínica do Recasamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

24
25
27
30
33
37
40
42
46

4 Conclusões

51

Bibliografia

54

A Apêndice

63

B Apêndice

67

Introdução

O interesse central do presente estudo é a figura do padrasto. Esse personagem passa
a fazer parte de um novo grupo familiar a partir de uma nova conjugalidade da mãe e traz
consigo uma série de questões relativas à institucionalização de papeis e funções. Uziel
(2000) aponta para a importância do padrasto neste contexto de recasamento, na medida
em que será uma pessoa que fará parte do cotidiano dos filhos da sua parceira amorosa.
Tal vínculo pode gerar expectativas e atribuições de lugares e papeis do padrasto, muitas
vezes atrelados à figura paterna, mas numa configuração peculiar, muitas vezes convivendo
com a presença e participação do pai na vida dos filhos.
Para Saraiva (2013), construir uma relação afetiva com os enteados não é uma tarefa
fácil. Essa nova relação afetiva da mãe sinaliza para o filho que o divórcio dos pais é
definitivo, podendo gerar um clima de hostilidade do filho para com o padrasto. Além
disso, o recasamento pode provocar nos filhos conflitos de lealdade ao pai, ao se perceberem
gostando do padrasto (SOARES, 2008).
Diante desse panorama social cada vez mais frequente, faz-se necessário conhecer
e compreender estas especificidades relacionais e suas implicações nos âmbitos micro e
macro-social, destacando-se a relevância das pesquisas interdisciplinares. A questão norteadora do presente estudo é: como a produção acadêmica brasileira apresenta e discute
o padrasto na família recasada? A relevância do tema se dá em função das dificuldades
enfrentadas pelas próprias famílias recasadas e pelos diversos setores da sociedade contemporânea ao se depararem com questões relacionadas a essas diferentes configurações
do grupo familiar. Destacam-se, aqui, as instituições sociais ligadas ao campo educacional, assistencial e jurídico. É importante analisar de forma crítica como as produções
acadêmicas brasileiras apresentam e discutem o padrasto nas famílias recasadas, como
também suas implicações, pois as produções realizadas no âmbito acadêmico influenciam
os modos de relação que se estabelecem entre as pessoas, assim como entre as famílias e
as diversas instituições sociais.

O objetivo principal da presente pesquisa é conhecer e analisar a produção acadêmica
brasileira sobre o padrasto na família recasada. Apresenta também como objetivos: realizar levantamento bibliográfico de estudos sobre o padrasto na família recasada, identificar
as áreas de conhecimento vinculadas às pesquisas investigadas, identificar os aportes teóricos adotados nas pesquisas em Psicologia e descrever como a produção acadêmica em
Psicologia vem abordando as concepções de padrasto nas famílias recasadas e discutir
suas implicações.
No primeiro capítulo, iremos trazer algumas discussões teóricas a cerca do padrasto
no contexto da família recasada. Autores como Féres-Carneiro, Wagner, Kehl, Grisard
Filho, Uziel, entre outros, trazem seus pontos de vista a respeito do padrasto na família
recasada, construídos ao longo de suas pesquisas na área de família. O segundo capítulo
irá mostrar o percurso metodológico da presente pesquisa e trará os primeiros resultados
quantitativos do material pesquisado. Os resultados qualitativos, que mostram as concepções e discussões realizadas nos trabalhos acadêmicos de Psicologia analisados, serão
apresentados no terceiro capítulo. E, por fim, o quarto capítulo trará as conclusões feitas
a partir dos estudos analisados.

2

Capítulo

1
Família e Contemporaneidade:
Construções e Reconstruções

1.1 Família: um fenômeno social mutável
O panorama da família contemporânea mostra diferentes configurações do grupo familiar que se afastam do modelo nuclear. Entende-se por diferentes configurações familiares
outras formas de se relacionar e viver juntos, distintas da formação tradicional do modelo
nuclear - pai, mãe e filhos - implicando uma ampliação da concepção de família. Famílias
monoparentais (constituídas por um dos pais e os filhos), homoparentais (constituídas
por duas pessoas que se autodesignam homossexuais e seus filhos, biológicos ou não) e
reconstituídas (famílias em que pelo menos um dos cônjuges teve uma relação conjugal
anterior à atual, com ou sem filhos) são exemplos de diferentes configurações do grupo
familiar. Tais mudanças são advindas das grandes transformações ocorridas na sociedade
ocidental, principalmente por influência dos movimentos feministas que trouxeram importantes conquistas e direitos sociais para as mulheres como sua inserção no mercado
de trabalho, a liberdade sexual, mudanças nos papeis de gênero e parentais, entre outras
(COSTA; DIAS, 2012).
Ao partirmos de uma análise histórica sobre a família ocidental podemos perceber
que ao longo do tempo ela vem sofrendo transformações oriundas das influências sociais
de cada época, dando a ela características de um fenômeno que se constrói de forma
sócio-histórica. Até o século XVII a vida era vivida em público. Segundo Ariès (1981)
as pessoas viviam misturadas umas às outras e em casas sempre abertas. Os cômodos
da casa tinham utilidades diversas. O público e o privado não se distinguiam e as casas

serviam de moradia e de lugar de trabalho. Diante dessa densidade social não havia lugar
para a família. Segundo este autor, havia uma vivência de família, mas ela não existia
como sentimento ou valor, sendo sua função assegurar a transmissão da vida, dos bens e
dos nomes.
A família medieval apresentava um tratamento com suas crianças bem distinto da
atenção que é dispensada atualmente às crianças. Elas eram mantidas em suas casas até
os 7 ou 9 anos e, após esse período, eram enviadas para casas de outras pessoas nas quais
permaneciam por um período de 7 a 9 anos, onde eram incumbidas de todas as tarefas
domésticas. O objetivo dessa prática era que as crianças aprendessem as boas maneiras.
Elas aprendiam pela prática, sendo através do serviço doméstico que o mestre transmitia
à criança seus próprios conhecimentos e valores (ARIÈS, 1981).
Segundo Ariès (2012), a partir do século XV houve uma transformação nas realidades
e sentimentos da família e um fator principal decorrente dessa mudança foi o aumento
da frequência escolar. Até então, a escola era reservada para os clérigos, a uma categoria
muito particular de pessoas e misturavam as diferentes idades. Com a transformação
familiar e o progresso do sentimento da infância a escola passou a ser um instrumento
de inserção social, marcando a passagem da infância para a idade adulta. Nessa época
passou-se a ter uma preocupação em separar a juventude do mundo “sujo"dos adultos e
os pais passaram a se preocupar em vigiar seus filhos mais de perto e não mais deixá-los
aos cuidados de outra família e, dessa forma, houve uma aproximação do sentimento da
família e do sentimento da infância. Para Ariès (1981), o conceito de infância e as atitudes
diante das crianças a partir do século XVIII são fatores marcantes nas transformações das
famílias.
A história da família no Brasil tem suas particularidades, as quais estão relacionadas
ao processo de colonização. No Brasil Colônia a família era regida pelo patriarcalismo no
qual o pai era o detentor absoluto do poder. O código jurídico da época dava ao pai o
direito de punir filhos, esposa e escravos inclusive com castigos físicos. Os filhos estavam
à serviço do pai e esperava-se que a criança crescesse rápido para tornar-se produtiva.
O modelo patriarcal além de ser tido como o modelo ideal a ser buscado pelas famílias
do Brasil Colônia ainda exercia forte influência nos estatutos jurídicos, assim como os
códigos portugueses que passaram a reger as relações do casamento mantendo a autoridade absoluta da figura paterna e, com isso, a submissão, obediência e recato da mulher
(BRITTO, 1993).
Pesquisas realizadas por Correa (1982) e Almeida (1987) citadas por Britto (1993),
contestam sobre o comportamento atribuído às mulheres na sociedade patriarcal, as quais
se restringiam ao convívio no ambiente privado e mantinham o recato e obediência ab-

4

soluta aos seus maridos. Esse modelo parece não ser um modelo feminino generalizado
da época, sendo percebido que os valores tradicionais passaram a ser influenciados pelas
divergências em relação ao comportamento recatado e submisso da mulher. O fenômeno
do mundanismo parece ter sido o que impulsionou o comportamento feminino menos recatado. Esse fenômeno retrata a decadência de costumes da aristocracia e a permissão
dada a mulher para participar do mundo social e de ter prazer sexual, comportamentos
contrários às ordens da Igreja (BRITTO, 1993).
Galano (2006), traçando um panorama da história da família, nos mostra que a Revolução Industrial traz mais mudanças que interferem diretamente na vida familiar. A
família moderna aos poucos vai se tornando conjugal, nuclear e doméstica; a mulher entra
no mercado de trabalho alterando de forma irreversível seu papel dentro da família e os
casamentos passam a ser direcionados mais pelos sentimentos e emoções. No início dos
anos 60, na chamada Idade da Pós-Modernidade, observa-se o aumento dos divórcios e
com isso o aumento dos lares monoparentais, das famílias reconstituídas ou famílias com
filhos de diferentes casamentos. Outro fenômeno observado nesse período é a legitimação
das relações homossexuais, abrindo as portas para a possibilidade da homoparentalidade
na década seguinte. Nos anos 90 continua o aumento dos divórcios e recasamentos assim
como do número de domicílios de uma pessoa. Ao mesmo tempo, surge um movimento
dos filhos adultos voltarem para a casa dos pais ou nem mesmo sair dela.
É inegável a ideia de que a família é uma construção sócio-histórica e que ela reproduz
no indivíduo padrões culturais. As discussões acerca de suas transformações devem levar
em conta a relação entre o passado e o presente de forma que proporcione uma compreensão mais ampla de seu atual processo de construção. E nós, enquanto sociedade,
psicólogos e pesquisadores da família, diante das provocações que surgem no campo das
relações familiares, precisamos refletir acerca de que concepções de família partimos e
qual espaço damos para a inclusão dos novos elementos que contribuem para a ampliação
da noção de sistema familiar e suas diversas possibilidades de configuração.

1.2 Mudanças Familiares: subjetividade e autonomia
O atual contexto sociocultural em que a família está inserida traz uma série de questões acerca de suas características, tanto em relação à sua estrutura como em relação à
sua função. Segundo Kaloustian e Ferrari (2011), a instituição família, apesar de viver em
meio a discussões sobre seu “enfraqueciment”, se mantém como espaço primordial para o
desenvolvimento e proteção dos filhos e dos demais membros que a compõem, independentemente de sua configuração. Os valores culturais e as marcas geracionais se constroem
5

primeiramente em seu interior. Court (2005) afirma que na família “ocorre a ontogênese
de cada ser humano que existe, de um modo absolutamente único e singular” (p. 23). O
jurista brasileiro Caio Mário S. Pereira (1975), citado por Britto (1993), não considera
que haja crise na família moderna, mas novas formas de defini-la que afetam o campo da
lei e do Direito. Britto afirma que ele “acredita que o mundo atual impõe uma concepção
diferente de família, circunscrevendo um Direito com normas mutáveis"(BRITTO, 1993,
p. 52).
Segundo Bruschini (1993), é importante que haja a desnaturalização do conceito de
família e, para isso, é necessário que a família seja entendida enquanto um fenômeno social
mutável. As diversas sociedades apresentam modelos diferentes de organização familiar,
entretanto, apesar dessa diversidade, cada sociedade utiliza-se de um destes modelos como
hegemônicos para descrever as formas de organização familiar.
O viés normativo do modelo de família nuclear também é citado por Szymanski (1997).
Esta autora sinaliza que desde Freud a família é considerada o referencial para o desenvolvimento emocional da criança e essa família é retratada com as figuras de pai, mãe e
filhos seguindo o modelo da família nuclear burguesa. A família, ao se afastar da estrutura do modelo nuclear, foi frequentemente vista como “desestruturada” e os problemas
emocionais que surgiam eram associados a essa “desestrutura”. Sendo assim, o foco era
dado na estrutura da família e não na qualidade de suas inter-relações.
As mudanças ocorridas na família ao longo do tempo mostram um funcionamento
interno diferente dessa família, permitindo mais a expressão pessoal e a autonomia de seus
membros. Em cada país surgem quadros de vida familiar com suas particularidades, no
entanto, vê-se a permanência de uma base comum a qual permite a construção identitária
das crianças e adultos nas relações intrafamiliares (PEIXOTO e CICCHELLI, 2000).
Na modernidade vemos os aspectos socioculturais e a subjetividade sofrendo os efeitos
das constantes transformações sociais. Segundo Figueira (1987), a dimensão da subjetividade é mais resistente à mudança do que a dimensão sociocultural e talvez seja a área
de maior inércia e maior dificuldade no processo de mudança social. O autor fala, ainda,
sobre a coexistência dos antigos e novos ideais e identidades, sinalizando que o arcaico, ao
contrário do que se acredita, se mantém presente, porém de forma invisível, fazendo, de
forma eficaz, oposição ao moderno. Dentro dessa modernização ele sinaliza a existência da
modernização reativa ou falsa modernização que significa a tentativa de eliminar padrões
considerados arcaicos, porém utilizando-se a mesma forma radical, autoritária dos padrões
antigos e sem qualquer possibilidade de opção por parte das pessoas. Dessa forma, não
se garante a modernidade ao se impor conteúdos considerados apropriados socialmente,
em contraposição aos considerados arcaicos, não se admitindo, assim, uma pluralidade de

6

comportamentos.
Figueira sinaliza a importância de se analisar as mudanças sociais indo do “sociologicamente visível” até o “sociologicamente invisível”. Ele define o “sociologicamente visível”
como “aquilo que a maior parte das teorias sociológicas problematiza e nos permite ver e
pensar sistematicamente” (p. 14); e o “sociologicamente invisível” como “toda a dimensão
que a maior parte das teorias sociológicas negligencia, seja porque não percebe sua importância, seja porque a considera da alçada das disciplinas psicológicas” (p. 14). Este
último está representado pelas emoções, desejos e fantasias contidas no sujeito enquanto
agente socializado que é dotado de uma subjetividade.
Segundo Figueira (1987) o processo de modernização da família foi guiado pelo ideal de
uma família igualitária que surgiu a partir da metade do século XX. Até então, prevalecia o
tipo de família hierárquica, na qual o marido tinha uma posição de autoridade em relação
a sua esposa e seus filhos, sendo que os direitos, deveres e privilégios eram concedidos aos
membros da família de acordo com sua posição, sexo e idade
Singly (2000) aponta que, por razões ideológicas e objetivas, as sociedades contemporâneas ocidentais deram espaço para o surgimento da verdadeira essência do indivíduo
e de sua autonomia, o que revelou indivíduos diferentes de gerações anteriores. No entanto, essa procura de si necessita do olhar dos outros e a família é um lugar que dá essa
possibilidade. A vida privada dá essa possibilidade. A família (em suas diversas formas)
nas sociedades individualistas se apropriam da função de consolidar em permanência o
“eu” dos adultos e crianças. Boa parte da identidade pessoal dos indivíduos se constrói no
espaço em que circula o amor. Ao contrário do que se acredita em relação ao individualismo, o indivíduo precisa do olhar de pessoas que lhes são importantes para tornar-se ele
mesmo (SINGLY, 2000).
Singly (2000) aponta que as famílias contemporâneas mantém a lógica do amor trazida
pelas famílias do período precedente, que vai do início do Século XX até os anos 60. No
entanto, elas se distinguem das precedentes ao dar maior peso ao processo de individualização no qual o elemento central passa a ser os membros que compõem o grupo e não
mais o grupo reunido. A relação conjugal se modifica diante da maior independência das
mulheres, da possibilidade do divórcio com consentimento mútuo e diminuição do poder
paterno. Essa família é caracterizada como “individualista e relacional”. Ao se compor
com a individualização a família contemporânea se mostra paradoxalmente frágil e forte.
Sua fragilidade está no desconhecimento da duração de sua existência, e sua força na
existência da possibilidade de ter a vida privada com uma ou várias pessoas próximas,
desejo da maioria das pessoas, desde que a família não seja percebida como sufocante. E,
na fala do autor, “é nessa tensão entre os dois pólos (relacional e individualista) que se

7

constroem e se desfazem as famílias contemporâneas” (SINGLY, 2000, p. 15).

