Samuel Conselheiro Germano do Nascimento - BIXA PRETA E A DESOBEDIÊNCIA ENRAIVADA NO USO DA REDISTRIBUIÇÃO DA VIOLÊNCIA.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
SAMUEL CONSELHEIRO GERMANO DO NASCIMENTO
BIXA PRETA E A DESOBEDIÊNCIA ENRAIVADA NO USO DA
REDISTRIBUIÇÃO DA VIOLÊNCIA
MACEIÓ
2026
AL
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SAMUEL CONSELHEIRO GERMANO DO NASCIMENTO
BIXA PRETA E A DESOBEDIÊNCIA ENRAIVADA NO USO DA
REDISTRIBUIÇÃO DA VIOLÊNCIA
Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Psicologia da Universidade
Federal de Alagoas como requisito para a
obtenção do título de mestre em psicologia.
Orientador:
Mesquita
Maceió
2026
Prof.
Dr.
Marcos
Ribeiro
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Catalogação na Fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecário: Marcelino de Carvalho Freitas Neto
N244b
CRB-4
1767
Nascimento, Samuel Conselheiro Germano do.
Bixa preta e a desobediência enraivada no uso da redistribuição da violência /
Samuel Conselheiro Germano do Nascimento. 2026.
152 f. : il.
Orientador: Marcos Ribeiro Mesquita.
Dissertação (Mestrado em Psicologia) Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Psicologia. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Maceió, 2026.
Bibliografia: f. 128-135.
Anexos: f. 137-152
1. Homossexuais negros. 2. Redistribuição da violência. 3.
Interseccionalidade. 4. Decolonialidade. 5. Epistemologias dissidentes. I.
Título.
CDU: 159.922.1
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TERMO DE APROVAÇÃO
SAMUEL CONSELHEIRO GERMANO DO NASCIMENTO
Título do Trabalho: BIXA PRETA E A DESOBEDIÊNCIA ENRAIVADA
NO USO DA REDISTRIBUIÇÃO DA VIOLÊNCIA.
Dissertação aprovada como requisito para obtenção do grau de
Mestre em Psicologia, pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas, pela seguinte banca examinadora:
Orientador:
Prof. Dr. Marcos Ribeiro Mesquita (PPGP/UFAL)
Examinadores:
Profa. Dra. Alexandra Cleopatre Tsallis, PPG-Psicologia Social/UERJ
Prof. Dr. Antônio Vladimir Félix da Silva, PPGPSI/UFDPar
Prof. Dr. Antônio César de Holanda Santos (PPGP/UFAL)
Maceió-AL, 27 de maio de 2026.
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aquilo com que nunca sonhamos, mas o que os nossos ancestrais
plano para além desse plano espiritual, uma produção em ação.
Portanto, e nesse tanto, é que dedico essa escrita a nós, bixas
pretas que seguimos ousando. Para aquelas que não tombaram e
para as que, mesmo tombadas, seguem se reerguendo. Para
lembrarmos de seguir insistindo em sonhar, em inventar e
reivindicar um mundo bixa preta possível.
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AGRADECIMENTOS
Abençoado seja o corpo, nascido celestial, lindo em matéria negra.
Preta é a cor da pele do meu verdadeiro amor.
Cachos e cabelos, capturando centenas de orações, espalhadas pela fumaça.
Você é bem-vindo em seu retorno a ti mesmo.
Que preto seja sinônimo de glória!
