Éricka Patrícia Santos Feitosa Aquino - "Autoretrato de Crianças em Internação Hospitalar: Considerções para pesquisa sobre o funcionamento psicológico Infantil
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL
INSTITUTO DE PSICOLOGIA – IP
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
ÉRICKA PATRÍCIA SANTOS FEITOSA AQUINO
Autorretrato de Crianças em Internação Hospitalar: Considerações para
Pesquisa sobre o Funcionamento Psicológico Infantil
Maceió
2017
ÉRICKA PATRICIA SANTOS FEITOSA AQUINO
Autorretrato de Crianças em Internação Hospitalar: Considerações para
Pesquisa sobre o Funcionamento Psicológico Infantil
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa
de
Pós-Graduação
em
Psicologia da Universidade Federal de
Alagoas, como requisito parcial para
obtenção do grau de Mestre em
Psicologia.
Orientadora: Prof.ª Drª Nadja Maria Vieira
da Silva.
Maceió
2017
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Bibliotecária Responsável: Janaina Xisto de Barros Lima
F311a
Feitosa, Éricka Patrícia Santos.
Autoretrato de crianças em internação hospitalar : considerações para
pesquisa sobre o funcionamento psicológico infantil / Éricka Patrícia
Santos Feitosa. – 2017.
100f.: il.
Orientadora: Nadja Maria Vieira da Silva.
Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Psicologia. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Maceió,
2017.
Bibliografia: f. 75-78.
Apêndices: f. 79-93.
Anexos: f. 94-100.
1. Psicologia da criança. 2. Criança hospitalizada. 3. Autorretratos.
4. Significação (Psicologia). I.Título.
CDU: 159.922.7
A meu filho João Pedro, que no seu nascimento, me
fez renascer.
RESUMO
Relata-se aqui, uma pesquisa sobre o uso do autorretrato como ferramenta para
investigar os processos de significação de crianças sobre os espaços hospitalares
frequentados durante o período que se encontra em internação. Foi também objetivo
dessa pesquisa realizar uma discussão entre processos de significação e processos
psicológicos, proporcionar uma discussão sobre a necessidade de adequação dos
espaços hospitalares destinados ao público infantil, como também uma discussão
sobre a adequação de metodologias para a pesquisa dos processos psicológicos de
crianças. Para atender esses objetivos, essa pesquisa se fundamentou em
pressupostos das abordagens sócio-históricas na Psicologia. O alinhamento entre
essas abordagens e os objetivos se revela na medida em que nelas apontam-se a
origem social dos processos psicológicos destacando o papel fundamental da
linguagem como mediadora entre o ambiente físico, cultural e histórico e o
organismo humano. Os participantes dessa pesquisa foram sete crianças com
idades entre seis a onze anos internadas no Hospital Universitário Prof. Alberto
Antunes da Universidade Federal de Alagoas (HUPAA-UFAL). Como procedimento
de coleta de dados foram realizadas oficinas de desenhos com narrativas sobre
esses desenhos em três diferentes locais do hospital: Enfermaria, Sala de Brincar e
Recepção. Os dados foram analisados combinando-se técnicas quantitativas e
análise microgenética. A relação entre funcionamento psicológico e significado foi
evidenciada em dois momentos: durante as situações de expansão, que ocorreu nas
narrativas quando as crianças falavam sobre seu desenho e na emergência de
tensão, quando as crianças relacionaram sua imagem real com sua imagem gráfica.
Como conclusão, considera-se que o contingente de informações que as crianças
produziram sobre suas experiências confirmam o potencial do autorretrato para
fomentar processos de significação. Ainda como conclusão, observou-se que no
ambiente da enfermaria as crianças tenderam a uma maior produção de
significados. A análise dessa produção sustenta a interpretação de que esse
ambiente deve ser reorganizado para melhor atender o público infantil.
Palavras-chave: Internação hospitalar; processos de significações; autorretrato;
ABSTRACT
Self-portrait of children in hospital admission: considerations for research on
the psychological functioning of children.
Is reported here a research on the use of self-portrait as a tool to investigate the
meaning production of children about the hospital spaces frequented during the
period that they are hospitalized. Another objective of this research was to carry out a
discussion between meaning processes and psychological processes, to provide a
discussion about the need to adapt hospital spaces destined to children, as well as a
discussion about the adequacy of methodologies for the investigation of the
psychological processes of children. To meet these objectives, this research was
based on assumptions of socio-historical approaches in Psychology. The alignment
between these approaches and the objectives is revealed in that they point to the
social origin of the psychological processes emphasizing the fundamental role of
language as a mediator between the physical, cultural and historical environment and
the human organism. The participants of this research were seven children aged
between six and eleven admitted to the University Hospital Prof. Alberto Antunes of
the Federal University of Alagoas (HUPAA-UFAL). As a data collection procedure,
drawings workshops with narratives about these drawings were carried out in three
different places of the hospital: Infirmary, Play Room and Reception. The data were
analyzed by combining quantitative techniques and microgenetic analysis. The
relationship between psychological functioning and meaning was evidenced in two
situations, which were, the expansion, which happened in the narrative of the child
when it was talk about his drawing and the tension, when the children were taken to
contemplate themselves in the drawing. As a conclusion, it is considered that the set
of information that children have produced about their experiences confirm the
potential for self-portrait to promote the meaning process. Moreover, the
configuration of tensions during self-confrontation, physically and represented in the
drawing, demands a deepening of the properties of the use of this tool in the
research. As another conclusion, it was observed that in the infirmary environment
the children presented a greater production of meanings. The analysis of these
productions supported the interpretation that this environment must be reorganized to
better serve the children's audience.
Keywords: Hospital admission; Meanings processes; Self-portrait
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 – Autorretrato de Albrecht Dürer ................................................................. 17
Figura 2 – Autorretrato de Johannes Gumpp ............................................................ 17
Figura 3 – Autorretrato de Norman Rockwell. ........................................................... 18
Figura 4 – Ana (Recepção) ....................................................................................... 42
Figura 5 – João (Enfermaria)..................................................................................... 43
Figura 6 – Helena (Enfermaria) ................................................................................. 43
Figura 7 – Maria (Sala de Brincar) ............................................................................ 44
Figura 8 – Luiza (Sala de Brincar) ............................................................................. 45
Figura 9 – Letícia (Enfermaria) .................................................................................. 45
Figura 10 – Mariana (Sala de Brincar) ...................................................................... 46
Figura 11 – Letícia (Sala de Brincar) ......................................................................... 46
Figura 12 – Mariana (Enfermaria) ............................................................................. 47
Figura 13 – Ana (Enfermaria) .................................................................................... 47
Figura 14 – Maria (Enfermaria) ................................................................................. 48
Figura 15 – João (Recepção) .................................................................................... 48
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Índices dos desenhos (todos os participantes) ........................................ 53
Gráfico 2 – Índices das narrativas (todos os participantes) ....................................... 55
Gráfico 3 - Expansão (todos os participantes)........................................................... 56
LISTA DE QUADROS
Quadro 1- Constituintes ontológicos das expansões (Ana) ....................................... 60
Quadro 2 - Constituintes ontológicos das expansões (Maria) ................................... 61
Quadro 3 - Constituintes ontológicos das expansões (Helena) ................................. 61
Quadro 4 - Constituintes ontológicos das expansões (João) .................................... 62
Quadro 5 - Constituintes ontológicos das expansões (Mariana) ............................... 62
Quadro 6 - Constituintes ontológicos das expansões (Luiza).................................... 63
Quadro 7 - Constituintes ontológicos das expansões (Letícia).................................. 63
Quadro 8 - Categorias dos aspectos ontológicos ...................................................... 64
Quadro 9 - Episódios de tensão (Ana) ...................................................................... 66
Quadro 10 - Episódios de tensão (Maria) .................................................................. 66
Quadro 11 - Episódios de tensão (Helena) ............................................................... 67
Quadro 12 - Episódios de tensão (Mariana) .............................................................. 67
Quadro 13 - Episódio de tensão (Luiza) .................................................................... 68
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 13
2 O AUTORRETRATO E O DESENVOLVIMENTO SOCIAL HUMANO .................. 16
2.1 O autorretrato na história da arte .................................................................... 16
2.2 Selfs como significações de si mesmo ........................................................... 18
3 O AUTORRETRATO COMO INSTRUMENTO TÉCNICO DE PESQUISA ............ 20
3.1 A interdisciplinaridade no uso do autorretrato como instrumento de
investigação ................................................................................................ 21
3.2 O uso do autorretrato na pesquisa em psicologia ......................................... 22
3.3 Desenho e autorretrato como processo de significação ............................... 25
4 PROCESSOS DE SIGNIFICAÇÃO E FUNCIONAMENTO PSICOLÓGICO ......... 29
4.1 A forma narrativa da linguagem como modo do funcionamento psicológico
...................................................................................................................... 31
5 A CRIANÇA EM SITUAÇÃO DE INTERNAÇÃO HOSPITALAR .......................... 33
6 METODOLOGIA .................................................................................................... 35
6.1 Participantes ...................................................................................................... 36
6.1.1 Caracterização dos participantes ..................................................................... 37
6.2 Local da pesquisa ............................................................................................. 38
6.3 Procedimentos de construção dos desenhos e narrativas ........................... 38
6.4 Procedimentos de análise dos desenhos e das narrativas ........................... 40
6.4.1 Análise quantitativa dos desenhos ................................................................... 41
6.4.2 Análise quantitativa das narrativas ................................................................... 48
7 RESULTADOS ....................................................................................................... 53
7.1 Resultados da análise quantitativa dos desenhos ......................................... 53
7.2 Resultados da análise quantitativa das narrativas ........................................ 54
7.3
Respostas
para
os
pontos
críticos:
Análise
microgenética
das
configurações dos dados .......................................................................... 56
8 DISCUSSÃO .......................................................................................................... 70
9 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 74
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 75
APÊNDICES ............................................................................................................. 79
ANEXOS ................................................................................................................... 94
13
1 INTRODUÇÃO
Nesse estudo foi explorada a utilização do autorretrato como ferramenta para
investigar processos de significação de crianças acerca dos espaços hospitalares
frequentados durante o período de internação.
Autorretrato, como o próprio nome já aponta, é a produção de um retrato da
pessoa feito por ela mesma, podendo ser vista como uma realização artística que
possibilita ao seu autor uma reflexão sobre si, uma tomada de consciência sobre si
mesmo, uma forma de ver-se refletido em sua obra e não em um espelho. Enquanto
produção artística, o autorretrato é conhecido na história da humanidade, desde os
tempos das pinturas nas cavernas e se faz presente até os dias atuais. Essa forma
artística é capaz de remeter seu admirador a outras épocas, pois transmite
transformações que ocorreram ao longo da história. Quem nunca ouviu falar ou até
mesmo já viu autorretratos de pintores famosos como Leonardo Da Vinci, Pablo
Picasso e Vincent Van Gogh e de tantos outros menos conhecidos?
Considera-se que a composição de uma autoimagem tem se revelado capaz
de proporcionar aos seres humanos a formação e expressão de conceitos sobre si
mesmo, apontando dessa forma, a sua natureza social. Nos tempos atuais a prática
de tirar fotos de si mesmo e de grupos em câmeras de celulares e publicar nas redes
sociais virou moda e ganhou a popularidade muito rapidamente. As famosas selfs
viraram mania de pessoas em diferentes países e tem dividido opiniões sobre suas
motivações e benefícios. Há aqueles que dizem ser uma forma de narcisismo; outros
dizem que ajuda na formação de uma identidade visual; outros até apostam nessa
nova mania como uma forma de inclusão social.
Na presente pesquisa, o autorretrato é investigado quanto ao seu potencial
para fomentar o processo de significação de crianças sobre suas experiências
durante internação hospitalar. O público alvo e o local envolvidos nessa investigação
refletiram minhas experiências acadêmicas e início da vida profissional como
Terapeuta Ocupacional. Durante estágios e a primeira experiência profissional me
envolvi com atividades na pediatria de hospitais e me inquietei com o tratamento
dirigido ao público infantil, pois não era diferenciado daquele concedido ao adulto.
Naquela ocasião observei que as ações voltadas para as crianças nos hospitais não
consideram as fases do seu desenvolvimento e não atendiam aos direitos das
14
crianças, diante das dificuldades que elas podem apresentar para se utilizar da
linguagem verbal como meio de expressar seus medos, angústias e necessidades.
Durante minha formação tive a oportunidade de observar que a equipe do
setor de pediatria não utilizava instrumentos lúdicos para explicar procedimentos
dolorosos quando estes eram prescritos para crianças. Nessas situações, esses
profissionais deveriam empregar palavras simples para facilitar a compreensão dos
pacientes infantis, mas não o faziam, empregando palavras complicadas do mundo
médico inclusive para os adultos acompanhantes. Observei também que os
ambientes hospitalares não são preparados para as crianças. A maioria possui
paredes brancas, e equipes com jalecos brancos. Acredito que se esses espaços
tivessem cores alegres e personagens infantis poderiam diminuir a monotonia das
paredes brancas; com jalecos coloridos e envolvidos em atividades infantis estas
equipes poderiam oferecer maior conforto e atenuar as tensões das crianças nessas
ocasiões potencialmente amedrontadoras.
O argumento que se reforça aqui é que o desenho pode ser um aliado da
criança quando ela procura expressar e explorar suas opiniões e pensamentos.
Defendendo a utilização de ações lúdicas, para possibilitar um ambiente mais
confortável e menos estranho, optou-se nesta pesquisa por explorar o potencial do
desenho, mais especificamente do autorretrato como recurso para fomentar e
conhecer os processos de significação das crianças sobre suas experiências no
hospital. Com o enfoque nesses aspectos, investiu-se na adequação de métodos para
investigar o funcionamento psicológico infantil.
Considerando as observações apresentadas, definiu-se como objetivo central
dessa pesquisa analisar do potencial do autorretrato como ferramenta para investigar
os processos de significação de crianças acerca de suas experiências durante
situação de internação hospitalar. Além disso, relaciona-se com esse objetivo
principal, um propósito também relevante, o de fomentar uma reflexão sobre a
necessidade de adequação de espaços nos hospitais para atendimento do público
infantil. Nesse sentido, definiu-se como objetivos secundários: a) discutir sobre a
relação entre processos de significação e processos psicológicos; b) descrever as
experiências psicológicas de crianças relacionadas com caracterização dos
ambientes frequentados por elas durante internação hospitalar; e c) discutir a
adequação de metodologias para a pesquisa dos processos psicológicos de crianças.
15
A presente pesquisa foi realizada no Hospital Universitário Prof. Alberto
Antunes da Universidade Federal de Alagoas (HUPAA – UFAL). Os participantes
foram sete crianças internadas na enfermaria pediátrica, com idades entre seis e onze
anos. O procedimento para a construção dos dados foi a produção de autorretratos
pelas crianças participantes, em três diferentes locais do hospital, com narrativas
relativas à sua produção. Para análise dos autorretratos e das narrativas combinaramse técnicas quantitativas e análise microgenética. A análise microgenética foi definida
aqui como um processo hermenêutico; isto é, produção de sentidos da pesquisadora,
conduzida a partir de um olhar para minúcias para capturar possíveis relações
(lógicas e/ou empíricas) na configuração dos aspectos analisados (autorretratos e nas
narrativas). Com essas características, a análise microgenética foi apresentada na
forma de narrativa escrita (texto) da pesquisadora.
16
2 O AUTORRETRATO E O DESENVOLVIMENTO SOCIAL HUMANO
De acordo com o dicionário de língua portuguesa, autorretrato é “retrato de
um indivíduo feito por ele próprio” (FERREIRA, 2001, p.77). Pessoa (2006) afirma ser
o autorretrato o que seu autor imagina, deseja ou idealiza de si; uma autobiografia
visual, revelando-se um olhar reflexivo voltado para si mesmo.
2.1 O autorretrato na história da arte
De acordo com Pacheco (2012), nos tempos medievais os pintores usavam
sua própria imagem para ressaltar sua individualidade, sendo representada por sua
colocação no meio sagrado, ou para se apresentar como personagem da história ou
da mitologia. No Renascimento, a independência intelectual foi alcançada e os
pintores puderam ser fiéis a sua singularidade. Dessa forma, o autorretrato alcançou a
sua emancipação. Já no Romantismo, o autorretrato foi firmado como algo
introspectivo, sendo visto como uma negação da semelhança, acompanhando, dessa
forma, o movimento do não figurativismo que foi desenvolvido no século XX.
