Ana Paula Monteiro Rêgo - Autismo: Discurso médico e discurso análitico

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                    ANA PAULA MONTEIRO RÊGO

AUTISMO: DISCURSO MÉDICO E DISCURSO ANALÍTICO

Dissertação de Mestrado apresentada
ao Programa de Pós-Graduação em
Psicologia da Universidade Federal
de Alagoas, como requisito final para
obtenção do título de Mestre em
Psicologia.
Orientador: Prof. Dr. Charles Elias
Lang

MACEIÓ
2016

ANA PAULA MONTEIRO RÊGO

AUTISMO: DISCURSO MÉDICO E DISCURSO ANALÍTICO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Psicologia, Instituto de
Psicologia da Universidade Federal de Alagoas – IP/UFAL

Maceió, 14 de março de 2016.

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________________________________________
Prof. Dr. Charles Elias Lang, Universidade Federal de Alagoas
(Orientador)

_________________________________________________________________________
Profª. Drª. Edilene Freire de Queiroz, Universidade Católica de Pernambuco
(Examinadora externa)

_________________________________________________________________________
Prof. Dr. Jefferson de Souza Bernardes, Universidade Federal de Alagoas
(Examinador interno)

_________________________________________________________________________
Profª. Drª. Susane Vasconcelos Zanotti, Universidade Federal de Alagoas
(Examinadora interna)

À Manuela Fabrício (in memorian)
e às crianças e famílias que buscam
ser compreendidas como singulares,

DEDICO este trabalho.

AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus pais, minha maior referência de bravura e perseverança.
Ao meu marido, por tomar como seus todos os meus sonhos.
Aos meus filhos, razão de todas as minhas conquistas.
Aos demais familiares, que torceram para que eu conseguisse trilhar os
caminhos que me conduziram ao final desta jornada.
Aos meus amigos, por ouvirem, incansavelmente, os desabafos acerca das
pedras no caminho.
Ao meu orientador, Prof. Dr. Charles Elias Lang, que me favoreceu construir o
percurso que me levou ao final deste estudo. Grata pelas listas de indicações
bibliográficas que um dia me farão uma melhor profissional.
À Profª. Drª. Heliane de A. L. Leitão, que há muito me apresentou a pesquisa
em Psicologia e por me encorajar a participar deste programa.
À Profª. Drª. Susane V. Zanotti, que a partir da disciplina de Saúde, Clínica e
Práticas Psicológicas, tornou-se responsável por grande parte das referências
deste estudo. A ela também sou grata pelas correções feitas na primeira
apresentação deste trabalho.
Aos demais professores do curso de Mestrado em Psicologia da Universidade
Federal de Alagoas, por inquietarem a maior parte dos meus conceitos.
À Profª. Drª. Marta R. de L. D‘Agord, da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, por ter cedido, gentilmente, material de leitura e contribuído com
valiosos comentários ainda no inicio da construção deste.
Ao Prof. Ms. Almir Almeida de Oliveira, da área de Linguística da Universidade
Estadual de Alagoas, por ter sido o primeiro leitor deste trabalho e ter feito
considerações que ultrapassaram a proposta de uma correção gramatical. Mais
que um leitor atento, foi um amigo.
Aos meus colegas de trabalho, que não precisaram de trâmites formais para
colaborarem com a minha necessidade de dedicação a este trabalho. Grata por
dividirem o tempo deles com algumas das minhas atribuições. Mais que
amigos, foram irmãos.
O meu muito obrigado aos meus colegas de curso que se tornaram grandes
companheiros nesta batalha. A presença de cada um deles tornou essa missão
menos difícil.

A Deus, não o último a ser lembrado, mas que precisa estar no final por ser o
maior de tudo e de todas as coisas. O responsável pela força que habita em
mim, que me possibilitou a realização deste e que me permite continuar a
jornada.

Doce é a doutrina da Natureza;
Mas nosso intelecto sem cessar
Desfigura a forma e a beleza –
Matamos para dissecar.
William Wordsworth, “Virando a mesa”

RESUMO

Este trabalho investiga o lugar do autismo na história dos transtornos
psicopatológicos da infância e destaca a situação do autismo no cenário atual,
a partir da perspectiva médica e da perspectiva da psicanálise. Nos últimos
vinte anos, a incidência no número de diagnósticos de Transtorno do Espectro
Autista (TEA) aumentou em vinte vezes, estes números colocam o transtorno
dentro em condição epidêmica, o que justifica a crescente diversidade de
teorias e abordagens terapêuticas acerca do transtorno. Este estudo foi
desenvolvido a partir de uma metodologia de investigação teórico-qualitativa,
realizada a partir da leitura e releitura dos conceitos e leis das ciências médicas
que fundamentam o TEA, apresentada como o discurso médico, e das teorias
psicanalíticas lacanianas, que trouxemos como discurso analítico para
compreender o autismo. A teoria dos discursos de Lacan (1969/1970) foi
utilizada como principal referencial desta investigação e os pressupostos de
Laurent (2012, 2013, 2014) baseados nos fundamentos lacanianos para a
compreensão do autismo. Os resultados deste estudo apontam que quando o
autismo é perspectivado a partir do discurso médico, o psiquismo é reduzido ao
comportamento e há uma preocupação com o diagnóstico precoce para que os
pais possam treinar condutas consideradas adaptativas. O discurso analítico
permite que os sintomas autísticos sejam compreendidos como manifestações
psíquicas e uma via de acesso ao sujeito. Por um lado, esta duplicidade de
posicionamentos possibilita que as famílias que buscam assistência para
crianças com o diagnóstico de TEA recebam orientações antagônicas e tenham
dificuldades em compreender o que é o autismo. Por outro, a multiplicidade de
compreensão sobre o TEA garante que posicionamentos unilaterais não
atendem a singularidade dos casos de autismo. Por fim, nosso estudo
possibilitou legitimarmos o autismo numa pluralidade de compreensões, numa
verdadeira batalha.

Palavras-chave: Autismo; Psiquiatria infantil; Psicanálise.

ABSTRACT

This work investigates the place of autism in the history of psychopathological
disorders of childhood and stresses the autism situation in the current scenario,
from the medical perspective and the from psychoanalysis perspective. In the
last twenty years, the impact on the number of diagnostic of Disorder of Autism
Spectrum (TEA) was increased by twenty times, these figures put the disorder
in at epidemic condition, which explains the growing diversity of theories and
therapeutic approaches about the disorder. This study is developed from a
methodology of theoretical and qualitative research, carried out from the
reading and rereading of the concepts and laws of medical science underlying
the TEA, presented as medical discourse, and Lacanian psychoanalytic
theories, which brought as speech analytical to understand autism. The theory
of the discourse of Lacan (1969/1970) is used as the main reference of this
research and Laurent assumptions (2012, 2013, 2014) based on the Lacanian
foundations for understanding autism. The results of this study indicate that
when autism is envisaged from the medical discourse, the psyche is reduced to
the behavior and there is a concern with early diagnostic so that parents can
train behaviors considered adaptive. The analytic discourse allows autistic
symptoms are understood as psychic manifestations and an access road to the
subject. On the one hand, this duplicity placements allows families seeking
assistance to children diagnosed with ASD receive antagonistic guidelines and
have difficulty understanding what is autism. On the other, the multiplicity of
understanding about ASD ensures that unilateral positions do not meet the
uniqueness of autism cases. Finally, our study allowed legitimize autism a
plurality of understandings in a real battle.

Keywords: Autism; Child psychiatry; Psychoanalysis

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ................................................................................................. 10

1 METODOLOGIA DE RELEITURA EM PSICANÁLISE .................................. 16

2 OS DISCURSOS NA TEORIA LACANIANA ................................................. 26

3 DISCURSO MÉDICO, DISCURSO ANALÍTICO E AUTISMO ..................... 38

3.1 Os Sistemas de Classificação Legitimando o Discurso Médico .............. 45

3.2 O Autismo Fundado pelo Discurso Médico ............................................. 59

3.3 O Autismo Posto em Perspectiva pelo Discurso Analítico ...................... 84

CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 95

REFERÊNCIAS ................................................................................................ 98

10

INTRODUÇÃO

Essa pesquisa tem como tema o autismo no discurso médico e no
discurso analítico. Com esta investigação estamos buscando responder como
se funda o autismo a partir destes dois discursos.
O meu interesse em investigar o autismo não é recente, mas posso
datá-lo de um momento em que a inquietação em saber do sofrimento humano
era destituída de inquietação científica. Posso descrever esta minha
inquietação em compreender o humano como uma marca de identidade. Foi
esta mesma inquietação que me levou ao curso de psicologia, que norteou e
norteia a minha trajetória profissional.
No momento em que as normas acadêmicas obrigam-me a explicitar as
minhas justificativas para esta investigação, consigo visualizar, novamente,
questões não acadêmicas e muito remotas que principiaram o meu interesse
por este estudo. O meu primeiro encontro com crianças que apresentavam
uma ordem diversa no desenvolvimento deu-se enquanto eu era, também,
criança. Este contato possibilitou-me muitos questionamentos. Um deles ainda
presente: o que acontece a essas crianças?
Esta minha pergunta inicial não ambicionava a amplitude do meu
interesse com este estudo acadêmico, mas considero como semelhante em
sua essência: compreender o sofrimento psíquico que impossibilita crianças de
se desenvolverem em sua totalidade. As crianças que conheci na infância não
foram diagnosticadas como autistas e os pais explanavam que elas nasceram
portadoras de ―retardo mental‖. Só depois do curso de psicologia, consegui
compreender

que

aquelas

crianças

nomeadas

como

―retardadas‖,

apresentavam manifestações autísticas.
Uma delas tinha o diagnóstico de síndrome de Down e dificuldades
extremas de interação social. Passava o dia inteiro sentada na soleira de uma
porta, a repetir gestos e sons. Esta menina tinha, também, complicações
cardíacas, mas o médico considerava desnecessária qualquer intervenção,
pois sendo gravemente deficiente a morte seria bem vinda e lhe chegaria antes
da vida adulta. Nesta perspectiva, de que serviria um coração bom em uma