Beyoncé (2020)
Estranho, mas ainda que seja a mesma universidade, praticamente o mesmo corpo
docente, algumas mesmas pessoas, a porta do instituto é a mesma... porém, as entradas são
diferentes. A dinâmica da vida empurra empecilhos que não existiam antes. As horas parecem
valer, e cada centavo perdido é um acréscimo numa espiral que resulta em travas na escrita,
imperiosa que me empurra para uma existência que insiste em me chamar de indivíduo, de
pessoa completamente responsável pelo que construo e, com isso, insere nesse processo uma
carga inexplicável. Eu sinto como toneladas o peso de cada palavra estranha; eu me frustro a
cada parágrafo que parece sem sentido; sofro a cada elaboração teórica que parece ter saído de
a concluir o ensino superior e a ingressar na pós-graduação. É necessário se agarrar em algo
para não sucumbir, para não tombar durante o caminho, para manter a lembrança do retorno a
si mesmo. E eu não tive algo, eu tive alguéns.
Gostaria de agradecer inicialmente às figuras negras e dissidentes que, mesmo sem
saber, através de seus trabalhos conduziram e foram dando o tom para esse que um dia era só
um anteprojeto. Com Rico Dalasam aprendi a colocar as palavras em ciranda, a tomar o corpo
como registro e espaço de produção. Com Linn da Quebrada nomeei algo com que caminhava
ao lado, mas que ainda não havia reconhecido como parte de mim. Com Grada Kilomba e Stuart
Hall comecei a dar os primeiros passos, que foram essenciais em me oferecer pontos de
segurança quando achava que estava desviando do caminho. Através de Sarah Ahmed, bell
hooks e Lorde invado um campo desconhecido, mas na segurança de que estava com a equipe
certa para ocupar. Acionando Lucas Veiga, encontro uma bixa preta inventando novos sentidos,
propondo novas tonalidades para o que parecia já posto. Em Paco Vidarte me deparo com um
vasto campo do inesperado, mas que gruda em mim e que se torna um livro sagrado de
encontros e reencontros. Além desses medalhões, agradeço a ousadia de Megg Rayara em
propor uma pesquisa desobediente em um momento em que a ousadia era ainda mais
perseguida.
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Agradeço à Jota Mombaça, que, ao propor um conceito, oferecia também um futuro
espaço para os meus encontros. Especialmente agradeço a dois pesquisadores, duas bixas
pretas, que foram como faróis, mesmo quando o caminho estava nebuloso. Quando tudo parecia
ainda muito abstrato, foi no encontro com a escrita de Alexandre Matheus Ribeiro Junior que
comecei a dar as primeiras tonalidades à escrita, a diferenciar conceitos e, principalmente, a
conhecer figuras que dizem respeito à minha ancestralidade, como João Francisco, a Madame
Satã. Com Micael Oliveira Marques fui convidado constantemente a ser inventivo e disruptivo.
Micael me relembrou da proposta de ousadia que sempre existiu por aqui, mas que, por vezes,
na pressa em cumprir etapas, se silenciava. A estas e estes, o meu muito obrigado!
Gostaria de agradecer à CAPES, por financiar uma pesquisa que se propõe
desobediente. Por permitir que a ousadia seja remunerada, porque é disso que a ciência precisa:
de quem ouse propor mobilizar novas conexões. Aproveitando, agradeço ao Instituto de
Psicologia. Esse agradecimento estava guardado em algum lugar entre 2021 e 2026, mas ele
sempre esteve aqui. Sou grato por ter encontrado um espaço que, com muita frequência, foi
generoso comigo. De quem viu um vendedor de pastel, um jovem cujo maior objetivo era ter
dinheiro para manter roupas novas em dia e que, ainda assim, ofereceu espaço para respirar,
para colocar a cabeça fora do chão e me levou para as nuvens, me ajudando a sonhar que um
dia eu poderia correr atrás de uma titulação como a de mestre. Agradeço especialmente a dois
espaços que, sem eles, não teria tido subsídios para me tornar o pesquisador que almejo: o
Programa de Educação Tutorial do Curso de Psicologia PET Psicologia UFAL, que pegou na
minha mão, me ensinou a submeter os primeiros resumos, a escrever, a pensar a pesquisa, bem
como também gostaria de agradecer ao Núcleo de Estudos em Diversidades e Política
EDIS.
