Saúde mental e trabalho: metassíntese da produção acadêmica no contexto da pós-graduação brasileira

Discente: Juliano Almeida Bastos / Orientadora: Profª. Drª. Adélia Augusta Souto de Oliveira

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JULIANO ALMEIDA BASTOS - SAÚDE MENTAL E TRABALHO METASSÍNTESE DA PRODUÇÃO ACADÊMICA NO CONTEXTO DA PÓS-GRADUAÇÃO BRASILEIRA.pdf
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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO - MESTRADO EM PSICOLOGIA

JULIANO ALMEIDA BASTOS

SAÚDE MENTAL E TRABALHO: METASSÍNTESE DA PRODUÇÃO ACADÊMICA NO
CONTEXTO DA PÓS-GRADUAÇÃO BRASILEIRA.

Maceió
2014

JULIANO ALMEIDA BASTOS

SAÚDE MENTAL E TRABALHO: METASSÍNTESE DA PRODUÇÃO ACADÊMICA NO
CONTEXTO DA PÓS-GRADUAÇÃO BRASILEIRA.

Dissertação de Juliano Almeida Bastos apresentada junto
ao Programa de Pós-graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas, como requisito parcial
para a obtenção do título de Mestre em Psicologia.
Orientadora: Profª. Drª. Adélia Augusta Souto de Oliveira.

Maceió
2014

JULIANO ALMEIDA BASTOS

SAÚDE MENTAL E TRABALHO: METASSÍNTESE DA PRODUÇÃO ACADÊMICA NO
CONTEXTO DA PÓS-GRADUAÇÃO BRASILEIRA

Dissertação de Juliano Almeida Bastos apresentada junto ao Programa de Pós-graduação em
Psicologia da Universidade Federal de Alagoas, como requisito parcial para a obtenção do
título de Mestre em Psicologia.

Data da aprovação: ________/________/________.

___________________________________________________.
Profª. Drª. Adélia Augusta Souto de Oliveira
Drª. em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Presidente da banca – orientadora
Programa de Pós-graduação em Psicologia – Universidade Federal de Alagoas

___________________________________________________.
Profª. Drª. Heliane de Almeida Lins Leitão
Drª. em Psicologia pela University of Kent, Inglaterra.
Componente da banca – membro interno titular
Programa de Pós-graduação em Psicologia – Universidade Federal de Alagoas

___________________________________________________.
Profª. Drª. Leny Sato
Drª. em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo
Componente da banca – membro externo titular
Programa de Pós-graduação em Psicologia Social – Universidade de São Paulo

Há uns anos, botei esse projeto na minha mala dos sonhos. Tenho uma mala para cada coisa,
essa, em especial, nunca deixo em lugar algum, sempre a trago comigo. Ando com ela para
todo lado, é nela, inclusive, que guardo o material com o qual realizo o meu trabalho. Vez por
outra, quando a vida aperta, assento essa mala no chão, escancaro ela e tiro lá de dentro um
sonho pra fazê-lo real. Assim, bem assim, aconteceu com esse projeto. A vontade de saber
mais, o desejo de aprender, de participar mais, me fez buscar essa história de mestrado. Desde
então, tornei tudo o que tinha que fazer para realizar essa história, o meu trabalho. Me
considero um aluno trabalhador, gosto disso, dessa identidade. Minha orientadora, em meus
devaneios acadêmicos-laborais, tornou-seu minha chefe. Não poderia ter tido uma melhor!
Passado um ano de trabalho por aqui, fui trabalhar em São Paulo, qual um retirante de outros
tempos. Para lá segui, com a minha mala de sonhos, para trabalhar me afastando do trabalho,
o que só foi possível porque várias pessoas tocaram o trabalho daqui, e outras tantas, me
deram trabalho por lá. Sou muito grato a todas essas pessoas por isso.
Agora, aqui estou com o produto do meu trabalho, do qual me sinto plenamente satisfeito,
porque o considero um trabalho honesto, e com isso quero dizer que o fiz com material de
primeira qualidade e me esforcei para que o resultado fosse bom, belo e útil. Tive toda
condição para que isso acontecesse e desejo muito que todo trabalhador assim consiga.
Esse é mais um projeto que boto na minha mala dos sonhos, o de poder contribuir para que
todos os trabalhadores, todos eles, tenham essa condição de perceberem sentido em seus
trabalhos e de se sentirem produzindo coisas boas, belas e úteis. Mais pra frente, assento essa
mesma mala novamente no chão, boto esse sonho para fora e me dano a trabalhar para tornálo real, porque assim, bem assim, também me realizo.

Mas no fim das contas estou satisfeito. Nenhum de nós sabe o que o público irá pensar. Não
tenho quaisquer dúvidas de que descobri como começar (aos quarenta) a dizer qualquer
coisa com a minha própria voz. E isto me interessa tanto que sou capaz de seguir em frente
sem louvores. (Virgínia Woolf, 1922)

AGRADECIMENTOS

À minha orientadora preferida. Gratíssimo pelas orientações para o desenvolvimento desse
trabalho e para além dele, para o meu desenvolvimento. Por tudo que conversamos nesse
nosso tempo de convivência intensa, o que me faz sentir um orgulho danado de ter sido seu
aluno e de estar sendo seu orientando.
À minha família, pelo bem que me faz.
Aos amigos da Reunião Científica, pela alegria da presença.
À Socorro Hélcias pela gerência fraterna, apoio, estímulo e confiança. A todas as
companheiras de trabalho por compreenderem a minha ausência e compensá-la.
Às professoras Adélia Souto de Oliveira, Auxiliadora Ribeiro, Cristina Azevedo e Heliane
Leitão, pela inspiração que se transformou em vontade de seguir adiante.
Aos professores do Programa de Pós-graduação em Psicologia desta Universidade, sobretudo
aos da Linha Processos Psicossociais, pelo compromisso, seriedade e compartilhamento.
Aos colegas do Grupo de Pesquisa: Danilo, Lívia e Paulo, pela receptividade e apoio.
À professora Bader Sawaia, pela generosa acolhida. A todo o pessoal do NEXIM,
especialmente à professora Margarida Barreto pelas sugestões e incentivo e à Lívia Gomes,
pela amizade e doçura.
Às professores Leny Sato, Mariana Prioli, ao professor Fábio de Oliveira e todos os alunos
companheiros de turma na disciplina Trabalho e cotidiano: aproximações teóricas e
metodológicas, pelas quintas-feiras memoráveis em que voltava pra casa inquieto, com uma
vontade danada de saber e fazer mais pelo trabalho.
A uma amiga que ama São Paulo e tem um sorriso encantador e convidativo. Pela acolhida
calorosa e produtiva.
Henrique, querido amigo, como te agradecer? Bom demais saber-te amigo, sem reservas, sem
meias palavras, com a cumplicidade dos grandes encontros.
À Nidyanne, a quem eu não canso de olhar, de ouvir, de querer bem. Por me suportar.
Ao Diego Turquenitch, pelo carinho e paciência com que esteve comigo em São Paulo.
A São Paulo, cidade esfinge. Um dia hei de decifrá-la.

RESUMO

Trata-se de pesquisa do tipo metassíntese, com vistas a conhecer, descrever e analisar
a produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho no contexto da Pós-graduação
brasileira. Desenvolve-se em cinco fases: Exploração, Refinamento, Cruzamento, Descrição e
Análise. Com a primeira realiza-se a catalogação de todos os documentos presentes no banco
de teses e dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(CAPES) e da Biblioteca Virtual em Saúde – Psicologia (BVS-PSI) a partir de 10 descritores
de busca considerados representativos da área na literatura especializada. Na segunda fase,
verifica-se, dentre os documentos localizados na fase anterior, quais guardam relação com a
área, por meio da leitura do título, resumo e palavras-chave destes. Na terceira fase realiza-se
uma análise comparativa a fim de eliminar duplicidade de documentos. A quarta fase
descreve todos os documentos quanto ao tipo: tese ou dissertação; a seriação histórica; a área
do conhecimento; a disposição geográfica e a procedência institucional. Na última fase
analisa-se o conteúdo de 16 teses localizadas pelo descritor Saúde mental e trabalho, o mais
representativo dentre os utilizados nas fases anteriores. Essa fase identifica as seguintes
categorias: história, demandas sociais, políticas públicas, epistemologia, método e teoria. Os
resultados indicam que a Saúde mental e trabalho tem sua maior produção, 84%, no âmbito do
mestrado; no ano de 1989 foi localizada a primeira tese; entre os anos de 2000 a 2012 foram
produzidos 88% dos documentos; ocorre predominância de estudos ligados à Psicologia,
56%; a região sudeste concentra 46% da produção; São Paulo, responde por 30%; encontra-se
produção em 46 IES, sendo USP, UFRJ, UFRGS, UNB e UFMG as que mais
produzem.Verifica-se ainda que os estudos produzidos respondem a demandas sociais
historicamente situadas; a relação com as políticas públicas constitui um desafio tendo em
vista a constatação de que o Estado, que deveria proteger o trabalho, também o tem tornado
precário; o campo da Saúde do Trabalhador fundamenta a área; são utilizadas distintas
estratégias metodológicas e referenciais teóricos nas pesquisas realizadas. Conclui-se que, a
adoção de uma abordagem etnográfica enquanto método e de uma abordagem integradora
enquanto referencial teórico, pode converter os resultados alcançados em ações práticas em
favor do trabalho, premissa fundamental da área, tendo em vista seus pressupostos
epistemológicos. Nesse contexto, o pesquisador é implicado politicamente voltando seus
esforços para uma atuação coerente com o campo da Saúde do Trabalhador.

Palavras-chave: saúde mental e trabalho, pós-graduação brasileira, metassíntese, CAPES,
BVS-PSI.

ABSTRACT

It's search metasynthesis type, in order to know, describe and analyze the academic literature
in the Mental health and work area in the context of Brazilian postgraduate. Developed in five
phases: Exploration, Refining, Crossing, Description and Analysis. With the first takes place
cataloging of all the documents present in the files of theses and dissertations of the
Coordination of Improvement of Higher Education Personnel - CAPES and the Virtual Health
Library - Psychology - BVS-PSI from 10 search descriptors considered representative area in
the literature. In the second phase, it is found among the documents found in the previous
phase, which are related to the area, by reading the title, abstract and keywords of these. In the
third phase is carried out a comparative analysis in order to eliminate duplicate documents.
The fourth phase describes all documents according to type: thesis or dissertation; the
historical ranking; area of knowledge; geographical disposition and institutional origin. In the
last phase analyzes the contents of the descriptor located 16 theses Mental health and work,
the most representative among those used in the previous phases. This phase identifies the
following categories: history, social demands, public policy, epistemology, method and
theory. The results indicate that mental health and work has its largest production, 84% under
the master; in 1989 was located first thesis; between the years 2000 to 2012 88% of the
documents were produced; predominance of studies related to psychology, 56% occurs; the
southeast region has 46% of production; São Paulo accounts for 30%; production is 46 IES,
being USP, UFRJ, UFRGS, UNB and the UFMG that most produce. There is even those
produced studies respond to historically situated social demands; the relationship with the
public policies is a challenge in view of the finding that the state should protect the work also
has become precarious; the field of Occupational Health underlies the area; distinct
methodological strategies and theoretical frameworks are used in studies. It is concluded that
the adoption of an ethnographic approach as a method and an integrative approach as
theoretical framework, the results achieved can convert into practical action in favor of labor,
the fundamental premise of the area, given its epistemological assumptions. In this context,
the researcher is involved turning their efforts to politically coherent performance with the
field of Occupational Health.

KEYWORDS: mental health and work, Brazilian graduate, metasynthesis, CAPES, BVSPSI.

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Descritores utilizados na busca nos bancos de dados: CAPES e BVS-PSI........ 25
Quadro 2 - Resultados obtidos com a fase de Exploração .................................................. 26
Quadro 3 - Resultados obtidos com a fase de Refinamento ................................................ 28
Quadro 4 - Resultados obtidos com a etapa de Cruzamento intradescritor da fase de
Cruzamento.......................................................................................................................... 32
Quadro 5 - Resultados obtidos com a etapa de Cruzamento interdescritor da fase de
Cruzamento.......................................................................................................................... 35
Quadro 6 - Resultados obtidos com a etapa de Cruzamento final da fase de Cruzamento ..... 36
Quadro 7 - Resultados obtidos com a fase de Descrição do banco da CAPES quanto ao tipo
do documento ...................................................................................................................... 40
Quadro 8 - Resultados obtidos com a fase de Descrição do banco da CAPES quanto à série
histórica ............................................................................................................................... 41
Quadro 9 - Resultados obtidos com a fase de Descrição do banco da CAPES quanto à área do
conhecimento ....................................................................................................................... 42
Quadro 10 - Resultados obtidos com a fase de Descrição do banco da CAPES quanto à
disposição geográfica ........................................................................................................... 43
Quadro 11 - Resultados obtidos com a fase de Descrição do banco da CAPES quando à
procedência institucional ...................................................................................................... 44
Quadro 12 - Resultados obtidos com a fase de Descrição da BVS-PSI quanto ao tipo do
documento ........................................................................................................................... 47
Quadro 13 - Resultados obtidos com a fase de Descrição da BVS-PSI quanto à série histórica
............................................................................................................................................ 48
Quadro 14 - Resultados obtidos com a fase de Descrição da BVS-PSI quanto à disposição
geográfica ............................................................................................................................ 49
Quadro 15 - Resultados obtidos com a fase de Descrição da BVS-PSI quando à procedência
institucional ......................................................................................................................... 50

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 - Produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho no contexto da pósgraduação brasileira quanto ao tipo de documento...................................................................52
Gráfico 2 - Produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho no contexto da pósgraduação brasileira quanto a série histórica............................................................................53
Gráfico 3 - Produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho no contexto da pósgraduação brasileira quanto à área do conhecimento................................................................55
Gráfico 4 - Produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho no contexto da pósgraduação brasileira quanto à procedência geográfica.............................................................56
Gráfico 5 - Produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho no contexto da pósgraduação brasileira quanto à procedência institucional...........................................................57

LISTA DE ABREVIATURAS

AM

Amazonas

AL

Alagoas

BA

Bahia

BVS-PSI

Biblioteca Virtual em Saúde – Psicologia

CAPES

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

CE

Ceará

CO

Região Centro-Oeste

DF

Distrito Federal

FIOCRUZ

Fundação Oswaldo Cruz

FUFSE

Fundação Universidade Federal de Sergipe

GO

Goiás

IES

Instituição de Ensino Superior

INSS

Instituto Nacional de Seguridade Social

MG

Minas Gerais

N

Região Norte

NE

Região Nordeste

OMS

Organização Mundial de Saúde

PA

Pará

PB

Paraíba

PE

Pernambuco

PI

Piauí

PUC-CAMPINAS

Pontifícia Universidade Católica de Campinas

PUC-DOM BOSCO Pontifícia Universidade Católica Dom Bosco
PUC-GOIÁS

Pontifícia Universidade Católica de Goiás

PUC-MINAS

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

PUC-RS

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

PUC-SP

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PR

Paraná

RJ

Rio de Janeiro

RN

Rio de Grande do Norte

RS

Rio Grande do Sul

S

Região Sul

SC

Santa Catarina

SE

Região Sudeste

SE

Sergipe

SENAC SP

Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial São Paulo

SP

São Paulo

SUS

Sistema Único de Saúde

UCB

Universidade Católica de Brasília

UEFS

Universidade Estadual de Feira de Santana

UEM

Universidade Estadual de Maringá

UERJ

Universidade Estadual do Rio de Janeiro

UFAL

Universidade Federal de Alagoas

UFAM

Universidade Federal do Amazonas

UFBA

Universidade Federal da Bahia

UFC

Universidade Federal do Ceará

UFF

Universidade Federal Fluminense

UFJF

Universidade Federal de Juiz de Fora

UFMG

Universidade Federal de Minas Gerais

UFPA

Universidade Federal do Pará

UFPB

Universidade Federal da Paraíba

UFPE

Universidade Federal de Pernambuco

UFPEL

Universidade Federal de Pelotas

UFPI

Universidade Federal do Piauí

UFPR

Universidade Federal do Paraná

UFRJ

Universidade Federal do Rio de Janeiro

UFRGS

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

UFRN

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

UFSC

Universidade Federal de Santa Catarina

UFU

Universidade Federal de Uberlândia

UMESP

Universidade Metodista de São Paulo

UNB

Universidade de Brasília

UNEC

Centro Universitário de Caratinga

UNESC

Universidade do Extremo Sul Catarinense

UNESP

Universidade Estadual Paulista

UNICAMP

Universidade Estadual de Campinas

UNICAP

Universidade Católica de Pernambuco

UNIFESP

Universidade Federal de São Paulo

UNIFOR

Universidade de Fortaleza

UNIFRAN

Universidade de Franca

UNIJUI

Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul

UNIMEP

Universidade Metodista de Piracicaba

UNISC

Universidade de Santa Cruz do Sul

UNISINOS

Universidade do Vale do Rio dos Sinos

USP

Universidade de São Paulo

USP-RP

Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto

VIII CNS

VIII Conferência Nacional de Saúde

I CNST

I Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 14

2

MÉTODO ............................................................................................................... 22

2.1

Pressupostos metodológicos ................................................................................... 22

2.2

Delimitação da pesquisa e descrição de procedimentos ............................................. 23

2.2.1

Exploração ............................................................................................................... 24

2.2.2

Refinamento ............................................................................................................. 28

2.2.3

Cruzamento .............................................................................................................. 31

2.2.3.1 Cruzamento intradescritor......................................................................................... 31
2.2.3.2 Cruzamento interdescritor......................................................................................... 34
2.2.3.3 Cruzamento final ...................................................................................................... 36
3

DESCRIÇÃO .......................................................................................................... 39

3.1

Descrição CAPES ................................................................................................... 39

3.1.1

Tipo de documento ................................................................................................... 39

3.1.2

Série histórica ........................................................................................................... 40

3.1.3

Área do conhecimento ............................................................................................. 42

3.1.4

Disposição geográfica .............................................................................................. 43

3.1.5

Procedência institucional .......................................................................................... 44

3.2

Descrição BVS-PSI ................................................................................................. 46

3.2.1 Tipo de documento .................................................................................................... 47
3.2.2 Série histórica ............................................................................................................ 48
3.2.3 Disposição geográfica ............................................................................................... 49
3.2.4 Procedência institucional ........................................................................................... 50
3.3

Síntese descritiva ..................................................................................................... 51

3.3.1 Tipo de documento .................................................................................................... 52
3.3.2 Série histórica ............................................................................................................ 53
3.3.3 Área do conhecimento .............................................................................................. 54
3.3.4 Disposição geográfica ............................................................................................... 55

3.3.5 Procedência institucional ........................................................................................... 56
4

ANÁLISE ................................................................................................................. 58

4.1

Procedimentos iniciais para análise qualitativa ..................................................... 58

4.2

A preparação para o trabalho: um modo de fazer Metassíntese ........................... 59

4.3

Categorias analíticas: o que dizem as teses? ............................................................... 60

4.3.1 Uma história ............................................................................................................. 60
4.3.2 A pesquisa a serviço da sociedade ............................................................................. 63
4.3.3 As políticas públicas .................................................................................................. 66
4.3.4 Pressupostos epistemológicos .................................................................................... 73
4.3.5 Estratégias metodológicas ......................................................................................... 82
4.3.6 Referenciais teóricos ou modelos............................................................................... 90
5

CONCLUSÃO ....................................................................................................... 100
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 103
APÊNDICES.......................................................................................................... 109

14
1

INTRODUÇÃO

A área da Saúde mental e trabalho, aqui tomada como objeto de estudo, tem como
proposta buscar compreender os fenômenos que se apresentam na relação entre trabalho e
saúde mental. O reconhecimento do trabalho como categoria constituinte da subjetividade e
ainda, a sua contribuição nos processos de saúde / doença mental, têm dado forma aos estudos
que são desenvolvidos por essa área do conhecimento.
Pode-se dizer, portanto, que a área da Saúde mental e trabalho assume a complexidade
que caracteriza cada uma dessas categorias e, no Brasil, se desenvolve a partir dos
pressupostos epistemológicos do campo da Saúde do Trabalhador.
Como a proposta que sedimenta esta dissertação é pesquisar a Saúde mental e
trabalho, considera-se importante esclarecer desde já, o motivo que transformou o desejo
empírico de saber em um objeto de pesquisa científica. Tal motivação advém da experiência
profissional enquanto psicólogo em duas áreas profícuas à investigação científica: a Saúde
mental e a Psicologia do trabalho. A primeira pela abrangência alcançada enquanto política
pública, a segunda pela recente produção científica no contexto brasileiro.
No âmbito da Política Pública de Saúde mental, mais especificamente, enquanto
psicólogo em um Centro de Atenção Psicossocial, o trabalho surgiu como elemento
significativo na compreensão etiológica dos processos de saúde / doença mental. A assistência
pública em saúde mental balizada no conceito de território tem permitido uma compreensão
ampliada sobre o adoecimento (AMARANTE, 2007; TENÓRIO, 2002). Nesse contexto
evidencia-se a influência de aspectos sociais na gênese do sofrimento mental.
Numa segunda experiência profissional, agora localizada na outra ponta, ou seja, numa
atuação voltada para os trabalhadores, mais detidamente, na área de Gestão de Pessoas de
uma empresa pública, tem-se observado as consequências nocivas que as formas de
organização do trabalho trazem à saúde mental dos trabalhadores. Mais que isso, tem sido
possível perceber uma sutil intencionalidade nesses processos, diz-se sutil porque não
explícita, e, dessa forma, de difícil apreensão.
É, portanto, desses dois lugares e do entrecruzamento desses dois campos, a partir da
experiência profissional em ambos, como brevemente descrito, que se justifica a adoção da
área da Saúde mental e trabalho como interesse de pesquisa.
A proposição de uma Metassíntese tem, nesse sentido, a intenção de compreender
como tem se dado as investigações, que ao longo dos anos vêm consolidando essa área do
conhecimento, em especial, no contexto acadêmico brasileiro.

15
Nesta dissertação propõem-se as seguintes questões de pesquisa: o que tem sido
produzido no contexto da pós-graduação brasileira na área da Saúde mental e trabalho; como
essa área de conhecimento está configurada (que tipo de trabalho, em que período, vinculados
a que áreas e de onde provêm os estudos realizados); quais são os pressupostos
epistemológicos, metodológicos e teóricos que subsidiam as pesquisas desenvolvidas na área,
e, finalmente, que reflexão crítica é possível ser feita acerca dessa produção acadêmica? Temse, portanto, como objetivos: conhecer, descrever, analisar e compreender a área da Saúde
mental e trabalho no Brasil, através da realização de uma Metassíntese.
Considerando a complexidade que caracteriza tanto o conceito de trabalho, quanto o
de saúde mental, apresenta-se de forma sumária, uma abordagem de cada um em separado.
Após essa primeira abordagem os dois conceitos serão apresentados em relação, configurando
então, a área da Saúde mental e trabalho. Essa apresentação, juntamente com a apresentação
dos demais capítulos, constitui o primeiro capítulo dessa dissertação.
A saúde mental
Quando se fala em saúde mental, comumente se pensa numa área do conhecimento ou
de atuação técnica no âmbito da grande área da saúde. E essa é sim uma definição coerente e
claramente assimilável, pois caracteriza um campo de saber já constituído e também
legitimado pelo reconhecimento social alcançado.
No entanto, tal definição, tomada assim tão direta, carrega um reducionismo que
compromete sobremaneira a reflexão necessária para captar-se a complexidade que este
campo exige. Quando se pensa saúde mental apenas nessa direção, percebe-se com nitidez
que o modelo científico dualista-racionalista não é suficiente para a sua compreensão
(AMARANTE, 2007). Esse mesmo autor assim define:
[...] saúde mental é um campo bastante polissêmico e plural na medida em
que diz respeito ao estado mental dos sujeitos e das coletividades que, do
mesmo modo, são condições altamente complexas. Qualquer espécie de
categorização é acompanhada do risco de um reducionismo e de um
achatamento das possibilidades da existência humana e social (AMARANTE,
2007, p. 19).

Buscando compreender saúde mental de forma ampla, é possível tomar como ponto
de partida a simplificação expressa no modelo dualista através do binômio: saúde / doença
mental. A partir dessa concepção, poder-se-ia investigar acerca dos aspectos etiológicos que
caracterizam um estado ou outro.
Delgalarrondo (2008) aponta que, diferente de outras áreas, o processo diagnóstico
em saúde mental apresenta singularidades que demandam, além de “conhecimento teórico e

16
científico, habilidades clínicas e intuitivas”, ancoradas, principalmente, em dados clínicos
colhidos na história do paciente. E conclui afirmando que, “a maioria dos quadros
psiquiátricos, sejam eles de etiologia ‘psicogênica,’ ‘endogênica’ ou mesmo ‘orgânica’, surge
após ‘eventos estressantes’ da vida” (DELGALARRONDO, 2008, p. 41, grifo nosso).
Em conferência intitulada “Introdução à Psicopatologia Social” Le Guillant (2006),
reúne consistente material empírico e teórico e articula variáveis diversas como: cultura,
espaço, tempo, situações, acontecimentos e circunstâncias; para argumentar em favor da
primazia do que denomina “condições de vida”, sobre quaisquer outros aspectos na etiologia
dos distúrbios mentais. Discorre sobre a consideração destes aspectos em detrimento de outros
como uma constatação clínica na psiquiatria francesa. Critica a clínica psicanalítica por
promover uma mudança abrupta de foco, ao desconsiderar os eventos reais e atuais na vida
contemporânea dos pacientes e apenas reputar significado às reminiscências. Alertando ainda
para o fato de algumas abordagens superestimarem conjecturas etiológicas ignorando os
“problemas reais de relações humanas, de vida coletiva e do trabalho” (LE GUILLANT,
2006, p. 26, grifo nosso). E assevera:
A evidência fundamental relativa à ação profunda exercida pelas condições
de vida sobre o homem e a seu papel na etiologia dos distúrbios mentais foi
sempre percebida, com toda a clareza, pelos primeiros alienistas. (LE
GUILLANT, 2006, p. 26)

Em consonância com Le Guillant (2006); Codo (2004), busca ampliar a noção de
etiologia e afirma que, em se tratando de saúde mental, não é possível estabelecer fatores
determinantes específicos para que se considerem as noções de normalidade e anormalidade.
Para esse autor, o que se pode pensar é que determinadas ocorrências constituem fatores de
risco, isto é, configuram-se como fatores probabilísticos, mas não determinantes.
Tomando emprestado a breve assertiva freudiana em que se associa saúde mental à
capacidade de amar e de trabalhar, Codo, Soratto e Vasques-Menezes (2004, p.279) propõem
a seguinte definição: “saúde mental é a capacidade de construir a si próprio e à espécie,
produzindo e reproduzindo a si próprio e à espécie.” Avançam, portanto, no sentido de
delimitar a compreensão acerca das noções de “eventos estressantes da vida”
(DELGALARRONDO, 2008, p. 41), de “condições de vida” (LE GUILLANT, 2006, p. 26),
circunscrevendo o trabalho enquanto “objeto de estudo necessário para se compreender o
fenômeno psicológico” (CODO; SORATTO; VASQUES-MENEZES, 2004, p. 277).
A crítica empreendida aos modelos hegemônicos de explicação, fundamentados numa
abordagem reducionista e fragmentada, proporcionou a elaboração de novos modelos que
buscaram ampliar o rol de possibilidades analíticas para a compreensão dos determinantes ou

17
condicionantes dos processos de saúde / doença mental, incluindo-se aspectos relacionados ao
contexto socioeconômico. Foi a partir dessas novas abordagens que a relação com o trabalho
passou a ser considerada (ARAÚJO, 2011; JACQUES, 2007; SELLIGMAN-SILVA, 2011).
O Trabalho
O trabalho tem sido estudado enquanto elemento que assume uma centralidade na
constituição dos modos de vida nas diversas formas de organização social. Compreendido
enquanto elemento constituinte da subjetividade, ação humana de intervenção e transformação
sobre a natureza, o trabalho se reverte em ação de intervenção e transformação na cultura, na
relação com o outro e, consequentemente, na autotransformação de si. (VIEIRA; BARROS;
LIMA, 2007).
Na obra: A condição humana, Hanna Arendt (2007, p. 15, grifo nosso) propõe uma
distinção entre os conceitos de labor, trabalho e ação. O primeiro estaria relacionado aos
“processos biológicos do ser humano” às atividades inevitáveis e essenciais à condição da
própria vida. Ao trabalho, confere o status de atividade correspondente ao “artificialismo da
existência humana” e nesse sentido, sentencia:
O trabalho produz um mundo artificial de coisas, nitidamente diferente de
qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita cada vida
individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas
as vidas individuais. (ARENDT, 2007, p. 15).

Para a ação é atribuído um significado eminentemente humano, enquanto atividade
que se dá na relação entre os homens, ou seja, atividade destituída de qualquer tipo de
mediação.
Seguindo essa direção, Clot (2006) publica “A função psicológica do trabalho”,
apresentando uma definição de trabalho em que se articulam a noção de um sistema profícuo
em possibilidades para o estabelecimento de relações interpessoais e socioculturais, a que
chama de “gênero”, e o conjunto das experiências biográficas dos sujeitos que se inserem
nesse sistema, o que define como “estilo pessoal” (CLOT, p.50). Nessa perspectiva, afirma
que:
A atividade não é somente um atributo da pessoa. A tarefa prescrita é
redefinida pelos coletivos que formam e transformam os gêneros sociais da
atividade vinculados com as situações reais. Eles delimitam gêneros de
situação de trabalho, memória impessoal e instrumento, graças aos quais os
sujeitos agem ao mesmo tempo no mundo e entre si. (CLOT, p. 52).

É enquanto elemento essencial na constituição da subjetividade, que o trabalho passa a
condição de categoria central para a Psicologia. Determinante para compreensão do fenômeno
psicológico, tal como a sexualidade para a psicanálise, o trabalho apresenta-se como objeto de

18
estudo indispensável à compreensão da própria Psicologia. “O trabalho permite, constrói e
expressa o indivíduo.” (CODO; SORATTO; VASQUES-MENEZES, 2004 p. 278).
Pode-se, portanto, depreender que o trabalho assume um lugar constituinte
fundamental na subjetividade, lugar em que a transformação da natureza engendra
transformações no sujeito que trabalha, a partir da experiência social, econômica e histórica,
lugar de produção humana em que é possível reconhecer-se e conhecer o outro que trabalha.
Nessa perspectiva, Engels (2004, p. 11) aponta o trabalho enquanto “condição básica e
fundamental de toda a vida humana”. É pela via do trabalho que o homem se humaniza,
saltando de sua condição de ser natural para produzir-se e reproduzir-se enquanto ser social,
marcadamente humano (LUKÁCS, 2012). Antunes (2011, p. 142) afirma:
A história do ser social, muitos já o disseram, objetiva-se através da
produção e reprodução de sua existência, ato social que se efetiva pelo
trabalho. Este, por sua vez, desenvolve-se pelos laços de cooperação
existentes no processo de produção material. Em outras palavras, o ato de
produção e reprodução da vida humana realiza-se pelo trabalho. É a partir do
trabalho, em sua cotidianidade, que o homem torna-se ser social,
distinguindo-se de todas as formas não humanas.