1.3 Casamento
Assim como a família, o casamento também vem passando por uma série de transformações ao longo do tempo. O que antes era visto como algo indissolúvel hoje tem
uma perspectiva de que se pode tomar a decisão de se manter ou não na relação marital.
Fatores como as transformações no papel feminino, a co-habitação antes do casamento, o
aumento da expectativa de vida, colaboram para as mudanças na concepção de casamento.
(MAYOR e FARIAS, 2012).
Numa perspectiva histórica sobre o casamento, Britto (1993) aponta que ao longo do
tempo percebe-se que as diversas regulamentações a respeito do casamento e do divórcio
são estabelecidas alternadamente entre o Estado e a Igreja, de acordo com os diferentes
períodos históricos. Apenas no século XIX surge uma legislação civil brasileira a ser
aplicada ao casamento dos que não eram católicos. A Proclamação da República na
história do Brasil é um elemento importante para a desvinculação da Igreja com o Estado.
O decreto 181 de 1890 aboliu a jurisdição eclesiástica passando a considerar como único
casamento válido aquele que for realizado perante as autoridades civis. O Código Civil
Brasileiro de 1916 atribui o termo família à união legalmente constituída pela via do
casamento civil e a Constituição de 1988, no artigo 226, parágrafo terceiro, reconhece a
“união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar"e no parágrafo segundo
admite que “o casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei".
Em meados do século XIX chega ao Brasil um movimento que preconizava normas
e hábitos que colaborariam com o aprimoramento da saúde coletiva e individual. Esse
movimento foi denominado de “movimento higienista"e sua ideia central era a valorização
da população, vendo-a como talvez o principal recurso da humanidade (GÓIS JÚNIOR,
2007). O casamento recebeu influências desse movimento o qual sinalizou e combateu
hábitos que vinham do sistema patriarcal do Brasil Colônia.
Segundo o movimento higienista o que sustenta o casamento é o amor. Na época do
Brasil Colônia esse fator não era levado em conta. Os casamentos aconteciam a partir
de motivações econômicas e sociais e eram determinados pelas famílias. Com a chegada
da família real ao Brasil a escolha dos noivos, realizada pelo patriarca, passou a incluir a
educação e boas maneiras como atributos a serem levados em conta. A medicina passa
a ter forte influência na orientação sobre os costumes em relação às uniões conjugais.
Questões como casamento cosanguíneo e a grande diferença de idade entre os noivos são
discutidas e avaliadas como risco diante da prole gerada nessas uniões, sendo impostas
8

novas formas de relação familiar, o que contribuiu para que o casal passasse a ter como
compromisso primordial os filhos (BRITTO, 1993).
Com a industrialização muitas famílias rurais migram para as cidades e trazem consigo
hábitos que foram desaprovados pelos higienistas, como a grande quantidade de pessoas
dentro da casa, poucas condições de higiene e habitações inadequadas. Os novos valores
higiênicos trouxeram a criança para um lugar de destaque nos cuidados e atenção do casal
e a partir disso reafirmou-se as características próprias e os respectivos papeis sociais do
homem e da mulher (BRITTO, 1993). Segundo os higienistas homens e mulheres eram
opostos, enquanto a mulher era frágil, delicada, sua moral era constituída de forma débil
e havia nascido para a maternidade, o homem era forte e vigoroso tanto no físico como
na moral, no entanto, ao assumirem seus respectivos papeis de pai e mãe as arestas
de suas diferenças eram aparadas. Com a suposição do instinto materno as mulheres
recebem o “compromisso"de exercer a maternidade, se tornando quase um sacerdócio e ao
homem é reservado que a realização da paternidade será sua mais alta expressão humana
(COSTA, 1979). Segundo Costa (1979) a maternidade e a paternidade foram construídas
socialmente a partir da identificação com a feminilidade e a masculinidade.
Até a primeira metade do século XX, ter filhos e constituir família eram os objetivos
primordiais do casamento e, o casamento para a mulher, era a única forma permitida de
acesso à vida sexual. Atualmente outros elementos passam a fazer parte dos objetivos do
casamento: encontrar felicidade, cumplicidade e realização pessoal. Féres-Carneiro (1998)
fala sobre o desafio que os casais enfrentam diante de uma dinâmica que envolve duas
individualidades e uma conjugalidade, ou seja, dois sujeitos com suas respectivas histórias
pessoais convivendo com um projeto conjugal. Essa construção do casal é denominada
pela autora de “identidade conjugal”. Atualmente, os ideais das relações conjugais dão
maior ênfase a autonomia e satisfação de cada cônjuge do que à interdependência entre
eles. No entanto, há uma demanda para a criação de uma zona comum de interação e o
casal passa a viver duas forças paradoxais onde, por um lado, a autonomia dos cônjuges
é estimulada pelos ideais individualistas e, por outro, existe a necessidade de vivenciar a
realidade comum do casal, a conjugalidade.
A conjugalidade contemporânea tem se apresentado de formas múltiplas. Elas se constituem e se desconstituem num ritmo cada vez mais acelerado e ainda apresenta uma outra
vertente que é a de se reconstituir (seguindo o mesmo ritmo acelerado). Nos relacionamentos contemporâneos percebe-se uma supervalorização do aqui-e-agora e a satisfação individual torna-se elemento principal para a manutenção da relação (FÉRES-CARNEIRO,
ZIVIANI & MAGALHÃES, 2011). Magalhães (2009) afirma que a conjugalidade contemporânea traz a idealização do sentimento amoroso e da privatização das relações, fatores

9

que passam a ser importantes para o sucesso conjugal. A autora aponta ainda o processo de transmutação das subjetividades dos parceiros ativado pela dinâmica de trocas
intersubjetivas próprias da conjugalidade.
Segundo pesquisa realizada por Silva Neto, Strey e Magalhães (2011) apesar da visibilidade dos diversos modelos de relação conjugal, a família e a sociedade ainda evitam
discutir de forma aberta essa diversidade. A tendência de se referirem ao modelo tradicional de conjugalidade permanece mesmo que haja novas necessidades que o modelo
tradicional já não supra. A transgeracionalidade1 é um dos fatores reforçadores para a
manutenção de tal modelo o qual se sofrer modificação pode gerar sentimentos de deslealdade ao grupo familiar de origem. Porém, a transgeracionalidade é mutável e dinâmica
o que possibilita transformações e já é presente na atualidade uma busca de modelos
diferentes sem estar presa a padrões relacionais pré-estabelecidos. Os autores mostram,
ainda, que há uma ambivalência nas motivações para a conjugalidade. Ao mesmo tempo
em que se busca construir novos padrões de relacionamento há o desejo do retorno aos
padrões tradicionais.
Féres-Carneiro e Ziviani (2009) sinalizam a influência dos padrões familiares na construção dos ideais de conjugalidade de cada pessoa.
A conjugalidade, na literatura psicanalítica das relações amorosas, é definida
como uma identidade compartilhada, produto de uma trama identificatória inconsciente dos sujeitos-parceiros, que se origina na história familiar de cada
um e se dirige a um ideal conjugal compartilhado. Os parceiros são inconscientemente impulsionados no sentido da realização de mandatos familiares
transmitidos (FÉRES-CARNEIRO & ZIVIANE, 2009).

Segundo João (1993), os casais ao se encaminharem para a vida conjugal levam consigo
fantasias e expectativas alimentadas por crenças, modelos e “receitas” de sucesso, vindos
de suas famílias de origem, seu meio social e suas experiências de vida. No entanto, a
autora afirma que esses elementos tendem a afastar o casal de seu objetivo maior que
é a felicidade pelo simples fato de faltar disposição para pensar e repensar o próprio
casamento. Ter como objetivo maior no casamento a felicidade é um modo de conceber a
conjugalidade.
Nas sociedades Pós-Modernas o individualismo é uma ideologia marcante. Vieira e
Stengel (2010) afirmam que nesse individualismo o sujeito pós-moderno pode se perder ao
colocar os interesses individuais acima dos interesses da coletividade. Há uma supervalorização da liberdade individual denotando uma indiferença com as questões da sociedade.
Segundo os autores, é nessa perspectiva do individualismo pós-moderno que as relações
1

termo “representativo dos processos que são transmitidos pela família de uma geração a outra e se
mantêm presentes ao longo da história familiar” (Falcke e Wagner, 2005, p. 26)

10

amorosas contemporâneas estão pautadas. Há uma busca pela estabilidade e segurança
no relacionamento, no entanto, é necessário que haja qualidade na relação e caso ocorra
um cerceamento exagerado da liberdade individual o rompimento do relacionamento surge
como solução para garantir o bem estar individual.

1.4 Divórcio: a conjugalidade desfeita
No Brasil o divórcio foi instituído em 1977, depois de uma longa batalha política. Brito
(1993) comenta que os juristas brasileiros são unânimes em afirmar que a Lei 6515 de 26
de dezembro de 1977, conhecida popularmente como Lei do Divórcio, “foi a mais relevante
nos tempos atuais no que diz respeito ao Direito de Família no Brasil” (p.56). Até então,
os casais ao se separarem tinham que conviver com o preconceito de uma sociedade que
estigmatizava principalmente a mulher e seus filhos.
Na década de 80 o divórcio aparece com vigor como a solução para a saída de uma
relação infeliz. Hoje, percebe-se que a realização pessoal e a individuação almejadas pelo
divórcio, nem sempre acontecem (NAZARETH, 2004). Além da emancipação feminina
com todos os seus reflexos percebe-se que a religião já não tem tanta força na manutenção
do vínculo matrimonial e a atual família nuclear urbana e a instituição do casamento estão passando por momentos singulares. Segundo o IBGE (2010), o percentual de pessoas
divorciadas no Brasil quase dobrou, passando de 1,7%, em 2000, para 3,1% em 2010. Essa
alta taxa de dissoluções conjugais propicia transformações sociais já que cria novas possibilidades de organização familiar. Aparentemente, o aumento da taxa de divórcio dá ao
casamento o status de uma instituição fadada ao fracasso, uma instituição desvalorizada.
No entanto, as separações podem mostrar o contrário, ressaltando a importância dela. É
o que afirma Féres-Carneiro (2003):
Os cônjuges se divorciam não porque desqualificam o casamento, mas porque o
valorizam tanto que não aceitam que a relação conjugal não corresponda às suas
expectativas. Portanto, longe de significar uma desvalorização do casamento, o
divórcio reflete uma exacerbada exigência dos cônjuges. Assim, na maior parte
dos casos, os divorciados acabam caminhando para o recasamento (FÉRESCARNEIRO, 2003, p. 368).

Petrini (2005) sinaliza que o ideal do sacrifício individual em prol da família passa a
ser questionado diante da necessidade de satisfação no presente. O ponto de saturação no
relacionamento conjugal passou a ser alcançado mais rápido em função da diminuição do
limite da disponibilidade individual ao sacrifício para o bem do outro. A independência
financeira dos cônjuges os coloca numa posição social mais igualitária, o que facilita a

11

ruptura da relação familiar quando já não há mais prazer e satisfação na convivência
conjugal.
O divórcio acontece trazendo uma série de mudanças para todos os membros do grupo
familiar, mesmo quando a separação é consensual, o que exige um olhar atento aos desdobramentos que podem trazer dificuldades (BRITTO, 2008). O período da separação
torna-se um período longo pois compreende todo o tempo que vem antes da separação
propriamente dita e o tempo posterior, até que haja o reequilíbrio de todos. Segundo
Féres-Carneiro (2003), a identidade conjugal construída no casamento se desfaz e os cônjuges passam a redefinir suas identidades individuais, o que é acompanhado de sentimentos
ambíguos que expressam a sensação de liberdade misturada ao sentimento de solidão.
Nazareth (2004) afirma que no divórcio a família não acaba e, sim, se transforma.
Quando existem filhos, a estrutura do sistema muda, mas a família enquanto organização
mantém-se. Aspectos como as atribuições dos pais, o compromisso dos filhos e a responsabilidade de todos pela qualidade da relação afetiva permanecem. Em uma separação a
conjugalidade e a tutelaridade partilhada acabam, porém a parentalidade e a tutelaridade
exercidas isoladamente por cada um dos pais devem permanecer, pois tanto os pais como
os filhos devem zelar pela permanência das relações de afeto. A autora aponta que é um
erro comum se pensar que a família deixa de existir por causa da separação conjugal.
O processo do divórcio é muito desgastante e, frequentemente, provoca uma crise em
toda a família. Segundo Vaitsman (1994), a crise é muito maior e mais difícil para as
mulheres do que para os homens. Habitualmente a mulher fica com a guarda dos filhos o
que lhe gera uma carga maior de responsabilidade, pois fica responsável pela educação e
criação dos filhos além de ter que dar conta de suprir as necessidades da casa e dela mesma.
Entre tantas dificuldades advindas do divórcio, ainda tem a questão financeira que, muitas
vezes, obriga a mulher a entrar no mercado de trabalho após anos de dedicação exclusiva
aos cuidados domésticos com a família. E, a partir daí, ela passa a ter que conciliar
o mundo público com o mundo privado, fato que pode ser visto como um benefício do
divórcio para a mulher, ampliando suas possibilidades.
No processo do divórcio é importante que os filhos fiquem fora do conflito conjugal,
pois quem se separa é o casal conjugal, ficando o casal parental permanentemente com
a função de cuidar e prover as necessidades tanto materiais como afetivas de seus filhos.
Segundo Féres-Carneiro (1998), os filhos precisam ter essa certeza:

12

Costumo afirmar que o pior conflito que os filhos podem vivenciar, na situação
de separação dos pais, é o conflito de lealdade exclusiva quando exigida por
um ou por ambos os pais. A capacidade da criança e do adolescente de lidar
com a crise que a separação deflagra vai depender sobretudo da relação que
se estabelece entre os pais e da capacidade destes de distinguir, com clareza,
a função conjugal da função parental, podendo assim transmitir aos filhos a
certeza de que as funções parentais de amor e de cuidado serão sempre mantidas
(FÉRES-CARNEIRO, 1998, p. 9).

Segundo Oliveira (2005), uma das primeiras expressões dos filhos diante do divórcio
são os impactos sentidos pelas mudanças que provocam confusão e a sensação de estarem
perdidos, emergindo sentimentos de profundas perdas emocionais e materiais e a percepção
de que a família está se fragmentando. Um dos aspectos mais críticos no restabelecimento
do equilíbrio, ajustamento e funcionamento familiar é a relação pós-divórcio. Garbar e
Theodore (2000) enfatizam que os filhos reagirão à situação conforme a maneira como
seus genitores vivenciaram o divórcio. Afirmam:
A adaptação da criança vai depender essencialmente da qualidade das relações
que os pais vão estabelecer com ela. Isso está estreitamente ligado à maneira
como os pais estão vivendo a separação. Se a interpretam como um fracasso,
a criança pode vir a se sentir a imagem viva desse fracasso. Mas se o divórcio
representa o fim dos conflitos, ele vai ter outro sentido para a criança. Quando
não for assim, o que, infelizmente, é mais comum, a criança fica desamparada
e não entende mais nada (GARBAR e THEODORE, 2000, p. 126).

Os estudos sobre família apontam que geralmente espera-se dos progenitores que após
o divórcio se mantenham exercendo suas funções educativas e participando das atividades dos filhos, pois essa atitude pode garantir bons níveis de saúde no desenvolvimento
deles. Enfatiza-se, assim, a importância de que o casal faça essa distinção entre a conjugalidade e a parentalidade. Na década de 70 surgiu o termo "coparentalidade"que se
refere exatamente a necessidade da manutenção no cuidado dos filhos, não só na situação de divórcio como também durante o casamento quando os pais negociam seus papeis
e responsabilidades. Fatores presentes no casamento e no processo de divórcio dá uma
ideia da natureza da coparentalidade pós-divórcio, ou seja, o estilo de relação durante a
conjugalidade e durante o processo do divórcio será o estilo da relação na coparentalidade
(GRZYBOWSKI, 2011).
Apesar da dor e do estresse geralmente causado pela separação conjugal, ela também
pode ter efeitos construtivos para o grupo familiar principalmente quando o casamento

13

está sendo mantido às custas da autodestruição e da destruição do outro. Segundo FéresCarneiro (1998), inicialmente há uma desorganização no sistema familiar, no entanto, um
novo patamar de organização se alcança e os divorciados frequentemente terminam se
encaminhando para o recasamento.

1.5 Recasamento: nova conjugalidade
Segundo Ribeiro (2005) o recasamento é o arranjo não necessariamente oficializado
em que, no mínimo, um dos cônjuges foi casado anteriormente, tendo ou não filhos dessa
união. O recasamento dá início a uma nova etapa do ciclo de vida familiar e provoca
alterações na dinâmica relacional do grupamento (MCGOLDRICK e CARTER, 1995).
Até algumas décadas atrás, o recasamento acontecia com maior freqüência após a
viuvez. Com a aprovação da Lei do Divórcio, Lei no 6.515, de 26 de dezembro de 1977,
o recasamento passou a acontecer mais a partir da dissolução conjugal (COSTA, 2008).
Garbar e Theodore (2000) apontam que antigamente a morte separava os casais tanto
quanto o divórcio na atualidade. Na idade média, o segundo casamento acontecia de
forma freqüente assim como nos séculos XVI e XVII, principalmente nos períodos de
guerra, epidemias e fome. A partir do século XVIII esse índice foi reduzido sensivelmente.
Como já indicado, a sociedade contemporânea vem se deparando com uma série de mudanças sociais no âmbito familiar que a deixam, muitas vezes, sem saber como conceituar
e tratar as diferentes situações emergentes. Um importante fenômeno a ser compreendido
é o alto índice de recasamentos pós-divórcio e suas repercussões na família atual.
O modelo tradicional de família formada por pai, mãe e filhos morando na mesma casa
passou a não ser modelo único dando espaço para o modelo multifacetado o qual compreende diferentes configurações familiares e novas formas de funcionamento dos sistemas
familiares nuclear e extenso (CERVENY et al, 1997). A família recasada nos mobiliza a
repensar a ideia cultural de família.
Frequentemente a família recasada ainda é vista como “disfuncional”, mas, segundo
Féres-Carneiro (1998) esses núcleos familiares são capazes de promover saúde da mesma
forma que as famílias de primeiro casamento. A autora defende que é a qualidade das
relações que dará a competência para as famílias, independente delas serem casadas,
separadas ou recasadas. Além disso, ela afirma que a família recasada tem características
próprias e é importante que ela não seja vista como uma família nuclear recriada.
Inicialmente o recasamento pode parecer a repetição da vivência do primeiro casamento, no entanto, partindo de um olhar mais aprofundado devemos levar em conta que
ali se construiu uma nova conjugalidade envolvendo outros sujeitos, outras perspectivas,
14

outros projetos de vida e outros membros. Le Gall (1993) chama a atenção para o fato de
que os casais recasados iniciam essa nova relação com marcas da relação anterior e com
preocupações em torno dos seus novos papeis. Além disso, as novas formações familiares
tendem a querer repetir os mesmos padrões relacionais, baseados no modelo de família
nuclear tradicional (WAGNER, 2002; RIBEIRO, 2005). Amaral (2010) afirma que o recasamento envolve diversas mudanças tanto na estrutura familiar como em suas relações,
decorrentes da entrada de novos membros na família.
Com a diversidade de configurações familiares surge a discussão em torno da parentalidade. Ferreira (2011) afirma que, com o aumento dos casos de divórcio nos últimos
quarenta anos, observa-se o aumento do número de famílias monoparentais, com parentalidade não-residente e recompostas. O modelo ocidental de parentesco baseia-se na
biologia e na exclusividade, ou seja, valoriza os laços sanguíneos (CARVALHO, 2012). E
como fica a questão da parentalidade diante das diferentes configurações familiares resultantes dos recasamentos? A concepção de pluriparentalidade surge exatamente para
tentar trazer uma visão mais ampla e possível frente a essas diferentes configurações familiares. Segundo Uziel (2000), a pluriparentalidade parte do pressuposto da dissociação
do biológico e do social, questionando a primazia do biológico e dando espaço para as
relações sociais. “Adotar a pluriparentalidade significaria, assim, reconhecer os limites da
biologia e valorizar, ao mesmo tempo, os laços construídos com a convivência e a partir do
desejo.” (UZIEL, 2000, p. 10). Nesse contexto, as relações passam a ter uma importância
central para a compreensão das famílias e não só os aspectos biológicos.
O conceito de pluriparentalidade vem auxiliar na discussão dos papeis parentais estabelecidos e possíveis em contextos de recasamento. Na perspectiva da pluriparentalidade,
entende-se que as funções de cuidado, amor e proteção podem ser plenamente exercidas
por outros adultos que não sejam pai e mãe biológicos. Ferreira (2011) fala do movimento
que ocorre quando da saída da esfera doméstica de um dos pais biológicos que, muitas
vezes, vem acompanhado da entrada de um pai/mãe social. Esse movimento proporciona
a criação de uma tríade parental, na qual “a criança passa a contar com, pelo menos,
três adultos para ocuparem os dois lugares parentais com existência prévia - pai e mãe”
(FERREIRA, 2011, p. 1).
Nesse ponto entra a discussão do lugar e da função do padrasto em relação aos seus
enteados. Com o passar do tempo, observam-se mudanças com relação ao reconhecimento
da importância social da presença do padrasto no contexto da família recasada. Saraiva
(2013) aponta que o cenário jurídico vem, gradativamente, se modificando com o intuito de
atender às demandas advindas das relações sociais que se formam nas famílias recasadas
e sinaliza essa situação citando, como exemplo, a Lei no 11.924/2009 (Lei Clodovil) que

15

possibilita a averbação do sobrenome do padrasto no registro civil de seus enteados.
Os pesquisadores de família também se debruçam sobre este tema, buscando compreender as repercussões culturais e psicológicas da presença do padrasto na família recasada,
frequentemente apoiados pelo conceito de pluriparentalidade. Carvalho (2012) fala da necessidade que as famílias recasadas têm da pluriparentalidade, pois ao invés de se pensar
em exclusão do pai biológico ou do padrasto pensa-se nessas duas figuras exercendo ao
mesmo tempo funções parentais. Na perspectiva da Antroplogia, Segalen (1996), ao falar
sobre a recomposição familiar, faz menção a uma “abundância” de parentes. Ela diz:
A noção de família é dissociada da de co-residência; será antes uma abundância
e não uma falta de parentes que estas crianças conhecem, com o padrasto, a
madrasta, os meios-irmãos e os falsos irmãos, seis ou oito casais de avós, etc
(Segalen, 1996, p.64).