Foi o EDIS, e especialmente as pessoas que constroem esse espaço, que me ofereceram as
primeiras lentes de aumento sobre o mundo, quem me letrou e segue sendo letramento e
acolhimento a cada nova sexta-feira de risadas, debates e cafezinhos.
Gostaria de agradecer às amigas e aos amigos que já estavam por aqui. Meu mais sincero
teria acreditado que essa pesquisa seria possível. Foram vocês que incentivaram, sonharam,
viveram cada etapa de aprovação e vibraram junto quando assim foi consumada. Vocês sempre
ouviram meus desabafos, os percalços de uma pesquisa e nunca deixaram de questionar como
as coisas estavam caminhando. Muito obrigado! Agradeço à Mirella, a quem tenho a sorte de
ter encontrado nesse caminho da vida. Ela sorriu toda vez em que eu falei que iria largar tudo e
que, ainda com suas reticências, sempre me incentivou a seguir. Ao Davisson, que sempre me
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aguentou falando sobre o mestrado, ainda que não faça ideia do que tudo isso seja. Estendo
também os agradecimentos às/aos amigas/os que chegaram nesse percurso.
Agradeço a toda a positividade de Jhon, afirmando que daria bom quando nada parecia
eu falava alguma atrocidade e desacreditava da pesquisa. Ao estímulo constante para seguir,
vindo de Giseli, e especialmente a quem estava no outro polo da pesquisa, a quem estava
pesquisando sobre outra emoção e que, ao invés de se tornar minha antítese, tornou-se minha
síntese. A quem me lembrou que a vida presta, que estabeleceu que só quem se arrisca merece
viver o extraordinário, muito obrigado, Raissa. Você sabe que é um dos principais expoentes
para que eu chegue nesse momento desse trabalho e possa sustentá-lo.
Queria agradecer às minhas eternas companheiras, a quem me embalou a cada linha
nova escrita. Um especial agradecimento às músicas de Beyoncé e ao R&B; sem vocês, esse
percurso teria sido bem mais árduo. Aos sujeitos da pesquisa, que, sem eles, nada disso teria
sentido. Muito obrigado à Choco, Estrela, Flora, Manoel, Fênix e Green. Obrigado pela
gentileza de partilharem suas vidas comigo e, consequentemente, com outras/os. Agradeço pela
completa humildade em estar disponíveis, por acreditarem na pesquisa e por tomá-la enquanto
espaço possível.
Agradeço aos meus irmãos, Emmanuel e Hévila, especialmente pela paciência em saber
que os fins de semana em que estive ausente tinham seu propósito. Obrigado por serem meu
alicerce. À minha mãe, responsável por todo esse efeito borboleta. Foi a bravura em conseguir
meu histórico no último dia de pré-matrícula, de rodar a cidade de Maceió comigo, que me fez
estar agora escrevendo cada linha dessa. Quem se revolta achando que já estudei demais, mas
que eu sei que não se arrepende nem um pouco de ter feito o que fez e que, se conseguisse, faria
novamente.
Ao meu pai, que sempre acreditou na educação como um caminho possível e fez, através
do sonho dele, com que eu pudesse sonhar o meu. Gostaria de agradecer à equipe do CAPS
Casa Verde, especialmente Ana Márcia, Claudete, Paula, Grazi e Gerson. Quando a vida parecia
uma casa escura, sem muito brilho, vocês vieram e literalmente abriram a janela, deixando a
luz entrar. Foi o cuidado da minha mãe, estendido ao suporte para mim, meu irmão e minha
irmã, que me fez arregaçar as mangas e voltar ao caminho. E, falando em cuidado, quero
agradecer aos meus psis, Flávio e Adriana. Este primeiro, que me ajudou a nomear o que sequer
sabia organizar, que foi sustentação por anos, que ouviu cada planejamento quando ainda eram
apenas vozes da minha cabeça e ofereceu espaço. Onde estiver, sei que parte disso aqui tem sua
responsabilidade. À Adriana, por me ouvir por horas sobre a busca de um sentido nisso tudo,
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pelas provocações certeiras e questionamentos sem nunca, em nenhum milímetro sequer das
diversas horas em sessão, me repreender por sonhar e destacar quando reencontrei e construí
novos sonhos.