Enriquez (2013, p. 171) aponta várias dimensões constitutivas da subjetividade e
exerce uma crítica à concepção de trabalho como essência do homem, resguardando a este
uma essência sim, mas sócio-historicamente determinada: [...]

“trabalho não constitui a

essência do homem, ainda que tenha se tornado, nos tempos modernos, o mais importante de
seus atributos ou, pelo menos, um de seus atributos essenciais.”
Com essa breve introdução teve-se a intenção, como já informado, de expor a
complexidade presente quando se toma o trabalho e a saúde mental como objetos de estudo e
ainda, como as aproximações e as articulações entre estes os tornam ainda mais complexos.
São essas aproximações e articulações que dão forma à área da Saúde mental e
trabalho.
Saúde mental e trabalho
Os primeiros estudos que se voltaram para a relação entre saúde mental e trabalho
surgiram nos anos 20 do século passado, nos Estados Unidos da América. Traziam uma
concepção de homem, de organização e de trabalho bastante diferenciada da que hoje se tem
na área da Saúde mental e trabalho (SATO; BERNARDO, 2005; SELIGMANN-SILVA,
2007; 2011)
De modo geral, pode-se dizer que esses primeiros estudos tinham como objetivo
alocar, ou adaptar o trabalhador ao trabalho de forma tão harmoniosa, que dessa relação, não
surgisse nenhum problema. E, caso algum surgisse, sua origem não poderia estar associada à

19
outra coisa senão, a própria condição do trabalhador: seu corpo, sua família, ou ambiente em
que vive fora do trabalho.
[...] buscavam a gênese dos problemas de saúde mental dos trabalhadores no
universo intra-individual, sendo o trabalho, suas condições e sua organização
mero pano de fundo. Assim, ao abstrair as condições concretas de trabalho e,
principalmente as relações de trabalho, contribuíram para construir a
explicação que “culpabiliza a vítima” (SATO; BERNARDO, 2005, p. 870).
A tendência principal nos estudos sobre transtornos mentais, surgidos em
empregados dos vários setores, foi a de procurar causas individuais
associadas a eventos externos ao trabalho, a fatores hereditários e a
experiências da fase infantil e da vida familiar (SELIGMANN-SILVA,
2011, p. 39, grifo da autora).

Num movimento contrário a essa tendência, embora ainda seja possível encontrar
análises referenciadas nestes modelos explicativos em algumas abordagens, os estudos acerca
da relação entre saúde mental e trabalho no Brasil surgiram num contexto de profundas
transformações e rupturas epistemológicas relacionadas aos processos de saúde / doença e
trabalho.
Foi, portanto, na década de 80 do século passado, que a consolidação do campo da
Saúde do Trabalhador possibilitou a emergência e o desenvolvimento da área da Saúde mental
e trabalho. Foi este campo que ampliou as possibilidades de análise e, ao inserir um olhar
sobre os aspectos políticos, sócioeconômicos e culturais e ao enfatizar o conceito de processos
de trabalho, permitiu o estudo das mediações entre o trabalho e a subjetividade e,
consequentemente, entre o trabalho e os processos de saúde / doença mental (ARAÚJO, 2011;
ATHAYDE, 2011; MINAYO-GOMES, 2011; SATO; BERNARDO, 2005).
O que hoje se denomina Saúde mental e trabalho pode ser compreendido como uma
área do conhecimento, vinculada ao campo da Saúde do Trabalhador, que se propõe a
investigar a repercussão do trabalho sobre os processos de saúde / doença mental da pessoa
que trabalha. Reconhece e enfatiza a complexidade inerente aos processos de trabalho e de
saúde mental, buscando compreender de forma ampliada os fenômenos que emergem dessa
relação, por isso, caracteriza-se por utilizar diversas abordagens teóricas e metodológicas em
seus processos de investigação.
Codo, Soratto e Vasques-Menezes (2004), ressaltam a contemporaneidade das
articulações teóricas e metodológicas que configuram as principais abordagens de estudo da
área da Saúde mental e trabalho. Jacques (2003) aponta ainda dois importantes aspectos que
ajudam a compreender o interesse crescente pela relação entre saúde mental e trabalho nas
últimas décadas no Brasil: o aumento do número de transtornos mentais e do comportamento

20
associados ao trabalho, apontados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Instituto
Nacional de Seguridade Social (INSS) e a realização, na década de 80, da VIII Conferência
Nacional de Saúde (VIII CNS) e da I Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador
(I CNST), cujas mudanças propostas favoreceram a aproximação da psicologia ao campo da
Saúde do trabalhador.
Na introdução do livro: Saúde Mental e Trabalho – leituras, Jacques e Codo, (2002, p.
17), justificam a publicação apontando uma urgência: “Existe uma lacuna preocupante na
formação da graduação e pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais no mundo, e
também no Brasil”, e seguem caracterizando as intensas mudanças ocorridas no mundo do
trabalho, atentando para a repercussão dessas mudanças à saúde mental dos trabalhadores.
Paralelamente pontuam o problema da falta de informações precisas, no Brasil, acerca da
Saúde mental e trabalho quando comparado a outros países.
Passados mais de 10 anos da urgência apontada por estes autores, propõe-se nesse
estudo investigar o desenvolvimento da área da Saúde mental e trabalho no Brasil a partir da
realização de uma metassíntese da produção acadêmica – teses e dissertações – sobre a
temática. Partindo de uma perspectiva qualitativa de pesquisa, pretende-se integrar as
informações coletadas produzindo uma compreensão ampla.
Essa forma de entrada no tema teve o objetivo de construir uma compreensão, desde
esse primeiro momento, sobre o objeto de estudo ao qual esta pesquisa se detém.
O capítulo 2 compreende o percurso metodológico proposto para a efetivação da
pesquisa. Nele, estão caracterizados os pressupostos iniciais e os delineamentos subsequentes
que culminaram nas cinco fases realizadas para o tratamento dos dados, a saber: Exploração,
Refinamento, Cruzamento, Descrição e Análise. Ainda no capítulo 2, encontra-se o
detalhamento e os resultados alcançados nas três primeiras dessas fases.
No capítulo 3 apresenta-se a configuração da área da Saúde mental e trabalho no
contexto da pós-graduação brasileira. Nele estão expostos os resultados alcançados com a fase
de Descrição, em que se pode examinar a produção localizada quanto ao tipo de documento:
tese ou dissertação; quanto à seriação histórica, ano a ano; as áreas do conhecimento às quais
os documentos se vinculam e ainda, a procedência geográfica e institucional de toda a
produção. Esse capítulo atesta o cumprimento do primeiro dos objetivos propostos.
Na sequência, o capítulo 4 traz os resultados provenientes da fase de Análise em que
se discutem os aspectos históricos e sociais, bem como os pressupostos epistemológicos,
metodológicos e teóricos que caracterizam a produção acadêmica da área da Saúde mental e
trabalho. O segundo objetivo, o de analisar, é alcançado e apresentado nesse capítulo.

21
Finalmente, o último capítulo, traz a conclusão, onde se articulam todos os resultados
alcançados no decorrer do processo de pesquisa, compondo uma síntese interpretativa que
configura o objetivo maior dessa proposta, o de compreender. Aqui apresenta-se a
metassíntese realizada da produção acadêmica na área da Saúde mental e trabalho no contexto
da pós-graduação brasileira.
As questões apresentadas convergem para a estruturação de uma compreensão
ampliada acerca da área da Saúde mental e trabalho na pós-graduação brasileira, conduzindo à
metassíntese, objetivo final desse estudo.
Considera-se importante esclarecer ainda que, nessa dissertação, compreende-se que
as teorias deverão emergir nos documentos analisados. Assim, em vários momentos do texto
expressões como: sofrimento psíquico, adoecimento psíquico, doença mental ou distúrbio
mental, são utilizadas enquanto sinônimos, sem fazer referência a nenhuma abordagem teórica
específica. Defende-se ainda a necessidade de buscarem-se intervenções em favor ou em
proteção ao trabalho, categoria compreendida enquanto ação humana, sócio-historicamente
situada, e por isso mediada por diversos interesses. Ação que guarda em si a possibilidade de
produzir sentidos.

22
2

MÉTODO

2.1

Pressupostos metodológicos
A relação entre saúde mental e trabalho, tem se tornado um interesse crescente de

pesquisadores que empreendem seus esforços para o desenvolvimento de estudos em
diferentes perspectivas, consolidando uma profícua e abrangente área de conhecimento.
Ao longo das últimas três décadas, essa área vem apresentando uma produção
acadêmica que tem se caracterizado, eminentemente, por uma diversidade de concepções
teóricas e metodológicas, tornando difícil o exame das diferentes maneiras de pesquisar saúde
mental e trabalho (CODO; SORATTO; VASQUES-MENEZES, 2004).
Apesar das limitações impostas por essa característica, como apontado por Lima
(2003), pretende-se investigar nessa pesquisa, como a área da Saúde mental e trabalho tem se
desenvolvido no Brasil. Nesse capítulo são apresentados os procedimentos metodológicos
utilizados na condução desse estudo, partindo dos delineamentos iniciais até os primeiros
resultados, estes últimos assumindo uma posição crucial na composição do corpus da
pesquisa.
O percurso metodológico utilizado se inicia com a definição pela perspectiva
qualitativa de pesquisa, ainda na etapa de planejamento. Flick (2009) aponta que nessa
perspectiva, os métodos e teorias devem se adequar ao objeto da pesquisa, a análise pode
ocorrer em diferentes concepções e pode ainda considerar a implicação subjetiva do
pesquisador na produção dos resultados. Com esses pressupostos, foi planejada uma
investigação com o objetivo geral de realizar uma metassíntese da área da Saúde mental e
trabalho na produção acadêmica brasileira. Conhecer, descrever e analisar foram objetivos
específicos propostos sobre a consolidação dessa área de conhecimento no Brasil.
Estabelecidos os objetivos e definida a metodologia qualitativa como norteadora da
pesquisa, Turato (2008), orienta o pesquisador a adotar uma atitude que o conduza a entender
em profundidade o que está posto no material que será analisado. Uma atitude investigativa
que permita conhecer os sentidos e significados presentes, no caso desta pesquisa, nas teses e
dissertações estudadas.
Assim, compor uma metassíntese para então nela, e a partir dela, buscar uma
compreensão abrangente do objeto em estudo, consolida a conformação metodológica dessa
pesquisa.

23
A metassíntese é um método utilizado para analisar em detalhe teorias, métodos de
investigação e resultados obtidos em abordagens qualitativas de pesquisa (NOBLIT; HARE,
1988 apud ESPÍNDOLA; BLAY, 2006).
Nessa perspectiva, pode-se entender a metassíntese como um método que proporciona
uma interpretação dos resultados encontrados em pesquisas realizadas, numa área
determinada do conhecimento, ou em diferentes áreas que mantenham um objeto de interesse
comum. Essa interpretação pretendida deve ser conduzida visando outra compreensão,
construída a partir das articulações possíveis entre os resultados já encontrados.
Pretende-se, portanto, transpor a síntese, ir além da condensação dos dados e buscar
um conhecimento que se apresente no cruzamento das informações, no confronto e nas
relações estabelecidas entre as informações.
Tornar abrangente a compreensão dos resultados, possibilitando interpretações amplas
que conduzam ao desenvolvimento de determinado campo de saber a partir da integração ou
da comparação de resultados já existentes, evitando-se assim, a reprodução de pesquisas
primárias. Pode-se afirmar ser esse o objetivo explícito da metassíntese (SANDELOWSKI;
DOCHERTY; EMDEN, 1997). As mesmas autoras, em artigo que se propõe a descrever esse
método, assim concluem:
Metassíntese qualitativa não é um exercício trivial, mas sim um exercício
complexo de interpretação: cuidadosamente descascar as camadas
superficiais de estudos para encontrar seus corações e almas de forma a não
causar o menor dano a eles. Pesquisadores devem analisar estudos em
detalhe suficiente para preservar a integridade de cada estudo e ao mesmo
tempo não se tornar tão imerso em detalhes que nenhuma síntese utilizável
seja produzida (SANDELOWSKI; DOCHERTY; EMDEN, 1997 p.

370).
Produzir uma síntese interpretativa, que proporcione um conhecimento amplo sobre a
constituição de um objeto de estudo, justifica a escolha dessa abordagem. Procura-se uma
integração das informações que possibilite estudar, relacionar, comparar e identificar
aproximações e diferenças no material coletado (MATHEUS, 2009).
Enfim, promover uma nova síntese que supere a sobreposição dos dados e permita
uma articulação destes, no intuito de estabelecer um cenário favorável à proposição de novas
inferências.

2.2

Delimitação e descrição de procedimentos
Com o propósito de realizar uma metassíntese acerca da área da Saúde mental e

trabalho no Brasil, esta pesquisa buscou localizar a produção acadêmica brasileira – teses e

24
dissertações – em dois bancos de dados virtuais: o banco de teses e dissertações disponível no
sítio virtual da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o
da Biblioteca Virtual de Saúde – Psicologia (BVS-PSI).
O banco de teses e dissertações da CAPES, foi escolhido pela relevância que esta
coordenação possui no contexto da pós-graduação no Brasil, em especial no que se refere à
promoção e divulgação da produção científica nas mais diversas áreas do conhecimento.
Com a utilização desse banco de dados foi possível acessar material para a composição de
uma amostragem inicial ampla, que permitiu um olhar abrangente sobre o objeto da pesquisa,
antes de qualquer tipo de tratamento dos dados.
A opção pelo banco de dados da BVS-PSI justifica-se por tratar-se de uma biblioteca
virtual especializada, que visa promover atualização profissional e o desenvolvimento de
pesquisas na área de saúde e da Psicologia. Nesse sentido, teve-se a intenção de delimitar a
amplitude do corpus da pesquisa, situando a origem dos documentos que compõem parte da
amostra, num espaço que privilegia a produção acadêmica e científica na área da Psicologia.
Utilizou-se ainda, o princípio da amostragem teórica na seleção do material para
análise, tomando como parâmetro, a relevância do conteúdo. Com isso, buscou-se o material
que apresentasse maior possibilidade de estabelecer conexões capazes de tornar mais claro o
percurso até o alcance dos objetivos (FLICK, 2009).
São cinco as fases desenvolvidas: Exploração, Refinamento, Cruzamento, Descrição e
Análise.

2.2.1

Exploração
A definição das fontes - CAPES e BVS-PSI - e dos tipos de documentos (teses e

dissertações) para caracterizar a produção acadêmica brasileira no nível da pós-graduação,
constituiu o primeiro procedimento exploratório.
Em seguida definiram-se os descritores para a busca do material, adotando dois
critérios estratégicos: precisão temática e abrangência exploratória. Assim, foram inicialmente
determinados quatro descritores: 1 - saúde mental e trabalho; 2 - sofrimento psíquico e
trabalho; 3 - psicopatologia e trabalho e 4 - psicodinâmica do trabalho. Esses quatro
descritores iniciais foram eleitos por estarem presentes na produção já considerada clássica
desta área do conhecimento no Brasil, (CODO; SORATTO; VASQUES-MENEZES, 2004, p.
281).
A leitura flutuante (BARDIN, 2002) dos primeiros achados conduziu a outros seis
descritores: 5 - transtorno mental e trabalho; 6 - doença mental e trabalho; 7 - loucura no

25
trabalho; 8 – sofrimento mental no trabalho; 9 - transtorno psíquico no trabalho; e finalmente,
10 – estresse mental e trabalho, ficando, pois, estabelecido um processo progressivo para a
definição do protocolo de descritores.
Considera-se que, esses seis novos descritores encontrados constituem variações
semânticas dos quatro iniciais. Além desta variação, e tomando sempre como parâmetro a
interface – precisão e abrangência, adotou-se uma variação sintática dentro de cada descritor,
compondo para cada um, três construções distintas.
Com essa conformação chega-se ao número de 30 descritores, como é mostrado no
quadro a seguir:
Quadro 1- Descritores utilizados na busca nos bancos de dados: CAPES e BVS-PSI.
PROTOCOLO DE DESCRITORES

1

2

3

4

5

6

7

8

9

1.1

SAÚDE MENTAL E TRABALHO

1.2

SAÚDE MENTAL NO TRABALHO

1.3

SAÚDE MENTAL DO TRABALHO

2.1

SOFRIMENTO PSÍQUICO E TRABALHO

2.2

SOFRIMENTO PSÍQUICO NO TRABALHO

2.3

SOFRIMENTO PSÍQUICO DO TRABALHO

3.1

PSICOPATOLOGIA E TRABALHO

3.2

PSICOPATOLOGIA NO TRABALHO

3.3

PSICOPATOLOGIA DO TRABALHO

4.1

PSICODINÂMICA E TRABALHO

4.2

PSICODINÂMICA NO TRABALHO

4.3

PSICODINÂMICA DO TRABALHO

4.1

TRANSTORNO MENTAL E TRABALHO

4.2

TRANSTORNO MENTAL NO TRABALHO

4.3

TRANSTORNO MENTAL DO TRABALHO

6.1

DOENÇA MENTAL E TRABALHO

6.2

DOENÇA MENTAL NO TRABALHO

6.3

DOENÇA MENTAL DO TRABALHO

7.1

LOUCURA E TRABALHO

7.2

LOUCURA NO TRABALHO

7.3

LOUCURA DO TRABALHO

8.1

SOFRIMENTO MENTAL E TRABALHO

8.2

SOFRIMENTO MENTAL NO TRABALHO

8.3

SOFRIMENTO MENTAL DO TRABALHO

9.1

TRANSTORNO PSÍQUICO E TRABALHO

9.2

TRANSTORNO PSÍQUICO NO TRABALHO

9.3

TRANSTORNO PSÍQUICO DO TRABALHO

10.1 ESTRESSE MENTAL E TRABALHO
10 10.2 ESTRESSE MENTAL NO TRABALHO
10.3 ESTRESSE MENTAL DO TRABALHO

Fonte: Autor, 2013.

26
Com a configuração desses 30 descritores, consolidou-se o instrumento de acesso
inicial ao material para a constituição da amostra. Nos meses de maio e junho de 2013 foi
realizado o processo de identificação das teses e dissertações nos dois bancos, BVS-PSI e
CAPES.
Para garantir a precisão na apreensão do material, foram utilizadas ferramentas de
filtro de busca disponíveis nos dois bancos de dados. Essas ferramentas possibilitam a seleção
de documentos que apresentem, ou a conexão entre as palavras como expressas no descritor,
caso da BVS-PSI, ou a expressão tal qual apresentada, caso do banco da CAPES. A realização
desses procedimentos teve a intenção de selecionar documentos cujo conteúdo apresentasse
uma aproximação com a área pesquisada, seja de forma direta ou indireta, a partir da presença
das expressões utilizadas como descritores de busca apresentadas no quadro acima.
Os resultados alcançados nessa fase de Exploração estão expressos no Quadro 2, que
apresenta a quantidade de documentos coletados no bando de teses e dissertações da CAPES e
na BVS-PSI.
Quadro 2 - Resultados obtidos com a fase de Exploração.
(continua)
FASE 1 - Exploração
DESCRITORES

1

2

3

4

5

6

7

QUANT. QUANT.
CAPES

BVS-PSI

1.1

SAÚDE MENTAL E TRABALHO

144

142

1.2

SAÚDE MENTAL NO TRABALHO

13

127

1.3

SAÚDE MENTAL DO TRABALHO

144

141

2.1

SOFRIMENTO PSÍQUICO E TRABALHO

1

47

2.2

SOFRIMENTO PSÍQUICO NO TRABALHO

18

44

2.3

SOFRIMENTO PSÍQUICO DO TRABALHO

0

46

3.1

PSICOPATOLOGIA E TRABALHO

0

42

3.2

PSICOPATOLOGIA NO TRABALHO

0

41

3.3

PSICOPATOLOGIA DO TRABALHO

10

33

4.1

PSICODINÂMICA E TRABALHO

0

46

4.2

PSICODINÂMICA NO TRABALHO

0

46

4.3

PSICODINÂMICA DO TRABALHO

10

41

5.1

TRANSTORNO MENTAL E TRABALHO

0

9

5.2

TRANSTORNO MENTAL NO TRABALHO

0

8

5.3

TRANSTORNO MENTAL DO TRABALHO

0

9

6.1

DOENÇA MENTAL E TRABALHO

0

21

6.2

DOENÇA MENTAL NO TRABALHO

1

18

6.3

DOENÇA MENTAL DO TRABALHO

0

21

7.1

LOUCURA E TRABALHO

0

19

7.2

LOUCURA NO TRABALHO

0

18

27
(continuação)
FASE 1 - Exploração
DESCRITORES
7

QUANT.
CAPES

QUANT.
BVS-PSI

7.3

LOUCURA DO TRABALHO

0

19

8.1

SOFRIMENTO MENTAL E TRABALHO

0

38

8.2

SOFRIMENTO MENTAL NO TRABALHO

10

35

8.3

SOFRIMENTO MENTAL DO TRABALHO

0

38

9.1

TRANTORNO PSÍQUICO E TRABALHO

0

2

9.2

TRANTORNO PSÍQUICO NO TRABALHO

0

2

9.3

TRANTORNO PSÍQUICO DO TRABALHO

0

2

10.1 ESTRESSE MENTAL E TRABALHO

0

3

10.2 ESTRESSE MENTAL NO TRABALHO

0

3

10 10.3 ESTRESSE MENTAL DO TRABALHO

10

3

361

1064

8

9

TOTAL

Fonte: Autor, 2013.

Pode-se observar, nesses primeiros resultados, que o descritor 1. saúde mental e
trabalho, mostra-se o mais eficiente na captura dos documentos nos bancos de teses e
dissertações consultados. Ao considerar as variações sintáticas deste, verifica-se que o
descritor saúde mental e trabalho, responde por 83% do material coletado no banco da
CAPES e por 39% do material coletado na BVS-PSI. Essa eficiência pode ser considerada
como um indicativo da representatividade deste descritor, no conjunto da produção acadêmica
da temática em estudo.
Alguns descritores, em contrapartida, não se mostraram eficientes na busca de
material. No banco de teses e dissertações da CAPES, os descritores: 5. transtorno mental e
trabalho; 7. loucura e trabalho e 9. transtorno psíquico e trabalho, mostraram-se nulos para a
apreensão de material. Na BVS-PSI, nenhum descritor apresentou resultado nulo, porém
pode-se observar uma correspondência na baixa capacidade de apreensão dos descritores 5, 6,
7, 9 e 10 em ambos os bancos.
Outro dado que merece atenção, diz respeito ao total de documentos capturados em
cada banco. Verifica-se que o banco de teses e dissertações da CAPES selecionou 361
documentos, enquanto o da BVS-PSI selecionou 1064 documentos, sendo aplicado a ambos
os mesmos descritores. Levando-se em conta que o banco da CAPES seleciona documentos
de todas as áreas do conhecimento, enquanto que o da BVS-PSI, apenas os da área da
Psicologia, esses resultados inversamente proporcionais parecem indicar que a utilização do
filtro “expressão exata” no banco da CAPES auxilia sobremaneira na precisão de captura de
documentos.

28
A seguir, descreve-se a fase de Refinamento, na qual se analisam todos os documentos
coletados na fase de Exploração, com o objetivo de verificar a correspondência destes com o
objeto da pesquisa, ou seja, avalia-se a relação que o conteúdo de cada documento estabelece
com a área da Saúde mental e trabalho.

2.2.2

Refinamento
Pode-se entender essa etapa, como o início propriamente dito, do tratamento dos

dados. O momento em que se empreende uma ação de imersão nas informações levantadas na
fase de Exploração. É nessa etapa que se mobiliza as informações, movimento que, em se
tratando de uma pesquisa qualitativa, é altamente reflexivo, ou seja, o contato com as
informações também mobiliza o pesquisador (CHIZZOTTI, 2008).
Finalizada a fase de Exploração, procedeu-se o exame dos dados a partir da leitura do
título, da leitura do resumo e das palavras-chave de todas as teses e dissertações localizadas.
A execução desses três procedimentos teve como objetivo, verificar se cada material coletado
na fase de Exploração, guardava relação com o objeto da pesquisa.
Considera-se importante ressaltar que não se trata de encontrar a presença da
expressão utilizada nos descritores de busca no título, no resumo ou nas palavras-chave de
cada material, mas de analisar em conjunto o título, o resumo e as palavras-chave,
verificando, a partir dessa leitura, se o conteúdo das teses e dissertações catalogadas até então,
diz respeito à área de Saúde mental e trabalho.
Retoma-se o princípio, já citado, da amostragem teórica. Aqui, o refinamento se
caracteriza por essa intenção de convergir, de forma gradual e criteriosa, para a composição
de uma amostragem que tome a relevância do conteúdo como parâmetro.
Foram, portanto, lidos os títulos, resumos e palavras-chave dos 1425 trabalhos
coletados, sendo 361 provenientes do banco de teses e dissertações da CAPES e 1064 da
BVS-PSI.
A realização desse procedimento trouxe novos resultados, como se pode verificar no
Quadro 3, que apresenta uma comparação entre a quantidade de documentos coletados na fase
de Exploração e a quantidade de documentos identificados com a área da Saúde mental e
trabalho, na fase de Refinamento, por descritor, no banco de teses e dissertações da CAPES e
na BVS-PSI.

29
Quadro 3 - Resultados obtidos com a fase de Refinamento.
FASE 2 - Refinamento
CAPES
DESCRITORES

BVS-PSI

Fase

Fase

Fase

Fase

1

2

1

2

TOTAL

TOTAL

FASE 1

FASE 2

1.1

SAÚDE MENTAL E TRABALHO

144

119

142

38

286

157

1.2

SAÚDE MENTAL NO TRABALHO

13

11

127

37

140

48

1.3

SAÚDE MENTAL DO TRABALHO

144

119

141

39

285

158

2.1

SOFRIMENTO PSÍQUICO E TRABALHO

1

1

47

19

48

20

2.2

SOFRIMENTO PSÍQUICO NO TRABALHO

18

17

44

18

62

35

2.3

SOFRIMENTO PSÍQUICO DO TRABALHO

0

0

46

19

46

19

3.1

PSICOPATOLOGIA E TRABALHO

0

0

42

2

42

2

3.2

PSICOPATOLOGIA NO TRABALHO

0

0

41

4

41

4

3.3

PSICOPATOLOGIA DO TRABALHO

10

2

33

4

43

6

4.1

PSICODINÂMICA E TRABALHO

0

0

46

19

46

19

4.2

PSICODINÂMICA NO TRABALHO

0

0

46

23

46

23

4.3

PSICODINÂMICA DO TRABALHO

10

7

41

21

51

28

5.1

TRANSTORNO MENTAL E TRABALHO

0

0

9

0

9

0

5.2

TRANSTORNO MENTAL NO TRABALHO

0

0

8

0

8

0

5.3

TRANSTORNO MENTAL DO TRABALHO

0

0

9

0

9

0

6.1

DOENÇA MENTAL E TRABALHO

0

0

21

3

21

3

6.2

DOENÇA MENTAL NO TRABALHO

1

1

18

3

19

4

6.3

DOENÇA MENTAL DO TRABALHO

0

0

21

3

21

3

7.1

LOUCURA E TRABALHO

0

0

19

2

19

2

7.2

LOUCURA NO TRABALHO

0

0

18

2

18

2

7.3

LOUCURA DO TRABALHO

0

0

19

2

19

2

8.1

SOFRIMENTO MENTAL E TRABALHO

0

0

38

21

38

21

8.2

SOFRIMENTO MENTAL NO TRABALHO

10

5

35

21

45

26

8.3

SOFRIMENTO MENTAL DO TRABALHO

0

0

38

21

38

21

9.1

TRANTORNO PSÍQUICO E TRABALHO

0

0

2

1

2

1

9.2

TRANTORNO PSÍQUICO NO TRABALHO

0

0

2

1

2

1

9.3

TRANTORNO PSÍQUICO DO TRABALHO

0

0

2

1

2

1

10.1 ESTRESSE MENTAL E TRABALHO

0

0

3

3

3

3

10 10.2 ESTRESSE MENTAL NO TRABALHO

0

0

3

3

3

3

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10.3 ESTRESSE MENTAL DO TRABALHO
TOTAL

10

9

3

3

13

12

361

291

1064

333

1425

624

Fonte: Autor, 2013.

