As mídias e os modos de ser criança e se relacionar com a infância na contemporaneidade
Discente: Patrícia Vieira de Souza Toia / Orientadora: Profa. Dra. Simone Maria Hüning
Dissertação Mestrado Psico2013 - PatriciaToia.pdf
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS, COMUNICAÇÃO E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM PSICOLOGIA
PATRICIA VIEIRA DE SOUZA TOIA
AS MÍDIAS E OS MODOS DE SER CRIANÇA E SE RELACIONAR
COM A INFÂNCIA NA CONTEMPORANEIDADE
Maceió/AL
2013
PATRICIA VIEIRA DE SOUZA TOIA
AS MÍDIAS E OS MODOS DE SER CRIANÇA E SE RELACIONAR
COM A INFÂNCIA NA CONTEMPORANEIDADE
Dissertação de Patricia Vieira de Souza Toia
apresentada junto ao Programa de Pós Graduação em
Psicologia da Universidade Federal de Alagoas,
como requisito parcial para a obtenção do título de
Mestre em Psicologia.
Orientadora: Profa. Dra. Simone Maria Hüning
Maceió/AL
2013
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecária Responsável: Fabiana Camargo dos Santos
T646m
Toia, Patricia Vieira de Souza.
As mídias e os modos de ser criança e se relacionar com a infância na
contemporaneidade / Patricia Vieira de Souza Toia. –2013.
131 f.
Orientadora: Simone Maria Hüning.
Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Alagoas. Instituto
de Ciências Humanas, Comunicação e Artes. Departamento de Psicologia. Maceió,
2013.
Bibliografia: f. 108-110.
Apêndices: f. 111-131.
1. Mídia – Modos de subjetivação. 2. Infância. 3. Crianças – Consumo.
Crianças – Saber. I. Título.
CDU: 159.922.7:659.3
4.
FOLHA DE APROVAÇÃO
Patricia Vieira de Souza Toia
AS MÍDIAS E OS MODOS DE SER CRIANÇA E SE RELACIONAR
COM A INFÂNCIA NA CONTEMPORANEIDADE
Dissertação de Mestrado submetida ao corpo
docente do Programa de Pós-Graduação em
Psicologia da Universidade Federal de
Alagoas e aprovada em 23 de abril de 2013.
____________________________________________________________
Profa. Dra. Simone Maria Hüning
Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
(Orientadora)
BANCA EXAMINADORA:
____________________________________________________________
Profa. Dra. Neuza Maria de Fátima Guareschi
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
____________________________________________________________
Profa. Dra. Adélia Augusta Souto de Oliveira
Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
Dedico esta dissertação aos
meus pais, Quinto e Flora.
AGRADECIMENTOS
Ao término de tantos momentos dedicados à construção deste trabalho, chega a hora
de agradecer a todos que deles fizeram parte:
À Profa. Dra. Simone Maria Hüning agradeço carinhosamente pela dedicação,
disponibilidade, exigência e paciência com que orientou esta dissertação. Obrigada ainda, por
toda compreensão, pelos conhecimentos transmitidos e constante incentivo, sempre
contribuindo com meu trabalho e, principalmente, com minha formação!
Aos Profs. Dra. Adélia Augusta Souto de Oliveira e Dr. Pedro Paulo Gastalho de
Bicalho pelas importantes colaborações a este trabalho na banca de qualificação;
Às Profas. Dra. Adélia Augusta Souto de Oliveira e Dra. Neuza Maria de Fátima
Guareschi pela participação na Banca de Defesa;
Aos Professores do Programa de Pós Graduação em Psicologia/UFAL pela
oportunidade de crescimento e aprendizado proporcionada em cada uma das aulas
ministradas;
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES pela
concessão de bolsa CAPES durante doze meses (Abril/2011 a Abril/2012);
Aos colegas do Grupo de Pesquisa Processos Culturais, Políticas e Modos de
Subjetivação, pelas leituras e troca de ideias que suscitaram questionamentos, os quais, em
muito, contribuíram para este trabalho. Em especial, agradeço ao Wanderson, colega de
orientação, pelo incentivo na busca de novos conhecimentos, pela ajuda em momentos
críticos e por contribuir para o meu crescimento profissional;
Aos velhos e novos amigos de mestrado pelos debates, ajudas, convívio e aprendizado
ao longo desses dois anos. Adorei ter compartilhado essa fase da minha vida com vocês,
dividindo dúvidas e incertezas, angústias e alegrias e, principalmente, realizações. Vocês
sempre serão muito especiais para mim, muito obrigada a cada um! Agradeço em especial a
Juliana, Dayse, Raquel, Zaíra, Kyssia e Alex pela parceria durante todo mestrado, pelas
gargalhadas durante nossas aventuras acadêmicas, pelas incontáveis conversas monotemáticas
(foram horas e horas de boas conversas!!), pela superação de nossas ansiedades, e
principalmente, pela amizade compartilhada;
A amiga Fernanda Simião, pelo incentivo na busca do crescimento, sendo exemplo de
competência, garra, determinação e disciplina;
A Prof. Dra. Maria Auxiliadora Teixeira Ribeiro, pelos valiosos momentos de
orientação durante minha graduação. Foram bastante estimuladores para a continuidade da
vida acadêmica;
Aos amigos que, mesmo muitas vezes sem entender todo o esforço dispensado para
“apenas escrever um texto”, foram muito importantes nessa caminhada, e nos quais, por
muitas vezes, busquei forças e apoio, mesmo nos momentos de descontração;
Aos amigos, Vannêssa e Artur, sempre acompanhando momentos especiais em minha
vida. Obrigada pela preocupação e carinho demonstrados;
À minha madrinha, Maria das Graças, sempre interessada e feliz pelas minhas vitórias;
Ao meu pai, Quinto, minha mãe, Flora, e minha irmã, Giuliana, que mesmo distantes
acompanharam meus passos nesta caminhada, vibraram com as minhas conquistas,
consolaram-me nos momentos de desânimo e me ensinaram com seus exemplos a lutar e
buscar o que almejo. Por vocês, meus sentimentos mais puros de respeito, amor gratidão!
RESUMO
Esta dissertação trata dos discursos da mídia sobre os modos de ser criança e se relacionar
com a infância. Faz-se uma análise desses modos de existência a partir dos discursos que
circulam em diferentes veículos midiáticos: nas revistas impressas Crescer, Pais & Filhos e
Veja, e na programação das emissoras de canal aberto Globo e Record. Fundamentado teórica
e metodologicamente nos trabalhos foucaultianos, o estudo discute e utiliza as noções de
“modos de subjetivação” e “governamentalidade”, buscando analisar as estratégias em
funcionamento nas mídias que possibilitam a constituição dos modos hegemônicos de ser e se
relacionar com a infância a partir de enunciados de consumo e saber; identificar o que se
constitui como objeto de consumo e saber para as crianças; e problematizar o caráter
normalizador dessas práticas pela análise dos “modelos” de infância e das crianças por eles
produzidos. Para tanto, foi realizado um estudo a respeito da construção histórica das noções
dos modos de ser criança e de se relacionar com a infância. Em seguida, foi feita uma análise
das estratégias midiáticas em funcionamento nos materiais, evidenciando o modo como tais
modelos são construídos a partir de um conjunto de normas e práticas enredadas em jogos de
forças de poderes e saberes. E por fim, interrogamos, a partir de um estudo genealógico, as
práticas de saber-poder-subjetivação nos materiais midiáticos, objetivando dar visibilidade
para as descontinuidades desses modos de existência na contemporaneidade a partir dos
vetores de consumo e saber. Com isso, observou-se o dispositivo midiático como um dos
integrantes que conjugam os discursos modeladores de um regime de normas, as quais nos
falam de uma infância como uma fase de passagem para o mundo adulto, de incompletude,
mas ao mesmo tempo, apresentam as crianças como competentes, autônomas e capazes,
aproximando-as de habilidades que caracterizariam o que tradicionalmente se define como o
universo adulto, particularmente em relação às tecnologias e as práticas de consumo.
Palavras-chave: Modos de subjetivação. Mídias. Crianças. Infâncias. Consumo. Saber.
ABSTRACT
This dissertation addresses the media discourses on the several ways of being a child and
relating with one's childhood. An analysis of these modes of existence is carried out from the
discourses conveyed in different media vehicles: in print magazines such as "Crescer", "Pais
& Filhos" and "Veja", and TV broadcasting programmes on open channels such as "Globo"
and "Record". Based on the theoretical and methodological work of Foucault, this study
discusses and utilizes the notions of modes of subjectivation and "governmentality", aiming to
analyze the strategies at work in media that allow the creation of hegemonic ways of being
and relating to one's childhood through statements of consumption and knowledge; it also
identifies what is constituted as an object of consumption and knowledge for children, and
discusses the nature of these normalizing practices by analyzing the "models" of childhood
and children produced by them. Therefore, a study was conducted regarding the historical
construction of the different notions of being a child and the different ways of relating to one's
childhood. Then, an analysis of the ongoing media strategies in the materials was carried out,
revealing the way through with such models are built from a set of standards and practices
entangled in strength games of power and knowledge. Finally, we question – from a
genealogical study – the practices of knowledge-power-subjectivation in media materials,
aiming to give visibility to the discontinuities of these modes of existence in the contemporary
world through the vectors of consumption and knowledge. With that, the dispositif of media
was considered as one of the agents that combine discourse modelers from a system of rules,
which tell us about a notion of childhood as a phase transition into the adult's world, as
incompleteness, however, at the same time, they present children as competent, autonomous
and able, projecting on them skills that characterize what is traditionally defined as the adult
world, particularly in relation to technology and consumption practices.
Keywords: Modes of subjectivation. Media. Children. Childhoods. Consumption. Knowledge.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 9
1 DELINEAMENTO DA PESQUISA ............................................................................... 15
1.1 Trajetória da pesquisa: mídias e modos de ser e se relacionar com a infância .......... 15
1.2 Uma genealogia dos modos de ser criança e se relacionar com a infância, a partir de
materiais midiáticos ........................................................................................................... 19
2 CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA INFÂNCIA ............................................................ 26
2.1 Acontecimentos que marcam a produção da infância ................................................ 26
2.1.1 Higienismo médico e sua influência no modelo familiar .............................................. 26
2.1.2 Diferenças de gênero e o sentimento materno .............................................................. 31
2.1.3 Relações entre imprensa, alfabetização e escola ........................................................... 33
2.2 Estratégias biopolíticas e biopoder no governo da infância........................................ 35
3 DISPOSITIVOS QUE SE CRUZAM: INFÂNCIA E MÍDIAS ..................................... 41
4 ESTRATÉGIAS MIDIÁTICAS ..................................................................................... 49
4.1 Estratégias em evidência .............................................................................................. 49
4.1.1 A presença dos especialistas ........................................................................................ 51
4.1.2 Depoimentos como lição de vida ................................................................................. 60
4.1.3 Figuras híbridas de tradição e modernidade ................................................................. 66
4.1.4 Modos hegemônicos de ser e se relacionar com a infância ........................................... 69
5 MODOS DE SER CRIANÇA: RELAÇÕES COM O CONSUMO E O SABER ......... 75
5.1 Crianças e suas relações com o consumo ..................................................................... 76
5.2 Crianças e suas relações com o saber .......................................................................... 90
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 100
REFERÊNCIAS ............................................................................................................... 107
APÊNDICE ...................................................................................................................... 110
9
INTRODUÇÃO
Essa pesquisa tem como tema os modos de ser criança e se relacionar com a infância,
produzidos e veiculados em materiais midiáticos na contemporaneidade. Buscamos
problematizar esses modos de ser, os quais constituem verdades sobre os sujeitos e um
conjunto de práticas que operam na produção de subjetividades de crianças e adultos.
Consideramos que esses discursos foram construídos ao longo da história por diferentes
atravessamentos, e que acabaram por constituir os modos como compreendemos o que é ser
criança e a noção de infância1, de forma circunscrita a um determinado repertório de
possibilidades, difundidos hoje. A fundamentação teórica utilizada ancora-se na perspectiva
teórica de Michel Foucault, principalmente em suas noções de modos de subjetivação e
governamentalidade, em diálogo com a Psicologia Social, e em autores contemporâneos que
discutem a infância.
Elegemos os materiais midiáticos como analisadores, pois nos possibilitaram
evidenciar os processos de produção desses modos de ser criança. Salientamos que tais modos
de ser são atravessados por um emaranhado de práticas e discursos que extrapolam as mídias.
Mas consideramos esses veículos como um importante canal de visibilidade dessas práticas
resultantes de efeitos de diferentes discursos.
Destacamos, assim, que o público infantil e a temática da infância cada vez mais
ganham espaço na multiplicidade dos cenários midiáticos. Essa crescente participação nas
mídias, possibilita que aquilo que é dito, geralmente por especialistas na temática e
depoimentos dos pais/adultos, passe a circular na sociedade, dado o grande alcance dos
veículos midiáticos, participando da constituição dos sujeitos, sejam crianças e/ou adultos.
Ao nos colocarmos em contato com esses materiais, passamos a olhá-los com mais
atenção, permitindo suscitar estranhamentos e uma série de questionamentos a respeito da
constituição da infância, como dispositivo, e das crianças, como sujeitos por ele produzidos.
Desta forma, buscamos problematizar os processos de subjetivação em torno desse
dispositivo, a partir de dois vetores constituídos por nós a partir da aproximação inicial com
os materiais midiáticos: consumo e saber. Esses vetores foram escolhidos, pela quantidade de
1
Nesta dissertação, adotaremos a distinção entre criança e infância grafadas no singular e no plural. Embora não
entendamos esses modos de existência como únicos e universais, utilizar-los-emos no singular ao nos
remetermos às compreensões que as tratam a partir da unificação de seus modos de ser. E as tomaremos no
plural, quando nos referirmos à multiplicidade de realidades que as compreendem, nos contrapondo à ideia de
noções universais na existência humana.
10
materiais publicitários em que puderam ser identificados, incitando nosso estranhamento e
inquietações frente a essa infância veiculada e naturalizada.
No entanto, problematizar a produção da infância e seus modos de subjetivação requer
que atentemos também para as transformações nas relações entre as pessoas na
contemporaneidade, de modo um pouco mais amplo. Para tanto, recorremos às análises de
Bauman (2001) que situa uma série de transformações nos modos como temos nos
relacionado com os outros e com nós mesmos, no entrelaçamento com questões do campo
econômico, político, social e cultural.
De acordo com o autor, que se utiliza da expressão modernidade líquida para analisar
o tempo presente, vivemos hoje mudanças no convívio humano e nas condições sociais,
vinculadas, por um lado, a uma maior fluidez da realidade, uma instabilidade de nossos
projetos, perspectivas e relações. Por outro lado, vivenciamos uma sensação de aceleração dos
acontecimentos que perpassa as mais variadas esferas da vida na sociedade contemporânea,
seja vida pública e/ou privada.
Segundo o autor, diante dessas transformações, deparamo-nos com as dissoluções dos
laços afetivos e sociais, tendo como efeito um crescente processo de individualização. Com
ele, advém a sensação de liberdade e descompromisso, posicionando-nos como únicos
responsáveis por nossos atos. Além dessas dissoluções, o autor considera que os
relacionamentos entre indivíduos ganharam ares mercantis, remetendo a uma sensação de
leveza e descompromisso, que muitas vezes é associada à liberdade individual (BAUMAN,
2001).
Nesse contexto, o autor nos sinaliza que passamos a construir nossas vidas a partir de
referências dadas pelo mercado de consumo e, desta forma, os status de liberdade e de
realização preconizados na sociedade se mostram relacionados ao consumo individual.
Infindáveis oportunidades, desejos e realizações que nos são apresentados estão diretamente
remetidos à ideia de liberdade, dada a clara percepção de que ser ou sentir-se livre relacionase proporcionalmente ao poder de aquisição. As identidades, assim, estão à disposição do
consumidor. Ser é, para aqueles que podem, consumir. A todos os demais, resta a exclusão ao
modelo burguês, moralizado e naturalizado.
11
As considerações de Bauman nos fazem refletir que, face esse cenário em que estamos
inseridos, podemos pensar as práticas de consumo como a fronteira que marca a diferença
entre as pessoas, em um mundo contemporâneo, que ainda não permite a partilha do consumo.
Para ampliar essa reflexão acerca das transformações e das relações na contemporaneidade,
recorremos a Forrester (1997) que vai discorrer sobre o tema, principalmente, a partir de
noções como emprego e trabalho. A autora formula uma crítica à estrutura de produção da
sociedade em vivemos, apresentando as implicações do trabalho na sociedade atual, que sob a
forma de emprego, passa a comandar todas as engrenagens da nossa civilização. As relações
entre trabalho e forma de viver na sociedade contemporânea são tão próximas e entrelaçadas
que nem, ao menos, questionamos sua necessidade, já que passamos a considerar o trabalho
como aquilo que nos é vital, que rege nossa sobrevivência.
Diante disso, a autora aponta que os conceitos de trabalho e, por conseguinte, de
desemprego tornaram-se ilusórios e inúteis, considerando a “mistura visceral, seja pelo prazer
ou pelo sofrimento” (p.8) com que eles já fazem parte do modelo social e econômico
construído por e para nós. Forrester defende que não é o desemprego em si que traz danos e
sofrimentos aos “excluídos”, mas sim os efeitos que dele advém, como a inadequação social,
pois os desempregados hoje não são mais objetos de uma marginalização provisória; eles são
objetos de uma lógica do modelo que vivemos e são responsabilizados por sua situação. Ou
seja, são considerados incompatíveis com uma sociedade da qual eles são produto.
Uma vez ligado a todos os âmbitos da sociedade atual, o trabalho, ou melhor dizendo,
estar empregado, vai estar atrelado a ideia de ser útil à sociedade, ser lucrativo, ser
consumidor. Com isso, a autora nos apresenta questionamentos valiosos para se pensar essa
lógica: “É preciso ‘merecer’ viver para ter esse direito [ao trabalho]?” (p.12) e “Será ‘útil’
viver quando não se é lucrativo ao lucro?” (p.16).
Destacamos essas questões, pois se mostram bastantes lúcidas ao reportar nossa
atenção para o contexto social atual, já que sinalizam aqueles que não têm acesso ao trabalho.
O posicionamento da autora assinala como o conceito de emprego circunda a sociedade,
mesmo quando a oferta de trabalhos não existe. Impõe-se aos sujeitos como condição e razão
de sua existência justamente aquilo que está faltando! Como efeito, a situação de desemprego
é vinculada de forma reiterada a ideia de crise econômica; ideia que Forrester recusa. Para a
autora, não estamos passando por uma crise, mas por uma mutação, em que o mote é a
modificação do sentido de trabalho. Dessa forma, embora não sejam abundantes as ofertas, e
12
muitas as recusas de contratações, um desempregado não é mais objeto de uma
marginalização provisória, ocasional; ele passa a ser objeto de uma lógica que supõe a
inexistência do trabalho. Sobre isso:
[...] Quando tomaremos consciência de que não há crise, nem crises, mas
mutação? Não mutação de uma sociedade, mas mutação brutal de uma
civilização? Participamos de uma nova era, sem conseguir observá-la. Sem
admitir e nem sequer perceber que a era anterior desapareceu. Portanto, não
podendo enterrá-la, passamos os dias a mumificá-la, a considerá-la atual em
atividade, respeitando os rituais de uma dinâmica ausente. Por que essa
projeção permanente de um mundo virtual, de uma sociedade sonâmbula
devastada por problemas fictícios? – o único problema verdadeiro é que
esses problemas não são mais problemas, mas, ao contrário, tornaram-se a
norma dessa época ao mesmo tempo inaugural e crepuscular que não
assumimos. (p.8)
No entanto, mesmo com a supressão das vagas de emprego, os desempregados são
criticados e excluídos por viver em uma vida de miséria ou pela ameaça de que isso ocorra, já
que para merecer viver, o indivíduo deve mostrar-se útil a sociedade, ser lucrativo. Com isso,
o direito à vida passa, portanto, pelo dever de trabalhar, de estar empregado.
Diante deste sistema atual que tende à exclusão, ainda assim resta ao grande número
de indivíduos, até os mais desfavorecidos, mais um papel a cumprir: o de consumidores.
Contradição flagrante entre a precariedade criada desordenadamente e tão propalada
expressão de um crescimento econômico bastante esperado, por assim dizer, apresentado
como a solução de todos os males. Quer sejamos consumidores ou não, somos todos
atravessados por discursos que nos incitam a consumir, e que mais do que isso, colocam o
consumo como ancoragem daquilo que somos, aspecto para o qual converge tanto a análise de
Bauman (2001) como a de Forrester (1997).
Feitas essas breves considerações sobre o cenário atual, entendemos que essas
situações econômicas e sociais nos permitem problematizar, sobremaneira, os modos de
subjetivação, reportando-nos para os modos de ser criança e de se relacionar com a infância
na contemporaneidade. Fazemos essa relação, pois entendemos que esses modos de existência
são construídos justamente pelas condições sociais que emergem em um dado momento
histórico. Sendo assim, muitas das crianças que vivem sua infância hoje fazem parte de um
mundo em que podem ter acesso às mais variadas informações e bens materiais, contudo
também encontramos crianças que se relacionam e organizam o cotidiano de modo diferente.
São crianças que estão à margem das tecnologias, do acesso aos produtos de consumo, que
13
vivem em condições precárias e vivem uma infância diferente da que é comumente
visibilizada nas mídias – crianças submetidas ao horror econômico, como nomeia Forrester
(1997).
Assim, a problematização dos modos de subjetivação e produção da infância precisa,
necessariamente, atentar para as novas formas de organização social e aquilo que aí se
constitui como modelo, referência, bem como seus avessos e refugos. De modo que é
importante salientar que ainda com as disparidades sociais, que estabelecem limites
expressivos aos indivíduos em relação às possibilidades de consumo, encontramos,
principalmente nas mídias, o funcionamento de mecanismos de incitação contínua do desejo
de consumir, atrelados ao modelo capitalista hegemônico, que por sua vez relaciona-se a
produção de certos ideais de sujeitos em nossa sociedade.
Tomamos esse contexto como ponto de partida para, a partir daí, delinear algumas
particularidades dos discursos contemporâneos sobre os modos de ser criança e de se
relacionar com a infância que circulam nos veículos midiáticos, esquadrinhados a partir dos
vetores de consumo e de saber e, sobretudo, apontar seus compromissos com regimes de
verdade que possibilitam o governo da infância.
Diante do exposto, os objetivos dessa dissertação são problematizar os modos de ser
criança e se relacionar com a infância construídos na contemporaneidade a partir de materiais
midiáticos, tomando os vetores consumo e saber. Desta maneira, buscamos também analisar
as estratégias em funcionamento nas mídias que possibilitam a constituição desses modos de
existência a partir de enunciados de consumo e saber; identificar o que se constitui como
objeto de consumo e saber para as crianças; e problematizar o caráter normalizador dessas
práticas pela análise dos “modelos” de infância e das crianças por eles produzidos.
Destacamos também que a importância deste estudo reside na visibilidade e reflexão
sobre a produção de discursos sobre as infâncias, os quais, comumente, parecem seguir uma
lógica natural e linear. Diante disso, pensamos que é preciso dar visibilidade às condições que
acompanharam a produção dos discursos acerca da infância, à regulação dos seus saberes e
dos jogos de poder que a constituem. Nesse sentido, a relevância deste estudo se deve à
problematização dos modos de ser criança e de se relacionar com a infância, em que
buscamos colocar em dúvida a naturalidade dos discursos e a sua normalização, tratando de
analisar a rede de elementos implicada na sua produção.
14
Para tanto, cinco momentos tornam possível nosso propósito. No primeiro capítulo,
apresentamos a trajetória percorrida para o delineamento desta pesquisa e tornamos explícita
nossa proposição metodológica alinhada à pesquisa genealógica.
No segundo capítulo discutimos acerca da construção histórica da infância, buscando
situar a não-linearidade de suas noções. Esse capítulo traz os seguintes pontos como
acontecimentos que possibilitaram essa construção: o higienismo médico e sua influência no
modelo familiar; as diferenças de gênero e o sentimento materno; e as relações entre
imprensa, alfabetização e escola. Abordamos também a relação desses acontecimentos com as
noções de biopolítica e biopoder.
No terceiro capítulo, discorremos acerca do dispositivo midiático e a produção de
sujeitos-crianças como seus objetos discursivos. Para tanto, trabalhamos o conceito de
dispositivo apresentado por Foucault, pensando o dispositivo midiático como uma das
estratégias que operam no governo dos modos de ser e se relacionar com a infância.
As análises foram desdobradas nos dois capítulos seguintes. O quarto capítulo se
refere às estratégias midiáticas identificadas nos materiais selecionados. Problematizamos
como o dispositivo da infância é operacionalizado nos materiais midiáticos, apresentando
estratégias que se mobilizam como condição de possibilidade para a produção de modos de
existência.
Os vetores – consumo e saber, assim como as análises dos materiais em que aparecem,
estão apresentados no quinto capítulo. Com relação ao vetor do consumo, apresentamos o que
se constitui como objeto de consumo para as crianças; como se produz a criança consumidora
e quais discursos posicionam e naturalizam as crianças como agentes das práticas de
consumo. E a respeito do vetor do saber, trazemos em que campos se constituem os saberes
sobre os quais as crianças são autorizadas a falar; como se produz a criança como agente do
saber e quais discursos posicionam e naturalizam as crianças nessa posição.
E por fim, retomamos nas considerações finais a problematização dos modos de ser
criança e se relacionar com a infância como indicativos de práticas normalizadoras e
excludentes da pluralidade de infâncias atuais.
15
1 DELINEAMENTO DA PESQUISA
1.1 Trajetória da pesquisa: mídias e modos de ser criança e se relacionar com a infância
A escolha pelo tema desta dissertação partiu, primeiramente, do interesse pessoal de
tomar as mídias como objeto de análise, considerando-as como uma estratégia produtora de
modos de subjetivação. Como isso, os modos de ser criança e se relacionar com a infância que
eram enunciados e visibilizados nos veículos midiáticos nos capturaram na forma de
estranhamentos que nos suscitavam questões como: Que crianças eram apresentadas nesses
materiais? Que infância era essa? O que as mídias poderiam estar produzindo com a grande
visibilidade que as crianças ganharam nesses veículos?
Como primeiro delineamento da pesquisa, então, escolhemos trabalhar com as mídias
impressa e televisiva, dado os diferentes alcances que elas conseguem ter. Para as mídias
impressas, elegemos as revistas Pais & Filhos 2, Crescer3 e Veja4. As duas primeiras,
escolhemos por apresentarem a temática da infância e seus entornos como foco central, e por
serem as revistas mais comercializadas no país dentro dessa temática. A revista Veja foi
escolhida também pelo critério de ampla circulação nacional, e pela diversidade de temáticas
que dispõem, não sendo focada na infância. Com relação às emissoras, buscamos escolher
aquelas de maiores índices de audiência, como os canais abertos Globo e Record, que por
serem veículos televisivos, atingem um público muito mais amplo que as revistas.
Outro ponto importante acerca dos materiais escolhidos é que, a princípio, todo
material que apresentasse a imagem de crianças, ou apresentasse referência textual à infância
ou crianças, foi considerado. Ressaltamos que, com relação aos materiais televisivos, optamos
por selecionar materiais que fossem veiculados nos períodos matutino e noturno, devido à
diversidade das programações apresentadas para diferentes faixas etárias. A fim de uma
visualização e análise mais adequadas, apenas foram selecionados os materiais televisivos que
puderam ser posteriormente acessados via internet, já que não tomamos programações
específicas, mas sim conforme foram aparecendo randomicamente.
O período estipulado para seleção dos materiais midiáticos foi de junho a
dezembro/2011, levando em consideração ser um período abrangente para visibilizar as
2
Publicação mensal.
Publicação mensal.
4
Publicação semanal.
3
16
continuidades e descontinuidades dos discursos apresentados e o tempo necessário para a
análise do material de acordo com o aprofundamento requerido por uma dissertação de
mestrado.
Em posse dos materiais selecionados, tínhamos anúncios publicitários, reportagens
informativas e educativas, que poderiam nos levar a vários delineamentos desta pesquisa. No
entanto, chamaram-nos especial atenção, a princípio, duas noções que configuravam aspectos
relacionados às crianças, e que identificamos a partir dos vetores consumo e saber. Essa
escolha foi importante, pois utilizamos a aproximação dos materiais encontrados com os
vetores consumo e saber como critério de inclusão e exclusão dos materiais que fizeram parte
da pesquisa.
Com relação ao vetor consumo, buscamos analisar as relações das crianças com as
práticas do consumo e como mediadoras do consumo para os adultos. O outro vetor – saber –
nos direcionou a materiais em que as crianças eram posicionadas em relação ao domínio e
transmissão de saberes para os adultos. Em torno desses vetores, buscamos discutir formas de
produção e posicionamento das crianças e das infâncias na contemporaneidade. Faz-se
necessário destacar que esses vetores se relacionam, de maneira que não os tomamos como
excludentes. Isto é, consideramos que as crianças não aparecem ou como agentes do consumo
ou agentes do saber, mas que essas posições podem e, provavelmente, se atravessam.
Após a separação dos materiais de acordo com os vetores, outra questão também nos
interessou e nos fez retornar às revistas. Não necessariamente se relacionando com os vetores
consumo e saber, interessou-nos a forma como alguns materiais da mídia impressa
apresentavam os modos de ser criança e se relacionar com a infância: alguns traziam a
questão de “diferentes” infâncias e outros apresentavam um caráter de “manual” ao trazer
uma linguagem que busca “ensinar” aos pais como lidarem com seus filhos ou como se
tornarem “melhores” pais. Selecionamos as matérias nas quais pudemos identificar esses tipos
de textos, assim como materiais em que os depoimentos dos pais recebiam posição de
destaque na diagramação da matéria.
Ao descrevermos a trajetória desta pesquisa, pensamos ser importante evidenciar
algumas particularidades em relação às mídias escolhidas. As revistas Pais & Filhos e Crescer
têm um público-alvo bastante restrito. Dirigem-se prioritariamente para “a família, para a
grávida, o grávido e para os pais de crianças até 12 anos”, como as edições de Pais & Filhos
17
descrevem, em todas as publicações, antes de apresentar o sumário; e nas revistas Crescer
encontramos: “é a marca da mulher grávida e dos pais de crianças de até 8 anos”. Nas
publicações da Veja não é descrito explicitamente seu público-alvo, mas dados os conteúdos
apresentados de caráter de atualização acerca dos mais variados acontecimentos mundiais,
identificamos seu público-alvo como adultos.
No entanto, o que queremos salientar aqui é que os conteúdos dessas publicações
orientam enunciados que se aproximam dos contextos sociais e econômicos vividos por um
público-alvo pertencente, majoritariamente, às classes média e alta. Com relação aos materiais
televisivos, por termos escolhido emissoras de canal aberto, essa distinção não se apresenta
tão clara, considerando a ampla circulação desses materiais para um público diverso.
Esses são aspectos que buscamos também problematizar durante a análise,
considerando os possíveis atravessamentos que podem suscitar, como a produção de um
modo hegemônico de ser criança e se relacionar com a infância, mas que não corresponde e
não abarca às diferentes infâncias que existem. Isso acaba por constituir práticas que tendem a
normalizar alguns sujeitos e excluir outros, como efeitos dispersos de diferentes discursos que
circulam e fazem circular sobre esses modos de existência.
A análise desses materiais escolhidos nos possibilitou evidenciar os processos por
meio dos quais determinados modos de ser criança e se relacionar com a infância são
produzidos, assim como identificar as estratégias de produção e veiculação dos modos de ser
criança, suas normalizações, suas implicações nos modos de produção de subjetividades e
formas de governamentalidade.
Por fim, apresentamos os materiais utilizados na análise proposta nesta pesquisa.
Totalizaram-se 29 materiais 5, desses 27 foram da mídia impressa e 02 da mídia televisiva. No
quadro 01, identificamos o título da matéria ou a marca do anúncio (no caso das
publicidades), o tipo do material (matéria, anúncio publicitário, teste), a fonte de onde
retiramos o material, a edição, o vetor que identificamos, e acrescentamos nas observações os
materiais que incluímos fora dos vetores.
5
Os materiais apresentados nesta dissertação encontram-se descritos no apêndice A.
18
Quadro 1 – Breve apresentação dos materiais utilizados na análise desta dissertação
(continua)
Nº
Identificação
Tipo
Fonte
Edição
Vetor
01
Marca
PediaSure
Anúncio
Publicitário
Pais & Filhos
Julho
Consumo
02
Marca
FischerPrice
Anúncio
Publicitário
Julho
Consumo
03
Marca Natura
Anúncio
Publicitário
Pais & Filhos
Julho
Consumo
04
Família
diferente, vida
normal
Matéria
Pais & Filhos
Julho
05
Pingo nos is
Matéria
Pais & Filhos
Agosto
06
Como pensam
os pais
Matéria
Pais & Filhos
Agosto
Manual para os
pais
07
Abaixo a culpa!
Matéria
Pais & Filhos
Agosto
Manual para os
pais
08
Introvertidos X
Extrovertidos
Matéria
Pais & Filhos
Setembro
Manual para os
pais
09
Banco Itaú
Anúncio
Publicitário
Pais & Filhos
Outubro
Consumo
10
No dia das
crianças, um
futuro de
presente
Matéria
Pais & Filhos
Outubro
Consumo
11
Caça ao tesouro
Matéria
Pais & Filhos
Outubro
Saber
Matéria
Pais &Filhos
Dezembro
Consumo
Matéria
Crescer
Julho
Consumo
Seção da
revista
Crescer
Julho
Anúncio
publicitário
Crescer
Julho
Consumo
Matéria
Crescer
Julho
Consumo
Matéria
Crescer
Agosto
Matéria
Crescer
Agosto
12
13
14
15
16
17
18
Brinquedo,
brinquedo
meu...
Tudo para você
escolher a
melhor escola
Funcionou
comigo – Aqui
o especialista é
você
Marca Mundo
do sítio
Esse dinheiro é
seu!
Como preparar
seu filho para a
vida
Com a cabeça
no mundo
virtual
Pais & Filhos
Observação
Infância
“diferente”
Saber
Manual para os
pais
Manual para os
pais
Saber
19
Quadro 1 – Breve apresentação dos materiais utilizados na análise desta dissertação
(conclusão)
Nº
Identificação
19
Marca Citröen
Você sabe o
quanto sua
família é verde?