11

criança considerada ―nascida doente‖? Tanto as condutas repetitivas e quanto
o isolamento era justificado como em função da síndrome genética. A menina
faleceu no final da adolescência, após ter passado 18 anos numa rotina de
sons, movimentos estereotipados e extremo isolamento.
Outra criança, esta bem próxima do meu dia-a-dia, não tinha diagnóstico
genético e nem transtornos clínicos, apresentava ecolalias, movimentos
estereotipados, distúrbios do sono, agitação psicomotora extrema, dificuldades
de interação e outras condutas semelhantes aos pacientes autistas. Ficava em
um dos cômodos da casa por todo o dia, utilizava psicofármacos e não foi
submetida a nenhum tratamento que fizesse diminuir seus os sintomas. Ao
contrário, a cada ano os sintomas eram descritos como mais graves.
Atualmente, passa períodos em hospital psiquiátrico e outros períodos em
casa, no mesmo cômodo. A minha pergunta da infância ainda é a mesma: o
que houve com esta criança? O que poderia ter feito cessar o sofrimento dela e
de sua família?
Estas questões, que nasceram da minha vivência pessoal, foram buscar
respostas na graduação em psicologia, bem como, foram ser somadas a uma
série de outros questionamentos que ao longo do curso surgiram acerca do
autismo e das psicoses infantis. Durante o curso de psicologia, por vários
momentos, tive a oportunidade de estar com pacientes com diagnóstico de
autismo. E assim, as questões iniciais passaram a ser respondidas por
diversas posições científicas. Melhor dizendo, desde as minhas primeiras
leituras deparei-me com a multiplicidade de caminhos para se compreender o
autismo.
Por dez anos de atendimento em serviço privado e em serviços públicos,
tive a oportunidade de estar com crianças diagnosticadas com autismo e com
suas famílias. Frequentemente, os pais destas crianças apresentavam
inquietações a respeito de orientações recebidas por psiquiatras e neurologias
que divergiam de abordagens acerca do autismo, bem como, não foram
poucas as vezes que recebi textos impressos com ―novidades‖ sobre o
tratamento do autismo: dietas, medicamentos, técnicas de condicionamento,
etc. Também, tive oportunidade de discutir esses atendimentos com
profissionais

de

outros

setores

(fonoaudiologia,

terapia

ocupacional,

fisioterapia, professores) que solicitavam o uso de testes padronizados e

12

indicavam técnicas com ―respostas terapêuticas mais rápidas‖ que as de um
atendimento em psicanálise.
Concomitante à experiência clínica, iniciei atividades no ensino superior
em cursos nas áreas de educação e saúde, o que vem possibilitando leituras,
discussões e o constante levantamento de novas e velhas questões acerca do
autismo. A docência no ensino superior também permite a orientação de alunos
que estão atendendo pessoas com o diagnóstico de autismo ou que também
estão desenvolvendo pesquisas dentro do mesmo tema. Esses alunos
solicitam-me respostas sobre o autismo, promovem eventos científicos acerca
dessa temática e confrontam posições teóricas relacionadas ao assunto. Ou
seja, a docência favorece a atualização da minha questão de pesquisa: como
se constitui o autismo? Por que o autismo pode ser visto sob uma diversidade
de perspectivas?
Quem investiga o autismo encontra modelos diversos de apreensão
acerca da etiologia e patogenia do autismo. Estes modelos, também,
determinam concepções terapêuticas que, na maioria das vezes, são adotadas
com modalidades únicas de intervenção. Granã (1991, p.8) afirma que a partir
do olhar que o terapeuta enfoca, a problemática do autismo, a terapia indicada
―poderá se orientar, restritivamente, a um determinado escopo, num setting
particular, privilegiando uma função específica‖.
Atualmente, deparamo-nos com estudos que estabelecem o autismo de
acordo com a classificação da American Psychiatric Association1. Baseada
nesta classificação a pessoa com autismo é diagnosticada como portadora do
Transtorno do Espectro Autista – TEA (Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais-DSM, na sua quinta versão). Embasado por esta
perspectiva médica, o autismo é concebido como um transtorno do
neurodesenvolvimento irreversível que deve ser tratado a partir de técnicas que
favoreçam na redução dos sintomas autísticos. Os estudos baseados nesta
concepção médica têm influenciado todos os setores de atendimento à pessoa
com autismo e, mais gravemente, são determinantes na construção de uma
identidade alicerçada em critérios biológicos.

1

Associação Americana de Psiquiatria.

13

Há mais de cem anos, a psicanálise apresenta os sintomas de autismo
em seus casos clínicos. Antes de Kanner definir o autismo como uma síndrome
do contato afetivo em 1943, Melaine Klein, em 1929, já havia identificado
sintomas de autismo em um paciente de quatro anos. Depois de Klein, dentro
da própria psicanálise, o autismo foi investigado em diferentes perspectivas,
entre estas podemos citar: Mahler (1983), Bettelheim (1987); Winnicott (1983,
1997, 2002,); Tustin (1984,1990); Laznik-Penot (1991,2004); Jerusalinsky
(2011,2012); Rocha (2012); Tarufi (2003,2009)); Laurent (2012, 2013, 2014), e
outras. No entanto, a psicopatologia da psicanálise não se apresenta em
termos universais e nem biologicamente fundados. Logo, esse saber que
inviabiliza comparações de sua eficácia clínica, tem difícil comercialização e
determina que sua circulação se estabeleça de forma quase que restrita, ou
seja, entre estudantes e profissionais que trabalham orientados pela teoria
psicanalítica.
Queremos também destacar que as pesquisas que tratam o autismo a
partir do saber médico fazem referências negativas à psicanálise. Nestes
estudos, a psicanálise é mencionada como não oferecendo nenhuma ou quase
nenhuma melhoria na conduta do paciente e está sempre associada a algum
procedimento que se dá dentro de um ambiente fechado, sigiloso e que nunca
irá alcançar dimensões sociais e/ou educacionais, logo a pessoa com autismo
ainda enfrenta uma batalha clínica e conceitual.
Estas oposições teórico-clínicas relacionadas ao autismo são aqui
perspectivadas como o saber médico e o saber da psicanálise. Para Laurent
(2014), estamos diante da ―batalha do autismo‖. Esta batalha iniciou-se desde
o momento em que o autismo foi descrito pela primeira vez e, nos dias atuais,
vem tomando proporções bélicas por interesses mercadológicos.
Nesse estudo, interessa-nos compreender como o autismo é constituído
no discurso médico e no discurso analítico e, destacadamente, perspectivar o
autismo como estabelecido além de um transtorno; assim, estaremos
demarcando nossa presença nesta histórica ―batalha do autismo‖. Nos termos
lacanianos, interessa-nos o saber de senhor (1969-1970) representado pelo
discurso médico. E, como o autismo é compreendido quando o lugar do saber
é ocupado pelo próprio sujeito com autismo.

14

O desenvolvimento desta investigação se deu em quatro etapas. Na
primeira etapa, que corresponde ao nosso primeiro capítulo, METODOLOGIA
DE RELEITURA EM PSICANÁLISE, iremos discorrer sobre nossa metodologia
de estudo. Apresentamos, como recurso metodológico principal desta
investigação, a leitura e a releitura de textos a partir dos pressupostos teóricos
de Garcia-Roza (1993, 1994), Bastos (1994, 2009), Figueiredo (1999) e Lang;
Barbosa (2012, 2015). Neste capítulo, iremos apresentar as bases teóricas que
fundamentam este método de estudo. Este estudo pode ser definido como
estudo psicanalítico de cunho teórico e, nesta primeira etapa, demonstramos
de que forma nos utilizamos das leituras no decorrer da pesquisa.
Na segunda etapa, OS DISCURSOS NA TEORIA LACANIANA,
apresentamos os quatro discursos da teoria lacaniana: discurso do mestre,
discurso histérico, discurso analítico e discurso universitário. Pautamo-nos no
texto de Jaques Lacan, apresentado no O Seminário, livro 17, - O avesso da
psicanálise (1992[1969-1970]) e nos textos Os discursos e a cura (VEGH,
2001) e O psicanalista entre o Mestre e o pedagogo (RABINOVICH; COUTO
2001).
No terceiro capítulo desse estudo, DISCURSO MÉDICO, DISCURSO
ANALÍTICO E AUTISMO, apresentamos o autismo como um quadro
psicopatológico compreendido por perspectivas distintas, que determinam
posições e procedimentos diversos entre teóricos e clínicos.
Iniciamos

este

capítulo

trazendo

as

concepções

de

Lacan,

especificamente acerca do discurso médico em contraposição ao discurso
analítico. Utilizamos o texto O Lugar da psicanálise na medicina de Lacan
(1966) e a obra A ordem médica: poder e impotência do discurso médico de
Clavreul (1983), para evidenciar a aproximação entre o discurso do mestre
lacaniano e o discurso médico em contraposição ao discurso analítico.
Como primeira seção deste capítulo, Os Sistemas de Classificação
Legitimando o Discurso Médico, apresentamos a evolução dos sistemas de
classificação dos transtornos mentais, o uso destes diagnósticos pela classe
médica e não médica e questionamos os sentidos destas nominações para a
pessoa que passa a assumir uma identidade psicopatológica.
Na segunda seção deste terceiro capítulo, O Autismo Fundado pelo
Discurso Médico, situamos o autismo em cinco momentos: o início do emprego