Com isso, percebe-se que no contexto de recasamento a parentalidade biológica passa
a não ser a única forma de convívio da criança ou adolescente.
No cenário da família recasada é a conjugalidade que traz para o grupo familiar a figura
do padrasto. Essa conjugalidade é formada trazendo consigo uma bagagem emocional e
membros que surgiram em relações conjugais anteriores (RIBEIRO, 2005). O divórcio
e o recasamento trazem discussões em torno de vários aspectos familiares, como, por
exemplo, a parentalidade. Tanto na dissolução como na construção da conjugalidade
surgem conflitos frente ao exercício da parentalidade.
O conceito de parentalidade veio para dissociar a obrigatoriedade da associação com
o vínculo biológico. Ferreira (2011) pontua que o que diferencia a parentalidade do parentesco é justamente a possibilidade que a parentalidade dá de integração das pessoas
que desempenham uma função parental frente à criança e que é legitimada por sua competência parental e não por um estatuto jurídico do adulto, há uma partilha das funções
parentais entre várias pessoas. E nesse contexto a figura do padrasto passa a ter essa
possibilidade de parentalidade já que em muitos casos ele assume essa posição de cuidar
dos filhos de sua companheira.
A presença do padrasto na família recasada, portanto, inaugura uma modalidade de
experiência relacional que precisa ser conhecida e compreendida. Mas, como os pesquisadores de família estão problematizando e discutindo a presença do padrasto nas famílias
recasadas? É o que pretendemos aprofundar a partir da pesquisa realizada.

16

Capítulo

2
O Caminho Metodológico e Construção
de Dados Preliminares

O presente estudo se propôs a realizar uma pesquisa bibliográfica sobre o padrasto
na família recasada na produção acadêmica brasileira. Foi escolhida a pesquisa bibliográfica pelo fato de que este tipo de estudo busca contribuir com uma crítica à produção
acadêmica e para o avanço do conceito de padrastro. Segundo Lima e Mioto (2007) a
pesquisa bibliográfica é um dos procedimentos mais utilizados pelos pesquisadores em estudos exploratórios ou descritivos e “implica em um conjunto ordenado de procedimentos
de busca por soluções, atento ao objeto de estudo e que, por isso, não pode ser aleatório"(LIMA e MIOTO, 2007, P.38). Ainda segundo as autoras, a pesquisa bibliográfica
oferece um amplo alcance de informações permitindo a utilização de dados distribuidos
em diversas publicações, contribuindo, dessa forma, com uma melhor definição do quadro
conceitual do objeto em estudo. A pesquisa biblioigráfica se distingue da revisão bibliográfica no sentido de que vai além da simples observação dos dados pesquisados, pois
busca a compreenção crítica dos significados contidos neles.
Pesquisadores apontam que essa nova constituição familiar levanta uma série de questões em torno da nomenclatura usada para identificar seus novos membros e da (in)definição
das novas relações entre seus membros (LOBO, 2005; SOARES, 2009; WATARAI, 2010).
Neste sentido, foram utilizados vários descritores de busca bibliográfica a fim de permitir um amplo acesso à material relevante ao tema estudado.O levantamento bibliográfico
foi realizado a partir de pesquisa em cinco bases de dados: 1) Scielo Brasil; 2) Index
Psi Revistas Técnico-Científicas (Biblioteca Virtual em Saúde - Psicologia); 3) Index Psi
Teses (Biblioteca Virtual em Saúde - Psicologia); 4) Banco de Teses da CAPES e 5)

Portal da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia - IBICT. A escolha desses bancos de dados está condizente
com sua importância no cenário acadêmico nacional, assim como com a acessibilidade e
a credibilidade existentes. A busca por artigos, teses e dissertações nas bases de dados
foi realizada a partir dos seguintes descritores:padrasto(s), recasamento(s), recasado(s),
família(s) recasada(s), família(s) reconstituída(s) e família(s) recomposta(s). Os descritores foram usados no singular e no plural para minimizar a possibilidade de deixar alguma
publicação fora da pesquisa. Foram alvos da pesquisa os artigos, teses e dissertações produzidos no Brasil e publicados até 2013. Neste sentido, foram utilizados vários descritores
de busca bibliográfica a fim de permitir um amplo acesso a material relevante ao tema
estudado.O levantamento bibliográfico foi realizado a partir de pesquisa em cinco bases
de dados: 1) Scielo Brasil; 2) Index Psi Revistas Técnico-Científicas (Biblioteca Virtual
em Saúde - Psicologia); 3) Index Psi Teses (Biblioteca Virtual em Saúde - Psicologia);
4) Banco de Teses da CAPES e 5) Portal da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações
do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia - IBICT.A escolha desses
bancos de dados está condizente com sua importância no cenário acadêmico nacional,
assim como com a acessibilidade e a credibilidade existentes. A busca por artigos, teses
e dissertações nas bases de dados foi realizada a partir dos seguintes descritores: padrasto(s), recasamento(s), recasado(s), família(s) recasada(s), família(s) reconstituída(s)
e família(s) recomposta(s). Os descritores foram usados no singular e no plural para minimizar a possibilidade de deixar alguma publicação fora da pesquisa. Foram alvos da
pesquisa os artigos, teses e dissertações produzidos no Brasil e publicados até 2013.
A partir da pesquisa realizada nas bases de dados citadas acima, organizou-se os
resultados encontrados em função de cada descritor e de cada banco de dados.
Inicialmente foram contabilizadas todas as publicações que surgiram, incluindo os
trabalhos repetidos entre os descritores e as bases de dados, totalizando 421 publicações.
A tabela 2.1, apresenta o resultado dessa busca inicial.
Tabela 2.1: Total de publicações encontradas nas bases de dados pesquisadas em função de cada descritor.
Descritores
Familia(s)
Recasada(s)

Família(s)
Reconstruída(s)

Familia(s)
Recomposta

Total

3
5
1
50
10

3
0
0
0
12

5
0
0
0
48

3
0
0
0
21

37
40
23
174
147

69

15

53

24

421

Base de Dados

Padrastros Recasamento Recasados

Scielo Brasil
Index Psi Revista
Index Psi Teses
Banco Teses CAPES
IBICT BDTD

17
16
12
74
31

6
19
10
50
25

Total

150

110

Fonte:Autora, 2014.

Após essa busca inicial, percebeu-se que os descritores padrasto/padrastos foram os
18

que mais trouxeram publicações, totalizando 150 publicações (35,6%), seguidos pelos descritores recasamento/recasamentos com 110 publicações (26,1%), recasado/recasados com
69 publicações (16,4%), família reconstituída/famílias reconstituídas com 53 publicações
(12,6%), família recomposta/famílias recompostas com 24 publicações (5,7família recasada/famílias recasadas com 15 publicações (3,6%). Com relação aos bancos de dados,
percebeu-se maior incidência de publicações no Banco de Teses da CAPES com 174 publicações (41,3%),seguido do IBICT BDTD com 147 publicações (34,9%), Index Psi Revista
com 40 publicações (9,5%), Scielo Brasil com 37 publicações (8,8%) e Index Psi Teses com
23 publicações (5,5%).
A partir desse material selecionado, foi realizada uma leitura de reconhecimento, através dos resumos dos artigos, dissertações e teses encontrados. As leituras realizadas
nesse processo de pré-seleção são denominadas leitura exploratória e leitura seletiva, que
caracterizam-se por serem leituras rápidas que visam verificar se os dados selecionados
referem-se diretamente ao objeto de estudo investigado (LIMA e MIOTO, 2007).
Foram eliminadas as publicações que não foram consideradas relevantes aos objetivos
do presente estudo, resultando um total de 152 publicações. Foram excluídos os trabalhos
que pesquisaram famílias de casais homossexuais, por se considerar que tais estudos, embora muito relevantes, trazem questões específicas destas configurações familiares, as quais
exigiriam uma ampliação da discussão para além do âmbito do recorte proposto no presente trabalho. Foram também excluídos estudos sobre trabalhos literários que abordam
o tema de famílias com padrasto, como, por exemplo, a Dissertação Mãos de Concreto,
de Leonardo Josef Schifino Wittmann (2014); Dissertação De Sinhazinha a jagunça / De
Senhorinha a senhora: uma leitura de Memorial de Maria Moura e Dôra, Doralina, de
Jerri Antonio Langaro (2006). Foram, ainda, eliminadas pesquisas nas áreas da Medicina,
Odontologia, Nutrição, Serviço Social, Direito, Educação, História, Geografia, Sociologia,
Biologia as quais abordam o tema numa perspectiva de informações de dados sóciodemográficos da população pesquisada, sem abordar as implicações da presença do padrasto na
família. Outro critério para exclusão dos trabalhos das referidas áreas foi o fato de aparecer em seus resumos ou corpo do trabalho os descritores utilizados na busca nos bancos
de dados sem apresentar relação com o tema estudado, como, por exemplo, a Dissertação Trajetórias ocupacionais de trabalhadores desligados do setor de telecomunicações,
de Paulo Herbert C. da Silva (2003), que traz as palavras família e reconstituição em seu
resumo, e a Tese Dinâmica de populações de Paepalanthus polyanthus (Eriocaulaceae) na
Serra do Cipo, MG, de José Eugênio Cortes Figueira (1998), que traz a palavra família
em seu resumo. A Tabela 2.2 mostra o resultado dessa pré-seleção.
Após essa leitura de reconhecimento, percebeu-se que os descritores que tiveram mais

19

Tabela 2.2: Total de publicações selecionadas para o estudo após leitura exploratória.
Base de Dados

Descritores
Padrastros Recasamento Recasados Familia(s)
Família(s)
Familia(s)
Recasada(s) Reconstruída(s) Recomposta

Total

Scielo Brasil
Index Psi Revista
Index Psi Teses
Banco Teses CAPES
IBICT BDTD

9
9
9
10
14

5
11
8
16
15

Total

51

55

1
2
1
16
6

3
0
0
0
8

4
0
0
0
3

0
0
0
0
2

22
22
18
42
48

26

11

7

2

152

Fonte:Autora, 2014.

publicações relevantes para o estudo foram recasamento/recasamentos totalizando 55
publicações (36,2%), seguidos pelos descritores padrasto/padrastos com 51 publicações
(33,6%), recasado/recasados com 26 publicações (17,1%), família recasada/famílias recasadas com 11 publicações (7,2%), família reconstituída/famílias reconstituídas com 7
publicações (4,6%) e família recomposta/famílias recompostas com 2 publicações (1,3%).
Após essa seleção foi realizada uma análise para eliminar possíveis repetições de trabalhos
tanto por descritor como por base de dados. Os artigos, dissertações e teses selecionados
para o estudo após eliminadas as repetições, foram agrupados em função das áreas de
conhecimento às quais estão vinculados. A Tabela 2.3 mostra o resultado desse agrupamento.
Tabela 2.3: Quantitativo de trabalhos selecionados para o estudo, encontrados nas bases de dados pesquisadas, por
área de conhecimento.
Área de Conhecimento

Artigos

Dissertação

Teses

Total

Psicologia
Antropologia
Direito
Demografia
Serviço Social
Sociologia
Enfermagem
Saúde Pública

26
0
0
0
0
0
2
3

19
2
1
0
1
1
0
0

9
0
0
1
1
0
0
2

54
2
1
1
2
1
2
5

Total

31

24

13

68

Fonte:Autora, 2014.

Percebe-se que a maioria (79,4%) das publicações acadêmicas encontradas sobre o padrasto na família recasada, está vinculada à área da Psicologia. Esta predominância se
verifica nas três modalidades de publicação (artigos, dissertações e teses) estudadas.Este
é um dado importante considerando-se a interdisciplinaridade do tema familia, foco de
interesse das diversas ciências humanas e sociais. Percebe-se também que a maior incidência de publicações na área da Psicologia é de artigos com 26 trabalhos (48,1%) seguido
de dissertações com 19 trabalhos (35,2%) e teses com 9 trabalhos (16,7%).
Outro dado observado foi que as publicações em Psicologia tiveram um número mais
20

expressivo a partir do ano de 2000, como mostra a Tabela 2.4.
Tabela 2.4: Quantitativo de publicações em Psicologia por período.
Período
1987 - 1981
1992 - 1986
1997 - 2001
2002 - 2006
2007 - 2013
Total

Artigos
1
2
6
6
11
26

Dissertação
2
0
3
8
6
19

Teses
0
0
0
4
5
9

Total
53
2
9
18
22
54

Fonte:Autora, 2014.

Na etapa seguinte, os textos vinculados à área da Psicologia (Apêndice A) passaram
por uma leitura integral, denominada leitura reflexiva ou crítica, a qual tem como “...
finalidade ordenar e sumarizar as informações ali contidas. (...) Momento de compreensão
das afirmações do autor e do porquê dessas afirmações.” (LIMA e MIOTO, 2007, p. 41).
Para esse momento, foi utilizado um roteiro para leitura (Apêndice B), que, segundo Lima
e Mioto (2007), é um instrumento que contribui para a captura de informações presentes
nas obras que sejam pertinentes para a compreensão do objeto em estudo.
Alguns dos trabalhos selecionados para o estudo não estavam acessíveis na íntegra
através da internet. A partir dessa observação, esses trabalhos passaram a ser buscados
via biblioteca da Universidade Federal de Alagoas, via e-mails para as bibliotecas das
Universidades nas quais os trabalhos foram produzidos e para os autores dos trabalhos.
Inicialmente eram 14 trabalhos não acessíveis, porém alguns contatos foram exitosos e 5
trabalhos foram recebidos via e-mail. No entanto, ainda ficaram sem respostas 5 contatos
de solicitação e não tive acesso aos contatos dos autores de 4 trabalhos. A tabela 2.5
mostra o quantitativo de artigos, dissertações e teses de Psicologia selecionados para esta
fase de análise, acessíveis e não acessíveis via internet. O quantitativo apresentado nesta
tabela já excluiu os trabalhos repetidos encontrados entre as cinco bases de dados.
A partir dessa leitura, foram destacadas e analisadas as discussões apresentadas nos
textos da área da Psicologia acerca das concepções de padrasto e o lugar que ele ocupa
na família recasada. Esta etapa, segundo Lima e Mioto (2007), é denominada de leitura interpretativa, onde as ideias expressas no estudo analisado são relacionadas com o
problema de pesquisa em debate.
A partir dos trabalhos de Psicologia que foram analisados, foram identificados os
aportes teóricos utilizados pelos autores. Importante informar que as concepções teóricas
adotadas em 9 trabalhos não foram explicitadas nos textos, mas estão subjacentes aos
conteúdos analisados; destes, 3 partem de uma perspectiva sistêmica e 6 de uma abor21

Tabela 2.5: Total de artigos, dissertações e teses de Psicologia selecionados para leitura
interpretativa, encontrados nas bases de dados pesquisadas, acessíveis e não acessíveis via
internet
Documentos Acessíveis Não acessíveis Total
Artigos
23
3
26
Dissertação
14
5
19
Tese
8
1
9
Total
45
9
54
Fonte:Autora, 2014.

dagem que denominamos interdisciplinar nos estudos de família. Um artigo de revisão
da literatura sobre o recasamento não adota referencial teórico. A tabela 2.6 mostra a
frequência dos aportes utilizados.
Tabela 2.6: Aportes teóricos utilizados nos trabalhos de psicologia.
Aporte Teórico
Quantidade
Teoria Sistêmica
11
Psicanálise
8
Perspectiva interdisciplinar nos estudos de família, incluindo a psicologia,
antropologia, sociologia e história
6
Psicologia do desenvolvimento da família
6
Teoria dos sistemas ecológicos
5
Teoria das representações sociais
2
Teoria Geral dos Sistemas
2
Psicologia jurídica
2
Esquizoanálise
1
Socionomia
1
Total
44
Fonte:Autora, 2014.
Ficou evidenciado que os principais aportes teóricos utilizados pelos autores dos trabalhos foram a Teoria Sistêmica com 11 trabalhos (25%), seguido da Psicanálise com
8 trabalhos (18,2%), da perspectiva interdisciplinar nos estudos de família, incluindo a
psicologia, antropologia, sociologia e história com 6 trabalhos (13,6%), da Psicologia do
Desenvolvimento Humano e da Família também com 6 trabalhos (13,6%) e da Teoria
dos Sistemas Ecológicos com 5 trabalhos (11,4%). A Teoria das Representações Sociais
apareceu em 2 trabalhos (4,5%), a Teoria Geral dos Sistemas em 2 trabalhos (4,5%), a
Psicologia Jurídica em 2 trabalhos (4,5%), a Esquizoanálise em 1 trabalho (2,3%) e a
22

Socionomia em 1 trabalho (2,3%).
O método de análise utilizado nesta pesquisa foi baseado nos pressupostos da análise
de conteúdo que, segundo Silva, Gobbi e Simão (2005), tem como intenção decompor os
dados obtidos para a identificação de unidades de análise, a qual possibilitará uma categorização dos fenômenos, produzindo significados fundamentados em interpretações que
possam expressar uma compreensão mais aprofundada da realidade estudada. Segundo
Bardin (2004), os procedimentos de sistematização da análise de conteúdo devem se organizar em três fases distintas: pré-análise, onde há a organização do material e leitura
flutuante dos textos; exploração do material, onde ocorre a codificação, que consiste em
transformar os dados do texto em unidades de análise e a categorização, que consiste em
classificar as unidades de análise, a partir do que elas têm em comum, em categorias que
representem os dados dos textos de forma condensada; e tratamento dos resultados obtidos e interpretação. Na última fase ocorre a inferência, procedimento intermediário entre
a descrição dos dados, obtida nas fases anteriores, e a interpretação dos resultados, fase
final da análise. A inferência irá produzir suposições vinculando os conteúdos analisados
com os pressupostos teóricos que embasam a pesquisa (CAMPOS, 2004).
Assim foram analisadas as discussões realizadas em cada estudo acerca do padrasto
na família recasada, promovendo uma visão panorâmica de como a produção acadêmica
brasileira em Psicologia vem tratando o assunto.