Com o refinamento obtido, obtêm-se um avanço no processo da seleção gradual da
amostra, que passa a ser composta por 624 documentos, 291 advindos do banco da CAPES e
333 da BVS-PSI.
O resultado alcançado com a fase de Refinamento corresponde a 44% do material
coletado na fase de Exploração. Isso significa que mais da metade do material coletado na

30
primeira fase, 56%, não apresentava relação com a área da Saúde mental e trabalho e foi, por
isso, eliminado da amostra.
Como exemplo de material eliminado na fase de Refinamento, apresenta-se uma
dissertação capturada na BVS-PSI: Título: Encontro comunitário de saúde mental: um estudo
fenomenológico; Resumo (trecho):...o presente trabalho tem como objetivo produzir uma
descrição...; Palavras-chave: Encontro comunitário de saúde mental, Fenomenologia,
Reforma Psiquiátrica, Promoção de saúde mental. Nesse exemplo pode-se perceber como a
ferramenta de filtro de busca da BVS-PSI, que possibilita a associação entre palavras, captura
material em que as palavras aparecem no texto, neste caso saúde mental está no título e nas
palavras-chave e trabalho no resumo, sem, no entanto, guardarem relação com a área da
Saúde mental e trabalho. Esse exemplo ilustra o tratamento dado a todas as teses e
dissertações coletadas na fase de Exploração e que foram eliminadas da amostra na fase de
Refinamento.
Os resultados apresentados no Quadro 3, corroboram a eficiência do descritor 1. saúde
mental e trabalho na captura das teses e dissertações nos dois bancos de dados acessados. Na
fase de Exploração, esse descritor mostrou-se o mais eficiente na quantidade de material que
conseguiu capturar, nessa segunda fase, de Refinamento, esse mesmo descritor, considerandose suas variações sintáticas, apresenta também uma eficiência qualitativa, pois é nele que
estão a maioria, 58%, das teses e dissertações que, de fato, se referem à área da Saúde mental
e trabalho.
Outro aspecto confirmado na fase de Refinamento, em relação aos resultados obtidos
na fase de Exploração, é a diferença significativa quanto à precisão apresentada pelas
ferramentas de filtro de busca do bando de teses e dissertações da CAPES e da BVS-PSI. Ao
observar-se atentamente os dados apresentados no Quadro 3, verifica-se que, na fase de
Refinamento, dos 361 documentos coletados no banco da CAPES, apenas 70 documentos
foram eliminados, o que corresponde a 19% do material coletado inicialmente, resultando em
291 teses e dissertações. No caso da BVS-PSI, dos 1064 documentos capturados pelos
descritores na fase de Exploração, 731 documentos foram eliminados, correspondendo a 69%
do material. Assim, após os procedimentos utilizados nessa fase, permaneceram na amostra
333 teses e dissertações nesse banco de dados.
Num cômputo geral, com a fase de Refinamento, foram eliminados 801 documentos,
como já citado acima, 56% do material capturado na fase de Exploração.
A fase de Refinamento também resulta na eliminação do descritor 5., em suas três
variações sintáticas, pois, após o procedimento realizado nessa fase, foram eliminados todos

31
os documentos coletados por esse descritor, ficando o mesmo sem função para análises
posteriores. O quadro de descritores, passa então a ser composto por 9 descritores com suas
três construções sintáticas distintas.
Com o resultado alcançado na fase de Refinamento, segue-se o percurso metodológico
delineado. A conclusão desta fase coloca à disposição do estudo uma amostra que vai,
progressivamente, ao encontro dos objetivos propostos. Considerando a interface precisão
temática e abrangência exploratória, dá-se seguimento ao processo de seleção de material para
análise.
Na fase seguinte, de Cruzamento, analisaram-se, comparativamente, todos os 624
documentos que permaneceram na amostra. Essa fase teve como finalidade verificar, dentre
todas as teses e dissertações, quais as que se repetem por terem sido capturadas,
simultaneamente, por mais de um descritor de busca.

2.2.3

Cruzamento
Nesta fase, busca-se realizar uma análise comparativa entre todas as teses e

dissertações que passaram pela fase de Refinamento no intuito de averiguar a duplicidade de
material coletado. O material em duplicidade denunciaria uma imprecisão nos resultados
alcançados, pois um mesmo documento poderia estar presente em mais de um resultado, ou
seja, uma mesma tese ou dissertação pode ter sido capturada por mais de um descritor nos
dois bancos de dados.
Os procedimentos realizados nesta fase podem ser caracterizados por três etapas
distintas e complementares: Cruzamento intradescritor, Cruzamento interdescritor e
Cruzamento final. Segue-se a descrição de cada etapa e os resultados alcançados.

2.2.3.1 Cruzamento intradescritor
O Cruzamento intradescritor visa realizar a comparação entre todas as teses e
dissertações capturadas por cada descritor em suas três variações sintáticas, ou seja, nesse
primeiro cruzamento, a análise comparativa se dá no âmbito específico de cada descritor e os
resultados são apresentados ainda considerando essa divisão.
Como cada descritor apresenta três construções distintas, e levando-se em conta a
necessidade de tomar uma referência para a comparação, optou-se por tomar a primeira
variação como referência. Por exemplo, no descritor 1. saúde mental e trabalho, e suas
variações sintáticas: saúde mental no trabalho e saúde mental do trabalho, a comparação é

32
feita cruzando o material coletado com as variações saúde mental no trabalho e saúde mental
do trabalho em relação à primeira variação, saúde mental e trabalho.
As teses e dissertações que apresentaram duplicidade, isto é, que foram capturadas
mais de uma vez, pelo mesmo descritor em suas variações sintáticas, foram eliminadas da
amostra, pois falseavam os resultados alcançados na fase de Refinamento.
Os resultados quantitativos obtidos com o Cruzamento intradescritor, induziram a
outro resultado, este referente à configuração das três construções distintas propostas para os
descritores de busca no início deste estudo. Estes passaram a assumir uma única formatação
em que se aglutinam as variações sintáticas representadas pelos conectivos e, no e do.
Tomando-se como exemplo o descritor 2. sofrimento psíquico e trabalho e suas variações
sintáticas: sofrimento psíquico no trabalho e sofrimento psíquico do trabalho, com a etapa do
Cruzamento intradescritor essas variações são agregadas, resultando

na seguinte

conformação: descritor 2. sofrimento psíquico e (no, do) trabalho.
O Quadro 4, ilustra os procedimentos realizados na etapa de Cruzamento intradescritor
e apresenta uma comparação entre os resultados obtidos na fase de Refinamento e os
resultados alcançados com essa primeira etapa da fase de Cruzamento. Estes resultados
compreendem o material que será utilizado na etapa seguinte desta mesma fase.

Quadro 4 - Resultados obtidos com a etapa de Cruzamento intradescritor da fase de
Cruzamento.
(continua)
Fase 3 – Cruzamento / Etapa – Cruzamento intradescritor

CAPES

BVS-PSI
FASE 3

DESCRITOR

FASE 3

DESCRITORES

TOTAL TOTAL

FASE 2

CRUZAMENTO

FASE 2

CRUZAMENTO

RESULTANTES

FASE

FASE

REFINAMENTO

INTRA

REFINAMENTO

INTRA

2

3

363

165

74

38

12

6

DESCRITOR
1.1
1

2

3

SAÚDE MENTAL E TRABALHO

119

DESCRITOR
38

126

E (NO / DO)

1.2

SAÚDE MENTAL NO TRABALHO

11

1.3

SAÚDE MENTAL DO TRABALHO

119

39

TRABALHO

2.1

SOFRIMENTO PSÍQUICO E TRABALHO

1

19

SOFRIMENTO

2.2

SOFRIMENTO PSÍQUICO NO TRABALHO

17

18

37

SAÚDE MENTAL
39

18

20

PSÍQUICO
E (NO/ DO)

2.3

SOFRIMENTO PSÍQUICO DO TRABALHO

0

19

TRABALHO

3.1

PSICOPATOLOGIA E TRABALHO

0

2

PSICOPATOLOGIA

3.2

PSICOPATOLOGIA NO TRABALHO

0

3.3

PSICOPATOLOGIA DO TRABALHO

2

2

4
4

4

E (NO / DO)
TRABALHO

33
(continuação)
Fase 3 – Cruzamento / Etapa – Cruzamento intradescritor

CAPES

BVS-PSI
FASE 3

DESCRITOR

FASE 3

DESCRITORES

TOTAL TOTAL

FASE 2

CRUZAMENTO

FASE 2

CRUZAMENTO

RESULTANTES

FASE

FASE

REFINAMENTO

INTRA

REFINAMENTO

INTRA

2

3

70

31

10

4

6

2

68

26

3

1

18

12

624

285

DESCRITOR

4

5

6

7

8

9

DESCRITOR

4.1

PSICODINÂMICA E TRABALHO

0

19

4.2

PSICODINÂMICA NO TRABALHO

0

4.3

PSICODINÂMICA DO TRABALHO

7

21

TRABALHO

5.1

DOENÇA MENTAL E TRABALHO

0

3

DOENÇA

5.2

DOENÇA MENTAL NO TRABALHO

1

7

1

23

3

PSICODINÂMICA
24

3

E (NO / DO)

MENTAL
E (NO / DO)

5.3

DOENÇA MENTAL DO TRABALHO

0

3

TRABALHO

6.1

LOUCURA E TRABALHO

0

2

LOUCURA

6.2

LOUCURA NO TRABALHO

0

0

2

2

E (NO / DO)

6.3

LOUCURA DO TRABALHO

0

2

TRABALHO

7.1

SOFRIMENTO MENTAL E TRABALHO

0

21

SOFRIMENTO

7.2

SOFRIMENTO MENTAL NO TRABALHO

5

5

21

21

MENTAL
E (NO / DO)

7.3

SOFRIMENTO MENTAL DO TRABALHO

0

21

TRABALHO

8.1

TRANSTORNO PSÍQUICO E TRABALHO

0

1

TRANSTORNO

8.2

TRANSTORNO PSÍQUICO NO TRABALHO

0

0

1

1

PSÍQUICO
E (NO / DO)

8.3

TRANSTORNO PSÍQUICO DO TRABALHO

0

1

TRABALHO

9.1

ESTRESSE MENTAL E TRABALHO

0

3

ESTRESSE

9.2

ESTRESSE MENTAL NO TRABALHO

0

9.3

ESTRESSE MENTAL DO TRABALHO
TOTAL

9

9
291

3

3

3
168

333

MENTAL
E (NO / DO)
TRABALHO

117

Fonte: Autor, 2013

Ao proceder-se a análise do Quadro 4, é possível perceber a eficiência da primeira
etapa da fase de Cruzamento, pois esta elimina mais de 50% das repetições que
comprometiam a qualidade da amostra por falsearem o volume de material coletado.
A amostra, que contava com 624 documentos resultantes da fase de Refinamento,
passa, ainda na primeira etapa da fase de Cruzamento, a uma composição de 285 documentos,
ou seja, menos da metade, 46%, do material refinado permanece na amostra.
É possível observar com clareza a hegemonia do descritor 1. saúde mental e trabalho,
que, após mais um tratamento, permanece como aquele que apresenta a maior quantidade de
teses e dissertações coletadas nos dois bancos de dados, compondo 165 documentos, o que
corresponde a 58% do total de documentos que permanece na amostra.

34
Outro resultado importante, dessa primeira etapa da fase de Cruzamento, é a nova
conformação assumida pelos descritores de busca que apresentavam cada um até então, três
variações sintáticas. Essas variações, caracterizadas pela presença dos conectivos (e, no e do)
foram propostas com o objetivo inicial de capturar documentos que, por algum motivo,
escapassem a uma das outras variações.
Observando o Quadro 4, pode-se concluir que essas variações propostas cumpriram
seu objetivo até o momento, pois como verifica-se, apenas o descritor 5. transtorno mental e
trabalho, apresentou resultado nulo em suas três construções e nos dois bancos de dados. Nos
demais descritores é possível verificar, principalmente na BVS-PSI, que as três construções
distintas propostas para cada descritor capturaram material, isto é, atenderam a um dos
critérios estratégicos delineados na fase de Exploração, o da abrangência exploratória.
É apenas com essa etapa de Cruzamento intradescritor, que essas três variações
sintáticas propostas perdem sua funcionalidade, por isso impõe-se uma nova conformação
para os descritores, também apresentadas no Quadro 4.
Segue-se então com a fase de Cruzamento, agora em sua segunda etapa, a de
Cruzamento interdescritor.

2.2.3.2 Cruzamento interdescritor
Após os resultados alcançados com a etapa de Cruzamento intradescritor, um novo
tratamento é realizado com objetivo semelhante. Trata-se de mais uma análise comparativa
entre todas as teses e dissertações, visando eliminar as repetições que ainda persistem na
amostra. No entanto, nessa etapa a comparação se dá entre os descritores, buscando encontrar
material capturado em duplicidade por mais de um descritor de busca.
Considerando a necessidade de estabelecer uma referência para a comparação que
caracteriza a etapa de Cruzamento interdescritor, foi tomado o descritor 1. saúde mental e (no
/ do) trabalho, para essa função. Essa opção se justifica, pela representatividade que este
descritor vem apresentando ao longo das fases anteriores, nos dois bancos de dados
consultados.
Assim, a etapa de Cruzamento interdescritor pode ser explicada como o processo em
que se verificam quais as teses e dissertações capturadas pelo descritor 1, no banco da
CAPES e na BVS-PSI, que se repetem nos demais descritores. A identificação do documento
em duplicidade, isto é, o documento que se repete em outro descritor além do descritor 1,
implica a eliminação do documento, pois considera-se que este compromete o resultado

35
pretendido, a saber: uma amostra qualitativamente relevante pela sua abrangência exploratória
e precisão temática.
O Quadro 5 apresenta os resultados obtidos com a etapa de Cruzamento interdescritor
e traz ainda uma comparação entre os resultados obtidos com a etapa de Cruzamento intra e
interdescritor da fase de Cruzamento.
Quadro 5 - Resultados obtidos com a etapa de Cruzamento interdescritor da fase de
Cruzamento.
(continua)
Fase 3 - Cruzamento / Etapa - Cruzamento interdescritor

CAPES
FASE 3
DESCRITORES

BVS-PSI
FASE 3

FASE 3

FASE 3

TOTAL

TOTAL

CRUZAMENTO CRUZAMENTO CRUZAMENTO CRUZAMENTO CRUZAMENTO CRUZAMENTO
INTRA
INTER
INTRA
INTER
INTRA
INTER
DESCRITOR

DESCRITOR

DESCRITOR

DESCRITOR

126

126

39

39

165

165

18

16

20

12

38

28

2

1

4

2

6

3

7

6

24

15

31

21

1

0

3

0

4

0

0

0

2

1

2

1

5

4

21

1

26

5

0

0

1

1

1

1

SAÚDE MENTAL
1

E (NO / DO)
TRABALHO
SOFRIMENTO

2

PSÍQUICO
E (NO/ DO)
TRABALHO
PSICOPATOLOGIA

3

E (NO / DO)
TRABALHO
PSICODINÂMICA

4

E (NO / DO)
TRABALHO
DOENÇA

5

MENTAL
E (NO / DO)
TRABALHO
LOUCURA

6

E (NO / DO)
TRABALHO
SOFRIMENTO

7

MENTAL
E (NO / DO)
TRABALHO
TRANSTORNO

8

PSÍQUICO
E (NO / DO)
TRABALHO

36
(continuação)
Fase 3 - Cruzamento / Etapa - Cruzamento interdescritor

CAPES
FASE 3
DESCRITORES

BVS-PSI
FASE 3

FASE 3

FASE 3

CRUZAMENTO CRUZAMENTO CRUZAMENTO CRUZAMENTO

TOTAL

TOTAL

CRUZAMENTO CRUZAMENTO
INTRA

INTER

0

12

6

71

285

230

INTRA

INTER

INTRA

INTER

DESCRITOR

DESCRITOR

DESCRITOR

DESCRITOR

9

6

3

168

159

117

ESTRESSE
9

MENTAL
E (NO / DO)
TRABALHO
TOTAL

Fonte: Autor, 2013.

O Cruzamento interdescritor aprimora o resultado obtido na etapa anterior, pois
elimina todas as repetições existentes entre os descritores, tanto no banco da CAPES, quanto
na BVS-PSI.
Concluída a etapa de Cruzamento interdescritor, observa-se que a quantidade de
documentos passou de 285, provenientes da etapa de Cruzamento intradescritor, para 230.
Têm-se a redução de 19% do material que ainda se apresentava repetido, isso equivale a 55
documentos duplicados por terem sido coletados por mais de um descritor.
Essa segunda etapa da fase de Cruzamento, também elimina do material para análise o
descritor 5. doença mental e (no / do) trabalho, pois todos os documentos que permaneciam
até então coletados por esse descritor se mostraram repetidos, anulando sua função para os
tratamentos seguintes.

2.2.3.3 Cruzamento final
Finalizando a fase de Cruzamento, esta etapa tem como objetivo realizar mais uma
análise comparativa visando eliminar repetições de documentos na amostra num último nível
possível. A comparação nessa etapa se dá entre todas as teses e dissertações capturadas pelos
descritores de busca no bando da CAPES e na BVS-PSI. O banco da CAPES é tomado como
referência, ou seja, são comparados os documentos coletados na BVS-PSI em relação aos
documentos coletados no banco da CAPES. Com essa fase fica assegurada a autenticidade da
amostra, pois são eliminadas todas as repetições.
O Quadro 6, mostra os resultados obtidos com essa última etapa da fase de
Cruzamento e também estabelece uma comparação com os resultados da fase anterior, o que
ilustra as últimas eliminações.

37
Quadro 6 - Resultados obtidos com a etapa de Cruzamento final da fase de Cruzamento.
Fase 3 - Cruzamento / Etapa - Cruzamento final

CAPES
FASE 3
DESCRITORES

CRUZAMENTO
INTER
DESCRITOR

BVS-PSI
FASE 3

CRUZAMENTO
FINAL

FASE 3
CRUZAMENTO
INTER
DESCRITOR

TOTAL

FASE 3

CRUZAMENTO

CRUZAMENTO

INTER

FINAL

DESCRITOR

TOTAL
CRUZAMENTO
FINAL

SAÚDE MENTAL
1

E (NO / DO)

126

126

39

28

165

154

16

16

12

12

28

28

1

1

2

2

3

3

6

6

15

15

21

21

0

0

1

1

1

1

4

4

1

1

5

5

0

0

1

1

1

1

6

6

0

0

6

6

159

159

71

60

230

219

TRABALHO
SOFRIMENTO
2

PSÍQUICO
E (NO/ DO)
TRABALHO
PSICOPATOLOGIA

3

E (NO / DO)
TRABALHO
PSICODINÂMICA

4

E (NO / DO)
TRABALHO
LOUCURA

5

E (NO / DO)
TRABALHO
SOFRIMENTO

6

MENTAL
E (NO / DO)
TRABALHO
TRANSTORNO

7

PSÍQUICO
E (NO / DO)
TRABALHO
ESTRESSE MENTAL

8

E (NO / DO)
TRABALHO
TOTAL

Fonte: Autor, 2013.

Com a etapa de Cruzamento final, foram eliminados ainda 11 documentos presentes
no descritor 1. saúde mental e trabalho, que se apresentavam repetidos. Como os dados
coletados no banco de teses e dissertações da CAPES serviram como parâmetro para a
comparação, esses 11 documentos encontrados em duplicidade foram eliminados dos dados
da BVS-PSI. No Quadro 6, pode-se observar que na BVS-PSI, dos 39 documentos que

38
permaneceram no descritor 1. saúde mental e trabalho, na etapa de Cruzamento interdescritor,
restaram 28 documentos.
Pode-se afirmar que a fase de Cruzamento mostrou-se bastante efetiva em seu
propósito, pois dos 624 documentos que foram submetidos à análise com o objetivo de
averiguar a duplicidade de material coletado, resultaram 219 documentos, cerca de 35% do
total. Isso significa que a fase de Cruzamento, em suas três etapas, eliminou aproximadamente
65% do material decorrente da fase de Refinamento.
Ao retomar o início do tratamento do material coletado na primeira fase, a de
Exploração, pode-se concluir que os procedimentos propostos cumpriram seu propósito, pois
eliminaram aproximadamente 85% do material com o qual se iniciou o estudo.
A partir dos 1425 documentos iniciais, as fases de Refinamento e, em seguida, a de
Cruzamento, disponibilizam 219 documentos, o que corresponde a 15% do total inicial.
Considera-se importante sublinhar o caráter processual da constituição dessa amostra que,
paulatinamente, configurou-se com a manutenção de material cujo conteúdo mostrou-se
impreterivelmente relevante para o alcance dos objetivos propostos.
Em seguida, apresenta-se a fase de Descrição, na qual são detalhados o tipo (tese ou
dissertação), a frequência anual da produção dos documentos, a área de conhecimento
identificada, a origem geográfica, a partir dos estados da federação, e a procedência
institucional de todas as 219 teses e dissertações.

39
3

DESCRIÇÃO
A fase de Descrição apresenta o tratamento das 219 teses e dissertações que resultaram

das três fases anteriores: Exploração, Refinamento e Cruzamento. As informações descritas
aqui são tomadas como relevantes para o alcance do objetivo deste estudo, a saber: realizar
uma metassíntese da área da Saúde mental e trabalho na produção acadêmica brasileira.
Descreve-se, portanto, minuciosamente toda amostra quanto ao tipo de trabalho
desenvolvido no contexto acadêmico: tese ou dissertação; quanto à frequência ano a ano da
produção dos documentos: série histórica; quanto à área de conhecimento a qual o documento
se vincula; quanto à disposição geográfica da produção por unidade da federação e, ainda,
quanto à procedência institucional de cada tese e dissertação produzida.
Os resultados obtidos com a fase de Descrição são apresentados a seguir, tomando
inicialmente os dois bancos de dados separadamente, isto é, descreve-se toda a produção
proveniente do banco de teses e dissertações da CAPES e em seguida da BVS-PSI. Na
sequencia propõe-se uma descrição em conjunto, o que possibilita uma síntese descritiva, que
se apresenta como etapa crucial para as análises posteriores.

3.1

Descrição CAPES
O banco de teses e dissertações da CAPES tem como objetivo facilitar o acesso a

informações sobre teses e dissertações defendidas junto a programas de pós-graduação do país
a partir de 19871. Foi escolhido como fonte para coleta de material, pela relevância que
apresenta na promoção e divulgação da produção do conhecimento no contexto da pósgraduação brasileira.
É o conjunto de material, composto por 1592 teses e dissertações, considerado
qualitativamente representativo da área da Saúde mental e trabalho na produção acadêmica
brasileira, devido aos tratamentos empreendidos anteriormente, que será apresentado nessa
etapa da fase de Descrição.

3.1.1

Tipo de documento
A identificação do tipo de documento, tese ou dissertação, permite reconhecer o nível

de formação, no contexto da pós-graduação brasileira, em que a produção na área da Saúde
mental e trabalho está presente.
1

2

http://www.capes.gov.br Acesso em 14 de julho de 2013.

Banco de teses e dissertações da CAPES - Fase de Exploração: 361 documentos; Fase de Refinamento: 291
documentos; Fase de Cruzamento: 159 documentos.

40
A seguir, apresenta-se a distribuição dos documentos provenientes do banco de teses e
dissertações da CAPES, quanto ao tipo de documento, por descritor de busca.

Quadro 7 - Resultados obtidos com a fase de Descrição do banco da CAPES quanto ao
tipo do documento.
Fase 4 - Descrição / CAPES: Tipo de documento
DESCRITOR / TIPO DE DOCUMENTO
ESTRESSE

SAÚDE MENTAL

SOFRIMENTO

PSICOPATOLOGIA

PSICODINÂMICA

SOFRIMENTO

E (NO / DO)

PSÍQUICO E (NO /

E (NO / DO)

E (NO / DO)

MENTAL E (NO /

TRABALHO

DO) TRABALHO

TRABALHO

TRABALHO

DO) TRABALHO

TESE

21

1

0

0

1

0

23

DISSERTAÇÃO

105

15

1

6

3

6

136

TOTAL

126

16

1

6

4

6

159

TIPO

MENTAL

TOTAL

E (NO / DO)

GERAL

TRABALHO

Fonte: Autor, 2013.

O Quadro 7 descreve como a produção do banco de teses e dissertações da CAPES
está distribuída quanto ao tipo de documento, o que revela por conseguinte o nível de
formação a qual a produção se vincula. Do total de documentos, tem-se que 14% são teses, ou
seja, correspondem a um nível de formação de doutorado. As dissertações aparecem em maior
quantidade, correspondendo a 86% do material, relacionando-se, portanto, com o nível de
formação de mestrado.
No Quadro 7 não estão presentes os descritores: loucura e (no / do) trabalho e
transtorno psíquico e (no / do) trabalho, por não terem capturado documentos no bando de
teses e dissertações da CAPES. Essa condição deverá se repetir nas demais descrições desse
bando de dados.
Essa descrição aponta que, no que se refere ao nível de formação, a área da Saúde
mental e trabalho tem sido pesquisada, no contexto da pós-graduação no Brasil,
predominantemente em nível de mestrado.

3.1.2

Série histórica
Observar a história da produção acadêmica de uma área de conhecimento pode

contribuir para uma compreensão considerando o contexto histórico, o que amplia as
possibilidades de interpretação dos dados. Aqui se apresenta a frequência ano a ano da
produção das teses e dissertações. Nessa série histórica pode-se observar ainda o tipo de
documento e o descritor que o capturou.

41

Quadro 8 - Resultados obtidos com a fase de Descrição do banco da CAPES quanto à
série histórica.
Fase 4 - Descrição / CAPES: SÉRIE HISTÓRICA
DESCRITOR / TIPO DE DOCUMENTO
SAÚDE MENTAL
ANO

E (NO / DO)
TRABALHO
TESE

1989

DISSERT.

1

SOFRIMENTO
PSÍQUICO E (NO
/ DO)
TRABALHO
TESE

DISSERT.

1

1

PSICOPATOLOGIA PSICODINÂMICA
E (NO / DO)

E (NO / DO)

MENTAL E (NO /

TRABALHO

TRABALHO

DO) TRABALHO

TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

1994

TESE

DISSERT.

ESTRESSE
MENTAL

TESE

DISSERT.

1

3

1998

1

2

TESE

DISSERT.

2

1

3

0

3

3

0

1

1

1

4

5

0

2

2

1

4

5

2

7

9

2

6

8

1999

1

3

2000

2

7

2001

2

3

2

1

3

0

4

4

7

1

2

8

10

1

1

1

2

1

16

17

1

10

11

0

14

14

1

0

7

7

1

2

18

20

1

2

3

4

15

19

1

3

13

16

6

23

136

159

2002
2003

2

2004

1

2005

1

2006

1

1

TOTAL
GERAL

TRABALHO

1
1

TOTAL

E (NO / DO)

2

1996
1997

SOFRIMENTO

12

2

1
1

11

3

2008

5

1

2009

2

15

2010

1

2

2011

3

13

2012

3

11

21

1

9

2007

TOTAL

1

105
126

1

2

1

1

1
1

15
16

1
1

6
6

1

3
4

6

159

Fonte: Autor, 2013.

No banco de dados da CAPES, os primeiros registros encontrados datam de 1989,
sendo duas teses e uma dissertação. O Quadro 8 descreve uma série histórica em que se
observa uma produção crescente, ano a ano, com destaques para os anos de 2005, 2009, 2011
e 2012, com 17, 20, 19 e 16 produções respectivamente. Até o ano 2000 foram produzidos
18% do total de teses e dissertações, a maior parte da produção, 82%, encontra-se entre os
anos de 2001 a 2012.

3.1.3

Área do conhecimento

159

42
Com essa descrição, propõe-se a identificação das áreas do conhecimento às quais
estão vinculadas à produção acadêmica na área da Saúde mental e trabalho e, qual dentre
essas áreas, apresenta a produção mais significativa. Esta descrição localiza, dentre as
diferentes ciências, àquelas que estão produzindo, na pós-graduação brasileira, conhecimento
acerca da relação entre saúde mental e trabalho.

Quadro 9 - Resultados obtidos com a fase de Descrição do banco da CAPES quanto à
área do conhecimento.
Fase 4 - Descrição / CAPES: Área do conhecimento
DESCRITOR
ÁREA
DO

SAÚDE MENTAL

CONHECIMENTO

E (NO / DO)
TRABALHO

ADMINISTRAÇÃO

8

CIÊNCIAS DA SAÚDE

4

SOFRIMENTO
PSÍQUICO
E (NO / DO)
TRABALHO

PSICOPATOLOGIA

PSICODINÂMICA

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

SOFRIMENTO

ESTRESSE

MENTAL

MENTAL

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

1

9
4

CIÊNCIAS HUMANAS

1

DIREITO

4

EDUCAÇÃO

3

2

ENFERMAGEM

12

3

ENGENHARIA

1

ENG. DE PRODUÇÃO

2

1
4
5
5

20
1

1

1

FILOSOFIA

4
1

HISTÓRIA

TOTAL

1

1

1

INTERDISCIPLINAR

1

1

MEDICINA

5

NEUROLOGIA

1

PSICOLOGIA

52

PSIQUIATRIA

3

SAÚDE COLETIVA

14

SAÚDE MENTAL

1

1

SAÚDE PÚBLICA

6

6

SERVIÇO SOCIAL

7

7

SOCIOLOGIA

2

2

TOTAL

126

1

6
1

8

2

62

4
1

16

7
1

1

6

4

16

6

Fonte: Autor, 2013.

O Quadro 9 apresenta 20 áreas do conhecimento às quais estão vinculadas as 159 teses
e dissertações provenientes do banco da CAPES. Dessas 20 áreas, observa-se a hegemonia da
Psicologia que apresenta resultado correspondente a 39% da produção coletada nesse banco
de dados. A Enfermagem responde por 12% do material coletado e a Saúde Coletiva detêm

159

43
10% da produção. Destaca-se o conjunto da grande área da Saúde, nesta amostra representada
pelas áreas identificadas como Ciências da Saúde, Enfermagem, Medicina, Neurologia,
Psiquiatria, Saúde Coletiva, Saúde Mental e Saúde Pública, que juntas somam 61
documentos, o que corresponde a 38% do total. Não menos importante destacar a vinculação
com outras áreas como Administração, Direito, Engenharia ou Sociologia, para citar algumas.
Essa diversidade parece indicar que o interesse pelo estudo da relação entre saúde mental e
trabalho assume uma característica multidisciplinar.

3.1.4

Disposição geográfica
A disposição geográfica, a partir das unidades da federação, compreende um

mapeamento dos polos de produção no nível da pós-graduação na área estudada.
O Quadro 10 apresenta a disposição geográfica por estado de onde provêm as 159
teses e dissertações coletadas no bando da CAPES. Para facilitar a compreensão, os estados
de origem dos documentos estão agrupados de acordo com as cinco regiões brasileiras.

Quadro 10 - Resultados alcançados com a fase de Descrição do banco da CAPES quanto
à disposição geográfica.
(continua)
Fase 4 - Descrição / CAPES: Disposição geográfica
DESCRITOR

REGIÃO

UF

SAÚDE MENTAL
E (NO / DO)
TRABALHO

N

NE

SOFRIMENTO
PSÍQUICO
E (NO / DO)
TRABALHO

PSICOPATOLOGIA

PSICODINÂMICA

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

AM

SOFRIMENTO
MENTAL

MENTAL

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

1

SE

TOTAL

1

PA

5

5

AL

1

1

BA

12

CE

1

PB

7

PE

2

2

PI

1

1

12
4

5
1

8

SE
CO

ESTRESSE

1

DF

2

GO

2

MG

14

RJ

21

5

SP

25

4

3

2

1

1
8
2

1
1

1
1

2

2

17

2

30
32

44
(continuação)
Fase 4 - Descrição / CAPES: Disposição geográfica
DESCRITOR

REGIÃO

UF

SOFRIMENTO

SAÚDE MENTAL

PSÍQUICO

E (NO / DO)

PSICODINÂMICA

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

E (NO / DO)

TRABALHO

S

PSICOPATOLOGIA

TRABALHO

SOFRIMENTO

ESTRESSE

MENTAL

MENTAL

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

TOTAL

PR

6

6

RS

23

23

SC

4

TOTAL

126

16

1

6

4

1

5

6

159

Fonte: Autor, 2013.