15

do termo ―autismo‖; o autismo como uma descoberta de Kanner; como uma
rara patologia da infância; compreendido pelas primeiras teorias psicanalíticas;
e o autismo considerado como uma epidemia do mundo contemporâneo.
Finalizamos esta seção, apresentando as concepções de Laurent (2014) e as
ações instituições (Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública - MPASP,
da Escola Brasileira de Psicanálise - EBP da equipe do Centro de Pesquisa em
Psicanálise e Linguagem – CPPL) que questionam esse modelo médico que
tenta se apresentar como modelo universal no atendimento a pessoa com
autismo.
Na última seção deste capítulo, O Autismo Posto em Perspectiva pelo
Discurso Analítico, utilizamos como referencial teórico as concepções
lacanianas a partir de Laurent (2012, 2013, 2014) que apresenta a topologia
particular do espaço próprio do sujeito autista nas especificidades do objeto ao
qual está apegado, sendo este objeto apresentado como o que resta da pessoa
quando não articulada à linguagem. Laurent apresenta os trajetos pulsionais
da pessoa com autismo como ausentes e propõe uma hipótese relativa aos
circuitos do objeto articulados ao corpo por bordas de gozo.
Por fim, no quarto capítulo, apresentamos as nossas considerações
finais desta releitura acerca do autismo nestes dois discursos. Desejamos que
esta investigação possa favorecer teoricamente aos profissionais e aos
estudantes que se interessam pela temática do autismo e que possa ter
repercussões efetivas na clínica psicanalítica do autismo.

16

1 METODOLOGIA DE RELEITURA EM PSICANÁLISE

Este é um estudo qualitativo de cunho teórico que foi desenvolvido a
partir de uma metodologia de leitura. Nossa metodologia de investigação está
pautada nos trabalhos de Garcia-Roza (1993, 1994), Bastos (1994, 2009),
Figueiredo (1999) e Lang; Barbosa (2012).
Caracterizamos nossa pesquisa como um trabalho psicanalítico de
cunho teórico. Neste estudo, fizemos uma releitura dos conceitos e leis das
ciências médicas que fundamentam o autismo e de alguns textos que
constituem uma teoria psicanalítica acerca da constituição do autismo. Antes
de problematizarmos o que aqui nomeamos como pesquisa teórica em
psicanálise, consideramos necessária uma breve apresentação acerca de
como se constitui o saber em psicanálise.
Garcia-Roza (1993 p.118), ao discorrer sobre a pesquisa em psicanálise,
inicia seu texto com a afirmação de Lacan: ―não há metalinguagem‖. E, se
prolonga com a reflexão de que se não há ―metalinguagem, não podemos falar
sobre

o

inconsciente,

mas apenas deixar falar o

inconsciente‖. E,

imediatamente a esta afirmativa, apresenta a tese de que discurso psicanalítico
tem aversão ao discurso universitário.
Para fazer uma reflexão acerca da pesquisa acadêmica em psicanálise
percorremos essa tese de Garcia-Roza, a fim de esclarecer em quais
pressupostos teóricos nos debruçamos para definir e justificar a modalidade de
pesquisa que este estudo foi desenvolvido.
Lacan entre 1969 e 1970, ministrou os seminários que compõem o livro
17, O avesso da psicanálise, justificando esse avesso como ―uma retomada
pelo avesso‖ do projeto freudiano (p.10). Ele refere-se discurso a um discurso
sem palavras:

É que sem palavras, na verdade, ele pode muito bem subsistir.
Subsiste em certas funções fundamentais. Estas, literalmente,
não poderiam se manter sem a linguagem. Mediante o
instrumento da linguagem instaura-se um certo número de
relações estáveis, no interior das quais certamente pode
inscrever-se algo bem mais amplo, que vai bem mais longe do
que as enunciações efetivas [...] (LACAN, 1992, p.11).

17

Lacan (1992) apresenta a perspectiva do discurso como laço social,
como um modo de uso da linguagem como vínculo. Para Quinet (2012), os
discursos como laços sociais de Lacan estão em correspondência ao que
Freud nomeou como as profissões impossíveis: governar, educar e
psicanalisar. Eles são uma proposta de formalização dessas modalidades de
vínculo entre as pessoas.
Em O Avesso da Psicanálise, Lacan (1992) apresenta, após desenhar
as quatro fórmulas no quadro que lhe era disponível, o discurso do mestre, o
discurso da histérica e o discurso do analista e o discurso universitário, o
discurso que seria o organizador dos laços entre o sujeito, o Outro, o saber e o
objeto.
No discurso do analista é ao psicanalista demandado poder instituir o
suposto saber no analisando. [...] ―O que se espera de um psicanalista é, [...]
que faça funcionar seu saber em termos de verdade. É por isto mesmo que ele
se confina em um semi-dizer‖ (LACAN, 1992 p.55).
Na articulação do discurso universitário, o a (causa de desejo ou mais
gozar) está no lugar do explorado pelo discurso universitário, que é o
estudante. No discurso universitário, o saber inscreve-se no fantasma do saber
como totalidade.
Para Garcia-Roza (1993), na perspectiva lacaniana, há uma divergência
entre o saber do analista e o saber do universitário bem como, uma intrínseca
relação entre esses saberes. A análise se funda no saber do analista e a
pesquisa em psicanálise é fundamentada numa teoria, enquanto formação
discursiva, que possui regras próprias de constituição de objetos, conceitos,
temas, modalidades de enunciação, etc. Logo, a prática psicanalítica é
considerada uma prática específica e irredutível.

[...] O fato clínico, por si só, não é suficiente para conferir ao
discurso que o atravessa o estatuto de discurso psicanalítico.
Na verdade, a própria natureza de prática clínica é derivada de
uma teoria que a constitui e orienta. Essa teoria pode ser mais
ou menos elaborada, mais ou menos formalizada, mais não
pode ser inexistente [...] (GARCIA-ROZA, 1993, p.118).

18

Garcia-Roza (1993) considera que o que pode ser legitimamente
nomeado de discurso psicanalítico é o conjunto dos enunciados e suas
enunciações presentes sob a transferência na experiência clínica. E, aponta
para uma relação direta entre a pesquisa em psicanálise e a experiência
analítica. Mas também, afirma que a pesquisa acadêmica em psicanálise não
se restringe a reprodução da experiência clínica.
Para Garcia-Roza (1993), na universidade, a pesquisa em psicanalise é
constituída por uma pesquisa teórica. Este tipo de pesquisa submete a teoria
psicanalítica à uma análise crítica com a finalidade de verificar sua lógica
interna, a coesão estrutural de seus conceitos e as condições de sua
possibilidade.
Na pesquisa teórica apresentada por Garcia-Roza (1993), o trabalho do
pesquisador difere do trabalho do epistemólogo. Este último preocupa-se com
o rigor formal da teoria e estabelece uma conduta de reverência frente à teoria.
E, na pesquisa teórica, que aqui estamos apresentando, o pesquisador se
permite ultrapassar os limites do estabelecido na teoria e possibilita o
surgimento do novo.

[...] a justificação lógica de uma teoria exige um retorno aos
conceitos e leis que constituem o seu conjunto. Se uma teoria é
um discurso, isto é, um conjunto de enunciados que pretende
manter uma relação estrutural com o mundo empírico, ela tem
que submeter-se a uma lógica interna que defina a coesão de
sua estrutura conceitual (GARCIA-ROZA 1993, p. 119 grifo do
autor).

Uma pesquisa teórica objetiva percorrer e compreender o que dizem os
textos, favorecendo um retorno aos conceitos e leis que constituem uma teoria.
No Brasil, a pesquisa teórica em psicanálise na universidade passou a ser
reconhecida a partir do trabalho de psicanalistas que começaram a ocupar
cadeiras nas principais universidades e a investigar e divulgar as possibilidades
de realização de pesquisa em psicanálise na universidade.
Bastos (1994), para descrever estas possibilidades de investigação em
psicanálise, cita os registros dos 1º e o 2º Encontros de Pesquisa Acadêmica
em Psicanálise, realizados pelo Programa de pós-graduação em Psicologia
Clínica da PUC-SP, em 1991 e 1992. Para ele, foi relevante à contribuição