23

Capítulo

3
Sobre o Padrasto na Produção
Acadêmica Brasileira

Neste capítulo serão apresentados e discutidos os resultados da análise qualitativa dos
trabalhos que abordam o padrasto na família recasada e que foram produzidos pelo campo
da Psicologia. estes trabalhos foram submetidos à leitura integral do texto, denominada
leitura reflexiva ou crítica, e, posteriormente, foram submetidos à leitura interpretativa,
última etapa de leitura do procedimento de análise, de acordo com Salvador, citado por
Lima e Mioto (2007).
Como já indicado, para a análise qualitativa foram selecionados 54 trabalhos, sendo
26 artigos, 19 dissertações e 9 teses que tratam do tema do padrasto na família recasada.
Dos 54 trabalhos selecionados, foram lidos e analisados 45. Os 9 trabalhos restantes
não foram analizados porque não estavam disponíveis na íntegra na internet, nem foram
obtidos de outros meios. Durante a leitura dos trabalhos, foram elencadas 8 categorias
de análise que emergiram a partir da repetição de determinados elementos em diversos
trabalhos, e, também, a partir de pequenas ocorrências que demonstravam relevância
para o tema em estudo, a saber: A diversidade de termos; A família nuclear e a figura
paterna como referências; O padrasto e as funções paternas tradicionais: autoridade e
provedor; A nova conjugalidade materna: porta de entrada para o padrasto; “Como um
pai”: A construção do vínculo afetivo entre padrasto e enteado; Um novo lugar parental:a
contribuição do padrasto; O padrasto no contexto da violência sexual; O padrasto e a
clínica do recasamento. É importante ressaltar que algumas dessas categorias estão interrelacionadas, podendo estabelecer sobreposições.

3.1 A Diversidade de Termos
Observou-se que a questão da nomenclatura para nomear as diferentes configurações
familiares formadas após segunda união de um dos cônjuges surgiu nas discussões de doze
dos trabalhos analisados. Percebe-se uma diversidade de termos usados pelos pesquisadores em seus estudos caracterizando o grande desafio enfrentado pelos mesmos diante do
atual quadro em que se encontram os grupos familiares, conforme afirmado pelos autores:
Ao pensar nas configurações familiares formadas após um recasamento, esbarrase, inicialmente, no desafio de encontrar denominações apropriadas para esta
nova família, assim como para os papéis que exercem aqueles que passam a
fazer parte do núcleo familiar (SOARES, 2009, p. 46).
Em vista dessa realidade tão recente, baseando-se em estudos realizados com
famílias ressalta-se que a nomenclatura referente à segunda relação conjugal
tem sido definida na literatura de diferentes maneiras (OLIVEIRA e WAGNER,
2000, p.2).

Termos como “recasada”, “reconstituída”, “recomposta”, “reestruturada”, “reconstruída”,
aparecem com frequência para qualificar a família constituída por segundo casamento. O
prefixo “re” é visto como uma característica comum na tentativa de definir a construção
de uma nova família, apesar de ressalvas pelos próprios autores em relação à adequação
do uso desse prefixo:
A palavra recasamento está longe de ser a melhor expressão para designar esta
nova união, haja vista que o uso do prefixo “re” traz a idéia de repetição, de
reformulação e de recriação, o que, por sua vez, nos remete a pensar em remendo
e reconstituição, trazendo uma conotação negativa, como se antes existisse uma
união mais original ou verdadeira (CANO, GABARRA, MORÉ & CREPALDI,
2009,p. 219).
Como apontou Wagner (2002), as diferentes nomenclaturas que têm tentado
definir estes núcleos, são usados com o prefixo RE, oriundo do latim, sugerindo
a ideia de “novo”, “outra vez”, “repetição”; daí os termos : famílias misturadas,
família com padrasto/madrasta, famílias refeitas, recasadas, reconstituídas, reorganizadas, reestruturadas (COSTA, 2008).
As nomenclaturas utilizadas para definir esse novo núcleo apelam para o prefixo
“re”, introduzindo a idéia de “de novo” (RIBEIRO, 2005, p. 24)

Segundo Almeida (1999), o prefixo re pode ter o sentido de repetição, reforço ou retrocesso. Por outro lado, também sugere a ideia denovidade e recriação, não se restringindo
à mera repetição, como expresso nas citações acima. Se o prefixo afirma a referência ao
que veio anteriormente, ele também abre possibilidade do novo a ser construído. No caso
da existência de filhos da união anterior, a referência ao passado parece inevitável.
25

Outros termos como família tentacular, família com padrasto/madrasta, famílias simultâneas, família de segundo casamento, também aparecem nos estudos.
As leituras também trouxeram informações sobre a questão de nomenclatura para definir as novas relações na família recasada, indicando a dificuldade em nomear essas novas
relações, assim como os seus personagens. Estas dificuldades parecem atingir tanto os
pesquisadores quanto os membros das famílias envolvidas, conforme indicado nas citações
abaixo:
(...) as novas transformações sócio-culturais que a família vem sofrendo ao longo
dos anos produzem confusões e levantam questões como que lugar ocupar, como
se comportar e se relacionar na nova família, entre outras. Em decorrência desta
confusão, é possível perceber no discurso de alguns enteados(as) a dificuldade
em nomear seu(sua) padrasto/madrasta, havendo, inclusive, algumas tentativas
iniciais de chamá-los(as) de pai/mãe. (RIBEIRO, 2005, p. 93)
Outro ponto de divergência entre pesquisadores refere-se às denominações atribuídas aos componentes desta nova estrutura familiar. São muitos os papéis
que se estabelecem a partir desta nova união conjugal e que necessitam de
nomeação. (SOARES, 2009, p. 50).

A dificuldade para nomear as novas famílias, portanto, se estende para os termos usados para designar os seus membros. O termo padrasto aparece, frequentemente, com uma
conotação negativa, principalmente por remeter à imagem de um possível abusador sexual
contra seus enteados. Os autores de seis trabalhos trazem essa discussão e consideram
que os padrastos tendem a sofrer com o estigma de possível abusador e isso se torna um
dificultador para o estabelecimento dos vínculos entre padrasto e enteados. Soares (2009),
por exemplo, afirma:
Os padrastos também sofrem com o peso de um mito; enquanto as madrastas
são miticamente malvadas, o padrasto é visto como possível abusador ou aquele
que irá se envolver afetivamente com a enteada (...) este mito, acima citado,
pode ser responsável por um afastamento entre padrasto e enteadas e, até
mesmo, por um receio das mães em recasarem (SOARES, 2009, p. 54-55).

Alguns trabalhos registram tentativas de evitar o estigma associado ao termo padrasto. Soares (2009) cita uma pesquisa realizada por Grisard Filho (2003) que ao fazer
uma análise dos termos padrasto e madrasta encontrou termos alternativos, como: “pais
sociológicos”, “pais políticos”, “pais de acolhida”, “padrasto e madrasta de fato”. Grisard
Filho optou em usar os termos “mãe afim”, “pai afim” e “filho afim”, baseado no art. 1.595
do Código Civil Brasileiro de 2002, que estabelece o parentesco por afinidade entre os
membros da família.
26

Apesar da diversidade de termos encontrados, o termo “padrasto” apareceu em todos
os trabalhos analisados, indicando que, embora possa trazer alguma conotação negativa,
é amplamente utilizado tanto por pesquisadores quanto pelas famílias, sendo preferido a
outros termos. Utilizado para nomear o lugar do homem em relação aos filhos da sua
esposa, este termo remete à figura paterna e à configuração da família nuclear, tendência
que será discutida a seguir.

3.2 A Família Nuclear e a Figura Paterna como Referências
Em sete dos trabalhos analisados, os autores sinalizam de forma explícita o quanto
o modelo de família nuclear influencia nos padrões de configuração, funções, definição e
nomeação dessas diferentes famílias. O modelo nuclear tradicional se apresenta, frequentemente, como ideal de família, servindo de referência para muitas das famílias pesquisadas,
como se vê nas citações:
Apesar das transformações que a família sofreu ao longo dos últimos anos, o
modelo tradicional de família ainda serve como parâmetro para se avaliar as
diversas configurações familiares que foram surgindo com o divórcio e os recasamentos. Esse fato contribui para acentuar a falsa ideia de que as segundas
famílias são problemáticas ou não são tão boas quanto a família conjugal moderna original (RIBEIRO, 2005, p. 28).
Esta mãe apontou que gostaria de ter tido uma família nos moldes de uma
família nuclear, e denomina sua família de “quebrada” por ser proveniente de
três relacionamentos. Para ela, a família nuclear permanece sendo a referência
de normalidade e é o ideal almejado (SOARES, 2009, p. 117).

Soares (2009) afirma que, antes do divórcio, havia grande preconceito com a mulher
desquitada, o qual gerava a necessidade de uma reprodução do modelo de família nuclear
quando a mulher passava a ter um novo relacionamento conjugal, pois assim garantia
uma melhor aceitação social de sua nova família. A preocupação da maioria dos autores
dos trabalhos analisados é fazer com que se leve em consideração as peculiaridades que
as famílias recasadas trazem tanto em sua configuração como nos papeis dos seus novos
membros, sem fazer comparações com a família nuclear. Parece haver uma tentativa de
desidealizar a família nuclear como modelo a ser seguido, como explicitado na citação
abaixo:

27

Como profissionais, é preciso desmistificar o ideal de família nuclear intacta
como modelo a ser priorizado para o bem estar dos filhos. Eles não serão
desajustados ou infelizes por pertencerem a uma família recasada. Espera-se
que sejam estabelecidas relações saudáveis e satisfatórias, independentemente
da estrutura familiar. Talvez esse seja o nosso grande desafio. (AMARAL,
2010, p. 97)

Em oito dos trabalhos analisados as famílias recasadas são vistas numa perspectiva
de despatologização e de afirmação de seu potencial de promoção de saúde para seus
membros, pois a qualidade das relações familiares tem maior importância para o bem
estar deles do que sua constituição, seja ela casada, separada ou recasada.Se opondo à
tendência a tomar a família nuclear como ideal, estes autores assumem uma posição crítica
à comparação, como se pode ver nas citações a seguir:
A tendência de considerar as famílias separadas ou as famílias recasadas como
disfuncionais deve, sem dúvida, ser questionada. Muitas vezes a literatura
enfatiza a dimensão disfuncional, na separação e no recasamento, e busca as
patologias associadas a estas situações. É importante ressaltar que estes núcleos
familiares são tão capazes de promover saúde quanto as famílias de primeiro
casamento. (FÈRES-CARNEIRO, 1998, p. 10-11)
Um outro fato que chamou nossa atenção, foi que, mesmo autores que escreveram em épocas diferentes, demonstraram uma preocupação em descrever,
de uma forma que podemos chamar de didática, as diferenças entre famílias
nucleares e famílias recasadas, mostrando que a comparação entre elas, com a
intenção de ter a família nuclear como modelo, é inadequada, pois apresentam
estruturas diversas. (TRAVIS, 2003, p. 39).

Comparações com a família nuclear aparecem nos estudos analisados como um dos
fatores que dificultam o estabelecimento das relações e papeis dos membros da família
recasada, pois deixam de levar em consideração as peculiaridades dessa configuração familiar. Segundo Costa (2008), a tendência a fazer essa comparação acontece não só por
parte da sociedade em geral, mas também por um número significativo de pesquisadores.
Esta tendência se estende, muitas vezes, aos profissionais de psicologia no campo de intervenção junto às famílias. Travis (2003), em sua tese Construções Familiares: um estudo
sobre a clínica do recasamento, entrevistou dez terapeutas de família, tendo observado que
o modelo de família nuclear é muito presente na concepção de família que esses terapeutas
apresentaram:
A despeito das diferentes nuances que identificamos nas respostas dos entrevistados, foi possível perceber que alguns são bastante influenciados pelo modelo
de família nuclear, próprio da modernidade, enquanto outros desprenderam-se
ou tentam desprender-se deste (TRAVIS, 2003, p. 106).

28

Na parte teórica do seu trabalho, Travis (2003) discute criticamente o fato de pesquisadores fazerem comparações entre a família recasada e a família nuclear. Ela diz:
Segundo Gamache (1997) pesquisas sobre o recasamento buscam respostas para
perguntas sobre as relações existentes entre enteados, padrastos e madrastas
através da abordagem de comparação por déficit (deficit-comparison approach),
que compara essas relações àquelas de famílias nucleares. Evidentemente, partindo desse tipo de abordagem, a família recasada aparece como deficiente. A
autora observa que, embora muitos estudiosos já tenham apontado para a necessidade de mudança de abordagem nas pesquisas, este fato parece não ter
tido qualquer influência nas suposições fundamentais correntes que padrastos
e madrastas devem ter como padrão o modelo parental, tal como definido pelo
modelo de família nuclear (TRAVIS, 2003, p. 41).

Os pesquisadores da família ressaltam a importância de se olhar para a família contemporânea através de novos paradigmas, enxergando a família nuclear como um dos modelos
existentes, mas não o único. Levar em consideração as peculiaridades que permeiam as
relações na família recasada facilita o estabelecimento desses vínculos (COSTA, 2008).
Estudando o padrasto na família recasada, frequentemente os pesquisadores encontram
referências ao pai na família nuclear. Ribeiro (2006) relata que em seu estudo percebeuse, através dos relatos dos padrastos e dos enteados, que os padrastos entrevistados se
posicionavam no novo núcleo familiar se identificando com o tradicional modelo de pai,
exercendo, inclusive, a função do provedor. Citando as falas de um padrasto (P4) e de
um enteado (E4) entrevistados:
“Eu acho que eu sou o cara que dou o carinho, a educação e dou o conforto de
uma casa. Sou o primeiro rna famílias. O pai. O pai realmente. (P4)”
“E o M. rpadrastos ele é... como eu vou explicar... o dono da casa. Pra mim...
é como se fosse o pai mesmo... o que manda... (E4)” (RIBEIRO, 2005, p.
91-92).

Soares (2009), nessa discussão a respeito do lugar ocupado pelo padrasto quando de sua
entrada na família recasada, acredita que devam ser criados lugares próprios para esse novo
membro da família, não havendo, assim, uma sobreposição do papel do padrasto sobre o
papel do pai. Dessa forma, mesmo que o padrasto assuma algumas responsabilidades em
relação ao enteado ele não irá ocupar a posição de pai.
Enfim, observou-se no material analisado que há uma tendência a examinar o lugar do
padrasto na família recasada a partir da referência ao pai na família nuclear tradicional, a
qual está presente nas expectativas sociais, experiências das próprias famílias envolvidas e,
muitas vezes, dos pesquisadores e terapeutas de família. Os autores dos textos analisados,
entretanto, apresentam uma discussão crítica acerca do assunto, desmitificando a família
29

nuclear e propondo o reconhecimento das peculiaridades das famílias recasadas e das
relações nelas estabelecidas.