Ao professor Antônio pela gentileza em ler meu trabalho, realizar sugestões e desejar
verdadeiramente que eu pudesse enriquecer cada nova linha escrita. Ao professor Vladimir pela
sensibilidade, pelas valiosíssimas considerações e, principalmente, pelo texto cheio de afeto e
que me faz saber que tenho apostado em um bom caminho. Gostaria de agradecer ao meu eterno
orientador. Olha, Marquinhos, muito obrigado por me deixar voar, mas me informar cada vez
que o salto pudesse me prejudicar. Pelo olhar atento e atencioso a cada nova construção, pelos
retornos cuidadosos, pelas noites a fio, por encontrar alguma organização naquilo que, para
mim, parecia ser só um amontoado de dúvidas. Muito obrigado por não ter desistido de mim,
nem na graduação, nem na pós. Sou extremamente feliz em te ter como parceiro nessa pesquisa,
e sei que só haverá possibilidade de chamar Samuel Conselheiro de mestre porque houve um
ser humano cuidadoso, carinhoso, engraçado, responsável, profissional e completamente gentil
segurando algumas pontas, mas sabendo também quando soltá-las.
Por fim, gostaria de agradecer e saudar a ancestralidade. Pelo abraço caloroso e cheio
de espiritualidade que recebi de Oxum, eu sei, sou um péssimo filho, digo sempre. Mas sei que
é uma mãe gentil; eu sinto a cada nova etapa em que sinto sua presença. Agradeço à minha avó
Nailza, pessoa que apostou fielmente em mim, que investiu para ver o neto psicólogo e que
pode sorrir de onde estiver sabendo que ele não só graduou, como mestrou. Agradeço à ousadia
de Madame Satã, à beleza e altivez de Vera Verão e a toda a alegria de Lacraia; vocês seguem
sendo a abertura do caminho para que bixas como eu continuem ousando, acreditando que é
possível.
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Vladimir Félix
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O que pode a pergunta: quem não somos nós?
Tomo a metáfora da escrita como espelho, não para responder a
pergunta, mas par ampliar suas ressonâncias.
Considerando essa metáfora, somos corpos-livros escritos há
muitas mãos. Nos atribuem títulos e subtítulos, Epígrafe,
Cabeçalho, Notas de rodapé, Prefácio e posfácio. Todo um
conteúdo programático. Tudo sobre nós sem nós.
Sob à pele, matéria-prima de nosso corpo-livro, registram préinscrições e inscrições médicas. Escrituras, psiquiatricamente,
sagradas.
Somos lidos às cegas, a olhos nus, antes de aprendermos a ler
quem não somos. Antes de sabermos escrever quem,
possivelmente, somos. Antes das possibilidades de nos
desdobrarmos a pele em uma multiplicidade de outras e devires.
Ao rasgarmos algumas páginas do livro-corpo e ao dobrarmos
outras, nos desdobramos em quantos somos e em tantas mais
podemos ser.
Nós só queremos existir e coexistir...
Nesse campo minado e nessa areia movediça, pisamos firmes na
Terra para que o axé de nosso Orí nos dê chão e sustentação.
Como somos todas, todos e todes filhas, filhos e filhes das mães
das águas da vida, nadamos contra a corrente da ideologia antigênero.
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Lutamos contra o feminismo radical trans-excludente.
Convergimos com a epistemologia disfórica (Paul Preciado) e
com todas as epistemologias que corraboram com a
descolonização do inconsciente.
Apostamos em Psicologias transfeministas que reconhecem as
mulheridades e as transmaculinidades e outras transgeneridades.