Ainda de acordo com Pacheco (2012), o autorretrato em forma de pintura tem
seu surgimento através de lendas e mitos, começando com a fábula de Dibutades,
onde se atribui a origem mítica do retrato, se misturando com o mito de Platão sobre a
alegoria da caverna e o mito de Narciso. A fábula de Dibutades faz referência à
primeira obra nesse gênero feita em argila. Na lenda, Dibutades é apaixonada por um
homem que iria sair da cidade e faz o contorno do perfil de seu amado na parede
utilizando-se da luz de uma vela. Seu pai, então, aplicou argila nesse desenho, dando
relevo e fazendo endurecer sobre o fogo. Dessa forma surgiu a primeira obra em
argila baseada no rosto de alguém.
A pintura consolidou o gênero de autorretrato no século XV diante do
progresso da indústria de vidro em Veneza e o refinamento da técnica de elaboração
de espelhos, já que essa categoria de pintura não escapa a ideia de espelho. Dentre
os autorretratos mais famosos estão o de Dürer (Figura 1) que no ano de 1500 se
pintou como Cristo, o de Johannes Gumpp em 1646, com seu autorretrato triplo, onde
o pintor apresentou-se de costa para o observador tendo a sua esquerda um espelho
em que se olha e a sua frente à tela em que se pinta, trazendo a ideia de
17
tridimensionalidade (Figura 2), o de Norman Rockwell em 1960, intitulado Triplo
autorretrato, onde além do pintor, aprecem no espelho a águia e o brasão dos
Estados Unidos (Figura 3). Além dessas, são ainda referências europeias de pintores
que confeccionaram autorretratos, as pinturas de Rembrandt, Picasso e Vicent Van
Gogh (TEXEIRA, 2005).
Figura 1 – Autorretrato de
Albrecht Dürer
Fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Albrecht
_D% C3% BCrer
Figura 2 – Autorretrato de
Johannes Gumpp
Fonte:https://fr.wikipedia.org/wiki/Johannes_
Gumpp
18
Figura 3 – Autorretrato de
Norman Rockwell.
Fonte:http://www.nrm.org/2011/07/normanrockwell-museum-in-printmagazine/tripleself_web/?lang=pt
2.2 Selfs como significações de si mesmo
O vocábulo self, oriundo da língua inglesa é um neologismo com origem no
termo self-portrait, que no português corresponde a autorretrato. Essa prática cresce
no mundo, principalmente através da população jovem, justificando a fabricação cada
vez mais acelerada de modelos de celulares potentes com ferramentas atuais para
obtenção de fotografias. Um dos fatores que fazem essa popularização das selfs é o
objetivo de publicação nas redes sociais, o que tem gerado inúmeras discussões
sobre a finalidade do seu uso. Algumas pessoas acreditam que é uma forma de
autopromoção, culto ao ego e autoafirmação. Outros defendem que a exposição da
imagem de si em forma de self não é necessariamente narcisista, nem forma de
dependência, ou um padrão patológico que toma conta da sociedade. Mas trata-se de
uma reflexão e reconhecimento de si mesmo; uma forma do ser humano controlar
como ele é percebido, uma forma de reflexão que torna cada ser humano único
(FAUSING, 2013). No entanto existem pesquisas que alertam sobre a dependência
dos jovens em relação ao uso dessas tecnologias nas redes sociais e prescrevem a
necessidade de controle para exposição da vida pessoal na internet, como por
exemplo, as pesquisas de Braz et al. (2014) e Neves (2012).
19
Referindo-se ao uso dos autorretratos em formato de fotografias publicados
em redes sociais, isto é, as famosas selfs, Braz et al. (2014) afirmou que o uso
dessas imagens se reporta ao Ethos (a imagem que o indivíduo fornece de si
mesmo). Na medida em que as selfs se remetem ao Ethos, elas têm implicações na
composição dos comportamentos e atitudes que se quer passar através dessas
imagens nas redes sociais, onde a visualização por parte de outras pessoas é
enorme. Ainda nesse estudo, Braz defendeu que, para a psicologia, essa publicação
de
selfs em
redes sociais reafirma o
pensamento de Skinner sobre o
Condicionamento Operante e o “reforço positivo”, pois um número maior de “curtidas”
que a self recebe nas redes (o autor fala especificamente do Facebook) é deflagrador
de novas publicações. Diante do reforço positivo, o número de publicações aumenta e
isso justifica a compulsão dessa ação. Ainda de acordo com o estudo realizado por
Braz et al. (2014) uma das possíveis justificativas para obsessão por expor imagens
de si mesmo nas redes sociais é a imitação, visto que o sujeito fica à vontade para
publicar sua imagem quando já confirmou que a do outro teve uma boa aceitação e
esse desejo de se mostrar vem ao visualizar a publicação dos demais, formando um
ciclo sem fim, possibilitando tranquilidade, segurança e conforto sobre a ação, já que
essa ação veio de outras pessoas.
Para os objetivos dessa pesquisa, um aspecto relevante apontado por esses
pesquisadores é a supervalorização da imagem de si mesmo, como fundamento para
as pessoas participarem dessas práticas. Nessa supervalorização pressupõem-se
implicações de processos eminentemente psicológicos. Isto é, na produção da
autoimagem implica-se percepção, atenção, memória, assim como aspectos
emocionais. O autorretrato pode ser considerado a arte da observação, de quem se
retrata, possibilitando a descoberta de algo escondido dentro de si mesmo; uma
verdade até então inacessível, uma ferramenta auto referencial onde “aquele que cria
a obra é igualmente por ela e nela criado” (NEVES, 2012, p .62).
Por ser o autorretrato visto com esse potencial para elucidar questões sobre
as experiências psicológica de si mesmo, ele foi definido como objeto de investigação
nessa pesquisa que tem o propósito de analisar o seu potencial para fomentar
processos
de
hospitalizadas.
significação
de
crianças
sobre
suas
experiências
quando
20
3 O AUTORRETRATO COMO INSTRUMENTO TÉCNICO DE PESQUISA
O uso de dados visuais iniciou na Sociologia e na Antropologia, sendo mais
aplicado na Antropologia, principalmente através da utilização de filme e fotografia,
com o objetivo de registrar fenômenos culturais. Para Flick (2004) o desenho na
pesquisa é caracterizado como um dado visual. Na pesquisa, opera-se com dados
visuais, quando o pesquisador faz uso de imagens como fonte de informação,
podendo ser estática (fotografias e desenhos) ou em movimento (filmes e vídeos). De
acordo com DE Mendonça et al. (2008), a imagem é capaz de proporcionar o registro
em tempo real, além de possibilitar repetidas análises ao pesquisador.
Através do uso de dados visuais agregam-se dimensões não linguísticas à
situação de investigação, permitindo interpretar diversos níveis de experiência
humana (BAGNOLI, 2009; SILVA et al., 2014). Essa abordagem de dados na
pesquisa é reconhecidamente apropriada quando os participantes são jovens ou
criança (SILVA; VASCONCELOS, 2013), nesse caso acredita-se que esse público
tem mais envolvimento e disponibilidade para se envolver com atividades de desenho
ou produção de vídeos, pois são atividades que demandam criatividade e dinâmica,
características desse público. Considerem-se as dificuldades e resistências de
crianças e jovens quando levados a sentar-se para responder questionários extensos
e cansativos. Defende-se que a produção de desenho como forma de construção de
dados é adequada para trabalhos com pessoas que, por diferentes razões, indiquem
dificuldades para se expressar, exclusivamente, por meio da fala.
Como o objetivo desta pesquisa foi investigar processos psicológicos, mais
especificamente, os processos que as crianças se apropriam para significar a sua
experiência relacionada com os espaços que elas frequentam quando internadas em
hospitais, definiu-se, como metodologia para o alcance desse objetivo, dados visuais
(autorretratos) em conjunto com dados verbais (narrativas sobre seu autorretrato).
Considerou-se, para essa definição, a imaturidade da criança com os usos de fala
quando se trata de significar essas experiências. Assim, essa combinação, dos
autorretratos acompanhados com as narrativas sobre ele, nos pareceu mais
adequada para construção dos dados nesta pesquisa.
21
3.1 A interdisciplinaridade no uso do autorretrato como instrumento de
investigação
O autorretrato é utilizado em vários campos do saber. Embora muito presente
nas pesquisas em psicologia, ele também é muito aplicado no campo das artes, pois,
como já mencionado, as artes foi a área em que essa técnica surgiu. Nesse ambiente,
os estudos sobre autorretratos são mais numerosos que nas outras áreas. Nessa
perspectiva, Pessoa (2006) realizou uma pesquisa, para obtenção do título de
mestrado em Artes na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São
Paulo, utilizando-se de três formas do autorretrato (pintura, fotografia e desenho
gráfico). O objetivo desta pesquisa foi investigar a relação entre autorretrato,
autorrepresentação e produção da própria imagem. Nas suas discussões, o autor fez
um paralelo entre o autorretrato pintado e o fotografado, apontou o autorretrato na
forma de pintura como meio de representação e a fotografia como meio indicativo.
Outro exemplo de pesquisa envolvendo o autorretrato no campo das Artes foi
realizada por D’Agostino (2014). O objetivo desse estudo foi investigar autorretratos
de crianças de seis anos inseridas em um processo de educação contemporânea em
Artes. Nesse estudo a pesquisadora fez uso de uma abordagem autobiográfica,
buscando entender como acorrem os processos expressivos dessas crianças.
Há também pesquisas nas áreas de comunicação. Braz et al. (2004) é um
exemplo. Na sua pesquisa foram analisadas imagens publicadas na rede social
Facebook® por um ator e uma cantora com o objetivo de apontar os modos de uso do
autorretrato e qual sua finalidade ao serem utilizados. Os autores destacaram tratarse de uma pesquisa interdisciplinar por recorrer a questões da psicologia e a um
conceito da filosofia.
A apreciação das informações que resultam de pesquisas que se utilizaram
do autorretrato sustenta a interpretação de que elas versam sobre questões
psicológicas como autoimagem, representações de si mesmo, narcisismo, processos
mentais e criativos, autobiografia, desenvolvimento cognitivo e emocional. Por
explorar esses processos seu uso é mais frequente em pesquisas que se
desenvolvem no campo do conhecimento da psicologia.
22
3.2 O uso do autorretrato na pesquisa em psicologia
Na Psicologia, o autorretrato é muito conhecido como uma técnica projetiva
muito utilizada na clínica psicológica. Muitas das pesquisas que envolvem essa forma
de desenho adotam testes padronizados (exemplos: Draw a Person (DAP); House
Tree Person (HTP); Draw a Story (DAS), para descrever características do
autorretrato (como tamanho, presença de cores) e atribuir traços de personalidades
aos pacientes. Nesse contexto o propósito principal é caracterizar o que é ou não
patológico. Araújo e Fernandes (2005) afirmam ser o teste de Desenho da Figura
Humana a forma mais utilizada do autorretrato dentro do campo da psicologia, sendo
usado na maioria das vezes para aferir a inteligência, avaliar o nível conceptual e o
desenvolvimento intelectual, sendo considerado na sua análise, apenas comparações
com índices predefinidos estatisticamente.
Como exemplo de pesquisas que adotam o enfoque gráfico do autorretrato,
com interpretação baseadas em escalas, destaca-se aquela desenvolvida por Pasian
e Jacquemin (1999). O objetivo desta pesquisa foi investigar, por meio de
autorretratos, a imagem corporal e o autoconceito de 69 crianças, divididas em dois
grupos: a) 37 crianças em internação hospitalar e b) 32 crianças fora da situação de
internação. Todas as crianças participantes do estudo foram do sexo masculino e
estavam na faixa etária de sete a treze anos. A produção gráfica dos dois grupos foi
avaliada de acordo com a Escala de Indicadores Emocionais de Koppitz (uma escala
composta por trinta itens referentes à produção gráficas dos desenhos, como por
exemplo, cabeça pequena, omissão dos olhos, dos braços ou pernas, presença ou
não de genitais, entre outros). Além dessa escala foi utilizado também uma escala
para verificar o nível intelectual dos participantes, a Escala Especial das Matrizes
Progressivas de Raven.
As crianças foram atendidas em sessões individuais, com duração média de
30 minutos, onde foram aplicadas as escalas mencionadas e, em seguida, a produção
do autorretrato. Com a análise dos autorretratos baseados nos itens da Escala de
Indicadores Emocionais de Koppitz foi possível chegar aos resultados da existência
de diferenças significativas entre os dois grupos estudados. Os meninos que estavam
em situação de internação apresentaram maior número de indicadores emocionais
em seus autorretratos. Os pesquisadores afirmaram que a idade não foi um fator
decisivo nessas diferenças. Mas, de acordo com eles, o tempo em que a criança se
23
manteve na instituição mostrou-se como ponto relevante nos resultados (quanto à
aquisição de elementos que fomentam a melhor integração de uma imagem corporal
em crianças com mais tempo de institucionalização). Concluíram, então, que a
institucionalização causa impacto emocional negativo, mas a experiência dentro das
instituições podem determinar tanto a aquisição de uma autoimagem positiva, quanto
uma cristalização de sentimentos de autodesvalorização.
Outro exemplo de análise gráfica do desenho foi desenvolvido por Rosamilha
(1982). Essa pesquisadora estudou os 30 indicadores emocionais de Koppitz nos
autorretratos de crianças repetentes da primeira série e concluiu que existiam
diferenças nesses indicadores para essas crianças quando confrontados com
crianças não repetentes. Outro estudo, da mesma pesquisadora, objetivou analisar a
redução de indicadores emocionais no autorretrato (como por exemplo, rasuras,
sorriso, figura rígida, elevação dos braços, mutilação, reforço das linhas, linhas em
esboço, complementos ao desenho, umbigo, separação das partes do corpo, cicatriz
ou desfiguração). A pesquisadora queria mostrar quais indicadores emocionais são
mais sensíveis aos efeitos dos jogos, brincadeiras e atividades lúdicas e em que
direção. A pesquisa teve como hipótese que os jogos deveriam favorecer o
ajustamento geral do sujeito e proporcionar uma melhora na imagem corporal
projetada no autorretrato. Os participantes foram divididos em dois grupos a) 31
crianças repetentes de ambos os sexos que tiveram a atividade de brincar
intensamente durante o período de 40 dias durante o horário da escola e b) 30
crianças, também repetentes e de ambos os sexos, mas que não tiveram a
brincadeira como atividade durante esses 40 dias. Os grupos eram equivalentes
quanto aos escores no teste do ABC de Lourenço Filho, teste de inteligência de
Raven (forma infantil) e no teste de figuras invertidas de Edfeldt, além da também
equivalência quanto às correlações intra e intergrupos, nessas provas. Os
procedimentos com o primeiro grupo foi a aplicação coletiva do desenho de si mesmo
e depois dessa aplicação a participação em cerca de 20 jogos e atividades lúdicas no
período de 40 dias, passado essas etapas foi realizada nova confecção do
autorretrato. Os procedimentos com o grupo II foi a aplicação do autorretrato,
participação em apenas dois ou três jogos no período de 40 dias e nova aplicação do
autorretrato. Os resultados indicaram que os jogos intensivos não beneficiaram um
dos grupos de alunos repetentes, mas apresentaram efeitos isolados em alguns itens.
Dessa forma foi concluído que os alunos repetentes apresentam características
24
emocionais diferentes dos alunos não repetentes, considerando que atividades
lúdicas provocaram efeitos positivos nos indicadores emocionais no desenho do
autorretrato.
Esses dois trabalhos assumem o enfoque estritamente gráfico do autorretrato,
como técnica gráfica para delimitar o estágio de desenvolvimento que a criança se
encontra, ou ainda para estudar traços estatísticos da personalidade infantil. Nesse
enfoque se analisa produto em vez do processo. Esse tipo de análise tem como
objetivo apenas medir; ou seja, fazer uso da estatística para avaliar o desempenho de
forma universal; criar instrumentos de medição para questões referentes a funções
cognitivas, avaliação de problemas de aprendizagem ou distúrbios emocionais. Nesse
enfoque não é considerado todo o encadeamento que tem por trás da produção
gráfica da criança e questões referentes sobre a função social e cultural dessa
produção são desprestigiadas nesse enfoque (DE ARAUJO; LACERDA, 2010).
Há, no entanto, outros enfoques no uso clínico do autorretrato. Em
circunstâncias terapêuticas, considera-se também a natureza holística do desenho e
do autorretrato. Na arte terapia, por exemplo, a atividade com desenho e autorretrato
volta-se para o trabalho de problemas emocionais. Em outros usos, que também
privilegiam essa dimensão holística do desenho, defende-se que estes podem tornar
mais concreta uma entrevista com crianças, traduzindo-se como ajudantes da
memória. Nesses cenários não é o desenho final que estabelecem os dados, mas
todo o processo de construção; o foco é o significado e não a classificação do
desenho baseado em teorias pré-existentes (BAGNOLI, 2009).