A área da Saúde mental e trabalho encontra-se representada nas cinco regiões do país,
indicando uma configuração abrangente na distribuição geográfica da sua produção. São
identificadas produções em 15 das 27 unidades da federação. A região sudeste responde por
50% dos documentos coletados, sendo São Paulo o estado que mais produz, com 20% do
total. O Rio de Janeiro, com 19% e o Rio Grande do Sul com 14%, são mais dois estados que
apresentam maior produção, seguidos de Minas Gerais, com 11% e da Bahia com 8%.

3.1.5

Procedência institucional
A descrição da procedência institucional de todas as teses e dissertações que compõem

a amostra amplia a localização dos documentos, indo além da identificação geográfica e
aponta quais as instituições de ensino superior (IES) no país, estão produzindo na área da
Saúde mental e trabalho.
Para ilustrar a procedência institucional dos 159 documentos, o Quadro 11 apresenta
todas as instituições com a respectiva quantidade de teses e dissertações delas provenientes.
Quadro 11 - Resultados alcançados com a fase de Descrição do banco da CAPES quando
à procedência institucional.
(continua)
Fase 4 - Descrição / CAPES: Procedência institucional

SAÚDE MENTAL
E (NO / DO)
IES

FIOCRUZ

TRABALHO

TESE

DISSERT.

1

4

SOFRIMENTO
PSÍQUICO E (NO
/ DO)
TRABALHO
TESE

DISSERT.

DESCRITOR / TIPO DE DOCUMENTO
PSICOPATOLOG
PSICODINÂMICA
SOFRIMENTO
IA
E (NO / DO)
MENTAL E (NO /
E (NO / DO)
TRABALHO
DO) TRABALHO
TRABALHO
TESE

DISSERT
.

TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

ESTRESSE
MENTAL E (NO /

TOTAL

TOTAL

DO) TRABALHO
GERAL
TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

1

4

5

45

(continuação)
Fase 4 - Descrição / CAPES: Procedência institucional
DESCRITOR / TIPO DE DOCUMENTO
SAÚDE MENTAL
IES

E (NO / DO)
TRABALHO
TESE

DISSERT.

SOFRIMENTO
PSÍQUICO E (NO
/ DO)
TRABALHO
TESE

DISSERT.

PSICOPATOLOGIA PSICODINÂMICA

SOFRIMENTO

ESTRESSE

E (NO / DO)

E (NO / DO)

MENTAL E (NO /

MENTAL E (NO /

TRABALHO

TRABALHO

DO) TRABALHO

DO) TRABALHO

TESE

TESE

TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

DISSERT.

FUFSE

TOTAL

TOTAL

GERAL

DISSERT.

TESE

DISSERT.

1

0

1

1

MACKENZIE

1

0

1

1

PUC - DOM BOSCO

1

0

1

1

PUC - GOIÁS

2

0

2

2

PUC - MINAS

1

0

1

1

PUC – RS

1

0

1

1

1

1

1

2

0

1

1

PUC – SP

1

SÃO CAMILO

1

SENAC - SP

1

0

1

1

UEFS

5

0

5

5

UEM

4

0

4

4

UERJ

4

0

6

6

UFAL

1

0

1

1

0

1

1

2

5

7

0

3

3

0

4

4

0

1

1

0

12

12

1

4

5

0

8

8

2

UFAM
UFBA

1
2

5

UFC

1

2

UFF

2

1

UFJF

1

UFMG

10

UFPA

1

1

1

1

4

UFPB

7

UFPE

1

0

1

1

2

1

2

3

UFPI

1

0

1

1

UFPR

1

0

1

1

6

8

14

2

9

11

1

3

4

0

1

1

0

3

3

0

8

8

0

1

1

0

1

1

2

3

5

3

3

6

UFPEL

1

UFRJ

5

5

UFRGS

2

9

UFSC

1

2

1

1

2

1

1

UFU

1

UMESP

2

1

UNB

2

3

2

1

UNEC

1

UNESC

1

UNESP

2

UNICAMP

2

2
3

1
1

46
(continuação)
Fase 4 - Descrição / CAPES: Procedência institucional
DESCRITOR / TIPO DE DOCUMENTO
SAÚDE MENTAL
E (NO / DO)

IES

TRABALHO
TESE
UNICAP

DISSERT.

SOFRIMENTO
PSÍQUICO E (NO
/ DO)

PSICOPATOLOGIA PSICODINÂMICA

SOFRIMENTO

ESTRESSE

E (NO / DO)

E (NO / DO)

MENTAL E (NO /

MENTAL E (NO /

TRABALHO

TRABALHO

DO) TRABALHO

DO) TRABALHO

TESE

TESE

TRABALHO
TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

DISSERT.

DISSERT.

TOTAL

GERAL
TESE

DISSERT.

1

0

1

0

2

2

0

2

2

0

1

1

0

1

1

1

UNIFESP

2

UNIFOR

2

UNIFRAN

1

UNIJUI

TOTAL

1

UNIMEP

1

0

1

1

UNISC

1

0

1

1

UNISINOS

7

0

7

7

2

4

6

0

4

4

23

136

USP

2

4

USP – RP
TOTAL

3
21

105

1
1

126

15
16

0

1
1

0

6
6

1

3
4

0

6
3

159

Fonte: Autor, 2013.

No Quadro 11 pode-se observar a diversidade de instituições de ensino superior que
apresentam produção na área da Saúde mental e trabalho. São 46 instituições distribuídas por
todo o país, tanto da esfera pública quanto da privada. As universidades federais juntas,
respondem por 56% do total da produção acadêmica levantada no banco de teses e
dissertações da CAPES. Destaca-se a Universidade Federal do Rio de Janeiro, com 9% do
total de documentos, a Universidade Federal de Minas Gerais, com 8% e a Universidade
Federal do Rio Grande do Sul com 7%, seguidas da Universidade Federal da Paraíba e da
Universidade de Brasília, que respondem cada uma, por 5% da produção encontrada.
Percebe-se uma concentração de instituições que apresentam significativa produção na
área, ao mesmo tempo em que se identifica a abrangência que a área da Saúde mental e
trabalho tem alcançado no Brasil. Destaca-se a diversidade de instituições das quais as teses e
dissertações procedem.
Em síntese, a descrição do banco de teses e dissertações da CAPES permite afirmar
que a produção da pós-graduação brasileira na área da Saúde mental e trabalho, assim se
apresenta: no nível de formação, 14% são teses e 86% são dissertações; na série histórica, as
primeiras produções, 2 teses e 1 dissertação, datam de 1989 e a maior parte da produção,
82%, encontra-se entre os anos de 2001 a 2012; na vinculação com as 20 áreas de

159

47
conhecimento, a Psicologia apresenta 39% do total de documentos e há diversidade
multidisciplinar nessa produção; quanto à procedência geográfica, identificou-se produções
em 15 das 27 unidades da federação, sendo a região sudeste a que mais produz, apresentando
50% do material coletado, São Paulo com 20% seguido do Rio de Janeiro com 19%, são os
estados que mais produzem. Na vinculação as 46 IES, temos 56% públicas, destas a UFRJ
responde por 9% seguida da UFMG com 8% e UFRGS com 7%.

3.2

Descrição BVS-PSI
A BVS – PSI tem como objetivo assegurar o acesso a um sítio especializado e de

qualidade técnica, com a finalidade de promover atualização profissional e o desenvolvimento
de pesquisas na área da saúde, mais especificamente na área da Psicologia. O banco de teses e
dissertações da BVS-PSI foi escolhido com a intenção de delimitar o corpus da pesquisa, pois
nesse banco, a produção disponível privilegia a área da Psicologia3.
Nesta etapa da fase de Descrição serão apresentadas, em detalhes, informações
relevantes das 60 teses e dissertações que compõe a amostra decorrente das fases anteriores
realizadas com o material proveniente da BVS-PSI.

3.2.1

Tipo de documento
Essa descrição visa reconhecer o tipo, tese ou dissertação, do documento,

possibilitando identificar o nível de formação de onde o material se origina no âmbito da pósgraduação brasileira. No quadro seguinte apresenta-se a distribuição dos documentos
provenientes da BVS-PSI quanto ao tipo de documento por descritor de busca.

Quadro 12 - Resultados obtidos com a fase de Descrição da BVS-PSI, quanto ao tipo do
documento.
Fase 4 - Descrição / BVS-PSI: Tipo de documento
DESCRITOR
SAÚDE MENTAL

SOFRIMENTO

PSICOPATOLOGIA

PSICODINÂMICA

LOUCURA

SOFRIMENTO

TRANSTORNO

E (NO / DO)

PSÍQUICO E (NO /

E (NO / DO)

E (NO / DO)

E (NO / DO)

MENTAL E (NO /

PSÍQUICO E (NO /

TRABALHO

DO) TRABALHO

TRABALHO

TRABALHO

TRABALHO

DO) TRABALHO

DO) TRABALHO

GERAL

TESE

5

4

0

4

0

0

0

13

DISSERTAÇÃO

23

8

2

11

1

1

1

47

TOTAL

28

12

2

15

1

1

1

60

TIPO

Fonte: Autor, 2013.

3

http://www.bvs-psi.org.br Acesso em 14 de julho de 2013.

TOTAL

48
O Quadro 12 descreve a disponibilidade do material que se manteve, após os
procedimentos empreendidos nas fases anteriores, no banco da BVS-PSI quanto ao tipo, tese
ou dissertação, informando consequentemente o nível de formação, doutorado ou mestrado,
de onde provêm os 60 documentos. Observa-se um menor número de teses, 22% do material,
enquanto que as dissertações correspondem a 78% do total. O Quadro 12 não apresenta o
descritor estresse mental e (no / do) trabalho, visto que não se encontra documento
proveniente deste banco de dados com esse descritor. Essa condição deverá se repetir nas
descrições seguintes relativas à BVS-PSI.

3.2.2

Série histórica
Considerar o contexto histórico da produção das teses e dissertações pode contribuir

para a compreensão acerca da configuração da área da Saúde mental e trabalho no Brasil,
viabilizando novas interpretações. Essa descrição traz a frequência anual da produção das
teses e dissertações relacionadas ao descritor utilizado para capturá-las.

Quadro 13 - Resultados obtidos com a fase de Descrição da BVS-PSI, quanto à série
histórica.
(continua)
Descrição BVS-PSI: SÉRIE HISTÓRICA
DESCRITOR / TIPO DE DOCUMENTO
SAÚDE
ANO

SOFRIMENTO

PSICOPATOLO

PSICODINÂMIC

MENTAL

PSÍQUICO

GIA

A

E (NO / DO)

E (NO / DO)

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

TRABALHO

TRABALHO

TESE

DISSERT.

1990

1

1992

1

TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

LOUCURA
E (NO / DO)
TRABALHO
TESE

DISSERT.

PSÍQUICO
E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

1999

1

2

1

1

2

0

1

1

0

1

1

1

2

3

1

2

3

1

1

3

4

0

4

4

2

0

6

6

1

1

5

6

2

5

7

1

2

3

5

2

0

4

4

1

2

3

1

3

2001

3

2002

3
1

1

1

1
1

4
3

1

2006
2007

1

2008

1

1

1

2

2

1
1

1

GERAL

2

1
1

TOTAL

0

1

1

TOTAL

DISSERT

1

1998

2005

MENTAL
E (NO / DO)

1

1997

2004

TRANSTORNO

TESE

1995

2000

SOFRIMENTO

1

49
(continuação)
Descrição BVS-PSI: SÉRIE HISTÓRICA
DESCRITOR / TIPO DE DOCUMENTO

ANO

SAÚDE

SOFRIMENTO

PSICOPATOLO

PSICODINÂMIC

MENTAL

PSÍQUICO

GIA

A

E (NO / DO)

E (NO / DO)

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

TRABALHO

TRABALHO

TESE

2010

DISSERT.

1

TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

1
1
5

TOTAL

E (NO / DO)
TRABALHO
TESE

DISSERT.

SOFRIMENTO

TRANSTORNO

MENTAL

PSÍQUICO

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

TESE

DISSERT.

TESE

DISSERT.

23
28

4

8

2

12

4

2

TOTAL

TOTAL
GERAL

TESE

DISSERT

1

1

2

1

0

2

2

1

1

1

2

13

47

60

1

2011
2012

LOUCURA

11

1

15

1

1
1

1
1

60

60

Fonte: Autor, 2013

Os primeiros documentos localizados na BVS-PSI são duas dissertações do ano de
1990. A partir de 1998 a produção disponível nesse banco apresenta um crescimento
constante, sempre com mais de um documento por ano. O ano de 2005 registra o maior índice
de produção, 7 documentos, sendo duas teses e cinco dissertações. Destaca-se o período
compreendido entre os anos de 2000 a 2006, que apresenta 60% de toda a produção
encontrada.

3.2.3

Disposição geográfica
A descrição da produção acadêmica, teses e dissertações, por unidade da federação

configura um mapeamento geográfico que aponta os locais em que a produção na área da
Saúde mental e trabalho se apresenta.
No Quadro 14 observa-se a disposição geográfica por estado de onde provêm as 60
teses e dissertações coletadas no bando da BVS-PSI. Para facilitar a compreensão, os estados
de origem dos documentos estão agrupados de acordo com as regiões brasileiras.

Quadro 14 - Resultados obtidos com a fase de Descrição da BVS-PSI, quanto à
disposição geográfica.
(continua)
Fase 4 - Descrição / BVS-PSI: Disposição geográfica
DESCRITOR
REGIÃO

NE

UF

SAÚDE

SOFRIMENTO

MENTAL

PSÍQUICO

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

CE
PB

PSICOPATOLOGIA

PSICODINÂMICA

LOUCURA

E (NO / DO)

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

TRABALHO

2
1

SOFRIMENTO

TRANSTORNO

MENTAL

PSÍQUICO

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

TOTAL

2
3

4

50
(continuação)
Fase 4 - Descrição / BVS-PSI: Disposição geográfica
DESCRITOR
SAÚDE

REGIÃO

NE
CO
SE

UF

SOFRIMENTO

MENTAL

PSÍQUICO

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

PSICOPATOLOGIA

PSICODINÂMICA

LOUCURA

E (NO / DO)

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

TRABALHO

PE

1

RN

3

DF

1

1

5

SP

12

6

5

TRANSTORNO

MENTAL

PSÍQUICO

E (NO / DO)

E (NO / DO)

TRABALHO

TRABALHO

TOTAL

1
3

RJ

S

SOFRIMENTO

7
1
1

RS

7

2

SC

3

1

28

12

TOTAL

2

2

1
1

14
4

2

15

1

1

1

Fonte: Autor, 2013.

As teses e dissertações coletadas na BVS-PSI apresentam um mapeamento acerca da
produção, na área da Saúde mental e trabalho, que se distribui em quatro das cinco regiões
brasileiras. Nessa disposição geográfica, apenas a região norte não está presente. A região
sudeste responde por 42% da produção brasileira, e o estado de São Paulo, dentre os 9 que
apresentaram produção, é responsável por 40% do total de documentos coletados. A região
sul responde por 30% da produção total, sendo o estado do Rio Grande do Sul responsável
por 23% de toda a produção da área no Brasil, seguido da Paraíba e de Santa Catarina com
7% cada. Com os dados disponíveis na BVS-PSI, nessa fase de Descrição, observa-se uma
concentração no eixo sudeste-sul, que responde por 72% dos documentos disponibilizados.

3.2.4

Procedência institucional
A descrição da procedência institucional, de todas as teses e dissertações que

compõem a amostra, amplia a localização dos documentos, indo além da identificação
geográfica e aponta quais as IES no país estão produzindo na área da Saúde mental e trabalho.
O Quadro 15 apresenta a procedência institucional dos 60 documentos disponíveis na
BVS-PSI, identificando as instituições e a respectiva quantidade de teses e dissertações delas
provenientes.

Quadro 15 - Resultados obtidos com a fase de Descrição da BVS-PSI, quanto à
procedência institucional.

24

60

51
Fase 4 - Descrição / BVS-PSI: Procedência institucional
DESCRITOR / TIPO DE DOCUMENTO
IES

SAÚDE MENTAL

SOFRIMENTO

PSICOPATOLOGIA

PSICODINÂMICA

LOUCURA

SOFRIMENTO

TRANTORNO

E (NO / DO)

PSÍQUICO E (NO /

E (NO / DO)

E (NO / DO)

E (NO / DO)

MENTAL E (NO /

PSÍQUICO E (NO /

TRABALHO

DO) TRABALHO

TRABALHO

TRABALHO

TRABALHO

DO) TRABALHO

DO) TRABALHO

TESE

TESE

TESE

DISSERT

TESE

DISSERT

TESE

DISSERT

TESE

DISSERT

TESE

DISSERT

DISSERT

DISSERT

TOTAL

TOTAL
GERAL

TESE

DISSERT

1

0

1

0

10

10

0

2

2

0

1

1

0

4

4

0

1

1

0

3

3

0

3

3

0

4

4

0

7

7

2

3

5

0

1

1

0

1

1

6

11

17

9

51

PUC
CAMPINAS

1

PUC - RS

4

2

UCB

1

UFC

1

UFPB

2

1

1

1

1

3

UFRJ

1

UFRGS

2

1

UFRN

3

UFSC

3

1

UMESP

2

2

UNB

1

UNICAP

1

2

UNIFOR

1

2

1

USP
TOTAL

2

1

10

4

27

4

28

8
12

2
2

2

1

4

11
15

1
1

1
1

1
1

60

Fonte: Autor, 2013.

Observa-se no Quadro 15 a presença de 14 IES que apresentam produção na área da
Saúde mental e trabalho. Podem ser caracterizadas como públicas ou privadas e estão
localizadas em diversos estados do país. Destaca-se a Universidade de São Paulo, que
apresenta produção correspondente a 28% do total de teses e dissertações. Outro destaque é a
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, que responde por 23%, seguida da
Universidade Metodista de São Paulo, com 12% da produção. Essas três instituições juntas
detêm 63% da produção disponível na BVS-PSI, nessa fase de Descrição. Esses dados
reafirmam a concentração no eixo sudeste-sul, já apontada na descrição por disposição
geográfica.
Em síntese, com os resultados alcançados na fase de Descrição das teses e dissertações
que permaneceram disponíveis na BVS-PSI, pode-se afirmar que, na pós-graduação brasileira,
a produção na área de Saúde mental e trabalho está assim caracterizada: no nível de formação,
22% são teses e 78% são dissertações; na série histórica, as primeiras produções, 2
dissertações, datam de 1990, destacando-se o período entre os anos de 2000 a 2006, que
apresenta 60% de toda a produção disponível. Quanto à disposição geográfica, verificou-se

60

52
produção em apenas 9 estados, a região sudeste é a que mais produz, respondendo por 42%
dos documentos disponíveis e a região sul responde por 30%, configurando uma concentração
no eixo sudeste-sul do país, com 72% do total de material coletado; o estado de São Paulo
sozinho responde por 40%, seguido do Rio Grande do Sul, com 23% da produção, da Paraíba
e de Santa Catariana com 7% cada. Na vinculação institucional têm-se 14 IES, com destaque
para a USP, a PUC-RS e a UMESP, que juntas respondem por 63% da produção disponível
nesse banco de dados.

3.3

Síntese descritiva
A articulação entre as informações apresentadas na fase de Descrição tem o propósito

de ampliar a compreensão acerca da constituição da área da Saúde mental e trabalho no
Brasil. Assumindo uma caracterização processual e progressiva, esse estudo vem buscando
estabelecer relações entre os resultados encontrados.
Seguindo essa orientação, confrontamos a seguir os resultados apresentados na fase de
Descrição referentes aos dois bancos de dados: CAPES e BVS-PSI. Nesse cruzamento
pretende-se ir além da síntese, atentando para novas possibilidades interpretativas. Aqui se
inicia o percurso que irá culminar na fase que se segue, a de Análise, em que se pretende
aprofundar o conhecimento acerca do objeto deste estudo, para então alcançar os objetivos
propostos.

3.3.1

Tipo de documento
Descrever o tipo de documento produzido no contexto da pós-graduação conduz

diretamente para a identificação do nível de formação: doutorado ou mestrado. Assim,
considerando os dois bancos, têm-se 16% de teses e 84% de dissertações, indicando que a
produção na área de Saúde mental e trabalho no Brasil, tem se dado, predominantemente, em
nível de mestrado. Pode-se observar uma correspondência com os dados gerais da pósgraduação brasileira, onde se verifica que 65% são cursos de mestrado/mestrado profissional e
35% são cursos de doutorado (BRASIL, 2010).
O cruzamento dessas informações indica que o desenvolvimento da área da Saúde
mental e trabalho, acompanha o desenvolvimento da própria oferta de cursos de formação em
nível de pós-graduação no Brasil.
O Gráfico 1 ilustra como a produção acadêmica da Saúde mental e trabalho, no
contexto da pós-graduação brasileira, está distribuída quanto ao tipo de documento.

53
Gráfico 1 - Produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho no Brasil, na pósgraduação brasileira, quanto ao tipo de documento.
219
183

36

TESE

DISSERTAÇÃO TOTAL

Fonte: Autor, 2013.

3.3.2

Série histórica
Ao descrever-se a série histórica da área da Saúde mental e trabalho no Brasil, dois

aspectos chamam atenção: o primeiro diz respeito ao período em que aparecem os primeiros
documentos, 1989 no banco de teses e dissertações da CAPES e 1990 na BVS-PSI. Também
nesse mesmo período, final dos anos 80, verifica-se uma produção crescente de pesquisas
voltadas para investigação dos impactos causados no mundo do trabalho pelos processos de
reestruturação produtiva no Brasil (TUMOLO, 2001).
A articulação entre essas informações parece indicar uma relação diretamente
proporcional, isso é, à medida que as transformações no mundo do trabalho se efetivam
atraindo o interesse de pesquisadores, a área da Saúde mental e trabalho apresenta suas
primeiras produções na pós-graduação brasileira.
O segundo aspecto relevante, quando se observa a série histórica, está relacionado ao
volume concentrado nos últimos doze anos. De 1989 à 1999 encontra-se 12% do total de
documentos, sendo a maior parte, 88%, produzidos entre os anos de 2000 a 2012. Essa
concentração no período compreendido entre os anos de 2000 à 2012, também acompanha os
dados gerais da pós-graduação brasileira em que praticamente se duplica a oferta de cursos a
partir do ano 2000, com um crescimento de 48% dessa oferta (BRASIL, 2010).
No Gráfico 2 é possível visualizar como a produção acadêmica da área da Saúde
mental e trabalho, no contexto da pós-graduação, se apresenta, ano a ano, no Brasil.

54
Gráfico 2 - Produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho no contexto da pósgraduação brasileira quanto à série histórica.
219

24

3

2

2

3

1

1

6

5

8

13

12

10

10

8

1989

1990

1992

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

16

18

2006

2007

23

10
2008

21

18

2011

2012

5
2009

2010

TOTAL

Fonte: Autor, 2013.

3.3.3

Área do conhecimento
Ao mapear as áreas do conhecimento, às quais a produção da área da Saúde mental e

trabalho está vinculada, alcança-se uma perspectiva introdutória acerca das concepções
epistemológicas presentes nessa produção. Embora, identificar a área do conhecimento não
seja suficiente para analisar como, e em que direção, a área da Saúde mental e trabalho tem se
desenvolvido, esta informação preliminar evidencia alguns indícios, que ajudam a compor o
cenário para análises mais aprofundadas, ainda a serem realizadas nesse estudo. Reafirma-se
aqui, o caráter processual que tem caracterizado o percurso metodológico desenvolvido.
É possível observar nesse mapeamento, que a Psicologia é a área do conhecimento que
mais tem se ocupado acerca da relação entre saúde mental e trabalho, pois, mais da metade,
56% da amostra, é composta por documentos identificados com essa área. Chama atenção a
quantidade de documentos identificados com a grande área da Saúde, que responde por 28%
do material em estudo. Apesar da indicação de que se trata de uma área de interesse
multidisciplinar, pois se encontram trabalhos vinculados a áreas como Direito, Engenharia,
Educação, Filosofia, História e Serviço Social, a constatação de que a quase totalidade, 94%,
da produção da área da Saúde mental e trabalho é identificada com as áreas da Psicologia e da
Saúde, apontam para um direcionamento paradigmático ou epistemológico.
Com essa configuração é possível antecipar-se a análise qualitativa dos documentos e
buscar uma compreensão acerca da presença hegemônica da Psicologia nos estudos da relação
entre saúde mental e trabalho. Sato, Lacaz e Bernardo (2006), apontam para a emergência e

55
consolidação do campo da Saúde do Trabalhador como momento que favorece a aproximação
e posterior inserção da Psicologia nas questões relativas à interface saúde e trabalho.
Jacques (2007), resgata a trajetória da relação entre Psicologia, trabalho e saúde, para
afirmar que é a partir da ruptura com concepções teórico-metodológicas reducionistas que a
Psicologia assume uma nova posição frente ao trabalho, ampliando suas análises ao lançar
mão das propostas da Psicologia social de base materialista histórica.
Essa mesma autora, afirma:
A inserção da psicologia no campo da saúde do trabalhador lhe abre um
conjunto variado de possibilidades de atuação, entre essas, o estabelecimento
do nexo causal entre o trabalho e o adoecimento mental. O reconhecimento
deste vínculo permeia os diferentes campos de atuação da psicologia e
implica uma compreensão do humano que dá conta de suas várias dimensões
(JACQUES, 2007, p. 115).

É, portanto, numa perspectiva crítica e abrangente, que a Psicologia comparece para os
estudos no âmbito da Saúde mental e trabalho. Essa dinâmica de aproximação / inserção,
promove uma ação recíproca, ou seja, o campo da Saúde do Trabalhador também amplia as
perspectivas analíticas da Ciência psicológica.
É nessa perspectiva de uma compreensão crítica e, nesse sentido, sócio-historicamente
situada, que se entende a contribuição das análises realizadas por esta ciência à área da Saúde
mental e trabalho.
A julgar pelo volume da produção que a Psicologia tem apresentado a sua
aproximação com o campo da Saúde do Trabalhador, parece estar contribuindo sobremaneira
para a compreensão dos fenômenos que tomam a relação entre o trabalho e os processos de
saúde / doença mental. Ao ampliar as possibilidades de análise, a Psicologia tem produzido
outras articulações e compreensões acerca da categoria trabalho.
Como sentencia Lobato (2003, p. 70): “Impossível, [...] compreender o homem a
revelia da categoria analítica trabalho, em seus múltiplos significados, sendo este estruturante
do ponto de vista da formação da identidade e da subjetividade.”

O Gráfico 3 traz todas as áreas do conhecimento às quais as teses e dissertações na
área da Saúde mental e trabalho no Brasil estão vinculadas.

Gráfico 3 - Produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho no contexto da pósgraduação brasileira, quanto à área do conhecimento.

56
219

122

9

4

1

4

5

20
1

4

1

1

1

6

1

7

16

1

6

7

2

Fonte: Autor, 2013.

3.3.4

Disposição geográfica
Localizar a origem da produção acerca da Saúde mental e trabalho possibilita o

reconhecimento da dimensão que esta área vem alcançando em território nacional, tendo em
vista a distribuição geográfica atingida. Quando se observa de onde provêm as teses e
dissertações, percebe-se uma disposição geográfica abrangente em que se localiza produção
nas cinco regiões do país e em 15 das 27 unidades da federação. Além desse panorama, é
possível também identificar as regiões que apresentam maior produção na área.
Assim, tem-se que a região sudeste concentra 46% do total de teses e dissertações
produzidas, sendo o estado de São Paulo, sozinho, responsável por 30% do total da produção
acadêmica na área da Saúde mental e trabalho no Brasil.
Parece possível avançar na compreensão desses dados, ao se estabelecer uma relação
entre a concentração observada da produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho e a
distribuição assimétrica da própria oferta de cursos de pós-graduação no Brasil, em que se
observa uma concentração de 50% dos cursos na região sudeste (BRASIL, 2010). Quando se
atenta para essa relação de proporcionalidade e também se considera a ampla distribuição dos
estudos no território brasileiro, pode-se afirmar que esta área tem alcançado uma abrangência
significativa e que o interesse de pesquisadores ultrapassa os polos tradicionais de pesquisa.
No Gráfico 4 apresenta-se o mapeamento geográfico, por unidade da federação, de
toda a produção acadêmica da pós-graduação sobre a área da Saúde mental e trabalho no
Brasil.

57
Gráfico 4 - Produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho no contexto da pósgraduação brasileira, quanto à procedência geográfica.
219

56
37

31
1

1

AM

AL

12

7

BA

CE

17

15
2
DF

GO

MG

5
PA

12
PB

3

1

6

PE

PI

PR

9

3
RJ

RN

RS

SC

1
SE

SP TOTAL

Fonte: Autor, 2013.

3.3.5

Procedência institucional
Avançando na localização da origem das teses e dissertações, identifica-se a

procedência institucional desses documentos. Com essa informação, avança-se também na
compreensão da abrangência e penetração que a área da Saúde mental e trabalho tem
alcançado no contexto acadêmico no Brasil.
Seguindo essa direção, ao atentar-se à procedência institucional das teses e
dissertações, localizam-se 49 IES. Se, quando apontada a disposição geográfica, foi possível
perceber a abrangência que a área tem alcançado, na localização das instituições provenientes,
essa abrangência é ainda mais significativa, pois, como apontado acima, são diversas as
instituições que apresentam produção na área, não configurando polos de concentração de
produção do conhecimento.
Entre as 49 instituições, 61% são públicas e 39% são privadas. As instituições públicas
respondem por 77% do total de documentos, já as privadas apresentam 23% da produção na
área, o que possibilita afirmar que, predominantemente, a área da Saúde mental e trabalho tem
sido estudada em instituições públicas.
É possível ratificar essa informação, quando se observam as cinco instituições que
apresentam maior produção: USP, com 10% do total de teses e dissertações encontradas,
UFRJ, UFRGS e UNB, com 6% cada, e a UFMG, com 5%.
O Gráfico 5 apresenta todas as IES de onde provêm as teses e dissertações da área da
Saúde mental e trabalho no Brasil.

58
Gráfico 5 - Produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho no contexto da pósgraduação brasileira quanto à procedência institucional.
219

5

1

2 10 2

2

5

4

6

7

4

15 14
4 12 5 12 3
3

8 10 13 5

6

1

2

3

7

23
4

Fonte: Autor, 2013.

Essa configuração descritiva teve como objetivo apresentar um panorama da área da
Saúde mental e trabalho no contexto da pós-graduação brasileira, bem como estabelecer
algumas articulações iniciais visando superar a síntese dos dados já coletados.