19

destes encontros para historiar através de suas atas, a voz de psicanalistas
brasileiros sobre as possibilidades de pesquisa em psicanálise. Destacou
nomes como: Birman (1994,1993 e 1991), Mezan (1994,1993), Garcia-Roza
(1994), Copit e Hirchzon (1993), Herrmann (1994), Rezende (1993) e Lino da
Silva (1993).
Para Bastos (1994), na universidade, o pesquisador depara-se com a
possibilidade de desenvolver uma pesquisa do tipo teórico ou uma pesquisa
experimental. Destaca que, dada à singularidade de seu objeto, a pesquisa em
psicanálise tem mais condições de se efetivar pela perspectiva teórica podendo
ser uma pesquisa de comentário ou uma pesquisa da releitura.
Bastos (2009) explanou, além destas, outras modalidades de pesquisa:
pesquisa de leitura transferencial, desenvolvida a partir dos textos produzidos
pela escrita psicanalítica que expressa a relação transferencial que
fundamental o atendimento clínico; pesquisa do tipo histórico e crítico, onde os
textos psicanalíticos são interpretados e problematizados; perspectiva estética
e semiótica, relacionada a perspectiva da teoria de campos em psicanálise e
pesquisa epistemológica, onde o pesquisador deve conseguir desvendar os
sentidos do pensamento do autor dos textos.
Todas essas modalidades citadas por Bastos (1994, 2009) apontam que
os estudos acadêmicos em psicanálise estão fundamentados em uma
metodologia teórica. A pesquisa psicanalítica realizada de forma teórica
favorece que a teoria psicanalítica investigada possa ser submetida a uma
análise crítica, ―visando à verificação de sua lógica interna e da estruturação de
seus conceitos‖ Lang; Barbosa (2015, p.124). Explanaremos as modalidades
de pesquisa teórica de comentário e da releitura para melhor definimos nossa
metodologia.
―A pesquisa teórica de comentário relaciona-se com o desenvolvimento
de um trabalho que tende à repetição e subscreve-se por uma forma menos
criativa de se lidar com o objeto‖. (BASTOS, 1994, p.18). Este tipo de pesquisa
teórica tem como objetivo passar do abstrato do texto ao suposto concreto do
discurso do comentário, não ambicionando dizer algo novo, mas apresentar o
texto a partir do comentário do próprio pesquisador.
Em psicanálise, as pesquisas-comentários são produzidas a partir da
leitura dos textos de grandes pilares da teoria psicanalítica, sem nada se

20

acrescer ao dito nestes escritos fundamentais, estas pesquisas apresentam a
preocupação de não dizer além do que está escrito nos materiais já escritos.
Para Bastos (1994), tanto na universidade como em instituições, muitas
investigações analíticas são desenvolvidas como pesquisa-comentário. Estas
pesquisas são consideradas como relevantes para o desenvolvimento e
divulgação das ideias psicanalíticas.
Garcia-roza (1993) acrescenta que na pesquisa-comentário, há um
retorno à teoria sob a forma de comentário e não há um discurso que produza
algo além do que já está posto no texto, algo novo. Desta forma, esta
modalidade de pesquisa teórica não expressa o que se pretende sob o título de
pesquisa acadêmica em psicanálise.
A pesquisa teórica de releitura parte do texto, mas não se reduz a ele. O
texto é problematizado visando novas tentativas de escritura. Segundo Bastos
(1994, p.19), não é repensado apenas a autoria do texto, como também a
questão de um pluralismo ímpar, no qual, dentro do próprio texto, o
pesquisador se depara com a descoberta de discursos singulares e com as
diferentes ordens do discurso. Podemos, novamente, trazer Garcia-Roza:

[...] fazer uma pesquisa de releitura do texto é tentar trabalha-lo
pelo seu aspecto polifônico, sem medo do acaso e do
acontecimento, observando o aspecto de textualidade, no
sentido de que é possível dialogarmos com a sua potência de
significante diante de múltiplos sentidos [...] (GARCIA-ROZA,
1993, p.19).

É apresentando as ideias de Garcia-Roza (1993) que Bastos (1994)
afirma que uma pesquisa teórica não está fundamentada em uma posição que
o pesquisador deva ter após a leitura do texto, essa forma de lidar com a leitura
na busca do conhecimento, descaracteriza este modelo de investigação, e
coloca em risco sua possibilidade de instrumento de pesquisa. A investigação
teórica de releitura deve possibilitar o entrelaçamento entre a potência do
significante e o discurso teórico fundamental.
Na releitura o pesquisador não se afasta das ideias centrais do texto e
nem perspectiva corrigir ou negar estas ideias. Bem como, o pesquisador não

21

impõe ao texto a suas próprias questões, mas tenta identificar as questões
propostas pelo texto.
Descreve Garcia-Roza (1993, p.120):

Há algumas décadas atrás, Jaques Lacan propôs um retorno a
Freud através de uma releitura dos seus textos. A proposta
guardava alguma semelhança com a dos epistemólogos:
tratava-se, em parte, de uma leitura purificadora cujo objetivo
era retirar a psicanálise dos desvios impostos pelo culturalismo,
pela fenomenologia e por outras leituras que, na opinião de
Lacan, deturpavam o projeto freudiano. Havia uma intensão
ortopédica na proposta lacaniana. Este era, porém, o objetivo
último do retorno a Freud. [...] tratava-se, antes de tudo, de ler
o texto de Freud como quem escuta a fala do analisando: não
colocando por ele nossas questões, mas procurando identificar
as suas (grifos do autor).

Garcia-Roza (1993), descreve o que considera como boas releituras dos
textos freudianos e pós-freudianos, não como recitativos textuais dos originais
ou redobramento especular dos textos de Freud com fins doutrinários, e sim
como produções a partir dos escritos freudianos, discursos. ―A releitura se
propõe não como reveladora, mas como transformadora, joga, sobretudo, com
a textualidade do texto, e não com a mesmidade do texto‖ (p.120, grifos do
autor).
Garcia-Roza

(1993,

p.120)

apresenta

o

termo

textualidade

considerando-o a ―potência do significante enquanto gerador de múltiplos
sentidos‖. E argumenta que este termo é empregado, sob várias perspectivas,
por autores como: Bakhtine, Perelman, Ducrot, Derrida. E, sintetiza a ideia de
textualidade como um apelo que o texto faz a novas tentativas de escritura.
Logo, se quisermos sintetizar o que já apresentamos sobre pesquisa
teórica de releitura em psicanálise, poderíamos apresentar três afirmativas: a
releitura é um método de investigação em que o pesquisador se utiliza de
textos para produzir conhecimentos, a pesquisa teórica de releitura não é um
método de leitura exclusivo da pesquisa em psicanálise e não seria qualquer
leitura que pode ser caracterizada como uma releitura.
Para Lang; Barbosa (2012) é imprescindível que o pesquisador tenha
claro como se utilizará dos textos para atingir os objetivos de seu estudo e que

22

se estabeleçam estratégias de leituras para se considerar a leitura um método
de investigação.
Lang; Barbosa (2012) sugerem que as estratégias de leitura que serão
utilizadas pelo pesquisador devem ser apresentadas no início da investigação.
Para eles, a descrição do método de leitura teria a mesma importância para um
estudo teórico que tem a descrição das etapas de investigação em uma
pesquisa empírica.
Lang; Barbosa (2012, p.89) entendem que:

[...] a pesquisa teórica deve ter seus protocolos de leitura,
implícitos e explícitos, que deve haver uma metodologia de
leitura. Não se pode deixar a pesquisa teórica como sinonímia
ou como pouco mais do que uma pesquisa bibliográfica, uma
revisão da literatura ou uma pesquisa eminentemente teórica
[...].

Como já mencionamos, na universidade, todas as investigações ou
partem de um estudo teórico ou o material teórico é o próprio objeto de
investigação (BASTOS, 2009). Neste estudo, também, faremos a leitura de
textos que nos apresentam o autismo no discurso médico e no discurso
analítico.
Para este estudo utilizamos as técnicas de pesquisa teórica em
psicanálise propostas por Bastos (2009). Para este pesquisador, uma pesquisa
teórica deve ser realizada em quatro etapas: leitura prévia ou exploratória,
leitura seletiva, leitura analítica e leitura interpretativa.
A primeira etapa desta investigação começou a ocorrer no segundo
semestre de 2014, quando começamos a selecionar e ler textos relacionados
ao autismo. E, para complementar esta etapa exploratória, em novembro de
2014, fizemos uma leitura exploratória dos materiais coletados a partir da base
de dados LILACS - Literatura Latino – Americana e do Caribe em Ciências da
Saúde2.

2

Acessamos esta base de

informações utilizando

descritores

Compreende a literatura relativa às Ciências da Saúde publicada nos países da América
Latina, do Caribe e região a partir de 1982. Disponível em: http://www.bvs.br

23

relacionados à nossa temática de investigação: autismo and psiquiatria e
autismo and psicanálise.
Encontramos cento e oito publicações entre 2000 e 2014. Nestas
publicações observamos os itens: folha de rosto, índice, referências
bibliográficas, prefácio e conclusões. Nosso objetivo era averiguar, dentre estes
textos, quais atenderiam aos objetivos de nossa investigação. Identificamos
publicações já indicadas pelo orientador desta pesquisa, outras já conhecidas
por nós, na integra, e muitas inéditas para nós.
Na segunda parte deste estudo, fizemos uma leitura seletiva, quando
selecionamos quais dos textos encontrados estariam, especificamente,
relacionados à nossa temática. Nesta etapa seletiva da leitura, fizemos a leitura
completa de alguns textos e de alguns capítulos de livros selecionados na
etapa anterior. Esta leitura seletiva possibilitou a definição do material que foi
utilizado nesta investigação. No entanto, posteriormente, acatamos na integra
as sugestões de leitura dadas pelos examinadores iniciais deste estudo e
alguns outros textos foram acrescentados.
A terceira etapa desta investigação correspondeu a uma leitura analítica
dos textos selecionados. Bastos (2009) descreve que ao final de uma leitura
analítica deveremos: conhecer os objetivos do autor com a publicação, a
relação da obra com outras publicações, as categorias utilizadas pelo autor, a
metodologia do estudo, a importância do estudo no campo em que este se
encontra inserido e, por fim, temos que conseguir ter uma compreensão ampla
do que foi lido, a ponto de podermos fazer uma avaliação crítica do material.
Por fim, realizamos a última, e mais complexa, etapa de leitura em
pesquisa teórica descrita por Bastos (2009), a leitura interpretativa. Esta fase
da investigação permitiu que a releitura fosse constituída efetivamente.
Turato (2013), quando apresenta a interpretação como recurso
metodológico de pesquisa, menciona a importância da interpretação por ela
possibilitar novas teorias e estabelecer novos conceitos e conhecimentos.
Apresenta o conceito de hermenêutica, como uma palavra que vem sendo
historicamente usada, no sentido da interpretação de textos filosóficos e
bíblicos, em especial do que traz como simbólico e finaliza apresentando a
desconstrução ―como uma atitude filosófica e um método peculiar de
interpretação‖ (TURATO, 2013, p.453).