3.3 O Padrasto e as Funções Paternas Tradicionais: Autoridade e Provedor
Como indicado acima, foram encontradas várias referências à expectativa do padrasto
desempenhar papeis atribuídos tradicionalmente ao pai na família nuclear. A figura do
padrasto apresenta-se ainda envolvida numa série de discussões a respeito de sua entrada
no grupo familiar. Antes da Lei do Divórcio de 1977 a entrada do padrasto nas famílias
se dava com maior freqüência através da viuvez e o termo padrasto era usado para indicar
a relação socialmente criada desse novo membro com os filhos da relação anterior de sua
esposa (WATARAI, 2010). Nesse caso havia uma substituição do pai que faleceu, sendo
geralmente esperado que o padrasto assumisse seu lugar e funções. Atualmente, a entrada
do padrasto no grupo familiar se dá com mais freqüência após o divórcio e a vivência de
determinadas situações como a organização familiar e a aceitação deste novo membro,
ocorrerá de forma diferente (SOARES, 2009). A função que os padrastos devem exercer é
um tema que traz ainda muitas dúvidas, pois não existem prescrições sociais norteadoras
do seu papel, o que, na fala dos padrastos, pode gerar sentimentos de angústia e dúvidas a
respeito do que se espera deles e o que eles podem ou não fazer. Esta indefinição aparece
nos trabalhos analisados, como na citação a seguir:
(...) nossa sociedade não oferece orientações para o desempenho desses novos
papeis e relacionamentos, que tampouco encontram uma linguagem que expresse positivamente o lugar dos membros dessa família em relação aos novos
parentes. (RIBEIRO, 2005, p. 4)

Observa-se, no entanto, uma frequente referência ao lugar paterno, seja pela expectativa de que o padrasto substitua o pai ou compartilhe funções com ele, seja pela afirmação
de sua distinção e diferença em relação a ele. Esta posição é, portanto, marcada por imprecisões e pelas circunstâncias particulares em cada família, especialmente dependente
do tipo e qualidade da presença do pai na vida das crianças. Como afirma Watarai (2010):
A definição dos estatutos de padrasto e madrasta é problemática em função
da falta de representações culturais pré-estabelecidas que orientem o relacionamento entre eles e enteados. Por outro lado, esse relacionamento pode se
basear em representações já existentes e consolidadas. A relação que padrastos e madrastas estabelecem com seus enteados é geralmente ordenada por um
tortuoso jogo de contrastes e semelhanças com o estatuto dos pais biológicos.
(WATARAI, 2010, p. 26)

30

Em meio à discussão acerca das funções dos padrastos, surgem algumas afirmações
baseadas nas pesquisas realizadas sobre o tema. Uma questão emergente é a participação
do padrasto na educação e disciplina dos enteados. Ribeiro(2005), baseada na ideia de
Muza(1998) que diz que é através das experiências vividas na relação com os filhos que se
constrói o papel de pai, fala da possibilidade do padrasto assumir uma “função paterna
auxiliar”, supondo que o papel de padrasto também pode ser construído no convívio do diaa-dia com seus enteados. Soares (2009) afirma que alguns autores (Fine, 2000,2002; Théry,
2001; Grisard Filho, 2004) sugerem que o padrasto tenha uma função de auxiliar da mãe,
utilizando termos como “pluriparentalidade” e “co-parentalidade” atribuindo ao padrasto
uma função de complementaridade na prática da autoridade parental. Costa (2008), no
entanto, delimita a contribuição do padrasto nestas questões, afirmando que no início da
recomposição de uma família os papeis ficam divididos e os pais é que devem resolver
os problemas de disciplina graves e que os padrastos devem construir suas relações com
seus enteados baseados na amizade e respeito. Gameiro (1998), citado por Costa(2008)
também vê o padrasto com uma função de autoridade auxiliar. Ele diz:
r...sNesta fase inicial, o papel parental deve ser desenvolvido através da figura parental biológica re o padrasto/madrasta deve estar preparado(a)s para
ser um(a) precioso(a) auxiliar, sem interferir directamente na relação educativa. Com o tempo, e em função da idade dos enteados e da posição dos pais
biológicos, o seu papel pode vir a tornar-se mais activo (GAMEIRO, 1998,
citado por COSTA, 2008, p. 62-63).

Costa (2008) destaca, ainda, que nas famílias recasadas a autoridade se constrói baseada não na prerrogativa do vínculo biológico, mas sim pautada numa relação de respeito
que vai sendo construída com a convivência do dia-a-dia. A autoridade do padrasto em
relação aos enteados é fortemente influenciada pela mãe, podendo ser mediada ou interditada por ela. Watarai (2010) cita um estudo realizado por Marcondes (2008, 2009)
com famílias recompostas, que menciona relatos de padrastos que dizem que o exercício
de poder e autoridade deles sobre os enteados é frequentemente interditado pelas mães,
mesmo havendo a demanda por parte delas para que eles sejam pais também de seus
filhos. Outros trabalhos mostram na fala dos padrastos que muitas vezes as mães assumem uma postura ambivalente quanto a permissão da participação do padrasto na
disciplina dos filhos. Na tese Ser ou não ser: a experiência do homem nos cuidados dos
filhos da companheira (LIMA, 2003), os padrastos entrevistados falam dos conflitos gerados pela indisciplina dos filhos das companheiras e do fato delas não se posicionarem
para discipliná-los e também não permitir que o padrasto o faça. Eles acreditam que elas
temem que eles sejam injustos ou agressivos por não serem os pais deles. Segundo Lima

31

(2003), a questão da autoridade do padrasto esbarra nas indefinições típicas das relações
advindas do recasamento. Ela diz:
“A questão de autoridade é fronteiriça, esbarrando nas indefinições de limites,
de poder, de direito. Gostar dos filhos dela não significa ter autorização (ou se
sentir autorizado) para repreender.” (p. 124)

Soares(2009) também traz relatos de padrastos que se viram em meio a conflitos de
autoridade frente aos enteados e suas mães, como na citação abaixo:
Ao ser solicitado que explicasse um pouco mais a respeito destes conflitos ,
expressou: “Conflito de autoridade, é muito complicado este negócio de segunda
família” e, após uma pausa completou “era um negócio complicado porque a X
resposassempre protegeu muito eles, era difícil eu entrar. Na hora do pega pra
capar rdiziams ’você não é meu pai!’ (SOARES, 2009, p. 90).

Watarai (2010) também pontua a vinculação da autoridade do padrasto à relação que
ele tem com a mãe dos enteados. No entanto, destaca a relevância do fato dele exercer
o papel de provedor na família como favorecedor do reconhecimento da sua autoridade.
Assim, afirma:
Por um lado, a relação que o padrasto tem com a mãe imputa alguma importância a ele. A mãe é a mediadora nesse novo tipo de relacionamento, que cria
o parentesco derivativo entre padrasto e enteados. Da mesma forma, o fato de
ele ser, em geral, o principal provedor, o homem da casa, confere-lhe certa autoridade, dado o laço de dependência que os enteados têm com ele (WATARAI,
2010, p. 127) .

Em sua dissertação Ele, o marido da minha mãe: atributos do papel de padrasto entre
adolescentes, David (2005) traz as ideias de autores como Giles-Sims e Crosbie-Burnett
(1989) que afirmam que as contribuições financeiras do padrasto podem ser usadas por
este como uma base de poder com a esposa e os enteados. Afirmam, ainda, que recursos
financeiros, recursos emocionais, número de anos do novo casamento, a quantidade de
tempo que o adolescente passa com o pai biológico, se a mãe e o padrasto têm filhos
próprios, idade e sexo dos adolescentes são fatores que influenciam as posições de poder.
Nos resultados de seu trabalho, David (2005) mostra que os padrastos que convivem com
os adolescentes entrevistados “não tentam discipliná-los, não interferem em suas vidas e
cumprem as obrigações financeiras, sem que estas envolvam o adolescente (mesada ou
escola)” (p. 91). Os resultados mostram que houve uma consonância entre o desejo
dos adolescentes de que os padrastos não interfiram em suas vidas e o comportamento
dos padrastos de não interferir mesmo, minimizando a possibilidade de conflitos entre a
díade padrasto-enteado. No entanto, observou-se que esse não envolvimento do padrasto
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nas questões de disciplina pode gerar um risco de conflito na relação conjugal quando a
esposa-mãe percebe essa postura como falta de cooperação.
Verifica-se que o exercício da autoridade é um campo complexo e delicado nas relações
entre padrasto e enteados. Oliveira e Wagner (2000) fazem uma discussão sobre o tema
trazendo ideias de autores como Bassof (1990) que considera que os padrastos não devem
assumir o papel disciplinador mas devem manter a autoridade na relação com os enteados,
ou seja, não devem permitir comportamentos desrespeitosos com eles, sendo necessário
o estabelecimento de limites e, se necessário, até um confronto mais sério. Oliveira e
Wagner (2000) citam também McGoldrick e Carter (1995) que afirmam que na família
recasada quem deve assumir a responsabilidade primária na educação dos filhos são o
cônjuge e seu ex-cônjuge, ficando, no entanto, a relação entre padrasto e enteados com
a possibilidade de desenvolver uma relação semelhante a dos pais ou a qualquer relação
amigável que desejarem.
Enfim, os trabalhos analisados sugerem que o padrasto assume um lugar de autoridade
em relação aos enteados, frequentemente associada à sua participação como provedor
financeiro da família. Em geral, a autoridade do padrasto é inspirada no modelo parental
e mediada pela mãe, sendo necessária para a convivência no grupo familiar. No entanto,
os autores apontam as delimitações e peculiaridades deste lugar de autoridade que não
substitui o do pai, varia de acordo com a idade dos enteados e se constrói de forma
particular de acordo com os arranjos, características e necessidades de cada família.

3.4 A Nova Conjugalidade Materna: porta de entrada
para o padrasto.
Os trabalhos lidos constatam que a entrada dos padrastos nas famílias se dá através da
conjugalidade. Em cinco trabalhos aparece, na fala das mulheres e homens entrevistados,
a afirmação de que, no recasamento, há uma busca de felicidade, de um vínculo conjugal
satisfatório. A ênfase nesta busca de realização pessoal aparece na fala desta entrevistada
por Costa (2010):
“O importante é ser feliz, né? O primeiro casamento não deu certo, por que que
você vai ficar sozinha pro resto da vida? Encontrar alguém interessante...Por
isso que eu acho que o principal objetivo do recasamento é uma nova busca...ser
feliz no relacionamento novamente (Alba, 38 anos, psicóloga) .” (COSTA, 2010,
p. 51)

Este vínculo é, portanto, estabelecido inicialmente pela mãe, através de sua união
amorosa e sexual com o novo cônjuge. Com a presença dos filhos de união anterior, há
33

o reconhecimento de elementos que podem dificultar o ajustamento da nova configuração
familiar principalmente no compartilhar funções de parentalidade, como nesta citação:
Embora as participantes afirmem a existência de uma convivência feliz no segundo casamento, verifica-se que foram necessários ajustes devido à complexidade das relações envolvidas. A segunda união geralmente envolve outros atores sociais além do casal, como filhos do primeiro casamento, ex-marido, filhos
do novo cônjuge, ex-mulher desse cônjuge, novos sogros, entre outros.(SILVA,
TRINDADE E SILVA JÚNIOR, 2012, p. 438).

Com o estabelecimento de uma relação conjugal entre a mãe e o padrasto é necessária uma reorganização dos papeis e das relações entre os membros desse novo grupo
familiar. O tempo aparece como um dos fatores mais importantes para a consolidação
deste processo. Autores de 10 trabalhos analisados mencionaram a questão do tempo
que o recasamento precisa para que alcance uma estabilidade e suas relações se reestruturem. Soares (2009) aponta que, na literatura, existem várias contradições a respeito desse
tempo. Ela cita McGoldrick e Carter (1995) os quais trazem dados do estudo de Dahl
etal (1987) que acredita que seja necessário, em média, um período de três a cinco anos,
Hetherington et al (1997) que falam de uma média de dois anos e Stern (1978) que sugere
no mínimo dois anos. Ribeiro (2005) cita Patrícia Papernow (1993) que fala num período
de 5 a 7 anos, no entanto acredita que o tempo de reestruturação da família recasada vai
variar conforme alguns fatores. Ribeiro (2005) diz:
`‘Partimos da crença de que o tempo estimado para a adaptação de todos os
membros de uma família recasada varia conforme a fase de desenvolvimento
dos enteados e o contexto em que se deu a separação ou o divórcio. Além
disso, acreditamos que a relação conjugal tende a se solidificar à medida que o
relacionamento entre padrasto/madrasta e seus respectivos enteados constitui
um relacionamento satisfatório e harmonioso"(RIBEIRO, 2005, p. 29).

Costa e Dias (2012) também apontam para essa relativização do tempo em função de
fatores que influenciarão a adaptação dos membros das famílias recasadas:
“Em geral, as falas mostraram que cada membro se adapta no seu ritmo e
são necessários tempo, paciência, tolerância para que os diferentes personagens
comecem a se considerar uma família” (COSTA E DIAS, 2012, p. 78).

Diante da nova conjugalidade da mãe, os filhos podem experienciar sentimentos ambíguos, pois gostar do novo cônjuge da mãe pode ser vivido como uma falta de lealdade
com o pai biológico. Esse fato pode ser um dos dificultadores na aceitação da nova relação
envolvendo a mãe e o padrasto. Vários trabalhos analisados examinam esta questão, como
se pode ver nas citações abaixo.
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“Por vezes, os enteados têm receio de estabelecer um relacionamento mais próximo com seu padrasto/madrasta acreditando estar traindo seu pai/mãe biológicos” (RIBEIRO, 2005, p. 30).
“Além de o recasamento trazer a constatação da separação dos pais, fator que
pode dificultar a construção do relacionamento entre padrasto/madrasta e enteado, os filhos ainda enfrentam, por vezes, conflitos de lealdade caso se permitam
gostar do padrasto/madrasta” (SOARES, 2009, p. 58).

A fala de um dos enteados entrevistados por Oliveira (2005) ilustra estes sentimentos:
“...eu sei que eu tenho o meu pai. Mas o Osvaldo paga a minha faculdade, eu
vim prá cá e o Osvaldo me deu o apoio. Então tudo o Osvaldo, tanto assim,
eu sei que tenho o meu pai. Mas o meu pai é o pai biológico, só. Quem cuida
é o Osvaldo. Eu até fico meio assim de sentir..., mas ele é mais pai, não sei...
É estranho é mais pai que meu pai” (OLIVEIRA, 2005, p. 196).

Ribeiro (2005), ao entrevistar enteados que são adolescentes, percebe que eles demonstraram uma idealização de relação familiar em que todos os membros da nova família
procurem se entender e se aceitar e que o afeto seja o elemento principal para a união e
harmonia do grupo familiar. A fala de alguns desses enteados entrevistados exemplifica
isso:
“Eu acho que é preciso muito carinho, muito amor, todo mundo tentar se dar
bem, não brigar, procurar se entender, essas coisas (E3)”(p. 88)
“Ah, eu acho que tem que ter carinho, né? Amor. Que aí a gente consegue...aceita...passa a aceitar mais as coisas, né? Porque quando você ama,
gosta de uma pessoa, às vezes ela te faz alguma coisa, você fica...mas você
tenta porque você gosta da pessoa (E5)”. (p. 88)

Estes relatos sugerem que a união amorosa entre a mãe e o seu cônjuge criam uma
expectativa de que os filhos também desenvolvam vínculo afetivo com ele, mantendo o
amor como característica da relação familiar ideal.Esses enteados, com essa idealização,
também demonstraram o desejo de se relacionarem afetivamente com seus padrastos como
se fossem verdadeiramente seus filhos. Em uma das falas:
“Eu acho que o padrasto tem que gostar como se fosse filho mesmo. Porque
ta junto... é criança... então pra mim tem que ser como se fosse filho mesmo
(E4)”. (p. 89)

Esse desejo também apareceu na fala dos padrastos entrevistados, como nos exemplos
a seguir:
“vontade de ser pai, se assumir como pai, gostar da pessoa como filha”. (sujeito
P4) (p. 89).
“tentar ser um simples pai” (sujeito P3) (p. 89).

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A visão dos enteados em relação à entrada do padrasto na vida familiar pode variar
em função de fatores como a idade dos enteados, tempo da separação dos pais, tempo
de recasamento. Autores de sete trabalhos apontaram tais variações. Scigliano (2006),
aponta a importância da idade dos enteados em relação aos seus sentimentos frente à
chegada do padrasto no convívio familiar. Segundo a autora, os enteados maiores (10-13
anos) relataram que, no início, não gostaram do relacionamento da mãe com o padrasto,
diferente dos menores que tinham boas recordações dessa fase. As diferentes reações se
expressam nas falas dos enteados entrevistados por esta autora:
“... no começo (do namoro) eu tive muito ciúmes. (Alan) (12 anos)
... ah, eu fiquei muito assustada. (Célia) (10 anos)
... foi bem legal (quando conheceu o padrasto). (...) Ele foi lá na minha casa,
aí a gente almoçou e depois ele foi embora mais tarde e, aí nos outros dias ele
foi voltando.(Guido) (8 anos)
... eu achei legal (...) ele é legal, ele é divertido. (Carla)” (7 anos) (SCIGLIANO, 2006, p. 65).

Semelhantemente, Paulo (2006), pontua que enteados com idades menores recebem a
entrada do padrasto de forma mais tranqüila e tendem a encará-los como pais, pois foram
seus primeiros modelos. Enteados e padrastos entrevistados em seu trabalho relatam
(PAULO, 2006, p. 123):
“Desde que eu me entendo por gente ele está sempre ali. Eu não lembro da
parte em que minha mãe se separou e ele veio. Lembro dele ali, tipo, parece
que eu abri o olho e ele estava ali. (...) Desde quando eu me lembro, o Rodrigo
estava ali, um pai pra mim, nunca foi como tio.”(Rafael, enteado)
“Eu fiquei com ela desde bebê, tive a oportunidade de criar e estar com ela
muito mais tempo do que o pai biológico dela.” (Daniel, padrasto)

Ao longo das leituras foi possível perceber que a relação entre enteados e padrastos é
permeada de ambivalências. O padrasto pode ser visto pelo enteado como intruso, mas
também como a pessoa que trouxe de volta o equilíbrio financeiro para a família; pode ser
percebido “como um pai”, mas também pode ser visto apenas como “o marido da mãe”,
delimitando o vínculo afetivo apenas em relação a ela. O padrasto pode representar o fim
das possibilidades dos pais reatarem o casamento, mas também pode trazer uma nova
alegria para a vida da mãe. Segundo Watarai (2010), os filhos avaliam a relação da mãe
com o padrasto em função de sua própria subjetividade, ou seja, dos seus sentimentos em
relação à mãe e ao padrasto.
Os trabalhos analisados sugerem que o vínculo amoroso entre a mãe e seu marido não
garante que este seja bem recebido ou amado pelos filhos dela, podendo, ao contrário,
se tornar o alvo de ciúmes e rivalidade. No entanto, o vínculo conjugal frequentemente
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cria expectativas de que o afeto do marido se estenda aos filhos e seja correspondido,
facilitando a convivência familiar. As possibilidades de se estabelecerem vínculos afetivos
positivos na relação entre padrasto e enteados serão melhor discutidas a seguir.