Na presente pesquisa, onde os participantes foram crianças, nos opomos a
uma abordagem estritamente gráfico-estatística do autorretrato. Aqui, consideramos
essas formas de concebê-lo reducionista por não focalizar as significações do próprio
autor sobre o autorretrato, como constituo da sua forma gráfica. Argumenta-se que o
autorretrato não se reduz a sua representação no papel (ou em outro material); ele é
um processo, na medida em que ao narrar sobre ele, o autor agrega ações e
significados. Por não considerar esse processo, a abordagem gráfico-estatística perde
fenômenos essenciais para se compreender o potencial do autorretrato como
ferramenta de investigação dos processos psicológicos humanos.
25
3.3 Desenho e autorretrato como processo de significação
Nas pesquisas que investigam processos psicológicos de crianças é muito
comum ser feito uso dos dados visuais como instrumento metodológico,
principalmente, o desenho, embora se observe que os pressupostos que
fundamentam esse uso não são unânimes; na verdade, muitas vezes são
contraditórios. Diferente da abordagem gráfico-estatística, discutida no item anterior,
outros pesquisadores consideram que o uso do desenho e autorretrato nas pesquisas
com crianças pode ser excelente se aliado às descrições verbais da criança, sendo
complementar um do outro. Quando utilizado dessa forma essa ferramenta pode
permitir a criança organizar informações e experiências, além de fazer parte do
desenvolvimento e formação da criança (MENEZES; MORE; CRUZ, 2008). Para De
Goldberg, Yunes e Freitas (2005), o desenho também possibilita invocações de
acontecimentos fora do contexto imediato, suportando a comunicação precoce, a
expressão antes da aquisição da escrita. Dessa forma, o desenho é a linguagem
infantil com seu vocabulário e sintaxe própria (DA SILVA, 2010). Ele é uma forma de
potencializar a oralidade da criança, pois nessa fase do desenvolvimento são comuns
às dificuldades para se expressar na forma verbal.
A relação entre o desenho, linguagem e desenvolvimento infantil, ilustrada
pelos argumentos nas pesquisas acima mencionadas, foi tópico marcante nos
trabalhos de Vigotski (1991; 2010) sobre as raízes do pensamento e da linguagem no
desenvolvimento infantil. Vigotski anunciou uma concepção de desenho como
processo (e não como produto gráfico acabado) ao observar que quando a criança
desenha um objeto ela lhe atribui sentido; um sentido conceitual, não material. Para
Vigotski, a criança reconhece o objeto que desenha após a sua realização, enquanto
ela fala sobre sua produção gráfica. Quando a criança verbaliza o que irá desenhar
ela indica intenção prévia e demonstra o planejamento de sua ação. Vigotski afirmou
que a criança que desenha evidencia abstração, pois liberta conteúdos existentes em
sua memória. Ele também considerou o papel da fala no processo do desenho, pois
a linguagem verbal se faz de base para a linguagem gráfica composta pelo desenho
(VIGOTSKI, 1988).
Vigotski e Luria defenderam que o desenho é precursor da escrita. Luria
(1988) desenvolveu pesquisas com o objetivo de marcar o momento que a criança
compreende a escrita como função social, como uma ferramenta funcional e forma de
26
mediar questões psicológicas. De acordo com Luria, a escrita, na perspectiva da
criança é uma experiência mecânica, que tem o intuito de reproduzir os movimentos
dos adultos. Luria (1988) destacou que com o tempo a criança deixa de apenas imitar
o adulto e passa a fazer uso da escrita como forma de mediação, embora não
compreenda suficientemente dos códigos, elas utilizam-se deles com o objetivo de
auxiliar a memória. Como os códigos ainda não são coisas simples, a criança recorre
ao desenho como meio de comunicação para representar características dos objetos.
Com o passar do tempo o desenho torna-se insatisfatório na representação do
pensamento, levando ao desenvolvimento da escrita simbólica como forma de
comunicação (VIEIRA, 2007).
A pesquisa realizada por Silva e Vasconcelos (2013) é mais um exemplo
dessa abordagem do desenho como processo. Nesse estudo, as pesquisadoras
focalizaram a relação entre self dialógico e o desenho infantil. Os participantes foram
crianças entre dois e quatro anos de idade. Na metodologia deste estudo, elas
prescreveram que depois que as crianças desenhassem, elas seriam questionadas
sobre o que haviam desenhado. Então, as pesquisadoras destacaram que ao narrar
sobre o desenho, as crianças participantes se movimentavam intensivamente, com
deslocamentos acompanhados de gestos, agregando às formas gráficas, ações e
significados, impossíveis de serem visualizados pelas pesquisadoras ou por qualquer
pessoa que contemplasse apenas o papel desenhado. Nesse estudo as ações e
deslocamentos das crianças para dizer o que estava no papel foram considerados
constitutivos do desenho. A partir de uma análise microgenética, o desenho das
crianças foi caracterizado como um processo inacabado refletindo as dinâmicas do
self dialógico, enquanto fenômeno em constante transformação.
Outro exemplo da abordagem do desenho infantil como processo, foi o estudo
realizado por Da Silva (1998). O objetivo desse estudo foi estudar as condições
sociais de produção do grafismo infantil examinado o jogo dialógico em relação à
produção gráfica, manipulação dos materiais utilizados na atividade e mediações
entre pares e professora. Os participantes do estudo foram crianças matriculadas no
maternal de uma creche com idades três, quatro e cinco anos. A autora justificou a
escolha dessa faixa etária considerando pesquisas que afirmavam está nessa idade o
início do desenho figurativo em relação às condições sociais de produção
(principalmente a fala). Os procedimentos de coleta de dados foram videografias
realizadas uma vez por semana por cerca de 20 minutos, focalizando a mesinha, local
27
em que três crianças produziam seus desenhos (geralmente o desenho era sem um
tema especifico, mas existiram momentos em que a professora ou pesquisadora
sugeriam temas como páscoa e família, além da narração de uma história para que a
criança fizesse seu desenho a respeito dela). A análise dos dados foi realizada por
meio da microgenética, focalizando-se as transformações na produção da criança em
relação com seus pares e materiais com os quais ela age. Os resultados indicaram
que os eventos interativos, principalmente os processos de linguagem na atividade de
desenho precisam ser atualizados e analisados sobre outra visão, levando em conta a
dimensão social e não só a maturidade biológica.
Bagnoli (2009) apresentou um artigo de revisão com o objetivo de analisar
três métodos visuais que se baseiam em desenho. Esse artigo foi intitulado “Beyond
the standard interview: the use of graphic elicitation and arts-based methods” (“Além
da entrevista padrão: o uso de elicitação gráfica e métodos baseados em artes”, em
tradução livre). Os três métodos nele analisados foram o autorretrato, mapa relacional
e linha do tempo. O artigo foi baseado em dois estudos realizados pela autora; um
com o intuito de estudar as narrativas, identidade e projeto de imigração de jovens na
Inglaterra e Itália (41 jovens com idades entre 16 e 26 anos de diferentes origens);
outro de analisar a vida e o tempo na população jovem (estudo longitudinal, os jovens
participantes tinham 13 anos quando começou o estudo). No artigo em questão, a
autora concluiu que a aplicação desses métodos visuais em momentos de entrevistas
pode facilitar a investigação de níveis de experiência que não poderia ser facilmente
colocada em palavras, além de possibilitar acesso a diferentes dimensões da
consciência humana. Com relação ao autorretrato, a conclusão foi que, entre os três
métodos analisados ele foi o mais aberto e não estruturado.
A explicação da autora foi que no uso do autorretrato, não se pode pressupor
o quê o participante poderá fazer no papel que lhe foi ofertado. Ela ainda destacou
que, por possuir esse formato aberto, nem sempre favorece a participação do sujeito,
relatando que um dos participantes se negou a participar quando soube que seria
utilizado o autorretrato. Por outro lado, ela observou também que entre a população
mais jovem ele possui um índice de maior aceitação; todavia, no público mais velho a
coleta foi mais evocativa e perspicaz.
Observa-se, portanto, a partir das informações derivadas da apresentação de
pesquisas onde se utilizam o desenho e o autorretrato como instrumento para
investigação psicológica, que nesta utilização destacam-se, principalmente, duas
28
abordagens: uma estritamente gráfico-estatística e outra, que caracteriza o
autorretrato como processo, ao incluir elementos externos à indicação gráfica também
como constitutivos à sua análise e interpretação.
Reafirma-se que na presente pesquisa, assume-se o autorretrato como os
significados que os autores fazem sobre si, agregando narrativas orais aos sinais
gráficos apresentados no papel. Quando analisado considerando-se essa combinação
(sinal gráfico com narrativa oral), o autorretrato viabiliza uma interpretação sobre
aspectos históricos das experiências dos autores e dessa forma contempla a relação
entre processos de significação e funcionamento psicológicos. Defendemos nesta
pesquisa que o instrumento do autorretrato fomenta os processos de significações e
na análise das informações produzidas a partir desse instrumento se faz necessário
considerar aspectos sociais e culturais envolvidos na produção dos dados que ele
fomenta.
29
4 PROCESSOS DE SIGNIFICAÇÃO E FUNCIONAMENTO PSICOLÓGICO
Processos de significação é o aspecto central das abordagens sóciohistóricas na Psicologia, representadas, principalmente, pelos trabalhos de Vigotski.
Nesses trabalhos destaca-se um movimento intenso no sentido de construir
explicações sobre o funcionamento psicológico baseadas em pressupostos do
materialismo
dialético.
Nessas
abordagens
foram
constituídas
ferramentas
conceptuais e metodológicas que contradizem aos extremos que caracterizavam a
psicologia daquele contexto sócio histórico: Por um lado, o determinismo biológico
sustentado, sobretudo, pela reflexologia russa e, por outro, o subjetivismo e a
introspecção, revelados, sobretudo pela psicanálise. Vigotski desenvolveu sua
Psicologia durante a Revolução Russa e a fundamentou com a teoria marxista,
principalmente ao declarar a gênese social dos processos psicológicos (VIGOTSKI,
1988; 1991; 2010).
Um dos principais conceitos discutidos nos trabalhos de Vigotski é de
processos psicológicos superiores, que são processos característicos dos seres
humanos (tais como: planejamento, pensamento abstrato, memória ativa, atenção
voluntária, raciocínio dedutivo e capacidade de planejamento) e são constituídos a
partir das experiências humanas com meio histórico e cultural (VIGOTSKI, 1988,
1991, 2010; DE LIMA; DE CARVALHO, 2013). A partir de diversas pesquisas Vigotski
(1988, 1991, 2010), revelou que os processos psicológicos superiores são
constituídos entre as experiências sociais e biológicas através da mediação da
linguagem. Ele declarou que a relação do homem com o mundo em que vive é uma
relação mediada. Refletindo os fundamentos de Vigotski, Kohl (2002) observou que “a
mediação, em termos genéricos, é o processo de intervenção de um elemento
intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser
mediada por esse elemento” (KOHL, 2002, p. 26). Vigotski (1988, 1991, 2010)
destacou dois elementos mediadores: os instrumentos e os signos. Os instrumentos
são objetos sociais que mediam a relação do homem com o mundo (como por
exemplo, mapas, e outros artefatos culturais). Os signos também funcionam como
instrumentos, porém sua atuação está no campo psicológico. Ele destacou que a
linguagem é um elemento mediador semiótico (um sistema de signos) e caracterizou,
nos seus trabalhos essa função de mediação com muita complexidade.
30
Dessa forma, ao apontar como aspecto central de suas observações, a
função de mediação da linguagem (aspecto dinâmico, processual, em constante
transformação) Vigotski superou a visão determinista do funcionamento psicológico.
Diante da afirmação de que os processos psicológicos superiores possuem origem
nas relações sociais, ele demonstrou que o homem produz e é produzido nas
condições históricas, sociais e culturais que vive.
Relacionado com o papel central da função de mediação da linguagem, os
processos de significação (enquanto operados e operadores da linguagem) passam a
ser considerados matéria prima para o funcionamento psicológico. De acordo com
Vigotski (1991), os processos de significação unem o pensamento e a palavra
transformando-se em pensamento verbal. Nesse processo ele observou que o
desenvolvimento do pensamento é função da linguagem; isto é, dos instrumentos
linguísticos do pensamento somados à experiência sociocultural do ser humano
(VIGOTSKI, 1991).
Na tentativa de conceituar significado, Vigotski declarou:
O significado duma palavra representa uma amálgama tão estreita de
pensamento e linguagem que é difícil dizer se se trata de um fenômeno de
pensamento, ou se se trata de um fenômeno de linguagem. Uma palavra sem
significado é um som vazio; portanto, o significado é um critério da palavra e
um seu componente indispensável. [...] Mas... o significado de cada palavra é
uma generalização, um conceito. E, como as generalizações e os conceitos
são inegavelmente atos de pensamento, podemos encarar o significado como
um fenômeno do pensar (VYGOTSKY, 1989, p. 104).
A relação entre os processos de significação e o funcionamento psicológico
foi apontada nas suas palavras da seguinte forma:
Encontramos no significado da palavra essa unidade que reflete de forma
mais simples a unidade do pensamento e da linguagem. [...] é uma unidade
indecomponível de ambos os processos e não podemos dizer que ele seja
um fenômeno da linguagem ou um fenômeno do pensamento (VIGOTSKI
2010, p. 398).
No texto A formação social da mente (VIGOTSKI, 2010) destaca-se, por meio
de citações diretas, as diversas formas que o autor se utilizou para descrever a
relação entre funcionamento psicológico e os processos de significação, considerando
a função da palavra para a manifestação do pensamento. Por exemplo: “mas se o
pensamento se materializa em palavras na linguagem exterior, a palavra morre na
linguagem interior, gerando o pensamento” (p. 474); mais adiante “um pensamento
31
pode ser comparado a uma nuvem parada, que descarrega uma chuva de palavras”
(p. 478); e ainda, “as experiências mostram que o pensamento não se exprime em
palavras, mas nela se realiza” (p. 479). Para ele, o aspecto relevante à relação entre
pensamento e palavra, não é um vínculo primário que se dá de uma vez só, mas que
surge no desenvolvimento humano onde a palavra é o estágio máximo (VIGOTSKI,
2010). Dessa forma, os processos de significação são derivados da união do
pensamento com as palavras, onde se reflete, respectivamente, momentos interiores
e exteriores da mediação semiótica.
Os processos de significação são o fenômeno central, através do qual será
analisado o autorretrato. Defende-se que o autorretrato tem o potencial para fomentar
processos de significação de crianças sobre suas experiências quando estão em
internação hospitalar. É a partir da expectativa sobre esse fomento, que será
traduzido o potencial do autorretrato como recurso metodológico para investigação de
processos psicológicos de crianças.
4.1 A forma narrativa da linguagem como modo do funcionamento psicológico
Considerando-se que a concepção de autorretrato assumida na presente
pesquisa inclui uma combinação entre a representação gráfica com as narrativas
sobre elas, desenvolvidas pelos próprios autores (as crianças em situação de
internação hospitalar), algumas considerações precisam ser tecidas sobre a forma
narrativa da linguagem.
De acordo com Jerome Bruner (1997), o ser humano organiza e estrutura seu
conhecimento acerca do mundo através das narrativas. Ou seja, as pessoas
transformam suas experiências no mundo em narrativas; então as narrativas são um
modo de pensamento e plataforma para a produção de significados. Para Bruner
(1997), o enfoque nos processos de significações traduz um estudo adequado do
funcionamento psicológico humano uma vez que os sistemas simbólicos que os
indivíduos usam para construir significados estão arraigados na cultura e na
linguagem. Em outras palavras, segundo o autor, nos processos de significação
incidem informações sobre a relação entre o organismo e a cultura.
Ele defendeu que a forma narrativa de linguagem é uma tendência inata dos
seres humanos. Dessa forma, as narrativas se configuram como uma plataforma
32
perfeita por favorecer a negociação de significados no tempo. Isto é, ele argumentou
que é o impulso para construir narrativas que determinam a ordem (temporal) de
prioridade dos eventos significativos e que nós não possuímos outra forma de
descrever o tempo vivido a não ser na forma de narrativa. Nesse sentindo, de acordo
com Bruner (1997), as narrativas são eventos através dos quais os seres humanos
organizam suas experiências psicológicas, assegurando a possibilidade da ordenação
dos significados no tempo. Assim, a possibilidade de ordenação temporal dos
significados se revela como artifício fundamental para a organização das experiências
psicológicas através das narrativas.
Considerando o objetivo dessa pesquisa de analisar o potencial do
autorretrato para estudar o funcionamento psicológico de crianças, ratificamos a
posição que, quando as crianças produzem um autorretrato, elas produzem
significados sobre si mesmo nos quais incidem questões referentes à sua história,
cultura e outros aspectos ontológicos. A partir dessas considerações tecidas sobre
propriedades da forma narrativa de linguagem, compreendemos que a combinação da
forma gráfica do autorretrato com as narrativas orais se constituem em um recurso
metodológico para assegurar a organização das experiências psicológicas da criança
durante a produção de significados, relacionados com a confecção do autorretrato.