O céu não é o
21
limite
Dez inspirações
para entender
que a
22
autoestima
muda tudo
Esse ano seu
23
filho vai...
Criança também
24
decide
Matrícula na
25
hora certa
O bê-á-bá das
26
finanças
Férias divertidas
27
Alunos
participam do
28
projeto AL TV
Cuidado com a
aparência vira
29
necessidade
desde cedo
Fonte: Autora, 2012.
20
Tipo
Anúncio
publicitário
Fonte
Edição
Vetor
Observação
Crescer
Agosto
Consumo
Teste
Crescer
Agosto
Consumo
Matéria
Crescer
Novembro
Infância “diferente”
Matéria
Crescer
Novembro
Manual para os pais
Matéria
Crescer
Dezembro
Manual para os pais
Matéria
Crescer
Dezembro
Consumo
Matéria
Veja
28/09/2011
Consumo
Matéria
Veja
16/11/2011
Matéria
Veja
14/12/2011
Consumo
Matéria
televisiva
Jornal AL TV
- Globo
27/10/2011
Saber
Matéria
televisiva
Jornal da
Record –
Record
20/12/2011
Consumo
Manual para os pais
1.2 Uma genealogia dos modos de ser criança e se relacionar com a infância a partir de
materiais midiáticos
A proposta de construção dessa pesquisa se ancora no exercício que Michel Foucault
faz ao problematizar os modos de existência, a partir de uma análise que toma o sujeito na
trama histórica, afastando-se da ideia de um sujeito em sua essência humana e universal. Ao
questionar os modos de ser criança e se relacionar com a infância que são veiculados pelas
mídias atuais, buscamos compreender como as “verdades” que circulam nesses veículos
produzem modos específicos de existência.
Para que seja possível indagar como construímos esses modos de subjetivação
propomos, na realização desta pesquisa, o exercício de indagar sobre a produção e circulação
de discursos que legitimam e fabricam os modos de ser criança e se relacionar com a infância,
20
através das práticas de assujeitamento6. Para tanto, optamos por trabalhar com a perspectiva
genealógica foucaultiana, buscando desnaturalizar as noções evidenciadas na rede discursiva e
histórica, implicadas na construção de determinados modos de ser relacionados com os
vetores consumo e saber, bem como as condições de possibilidade envolvidas nas estratégias
midiáticas para a ampla circulação de enunciados.
Tal perspectiva nos aproxima da proposta de trabalho com Foucault na Psicologia
Social (GUARESCH; HÜNING, 2009), que busca tomar o processo de pesquisa como um
movimento que coloca em questão não apenas os produtos do conhecimento, mas os próprios
modos como fomos historicamente levados a construir as formas de pensar e agir. Ou seja,
indagar o porquê pensamos e agimos desse jeito e não de outros jeitos. Ou ainda nos norteia a
fazer uma história do presente, a história dos modos de ser criança e se relacionar com a
infância que estamos construindo a partir das condições de possibilidades emergentes hoje.
Desta forma, buscamos dar visibilidade às séries discursivas que constituem os modos
de existência preconizados, discorrendo sobre como devem ser os sujeitos-crianças e aqueles
com quem elas se relacionam, fundamentalmente, os pais e mães. Com isso, a genealogia nos
apresenta os princípios introduzidos por Foucault para a análise das produções históricodiscursivas, orientando-nos como o modo de questionar nosso objeto de análise, numa gama
de procedimentos de desfamiliarização e de reconceitualizações (HOOK; HÜNING, 2009).
Nesse sentido, quisemos evidenciar a singularidade dos acontecimentos, suas
descontinuidades e complexidades, opondo-nos às tendências de explicações universalizantes.
Consideramos, assim, a produção da infância e dos modos de ser criança, como um processo
histórico não-linear, pensando-o a partir da rede discursiva que o produz, e das rupturas e
descontinuidades dessas noções. Para tanto, faz-se importante ressaltar que a genealogia não
trabalha com as posições de essência ou identidade (HOOK; HÜNING,2009).
Elegemos a mídia como campo discursivo para essa análise em função de sua potência
na produção de regimes de verdade, os quais possibilitam que os discursos se tornem
verdadeiros de acordo com as circunstâncias em que são enunciados. Nesta perspectiva, a
6
É importante salientar que, embora analisemos os modos de ser criança e se relacionar com a infância, o
alcance dos seus efeitos não atinge apenas as crianças, pois acabam por interpelar pessoas em todas as idades, ao
produzir modos de ser, agir e pensar acerca do universo infantil e das crianças.
21
genealogia não está direcionada à descoberta da verdade, nem a produzir saberes mais
verdadeiros, mas a evidenciar as relações entre os jogos de poder e saber e a produção de
sujeitos. Como nos diz Foucault (2007) “É preciso se livrar do sujeito constituinte, livrar-se
do próprio sujeito, isto é, chegar a uma análise que possa dar conta da constituição do sujeito
na trama histórica” (p. 7). Com isso, tomamos as mídias como um dos objetos que constituem
essa trama histórica, que produzem os modos de ser criança e se relacionar com a infância na
atualidade.
Dessa forma, no exercício da prática genealógica, consideramos importante assinalar
as rupturas onde se pensava haver continuidades, permitindo assim, não apenas conhecer o
passado, mas pôr em evidência também o presente, em suas condições de possibilidade para a
emergência do objeto na atualidade (VEIGA-NETO, 2003). Devemos, nas palavras de
Foucault (2007):
Demarcar os acidentes, os ínfimos desvios – ou ao contrário as inversões
completas – os erros, as falhas na apreciação, os maus cálculos que deram
nascimento ao que existe e tem valor para nós; é descobrir que na raiz
daquilo que nós conhecemos e daquilo que nós somos – não existem a
verdade e o ser, mas a exterioridade do acidente (p.21).
Consoante a isso, devemos estabelecer as complexas relações entre um tempo
determinado, as verdades que são veiculadas, a materialidade da produção dessas verdades, as
lutas em jogo e os modos de sujeição e subjetivação a elas correspondentes. Ao estabelecer
um debate entre mídias e modos de subjetivação, Fischer (2002) pontua que é fundamental
delimitar de que grupos estamos falando, de que época e de que lugar estamos tratando. Fazse importante destacar, então, que: “não extrairemos das imagens representações acabadas,
mas antes possibilidades de significação, datadas e bem localizadas, seja do ponto de vista
daqueles que produziram e colocam em circulação, seja do ponto de vista daqueles que a
receberam e, com ela, de alguma forma, interagiram” (FISCHER, 2002, p.83).
Essa análise nos remete, então, ao processo de governo dos indivíduos e de suas
condutas. A questão do governo dos modos de existência nos interessa na medida em que
podemos visualizá-lo nos modos pelos quais as pessoas são governadas a partir do dispositivo
midiático como uma condição de adequação à sociedade contemporânea. Esse
posicionamento nos permite problematizar a produção de subjetividades e os assujeitamentos
incitados por essa política da verdade instituída a partir dos alinhamentos das estratégias
midiáticas que orientam as condutas das pessoas, em seus modos de ser e agir.
22
Nossa proposta de explicitar as estratégias utilizadas pelas mídias permite concebê-las
como um aparelho que coloca em operação uma série de tecnologias que têm por finalidade
moldar e modelar as condutas infantis. Isso pela potência de que os discursos que circulam em
seus veículos sejam tomados como verdades. No que concerne ao nosso tema de pesquisa,
temos a produção de uma infância naturalizada que, se não for questionada de forma atenta,
pode suprimir e tornar invisíveis a diversidade de infâncias que conhecemos e que existem
(BUJES, 2002).
Demarcamos assim nossa compreensão de que não é possível reduzir a diversidade de
formas de vida das crianças a uma só infância, universalizada e naturalizada. É preciso levar
em consideração as diferentes infâncias que existem, sejam mais pobres, mais ricas,
superprotegidas, abandonadas (DORNELLES, 2005).
Pensar as relações de poder a partir desse processo, consiste em tomá-las em seu
exercício de conduzir condutas. Sobre isso, Foucault (2010b) destaca que devemos abandonar
a visão tradicional do poder onde sua atuação se basearia fundamentalmente em seus aspectos
negativos, como a proibição ou repressão. O autor nos faz pensar no poder como algo que
produz: produz realidades, conhecimentos, modos de ser. Outro ponto relevante sobre o
poder, é que ele se exerce em relação a algo, em um movimento contínuo. Não é algo que
tenha propriedade ou que se adquira, o poder se exerce.
Foi necessário fazer esse apontamento, pois definimos os materiais midiáticos, como
uma produção das articulações entre as relações de poder e as vontades de saber (BUJES,
2002). Nesse sentido, compreendemos que as crianças, bem como os adultos, são capturados
pelas regulações do poder nessa conjugação da relação de produção de subjetividade e
práticas de consumo. As estratégias utilizadas nos anúncios de produtos e serviços buscam
produzir consumidores, mas, para além disso, visam produzir saberes sobre esses sujeitos.
A grande quantidade de materiais midiáticos encontrados a respeito da temática da
infância, já nos sinaliza a intensificação da produção discursiva a seu respeito, fazendo com
que os fenômenos relacionados com a população infantil passem a ser descritos, ordenados,
calculados, categorizados, tornando as crianças e as infâncias alvos de determinadas
instituições e foco de tecnologias de poder (BUJES, 2002).
23
Enfatizamos ainda, que além de se falar sobre as crianças ou sobre as infâncias, é
frequente a participação das próprias crianças nas propagandas e nas mídias, o que lhes
confere uma visibilidade significativa e posiciona-as como possíveis “responsáveis” pela
sedução/convencimento do público (infantil e/ou adulto) em relação aos atributos, vantagens e
possíveis recompensas dos produtos. Desse modo, as crianças assumem um lugar de
interlocução pública, elas adquirem o direito de serem ouvidas publicamente, postulam o
reconhecimento dos seus discursos e instituem uma forma específica de participação
(SAMPAIO, 2000).
Destacamos nesta pesquisa, além da participação das crianças nas práticas de
consumo, outros enunciados que as posicionam como detentoras de saberes e capacidades.
Conforme Souza (2000), na sociedade atual, em que as tecnologias e as mídias ganham cada
vez mais destaque, as crianças passam a conhecer e se relacionar com o mundo através da
intensa e constante afinidade com as tecnologias, propiciando uma nova inserção na cultura,
em que suas identificações passam a ser mediadas na ordem do virtual.
É principalmente essa relação com as tecnologias que nos remete ao segundo vetor de
análise proposto nesta pesquisa, as relações das crianças com o domínio e transmissão de
saberes para os adultos. Retomando os estudos de Ariès (1981), podemos afirmar que a
criança desde o século XVII era vista como aprendiz, aquele que deve receber ensinamentos e
ser educado pelos adultos. No entanto, sinalizamos a não-continuidade dessa noção de “ser
criança”, ao serem veiculados nas mídias, enunciados que posicionam as crianças de outra
maneira, como “educadoras” do adulto.
Sobre isso, Postman (1999) considera que as mídias, em especial a televisão e a
internet, propõem um desafio tanto à autoridade do adulto como à curiosidade das crianças.
Devido à facilidade de acesso às informações, as crianças confiariam mais em notícias
veiculadas na mídia do que na autoridade do adulto. Steinberg e Kincheloe (2001) também
apontam essa ideia, considerando que os adultos perderam a autoridade que tinham antes por
saberem coisas que as crianças não sabiam, já que agora as crianças têm acesso aos
produtores de informações. Para os autores, esta mudança no acesso ao conhecimento (antes
restrito ao adulto) sobre o mundo, bem como a mudança que produz nos modos de ser criança
e se relacionar com a infância têm minado as noções tradicionais de infância.
24
Ainda que estas formas discursivas não sejam uma novidade, nem uma unanimidade,
tais concepções estão incorporadas nos modos de ser e agir construídos como modos de
existência para as crianças. Conforme Bujes (2002), são essas formas de constituir que
engendram, num mesmo movimento, as formas práticas das estratégias de governo desses
sujeitos-crianças.
No contato com os materiais, alguns questionamentos surgiram: Quais os modos de
ser criança e se relacionar com a infância que podem ser identificados nos materiais
midiáticos? O que vai se constituir como objeto de consumo e saber para as crianças? O que
se mobiliza quando as crianças são mediadoras do consumo e do saber? Que discursos e
saberes posicionam e naturalizam esses modos de existência?
Na busca de delinear contornos para essas questões foi possível identificar alguns
efeitos dos saberes e dos poderes, no que se refere aos modos de ser criança e se relacionar
com a infância que são aceitos e, sobremaneira, normatizados em nosso momento histórico. É
parte desse percurso genealógico que propomos, a análise das relações entre saber e poder,
pois elas darão conta dos efeitos que a normalização e inclusão (e consequentemente a
exclusão) dos modos de existência dos sujeitos, permitem a atribuição de um juízo de valor
pelo qual os incluídos estão em vantagem sobre os excluídos. Ao passo que nomeando suas
existências e modos de ser, o dispositivo midiático assume uma posição de controle sobre as
condutas dos sujeitos-crianças e dos que estão ao seu redor.
Segundo Foucault (2010b), a normatização é uma invenção que tem como propósito
delimitar os limites da existência, a partir do que se estabelece dentro de uma homogeneidade,
que é regra e introduz uma gradação das diferenças individuais, para os quais as práticas de
normalização devem se voltar. A norma, portanto, marca a existência de modos de ser
tomados como ideais e que servem para mostrar e demarcar também aqueles que estão fora da
curva da normalidade. Para tanto, insta frisar que a norma, que vai instituir os iguais, também
é utilizada para normalizar as diferenças.
Isso nos orienta a refletir a respeito do que se lança mão para excluir quem está fora
dessas normas, ao mesmo tempo em que se pretende alinhar os que dela fazem parte. É, então,
através dos saberes e poderes que instituem a norma que surge a finalidade de conhecer,
classificar e distribuir os sujeitos. A construção do que é instituído como norma se dá através
da articulação de regimes de saber, poder e dispositivos, como o aqui estudado, midiático, que
25
incluem ou excluem os indivíduos, funcionando como uma regulação social. De forma que os
modos de ser criança e se relacionar com a infância socialmente aceitos e valorizados são
também representados positivamente como modelos para regular as condutas e ações dos
indivíduos em geral.
Temos hoje um conjunto de normas pedagógicas, psicológicas, médicas, que são vistas
como naturais e que se impõem na descrição e nomeação dos corpos dos sujeitos- crianças e
adultos. Porém, nesse conjunto de normas, identidades como as de raça, gênero, classe social,
etnia e outras acabam muitas vezes sendo suprimidas, pois o foco de atenção é o sujeito que
se adéqua ao definido pela norma, e o que fazer para continuar a governá-lo.
Temos assim o exercício de uma prática genealógica que nos norteia à
problematização dos modos de existência tomados como evidentes na configuração do tecido
social, tratando de ressaltar aquilo que marca a singularidade e o caráter construído das
noções vigentes. Tomando isso como base, o processo de construção dessa dissertação não
busca as verdades ou origens sobre os modos de ser criança e se relacionar com a infância,
mas as condições de possibilidade para o aparecimento de enunciados que se reportam a esses
modos de ser nos veículos midiáticos, em torno dos vetores cosumo e saber.
Consequentemente, possibilita-nos a analisar os modos como hoje produzimos formas
hegemônicas de explicação sobre como são as crianças e como devemos nos relacionar com a
infância.
26
2
CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA INFÂNCIA
2.1 Acontecimentos que marcam a produção da infância
Neste capítulo são colocadas em evidência as condições históricas para a emergência
de acontecimentos voltados para a produção da infância. Como uma forma de problematizar
os modos de ser criança e se relacionar com a infância produzidos na contemporaneidade,
consideramos válido, para uma prática genealógica, explicitar os regimes de verdade que
sustentaram, em diferentes épocas, os modos de subjetivação relacionados aos modelos de
infância e de crianças produzidos.
Optamos por marcar os acontecimentos históricos da produção da infância a partir dos
seguintes pontos: o higienismo médico e sua influência no modelo familiar; as diferenças de
gênero e o sentimento materno; e as relações entre imprensa, alfabetização e escola. Ao final
desse capítulo, abordamos a relação desses elementos com as noções foucaultianas de
biopolítica e biopoder, e a produção e governo da infância. Consideramos que o delineamento
das condições de emergência, tomando esses aspectos como norteadores, direciona-nos para
os modos como as crianças e seus entornos se tornaram alvos das estratégias de governo das
condutas. Nessa linha, tomamos os acontecimentos históricos como fundamentais para se
visibilizar os mecanismos de produção e assujeitamento que se colocam em movimento para a
instituição de modos de ser criança e se relacionar com a infância tornados hegemônicos.
2.1.1 Higienismo médico e sua influência no modelo familiar
A história da produção da infância começa a delinear contornos próprios entre os
séculos XVI e XVIII (ARIÈS,1981), a partir de algumas práticas bastante comuns que
atentam para a construção do sujeito-criança, devido às transformações sociais e culturais
ocorridas em diferentes localidades. Afastando-nos da perspectiva de tomar a infância como
um processo natural dos indivíduos, buscamos explorar as condições de possibilidade
históricas, sociais e culturais, que proporcionaram a emergência da ideia de infância que
conhecemos hoje.
Partindo dos estudos de Ariès (1981), vemos que até o século XII a infância não era
percebida na sociedade. Em pinturas da época, as crianças eram reproduzidas como adultos
27
em miniatura, apenas seu tamanho as distinguia dos adultos e não havia nenhuma diferença na
expressão ou nos traços. Nessas cenas, a presença das crianças se dava sem destaque, dentro
de um grupo, quase sempre familiar. Desta forma, estava a vida cotidiana das crianças, tanto
nas pinturas como na sociedade, sem distinção com a os adultos (ARIÈS, 1981).
O autor destaca também que as crianças eram tratadas como adultos em miniatura,
tanto na maneira de se vestir, como na participação ativa em reuniões e festas. Os adultos se
relacionavam com as crianças sem discriminações, tudo era permitido, realizado e discutido
na sua presença, pois não acreditavam na possibilidade da existência de uma inocência pueril,
ou na diferença de características entre adultos e crianças. Dessa forma, as crianças eram
submetidas e preparadas para as atividades dentro da organização social. Nas palavras de
Ariès: “[...] até o fim do século XIII, não existem crianças caracterizadas por uma expressão
particular, e sim homens de tamanho reduzido” (ARIÈS, 1981, p. 39).
Segundo o autor, uma caracterização da fase da infância, nessa época, seria a ausência
da fala e por comportamentos irracionais. Nesse sentido, a infância se contraporia à vida
adulta, pois os comportamentos considerados “racionais” seriam encontrados apenas no
indivíduo adulto, identificando-o, assim, como aquele que pensa, raciocina e age, com
capacidade para alterar o mundo que o cerca; tal capacidade não seria possível às crianças. A
infância passa a se delinear, assim, como uma condição de “vir a ser” com a passagem da vida
adulta.
Nesse contexto, o sentimento de amor materno não existia como uma referência à
afetividade, o que posiciona a família como social e não sentimental. No entanto, no século
XVII e mais intensamente no século XVIII – século das luzes - houve grandes mudanças em
relação à criança. Foi o período no qual começou a surgir uma nova concepção de infância,
até mesmo na forma de vesti-la, que até então era muito semelhante a do adulto. A criança,
então, deixa de ser vista pela família como um adulto em miniatura ou ser incompleto, sem
importância no seio familiar, para mais tarde, no século XVIII, começar a ser entendida como
ser humano em processo de formação e desenvolvimento, que necessitava de cuidados
específicos.
Outro aspecto que consideramos significativo na história da infância, e que está
relacionado às formas como historicamente fomos construindo as relações com a infância e
instituindo modos de cuidado, é o funcionamento do dispositivo da “roda dos expostos”.
28
Embora a roda não tenha passado de um restrito episódio, localizado em poucos países, como
Itália, França, Alemanha, Portugal e Brasil, e durante alguns séculos somente, marcamos esse
funcionamento como um mecanismo que merece ser descrito. Isso porque foi um dispositivo
institucionalmente constituído de atendimento à infância enjeitada, situando-nos, neste
contexto, a respeito da não valorização social da função materna e de seu correspondente, as
crianças (CORAZZA, 2004).
Segundo Corazza (2004), desde a antiguidade até os séculos XII e XIII, algumas
crianças recém-nascidas, ou nos primeiros dias, meses, anos de vida, eram deixadas pela mãe,
pai ou ambos, em qualquer lugar, como lixo, em vias públicas, na entrada de casa
aristocráticas, em portas de igrejas, hospitais. Essas crianças eram chamadas de “enjeitadas”,
“achadas”, “abandonadas”, mas o termo genérico e corrente com o qual foram historicamente
designadas consistiu em “crianças expostas”.
A “exposição” foi sendo tratada das mais diversas formas, a partir do período do
Renascimento até a Modernidade (nos referimos ao período entre os séculos XIV e XVIII).
Sendo nessa última, quando se constituiu como uma questão de governo para os Estados,
devido à necessidade de aumentar e regular a população, distribuir e agrupar os indivíduos nas
cidades e vilas, e administrar os recursos na gestão econômica das riquezas. Nessa época, a
Igreja Católica também condenou a prática da “exposição”, assim como o aborto e o
infanticídio, providenciando a institucionalização do recolhimento das expostas (CORAZZA,
2004).
A partir disso, foi designado o nome de “Roda” para o dispositivo onde eram
depositadas as crianças em instituições caritativas. A autora descreve: “A Roda consistia em
um cilindro de madeira, incrustado em uma parede de pedra, onde era preso por um eixo
vertical que a fazia girar, com uma parte da superfície lateral aberta, por onde eram
introduzidas as crianças” (CORAZZA, 2004, p.70).
Nesse período, era frequente o fato de os casamentos acontecerem a partir de
interesses econômicos e sociais, embora muitas vezes nascessem filhos de relacionamentos
que não eram socialmente aceitos, como filhos de escravas com seus senhores ou filhos de
casais que mantinham relacionamentos escondidos da família, o que inevitavelmente, causava
abandono de crianças indesejadas e maus-tratos, o que criou a necessidade da implantação das
casas de roda, igualmente conhecidas por roda dos expostos ou casa dos enjeitados,
29
instituições que tinham como objetivo caritativo-assistencial recolher as crianças abandonadas
(CORAZZA, 2004; LUENGO,2010).
Por conta disso, as casas de roda tornaram-se um grande depósito de crianças
expostas. Embora essas casas tenham sido fundadas e mantidas com o intuito de proteger a
honra da família e a vida da infância, houve um abuso por parte de homens e mulheres que
passaram a ver a roda como uma alternativa para encobrir suas transgressões sexuais, ou seja,
estavam certos de que poderiam esconder filhos ilegítimos ou rejeitados num local onde
seriam bem tratados, sem prejuízo da própria imagem. Com isso, a roda incitava a
libertinagem, o que desembocou uma superpopulação de crianças abandonadas, que
chegavam muitas vezes à beira da morte em um lugar no qual obtinham atenção precária
(LUENGO, 2010).
Segundo Luengo (2010), por conta da enorme quantidade de crianças abandonadas na
roda, surgiu um novo tipo de trabalho para as mulheres que buscavam uma forma de sustento,
ser ama de leite das crianças abandonadas na roda. As amas de leite mercenárias, como eram
chamadas, amamentavam sem nenhum comprometimento nem higiene e muito menos afeto, o
que acarretava morte prematura de muitas crianças dentro das instituições, que eram tidas
como perdas eventuais.
Por motivos como a falta de higiene e de recursos econômicos para manter seus
abrigados, o dispositivo da roda foi extinto entre os séculos XVIII e XIX nos países da
Europa e no Brasil. Nesse período, o movimento higienista começa a ganhar terreno no Brasil
em um contexto bastante específico. Diante da ineficácia na ordenação do meio urbano, o
Estado começa a estabelecer uma estratégia: a inserção da medicina higiênica no governo
político dos indivíduos (CORAZZA, 2004).
Esta intervenção médica, que pretendia restabelecer a ordem nas cidades brasileiras,
começa a delinear uma série de transformações no que se refere à organização do espaço da
cidade e da estrutura social. Com a inscrição da saúde na política do Estado, o saber médico
passa a operar sobre diversos fenômenos físicos, humanos e sociais, estabelecendo, para cada
30
campo, políticas específicas. Dentre estas, as ações direcionadas à família e à escola7
ocuparam um lugar estratégico.
A atuação higiênica da medicina, na tentativa de organizar o espaço urbano,
encontrava na família um forte opositor, pois, frequentemente, os hábitos e condutas que
seguiam a tradição familiar levavam os indivíduos a não se subordinarem aos objetivos do
Estado. Na tentativa de solucionar essa resistência, a medicina social buscou estratégias para
tornar a família sua aliada. Assim, buscaram-se mostrar os ganhos advindos dos cuidados
médicos, valorizar a vida e tomar a família como uma rede complexa de identidades, adultos e
crianças, homens e mulheres.
Estas construções, da organização da família brasileira em torno dos ideais higiênicos,
sofreram influências das transformações sociais que operaram no contexto político e
econômico da Revolução Industrial na Europa no século XVIII. Ao mesmo tempo em que se
estabelecia a industrialização na Europa, transformando as relações sociais, a consolidação e o
avanço de conhecimentos científicos, principalmente, no campo da medicina, promovia uma
significativa diminuição na mortalidade infantil. Descobertas como as vacinas, a possibilidade
de pasteurização do leite de vaca, o controle da natalidade cada vez mais difundido através
das práticas contraceptivas, entre outras, situam o saber médico em um lugar preponderante
nas discussões sobre a criança (LUENGO, 2010).
Colocamos, assim, em destaque o século XVIII pela grande mudança com relação à
imagem da infância. No entanto, faz-se necessário frisar que nem os efeitos nem a forma de
intervenção com vistas aos cuidados das crianças foi a mesma para ricos e pobres. Assim, sob
a perspectiva de Donzelot (1986), é de particular significação na história da ação dos
médicos-higienistas o fato de, para as famílias burguesas, a intervenção, voltada ao cuidado
das crianças, se deu por meio do estabelecimento de aliança entre família e medicina. Ou seja,
difundir um conjunto de conhecimentos e de técnicas para que os cuidados com as crianças
fiquem sob a vigilância dos pais. Para as famílias populares, os preceitos higiênicos foram
colocados em funcionamento, segundo os planos da economia social. Neste caso, a ideia era
agrupar, sob a etiqueta de “economia social” todas as formas de direção da vida dos pobres
com o objetivo de diminuir o custo social de sua reprodução e de obter um número desejável
de trabalhadores com um mínimo de gastos públicos, impedindo-os do disfarçado abandono
7
A respeito das ações direcionadas à escola, trataremos no tópico Relações entre a imprensa, alfabetização e
escola.
31
de crianças em casa de amas de leite ou nas casas de roda – algo que onerava a economia do
Estado.
No que diz respeito a esse acontecimento no território nacional, os efeitos do processo
de industrialização e de valorização do discurso científico com o uma verdade, começaram a
ter repercussão no início do século XX. Estes fatores foram determinantes para que o saber
médico fosse utilizado com o objetivo de disciplinar a elite que emergia contestando o poder
do Estado e controlar o crescente contingente populacional marginalizado (DONZELOT,
1986). Neste sentido, as críticas dos higienistas a duas práticas tradicionais, a Roda dos
Expostos e o aleitamento mercenário, até então amplamente utilizadas, passam a ser
paradigmas para as investidas da medicina social no campo da família e da infância.
As críticas ao uso da Roda e de amas mercenárias surgem com objetivo de reformular
a conduta das mulheres em relação aos cuidados com seus filhos, o que passou a ser
defendidos pelos médicos higienistas como fundamentais durante toda a primeira infância. O
aleitamento materno passa, então, a ser valorizado, pois mantém os laços entre a criança e sua
mãe.
Aliada a estas condições do infantil, há que se considerar, que as características da
época, faziam dessas práticas, ações comuns e não condenáveis. Um bom exemplo disso é o
próprio contexto em que o corpo não tinha semelhante valor de mercado, tal como concebido
na época industrial. O corpo era visto com desprezo, tanto devido aos valores próprios ao
cristianismo, como também pelo estado de precariedade das situações demográfica e
biológica que se encontravam (CORAZZA, 2004).
2.1.2 Diferenças de gênero e o sentimento materno
Tomamos as relações de gênero como um dos acontecimentos na produção da
infância, pois é a partir da diferenciação de papéis entre homens e mulheres, que uma prática
de cuidados com a infância pôde se constituir. Dizemos isso, pois para operar na vida desses
recém “descobertos” sujeitos-crianças, foi preciso convencer cada vez mais as mães a se
aplicarem nas tarefas que até então estavam esquecidas ou afastadas de seu cotidiano. Havia
de ser fundamental o entendimento e a proliferação de discursos que associavam as palavras
“amor” e “materno” – o que significava não só a promoção de um sentimento, mas a
32
importância considerável que a mulher passa a assumir dentro da esfera familiar
(MARCELLO, 2009).
A valorização da posição de sujeito da mãe frente aos cuidados dos filhos a permite
assumir o papel de uma “agente” vital do biopoder. As mães são encorajadas a amamentar
seus filhos, fato este que marca profundamente as formas de conceber as relações de gênero
na sociedade, elegendo a figura materna como protagonista das relações de subsistência entre
os seres humanos na primeira etapa de suas vidas, tornando a amamentação um fato “natural”
(DONZELOT, 1986).
Marcello (2009) salienta que, ainda no final do século XVIII, foi possível também
enunciar uma diferença entre os sexos. Até então, privilegiava-se o entendimento de um sexo
único e, portanto, regulatório – qual seja, o masculino. Este modelo de sexo único foi
constituído desde a filosofia grega e perdurou até a Revolução Francesa – período em que não
conseguiu garantir a legitimidade e sua consolidação. Os ideais de igualdade entre os cidadãos
participantes deste movimento histórico se impuseram de tal forma que se tornou
insustentável a manutenção da hierarquia proposta pelo modelo do sexo único, pois a
caracterização do corpo não buscava mais semelhança entre eles, mas suas diferenças, com
fundamento na desigualdade natural. Houve, assim, necessidade contingente da promoção de
uma diferenciação entre homens e mulheres para que essa garantia fosse retoricamente
almejada.
Sendo assim, a ideia de uma diferença sexual é recente. A partir dessa diferenciação
fez-se possível a inserção política e o cumprimento de papéis sociais desiguais entre homens e
mulheres. Diferenciados, homens e mulheres tiveram suas funções marcadas pelo
determinismo natural de seus corpos. Com a devida legitimação do discurso da ciência, foram
delineadas as finalidades que cada qual deveria cumprir no âmbito social, econômico, cultural
da sociedade. Com isso, a garantia de que a mulher fosse condenada ao espaço privado do lar
e nele desempenhasse um exercício legitimado – qual seja, sua “governabilidade” – foi
ampliada (MARCELLO, 2009).
A instauração dessa nova lógica coloca em funcionamento como fator principal a
questão da reprodução da espécie. Foi a partir da ideia de diferenciação sexual que a
maternidade pôde ter seu sentido marcado pela ordem instintiva, de forma que se fez da
prática materna uma condição do “ser mulher”. Historicamente e a partir da ciência da época,
33
o controle, o detalhamento e a minúcia de elementos do corpo feminino fizeram com que
fossem promovidas condições de possibilidade concretas para instituir a maternidade como
uma finalidade biológica e fazer com o que o sujeito-mulher dialogasse e interagisse com o
sujeito-mãe – o que marca a concepção de maternidade que perdurou durante o século XIX e
que persiste até hoje.
Tais investidas sobre os corpos e seus respectivos procedimentos de diferenciação,
demarcaram não apenas posições para homens e mulheres, mas relacionaram-se a novas
formas de investimentos e cuidados sobre as crianças. Constituem-se, desse modo, um dos
marcadores históricos que podemos associar a constituição da infância. Como veremos
adiante, o apelo a tais posições atravessará, na contemporaneidade, os discursos sobre o que é
ser criança e formas específicas de se relacionar com ela, articulando as questões de um
modelo de família, inicialmente pontuadas, com as relações de gênero instituídas.
2.1.3 Relações entre imprensa, alfabetização e escola
Postman (1999) descreve mais um fator que possibilitou modificações nos modos de
ser criança - o surgimento da tipografia, no século XV. Através do advento da imprensa foi
possível a propagação do conhecimento e o hábito individual da leitura pôde se instituir. Essa
mudança proporcionou outra etapa no desenvolvimento infantil, já que após o domínio da
linguagem oral, a criança tinha que desenvolver as habilidades para dominar a escrita, apenas
desta forma ela poderia ter acesso às informações que os adultos dominavam. A partir daí, a
idade adulta tinha que ser conquistada, já que longe de expressar apenas uma fase biológica
do desenvolvimento humano, era moldada na esfera da cultura.
Desta forma, com a chegada da imprensa, aumentou a necessidade da alfabetização,
porém acreditava-se que somente o adulto era capaz de aprender, pois a criança ainda não era
dotada de razão. Havia, assim, um marco de passagem entre a infância (ser sem razão e sem
cultura) e a fase adulta (ser com razão e capaz de aprender). Ao considerar que deter a
exclusividade da informação é o que marcaria os membros de um determinado grupo, as
crianças pertenceriam ao grupo de pessoas que não sabiam certas coisas que seriam
inadequadas para suas idades.
34
Nesse sentido, Postman (1999) aponta que a alfabetização das crianças, juntamente
com a difusão da imprensa (e isso já se estende à atualidade), propiciou que os segredos
fossem acessíveis a todos, sem distinção de idade. O efeito dessa situação foi eliminar a
exclusividade do conhecimento mundano e, portanto, como afirma o autor, suprimir uma das
principais diferenças entre a infância e a idade adulta.
Assim, se até então as crianças não tinham importância social, como descreve Ariès, a
partir do século XVII começa a existir por parte da família um interesse pelo desenvolvimento
físico-emocional dos filhos, começando a tratá-los de maneira mais individualizada. Essa
percepção fez surgir uma preocupação em separar o mundo infantil do mundo adulto, fazendo
surgir, assim, a necessidade de escolas com o intuito de alfabetizar, para que a humanidade
deixasse a ignorância. Dessa forma, a escola passou a ser o lugar da infância, e a criança
deixou de aprender somente na convivência com os adultos que lhe eram próximos. Começou,
assim, um longo processo de escolarização das crianças que se estenderia até nossos dias
(ARIÈS, 1981).