3.5 “Como um Pai”: a construção do vínculo afetivo entre padrasto e enteado
Na dissertação Novas configurações familiares e seus vínculos sócio-afetivos (PAULO,
2006), a autora percebe nas falas dos filhos entrevistados a necessidade de denominação
daqueles que participam da sua criação como um pai ou uma mãe. Os filhos entrevistados
eram crianças, adolescentes e jovens adultos. Nesse estudo todos os filhos chamavam o
companheiro(ou compamheira) de seus pais de pai ou mãe. A autora defende a ideia
de que um nome é dotado de simbolismo e sentidos fundamentais para aquele que está
se estruturando, além de ser uma forma de reconhecimento por parte das crianças e
adolescentes de que esses adultos possuem características próprias de pai e mãe. Ela
afirma:
(...) a necessidade de denominação que apareceu largamente nas respostas dos
entrevistados parece comprovar que, para as pessoas que vivem nessas famílias,
especialmente as crianças e adolescentes que ali crescem e se desenvolvem, faz
sim muita diferença poderem se ver no seio de uma família, podendo denominar aqueles que os criam como pai/mãe, ao invés de se perceberem apenas
como integrantes de um centro de convivência e os que o educam como meros
companheiros de seus pais. Diferença essa que atinge sua esfera psicossocial.
(PAULO, 2006, p. 122)

Por outro lado, na tese Filhos, Pais, Padrastos: relações domésticas em famílias recompostas das camadas populares (WATARAI, 2010), o autor acredita que o fato do
padrasto não ser chamado de pai não o tira de uma posição afetiva relevante. Segundo o
autor, uma das enteadas entrevistadas, ao usar a expressão “como um pai” para descrever
seu padrasto revela que há uma grande proximidade afetiva entre ambos, fato que nem
sempre acontece entre pais e filhos biológicos. A entrevistada assim se expressa:
“Só que não era meu pai de sangue. Minha mãe já tinha engravidado de um
homem. Mas ele já tinha uns 18 anos na época. [...] E aí, onde minha mãe
conheceu meu pai, meu pai, que é meu padrasto mesmo também, como eu
considero ele como um pai. Então eles se encontraram, e meu pai queria assumir
a minha mãe, minha mãe aceitou, se casaram. Tamara”(WATARAI, 2010, p.
67).

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Ribeiro (2005), em sua dissertação Adoção Emocional em Famílias de Recasamento:
um estudo sobre a construção das relações afetivas entre padrastos/madrastas e seus
enteados, mostra que os enteados entrevistados expressaram uma expectativa de se relacionarem com os padrastos como se eles fossem seus verdadeiros pais. A fala dos enteados
(E3 - 17 anos) e (E4 - 17 anos) entrevistados nesse trabalho exemplifica isso:
“Eu acho que tem que ser companheiro, bricalhão...tem que me tratar como
se fosse filha dele, tipo assim, dar carinho, amor, essas coisas de pai mesmo
(E3)"(p. 88)
“Eu acho que o padrasto tem que gostar como se fosse filho mesmo. Porque
ta junto...é criança...então prá mim tem que ser como se fosse filho mesmo
(E4)”(p. 89)

O tempo de convivência e a idade das crianças apareceram como importantes fatores
na construção destes vínculos. PAULO (2006) percebeu através da fala das mães, pais,
padrastos e madrastas que os laços afetivos foram criados à medida que o tempo foi
passando e as experiências da convivência foram acontecendo, o que reforça que o amor
instantâneo é realmente um mito. As falas dos filhos e dos pais deixam clara a ideia
de que quando a criança é pequena é mais fácil a construção dos vínculos afetivos com
o novo(a) companheiro(a) dos pais, pois a imagem desse adulto fica associada às suas
primeiras experiências de socialização. As falas de padrasto e enteado apresentadas abaixo
confirmam isto:
“Ele tinha 2 anos de idade, o que também é uma...felicidade, né? (...) Talvez
seja diferente a mesma situação com um garoto adolescente. Imagino que seja
mais difícil, mais complicado”. Rodrigo (Padrasto) (PAULO, 2006, p. 123)
“Desde que eu me entendo por gente ele está sempre ali. Eu não lembro da parte
que a minha mãe se separou e ele veio. Lembro dele ali, tipo, parece que eu
abri o olho e ele estava ali. (...) Desde quando eu me lembro, o Rodrigo estava
ali, um pai prá mim, nunca foi como um tio”. Rafael (Enteado) (PAULO, 2006,
p. 123)

Paulo (2006) afirma, ainda, que a entrada do novo cônjuge é facilitada pelo espaço
psicoparental muitas vezes deixado vago pelo pai biológico, como se verifica no exemplo
abaixo, na fala de uma enteada entrevistada:
“...a gente não teve relação com o nosso pai. Nosso pai, teve uma relação
péssima, pelo menos comigo. A gente parou de se ver. Teve até uma época que
eu lamentava, ficava revoltada, com o abandono dele assim, e teve época que
eu queria que o Haroldo me adotasse.” Linda (PAULO, 2006, p. 125)

Esta autora defende a ideia de que genitor não é o mesmo que pai e que o vínculo
biológico/consanguíneo tem pouca influência na determinação de quem irá ocupar o espaço psicoparental da criança e que a definição dos lugares de pai e mãe surge com as
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relações interpessoais e com os afetos nela produzidos. Ela conclui que para “ser pai"é
necessário tempo e disponibilidade: a convivência, a troca de afetos, a demonstração de
preocupação, de carinho e de cuidados são elementos positivos para a construção desse
papel. Em relação aos homens, a autora mostra, através dos relatos de falas de seus entrevistados, que a figura do novo pai está se estabelecendo através do interesse da figura
masculina em exercer as funções de cuidado e afeto ditas femininas e as executando com
competência. Este fenômeno também se verifica, portanto, nas famílias constituídas a
partir de recasamento.
Nesta mesma direção,Tomé e Schermann (2004) falam de uma paternagem de filhos
não biológicos. Para os padrastos entrevistados por elas, essa paternagem se refere à
vivência do papel masculino na família e o assumir o papel de pai dentro de casa. As
autoras citam Maldonado (2000) que afirma que a principal força determinante de um
vínculo não é a biologia humana, pois é possível observar muitas vezes que um padrasto
desempenha a paternagem melhor do que o pai biológico.
Do ponto de vista do padrasto, Lima (2003) apontou que os padrastos entrevistados
em seu trabalho trouxeram a ideia de que ser “como um pai” engloba a questão de poder
exercer alguma autoridade sobre os enteados, pois foi dessa forma que eles vivenciaram a
paternidade de seus próprios pais. Outro aspecto interessante observado nesse estudo foi o
fato dos padrastos reclamarem das escolas de seus enteados que não o reconheciam “como
um pai", reivindicando, portanto, este lugar. A fala de um dos padrastos entrevistados
por Lima (2003) deixa claro esse fato:
“A escola é extremamente preconceituosa, outras instituições eu não sei mas a
escola é. A escola não me trata como pai, muito embora eu tenha ido a todas
as reuniões, embora eu pague a mensalidade junto com a mãe dela. Eu ensino
ela porque a mãe não tem a menor paciência para ensinar, eu pego e ensino
coisas que ela tem dúvidas, isso quando eu não levo baile. Mas, por exemplo,
se ela estiver passando mal na escola, eles vão ligar procurando a mãe, se a mãe
não estiver, eles querem o celular dela, se eles não conseguirem achar a minha
esposa no celular eles vão ligar e deixar um recado para mim. Eles não vão
ligar para mim e falar: ela ta passando mal, vem buscar! (...)” (LIMA, 2003,
p. 125)

Segundo os trabalhos analisados, ser chamado de pai, ser tratado “como um pai”, ter
autorização para assumir o status de pai dos enteados, se sentir como filho verdadeiro,
são processos presentes em algum momento no estabelecimento dos vínculos afetivos entre
enteados e padrastos. Mais do que a nomeação, trata-se de um lugar relacional desejado
e reivindicado por muitos dos envolvidos, mas nem sempre reconhecido dentro e fora da
família. A relação afetiva entre padrastos e enteados precisa ser vista em suas peculiaridades. Tendo, ainda, por modelo a família nuclear e a relação pai-filho, estas experiências
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se produzem em meio a ambivalências, conflitos e dúvidas. Afastando-se de argumentos
biológicos em relação à constituição dos laços familiares, os autores dos trabalhos analisados enfatizam os aspectos psicossociais envolvidos na relação afetiva que se estabelece
com frequência na convivência entre padrastos e enteados e que, aos poucos, vem sendo
construída pelas famílias envolvidas e reconhecida pela sociedade mais ampla.

3.6 Um novo lugar parental: a contribuição do padrasto
Se o vínculo entre padrasto e enteado, embora parecido, é diferente do estabelecido
entre pai e filho, que contribuição o padrasto pode trazer para a família a partir do lugar
singular que ele ocupa? Nos textos analisados aparecem indicações, ainda que incipientes,
de que o padrasto pode representar um importante elemento na vida familiar, contribuindo
com a sua manutenção e desenvolvimento.
A análise dos trabalhos mostrou que a figura do padrasto é vista de diversas formas. Ao
mesmo tempo que sua chegada na família pode representar incômodos, perdas e conflitos,
ela pode trazer sensação de proteção e bem estar aos seus membros. O padrasto se insere
num contexto de recasamento e, portanto, de renovação familiar com expectativas de que
serão superados conflitos e sofrimentos vividos anteriormente.
Os autores de seis estudos analisados apontam que a figura do padrasto pode ser vista
de forma positiva, podendo representar um excelente auxiliar da mãe na construção das
relações familiares, além de poder exercer com sucesso o papel parental mesmo sem ter o
vínculo biológico. Ribeiro (2006) pontua essa função auxiliar do padrasto dizendo:
“o padrasto pode desempenhar uma função paterna auxiliar, ainda que não de
substituição do pai biológico, bem como construir uma relação afetiva significativa com seus respectivos enteados". (p. 47)

A citação acima destaca a possibilidade do padrasto desempenhar um papel parental
auxiliar e estabelecer vínculo afetivo com seus enteados, sem contudo pretender ocupar o
lugar do pai nem substitui-lo. Nesta posição, o padrasto parece inaugurar um novo lugar
parental na família recasada, ao lado da mãe e do pai dos seus enteados.
Semelhantemente, Travis (2003), citando Segalen (1996), fala em uma “parentalidade
social” que aponta para uma visão mais atual da figura do padrasto e da madrasta na
medida em que estas figuras passam a fazer parte da família recasada, assumindo uma
função parental. Segundo esta autora, a parentalidade social contribui com a família
somando-se à parentalidade desempenhada pelos pais biológicos. Nas palavras de Travis,

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A autora descreve que, a partir das transformações e banalização das formas de divórcio, à parentalidade biológica vem somar-se a “parentalidade social”, que aparece como uma visão mais atual da figura do padrasto e da madrasta.(TRAVIS, 2003, p. 35)

A ideia de parentalidade social assemelha-se ao que Ribeiro (2005), citada acima, chamou de ’adoção emocional’ dos filhos do cônjuge nas relações de recasamento, destacando
o vínculo afetivo que se constrói entre padrasto e enteados nestes arranjos familiares.
Na dissertação Recasamento: percepções e vivências dos filhos do primeiro casamento,
Amaral (2010) cita Oliverio Ferraris (2002) que denomina o padrasto como “a terceira figura parental”, fazendo menção à importância desse personagem em contribuir com a
manutenção do vínculo afetivo dos enteados e o genitor não residente, o que também
contribui para um bom relacionamento entre ele e seus enteados. Uma das enteadas
entrevistadas por Amaral (2010), uma adolescente de 15 anos, por exemplo, viu no seu
padrasto um elo de união entre ela e sua mãe já que ele passou a assumir as responsabilidades financeiras da casa e sua mãe pode ficar mais tempo com ela.Neste caso, o padrasto
surge como uma referência adulta e uma figura parental que não se confunde com o pai,
mas que contribui compartilhando responsabilidades e mediando relações.
A figura do padrasto aparece também positivamente atrelada à função de provedor da
família. David (2005) relata em seu trabalho que os adolescentes entrevistados escolheram
com uma grande freqüência a opção ’obrigações financeiras’ quando o assunto foi o que
padrasto deve fazer. Wagner, Halpern e Bornholdt (1999) mostram em seu trabalho que os
adolescentes entrevistados apontaram a figura masculina como a principal responsável pelo
sustento da casa, sendo que nas famílias reconstituídas essa função era dividida entre o pai
e o padrasto. Watarai (2010) também traz a questão do padrasto ser visto pelos enteados
e esposas como uma figura que assume a responsabilidade financeira em casa, apesar
de alguns enteados entrevistados afirmarem que os pais biológicos davam pensão. Estas
pontuações dos entrevistados novamente indicam expectativas em relação ao padrasto
que o aproximam do papel tradicional do pai como provedor, mas não necessariamente
substituindo o pai biológico. Mais importante, elas parecem sinalizar a novidade de
sua presença enquanto um auxiliar de uma das mais fundamentais funções parentais, na
medida em que ele assume e compartilha as responsabilidades financeiras envolvidas no
cuidado com os mais jovens na família.
Outra possibilidade de colaboração do padrasto está em sua presença positiva como referência adulta de autoridade, podendo desempenhar um papel educativo e disciplinador,
como extensamente discutido acima.
Enfim, os trabalhos analisados sugerem que o padrasto pode contribuir efetivamente
com a vida familiar ocupando um lugar parental próprio, ao lado da mãe e do pai dos
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seus enteados. A definição e delimitação de suas funções a partir deste lugar estão sendo
construídas a partir das experiências e parecem depender das características e necessidades
de cada família.

3.7 O Padrasto no Contexto da Violência Sexual
Do total de 45 trabalhos lidos, observou-se que 10 trabalhos (6 artigos e 4 dissertações) abordam a questão da violência sexual envolvendo a figura do padrasto. Dentre os
trabalhos lidos, seis foram realizados estudando apenas meninas, três estudaram meninas
e meninos e apenas um trabalho estudou um grupo exclusivo de meninos. Os trabalhos
mostram que as meninas são sempre as maiores vítimas de violência sexual na família.
É interessante destacar que 4 trabalhos apontam que os padrastos aparecem em segundo
lugar como os que mais cometem a violência sexual contra meninas, ficando em primeiro
lugar os pais biológicos. Ou seja, nos casos de violência sexual contra meninas, os pais
biológicos são os principais agressores.
Uma das dissertações lidas traz uma discussão acerca dos aspectos psicológicos e psicodinâmicos dos abusadores incestuosos. O trabalho tem como tema A Voz do Abusador:
aspectos psicológicos dos protagonistas de incesto. A autora Heloisa Maria de Vivo Marques (2005), pesquisou três padrastos que abusaram sexualmente suas enteadas. Dois
deles relataram que tinham convívio com suas enteadas desde a primeira infância e que
havia uma relação paterno-filial estabelecida. Esses padrastos trazem em sua história
pessoal o convívio com padrasto, alcoolismo dos pais e violência doméstica. Com isso, a
autora considera que alguns casos devem ser analisados numa perspectiva mais social e
outros numa perspectiva psicológica, sendo importante manter uma visão global e multidisciplinar do assunto.
Marques (2005) traz a discussão de alguns autores (Faleiros, 2001; Gabel, 1997; Garcia, 2001; Cohen, 1993) sobre o que seria mais apropriado fazer com o abusador para
findar a dinâmica intrafamiliar incestuosa e a importância da precisão de um diagnóstico
diferencial para que se encontrem alternativas eficientes. E, diante dos casos individuais
estudados em sua pesquisa, a autora considera que
...existem casos que a prisão não é a alternativa mais acertada, tendo em vista as
possibilidades de culpabilização e reparação dos atos, como no caso de Pedro.
Talvez, o processo terapêutico intrafamiliar e individual, bem como o tratamento para o alcoolismo, pudessem ser mais efetivos. No caso de João e Luiz a
problemática se torna mais complexa, tendo em vista os modos de atuação mais
violentos, hostis e impulsivos, bem como a impossibilidade de autopercepção
sobre a realização do ato incestuoso (MARQUES, 2005, p. 159).

42

Com relação ao ato incestuoso, a autora faz algumas reflexões sobre esse tabu à luz
da psicanálise e questiona como os indivíduos que o cometeram o percebem, já que o
senso comum o vê como um ato hediondo e desumano. Outro questionamento é se há
a compreensão do tabu por parte desses indivíduos. Ela cita Forward & Buck (1989)
que afirmam que praticamente não existem agressores que compreendam e admitam sua
responsabilidade pelo ato incestuoso e que ainda tem aqueles que tentam dividir a responsabilidade com outra pessoa. Diante dos casos particulares analisados, a autora confirma
essas afirmações dizendo
João nega totalmente sua implicação no ato incestuoso, mesmo com a sua
ocorrência, alegando a sedução da enteada; Luiz acoberta o acontecimento do
ato, mas fala de uma armadilha preparada pela mulher e Pedro permanece
entre a culpabilização e a desculpabilização, atribuindo o seu alcoolismo e o
desejo da enteada, como fatores também determinantes (MARQUES, 2005, p.
160).

A questão de gênero foi discutida no estudo como um elemento importante a ser
considerado, pois, nos três casos, os agressores usaram de forma imperiosa as mulheres
na realização dos seus desejos sexuais. A autora considera que as representações que
os padrastos demonstraram ter das mulheres como sendo desqualificadas e sem valor
favoreceram a ação do ato incestuoso. Nas palavras da autora,
Nos três casos há a manifestação de conteúdos hostis, agressivos e violentos com
as mulheres-enteadas abusadas indicando o movimento de realizar a todo custo
seus desejos, à medida que as consideram passivas e submissas (MARQUES,
2005, p. 162).