21

59
4

ANÁLISE

4.1

Procedimentos iniciais para a análise qualitativa
Chega-se a um ponto no percurso da pesquisa em que o tratamento dado às

informações levantadas nas fases anteriores, possibilita aprofundar o conhecimento e ampliar
a compreensão acerca do objeto de estudo. É esse o objetivo dessa última fase, a análise
interpretativa dos dados, o que nesse contexto de pesquisa significa alcançar um entendimento
a partir do que pode ser apreendido na relação entre as informações descritas.
Analisar estas informações, a partir de um olhar em perspectiva, constitui um exercício
intelectual em que se estabelece uma relação dialética entre aproximação e distanciamento das
informações

(SANDELOWSKI,

DOCHERTY

&

EMDEN,

1997),

flutuação

e

aprofundamento na leitura destas (BARDIN, 2007). Tal análise se caracteriza por um olhar
em que, ao mirar o conjunto das informações, consegue-se captar os detalhes, isto é, aquilo
que emerge da trama estabelecida entre as informações, da rede composta pela articulação,
cruzamento, confronto e harmonização dos dados.
É esta fase que viabiliza a metassíntese. É na análise que o pesquisador articula as
informações, estabelece conexões, confronta os dados apresentados, enfim, ultrapassa o
conteúdo de cada documento para alcançar uma compreensão que está entre estes. Uma ação
interpretativa em que se consegue operar uma transformação, superar a síntese e propor outro
conhecimento a partir daqueles já produzidos.
Para o êxito nesta fase, tendo em vista a complexidade da tarefa, foi necessário o
estabelecimento de alguns critérios quanto aos documentos a serem utilizados. Assim, das 219
teses e dissertações que compõem a amostra, optou-se por analisar as 26 teses localizadas pelo
descritor: Saúde mental e trabalho. A escolha deste descritor se justifica pela
representatividade apresentada nas fases anteriores, pois em todas se mostrou o mais efetivo
na localização de documentos, tanto no aspecto quantitativo quanto no qualitativo.
Quanto ao tipo de documento, a escolha por investigar mais detidamente as teses, se
justifica pela premissa de que este documento apresenta uma contribuição teórica de maior
relevância, ou seja, entende-se que, por princípio, as teses devem apresentar um
aprofundamento conceitual em suas proposições.
Aplicados os critérios estabelecidos, foi tomado para análise o total de 26 teses. A
busca por estas na íntegra se deu através de pesquisa on-line e, ainda, em contato com os
autores através de e-mail, o que resultou num total de 16 documentos. A leitura destes foi
realizada entre os meses de julho a agosto de 2014. Optou-se pela sequência cronológica, que

60
teve por objetivo compor um painel histórico com vistas a identificar as rupturas e
permanências de aspectos relacionados à investigação científica acerca da relação entre saúde
mental e trabalho. Foi a partir da composição desse material, que aqui recebeu a denominação
de Quadro Analítico Geral (Apêndice A), que se empreendeu a análise planejada.
Para sistematizar a coleta de informações para a composição desse quadro, foi
produzida uma Ficha de Análise (Apêndice B), composto por categorias pensadas a priori,
sem, no entanto, desconsiderar a emergência de categorias a posteriori, desde que se
mostrassem relevantes para o alcance do objetivo final. Foi produzida ainda, uma síntese de
cada documento, destacando-se trechos de seus aspectos centrais e considerando-se a
relevância das informações para a realização desta fase de Análise.
A avaliação do projeto de pesquisa por ocasião do Seminário Avançado da Linha I
deste Programa de Pós-graduação, ocorrida em março de 2014, contribuiu para o processo de
identificação de categorias analíticas relevantes, ampliando o alcance da análise em
consonância com os objetivos propostos. Com isso, apresenta-se enquanto categorias de
análise: a história da produção; sua relação com demandas sociais e com políticas públicas; a
tradição epistemológica sobre a qual se fundamenta; as estratégias metodológicas e os
referenciais ou modelos teóricos utilizados.
As categorias epistemologia, metodologia e teoria, estavam presentes no projeto com o
qual se iniciou este estudo. Foram, portanto, pensadas antecipadamente. Já as demais
categorias: história, demandas sociais e políticas públicas foram tomadas para análise pela
relevância analítica apresentada durante a leitura em ordem cronológica, nos moldes já
explicitados. Tal relevância foi considerada a partir do potencial identificado nessas
categorias para estabelecer conexões e, nesse sentido, enriquecer a análise empreendida sobre
os documentos com vistas à realização da metassíntese.
Feitos os esclarecimentos quanto aos procedimentos prévios para o desenvolvimento
da fase de Análise, cabe ainda ressaltar o processo de preparação do pesquisador para a
investidura nesse momento crucial da pesquisa.

4.2

A preparação para o trabalho: um modo de fazer metassíntese.
A leitura das teses na sequência histórica foi realizada de forma contínua e sem

interrupção para outras leituras, o que possibilitou uma imersão intensiva no conteúdo dos
textos, isto é, uma concentração que foi capaz de promover a apreensão de nuances dos
textos; detalhes que se apresentavam na alternância entre estes, o que favoreceu sobremaneira
o desempenho na execução desta fase.

61
Ao longo das leituras, vários registros paralelos foram realizados; ideias que foram
surgindo a partir da relação estabelecida entre o conteúdo dos textos. Impressões que se
apresentavam na passagem de uma leitura a outra, na mudança de tema, de método e de
teoria, nos problemas levantados, nos relatos das análises, nas discussões propostas.
Elementos que propiciaram as primeiras conexões, nexos fecundos para a realização da
metassíntese, tudo sendo devidamente anotado e datado, à semelhança de um diário de
campo.
Foi com essa disposição que se iniciou efetivamente o trabalho de análise. Munido
desse aparato de ideias, da curiosidade que instiga e dá sentido ao trabalho científico, do
compromisso com o prazo estabelecido e do desejo de atingir com êxito o objetivo proposto,
deu-se início ao trabalho de análise.
A seguir, apresenta-se o conteúdo das análises realizadas sobre cada categoria:
história, demandas sociais, políticas públicas, epistemologia, método e teoria. Uma discussão
introdutória acerca de cada categoria antecede a análise propriamente dita. Esse formato teve
a intenção de deixar claro quais as bases utilizadas para as considerações feitas sobre as teses
em análise.

4.3

Categorias analíticas: o que dizem as teses?

4.3.1

Uma história.
O período em que foram produzidas as teses compreende um momento de profundas

transformações no mundo do trabalho. No contexto brasileiro foram tão amplas e rápidas as
transformações ocorridas, que os resultados ultrapassaram o mundo do trabalho e se fizeram
presentes em toda a vida (ANTUNES, 2011; ANTUNES; SILVA, 2010; NAVARRO;
PADILHA, 2009).
Diversas repercussões foram percebidas, algumas de forma imediata, outras
necessitaram de um tempo para que fossem devidamente identificadas; todas, contudo,
demandaram investigação científica. A academia foi chamada a responder aos fenômenos
decorrentes dessa nova ordem e nesse sentido, as teses aqui estudadas cumprem essa função.
É curioso notar que a primeira tese localizada no Brasil sobre a área da Saúde mental e
trabalho traga uma revisão da literatura e tenha o objetivo de configurar o campo da Saúde
mental do trabalho (SILVA-FILHO, 1989). É como se o texto assumisse o papel emblemático
de iniciar um processo de estudo e para isso se preparasse, compondo um material que
pudesse balizar o desenvolvimento dos estudos que o seguissem. Não menos interessante é

62
perceber que essa primeira tese parece prever tal desenvolvimento, pois, apesar de em seu
projeto inicial propor uma investigação de campo, assume o formato de revisão e nesse
movimento, mune-se de material necessário para o devido início dos estudos sobre a relação
entre saúde mental e trabalho no âmbito acadêmico.
Chama atenção ainda a feliz coincidência entre os métodos utilizados nesse momento
inicial, em 1989, e a proposta deste estudo, em 2014. Compor uma revisão para
instrumentalizar um processo amplo de estudos, a partir de um marco inicial; e realizar uma
metassíntese com vistas a compreender como está atualmente a área da Saúde mental e
trabalho no Brasil. São momentos distintos em que a realização deste tipo de pesquisa ratifica
sua relevância para o desenvolvimento da ciência. Os processos de preparação, avaliação,
superação e proposição que os estudos de revisão alcançam, parecem seguir iluminando os
caminhos para a realização da pesquisa científica (FERREIRA, 2002; SAMPAIO;
MANCINE, 2007).
Destaca-se também o fato de, nos idos de 1989, ser a área da Psiquiatria a conduzir um
estudo sobre a relação entre saúde mental e trabalho no contexto acadêmico, e, em 2014, estar
este estudo num programa de pós-graduação em Psicologia, numa linha de pesquisa
denominada Processos Psicossociais. Para além de uma mudança de área do conhecimento, o
que se pode depreender a partir disso é a ampliação da compreensão acerca do objeto de
estudo. Tal ampliação se deve majoritariamente ao desenvolvimento do campo da Saúde do
Trabalhador, que em contraponto ao campo da Saúde Ocupacional, possibilitou profundas
mudanças no olhar analítico sobre os fenômenos circunscritos na relação entre saúde e
trabalho (LACAZ, 2007; MINAYO-GOMES, 2011; SATO; LACAZ; BERNARDO, 2006).
Pode-se afirmar que o desenvolvimento da área da Saúde mental e trabalho, no
contexto acadêmico brasileiro, reflete uma resposta às demandas decorrentes do momento
histórico do país. É possível observar que a produção acadêmica desenvolveu-se de forma
crítica e plural para dar conta da complexidade e da profundidade das mudanças, propondo
superar as análises monocausais e atentar para a diversidade que o campo impõe. Nesse
sentido, pode ser caracterizada como uma produção inserida historicamente, contemporânea e
voltada para os problemas emergentes ao seu desenvolvimento.
As pesquisas realizadas e relatadas nas teses contam essa história. Se a primeira tese
traz uma revisão de literatura, nos anos seguintes observa-se uma entrada no campo do
trabalho com vistas a compreender como determinadas populações de trabalhadores estavam
reagindo às transformações, cujo curso foi acelerado a partir dos anos 80.

63
A revisão empreendida por Silva-Filho (1989) constitui a primeira tese localizada por
esse estudo, sobre a área da Saúde mental e trabalho no Brasil. Nela já figurava algumas
ideias que seriam centrais para o desenvolvimento ulterior das pesquisas na área:
A organização do trabalho, bem mais do que o tipo de tecnologia, contribui
para a constituição dos agravos à saúde, mas ocorrem diferenças importantes
em relação a como se dá essa influência. Por outro lado, as relações sociais
de trabalho assinalam também distinções significativas [...] (SILVAFILHO, 1989, p. 147).

Já em 2003, foram estudados 20 agricultores em situação de exposição prolongada a
agrotóxicos no estado do Pará. Era o trabalho rural que transmutado em agronegócio imprimia
uma nova lógica de produção. A promessa do progresso (BAUMAN, 2001, 2005; DUPAS,
2006) adentrando o mundo camponês e instaurando suas contradições no modo de vida dos
trabalhadores. Como informa a autora:
No caso dos agricultores em foco, muitos deles, pequenos produtores, a
trajetória de vida familiar confunde-se com a trajetória de trabalho, espaços
que confluem e se legitimam entre si. [...] Nesta história que entrelaça
contextos, a forma como o trabalho acontece concreta e subjetivamente, vai
ser determinada por modelos econômicos e de desenvolvimento, que vão a
partir de idéias e tarefas prescritas nas condições em que acontece o trabalho,
caracterizar o perfil de risco que subjaz a tarefa. Assim o foi com os
agrotóxicos. Invadiram o mercado brasileiro, conforme já mencionado
anteriormente neste trabalho, através de um modelo político e econômico
que assolou o país nos anos 60, se consolidando enquanto prática na
agricultura na década de 70, chegando até a família camponesa na
Amazônia, como mais um elemento de agressão ao ambiente, ameaçando a
biodiversidade, a sustentabilidade da agricultura, a saúde dos que dela se
ocupam e dos que dela se alimentam (LOBATO, 2003, p. 29, 30).

No ano de 2006, um estudo se volta para servidores públicos, com uma média de 20
anos de carreira, numa companhia de mineração no Rio Grande do Sul. Entra em cena a
disputa de poder político, decorrente do hibridismo entre o modelo burocrático e gerencial
que tem caracterizado a administração pública brasileira. O medo passa a ser utilizado como
uma estratégia de gestão, sendo o de perder o emprego o propulsor de outras dimensões do
medo que se imprimem sobre os trabalhadores estudados. Assim afirma o autor:
Na experiência brasileira a implementação da administração gerencial é
acompanhada de alterações significativas na lei que regula o regime de
trabalho dos servidores públicos. Com a justificativa de eliminar distorções e
privilégios, a Reforma Administrativa introduz a flexibilidade da
estabilidade e a adoção de regimes jurídicos diferenciados para os servidores
(CUNHA, 2006, p. 38).

E continua o autor:
O medo presente em todas as atividades profissionais, na sua dimensão
comportamental emerge da ameaça de demissão. A ameaça de desemprego

64
torna-se presente na vida dos sujeitos a partir da Reforma do Estado
empreendida no Brasil em 1995, reflexo do processo de privatização porque
passou a organização, associado a políticas de esvaziamento do quadro
funcional – PDV e incentivo a aposentadorias -, assim como a adoção de
novas tecnologias (CUNHA, 2006, p. 197).

Em 2009 um estudo amplo é desenvolvido com 780 trabalhadores do setor de serviços
de limpeza em diversas ocupações. Com o título: “Estudo epidemiológico sobre assédio moral
no trabalho e transtornos mentais comuns em trabalhadores do setor de serviços”, a tese relata
a investigação realizada para verificar a prevalência do assédio moral no trabalho e fatores
associados, um fenômeno recente e crescente, descendente direto das transformações
empreendidas no mundo do trabalho. Essa autora aponta que:
Os progressos tecnológicos recentes têm produzido cada vez mais uma
violência do tipo subliminar, com a utilização de métodos mais “limpos”,
que suprimem a necessidade do contato direto entre sujeitos, multiplicando o
número de intermediários e de dispositivos técnicos.
A precariedade no trabalho se inscreve num modo de dominação de tipo
novo, fundado na instituição de uma situação generalizada e permanente de
insegurança, visando obrigar os trabalhadores à submissão, à aceitação da
exploração, numa luta de todos contra todos (SALES, 2009, p. 18-19).

Em 2012 é apresentada uma investigação com vistas a:
[...] propor indicativos para uma sistematização da clínica do trabalho numa
perspectiva humanista, a partir da compreensão de experiências clínicas de
psicoterapeutas centrados na pessoa diante de demandas de sofrimento
humano no trabalho (MELO, 2012, p. 5).
[...] é possível concluir que o mundo do trabalho contemporâneo caracterizase como um dispositivo de controle e regulação sobre o homem, sendo cada
vez mais regido pela lógica da eficácia, produzindo um sujeito que, na ânsia
de satisfazer as exigências do mercado de trabalho, se lança numa luta
ferrenha contra seus próprios limites. Além disso, a competitividade
desenfreada resulta no esfacelamento da dimensão coletiva da subjetividade
humana, comprometendo, portanto, as relações interpessoais. Isto leva o
sujeito à necessidade de saber de si e cuidar de si, ou seja, apropriar-se de
suas potencialidades para lançar-se no mundo como ser de possibilidades e
mudar o contexto ao seu redor, adotando modos de subjetivação que o
permitam sentir, pensar e agir diante da realidade social em que está inserido
(MELO, 2012, p. 213-214).

Aqui se vê uma tentativa de disponibilizar o conhecimento produzido no âmbito de
uma abordagem clínica que tradicionalmente não toma o trabalho como foco de análise. A
pesquisa empreendida toma forma, a partir da demanda percebida pela autora em sua atuação
clínica, fora do âmbito acadêmico. Parece, portanto, evidenciar a relação que os estudos que
se inserem na área da Saúde mental e trabalho estabelecem com as demandas sociais que se
apresentam e reclamam compreensão.

65
4.3.2

A pesquisa a serviço da sociedade
Ao observar-se o panorama histórico das teses analisadas, é possível perceber que a

produção destas se caracteriza por uma vinculação com as necessidades emanadas da
sociedade trabalhadora. À medida que novos fenômenos passam a ser percebidos por ocasião
das transformações em curso no mundo do trabalho, a academia é chamada a apresentar
respostas. Tais transformações apresentam aspectos antagônicos e passam a exigir do
trabalhador, múltiplas e contraditórias adaptações. Como bem aponta Antunes (2010):
Assiste-se hoje à dupla transformação do trabalho, tanto quanto ao conteúdo
da atividade, tanto quanto às formas de emprego, transformação
aparentemente paradoxal, pois esse duplo processo ocorre em sentidos
opostos. De um lado, há a exigência de estabilização, de implicação do
sujeito no processo de trabalho, por intermédio de atividades que requerem
autonomia, iniciativa, responsabilidade, comunicação ou intercompreensão.
Por outro lado, verifica-se um processo de instabilização, precarização dos
laços empregatícios, aumento do desemprego prolongado e flexibilidade no
uso da força de trabalho. Em duas palavras: perenidade e superfluidade
(ANTUNES, 2010, p. 9)

A metáfora utilizada por Bauman (2002), contrastando sólidos e fluidos, parece prenhe
de sentidos para descrever esse momento histórico. Nele, novos valores impõem-se na
conformação de uma ordem fluida, que escapa, dissolve-se e mina as certezas. Essas, de
alguma forma, garantiam um apoio, um recurso, um alento que fosse à jornada da vida, que
tem no trabalho, um dos seus mais importantes atributos ontológicos (ENRIQUEZ, 2014).
Alguns desses novos valores são apontados por Dupas (2006, p. 261): “desregulação,
liberalização, flexibilização, crescente fluidez e liberação dos mercados financeiros.” Valores
que incidem sobre o mundo do trabalho e consequentemente sobre a vida dos trabalhadores,
reclamando novas condutas por parte destes últimos frente ao imperativo dessa nova ordem.
Como destaca esse mesmo autor:
A solidariedade de grupo não tem tempo de fincar raízes. A lealdade deixa
de ser uma moeda de troca possível. Nesse quadro, portar identidades
relativamente definidas não é sinal de bom senso. É melhor usá-las como um
manto leve, pronto a ser despido e substituído por outro. Mercado flexível
exige identidades flexíveis (DUPAS, 2006, p. 261).

Assim, a produção acadêmica na área da Saúde mental e trabalho no Brasil, pode ser
reconhecida por historicamente buscar responder a essas demandas. Foi, portanto, da
necessidade de compreender os fenômenos emergentes relacionados aos efeitos da nova e
mutante ordem no mundo do trabalho sobre os trabalhadores, que a relação entre saúde mental
e trabalho surgiu enquanto tema de pesquisa e estruturou-se como área do conhecimento
(CODO; SORATTO; VASQUES-MENEZES, 2004).

66
Vale ressaltar, que essa disposição para atender às demandas sociais pode ser
compreendida como uma postura ético-política dessa produção do conhecimento, pois se
configura num modelo de ciência que, na contramão da lógica produtivista do discurso
científico hegemônico, se volta para atender às necessidades prementes da sociedade
(DUPAS, 2006).
Não se pode deixar de atentar para o fato de que, das 16 teses que compõe essa análise,
15 serem provenientes de universidades públicas. Esse fato parece ser indício do
compromisso destas instituições com as demandas sociais emergentes. Nesse sentido, pode-se
dizer que estas instituições vêm cumprindo suas missões. Considera-se ainda que, apesar do
hibridismo que caracteriza a concepção das universidades públicas brasileiras, estas produzem
um conhecimento que, além da dimensão da formação e do desenvolvimento de pesquisas
científicas, volta-se para atender às necessidades da sociedade. Colocam-se, portanto, a
serviço da sociedade (SOUZA; SANTOS; LOBO; MELO; SOARES, 2013).
Algumas destas teses, ao tomarem como população alvo de suas investigações
determinadas categorias profissionais, comprovam esse compromisso em apresentar respostas
para as situações que afetam diretamente a população trabalhadora. Ao escolherem pesquisar
o que acontece por dentro do trabalho (JACQUES; CODO, 2003), os pesquisadores colocam
à disposição da sociedade seus instrumentais teóricos e metodológicos, com o objetivo de
esclarecer fenômenos que carecem de uma devida compreensão, para que, a partir dos
resultados de suas pesquisas, sejam propostas efetivas ações.
É o que acontece em 2003, quando um estudo tenta propor uma contribuição da
Psicanálise à compreensão da relação entre saúde mental e trabalho, a partir da escuta de um
grupo de 8 Operadores de tráfego de um grande cidade. A realização da pesquisa se deu a
partir da constatação de um elevado número de queixas de estresse, depressão e ansiedade em
uma empresa responsável pela administração do tráfego, na qual o pesquisador estava inserido
enquanto Médico do Trabalho (AZEVEDO, 2003). Esse autor, assim expressa:
Entende-se aqui que um significado psicanalítico do trabalho e do ato de
trabalhar deve cada vez mais vir à discussão e estabelecer-se como
necessário ao debate porque o tema da nova sociabilidade do trabalho nos
coloca a questão: trabalhar a serviço de que e de quem? A psicanálise tem
subsídios suficientes para dizer que é a serviço do homem e que, para mais
além do que diz a racionalidade objetiva da economia, da sociologia e da
política sobre o futuro do trabalho, o desejo deverá ser falar e ser escutado
(AZEVEDO, 2003, p. 176).

Embora o estudo apresente um resultado restrito em relação ao objetivo proposto, tem
o mérito de tentar colocar à disposição de uma área do conhecimento recente, uma teoria e

67
seus métodos de análise já considerados clássicos. Além de voltar-se para uma demanda que
emergiu espontaneamente num contexto de trabalho.
Já na tese defendida por Paparelli (2009), a rede pública de educação de São Paulo foi
investigada acerca do exercício do trabalho docente, determinado pela política de
regularização do fluxo escolar. O conteúdo do material coletado denuncia um processo de
precarização do trabalho docente, que sob a lógica produtivista do modelo neo-liberal, tornou
esse tipo de trabalho penoso, engendrando um processo de produção e intensificação de
desgaste mental. A autora assim registra em dois momentos de seu trabalho:
A escola vai se parecendo com um campo de batalha no qual o trabalho vai
perdendo o sentido para os educadores na medida mesmo em que o
aprendizado tem dificuldade de se concretizar, coisas que os ciclos de
aprendizagem contribuem para promover e intensificar. A indisciplina
aumenta, o desânimo e a exaustão também (PAPARELLI, 2009, p. 149).
Os alunos que antes estavam excluídos da escola passaram a estar excluídos
na escola, ou seja, frequentam, mas não se beneficiam do processo de
escolarização. Frequentam e resistem a esse simulacro de escola através da
indisciplina e do desrespeito. Quem presencia isso diariamente são os
profissionais da escola com tudo o que isso lhes traz de frustração, sensação
de fracasso pessoal e desgaste mental (PAPARELLI, 2009, p. 155).

Na pesquisa desenvolvida por Braga (2012), 299 trabalhadores da rede básica de saúde
do município de Botucatu, foram investigados com o objetivo de estimar a prevalência da
síndrome do esgotamento profissional, o burnout. Este estudo traz à cena mais uma das
repercussões para a saúde do trabalhador, decorrentes das novas formas de organização do
trabalho. Mais uma vez o estudo é planejado visando compreender um fenômeno que passa a
afetar um coletivo de trabalhadores. A autora da tese esclarece:
A alta prevalência de burnout, o fato da ocorrência das dimensões da
síndrome (em altos e moderados níveis) estar associada a aspectos do
trabalho, especialmente aos do modelo demanda-controle, cuja abordagem
baseia-se nas relações sociais do trabalho e em como estas funcionam como
geradoras de adoecimento, sugerem que, nos serviços da rede básica de
saúde de Botucatu, o “trabalho está doente”, necessitando intervenção por
parte dos poderes públicos: municipal, responsável pela gestão de tais
serviços e com poder de ação imediata; estadual, encarregado do apoio
técnico por meio de instâncias regionais e federal, indutor e co-financiador
das políticas de saúde no país (BRAGA, 2012, p. 86).

Os resultados indicam que, é na forma de organização do trabalho que se encontra a
gênese do sofrimento mental. Ao apontar para o papel do estado na promoção de intervenções
preventivas, revela, ao mesmo tempo e, contraditoriamente, a responsabilidade deste na
promoção do sofrimento mental que aflige os trabalhadores, pois, assim como no estudo de

68
Paparelli (2009) é no seio de uma política pública que tal fenômeno se apresenta. Afinal,
como evitar ou prevenir o que se promove?

4.3.3

As políticas públicas
No Brasil, compete ao Ministério da Saúde, coordenar em âmbito nacional a execução

das ações da saúde do trabalhador (BRASIL, 1990). A Lei 8.080, também conhecida como
Lei do SUS, pode ser considerada o marco legal dessa questão no país. A partir dela, outros
dispositivos foram emitidos no intuito de consolidar uma política pública sobre como tratar a
saúde do trabalhador em âmbito nacional. Com a promulgação do Decreto nº 7.602, de 7 de
novembro de 2011 e da Portaria nº 1823, de 23 de agosto de 2012, foi instituída a Política
Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, que têm, respectivamente, como
principais objetivos:
[...] a promoção da saúde e a melhoria da qualidade de vida do trabalhador e
a prevenção de acidentes e de danos à saúde advindos, relacionados ao
trabalho ou que ocorram no curso dele, por meio da eliminação ou redução
dos riscos nos ambientes de trabalho (BRASIL, 2011).
[...] definir os princípios, as diretrizes e as estratégias a serem observados
pelas três esferas de gestão do Sistema Único de Saúde (SUS), para o
desenvolvimento da atenção integral à saúde do trabalhador, com ênfase na
vigilância, visando a promoção e a proteção da saúde dos trabalhadores e a
redução da morbimortalidade decorrente dos modelos de desenvolvimento e
dos processos produtivos (BRASIL, 2012).

Destaca-se, para esta análise, o Artigo 7º da Portaria 1.823 de 23 de agosto de 2012,
onde se lê:
A Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora deverá
contemplar todos os trabalhadores priorizando, entretanto, pessoas e grupos
em situação de maior vulnerabilidade, como aqueles inseridos em atividades
ou em relações informais e precárias de trabalho, em atividades de maior
risco para a saúde, submetidos a formas nocivas de discriminação, ou ao
trabalho infantil, na perspectiva de superar desigualdades sociais e de saúde
e de buscar a equidade na atenção.
Parágrafo único. As pessoas e os grupos vulneráveis de que trata o "caput"
devem ser identificados e definidos a partir da análise da situação de saúde
local e regional e da discussão com a comunidade, trabalhadores e outros
atores sociais de interesse à saúde dos trabalhadores, considerando-se suas
especificidades e singularidades culturais e sociais. (BRASIL, 2012)

Num país com características socioeconômicas tão díspares, como é o caso do Brasil,
em que convivem lado a lado contextos de trabalho marcados por uma desigualdade extrema
quanto a aspectos como a natureza da atividade, as formas de organização, os recursos
tecnológicos utilizados, dentre outros, parece que não faltará prioridades em favor das

69
situações de maior vulnerabilidade da “classe-que-vive-do-trabalho”. Essa expressão tenta
apreender a complexidade que caracteriza as formas contemporâneas assumidas pela classe
trabalhadora, o que inclui “a totalidade daqueles homens e mulheres que vendem sua força de
trabalho em troca de salário” (ANTUNES, 2011, p. 117) e acrescenta-se: sob quaisquer
condições.
Em decorrência disso, o trabalho que acontece dentro das políticas públicas,
aparentemente estaria longe do rol das prioridades, pois frente a tantas demandas, o
trabalhador empregado do Estado estaria protegido quanto a formas nocivas de trabalho. No
entanto, como se apresenta a seguir, algumas pesquisas analisadas expõem outro cenário.
Algumas teses, como já apresentado, investigaram o trabalho no contexto de políticas
públicas. Os resultados encontrados apontam evidências de que há formas nocivas de
organização dos processos de trabalho nesses espaços. Parece paradoxal a constatação de que
os trabalhadores do Estado - servidores públicos – estão vulneráveis a esta configuração,
tendo em vista que, cabe ao estado proteger o trabalhador e regular as relações trabalhistas
(BRASIL, 1988). Nessa constatação tem-se numa só figura, o Estado enquanto agente
protetor e ao mesmo tempo, enquanto aquele que adota uma dinâmica de trabalho capaz de
promover o adoecimento dos trabalhadores.
Como aponta Bastos e Oliveira (2011):
As mudanças decorrentes dos processos de reestruturação produtiva vêm
atingindo em diversos países, grandes parcelas de trabalhadores. No Brasil,
essas transformações já alcançaram o setor público revelando um retrocesso
no sistema de proteção ao trabalho, traduzidas pelo crescente processo de
precarização dos vínculos de trabalho, que, cada vez mais, se impõe ao setor
público do país. Todas essas alterações repercutem diretamente no
trabalhador afetando sua saúde, tornando-a vulnerável frente às constantes
tensões e incertezas com que precisa lidar em seu ambiente de trabalho.
(BASTOS; OLIVEIRA, 2011, p. 280)

Aqui parece haver um desafio para a área da Saúde mental e trabalho, pois ao
investigar os processos de organização do trabalho no âmbito das políticas públicas e
evidenciar a existência de sofrimento psíquico entre os trabalhadores, expõe incoerências na
gestão destas políticas. Como, por exemplo, conceber uma política pública de saúde que
produz adoecimento em seus trabalhadores? (BRAGA, 2012; MAESTRELLI, 2010; PAULA,
2011).
Numa perspectiva mais ampla tais incoerências atestam o caráter nocivo da ascensão
vertiginosa e imponderada do modelo neoliberal, enquanto modelo regulador políticoeconômico do país. Além de se distanciar ou mesmo dar as costas para o controle econômico,
onde se insere boa parte da gestão do trabalho, o Estado adota para si, as estratégias ditadas

70
pela cartilha neoliberal. A reforma administrativa empreendida no Brasil nos anos 90 assimila
os preceitos da lógica de trabalho no âmbito privado, cujo corolário pode ser traduzido nas
palavras de ordem: flexibilização, precarização, demissão, sobrevivência da própria empresa
no mercado competitivo. O medo da perda do emprego passa a ser mediador das relações,
cujos desdobramentos incidem sobre os modos de trabalho e de vida dos trabalhadores
(CUNHA, 2006). Como descreve essa autora:
Nas organizações públicas brasileiras, a partir de 1995, os sentimentos de
incerteza, medo e insegurança passam a consolidar-se. A Reforma
Administrativa, ao introduzir novos mecanismos de controle, flexibilizar a
organização do trabalho e instituir a fragilização do estatuto da estabilidade,
produz uma condição de incerteza que, nas palavras de Bauman (2000),
torna-se endêmica e permanente (CUNHA, 2006, p. 190)

Arrisca-se a afirmar que, a despeito de todas as consequências que a adoção deste
modelo incide sobre os trabalhadores, caso alguma forma de resistência se insinue, novas
estratégias são utilizadas pelo estado neoliberal. Esse parece ser o caso dos Hospitais
Universitários Federais que conjugam em si duas grandes políticas públicas: educação e
saúde. Num primeiro movimento, há pouca gerência dos processos, permitindo a cada gestão
local um caráter de moderada autonomia administrativa. Numa mudança abrupta de cenário,
cria-se uma empresa para administrar uma empresa, é o estado adotando o que já se tornou
prática no mundo corporativo, a quarteirização (BRASIL, 2011). Qual seria então a relação
entre essa conjuntura, que assume contornos analíticos mais propícios a uma sociologia da
economia ou da administração, e a área da Saúde mental e trabalho?
Pois bem, pode-se afirmar, pela experiência de trabalhador durante 07 anos num
ambiente com essas características, que todo esse contexto de manipulação políticoeconômica tem afetado sobremaneira os trabalhadores, impondo-lhes na atualidade uma rotina
de dúvidas, tensões, medo e descrença. Em síntese, um contexto de trabalho no âmbito de
políticas públicas que promove, propaga e se favorece do sofrimento psíquico compelido aos
trabalhadores. Essas considerações, a partir da experiência próxima ao pesquisador, indicam
possibilidades para investigações posteriores.
Retoma-se então a produção em análise no que se refere à categoria políticas públicas.
Na primeira tese que desenvolve uma pesquisa de campo, a autora aponta que seu
objeto de análise trata-se de “uma questão de saúde pública da maior importância” e afirma
ainda que seu trabalho:
[...] é parte de um projeto maior de colocar a pesquisa em defesa da vida,
insere-se na interface das áreas de saúde pública e saúde ocupacional, mais
especificamente, saúde mental de agricultores a partir da situação de

71
exposição sistemática destes aos agrotóxicos usados nas lavouras.
(LOBATO, 2003).