24

Na desconstrução, há a inversão ou deslocamento da ordem de
concepções de um texto, busca-se significados escondidos ou subentendidos,
explicitando eventuais contradições dentro dele, fazendo o pesquisador falar de
sentidos que estariam além ou diversos aos intencionados do autor (TURATO,
2013, p.453).

As leituras desconstrutivas têm um parentesco com a
psicanálise. Estas leituras, em geral, assim como as
psicanálises (em particular), atêm-se às zonas marginais do
texto, às notas de pé de página, aos trabalhos pouco
relevantes, aos lugares comuns, aos jargões, aos florões, às
metáforas. Lugares em que a vigilância, o rigor e a atenção
consciente de quem escreve é menor. É desse modo, que o
marginal e o excluído são convertidos em centro, em que
centro e margem se manifestam em um único território: o da
textualidade (LANG; BARBOSA, 2015, p.135).

A desconstrução, como método de leitura e análise de texto, está
fundamentada nos caracteres originais da filosofia de Derrida3. Figueiredo
(1999), ao apresentar o que considera uma leitura próxima e desconstrutiva
como forma de leitura de textos psicanalíticos, faz considerações acerca de
interpretar e ler. Apresenta a interpretação de textos sendo possível dentro de
um

modelo

clássico

e

a

interpretação

numa

metodologia

contextualizadora/descontextualizadora e recontextualizadora.
O modelo clássico de interpretação coincide com o que apresentamos
anteriormente como uma leitura de comentário, uma leitura que objetiva
apresentar apenas o que estaria posto no texto, teria o compromisso de repetir
as teses do texto. Para este estudo, mais nos interessou o modelo proposto por
Figueiredo (1999), onde o texto é visto como um outro para si mesmo,
impossível de ser submetido a um exame empírico e que jamais poderia ser
reduzido a uma homogeneidade de sentido.
Nesta perspectiva, utilizamos uma leitura interpretativa de textos para
efetivar nossa pesquisa acadêmica. E, como mencionamos no início dessa
seção, o modelo de interpretação que utilizamos foi baseado nos critérios
3

Jaques Derrida, nascido em 1930, pensador-filósofo francês, de origem argelina. Em 1966,
em um Colóquio organizado pela John Hopkins University, sobre a controvérsia estruturalista,
contestou-se os fundamentos do estruturalismo. Nesta ocasião, os estudiosos de literatura se
deram conta da importância que suas ideias poderiam ter nos estudos linguísticos e literários.

25

referidos por Garcia-Roza (1993) e semelhantes à proposta de Figueiredo
(1999) e Lang; Barbosa (2012,2015).

26

2 OS DISCURSOS NA TEORIA LACANIANA

Neste capítulo, pretendemos apresentar as formas de laço social
propostas por Jaques Lacan no Seminário 17, O avesso da psicanálise (19691970). Este seminário é marcado pelos acontecimentos políticos e sociais da
França do final dos anos de 1960. A capa tem uma foto de um líder estudantil
da época, Daniel Cohn-Bendit, encarando um militar (CASTRO, 2009). Esta
foto foi feita por Gilles Caron (1939-1970), um fotojornalista especializado em
registrar manifestações políticas e cenários de guerra. Este fotógrafo registrou
a revolução de 1968 na França e conflitos em diversas partes do mundo como:
Oriente Médio, Vietnã, Chade, Irlanda do Norte, Camboja, etc. Seu último
trabalho, em zona de conflito, foi no Camboja em cinco de abril de 1970
quando faleceu4.
Caron é apresentado como um dos maiores fotojornalistas da primeira
metade do século XX, destacado pela realização de trabalhos fotográficos de
repercussão mundial o que lhe concebe reconhecimento até os dias atuais5.
Caron foi singular ao captar rostos humanos expressando as mais diversas
emoções em cenários de guerra, especificamente. Por isso, ficou conhecido
como o fotógrafo dos grandes conflitos. Após a realização de grandes
coberturas fotográficas, começou a voltar à câmara para si mesmo, ou seja,
virou a câmara para o lado contrário, para o avesso, e começou a questionar o
lugar de quem registra, de quem assiste a cena registrada. Essa posição de
Caron foi mencionada como um conflito interno, uma crise moral. Seus
questionamentos tiveram implicações sobre a vida profissional e pessoal deste
fotojornalista e, mais ainda, sobre o cenário político-social da época
(DESBENOIT, L. 2013).
A fotografia de Caron foi utilizada no Seminário 17 pela possibilidade de
representar registro de laços sociais; é uma imagem discursiva ou

4

Informações
acerca
de
Gilles
Caron
podem
ser
encontradas
em
<ttp://www.fondationgillescaron.org/actualites.html>
5
Em 21 de junho a 02 de novembro de 2014 ocorreu a exposição Gilles Caron, le conflit
intérieur, Château de Tours, Tours, na França para apresentar a relevância da obra de Caron.

27

representativa dos discursos sem palavras Lacanianos. Nada mais pertinente
que essa foto de Caron para apresentação do Seminário 17.
A ideia de laço social de Lacan ultrapassa a perspectiva da psicanálise
clínica e apresenta uma dimensão contemporânea das relações que se
estabelecem fora da clínica. A concepção de discurso como laço social
fundamenta-se em suas leituras de Max (O Capital) e Hegel (Dialética SenhorEscravo explicitada na Fenomenologia do Espírito). Explicitaremos alguns
destes fundamentos ao longo deste texto.
Lacan inicia a comunicação de novembro de 1969 na Faculdade de
Direito da Universidade de Panthéo, confirmando sua presença nas segundas
e terceiras quartas-feiras dos meses de dezembro, janeiro, fevereiro, abril,
maio e junho para as comunicações que comporiam o seminário XVII. Em
seguida, agradeceu aos que foram ouvi-lo e principiou narrando que dias antes
havia tido uma atitude considerada por ele como intempestiva. Iniciou esse
seminário com a narrativa desse evento. Contou que uma pessoa o abordou na
rua interessada em seus seminários; esta pessoa havia perguntado quando ele
retomaria seu seminário e ele respondeu a este questionamento com a
expressão: ―Aguarde e verá”. Lacan justificou que naquele momento estava
num certo estado de preocupação e que sua atitude fundava-se apenas em si
mesmo, nos seus excessos. (LACAN, 1969, p.10, grifos do autor).
Após o relato deste encontro, anuncia o título desse seminário: A
Psicanálise pelo avesso. Propondo uma retomada, ao avesso, do projeto
freudiano, a partir do qual buscaria ―distinguir o que está em questão no
discurso como uma estrutura necessária, que ultrapassa em muito a palavra,
sempre mais ou menos ocasional [...] é um discurso sem palavras‖ (LACAN,
1969, p.11).
Discursos de linguagem diferentemente de discursos de palavras, mas
um discurso sem palavras subsistindo em relações fundamentais. Sendo essas
relações subordinadas à linguagem, em que pela linguagem instaurariam
relações

fundadas

além

das

enunciações

efetivas.

Nestas

relações

fundamentais, definidas como de um significante com um outro significante, há
estruturas que determinam a emergência do sujeito (LACAN ,1969).
Segundo Vegh (1999), o conceito de discurso resolveria um erro do
próprio ensino de Lacan, pois:

28

A maneira como o conceito de desejo era colocado no início
conduziria a uma posição anarquista. O desejo, entendido
como desprendimento absoluto dos mandamentos do gozo do
Outro, levou muitos discípulos de Lacan e ele próprio, em
alguns de seus escritos, a supor que afirmar o desejo como
uma cifra singular, ímpar, implica uma impossibilidade absoluta
do encontro com o outro (VEGH,1999, p.12)

Pela primeira vez Lacan explicita que falar de desejo implica uma forma
de gozo que leva o sujeito ao encontrar-se com o outro e, encontrar-se com o
outro é aceitar uma perda do gozo. O sujeito situa-se nesta perspectiva do
desejo, do laço social, de um ato a dois. Sendo a posição dos sujeitos dentro
deste laço, o que caracterizaria o próprio discurso, esta posição dentro de um
laço social define o próprio discurso, pois indica o sujeito que fala, a quem fala
e, sobretudo, de que lugar fala.
Identificar a posição de um sujeito num laço social favorece a clínica
psicanalítica a demarcar o início de uma análise. E na clínica psicanalítica de
crianças, a análise se inicia quando é possível ser identificado quem é o
analisante (a mãe, o pai, ou a criança). A partir da palavra é determinada a
posição do analisante. (FLESLER, 2001)
Lacan, no início deste seminário, já apresenta a experiência analítica
como uma experiência de discurso e o discurso sendo um conceito organizado
em torno de quatro lugares (agente, outro, verdade e produção). Estes lugares
atendem a lógica de um quarto de giro e passam a representar a circularidade
dos discursos lacanianos. Para Rabinovich e Couto (2001) estes lugares são
quatro postos fixos, quatro significantes que circulam nesses mesmos postos e
que determinam, nesse movimento, a emergência da trama discursiva. Esse
movimento não se dá como escolha dos elementos dessa rede, cada
significante ocupa o lugar determinado pela configuração do próprio discurso.
Os quatros lugares:
agente

outro

verdade

produção

O agente é aquele que aparentemente organiza o discurso, domina o
laço social e determina a possibilidade de alteridade; o outro é aquele a quem o

29

discurso é dirigido, existe a partir do agente e pode ser descrito, também, como
a transmissão de um sentido de um sujeito a outro sujeito; a produção é como
o efeito ou resultado do discurso; e a verdade é como o posto que fundamenta
o discurso, lugar do semi-dizer, não pode ser totalmente dita, pois entre a
produção e a verdade há a interdição (//) e para além de sua metade, nada
pode ser dito (LACAN, 1969).