Como indicado anteriormente, nesta pesquisa também se propõe a discutir a
apropriação de métodos para pesquisa com crianças. Sobre esse propósito, defendese que o autorretrato, quando considerado nessa combinação, viabiliza uma maior
aproximação com o funcionamento psíquico infantil, na medida em que assegura a
expressão de aspectos eminentemente contextuais, dinâmicos e em permanente
mudança, tidos como característicos da pessoa em desenvolvimento emergente,
como é o caso das crianças.
33
5 A CRIANÇA EM SITUAÇÃO DE INTERNAÇÃO HOSPITALAR
Quando uma criança é hospitalizada, deve-se lembrar de que antes de entrar
nessa situação de internação ela possuía uma rotina no seu dia a dia, como a
convivência com a família, dependendo da idad, possuía também a convivência na
escola e gozava de saúde para buscar atividades que lhe proporcionassem o
desenvolvimento de acordo com sua faixa etária. Diante da necessidade de passar
por internação, a rotina dessa criança é totalmente modificada. Motta e Enumo
(2004), desenvolveram um estudo onde afirmaram que a criança que passa por essa
situação pode encontrar muitas dificuldades em sua vida social e escolar, além da
necessidade de se adequar a inúmeras outras situações como adaptação a novos
horários, depositar confiança em pessoas desconhecidas, lidar com os desconfortos
físicos devido aos procedimentos, ser privada de atividades de brincar e precisar
permanecer em um quarto. Eles afirmam também que todas essas implicações
trazem prejuízos à criança.
Refletindo sobre a experiência psicológica da criança durante o processo se
internação hospitalar, Mitre (2004) e Motta e Enumo (2004) afirmaram que a
hospitalização
na
infância
é
um
momento
traumático,
podendo
afetar
o
desenvolvimento e a qualidade de vida do infante, pois a criança se depara com
procedimentos invasivos, dor e medo da morte. De acordo com Kudo (1994), a
criança vive com dificuldade o sofrimento físico, a limitação de atividades, as dietas
alimentares, e os procedimentos clínicos, que na maioria das vezes causam dores e
traumatizam. Muitas crianças veem a internação como uma forma de ser castigada,
agredida e dessa forma apresentam sentimentos de culpa e de abandono em relação
aos pais.
Refletindo também sobre as experiências durante a internação, Carvalho
(2006) e Gomes, Caetano e Jorge (2010) sustentam que o adoecimento na criança
pode gerar ansiedade e essa ansiedade tende a aumentar se for necessário
permanecer internada. De acordo com elas, a doença e a hospitalização compõem os
primeiros conflitos que as crianças precisam enfrentar, ainda com poucos
mecanismos de enfrentamento, para solucionar eventos que geram estresse. De
acordo com Carvalho (2006), a possibilidade para que a criança expresse,
compartilhe e decodifique os sentimentos negativos de forma verbal ou não verbal,
pode diminuir o impacto psicológico devido à internação.
34
Diante do exposto e concordando com Carvalho (2006), defendeu-se aqui que
os sentimentos de tristeza e estranhamento causados pela internação podem ser
minimizados quando se proporciona um ambiente onde não se experimente apenas o
sofrimento e a dor, mas que também exista um forte apelo à curiosidade, à
criatividade, à descontração e à cognição; um momento rico em conteúdos a serem
significados e resignificados. Argumenta-se, que a atenção à saúde da criança deve
ser realizada de forma integral, não podendo ser limitada a medicamentos e
intervenções técnicas de reabilitação. A criança deve ser vista como um todo e em
sua singularidade; deve ser considerada como em desenvolvimento e necessitando
de estímulos para expressar a experiência do adoecimento (MITRE, 2007).
Ao propormos o autorretrato como ferramenta metodológica para investigar o
psiquismo da criança que passa por período de internação também refletimos sobre a
necessidade dessa ampla atenção para a criança em internação hospitalar.
Acreditamos que o cenário de investigação poderia se caracterizar com experiências
lúdicas, visto que o desenho infantil está naturalmente presente, em diferentes
culturas, no dia a dia de crianças. São inúmeros os trabalhos que utilizam o desenho
como parte integrante de metodologias para estudo com crianças, o que se pode
compreender é que o desenho é um aliado da criança que procura explorar e
expressar seu pensamento e opiniões. Reiteramos as observações de Da Silva
(2010), ao afirmar que crianças que se encontram internadas em hospitais, tendem a
vivenciar uma desordem emocional relacionada com a dificuldade de expressar seus
sentimentos em palavras. Então, compreendemos que a linguagem simbólica
presente no desenho do autorretrato pode ser esse meio de comunicação, pela qual a
criança poderá anunciar o que não consegue expressar exclusivamente por meio das
palavras. Dessa forma, profissionais e familiares poderão ter acesso ao universo
interior daquela criança.
Nesse sentindo, procuramos no presente estudo apontar, através dos
significados construídos na combinação entre o autorretrato e as narrativas de
crianças, aspectos relevantes à preparação de espaços e cenários em hospitais para
o atendimento adequado ao público infantil. Considera-se que esses ambientes
devem ser planejados de forma a respeitar as etapas de desenvolvimento desse
público, incluindo-se as suas necessidades emocionais e culturais.
35
6 METODOLOGIA
Os pressupostos discutidos nas secções anteriores fundamentaram essa
investigação que teve o objetivo principal de analisar o potencial do autorretrato como
ferramenta para estudar os processos de significação de crianças acerca de suas
experiências durante situação de internação hospitalar. Além desse objetivo foram
considerados os objetivos secundários: a) uma discussão sobre a relação entre
processos psicológicos e processos de significação; b) uma descrição das
experiências psicológicas de crianças relacionadas à caracterização dos ambientes
frequentados durante o período de internação e, c) uma discussão sobre a adequação
de metodologias para a pesquisa dos processos psicológicos de crianças.
Assegurando-se o alinhamento entre pressupostos teóricos e procedimentos
metodológicos, considerou-se que, para uma análise dos processos de significação,
uma abordagem não experimental seria a mais adequada, por não se procurar uma
relação de causalidade linear no funcionamento do fenômeno investigado. A conduta
metodológica proposta para essa pesquisa se fundamentou nas explicações acerca
do Ciclo Metodológico elaboradas por Valsiner e Branco (VALSINER, 2012). De
acordo com Valsiner, o ciclo metodológico é um esquema epistemológico com “ênfase
explícita na experiência intuitiva do pesquisador” (p. 301). Nessa epistemologia não
se defende um controle sobre as experiências pessoais, as preferências e posições
do pesquisador que, irrevogavelmente, se envolve com os assuntos da pesquisa.
Numa direção contrária a esse controle (exigido na pesquisa experimental tradicional),
o ciclo metodológico prescreve uma habilidade do pesquisador, que precisa de
criatividade para construção dos métodos que se revelem em íntimo diálogo com sua
compreensão axiomática básica do mundo, com o fenômeno e com teorias já
conhecidas sobre o objeto da investigação.
Considerando-se essas observações, a metodologia desenvolvida nessa
pesquisa foi o estudo de múltiplos casos, onde se configuraram processos de
significação relacionados com autorretratos. Na opção pelo estudo de múltiplos casos,
investiu-se numa análise/interpretação densa dos processos objetivados na
investigação.
36
6.1 Participantes
Os participantes dessa pesquisa foram sete crianças, com idade entre seis e
onze anos, que se encontravam internadas no Hospital Universitário Prof. Alberto
Antunes/HUPAA – UFAL. Para seleção dessas crianças foram realizadas visitas ao
hospital e entrevistas com membro da equipe da pediatria. O objetivo dessas
entrevistas foi verificar as possibilidades de participação das crianças na pesquisa.
Observado que a criança poderia participar do estudo, esse profissional apresentava
a pesquisadora para a criança e para o seu responsável. Como critério de exclusão
prescreveram-se as seguintes situações: a) quando as crianças foram consideradas,
pelos profissionais do hospital, como portadoras de retardo mental; b) quando as
crianças encontravam-se com impedimentos físicos para deslocar-se dentro das
instalações do hospital; c) quando as crianças revelavam alguma dificuldade nos
membros superiores que as impossibilitassem à realização do autorretrato e d) na
decorrência de qualquer fator que impedisse a criança de realizar a narrativa.
A participação das crianças selecionadas, nas condições acima descritas, na
pesquisa foi efetivada, mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido – TCLE, pelos pais ou responsáveis, e com o consentimento da própria
criança em querer realizar as atividades propostas. Salienta-se que antes da
assinatura do TCLE a pesquisadora fez uma apresentação detalhada para os pais (ou
responsáveis) a respeito dos tópicos do referido termo e disponibilizou-lhes uma
cópia, dando-lhes possibilidades para acompanhar a leitura e esclarecer suas
dúvidas. Essa etapa foi considerada de grande importância para o total
esclarecimento dos pais (ou responsáveis) com relação aos objetivos, procedimentos
e, sobretudo, acerca do caráter voluntário da participação da criança, inclusive sobre
o direito à desistência, sem explicação prévia em qualquer etapa de execução.
Destacam-se ainda que os procedimentos para seleção das crianças e assinatura do
TCLE foram realizados depois da aprovação dessa pesquisa pelo comitê de Ética em
Pesquisa da UFAL através de emissão de parecer 788.417.
Descreve-se, abaixo uma breve caracterização do quadro clínico das crianças
que participaram desta pesquisa, que foram apresentadas por nomes fictícios e não
pelos seus nomes verdadeiros, com o intuito de preservar o anonimato, cumprindo o
acordo com os pais e responsáveis e também com o Comitê de Ética em Pesquisa da
UFAL.
37
6.1.1 Caracterização dos participantes
A) Ana: Criança com nove anos de idade e do sexo feminino, com residência
no interior do estado, morando em casa de alvenaria com a mãe, o pai e três irmãs,
com uma renda familiar de aproximadamente dois salários mínimos. Esta criança
frequentava a escola. Foi diagnosticada com fibrose cística ainda bebê e estava
internada há 21 dias. Já passou por muitas internações no hospital onde a pesquisa
foi realizada. Durante as etapas da pesquisa apresentou quadro clínico instável, com
episódios de febre, muita tosse e secreção. Acompanhada pela mãe.
B) Maria: Criança com onze anos de idade e do sexo feminino, com
residência no interior do estado, morava em casa de taipa com a mãe e uma irmã,
com uma renda familiar de aproximadamente um salário mínimo. No momento não
frequentava a escola por falta de transporte. Sem diagnóstico fechado, esta criança
apresentava problemas de inchaço e retenção urinária e estava internada há oito dias.
Encontrava-se em sua segunda internação no hospital onde foi realizada a pesquisa.
Tinha quadro clínico estável e estava acompanhada pela mãe.
C) Helena: Criança com seis anos de idade, do sexo feminino, com residência
no interior do estado, morava em casa de alvenaria com a mãe e o pai, com renda
familiar de um salário mínimo. Esta criança deixou de frequentar a escola por falta de
vaga. Foi diagnosticada com fibrose cística quando tinha dois anos de idade e estava
internada há seis dias. Já passou por muitas internações no hospital onde a pesquisa
foi realizada. Seu quadro clínico era estável e estava acompanhada pela mãe.
D) João: Criança de sete anos de idade, do sexo masculino, com residência
no interior do estado, morando em casa de alvenaria com a mãe e o pai, com renda
familiar de aproximadamente dois salários mínimos. Esta criança frequentava a
escola. Foi diagnosticada com fibrose cística ainda bebê. Já passou por muitas
internações no hospital onde a pesquisa foi realizada, estava internado há três dias.
Seu quadro clínico era estável e estava acompanhado pela mãe.
E) Mariana: Criança com seis anos de idade, do sexo feminino, com
residência no interior do estado, morava em casa de alvenaria com a mãe, o pai e três
irmãs, com renda familiar de aproximadamente dois salários mínimos. Esta criança
frequentava a escola. Foi diagnosticada com fibrose cística ainda bebê. Já passou por
muitas internações no hospital onde a pesquisa foi realizada e estava internada há
38
três dias. Seu quadro clínico era estável e estava acompanhada pela mãe. Sua irmã
também estava internada e também participou da pesquisa (Ana).
F) Luiza: Criança com nove anos de idade, do sexo feminino, com residência
no interior do estado, morava em casa de taipa com a mãe, pai e uma irmã, com
renda familiar de aproximadamente um salário mínimo. Esta criança frequentava a
escola. Foi diagnosticada com fibrose cística ainda muito pequena. Já passou por
muitas internações no hospital onde a pesquisa foi realizada e estava internada há 12
dias. Seu quadro clínico era instável com períodos de febre e muita tosse. Estava
acompanhada pela mãe.
G) Letícia: Criança com nove anos de idade e sexo feminino, com residência
no interior do estado, morava em casa de alvenaria com a mãe e o pai, com renda da
família de aproximadamente dois salários mínimos. Esta criança frequentava a
escola. Estava sem diagnostico fechado no início da pesquisa e encontrava-se em
sua primeira internação, há 18 dias, nesse hospital. Seu quadro clínico piorou
(apresentou perda de marcha, o que inviabilizou a saída do leito). Foi transferida para
outro hospital, o que impossibilitou a sua participação na última etapa da pesquisa.
Estava acompanhada pela mãe e, algumas vezes, pela tia.
6.2 Local da pesquisa
O estudo foi realizado no Hospital Universitário Prof. Alberto Antunes/HUPAA
– UFAL. O Hospital promove ações nas áreas de ensino, pesquisa e assistência,
sendo referência tanto para comunidade atendida pelo SUS em Maceió, como para
cidades do interior do estado de Alagoas.
6.3 Procedimentos de construção dos desenhos e narrativas
Depois da assinatura do TCLE, a pesquisadora realizou uma atividade lúdica
introdutória, escolhida em parceria com a criança (quebra-cabeça, jogo de memória,
jogos de tabuleiro, entre outros que a pesquisadora levou para esse encontro) no leito
da enfermaria, foi realizada individualmente e o tempo de duração foi livre. Essa
atividade foi planejada com o objetivo de diminuir o estranhamento da criança com a
situação da pesquisa.
39
A etapa seguinte foi a realização das oficinas de desenhos de autorretrato.
Nessa etapa a pesquisadora se deslocou com a criança (uma de cada vez) para um
dos espaços do hospital: a) Enfermaria, b) Sala de brincar e c) Recepção. Vale
salientar que a sala de brincar era um espaço já existente no hospital, todavia,
durante todo período de construção dos dados esta sala era utilizada também como
refeitório.
Para esclarecimento, os deslocamentos para diferentes espaços do hospital
refletiu um dos objetivos secundários da pesquisa que foi de descrever experiências
psicológicas de crianças relacionadas à caracterização dos ambientes frequentados
durante o período de internação. Além disso, esse objetivo refletiu o propósito da
pesquisa de discutir a adequação de espaços para atendimento de crianças nos
hospitais.
Em cada um desses espaços, antes de iniciar a oficina, a criança foi
informada que sua voz seria gravada. Nesse momento, a pesquisadora apresentavalhe o aparelho onde se realizava a gravação e, em seguida, solicitava-lhe que fizesse
um desenho de si mesma (autorretrato). Como instrução, a pesquisadora pedia-lhe
para se desenhar ocupada, fazendo alguma coisa naquele local. Depois da instrução
a pesquisadora certificava-se se a criança havia compreendido o pedido. Com a
afirmativa da criança, a pesquisadora apresentava-lhe os materiais para a confecção
do autorretrato (folhas de papéis-ofício, lápis hidrocor, lápis de cera, lápis comum,
lapiseira, borracha e giz de cera coloridos).
Planejou-se que na medida em que as crianças terminassem seus
autorretratos, a pesquisadora deveria incentivá-las para falar sobre eles. Ocorreu, no
entanto, que desenhar e falar foram ações simultâneas durante as oficinas. Isto é, as
crianças já falavam sobre o seu desenho enquanto estavam no processo de sua
confecção. Então, a pesquisadora, deixou-lhes livres para desenhar e falar durante a
sua produção e, quando elas informavam que haviam terminado, a pesquisadora
incentiva-as para continuarem falando sobre o seu autorretrato. Destaca-se ainda
que, com o objetivo de incentivar a expansão da narrativa, a pesquisadora fazia uso
de algumas perguntas do tipo “esse é você?”; “então, fale de você nesse desenho...”;
“isso eu ainda não entendi, você pode me contar mais?...”. Durante esse
procedimento, a pesquisadora monitorava sua própria fala, cuidando que ela fosse
mínima. O objetivo nesse monitoramento era valorizar ao máximo a fala das crianças.