Segundo a autora, dois dos três entrevistados no estudo apresentaram características
narcísicas, mostrando-se insensíveis, sedutores, arrogantes, megalomaníacos e egocêntricos. A questão do poder também apareceu como elemento essencial na relação com o
outro para esses dois entrevistados. Ela aponta que os agressores, durante os encontros
para o estudo, mostraram uma imagem de força e autosuficiência, no entanto, quando
se sentiam ofendidos com alguma pergunta mostravam-se desestruturados e agressivos,
demonstrando, assim, uma falsa segurança. A autora ressalta que, apesar das reflexões
terem vinculado o narcisismo à personalidade dos abusadores incestuosos, não se pode
generalizar, pois também foi encontrado indivíduo com outro perfil.
A dissertação que abordou apenas meninos, intitulada Dimensões da Violência Sexual
Contra Meninos sob a Ótica de Gênero: um estudo exploratório, cuja autora é Sonia
Fortes do Prado (2006), teve como objetivo compreender o abuso sexual em meninos, cuja
incidência tem se mostrado insignificante em comparação ao abuso sexual em meninas. A
autora questiona esta diferença, tendo como hipótese "que a construção social de gênero
43

tem sido um dos motivos que sustenta o quadro de abuso sexual em meninos e fortalece
a sua invisibilidade"(p.9).
Das três famílias estudadas por Prado (2006), apenas numa o padrasto foi o autor do
abuso sexual. Dessas três famílias duas são de classe econômica baixa e uma de classe
média. A família que teve o padrasto como autor do abuso é de classe baixa. A autora
revela, ainda, que a violência conjugal foi presente nos relatos das três famílias e mostrouse como um elemento gerador de muito estresse para toda família principalmente para as
crianças e adolescentes. Ribeiro (2004) citada por Prado (2006), concluiu, em um estudo,
que são nas famílias reconstituídas ou monoparentais que ocorrem com mais freqüência
o abuso sexual em função dos laços parentais serem mais afrouxados e as fronteiras intergeracionais poderem parecer menos evidentes. Em comparação a essa afirmação, cabe
ressaltar, mais uma vez, que, dos 10 trabalhos selecionados no presente estudo que trouxeram a temática do abuso sexual, 4 afirmam que pais biológicos são mais frequentemente
apontados como perpetradores de abuso sexual do que padrastos.
Prado (2006) afirma que nos casos de abuso sexual contra meninos a questão parece
ser um segredo mais delicado do que o abuso sexual contra meninas. Ela aponta dois
fatores que contribuem para isso: o baixo número de casos registrados e a interferência
que esse tipo de abuso tem na noção de masculinidade, tanto dos meninos vitimizados
como dos seus familiares. No entanto, diante da afirmação da autora podemos questionar
se o baixo número de registros de casos de abuso sexual contra meninos já não seria uma
expressão dessa atmosfera mais sigilosa. Saffioti (1997) citada por Matias (2006), afirma
que a cultura machista da sociedade brasileira contribui para o baixo índice de denúncias
de abuso sexual cometido contra meninos. Prado (2006) destaca, ainda, que nas três
famílias estudadas o aspecto da transgeracionalidade é constatado, pois os padrões de
relacionamentos violentos estão presentes em três gerações anteriores e muitas vezes nos
dois lados da família.
Com relação à família estudada por Prado que teve o padrasto como abusador do
enteado, a denúncia foi feita por uma vizinha. Enquanto a mãe diz que está separada, o
padrasto diz que não estão separados. Segundo a autora, nessa família é o homem quem
dá as ordens e os princípios do patriarcalismo são claramente evidenciados. Na fala da
autora
Em um momento da entrevista vimos o estado de vulnerabilidade do papel
da mulher que, tem dificuldades em estabelecer limites em sua própria casa,
casa esta adquirida por ela. Esta permite que o segundo ex-marido (assim
considerado por ela) e suposto abusador sexual de seu filho entre em casa, deite
em sua cama e determine normas com as quais ela discorda, porém, se omite
para não contrariá-lo. Talvez o medo a impeça de tomar atitudes (PRADO,
2006, p. 137).

44

Nos demais trabalhos lidos, destaca-se o silêncio diante do abuso sexual, frequentemente encontrado nas famílias. O padrasto, mesmo sendo o abusador causador de muitos
sofrimentos, é visto pela família como uma pessoa importante pois muitas vezes ele é o
único provedor da casa. Esse fato é considerado pelos autores como um dos fatores que
contribuem para o estabelecimento de um comportamento de silêncio diante do abuso
ocorrido. Na dissertação Mães de Meninas Vítimas de Abuso Sexual: aquilo que não se
pode dizer, a autora Ramos (2010) cita Faleiros(1997) que diz:
O segredo familiar geralmente está presente visando a preservação do provedor
e, muitas vezes, há a complacência de outros membros da família (FALEIROS,
1997, citado por RAMOS, 2010, p. 22)

O silêncio diante do abuso sexual também aparece como fator de proteção, tanto para
a vítima como para a família, como se pode apreender destas citações:
O silêncio se configura como um aliado que a recoloca num lugar de proteção,
como se nada tivesse acontecido, a não ser pela presença de Amanda. O silêncio
também parece ter o mesmo significado para sua família. (...) Um aspecto que
nos escapa, e que é fruto deste silêncio, é sobre quem foi este padrasto ou o
desconhecimento da dinâmica conjugal e/ou familiar na qual a violência foi perpetrada. Este homem fugiu covardemente e, assim, auxilia na manutenção do
silêncio, acrescido das ajudas financeiras esporádicas que envia (CANTELMO,
CAVALCANTE E COSTA, 2011, p. 12).
(...)mesmo tendo dúvidas quanto à veracidade do abuso, algumas mães não
conseguem se desvencilhar de uma relação que consideram ser essencial para
a manutenção de sua unidade familiar: pensam em seus outros filhos, como
ficarão sem a presença do pai, e ainda temem pela condenação do companheiro
e a repercussão que isso terá na sociedade e na vida deles. (RAMOS, 2010, p.
105).

Os estudos encontrados constatam o fato do padrasto ser uma das principais figuras
que cometem abuso sexual contra crianças e adolescentes. Esta associação permeia as
ideias populares difundidas acerca da pessoa do padrasto, frequentemente produzindo
preconceitos e expectativas negativas em relação aos vínculos estabelecidos nas famílias
recasadas, trazendo graves repercussões no âmbito individual e social. No entanto, os
estudos mostram a importância de se levar em consideração o que antecede a relação entre
padrasto e enteados, denunciando a dinâmica das relações de gênero marcadas, ainda, por
dominação, violência e opressão, as quais não são exclusivas das famílias reconstituídas.
Vale o destaque de que as pesquisas mostram que os pais biológicos são frequentemente
os principais autores de violência sexual contra suas filhas. Neste sentido, a violência
sexual cometida por padrastos contra seus enteados e enteadas precisa ser examinada no
45

contexto mais amplo de violência contra os mais vulneráveis (crianças e mulheres), vivida
no seio da família nuclear em suas diversas configurações.

3.8 O Padrasto e a Clínica do Recasamento
Dentre todos os trabalhos lidos, apenas um foi realizado com profissionais terapeutas
de família, tendo como objetivo analisar a percepção dos terapeutas de família do Rio de
Janeiro a respeito do recasamento, assim como as abordagens teórico-práticas preferencialmente utilizadas nos atendimentos. Essa tese tem como título Construções familiares: um
estudo sobre a clínica do recasamento (TRAVIS, 2013), e a autora entrevistou 10 terapeutas de família de orientação sistêmica. Os temas propostos na pesquisa foram: concepções
do terapeuta, especificidades do recasamento e referências teórico-clínicas. Para a análise
dos dados colhidos nas entrevistas, a autora constituiu cinco categorias de análise: família,
família recasada, transformações sociais, queixas relacionadas ao recasamento e relação
teoria-prática.
Ao abordar a categoria família a autora percebeu a diversidade de respostas dadas
e passou a compará-las. Algumas semelhanças surgiram como a dificuldade de alguns
terapeutas em definir família. Eles se referem à pergunta como algo de muita complexidade.Um dos entrevistados diz:
“Pergunta difícil. Hoje em dia a gente ...o conceito de família tradicional mudou
muito ...a gente trabalha aqui na Teoria Geral de Sistemas, então a gente entra
num sistema que a família traz ... eu vou trabalhar com aquilo que vem, que
chega” (TM.3). (p. 103)

A autora aponta que alguns entrevistados trazem o modelo nuclear em suas considerações enquanto outros já não o trazem ou estão tentando não trazê-lo. Parece haver um
certo receio de alguns entrevistados em dar sua opinião baseada no modelo tradicional,
possivelmente tentando evitar a crítica. Na fala da autora
Primeiramente, parece que tornou-se “politicamente incorreto”, no campo das
terapias, qualquer tipo de comentário que pareça excluir algum grupo da possibilidade de considerar-se família, com todos os direitos, deveres e características
a ela atribuídos. Os entrevistados mencionam expressões como “polêmicos” ou
“não moderno” antes de expressarem suas opiniões pessoais sobre o tema, como
se as considerassem ultrapassadas (p. 106).

A autora, ao citar a influência do modelo de família nuclear nas concepções de família
dos entrevistados, esclarece que os pesquisadores não defendem o abandono do modelo
nuclear, mas sim apresentam uma análise mais ampla da ideologia a ele atrelada, propondo

46

uma atitude mais inclusiva, ficando o modelo nuclear como uma das possibilidades de
configuração familiar.
Na categoria família recasada, a autora pontua que apenas um entrevistado incluiu
em sua definição todos os aspectos que caracterizam uma família recasada, conforme se
encontra na literatura. Os filhos de uma relação anterior são apontados pela literatura
como um fator marcante da família recasada. A definição dada por este entrevistado foi:
“...aquela que um dos parceiros adultos, um dos parceiros do que seria o casal,
ele tem ou ela tem uma experiência de casamento, de vínculo afetivo anterior
a esse casamento, e trouxe para essa relação filhos, que moram juntos ou não,
mas que têm uma relação em que alguém é biologicamente progenitor e alguém
não é ...” (TF.1).

Outros terapeutas entrevistados não incluíram os filhos em suas definições e mostraram
dúvidas sobre serem os filhos uma característica da família recasada.
Aqui é importante esclarecer que nos trabalhados selecionados para o presente estudo
encontrou-se o conceito de família recasada tendo os filhos de casamentos anteriores como
um dos elementos que a caracterizam. No entanto, Costa (2008), apesar de adotar também
esse conceito de família recasada, pontua que “...a complexidade estrutural e a diversidade
de configurações possíveis não nos permitem falar de uma família recasada típica” (p. 15).
Alguns terapeutas entrevistados trouxeram a ideia de que uma família recasada é como
outra qualquer e outros pontuaram que são famílias que trazem questões específicas em
suas relações, incluindo aspectos negativos, como mostram as falas abaixo:
“Para mim, um casamento ou um recasamento é quando duas pessoas resolvem,
a partir de um projeto juntos, montar aquele espaço ... e o espaço é geográfico,
são as paredes, as fronteiras, enfim, é o sistema...” (TF. 6). (p. 111).
“Eu acho que (o recasamento) é uma situação complicadíssima, sabia? As pessoas ...eu acho uma sacanagem, porque as pessoas lêem reportagens de jornais,
onde todo mundo ... os seus, os meus, os nossos, é tudo tão bonito, tão harmônico...e na verdade é tão complicado ! ” (TF.5).(p. 112).

A autora constata que os entrevistados apresentam um distanciamento em relação à
leitura específica sobre o tema recasamento. A maioria dos entrevistados pareceu não
considerar relevante ter algum conhecimento específico no atendimento de famílias recasadas. Justificaram dizendo que a orientação sistêmica por eles seguidas adequava-se aos
diferentes sistemas familiares atendidos.
Segundo a autora, as respostas dadas sobre o recasamento, pareceram apoiar-se mais
nas experiências clínicas com famílias de primeiro casamento e em ideias do senso comum do que baseadas em discussões e estudos específicos sobre o tema. As práticas dos
47

terapeutas entrevistados parecem ir mudando mais a partir das transformações sociais
inevitáveis e as demandas clínicas que geram do que por reflexões sobre a articulação
entre teoria, prática e as mudanças sociais.
Na categoria transformações sociais a autora pontua que todos os entrevistados percebem as muitas mudanças sociais que se refletem na vivência familiar e que a metade dos
terapeutas entrevistados apresenta uma visão positiva frente às mesmas. Entre as transformações sociais mais citadas pelos entrevistados estão as conseqüências da separação
conjugal, a qual está sendo vista de forma menos traumática, o surgimento de diferentes
constituições familiares na clínica, como casais homossexuais e famílias monoparentais, e
a busca por psicoterapia por um número cada vez maior de famílias recasadas.
Os demais entrevistados foram menos otimistas ou não fizeram julgamentos, limitandose a descrever suas percepções. As concepções menos otimistas falaram da "exclusão do
pai"num grande número de famílias sendo que um dos entrevistados fala dessa exclusão
como uma opção das pessoas de construir uma família sem ter o pai como uma figura
necessária e outro entrevistado fala do número expressivo de mulheres que vivem sem
um companheiro e sem um referencial de pai para a criança. Ressaltaram, também, a
dificuldade em não repassarem seus próprios valores sobre casamento e família para esses
diferentes grupos familiares que têm procurado com mais freqüência seus atendimentos.
Na categoria queixas relacionadas ao recasamento a autora, baseada na literatura especializada, inicia falando sobre os prejuízos às famílias recasadas acarretados pela desinformação das especificidades existentes na estrutura e nas relações dessas configurações
familiares e pontua sobre o papel do terapeuta na transmissão dessas informações aos
membros dessas famílias. Os entrevistados confirmam a existência desse desconhecimento
e de expectativas irreais acerca das novas relações. A maioria relata que seus clientes não
fazem relação dos seus problemas com a situação de recasamento.
Dentre as queixas mais comuns que os entrevistados escutam dos membros das famílias
recasadas, a autora identificou três temas recorrentes: os filhos de casamentos anteriores de
um ou de ambos os membros do casal, ex-cônjuges e finanças. Nesta categoria surgiram
questões voltadas à culpa, conflitos de lealdade dos filhos em relação aos seus pais e
padrasto/madrasta, falta de autoridade, expectativas frustrantes envolvendo as relações
entre padrasto/madrasta e enteados, a interferência dos ex-cônjuges no recasamento e na
questão financeira. Duas terapeutas entrevistadas fazem menção à questão do conflito
frente à autoridade do padrasto, questão recorrente trazida por seus clientes. A fala
das duas entrevistadas mostra que ambas apresentam uma concepção de modelo familiar
nuclear atribuindo ao homem o papel de autoridade e mantendo a expectativa que o
padrasto assuma tal papel, como se pode ver nos trechos a seguir:

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“Eu acho que essa coisa, principalmente do homem, que entra no sistema, não
se sentir autorizado, da mãe não deixar esse novo parceiro entrar, ter um papel
de autoridade:“com os meus filhos você não mexe”, “até aqui mando eu...”, quer
dizer, o dever do pai. Eu sinto muito isso, do marido se sentir totalmente
descartado, de querer desempenhar o papel de pai e ser alijado do sistema”
(TF.5). (p. 128)
“Os homens não sabem como colocar essa autoridade, a questão da hierarquia.
Ele não sabe se tem 100% autoridade com o filho do outro, ou se é uma coisa
de meio a meio. Qualquer coisa que ele chama a atenção, ele não sabe se está
sendo bem recebido ou se está sendo comparado... Então, as vezes, o homem
tem muita dificuldade de lidar com a qualidade e o nível dessa hierarquia e
dessa autoridade em casa” (TF.6). (p. 129)

A autora ressalta a importância do terapeuta em situar as famílias recasadas diante
de suas especificidades. Nas palavras da autora
“Se os membros da família trazem para a terapia as noções de funcionamento familiar baseadas em famílias de primeiro casamento, cabe ao terapeuta
apresentá-los às questões específicas dessa nova configuração familiar na qual
estão inseridos. O tratamento torna-se inviável, porém, se o terapeuta também
busca enquadrar a família recasada no modelo de família nuclear. ”(p. 129)

Na categoria relação teoria-prática a autora sinaliza que todos os terapeutas entrevistados tiveram formação em teoria sistêmica ao iniciarem suas formações em terapia
de família. Com o tempo, alguns se afastaram do referencial teórico inicial. Alguns
entrevistados mostraram um relação explícita da teoria com sua prática, demonstrando
preocupação em estar sempre refletindo sobre essa relação e suas transformações. Um dos
entrevistados fala de sua prática relacionando-a a teoria. Ele diz:
“Quando você é sistêmico, você trabalha em contexto. Se o contexto muda,
você muda também. Esse é um dos princípios básicos da terapia de família. A
família é o contexto onde o indivíduo está inserido, se você trabalha naquele
contexto você ajuda o indivíduo” (TM.4).(p. 133)

Outros entrevistados não foram tão explícitos nessa relação de teoria-prática e se
colocaram mais numa posição de colaboradores das famílias e seus membros do que de
especialistas.
O trabalho não apresenta de forma específica questões sobre a figura do padrasto na
concepção dos entrevistados, embora o tema apareça em algumas entrevistas. Na parte
teórica a autora faz menção sobre o papel do terapeuta diante da família recasada que
procura ajuda terapêutica, o qual deve ser de orientar sobre as diversas peculiaridades
desse tipo de configuração familiar. A autora cita, por exemplo, a necessidade do terapeuta
49

apresentar e debater os novos papéis familiares e as novas regras familiares. Cita, ainda,
que as pesquisas clínicas apontam para uma função didática do terapeuta, usando a
psicoeducação como um recurso terapêutico fundamental.
Enfim, percebe-se que os profissionais que trabalham com grupos familiares estão em
processo de adaptação às novas demandas clínicas e de revisão de conceitos e perspectivas
frente às diferentes configurações familiares e seus membros. Há uma tendência desses
profissionais ainda olharem para as novas famílias numa perspectiva do modelo da família
nuclear tanto em sua estrutura como em suas relações. No entanto, foi visto que há
uma preocupação por parte deles em não deixar suas concepções pessoais acerca do tema
interferirem nas intervenções terapêuticas.