A verdade [...] é certamente inseparável dos efeitos da
linguagem tomados como tais. Nenhuma verdade pode ser
localizada a não ser no campo onde ela se enuncia como pode
[...]. Portanto, é verdade que não há verdadeiro sem falso, pelo
menos em seu princípio. Isso é verdadeiro [...] só se encontra o
verdadeiro fora de toda proposição. Dizer que a verdade é
inseparável dos efeitos da linguagem tomados como tais é
incluir aí o inconsciente (LACAN, 1970, p. 64-65).

Foi com as letras constitutivas do discurso, S1, S2, $ e a, que Lacan
apresentou os discursos, ou seja, na teoria lacaniana, a depender da posição
estrutural destes algoritmos, o laço social que eles representam pode ser
desvendado.
O S1 é o significante unário ou significante mestre, significante do gozo,
o traço que representa o sujeito sempre para outro significante e surge no
campo do Outro, ou seja, sendo o significante primeiro é o que identifica a
articulação da cadeia significante. O S1 representa o sujeito para o outro
significante, o S2 (LACAN, 1969).
O saber, S2, que liga os significantes em uma relação de rede, um
significante S1 com um significante S2. ―É o significante binário, vem do campo
do Outro, são as palavras do Outro, pelo qual o sujeito, antes de ser
representado por esse significante unário, desaparece sob o efeito de afânise
do S2, que são os significantes do outro‖ (VEGH,1999 p.18).
O $, sujeito marcado pela barra, sujeito da ordem simbólica, [...] ―dividido
por efeito da lógica do significante que foi descrita, dividida entre o saber e o
gozo‖ (VEGH,1999 p.18). Faz-se sujeito pela barra que o divide e o torna
sujeito desejante de um objeto perdido e que se faz objeto de desejo.
A letra a é lida como objeto a, ―mais gozar‖, objeto causa do desejo e
está relacionado com a repetição das fixações libidinais da psicanálise

30

freudiana em que no trajeto do quarto de giro, este objeto a é definido como
uma perda.

A parcialidade, como marca do objeto pulsional, faz com que
Lacan afirme que o conceito de pulsão em Freud é marcado de
ponta a ponta pela falta do objeto. O recurso para nomear esse
objeto faltoso que tem como função acionar o desejo é recorrer
à primeira letra do alfabeto: objeto a (JORGE; FERREIRA,
2011 p.29).

Lacan historia neste seminário sua concepção desse objeto a. Esse
termo teria sido introduzido por Lacan, em 1960, para designar o objeto
desejado pelo sujeito, que se furta a ele a ponto de não ser representável.
Lacan aponta como lógica dos discursos, os laços sociais entre o sujeito
e o outro e expressa essa lógica de forma algébrica através de matemas. Os
matemas são utilizados como recurso de transmissão desta lógica. ―[...] No
campo psicanalítico é uma tentativa de transmitir o real da estrutura que o
discurso suporta‖ (VEGH,1999 p.15).
Antes de apresentar a lógica dos matemas lacanianos discorreremos
como Lacan passou a usá-los para apresentar sua releitura psicanalítica.
A palavra matema foi proposta por Lacan em 1971 e não pertence ao
ramo da matemática, sendo criada a partir do mitema de Claude Lévi-Strauss e
do termo grego mathema (conhecimento). Lacan usou a loucura do matemático
Georg Cantor (1845-1918), apresentando-a como à própria incompreensão
matemática,

como

a

resistência

provocada

por

um

saber

julgado

incompreensível. Comparou seu ensino ao de Cantor: ―seria a incompreensão
em que esbarrava esse ensino um sintoma?‖ (ROUDINESCO; PLON,1998,
p.503).
Foi para responder a esta pergunta que Lacan concebeu o matema. Em
1972 e 1973, forneceu diversas definições dele, passando do singular ao plural
e, depois, do plural para o singular. Prioritariamente, definiu como decorrentes
do matema os quatro discursos com que havia organizado a lógica do
seminário que veio a ser chamado de O avesso da psicanálise de 1969, 1970.

[...] recusando-se a concluir pela separação dos incompatíveis,
tentou arrancar o saber do inefável e lhe conferir uma forma

31
integralmente transmissível. Essa forma é justamente o
matema, porém o matema não é sede de uma formalização
integral, uma vez que pressupõe sempre o resto que lhe
escapa. [,,,] o matema inclui os matemas, isto é, todas as
fórmulas algébricas que pontuam a história da doutrina
lacaniana e permitem sua transmissão [...] (ROUDINESCO;
PLON,1998, p.503).

No Seminário XVII, Lacan utilizou-se de quatro matemas para
representar os quatro discursos6. No princípio de cada encontro, registrava em
uma lousa as estruturas algébricas que seriam exibidas naquele dia para
discorrer a cerca da sua releitura dos conceitos teóricos e clínicos da
psicanálise freudiana.
Ainda no início do primeiro seminário, apresentou o discurso do mestre.
Depois, explanando um quarto de giro, lançou o discurso da histérica seguido
pelo discurso do analista. Neste primeiro momento, não apresentou o quarto
discurso, apesar de defini-lo com um discurso completamente atual, com o
argumento que se o mencionasse, imediatamente junto aos já referidos,
provocaria mal-entendidos.
No encontro seguinte, registrou os quatros matemas para se referir aos
discursos; cada matema sendo composto por quatro estruturas algébricas (a, $,
S1, S2). A partir de um dos discursos podem ser obtidos os outros três,
mediante a função um quarto de volta ou mudança de posição. Os discursos
ordenam-se em oposição pela circularidade desse movimento que os
caracterizam. Segue a representação dos quatros discursos feitas neste
encontro:

6

Em uma conferência em Milão, em 1972, Lacan menciona um quinto discurso, que teria sido
citado muito rapidamente no seminário de 1969-1970, o discurso capitalista. Neste,
contrariamente aos outros discursos, os termos não são isolados; há uma relação em cadeia
entre os quatro lugares. No discurso capitalista, o proletário é despossuído do saber e o senhor
desse discurso é o próprio capital. Lacan menciona este discurso, também, apoiando-se em
Hegel (precisamente na Dialética Senhor-Escarvo) e na leitura de Marx.(ZILIOTTO, 2004).
Neste estudo, trabalharemos, apenas, com os discursos apresentados por Lacan entre 19691970.

32

F1- Os quatro discursos (LACAN, 1969).

A circularidade não dá a nenhum dos discursos o status de ser mais ou
menos respeitável. Nesta trama não existe hierarquia, apenas singularidade.
Os discursos descritos por Lacan (1969) podem ser concebidos como a
releitura do axioma freudiano das profissões impossíveis: governar, educar e
psicanalisar. E, dessa releitura, Lacan apresenta uma quarta impossibilidade:
se fazer amado, que corresponde ao discurso da histérica.
Na escrita algébrica dos matemas que registram os quatro discursos
abaixo de cada letra há uma barra de divisão que escreve a operação de
recalque. Nos discursos cada sujeito de relação é sujeito do inconsciente; as
palavras destes sujeitos não dizem tudo, esse ser falante encontra-se castrado.
(VEGH,1999)
O discurso do mestre ou do senhor tem como aparato algébrico o S1, o
significante, a função de significante sobre a qual se apoia a essência do
senhor, o campo próprio do escravo, o saber, S2.

Fundamenta-se nos

testemunhos da vida antiga e cita o texto de Aristóteles, Política, para
considerar o escravo como uma função inscrita na família (Lacan,1969).

[...] O escravo de que fala Aristóteles está tanto na família
como no Estado, e ainda mais em uma que no outro. Está lá
porque é aquele que tem um savoir-faire, um saber fazer.
Antes de saber se o saber se sabe, se se pode fundar um
sujeito na perspectiva de um saber totalmente transparente em
si mesmo, é importante saber enxugar o registro do que é
originalmente saber-fazer (LACAN,1969, p.20, grifos do autor).