40
Não foi estipulado tempo de duração para oficinas; estas encerravam-se
depois que cada criança finalizava o seu desenho e falava sobre ele. Foi atribuição da
pesquisadora observar, naquelas condições específicas, se a narrativa sobre o
desenho fora esgotada, isto é, se as crianças falaram o que queriam sobre a sua
produção. Foram realizadas três oficinas, uma em cada ambiente do hospital
(enfermaria, sala de brincar e recepção), em dias consecutivos. Ao fim dessas
oficinas foram obtidos três desenhos e três narrativas para cada criança. No entanto,
devido a complicações no quadro clínico e transferência para outro hospital, não foi
possível realizar a última oficina (na recepção) com a Letícia. Dessa forma, no final
dessas etapas foram obtidos vinte desenhos e vinte narrativas.
Concomitantemente à realização das oficinas, a pesquisadora fez registros de
informações num diário de campo. Esses registros consistiram em suas observações
durante os encontros com as crianças, desde a chegada ao hospital até o último
momento. No diário de campo, também foram registradas observações quanto ao
ambiente, presenças de outras pessoas, conversas ocorridas antes do início da
gravação da narrativa, além de avaliações da pesquisadora no decorrer da
investigação. O diário de campo foi um recurso para registrar informações que não
puderam ser capturadas com o áudio das narrativas.
6.4 Procedimentos de análise dos desenhos e das narrativas
Nesta pesquisa foram construídos dados visuais e verbais. Os dados visuais
foram os autorretratos e os verbais, as narrativas sobre os autorretratos. Como já foi
mencionado, o conjunto de dados somou vinte desenhos e vinte narrativas.
Os procedimentos iniciais para tratamento dos dados foi a transcrição dos
registros áudio-gravados e a digitalização, classificação e armazenamento dos
autorretratos. As transcrições das gravações das crianças foram realizadas ainda no
mesmo dia que se procedeu a oficina correspondente. A decisão por realizar a
transcrição no mesmo dia da gravação foi para não perder informações. Com essa
estratégia, foi possível recuperar, na memória recente, ocorrências que não foram
esclarecidas no áudio e agrega-las ao diário de campo. Os desenhos foram
digitalizados, classificados e armazenados também no mesmo dia da oficina que ele
41
correspondia. Em alguns foi necessário passar uma tarja preta para preservar o
anonimato, visto que as crianças escreveram seus nomes nos desenhos.
Para apreciação das transcrições e dos autorretratos, foi necessário se
resgatar os objetivos da pesquisa e transformá-los em questões que precisavam ser
respondidas para atender aos objetivos propostos. Então, estrategicamente, os
procedimentos de análise das transcrições e dos autorretratos foram norteados pelas
seguintes questões: A) - Qual o potencial dos autorretratos produzidos na pesquisa
para fomentar processos de significação das crianças acerca de suas experiências
durante internação hospitalar? B) – Qual a relação entre os processos de
significações fomentados pelos autorretratos e o funcionamento psicológico das
crianças participantes dessa pesquisa? C) – Qual a relação entre as características
dos ambientes frequentados no hospital durante a investigação e a organização dos
significados produzidos pelas crianças?
Para responder essas perguntas, os desenhos e as narrativas foram
analisados a partir da combinação de técnicas quantitativas e interpretativas. As
técnicas quantitativas foram aplicadas aqui com a finalidade de organizar os dados de
forma a possibilitar um mapeamento de configurações “críticas”. Por configurações
críticas nos referimos indicações na leitura das medidas encontradas que
expressaram extrema convergência, ou extrema divergência sugerindo questões
potenciais e relevantes. Considerou-se que o encaminhamento das análises
dependeu das respostas para essas questões.
Durante a apresentação dos dados, ilustraram-se algumas configurações
críticas reveladas a partir do uso das técnicas quantitativas. Estas configurações
críticas foram alvo de uma análise microgenética. Como já foi mencionado, a análise
microgenética consistiu em um processo hermenêutico, de produção de sentidos do
pesquisador, conduzido a partir de um olhar para minúcias para capturar possíveis
relações (lógicas ou empíricas) na configuração dos aspectos analisados nos dados
(autorretratos e narrativas). Com essas características, a análise microgenética foi
apresentada na forma de narrativa escrita (texto).
6.4.1 Análise quantitativa dos desenhos
Para a análise quantitativa do desenho, foram definidos alguns critérios. Na
verdade, a definição desses critérios esteve relacionada com a apreciação de
42
características estruturais do desenho. Assim, esquematizaram-se esses critérios em
duas grandes áreas: 1) Quanto à composição do desenho (que se referiu à disposição
espacial do desenho e a apresentação dos objetos desenhados) e 2) Quanto à
utilização das cores no desenho. A seguir descreve-se a definição de cada um dos
critérios para uma análise quantitativa do autorretrato.
A) Disposição Espacial do Desenho: Referiu-se ao espaço utilizado pela
criança para confeccionar o seu desenho. Foi realizada a análise desse critério
levando em consideração três possibilidades: 1) Ampla utilização, quando a criança
fez uso de todo o espaço da folha que lhe foi ofertada (Figura 4); 2) Localização
central, quando a criança localizou o desenho no centro da folha e 3) Localização
periférica quando a criança localizou o desenho próximo à borda do papel (Figura 5).
Figura 4 – Ana (Recepção)
43
Figura 5 – João (Enfermaria)
B) Apresentação dos objetos no desenho: Referiu-se a forma como os objetos
foram apresentados no desenho pela criança. Na análise desse critério consideraramse três possibilidades: 1) Quanto à quantidade de objetos desenhados [(i) Pouco, para
um ou dois itens (Figura 6); (ii) Médio, para três a quatro itens; (iii) Muito, para cinco
ou mais itens (Figuras 4, 7, 8, 9 etc.)]; 2) Quanto ao tamanho dos objetos desenhados
[(i) Pequeno; (ii) Misto (Figura 8) e (iii) Grande]; 3) Quanto ao nível de elaboração dos
objetos desenhados [(i) Simples, quando faltaram elementos na composição do
desenho, com por exemplo desenhar uma pessoa sem os membros (Figura 10); (ii)
Complexo: quando a criança fez uso de detalhamentos, acessórios e outros
pormenores no desenho, como por exemplo desenhar uma tomada do ventilador, os
puxadores do armário, simbolizar o hospital com uma cruz (Figuras 7, 8 e 9);
Destaca-se que, quanto ao tamanho dos objetos, os desenhos foram
classificados como misto, pois todas as crianças variaram os tamanhos de seus
objetos no mesmo desenho. A figura 8 ilustra essa classificação. Nela, a Luiza, que
estava na Sala de brincar, desenhou uma mesa com pessoas ao seu redor, cadeiras
maiores que as pessoas e em um segundo momento, faz as mesmas pessoas em
tamanho bem maior que o primeiro, além de um armário de quatro portas que toma
dimensões bem maiores que a mesa.
Figura 6 – Helena (Enfermaria)
44
Figura 7 – Maria (Sala de
Brincar)
No que diz respeito à elaboração, a figura 9 ilustra o nível complexo. Neste
exemplo, Letícia, que estava na enfermaria desenhou o hospital com um símbolo
(uma cruz), colocou o nome do hospital, desenhou o suporte de segurar o soro,
apresentou o cabelo preso (como estava o cabelo da autora no momento da oficina),
na árvore ela também desenhou os frutos, desenhou a maçaneta na porta do hospital,
entre outros detalhes (as figuras 7 e 8, também são exemplo do nível de elaboração
complexo). A figura 10, ilustra o nível de complexidade simples, uma vez que faltaram
no autorretrato os membros superiores e, de forma geral, não se observaram
detalhamentos em nenhum objeto desenhando.
45
Figura 8
Brincar)
–
Luiza
(Sala
de
Figura 9 – Letícia (Enfermaria)
.
C) Utilização Das Cores: O terceiro e último critério para a análise da
composição do desenho fez referência ao uso de cores. Esse também foi analisado
considerando-se três possibilidades: 1) Quantidade das cores utilizadas [(i) Não utiliza
cores (Figura 11); (ii) Uso de até três cores, (iii) Uso de mais de três cores (Figura
10)]; 2) Intensidade das cores [(i) Suave (Figura 13); (ii) Misto; e (iii) Intenso (Figura
10)]; 3) Preenchimento das cores: [(i) Insuficiente (Figura 15); (ii) Suficiente; (iii)
caprichoso (Figuras 8,10, 15)].
46
Figura 10 – Mariana (Sala de Brincar)
Figura 11 – Letícia (Sala de
Brincar)
47
Figura 12 – Mariana (Enfermaria)
Figura 13 – Ana (Enfermaria)
48
Figura 14 – Maria (Enfermaria)
Figura 15 – João (Recepção)
6.4.2 Análise quantitativa das narrativas
Para análise quantitativa da narrativa, recorreu-se, como parâmetro
organizacional, a dinâmica de alternação dos turnos de fala entre a criança e a
pesquisadora. A dinâmica de alternação de turnos de fala é destacada no campo da
análise conversacional. Essa dinâmica refere-se ao processo em que, na interação,
cada pessoa tem sua vez para falar e o ouvinte costuma tomar (responder) ao turno
do falante (anterior). Nessa perspectiva as narrativas das crianças foram concebidas
como seus turnos de fala durante conversação com a pesquisadora.
49
Os critérios para a análise quantitativa das narrativas foram semelhantes aos
atribuídos para o desenho. Também no caso das narrativas eles foram elaborados
considerando-se os seus constituintes. Nessa perspectiva, para análise quantitativa
das narrativas, foram definidos os seguintes critérios:
A) Quantidade de Vocábulos: Refere-se à extensão do enunciado e foi
analisado considerando-se três possibilidades: 1) Curto (até três palavras por turno);
2) Médio (até seis palavras por turno) e 3) Longo (mais de seis palavras por turno de
fala). Os exemplos 1, 2 e 3 abaixo, ilustram respectivamente como esse critério foi
aplicado aos dados:
Exemplo 1: “Desenhando no papel” (João; recepção).
Exemplo 2: “Não consigo desenhar bonito não aqui” (Letícia; enfermaria).
Exemplo 3: “Ai chega a mainha e diz: “eu também quero tirar”, deixa eu
desenhar ela aqui” ( Ana; enfermaria).
B) Presença de Vocábulos Significativos: Refere-se a uma habilidade das
crianças para usarem palavras diferenciadas para se fazerem compreender; uso de
termos com potencial informativo, consideradas como palavras nucleares e inéditas
reveladas no turno das crianças. Essas palavras foram contabilizadas apenas na sua
primeira aparição e desconsideradas situações de repetição. Na análise desse critério
consideraram-se três possibilidades: 1) Pouco (um vocábulo significativo por turno); 2)
Médio (máximo de três vocábulos significativos por turno, e 3) Bastante (mais de três
vocábulos significativos por turno). Os exemplos 4, 5 e 6 abaixo, ilustram
respectivamente como esse critério foi aplicado aos dados (os vocábulos significativos
aparecem sublinhados nos exemplos). Faz-se necessário salientar que todos os
vocábulos significativos surgiram pela primeira vez e de forma espontânea no turno
das crianças, não sendo evocados por qualquer outra pessoa que estivesse presente
no momento das narrativas (como por exemplo a mãe e/ou responsável, outras
crianças internadas e pessoas da equipe médica).
Exemplo 4:“Eu vou fazer uma “fror” (Mariana, enfermaria).
Exemplo 5: É... Num “seio” não desenhar eu aqui no hospital. É que tá muito
feio (Helena, enfermaria).
Exemplo 6: Não vejo a hora de passar por aqui pra ir pra casa (Maria,
recepção).
50
C) Relação Desenho/Narrativa: Esse critério trata da referência que as
crianças fizeram em suas narrativas, sobre os desenhos que produziram; ou seja, se
elas, em suas narrativas, remeteram-se ao que estava no papel ou se adicionaram
algo. Foi analisado considerando-se duas possibilidades: 1) Reprodução (quando as
crianças narraram estritamente sobre o que fizeram no desenho) e 2) Expansão
(quando elas acrescentaram em suas narrativas objetos e informações que não
haviam desenhado). Os exemplos 7 e 8 e, respectivamente, as figuras 16 e 17,
ilustram como esse critério foi aplicado aos dados.
Exemplo 7:
João: Aqui, som com TV [...] TV, as coisas de DVD. A mesa com o lápis de
pintar, o “papeis” e uma caixa de brinquedos para as crianças “brincar”.
[...]
Pesquisadora: E o que você tá fazendo aqui?
João: Eu tô desenhando
Com o apoio da figura 16, é possível observar que João, mencionou
estritamente os objetos desenhados. Na sua narrativa ele não acrescentou elementos
não desenhados. Observa-se, inclusive, que quando questionado sobre o que estava
fazendo, ele respondeu que estava desenhando e pode-se notar que na mesa em
frente a ele existe uma folha de papel, o que caracterizou seu ato de desenhar (no
desenho ele e o papel na mesa são imagens muito pequenas, a mesa é bem maior.
Essa mesa existiu, de fato, na sala de brincar).
Figura 16 – João (Sala do
brincar)
51
Exemplo 8:
Ana: Aqui é o carro, a pista [...] O sol, a entrada dos carros [...] O coqueiro,
aqui é a calçada, aqui é a “alvore”, aqui é “as” gramas, aqui é a gente [...] E aqui é a
planta.
Pesquisadora: Agora me conte quem é quem aqui
Ana: Eu, você, mainha
Pesquisadora: Certo, e o que é que você tá fazendo aqui no desenho?
Ana: Sentada, olhando, escrevendo
Pesquisadora : Hum, e eu to fazendo o que no seu desenho?
Ana: Você tá sentada, conversando, é... olhando as “passagens”
Pesquisadora: E sua mãe?
Ana : Ela tá sentada, de, olhando as “passagens”
[...]
Pesquisadora: [...] Certo, então você tá sentada...
Ana : Sim, olhando as paisagens desenhando
O exemplo 8 ilustra uma situação em que esta criança adicionou à sua
narrativa informações que não foram desenhadas. Ela expandiu o desenho no
momento da sua narrativa. Com o apoio da figura 17 pode-se observar que ela
mencionou os objetos que havia desenhado (carro, pista, sol, coqueiro, calçada,
árvore, grama e planta). Todavia, quando questionada pela pesquisadora sobre o que
ela estava fazendo no desenho, a sua resposta foi que estava sentada, olhando e
escrevendo. Entretanto, em seu autorretrato, nada do que foi desenhando indicava o
ato de estar sentada e escrevendo. Ela não se desenhou em uma cadeira ou colocou
algo (uma mesa, por exemplo) em que pudesse estar escrevendo. Além disso,
quando questionada, outra vez, sobre o que estava fazendo ela acrescentou estar
desenhando. No entanto, nada no seu desenho sugere um ato de desenhar.
52
Figura 17 – Ana (Recepção)
A figura 18 também se trata de um desenho da mesma criança e pode
agregar aspectos para melhor esclarecer os critérios de reprodução e expansão.
Nesta figura, a mesma criança, agora na sala de brincar, relatou que estaria
desenhando. Mas nesse desenho pode-se observar à sua frente, uma mesa com uma
folha de papel, o que caracterizou o ato de desenhar. Todavia, quando questionada
sobre o que a pesquisadora e a mãe estariam fazendo em seu desenho (no desenho
está indicado mais três pessoas sentadas na mesa, além da criança autora) ela
respondeu que estariam sentadas, olhando as paisagens. Mais uma vez ela expandiu,
pois nada existe em seu desenho que especifique as paisagens que ela se refere.
Figura 18 – Ana (Recepção)
53
7 RESULTADOS
7.1 Resultados da análise quantitativa dos desenhos
No gráfico 1, apresenta-se a distribuição dos índices relacionados aos
critérios aplicados na análise dos desenhos, considerando-se os dados de todas as
crianças nos três espaços, ou seja, na enfermaria, na sala de brincar e recepção (no
apêndice A encontra-se a tabela referente ao gráfico 1). Para uma análise mais
detalhada encontram-se no apêndice C tabelas e gráficos discriminando-se,
separadamente, os índices dos desenhos de cada criança. Encontram-se também, no
anexo A, os desenhos de cada criança.
Gráfico 1 - Índices dos desenhos (todos os participantes)
Da configuração dos índices do gráfico 1, derivam-se as seguintes
informações:
A) Quanto à disposição espacial dos desenhos, o local onde se fez mais uso
da ampla localização foi na sala do brincar. Os índices para localização periférica
foram baixos, mas estiveram relacionados com a enfermaria e não estiveram
relacionados com a sala de brincar.
B) Quanto à apresentação dos objetos, no que se refere à quantidade,
nenhuma criança desenhou poucos objetos em quaisquer dos locais pesquisados.
54
Quanto ao tamanho, nenhuma criança apresentou objetos pequenos, nem grandes
em quaisquer dos locais pesquisados. O tamanho classificado como misto foi
predominante nos dados em todos os espaços. Quanto ao nível de elaboração, o tipo
simples foi mais utilizado na sala de brincar e na recepção e o nível de elaboração
complexo foi mais utilizado na enfermaria.