Se antes os cuidados infantis se reduziam à assistência caritativa, a partir daquele
momento passou a ter outro valor. Com a necessidade da alfabetização, a escola passou a ser
o espaço primordial da infância e seria lá o lugar mais apropriado para a medicina influenciar
o comportamento de cada aluno, imprimindo ali o seu poder, visto que a família estaria
beneficiada com a modificação das condutas infantis (LUENGO, 2010). Dessa forma, sob o
controle do Estado, passa-se a pensar que, em vez de castigar os cidadãos, deveriam prevenir
a indisciplina em prol do adulto de amanhã, construindo seres sujeitáveis e submissos
(PASSETTI, 2010).
Ao olhar as crianças de outra forma, tomadas como uma prioridade do Estado, a
sociedade passou a se preocupar mais com a saúde e o bem-estar infantil, pensando na
importância de cuidar dos primeiros anos de vida para garantir a sua sobrevivência,
preparando-a para um bom desenvolvimento físico e moral. Pensou-se na escola como o local
apropriado que pudesse dar continuidade à ordem social. A ética e os valores ordenavam as
condutas no convívio social, modelando o indivíduo para que sua vida privada e familiar
seguisse atrelada aos anseios políticos de uma determinada classe social, a burguesia.
Assim, ao final do século XVIII, era essencial que se fizessem produzir cidadãos que
seriam a força de trabalho, a riqueza do Estado. Dentro desse contexto, garantir a
35
sobrevivência das crianças se constituía em um novo valor, em oposição ao Antigo Regime,
no qual as crianças não sobreviviam às precariedades em seus cuidados. Iniciava-se, desta
maneira, um processo de incentivo às famílias para o cuidado desta fase que agora se tornara
um problema do Estado, a infância.
2. 2 Estratégias biopolíticas e o biopoder no governo da infância
Como podemos acompanhar pelos elementos já pontuados, que certamente não
contemplam todos os que aqui poderiam figurar, é importante salientar que a produção da
infância, encontra-se no emaranhado de práticas constitutivas responsáveis não somente pelas
noções de infância e modos de ser criança, mas proliferam agentes e discursos com
inspirações e pretensões diversas, como instituir questões como a família, a escola, a
maternidade/paternidade e a higiene social.
A proliferação dessas noções que compõem leva-nos à perspectiva foucaultiana, do
exercício da biopolítica. A noção de biopolítica corresponde a um campo de práticas,
responsáveis por tornar numerosas as tecnologias políticas, que investem sobre o corpo da
população, ou seja, sobre a saúde, hábitos de alimentação, habitação, sobre as condições de
vida e de existência. Portanto, estas tecnologias foram direcionadas ao desenvolvimento da
qualidade da população e da potência da nação (FOUCAULT, 2011).
Com relação aos modos de ser criança e se relacionar com a infância, essa estratégia é
importante para tornar visíveis como os modos de existência são colocados como uma
preocupação e alvo de investimentos. Nesse sentido, tomamos a constituição de um o modelo
familiar específico, das práticas médico-higienistas, das relações de gênero e advento da
imprensa como um conjunto de acontecimentos que instituíram modos de ser sujeito, ou seja,
os modos pelos quais as crianças tornaram-se sujeitos, vinculados a estratégias biopolíticas de
governo dessa população.
Segundo Foucault (2011), as táticas que possibilitam que nos tornemos sujeitos de
determinado tipo dizem respeito aos “modos de subjetivação”, isto é, os meios pelos quais
somos capturados por relações de forças implicadas no processo de produção da subjetividade
a partir do seu caráter de controle. Sendo assim, certos saberes, práticas e técnicas presentes
em diversos dispositivos aos quais nos conectamos ou somos conectados são considerados
36
modos que nos subjetivam, engendrando-nos e constituindo-nos à medida que atuam como
tipos normativos que “propõem” modos de ser.
Como vimos anteriormente, acontecimentos que marcaram as descontinuidades da
noção de infância ao longo do tempo surgem como práticas fundamentalmente atreladas aos
modos de existência dos indivíduos. O controle minucioso das condutas e das formas de
pensar a infância, relacionado ao parâmetro de sociedade de normalização cria uma relação de
saberes e poderes que estabelece a família organizada em torno dos modos de ser criança
como elemento balizador a partir dos quais determinados modos de ser são constituídos e
tidos como “normais” e outros não.
A família passa, então, a adquirir uma importância no cuidado com as crianças, um
espaço imediato de sobrevivência e evolução. E, obviamente, o papel da mãe obtém um
sentido maior, torna-se um sujeito passível de valor, a ser cultivado, ensinado, domesticado na
medida em que a criança passa a ser vista como um indivíduo inocente, vulnerável e
merecedor de cuidados específicos. Frente a esse novo investimento que se fez necessário
sobre a vida, não só a infância, mas também a maternidade tornava-se um “problema”: há que
se melhor instruí-la, fazer dela alvo de controle, de objeto de saber e de discursos para seu
melhor gerenciamento (MARCELLO, 2009).
O biopoder entra em jogo para a produção de uma nova sociedade que posiciona a
mulher como responsável pelo futuro de seus filhos. Foucault (2008) denomina como
biopoder a administração dos corpos, revelada por uma anatomia política onde o corpo
humano é tratado como máquina (em especial através dos mecanismos articulados pelo poder
disciplinar). E uma das estratégias utilizadas na garantia desse efeito foi o pensamento
médico-higienista, que se apresenta como uma das formas disciplinares que surgiram com o
objetivo de reestruturar o núcleo familiar. A princípio, a disciplina passa a operar nas relações
entre mães e seus filhos, para possibilitar condições de produzir uma norma familiar capaz de
formar cidadãos domesticados, higienizados e individualizados, que se tornariam úteis e aptos
a colaborar com o progresso da cidade, do estado e da pátria (LUENGO, 2010).
Nesse intenso desejo de progresso, a introdução dos saberes médicos foi mais um dos
marcos na história social da produção da infância, visibilizando uma ruptura na noção de
infância até então constituída como “desvalida” ou “infeliz”. A identidade infantil, então,
passa a ser sujeitada pelo funcionamento de práticas médicas, que partem de um ideal de
37
comportamento em que todo e qualquer indivíduo que não seguisse às normas era considerado
fora do padrão desejado.
Segundo Luengo (2010), a família estava sendo dominada lentamente, tomada por
pequenos poderes que eram representados por agentes do Estado, responsáveis pela divisão
dos padrões de comportamento social em legais e normativos, buscando a universalização de
novos valores, principalmente o de acreditar na supervalorização do Estado em relação à
família, regulando os indivíduos para que se adaptassem à ordem imposta pelo poder, não
apenas para abolir as condutas inaceitáveis, mas também para incorporar as novas práticas e
sentimentos.
Também a escola passa a ser moldada segundo os códigos de normalização, tornandose em local de constante de vigilância, controle e de militância moral. Um modelo de
regulação disciplinar foi sendo desenhado e construído progressivamente, invadindo a forma
de funcionamento da instituição e aos poucos foi se configurando o espaço da escola como
instrumento de sujeição, no qual várias formas de disciplinarização foram se estabelecendo. A
escola se tornou o lugar apropriado para cultivar os bons hábitos na infância, cujo objetivo
seria buscar a harmonização do corpo e do espírito com o alcance da disciplina, enquanto o
educador passou a representar um “identificador de anormalidades”.
Ainda pensando nas instituições pedagógicas como um dos dispositivos em
funcionamento para a disciplinarização das crianças, Foucault, em sua obra História da
Sexualidade (2011), discute como o discurso sobre a sexualidade, nas escolas, definia uma
norma do desenvolvimento sexual, cuidadosamente caracterizando todos os desvios possíveis,
organizados controles pedagógicos e tratamentos médicos, todos destinados à “correção” de
crianças que estariam fora da normalidade.
Aliada aos saberes da medicina, a pedagogização atravessava também os ambientes
familiares, sempre visando a obtenção de um maior controle desses corpos. Nesse sentido,
uma das ordens da época era a necessária separação entre adultos e crianças, efetivada na
polaridade estabelecida entre os quartos de dormir. Também era uma preocupação a
segregação de meninos e meninas nas escolas e nos dormitórios; toda uma atenção
concentrada na sexualidade infantil, nos supostos perigos da masturbação, importância
atribuída à puberdade, métodos de vigilância sugeridos aos pais... Tudo faz da família, mesmo
38
reduzida às suas menores dimensões, uma rede complexa, saturada de sexualidades múltiplas,
fragmentárias e móveis.
Foucault (2011) destaca que o século XVIII, período conhecido como repressivo,
apresenta-se, muito mais, como um período em que diversas estratégias foram postas em ação
em mecanismos de incitação e multiplicação a respeito dos discursos das sexualidades,
inclusive a infantil. As instituições escolares e as psiquiátricas, através de suas hierarquias,
suas organizações espaciais e seus sistemas de fiscalização, constituem, ao lado da família,
uma maneira de distribuir o jogo dos poderes e dos prazeres; porém, também indicam regiões
de alta saturação sexual com espaços ou ritos privilegiados, como a sala de aula, os
dormitórios, a consulta médica. Trata-se do poder que exerce uma ação sobre os corpos, um
poder que, justamente, não tem a forma da lei nem os efeitos da interdição, mas, ao contrário,
um poder que procede mediante a redução das singularidades.
O disciplinamento penetrou e se cristalizou nas principais instituições sociais, como a
escola e a família. Porém é na escola que mais se vê a ação dessas práticas, promovendo o
controle, a homogeneização e a normatização. A disciplina para Foucault (2010b) tem ligação
direta com o poder, pois, segundo ele, o poder é ação das forças em detrimento de algo ou de
alguém que apresenta fragilidade ou submissão em relação ao outro. O olhar hierárquico, que
estigmatiza e reprime o que não é aceitável, tem como objetivo disciplinar o corpo dócil, que
está adjacente a uma época clássica em que houve a descoberta do corpo como alvo de poder.
Assim, pode-se dizer que a emergência de um dispositivo da infância esteve
profundamente imbricada a um conjunto de condições singulares, marcadas histórica e
culturalmente, das quais se destacam: a modificação de atitudes frente às crianças, relações de
gênero que vão posicionar as mães, à família, e a diferenciação dos sexos como constituintes
dos modos de se relacionar com a infância, o advento da imprensa, em conseguinte a
alfabetização das crianças no contexto escolar, o qual reforça o reconhecimento das crianças
como sujeitos que podem ser governados.
Todos esses fatores, engendrados, tornaram
possível a existência de dispositivos que operam, conjuntamente, para a produção de práticas
maternas (principalmente) e sujeitos-crianças até então impensáveis ou improváveis na
sociedade ocidental.
A produção de atitudes, radicalmente diferentes de outrora para com a infância,
emerge dessas estratégias, no que Foucault (2011) denomina dispositivo, tendo como função
39
principal responder a uma urgência histórica, por motivos políticos, econômicos, filosóficos e
sociais. Faz-se necessário destacar mais alguns fatores que permitiram que a infância, ou
melhor, um ideal de infância, fosse considerado então, uma “urgência” especialmente no final
do século XVII.
Nesse período, com a formação dos estados nacionais, era necessário que as grandes
cidades se constituíssem como unidades, tornando possível uma organização do corpo urbano
de modo coerente, homogêneo, que dependessem, então, de um poder único que os
regulassem. Com isso, o Ocidente promoveu uma mudança profunda nos mecanismos de
poder: ao invés de um poder que se apropria da vida para suprimi-la, trata-se de exercer um
poder que faz viver, empreendendo mecanismos capazes de gerar, multiplicar, gerenciar a
vida e regular seu conjunto. Configura-se, então, um poder comprometido em produzir forças,
a fazê-las crescer, torná-las úteis, ordená-las mais do que barrá-las, dobrá-las ou destruí-las.
Estes procedimentos de gerência sobre a vida das populações, como estratégias da biopolítica,
foram se desenvolvendo desde o século XVII, mas é a partir da segunda metade do século
XVIII que eles são fortalecidos como tecnologias do corpo social (FOUCAULT, 2011).
A emergência desses acontecimentos permitem que as noções de infância estejam em
movimento. O que queremos dizer é que a partir das práticas discorridas, a infância passou a
ser valorizada, sendo alvo de cuidados específicos por meio de um controle assíduo. Esse
“controle” do corpo tinha como principal meta obter uma infância protegida e disciplinarizada
para que se mantivesse a ordem na sociedade. Assim, a noção da criança como o “adulto de
amanhã” se ancorava na ideia de que viesse a ser um sujeito eficiente, isto é, um cidadão que
contribuísse para o avanço de sua nação com suas práticas progressistas e salubres,
constituído por um modelamento social.
O interesse pela infância seria então para preparar o futuro adulto. Vem daí o fato de
as ações preventivas e educativas a ela dirigidas resultarem na criação de um indivíduo
melhorado e sadio, que viria a propagar a ordem social. Agora as crianças passam a ser objeto
de interesse da ciência, e o seu corpo torna-se alvo de mais um mecanismo de poder.
A partir dos estudos foucaultianos, entendemos, como já pontuamos, que a disciplina
fabrica corpos submissos, dóceis. É dócil um corpo que pode ser submetido, utilizado,
transformado e aperfeiçoado, impondo uma relação de docilidade-utilidade. O processo de
alcançar uma sociedade organizada e civilizada, que prepara o indivíduo para o trabalho,
40
disciplinando-o para que ele pudesse aceitar passivamente uma jornada laboral, tem início,
para uma parte da população infantil nas instituições educacionais. Estas acabam por
desempenhar um papel crucial na reprodução socioeconômica, pois com seu caráter
hierárquico, a educação sempre permite que se faça uma seleção social por meio da
estratificação, que vai delinear comportamentos disciplinados e produtivos, o que tornaria as
crianças futuramente aptas a produzir o que o capital engendra, garantindo com isso a força de
trabalho necessária para o desenvolvimento capitalista da nação (LUENGO, 2010).
Ao retomarmos esses diferentes enunciados e práticas sobre a infância, buscamos
mostrar, como ao longo do tempo e por caminhos diversos, foram sendo constituídas formas
distintas de investimento sobre a infância que simultaneamente constituíram concepções
específicas sobre a mesma. Apesar dessa diversidade, as situamos sempre em relação a
estratégias biopolíticas e ao exercício do biopoder, que se constituem em torno de
determinadas concepções de população e projeto de sociedade. Vemos assim, que não
podemos atribuir uma natureza essencialista que possa unificar o que é a infância ou como
esta deve ser vivida, mas sim pensarmos em sua construção histórica. Nessa perspectiva,
podemos afirmar que tal construção não está dada ou acabada e que na contemporaneidade,
continuamos a construir, por meio de práticas cotidianas e investimentos de vários campos de
saber, uma imagem configurada como modelo ideal para a infância e para as crianças.
41
3 DISPOSITIVOS QUE SE CRUZAM: INFÂNCIA E MÍDIAS
Temos como objetivo, nesta dissertação, analisar como são produzidos certos modos
de ser criança e se relacionar com a infância a partir do dispositivo midiático. Para tanto, fazse necessário situar, primeiramente, o que entendemos por “dispositivo”, para que possamos
problematizar o que o constitui, ou pelo menos parte dele.
Sendo assim, retomamos o conceito de dispositivo apresentado por Foucault (2011c).
Em sua característica heterogênea, o dispositivo engloba:
[...] discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões
regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos,
proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito
são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode
estabelecer entre estes elementos”. (p.244)
Segundo Deleuze (1996), o dispositivo não demarca limites rígidos de um sistema ou
de um objeto, mas sim os desestabilizam, os tornam suscetíveis a movimentos cambiantes
entre si. Trata-se de linhas que se bifurcam, de curvas que tangenciam regimes de saberes,
ligados a configurações de poder e designados a produzir modos de subjetivação específicos.
Para Foucault (2009), os modos de subjetivação envolvem necessariamente a
produção de efeitos sobre si mesmo – que, por sua vez, não são meras atuações passivas do
sujeito; pelo contrário, os processos de subjetivação indicam também possibilidades, (des)
caminhos, fugas e subversão do próprio sujeito. Afastamo-nos aqui da ideia de um sujeito
livre, autônomo e soberano criador de suas condições de existência, para a condição do
indivíduo de escapar dos poderes e saberes de um dispositivo para um outro. Assim, podemos
dizer que as linhas de subjetivação indicam também as linhas de fratura, de descontinuidade,
de ruptura do próprio dispositivo, da sua possibilidade de consecutividade, de contínua
elaboração e superação.
Partindo para o dispositivo da infância 8 aqui discutido, é possível perceber sua
articulação com outros dispositivos de seu tempo. Nesse caso, então, apresentamos as formas
pelas quais o dispositivo da infância está arquitetado de maneira a produzir sujeitos-crianças
como seus objetos discursivos, a partir de sua articulação com o dispositivo da mídia, em uma
complexa conjugação de linhas, regimes e curvas que neles se organizam. Assim, o
8
Remetemo-nos ao trabalho de Corazza (2004) que considera o dispositivo da infantilidade como as técnicas
que operam para garantir um certo modo de ser infantil.
42
movimento aqui é o de pensar as estratégias e mecanismos pelos quais um dispositivo se
atualiza na linguagem midiática contemporânea.
A mídia, tomada também como um dispositivo pedagógico, opera na circulação de
sistemas de significação para os sujeitos, os quais passam a se reconhecer a partir desses
discursos naturalizados (MEDEIROS; GUARESCHI, 2008). Sobre isso, Hennigen (2003)
afirma:
Ele [o sujeito] toma o que é dito como algo que lhe diz respeito (uma
verdade para si e sobre si), se identifica e produz-se como sujeito daquele
modo – compreende e explica a si e ao mundo a partir daquele regime de
verdade. Assim, a constituição subjetiva produz-se como um efeito das redes
discursivas (p. 65).
Desta forma, a subjetividade é resultado e efeito das forças de saber/poder que
atravessam os sujeitos, produzindo formas de conhecimento de si. Poderíamos dizer, assim,
que os discursos veiculados na mídia produzem modos de ser criança, de viver e se relacionar
com a infância. Como nos indica Foucault (2010a), os discursos sobre a infância:
[...] só dizem o que é o sujeito dentro de um certo jogo muito particular de
verdade, mas esses jogos não são impostos de fora para o sujeito, de acordo
com uma causalidade necessária ou determinações estruturais; eles abrem
um campo de experiência em o sujeito e o objeto são ambos constituídos
apenas em condições simultâneas, mas que não param de se modificar um
em relação ao outro, e, portanto, de modificar esse mesmo campo de
experiência (p.237/238).
Nos mais diversos veículos midiáticos, a presença das crianças e da temática infância
merece ser ressaltada na medida em que faz ver que a discussão acerca da produção
contemporânea da infância é reiterada em muitos espaços da cultura. Ao falarmos do conceito
foucaultiano de dispositivo, estamos falando de um grande aparato discursivo, que produz
incessantemente formas normais e mesmo anormais de ser sujeito, e, no caso aqui, de ser
criança hoje. Tais concepções estão incorporadas nos modos de ser e agir que temos como
ideais. Estas formas de pensar as características e os destinos dos indivíduos fazem parte de
estratégias de governo, são formas de concebê-las que engendram, num mesmo movimento,
formas práticas de constituí-las (BUJES, 2002).
Entretanto, Foucault (2009) nos situa que o dispositivo é um empreendimento instável,
nunca alcançado plenamente, e em permanente redefinição, dadas as múltiplas forças móveis,
instáveis e heterogêneas que se cruzam nesse processo. É por tal razão que as racionalidades
43
de governo põem em ação, constantemente, um amplo espectro de mecanismos e de
programas que pretendem tanto modelar os eventos em domínios individualizados quanto
produzir valores considerados importantes na esfera pública como prosperidade, eficiência,
saúde, bem-estar, educação e consumo.
Quando assumimos uma forma de compreensão das mídias que as associam às
tecnologias de poder, torna-se possível examiná-las na condição de discurso, que organiza,
articula permite pôr em ação determinados modos de ser e viver, de tal forma que somos
afetados pelas coisas que assistimos. O tema do governo da infância é entendido, neste
trabalho, a partir dos estudos foucaultianos, em que o tomamos como o modo pelo qual o
poder se exerce para conduzir as condutas dos indivíduos (FOUCAULT, 2011), de forma que
governar é agir de maneira a afetar como os indivíduos conduzem a si mesmos (BUJES,
2007b).
Ainda segundo Bujes, o governo da vida dos sujeitos pode resultar tanto de uma ação
tendente a conduzir a ação alheia, quanto daquelas empreendidas no sentido de conduzirmos
nossas próprias condutas. Tais ações, de um sujeito sobre os outros ou sobre si mesmo,
remetem à ideia de que o exercício do poder se dá através da utilização de determinadas
tecnologias. Essas podem ser entendidas como ações calculadas para agir sobre o conjunto da
população com a finalidade de potencializar a capacidade de alguns para agirem sobre as
condutas próprias e alheias – suas forças, suas atividades, as relações que os sujeitos
constituem entre si (BUJES, 2007b).
Ao refletir sobre a história da produção da infância, pode-se perceber que ela foi
construída como um objeto passível de intervenção higiênica e disciplinar dentro de um
processo histórico, durante o qual várias formas de disciplinarização foram se estabelecendo.
É nesse sentido que tomamos algumas produções midiáticas contemporâneas para delinear
algumas particularidades dos discursos atuais sobre os modos de ser e se relacionar com a
infância, esquadrinhados a partir dos discursos de consumo e de saber e, sobretudo, apontar
seus compromissos como regimes de verdade que possibilitam o governo da infância.
Na contemporaneidade, destacamos as mídias como um dos dispositivos que operam
no governo desses modos de ser, sustentando as novas produções da infância, pois os seus
44
mecanismos de poder estão fortemente configurados em instrumentos disciplinadores e
controladores. No entanto, o que as disciplinas visam não é apenas a inscrição de marcas
sobre os corpos, imediatamente identificáveis, mas a internalização das condutas apropriadas,
num processo de governo de si (BUJES, 2007).
Bujes (2002) aponta que explicitar as estratégias utilizadas pelas mídias permite
concebê-las como um meio que coloca em operação uma série de tecnologias que têm por
finalidade moldar e modelar as condutas infantis. Isso implica que os discursos que circulam
em seus veículos, são tomados como verdades, as quais passam a ser vistas como naturais,
como se essas noções correntes de infância correspondessem à diversidade de infâncias que
conhecemos.
Nos materiais midiáticos, comumente o discurso de especialistas se ancora em noções,
consideradas científicas e produtoras de um discurso de verdade. Essas práticas discursivas
que se manifestam nas mídias não podem ser desligadas das relações de poder que controlam
o corpo social e a vida dos indivíduos, cada qual sofrendo e, ao mesmo tempo, reforçando os
efeitos desse poder. Efeitos que posicionam os indivíduos em determinado lugar e os leva a
serem sujeitos de determinados enunciados e não de outros.
Vale ressaltar que os saberes postos em circulação na mídia surgem de demandas de
regulação e controle, de modo a garantir o bom funcionamento de certas normas sociais. Uma
das preocupações atuais situa-se nos discursos pela produtividade desenfreada, própria da
nossa sociedade capitalista, na liquidez das relações, somadas às conquistas da ciência, que
concebem o homem como um ser que necessita estar apto a adequar-se ao mundo nas diversas
situações que enfrenta, e aquele que, por algum motivo, não acompanha a maioria, é visto
como o diferente, o imperfeito que necessita de ajuda para tentar justapor-se aos anseios
sociais (LUENGO, 2010).
Disso resulta, a reprodução de indivíduos massificados, prontos à adequação social
que, atualmente, têm como um de seus principais objetivos o consumo. Capturados pela
instância do poder, os indivíduos passam a se comportar de forma automatizada. Contudo, há
aqueles que fogem dos padrões de controle considerados normais e manifestam-se com outras
formas de comportamento. Só que esses “desajustes” não são noticiados na mídia com
frequência, tampouco são vislumbrados em anúncios publicitários, e quando o são, é como
modelos do que deve ser evitado ou prevenido. O modo de organização social baseado na
45
posição do consumidor vem se tornando cada vez mais um lugar de práticas
homogeneizantes.
Através do intenso controle, os meios midiáticos transformam os indivíduos em
objetos descritíveis e analisáveis. Essa prática, no encontro com o discurso de especialistas,
atualiza a produção de uma verdade acerca da motivação dos indivíduos em determinado ato,
explica seus comportamentos, emoções , isto é, objetiva para produzir subjetividades. Nesse
jogo de verdade, os especialistas são convocados a falar a verdade sobre os indivíduos,
definindo e classificando condutas, atitudes e os próprios sujeitos.
Os regimes de verdade circulantes no corpo social ao operarem a naturalização desta
concepção de infância, acabam por nos fazer esquecer este seu caráter “fabricado” que tem
estado submetido a relações e a interesses cujo propósito tem sido definir o que é ser criança e
fixar um sentido para a infância. Por outro lado, tais significados, construídos nas redes
poder/saber, não só descrevem o sujeito infantil, mas contribuem para desencadear as
estratégias que visam governá-lo.
Entendemos, assim, as mídias como os veículos que fazem circular o conhecimento
como uma relação de luta e poder que se atualiza entre vários campos de saber. A partir desta
estratégia, em tais produções, tudo sobre a(s) infância(s) é examinado, não somente para fazer
a verdade emergir, mas também, para se formular uma sanção normalizadora e fazê-la
exercer-se e, corrigindo, trazer o indivíduo à norma. Por meio desses regimes de verdade, a
norma impõe, enquanto poder de regulamentação, a homogeneidade; assim, individualiza,
permitindo medir os desvios, fixar espaços e tornar úteis as diferenças, produzindo uma
gradação das diferenças individuais (FOUCAULT, 2010b).
Na qualidade de discursos que articulam jogos de poder e vontades de saber, essas
estratégias buscam capturar as crianças pelas regulações do poder nessa relação de produção
de subjetividades e práticas de consumo. As estratégias utilizadas na grande quantidade de
anúncios de produtos buscam produzir consumidores, por conseguinte, produzir saberes e
sujeitos conhecedores de seus desejos. Portanto, consumir é, também, uma forma de poder,
um modo de subjetivação ou de governo de si (DORNELLES, 2005).
É interessante pensar o governo de si conforme a colocação de Bujes (2002), que
inspirada em Foucault afirma que “autogovernar-se” é poder se fabricar e se inventar
46
constantemente, ainda que dentro dos limites e do controle exercido pelas relações de poder
das quais participamos. A partir disso, os veículos midiáticos colocam em funcionamento um
dispositivo inventado para a fabricação e gerenciamento desse sujeito infantil, dentro de um
repertório de modos de falar, de interrogar e de avaliar a si mesmos, constituindo modos de
ser e se relacionar com a infância.
Entendemos que o governo pelas mídias se dá através de estratégias como campanhas
publicitárias ou matérias jornalísticas reforçadas pela presença de especialistas no tema
infância, dentre outras técnicas que agem indiretamente (ou diretamente) sobre os indivíduos,
gerindo-os minuciosamente, nos detalhes. Trata-se de estratégias para definir a cada instante o
que se deve ou não fazer, como fazer, como agir, o que consumir, quando, por quem; levando
ao desenvolvimento de um conjunto de saberes sobre todos os processos referentes a essa
população infantil e tudo com que ela se relaciona (FOUCAULT, 2011).
Essa participação que as mídias têm na formação dos modos de existência do sujeito
contemporâneo, faz delas parte integrante de complexos processos de veiculação e de
produção de significações, de sentidos. Os quais, por sua vez, estão relacionados a modos de
ser, a modos de pensar, a modos de conhecer o mundo e de se relacionar com a vida
(FISCHER, 2002).
Pensamos esses veículos como um aparato discursivo, visto que produzem saberes e
discursos, mas ao mesmo tempo também como um aparato não discursivo, uma vez que se
trata de uma complexa trama de práticas, a partir das quais se faz uma incitação ao discurso
sobre “si mesmo”. Uma das práticas que incita esses discursos é o consumo de produtos e
serviços, estabelecendo, assim, uma relação de controle com público infantil ao torná-lo
consumidor.
A partir disso, Dornelles (2005) aponta que são inventadas novas formas de disciplina
para além dos corpos das crianças, sobre os seus desejos, que precisam ser regulados e
normatizados, de acordo com o imperativo de consumir o que quer que seja veiculado pelos
meios midiáticos. Para tanto, visando satisfazer e aumentar o consumo cresce a quantidade de
profissionais especializados que inventam estratégias para as maneiras de consumir, que
através dos discursos, produzem efeitos sobre os modos de ser, viver e se relacionar com a
infância (BUJES, 2002).
47
Esses discursos, em reiterações constantes nas mídias, atestam não apenas que esta é
uma poderosa produtora e veiculadora de verdades, mas também que ela vem assumindo um
forte papel disciplinar, já que constituem uma verdade sobre o sujeito e um conjunto de
práticas para a produção de subjetividades de crianças e adultos. Desta forma, as práticas
discursivas instituídas nos veículos midiáticos mobilizam um complexo entrecruzado de
forças, de práticas, de saberes, constituindo um esforço organizado para a produção das
subjetividades, dentro de um determinado repertório de possibilidades (BUJES, 2002).
Utilizando-se das mais variadas estratégias, as mídias operam para os indivíduos em
um caráter disciplinador, pois certas disposições, modos de pensar, de classificar e
hierarquizar se impõem. E aqui vale um destaque: essas formas em que as mídias operam se
dão de uma maneira sutil, não forçada e que se concretiza pela participação dos indivíduos em
sistemas simbólicos através dos quais passam a interpretar o mundo para nele se
relacionarem.
Assim, foi preciso analisar como os significados hoje atribuídos à infância são efeitos
de um processo de construção social, dependem de um conjunto de possibilidades que se
conjugam em determinado momento da história, são organizados socialmente, sustentados por
discursos nem sempre homogêneos e em perene transformação. Seus significados são
modelados no interior de relações de poder e representam interesses manifestos de governo
desses corpos, de controle de suas condutas. Contudo, suas manifestações não são estáveis,
nem únicas, mostrando-se como indicativos da fluidez e da mutabilidade a que estão sujeitas
(BUJES, 2007).
Portanto, ao longo da história de transformação da infância, podemos identificar não
apenas deslocamentos, reposicionamentos e descontinuidades, mas, também, e ao mesmo
tempo, reativações estratégicas de antigos modelos, continuidades cuidadosamente mantidas,
rupturas e exercícios de poder difíceis de serem abandonados. Desta forma, o que se percebe é
que a proliferação discursiva de saberes normativos, que pela contínua repetição, atingem o
estatuto de verdades que convencem e constituem a subjetividade moderna de muitos
indivíduos, bloqueando assim as possibilidades de se pensar criança como lugar de sujeito
elaborado culturalmente, e, portanto passível de transformação.
A partir da perspectiva foucaultiana, para nós, do campo da psicologia, faz-se então
necessário problematizar as práticas psicológicas com as quais costumamos trabalhar,
48
questionar todas as formas prévias de continuidade que nos ensinaram a respeito das crianças
e das relações que elas podem desenvolver entre si, com os adultos e com o mundo. Não se
trata de recusá-las mas, sim, de mantê-las em suspenso, pois que, sendo o efeito de
construções históricas, elas não são aplicáveis a todos, em qualquer tempo e em qualquer
situação.
49
4 ESTRATÉGIAS MIDIÁTICAS
Neste capítulo buscamos analisar quais estratégias são utilizadas para enunciar os
modos de existência da criança e da infância, nos materiais midiáticos. É a partir desses
materiais que buscamos discutir como as estratégias em funcionamento nas mídias
possibilitam a constituição desses modos hegemônicos de ser e se relacionar com a infância a
partir de discursos que se relacionam ao consumo e ao saber.
Para que identificássemos algumas das estratégias utilizadas nas mídias, primeiro
organizamos os materiais selecionados de acordo com os vetores escolhidos para nortear
nossa análise – consumo e saber. Ainda assim, incluímos materiais, das mídias impressas, que
nos interessaram por apresentarem características peculiares, como a noção de infância
“diferente” (conteúdo que não foi visto com frequência nos materiais estudados) e matérias
que apresentavam maneiras de lidar com os filhos ou de se tornarem pais “melhores”, como
uma espécie de manual de ensino.
Analisamos os materiais buscando compreender através das relações entre ilustrações
e os enunciados, as séries discursivas que se produzem sobre os modos de ser criança e se
relacionar com a infância e quais associações perpassavam o processo de enunciação dos
materiais. Nomeamos as estratégias de acordo com o que conseguimos identificar no processo
de análise. Procuramos discorrer acerca dessas estratégias na medida em que se apresentam
como articuladoras de estratégias de saber e poder, operando, portanto na produção de modos
de subjetivação.
4.1 Estratégias em evidência
É importante, primeiramente, apontar as condições de possibilidade para a produção
desses modos de existência como parte da configuração social presente. Partindo do contexto
contemporâneo, pensamos o cotidiano dos indivíduos a partir da facilidade de acesso às
múltiplas informações, a velocidade em que são veiculadas e a constante presença dos meios
de comunicação, onde notoriamente o consumo ganha uma visibilidade máxima.
Isso nos remete ao que Bauman (2010) enfatiza como as alterações nos modos de
existência contemporâneos, em que as práticas cotidianas se transformaram primordialmente
50
no que se referem as nossas experiências de pensar o mundo e a nós mesmos. Dessa forma,
as mídias se tornam cada vez mais essenciais nas experiências contemporâneas e assumem
características de produção, veiculação e consumo de discursos e modos de ser e agir, que se
vinculam aos saberes, às formas de inscrever-se no social e de falar sobre a infância.
Os materiais postos em veiculação, sejam esses de caráter informativo ou publicitário,
são produzidos segundo finalidades muito específicas, que é fazer circular amplamente os
discursos de forma a reforçá-los e multiplicá-los. A partir do que circula nesses veículos são
constituídos regimes de verdade que fascinam e interpelam os adultos e as crianças,
participando da construção de suas subjetividades e transformando seus modos de viver.
Com essa estimulação para se fazer falar, são produzidas formas particulares de
subjetivação dos modos de ser criança, colocando em jogo enunciados de vários campos de
saber, através de estratégias que expõem e constituem o que é ser criança a partir do que foi
decidido de como ela deve ser, o que falta para ela, do que ela necessita (LARROSA, 2010).