50

Capítulo

4
Conclusões

A presente pesquisa teve como objetivo principal conhecer e analisar a produção acadêmica brasileira sobre o padrasto na família recasada. Ao se fazer o levantamento quantitativo da produção acadêmica percebemos um número reduzido de trabalhos publicados,
evidenciando a escassez de pesquisas sobre o assunto. Este dado é mais relevante quando
se considera que o levantamento incluiu múltiplos descritores e bases de dados e não delimitou data de publicação, incluindo todos os trabalhos disponíveis nos bancos de dados
pesquisados. Os desafios psicossociais que a família contemporânea vem enfrentando dão
a dimensão da necessidade e urgência de se produzirem pesquisas sobre o tema. A importância da família como contexto relacional primário para a constituição subjetiva do
ser humano é incontestável. As grandes mudanças pelas quais a família vem passando,
ao tempo em que reafirmam sua construção sócio-histórica, precisam ser conhecidas e
compreendidas.
A partir do material encontrado, foi possível apresentar uma visão panorâmica de
como o tema vem sendo abordado pelos pesquisadores da área da Psicologia, a qual se
vinculam a grande maioria dos trabalhos.
Féres-Carneiro (1998) defende a ideia de que é a qualidade das relações que dará a
competência às famílias, independentemente de serem casadas, divorciadas ou recasadas.
Em nossa pesquisa vimos que alguns trabalhos compartilham dessa ideia e afirmam que
as diferentes configurações familiares podem trazer um potencial de promoção de saúde
para seus membros, pois a qualidade das relações familiares trazem mais bem estar ao
grupo do que sua constituição.
Vimos, ainda, que a família nuclear e a figura do pai são fortes referências como
modelos a serem seguidos pelas famílias de recasamento, as quais são sistematicamente

questionadas pelos pesquisadores. Este dado nos remete a Figueira (1987) que fala sobre
a modernidade que convive com a coexistência dos antigos e novos ideais e identidades,
sinalizando que, mesmo de forma invisível, o arcaico se mantém presente fazendo, de
forma eficaz, oposição ao moderno. As mudanças ocorridas na família se processam de
forma gradativa, o que dá a possibilidade dessa convivência e sobreposição entre o novo e
o antigo.
A questão da entrada de novos membros na família após a constituição de uma nova
conjugalidade apresenta-se atrelada a diversas questões relacionais. Os estudos mostraram
o impasse que o padrasto se depara em relação a qual papel irá e/ou poderá assumir
diante dos filhos da sua nova companheira. Esta situação evoca e questiona a questão do
parentesco, já que na cultura ocidental o vínculo biológico é o que dá o estatuto jurídico
ao adulto. Autores como Ferreira (1987) e Uziel (2000) ao trazerem suas perspectivas
acerca da diferença entre parentalidade e parentesco e a concepção de pluriparentalidade,
respectivamente, apresentam a possibilidade do padrasto exercer uma função parental
legitimada pela sua competência parental.
A produção acadêmica analisada mostra que a figura do padrasto, apesar de carregar
o estigma de possível abusador dos enteados e de não ter prescrições sociais claras que
norteiem seu papel, vem sendo reconhecida como uma figura parental auxiliar de relevância no convívio da família recasada. Diversos estudos registram que sua presença na
família vem sendo construída a partir da experiência vivida, enfatizando possibilidades
para além da repetição do modelo da primeira união conjugal ou da imagem da família
nuclear como o padrão a ser seguido.
Nosso trabalho mostra o quanto as pesquisas acadêmicas sobre família contribuem
para dar visibilidade a aspectos relevantes das novas configurações familiares, assim como
para gerar discussões a respeito das possibilidades e da legitimação desses grupos e de seus
membros. Sua relevância está, primeiramente, em apontar a contribuição da Psicologia
como protagonista da produção brasileira sobre o padrasto na família contemporânea.
Destaca, ainda, que os modos como a Psicologia vem abordando o padrasto na família recasada contribuem para a problematização das complexas questões envolvendo as relações
familiares e a parentalidade. Concluimos que a Psicologia, enquanto campo de produção
de conhecimento, tem colaborado com a superação de estigmas e com a construção de
novos paradigmas acerca da vida familiar, com repercussões no campo cultural, na formação profissional e nas intervenções nas áreas da clínica, educação, assistência social e
jurídica.
Percebemos que ainda existem pontos que precisam ser aprofundados em futuras pesquisas e esperamos que este trabalho fomente no leitor novos questionamentos e novas

52

pesquisas sobre a figura do padrasto na família recasada.

53

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contemporâneos: sexualidade, fidelidade e dinheiro na vivência da conjugalidade.
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e psicoterapia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.
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a dimensão invisível da mudança social. In.: FIGUEIRA, S. A. (Org.) Uma Nova
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ero, %20f eminismo%20e%20sexualidades{T RAN F ORM A%C7%D5ES%20N O%
20CASAM EN T O%20E%20SAT ISF A%C7%C3O%20CON JU GAL%20F AT OR
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Familiar: um estudo comparativo entre famílias originais e reconstituídas. Psico, vol
30, no 2, Porto Alegre, 1999.
61

[71] WAGNER, A., RIBEIRO, L.S., ARTECHE, A. X., BORNHOLDT, E.A. Configuração familiar e o bem estar psicológico dos adolescentes. Disponível em
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[72] WATARAI, F. Filhos, pais, padrastos: relações domésticas em famílias recompostas das camadas populares. 2010. 147 f. Tese (Doutorado em Psicologia) - Departamento de Psicologia e Educação, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto-SP. 2010.
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27012011 ´ 154253{pt ´ br.php ą . Acesso em 05 jan. 2014.

62

Apêndice

A
Apêndice

Apêndice A - Descrição dos trabalhos selecionados para a análise.
TÍTULO

ANO

TIPO

AUTOR(ES)

A família recasada: papéis,
funções e a educação dos filhos
A arte de recomeçar: uma
compreensão da dinâmica
das famílias recasadas
A menina mãe: incesto e
maternidade

2000

Artigo

Sim

Padrasto/Padrastos

2008

Dissertação

Márcia Aparecida
M. de Oliveira e
Adriana Wagner
Juliana Monteiro
Costa

Sim

Recasamento / Recasamentos

2009

Artigo

Sim

Padrasto/Padrastos

A voz do abusador: aspectos psicológicos dos protagonistas de incesto
Abuso sexual e sociometria: um estudo dos vínculos afetivos em famílias incestuosas
Abuso sexual infantil e dinâmica familiar:
aspectos observados em processos jurídicos

2005

Dissertação

Claudia A. Cantelmo, Thainá P.
Cavalcante e Liana
F. Costa
Heloisa Maria de
Vivo Marques

Sim

Padrasto/Padrastos

2006

Dissertação

Delane Pessoa Matias

Sim

Padrasto/Padrastos

2005

Artigo

Sim

Família Reconstituída / Famílias
Reconstituídas

Adoção emocional em famílias de recasamento: um
estudo sobre a construção
das relações afetivas entre
padarasto/madrasta e seus
enteados
As representações sociais
de conjugalidade entre casais recasados

2005

Dissertação

Luísa F. Habigzang,
Sílvia H.
Koller, Gabriela A.
Azevedo e Paula
X. Machado
Rosa Maria Ferreira Ribeiro

Sim

Padrasto/Padrastos

2012

Artigo

Sim

Recasamento / Recasamentos

9.

As transições familiares do
divórcio ao recasamento no
contexto brasileiro

2009

Artigo

Sim

Recasamento / Recasamentos

10.

Casamento atual e famílias
reconstituídas: dilemas e
peculiaridades
Casamento
contemporâneo: o difícil convívio da
individualidade com a
conjugalidade
Configuração e estrutura
familiar: um estudo comparativo entre famílias originais e reconstituídas
Configuração familiar e o
bem-estar psicológico dos
adolescentes

2006

Artigo

Priscilla de O.
M. Silva, Zeidi A.
Trindade e Annor
da S. Junior
Débora S. Cano,
Leticia M. Gabarra, Carmen O.
Moré e Maria A.
Crepaldi
Nairo de Souza
Vargas

Não

Recasamento / Recasamentos

1998

Artigo

Terezinha
Carneiro

Féres-

Sim

Recasamento / Recasamentos

1999

Artigo

Adriana Wagner,
Silvia C. Halpern e
Ellen A. Bornholdt

Sim

Padrasto/Padrastos

1997

Artigo

Sim

Família Reconstituída / Famílias
Reconstituídas

Construções
familiares:
um estudo sobre a clínica
do recasamento
Crenças e valores dos adolescentes acerca de família, casamento, separação e
projetos de vida
Crianças com problemas
de comportamento exteriorizado e a dinâmica familiar
Dados demográficos, psicológicos e comportamentais
de crianças e adolescentes
vítimas de abuso sexual

2003

Tese

Adriana Wagner,
Luciane
de
S.
Ribeiro,
Adriane
X. Arteche e Ellen
A. Bornholdt
Susan Travis

Sim

Recasamento / Recasamentos

1996

Artigo

Adriana Wagner,
Denise Falcke e
Eliane B. D. Meza

Sim

Família Reconstituída / Famílias
Reconstituídas

2004

Artigo

Maria Auxiliadora
Dessen e Adriane
C. Szelbracikowski

Sim

Padrasto/Padrastos

2010

Artigo

Antônio de P. Serafim, Fabiana Saffi,
Maria Fernanda F.
e Daniel M.
64Achá
de Barros

Sim

Padrasto/Padrastos

1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

8.

11.

12.

13.

14.

15.

16.

17.

DISPONÍVEL

DESCRITOR

18.

19.

20.

21.

22.

23.

24.

25.

26.

27.

28.

29.

30.

31.

32.

33.

34.

35.

36.

TÍTULO

ANO

TIPO

AUTOR(ES)

Dimensões da violência sexual contra meninos sob a
ótica de gênero: um estudo
exploratório
Do casal recasado à família
recasada: expectativas em
relação à paternidade
E viveram felizes...até o
próximo casamento: o recasamento e a emergência
de novas subjetividades
Ele, o marido da minha
mãe: atributos do papel
de padrasto entre adolescentes
Família recasada:
suas
possibilidades de reorganização a partir de um ciclo
de vida específico
Famílias incestuosas de
classes populares:
seus
personagens e dinâmica
relacional
Famílias recasadas: mudanças, desafios e potencialidades
Filhos no recasamento estudo de caso com famílias
em segunda união
Filhos, pais, padrastos: relações domésticas em famílias recompostas das camadas populares
Interação das dimensões de
individualidade e conjugalidade no recasamento
Intervenção no abuso sexual intrafamiliar: ingerência invasiva ou proteção devida?
Irmãos, meio irmãos e coirmãos: a dinâmica das relações fraternas no recasamento
Mães de meninas vítimas
de abuso sexual: aquilo que
não se pode dizer
Mamãe casou: a perspectiva infantil sobre os relacionamentos conjugais pósdivórcio
No fogo cruzado: desafios
e vivências de pais e mães
recasados
Novas configurações familiares e seus vínculos sócioafetivos
O abuso sexual e a criança:
o caso joão e maria

2006

Dissertação

Sonia Fortes
Prado

do

Sim

Padrasto/Padrastos

2001

Dissertação

Mirna Maria
Branco

N.

Não

Recasamento / Recasamentos

2010

Dissertação

Juliana de Almeida
Ribeiro da Costa

Sim

Recasamento / Recasamentos

2005

Dissertação

Patrícia Cristófaro
David

Sim

Padrasto/Padrastos

1989

Dissertação

Maria
Penso

Aparecida

Não

Padrasto/Padrastos

1999

Dissertação

Sueli Z. P. Barison

Não

Padrasto/Padrastos

2012

Artigo

Sim

Recasamento / Recasamentos

2011

Tese

Juliana M. Costa e
Cristina M. de S.
B. Dias
Wladimir Porreca

Não

Recasamento / Recasamentos

2010

Tese

Felipe Watarai

Sim

Padrasto/Padrastos

1992

Artigo

Jesus Garcia Pascual

Não

Recasamento / Recasamentos

2009

Artigo

Sim

Padrasto/Padrastos

2005

Tese

Viviane A. dos
Santos, Liana F.
Costa e Ivonete A.
C. L. Granjeiro
Adriana Leonidas
de Oliveira

Sim

Recasamento / Recasamentos

2010

Dissertação

Márcia Candelária
da Rocha Ramos

Sim

Padrasto/Padrastos

2006

Dissertação

Flávia Maria Scigliano

Sim

Padrasto/Padrastos

2009

Dissertação

Laura Cristina Eiras Coelho Soares

Sim

Padrasto/Padrastos

2006

Dissertação

Beatrice
Paulo

Marinho

Sim

Recasamento / Recasamentos

2005

Artigo

Sim

Padrasto/Padrastos

O exercício da paternidade
após a separação: um estudo sobre a construção e a
manutenção do vínculo afetivo entre pais e filhos na
família contemporânea
O recasamento e a representação gráfica da família

2003

Dissertação

Paula W. Ribeiro e
Vânia Conselheiro
Sequeira
Cristina
Ribeiro
Teixeira Dantas

Sim

Recasamento / Recasamentos

2000

Artigo

Adriana
Wagner e Terezinha
Féres-Carneiro

Sim

Recasamento / Recasamentos

65

DISPONÍVEL

DESCRITOR

TÍTULO

ANO

TIPO

AUTOR(ES)

37.

O subsistema fraterno na
família recasada

2011

Artigo

Sim

Padrasto/Padrastos

38.

Padrasto, o novo pai: nova
postura
Parentalidade em tempo
de mudanças: desvelando
o envolvimento parental
após o fim do casamento
Paternidade:
considerações sobre a relação paisfilhos após a separação conjugal
Percepção de conflito em
uma família recasada constituída por um filho com
paralisia cerebral
Percepções e expectativas
dos adolescentes ao recasamento de suas mães
Práticas parentais e recursos do ambiente de famílias nucleares, monoparentais e recasadas e o comportamento de crianças durante a transição para o ensino fundamental
Problemas de comportamento exteriorizado e as
relações familiares: uma
revisão da literatura
Recasamento e filhos adolescentes: um estilo de vida
em negociação
Recasamento e recomposição familiar: questões metodológicas, de linguagem
e das teorias
Recasamento: percepções
e vivências dos filhos do
primeiro casamento
Reorganizações familiares:
as possibilidades de saúde
apartir da separação conjugal
Resiliência e vulnerabilidade em famílias em situação de risco
Retornando para a família
de origem: fatores de risco
e proteção no processo de
reinserção de uma adolescente institucionalizada
Ser ou não ser: a experiência do homem nos cuidados
dos filhos da companheira
Toda criança tem família:
criança em situação de rua
também
Um estudo sobre o recasamento no Brasil
Vivendo casamentos, separações e recasamentos: um
estudo sobre o campo representacional da conjugalidade

2004

Artigo

Sim

Padrasto/Padrastos

2007

Tese

Daniela H. Amaral
e Cristina M. de S.
B. Dias
Graciella L. Tomé e
Lígia Schermann
Luciana
Suàrez
Grzybowski

Sim

Recasamento / Recasamentos

2004

Artigo

Sim

Recasamento / Recasamentos

2012

Artigo

Sim

Padrasto/Padrastos

1999

Dissertação

Cristina
Dantas,
Bernardo
Jablonski e Terezinha
Féres-Carneiro
Hilda R. M. de
Freitas, Simone S.
C. Silva e Fernando
A. R. Pontes
A. D. L. Wagner

Não

Padrasto/Padrastos

2011

Tese

Vanessa Barbosa
Romera Leme

Sim

Recasamento / Recasamentos

2007

Artigo

Maria Auxiliadora
Dessen e Adriane
C. Szelbracikowski

Sim

Família Recasada /
Famílias Recasadas

2008

Dissertação

Christina
Cury

Manço

Sim

Recasamento / Recasamentos

1990

Artigo

Sim

Recasamento / Recasamentos

2010

Dissertação

Júlia S. N. F. Bucher e Maria Alexandra M. Rodrigues
Daniela Heitzmann
Amaral

Sim

Padrasto/Padrastos

1992

Artigo

Não

Recasamento / Recasamentos

2003

Tese

Liana F. Costa,
Maria Aparecida
Penso e Terezinha
Féres-Carneiro
Alessandra M. Cecconello

Sim

2007

Artigo

Aline C. Siqueira
e
Débora
D.
Dell’Aglio

Sim

Família Reconstituída / Famílias
Reconstituídas
Padrasto/Padrastos

2003

Tese

Maria Thereza de
Alencar Lima

Sim

Padrasto/Padrastos

2007

Artigo

Sim

1987

Artigo

Simone dos S. Paludo e Silvia H.
Koller
E. M. A. S. Woods

Família Reconstituída / Famílias
Reconstituídas
Padrasto/Padrastos

2009

Tese

39.

40.

41.

42.

43.

44.

45.

46.

47.

48.

49.

50.

51.

52.

53.
54.

Priscilla de Oliveira Martins

66

DISPONÍVEL

Não
Sim

DESCRITOR

Recasamento / Recasamentos

Apêndice

B
Apêndice

Apêndice B - Roteiro de Leitura
TIPO DE DOCUMENTO
TÍTULO
AUTOR
ANO/LOCAL
ÁREA DE CONCENTRAÇÃO
APORTE TEÓRICO
IMPRESSÕES INICIAIS

Dissertação
A Arte de Recomeçar: uma compreensão da dinâmica
das famílias recasadas
Juliana Monteiro Costa
2008/Recife
Psicologia
Teoria Geral dos Sistemas (TGS)
A autora fala das várias possibilidades na formação de
um grupo familiar apesar de ainda ser forte uma maior
valorização do modelo de família nuclear; fala da dificuldade de se nomear as relações criadas entre os novos
membros da família recasada; os papéis e funções na família recasada não são claramente definidos; não há respaldo jurídico para a autoridade do padrasto/madrasta
em função de não haver o vínculo biológico; já há um
movimento de desmistificação de paradigmas em relação
ao recasamento que pode ser uma estrutura nova e não
uma cópia imperfeita da família nuclear, com possibilidades de padrasto e madrasta serem inseridos no sistema com um papel específico; esses núcleos familiares
são tão capazes de promover a saúde quanto as famílias
de primeiro casamento; é importante o entendimento e a
aceitação de diferentes regras de funcionamento familiar
e a noção de que a diferença não constitui um problema
e são elementos fundamentais para a compreensão, integração, interação e tratamento dessas famílias; o processo de reestruturação da família recasada não é necessariamente desencadeador de problemas; em muitas ocasiões um padrasto pode substituir, de forma satisfatória,
a figura de um pai ausente; o tempo é um elemento precioso para que uma família recasada alcance o estágio de
desenvolvimento familiar; ao se tentar imitar o modelo
da família nuclear na família recasada, pode haver competição entre padrasto e enteados pela primazia em relação a esposa/mãe, pondo os relacionamentos no mesmo
nível; os padrastos e enteados podem desenvolver um
relacionamento semelhante ao relacionamento dos pais,
como também com qualquer modelo de relacionamento
amigável que desejarem; mitos: amor instantâneo e a figura do padrasto associada a violência, opressão e abuso
de poder; conflito de lealdade(enteados-pais-padrastos);
em nossa cultura os rituais marcam para um público
mais amplo “quem é quem"no grupo familiar.

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