33

E sugere a leitura de Platão para os ouvintes daquele seminário para
que possam compreender que a filosofia designa ―[...] o roubo, o rapto, a
subtração de seu saber à escravaria, pela operação do senhor‖ (LACAN,1969,
p.20).
Para explicitar esse saber de senhor, Lacan (1969) arremete-se a Platão
e imerge na palavra episteme, definindo-a como a situação de colocar-se em
boa posição, posição que permite que o saber se torne um saber de senhor. A
função da episteme, especificada como saber transmissível, estaria sempre
tomada por inteiro das técnicas artesanais, dos servos; e o que estaria em
questão seria ―extrair sua essência para que esse saber se torne um saber de
senhor‖ (LACAN, 1970, p.21).
Lacan (1969) menciona que o saber do senhor tem duas faces do saber,
a primeira uma face articulada a esse saber-fazer, aparentado ao saber animal,
mas no escravo não está absolutamente desprovido desse aparelho que faz
dele uma rede de linguagem das mais articuladas. E a segunda face, o
aparelho articulado e que pode ser transmitido. O saber no discurso do mestre
é um saber que se opõe ao qualquer saber mítico, daí esse saber poder ser
assemelhado ao saber da ciência.
Para Lacan (1969), o discurso do mestre tem sua relevância frente aos
outros três discursos tanto por sua determinação histórica quanto por se
enunciar a partir de um significante que representa um sujeito para outro
significante. O lugar do outro é ocupado pelo escravo. E o trabalho deste
escravo constitui, invisivelmente, um inconsciente não revelado.
Podemos trazer o discurso do mestre como comportando uma verdade
oculta, sem com isso dizer que o discurso se oculte ou se esconda. ―[...] Há
algo comprimido, que é como uma sobreimpressão, algo que exige ser
desdobrado para ficar legível‖ (LACAN, 1970, p. 82).
No discurso do senhor, o saber tem seu lugar primordial no nível do
escravo. Esse escravo, representado pelo é aquele que sabe. Sabe, por haver
perdido o seu corpo que quisera conservar em seu acesso ao gozo. Produz o
objeto ―a‖, o mais-de-gozar,

34
[...] O escravo sabe muitas coisas, mas o que sabe muito mais
ainda é o que o senhor quer, mesmo que este não o saiba, o
que é o caso mais comum, pois sem isto ele não seria um
senhor. O escravo o sabe, e é isto sua função de escravo [...]
(LACAN, 1969, p.32).

Lacan (1969) apresenta como se articula a posição do escravo com
relação ao gozo, considerando que o mestre arrebata do escravo sua função
no plano do saber, sendo o gozo não apenas privilégio do mestre, mas também
do escravo. Estando este mestre reduzido a um único significante. Neste
discurso o $ está no lugar da verdade, como sujeito dividido, incompleto e que
não pode se fazer Um para o significante mestre.
Quando Lacan menciona o discurso histérico, não o faz num sentido
nosológico, mas refere-se ao discurso do analisante. Sendo a escuta deste
discurso do analisante, o inconsciente, o grande achado de Freud. O discurso é
concebido como histérico e o sintoma que solicita a interpretação é o
dominante deste discurso. Nas palavras de Lacan: ―[...] É em torno do sintoma
que se situa e se ordena tudo o que é do discurso da histérica‖ (LACAN, 1970,
p. 45).
No discurso histérico, a divisão do sujeito, $, encontra-se no lugar de
agente, agente que se apresenta com um sintoma a ser decifrado pelo outro,
S1. ―É nessa posição, de mestre, que ela tentará colocar e, em seguida, tirar o
analista quando demanda uma resposta dele‖ (COELHO, 2006).
Este discurso histérico guarda e preserva o impossível de se fazer
desejar. Foi na escuta do discurso histérico que Freud fundou a psicanálise e o
seu conceito central: o inconsciente. No lugar da produção é colocado o S2
fundando um saber, provocando a produção de um saber. O objeto a está no
lugar da verdade, da provocação do sujeito dirigida ao outro.

O que descobrimos na experiência de qualquer psicanálise é
justamente da ordem do saber, e não do conhecimento ou da
representação. Trata-se precisamente de algo que liga, em
uma relação de razão, um significante S1 a um outro
significante S2 (LACAN, 1969, p.30).

Na experiência psicanalítica, o saber é posto no centro e o analista toma
o lugar para desencadear o movimento de investimento do sujeito suposto

35

saber e favorecer a transferência, fazendo-se de causa do desejo do
analisante. ―[...] o que se espera de um psicanalista é [...] que faça funcionar
seu saber em termos de verdade. É por isto mesmo que ele se confina em um
semi-dizer‖ (p. 55).

A posição do psicanalista é feita substancialmente do

objeto a. O analista tem que representar o objeto a (LACAN, 1970).

[...] a psicanálise não se transmite como qualquer outro saber.
O psicanalista tem uma posição que eventualmente pode ser a
de um discurso. Ele não transmite um saber – não porque não
tenha nada a saber, ao contrário do que imprudentemente se
diz, isto é o que está posto em questão – a função, na
sociedade, de um certo saber, aquele que lhe transmitem. Ele
existe (LACAN, 1970, p.208).

O discurso do analista, através da associação-livre, faz emergir o
recalcado, provoca a queda do saber suposto, para que possa produzir outros
saberes ou dê um lugar diverso ao que já possui. O analista que está no lugar
do saber não possibilitaria a análise e o analista institui o analisante como
sujeito suposto saber, daí a transferência, a análise.
―[..] Se o analista trata de ocupar esse lugar no alto e à
esquerda que determina seu discurso, é justamente porque de
modo algum está lá por si mesmo. É lá onde estava o mais-degozar, o gozar do outro, que eu, na medida que profiro o ato
analítico, devo advir‖. (LACAN, 1970, p.55)

Podemos dizer que o discurso psicanalítico, que tem como objetivo a
produção do inconsciente, é exatamente o avesso do discurso do mestre. Ou
melhor, o contraponto do discurso do mestre é o próprio discurso analítico.
Lacan (1970) considera esses discursos em uma simetria e, no mesmo
instante, apresenta os contrapostos entre esses dois discursos; simetria não
em relação a uma linha ou plano, mas em relação a um ponto. E podendo esse
contraponto, ser obtido pelo arremate do discurso do mestre.
A disposição de, S1, S2, $ e a, apresenta a simetria em relação ―a um
ponto que faz com que o discurso psicanalítico se encontre precisamente no
polo oposto ao discurso do mestre‖, o mestre no lugar oposto ao lugar do
psicanalista (LACAN, 1970, p.93).

36

Ao final deste seminário, Lacan (1970) responde onde estaria à
impossibilidade no discurso analítico. Faz referência a consideração de Freud
de que psicanalisar é uma função impossível, destaca que todos os dias Freud
exercitava essa função, o que garante que a impossibilidade não estaria na
função, mas do ser do psicanalista.
O discurso universitário é apresentado como o discurso onde a ciência
se alicerça. Da mesma forma que o discurso do mestre, o discurso universitário
é um discurso de domínio. O S2 está no lugar do agente, o saber do mestre/
professor, baseado em grandes textos e teoria. ―O S2 tem aí o lugar dominante
na medida em que foi no lugar da ordem, do mandamento, no lugar primeiro
ocupado pelo mestre que surgiu o saber [...]‖ (LACAN, 1970, p.109).
Contrariamente ao discurso da histérica que é onde se produz o saber,
no discurso universitário o S2 ocupa o lugar de produto, dá-se a transmissão de
um saber. A formação dos estudantes depende de textos e do saber dos
mestres, o estudante é um sujeito barrado, $, incompleto, que precisará
recorrer ao saber do mestre. O S1 aparece no lugar da verdade que impõe a
busca continua pelo saber. ―É impossível deixar de obedecer ao mandamento
que está aí, no lugar do que é a verdade da ciência – Vai, continua. Não para.
Continua a saber sempre mais‖ (LACAN, 1970,p.110, grifos do autor).
Neste seminário de 1969/1970, Lacan ao expor os discursos está
propondo uma nova maneira de apresentar as estruturas clínicas e qualifica a
histeria como um modo de vínculo social. A procura por uma análise é
compreendida como uma demanda de análise. O analisando irá situar-se,
ignorando a razão de seu sofrimento, supondo a produção de um saber, S2
(COELHO, 2006).

O S2 é um conjunto de significantes que forma uma rede e essa
rede forma um saber, um saber sem sujeito. O inconsciente é
uma cadeia significante que não pertence a ninguém; o sujeito
só pode existir em relação ao Outro, que lhe é prévio. A
histérica procura um saber. De um lado ela quer saber, mas do
outro não quer chegar a saber, pois esse saber é sobre o gozo
(COELHO, 2006, p.118).

O gozo faz barreira ao saber, pois se chegasse as últimas
consequências na procura do saber, apareceria a castração do Outro, o

37

encontro com o objeto causa de desejo, a, e a angústia inevitável. Para Coelho
(2006), o objetivo maior do Seminário 17 é pensar sobre o quanto de saber é
preciso na experiência histérica para que esse saber possa ser questionado no
lugar da verdade.
Podemos finalizar trazendo o que Coelho (2006) destaca como as duas
maiores contribuições de Lacan com esse seminário de 1969/1970: o
aprofundamento da discussão sobre o objeto a e as implicações clínicas da
teoria dos discursos. ―A teoria dos discursos nos mostra que psicanálise é a
possibilidade de o sujeito mudar de posição frente ao Outro, recuperar sua
dignidade e ser infinitamente diferente do que é‖ (COELHO, 2006, p.119).