Essa normalização da infância que a define como aquele que não sabe ou, de acordo com a
etimologia do termo infante, como aquele que não fala, tende a buscar uma essência para a
infância, pensando-a como uma etapa do desenvolvimento humano. Assim, para a criança
que é aquele que ainda não sabe, é preciso que o adulto o ensine. Mas antes disso, é preciso
que o adulto a conheça previamente e objetivamente, permanecendo dentro do que pode ser
controlado e já está capilarizado nos mais diversos dispositivos que tratam desses pequenos
sujeitos.
Embora o caráter onipresente das mídias, sabemos que não é o único dispositivo que
participa na emergência dos modos de subjetivação. Enreda-se a esse dispositivo, inúmeros
outros como a família, a escola, a maternidade, a paternidade, em que modos de existência
também são postos em jogo. Em todos esses sistemas, as crianças se defrontam com discursos
que estimulam de modo diverso seus processos de identificação, e em cada um deles elas são
interpeladas de modo diferente. Entendemos, porém, que o dispositivo midiático assume um
lugar de destaque nesse processo, pois consegue circular com facilidade nos mais diversos
espaços por onde transitamos.
Assim, os meios de comunicação não se constituem apenas como uma fonte de
informação e lazer, mas, sobremaneira, um lugar de relevância no que tange à produção e à
circulação de uma série de valores, concepções e normas relacionados a um aprendizado
51
cotidiano sobre quem somos, o que devemos fazer com nosso corpo, como educar os filhos,
como ser bons pais, dentre outros.
Constituindo-se como lugar de formação dos modos de subjetivação, as mídias são
tomadas nesta pesquisa como um lugar onde os modos de ser criança e se relacionar com a
infância circulam e são produzidos a partir de discursos que propõem como deve ser essa
infância, o que é uma infância normal, como os pais devem agir com seus filhos, como
escolher a escola, quais valores transmitir aos filhos, o que é aceitável e o que não é.
Para problematizar essas questões, analisamos, nos discursos veiculados nas mídias, os
modos de subjetivação a partir dos discursos identificados como vetores de saber e consumo.
Como já afirmamos, escolhemos esses vetores para estudo, pois os mesmos se destacaram nos
materiais que analisamos previamente. Foram analisadas as revistas Pais & Filhos, Crescer e
Veja, assim como materiais televisivos das emissoras Globo e Record, no período de junho a
dezembro de 2011.
Nesse processo de análise compusemos quatro estratégias principais utilizadas nesse
tipo de produção discursiva, que conseguimos identificar nos materiais selecionados. São elas:
presença de especialistas, depoimentos como lição de vida, convocação da participação dos
pais e das crianças, figuras híbridas de tradição e modernidade, e os modos hegemônicos de
ser criança e de se relacionar com a infância.
Insta frisar que se, neste momento, parece-nos interessante analisar essas estratégias
separadamente, reconhecemos que elas operam conjuntamente, de maneira que pudemos
identificar suas coexistências, ainda que optemos por mostrar a atuação sobressalente de uma
delas, assim como de que forma se conectam.
4.1.1.1 A presença de especialistas
Como a primeira das estratégias, apontamos para a presença de especialistas na
enunciação de vários discursos. A posição de autoridade no assunto se dá pela sua formação
acadêmica, que os autorizaria a falar sobre as crianças e seus modos de existência. Nos mais
variados materiais, eles aparecem como “peritos” reforçando os modos de ser, agir, se
52
comportar ou consumir. Prescrevem, nesse sentido, o que seria considerado como bons pais e
crianças bem educadas.
Na análise que aqui fazemos tornou-se evidente como se produz nesses materiais
também uma orientação didática e explícita aos pais informando acerca de diversas temáticas
e apresentando soluções para dilemas cotidianos. Interessa-nos descrever, portanto, como se
constrói um discurso que enuncia a regra, a norma, as formas de comportamentos esperados
de crianças e de pais, das classes média e alta, já que é para esse público que as revistas 9 se
dirigem.
Destacamos a seguir como a presença de diferentes especialistas se expressa nos
materiais impressos. Iniciaremos pela análise de um anúncio publicitário do complemento
nutricional PediaSure, recorrente nas edições das revistas Pais & Filhos e Crescer. Vemos o
uso da estratégia de apelo à autoridade de especialistas ao enunciar seu produto: “PediaSure
tem tudo o que seu filho precisa e é o mais recomendado pelos pediatras” (Pais & Filhos,
julho/2011). Nesse caso, a recomendação pediátrica aparece no texto do anúncio, em que são
descritos os benefícios do complemento nutricional e, é interessante notar, que é a marca que
faz uso do enunciado que confere legitimidade e veracidade às informações apresentadas, com
o intuito de comercializá-lo, não há a presença do médico ao prescrevê-lo. A referência à
especialidade médica expressa, ao mesmo tempo em que sustenta, um saber sobre as
necessidades nutricionais das crianças, um “saber especializado”. Nesse outro enunciado,
vemos também a tentativa de se criar uma identificação com o público: “A gente quer o
mesmo que você: ver seu filho crescer”.
Outro anúncio publicitário da mesma edição da revista Pais & Filhos é o da marca de
brinquedos Fischer Price.
Este anúncio é identificado pela revista como publieditorial
(publicidade que aparece no formato de reportagem, mas é uma ação que algumas marcas
utilizam para expor seus produtos). Tal formato confere ao texto um caráter mais informativo
e técnico, afastando-o de uma “mera propaganda”, de modo que o anúncio publicitário
adquire seriedade e credibilidade em relação àquilo que comunica. O anúncio intitulado “Da
cabeça aos pés” descreve como se desenvolve a coordenação motora das crianças e como os
pais podem ajudar para que seus filhos tenham um melhor desenvolvimento. Dessa forma,
antes de iniciar a descrição dos movimentos que as crianças conseguem desempenhar ao
9
Identificamos essa estratégia nos materiais impressos.
53
longo do tempo, é apresentada a explicação de uma profissional em terapia ocupacional
especializada em desenvolvimento infantil:
Cada criança tem o seu ritmo de desenvolvimento, claro, influenciado por
fatores hereditários e ambientais, mas, principalmente, pelos estímulos que
recebe. Por isso é tão importante que os pais participem da vida dos filhos,
estimulando-os de maneira correta, para que eles possam desenvolver ao
máximo seus potenciais (Pais & Filhos, junho/2011).
Nesse material, percebemos a posição de destaque em que se encontra a fala da
especialista. Trata-se de um discurso que se apresenta como científico e que atesta uma
compreensão do desenvolvimento infantil e seus determinantes, bem como as competências
das crianças no seu processo de desenvolvimento. A presença da profissional no material,
juntamente com o formato proposto, investe sua mensagem de potência de verdade acerca da
importância do vínculo entre pais e filhos para o desenvolvimento das crianças entre outros
aspectos, mesmo que seja um anúncio publicitário. Além do vínculo pais/filhos são descritas
fases do desenvolvimento motor infantil de acordo com as idades (dos 2 meses até 02 anos), e
a cada fase é acompanhada de uma indicação de produtos (brinquedos) da marca:
Quando atinge os 2 meses, o bebê já consegue sustentar um pouco a cabeça
e levanta o queixo quando está deitado de barriga para baixo. Também
começa a levar a mão à boca, o que é uma grande descoberta, pois passa a
sugar os dedos e a brincar com a língua. Aos 3, aparecem mais movimentos
voluntários, como juntar as mãozinhas e brincar muito com elas. [...] A
partir dos 6 meses, o bebê ganha mais autonomia: com apoio, já consegue
até sentar. E usa as mãos para descobrir o mundo. Quer pegar, alcançar,
amassar, apertar. Nesta fase, alguns brinquedos, como o Balde Primeiros
Blocos e o Ônibus Surpresa e a Girafa com Blocos, chamam bastante a
atenção da criança.
Partindo do discurso da ciência, temos aqui a categorização das etapas ou fases do
desenvolvimento infantil adequado para cada idade, como se a infância fosse única e
universal. Estabelece-se, assim, um desenvolvimento tido como normal, sustentado por
práticas que disciplinarizam essas crianças a partir do que já se conhece sobre ela. Esse
discurso normativo mostra de que modo as mídias operam, conjuntamente com outros
dispositivos, na constituição de um modo de existência hegemônico.
Esses materiais mais uma vez nos incitam a questionar: de que infâncias nos falam? E
para quais pais, eles se dirigem? Sinalizamos essas questões para a constituição, por esses
materiais, de uma infância hegemônica, tomada como universal. Trazemos esse apontamento,
pois embora as revistas tenham como alvo os públicos das classes média e alta, a questão da
54
hegemonia vai para além das classes sociais, seus efeitos estão para além disso. Considerando
o amplo movimento de circulação das mídias, os efeitos que delas advém não ficam
circunscritos a determinados sujeitos, muito pelo contrário, os atravessamentos que esses
modos de ser preponderantes cruzam a todos. E é a partir dessa instituição que são criados as
normas que orientam aqueles que se aproximam e se identificam com esses modos de ser, e
aqueles que deles são excluídos e marginalizados.
Outro material que recorre à presença de especialistas é uma matéria, da revista
Crescer (Julho/2011), intitulada “Tudo para você escolher a melhor escola”. Encontramos
aqui uma espécie de guia com as perguntas que os pais devem fazer, quando estão escolhendo
uma escola para seus filhos - "Tem espaço para brincar? Alfabetizam a partir de que ano?
Enfatiza os esportes ou as artes? Tem muita lição de casa? Como é a hora do lanche?
Aborda questões sobre diversidade e respeito?" - são algumas das perguntas. Questões sobre
o que seria a melhor escola, a melhor escola para quem ou se seria possível defini-la,
colocadas em relação aos sujeitos a quem se destinam, não compõem o roteiro apresentado.
Parte-se de uma objetivação desse espaço que corresponde à objetivação de uma infância
determinada e naturalizada. Os motivos das questões e suas respostas buscam ser esclarecidos
na matéria. Estes, ora são ancorados pela posição de especialistas, ora são produzidos com a
identificação de autoria da jornalista que escreve a matéria, onde o que é dito é assumido pela
própria revista, que neste caso, constitui-se em si mesma em uma espécie de especialista.
Nesta mesma matéria, a respeito do espaço físico, uma socióloga especializada em
Educação esclarece que “[...] não importa o tamanho [da escola], desde que seja um
ambiente acolhedor”.
Já ao falar da relevância dos deveres de casa, a jornalista, que assina a matéria,
registra:
Quantidade e nível de dificuldade da lição de casa são polêmica certa.
Como as famílias estão cada vez menos juntas, a atividade vira um
problema para resolver e equacionar a correria. É importante conversar
com a escola desde sempre, pois o principal intuito da lição de casa não é
apenas o conteúdo: mas garantir esse acompanhamento pelos pais, que
ajuda e dá segurança para a criança.
No tópico sobre a importância que as escolas devem dar para a criatividade das
crianças e como isso se relaciona com o aprendizado, a especialista nas áreas de Educação,
Cultura e Mídia apela ao campo da neurociência para afirmar: “Diz a neurociência que o
55
sistema emocional não está desligado da cognição” e ainda “Exploração e descoberta são o
grande eixo do século 21. Quem brinca, quem se mexe, tem redes permanentes de aprender”.
Essa forma de abordar aspectos da vida cotidiana (como a escolha da escola dos
filhos) submetida aos conhecimentos científicos apresentados de certo modo em uma
linguagem coloquial, reitera a capilarização dessa modalidade discursiva (os discursos de
especialistas) e seus efeitos de verdade a todos os âmbitos da vida comum.
Os discursos presentes nesses materiais, em sua pretensão de cientificidade, constroem
uma infância como objeto de saber, quase sempre única e universal. Isso se dá em articulação
com as formas como os meios midiáticos operam os instrumentos de poder, capazes de fazer
circular, disseminar e recombinar tais discursos, produzindo práticas e subjetividades.
O que buscamos ao evidenciar esses saberes especializados é discutir como o caráter
de “verdade”, atribuído às informações enunciadas, acompanha o funcionamento dessa
estratégia, possibilitando a constituição do modo hegemônico de ser e se relacionar com a
infância que parece ser endossado e subsidiado pela ciência. Desta forma, os discursos dos
especialistas recebem destaque nos materiais midiáticos, haja vista que imediatamente são
associados ao que é verdadeiro e científico, produzindo efeitos nos sujeitos, sejam crianças ou
adultos.
As concepções de criança e infância sedimentadas por esses discursos, vão compondo
verdades a serem seguidas - como as etapas do desenvolvimento motor das crianças,
prescrições de complemento nutricional, critérios de como escolher uma boa escola para os
filhos - fazendo com que os demais discursos construídos sofram uma espécie de
reformulação, potencializando como devem ser as crianças hoje, assim como uma formulação
de como devem ser os pais, quais são suas dúvidas frequentes, como devem agir com seus
filhos.
Entendemos que a presença de especialistas nos mais diferentes tipos de comunicação
midiáticas que envolvem as crianças e a infância, anda de mãos dadas com uma tentativa de
pedagogização dos pais. Chamamos de pedagogização esse processo pelo qual se busca
ensinar aos pais como ser pais, como lidar com as crianças, que se destaca pelo caráter
disciplinar e objetivo de fiscalizar e orientar a conduta desses sujeitos em uma determinada
direção. Como destacamos na matéria da revista Veja, situada na seção Guia Veja, em que
56
dois profissionais explicam como e quando se deve ensinar educação financeira às crianças.
Segundo a psicopedagoga: “Elas só passam a ter noções matemáticas a partir dos 5 anos,
mas quando chegam a essa idade com limites, disciplina e valores, tudo fica mais fácil”; a
seguir, o economista ensina: “uma forma natural de fazer isso [ensinar educação financeira
às crianças] é pedindo a elas que entreguem o dinheiro ao vendedor e recebam o troco”
(Guia Veja - O bê-á-bá das finanças, revista Veja,16/11/2011).
Na revista Crescer (agosto/2011), encontramos uma matéria, redigido na forma de
manual, intitulada “Como preparar seu filho para a vida”. A matéria é escrita por um
jornalista – pai de três filhos, como ele se apresenta – e logo no início da leitura somos
avisadas que o material é de homem para homem, isto é, dirigido ao pai:
Que pai não sonha com a felicidade e o sucesso dos filhos? É para ajudá-los
a chegar lá que sempre tentamos proporcionar as melhores experiências, a
melhor escola e, até, os melhores amigos para eles. Mas, para usufruir tudo
isso, as crianças precisam aprender a lidar com os sentimentos. Só assim
conseguirão superar as frustrações que vão enfrentar durante toda a vida.
Ao longo desta reportagem, você vai encontrar as definições de dez
habilidades emocionais fundamentais para o seu filho se desenvolver em
todos os aspectos – e vai descobrir como ajudá-lo a fazer isso no dia a dia.
E algumas dessas habilidades são:
Ressaltar as qualidades do seu filho e mostrar que você acredita na
capacidade dele é a chave para que ele faça o mesmo;
Toda criança já teve medo do escuro ou do bicho papão. Para ajudar a
encarar esses e muitos outros receios que vão surgir (do vestibular, de
aprender a dirigir e até de conhecer a sogra), dê espaço para que ele
expresse e entenda o que está sentido;
Incentive seu filho a perceber quais são suas preferências, pergunte, peça
para ele explicar, conte as suas histórias. Sempre ofereça opções e pergunte
de qual ele gosta mais e porquê;
57
“Dizer não é a maior prova de amor que um pai pode dar”, afirma a
psicóloga10. É assim, com pequenas doses de frustração, que seu filho vai
aprender a lidar com as adversidades e a superar os problemas sem se
deixar abater.
Podemos observar na análise desse material algo bastante relevante: a edição da
revista é do mês de agosto, mês do dia dos pais, por isso a matéria apresenta uma seção
especial a eles dedicada. Aspecto que se diferencia das outras edições e de outros materiais, os
quais, em sua maioria, dirigem-se às mães.
Para os pais, então, é preparado um pequeno guia de como estabelecer uma boa
relação com seus filhos, estimulando o vínculo entre eles, o diálogo, a expressão das emoções,
e sinalizando também que a preocupação com o futuro deve começar cedo. Ou seja, temos um
guia que os dirige ao que foi formulado e classificado como o que deve fazer um pai
adequado a um modelo específico de criança. Ou ainda, faz-nos pensar em outra questão –
para que uma criança não destoe do todo ou que seja considerada inadequada para a vida em
sociedade, como um pai deve agir em sua criação? O que deve ensiná-la?
Criam-se assim tecnologias disciplinares que devem atuar sobre os (supostamente)
iguais, como se formassem um grupo homogêneo. Desse modo, previnem-se de qualquer
desvio no percurso previamente estabelecido e legitimado pela Ciência. Essa estratégia
disciplinadora desenvolvida com atenção diferenciada para o pai, coloca-os no padrão
considerado normal e objetiva-os de forma a eliminar a diferença na criação dos filhos, ao
transformar a infância em objeto maleável (mas não muito) que pode e deve ser corretamente
administrado.
Outro tipo de manual, mas dessa vez para as mães, é encontrado na revista Pais &
Filhos (agosto/2011), intitulado “Abaixo a culpa!”. Aqui podemos perceber o cuidado de
esclarecer às mães “alguns pequenos deslizes da maternidade”, em que elas se sentiriam
culpadas por não agirem como uma “mãe perfeita para criar uma criança ótima”. Essas
situações foram expostas para especialistas a fim de esclarecê-las. Embora não seja
especificado em cada situação qual especialidade foi convocada a responder, no final da
reportagem, eles são apresentados de forma geral, são eles: um obstetra, um psicólogo clínico
10
Nesse caso, o jornalista, responsável pela redação da matéria, recorre a uma especialista para respaldar a ideia
que desenvolve.
58
especialista em neurociências e comportamento, uma especialista em psicopedagogia e
educação especial, e um pediatra. Para todas as questões que eles devem responder, segue-se
o esquema: situação, onde se descreve o problema; abaixo a culpa, os especialistas se
enunciam a respeito da questão; e faça melhor, espaço onde são apresentadas/prescritas
possíveis alternativas para resolver o dilema.
Situação: Eu grito com meu filho. A gente evita ao máximo, mas às vezes
escapa. Sabe quando a casa está silenciosa e tudo bom demais para ser
verdade? Aí, você chega na sala e vê que aqueles lápis de cor agora estão
sendo usados para decorar a parede recém-pintada? O baque é tão grande,
que o grito sai alto e o rosto do seu filho fica manchado de lágrimas. Na
hora pensamos: será que precisava ter gritado?
Abaixo a culpa: Nós todos perdemos a paciência com os nossos filhos. A
boa notícia? Especialistas dizem que gritar de vez em quando pode ser uma
coisa boa: as crianças precisam ver que os pais não são perfeitos. E também
saber que tudo tem limite, e que algumas coisas são mais erradas que
outras.
Faça melhor: Se você perder a paciência, peça desculpas à criança e dê
uma breve explicação. Em outras ocasiões, tente fechar os olhos e respire
por um minuto – você não só vai se sentir mais calma, como também servir
de exemplo de autocontrole para a criança.
As outras situações apresentadas são: eu tive o meu filho de cesárea; eu não
amamentei; não dou atenção para o meu filho por estar muito cansada; eu falo mais SIM do
que deveria; eu nem sempre faço meu filho compartilhar; eu mando meu filho doente para a
escola; eu não deixo meu filho tirar uma soneca durante o dia.
Com relação a esse manual feito para as mães, pensamos, mais uma vez, na estratégia
que requer a disciplinarização dos pais (no caso mães) e das crianças, evitando desviantes da
norma. E norma essa que, como descreve o material, permite “alguns pequenos deslizes”,
mas desde que sejam contornados, e para tanto se aponta como “fazer melhor”.
Essa questão da prevenção é desenvolvida de forma a possibilitar a um campo de
ações possíveis para atuar na educação das crianças, legitimando práticas que não seriam tidas
como aceitáveis não fosse tal identificação. No material, isso aparece com a nomeação de
59
possíveis culpas sentidas pelas mães, mas que com a intervenção de um especialista se torna
plausível, portanto “normais”.
Vemos aqui que o discurso especializado converte-se em uma pedagogia de como os
pais devem educar seus filhos, o que participa do processo de naturalização de um modo de
ser criança específico. Insta destacar que nesse processo, a constituição da identidade das
crianças se pretende como um modo essencial e natural de estar no mundo. Ao interpelá-las a
serem de um determinado modo, as mídias constituem, mesmo que apelando para discursos
produzidos em outras instâncias, verdades sobre ser criança de um jeito e não de outro.
Ao assumir a função educativa de orientar os pais, o discurso normativo e de
aconselhamento presente nessas revistas, as constituem como lugar pedagógico, que ordena,
faz obedecer, mesmo com sutilezas em seus enunciados, mas são marcados pelo tom
imperativo em seus enunciados: “Sorria, elogie, dê um olhar carinhoso, abrace... Tudo isso
mostra o quanto você está disponível para amar e ajudar seu filho11”. Podemos notar o uso
frequente de um vocabulário com “deve” – “Os pais devem explicar por que é tão importante
tomar banho, usar o sabonete, lavar todo o corpo todos os dias12”; “pode” – “Você pode
prometer que no dia seguinte vai brincar com ele, mas não deixe de cumprir a palavra 13”;
“faça” – “Faça passeios sustentáveis, coloque a família em contato com a natureza em
passeios a parques ou praia 14”; “é preciso” – “É preciso trabalhar a baixa autoestima
internamente, focando nas qualidades e aceitando os defeitos, ou até com a ajuda de um
profissional, via terapia, para evitar educar a criança com esse peso 15”, apresentando um
texto que se assemelha a um guia, a regras a serem seguidas, a cuidados, a modos de agir ou a
solução de problemas. Esse modo imperativo de expressão aparece tanto nas matérias
“educativas” como nos anúncios publicitários.
Segundo Rose (1988), a autoridade e a legitimidade social conferidas aos discursos
dos especialistas tornam-se fundamentais para as formas contemporâneas de governo dos
modos de existência e de governarmos nós próprios. Mas não porque os especialistas tentem
iludir, controlar e condicionar os sujeitos; essas formas de ação se dão de maneira indireta.
Elas obtêm efeito através da persuasão inerente às suas verdades e das normas estabelecidas.
11
Matéria “Dez inspirações para entender que a autoestima muda tudo” (Crescer, novembro/2011).
Matéria “Este ano seu filho vai...” (Crescer, dezembro/2011).
13
Matéria “Abaixo a culpa!” (Pais & Filhos, agosto/2011).
14
Matéria “Você sabe o quanto a sua família é verde?” (Crescer, agosto/2011).
15
Matéria “Dez inspirações para entender que a autoestima muda tudo” (Crescer, novembro/2011).
12
60
Dessa forma, pensando as mídias como um lugar privilegiado de produção e circulação de
enunciados de múltiplas fontes, essa força de efeito dá-se de forma ampliada.
Para concluir, destacamos que, no que concerne à infância, são multiplicadas nesses
materiais a presença dos especialistas que tem algo a dizer e/ou prescrever. Aos já tradicionais
psicólogos, pediatras, psicopedagogos, vemos somar-se terapeutas ocupacionais, sociólogos,
economistas, obstetras, especialistas em educação, cultura e mídia e até jornalistas (embora
pelo menos um desses legitime suas credenciais pelo fato de ser pai de 3 filhos, o que parece
lhe conferir uma outra especialidade)... Além disso, identificamos a referência aos discursos
da neurociência que transversalizam, não apenas o discurso das áreas médicas,
tradicionalmente mais afins com concepções biológicas, mas também o discurso de
psicólogos e da especialista em educação, cultura e mídia. A estratégia de marcar a presença
de especialistas é particularmente importante no tipo de comunicação dirigido a pais e mães,
de forma quase que indistinta entre materiais de cunho publicitário, jornalístico e informativo.
4.1.2 Depoimentos como lição de vida
Nessa segunda estratégia, analisamos o lugar explicitamente didático e exemplar dado
às falas dos pais sobre suas crianças. A apresentação de depoimentos, também configurados
como lições de vida, adquire uma importância particular, dado o atributo conferido a
confissão de fatos privados na esfera pública.
Sobre a discussão entre público e privado, Bauman (2010) desenvolve a ideia de que
falarmos em “linguagem privada” não é adequado aos dias atuais, pois
o que quer que seja nomeado, inclusive os sentimentos mais secretos,
pessoais e íntimos, só o é propriamente se os nomes escolhidos forem de
domínio público, se pertencerem a uma linguagem compartilhada e pública e
forem compreendidos pelas pessoas que se comunicam nessa linguagem (p.
81).
Sendo assim, para o autor, há a criação de um novo espaço público, em que a linha de
divisão entre privado e público já não é tão demarcadora de seus limites, de suas diferenças –
esses espaços estão em constante trânsito entre si. Essa redefinição da esfera pública advém
da, cada vez mais frequente, exposição dos dramas privados, publicamente expostos e
publicamente assistidos.
61
Assim, os depoimentos permitem a exposição de uma história de vida “real, comum”
de uma pessoa “comum”, que até por sua anonimidade, pode fazer com que o exemplo seja
mais fácil de seguir. Mas não somente os anônimos são convidados a darem seus depoimentos
nos veículos midiáticos. Conforme Bauman, a busca ávida e sem fim por novos exemplos
aperfeiçoados e por receitas de vida é enunciada por pessoas famosas também. Esses
assumem a posição de conselheiros, especialistas, como vimos na estratégia anterior, e se
oferecem como exemplos a serem seguidos, servindo como “treinadores para o sucesso”, que
estão dando (ou vendendo) seus conselhos para quem quiser. Essa atual condição de histórias
de vidas expostas no cenário público levam ao que Bauman (2001), tomando emprestado do
sociólogo Mathiesen, denomina como modelo do poder sinóptico 16.
Isso corresponde ao imperativo contemporâneo de vigiar a conduta dos outros
indivíduos, buscando esses exemplos em que possam se identificar e que contribuam na
construção de seu estilo de vida.
O sinóptico capilariza e incita um autocontrole a partir ‘dos outros’ [...]. O
olhar atento ao que acontece no mundo das celebridades ilustra esse modelo.
A tentativa de construção de estilos de vida a partir de roteiros descritos por
pessoas famosas é um foco de vigilância privilegiado na espetacularização
atual. O sinóptico ilustra os limites institucionais do paradigma disciplinar e
a ampliação de novas e mais ‘leves’ orientações de conduta. Agora, em vez
de poucos vigiarem muitos, são muito que vigiam poucos (ALMEIDA;
GOMES; BRACHT, 2009, p.43-44).
O curioso dessa estratégia é que a identificação com a história de vida do outro
pode até ajudar na solução de problemas semelhantes, mas antes disso, ajuda a produzir esse
problema, a nomeá-lo. Assim, os depoimentos são produzidos e operam como efeitos do
investimento dos discursos normativos e das estratégias biopolíticas. Seu funcionamento
como mecanismo de governo dessas vidas, em que se prioriza a disciplina e a harmonia,
impondo a ordem desejada sobre uma realidade, que se espera, sob controle.
Essa estratégia captura os indivíduos e produzem neles a possibilidade de se
reconhecerem naquilo que está sendo dito, ou mesmo de se auto-avaliarem em relação ao
tema discutido. Esse modo particular de interação permite que ao olhar a experiência de outra
pessoa, tendo ideia de suas dificuldades e suas formas de contornar as situações, o público em
16
Esse modelo aparece como uma transição do poder panóptico (Foucault, 2010b), onde ao invés de sermos
vigiados por apenas “um”, o modelo se inverte e esse “um” se coloca no centro para ser vigiado por todos os
outros.
62
situações semelhantes, descubra e localize seus próprios problemas, possam nomeá-los e
encontrar os meios de resistir a eles ou resolvê-los (BAUMAN, 2001).
Os materiais, em que identificamos o uso de depoimentos como exemplos a serem
seguidos, são expostos a seguir:
Matéria intitulada “Com a cabeça no mundo virtual” sobre como as tecnologias se
instalaram nos hábitos familiares trazendo encantamento para as crianças e muitas perguntas
para os pais. Convidada a falar sobre como seu filho lida com a tecnologia, a mãe diz: “O
Nicolas tem só 02 anos e já brinca com o iPad, liga, desliga, entra nos joguinhos que ele
gosta, se diverte. Ele conhece o aparelho mais do que o pai” (Crescer, agosto/2011);
Matéria “Introvertidos X Extrovertidos” sobre a importância dos pais conhecerem o
temperamento de seus filhos para melhor educá-los. Dentre outros depoimentos, o de uma das
mães ganha destaque na matéria por estar escrito com letras maiores que os demais:
A Alice nunca falava com pessoas que não conhece. Costumo falar para as
crianças chegarem nela devagar para conquistá-la aos poucos. No início,
ela fica sem conversar, mas depois que enturma... de qualquer jeito, ela
interage mais quando o grupo é pequeno (Pais & Filhos, setembro/2011);
Nesses materiais, destacamos a objetivação, por meio dos depoimentos, de novas
questões em torno da infância: sua relação com as novas tecnologias e sua (in)capacidade de
interação. Note-se que ambas relacionam-se as novas configurações da sociedade e o do tipo
de sujeito demandado por essa. Simultaneamente produz-se uma naturalidade de tais situações
e em casos específicos, seguem as receitas sobre como agir sobre as mesmas.
Além de depoimentos de pessoas não-famosas, encontramos na revista Pais & Filhos
(agosto/2011), uma matéria que apresenta depoimentos de personalidades de sucesso: um
apresentador, dois músicos, um ator e um compositor. Essa matéria foi veiculada no mês de
agosto, mês em que é comemorado o dia dos pais. Para tanto foram convidados os pais como
anuncia o título da matéria:“Como pensam os pais?”, em que cinco pais “descolados17”
foram convidados a falar sobre quais valores acreditam ser essenciais para transmitir aos
filhos.
Destacamos aqui dois desses depoimentos:
17
A palavra “descolados” é usada na matéria, referindo- se a pais modernos, sociáveis.
63
Eu acho importante preparar as minhas filhas para entender que a vida não
é feita só de sim. Elas precisam conhecer os limites e saber conviver com a
frustração. Por isso, eu e minha esposa procuramos não dar tudo o que elas
querem e a toda hora. [...] Eu quero que elas tenham respeito para serem
respeitadas, sejam educadas, peçam licença, agradeçam... Mas sem baixar a
cabeça, claro. Outra coisa que procuro ensinar é que, mesmo nessa geração
de internet, os seres humanos são importantes, que as relações interpessoais
precisam vir antes da tecnologia. [...] Limite, educação, disciplina, amor e
conversa são fundamentais. Mas tão importante quanto ensinar é fazer. Por
isso, eu procuro dar o exemplo. [...] (Apresentador).
Eu tento passar para Rafaela os valores básicos como amizade, lealdade,
ética, sinceridade. Uma coisa muito importante que eu sempre converso com
ela é que é preciso falar a verdade, ter paciência e principalmente ter
respeito. E isso tem muito a ver com o que aprendi com o meu pai. Pelo fato
dele ser músico, sempre fazia tudo ao mesmo tempo. Eu chegava animado
da escola e ia contar algo para ele, mas ele estava de fone no ouvido, ou no
piano. Eu saía falando, e ele dizia ‘ei, ei, respeito, calma, estou terminado
aqui e depois você me conta’. Era um balde de água fria, mas necessário.
Assim, eu fui entendendo, ainda mais agora que eu sou músico. E o valor
mais importante que eu passo para a Rafaela é esse: esperar a sua vez. O
engraçado é que ela faz como se estivesse na escola. Ela fica do lado,
levanta a mão e diz que quer falar. E espera. Às vezes, ela esquece, claro,
não tem jeito (Músico).
Esses depoimentos podem ser situados como discursos normativos explícitos sobre os
modos de ser criança e de como se deve se relacionar com a infância. Eles ajudam a descrever
o que vem sendo produzido, divulgado, incentivado, polemizado, aceito ou rejeitado,
conforme o lugar e a posição de quem e do que é exposto cada vez mais intensamente na
nossa cultura.
Notamos, que embora as mídias tenham uma intenção pedagógica, ao educar e ensinar
modos de ser, isso não se dá indiscriminadamente. Esses depoimentos mostram as posições
que esses pais ocupam nas relações com seus filhos – são exemplos de vida que enunciados a
partir de formas sutis e variadas para falar com seu público alvo, tal como nesse modo
específico de fazer os adultos falarem sobre suas crianças e sobre seus modos de agir.
Podemos notar a estratégia do uso de depoimentos também em materiais que busquem
a interação com os espectadores e leitores, com o objetivo de compartilhar experiências. Essa
interação, mesmo que não instantânea, como nos casos dos materiais impressos, propicia
trazer para “dentro” da mídia os que estão “fora”. De maneira que, com essa estratégia, é
64
possível saber qual o interesse do público, quais suas dúvidas, sobre o que querem saber mais,
e também sobre o que perderam o interesse.
Esse movimento permite que tudo se torne visível, conhecido. Esse novo investimento
no indivíduo estimula que o público participe, seja convidado a falar, a emitir suas opiniões e
relatar experiências por meio de estratégias de interação. Sendo assim, apresentamos a
estratégia do uso de depoimentos também operando com a convocação da participação dos
pais e das crianças.
Encontramos essa interação do público na seção “Funcionou comigo – Aqui, o
especialista é você”, da revista Crescer. Nesta seção, as mães são convidadas a responder
perguntas enviadas por outras mães acerca do comportamento dos seus filhos: “Mande
perguntas e ajude outras mães com suas respostas! Escreva para Crescer/ Funcionou
Comigo”. Ilustramos com uma das pergunta enviada:
Meu filho não toma remédio de jeito nenhum. Já tentei convencê-lo de todas
as maneiras. Se dou a medicação à força, ele fica nervoso e chega a
vomitar. O que eu faço?(Revista Crescer, Julho/2011).
Uma das respostas:
Meu filho, como a maioria das crianças, também não gosta de tomar
remédio. O que eu e meu marido descobrimos é que fazendo brincadeiras
ele toma todo o remédio sem notar. Meu marido imita bichos, dança, canta
e, quando ele ri, coloca um pouco de remédio na boca dele. Ele toma
brincando!