Ao afirmar que sua pesquisa levanta uma relevante questão para ser tratada no âmbito
das políticas públicas de saúde, a autora parece atribuir ao Estado o papel de agente protetor
do trabalho e requerer deste uma ação sobre as evidências que os resultados de sua pesquisa
atestam. No entanto, como já brevemente apontado, esse não é o único papel que o Estado
tem exercido quanto à sua influência sobre o mundo do trabalho. Algumas teses, cujo
trabalho no contexto das políticas públicas foi tomado como objeto de investigação,
demonstram como o Estado tem se portado enquanto gestor do trabalho. É o que se apresenta
a seguir.
A atuação profissional baseada na aplicação de medidas disciplinadoras, característica
da política pública do trânsito, estabelece uma rotina de conflitos entre o trabalhador e a
sociedade. Os trabalhadores do trânsito foram investigados quando passaram a apresentar um
elevado número de queixas relativas à saúde mental. Como bem descreve o autor:
Todos eles de uma maneira ou de outra enfrentaram a hostilidade da
população que via diante de si a exigência do cumprimento de regras,
existentes na lei, mas até então pouco praticadas. Muitos desses profissionais
registraram boletins de ocorrência na polícia civil, em função de ameaças,
agressões verbais e até agressões físicas sofridas. As operadoras/fiscais
foram as mais atingidas pela violência da população. Em outra grande cidade
que dispunha de serviço semelhante, um dos operadores/fiscais de tráfego
havia sido assassinado durante o trabalho por um motorista que havia sido
multado (AZEVEDO, 2003).

A complexidade do trabalho docente foi investigada por Paparelli, (2009) e Valle,
(2011). Ambas inserem seus estudos no contexto da política pública de educação. Operam
com instrumentais teóricos e metodológicos distintos, apontando para um processo contínuo
de precarização do trabalho, cujas consequências afetam diretamente a saúde desses
trabalhadores. Assim apontam:
Lugar difícil é esse de encarar a contradição entre o discurso oficial da
propaganda que afirma a democratização do acesso e da permanência em
uma escola de qualidade para todos e a escola real, aquela que, [...], não tem
conseguido garantir o mínimo em termos de escolarização satisfatória para a
maioria da população (PAPARELLI, 2009, p. 13).
No ambiente de trabalho os fatores estressores são muitos. O ambiente por
causa de suas normas, limita as pessoas quanto às manifestações de suas
angústias e frustrações e não facilita a expressão de sentimentos, que poderia
auxiliar no enfrentamento dos problemas (VALLE, 2011, p. 62).

A primeira aproxima o olhar e realiza uma análise aprofundada, acerca das
implicações do trabalho docente, frente a uma política específica inserida na educação

72
pública, a política de regularização do fluxo escolar. A segunda amplia seu foco de análise e
investiga o trabalho docente na rede pública de um município considerado, por suas
estatísticas nacionais e estaduais, “a cidade da Saúde” (VALLE, 2011, p. 126).
Ambas concluem ser o trabalho docente, por sua natureza, carregado de
especificidades que o tornam propícios a produzir sofrimento psíquico no trabalhador.
Apontam ainda que, sob a égide da política neoliberal que tem caracterizado as políticas
públicas no Brasil desde a década de 90, as novas formas como este trabalho tem sido
organizado, regido por um caráter produtivista, têm exacerbado as exigências ao trabalhador.
Concluem, portanto, que na conjuntura atual em que o trabalho docente na política pública se
desenvolve, ele não apenas produz, mas intensifica o sofrimento psíquico (PAPARELLI,
2009; VALLE, 2011).
O trabalho no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), foi também investigado sob
diferentes enfoques. Maestrelli (2010) realizou uma análise de discurso, a partir de
documentos oficiais e de entrevista, com uma trabalhadora que participou de um Curso de
Formação de Facilitadores de Educação Permanente em Saúde. Tomou como problema de
pesquisa o fato de que a educação pedagógica, proposta no âmbito da política pública de
saúde, assume um caráter de solução para os problemas estruturais do sistema, inculcando nos
trabalhadores a responsabilidade sobre as falhas do sistema.
O acúmulo de responsabilidades por parte do trabalhador, as incoerências presentes
nas diretrizes que regem a forma de se organizar o trabalho em rede, a falta de condições de
trabalho que proporcionem a operacionalização de algumas estratégias de solução de casos,
são aspectos levantados por Paula (2011). Ao investigar o trabalho realizado na atenção
básica voltado para assistência em saúde mental, essa autora evidencia um processo de gestão
do trabalho fundamentado na produtividade (quantidade de procedimentos), ao mesmo tempo
em que se exige do trabalhador um acolhimento humanizado, um acompanhamento contínuo
(qualidade no atendimento). Como se observa, instaura-se um paradoxo, que torna o trabalho
impossível de ser realizado, o que potencializa a emergência de sofrimento psíquico entre os
trabalhadores. Tudo isso sobre a gestão do Estado.
Mais um estudo se volta para os trabalhadores do SUS. Neste, são investigados 299
trabalhadores da rede básica de saúde de um município do interior paulista, com o objetivo de
estimar a prevalência da síndrome de burnout. Ao comprovar prevalência elevada da
síndrome de burnout entre os trabalhadores pesquisados, a autora afirma a existência de
“condições gerais de trabalho adoecedoras para a população pesquisada”, e ressalta ainda que,
no ambiente investigado, “o trabalho está doente” (BRAGA, 2012, p. 85-86). Finaliza o texto

73
conclamando o poder público, em suas três instâncias, a intervir sobre a gestão do trabalho
nesse contexto. Parece não se dar conta de que é sobre a gestão deste mesmo poder público,
que tais formas de organização do trabalho foram erigidas. Mais uma vez, o Estado aparece
em seu duplo e contraditório papel: protetor do trabalho digno e promotor do trabalho
precário.
Entre as teses que compõem essa análise, há uma que, embora também inserida no
contexto do SUS, mais detidamente na política pública de saúde mental, desenvolve uma
investigação em que o trabalho é tomado como “possibilidade de emancipação” para os
usuários da política (RIBEIRO, p. 74, 2004). Difere das demais por não investigar os
trabalhadores da política pública, e sim buscar desenvolver propostas de novos modelos de
intervenção em saúde mental, através da elaboração de um modelo de orientação vocacional
específico para pessoas psicóticas. Apresenta o pensamento de vários autores que se dedicam
a estudar o trabalho e aponta que, mesmo subordinado às regras do capital:
[...] não é o trabalho que perdeu seu potencial de base concreta para a
existência dos homens, mas que a racionalidade instrumental é que
desvirtuou essa condição do trabalho de gerar humanidade pela possibilidade
das trocas sociais e da construção do mundo, via trabalho (RIBEIRO, 2004,
p. 68).

Em outras palavras, não é o trabalho em si que produz o sofrimento para os
trabalhadores, mas as formas como o organizam. Com essa premissa, o autor mobiliza o
espaço de uma política pública para propor uma estratégia de intervenção a partir do trabalho.
Nesse sentido, abre-se uma possibilidade para compreender a relação entre a área da
Saúde mental e trabalho e as políticas públicas. Estas últimas podem ser interpretadas como
um contexto propício para a proposição de ações que visem refletir sobre as questões da
relação entre trabalho e os processos de saúde / doença mental.
No entanto, não se pode deixar de atentar para o fato de que, ao descrever os encontros
iniciais com as equipes de trabalhadores dos locais onde foi realizada a pesquisa, o autor
apresente, embora esse não seja o foco de sua análise, um cenário semelhante aos descritos
nas investigações anteriormente apresentadas. No primeiro espaço, o autor se refere a um
"pensamento fragmentado e desintegrado”, para indicar a forma como o trabalho se processa
na instituição (RIBEIRO, p. 270, 2004). No segundo, afirma que após uma série de
questionamentos feitos pela equipe, quanto ao projeto a ser implantado, o diretor encerra
abruptamente a discussão e autoriza a realização do projeto.
Como já apontado, apesar de não ser o foco de análise deste trabalho, mas, tendo em
vista os contextos descritos pelas demais teses que estudaram o trabalho no âmbito das

74
políticas públicas, essas breves descrições parecem ratificar que a forma como o trabalho se
organiza nesses espaços, não escapa a um modelo de gestão profícuo à produção de
sofrimento. Parece possível afirmar que, a partir da análise desses documentos, no contexto
das políticas públicas no Brasil, não é o trabalhador quem adoece, é o trabalho que produz
adoecimento.

4.3.4

Pressupostos epistemológicos
A partir dessa categoria, toma forma um dos objetivos iniciais desta pesquisa, qual

seja: identificar e discutir os pressupostos epistemológicos, teóricos e metodológicos
utilizados nos estudos desenvolvidos na área da Saúde mental e trabalho.
Essa análise pretende, além de expor, compreender as escolhas feitas pelos
pesquisadores frente aos propósitos de suas pesquisas e, nessa direção, também considerar os
resultados que cada tese conseguiu alcançar frente aos métodos e teorias utilizadas.
Importante ressaltar que não se pretende avaliar a forma como cada pesquisa foi planejada,
executada e apresentada, tem-se, isto sim, o intento de apreender, a partir do que as teses
apresentam, um conhecimento que possa ser tomado como referência para os estudos nessa
área.
A leitura dos documentos, num contexto de análise como este, permite ao pesquisador
um olhar dinâmico que assume diferentes posições ao se lançar sobre os textos. Essa
característica traduz o esforço em compreender o conjunto do material em análise. Assim, o
olhar se lança em movimentos distintos: ora numa aproximação, indo ao nível dos detalhes;
ora num distanciamento, numa mirada panorâmica, numa tentativa de, visualizando o todo,
perceber complementos de um texto em outro ou ainda respostas dadas num documento para
questões levantadas em outro; ora um olhar em relance, saltando sequencialmente dos
elementos catalogados de um texto ao outro, buscando, nesse circuito, centelhas de
informações que possibilitem alguma inferência.
A análise desse conjunto de documentos proporcionou a identificação de aspectos
relativos à tradição epistemológica que fundamenta as pesquisas desenvolvidas, exigiu,
portanto, uma leitura atenta quanto a esses aspectos.
A história dos estudos sobre a relação entre os processos de saúde/doença e trabalho
no Brasil pode ser abordada a partir de duas perspectivas: a Saúde Ocupacional e a Saúde do
Trabalhador.
Expressa-se aqui a dificuldade de síntese enfrentada, tendo em vista tratar-se de tema
expansivo que requer perícia e aprofundamento para uma devida apropriação. As publicações

75
que contam essa história atestam essa afirmativa, e por essa razão, algumas foram diretamente
retomadas, pois dizem, de forma precisa, como e o porquê da existência dessas duas
abordagens. A seguir apresenta-se uma caracterização sumária de cada uma.
A Saúde Ocupacional representa o discurso hegemônico que, comprometido com os
interesses do capital, produz conhecimento ancorado numa lógica de adaptação do ambiente
ou das condições de trabalho a um protótipo de trabalhador. Reproduz, portanto, uma visão
mecanicista de homem.
Essa abordagem desenvolve estratégias de controle dos processos de saúde/doença,
numa perspectiva de causa e efeito, atuando numa sistemática de contínua adequação entre
ambiente, condições de trabalho e trabalhador. O corpo do trabalhador é o foco da atenção e
este não comparece, para as análises promovidas, enquanto sujeito (LACAZ, 1996, 2007;
MINAYO GOMES, 2011; MINAYO-GOMES; THEDIM COSTA, 1997; SATO &
BERNARDO, 2005). Como afirma Lacaz (2007):
O trabalho é apreendido pelas características empiricamente detectáveis
mediante instrumentos das ciências físicas e biológicas [...] atua sobre
indivíduos, privilegiando o diagnóstico e o tratamento dos problemas de
natureza orgânica a partir da visão positivista e empirista trazida da clínica
(LACAZ, 2007, p. 759).

Esse mesmo autor, ao resgatar a história da relação entre saúde e trabalho, enquanto
objeto de estudo no Brasil, consegue compor um inventário monumental, no qual se pode
observar os vários discursos que sustentam os atuais pressupostos da Saúde Ocupacional.
Essa trajetória narrativa produzida contribui, sobremaneira, para compreender como tais
pressupostos, apesar do arcaísmo ideológico que carregam, atravessaram o tempo e se
atualizaram, sob um pretexto técnico-científico, para fundamentar os estudos nessa
abordagem. Expressões como: neutralidade, higienismo, preventivismo, constituem o eixo
dessa história, que se estrutura para atender a necessidade premente do capital, quanto à
questão da relação saúde / doença e trabalho, qual seja, a de manter a capacidade de produção
do trabalhador (LACAZ, 1996).
Nessa perspectiva, é sobre o trabalhador que recai a responsabilidade sobre o processo
de adoecimento no trabalho. Cabe a este a adoção de uma postura vigilante quanto à sua
própria saúde, pois a autoridade instituída aos profissionais que atuam na Saúde Ocupacional
exime o capital dessa responsabilidade. Ao prescindir a análise das condições essenciais de
trabalho, aquelas passíveis de apreensão a partir das relações que se estabelecem no contexto
de trabalho, a Saúde Ocupacional, não sem razão, confere amplo controle do trabalho ao

76
capital (LACAZ, 2007; MINAYO-GOMES; TEDHIM COSTA, 1997; SATO; BERNARDO,
2005).
Frente a esse cenário, surge a partir da década de 80 do século passado, uma
abordagem desenvolvida com vistas a superar o discurso hegemônico sobre o estudo da
relação entre os processos de saúde / doença e trabalho. Ao confluir os questionamentos de
diversos atores inseridos em diferentes espaços (academia, políticas públicas e movimentos
sindicais), forjou-se um movimento que passou a expor os limites epistemológicos e políticos
da Saúde Ocupacional, constituindo-se numa abordagem contra-hegemônica denominada de
Saúde do Trabalhador. (LACAZ, 1996, 2007; MENDES; DIAS, 1991; MINAYO-GOMES,
2011; SATO; LACAZ; BERNARDO, 2006).
Lacaz, (2007), assim caracteriza a Saúde do Trabalhador:
[...] é campo de práticas e conhecimentos cujo enfoque teóricometodológico, no Brasil, emerge da Saúde Coletiva, buscando conhecer (e
intervir) (n)as relações trabalho e saúde-doença, tendo como referência
central o surgimento de um novo ator social: a classe operária industrial,
numa sociedade que vive profundas mudanças políticas, econômicas, sociais.
Ao contrapor-se aos conhecimentos e práticas da Saúde Ocupacional,
objetiva superá-los, identificando-se a partir de conceitos originários de um
feixe de discursos dispersos formulados pela Medicina Social LatinoAmericana, relativos à determinação social do processo saúde-doença; pela
Saúde Pública em sua vertente programática e pela Saúde Coletiva ao
abordar o sofrer, adoecer, morrer das classes e grupos sociais inseridos em
processos produtivos (LACAZ, 2007, p. 757-758, grifos do autor).

É sob uma perspectiva de análise distinta da proposta hegemônica da Saúde
Ocupacional, que se funda a Saúde do Trabalhador enquanto campo contra-hegemônico de
estudos da relação trabalho e saúde / doença. Diz-se contra, porque ao exercer a crítica,
avança sobre os limites epistemológicos e nesse movimento, expõe o comprometimento
político-ideológico presente nas análises anteriores.
O contexto sócio-histórico brasileiro teve fundamental importância, no surgimento e
na consolidação do campo da Saúde do trabalhador. A conjuntura de profundas
transformações que caracterizou o período compreendido entre as décadas de 70 e 80, e as
relações estabelecidas entre estas e as questões da saúde / doença e do trabalho, foram
tomadas como foco de análise da Saúde Coletiva. Esse fato favoreceu a emergência de
propostas de análise que ampliaram o olhar sobre os fenômenos decorrentes da relação
trabalho e saúde / doença (LACAZ, 1996, 2007; SATO; BERNARDO, 2005).
Nesse sentido, o conceito de processo de trabalho pode ser compreendido como o
marco diferencial e de superação do modelo dominante, pois é a partir dele que o sujeito que
trabalha (e as relações que estabelece com e no trabalho) comparece, não apenas enquanto

77
foco de análise, mas também como agente capaz de inferir, de forma assertiva, sobre as
proposições analíticas que o campo passa a construir (MINAYO-GOMES, 2011; SATO;
LACAZ; BERNARDO, 2006).
A apropriação do conceito de “processo de trabalho” como instrumento de
análise possibilita reformular as concepções ainda hegemônicas que, ao
estabelecerem articulações simplificadas entre causa e efeito, numa
perspectiva uni ou multicausal, desconsideram a dimensão social e histórica
do trabalho e da saúde/doença (MINAYO-GOMES; THEDIM COSTA,
1997, p. 27).

A adoção desse conceito torna possível compreender o trabalho sob uma nova mirada,
a partir da qual se pode analisar sua dimensão social e política, conferindo também aos
trabalhadores um novo espaço. Como afirmam os seguintes autores:
[...] a saúde do trabalhador considera o trabalho, enquanto organizador da
vida social, como espaço de dominação e de submissão do trabalhador pelo
capital, mas, igualmente, de resistência, de constituição, e do fazer histórico.
Nessa história os trabalhadores assumem o papel de atores, de sujeitos
capazes de pensar e de se pensarem, produzindo uma experiência própria
(MENDES; DIAS, 1991, p. 347).
Assim, além das consequências mais visíveis, diretas e específicas das
condições e ambientes de trabalho sobre a saúde, decorrentes da ação de
agentes de natureza, física, química e biológica, também importa desvendar
as mediações entre trabalho e subjetividade (SATO; LACAZ; BERNARDO,
2006, p.283).

Com a premissa de que as pesquisas que investigam a relação entre os processos de
trabalho e saúde / doença no Brasil podem ser compreendidas a partir da sua vinculação
epistemológica aos campos da Saúde Ocupacional ou da Saúde do Trabalhador; a leitura dos
textos tornou possível compreender como esses campos estão definidos e direcionam as
formas de desenvolver pesquisas na área da Saúde mental e trabalho.
Embora o estudo da relação entre saúde mental e trabalho se inscreva no campo da
Saúde do trabalhador, algumas teses analisadas fazem referência ao campo da Saúde
Ocupacional.
Os textos apresentam explicita ou implicitamente a vinculação com um dos campos:
Saúde do Trabalhador ou Saúde Ocupacional. No entanto, em algumas teses, observa-se uma
justaposição de pressupostos característicos de cada um destes, o que revela uma contradição
epistemológica, pois os dois campos apresentam diferenças consistentes na análise que
empreendem sobre a relação entre os processos de trabalho e saúde / doença.
É o caso, por exemplo, da tese “O silêncio como metáfora: o uso de agrotóxicos e a
saúde de agricultores do município de Igarapé-Açu”, que, a despeito de adotar uma noção

78
abrangente de saúde, em que se articulam as concepções sociais, biológicas e psicológicas e
de ressaltar a cultura como determinante, para a compreensão dos processos de saúde /
doença; aponta que é no ambiente que estão os “elementos precipitadores” para as alterações
no estado de saúde dos trabalhadores (LOBATO, 2003, p. 127). Nessa perspectiva, destaca o
externo e o concreto como agente etiológico único, operando numa lógica de causa e efeito,
pressupostos característicos do campo da Saúde Ocupacional.
A investigação em questão objetivou ainda, traçar o perfil de morbidade,
bem como, o regime de uso e de exposição, dos agricultores do referido
município aos agrotóxicos, a partir de um recorte de gênero e faixa etária,
evidenciando os agrotóxicos utilizados, relacionando-os com a composição
química e a cronologia do uso (LOBATO, 2003, p. 28).
Capítulo especial se coloca nesta relação com o ambiente, onde grande parte
das medidas preventivas deveriam acontecer em virtude dos elementos
precipitadores alojados neste. Questões relacionadas ao saneamento, a
contaminação do solo, do ar e dos recursos hídricos na sua grande maioria
por resíduos químicos, altas doses de partículas radioativas, a exalação de
gases através da queima inadequada do lixo (LOBATO, 2003, p. 127).

No mesmo texto, algumas passagens parecem legitimar uma concepção vinculada ao
campo da Saúde do Trabalhador:
Fez-se relevante ainda, no sentido de instrumentalizar os sindicatos e
associações aos quais estão vinculados os agricultores, acerca desta questão,
a fim de que incluam em suas agendas, medidas preventivas no que tange as
intoxicações, bem como, estratégias coletivas de racionalização do uso dos
agrotóxicos no município. Apresentou relevância também, no sentido de
trazer ao cenário político do município, as intoxicações por agrotóxicos
como um problema de saúde pública, demandante de um programa
específico de prevenção e tratamento voltado para esta população alvo
(LOBATO, 2003, p. 29).
Saúde então, como caminho historicamente trilhado, socialmente
circunscrito biologicamente demarcado, psicologicamente experienciado. De
forma insidiosa se forja a concepção holística de saúde. O homem percebido
como um todo, “biopsicossóciohistóricamente” constituído, passa a ser então
o sujeito e o objeto da saúde. Um sujeito / objeto em processo de mutação
constante, sendo a saúde um contínuo estado de vir a ser, um devir
(LOBATO, 2003, p. 125).

Essa imprecisão parece se instaurar a partir de uma tentativa de assumir uma postura
epistemológica que avance sobre a abordagem hegemônica. No texto, é possível perceber um
esforço para superar uma lógica cartesiana de corpo e da exposição deste a agentes etiológicos
externos, o que configura um modelo explicativo de causa e efeito.
Os procedimentos adotados para a coleta de dados, no enquadre metodológico da
Pesquisa Clínico Qualitativa corroboram esse esforço. Ao utilizar Observação participante e
Entrevistas de avaliação psicológica, possibilita a emergência de informações que conduzem

79
ao reconhecimento de aspectos mediadores entre a causa (exposição prolongada aos
agrotóxicos) e o efeito (sintomas de ansiedade e depressão). O reconhecimento e a análise
desses aspectos mediadores poderiam conduzir a uma ruptura com a proposta da Saúde
Ocupacional, e, consequentemente, avançar para uma perspectiva de estudo da relação
trabalho e saúde / doença inserida no campo da Saúde do Trabalhador.
Apesar de afirmar que a pesquisa se insere no campo da Saúde Ocupacional e reiterar
essa inserção em vários pontos do texto, o que se observa, como já apontado, é uma oscilação
entre elementos característicos das duas tradições epistemológicas, configurando um
hibridismo de conceitos que carregam em si implicações políticas e ideológicas.
Tal hibridismo, talvez decorra do que Lima (2013, p. 92), aponta como o maior
obstáculo para o campo da Saúde mental e trabalho: “a prevalência da ideia de uma
causalidade linear entre transtorno mental e trabalho, e junto com ela, a exigência de se
estabelecer o peso exato das experiências pessoais em relação às experiências de trabalho”.
E aqui se ressalta a armadilha que a imprecisão epistemológica pode carregar, pois os
resultados alcançados por um processo investigativo que não esteja devidamente delimitado
quanto aos pressupostos que o sustentam, podem incorrer em respostas inadequadas às
demandas para as quais se voltam. Os fenômenos de saúde mental e trabalho exigem uma
compreensão dos contextos de trabalho que possibilite intervenções em favor do trabalho,
(SATO; BERNARDO, 2005) o que, a depender do ponto de partida, implica favorecer ao
trabalhador ou ao capital.
A tese defendida por Lobato (2003), apesar de levantar informações fecundas para o
desenvolvimento de uma análise que, considerando o processo de trabalho, e nesse sentido, a
subjetividade do trabalhador frente à compreensão do que se estabelece na relação deste com
o trabalho, pudesse inserir-se no campo da Saúde do trabalhador, não supera a força
hegemônica do discurso da Saúde Ocupacional.
As pesquisas desenvolvidas por Sales (2009) e Poletto (2010), também carregam
características de um hibridismo epistemológico.
Em Sales (2009), logo na apresentação, pode-se ler:
Este estudo apresenta uma discussão sobre o tema Assédio Moral no
Trabalho, um assunto cada vez mais debatido no cenário nacional e
internacional, haja vista as implicações traduzidas em sofrimento físico e
psíquico para os trabalhadores e as repercussões jurídicas para as empresas.
Vivenciar situações de humilhação, perseguição e ameaças no cotidiano de
trabalho pode representar um risco para o desenvolvimento de transtornos
mentais comuns, a exemplo de sintomas de nervosismo, ansiedade e
diminuição da concentração (SALES, 2009, p.9, grifo nosso).

80
A leitura atenta desse trecho explicita um caráter dúbio do problema em estudo. Se,
por um lado, se expressa uma preocupação com a saúde do trabalhador, simultaneamente, se
observa uma preocupação em proteger a empresa de eventuais prejuízos, advindos de
reclamações trabalhistas.
Embora as questões relativas à ocorrência do assédio moral no trabalho e dos
transtornos mentais comuns relacionados ao trabalho, para serem estudadas, apresentem uma
configuração que parece circunscrever-se no arcabouço teórico-metodológico do campo da
Saúde do Trabalhador; nesse estudo, a presença de alguns aspectos, como a adoção de
perspectiva estritamente quantitativa de pesquisa, a proposição de uma relação linear de causa
e efeito e o reconhecimento, pela própria autora, das limitações que tal desenho de pesquisa
impõe, parecem não dar conta de uma referência epistemológica única. Mais uma vez,
percebe-se uma heterogeneidade de pressupostos.
O estudo realizado por Poletto (2010) é aberto com a seguinte sentença: “Esta
pesquisa se refere à área da saúde ocupacional e investigou os fatores relacionados ao
processo de trabalho que podem contribuir para os problemas de saúde mental [...]”
(POLETTO, 2010, p. 19). Aqui, mais que um hibridismo, percebe-se uma contradição, pois,
como já exposto, o conceito de processo de trabalho é o núcleo teórico-metodológico do
campo da Saúde do Trabalhador. É nele que se ancora toda a abordagem que faz frente ao
discurso do campo da Saúde Ocupacional.
O desenho da pesquisa, as análises e discussões e a forma como apresenta os
resultados indicam uma abordagem correspondente ao campo da Saúde do Trabalhador, em
que, sem desconsiderar os determinantes externos da relação trabalho e saúde doença, buscouse compreender o processo de trabalho a partir de várias fontes, inclusive o conhecimento que
os trabalhadores possuem sobre o seu próprio trabalho. Os trechos abaixo ilustram essa
caracterização da pesquisa.
Esta pesquisa permitiu, com a AET, compreender o processo de trabalho por
meio de observação, entrevistas, diálogo e falas dos agricultores. Observouse que tanto fatores físicos como mentais presentes nas atividades de
trabalho podem favorecer o sofrimento psíquico do trabalhador agrícola
familiar, comprovando os ditos do referencial teórico (POLETTO, 2009, p.
164).
Durante as entrevistas e observações, verificou-se que as duas famílias que
apresentam problemas de saúde mental não estão satisfeitas com o trabalho
agrícola, e a sua permanência na propriedade está condicionada à presença
dos filhos. As famílias que não apresentam problemas de saúde mental
demonstram estar satisfeitas com sua vida e trabalho na agricultura, mesmo
que os filhos migrem para as cidades (POLETTO, 2009, p. 167).

81
Já a tese “Saúde mental em trabalhadores”, apresenta uma breve referência ao campo
da Saúde do trabalhador. O autor afirma:
Na América Latina, a partir dos anos setenta, estrutura-se uma abordagem
sobre a saúde do trabalhador fortemente apoiada pelas Ciências Sociais, o
que lhe dá características distintas daquelas da medicina clínica. Nesta nova
abordagem, o estudo da relação saúde-trabalho aprofundou as questões
relativas à determinação e ao caráter do processo saúde-doença coletiva
(BENVEGNÚ, 2005, p. 05).

No entanto, logo em seguida, apresenta algumas considerações acerca de como o
conceito de processo de trabalho é compreendido na tese; compreensão que se aproximam de
uma abordagem característica da Saúde Ocupacional: “O processo de trabalho manifesta-se
através de seus três elementos: o objeto, que é matéria a ser transformada; a tecnologia
utilizada para a transformação do objeto; e a atividade desenvolvida pelo trabalhador.”
(BENGVEGNÚ, 2005, p. 7). O mesmo autor, afirma:
Neste estudo as cargas de trabalho são classificadas de acordo com a sua
origem: do ambiente, ou da atividade desenvolvida; e de acordo com a sua
natureza (físicas: ruído, calor, vibração; fisiológicas: movimentos
repetitivos, monotonia, atenção constante, responsabilidade, posição
incômoda) (BENVEGNÚ, 2005, p. 7-8).