Inventamos Pedagogias transgressoras: Pedagogia da dúvida,
Pedagogia da pergunta, Pedagogia da indignação...
Dúvida, pergunta e indignação não foram palavras deixadas entre
aspas na memória da pele de nosso corpo-livro.
Dúvida, pergunta e indignação são palavras que,
independentemente de sua genealogia e de sua tradução, fazem
parte não só da nossa resistência, mas também da nossa
coexistência e das reticências contra coloniais.
Os invasores e violadores do nosso corpo-floresta-livro não
esqueceram de apagar as reticências. Simplesmente, as reticências
não fazem parte da gramática epistemicida, ecocida, etnocida e
genocida de seus empreendimentos.
A partir da nossa poética do corpo e da voz, atribuímos sentidos
semânticos as palavras resistência, existência e coexistência que
não são encontrados na língua imposta pelo sistema modernocolonial de gênero e sua ideologia da branquitude.
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Há dúvidas e há reticências em torno da pergunta: O que pode o
corpo-livro ao devir bixa preta?
À pergunta, não queremos respostas objetivas, optamos por
confabulações, assim podemos continuar fazendo a pergunta e
escutando as ressonâncias da própria pergunta nas reticências...
Não queremos cariótipo, escalas de validação, Testes de
personalidade, Avaliações psicológicas, Diagnósticos
psiquiátricos
Não aceitamos e não nos submetemos com dignidade à
subalternização, tampouco aos saberes das ciências psi que dizem
que nos infantilizamos quando, sendo supostamente lido como
homem, nos comportamos como mulherzinha.
Não negamos a infância que há em todo e cada processo de deviroutro/outra.
Ao devir-criança, podemos devir carta, cor, arco-íris do desejo.
Assim, nos conectamos com nossa historicidade e com a
retomada de nossa temporalidade ancestral. Tempo das sensações,
intuições e intenções. Tempo de Olojó1 , orixá do tempo e
divindade dos ciclos das transformações e mudanças.
Inventamos tempo para jogar conversa fora e para borrar as
páginas do livro-corpo-normativo.
Confabulamos pertencimentos e realizamos microinsurgências e
pequenas revoluções.
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Encontramo-nos com o tempo subjetivo de rabiscar um esboço de
si mesmo e de si mesma. Tempo de escrever e relatar a si mesmo
e a si mesma. Assim podemos desequilibrar a balança do livrocorpo-mundo-norma. Criamos nosso próprio tempo de reconhecer
que a ruptura com a escrita-corpo-outro-mundo-possível é o
começo do equilíbrio de cada brincante e trapezista que escuta sua
vida.
Evocar outros e outras bixas pretas que vieram antes de nós.
Outros e outras que são crias destes tempos para que possamos
compor a cartografia ancestral de nosso corpo-território.
-se um corpo
sexuado ou assexuado, generificado ou não.
1Olojó
Olójó, contração de ol (senhor) e ójó (dia, tempo), é o Senhor do Dia, o Senhor
do Tempo. Partilha este nome com Ogum e, como ele, favorece os seres
humanos no plano das ações. Olójó é o orixá do tempo e das mudanças de
ciclo: por isso mesmo, encontra-se relacionado a Orì, o orixá do destino. É
evocado para permitir que rituais sejam realizados e para converter uma época
adversa em uma época promissora: pode ser evocado, enfim, quando se
deseja que as ações realizadas em um dia sejam bem-sucedidas. Enquanto
algumas questões envolvem sobrevivência, as conquistas são pressupostos da
maturidade e ninguém vence na vida por acaso: o culto a Olójó permite manter
oportunidades, colocar graça nos feitos do indivíduo e prolongar os ciclos
positivos de sua trajetória existencial.