É interessante ressaltar que, além dos depoimentos das mães, a seção também é
acompanhada da opinião de um especialista (que, ao contrário do que diz o título da seção,
não são as mães das crianças) na questão. Ou seja, embora as mães sejam convidadas a
responder, a palavra final cabe a um especialista, produzindo novo entrelaçamento com a
primeira estratégia apontada nesse estudo. Nesse caso, a pediatra diz:
Aos 2 anos, a criança já consegue entender algumas coisas e você pode
conversar com ela sobre a importância de tomar o remédio. Explique que
ela não está bem e precisa daquela medicação para mandar o ‘bichinho’
embora e melhorar [...].
65
Para dar um aspecto mais pessoal à prescrição médica, observamos aqui uma espécie
de diálogo entre os leitores e a revista, oferecendo a uma situação cotidiana “verídica”, uma
troca de experiências com outras pessoas que já vivenciaram o problema, e, em seguida, a
opinião de um especialista.
Destacamos aqui a posição do especialista, assumida como autoridade, ao responder às
dúvidas e dilemas das mães. Como mencionamos, embora o título da seção seja “Funcionou
comigo – Aqui, o especialista é você”, há um espaço reservado para a fala do especialista (que
é maior do que o espaço onde ficam as respostas das mães) indicado da seguinte forma: “O
que diz a especialista”. Mas ainda assim, o caráter de interação permanece, pois o que foi dito
pelo especialista responde às perguntas enviadas, como também reitera as respostas dadas
pelas outras mães. Além de fazer uso de uma linguagem coloquial e direta, como uma
conversa, materializando-se em um texto que se faz “cotidiano”. Essa estratégia formada a
partir dessas interações é implantada, buscando “apanhar” os sujeitos de todas as maneiras.
Por isso, a naturalidade das falas e a linguagem comum aos saberes especializados.
Já na reportagem televisiva Alunos participam do projeto AL TV na sala de aula 18,
vemos as crianças sendo convocadas a participarem da ação social de preservação do meio
ambiente:
Criança 1: Se a gente jogar lixo nas águas vai também poluir o ar, e a gente
vai ficar com pouca água, tem que fechar a torneira quando a gente for
escovar os dentes, quando a gente for tomar banho, não pode ficar de
brincadeira.
Repórter: O que é um Eco Cidadão?
Criança 2: É alguém em sua vida cotidiana que se preocupa em não jogar
fora mais do que a natureza precisa absorver.
Repórter: Como é que se deve cuidar na natureza?
Criança 3: Não jogando lixo no chão, jogando na lata de lixo, não poluindo
o ar, não poluindo a água.
18
Matéria veiculada no jornal local AL TV 1ª edição, da emissora Gazeta Alagoas (afiliada da Rede Globo), no
dia 27/10/2011. Disponível em: http://gazetaweb.globo.com/v2/videos/video.php?c=12777. Acesso em:
29/10/2011.
66
Criança 4: São as árvores que ajudam a gente a viver, elas produzem ar. Se
a gente ajudar as árvores, elas contribuem com a gente de novo.
Para produzir um determinado modo de ser, as próprias crianças também são
convidadas a falarem de si, de seus comportamentos, seus gostos, preferências, hábitos.
Pensamos que essa estratégia de utilização de experiências como exemplos e modelos,
incluindo a convocação de pais e crianças para se expressarem publicamente, visa um
trabalho de produção de identidade, construindo essa infância como objeto de saber, e em
torno dessa uma série de questões problemas ou alvos específicos de cuidado e investimento.
É possível assim constituir tais personagens como sujeitos de um determinado tipo,
classificando-os e direcionando práticas específicas correspondentes a cada uma das
caracterizações feitas.
4.1.3 Figuras híbridas de tradição e modernidade
A terceira estratégia trata da forma como são exibidos os modos de ser e se relacionar
com a infância a partir do que chamaremos de figuras híbridas de tradição e modernidade.
Relacionamos à noção de tradição àquilo que reconhecemos como concepções mais
tradicionais da infância que definem as crianças numa perspectiva que as diferencia
radicalmente dos adultos – um ser imaturo, alguém que depende das decisões alheias –
alguém que precisa adquirir o conhecimento que foi legitimado por outros mais velhos e
inteligentes, e que, portanto, ainda não sabe. À noção de modernidade da infância,
relacionamos aqui as imagens que, rompendo com tais divisões tradicionais entre adultos e
crianças, as situam como sujeitos de saberes, seres falantes, convocados a falarem sobre si e
sobre o que sabem. Nesse sentido, o uso do termo modernidade remete a produção de uma
novidade, de algo novo sobre a infância, em oposição e que já não se reconhece nas
perspectivas tradicionais.
No primeiro trecho que destacamos a seguir, identificamos a figura da modernidade na
matéria “Com a cabeça no mundo virtual”, onde as crianças são apresentadas como aqueles
que sabem utilizar aparelhos tecnológicos e transmitem esses saberes para os pais. Na fala de
uma mãe:
67
A minha profissão exige que eu saiba mexer em ferramentas tecnológicas,
mas, por mais que eu saiba muita coisa, perto dos meus filhos me sinto uma
analfabeta tecnológica. Sempre que tenho problemas com o computador é o
meu filho mais velho que me ajuda e ainda fala: ‘Nossa, mãe, não acredito
que você não sabe isso!’. Fico muito impressionada também com o meu
pequeno, que já coloca o DVD no aparelho sozinho e assiste aos filmes que
ele gosta. E olha que só tem 1 ano!(matéria Com a cabeça no mundo virtual,
revista Crescer, agosto/ 2011).
As novas tecnologias aparecem com frequência relacionadas à constituição dessa nova
figura da infância, que domina uma linguagem sofisticada e nova, facilmente superando as
competências e habilidades dos adultos.
Na revista Pais & Filhos (outubro/2011) também encontramos uma matéria em que os
saberes das crianças se relacionam com a tecnologia, porém como se trata de matéria sobre a
escolha da primeira escola, esse saber aparece como um “dificultador” da aprendizagem. A
matéria nos diz:
É impressionante como crianças tão pequenas já entendem tanto de
tecnologia. Não é difícil de ver um bebê, praticamente de 2 anos,
manuseando um iPhone ou iPad com a maior familiaridade. Dentro da sala
de aula, ao mesmo tempo em que tecnologia funciona como uma ferramenta
que auxilia o professor, ela pode restringir que as crianças tenham contato
como materiais como massinhas, lápis e livros (matéria Caça ao tesouro,
revista Pais & Filhos, outubro/2011)
Aqui as crianças aparecem como aqueles que sabem fazer uso de aparelhos
eletrônicos, mas que essa habilidade pode fazer com que elas percam o interesse por
atividades tradicionais do método de ensino. A partir disso, a infância é apresentada como um
fenômeno contemporâneo instável, em que o saber das crianças esbarra-se com o
tradicionalmente estabelecido e desejável modo de ser criança: aquela que brinca com
massinhas, lápis e livros.
No trecho a seguir, da seção “Pingos nos is”, da revista Pais & Filhos, encontramos
outro enunciado que posiciona as crianças como aqueles que não sabem. Nessa seção da
revista, quem escreve é um economista, pai de três filhos, como é apresentado. Percebemos
nesse material uma linguagem, que nos leva a crer que se trata de uma seção em que o autor
expressa sua opinião sobre algum tema:
Não sou contra a internet. Sou contra pais que acham que tudo bem que é
muito bom o filho navegar por aí, ter conta no Facebook com 8 anos e
computador no quarto. Internet exige discernimento, maturidade para
separar o que importa daquilo que não importa, e nossos pequenos não
68
sabem fazer isso. Que bom! Que eles possam brincar de carrinho! (Revista
Pais & Filhos, agosto/2011).
Nessas matérias, encontramos enunciados que ao mesmo tempo em que expressam
uma concepção sobre a natureza da infância em torno daquilo que é para elas adequado ou
não; esperado ou não; desejável ou não; pontuam um abalo nessa concepção produzido pelas
novas tecnologias. De acordo com a avaliação feita sobre tal interferência, se vista como
positiva ou negativa, não assumidos essas posições, somente apontamos que são propostas de
diferentes estratégias de regulação dessa infância.
Mas enquanto no campo tecnológico podemos visualizar uma exacerbação de
discursos sobre a autonomia (ainda que limitada) e do saber das crianças, no que concerne a
outras esferas de sua realidade, prevalece a noção de incapacidade. Na matéria “Caça ao
tesouro” (Pais & Filhos, outubro/2011) são descritos alguns critérios que podem auxiliar os
pais no momento da escolha da primeira escola para os filhos. Critérios como educação,
instrução, bem estar e segurança são considerados, na reportagem, como relevantes durante
esse processo de escolha, mas além deles posiciona-se o interesse da criança. Sobre isso a
psicopedagoga, na matéria, diz: “As crianças não têm condições de fazer escolhas, mas é
importante que elas digam como estão se sentindo”.
Dessa forma temos aqui duas formas desenvolvidas de maneiras distintas dependendo
do domínio que se apropria. Tradicionalmente, se toma a infância como uma fase do
desenvolvimento humano, garantindo um curso esperado e tomando o adulto como parâmetro
de normalidade - isto é aquele que é racional e moral - constituindo-se a infância como uma
fase de subordinação, em que se implica o controle do adulto nas suas condutas e vontades.
Por outro lado, considerando-se as mudanças passadas na sociedade pelo avanço da
tecnologia, pensa-se também em uma infância que tem suas habilidades e saberes próprios
valorizados.
Vemos que os discursos que versam sobre os modos de ser criança não se dão de
forma homogênea e contínua. Esse apontamento nos leva aos estudos que colocam em
discussão a posição ocupada pela criança na sociedade atual, a partir das formas de se viver
essa infância veiculadas nos materiais midiáticos. Encontramos, então, alguns autores como
Corazza (2004), Souza e Campos (2003), Brayner (2001) e Postman (1999) os quais
consideram que os comportamentos e discursos apresentados pelas crianças, conferem a elas
uma postura mais adulta, pois se assemelham às atitudes esperadas por adultos. A esse
69
processo de diminuição de fronteiras que delimitam o universo adulto e o infantil, vão
denominar de “adultização/adultificação” das crianças ou “desaparecimento” da infância.
Segundo os autores, esse processo de adultização atinge tanto as crianças como os adultos,
visto que, tende a promover mudanças nas relações estabelecidas consigo, com os outros e
com o mundo.
No entanto, falar em adultização das crianças talvez nos retorne a ideia a respeito da
condição de “natureza infantil”, da sua essencialização, atrelada a expectativas de certo
comportamento do desenvolvimento. Ideia que nos afastamos por tratarmos as noções de
infância como uma construção histórica a partir das condições de possibilidade emergentes.
Desta forma, não se trata aqui de discutir se as crianças estariam passando por um processo de
adultização por conta de seus saberes e habilidades valorizados, mas sim de problematizar
essa questão. Pois se hoje as crianças são posicionadas como consumidoras ou portadoras de
um saber, isso é possível pelas condições econômicas, sociais e culturais emergente no
momento presente.
O que gostaríamos de destacar com essas questões é que o modelo de ser criança e
com ela se relacionar se encontra em meio a um conjunto discursivo que não se mostra
homogêneo e tampouco definitivo, mas que a partir do que pudemos visualizar nos materiais,
esse modo de existência se encontra nos entremeios de noções híbridas de tradição e
modernidade.
4.1.4 Modos hegemônicos de ser e de relacionar com a infância
A quarta estratégia nos chama atenção por definir ou estabelecer modos hegemônicos
de ser e de se relacionar com a infância – através de enunciados que afirmam “como são” e
“como vivem” as crianças contemporâneas.
É possível que, ao descrever as outras estratégias também possamos perceber a
descrição de um modo de existência preponderante, porém, notamos nos materiais aqui
analisados descrições objetivas de “como as crianças são”, “como se comportam”, “como é
normal que ajam”, dentre outros modos, o que nos leva a dedicar atenção a essa produção.
Salientamos que nomeamos as estratégias separadamente a fim de uma melhor compreensão e
visibilidade para nossa análise, mas é importante frisar que elas não operam separadamente,
70
suas táticas de ação se dão no entrecruzamento de umas com as outras, em práticas
heterogêneas que se mesclam e coexistem.
Nos materiais, vemos a descrição dos modos de ser naturalizados e constituintes do
“ser criança”, aos quais daremos destaque a seguir:
Um primeiro material que se destaca é a matéria “Matrícula na hora certa” sobre
atividades esportivas e cursos adequados para cada idade das crianças. As atividades em
questão são: dança, musculação, esportes recreativos, esportes competitivos, instrumentos
musicais e idiomas. Neste material, discorre-se sobre os benefícios que essas atividades
extracurriculares podem proporcionar no desenvolvimento saudável das crianças. No entanto,
o mesmo alerta que a preocupação exagerada dos pais com o futuro dos filhos pode
comprometer as capacidades físicas e intelectuais das crianças inseridas na rotina de diversas
atividades, em que ao invés de estimular, podem acabar “afetando o desenvolvimento
neurológico da criança”, como explica o pediatra na matéria:
A preocupação exagerada dos pais com o futuro dos filhos pode transformar
a rotina de muitas crianças em uma roda-viva: da escola para a natação, de
lá para a aula de violão, que quase emenda com a de espanhol – e, de volta
em casa, a criança ainda tem de estudar para a prova de matemática do dia
seguinte (Seção Guia Veja – Matrícula na hora certa, revista Veja, ed. 2236,
ano44, nº39, 28/09/2011).
Percebemos nesse excerto, assim como no restante da matéria, a padronização de um
modo de ser criança que responde aos apelos recorrentes da sociedade contemporânea, para
que sejamos cada vez mais produtivos, competitivos, bem sucedidos. Porém, como já
abordamos, não se trata de uma sociedade em que apresente condições homogêneas nem
igualitárias para todos que vivem nela. Assim, o estabelecimento de um referencial desejável
de preparação das crianças para a vida adulta, mais do que negligenciar as diferenças,
constitui uma normalidade em torno dos investimentos na infância.
Outro material que também indica uma naturalização do cotidiano das crianças foi a
matéria “Com a cabeça no mundo virtual”, em que se aborda as relações das crianças com as
tecnologias. Em uma parte da matéria, coloca-se uma pergunta em destaque: “Qual é o
combinado com o seu filho sobre o uso do computador, iPad e jogos eletrônicos?” e alguns
pais buscam respondê-la. Um deles se posiciona da seguinte maneira:
71
[...] A geração de crianças nascidas após o início desse milênio, como é o
caso da minha filha, usa os meios digitais com muita criatividade e para
vários fins que não só a diversão.Outro dia mesmo, fiz uma vídeo
conferencia com ela, eu no trabalho e ela em casa, para ajudá-la com uma
lição, algo que pouco tempo atrás pareceria coisa de ficção científica. Essas
novas formas de comunicação são incríveis e fico fascinado com as
possibilidades que elas nos dão. Nesse sentido, tanto faz se a Marie, como
chamo minha filha, quer ler um livro no celular, no tablet ou no papel. A
plataforma não interessa, o que eu quero é que ela leia. [...]. (Reportagem
Com a cabeça no mundo virtual, revista Crescer, agosto/2011).
O primeiro elemento que nos chama a atenção é a criação de uma unidade geracional "a geração de crianças nascidas após o início desse milênio" -, correspondente a uma nova
forma de relação com a tecnologia - "usa os meios digitais com muita criatividade"-,
constituindo portanto, uma nova forma de produzir a infância "para vários fins que não só a
diversão". Uma leitura descuidada nos poderia fazer pensar que temos tal unidade geracional
constituída de forma absoluta, como se tais recursos tecnológico não fossem restritos a apenas
uma parcela das crianças hoje.
Mais um material em que é possível visualizar a produção de um determinado modo
de ser é o anúncio publicitário do Banco Itaú, em que se apresenta o serviço de planos de
previdência privada para as crianças. As crianças são descritas no texto publicitário como
independentes, em associação a imagem ilustrativa de uma criança segurando uma escova de
dente, sugerindo que já consegue desempenhar a ação sozinha: “A cada dia eles ficam mais
independentes. E se tiverem uma previdência privada vão continuar assim no futuro (Anúncio
publicitário do Banco Itaú, revista Pais & Filhos, outubro/2011).
Neste, como nos demais excertos, podemos observar a normatização de uma infância a
partir de modos de ser que produzem um determinado modo de existência. Esses materiais
apontam para modos de ser em que as crianças lidam habilidosamente com as evoluções
tecnológicas, participam e mobilizam o consumo de objetos e serviços vigentes, mostram-se
independentes, produtivas, ativas, bem sucedidas, produzindo a naturalização de uma noção
da infância correspondente com os modos de vida preconizados na contemporaneidade.
Apresentam também como as crianças ganham uma visibilidade social, na medida em que é
possível que escapem (mesmo que em certa medida) do modelo tradicional de serem vistas
como aquelas que não sabem, para se tornarem aqueles que são ativos na sociedade e mantém
as relações estabelecidas em movimento, como nas práticas de consumo e na transmissão de
saberes para os adultos.
72
Analisando como esses discursos são constituídos e invocam noções particulares de
verdade sobre como as crianças devem ser e agir, destacamos que as estratégias utilizadas
para tornar hegemônicos esse modos de ser se dão nas relações de saber e poder na sociedade
atual. Por sua vez, isso nos permite identificar na análise dessas quatro estratégias
apresentadas como elas se relacionam e se apoiam em determinados saberes, sustentados pela
constituição de uma rede de profissionais especialistas, cujo discurso apresenta-se como
legítimo e, portanto, com poder de dizer a verdade, servindo de suporte para as formas de
regulação, disciplinamento e subjetivação dos modos de ser criança.
Muito embora, estejamos analisando os modos hegemônicos de existência
relacionados à infância, os quais visam uma homogeneização dos indivíduos, surpreendeu-nos
em uma das matérias da revista Pais & Filhos (julho/2011), a forma com a noção de diferença
aparece. No material intitulado “Família diferente, vida normal” é descrito o cotidiano de
uma família que tem dois filhos, 5 e 1 ano e 9 meses de idade. A matéria descreve-os como
crianças felizes, que acordam de bom humor, dormem a noite inteira e alegram a casa. O fato
de eles serem uma família diferente, como indica o título da reportagem, é pelo primogênito
ter uma deficiência neurológica, necessitando de alguns cuidados particulares. Sobre ele, a
mãe diz: “Ele veio sob encomenda pra mim. Sou uma mãe egoísta e ele sempre vai estar
comigo”. O pai completa: “Desde que nos mudamos para cá, nem terminamos de reformar a
casa. Nosso tempo é deles. Por que eu ficaria com uma furadeira na mão, se tenho dois filhos
para brincar?”.
O que destacamos com esse material é que assim como aparece a questão da diferença,
ela é tão logo anulada ao ser relacionada à normalidade da vida cotidiana da família. Além do
título, a diferença só aparece, como desvio, quando se fala a respeito do desenvolvimento da
criança: “[...]não teria um desenvolvimento normal”. O que nos chama atenção ao que é
enunciado nesse material é a questão da diferença estar associada ao funcionamento
neurológico da criança, mas o modelo de infância e modos de ser criança apresentados
continuam sendo em relação ao modelo de normalidade hegemônico.
Na revista Crescer (novembro/2011), encontramos mais uma matéria que nomeia uma
infância como diferente. Trata-se de uma matéria divulgada como parte do Projeto
73
Generosidade19, o qual por meio das revistas e dos sites da Editora Globo, divulga iniciativas
de pessoas e instituições que trabalham com ações sociais.
Esse material, intitulado “O céu não é o limite”, descreve o trabalho de uma jornalista
que criou o Clubinho da Criança Inteligente, que leva cerca de trinta crianças moradoras do
Morro Santa Marta, no Rio de Janeiro, para o planetário da cidade. O projeto foi fundado em
maio de 2010: “Queria fazer algo pelas crianças e, na minha leitura de mundo, o grande
diferencial do ser humano é a inteligência”, explica a fundadora.
As atividades do Clubinho variam entre aulas de astrologia, ecologia, contos de
histórias e sessões de filmes. Segundo a fundadora: “A cosmologia é apenas a porta de
entrada para levarmos a consciência de cidadania para essas crianças”. E continua:
Quando eles [as crianças] chegam aqui, se impressionam, entram num
mundo novo e gostam disso. Essa é a melhor maneira de atrairmos as
crianças para coisas maiores. Nosso objetivo é mostrar que elas são cidadãs
como qualquer outra pessoa e que podem e devem frequentar espaços
culturais, museus e tudo mais o que a cidade oferecer de conteúdo.
A enunciação da diferença, nesse caso, sinaliza para outras infâncias possíveis,
visibilizadas a partir das crianças pobres, moradoras do morro, as quais o projeto
Generosidade inclui em suas ações. No entanto, mais uma vez essa noção da diferença não é
explorada na matéria, e do mesmo modo que a imagem hegemônica, é naturalizada como uma
diferença que é própria da infância pobre, sem qualquer referência a sua constituição em
relação a condições políticas, sociais, econômicas ou culturais de nossa sociedade.
Compreendemos, portanto, que a afirmação dessa diferença não a inclui como possibilidade
de uma existência diferente, mas reitera a norma, para a qual tais crianças devem ser trazidas.
No entanto, a maneira como a noção da diferença emerge nesses materiais, já nos é
suficiente para sinalizar para uma quebra na linearidade do discurso sobre esses modos de
existência. Com isso, queremos marcar uma descontinuidade, um corte de significação na
pretensa unidade que instaura modos de ser criança e se relacionar com a infância. Interessanos pontuar como essas diferenças emergem nos materiais, criando ou reforçando processos
de inclusão e exclusão. Os modos de ser que são colocados em exposição estão diretamente
relacionados a uma série de valores e de definições a respeito do que são determinados grupos
19
Disponível em: www.projetogenerosidade.com.br. Acessado em 12/02/2013.
74
na sociedade e em que medida ganham visibilidade os que não correspondem ao hegemônico,
os diferentes.
Dando visibilidade aos conteúdos dos materiais midiáticos analisados, é possível notar
que é descrito basicamente um único modo de ser criança e se relacionar com a infância hoje.
E a partir das estratégias identificadas, passamos a pensar no não-dito, no que não aparece, de
forma que se estabelece, desta maneira, “como são” os diferentes, aqueles que não se
encaixam no padrão normatizado. Desta forma, considerando que não haveria conceitos
universais, os discursos construídos no interior de relações muito concretas de poder apontam
para os vários tipos de diferenças sociais e culturais. Ou seja, estamos tratando aqui da
necessidade de ampliar nossa compreensão sobre as formas concretas com que somos
diariamente informados, as estratégias de construção de sentidos nas mídias, sobre a
sociedade mais ampla.
Portanto, os sentidos atribuídos à infância são o resultado de um processo de
construção social, de dependem de um conjunto de possibilidades que se conjugam em
determinado momento da história, são organizadas socialmente e sustentados por discursos
nem sempre homogêneos e em constante transformação. São modelados no interior de
relações de poder e representam interesses de instituições religiosas, do Estado, da sociedade,
da escola, da família... Tais sentidos não são estáveis, nem únicos e em cada época histórica
encontraremos diferentes formações discursivas que orientam o que se pode dizer sobre
determinadas coisas.
75
5 MODOS DE SER CRIANÇA E SE RELACIONAR COM A INFÂNCIA:
RELAÇÕES COM OS VETORES CONSUMO E SABER
Neste capítulo, realizamos a análise dos materiais selecionados, nos quais
identificamos enunciados que relacionam os modos de ser criança e se relacionar com a
infância com os vetores consumo e saber, estudados nesta dissertação. São objetivos desta
análise: problematizar a constituição dos modos de ser criança e se relacionar com a
infância, a partir dos vetores consumo e saber; identificar o que se constitui como objeto de
consumo e saber para as crianças; e problematizar o caráter normalizador dessas práticas
pela análise dos “modelos” de infância e das crianças por eles produzidos e veiculados nas
mídias.
Da mesma forma que discutimos, anteriormente, as estratégias midiáticas circulantes
nas mídias acerca dos modos de existência e seus funcionamentos operando no controle e na
disciplinarização das condutas, consideramos como algo fundamental visibilizar as
articulações entre o que se fala sobre a infância e os mecanismos de assujeitamento que se
fazem presentes nas práticas de instituição dos modos de ser e agir. Assim, o que é falado
sobre a infância ou sobre os modos de se relacionar com ela emerge como efeito das
estratégias de poder, que tomam os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como
instrumentos de seu exercício (FOUCAULT, 2009). Essa dinâmica permite que o dispositivo
midiático funcione de forma a fazer ver e fazer falar sobre esses modos de existência
delineando discursivamente uma determinada infância e um determinado modo de agir e se
relacionar com ela.
Assim sendo, baseamos nossa análise nesses pressupostos e para garantir a efetividade
de sua realização descrevemos a forma como manuseamos os materiais: para nortear a
análise, os materiais foram organizados de acordo com os vetores escolhidos. Os vetores do
consumo e saber emergiram como analisadores, uma vez que foram escolhidos por dirigirem
nosso olhar durante a seleção dos materiais (a princípio selecionamos todos os materiais em
que aparecia a imagem de criança) e por visibilizarem possíveis modelos de infância
emergentes na contemporaneidade, já nos causando um estranhamento e suscitando algumas
questões: O que se mobiliza quando as crianças são mediadoras do consumo e do saber? Que
discursos e saberes posicionam e naturalizam as crianças como agentes do consumo e do
saber? Em que campos se constituem os saberes sobre os quais as crianças são autorizadas a
falar? Há algo de específico em relação ao objeto de consumo para as crianças?
76
Partindo desses questionamentos, tratamos o conjunto de materiais como um campo
possível onde pudéssemos visibilizar a circulação de saberes em seus cruzamentos com as
diversas estratégias na constituição de modos de subjetivação. Na análise desses materiais,
não foi nosso intuito buscar uma interpretação ou uma verdade por trás do que era enunciado.
Com isso, nossa análise vai se delineando ao discorrermos sobre os materiais a partir do que
se constituem em sua materialidade, tomando, como nos norteia os estudos foucaultianos, os
materiais em suas superfícies e conexões constituídas em um determinado momento histórico
como produtos de fatores políticos, sociais, econômicos, etc.
Importamo-nos em identificar os materiais como anúncio publicitário, matéria
jornalística impressa ou televisiva, destacando e contextualizando o trecho escolhido para
análise. Tendo em vista os objetivos da pesquisa, desdobramos a análise em seus vetores
correspondentes, consumo e saber, destacando que os consideramos separadamente a fim de
assegurar uma maior objetividade e visibilidade do que buscam nomear como sentido de
verdade e de norma, permitindo a cobertura dos principais tópicos enunciativos, conforme a
proposta teórica-metodológica assumida. Mas, desde já, evidenciamos que esses vetores
mantêm articulações e complementaridades nos domínios do visível e do enunciável, de
maneira que não os tomamos como excludentes.
5. 1 Crianças e suas relações com o consumo
Discutiremos neste tópico o que identificamos nos materiais em relação aos modos
de ser criança e se relacionar com a infância associados ao vetor consumo. Interessa-nos
analisar estas relações a partir das mensagens direcionadas às crianças e aos adultos nos
materiais midiáticos, tendo como foco o consumo de produtos e serviços. Incluímos também
nesta análise, materiais em que as crianças são posicionadas como mediadora do consumo
para os adultos.
Ao pensarmos a infância a partir da lógica presente na sociedade do consumo,
inquieta-nos o estudo dessa temática, uma vez que a reflexão maior é perceber como têm sido
constituídos os modos de subjetivação a partir das relações consumistas. Para
problematizarmos esses modos de ser criança e se relacionar com a infância, presentes no
dispositivo midiático, tomamos as seguintes questões suscitadas durante o contato com os
77
materiais, como norteadoras de nossa análise: O que se constitui como objeto de consumo
para as crianças? Há algo de específico em relação ao objeto de consumo para as crianças? O
que se mobiliza quando a criança é mediadora do consumo do adulto? Que discursos e saberes
posicionam e naturalizam as crianças como consumidoras?
Essas questões nos levam a pensar nos modos de ser criança associados à posição de
consumidoras ou mediadoras do consumo, que nos materiais midiáticos, são eleitos como
personagens e alvos de inúmeros produtos culturais, como programas de TV, revistas,
telejornais, e, assim, produzem e fazem circular um conjunto de discursos pelos quais se tenta
definir como são ou deveriam ser as crianças dos tempos atuais. Assim, o estudo desses
modos de ser implica poder analisar de que forma a produção de subjetividades e os modos de
se relacionar com a infância, bem como seu assujeitamento, se mesclam com outras condições
sociais, econômicas e culturais na modernidade, trazendo questões relevantes para se
compreender a formação de modos de existência.
Desta forma, tomamos, como um dos princípios fundamentais dessa discussão, a
compreensão da infância como uma construção social, isto é, o ser criança não nos é
entendido como uma condição derivada da natureza, mas sim que as diferentes realidades de
infâncias são produzidas pelas condições sociais em que vivem as crianças, conforme
abordado no primeiro capítulo desse trabalho.
Para situarmos a que nos referimos como sociedade de consumo, retomaremos
algumas especificidades, apontadas na Introdução desta dissertação, que são marcantes em
torno desta noção. Sendo assim, afirmar o que o consumo representa na sociedade capitalista
parece ser oportuno. O consumo faz-se essencial para as sociedades capitalistas, já que
permite movimentar a economia, reafirma as diferenças entre os grupos sociais e possibilita as
relações entre os indivíduos. Também configura o que vem a se instituir como sociedade de
massa; o que faz com que os indivíduos participem socialmente e se integrem ao seu meio
social e cultural. Ao consumir, são satisfeitas algumas necessidades que foram fixadas
culturalmente e possibilitam que os indivíduos se integrem ou se diferenciem de outros. Em
uma sociedade como a nossa, excludente, individualista e desigual, consumir tornou-se uma
forma de participar de modo ativo, como também uma maneira de ordenar os desejos que
podem ser concretizados em algum objeto.
78
Sobre o que move o ato de consumir, Bauman (2001) salienta que somos
permanentemente monitorados para identificar, através das coisas e dos objetos, nossos gostos
e estilo pessoal, viabilizando, assim, não somente que cada indivíduo se reconheça como
diferente do outro, como também um amplo processo de hierarquização e discriminação entre
os vários grupos sociais. Diferentemente de outras possibilidades de identificação que seriam
duradouras, a cultura de consumo se caracterizaria, também, por sua fluidez e volatilidade, já
que os próprios objetos vão gradualmente perdendo seu valor, na medida em que são
substituídos por outros. Desta forma, as possibilidades de identificação da cultura de consumo
se apresentam como cambiantes, fluídas, fragmentadas e parciais.
Trata-se, assim, de uma sociedade onde os objetos e as coisas são empregados para a
busca de uma identidade. Chamamos a atenção para este fato, justamente, por fazer com que
tal mecanismo cultural tenha a função de reger o contato entre os diversos grupos sociais,
como também as posições assumidas por crianças e adultos, de forma que a ascensão do
consumo como uma prática largamente instituída na sociedade contemporânea, permite, a
quem consome, escolhas e responsabilidade por suas opções, e “autonomia” para buscar uma
suposta e volátil autorrealização, felicidade e bem-estar pessoal no mercado de consumo. Essa
construção é ancorada em enunciados que podem ser compreendidos como aspirações para
governar a conduta dos indivíduos e provocar um alinhamento entre suas vontades,
necessidades, expectativas, e os objetivos do governo dessas condutas em que se codificam as
experiências cotidianas de maneiras específicas, consoante os interesses vigentes.
Enquanto o consumo se torna um meio fundamental que orienta a tomada de decisões
nas mais diferentes esferas do cotidiano, os indivíduos são mobilizados em dois eixos
distintos, mas articulados, com a autonomia e responsabilidade. Os indivíduos são
convocados a experimentar sua liberdade por meio de seus atos de escolha, incentivados a se
tornarem ativos no empreendimento de si mesmos, maximizar suas experiências, adotar
estilos de vida, construir suas identidades e determinar o curso da própria vida em nome de
seus interesses individuais e sob suas responsabilidades.
Então, o que propomos aqui é que na cultura contemporânea do consumo um
determinado modo de ser criança e de se relacionar com a infância também é produzido. A
isso vinculamos as mudanças nas relações estabelecidas entre adultos e crianças, bem como a
descoberta de um mundo infantil consumidor, mediado e incentivado, principalmente, pelas
famílias de renda média e alta da sociedade. É, necessariamente, o momento no qual o
79
alargamento do capital é visível, unindo a indústria de produtos a serem comercializados e
posicionando as crianças como mediadoras de consumo para os adultos.
Problematizar essa posição de consumo junto à produção da infância foi uma tarefa
interessante, pois, logo de início, foi possível encontrar, majoritariamente, as crianças como
mediadoras do consumo para os adultos nos diferentes tipos de mídias. Dentre os produtos e
serviços comercializados, encontram-se os mais diversos, que destacamos a seguir:
No anúncio publicitário dirigido aos pais sobre o complemento nutricional
“PediaSure” para as crianças. A inclusão desse anúncio deu-se pela presença ilustrativa de
uma criança em um tamanho que ocupa, verticalmente, quase todo o anúncio. Uma vez que se
depara com a criança, é que nossa atenção é dirigida ao produto em questão. Na diagramação
do anúncio, vemos a imagem de um menino tentando abotoar a camisa que está pequena para
seu tamanho. Em seu rosto, um leve sorriso. No texto do anúncio, temos a associação das
ideias de desenvolvimento saudável dos filhos, junto a uma generalização acerca do
comportamento alimentar das crianças, mobilizadas para o consumo do produto:
A gente quer o mesmo que você: ver o seu filho crescer. [...] A hora da
refeição é um problema na sua casa? Saiba que é comum crianças passarem
por algum tipo de dificuldade alimentar, mas isso deve ser tratado com
atenção, pois pode comprometer o desenvolvimento do seu filho. Nessas
horas, você tem um grande aliado: PediaSure, um alimento completo e
balanceado, que ajuda no crescimento do seu filho, complementando sua
alimentação[...] (Pais & Filhos, julho/2011).