Nesse trecho, pode-se observar a presença do conceito de cargas de trabalho numa
perspectiva restritiva. Situando-se, portanto, no âmbito da Ergonomia tradicional, pois não
considera os esforços mentais “que por sua vez compreendem os cognitivos e os psicoafetivos
(mobilização de sentimentos, controle emocional). Estes últimos constituem a carga
psíquica.” (SELIGMANN-SILVA, 2011, p. 85). Nesse sentido opera o conceito de carga de
trabalho de forma reducionista. Atribui, unicamente, aos aspectos físicos e fisiológicos as
causas explicativas para o fenômeno decorrente da relação trabalho e saúde / doença no
contexto explorado.
Os procedimentos adotados na configuração metodológica da pesquisa: “questionário
padronizado, análise univariada e análise fatorial” (BENVEGNÚ, 2005, p. 16-17), não abrem
espaço para que o trabalhador seja parte atuante na construção da compreensão do fenômeno
relacionado ao trabalho e saúde / doença mental. E esse é um pressuposto imprescindível para
uma análise que se pretenda inserida no campo da Saúde do Trabalhador.
As demais teses apresentam-se integralmente vinculadas ao campo da Saúde do
Trabalhador. Seus objetos, objetivos e configuração teórica e metodológica demonstram,
mesmo sem estar explícita no texto, uma vinculação aos princípios norteadores da Saúde do
trabalhador. Um dos autores explica:

82
A dimensão psicossocial do trabalho envolve fatores relativos
principalmente ao conteúdo e a forma de organização do trabalho [...] Entre
os fatores de risco psicossocial são relevantes o alto ritmo, a sobrecarga, a
falta de controle sobre o próprio trabalho, os estilos de mando inadequados,
a falta de participação na tomada de decisões, a ausência de apoio social, a
comunicação escassa e o conteúdo do trabalho empobrecido [...]
(AMAZARRAY, 2010, p. 21).
O Estudo II teve por objetivo geral investigar e compreender como os
trabalhadores experenciam o assédio moral no trabalho, a partir de suas
vivências no papel de vítima, testemunhas e agressores. [...] Objetivou-se
também, compreender o significado que as testemunhas de assédio moral
atribuíam a esse fenômeno, o apoio prestado às vítimas e as possíveis
identificações com os papéis de vítima e agressor (AMAZARRAY, 2010, p.
139).

Nessa tese, embora não se apresente no texto referência direta, é possível perceber, a
partir dos conceitos utilizados para compreender a relação entre o trabalho e os processos de
saúde / doença, a vinculação ao campo da Saúde do Trabalhador. Os primeiros elementos
teóricos apresentados expressam uma proposta de análise ancorada no conceito de processos
de trabalho. Em outro momento do texto, ao definir os objetivos de um dos estudos
realizados, aponta o protagonismo do trabalhador no processo de construção da compreensão
do fenômeno em estudo.
A tese apresentada por Freire (2011) traz uma pesquisa de cunho bibliográfico. Em
todo o texto verificam-se referências ao conceito de processo de trabalho como o elemento
chave para o desenvolvimento dos estudos que tomam como foco de análise a questão do
assédio moral. Essa autora, embora não apresente uma discussão acerca do campo da Saúde
do trabalhador, utiliza de forma coerente essa expressão, inclusive no título com o qual
identifica a sua tese: “Assédio moral: lesão aos direitos humanos e à saúde do trabalhador”.
Verifica-se uma estreita relação entre assédio moral e danos à saúde mental
do trabalhador. A saúde mental do trabalhador é o mais importante indicador
da qualidade do ambiente de trabalho. Os efeitos deletérios de um trabalho
degradante são notados de imediato. O estresse no trabalho é o principal
indicador de que a gestão do trabalho segue um modelo desequilibrado e
patológico, que avilta os direitos humanos do trabalhador, e, por
conseguinte, sua dignidade, configurando uma forma de trabalho degradante.
Destarte, buscou-se demonstrar, no presente trabalho, que o assédio moral é
uma das formas de trabalho degradante e que seu corolário mais imediato é o
dano ao bem estar e, portanto, à saúde do trabalhador (FREIRE, 2011, p. 17).
Fatores da organização do trabalho podem determinar o dano à saúde. Uma
jornada extensa ou um ritmo acelerado podem acarretar fadiga ao
trabalhador, que se vê, desse modo, exposto a uma maior probabilidade de
acidentar-se. Os excessivos níveis de supervisão e vigilância podem terminar
por desconcentrar o trabalhador de sua tarefa. Outro fator importante é a
clareza das ordens de trabalho e a coerência entre os diferentes níveis
hierárquicos (FREIRE, 2011, p. 105).

83
O assédio moral nas relações de trabalho perpassa a organização do trabalho
e se caracteriza pela degradação crônica e deliberada das condições de
trabalho, normalmente provocado por condutas e atitudes tiranas repetitivas
dos chefes em relação aos seus subordinados. Constitui per si um risco
psico-organizacional sendo um fenômeno invisível e abstrato, mas com
efeitos nocivos bastante concretos que podem variar da insônia ao suicídio.
O assédio moral é uma experiência subjetiva que acarreta danos à saúde do
trabalhador, principalmente à sua saúde mental, cujos danos mais notórios
são depressões, angústias, dentre outros problemas que tanto comprometem
sua qualidade de vida (FREIRE, 2011, p. 114).

A análise desse aspecto gerou um grande esforço, no sentido de identificar elementos
nos textos que possibilitassem uma compreensão da relação entre saúde mental e trabalho,
objeto dessa dissertação, inserida nos campos da Saúde Ocupacional e da Saúde do
Trabalhador. Por conseguinte, a vinculação epistemológica assumida implícita ou
explicitamente, a partir da qual se pode depreender aspectos ideológicos e políticos que a
produção científica carrega.
Diz-se aqui que tal tarefa mostrou-se difícil, por exigir do analista um conhecimento
amplo sobre os meandros do conhecimento. Tratar sobre questões epistemológicas requer
uma acuidade, que se adquire com a experiência do trabalho científico. Nessa medida, a
análise apresentada, indica um caminho iniciado, um percurso a ser seguido.
Pode-se afirmar que foi o campo da Saúde do Trabalhador que possibilitou a
emergência da área da Saúde mental e trabalho. É sob a referência dos pressupostos desse
campo, que os estudos que se voltam para compreender os fenômenos circunscritos no âmbito
da relação entre trabalho e saúde mental se sustentam.

4.3.5

Estratégias metodológicas
As teses que compõem essa análise apresentam múltiplos caminhos para responder aos

problemas identificados no âmbito da relação entre saúde mental e trabalho. Ao ater-se a esses
caminhos, utilizados no contexto da pesquisa científica, pode-se identificar quais deles
mostram-se consistentes e atendem às exigências que os estudos nessa área específica do
conhecimento requerem.
Os procedimentos utilizados no processo de investigação compõem uma estratégia de
acesso e posterior leitura do objeto de pesquisa, no intento de responder a uma questão
formulada e atender aos objetivos propostos. A escolha por determinados procedimentos em
detrimento de outros, está diretamente relacionada à proposta do estudo e ao fenômeno que se
pretende compreender, de modo que não se pode estabelecer um julgamento valorativo a esse

84
respeito. O que se pode, e é o que aqui será buscado, é reconhecer quais as propostas
metodológicas parecem mais efetivas para os estudos dentro de um contexto específico de
pesquisa, considerando todos os condicionantes já referidos.
Com essa intenção, apresenta-se uma série de elementos que caracterizam a
metodologia utilizada nas teses analisadas.
A primeira referência levantada quanto a questão do método, foi a perspectiva adotada
para o desenho da pesquisa. Buscou-se primeiramente identificar nas pesquisas as
perspectivas quantitativa e qualitativa. Dentre as 16 teses, 10 assumem a perspectiva
qualitativa de pesquisa, 04 apresentam-se como quantitativas e 2 adotam um modelo misto:
quantitativa e qualitativa. A identificação seguinte se deu quanto ao tipo de pesquisa:
bibliográfica ou de campo (FLICK, 2009). Essas classificações iniciais foram buscadas por
constituírem os elementos norteadores da estratégia metodológica nas pesquisas científicas.
Embora não determinem os métodos a serem utilizados, indicam um caminho possível. Onze
teses desenvolvem investigação de campo, 2 trazem pesquisas do tipo bibliográfica e 3
assumem um formato com os dois tipos: bibliográfica e de campo.
Essas primeiras identificações mostraram-se fundamentais para compreender os
demais procedimentos utilizados e, quando confrontadas com os objetivos de casa tese,
permitiram reconhecer a coerência interna entre os vários aspectos metodológicos presentes.
É o que se observa no estudo de Benvegnú (2005, p. 4-13), que teve como objetivo:
“ a identificação, através de um estudo epidemiológico, de trabalhos que apresentam risco
aumentado para problemas de saúde mental”.

Inserida no âmbito de uma perspectiva

quantitativa e tendo como proposta desenvolver um estudo epidemiológico, sua investigação
exigiu uma abrangência quanto ao número de participantes, requerendo um instrumento que
viabilizasse a coleta e o processamento de um grande volume de informações. Esta pesquisa
identifica como método: “Estudo de prevalência retrospectivo”, para a coleta de dados foi
utilizado um questionário padronizado para a coleta de informações sócio-demográficas e o
Self Report Questionaire - SRP20, e para análise dos dados: análise univariada, utilizando o
programa SPSS/pc+.
O estudo desenvolvido por Braga (2012, p.42) segue padrão metodológico semelhante.
Caracterizado como um estudo de corte transversal descritivo, teve como objetivo “Estimar a
prevalência de síndrome de burnout em trabalhadores da rede básica de saúde de Botucatu”.
Com a participação de 299 trabalhadores, utilizaram-se os seguintes instrumentos para a
coleta de dados: questionário autoaplicável composto por múltiplos aspectos; Job stress scale;
Self Report Questionaire – SRQ20 e o Maslach Burnout Inventory (MBI). Para a análise das

85
informações coletadas realizaram-se os procedimentos de: análise descritiva; análise
estatística; análise univariada e análise multivariada.
Nesses dois estudos, que guardam semelhança quanto aos métodos utilizados, dentro
de uma perspectiva quantitativa de pesquisa, pode-se observar um alcance amplo quanto ao
número de trabalhadores investigados. Em contrapartida, os resultados apresentados trazem as
seguintes limitações: no primeiro caso, restringe-se a questões relacionadas ao
aperfeiçoamento do método utilizado, e nesse sentido, utilizam o campo a serviço da
academia, assumindo assim, uma postura ético-política passível de crítica. No segundo caso,
os resultados trazem informações genéricas, não consubstanciando aspectos específicos para a
proposição de intervenções e, portanto, levantam demandas para serem investigadas por
outros estudos. Segue a íntegra da conclusão a que chega o primeiro estudo e trechos do
segundo:
Observou-se um aumento no número de estudos que buscam estabelecer
relações entre o trabalho e a saúde mental no Brasil e que utilizam o SRQ
como critério diagnóstico. O uso do SRQ em estudos epidemiológicos na
área de saúde do trabalhador permitiu o estudo de amostras maiores, análises
estatísticas com técnicas de controle de fatores de confusão, utilização de
pessoal leigo para as entrevistas, diminuindo assim o custo e o tempo de
realização do trabalho de campo.
As questões metodológicas, como a definição do ponto de corte a ser
utilizado, a realização da segunda etapa para validação do instrumento para
cada população, e as estratégias de análise multivariada, ainda precisam mais
atenção por parte dos pesquisadores. É necessária a explicitação do critério
utilizado para a escolha do ponto de corte.
Assim, os pesquisadores da saúde mental na área de saúde do trabalhador
têm à disposição um instrumento que possibilita a realização de estudos
epidemiológicos de forma rápida, econômica e segura. Para tanto, devem
estar atentos as questões metodológicas relativas ao uso do instrumento e as
limitações de estudos quantitativos, principalmente nesta área do
conhecimento. (BENVEGNÚ, 2005, p. 131-132)
O presente estudo revelou prevalência elevada de burnout entre os
trabalhadores da rede básica de saúde do município de Botucatu – SP, da
ordem de 23,7%, segundo os critérios de Maslach & Jackson (1981). Uma
vez que se trata de síndrome sabidamente relacionada ao trabalho e que se
considera a ocorrência de caso de burnout como evento sentinela, os
resultados deste estudo são deveras preocupantes, indicando condições
gerais de trabalho adoecedoras para a população pesquisada.
Utilizando-se os critérios citados para o cálculo da prevalência, não se
verificou associação estatisticamente significante entre a ocorrência desta
síndrome e variáveis sociodemográficas e aspectos e opiniões sobre o
trabalho investigado. Tal resultado deve ser relativizado face ao que se
conhece sobre a influência das condições de trabalho no desenvolvimento da
síndrome, do número relativamente pequeno dos indivíduos que
compuseram a população estudada e das peculiaridades dos critérios de
Maslach & Jackson (1981) para enquadramento dos indivíduos como
portadores da síndrome de burnout. [...]

86
A alta prevalência de burnout, o fato da ocorrência das dimensões da
síndrome (em altos e moderados níveis) estar associada a aspectos do
trabalho, especialmente aos do modelo demanda-controle, cuja abordagem
baseia-se nas relações sociais do trabalho e em como estas funcionam como
geradoras de adoecimento, sugerem que, nos serviços da rede básica de
saúde de Botucatu, o “trabalho está doente”, necessitando intervenção por
parte dos poderes públicos: municipal, responsável pela gestão de tais
serviços e com poder de ação imediata; estadual, encarregado do apoio
técnico por meio de instâncias regionais e federal, indutor e co-financiador
das políticas de saúde no país. (BRAGA, 2012, p. 85-86)

Já a pesquisa realizada por Amazarray (2010), sob o título: “Violência psicológica e
assédio moral no trabalho enquanto expressões de estratégia de gestão” realiza dois estudos
em que se assume uma configuração quantitativa no primeiro e qualitativa no segundo. Com
esse formato parece avançar sobre as limitações que se impõem as teses produzidas sobre
estudos de caráter estritamente quantitativo. Identifica como método: estudo transversal de
natureza exploratória e correlacional e estudo de casos múltiplos. Num primeiro momento,
utiliza cinco questionários autoaplicáveis, abarcando uma população de 598 trabalhadores
bancários, para em seguida, a partir dos dados levantados nessa investigação inicial,
aprofundar o estudo do fenômeno através de entrevistas individuais.
Essa conformação metodológica alcança resultados numa dimensão com maior
profundidade, pois consegue identificar aspectos específicos da organização do trabalho
correlacionados ao adoecimento mental. Segue trecho do texto conclusivo da tese:
A alta incidência estatística do assédio moral, pelas diferentes formas de
medida; assim como a vivência concreta dos trabalhadores nos casos
estudados, confirmaram um contexto de trabalho em que a forma de
violência psicológica é recorrente. Trata-se, portanto, de um problema
coletivo, pois atinge uma parcela significativa de trabalhadores nesse
contexto. A natureza organizacional do assédio moral, na amostra estudada,
foi constatada tanto pelos indicadores estatísticos do Estudo I, como a partir
das vivências concretas relatadas pelos participantes do Estudo II. [...]
A análise da organização do trabalho permitiu identificar sobrecarga,
pressões excessivas para o cumprimento de metas em determinado prazo,
demandas simultâneas e diversas para atender, baixa autonomia para
modificar essas situações, escasso apoio entre os colegas e falta de suporte
da instituição, individualismo, competitividade, medo de perder o emprego
ou a função (AMAZARRAY, 2010, p. 223, grifo nosso).

Embora se verifique um avanço na proposição metodológica dessa tese, quando
comparada com as anteriormente apresentadas, não se pode deixar de atentar para o fato de
que nela, os processos de trabalho, comparecem para análise a partir do relato dos
entrevistados. Apesar de nesse formato estar presente um aspecto significativo para o êxito de
pesquisas na área da Saúde mental e trabalho, a saber, a consideração à subjetividade do

87
trabalhador; as “vivências concretas relatadas” podem ser compreendidas como uma, dentre
várias versões possíveis dos trabalhadores quanto aos processos de trabalho.
As pesquisas desenvolvidas por Azevedo (2003), Ribeiro (2004) e Melo (2012)
assumem uma perspectiva qualitativa, caracterizam-se como pesquisa de campo e utilizam
entrevistas em grupo ou coletivas. Operando essa técnica sob aportes teóricos distintos os três
autores argumentam em favor da potência que a interlocução entre os trabalhadores
proporciona para a compreensão dos fenômenos em estudo.
[...] a peculiaridade mais notável de um grupo psicológico é que sejam quem
forem os indivíduos que o compõem, por semelhantes ou dessemelhantes
que sejam seu modo de vida, suas ocupações, seu caráter ou sua inteligência,
o fato de haverem sido transformados em grupo coloca-os na posse de uma
espécie de mente coletiva que os faz sentir, pensar e agir de maneira muito
diferente daquela para a qual cada membro dele, tomado individualmente,
sentiria, pensaria ou agiria, caso se encontrasse em estado de isolamento. Há
certas idéias e sentimentos, que não surgem ou que não se transformam em
atos, exceto no caso de indivíduos que formam um grupo [...] (BION,1975
apud AZEVEDO, 2003, p. 115).
Um grupo é uma microsociedade, representando, dessa forma, a sociedade
como um todo, o que permite a cada sujeito se instrumentar para a
construção de projetos dentro de um contexto relacional, possibilitando que
esse processo tenha características e formas semelhantes ao que poderá
acontecer em suas relações sociais concretas (RIBEIRO, 2004, p. 116).
A entrevista grupal é indicada quando o pesquisador quer explorar atitudes,
opiniões e comportamentos, assim como observar os processos de consenso
e divergência. [...] no intuito de viabilizar narrativas da experiência por parte
dos colaboradores envolvidos, através dos quais se buscasse as experiências
intencionais destes sujeitos, procurando tornar presente as experiências
vividas (MELO, 2012, p. 99-102).

Com essa configuração metodológica, os autores parecem aproximar-se de uma
compreensão coletiva dos fenômenos investigados. Fruto de uma construção compartilhada
entre os trabalhadores, os processos de trabalho são apreendidos a partir das experiências e do
conhecimento que cada um possui sobre o trabalho.
Nessas três teses citadas, as análises realizadas se direcionam aos objetivos previstos e
se desenrolam à luz das teorias adotadas. Com isso, apesar da potência referida devido a
interlocução que a técnica da entrevista em grupo promove, os resultados apresentados nem
sempre constituem uma contribuição efetiva para o problema estudado e, consequentemente,
para a área da Saúde mental e trabalho.
Cunha (2006), Maestrelli (2010) e Paula (2011), desenvolvem pesquisas qualitativas
combinando os métodos de análise documental ao de entrevista para a coleta de informações.
Como se pode ver a seguir:

88
Para o processo de coleta de dados foram utilizadas diferentes fontes de
informação que, analisadas em conjunto se complementaram e ofereceram
um material empírico qualitativamente satisfatório. A coleta de dados deverá
atender aos aspectos da metodologia; portanto, envolveu a investigação das
seguintes fontes de informação: Pesquisa documental sobre a organização do
trabalho formal (prescrito) da empresa e os Contratos de Gestão; Entrevistas
semi-estruturadas, realizadas com trabalhadores com diferentes níveis
hierárquicos na organização (CUNHA, 2006, p. 108-109).
Ao analisar os vários discursos produzidos por trabalhadores da área da
saúde, procura-se estabelecer um nexo causal entre o trabalho que realizam e
seu processo de adoecimento. Depara-se com algumas contradições que
circulam em documentos oficiais sobre os serviços públicos de saúde, cuja
meta é tornar-se “um dos melhores convênios de assistência à saúde pública
do mundo”; e, a contrapartida, que circula entre os trabalhadores da área da
saúde, qual seja: “o SUS é um serviço pobre pra pobre” (MAESTRELLI,
2010, p. 70).
Buscamos identificar, através do relato dos trabalhadores das equipes – SM e
SF, sobre suas vivências as práticas elaboradas, as invenções compartilhadas
no cotidiano das UBS e as estratégias construídas para lidarem com usuários
em situação de sofrimento mental. Tivemos também, como referência, a
proposta governamental através de Portarias e diretrizes que, atualmente,
orientam os programas de saúde dos municípios. As orientações prescritas
nos documentos oficiais estão sendo entendidas emblematicamente como
trabalho prescrito, ou seja, as regulamentações que se desdobram dos
documentos oficiais colocam diretrizes para a realização da atenção à saúde.
Já as falas dos entrevistados estão sendo consideradas como veiculadores de
indícios da maneira como os trabalhadores vivenciam as práticas, ajustando
recursos de toda natureza para dar conta da prescrição (PAULA, 2011, p. 6465).

Essas pesquisas adotam uma abordagem de método misto (FLICK, 2009), e com isso
empreendem investigações que se estruturam numa tentativa de apreender o objeto de estudo
a partir de mais de uma fonte. Este parece um caminho promissor para os estudos que se
voltam para compreender a relação entre saúde mental e trabalho.
Estratégia semelhante é adotada por Lobato (2003). Ao estudar o trabalho de
agricultores em situação de exposição prolongada a agrotóxicos, essa pesquisadora lança mão
de entrevistas e observação participante, o que enriquece sobremaneira a compreensão sobre
os processos de trabalho no qual os trabalhadores estão inseridos. Em tópico de sua tese que
intitula: “Reconhecendo os caminhos e as pessoas”, a pesquisadora assim relata:
[...] a pesquisadora em questão participou de várias visitas técnicas às áreas
de trabalho e ao espaço de moradia dos mesmos em conjunto com o grupo
de profissionais da EMBRAPA e do NAEA, (Fotos 7), pertencentes ao
Projeto supra mencionado, a fim de coletar dados referentes a 1ª etapa de
investigação, bem como, conhecer o contexto laboral e doméstico dos
agricultores. Estes dados foram coletados mediante observação participante,
bem como, através de conversas informais e entrevistas semi estruturadas
oportunizando o estabelecimento de uma interação inicial com os

89
agricultores e suas famílias. Foram utilizados ainda como fonte de consulta
os resultados do survey realizado pela equipe do projeto SHIFT/NAEAENV44 em Cumaru, nos dias 23 e 24 de junho de 2000. Esta etapa constituiu-se
de um processo de aprendizagem sobre o lugar (Cumaru e travessa do 16),
sobre os caminhos, (tal aprendizado foi fundamental para a conquista de
minha autonomia de ir e vir nas travessas, nos ramais, nas roças e nas
plantações de maracujá e pimenta), sobre as pessoas que lá vivem (os
agricultores e suas famílias, mesmo os que não constituíram a amostra) e as
rotinas (LOBATO, 2003, p. 173, grifos da autora).

O reconhecimento da complexidade que os fenômenos que se inserem na área da
Saúde mental e trabalho carregam, parece uma escolha assertiva, pois aponta para uma
abordagem integradora. Essa pode articular informações de procedências distintas,
possibilitando ao pesquisador uma aproximação maior com o contexto de trabalho e toda a
rede de elementos que o configuram. Como descreve Sato (2002):
O local de trabalho é um espaço no qual processos organizativos são
conduzidos visando alcançar a determinados fins. Pessoas, papéis de
trabalho, procedimentos técnicos, máquinas e equipamentos, valores,
ideologia, cultura, regras, interesses, estruturas de poder e mecanismos de
controle dão corpo a esses processos. Além disso, o local de trabalho não é
homogêneo, mesmo naqueles processos de trabalho nos quais as prescrições
definem conteúdo de tarefas e respectivos postos de trabalho (SATO, 2002,
p. 42-43).

Diante de contexto tão complexo, parece justificável a busca por métodos de
investigação científica que visem alcançar vários desses elementos, inclusive e, sobretudo, a
subjetividade do trabalhador e seu protagonismo no desenvolvimento dos processos de
trabalho.
Nessa tentativa de adentrar e compreender o trabalho não apenas a partir do
trabalhador, mas junto com ele e nos espaços em que atua, concorda-se com a pertinência
apontada por Sato (2002) quanto à adoção de uma abordagem etnográfica para o estudo dos
fenômenos que se inscrevem na área da Saúde mental e trabalho. A despeito de todos os
determinantes epistemológicos que a escolha de um método em detrimento de outro carrega,
uma abordagem etnográfica parece ser capaz de superar alguns limites, que outros métodos
utilizados nesse contexto de investigação não conseguem superar.
Algumas teses aqui analisadas atestam essa indicação da abordagem etnográfica, pois
ao reconhecerem os seus limites, apontam a necessidade de investigações mais amplas em que
se possa alcançar uma compreensão acerca de como são vivenciados os fenômenos
decorrentes da relação entre trabalho e saúde mental. É o que apontam os seguintes autores:
Os resultados encontrados neste estudo conferem visibilidade a um problema
que ainda é considerado tabu nas empresas. As pesquisas sobre o binômio
saúde mental e trabalho necessitam do enfoque multidisciplinar,

90
participativo e prospectivo, a fim de que se possa analisar de modo mais
completo as formas de trabalho que têm levado os sujeitos não a plenitude e
realização pessoal no trabalho e sim ao desgaste e a insatisfação no contexto
laboral (SALES, 2009, p. 79).
A partir dos resultados e de sua análise, suscitaram-se algumas questões de
pesquisa acerca do assédio moral no trabalho que poderiam ser objeto de
futuros estudos. A variação na prevalência do assédio moral entre os países
certamente refletem diferenças sócio-culturais e laborais. Nesse sentido,
estudos transculturais seriam indicados para melhor compreender o
fenômeno através das diversas culturas, tendo em vista as particularidades do
universo de significações para cada contexto (AMAZARRAY, 2010, p.
227).

Athayde (2011) reforça a sugestão por uma abordagem desse tipo, ao propor o modelo
de pesquisa-intervenção. Nessa concepção, compõe uma sistematização de estratégia
metodológica para as pesquisas no âmbito da área da Saúde mental e trabalho, que se alinha
diretamente aos pressupostos do campo da Saúde do trabalhador. Nesse movimento, legitima
sua proposta, ao imprimir uma coerência epistemológica.
Sistematizando, do ponto de vista metodológico: após acordar um contrato
psicológico em que os trabalhadores aceitam submeter sua própria atividade
(assim como as condições e situações na qual ela se realiza) ao crivo da
reflexão e análise em comum (com os pesquisadores profissionais), é
necessário criar situações em que os trabalhadores possam ‘abrir espaços’,
‘abrir parênteses’ (François, apud Faïta, 2007), escapando à contrainte da
observação, do diálogo puramente desigual com o pesquisador. Não se trata
de coletar, via verbalização, representações mentais do que se passou. Tratase de não só compreender o funcionamento da atividade, mas acima de tudo
contribuir para o seu desenvolvimento (ATHAYDE, 2011, p. 362).

É nessa direção, acredita-se, que se deve pensar as estratégias metodológicas para a
investigação no âmbito da Saúde mental e trabalho. Adotando-se métodos múltiplos, que se
mostrem capazes de compreender o que acontece por dentro do trabalho e ao mesmo tempo,
apresente propostas para intervir no e pelo trabalho.
Essa análise acerca dos métodos utilizados nas teses aqui apresentadas, não pretendeu
encerrar uma indicação de algum método específico, nem tampouco, como já afirmado,
realizar uma avaliação sobre os métodos. O que se pretendeu, ao assinalar a adoção de uma
abordagem etnográfica, foi recomendar a composição de um modelo metodológico que seja
planejado, considerando a complexidade que caracteriza o mundo do trabalho e os processos
de saúde / doença mental nele inseridos.
Entende-se que, são múltiplas as alternativas metodológicas a serem utilizadas nas
investigações que tomam a relação entre trabalho e saúde mental como objeto de estudo, todas
legítimas quando substanciadas por seus pressupostos epistemológicos. No entanto, a partir

91
do que ilustram as teses aqui analisadas, as pesquisas podem ter resultados com alcance mais
ou menos complexo e com isso se quer dizer, capazes de, além de compreender, propor
intervenções sobre os problemas identificados na relação entre trabalho e saúde mental, caso
adotem ou não uma abordagem etnográfica.
A interação cotidiana no local de trabalho e em outros espaços de
sociabilidade, a vivência pessoal e singular e a troca de informações anima a
construção, pelos trabalhadores, de conhecimentos e explicações sobre a
relação saúde mental e trabalho (SATO; BERNARDO, 2005, p. 871).

Como apontam Lima (2013) e Sato e Bernardo (2005), a pesquisa, na área da Saúde
mental e trabalho, reclama respostas efetivas que se expressem em ações práticas para a
transformação das condições de trabalho que produzem o sofrimento mental.

4.3.6

Referenciais teóricos ou modelos
A maioria das teses apresenta seus métodos em correlação com um referencial teórico,

embora, nem sempre seja expressa com clareza a articulação entre o método utilizado e a
teoria adotada. Excetuando-se os estudos de Sales (2009), Poletto (2009) e Valle (2011); as
demais teses assumem um referencial ou modelo teórico a partir do qual discutem as
informações processadas pelos métodos utilizados.
A adoção de um referencial mostra-se determinante para os resultados a que chegam
um processo de investigação. É possível afirmar que os métodos se submetem a uma teoria de
tal forma que, a depender do referencial teórico utilizado a mesma estratégia metodológica
produz resultados diferentes. A força que um referencial teórico pode assumir num processo
de pesquisa é tamanha, que corre-se o risco de fechar-se em si mesmo, alterando os propósitos
do estudo e apresentando resultados que voltam-se para reafirmar os pressupostos que o
sustentam.
A área da Saúde mental e trabalho, já foi dito, demanda pesquisas cujos resultados
sejam colocados à disposição do trabalho, para e com o trabalhador. Enquanto descendente
direta do campo da Saúde do trabalhador, constitui-se com os referenciais desse campo. Visa,
portanto, conhecer, intervir, transformar e construir alternativas compartilhadas para os
problemas que se inscrevem em seu campo de investigação.
Nesse movimento, o pesquisador deve estar sensível aos detalhes que verdadeiramente
caracterizam o contexto de trabalho, o microcosmos, a singularidade de cada situação e a
complexidade nela presente; sem perder de vista sua inserção no universo do trabalho, cenário
vasto de implicações políticas, culturais e econômicas sobre as quais, qualquer análise que se
pretenda nesta área deve ater-se.