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RESUMO
Esta pesquisa nasce de um corpo implicado, atravessado e em movimento. Um corpo bixa preta
que, ao escrever, não apenas observa, mas também é afetado, tensionado e convocado a
responder. O que move essa escrita é a tentativa de compreender como nós, bixas pretas,
colocadas historicamente como alvo das violências produzidas pela branquitude e pela
cisheteronorma, seguimos existindo. Mais do que isso: como, mesmo nesse cenário,
mobilizamos estratégias para redistribuir essas violências e produzir possibilidades de vida. A
a; um gesto
de ruptura com as normativas que tentam nos nomear antes mesmo de nos reconhecermos.
Construída a partir de uma perspectiva qualitativa, esta pesquisa se organiza como um fazer
corporificado, em que o encontro com outras bixas pretas não é apenas método, mas condição
de existência do próprio trabalho. Através de conversações afroafetivas, produções imagéticas
e partilha de narrativas, foram tecidas experiências que aqui se apresentam como corposdocumento. A interseccionalidade não aparece apenas como conceito, mas como ferramenta de
leitura e de análise, permitindo compreender como raça, gênero e sexualidade se entrelaçam na
produção dessas vivências. O caminho metodológico, portanto, não busca distanciamento, mas
aproximação, um exercício de escuta, troca e construção coletiva. Ao longo do percurso, tornase evidente que existir enquanto bixa preta exige a invenção contínua de estratégias. As
violências físicas, simbólicas e institucionais não cessam, mas também não encontram corpos
passivos. O que emerge são táticas que vão desde o enfrentamento direto até formas mais sutis
de deslocamento, ressignificação e cuidado. A redistribuição da violência, nesse contexto,
aparece como uma tecnologia de sobrevivência: uma maneira de não apenas absorver os
ataques, mas tensioná-los, devolvê-los, reorganizá-los. A raiva, longe de ser apenas descontrole,
se apresenta como energia organizada, como força que impulsiona movimento, decisão e
permanência. Ao mesmo tempo, o coletivo surge como elemento fundamental, seja na
construção de redes de apoio, seja na partilha de estratégias e na produção de pertencimento.
Dessa forma, sustenta-se que as bixas pretas não apenas resistem, mas inventam modos de
existir que desestabilizam as lógicas que tentam nos apagar. A redistribuição da violência, mais
do que reação, se configura como prática política e ética, abrindo fissuras nos sistemas que
operam para nos silenciar. Ao documentar essas experiências, esta pesquisa não busca encerrar
respostas, mas ampliar possibilidades, socializar estratégias e contribuir para a construção de
outros mundos possíveis; mundos em que existir não seja sinônimo de sobreviver, mas de viver
em plenitude, ainda que em constante disputa.
Palavras-chave: Bixas
pretas,
Redistribuição
Decolonialidade, Epistemologias dissidentes.
da
violência,
Interseccionalidade,
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RESUMEN
Esta investigación nace de un cuerpo implicado, atravesado y en movimiento. Un cuerpo bixa
preta que, al escribir, no solo observa, sino que también es afectado, tensionado y convocado a
responder. Lo que moviliza esta escritura es el intento de comprender cómo nosotrxs, bixas
pretas, históricamente situadxs como blanco de las violencias producidas por la blanquitud y la
cisheteronorma, seguimos existiendo. Más que eso: cómo, incluso en este escenario,
movilizamos estrategias para redistribuir esas violencias y producir posibilidades de vida. La
de ruptura con las normativas que intentan nombrarnos antes incluso de que nos reconozcamos.
Construida desde una perspectiva cualitativa, esta investigación se organiza como un hacer
corporificado, en el que el encuentro con otras bixas pretas no es solo método, sino condición
de existencia del propio trabajo. A través de conversaciones afroafectivas, producciones
imagéticas y el compartir de narrativas, se tejieron experiencias que aquí se presentan como
cuerpos-documento. La interseccionalidad no aparece solo como concepto, sino como
herramienta de lectura y análisis, permitiendo comprender cómo raza, género y sexualidad se
entrelazan en la producción de estas vivencias. El camino metodológico, por lo tanto, no busca
el distanciamiento, sino la aproximación: un ejercicio de escucha, intercambio y construcción
colectiva. A lo largo del recorrido, se hace evidente que existir como bixa preta exige la
invención continua de estrategias. Las violencias físicas, simbólicas e institucionales no cesan,
pero tampoco encuentran cuerpos pasivos. Lo que emerge son tácticas que van desde el
enfrentamiento directo hasta formas más sutiles de desplazamiento, resignificación y cuidado.