Vemos aqui, a imagem da criança associada ao que se enuncia a respeito do benefício
do complemento nutricional como o que mobiliza os pais ao consumo: “um alimento
completo e balanceado que, ajuda no crescimento do seu filho”. O anúncio é reforçado pelo
apelo que a marca faz ao saber médico, como na passagem que destacamos na estratégia da
presença de especialistas: “[...] o mais recomendado pelos pediatras”. Demarca-se, nesse
anúncio, a prática de consumo conjugada à noção de desenvolvimento saudável das crianças,
ou, em outras palavras, o consumo dando contornos à infância, em torno de questões de
alimentação, saúde e cuidado específicos.
O próximo material que apresentamos é uma matéria intitulada “Brinquedo, brinquedo
meu...” (Pais & Filhos, dezembro/2011) sobre diferentes tipos de brinquedos e seus
respectivos potenciais de estímulo do desenvolvimento e aprendizagem das crianças. Os
brinquedos são apresentados na forma de categorias como vemos a seguir:
80
Brinquedo que não brinca sozinho - são indicados jogos e casa de boneca; Brinquedo que
não machuca – aqui aparecem brinquedos diversos, como massa de modelar, brinquedos de
pelúcia e de montar; Brinquedo que é maluco – brinquedos, como robôs e carrinhos, que
apresentam peças flexíveis; Brinquedo que agita – cesta de basquete, piscina de bolas,
barraca, helicóptero movido a controle remoto são apresentados como brinquedos que farão as
crianças gastarem energia durante a atividade; Brinquedo que acalma – são apresentados
aparelhos musicais, como caixinha de música e ninar eletrônico, projetor de luz e bonecos;
Brinquedo que ensina – brinquedos para colorir, identificar as cores e encaixar as peças.
Nas ilustrações, vemos os brinquedos de cada categoria, que são apresentados com
seus respectivos preços e locais de venda. Seus valores variam de R$ 29,90 (correspondente a
massa de modelar) a R$ 379,00 (piscina de bolas e barraca de armar - os dois brinquedos
apresentam o mesmo valor).
Neste material, embora se trate como evidente a relação do objeto brinquedo com a
infância, faz-se uso da estratégia da pedagogização dos pais associada à figura de uma
especialista, que embasa a matéria, ao explicar que o brinquedo em si não tem importância,
mas sim a conexão que cada criança vai estabelecer com seus brinquedos: “É preciso existir a
relação. É o brincar que é importante”, afirma a psicóloga.
No entanto, destacamos que, pelos valores dos brinquedos apresentados, a matéria e a
indicação do consumo nos indicam uma determinada classe social, que pode investir no
consumo para seus filhos. Além disso, vemos na matéria a associação dos brinquedos com a
atividade de brincar. Isto é, não se menciona a possibilidade de brincar sem os brinquedos,
que poderia ser mais amplamente acessível e desatrelado do consumo. Desta forma, o brincar
aparece entrelaçado ao consumo de brinquedos relacionados ao estímulo do desenvolvimento
e da aprendizagem das crianças.
Dentre os materiais selecionados para esta análise, apenas um deles se refere a um
produto que não se destina às crianças, é direcionado ao uso e consumo do adulto. Trata-se do
anúncio publicitário de um automóvel (Crescer, agosto/2011), em que nas ilustrações, vemos
em destaque o carro e ao seu redor, imagens de crianças sorrindo. O anúncio é apresentado
com uma linguagem direcionada para o publico feminino: “Ser mãe, profissional, esposa e
cidadã significa ter um dia corrido, repleto de tarefas. O seu carro tem que ser tão flexível e
dinâmico como a sua rotina, garantindo segurança e conforto em qualquer situação”.
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Esse anúncio nos interessou por remeter a três questões que desenvolvemos nesta
pesquisa: a associação entre gênero, consumo e cuidado com as crianças. Essa relação pode
ser visibilizada no texto do anúncio, em que se apresenta o automóvel, descrito como “pronto
para acompanhá-la em todos os seus papéis femininos, os quais, segundo o anúncio, são “ser
mãe, profissional, esposa e cidadã”. E logo depois são apresentados os itens que compõem o
carro, em associação à segurança e ao conforto das crianças. Desta forma, busca-se reforçar a
naturalidade da prática de cuidados com as crianças concebida a partir das relações de gênero
na sociedade, onde a figura materna foi eleita como a protagonista das relações de
subsistência e cuidado com seus filhos. Expomos o trecho:
[...] Seus filhos estão no banco de trás, mas nem por isso você precisa se
virar para vê-los. É só bater os olhos no espelho de vigilância, que fica
junto ao retrovisor interno, para saber o que os pequenos estão fazendo. E
provavelmente estarão se divertindo, principalmente se estiverem usando as
mesinhas traseiras – iguais as que existem em aviões -, um bom apoio para
atividades infantis [...].
Destacamos que neste material, que não se trata de um produto para o consumo de
crianças, mas onde o apelo à segurança, proteção e conforto, especialmente pensado para as
"atividades infantis", mais uma vez captura a infância em torno do consumo. É em nome de
certo modo de cuidado da infância que se tenta promover o consumo do produto pelo adulto.
Além de produtos, alguns serviços também aparecem em matérias e anúncios
publicitários relacionando as crianças com o consumo. Como no anúncio publicitário da
assinatura mensal de um site de jogos e histórias para crianças. O anúncio é ilustrado com a
imagem de um menino sorrindo e o pai fazendo a barba com cara de espanto. Acima do
menino, um balão de fala: “Pelas barbas do Visconde, pai! Assina logo o Mundo do Sítio”
(Crescer, julho/2011). Dentre os materiais selecionados, esse foi o único em que pudemos ver
a mensagem sendo dirigida da criança para o adulto, diferentemente dos outros materiais, em
que são relatados os benefícios do objeto a ser consumido buscando o convencimento do
adulto.
A análise desse anúncio nos leva ao exposto por Sampaio (2000) sobre a visibilidade
das próprias crianças nas mídias, onde são posicionadas como possíveis “responsáveis” pela
sedução e convencimento do público em relação aos atributos, vantagens e possíveis
recompensas dos produtos. Retomamos esse ponto, discutido na Introdução desta dissertação,
pois nos chamou atenção o fato da revista ser dirigida para o público adulto e no anúncio é a
82
criança “que fala”, quem solicita o consumo, através de um enredo lúdico, com ilustrações das
personagens do conto do Sítio do Pica-pau Amarelo: “A Cuca avisou: vai nascer a barbicha
do Visconde de Sabugosa no pai que não assinar o Mundo do Sítio”.
Na revista Veja, temos a matéria “Férias divertidas” na seção Guia Veja (14/12/2011).
Nessa matéria são propostos alguns cursos para que os pais matriculem seus filhos durante as
férias escolares, identificando a idade correspondente e as respectivas escolas para matrícula.
Os cursos apresentados são: culinária, corte e costura, artes, escolas de circo e de práticas de
esportes. Destacamos o início da matéria:
Chega aquele momento em que os pequenos já ficaram alguns dias na casa
dos avós, curtiram uma temporada na praia, foram ao zoológico, ao cinema
e, ainda assim, têm energia para aproveitar o tempo que resta. Mas existem
cursos e oficinas para entreter e divertir a criançada – com a vantagem
adicional de que, na maioria delas, os pais não precisam estar presentes, e
podem assim aproveitar para recuperar o fôlego. [...].
Trata-se aqui de pensar o consumo desses serviços como uma alternativa para os pais,
que inseridos na lógica da sociedade contemporânea, encontram-se imbuídos com outras
atividades, como o trabalho, onde a pressão para eficácia, produtividade e competitividade é
constante (BAUMAN, 2001) e, portanto torna-se conveniente "a vantagem adicional de que,
na maioria delas, os pais não precisam estar presentes".
Posto isso, alguns estranhamentos emergem: o que podemos pensar a respeito de
crianças matriculadas em cursos durante seu período de férias? O que está se fazendo com o
tempo livre das crianças? O que se consome aqui e em nome do que? Parece, então, que essa
lógica contemporânea da produção, eficácia e competitividade também se estende aos modos
de ser criança e se relacionar com a infância, situados dentro de uma determinada condição
econômica e social que têm acesso a esses meios. Assim, esse modo de existência que tem
sido tomado como “orientador” dos modos de ser criança e se relacionar com a infância
alimenta as práticas de cuidado, educação e orientação de crianças, de forma diretamente
associada ao consumismo de objetos e serviços.
Mais um material que apresentamos é a reportagem televisiva do Jornal da Record 20
sobre a preocupação das crianças com o cuidado com a aparência. Na reportagem, foram
entrevistados adultos e crianças sobre serviços especializados nos cuidados infantis. Questões
20
Jornal exibido no dia 20/12/2011. Disponível em http://noticias.r7.com/videos/cuidado-com-a-aparencia-viranecessidade-desde-cedo/idmedia/4ef11302b51af6e7ed95b9ca.html.Acesso em 21/12/2011.
83
como hora marcada no cabeleireiro e preocupação com a roupa que irá vestir recebem
destaque, pois como afirma a repórter: “O que parece uma brincadeira já colocou o Brasil
em 2º lugar no ranking da vaidade infantil”.
No início da matéria, a repórter apresenta o tema:
Gente em miniatura que precisa até de um banquinho para alcançar o
tamanho da vaidade. Nos salões especializados em atender os desejos
infantis, tudo é feito para eles. Luana, de 04 anos, tem horário marcado pelo
menos 02 vezes por semana. Ela não abre mão dos penteados.
A criança é solicitada a falar de suas preferências: “Tipo trança, umas trancinhas
pequenininhas, tem que colocar um monte de coisa!”. A repórter pergunta: “Que tipo de
coisa?”. E a criança explica: “Brilho, coraçãozinho, estrela”.
Sobre outra criança apresentada na reportagem, a repórter anuncia:
Desde bem cedo, a Camila demonstra afinidade com o espelho. Seguindo o
exemplo da mãe, não sai de casa sem filtro solar, hidratante e uma bolsinha
básica de maquiagem. Vaidade demais para gente tão pequena? Isso é que
você ainda não viu nada. Essa é uma casa de trigêmeas, de vaidade em dose
tripla, um ritual de beleza de fazer inveja a muito adulto. [...] Hoje é dia de
hidratar o cabelo, fazer escova ou cachinhos de boneca. Um pouco de cor
nas unhas e estão prontas para nenhuma ocasião especial, só para ficar,
como se isso fosse possível, ainda mais charmosas.
Com esse material, tratamos a ênfase dada à imagem e a estética na cultura do
consumo. A estetização da vida estimula o consumo, a busca de objetos, impulsionando ainda
mais o desenvolvimento de novos consumos. A valorização da estética coloca em destaque os
valores do cotidiano que nos remete a uma nova concepção de “estilo de vida”, numa
dimensão abrange o corpo, a escolha das roupas, os cuidados com a aparência. Dessa forma,
o consumo não é compreendido apenas como consumo de valores de uso, mas
primordialmente associado a uma dimensão cultural, semelhante a um código, onde as
práticas e bens denotam um estilo de vida num determinado tempo e espaço social
(LEHMANN; SILVEIRA; AFONSO; CASTRO, 1998).
Dessa forma, enuncia-se uma infância, como "gente em miniatura", que dentro da
cultura de consumo, se diferencia a partir de estilos de vida e do consumo cada vez maior de
produtos e serviços. Pensar os modos de ser criança e se relacionar com a infância a partir dos
atravessamentos dessas questões pode constituir uma descontinuidade com os modos
tradicionais de ser criança (como discutimos na estratégia midiática das figuras híbridas de
84
tradição e modernidade). O consumo aqui conecta a noção de infância a uma certa produção
estética e de corpo, que talvez tradicionalmente estivesse associada a imagem do adulto.
Os produtos e serviços que apresentamos nos interessaram na medida em que
posicionam as crianças não só como sujeitos consumidores dos objetos, mas também (e
principalmente) como estimuladores desse consumo. Fica claro que, o que prepondera são
objetos e serviços que, muitas vezes, funcionam para demarcar estilos de vida e posição social
bastante específicos. Dizem respeito a uma classe social com poder aquisitivo que as permite
ter acesso aos mais variados produtos, o que parece permitir o enquadramento dos sujeitos e
de suas relações, uma vez que pertencer a uma grupo significa consumir de forma semelhante.
Outro material que traz essa questão do pertencimento a um grupo social é a matéria
intitulada “No dia das crianças, um futuro de presente” (Pais & Filhos, outubro/2011). Na
matéria é sinalizada a proximidade da data do dia das crianças, e, como uma alternativa aos
presentes tradicionais (brinquedos), é apresentada a crescente procura por planos de
previdência privada. No depoimento de uma mãe: “Eu sou de uma geração que não tinha lá
muita tradição de fazer previdência privada. Mas a partir do nascimento dos filhos, esse
passou a ser um fator determinante”.
No entanto, uma estratégia utilizada, nesse material, é a descrição da chamada “classe
C” como o “exemplo da nova classe consumidora do Brasil”, a qual também se mostra
preocupada com o futuro dos filhos. Segundo o depoimento de um pai, identificado como
trabalhador especialista em eletrodomésticos e restaurador artesão: “É claro que ele [o filho]
vai ganhar um brinquedo, uma bola. Mas o plano de previdência é o futuro. É a minha
garantia de que ele não vai parar de estudar se eu não estiver mais aqui. A gente tem que se
preparar”.
Na matéria intitulada “Esse dinheiro é seu!”, na coluna “Primeiras palavras- você
precisa saber!” (Crescer, julho/2011), o tema da preocupação com o futuro dos filhos se
repete, mas nessa é utilizada uma pesquisa a fim de garantir maior credibilidade ao enunciado:
Seu filho nem aprendeu a falar e você já pensa na faculdade? Então faça
uma poupança no nome dele: isso aumenta em seis vezes as chances de
ingresso em um curso superior, pois faz a criança acreditar que terá como
pagar os estudos. A descoberta é do Centro para o Desenvolvimento Social
de Criança da Universidade de Washington (EUA), que fez um estudo com
3563 crianças de 0 a 12 anos e, depois de prazos de cinco a dez anos,
entrevistou as que terminaram o colégio.
85
Com esses enunciados, sinalizamos como a preocupação que os pais devem ter como o
futuro dos filhos, no que se refere a um futuro estável e seguro, associa-se a garantia fornecida
pela potência da lógica da sociedade de consumo, a partir da comercialização do serviço
apresentado. Podemos notar que se tratam de diferentes setores dirigidos à infância
mobilizados para nortear a sociedade do consumo.
Uma das características dos materiais consiste em direcionar o consumo para
enunciados que se relacionem aos cuidados com as crianças, ao desenvolvimento infantil e a
preocupação com o futuro. Ao consumir e fazer consumir o que é veiculado, temos essa
prática social como o modo de pertencimento e inclusão na sociedade, identificando os iguais
e marcando os diferentes.
Esses apontamentos nos fazem pensar nas contribuições de Foucault (2011) ao
utilizar-se do termo governo e governamentalidade para referir-se ao modo como o poder se
exerce sobre os indivíduos, como o ato de conduzir suas condutas. Assim, pensamos que a
lógica do consumo consiste em formas de agir que afetam a maneira como os indivíduos
conduzem a si mesmos e as crianças passam a ser alvo de uma série de estratégias de governo,
em que as práticas e instituições se organizam com o propósito de governá-las. Crianças e
adultos são, com isso, levados ao mercado consumidor através de um controle minucioso das
estratégias midiáticas, que, de fato, apresentam escolhas de consumo, mas que podemos
pensar que já estão previstas a partir do que se é instituído como o modo de ser hegemônico.
Nesse sentido, por intermédio do consumo, ordenam-se os indivíduos em determinado grupo,
classe social, ou qualquer outra categoria que é usada para classificar pessoas, de acordo com
o que consomem e o poder aquisitivo que as farão consumir cada vez mais.
O ato de consumir inclui o indivíduo em sua posição social, seus valores, seus gostos e
suas concepções, os quais são ensinados nos diversos contextos sociais – na família ou na
escola, por exemplo, e intensificados com o acesso às mídias e as interferências da sociedade.
Nessa prática do consumo, a promoção e a integração da infância no corpo social,
protagonizam, junto com o adulto, a engrenagem da cultura do consumo.
Isso nos reporta a um material “Criança também decide” (Crescer, dezembro/2011), na
coluna “Primeiras palavras – Você precisa saber”, em que vemos uma pesquisa sobre a
influência das crianças nas compras de seus pais:
86
Eu quero! Essa deve ser uma das frases que você mais ouve quando vai às
compras com seu filho. Pois saiba que as crianças influenciam – e muito –
as decisões de compra dos pais. Uma pesquisa realizada pelo canal de tv a
cabo Nickelodeon revelou que 51% dos pais ouvem a opinião dos filhos
antes de escolherem automóveis, celulares, roupas, computadores, itens de
beleza e alimentação. Foram ouvidas 15600 pessoas, entre crianças de 9 a
14 anos e pais e mães de 6 a 14 anos em 11 países, incluindo o Brasil. A
pesquisa também revelou que 79% dos pais entrevistados se sentem mais
próximos dos filhos do que seus pais eram deles, o que talvez explique essa
maior colaboração [...].
Ainda na publicação da coluna, uma psicóloga é convocada para alertar que, embora
naturalizado esse comportamento, os pais devem ter algum cuidado: “É muito importante que
as crianças participem das decisões que têm a ver com o seu universo, como as roupas que
ela mesma vai usar. Mas os assuntos de adulto devem ser mantidos entre os pais”.
Dessa forma, mais uma questão nos incita: se as crianças são apresentadas como
diferentes dos adultos, seja pelas condições biológicas ou pelas condições do lugar social que
ocupa, qual a posição que os modos instituídos de ser criança assumem na cultura do
consumo? Essa questão se torna importante no sentido de se evidenciar, talvez, o potencial
transformador, se ainda existe, da presença e das relações estabelecidas com as crianças, na
atual cultura do consumo.
Tornou-se visível, durante a análise dos materiais essa posição de uma infância
produzida como público consumidor. Assim, a materialização dos modos de ser criança e se
relacionar com a infância no tecido social se faz através de uma presença que se referencia e
se remete a determinados objetos, sejam eles bens materiais, como também serviços, lazer,
programas culturais etc., onde uma determinada inscrição específica da infância emerge no
social. Esse modo de ser criança e se relacionar com a infância objetivado nos materiais
aparece modelizado pelo mundo de bens materiais e destinados às crianças e/ou aos adultos
pela cultura do consumo. São desde brinquedos, roupas, alimentos, oportunidades de lazer e
serviços, tudo especificamente produzido para crianças e operacionalizado para fazer o adulto
consumir.
Podemos inferir que as crianças passaram a ser constituídas como alvos do poder,
como ponto forte nos discursos voltados às regras e normas para as relações entre adultos e
crianças, voltados ao consumismo. É possível entender essas relações como caracterizadas
pelo sentimento de piedade, ternura, cuidado dos pais para com seus filhos, mobilizando
experiências de toda ordem voltadas para sua moralização e desenvolvimento saudável.
87
Concomitante a isso, evidencia-se que as condições econômicas, então, determinam a infância
de diferentes crianças, bem como seus desejos, possibilidades, experiências e oportunidades
que as diversificam e que definem o sentido da infância.
Mais um aspecto a se notar que emerge a partir da análise dos materiais é a estratégia
de mobilização do consumo de produtos e serviços especializados para o público infantil.
Nesse processo podemos identificar uma demarcação explícita de um certo modo de ser
criança. A demarcação deste modo de existência a partir de questões sociais e econômicas
onde se encontra a infância hoje, operacionaliza-se através de uma territorialidade na qual as
crianças se incluem, e excluem, por outro lado, os demais. Novamente, é na cultura do
consumo que esses modos de ser vão buscar as marcas que os definem como tal: é através da
materialidade do que pode ser comprado que a infância vai delimitar fronteiras entre “quem
está dentro, e quem está fora”.
Nesse sentido, poderíamos dizer que as marcas visíveis do consumo funcionam como
estigmas de discriminação entre os grupos sociais, mantendo fora e afastado quem é diferente,
quem é o outro, não se considerando os sujeitos na sua diversidade, ao tomar um determinado
modo de ser e agir no mundo, aquele que consome, como hegemônico.
A infância, então, parece capturada dentro de uma lógica da cultura do consumo que a
coloca com direitos e prerrogativas de consumidora. Mesmo que ainda seja apresentada como
um ser imaturo, não desenvolvido, a infância se torna também um projeto cuja finalidade é
atingir o patamar dos adultos, para assumir, então, a posição de independência e racionalidade
características da maior idade.
Podemos pensar essa questão como uma desconstrução da infância, anteriormente tida
como “aqueles que não falam”, para infância moderna em que as crianças passam a participar
de práticas sociais, como o consumo, e são posicionadas como sujeitos que escolhem,
decidem, optam e, de alguma maneira, muito cedo precisam assumir os efeitos de suas
decisões. Retomamos a Foucault (2011), quando afirma que os discursos se referem não às
palavras, mas aos poderes que a envolvem, ao que é controlado, interditado, regulado em
diferentes lugares. Desta forma, supomos que os modos de ser criança e se relacionar com a
infância instituídos, funcionam para o controle desses corpos, para que governem a si
mesmos, tenham autonomia e assumam suas decisões, a partir do que lhes é instituído como
possibilidades possíveis e reguladas.
88
Nesse sentido, crianças e adultos são diferentes um do outro, apenas porque seus
gostos e interesses consumistas variam; contudo se fazem notar pela maneira uniforme com
que seus modos de ser são construídos. Tomamos esse raciocínio para que se possa entender
como os modos de existência enunciam uma infância que é adequada às práticas sociais e
pensamos mais uma vez nas estratégias de construção dos discursos sobre as infâncias.
É a partir da normalização da infância que se estabelecem padrões de referências que
precisam ser seguidos e estarem em conformação para serem considerados “normais”. Assim,
ao se produzirem as normas, é possível medir os desvios, classificar, ordenar. E ao ser
classificada, produz-se uma infância econômica, social, culturalmente dependente, e que
precisa ser governada a fim de se tornarem sujeitos uteis e dóceis (bons consumidores) para a
sociedade.
A partir desses os modos de ser criança e de se relacionar com a infância produzidos,
são interpeladas suas formas de agir e de se posicionar no mundo e se definem como eles
podem ser pensados e descritos. Contudo, são regulados por um imperativo de
responsabilidade, não de caráter coletivo, mas individual. O êxito em qualquer área é
individualizado e condicionado à competência dos indivíduos de fazerem escolhas
informadas, corretas, responsáveis e, ainda acrescenta-se, sustentáveis.
Essa questão aparece nos materiais e nos chama atenção pela presença dos enunciados
que relacionam o consumo ao comportamento sustentável. Descrito em alguns como “cuidar
enquanto se diverte”, os materiais apresentam a prática do consumo relacionada às iniciativas
conscientes dos cuidados com o meio ambiente.
Na revista Pais & Filhos (julho/2011), encontramos um anúncio publicitário que
apresenta alguns produtos da marca Natura da seguinte forma:
[...] é uma linha com embalagens, cores, cores, cheiros, texturas e nome
curioso que estimulam a descoberta e ensinam seu filho a cuidar da água
enquanto se diverte. Tibum21 no mundo para brincar; porque brincando se
aprende a cuidar.
Em outro material apresentado no formato de um teste “Você sabe o quanto a sua
família é verde?” (Crescer, agosto/2011), nas questões a serem respondidas encontramos a
questão do consumo, como em “Ao comprar produtos industrializados, você costuma dar
21
Nome da linha dos produtos.
89
preferência àqueles que respeitam o meio ambiente?”. As questões do teste são direcionadas
aos pais, porém o modelo de sujeito que atende é a criança, haja vista a presença de imagens
somente de crianças em atividades de separar materiais plásticos e papéis. Ao final, algumas
dicas são listadas para aqueles que querem melhorar as ações práticas na contribuição de um
mundo mais verde: “Dê preferência a brinquedos verdes: um brinquedo pode ser chamado de
sustentável de duas maneiras: pela sua manufatura, ou seja, do que e como ele é feito; ou
pela proposta na hora de brincar”, “Faça passeios sustentáveis: [...] nas compras,
especialmente durante as viagens, prefira objetos de artesanato local”; “Planeje suas
compras: sempre que tiver que abastecer sua casa com alimentos, prefira fazer pequenas
compras em supermercados locais e feiras livres semanalmente”.
Os enunciados de identificação aos comportamentos de sustentabilidade, pela
afirmação da capacidade (e da responsabilidade) individual de mudar algumas das práticas de
consumo e por dicas pragmáticas para a alteração dos hábitos aparecem nesses materiais, para
consumidores cientes do poder individual que possuem e preparados para exercê-lo nas suas
escolhas no mercado de consumo; empenhados a tomar para si a responsabilidade de
regularem a si mesmos, e dirigirem suas escolhas como consumidores informados e
interessados em cuidar do meio ambiente.
Desta forma, a cooptação do consumo ao comportamento sustentável possibilita
visibilidade tanto aos modos de ser como a visibilidade do poder que os governa, pois tornam
visíveis em que medidas podem ser capturados pela instância do poder que sobre eles
constitui imagens e ditos. Tomamos através do que é enunciado nesses veículos, que os jogos
de poder e as relações de poder, seus controles, regulações e governo estão supostos nos
poderes que produzem modos de ser criança e se relacionar com a infância. Dessa forma,
nosso objetivo não é apontar uma concepção mais justa ou verdadeira das práticas de
consumo ou construir uma definição mais precisa do consumidor, mas demonstrar como os
modos de existência são reformatados no cruzamento de discursos e práticas heterogêneos,
promovidos por uma multiplicidade de enunciados voltados para fins práticos, do consumo.
A normalização dessas práticas que constituem os modos de ser criança e se relacionar
com a infância hegemônicos visibilizam as formas como se produzem esses corpos,
governados pelo poder que funciona através de microníveis, pois como vemos nas mídias
estudadas, impõem-se certos modos de existência em enunciados que invadem o cotidiano e,
que preparam o consumo e o fazer consumir. Ao se posicionar e naturalizar as crianças como
90
consumidoras e mediadoras do consumo, encontramos discursos e saberes de variados
campos que relacionam as práticas de consumo com o desenvolvimento físico e intelectual
das crianças; atrelados a questão da segurança e cuidados; relacionados com a preocupação do
futuro das crianças; com o comportamento sustentável; com preocupação estética, que
produzem uma infância correspondente ao modos de vida contemporâneos.
As mídias funcionam, assim, como um lugar privilegiado de superposição de
verdades, de produção, circulação e veiculação de enunciados, que através de produtos e
serviços para as crianças dizem os modos de ser e agir no mundo. Assim, os discursos que
tratam dos modos como se constituem a infância hoje expressam a tecnologia de governo
desses modos de ser, em que as práticas de consumo se fazem cada vez mais aderentes ao que
é instituído como norma.
Visibilizar esses modos de ser criança e se relacionar com a infância a partir dos
materiais midiáticos nos possibilita pensar onde o poder opera ao colocar em destaque uma
infância nas múltiplas e diferentes infâncias existentes na sociedade atual. No entanto, esses
materiais não dão conta dessa complexa realidade em que estamos inseridos. A associação
dos modos de ser criança ao consumismo pode ser verificada a partir do lugar, que embora
hegemônico – da infância tutelada, educada, protegida e cuidada – não é o único que a
infância ocupa. Sabemos que outras infâncias, ainda que diminutas no imaginário social,
existem e não estão cooptadas pelos valores do consumismo.
5.2 Crianças e suas relações com o saber
Em que campos se constituem os saberes sobre os quais as crianças são autorizadas a
falar? Sobre que temáticas e objetos as crianças são posicionadas como agentes do saber?
Como se transmite, onde se aprende e como se dá o ensino? Que discursos e saberes
posicionam e naturalizam as crianças como agentes do saber?
Esses são os questionamentos que nos orientam a problematizar os modos de
subjetivação, presentes no dispositivo midiático, que possibilitam a construção de um modo
de ser criança como agente de um saber próprio. Ressaltamos que estamos considerando as
crianças como agentes do saber a partir dos materiais em que se enunciam os operadores de
domínio e transmissão de saberes dirigidos das crianças para os adultos.
91
Em particular, exploraremos dois modos de enunciação acerca dos saberes das,
crianças que foram possíveis de identificar nos materiais. São eles: saberes relacionados a
tecnologia e saberes relacionados à preservação do meio ambiente. As condições de
emergência de enunciação desses saberes tornaram visíveis a descrição de uma suposta
“nova” infância, com “novas” necessidades e capacidades. No entanto, soma-se a esses
enunciados uma evidente necessidade de teorizar sobre a infância contemporânea como um
fenômeno de complexidade, no qual se verificam as articulações com questões relacionadas
ao consumo e a aprendizagem, criando diferentes valores para caracterizar a infância.
Referimo-nos a uma “nova” infância, não no sentido de “progresso”, “evolução” ou
“superioridade”, já que nos ancoramos na proposta dos trabalhos de Foucault, em que
estudamos as práticas sociais em sua descontinuidade história, produzidas discursivamente e
ao mesmo tempo produtoras de discursos e de saberes. Quando apontamos para “novas”
infâncias, nossa intenção é basicamente destacar que outras infâncias possíveis também estão
enredadas nesse dispositivo da infantilidade 22 (CORAZZA, 2004), indicando outras formas de
relação de poder entre adultos e crianças (ao menos em alguns dos nichos sociais).
Alguns autores, como Postman (1999) e Steinberg e Kincheloe (2001) debatem sobre
o impacto do desenvolvimento tecnológico na atual concepção de infância. A sociedade
contemporânea caracterizada pela predominância das tecnologias, em especial as digitais,
determina novos modos de acesso às informações que são próprios dessa época. Esse debate
do impacto da tecnologia sobre a infância tem sido marcado por posições distintas, onde os
autores apresentam pontos de vista que podem ter uma conotação positiva ou negativa.
Como um aspecto positivo, aparece a concepção de que as crianças que interagem com
a tecnologia fazem parte de uma geração eletrônica que oferece autonomia e liberdade de
criação para modificação do mundo em que se encontram e, por conseguinte, da própria
concepção de infância (STEINBERG; KINCHELOE, 2001). Já Postman (1999) apresenta as
mídias como uma possível influência negativa e poderosa sobre as crianças, fazendo com que
a separação ocorrida entre o mundo adulto e infantil se aproxime novamente, como há três
séculos. Steinberg e Kincheloe (2001), no entanto, percebem as mídias e as tecnologias de
22
Como sinalizamos no capítulo Dispositivos que se cruzam: Infância e Mídias, utilizamos o conceito
desenvolvido por Corazza (2004) ao considerar o dispositivo da infantilidade como as técnicas que operam para
garantir um certo modo de ser infantil.
92
forma geral, como uma espécie de formação de uma geração na qual as crianças são vistas
como agentes de uma transformação muito mais ampla da sociedade como um todo.
Ao se falar nas tecnologias, na atualidade, referimo-nos principalmente, aos processos
e produtos relacionados com os conhecimentos provenientes da eletrônica e das
telecomunicações, como televisão e a internet. Essas tecnologias caracterizam-se por estarem
em permanente transformação. Os avanços das tecnologias digitais da informação quando
disseminadas socialmente alteram a maneira como as pessoas vivem cotidianamente,
trabalham, informam-se e se comunicam com outras pessoas e com todo o mundo. Isso é
facilitado, pois, cada vez mais, o computador conectado à internet está fazendo parte do
cotidiano, como um dos recursos tecnológicos dos quais os indivíduos estão se apropriando e
aprendendo a lidar modificando as suas representações.
Como efeito da presença dessas tecnologias no cotidiano, as implicações sociais do
desenvolvimento tecnológico mostram que as relações existentes entre os indivíduos sofrem
alterações conforme a sua interação e as atribuições relacionadas aos modos de existência.
Sobretudo a premissa é: através da adesão desses meios tecnológicos aos veículos midiáticos,
as relações entre as pessoas também são transformadas. O que destacamos, nesta dissertação,
é que também uma concepção de criança que se transforma historicamente, é modificada
pelas influências advindas deste contexto.
Nesse sentido, as noções tradicionais da infância como inocência e dependência do
adulto são combinadas de outras concepções que falam da infância caracterizada por crianças
que, aliadas à curiosidade e à espontaneidade infantis, formam a geração da informação e da
comunicação. Os autores Steinberg e Kincheloe (2001) e Postman (1999) destacam as mídias
como a condição de possibilidade para que as crianças tenham acesso às informações, antes
restritas ao universo adulto, de forma que ao se depararem com uma realidade tecnológica, a
identidade e a construção do conhecimento dessa geração se dará além do controle dos pais e
das instituições, como a escola, por esses meios tecnológicos. As crianças que têm acesso às
tecnologias, por vezes, adquirem uma suposta autonomia, uma vez que dominam o mundo
digital de uma forma tão habilidosa que causa espanto e estranhamento nos adultos.
Steinberg e Kincheloe (2001) falam dessas “crianças pós-modernas” sendo
apresentadas na cultura como “espertinhos pedantes” (p.35), pois, são consideradas
ameaçadoras para a sequência de desenvolvimento estabelecida para as crianças dóceis e
93
obedientes, podendo ir a desestabilizar a ordem instituída. Para os autores, o acesso das
crianças às informações veiculadas pelas mídias, pode vir a ocasionar a perda de autoridade
dos adultos: “A informação adulta é incontrolável; agora, a criança vê o mundo como ele é
(ou pelo menos como é descrito pelos produtores de informação corporativos)” (p. 34).
Nesse caso, surge um tema importante sobre essas crianças consideradas “precoces”: o que
elas podem se tornar? A fim de evitar a incerteza, faz-se necessário operar estratégias de
governo dessas vidas, que sejam sujeitas à obediência, à disciplina, ao controle justificado
como “pelo bem das crianças”.
Os registros desses enunciados nos materiais midiáticos tentam abarcar os detalhes da
vida cotidiana das crianças, como atividades escolares, tempo de lazer e relação dos pais com
seus filhos, descrevendo a infância como uma fase do desenvolvimento em que as crianças
são seres inexperientes, frágeis e dependentes, que precisam ser protegidas. De forma que as
crianças ainda não se encontram com a habilidade racional e a moralidade desenvolvidas para
o domínio de aparelhos tecnológicos. Todavia, também é possível encontrar materiais em que
esses mesmos saberes das crianças são admitidos e reforçados pelos pais, sendo considerados
como um meio de educação e de divertimento, favorecendo a atividade cognitiva.