92
Torna-se imprescindível, portanto, que os referenciais teóricos que sustentem as
pesquisas na área da Saúde mental e trabalho levem em conta todas essas considerações. Do
contrário, é possível que se estabeleça uma incompatibilidade de pressupostos no processo
investigativo, que na melhor das hipóteses pode apresentar resultados restritos e na pior,
resultados eticamente comprometidos.
Embora apresente uma história recente (CODO; SORATTO; VASQUES-MENEZES,
2004; LIMA, 2013), as pesquisas desenvolvidas no Brasil, apresentam uma vinculação com
algumas abordagens que foram ao longo do tempo sendo utilizadas para estudar os fenômenos
situados no âmbito da relação entre saúde mental e trabalho. É possível então, falar em
algumas perspectivas que, senão clássicas, vêm se mostrando recorrentes e norteadoras dos
estudos na área da Saúde mental e trabalho.
Jacques (2003, p. 100), “tomando como critérios o referencial teórico, a metodologia
proposta e a inter-relação entre trabalho e o processo saúde / doença mental”, aponta a
existência de:
[...] quatro amplas abordagens que se articulam por percursos diversos com a
psicologia e com a psicologia social em particular: as teorias sobre estresse,
a psicodinâmica do trabalho, as abordagens de base epistemológica e/ou
diagnóstica e os estudos e pesquisas em subjetividade e trabalho. Estudos
empíricos sobre natureza e conteúdo das tarefas, estrutura temporal e
densidade do trabalho e controle do processo enquanto associados ao
desgaste mental se incluem entre um ou outro dos conjuntos conforme a
ênfase de opção (por exemplo, se privilegiam as experiências e vivências dos
trabalhadores frente a estrutura temporal do trabalho, incluem-se no último
conjunto proposto) (JACQUES, 2003, p.100).

Em 2004, Codo, Soratto e Vasques-Menezes indicaram três perspectivas utilizadas nas
pesquisas desenvolvidas no Brasil: as teorias de estresse; a Psicodinâmica do trabalho e a
Abordagem epidemiológica e/ou diagnóstica.
Seligmann-Silva (2011), traz uma sistematização acerca dos referenciais teóricos e
modelos, em que aponta três diferentes perspectivas: uma abordagem que se origina da teoria
do estresse, cujo referencial advém da Fisiologia, ancorada na perspectiva positivista de
ciência e também num modelo behaviorista. Segundo informa a autora, essa primeira
abordagem:
É o modelo que mais se presta à construção de bases de dados para estudos
quantitativos e tem sido utilizado em estudos epidemiológicos que procuram
identificar os fatores de risco (estressores) em diferentes setores da economia
e ocupações. O modelo também é aplicável à prevenção, buscando diminuir
ou eliminar os fatores de risco constatados no trabalho (SELIGMANNSILVA, 2011, p. 123).

93
Uma segunda perspectiva seria àquela que utiliza a Psicanálise como referencial.
Focalizando os “processos subjetivos ou intrapsíquicos” e ainda os “instersubjetivos e, por
conseguinte, as relações interpessoais”. Nessa perspectiva, que tem na Psicodinâmica do
Trabalho a principal abordagem, têm-se estudado os fenômenos coletivos que se desenrolam
nos “locais e situações de trabalho” (SELIGMANN-SILVA, 2011, p. 123).
A terceira perspectiva é a que adota o conceito de desgaste, este associado aos estudos
dos processos de trabalho. Fundamenta-se no materialismo dialético e na perspectiva
histórica.
Esse referencial teórico tem tido inúmeros desenvolvimentos à medida que
integra contribuições da Psicologia Social, de outras Ciências Sociais e da
Psicanálise. Uma perspectiva de análise fundamental no estudo da produção
do desgaste mental no trabalho é o que focaliza a dominação – sempre de
modo contextualizado. Os estudos sócio-históricos, ligados à mesma base
teórica e que estudam as transformações do trabalho humano – quer em seus
aspectos técnicos, quer nos organizacionais e nos que dizem respeito às
relações sociais de produção -, oferecem um outro referencial de suma
importância para os estudos em SMRT (SELIGMANN-SILVA, 2011, p.
123).

Essas três sistematizações propostas oferecem um norte para identificar a vinculação
epistemológica que as teorias utilizadas nas teses aqui analisadas apresentam. Apesar de
cumprirem o papel de organizar um parâmetro de referências, como toda empreitada dessa
ordem, não conseguem encerrar todos os referenciais ou modelos que são utilizados nas
pesquisas que investigam os fenômenos que emergem da relação entre saúde mental e
trabalho.
É preciso considerar que a área da Saúde mental e trabalho constitui-se,
eminentemente, pela convivência e não necessariamente pela convergência de paradigmas,
disciplinas, métodos e teorias. Configura-se, portanto, numa trama de articulações que de tão
complexa exige a devida prudência para a composição de elementos que se complementem e
não, arbitrariamente, se sobreponham.
Lima (2013) chama atenção para a necessidade de um debate acerca dessa pluralidade,
um debate que favoreça o estabelecimento de um diálogo entre as perspectivas que constituem
a área da Saúde mental e trabalho, pois, como já citado por essa autora, a ausência de um
diálogo consensual é o maior obstáculo para o desenvolvimento da área.
Ao proceder a leitura das teses nos moldes já expostos para essa análise, verificou-se o
quão difícil é a identificação no texto de um referencial teórico específico. E, mesmo quando
se consegue identificar um referencial teórico, pode acontecer uma dificuldade de

94
reconhecimento acerca da contribuição deste para a área da Saúde mental e trabalho, devido
as várias leituras que algumas teorias apresentam.
É o que se observa, por exemplo, em três teses que identificam a Psicanálise como
referencial teórico. No estudo de Azevedo (2003), tem-se como teóricos de base Freud e Bion,
nele, o conteúdo da fala proveniente de entrevistas em grupo é interpretado a luz da teoria
psicanalítica. Já no estudo de Ribeiro (2004), alguns conceitos de Winnicott são utilizados
para analisar o discurso dos participantes de entrevistas em grupo e oficinas de orientação
profissional. Em Maestrelli (2010) empreende-se a análise de discurso do conteúdo de uma
entrevista a partir da Psicanálise de Lacan.
Operando com conceitos distintos, cada uma dessas teses envereda por análises que
mais se diferenciam que se aproximam, e nesse sentido, dificultam a compreensão acerca da
contribuição da Psicanálise para a área da Saúde mental e trabalho, sobretudo quanto a
conformação de um modelo capaz de apoiar o desenvolvimento da pesquisa nessa área. E esse
é um dos obstáculos a serem enfrentados, como, mais de uma vez, apontado por Lima (2013).
Sobre a contribuição da Psicanálise à área da Saúde mental e trabalho, SeligmannSilva (2011, p.61), apresenta uma síntese consistente em que congrega autores clássicos deste
referencial teórico; pesquisadores que tomam esses autores clássicos como interlocutores para
analisar a relação entre trabalho e saúde mental e ainda, alguns pesquisadores que
desenvolvem estudos de “enfoque psicanalítico”, sem necessariamente lançar mão de
conceitos clássicos. Este último grupo vem apresentando “uma perspectiva que viabiliza a
compatibilização da abordagem psicanalítica à análise sócio-histórica nos processos
estudados”. Essa é a abordagem que caracteriza a produção da América Latina.
Para essa autora:
Os conceitos psicanalíticos tem sido importantes na construção de suportes
teóricos da SMRT. Vêm contribuindo também para formulações e o
desenvolvimento de métodos, técnicas, e instrumentos destinados à análise
dos processos psíquicos envolvidos na gênese do desgaste mental
relacionado ao trabalho e em seus desdobramentos psicopatológicos. Assim,
a psicanálise, ao lado de outros referenciais teórico-metodológicos, tem
permitido o desenvolvimento de pesquisas e descobertas valiosas
(SELIGMANN-SILVA, 2011, p. 54).

É inegável a contribuição que alguns conceitos psicanalíticos têm trazido para os
estudos na área da Saúde mental e trabalho. A Psicanálise abre perspectivas para refletir
acerca do que dizem os trabalhadores sobre como vivenciam essa relação e assim amplia as
possibilidades interpretativas desse discurso.

95
No entanto, considera-se importante apontar para o fato de que, ao ater-se ao discurso
como fonte central, essa abordagem deixa escapar elementos fundamentais do contexto
(ambiente, condições, processos, formas de organização do trabalho), a partir dos quais esses
discursos são produzidos. Ao restringir-se à fala, subestima aspectos imprescindíveis para a
compreensão dos fenômenos decorrentes da relação entre trabalho e saúde mental.
Adotando conceitos psicanalíticos, a Psicodinâmica do trabalho tem trazido uma
importante contribuição para o desenvolvimento da área da Saúde mental e trabalho,
sobretudo no Brasil, onde a publicação da obra “A loucura do trabalho”, em 1987,
praticamente inaugurou as discussões sobre a temática. Atualmente, vários pesquisadores
brasileiros utilizam essa teoria em suas investigações (LIMA, 2002, p. 64).
A perspectiva teórica proposta por Christophe Dejours é adotada como referência em
quatro teses. Aparece, ainda enquanto Psicopatologia do trabalho em Silva-Filho (1989), e já
como Psicodinâmica do Trabalho, nas pesquisas de Lobato (2003), Cunha (2006) e Paula
(2011).
Essa abordagem, como já apontado, se fundamenta em conceitos psicanalíticos e
desenvolveu um modelo metodológico próprio com etapas sequenciais e procedimentos bem
delimitados para o acesso e posterior análise dos fenômenos aos quais se debruça (DEJOURS,
1992; DEJOURS; ABDOUCHELI; JAYET, 2013; MERLO, 2002, 2011; SELIGMANNSILVA, 2011).
Ao longo do tempo, realizaram-se algumas reformulações que alteraram inclusive a
forma como os autores a identificam, passando de Psicopatologia do Trabalho para
Psicodinâmica do trabalho. “A mudança do conceito de psicopatologia do trabalho para o de
psicodinâmica do trabalho deu-se a partir de um privilegiamento do estudo da normalidade
sobre o da patologia” (MERLO, 2011, p. 371).
Lima (2002), ao mesmo tempo em que reconhece vários méritos, aponta alguns
problemas nas proposições de Dejours, aos quais denomina de “lacunas, equívocos e
ambiguidades” (LIMA, 2002, p. 65). Tais problemas, segundo essa autora, gravitam em torno
de pressupostos epistemológicos e proposições conceituais-metodológicas e parecem estar
associados à ênfase, quase exclusiva, que é dada ao discurso enquanto fonte de acesso, análise
e compreensão da realidade em detrimento ou em subestimação ao trabalho como
efetivamente se apresenta.
O próprio Dejous assim comenta:
[...] não nos interessamos pela realidade dos fatos na situação de trabalho,
nem pela descrição efetuada, pelo trabalhadores, de seus trabalhos. Nosso

96
objetivo não é a exposição da realidade do trabalho humano, em suas
dimensões físicas e cognitivas. Nossa pesquisa visa essencialmente a
vivência subjetiva, [...] (DEJOURS, 1992, p. 149)

Em obra organizada por Bendassolli e Sobol (2011), a Psicodinâmica do trabalho é
apresentada como uma das teorias clínicas do trabalho fundamentada na psicanálise, na
ergonomia e na sociologia do trabalho.
Nessa mesma obra, Mendes, Araújo e Merlo (2011, p. 169-170), apresentam texto
intitulado: “Prática clínica em psicodinâmica do trabalho: experiências brasileiras”, onde fica
evidente a hegemonia da linguagem sobre qualquer outro aspecto constituinte do trabalho, ou
do “real do trabalho”, como conceituam os autores. Nessa concepção, o real parece não estar
no trabalho, como ele se efetiva no cotidiano em suas múltiplas dimensões, mas sim e apenas,
na fala daqueles que trabalham. Esse mesmos autores, destacam:
[...] a ação está irremediavelmente ligada aos atos de linguagem. [...]
Ressalta-se que o foco de interesse em psicodinâmica do trabalho é o acesso
aos comentários verbais dos trabalhadores, e, à medica que a pesquisa se
desenvolve, passa a ser o conteúdo formulado pelo grupo de trabalho
(MENDES; ARAÚJO; MERLO, 2011, p. 171-175).

Embora não se tenha a intenção de firmar uma crítica a essa abordagem, tendo em
vista as limitações impostas por esse espaço e, sobretudo, pela condição precoce de
conhecimento do pesquisador, que carece de maior aprofundamento para que possa lançar-se
nesse tipo de empreitada, propõe-se um comentário sobre alguns aspectos observados nessa
abordagem.
O primeiro diz respeito a impressão de estar-se diante de uma abordagem do trabalho
que não se interessa pelo trabalho. Impressão que encontra lugar (ainda bem!) em
pesquisadoras experientes como Lima (2002) e Seligmann-Silva (2011).
[...] o que fica claro para o leitor é que, para Dejours, ele permanece como
uma categoria marginal, subordinada à subjetividade que continua sendo o
objeto da Psicodinâmica do Trabalho, por excelência. O trabalho só é
abordado pela via da subjetividade, ou melhor, por meio do discurso, através
do qual o trabalhador comunica a sua vivência subjetiva, em detrimento da
observação e da análise das situações reais de trabalho, que tem gerado os
equívocos que observamos na obra desse autor, em especial, sua tendência
ao subjetivismo e ao relativismo. (LIMA, 2002, p. 78)
A aproximação entre teoria e realidade das situações concretas observadas
em pesquisas de campo é um dos grandes desafios em PDT. Pois são
imensas as variações (de situações e de modo de subjetivação) determinadas
pelos processos históricos que moldam e diferenciam contextos
sócioeconômicos e culturais. Nesses contextos, forças sociais distintas
atravessam as situações de trabalho e o universo mental dos trabalhadores
(SELIGMANN-SILVA, 2011, p. 77).

97
Como já apontado na introdução dessa seção, entende-se que uma análise na área da
Saúde mental e trabalho que desconsidere a complexidade do trabalho, é de difícil
compreensão. O contexto de trabalho é mais do que se diz sobre ele, configura-se num
espaço em que, como descreve Sato:
As pessoas criam vínculos e regras próprias, dão forma e conteúdo aos
processos organizativos a partir de práticas de trabalho onde nem tudo é dito
porque a densidade e a textualidade do cotidiano prescindem de nomeações
dos atos e dos acontecimentos. Regras tácitas sustentam o conserto das
práticas e não objetos de estranhamento ou questionamento, sendo vividas
como naturais (Garfinkel, 1984). A subjetividade se expressa de diversas
formas – instituições criadas (formas de relação, códigos, ritos, regras,
valores, etc.) e as práticas – sendo a verbalização apenas um dos canais de
sua expressão (SATO, 2002, p. 43).

Outro aspecto a ser comentado, relaciona-se à responsabilização que essa abordagem
parece imprimir ao trabalhador sobre o seu sofrimento e sobre alternativas para lidar com essa
experiência. Ao superestimar o papel do discurso, a Psicodinâmica do trabalho, além de tomálo como única fonte para a compreensão da relação entre saúde mental e trabalho, o converte
em remédio para o sofrimento que é conferido aos trabalhadores. A ênfase na subjetividade
parece deslocar o foco de análise do trabalho para o trabalhador.
Mendes, Araújo e Merlo, assim concluem:
Portanto, essa teoria propõe que o poder de cura do ser humano está dentro
dele, ou seja, é nas formas expressas na negatividade, através das
fragilidades e sintomas, que se produzem estratégias criativas para curá-las.
O acesso e apreensão dessas relações dinâmicas se dão pela análise da fala e
da escuta do sofrimento dos trabalhadores. O sofrimento deve ser
compreendido, elaborado e perlaborado num espaço público de discussão.
Esse espaço é a possibilidade de (re)construção dos processos de
subjetivação e do coletivo, uma vez que falar do sofrimento leva o
trabalhador a se mobilizar, pensar, agir e criar estratégias para transformar a
organização de trabalho (MENDES; ARAÚJO; MERLO, 2011, p.180).

Nessa concepção parece não haver problemas e nem soluções no trabalho e sim nos
trabalhadores (CLOT, LEPLAT, 2001 apud LIMA, 2011). Operando essa lógica de
negligenciar as condições que configuram o contexto onde se dá o trabalho com toda a
complexidade que o caracteriza (condições concretas e relações estabelecidas no trabalho)
corre-se o risco de promover modelos explicativos que culpabilizam o trabalhador
(PAPARELLI; SATO; OLIVEIRA, 2011; SATO; BERNARDO, 2005).
As quatro teses que adotaram esse referencial, o apresentaram de forma distinta. No
estudo de Silva-Filho (1989), embora não seja apresentada explicitamente como teoria de
base, os conceitos e as análises da Psicopatologia do Trabalho aparecem em todo os capítulos,
indicando uma filiação do autor a essa abordagem.

98
A tese de Lobato (2003) traz uma articulação entre a Psicodinâmica do trabalho e a
Teoria das Representações Sociais de Serge Moscovici. Partindo do método Clínico
qualitativo lança mão de entrevistas em grupo e de observação participante, ampliando dessa
forma, o conteúdo de informações sobre o fenômeno que investiga. No entanto, a análise que
realiza, propõe uma compreensão restrita aos conceitos da Psicodinâmica do trabalho.
Cunha (2006) desenvolve sua investigação totalmente baseada na Psicodinâmica do
Trabalho. Desde a composição metodológica, passando pelos conceitos utilizados até a
análise, todo o percurso da pesquisa é apresentado em consonância com os pressupostos dessa
abordagem.
Já a tese de Paula (2001), centra-se na análise do conflito entre trabalho prescrito e
trabalho real, para compreender as possíveis relações entre as diretrizes de uma política de
saúde, o trabalho realizado e a subjetividade dos profissionais envolvidos.
As demais teses apresentam modelos ou referenciais distintos, como é o caso de
Bengvegnú (2005) que realiza um estudo epidemiológico e faz uso de um modelo
denominado: Processos de trabalho. Utiliza o conceito de carga de trabalho num enquadre
próprio do campo da Saúde Ocupacional.
No estudo

de Amazarray (2010) têm-se a Abordagem Bioecológica do

Desenvolvimento Humano – ABDH. Trata-se de um modelo complexo, que compreende
múltiplos elementos no estudo dos fenômenos sobre os quais se debruça. Nessa tese, a autora
se dedica a investigar o fenômeno do assédio moral no contexto de trabalho e compreender
como os trabalhadores experienciam o fenômeno a partir de suas vivências, nos papéis de
vítimas, testemunhas e agressores. Para atingir esse objetivo, lança mão de várias estratégias
metodológicas (quantitativas e qualitativas) e ainda assim, reconhece que o “delineamento
proposto poderá acessar apenas parte dos processos, e não a totalidade e a complexidade das
interações que se dão no contexto de trabalho” (AMAZARRAY, 2010, p. 43).
Essa parece uma abordagem coerente com a área da Saúde mental e trabalho, pois ao
reconhecer a complexidade de elementos que compõem a relação entre trabalho e saúde
mental, reconhece também, a necessidade de ampliar as possibilidades de acesso a este
universo. E, ainda assim, aponta os limites que qualquer abordagem enfrenta diante da tarefa
de compreender o cotidiano das relações que se estabelecem no contexto de trabalho.
Com o título: “Assédio moral: lesão aos direitos humanos e à saúde do trabalhador”,
Freire (2011), realiza uma análise de documentos à luz de vários modelos explicativos que
emergiram a partir dos estudos sobre assédio moral. Nesse sentido, esta tese utiliza
referenciais produzidos nas próprias investigações que se voltaram para esse objeto de

99
pesquisa e com isso atesta-se o quão fecundo têm sido os estudos produzidos sobre esse
fenômeno.
A Abordagem Centrada na Pessoa é o referencial adotado por Melo (2012), em tese
que propõe a sistematização de uma clínica do trabalho numa perspectiva humanista
fenomenológica. Trata-se de proposta de uma leitura inovadora sobre os fenômenos que se
inserem na relação entre trabalho e saúde mental. No entanto, apresenta uma análise que se
aproxima da que é feita pela Psicodinâmica do Trabalho, sobretudo no que se refere a ênfase
no discurso como única fonte de acesso ao trabalho e ainda, à responsabilização do
trabalhador quanto à transformação do contexto de trabalho.
Braga (2012) utiliza um referencial denominado: Modelo demanda-controle. A autora
afirma que este pode ser entendido como:
[...] uma abordagem cujo foco central são as relações sociais no trabalho e
como estas funcionam como geradoras de estresse ou a relação entre as
capacidades do trabalhador e a carga mental de trabalho. [...] as demandas
são as pressões ou exigências psicológicas a que os trabalhadores são
submetidos no trabalho. [...] Quanto ao controle, trata-se do grau de
autonomia ou espaço de manobra que o trabalhador possui. Consiste na
possibilidade que ele tem de “governar” o seu trabalho, a partir de suas
habilidades e conhecimentos. Trata-se de aspecto estreitamente relacionado à
organização do trabalho e o risco de adoecimento aumenta conforme diminui
o grau de controle sobre o trabalho (BRAGA, 2012, p. 35).

Esse modelo possibilita o estudo de grandes populações sem restringir-se a aspectos
quantificáveis. Investiga, portanto, numa perspectiva quantitativa, aspectos qualitativos do
contexto de trabalho. Nesta tese em específico, a autora utiliza vários instrumentos na
tentativa de acessar um volume de informações que aproxime sua análise da complexidade
que caracteriza o trabalho.
Na pesquisa desenvolvida por Paparelli (2009), é adotado como referencial um modelo
baseado no conceito de desgaste mental. Esse modelo é proposto por Seligmann-Silva (2011)
como uma “Abordagem integradora”. Como argumenta a autora da tese quanto à escolha
dessa abordagem:
[...] o conceito de desgaste guarda a complexidade na compreensão dos
agravos à saúde mental relacionados ao trabalho, já que permite superar os
limites e contornos dos diferentes objetos estudados a partir de diferentes
leituras teórico-metodológicas. Além disso, é coerente com a perspectiva da
Saúde do Trabalhador, trazendo uma visão ampliada do processo saúde
doença e a categoria “organização do trabalho” como norteadora de análise
(PAPARELLI, 2009, p. 49).

Esta perspectiva teórica configura-se efetivamente como uma abordagem que integra
várias dimensões de análise que, em conjunto, potencializam a compreensão acerca dos

100
fenômenos que se manifestam na relação entre trabalho e saúde mental. Como afirma
Seligmann-Silva (2011), o conceito de desgaste mental integra um plano orgânico e um plano
psicossocial. Configura-se ainda como integrador numa mirada mais ampla:
O modelo centrado no conceito de desgaste mental pode ser também tomado
como um paradigma integrador [...], pois permite compreender as interações
entre: a) os “fatores” ambientais e psicossociais objetivados pelos estudos do
work-stress; b) o mundo subjetivo e a identidade permanentemente
envolvidos nas transformações – aproximando-se também da PDT; c) as
diferentes esferas da vida social onde se desenvolvem relações de poder –
que, quando desvantajosas para a integridade e estabilidade mental do
trabalhador, acarretarão desgaste (SELIGMANN-SILVA, 2011, p. 137,
grifos do autor).

A análise dos referenciais ou modelos teóricos utilizados nas teses permitiu evidenciar
que estes podem restringir ou potencializar as informações coletadas ou produzidas pelos
métodos de pesquisa adotados.
Considera-se profícuo à produção do conhecimento, a realização de leituras distintas,
o que possibilita diferentes olhares, como acontece na área da Saúde mental e trabalho.
Contudo, reitera-se o imperativo de que, as análises empreendidas sobre os fenômenos
circunscritos na relação entre trabalho e saúde mental devem pressupor uma compreensão
abrangente, tendo em vista a complexidade que o campo expõe. Desta compreensão deve-se
avançar para a proposição de ações factuais, por isso defende-se uma abordagem integradora,
que analise múltiplos aspectos numa perspectiva de complementaridade entre estes.
Uma abordagem que consiga ler o trabalho a partir de várias dimensões, pode alcançar
resultados caracterizados por uma implicação ético-política, o que , sem perder o rigor que a
produção científica exige, possibilita ultrapassar o contexto acadêmico e expandir-se aos
espaços em que as questão advindas da relação entre a saúde mental e o trabalho são também
tratadas, dos quais destaca-se: as políticas públicas em geral e a Política de Saúde do
Trabalhador e da Trabalhadora em específico, além das instituições representativas dos
trabalhadores.
Propõe-se assim, a adoção de referenciais teóricos que permitam converter as análises
realizadas num contexto de pesquisa científica, em evidências empíricas que sejam colocadas
à disposição da sociedade.

101
5

CONCLUSÃO
O tratamento empreendido as 219 teses e dissertações que compuseram a amostra

nessa investigação permite afirmar que a área da Saúde mental e trabalho – objeto desse
estudo - apresenta-se na produção acadêmica no contexto da pós-graduação brasileira,
eminentemente em nível de mestrado, pois 84% da amostra é composta por dissertações,
enquanto que 16% são teses. No final dos anos 80 surge o primeiro documento, mais
precisamente em 1989. A partir do ano 2000, observa-se um crescimento considerável da
produção, 88% do total de documentos presentes na amostra encontram-se nesse período.
Apesar da área ser considerada multidisciplinar, predominam estudos ligados à Psicologia,
pois, 56% das teses e dissertações localizadas estão ligadas a essa área do conhecimento. Essa
predominância encontra explicação nas possibilidades abertas pela emergência do campo da
Saúde do trabalhador, que favoreceu a inserção da Psicologia nas questões relativas a
interface saúde e trabalho, adotando uma postura crítica e abrangente. A região sudeste
concentra 46% do total da produção, o estado de São Paulo, responde por 30% do total,
indicando uma concentração de estudos nessa região do país. Identificam-se ainda 46 IES que
apresentam produção na área, sendo a USP, UFRJ, UFRGS, UNB e a UFMG aquelas que
mais produzem. Essa concentração de estudos na área acompanha a concentração de oferta de
cursos de pós-graduação no Brasil nessa região.
O método utilizado, a metassíntese, possibilitou ir além da análise descritiva e avançar
na compreensão das informações, a partir das seguintes categorias de análise: história,
demandas sociais, políticas públicas, epistemologia, método e teoria.Vários aspectos foram
articulados convergindo para uma compreensão aprofundada.
Os resultados da análise realizada, permitem concluir que:
A produção acadêmica da área da Saúde mental e trabalho, no recorte estudado,
mostra-se inserida historicamente, portanto, contemporânea e voltada para as necessidades
emanadas da sociedade trabalhadora frente aos novos fenômenos que caracterizam o mundo
do trabalho. Essa produção pode ser reconhecida historicamente por buscar responder às
demandas sociais. Nesse sentido assume o compromisso em apresentar respostas para às
situações que afetam diretamente a população trabalhadora. Essa é uma das condições de sua
emergência, que a caracteriza ainda como uma produção científica que amplia sua análise e,
além de compreender, propõe ações para a transformação do trabalho.
Ao investigar os processos de organização do trabalho no âmbito das políticas públicas
e evidenciar a existência de sofrimento / adoecimento psíquico entre os trabalhadores do
Estado, a produção analisada impõe um desafio à área, pois localiza no poder público um

102
duplo papel: o Estado enquanto agente protetor do trabalho digno e promotor do trabalho
precário. Levanta-se então um questionamento: como investigar e intervir num agente com
essa dupla função? Responder a essa questão abre várias possibilidades para futuras
investigações.
A investigação conclui ainda que é o campo da Saúde do Trabalhador que possibilita a
emergência dos estudos voltados para a investigação da relação entre trabalho e saúde mental.
São os pressupostos epistemológicos desse campo que promovem uma ampliação das
possibilidades analíticas para as questões referentes à relação entre trabalho e saúde, das quais
a adoção do conceito de processo de trabalho, a consideração da subjetividade e o
protagonismo do trabalhador no processo de construção das análises, mostram-se
fundamentais para o desenvolvimento da área.
No entanto, observa-se em alguns documentos, uma justaposição de pressupostos dos
campos da Saúde do Trabalhador e da Saúde Ocupacional, configurando um hibridismo de
conceitos que carregam em si implicações políticas e ideológicas.
São múltiplas as alternativas metodológicas a serem utilizadas nas investigações que
tomam a relação entre trabalho e saúde mental como objeto de estudo, todas legítimas quando
consubstanciadas por seus pressupostos epistemológicos. No entanto, a partir do que ilustram
as teses aqui analisadas, as pesquisas podem ter resultados com alcance mais ou menos
complexo, e com isso se quer dizer, capazes de, além de compreender, propor intervenções
sobre os problemas identificados na relação entre trabalho e saúde mental, caso adotem ou
não uma abordagem etnográfica.
A análise dos referenciais ou modelos teóricos permitiu evidenciar que estes podem
restringir ou potencializar a análise das informações coletadas ou produzidas pelos métodos
de pesquisa adotados. Considera-se profícuo à produção do conhecimento, a realização de
leituras distintas, o que possibilita diferentes olhares, sobretudo, tendo em vista o caráter
multidisciplinar que a Saúde mental e trabalho assume. Contudo, reitera-se o imperativo de
que, as análises empreendidas sobre os fenômenos circunscritos na relação entre trabalho e
saúde mental, devem pressupor uma compreensão abrangente, tendo em vista a complexidade
que o campo expõe. Desta compreensão, deve-se avançar para a proposição de ações factuais.
Por isso, defende-se uma abordagem integradora, que analise múltiplos aspectos numa
perspectiva de complementaridade entre estes.
Propõe-se assim, a adoção de referenciais teóricos que permitam converter as análises
realizadas num contexto de pesquisa científica, em evidências empíricas que sejam colocadas
à disposição da sociedade.

103
Estudar a relação entre saúde mental e trabalho no Brasil, implica assumir uma
posição política. O pesquisador que envereda por esse percurso, toma uma posição e se
esforça para, no enquadre ético que a pesquisa científica exige, produzir um discurso que
evidencie o que acontece por dentro de trabalho. A polidez que o discurso científico imprime,
acalma o texto, embora permita evidenciar as feridas abertas pelas formas com que o trabalho
tem se organizado,

em todas as áreas de atuação

profissional,

assumem

na

contemporaneidade.
Nesse sentido, defende-se que é a serviço do trabalho que as pesquisas que compõem a
produção acadêmica devem se posicionar. Pretende-se, portanto, dar continuidade às reflexões
e investigações na área, rumo a uma compreensão, cada vez mais ancorada no campo da
Saúde do trabalhador.

104
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111
APÊNDICES

112

APÊNDICE A: Quadro de análise geral

113
APÊNCICE B: Ficha de análise.
1 PERSPECTIVA
QUANTI
QUALI

FICHA DE ANÁLISE
2 TIPO DE PESQUISA
BIBLIOGRÁFICA
CAMPO

3 ÁREA DO CONHECIMENTO
4 ANO
5 OBJETIVO

6 PROBLEMA

7 MÉTODO

7.1 PROCEDIMENTO COLETA

7.2 PROCEDIMENTO ANÁLISE

8 REFERIENCAL TEÓRICO

8.1 TEÓRICO DE BASE

8.2 TEÓRICOS DE INTERLOCUÇÃO

9 CONCLUSÃO

10. POPULAÇÃO

11 RELAÇÃO COM DEMANDA SOCIAL

12 RELAÇÃO COM POLÍTICA PÚBLICA

13 REFERENCIAL ESPISTEMOLÓGICO: SAÚDE OCUPACIONAL / SAÚDE DO TRABALHADOR

COMENTÁRIOS

114