C) Quanto à utilização de cores, as crianças fizeram uso de mais de três
cores, principalmente na sala de brincar, seguido da enfermaria. Quanto à
intensidade, a classificação mista obteve os índices mais altos, em todos os espaços.
Todavia, quando surgiu a classificação intensa, os índices mais altos estiveram
relacionados com a enfermaria. Quanto ao preenchimento o estilo caprichoso teve
índices mais altos na sala de brincar.
Na interpretação dessas informações sugerem-se os seguintes pontos críticos:
Por que a ampla utilização foi mais presente na sala de brincar e a localização
periférica na enfermaria?
Por que o uso intenso (supondo-se uma maior pressão e força no uso do lápis)
das cores foi mais encontrado na enfermaria?
Por que o preenchimento caprichoso (supondo-se concentração relacionada
com descontração) foi mais encontrado na sala de brincar?
Por que os índices de elaboração complexa (supondo-se uma tendência para
ampliar e aprofundar informações) estiveram relacionados com a enfermaria?
Como foi apontado em outro momento, o encaminhamento dessa análise
dependeu, portanto, das respostas para essas questões. Nessa perspectiva, a análise
das narrativas, apresentadas a seguir, agregou informações para o alcance dessas
respostas.
7.2 Resultados da análise quantitativa das narrativas
No gráfico 2, apresenta-se a distribuição dos índices relacionados a aplicação
dos critérios na análise das narrativas, considerando-se os dados de todas as
crianças nos três espaços, ou seja, na enfermaria, na sala de brincar e recepção (no
55
apêndice B encontra-se a tabela referente ao gráfico 2). Para uma análise mais
detalhada, no apêndice D encontram-se tabelas e gráficos discriminando-se,
separadamente, os índices das narrativas de cada criança.
Gráfico 2 – Índices das narrativas (todos os participantes)
300
250
200
150
100
50
0
Quantidade de vocábulos Presença de vocábulos
significativos
Expansão
Reprodução
Bastante
Médio
Pouco
Longo
Médio
Curto
Enfermaria
Sala de brincar
Recepção
Relação
desenhonarrativa
Da distribuição dos índices no gráfico 2, referente a análise das narrativas de
todas as crianças, derivam-se as seguintes informações:
A) Quanto à quantidade de vocábulos, houve semelhança entre a
amostragem dos turnos curtos e longos, com uma pequena variação para mais, dos
turnos curtos. Foi observado também, que os maiores índices de produção de fala,
em todos os critérios, estiveram relacionados com a enfermaria.
B) Houve uma tendência para poucos vocábulos significativos. Não houve
uma diferença marcante da utilização de vocábulos significativos considerando os três
espaços.
C) O gráfico 2 não possibilitou uma boa visualização dos índices relacionados
a reprodução e expansão. Mas diante da relevância dessa forma de configuração dos
dados para a discussão sobre o potencial do autorretrato, optou-se por construir um
gráfico específico para esse item (gráfico 3).
56
Gráfico 3 - Expansão (todos os participantes)
Enfermaria
Sala de
Brincar
Recepção
O gráfico 3, possibilitou uma melhor visualização dessas configurações. A
partir dele sugere-se a predominância da expansão quando os participantes estavam
na enfermaria. Em outras palavras, a enfermaria foi o cenário para maior produção de
significados.
Da interpretação das informações derivadas da análise das narrativas
apresentadas no gráfico 2, sugerem-se os seguintes pontos críticos:
A) Por que as maiores situação de produção de fala estiveram relacionadas
no ambiente da enfermaria? (ver gráfico 2).
B) Por que foi também no ambiente da enfermaria onde as crianças
manifestaram uma maior quantidade de vocábulos significativos?
C) Por que foi a enfermaria o ambiente de predominância para as
configurações de expansão (embora se considere sua alta incidência também na
recepção)?
7.3 Respostas para os pontos críticos: Análise microgenética das configurações
dos dados
Foi propósito dessa pesquisa a não condução dos dados em busca de
relações de causalidade linear, nem a artificialização de situações para medição
fazendo-se uso de testes padronizados. Como já mencionado no início desse
trabalho, a proposta para análise dos dados foi a abordagem microgenética,
57
considerando
que
nessa
abordagem
se
procede
um
aprofundamento
das
configurações no detalhamento das relações travadas entre as diferentes formas de
organização dos dados.
Nessa perspectiva, o movimento para buscar respostas para as questões
apontadas nos pontos críticos encaminhou a uma interpretação fundamentada em
observações do senso comum, considerando-se que este se caracteriza por
experiências e observações reconhecidas pela maioria das pessoas. Em outras
palavras, as explicações para as observações caracterizadas como pontos críticos
foram apoiadas no conhecimento amplo que se tem das expressões de
comportamento naturais do ser humano; em situações sociais, em situações diversas
das experiências com o mundo, como por exemplo, comportamentos considerados
típicos para indicar quando uma pessoa se encontra em um nível de maior
espontaneidade, ou de maior concentração, ou tristeza, tensão, etc.
Considerando-se esses pressupostos do senso comum, sugere-se a
composição de uma situação de contraste entre a enfermaria e a sala de brincar, no
que se refere à localização do desenho das crianças. Relembra-se que na enfermaria
as crianças tiveram uma tendência para fazer o autorretrato na localização periférica
em contraste com a situação da sala de brincar, onde elas preferiram a localização
ampla. O que isso pode significar? Mais uma vez baseado nos pressupostos do senso
comum, essa localização ampla (mais presente na sala de brincar) pode significar que
as crianças encontravam-se em um nível de relaxamento e/ou espontaneidade maior.
É possível argumentar que, quando elas exploraram todo espaço do papel que lhe foi
oferecido significa que elas encontravam-se em uma situação de liberdade maior para
transitar pelo espaço, de explorar o papel para se colocar. Isso contrasta com a
situação em que elas se desenharam em situação periférica (mais presente na
enfermaria). Refletindo pressupostos do senso comum sugere-se que essa situação
periférica do desenho remete-se a uma experiência de maior constrangimento; supõese que as crianças se visualizaram com maiores impedimentos; como se não
tivessem conseguindo se movimentar livremente, e precisassem ficar mais contidas,
limitando suas vontades.
Mais uma vez ressalta-se que essa interpretação tem caráter hermenêutico,
tal como se prescreve no ciclo metodológico, de acordo com Valsiner (2012). Isto é,
trata-se preferencialmente de situações de produção de sentido do pesquisador
preterindo-se uma comprovação empírica a partir de relações de causalidade. Nesta
58
conduta hermenêutica e idiográfica desta pesquisa não se alimenta a pretensão de
universalizar informações, mas sim de explorar sentidos acerca dos dados que
estiveram envolvidos na pesquisa.
Contemplando os outros pontos críticos com a mesma forma de interpretação,
sugere-se que na medida em que a criança imprimiu mais força no seu desenho
quando estava no ambiente da enfermaria, ela utilizava-se de mais pressão e/ou
força. Contrastivamente, quando se tem uma tendência para elaborar mais, para
colocar mais detalhes e informação, desenhando no estilo caprichoso como
aconteceu na sala de brincar, isso pode refletir uma maior espontaneidade e
segurança experimentada neste ambiente. Novamente contrastando (para responder
aos pontos críticos) à elaboração complexa ocorreu mais no ambiente da enfermaria,
pois quando a criança se utiliza de maiores detalhes sugere-se que ela demonstrava
necessidade de informar muita coisa; ela produzia muita informação em seu
pensamento; em outras palavras, as crianças precisavam dizer muito no momento em
que faziam seu autorretrato (diferente do caprichoso, onde não há a necessidade de
informar algo, mas sim de ser cuidadoso), elas necessitavam produzir sentidos sobre
suas experiências e situações refletindo um ambiente onde possuem pouca
oportunidade para falar. Por essa razão, os autorretratos na enfermaria foram mais
detalhados (elaborados) e desenhados com mais intensidade (força impressa no
papel).
As explicações acima, nos encaminham para sugestão que a enfermaria foi o
espaço onde as crianças contiveram emoções (quando os autorretratos se
localizaram na periferia do papel). Neste ambiente, as crianças significaram medo;
talvez receio da dor (quando utilizaram o modo intenso, imprimindo maior
tensão/pressão na construção do seu autorretrato). Nos autorretratos produzidos, as
crianças revelaram que na enfermaria ocorre muita evocação de ideias e emoções
(pois foi neste ambiente que elas desenharam com maior complexidade e
detalhamento).
Da mesma forma como ocorreu o movimento para responder os pontos
críticos dos desenhos, sucedeu também para responder os pontos críticos das
narrativas, fazendo uso das observações do senso comum e das experiências da
pesquisadora.
Analisando-se os pontos críticos relativos a análise das narrativas, de
imediato foi possível fazer uma relação com as interpretações sobre os desenhos.
59
Quando nos perguntamos por que a maior produção de fala esteve relacionada com a
enfermaria, essa produção de fala encontrava-se conectada com a maior quantidade
de desenhos mais elaborados nesse ambiente, o que significa que as crianças
tiveram um maior fluxo de pensamento, uma maior quantidade de informação para
tratar, registrando esse processo nas suas narrativas.
O fato da maior quantidade de vocábulos significativos ter sido encontrada no
ambiente da enfermaria também agrega coerência a presente interpretação dos
dados. A maior presença de vocábulos significativos na enfermaria preenche e dá
mais coerência a informação, acerca da complexidade maior dos desenhos
produzidos nesse ambiente.
A indicação do predomínio das configurações de expansão no ambiente da
enfermaria é também um reforço às interpretações até agora construídas, na medida
em que quando as crianças acrescentam informações e/ou objetos que não
desenharam trata-se de situações de grande quantidade de informação produzidas,
semelhante ao que ocorreu quando tornavam os seus desenhos mais complexos,
com maiores níveis de elaboração, o que também foi indicado na enfermaria.
Considerando o propósito da abordagem microgenética dos dados, investiuse na verificação de algumas questões derivadas das configurações de expansão.
Expansão se trata daquelas situações quando as crianças falavam de coisas que não
estavam em seu desenho (como exemplo pode-se citar João, que no espaço da
recepção desenhou cadeiras da sala de espera, árvores do estacionamento,
máquinas de comidas que ficavam perto das cadeiras de espera, as paredes das
salas e ele, e na sua narrativa afirmou que estava jogando em seu tablet, mas nos
objetos que ele desenhou não existia tablet). Considerou-se que, convergiam para
situações de expansão informações relevantes para a pesquisa cujo propósito foi
investigar o potencial metodológico do autorretrato no estudo sobre o psiquismo
infantil.
Nesse momento das análises uma pergunta foi oportuna: o que realmente são
essas situações de expansão? O olhar modelado por essa questão possibilitou a
observação de que as situações de expansão foram constituídas com elementos da
experiência de vida de cada criança, o que foi chamado nessa pesquisa de elementos
ontológicos de cada participante.
A conduta metodológica seguinte foi fazer um levantamento dos aspectos
ontológicos configurados nas situações de expansão. As situações de expansão
60
nessa pesquisa foram configuradas durante o procedimento de construção de dados,
quando a criança já havia terminado o seu desenho e a pesquisadora perguntou se
ela gostaria de falar mais alguma coisa. Nessas ocasiões algumas crianças
acrescentavam, outras não.
No procedimento para análise das situações de expansão, a pesquisadora
confrontou
cada
objeto
desenhado
com
sua
narrativa
correspondente.
O
levantamento dos aspectos ontológicos de cada participante foi apresentado nos
quadros 1,2,3,4,5,6 e 7, correspondente para cada criança, colocados abaixo:
Quadro 1- Constituintes ontológicos das expansões (Ana)
ELEMENTOS
DESENHADOS (desenho
gráfico)
ENFERMARIA
SALA DE
BRINCAR
RECEPÇÃO
Metade da pia
Sabão
Papel toalha
Câmeras fotográficas
Brincos
Anel
As pestanas
Água caindo
Chapéu de são João
Ela
Irmã
Mãe
Pesquisadora
Mesa
Armário
Pia
Sabão
Papel de enxugar as mãos
Mesa
Folha de papel
Ela
Irmã
Mãe
Pesquisadora
Carro
Pista
Sol
Entrada dos carros
Coqueiro
Calçada
Árvore
Gramas
Planta
Ela
Mãe
Pesquisadora
ELEMENTOS
EXPANDIDOS
ASPECTOS ONTOLÓGICOS
Tirando self
Relato de que gosta de fotos e
mostrou fotos em seu celular
Não houve expansão
Declaração de que
estava sentada,
olhando, escrevendo
e desenhando.
Declaração que mãe
e pesquisadora estão
sentadas olhando as
paisagens.
Afirmou que em uma outra
internação nesse mesmo
hospital existia momentos com
profissionais para desenhar
Relatou que a mãe gosta de
sentar no “terreiro” para ficar
olhando o céu a noite.
61
Quadro 2 - Constituintes ontológicos das expansões (Maria)
ENFERMARIA
SALA DE
BRINCAR
RECEPÇÃO
ELEMENTOS
DESENHADOS (desenho
gráfico)
Poltrona
Cama dela
Pia
Rosa
Ela (deitada na cama e a
mãe dando uma rosa a ela)
Mãe
Enfermeira
Prato
Filtro
Tomada
Cadeiras
Mesa grande
Lixeiro
Ventilador
Outra mesa
Suporte para soro e
oxigênio
Ela
Médico aferindo a pressão
dela
Placa de trânsito
Lixeiro
“Pé de pau”(sic)
“Pé de árvore”(sic)
Ela (andando de bicicleta e
em outro momento o
médico aferindo sua
pressão)
Vestido
Calção e blusa
ELEMENTOS
EXPANDIDOS
Cama box
Aferição de pressão
ASPECTOS ONTOLÓGICOS
Referência à falta de conforto
na poltrona que a mãe dorme
Espera da enfermeira para
aferir a pressão
Não houve expansão
Não houve expansão
Quadro 3 - Constituintes ontológicos das expansões (Helena)
ELEMENTOS
DESENHADOS (desenho
gráfico)
ENFERMARIA
SALA DE
BRINCAR
RECEPÇÃO
Cama
Travesseiro
Ela
Mesa
“Uma menina da salinha”
(sic)
Baleia
Ela
Placa na parede
“Luz”(sic)
Pilastras
Uma menina
Ela
ELEMENTOS
EXPANDIDOS
Declaração de que
estava pintando
Declaração de que
estava pintando
Declaração de que
estava pintando
ASPECTOS ONTOLÓGICOS
No primeiro encontro (durante
a atividade lúdica introdutória)
criança afirmou que estava
com saudade de pintar e
desenhar
No primeiro encontro (durante
a atividade lúdica introdutória)
criança afirmou que estava
com saudade de pintar e
desenhar
No primeiro encontro (durante
a atividade lúdica introdutória)
criança afirmou que estava
com saudade de pintar e
desenhar
62
Quadro 4 - Constituintes ontológicos das expansões (João)
ENFERMARIA
SALA DE
BRINCAR
RECEPÇÃO
ELEMENTOS
DESENHADOS
(desenho gráfico)
Travesseiro
Dois bonecos
Cama
Controle da cama
Grades da cama
Ele
Médicos e
enfermeiros
Mesa
Pés da mesa
Som com TV
DVD
Caixa de brinquedos
Mesa
Lápis de cor
Gavetas
Folha
Cadeiras
Árvores
Máquinas
Parede
Ele
ELEMENTOS
EXPANDIDOS
ASPECTOS ONTOLÓGICOS
Não houve
expansão
Não houve
expansão
Relato de que
estava
jogando no
tablet
Em todos os encontros, quando
pesquisadora chegou ao hospital criança
estava jogando em seu tablet e várias
vezes relatou gostar muito do seu aparelho
Quadro 5 - Constituintes ontológicos das expansões (Mariana)
ENFERMARIA
SALA DE
BRINCAR
RECEPÇÃO
ELEMENTOS
DESENHADOS (desenho
gráfico)
Flor
Sol
Nuvens
Casa
Porta da casa
Árvore com frutas
Vestido
Ela
Lua
Estrela
Casa
Balões
Três corações
Armário com gavetas
Bola
Flor
Relógio
Ela
Sol
Placa de trânsito
Quadros
Placas
Flor
Árvores
Mato
ELEMENTOS
EXPANDIDOS
Declaração de que
estava pintando
Não houve
expansão
Não houve
expansão
ASPECTOS ONTOLÓGICOS
Relato de que é muito bom
pintar, mas que não pinta muito
em casa porque não tem folha
63
Pedra
Ela
Quadro 6 - Constituintes ontológicos das expansões (Luiza)
ENFERMARIA
SALA DE
BRINCAR
RECEPÇÃO
ELEMENTOS
DESENHADOS (desenho
gráfico)
Coração
Flor
Sol
Nuvem
Chuva
Gramas
Pedra
Ela
Mesa
Cadeira
Estrelas
Coração
Armário
Lápis de cor
Jardim
Ela
Mãe
Pesquisadora
Enfermeiras
Flor
Gramas
Ela
ELEMENTOS
EXPANDIDOS
ASPECTOS ONTOLÓGICOS
Declaração de que
estava tirando fotos
Pediu para ver fotos no celular
da pesquisadora e relatou
adorar fazer poses diferentes
para fotos
Declaração de que
desenhou o corredor
do hospital
Mãe relatou que a criança
gosta de ficar no corredor do
hospital conversando com a
equipe
Declaração de que
estava tirando foto
Antes da atividade ela estava
olhando fotos no celular com a
mãe
Quadro 7 - Constituintes ontológicos das expansões (Letícia)
ENFERMARIA
SALA DE
ELEMENTOS
DESENHADOS (desenho
gráfico)
Hospital
Símbolo do hospital
Porta do hospital
Árvores
Flor
Suporte do soro
Pepa
Boneca grande e boneca
pequena
Enfermeira
Nuvem
Sol
Cama
Coração
Ela
Casinha de brinquedo
ELEMENTOS
EXPANDIDOS
ASPECTOS ONTOLÓGICOS
Não houve expansão
Declaração de que
Criança relatou que adora ficar
64
BRINCAR
RECEPÇÃO
Mesa
Cadeira
Copo
Refrigerante
NÃO FOI POSSIVEL
REALIZAR ESSA ETAPA
estava brincando
com as panelinhas
na cozinha vendo a mãe
cozinhar
NÃO FOI POSSIVEL
REALIZAR ESSA
ETAPA
NÃO FOI POSSIVEL
REALIZAR ESSA ETAPA
A análise geral dos dados apresentados nos quadros de 1 a 7 suportam a
observação de que os aspectos ontológicos estiveram relacionados a 4 categorias: A)
Quando os aspectos ontológicos estavam ligados a acontecimentos fora do hospital
(Ex.“... é muito bom pintar, mas não pinto muito em casa porque não tem folha”;
Mariana, na enfermaria). B) Quando os aspectos ontológicos encontravam-se
associados a acontecimentos dentro do hospital (Ex. “Espera a enfermeira para aferir
a pressão”; Maria, na enfermaria). C) Quando os aspectos ontológicos eram ligados a
outras pessoas e não as crianças (Ex. “... a mãe gosta de sentar no terreiro para ficar
olhando o céu à noite; Ana, no espaço da recepção). D) Outros: quando não foi
possível associar a nenhum das categorias descritas (Ex. Em todos os encontros,
quando a pesquisadora chegou ao hospital, a criança estava jogando em seu tablet e
várias vezes relatou gostar muito do seu aparelho; João, recepção). Um levantamento
das frequências dessas categorias foi apresentado no quadro 8.