Com isso, a infância nas mídias não é “qualquer uma”, mas sim, fruto de “jogos de
linguagem” (BUJES, 2007) que estabelecem o que sobre ela pode ser falado, em quais
circunstâncias, com que limites e por quem, em condições esquadrinhadas a partir de um
campo de possibilidades. A partir disso, apontamos a não homogeneidade e não continuidade
nos discursos que constituem as crianças, em relação ao que tradicionalmente se define como
própria da infância, os quais se cruzam, por vezes, mas também se excluem, como destacamos
a seguir 23:
Na matéria “Caça ao tesouro” (Pais & Filhos, outubro/2011) a respeito dos critérios
para procurar uma boa escola, a relação das crianças com a tecnologia é descrita como um
fator que pode atrapalhar o desenvolvimento do aluno.
23
Os materiais em que identificamos os enunciados relacionados aos saberes das crianças foram apresentados no
capítulo das Estratégias Midiáticas (capítulo 3), mas a fim de que consigamos discorrer sobre seus
atravessamentos, em alguns momentos, será necessário retomá-los sucintamente.
94
É impressionante como crianças tão pequenas já entendem tanto de
tecnologia. Não é difícil de ver um bebê, praticamente de 2 anos,
manuseando um iPhone ou iPad com a maior familiaridade. Dentro da sala
de aula, ao mesmo tempo em que tecnologia funciona como uma ferramenta
que auxilia o professor, ela pode restringir que as crianças tenham contato
como materiais como massinhas, lápis e livros (matéria Caça ao tesouro,
revista Pais & Filhos, outubro/2011).
Sobre as relações das crianças com seus saberes, há diversas formas de se falar,
diversas formulações que constituem um grupo de enunciações heterogêneas, posto que são
desenvolvidas de maneira distinta em cada domínio que se apropria. Assim, há os discursos
biológicos, psicológicos, médicos e pedagógicos, bem como há dentro de cada uma dessas
disciplinas correntes que as abordam de formas diferentes, e que juntos formam um conjunto
de enunciados que não podem ser entendidos como regulares ou homogêneos, mesmo que
todos se refiram aos modos de ser criança. O que vai se constituir como a caracterização da
infância será a soma dos mais dispersos conceitos, formulações e temas que são construídos
de forma não-linear no contexto contemporâneo. E sobre isso, ressaltamos o apontado por
Hillescheim e Guareschi (2007), de que “não se trata de perguntar qual desses discursos é
mais verdadeiro que o outro, mas sim buscar compreender o que enunciam sobre a relação
que se estabelece entre adultos e crianças” (p.90).
Ao posicionar as crianças de uma determinada forma, os discursos servem como
condição de possibilidade para os processos de construção e aplicação de conhecimentos a
partir de estratégias específicas. Posicionar as crianças como aqueles que possuem um saber
próprio, no caso em relação à tecnologia, coloca-as como alvos de práticas específicas de
adequação correspondente ao que já é sabido sobre elas. Sobre isso, vemos o trecho a seguir
da matéria “Com a cabeça no mundo virtual” (Crescer, agosto/2011):
A tecnologia se instalou nos hábitos familiares trazendo encantamento para
as crianças e muitas perguntas para os pais. Vamos ter que achar as
respostas com a ajuda dos filhos. [...] Aprender com as crianças no dia a
dia, o que pode gerar momentos deliciosos entre vocês, porém, sem que você
se esqueça de que o papel de educador e mediador é seu. Ainda que essa
nova geração domine, de maneira constrangedora, os botões e os comandos
de tudo que é tecnológico, são os pais que estabelecem o que se pode
acessar ou usar, quando, por quanto tempo, em quais condições e com quais
objetivos. O momento atual pode até oferecer uma inversão de papéis, no
sentido de que os adultos aprendem com seus filhos sobre gadgets, mas
quem controla, estabelecendo limites e restrições, são sempre o pai e a mãe.
[...] ‘As crianças ainda não têm maturidade suficiente para discernir entre o
bom e o ruim nos conteúdos a que estão expostas. Os pais fazem o filtro e
monitoram continuamente o acesso dos filhos à internet, com o intuito de
95
protegê-los’, ensina a psicóloga (matéria Com a cabeça no mundo virtual,
revista Crescer, agosto/2011).
Esse trecho permite que pensemos acerca de como são posicionadas as crianças, pois
se considera sua habilidade em relação aos meios tecnológicos como algo “natural” dessa
geração, como relatado em outro trecho da mesma matéria: “As crianças de hoje parecem que
nascem com um chip para se conectar à tecnologia.[...]”(matéria Com a cabeça no mundo
virtual, agosto 2011). Também posicionam os pais como aqueles que conhecem o que é
melhor para seus filhos, eles podem até aprender algumas coisas com as crianças, mas “sem
que você se esqueça de que o papel de educador e mediador é seu”. Assim, a noção de
desenvolvimento biológico pressupõe a ideia de um sujeito em sua essência, passível de ser
modificado pelas influências do meio ambiente, e implica a necessidade da presença do
adulto, para com a criança, na forma de “tradutor”, pois é ele quem produz um sentido para as
“vozes infantis” (HILLESHEIM; GUARESCHI, 2007).
Como se pode ver, a infância é apresentada a partir de discursos dos campos biológico
e psicológico como uma fase do desenvolvimento, em que as crianças estão se preparando
para adentrar o mundo adulto na medida em que adquirem as capacidades de racionalidade e
moralidade. Esse processo é tido como possível através da escolarização e da socialização,
possibilitando que tenham uma vida adequada, segundo os padrões de normalidade já
estabelecidos. Isto é, embora a emergência da noção de um sujeito-criança com
especificidades próprias seja reconhecida, seus saberes devem ser disciplinarizados,
controlados a partir do que já é conhecido sobre a infância.
Além da tecnologia, outro saber aparece relacionado ao sujeito-criança. A princípio,
circulando nos meios escolares, o objeto desse saber é a preservação do meio ambiente.
Falamos em “a princípio”, pois os enunciados nos materiais indicam as crianças como
portadoras desse conhecimento para o ensino e controle das condutas dos adultos, fora do
meio escolar. Essas intervenções das crianças no comportamento dos adultos são relatadas no
trecho da reportagem televisiva Alunos participam do projeto AL TV na sala de aula
(emissora Gazeta Alagoas - Globo, programa AL TV 1ª edição, 27/10/2011):
Criança 1: Se a gente jogar lixo nas águas vai também poluir o ar, e a gente
vai ficar com pouca água, tem que fechar a torneira quando a gente for
escovar os dentes, quando a gente for tomar banho, não pode ficar de
brincadeira.
96
Repórter: [...] E a aprendizagem não fica na sala de aula. Apesar da pouca
idade, essa turminha pode fazer a diferença! Muitos aprendem aqui na
escola e puxam a orelha dos pais?
Professora: Com certeza! Eles passam para a gente isso: ‘Tia, olha, eu
passeei com painho e ele ia jogar isso fora’, ‘Não, pai, não joga, que você
vai sujar a rua, isso vai entupir os bueiros’. Eles vão levando essas
informações para os pais, para os avós, para os coleguinhas, para os
vizinhos.
Pensamos, a partir disso, na estratégia de convocar as crianças nos veículos midiáticos,
para expressarem seus conhecimentos sobre esse saber específico de cuidados com o meio
ambiente, como uma forma do exercício de poder na condução das condutas dos indivíduos
adultos. Através dessa preocupação com o futuro, as práticas de governo referem-se não
somente ao campo das condutas alheias, no caso na conduta dos adultos, mas, igualmente,
buscam afetar a maneira como as próprias crianças conduzem a si mesmas (FOUCAULT,
2011).
Isso nos leva a discorrer sobre os processos de subjetivação dos modos de ser criança e
se relacionar com a infância, na medida em que, esses modos de governo conduzem o
ajustamento desses corpos (crianças e adultos) às ações presumidas, possíveis,
potencializando a capacidade dos indivíduos de agirem sobre as condutas próprias e alheias,
constituindo “seus modos de ser”. Dessa forma, compreendemos que as mídias tornam
possível colocar em circulação discursos que organizam, articulam e nomeiam determinados
modos de falar, de pensar, de ser. Referimo-nos ao caráter disciplinador e ordenador desses
discursos, mesmo que sutis, que impõem de uma maneira não forçada os modos pelos quais
devem ser interpretada e organizada a sociedade que fazemos parte (BUJES, 2007).
A preocupação com o futuro, expressa nesse trecho a respeito dos cuidados com o
meio ambiente, marca um discurso que se enuncia comprometido com a modelização moral
dessas crianças, através das competências intelectuais dos alunos, mas, essencialmente,
mostra-se o modelo de cidadão que importa construir. Isso é potencializado justamente pela
convocação das crianças às mídias, proporcionando uma interação entre crianças e sociedade,
que se efetiva numa naturalização desse modo de ser e de se relacionar, estreitamente
associados a estruturas de poder e governo das formas de agir.
A possibilidade das crianças se reconhecerem como produtoras e transmissoras de
conhecimento favorece as práticas de autonomia e socialização; não escapando, claro, dos
97
ajustes às práticas educativas vigentes. No entanto, como alvos de uma atenção educativa
especial, as crianças se autodisciplinam com a realização dessa tarefa de transmitir seus
conhecimentos aos outros, como também proporcionam um arsenal conceitual para descrever,
categorizar, classificar os seres humanos, desde a mais tenra idade, permitindo um regime de
enunciação que justifique o governo dessas vidas: “Se é conhecível, se é calculável, é também
governável” (SILVA, 1998, p.191).
Com isso, analisamos que os materiais em que podemos pensar que se enunciam as
crianças ora como sujeitos com saberes próprios, pensantes, autoconfiantes, ora como seres
dependentes dos adultos, frágeis, desprotegidos, constituem verdades sobre a “essência
infantil” com sua “natureza legítima”, visto que as posicionam na dicotomia filho-aluno,
manifestando, assim, discursos referentes a uma infância única e universal.
Por meio dos materiais, identificamos os mecanismos disciplinares midiáticos (e
pedagógicos) que tomam as crianças como objeto de saber e poder, penetram em seus corpos
e investem maciçamente em sua condição de sujeitos infantis normalizados, isto é, moldados
à imagem e semelhança do adulto racional e moral, que virão a ser. Essa forma de delinear os
contornos dos modos de ser criança acarreta o surgimento de políticas educacionais e sociais
que visam à socialização desses seres para que futuramente possam se integrar e se adaptar a
sociedade. Neste contexto, aparecem mais uma vez a demarcação da infância tanto como um
estágio distinto da vida, sobretudo de formação para vir a ser adulto, como pela frequência em
instituições de escolarização, as quais demonstram a perspectiva contemporânea da noção de
infância.
Reportamo-nos, assim, às práticas de governo das populações e dos indivíduos
instituídas pelo biopoder (FOUCAULT, 2011). O corpo infantil e os modos de se relacionar
com a infância funcionam como suporte para intervenções estratégicas para governar suas
condutas e dos adultos, criando novas técnicas de cuidados, regulação e controle desses
corpos. Como apontado por Corazza (2004):
As práticas de ‘salvar as crianças’ – do século XVII pelo recolhimento da
exposição nas ruas, do século XVIII pela Roda – dão lugar, nos séculos XIX
e XX, às práticas de ‘educar as crianças’, mesmo porque aqui continua
tratando-se de ‘salvação’ (p.113).
98
Trata-se de considerar a salvação desses corpos infantis no sentido de criação, de
conhecer para acomodá-las às prescrições e submetê-las aos mecanismos de disciplina e das
regulamentações do dispositivo que as infantiliza (CORAZZA, 2004). Essa identidade infantil
é sujeitada pelo funcionamento das instituições disciplinares, como a família e a escola,
perpassando o dispositivo midiático, que as visibiliza.
E isso porque essa tecnologia midiática opera o assujeitamento das crianças, não por
castigá-las, mas por discipliná-las. Essa técnica de poder almeja que os sujeitos controlem a si
próprios mediante a incorporação da norma, que é tomada pelos indivíduos como a fonte de
verdade sobre as crianças. Ao que é assistido ou lido nas mídias é atribuído um saber mais
confiável por serem enunciados por médicos, psicólogos, pedagogos, terapeutas, que são
especialistas no que diz respeito à infância. A eles e às verdades que prescrevem, são
demandados que lhes digam o que devem fazer e como se relacionar com seus filhos. É como
se os filhos fossem melhor entendidos e atendidos pelas instituições especializadas do que por
suas famílias.
Vemos assim que as técnicas destinadas à constituição dos modos de ser criança
relacionados com saberes específicos se concentram nas estratégias de convocação da
participação das crianças e das figuras híbridas de tradição e modernidade. Observamos que,
nos materiais em que aparecem, é comum a eles, orientações didáticas aos pais sobre como
lidar com o acesso das crianças às tecnologias e a incitação de uma relação deles com eles
mesmos, no controle de suas próprias condutas e de seus filhos.
Dessa forma, as práticas disciplinares de normalização e de controle dos saberes das
crianças se dão por estratégias que fazem uso de discursos pedagógicos, que se pretendem
verdadeiros, a partir do cruzamento dos saberes de diversos especialistas no tema da infância.
Por tais práticas, notamos a concepção de que as habilidades das crianças com os meios
tecnológicos se dá de forma “natural”, chamando nossa atenção para a essencialidade do que é
considerado como características próprias do modo de “ser criança” hoje. Com isso,
esquadrinham-se, do mesmo modo, os saberes das crianças - o que podem saber, até que
limite podem saber, quando podem saber, quem e quando irão ensiná-las, sobre o quê...
Em face do exposto questionamos a forma como a tecnologia vem fazendo parte dos
meios sociais e educacionais, fazendo com que os saberes das crianças sejam reduzidos ou
enquadrados ao que já foi explicado e nomeado pela legião de especialistas que se ocupam em
99
representar a criança na sociedade contemporânea, desconsiderando o quer que de
imprevisível possa emergir das experiências próprias e genuínas das crianças.
Assim, nas condições contemporâneas, os modos específicos de ser criança e se
relacionar com a infância nos falam de uma infância específica e bem delimitada (apesar de
ser relatada nos materiais como em caráter universal e generalizado), em que as crianças que
dela fazem parte, são crianças que vão à escola, que brincam, que moram com a família, que
têm acesso a aparelhos tecnológicos. Cabe, entretanto, questionarmo-nos sobre essa ideia de
infância. E aqueles que não se enquadram nesses critérios, não são crianças? Ou então, são
crianças, mas não têm infância? Ou, ainda, indicam uma necessidade de ampliarmos os
sentidos possíveis da infância?
100
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho, buscamos problematizar os discursos sobre os modos de ser criança e
se relacionar com a infância, descrevendo, a partir dos vetores consumo e saber veiculados
nas mídias, como se constrói uma rede de poder sobre os sujeitos e como, nesse processo, se
produz vários saberes correspondentes. Agora, trata-se de sintetizar os achados da
investigação, onde afirmamos que em nossa sociedade, os meios de comunicação
efetivamente participam da construção de sujeitos e seus modos de ser ao diferenciá-los pela
idade, gênero, raça, classe social, etc., propondo-lhes uma multiplicidade de normas, regras e
práticas, os quais analisamos nesta dissertação.
Diante disso, tentamos mostrar os discursos existentes no interior do dispositivo
midiático que, no embate das forças que o compõem, deixam claro o quanto as forças de
poder e saber constituem esses veículos e possibilitam a construção de sujeitos-crianças e
modos de se relacionar com a infância, tornando-os sujeitos a certo tipo de governo.
Da análise, apreendemos um jogo de poder que coloca em evidência campos de
saberes e práticas, basicamente da medicina, da psicologia, da pedagogia, da economia, da
publicidade que, no espaço das mídias, disputam a hegemonia na definição das subjetividades
relacionadas com os modos de ser criança e se relacionar com a infância. Mais do que isso,
poderíamos dizer que um complexo feixe de relações – entre espaços institucionais, os
processos econômicos e sociais vigentes e um conjunto de formas de comportamento –
permite o aparecimento desse objeto de que nos ocupamos aqui: discursos sobre modos de ser
criança e se relacionar com a infância associados aos vetores consumo e saber.
Assim, na construção da imagem de uma infância ideal - que consome e faz consumir
e que tem saberes e capacidades próprios – quem está autorizado a falar? Os profissionais a
quem se confere autoridade para dizer a palavra “verdadeira”, a fazer diagnósticos científicos,
em princípio são as autoridades da psicologia, da medicina e da pedagogia. Os enunciados
sobre o que os saberes das crianças relacionados à tecnologia, por exemplo – e que
correspondem a uma infância que os transmitem seus saberes aos adultos – são respaldados,
de um lado pela fala da pedagoga e por outro, são mediados pela família, que também são
convocados a dar seus depoimentos, numa tentativa de nomear e identificar essa infância.
101
Um dos questionamentos que nos acompanhou ao logo das análises foi “de qual
infância esses materiais nos falam?”. Tomamos o dispositivo midiático como um dos
integrantes que conjugam, nesse determinado momento histórico que vivemos, os discursos
modeladores de um regime de normas, que passam a se constituir como “verdades a serem
seguidas”. O poder estaria voltado para produzir a vida e ditar as características desses
sujeitos que, de “adultos em miniatura”, passaram a ser uma etapa bastante distinta do
desenvolvimento humano e agora são, por vezes, novamente aproximados da imagem do
adulto.
Mesmo diante de uma produção discursiva hegemônica sobre a infância, percebemos
discursos contraditórios. A criança é o “outro” do adulto, como uma fase da vida que antecede
a fase adulta. E a infância seria, uma fase que necessita de investimentos, e uma fase de
passagem, de incompletude que antecede o momento pleno de crescimento, raciocínio e
desenvolvimento que será alcançado posteriormente na fase adulta. Ao mesmo tempo, vemos
uma constituição das crianças como competentes, autônomas e capazes, próximas de
habilidades que, tradicionalmente, caracterizariam o universo adulto, particularmente quando
se faz uma leitura geracional de sua constituição em um novo mundo tecnológico.
A noção de infância produzida aqui nos leva a elaborar que o “ser criança” supõe duas
condições. Em primeiro lugar, é preciso estar sob a guarda de seus pais, ou seja, ser “filho”
(mas não de qualquer família, pelos materiais pudemos identificar aspectos que se relacionam
a famílias de classe média e alta) e em seguida, ser “aluno”, alfabetizado ou em vias de sê-lo.
Parece ser “próprio” das crianças ter a sua socialização e educação a cargo da família e da
escola (SARMENTO; MARCHI, 2008), como vimos nos materiais analisados, questões como
a fase escolar e o relacionamento entre pais e filhos são temáticas recorrentes. Por estarem
dentro das instituições responsáveis por sua “socialização”, estas crianças têm seu
reconhecimento e enquadramento na sociedade como propriamente “crianças”. Mas e as
crianças que não se enquadram nessas condições? Como são classificadas? Como aparecem
nos materiais midiáticos?
Assim, é preciso não perdemos de vista que o dispositivo midiático, inscrito nas
estratégias de governo dos modos de ser, coloca-nos em constante vigília dos processos
regulamentação da existência a que estamos sujeitos. Não podemos naturalizar esses modos
de existência, mas devemos entendê-los como parte de um poder que quantifica, mede, avalia,
hierarquiza e distribui os indivíduos em torno da normalização da vida.
102
Esses modos de ser criança e se relacionar com a infância, como pretendemos ter
mostrado, são, portanto, objetivos do governo das populações. Estratégias midiáticas tem se
esmerado em propor técnicas para seus controles e regulações. Tais subjetividades passam,
então a fazer parte do governo das condutas, comprometendo todos os lugares sociais
interessados em potencializar o que se refere ao universo infantil.
Embora tenhamos nos restringido, nesta dissertação, a examinar os modos de ser
criança e de se relacionar com a infância associados aos vetores consumo e saber, a forma de
ação de poder do governo desses modos de ser é tão amplo, tão onipresente, de uma variação
tão infinitas que as redes que constitui, por serem tão intrincadas, atingem os mínimos
processos que nos parecem insondáveis. Se pensamos nos processos a que atingem esses
modos de ser e se relacionar com a infância, veremos o governo das condutas passar por
coisas tão díspares como a escolha dos brinquedos, modelação dos modos de agir, das
preferências em termos de consumo, dos serviços a que recorrer quando a preocupação é com
o futuro dos filhos.
Esses modos de ser e agir são governados quando se elege um modelo dizendo-o mais
apropriado, quando se deixa às mídias o encargo de ensinar a pais e mães como serem
melhores nas funções da paternidade e da maternidade, quando criamos espaços de lazer
orientados pelo consumo, quando instituiu-se que o biológico e o cognitivo são os modos
mais adequados para descrever o desenvolvimento das crianças. Mas eles são definidos
também quando definimos o que as crianças devem aprender, o que devem consumir, em que
circunstâncias, com qual ordenação.
A proliferação desses materiais, anúncios e enunciados sobre as crianças e os modos
de se relacionar com a infância não falam somente de um estilo de ser e agir, acompanhados
do necessário consumo de uma série quase infinita de produtos e serviços. Também opera,
principalmente, um modo de subjetivação que associa o imperativo do consumo e a
constituição de uma infância com competências e saberes próprios com uma determinada
infância e um determinado modo de ser e agir.
No entanto, esses saberes e práticas produzidos não necessariamente abarcam as
diferentes formas possíveis das crianças construírem-se como sujeitos, mas privilegiam
apenas um modelo de infância. Trata-se de estarmos atentos às implicações de colocarmos
esses modos de ser como verdades que sustentam práticas como padrões imutáveis e rígidos, e
103
entendê-los numa dinâmica flexível que precisa estar em constante modificação. O que
implica em não necessariamente considerarmos como possível uma verdade sobre os modos
de ser; não há um modelo certo e outro errado, mas eles estão imersos nos diferentes jogos
que produzem os modos de ser no contemporâneo.
Problematizar esses modos de ser criança e se relacionar com a infância veiculados
nas mídias pode ser uma abertura à multiplicidade de produção de sujeitos baseados em
práticas de governo mais plurais. No entanto, é preciso estarmos sempre atentos às práticas
que congelam a existência em noções rígidas de como lidar com nós mesmo. Os materiais
midiáticos são, ao mesmo tempo, um meio que possibilita o investimento e produção de
diferentes infâncias, e um meio que fixa a infância em modos pré-determinados de como ser
criança. Por isso, devemos sempre nos indagar se o que é veiculado nesses meios privilegiam
as diferentes manifestações de existir e os diferentes modos de ser criança e se relacionar com
a infância.
Podemos continuar pensando a formação das novas gerações a partir de espaços como
a família e a escola, mas o fato é que há uma transformação nessa rede de poderes, dada pela
penetração cada vez mais intensa das mídias. Essa seria uma das estratégias biopolíticas: não
só se ocupar da vida inteira das populações, mas uma tecnologia de comunicações que
multiplica informações médicas, psicológicas e pedagógicas, modelos de ser e agir,
possibilidades de consumo. Formar, ensinar, orientar são ações que transbordam desses
lugares tradicionais, sendo assumidas explicitamente pelas mídias, através de uma infinidade
de modalidades enunciativas, cuja característica principal é a publicização de fatos, pessoas,
sentimentos, comportamentos.
A privacidade tornada pública constitui-se uma das marcas destes tempos e coloca o
campo dos meios de comunicação numa posição bastante privilegiada. A partir dos estudos
foucaultianos, tomamos que as subjetividades, as relações com o outro, nossos modos de ser e
agir não são questões privadas porque elas estão submetidas ou são objetos do poder (ROSE,
1998). Elas são governadas de modo intenso, contínuo, sem tréguas, levando-nos a
compreensão do poder a partir de suas redes, que fatalmente nos capturam (BUJES, 2001).
Nesse processo, elege-se a informação como o valor máximo, e isso é reiterado por
vozes de diferentes espaços institucionais, mas sobretudo de dentro dos próprios produtos
oferecidos pela televisão, jornal ou revista. Não se trata apenas de ter o acesso a transmissão
104
de dados, opiniões e imagens de forma dinâmica; trata-se de reivindicar para si o discurso
verdadeiro, como se, com os recursos disponíveis de abarcar todas as palavras e fatos, as
mídias pudessem selecionar, ordenar e sintetizar a informação necessária ao público,
facilitando-lhe o acesso à “verdade” veiculada. Pudemos analisar essa estratégia midiática nos
materiais em que se apresentam como guias pedagógicos aos sobre como lidar com seus
filhos.
Firmando-se como o lugar por excelência da verdade, as mídias não prescindem,
porém, do discurso científico, que só faz reforçar essa qualidade; não importa tanto o que é
dito pelo psicólogo ou pelo médico especialista: importa que ele seja visibilizado em seus
veículos, no jornal ou na televisão e explique como crianças e adultos devam agir. Para tanto,
explicitamente ou não, afirmam sua condição de detentores de uma verdade sobre as formas
equilibradas de portar-se, de exercitar a afetividade, de fazer relacionamentos, de consumir.
Para todas as dúvidas há recomendações que, por seu turno, tornam-se a fonte de novas
perguntas e novos esclarecimentos.
Os mecanismos de poder tornam-se cada vez mais sutis e de uma sofisticação tal que
quase não ousamos questioná-los, até porque acabamos de percebê-los como um bem para
nós. Tenta-se produzir nesses meios até um espaço de convívio social, quando as seções das
revistas e dos jornais publicam as opiniões e principalmente as dúvidas, que, supõe-se,
circulam nos grupos e ambientes primários do cotidiano. Desse modo, longe de se
constituírem como imposições, tais prescrições soam como sábios e bondosos conselhos
elaborados ou por pessoas que compartilham determinados problemas, ou especialistas no
direcionamento e solução dos mesmos.
Como vimos, os discursos sobre os modos de ser e se relacionar com a infância não
podem ser vistos em uma única relação, mas sim na multiplicidade e complexidade de
elementos, de outros campos, que aí entram em ação: define-se o desenvolvimento motor e
intelectual das crianças, reafirmando as características de uma idade; produz-se uma
pedagogia que explicita a que informações as crianças podem ter acesso e como se deve
educá-las; e novos saberes se multiplicam, como o das tecnologias e cuidados com o meio
ambiente, que posicionam as crianças como modelos de sujeito. São essas relações que atuam
no discurso das mídias sobre dos modos de ser criança e se relacionar com a infância e
somente a partir dos cruzamentos que aí se dão, é possível defini-los especialmente quanto à
função “formadora” das subjetividades, aqui discutida.
105
Na atuação pedagógica das mídias com o público, isto é, na atuação de seus
enunciadores principais, como os colunistas de revistas e jornais, já não podemos falar de uma
relação vertical, de sujeitos falantes, de um lado, e de sujeitos pura e unicamente receptores de
outro, pelo contrário, sujeitos ativos, sujeitos falante. Ou seja, o que estamos chamando de
pedagógico aí diz respeito exatamente a esse convite que faz, continuamente, de crianças e
adultos se voltarem para si mesmos, a cada enunciado veiculado. Trata-se de agir, sobretudo
agir em direção a si mesmo. Privilegia-se aqui um dos modos de governamentalidade de que
nos fala Foucault: o governo de si e por si, fortemente articulado à relação com um “outro”,
nesse caso, os enunciadores das mídias.
Esse governo de si, através dos modos de ser criança e se relacionar com a infância
veiculados nas mídias, implica, portanto, mesmo que assistematicamente, mesmo que sem
nenhuma regularidade, em não deixar de atentar para todas as normas, num conjunto
discursivo cuja característica principal é a busca permanente da homogeneidade, do equilíbrio
e do apagamento das contradições.
Cada vez mais nos aproximamos de uma ideia de uma infância consumista,
responsável, esclarecida, equilibrada. Permanece, por outro lado, a ideia de uma geração que
carece de todos os cuidados com respeito ao seu desenvolvimento biológico e moral. Mas e as
infâncias que não se encaixam nesse modo de ser?
Esta dissertação se constituiu num exercício para pensar em questões como esta. Seu
propósito foi o de realizar uma analítica do governo dos modos de ser, tomando o dispositivo
midiático como um detonador, para nos levar a entender os jogos intrincados de poder que
atingem e capturam a infância; para apontar, mais precisamente, as conexões entre saber e
poder, tornadas visíveis pela proposição deste dispositivo.
Pensamos que esta investigação, coloca-nos na contramão de alguns entendimentos
correntes sobre muitas questões relacionadas com a experiência de ser criança e se relacionar
com a infância em outro enquadramento que não seja aquele que trata das essências dos seres.
Mas ela não se pretende uma leitura privilegiada, senão uma entre as inúmeras possibilidades
que se nos apresentaram para buscar respostas para algumas questões que nos causaram
estranhamentos.
106
A imersão nas análises nos levou a alguns posicionamentos, entre eles do caráter
discutível dos modos de ser criança e se relacionar com a infância associados a uma
determinada ideia predominante de infância. O que queremos mostrar é que estas ideias
postas em confronto são construções inventadas, que não caracterizam necessariamente
oposições.
Acreditamos que colocá-las em discussão pode servir para desnaturalizá-las e apontar
o seu caráter contingente, como conjuntos que foram construídos discursivamente. Do que se
trata, quando apresentada como unidade estável, é de essencialismos, de enunciados que têm a
pretensão de nos dizer mesmo o que é a infância e como se dão os processos em que ela está
envolvida. Como tal possibilidade não existe, como apenas podemos nos aproximar do real
através de verdades históricas e contingentes e, no mais, sempre superáveis, segundo as
formulações foucaultianas, as consideramos formas de aprisionar o real e de estabelecer
arbitrariamente as maneiras como este deve se comportar. Estas formas de pensar e classificar
os fenômenos são intensamente produtivas e tanto mais produtivas quanto mais naturalizadas,
porque elas ocultam as operações de poder que as constituíram enquanto tal. Estas verdades
acabadas têm, portanto, um efeito normalizador e excludente que nos impossibilita pensar
sobre as dinâmicas de poder que estão na base de sua construção.
Vimos que as estratégias utilizadas pelas mídias incitam permanentemente a fazer o
exame de si, como uma espécie de ritual, em que para uma desejável e necessária conduta,
movimentam-se profissionais especialistas operando uma forma de inclusão dos modos de
existência “normais”, ao mesmo tempo que nega os diferentes. Esse é o movimento
permanente dos discursos, um movimento simultâneo de saber e não-saber, de incitar e frear,
de incluir e excluir.
Por fim, reafirmamos que não se buscou, neste estudo, um sentido ou uma verdade dos
discursos das mídias sobre os modos de ser criança e se relacionar com a infância. Fizemos
uma imersão num momento e numa história específica, tentando, talvez, apanhar um instante
deste presente, que certamente suporta a herança de uma longa história de produção da
verdade do sujeito, desconstruindo evidências e desnaturalizando verdades, que tem como
efeito a construção de modos de ser e agir que legitimam o que é posto como hegemônico.
107
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VEIGA-NETO, A.. Foucault e a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
110
APÊNDICE
Apêndice A. Mapa de organização do material24
Nº
Material
1
Pais &
Jul/2011
Filhos
2
Pais &
Jul/2011
Filhos
24
Classificação
Descrição
Excerto
Vetor
A gente quer o mesmo que você: ver o seu filho crescer.
Anúncio
Criança
sorrindo
Consumo
O “+” recomendado pelos pediatras.
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da vestido com blusa
PediaSure. Nutrição levada a sério. A hora da refeição é
marca PediaSure
pequena e apertada
um problema na sua casa? Saiba que é comum crianças
para seu tamanho.
passarem por algum tipo de dificuldade alimentar, mas
isso deve ser tratado com atenção, pois pode comprometer
o desenvolvimento do seu filho. Nessas horas, você tem
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balanceado, que ajuda no crescimento e desenvolvimento
de seu filho, complementando sua alimentação. PediaSure
tem tudo que seu filho precisa e é o mais recomendado
pelos pediatras. Nos sabores chocolate e baunilha, é
delicioso e fácil de preparar: basta misturar em um copo
de água e pronto. Você fica tranquila enquanto seu filho
aprende a se alimentar corretamente.
Da cabeça aos pés: entenda como se desenvolve a
Anúncio
Um bebê interagindo
Consumo
coordenação motora do seu filho e saiba como você pode
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da com um brinquedo de
ajudar.
marca Fischer Price encaixe de blocos.
Da cabeça aos pés: é assim que o desenvolvimento motor
Outro bebê apoiado
acontece! Este processo tem início assim que ele deixa o
em uma mesa se
aconchego da barriga materna. Cada criança tem seu ritmo
levantando.
de desenvolvimento, claro, influenciado por fatores
hereditários e ambientais, mas principalmente, pelos
estímulos que recebe. Por isso, é tão importante que os
pais participem da vida dos filhos, estimulando-os de
maneira correta, para que eles possam desenvolver ao
Materiais empíricos selecionados nas mídias impressa e televisiva analisados nesta dissertação.
Observações
111
máximo seus potenciais, explica Teresa Ruas, terapeuta
ocupacional especializada em desenvolvimento infantil.
3
Pais &
Jul/2011
Filhos
Publicitário Natura
Criança segurando um Natura Naturé é uma linha com embalagens, cores, Consumo
jacaré de brinquedo, cheiros, texturas e nomes curiosos que estimulam a
feito com colagens.
descoberta e ensinam seu filho a cuidar da água enquanto
se diverte. Tibum no mundo para brincar, porque
brincando se aprende a cuidar.
4
Pais &
Jul/2011
Filhos
Matéria
Imagens das crianças Família diferente, vida normal
brincando entre si e
Mesmo tendo filho com deficiência, a vida da família
com os pais
Nacif é supertranquila. Os publicitários Luciana Mariano
e Alexandre Nacif se consideram muito sortudos. Têm
dois filhos felizes – Aramis, de 5 anos, e Thor, de 1 ano e
9 meses – que acordam de bom humor, dormem a noite
inteira, alegram a casa e tomam todo o seu tempo no final
de semana. [...] Aramis tem deficiência neurológica e não
anda nem fala. O ultrassom apontava alguma alteração já
durante a gravidez, mas foi só dois meses depois do
nascimento, quando Luciana desconfiou que ele estivesse
tendo convulsões e o menino quase morreu no hospital,
que eles descobriram que ele tinha malformação no
cérebro, e que não teria um desenvolvimento normal. O
alívio que sentiram ao saber que o menino viveria bem, e
muito, foi tanto, que a notícia da deficiência ficou em
segundo plano. E fica até hoje. [...]