La redistribución de la violencia, en este contexto, aparece como una tecnología de
supervivencia: una manera no solo de absorber los ataques, sino de tensionarlos, devolverlos y
reorganizarlos. La rabia, lejos de ser solo descontrol, se presenta como energía organizada,
como fuerza que impulsa movimiento, decisión y permanencia. Al mismo tiempo, lo colectivo
surge como elemento fundamental, ya sea en la construcción de redes de apoyo, en el
intercambio de estrategias o en la producción de pertenencia. De este modo, se sostiene que las
bixas pretas no solo resisten, sino que inventan modos de existir que desestabilizan las lógicas
que intentan borrarnos. La redistribución de la violencia, más que una reacción, se configura
como una práctica política y ética, abriendo fisuras en los sistemas que operan para silenciarnos.
Al documentar estas experiencias, esta investigación no busca cerrar respuestas, sino ampliar
posibilidades, socializar estrategias y contribuir a la construcción de otros mundos posibles;
mundos en los que existir no sea sinónimo de sobrevivir, sino de vivir en plenitud, incluso en
medio de una disputa constante.
Palabras clave: Bixas pretas, Redistribución de la violencia, Interseccionalidad,
Decolonialidad, epistemologías disidentes.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO: UM CORPO BIXA QUE ESCREVE.......................................................... 19
CAPITULO 1: UM PERCURSO NO DISCURSO: A INVENÇÃO DA BIXA PRETA ............ 31
Morte e Vida Eduarda .......................................................................................................... 43
CAPITULO 2: A QUEM SERVE AS EMOÇÕES QUE NÓS SENTIMOS? UM DIÁLOGO
SOBRE AS EMOÇÕES A PARTIR DE SARAH AHMED E A RAIVA EM AUDRE LORDE 48
2.1 Expandindo a problematização: um diálogo sobre a colonialidade do ser ....................... 52
2.2 Viu que bela aberração? A produção do auto-aódio e a lógica odiosa ............................. 55
2.3 Senta e observa a tua destruição: o que a desobediência enraivada no uso da redistribuição
da violência tem a oferecer? ............................................................................................... 57
Como filhas de anansi........................................................................................................ 63
CAPITULO 3: CORPOS EM PRODUÇÃO E DESOBEDIÊNCIA: EPISTEMOLOGIA E
ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS .................................................................................. 67
3.1 Quando ela tá passando, presta muita atenção: apresentação dos participantes e estrutura
do encontro ....................................................................................................................... 79
3.2 Bicha, louca, preta, favelada: a interseccionalidade como metodologia de análise ........... 82
CAPITULO 4: IMPULSIONA O MOVIMENTO ENVAIDECE A VIADAGEM COMO SE
FABRICAM BIXAS PRETAS?............................................................................................. 86
O CLUB DAS BIXAS ...................................................................................................... 103
CAPITULO 5: MINHA ZONA DE CONFORTO, É A SUA ZONA DE PERIGO: A
REDISTRIBUIÇÃO DA VIOLÊNCIA A PARTIR DE BIXAS PRETAS .............................. 104
Manual de sobrevivência bixa preta ................................................................................. 121
CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 124
5. REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 130
ANEXOS............................................................................................................................ 138
ANEXO I Caso Madame Satã.......................................................................................... 139
ANEXO II - Caso de Violência no Bar................................................................................. 142
ANEXO III Formulário de Inscrição ................................................................................... 148