Quadro 8 - Categorias dos aspectos ontológicos
Ana
Fora do Dentro do
hospital hospital
1
1
Referente à
outra pessoa
1
Outros Total
0
3
Maria
0
2
0
0
2
Helena
3
0
0
0
3
João
0
0
0
1
1
Mariana
1
0
0
0
1
Luiza
0
1
0
2
3
Letícia
1
0
0
0
1
TOTAL
6
4
1
3
14
65
A leitura do quadro acima apresnta ambiguidades na interpretação das
configurações. Os aspectos ontológicos estiveram divididos entre acontecimentos
dentro do hospital e fora dele. Mas, explorando-se a abordagem microgenética,
reservou-se um olhar para situações de tensões observadas nos dados. Nessa
pesquisa foram consideradas tensões as reações características das crianças ao
confrontar o si mesmo desenhando e o si mesmo real.
Em outras palavras, as
tensões refletiram situações de estranhamento das crianças em decorrência da
configuração de uma fronteira entre seu corpo real e sua representação no papel.
Observou-se que essa experiência de fronteira impactou na produção de informações
sobre si mesmo. Ilustra-se, abaixo, uma situação de tensão configurada na narrativa
de uma das crianças na enfermaria:
Pesquisadora: Tá, então...fale sobre você nesse desenho.
RISOS DA CRIANÇA, SEGUIDO DE SILÊNCIO
Pesquisadora: Bora...
RISOS DA CRIANÇA
Helena: O tio não consegue, o tio
CRIANÇA FAZ REFERÊNCIA AO FISIOTERAPEUTA QUE ENCONTRA-SE
NA ENFERMARIA
Pesquisadora: Bora...
Helena: Eu “seio” não falar, eu vou fazer meu nome.
Pesquisadora: E você fez o que nesse desenho? Explique pra tia.
Helena: Hummm...
Nesse exemplo, pode-se observar que os sorrisos, e silêncio, foram recursos
interativos da criança para desviar-se da situação de fala, que, sugere-se naquela
ocasião não lhe foi possível. Como a própria criança verbalizou, ela não sabia o que
dizer para responder à questão da pesquisadora quando a fez pensar que ela mesma
(a criança) estava no desenho.
Na configuração dessas fronteiras detectaram-se alguns comportamentos de
hesitações e outros diferentes, elementos linguísticos e interativos que, nesta análise
foram chamados de marcadores de tensão.
Para esclarecimentos, as situações de tensão emergiram no momento de
finalização dos desenhos, quando a pesquisadora indagava se os desenhos
produzidos eram as crianças autoras, e se estavam parecidos com elas. Para essas
perguntas, houve respostas afirmativas sem inquietação, situações de dúvidas e
dificuldades de respostas por parte das crianças. No procedimento de análise dos
episódios de tensão, a pesquisadora identificou os marcadores de tensão. Os
66
episódios de tensão de cada criança registrados nos dados foram apresentados nos
quadros de 9 a 13, apontados abaixo:
Quadro 9 - Episódios de tensão (Ana)
MARCADORES DE
TENSÃO
LOCAIS
ENFERMARIA
Criança: Os cabelos eu fiz, os cabelos de antigamente que eram bem
grandes
Relação com o tempo
Pesquisadora: Só, e esse sorriso, é o teu?
CRIANÇA NESSE MOMENTO DÁ UM GRANDE SORRISO PARA
PESQUISADORA
RISOS DA CRIANÇA E DA PESQUISADORA
Pesquisadora: E o corpo?
Criança :Deixa eu ver, viu? É!
RISOS DA CRIANÇA
SALA DE BRINCAR
Não foram configuradas tensões
RECEPÇÃO
Não foram configuradas tensões
Quadro 10 - Episódios de tensão (Maria)
MARCADORES DE
TENSÃO
LOCAIS
ENFERMARIA
Desenhou-se duas
vezes
Pesquisadora: Ah tá. Aqui você tá fazendo o que?
Criança: Dormindo
Pesquisadora: Dormindo, e por que a enfermeira tá do teu lado?
Criança: É que ela vai medir minha pressão
RISOS DA CRIANÇA
Pesquisadora: E aqui você tá fazendo o que?
Criança: To acordada
Pesquisadora: Tá acordada, fazendo o que com sua mãe, que sua mãe tá
bem do lado?
Criança: Ela tá me dando a rosa
SALA DE BRINCAR
Não foram configuradas tensões
RECEPÇÃO
67
Criança: Aqui eu fiz o médico medindo minha pressão [...] Esse é o lixeiro,
esse aqui é pé de pau, esse aqui é pé de árvore, esse daqui esse e esse aqui
eu andando de bicicleta
Pesquisadora: Andando de bicicleta, ah tá...então aqui tem duas vezes você
nesse desenho, né?
Criança: É
Quadro 11 - Episódios de tensão (Helena)
MARCADORES DE
TENSÃO
LOCAIS
ENFERMARIA
Pesquisadora: Pronto?! Tá lindo seu desenho. É você?
(pausa longa)
Pausas longas
Risos;
Falar que não sabe;
Desviar a atenção;
Pesquisadora: Tá, então...fale sobre você nesse desenho.
RISOS DA CRIANÇA, SEGUIDO DE SILÊNCIO
Pesquisadora: Bora...
RISOS DA CRIANÇA
Criança: O tio não consegue, o tio
CRIANÇA FAZ REFERÊNCIA AO FISIOTERAPEUTA QUE ENCONTRA-SE
NA ENFERMARIA
Pesquisadora: Bora
Criança: Eu “seio” não falar, eu vou fazer meu nome.
Pesquisadora: E você fez o que nesse desenho? Explique pra tia.
Criança: Hummm
SALA DE BRINCAR
Não foram configuradas tensões
RECEPÇÃO
Não foram configuradas tensões
Quadro 12 - Episódios de tensão (Mariana)
MARCADORES DE
TENSÃO
LOCAIS
ENFERMARIA
Não foram configuradas tensões
SALA DE BRINCAR
68
Falar que não sabe;
Desviar a atenção;
Pausas longas;
Pesquisadora: Cadê você no desenho?
Criança: Mas ainda vou fazer...eu (pausa longa) Fazer eu depois um
coraçãozinho, só que o coração é vermelho, “amalelo” (criança já havia feito
seu autorretrato)
Criança: Eu vou fazer eu agora
Pesquisadora: Ah é, tem que ser você, parecida com você, né? E tu vai se
desenhar fazendo o que?
Criança: Ah, fazendo o que eu to e vou pintar a roupa que eu to
Pesquisadora: Sim, você vai tá desenhar, não entendi, você vai se
desenhar fazendo o que?
Criança: Eu vou desenhar, só que eu vou fazer um vestido
Pesquisadora: Sim, mas você no desenho vai tá fazendo o que?
Criança: Aii, aqui no vestido vai ser as listrinhas azuzinha porque não tem
alguma azul com branco? [...] “Apois”. Por isso que eu tenho que desenhar
eu mesmo (criança já havia feito seu autorretrato)
Pesquisadora: Diga aqui o que foi que você fez [...]
(pausa longa)
Pesquisadora: E você tá onde?
Criança: Aqui (gesticulando a cadeira onde ela estava sentada ao mesmo
tempo que havia seu autorretrato no papel)
RECEPÇÃO
Não foram configuradas tensões
Quadro 13 - Episódio de tensão (Luiza)
MARCADORES DE
TENSÃO
LOCAIS
ENFERMARIA
Não se percebe no
desenho
Criança: Eu fiz uma boneca
Pesquisadora: Isso é uma boneca ou é você?
MÃE: Tinha que desenhar você
Criança: Geralmente é uma boneca, que não se parece comigo
Pesquisadora: Não se parece com você?
Criança: Não
SALA DE BRINCAR
Não foram configuradas tensões
RECEPÇÃO
Não foram configuradas tensões
Não houve configuração de tensão nas narrativas de duas das crianças
participantes dessa pesquisa (Letícia e João). A análise microgenética das situações
de tensão configuradas nos dados dos demais participantes fomentou um forte
indicativo de que as tensões são situações bem específicas dessa pesquisa que teve
69
como propósito analisar o valor metodológico da ferramenta de autorretrato para
estudos sobre os processos psicológicos de crianças, pois foi observado nos dados
que a tensão é configurada em relação a propriedades do autorretrato, na situação de
transição entre o desenho e a pessoa.
Em uma análise geral das situações de tensão configuradas, foi possível
destacar que elas se fizeram mais frequentes nas narrativas das crianças com menos
idade. Uma provável explicação para essa configuração é o nível de imaturidade da
criança com os usos da linguagem. Essa interpretação apoia-se na forma como os
marcadores de tensão foram compostos nas narrativas das crianças com menor idade
(Helena e Mariana, as duas com seis anos de idade). Nos quadros 11 e 12, observase que os marcadores de tensão identificados nas narrativas dessas crianças foram
pausas longas, risos, desvio de atenção e expressões de ‘ não sei’, o que caracteriza
imaturidade dessas crianças para usar as palavras. Os marcadores identificados nas
narrativas das outras crianças participantes desse estudo foram associados a
questões de tempo, espaço e dificuldades para se perceber no desenho produzido.
Essas situações foram bem interessantes nessa análise, por tratarem-se de um
aspecto idiossincrático, fundamentalmente específico da organização dos dados,
diretamente relacionada com a situação de produção de um autorretrato.
70
8 DISCUSSÃO
A presente pesquisa teve como norteadora a seguinte pergunta: Qual o
potencial do autorretrato para fomentar processo de significação? Ao longo da
pesquisa foi possível perceber indicações de que esse potencial existe.
Essa
afirmativa se apoia nos dados; isto é, na observação que as crianças revelaram
grande produção de fala, principalmente com o uso de vocábulos significativos (que
nesse trabalho foi considerado a habilidade da criança em fazer uso de palavras
diferenciadas com o intuído de ser compreendida; essas palavras tiveram potencial
informativo e foram consideradas palavras nucleares na constituição dos turnos das
crianças). A presença dos vocábulos significativos evidencia e confirma, portanto, a
relação entre os processos de significação e a ferramenta de autorretrato; ou, dito de
outra forma, que os autorretratos produzidos nessa pesquisa, fomentaram os
processos de significação das crianças participantes dessa pesquisa.
Pode-se confirmar o potencial dessa ferramenta refletindo-se sobre uma
segunda questão, que foi assumida como um dos objetivos secundários dessa
pesquisa: Qual a relação entre os processos de significação emergentes durante
internação hospitalar e o funcionamento psicológico? Essa relação pode ser
amparada pela discussão tecida por Vigotski, ao afirmar que é no significado da
palavra que o pensamento e a fala são unidos e transformam-se em pensamento
verbal. Nas suas discussões, o significado é ação do pensamento tanto do campo da
linguagem como no campo próprio do pensamento (VIGOTSKI, 1991). Dito de outra
forma, é através da palavra que o ser humano pensa. Assim, a produção de
significados reflete experiências no mundo e se revela na relação entre
funcionamento psicológico e a linguagem.
Nessa pesquisa, essa relação entre significados e funcionamento psicológico
foi revelada nos dados e evidenciada em duas situações. Essas situações foram os
momentos em que as crianças expandiram seus autorretratos enquanto faziam sua
narrativa sobre eles e também nos momentos de tensão, quando a pesquisadora
provocou a criança a se contemplar em seu desenho.
A situação de expansão sustenta a relação entre significado e funcionamento
psicológico na medida em que na expansão pressupõe-se a experiência de self da
criança, já que nessa situação a criança é levada a pensar sobre sua vida e sua
história. Como foi visto nessa análise, nas situações de expansão as crianças
71
trouxeram aspectos ontológicos de sua história (ver quadros 1 a 7). Esses aspectos
ontológicos tratam-se de situações na vida das crianças que as interessaram, pois
elas resgataram em suas histórias informações para exemplificar suas experiências.
Dessa forma, a expansão mostrou as crianças agindo como pessoa de vontade que
seleciona alguns fatos de toda sua vida para informar sobre si mesma.
Nessa seleção, destaca-se a condição cronotópica (a unidade tempo-espaço),
forma como suas experiências de mundo são constituídas e organizadas. Isto é,
enquanto expandia seus desenhos nas narrativas, as crianças poderiam exercerem
um vínculo imediato com algo recém-acontecido; ou seja, a ação de refletir sobre o
desenho que acabara de produzir possibilitava que as crianças resgatassem
experiências passadas no presente imediato. Considerando-se esses pressupostos,
argumenta-se, que a situação de expansão proporcionou a organização do self das
crianças e nessa organização efetivou-se a relação entre significado e funcionamento
psicológico.
Além disso, este processo para selecionar e entrelaçar as experiências no
tempo, também atuou nas experiências de fronteiras do self (entre uma forma física e
desenhada) que se revelou, nos dadas como tensão. Nesse processo, que tem lugar
sempre em situações imediatas, na janela do presente, pressupõe-se atualizações do
self renovando experiências e antecipando expectativas de futuras experiências. Isto
é, nas situações de tensão, o self também foi exercido de forma ativa, entrelaçando
as experiências passadas (reflexões sobre si mesmo para o reconhecimento do
desenho de si mesmo) no presente. De acordo com Valsiner (2012) a significação
reflete a ação do self ao confrontar e discriminar as experiências no tempo. Dessa
forma a dinâmica do tempo (passado, presente e futuro) se traduz como essência
fundamental dos processos de significação e do funcionamento psicológico. Silva
(2016a e 2016b), reforçou essa observação, reafirmando a dinâmica do tempo como
constitutivas dos processos de significação e do funcionamento psicológico.
Nos dados construídos nessa pesquisa as tensões foram marcadas por
diferentes aspectos: Pausas longas na interação verbal, desvio da atenção, se
desenhar em dois lugares no mesmo desenho. Esse último aspecto pressupõe um
efeito da discriminação das experiências no tempo, na medida em que a criança
(Maria) antecipou possibilidades de suas experiências, ao se colocar, no mesmo
desenho, em dois diferentes lugares. As situações de tensões relacionadas com as
experiências de fronteiras emergentes nas narrativas das crianças acerca dos seus
72
autorretratos não foram esclarecidas por completo nessa análise. Defende-se que
trata-se de um processo que precisa ser mais explorado na busca por mais
informações sobre o potencial no autorretrato como metodologia para investigação do
funcionamento psicológico de crianças.