A casa da família não tem muitas adaptações, e Aramis é
transportado no colo ou carrinho. Cadeira de rodas não os
agrada, pois temem o preconceito associado a ela.
Preconceito que o menino já sofre, mas nem isso os
desanima. “Ele veio sob encomenda pra mim. Sou uma
mãe egoísta e ele vai estar sempre comigo”. [...]
Infância
“diferente”
112
5
Pais & Filhos
Ago/2011
Matéria -
Internet e criança não combinam
Coluna da revista Pingo nos “is”
Não é pelo fato de que seu filho acessa a internet que ele é
mais inteligente, mais avançado ou mais conectado. Às
vezes penso que é exatamente ao contrário.
Saber
[...]
Meu ponto é esse. Uma pesquisa na internet nos leva para
páginas que, segundo o critério e os algoritmos do
Google, tem mais relevância. Muito bem, quer dizer que
quem escolhe o que é relevante para mim é o Google? Tá
bom, você vai dizer que estou exagerando. Mas na prática
é isso, o Google escolhe o que é relevante e eu que me
vire em achar o que é de verdade relevante. O Google vai
pela maioria e acaba criando, lá no final das contas, uma
diversidade de perspectivas muito pequena e, portanto,
muito perigosa.
Não sou contra a internet. Sou contra pais que acham que
tudo bem e que é muito bom o filho navegar por aí, ter
conta no Facebook com 08 anos e computador no quarto.
Internet exige discernimento, maturidade para separar o
que importa daquilo que não importa, e nossos pequenos
não sabem fazer isso. Que bom! Que eles possam brincar
de carrinho!
6
Pais & Filhos
Ago/2011
Matéria
Imagens
dos pais Como pensam os pais?
Manual
entrevistados com seus
os pais
Diferente da mãe. Isso com certeza. E cada pai tem o seu
filhos
jeito. Saiba quais são as prioridades de cinco homens na
criança dos seus filhos e os valores que eles tentam
transmitir: respeito, sinceridade, limite... Ou nada disso.
Ou tudo junto!
Em uma pesquisa realizada pelo Datafolha em 2008, foi
apontado que, para 69% dos brasileiros, a família é a
instituição mais importante da vida. E o mais
para
113
surpreendente: pela primeira vez, os homens priorizam
mais do que as mulheres o bem-estar dos filhos e do
companheiro.
Que o “novo” pai é bem diferente do modelo tradicional,
fica muito mais com as crianças, divide as tarefas e ainda
ajuda na casa, todo mundo já sabe. Não é nem novo mais,
já é quase velho. Afinal, que pai não participa de tudo
hoje me dia? [...]
Os homens pensam diferente das mulheres, e isso é ótimo
– pra eles, para as mulheres e principalmente para os
filhos, que têm a oportunidade de aprender com os dois.
Por isso a gente resolveu investigar e conversou com
cinco pais descolados para entender melhor o que eles
acreditam ser essencial passar aos pequenos. E você
concorda com eles? [...]
7
Pais & Filhos
Ago/2011
Matéria
Imagens de crianças Abaixo a culpa!
sozinhas e com suas
De obrigar minha filha a comer tomate para em seguida
mães.
vê-la vomitar, eu sou culpada. Felizmente, nós, da Pais &
Filhos, acreditamos que você não precisa ser perfeita para
criar uma criança ótima.
Outro dia ouvi uma frase genial: “dizer que mãe tem culpa
é pleonasmo!” E é verdade. Mas quem pensa que a culpa
só nasce o bebê sai da nossa barriga também está
enganado. Ela surge, impiedosa, quando lemos o resultado
POSITIVO. Sei que não fui a única que imediatamente se
lembrou que, num tal jantar, já grávida, havia abusado do
vinho. A partir daí, a culpa virou minha companheira,
apesar de me achar até uma mãe bacana. [...] Aqui, nos
colocamos na situação de várias mães e expusemos os
problemas para especialistas. O conselho deles vai
explicar por que você não deve se estressar e como deixar
Manual para
os pais
114
para trás esses pequenos deslizes da maternidade. [...]
8
Pais &
Set/2011
Filhos
Matéria
Imagens de crianças Introvertidos x Extrovertidos
sorrindo
–
uma
Especialistas acreditam que cerca de metade das pessoas
pulando
e
outra
são introvertidas e metade são extrovertidas. Conhecer o
sentada no balanço.
temperamento do seu filho pode te ajudar a educá-lo e
lidar com isso, mesmo que você seja completamente
diferente. [...]
Em geral, somos muito mal informados sobre o que
diferencia um introvertido de um extrovertido. Para
começar, não se trata de timidez. Introvertidos muitas
vezes gostam de socializar – só demoram para colocar
para fora. Eles exigem uma dose saudável de tempo
sozinhos para se reabastecerem. Extrovertidos, por outro
lado, extraem energia da interação com os outros. Muito
tempo sozinhos pode deixá-los para baixo e desejando
companhia para recuperarem-se. A maioria das pessoas
cai em algum lugar no meio das classificações
introvertido-extrovertido, mas todos temos uma inclinação
para um lado. Descubra qual é a personalidade do seu
filho e aprenda a respeitá-lo – seja falando mais que para
incentivá-lo ou falando menos para deixá-lo aparecer. [..]
9
Pais &
Out/2011
Filhos
Publicitário - Itaú
Criança com uma A cada dia eles ficam mais independentes. E se tiverem Consumo
escova de dente na uma previdência vão continuar assim no futuro.
boca.
Uma escolha muda todo o futuro de quem você ama.
Invista num plano de previdência Itaú. A partir de R$ 2
por dia e mais um investimento inicial, você dá um
empurrãozinho no futuro de quem é importante na sua
vida: pode ser uma faculdade, um intercâmbio ou até
montar um negócio. Acesse o site e faça uma simulação
da vida que você quer para alguém tão especial.
Manual para
os pais
115
10
Pais &
Out/2011
filhos
Reportagem
No dia das crianças, um futuro de presente.
Quem é pai, mãe, tio, tia ou avó e avô, já sabe: o dia 12 de
outubro não pode passar em branco. Comerciais de TV e
apelos dos filhos, netos e sobrinhos transformam as lojas
de brinquedos nos dias das crianças em um alvoroço só
comparável ao Natal. A novidade, de uns tempos para cá,
depois que a inflação foi domada e que as famílias
começaram a ser capazes de planejar o futuro, é que outro
tipo de endereço também passou a ser mais procurado
nessa data: os bancos. “A gente sempre espera vender
mais planos de previdência em outubro por causa do dia
das crianças”, diz o diretor executivo de produtos de
investimento e previdência do Itaú Unibanco, Osvaldo
Nascimento, pai de Priscila e Patrícia. “É cada vez mais
comum os pais, tios e avós presentearem as crianças com
um plano de previdência”, conta.
[...]
Presente e futuro:
No mundo infantil, um presente que não possa ser usado,
testado, apalpado ou jogado de imediato, mal pode ser
chamado de presente. Mesmo assim, os planos de
previdência entraram na lista de presentes das famílias,
mesmo que complementares ao tradicional brinquedo.
“É claro que ele vai ganhar um brinquedo, uma bola”, diz
o especialista em eletrodomésticos e restaurador artesão
José Valmir dos Santos, pai de Leonardo, de 05 anos.
“Mas o plano de previdência é o futuro. É a minha
garantia de que ele vai parar de estudar se eu não estiver
mais aqui. A gente tem que se preparar.” [...]
Valmir é um exemplo de uma nova classe consumidora do
Brasil. “O público que mais cresce entre nossos clientes
de planos de previdência, incluindo os planos de
Consumo
116
previdência para menores, é o público da Classe C”, conta
Sandro Bonfim, pai de André e Lucas, gerente de
inteligência de mercado da BrasilPrev. “É um público que
ainda tem um foco grande no consumo, mas cada vez
mais se preocupa com o futuro dos filhos.”
11
Pais &
Out/2011
Filhos
Matéria
Caça ao tesouro
[...] O mais importante é saber qual tipo de formação a
escola propõe, qual filosofia ela prega e qual sua proposta
pedagógica. Sabendo e entendendo tudo isso, fica mais
fácil perceber se o pensamento da escola está alinhado
com o da sua família.
Antes de fazer a escolha, escute a opinião de seu filho. Por
mais que ele seja muito novo para discorrer sobre o que
achou do lugar, leve-o nas visitas e nas reuniões que as
escolas promovem. “As crianças não têm condições de
fazer escolhas, mas é importante que elas digam como
estão se sentindo”, afirma a psicopedagoga Quézia
Bombonatto, mãe de Rodrigo. [...]
Tecnologia:
É impressionante como crianças tão pequenas já entendem
tanto de tecnologia. Não é difícil ver um bebê,
praticamente, de 02 anos, manuseando um iPhone ou iPad
com a maior familiaridade.
Dentro da sala de aula, ao mesmo tempo em que a
tecnologia funciona como uma ferramenta que auxilia o
professor, ela pode restringir que as crianças tenham
contato com materiais como massinhas, lápis e livros. [...]
o mais importante na educação infantil passa longe da
tecnologia. É a fase em que a criança precisa brincar,
experimentar e se sujar. Você pode introduzi-la na
informática dentro de casa mesmo, fique tranquilo se a
escola que gostou não oferece essas ferramentas.
Saber
117
12
Pais & Filhos
Dez/2011
Matéria
Imagens
brinquedos.
de Brinquedo, brinquedo meu...
Consumo
Mais do que caprichos das crianças, os brinquedos são os
instrumentos para o seu desenvolvimento e seu
aprendizado. [...] O trabalho da criança é brincar, e isso
ela faz melhor do que ninguém! Que bom, porque é assim
que ela se desenvolve. É por meio das ações envolvidas
neste processo que as crianças elaboram questões, põem
conhecimentos em prática, destroem e constroem valores.
É brincando que elas começam a entender o mundo e as
suas relações.
[...] Os brinquedos estão diretamente ligados ao ato de
brincar. Portanto, eles nada mais são do que os veículos
desta importante, divertida e necessária atividade. [...]
Então, qual o brinquedo ideal ara você dar neste Natal?
[...]
13
Crescer Jul/2011
Matéria
Imagens de crianças Tudo para você escolher a melhor escola
Consumo
em ambiente escolar.
Tem espaço para brincar? Alfabetizam a partir de que
ano? Enfatiza os esportes ou as artes? Tem muita lição de
casa? Como é a hora do lanche? Aborda questões sobre
diversidade e respeito? Perguntas não faltam na hora de
escolher a escola do seu filho. E elas são fundamentais
para ajudar você nessa decisão tão importante para toda a
família. Veja aqui o que você deve observar e,
principalmente, o que é preciso pensar antes de ir a
campo.
Desde o momento em que descobre que será mãe, sua
vida se torna uma sucessão de escolhas. Primeiro, o berço.
Mais para frente, em qual maternidade será o parto, as
músicas que irão tocar durante o grande momento, as
lembrancinhas, o restante da decoração do quarto. Fora o
nome! Mistura de prazer e trabalho. Porém, existe uma
118
decisão que você terá que tomar da qual talvez tenha
poucas informações e que não envolve só o gosto do
casal: a escolha da escola. [...]
Ao buscar uma escola é preciso levar em conta também o
que está nos arredores. Quando se escolhe um colégio, se
escolhe também uma comunidade a se pertencer. Os
amigos, os pais dos amigos e até os gastos – viagens,
festas, presentes – vão fazer parte da vida da sua família.
É um pacotão mesmo. Podem surgir problemas de alto
consumismo entre as crianças, cobranças, comparações.
Diferenças nas condutas de educação, mas também muito
aprendizado – entre os pais, inclusive – com a diversidade
de ideias. Dessa comunidade, pode vir também aquela
turma de amizade duradoura que acaba agregando até os
pais e irmãos dos colegas. [...]
14
Crescer Jul/2011
Seção da revista - Imagem
de
uma Nada de remédio
Funcionou comigo criança embaixo de
O filho da Viviane sempre recusa medicação. Como ela
aqui o especialista é uma mesa.
pode lidar com isso?
você
“Meu filho não toma remédio de jeito nenhum. Já tentei
convencê-lo de todas as maneiras. Se dou a medicação à
força, ele fica nervoso e chega a vomitar. O que eu faço?”
15
Crescer Jul/2011
Anúncio
Cenário assemelha-se
Publicitário
da a
um
banheiro.
marca Mundo do Homem se barbeando
Sítio
e olha no espelho. Está
com espuma no rosto e
barbicha
amarela
semelhante
ao
personagem do Sítio
do Pica-Pau Amarelo,
Visconde de Sabugosa.
Criança diz: “Pelas barbas do Visconde, pai! Assina logo
o Mundo do Sítio”.
A Cuca avisou: vai crescer a barbicha do Visconde de
Sabugosa no pai que não assinar o Mundo do Sítio. Mas
cá entre nós: um site seguro, com games, cultura, aventura
e uma biblioteca cheia de histórias, quem não vai assinar?
Acesse www.mundodositio.com.br e experimente junto
com o seu filho. Assine o Mundo do Sítio para seu filho e
fique livre do feitiço da Cuca.
Manual para
os pais
Consumo
119
Criança (menino) sorri
ao seu lado.
16
Crescer Jul/2011
Matéria
Imagem
de
uma Esse dinheiro é seu!
Consumo
criança colocando uma
Seu filho nem aprendeu a falar e você já pensa na
moeda em um pequeno
faculdade? Então faça uma poupança no nome dele: isso
cofre.
aumenta em seis vezes as chances de ingresso em um
curso superior, pois faz a criança acreditar que terá como
pagar os estudos. A descoberta é do Centro para o
Desenvolvimento Social de Criança da Universidade de
Washington (EUA), que fez um estudo com 3563 crianças
de 0 a 12 anos e, depois de prazos de cinco a dez anos,
entrevistou as que terminaram o colégio. O levantamento
mostrou que a quantia guardada não é relevante, basta que
a conta esteja no nome da criança. “Permita que ela
acompanhe os saldos para despertar seu interesse”, diz
Álvaro Modernell, consultor financeiro e autor de livros
infantis sobre educação financeira. Ele aconselha também
a fazer depósitos menores e constantes, com
investimentos separados para os objetivos de médio e
longo prazo.
17
Crescer Ago/2011
Matéria
Imagens de crianças Como preparar seu filho para a vida
brincando.
Que pai não sonha com a felicidade e o sucesso dos
filhos? É para ajudá-los a chegar lá que sempre tentamos
proporcionar as melhores experiências, a melhor escola e,
até, os melhores amigos para eles. Mas, para usufruir tudo
isso, as crianças precisam aprender a lidar com os
sentimentos. Só assim conseguirão superar as frustrações
que vão enfrentar durante toda a vida. Ao longo desta
reportagem, você vai encontrar as definições de dez
habilidades emocionais fundamentais para seu filho se
desenvolver em todos os aspectos – e vai descobrir como
Manual para
os pais
120
ajudá-lo a fazer isso no dia a dia.
Basta o filho nascer, ou melhor, basta descobrirmos que
vamos ser pais, para querermos ter certeza de que ele vai
crescer feliz e conquistar tudo o que desejar (e um
pouquinho mais, por que não?). E, para tentar garantir
essa realidade, começa o que parece ser um plano
infalível: oferecer bons professores e cursos de idiomas,
fazer poupança para faculdade, proporcionar viagens de
intercâmbio, matricular em uma atividade física... Claro,
tudo isso é de extrema importância, principalmente para
que ele se desenvolva intelectualmente, adquira cultura e
descubra seus talentos e preferências, mas existe outro
componente fundamental, sem o qual nada disso funciona
direito; a capacidade de aceitar, entender, lidar com as
emoções.
[...] É aí que as dez habilidades emocionais que você
começou a conhecer nas páginas desta reportagem vai
ajudar, e muito. São elas: a autoconfiança, a persistência,
a coragem, a tolerância, a persistência, o controle dos
impulsos, o autoconhecimento, a empatia, a comunicação
e a resistência às frustrações [...].
18
Crescer Ago/2011
Matéria
Com a cabeça no mundo virtual
A tecnologia se instalou nos hábitos familiares trazendo
encantamento para as crianças e muitas perguntas para os
pais. Vamos ter que achar as respostas com a ajuda dos
filhos.
Veja só a situação: adultos que não tiveram contato com a
realidade virtual na infância precisam ensinar seus filhos a
lidarem com ela. A falta de precedentes deixa muitos pais
em conflito, sem saber muito bem quais orientações
passar. Uma solução? Aprender com as crianças no dia a
dia, o que pode gerar momentos deliciosos entre vocês,
Saber
121
porém, sem que você se esqueça de que o papel de
educador e mediador é seu. Ainda que essa nova geração
domine, de maneira constrangedora, os botões e
comandos de tudo que é tecnológico, são os pais que
estabelecem o que pode acessar ou usar, quando, por
quanto tempo, em quais condições e com quais objetivos.
O momento atual pode até oferecer uma inversão de
papéis no sentido de que os adultos aprendem com seus
filhos sobre gadgets, mas quem controla, estabelecendo
limites e restrições, são sempre o pai e a mãe. Essa
máxima da educação não deve mudar assim como essa
outra: a presença dos pais é indispensável na navegação
da internet. “As crianças ainda não têm maturidade para
discernir entre o bom e o ruim nos conteúdos a que estão
expostas. Os pais fazem o filtro e monitoram
continuamente o acesso dos filhos à internet.”, ensina
Katty Zúñiga, psicóloga e pesquisadora do Núcleo de
Pesquisa da Psicologia em Informática (NPPI), da PUCSP.
[...]
“Minha filha disse: ‘Eu adoro a natureza mas para minha
festa de aniversário quero um bufê bem do tipo internet,
com as paredes coloridas, brinquedos e animação’.”
Marcelo Tas, apresentador, contando sobre o que sua filha
mais nova, 06 anos, queria da festa de aniversário.
“Lá em casa quando acaba a luz ficamos tranqüilos. Mas
se perdemos a conexão com a internet, aí todo mundo fica
histérico.” Saulo Ribas, jornalista.
Com a palavra, as mães! Elas contam como os filhos
lidam as novidades tecnológicas.
“O Nicolas tem só 02 nos e já brinca com o iPad, liga,
desliga, entra nos joguinhos que ele gosta, se diverte. Ele
conhece o aparelho mais do que o pai. Um dia desses,
122
meu marido estava quebrando a cabeça para ativar o som
no iPad, e ai o Nicolas foi lá e resolveu o problema
rapidinho. Parece brincadeira, mas o meu filho domina
essa tecnologia melhor do que os pais.” Milene
Massucato, 31 anos, psicopedagoga, mãe de Nicolas, 02
anos.
“A minha profissão exige que eu saiba mexer em muitas
ferramentas tecnológicas, mas, por mais que eu saiba
muita coisa, perto dos meus filhos me sinto uma
analfabeta tecnológica. Sempre que tenho problemas com
o computador é o meu filho mais velho que me ajuda e
ainda fala: ‘Nossa, mãe, não acredito que você não sabe
isso!”. Fico muito impressionada também com o meu
pequeno, que já coloca DVD no aparelho sozinho e assiste
aos filmes que ele gosta. E olha que só tem 01 ano!”.
Natália Guimarães Maia, 31 anos, publicitária, mãe de
André, 13, e Caio, 01.
Qual é combinado com o seu filho sobre o uso do
computador, iPad e jogos eletrônicos?
“As crianças de hoje parecem que nascem com um chip
para se conectar à tecnologia. Do exagero, eu não gosto,
tento levá-los sempre para o equilíbrio. Por isso, digo que
sou um incentivador mas também um controlador. Deixo
eles se divertirem no computador ou com jogos
eletrônicos mas se percebo que estão lá há horas, peço
para desligarem e os levo para fazer um esporte, ficar ao
ar livre. [...] ”. Paulo Zulu, pai de Patrick, 08 anos, e
Derek, 07.
“Tento usar o bom senso e ter uma postura aberta porque
a presença da tecnologia se tornou inevitável no nosso dia
a dia. Não temos mais um ou dois aparelhos conectados à
internet, mas vários: iPads, computador, brinquedos, até o
123
celular. A geração de crianças nascidas após o início desse
milênio, como é o caso da minha filha, usa os meios
digitais com muita criatividade e para vários fins que não
só a diversão. Outro dia mesmo, fiz uma videoconferência
com ela, eu no trabalho e ela em casa, para ajudá-la com
uma lição, algo que pouco tempo atrás pareceria coisa de
ficção científica. [...]” Saulo ribas, pai de Maria Luiza, 10
anos.
19
Crescer Ago/2011
Anúncio
Publicitário
marca Citroën
Imagem de um carro
da da marca Citroën e 06
cenas de crianças
sorrindo e brincando.
Novo Citroën C3 Picasso. Pronto para acompanhá-la em Consumo
todos os seus papéis femininos. Ser mãe, profissional,
esposa e cidadã significa ter o dia corrido, repleto de
tarefas. O seu carro tem que ser tão flexível e dinâmico
como a sua rotina, garantindo segurança e conforto em
qualquer situação. O novo Citroën C3 Picasso é assim.
Fazer muitas coisas ao mesmo tempo não é fácil, porém, é
uma condição inevitável para quem tem filhos. [...]
Mais segurança com as crianças. Seus filhos estão no
banco de trás, mas nem por isso você precisará se virar
para vê-los. É só bater os olhos no espelho de vigilância,
que fica junto ao retrovisor interno, para saber o que os
pequenos estão fazendo. E provavelmente estarão se
divertindo, principalmente se estiverem usando as
mesinhas traseiras – iguais as que existem em aviões -, um
bom apoio para atividades infantis. Elas são ergonômicas
e retráteis. Mas se a sua preocupação é quanto à
segurança, saiba que esse item é prioritário no novo
Citroën C3 Picasso. Há travas elétricas para as portas e
janelas traseiras, impedindo que sejam abertas sem a sua
permissão, air bags frontais e laterais para os bancos
dianteiros do carro, e freios supereficientes, reforçados
pelo sistema ABS para situações de emergência. Se a sua
ideia é viajar com as crianças, não precisa economizar na
bagagem. O novo Citroën C3 Picasso possui amplo porta-
124
malas, com 403 litros ou 1500 litros se você puder
rebaixar os bancos.
20
Crescer Ago/2011
Teste de múltiplas Imagens de crianças Você sabe o quanto a sua família é verde?
Consumo
escolhas
separando papéis e
Tornar a nossa vida mais sustentável é um desafio diário.
garrafas plásticas.
Difícil até saber se o que estamos fazendo é suficiente.
Imagine-se nas situações a seguir e veja dicas de como
melhorar sempre. [...]
21
Crescer
2011
Matéria
Nov/
Imagens das crianças O céu não é o limite
com a fundadora do
Apaixonada por cosmologia, a jornalista Tamara Leftel
projeto.
criou o Clubinho da Criança Inteligente, que leva uma
turma do Morro Santa Marta, no Rio, para ter aulas de
astronomia no planetário da cidade. [...]
Infância
“diferente”
As atividades do Clubinho variam entre aulas de
astronomia, ecologia, contação de histórias, filmes nas
cúpulas do planetário. [...] “Quando eles [as crianças]
chegam aqui, se impressionam, entram num mundo novo
e gostam muito. Essa é a melhor maneira de atrairmos as
crianças para coisas maiores, Nosso objetivo é mostrar
que elas são cidadãs como qualquer outra pessoa e que
podem e devem frequentar espaços culturais, museus e
tudo o mais que a cidade oferecer de conteúdo”, explica a
fundadora [...].
22
Crescer Nov/2011
Matéria
Ilustrações de crianças
Dez inspirações para entender que a autoestima muda
tudo
A autoestima é fundamental para conseguir qualquer coisa
na vida. Afina, ela dá estrutura para nossa existência.
Quem se gosta e se aceita do jeito que é – com qualidades
e defeitos – tem mais chances de ser feliz. E auxiliar um
filho a elaborar o amor próprio e a autoconfiança, desde o
berço, é a maior demonstração de afeto que os pais podem
Manual para
os pais
125
(e devem) dar. [..] Veja, a seguir, sugestões de pais e
outros experts sobre como incentivar a autoestima do seu
filho. [...]
23
Crescer Dez/2011
Matéria
24
Crescer Dez/2011
Matéria
Manual para
os pais
Imagens de crianças Esse ano seu filho vai...
sozinhas e interagindo
...dar os primeiros passos, falar “mamãe” e “papai”, ler
com suas mães.
um livro, comer a primeira papinha, amarrar os sapatos.
Mas qual é a idade certa para cada uma dessas coisas
acontecerem? Será que ele está atrasado? O que fazer para
ajudá-lo? Calma. Você sabe que tudo tem seu tempo, mas
que também é importante estimular seu filho a superar os
desafios do crescimento. Dá um friozinho na barriga
pensar nessa responsabilidade, a gente sabe. Por isso,
CRESCER conversou com especialistas sobre 15 desafios
do desenvolvimento e como lidar com cada um deles.
Preparado para a próxima conquista? [...]
Criança também decide
Eu quero! Essa deve ser uma das frases que você mais
ouve quando vai às compras com seu filho. Pois saiba que
as crianças influenciam – e muito – as decisões de compra
dos pais. Uma pesquisa realizada pelo canal de TV a cabo
Nickelodeon revelou que 51% dos pais ouvem a opinião
dos filhos antes de escolherem automóveis, celulares,
roupas, computadores, itens de beleza e alimentação.
Foram ouvidas 15.600 pessoas, entre crianças de 09 a 14
anos em 11 países, incluindo o Brasil. A pesquisa também
revelou que 79% dos pais entrevistados se sentem mais
próximos dos filhos do que seus pais eram deles, o que
talvez explique essa maior colaboração. Mas, cuidado
para não exagerar. “É muito importante que as crianças
participem das decisões que têm a ver com o seu universo,
com as roupas que ela mesma vai usar. Mas os assuntos
de adulto devem ser mantidos entre os pais”, explica a
Consumo
126
psicóloga Patricia Spada (SP).
25
Veja – edição Matéria 2236 – ano 44 –
Guia Veja
nº39 – 28 de
setembro de 2011
Matrícula na hora certa
A preocupação exagerada dos pais com o futuro dos filhos
pode transformar a rotina de muitas crianças em uma
roda-viva: da escola para a natação, de lá para a aula de
violão, que quase emenda com a de espanhol – e, de volta
em casa, a criança ainda tem de estudar para a prova de
matemática do dia seguinte.
Na medida certa, atividades extracurriculares só trazem
benefícios. O problema está no estímulo precoce, que
acontece quando a atividade não corresponde às
capacidades físicas e intelectuais da criança, e, claro, na
exigência excessiva, que converte em compromisso o que
deveria ser recreação. O resultado não poderia ser outro: o
stress. “Nessa fase, ele ainda é ainda mais prejudicial à
saúde. O stress na infância pode reduzir a capacidade de
conexão entre os neurônios, afetando o desenvolvimento
neurológico da criança”, explica o pediatra Saul Cypel, da
Sociedade Brasileira de Pediatra. [...]
Intercâmbio para os pequenos.
Antes restritos a adolescentes, os programas de
intercâmbio no exterior já podem ser feitos por crianças a
partir de 08 anos, sempre durante as férias escolares e com
o acompanhamento de monitores. Abaixo, as principais
opções para embarque em janeiro:
Suíça: A partir de 08 anos [...]
França e Inglaterra: A partir de 09 anos [...]
26
Veja – edição Matéria 2243 – ano 44 Guia Veja
nº46 – 16 de
O bê-á-bá das finanças
Ao primeiro sinal de que não terão um pedido atendido, é
comum as crianças dispararem frases do tipo “Não tem
Consumo
127
novembro
2011
dinheiro? Então passa o cartão!”. Apesar de engraçada, a
situação é um ótimo ensejo para que os pais prestem mais
atenção à forma como os filhos lidam com dinheiro.
de
“Elas só passam a ter noções matemáticas a partir dos 05
anos, mas, quando chegam a essa idade com limites,
disciplina e valores, tudo fica mais fácil”, diz a
psicopedagoga Adriana Fóz. Tal é a importância da
educação financeira que o assunto começa a ser discutido
nas salas de aula. Desde agosto, cerca de 890 escolas
públicas passaram a integrar um projeto-piloto que ensina
jovens a administrar o dinheiro de maneira inteligente.
Mas cabe aos pais apresentar a criançada ao universo das
finanças. “Uma forma natural de fazer isso é pedindo a
elas que entreguem o dinheiro ao vendedor e recebam o
troco”, diz o economista Gustavo Cerbasi [...].
27
Veja – edição Matéria –
2247 – ano 44 - nº
Guia Veja
50 – 14 de
dezembro de 2011
Imagens de crianças
sorrindo e
desempenhando
algumas das atividades
descritas na matéria.
Férias divertidas
Para as crianças, elas são curtas demais. Para os pais, que
se desdobram a fim de que as férias escolares não sejam
ociosas, as semanas demoram a passar.
Chega aquele momento em que os pequenos já ficaram
alguns dias na casa dos avós, curtiram uma temporada na
praia, foram ao zoológico, ao cinema e, ainda assim, têm
energia de sobra para aproveitar o tempo que resta. Mas
existem diversos cursos e oficinas para entreter e divertir a
criançada – com a vantagem adicional de que, na maioria
deles, os pais não precisam estar presentes, e podem assim
aproveitar para recuperar o fôlego. Entre as opções, há
aulas de culinária, circo, costura, artes e esportes. “Como
a criança já passa o ano inteiro cumprindo obrigações,
como ir à escola e ao inglês, é importante que ela participe
da escolha da atividade para que seja prazerosa. Aos pais,
cabe verificar a infraestrutura do local”, diz a
psicopedagoga. [...]
Consumo
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Material
televisivo
Globo
27/10/2011
–
Material
jornalístico – AL
TV
Alunos participam do projeto AL TV na sala de aula.
Saber
Cça1: Você sabia que o Brasil produz uma montanha de
240 mil toneladas de lixo por dia?
R: Informações como essa foram pesquisadas pelos alunos
desta escola no bairro do Farol. Desde o início do ano, os
pequenos estudaram o meio ambiente. O trabalho que faz
parte do projeto AL TV na Sala de Aula resultou em um
jogral de conscientização.
Cça2: Se a gente jogar lixo nas águas vai também poluir o
ar, e a gente vai ficar com pouca água, tem que fechar a
torneira quando a gente for escovar os dentes, quando a
gente for tomar banho, não pode ficar de brincadeira.
R: O que é um Eco Cidadão?
Cça3: É alguém em sua vida cotidiana que se preocupa
em não jogar fora mais do que a natureza precisa
absorver.
R: E a aprendizagem não fica na sala de aula, apesar da
pouca idade, essa turminha pode fazer muita diferença.
R: Muitos aprendem aqui na escola e puxam a orelha dos
pais em casa?
Professora: Com certeza! Eles passam para a gente isso:
“Tia, olha, eu passei com painho e ele ia jogar isso fora”,
“Não, pai, não joga, que você vai sujar a rua, isso vai
entupir os bueiros.” Eles vão levando essas informações
para os pais, para os avós, para os coleguinhas, para os
vizinhos.
R: As lições não param por ai, essa turma apresentou uma
paródia com direito a coreografia. A música mostra a
importância que tem preservar a natureza.
R: Como é que se deve cuidar da natureza?
Cça4: Não jogando lixo no chão, jogando a lata no lixo,
não poluindo o ar, não poluindo a água.
Professora: Pouco que eles façam seja em casa, em um
ambiente que eles frequentam no final de semana,
reciclagem, tudo isso, eles podem contribuir, eles podem
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Jornal da Record Mídia televisiva – 20/12/2011
Jornalístico
ser Eco Cidadãos.
R: Os alunos se envolveram tanto com o tema que
parecem especialistas ao falar do assunto.
Cça5: São as árvores que ajudam a gente a viver, elas
produzem ar. Se a gente ajudar as árvores, elas
contribuem com a gente de novo.
Cuidado com a aparência vira necessidade desde cedo
Consumo
R1: O cuidado com a aparência pode começar bem cedo,
nos primeiros anos da infância. [..]
R2: Gente em miniatura que precisa até de um banquinho
para alcançar o tamanho da vaidade. Nos salões
especializados em atender os desejos infantis, tudo é feito
para eles. Luana, de 04 anos, tem horário marcado pelo
menos 02 vezes por semana, não abre mão dos penteados.
L: Tipo trança, umas trancinhas pequenininhas, tem que
colocar um monte de coisa.
R2: Que tipo de coisa?
L: Brilho, coraçãozinho, estrela.
[...]
R2: Um dia a clientela de Alexandre foi feita só de
adultos, mas logo ele percebeu que as crianças que
acompanhavam os pais eram fregueses mais interessantes
e lucrativos.
A: Não é uma tarefa tão simples quanto parece. Existem
vários cuidados com material, a tesoura...”
R2: Gente treinada para enfeitar a infância, mas que
precisa frear os exageros dos adultos.
A: Um exemplo é a escova progressiva, que, por incrível
que pareça, é muito pedida para criança.
R: As mães chegam pedindo?
A: As mães chegam pedindo, e é um serviço que não faço
por valor algum.
R2: O que parece uma brincadeira já colocou o Brasil em
2º lugar no ranking da vaidade infantil. Desde bem cedo, a
Camila demonstra afinidade com o espelho. Seguindo o
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exemplo da mãe, não sai de casa sem filtro solar,
hidratante e uma bolsinha básica de maquiagem. Vaidade
demais para gente tão pequena? Isso é que você ainda não
viu nada. Essa é uma casa de trigêmeas, de vaidade em
dose tripla, um ritual de beleza de fazer inveja a muito
adulto. [...] Hoje é dia de hidratar o cabelo, fazer escova
ou cachinhos de boneca. Um pouco de cor nas unhas e
estão prontas para nenhuma ocasião especial, só para
ficar, como se isso fosse possível, ainda mais charmosas.
E para um passeio na fazenda, como será que elas vão?
De roupa velha, surrada? Nada disso!
Mãe: Elas gostam de estar sempre bem vestidas,
combinando a calça com a blusinha.
R2: Estilo mesmo no campo, para balançar
despreocupadas, subir nas árvores. Elas se divertem?
M: A roupa é um casual que não vai comprometer o
desenvolvimento, subir no cavalo, para andar mesmo, é
uma roupa confortável.
R2: É uma fase da vida onde a vaidade se mistura com a
fantasia, dia comum com figurino especial. E ai, fica até
difícil separar a princesa da menina, quem é boneca e
quem é gente.