Outra questão dessa pesquisa foi discutir a apropriação dos espaços
hospitalares. Nos resultados dessa análise observou-se que as tensões emergiram
mais relacionadas com o ambiente da enfermaria. Sugere-se que essa observação
pode servir de justificativa para que as enfermarias sejam objeto de revisão, e passem
a serem ambientes planejados também para crianças. A expectativa é que incluam
nesses ambientes ferramentas capazes de minimizar o sofrimento e o medo presente
nas crianças que necessitam permanecer nesse local. Outra informação que
resultaram dessa análise, que justifica a necessidade do planejamento das
enfermarias foi a utilização periférica da folha de papel na confecção do autorretrato
que foram mais frequentes quando as crianças estavam na enfermaria.
A
interpretação para essas ocorrências foi que nesse ambiente as crianças precisaram
conter suas emoções e limitarem sua espontaneidade os seus movimentos,
funcionamento que entra em desacordo com características, amplamente conhecidas
da infância.
Outra informação apontada nos resultados desta pesquisa foi que a
elaboração mais complexa do autorretrato também foi mais frequente na enfermaria.
Na interpretação dessas ocorrências sugeriu-se que, nesses casos, a decisão das
crianças para colocarem mais detalhes nos desenhos pressupõe sua necessidade
para informar mais sobre si mesma nesse ambiente; quando estavam nesse ambiente
elas tinham muito a contar. Essa interpretação foi reforçada quando associada à
observação de que os usos de fala e os vocábulos significativos também foram mais
frequentes na enfermaria, confirmando, que nesse ambiente, as crianças pareciam
precisarem produzir muita informação. Naturalmente, produzir muita informação não
teria por si só uma conotação negativa. Entretanto, quando relacionadas com
observações cotidianas, registradas, sobretudo no diário de campo, é possível
sustentar que as informações construídas na enfermaria se destinavam a delação das
crianças de situações dolorosas as quais as amedrontavam. Essa interpretação tem
apoio em alguns acontecimentos. Por exemplo, durante uma das sessões para
construção dos dados, Helena (uma das crianças participantes) já havia iniciado seu
desenho e, repentinamente paralisou ao perceber a entrada de um profissional para
73
realização de procedimentos respiratórios na criança do leito ao lado. Helena além de
ficar paralisada, se escondeu atrás da folha que havia começado seu desenho,
apresentou lágrimas nos olhos e foi para o canto da sua cama e não mais respondeu
as perguntas que lhe foram dirigidas e retornou à atividade apenas quando o
profissional afirmou que não iria fazer procedimentos com ela naquele dia. Essa
mesma criança, no dia em que a pesquisadora foi realizar a atividade lúdica
introdutória, estava chorando muito, pois havia acabado de realizar os procedimentos
respiratórios, depois de conversas e diante da presença dos brinquedos levados para
atividade à criança foi se acalmando até querer participar da brincadeira.
Outro exemplo, também registrado no diário de campo, que apoia a
interpretação de que a maior produção de informação na enfermaria esteve
relacionada com as experiências dolorosas que lá são vividas, foi o caso de Ana. Ana
encontrava-se instável durante a realização das oficinas. Na saída para a realização
da oficina na recepção, a criança estava bem ansiosa, quando questionada pela
pesquisadora sobre o porquê de tanta ansiedade, ela respondeu que, como estava
com muita tosse e havia tido febre durante a noite, foi necessário tomar remédios na
veia e o profissional precisou furar muito seu braço; não conseguindo achar sua veia
ele precisou furar também sua mão; então ela estava com medo dele ir novamente
fazer esse procedimento, pois a febre havia voltado. Por essa razão ela queria muito
sair da enfermaria para que isso não ocorresse.
Destaca-se que a revisão desses aspectos possivelmente negativos que se
revelaram relacionados com a enfermaria precisa ir além da reestruturação física
desse ambiente. Há também a necessidade de se investir na formação de
profissionais para melhor compreenderem o desenvolvimento psicológico infantil.
Com esse conhecimento, eles poderiam ter uma melhor atuação durante
procedimentos dolorosos, utilizando-se de uma linguagem acessível à criança.
.
74
9 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa teve como objetivo a análise do potencial do autorretrato como
ferramenta metodológica para investigar os processos de significação em crianças
que estavam em situação de internação hospitalar. Na proposição desse objetivo,
assumiu-se também, como objetivo secundário, discutir-se sobre a adequação de
metodologias para estudo do funcionamento psicológico de crianças. Nessa direção,
reafirmam-se os investimentos de Vigotski para uma inovação metodológica quando
destacaram em seus estudos que as pessoas são ativas na produção de significados
e questionaram os métodos tradicionais que generalizam e universalizam os
resultados das pesquisas. Os investimentos para essa renovação são justificados
diante da dinamicidade com que se revelam os processos de significação, que não é
contemplada nos procedimentos para busca da causalidade linear que praticam a
artificialização dos dados.
A abordagem do autorretrato aqui desenvolvida como instrumento adequado
para o conhecimento do funcionamento psicológico, foi compatível com a abordagem
sócio histórica. Essa compatibilidade foi contemplada a partir da construção dos
dados, na união dos desenhos com as narrativas das crianças sobre seus desenhos.
Nesta união sustentou-se o potencial do autorretrato, o que não seria alcançado
utilizando-se apenas o desenho na folha de papel. Apenas com o desenho em mãos
não teria sido possível o acesso às questões de vida, da história dessas crianças.
Diante das informações construídas nessa pesquisa, ascendeu-se a
expectativa de que o uso do autorretrato como instrumento de pesquisa científica seja
explorado também em outros campos da psicologia, não ficando vinculado apenas
aos estudos com crianças.
Também como expectativa, ficou a necessidade de um olhar mais cuidadoso
para a estruturação física dos ambientes hospitalares, especialmente o que foi mais
destacado nessa pesquisa, a enfermaria pediátrica. Mas para além das questões
físicas, sugere-se também uma olhar cuidadoso e especial para formação da equipe
que vai estar com as crianças, um profissional que vai atuar com o público infantil
necessita de preparo e conhecimentos específicos sobre essa fase da vida.
75
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79
APÊNDICES
APÊNDICE A – Tabela da análise quantitativa dos desenhos (total das crianças)
Sala de
Enfermaria brincar
Disposição Espacial do Desenho
Quantidade
Apresentação dos
objetos
Tamanho
Nível de
elaboração
Variabilidade
Utilização das cores
Intensidade
Preenchimento
Recepção
Ampla utilização
3
6
4
Localização central
2
1
1
Localização periférica
2
0
1
Pouco
0
0
0
Médio
1
1
1
Muito
6
6
5
Pequeno
0
0
0
Misto
7
7
6
Grande
0
0
0
Simples
2
3
3
Complexo
5
4
3
Não utiliza cores
1
2
0
Utiliza cores
Utiliza mais de três
cores
Suave
2
0
3
4
5
3
1
1
1
Misto
3
4
5
Intenso
3
2
1
Insuficiente
2
1
2
Suficiente
2
1
3
Caprichoso
2
3
1
APÊNDICE B – Tabela da análise quantitativa das narrativas (total das crianças)
Quantidade de vocábulos
Presença de vocábulos significativos
Relação desenho-narrativa
Enfermaria
Sala de brincar Recepção
Curto
248
225
169
Médio
143
116
93
Longo
208
172
93
Pouco
141
130
81
Médio
89
80
79
Bastante
39
33
24
Reprodução 2
4
2
Expansão
3
4
5
80
APÊNDICE C - Tabelas e gráficos da análise quantitativa do desenho de cada criança
Ana
Disposição Espacial do Desenho
Quantidade
Apresentação dos
objetos
Tamanho
Nível de
elaboração
Variabilidade
Utilização das cores
Intensidade
Preenchimento
Enfermaria
Sala de
brincar
Recepção
Ampla utilização
Localização
central
Localização
periférica
Pouco
0
1
1
0
0
0
1
0
0
0
0
0
Médio
0
0
0
Muito
1
1
1
Pequeno
0
0
0
Misto
1
1
1
Grande
0
0
0
Simples
0
1
1
Complexo
1
0
0
Não utiliza cores
0
1
0
Utiliza cores
Utiliza mais de
três cores
Suave
1
0
0
0
0
1
1
0
0
Misto
0
1
1
Intenso
0
0
0
Insuficiente
1
0
0
Suficiente
0
0
1
Caprichoso
0
0
0
81
Maria
0
Sala de
brincar
1
1
0
0
0
0
0
0
0
1
0
1
0
0
1
0
0
0
0
1
0
1
0
0
1
0
0
0
0
1
0
1
0
0
1
0
0
1
1
1
0
0
1
0
0
1
0
0
1
0
0
1
0
1
0
0
0
1
Enfermaria
Disposição Espacial do Desenho
Quantidade
Apresentação dos
objetos
Tamanho
Nível de
elaboração
Variabilidade
Utilização das cores
Intensidade
Preenchimento
Ampla utilização
Localização
central
Localização
periférica
Pouco
Médio
Muito
Pequeno
Misto
Grande
Simples
Complexo
Não utiliza cores
Utiliza cores
Utiliza mais de
três cores
Suave
Misto
Intenso
Insuficiente
Suficiente
Caprichoso
Recepção
1
82
Helena
Enfermaria
Ampla utilização
0
Localização central 1
Disposição Espacial do Desenho
Localização
0
periférica
Pouco
0
Quantidade
Médio
1
Muito
0
Pequeno
0
Apresentação dos
objetos
Tamanho
Misto
1
Grande
0
Simples
1
Nível de
elaboração
Complexo
0
Não utiliza cores
0
Utiliza cores
1
Variabilidade
Utiliza mais de três
0
cores
Suave
0
Utilização das cores
Intensidade
Misto
0
Intenso
1
Insuficiente
0
Preenchimento Suficiente
0
Caprichoso
1
Sala de
brincar
0
1
Recepção
0
1
0
0
0
1
0
0
1
0
0
1
0
0
0
0
1
0
1
0
1
0
0
1
1
0
0
0
1
0
0
1
0
1
0
1
0
0
83
João
0
0
1
0
0
1
0
1
0
0
1
0
0
Sala de
brincar
1
0
0
0
0
1
0
1
0
1
0
0
0
1
1
0
0
1
0
1
0
0
0
1
0
1
0
0
1
0
1
1
0
0
Enfermaria
Ampla utilização
Disposição Espacial do Desenho
Localização central
Localização periférica
Pouco
Quantidade
Médio
Muito
Pequeno
Apresentação dos
objetos
Tamanho
Misto
Grande
Simples
Nível de
elaboração
Complexo
Não utiliza cores
Utiliza cores
Variabilidade
Utiliza mais de três
cores
Suave
Utilização das cores
Intensidade
Misto
Intenso
Insuficiente
Preenchimento Suficiente
Caprichoso
Recepção
1
0
0
0
0
1
0
1
0
1
0
0
1
84
Mariana
1
0
0
0
0
1
0
1
0
0
1
0
0
Sala de
brincar
1
0
0
0
0
1
0
1
0
0
1
0
0
1
1
1
0
1
0
0
1
0
0
1
0
0
1
0
0
1
0
0
1
0
Enfermaria
Ampla utilização
Disposição Espacial do Desenho
Localização central
Localização periférica
Pouco
Quantidade
Médio
Muito
Pequeno
Apresentação dos
objetos
Tamanho
Misto
Grande
Simples
Nível de
elaboração
Complexo
Não utiliza cores
Utiliza cores
Variabilidade
Utiliza mais de três
cores
Suave
Utilização das cores
Intensidade
Misto
Intenso
Insuficiente
Preenchimento Suficiente
Caprichoso
Recepção
1
0
0
0
0
1
0
1
0
0
1
0
0
85
Luiza
1
0
0
0
0
1
0
1
0
1
0
0
0
Sala de
brincar
1
0
0
0
0
1
0
1
0
0
1
0
0
1
1
0
0
1
0
0
1
0
0
1
0
0
0
1
0
1
0
0
1
0
Enfermaria
Ampla utilização
Disposição Espacial do Desenho
Localização central
Localização periférica
Pouco
Quantidade
Médio
Muito
Pequeno
Apresentação dos
objetos
Tamanho
Misto
Grande
Simples
Nível de
elaboração
Complexo
Não utiliza cores
Utiliza cores
Variabilidade
Utiliza mais de três
cores
Suave
Utilização das cores
Intensidade
Misto
Intenso
Insuficiente
Preenchimento Suficiente
Caprichoso
Recepção
0
0
1
0
1
0
0
1
0
0
1
0
1
86
Letícia
1
0
Sala de
brincar
1
0
0
0
0
0
1
0
1
0
0
1
1
0
0
0
1
0
1
0
1
0
1
0
0
0
0
0
1
0
0
0
1
0
0
0
0
0
Enfermaria
Disposição Espacial do Desenho
Quantidade
Apresentação dos
objetos
Tamanho
Nível de
elaboração
Variabilidade
Utilização das cores
Intensidade
Preenchimento
Ampla utilização
Localização central
Localização
periférica
Pouco
Médio
Muito
Pequeno
Misto
Grande
Simples
Complexo
Não utiliza cores
Utiliza cores
Utiliza mais de três
cores
Suave
Misto
Intenso
Insuficiente
Suficiente
Caprichoso
Recepção
87
APÊNDICE D - Tabelas e gráficos da análise quantitativa das narrativas de cada
criança
Ana
Quantidade de vocábulos
Presença de vocábulos significativos
Relação desenho-narrativa
Curto
Médio
Longo
Pouco
Médio
Bastante
Reprodução
Expansão
Enfermaria
24
25
23
18
18
5
0
1
Sala de brincar
16
5
12
8
6
3
1
0
Recepção
13
15
8
12
12
0
0
1
88
Maria
Quantidade de vocábulos
Presença de vocábulos significativos
Relação desenho-narrativa
Curto
Médio
Longo
Pouco
Médio
Bastante
Reprodução
Expansão
Enfermaria
22
6
7
12
4
2
1
0
Sala de brincar
24
7
9
10
7
2
1
0
Recepção
21
6
4
6
5
3
1
0
89
Helena
Quantidade de vocábulos
Presença de vocábulos significativos
Relação desenho-narrativa
Curto
Médio
Longo
Pouco
Médio
Bastante
Reprodução
Expansão
Enfermaria
62
15
22
9
15
22
0
1
Sala de brincar
45
12
11
8
4
1
0
1
Recepção
49
8
8
13
8
8
0
1
90
João
Quantidade de vocábulos
Presença de vocábulos significativos
Relação desenho-narrativa
Curto
Médio
Longo
Pouco
Médio
Bastante
Reprodução
Expansão
Enfermaria
25
14
8
11
3
2
0
1
Sala de brincar
31
21
9
20
12
1
1
0
Recepção
18
18
34
13
18
12
0
1
91
Mariana
Quantidade de vocábulos
Presença de vocábulos significativos
Relação desenho-narrativa
Curto
Médio
Longo
Pouco
Médio
Bastante
Reprodução
Expansão
Enfermaria
46
39
89
49
28
2
0
1
Sala de brincar
61
38
95
54
29
17
1
0
Recepção
47
26
29
26
21
1
1
0
92
Luiza
Quantidade de vocábulos
Presença de vocábulos significativos
Relação desenho-narrativa
Curto
Médio
Longo
Pouco
Médio
Bastante
Reprodução
Expansão
Enfermaria
21
13
14
9
10
3
1
0
Sala de brincar
32
30
35
23
20
8
0
1
Recepção
21
20
10
11
15
0
0
1
93
Letícia
Quantidade de vocábulos
Presença de vocábulos significativos
Relação desenho-narrativa
Curto
Médio
Longo
Pouco
Médio
Bastante
Reprodução
Expansão
Enfermaria
48
31
45
33
11
3
0
1
Sala de brincar
16
3
1
7
2
1
0
1
Recepção
0
0
0
0
0
0
0
0
94
ANEXOS
ANEXO A – Desenhos das crianças
Ana – Enfermaria
Ana – Sala de brincar
95
Ana – Recepção
Maria – Enfermaria
Maria – Sala de brincar
96
Maria – Recepção
Helena – Enfermaria
Helena – Sala de brincar
97
Helena – Recepção
João – Enfermaria
João – Sala de brincar
98
João – Recepção
Mariana – Enfermaria
Mariana – Sala de brincar
99
Mariana – Recepção
Luiza – Enfermaria
Luiza – Sala de brincar
100
Luiza – Recepção
Letícia – Enfermaria
Letícia – Sala de brincar