38

3 DISCURSO MÉDICO, DISCURSO ANALÍTICO E AUTISMO

Como mencionamos no início deste estudo, a possibilidade diversa e, às
vezes, até antagônica de compreender e tratar o autismo foi definida como
nossa linha de interesse para esta investigação. É acerca de um quadro
psicopatológico compreendido por perspectivas distintas, que determinam entre
os teóricos e clínicos, posições e procedimentos os mais diversos, que nos
propusemos investigar. Neste capítulo, apresentaremos como se constitui o
autismo a partir do saber das ciências médicas e do saber da psicanálise.
Iniciamos esta seção fazendo um comentário acerca de um vídeo sobre
autismo que tivemos oportunidade de assistir e que aqui pode ser mencionado
para perspectivar os caminhos que pretendemos percorrer neste estudo. Tratase de um vídeo que circula nas redes sociais e nos foi enviado por alguém7 que
conhece o autor deste, que é o pai de uma criança com diagnóstico de
autismo. O vídeo apresenta fotos e uma música que foi escrita e cantada por
este pai em homenagem a este filho. No vídeo, o pai menciona características
do autismo; apresenta a ideia de que a criança precisa de rotina para se
organizar e descansar8 e um refrão que, curiosamente, diz assim: ―não sei por
que você nasceu assim, só sei, só sei que você nasceu para mim‖9. Nesta
canção, o autismo é anunciado a partir do discurso médico, que nos interessa,
e revela as implicações desta perspectiva.
O encontro com um diagnóstico de autismo traz implicações para a
família e para o próprio paciente. A família passa a interpretar de maneira
diferente as condutas da criança10, logo a relação com este sujeito passa a ser
balizada pelo diagnóstico e, consequentemente, esta criança passa a se
perceber como tendo que atender a demanda desta nomeação. Não há mais
uma criança, há um autista que deve se apresentar ao mundo como todos os
7

Enviado por uma mãe de duas crianças com diagnóstico de autismo, sendo nestas crianças
diagnosticadas quadros diferentes (uma delas considerado mais severo e outro mais leve).
Essa mãe refere-se aos filhos como o meu Autista e o meu Asperger.
8
Terminologias que indicam que a criança é assistida no modelo cognitivo-comportamental.
9
Uma canção para Davi. Roberto Amorim de Menezes. Publicado em 16 de out. de 2015.
Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=xGBfyI_P4pY> Acesso em 20 de out. de
2015.
10
Referimo-nos à criança porque o diagnóstico de autismo, na maior parte dos casos, é dado
na infância.

39

outros emoldurados nesta categoria. O pai desse vídeo indicou que seu filho
apresenta as características de autismo estabelecidas nas classificações, que
segue orientações da terapêutica comportamental e que não há nada que se
possa fazer, além de amar o filho que ―nasceu assim‖. Podemos dizer que
estamos diante da força do discurso médico, e nos interessa, neste estudo,
apresentar um contraponto a esse saber.
O poder e a impotência do discurso médico foram amplamente
apresentados por Jean Clavreul em A ordem Médica: poder e impotência do
discurso médico em 1983. Clavreul (1983) apresenta o exercício da medicina
como sendo um discurso, discurso que se assemelha ao discurso do mestre
para Lacan. Caminharemos nesta perspectiva do discurso médico como
semelhante ao discurso do mestre de Lacan e com avesso deste discurso, o
discurso do analista, para apresentar a problemática do autismo.
Jorge (1983) em apresentação a edição brasileira da obra de Clavreul
(1983), menciona o texto de Freud Sobre a psicopatologia da Vida Cotidiana
(1970[1901]), como apresentando uma ruptura da psicanálise em relação ao
saber médico, assinalando a impossibilidade de considerar dentro do discurso
médico, uma psicopatologia do quotidiano.
Freud (1970[1901]) aponta que a natureza do objeto de investigação
inaugurado por ele, por si só, já se opõe ao saber médico. Nesta obra, Freud
apresenta, de forma redundante, inúmeros casos de esquecimentos, erros,
atos falhos, lapsos (fala, da leitura, da escrita), chistes, atos casuais e
sintomáticos, erros de memória e demais manifestações do gênero para
afirmar que, tanto quanto os sonhos, apenas pela via da análise esses
fenômenos podem ser desvendados.
Freud (1970[1901]) estava certo de que essas manifestações não seriam
resultados de estados patológicos de funcionamento dos processos psíquicos,
logo estes pacientes não seriam beneficiados por tratamentos médicos e sim,
analíticos. A apresentação destas manifestações pelo paciente durante o
tratamento analítico favoreceu Freud (1970[1901]) para que reafirmasse a
influência do inconsciente sobre a totalidade da vida consciente.
Lacan, em sua releitura da psicanálise freudiana, reafirma que o
discurso do analista é o avesso do discurso mestre. Comparando a
representação dos matemas do discurso do mestre e do discurso do analista,

40

podemos conferir essa ideia de avesso de Lacan (1992[1969-1970]) na figura
abaixo:

Figura 2 – O discurso do mestre e do discurso do analista

Para apresentar o autismo na perspectiva do discurso médico, vale
considerar que o diagnóstico de autismo é dado, na maior parte das vezes, por
categorias

especializadas

como

psiquiatras

ou

neurologistas.

Esses

profissionais ocupam o lugar do mestre, S1, e proferem o discurso da ciência
para obter a confiança do paciente. Ao mesmo tempo em que, quando
proferem esse saber de mestre mantém o paciente na posição do escravo de
seu saber,S2. A medicina invoca a ciência como sendo esta representante da
verdade.
Atualmente,

os

quadros

de

autismo

ainda

suscitam

diversos

questionamentos, apesar de há mais de setenta anos o autismo ser alvo de
pesquisas envolvendo diversos saberes, permanece sendo considerado como
um enigma a ser desvendado que atrai uma legião de investigadores. Logo,
faz-se objeto de desejo, também, para o médico.
Uma das formas que a medicina encontrou de dominar a realidade do
autismo é nominá-la e categorizá-la por sua ordem a partir de sistemas
diagnósticos. De certa forma, o autismo encontra-se enquadrado dentro desse
saber, mas ainda não deixou de ser objeto de seu interesse, pois, ainda, há
muito que ser desvendado e apresentado pela ótica dessa ordem médica.
Como já mencionamos, o autismo ordenado pelo saber médico, é
apenas uma das possibilidades de compreensão. A tentativa de encerrá-lo
neste discurso é tão frágil, quanto à tentativa histórica de se encerrar a
discussão acerca de qualquer outro sofrimento psíquico por este saber.
Antes de apresentarmos, especificamente, o autismo como fundado no
discurso médico e, ainda, também, mantido neste discurso, explanaremos o

41

que aqui compreendemos como discurso médico e as implicações deste
discurso nos quadros de sofrimento psíquico de uma maneira geral.
Para Clavreul (1983, p.119):

O desejo do médico tem por objeto a doença, porque é esta
que o constitui como tal. Mas é o discurso médico que constitui
a doença como causa. Causa do sofrimento do doente e a
causa da intervenção do médico. O efeito está na repercussão
do homem doente enquanto homem [...] aí esta o efeito do
discurso médico.

Médico é o sujeito que sabe, em oposição ao analista que ocupa o lugar
de sujeito suposto saber (SsS). A ciência visa a fundar a realidade do objeto,
logo o objeto a, na fórmula do discurso do mestre está no lugar do produto. O
doente se apaga, enquanto indivíduo, e o médico, enquanto pessoa, também
se apaga diante das exigências do seu saber. [...] ―A relação ―médico-doente‖,
é substituída pela relação ―instituição médica-doença‖ [...] (CLAVREUL, 1983,
p.49).
O único sujeito do discurso médico é o próprio médico, ele o anuncia.
Esta enunciação se faz em sua prescrição e em seu prognóstico afirma sua
posição de saber neste laço social. O médico ―[...] anuncia o futuro e, pelo fato
mesmo de constituí-lo, contribui para criá-lo. [...] modifica o curso da doença,
mesmo fora de qualquer intervenção [...], pois modifica a relação do doente
com sua doença‖ (CLAVREUL, 1983, p.96).
O médico ocupa o lugar do sujeito do saber e o de objeto do desejo do
doente numa relação transferencial. O desejo dirigido ao médico se confunde
com o desejo que o paciente tem de se ―apropriar de seu saber ou, antes, dos
benefícios desse saber [...]‖ (CLAVREUL, 1983, p.115). O objeto para o médico
é a doença, porque ele constitui-se como tal. O diagnóstico médico aprisiona o
doente nesta relação, colocando-o no lugar de servo desse mestre. O médico
abre mão de sua subjetividade e também da de seu paciente.
Se em algum momento do contato do médico com seu paciente esta
subjetividade insurgir, podemos considerar que o tratamento médico já tenha
sido interrompido, pois este médico se encontrou com a pessoa do doente e
não com a doença. Diferentemente do discurso analítico, onde a condição

42

primordial para que se dê uma análise seja a existência de uma relação
transferencial.
O conceito de transferência foi introduzido por Freud e Ferenczi entre
1900 e 1909, para nomear um processo constitutivo do tratamento psicanalítico
mediante o qual ―os desejos inconscientes do analisando concernentes a
objetos externos passam a se repetir, no âmbito da relação analítica, na
pessoa do analista, colocando na posição desses diversos objetos‖
(ROUDINESCO; PLON, 1998, p.767).
A transferência como instrumento de cura no processo psicanalítico foi
apresentada por Freud na ocasião da análise de Dora, em 1905, sendo este
um dos principais instrumentos da clínica psicanalítica e o que a difere de
qualquer outra modalidade de terapêutica (ROUDINESCO; PLON, 1998).
Em 1909, Ferenczi considerou que na análise, o paciente colocava
inconscientemente o terapeuta numa posição parental e Freud, na mesma
época, em sua exposição da análise de um caso de neurose obsessiva 11,
considerou os sentimentos inconscientes do paciente para com o analista como
manifestações de relação recalcada com as imagos parentais (ROUDINESCO;
PLON, 1998).
Em 1912, Freud escreve texto exclusivamente dedicado à transferência,
A dinâmica da Transferência, e distingue a transferência positiva, feita de
ternura e amor, da transferência negativa, carregada de sentimentos hostis e
agressivos e transferências mistas, que reproduzem sentimentos ambivalentes
da criança em relação as figuras parentais (ROUDINESCO; PLON, 1998). Em
Mais-além do princípio de prazer, em 1920, Freud relacionou a transferência ao
complexo de Édipo e concluiu que a neurose original era substituída, na
análise, pela neurose de transferência. Em Dois Verbetes de enciclopédia: (A)
Psicanálise, (B) Teoria da Libido, ele afirma que a relação transferencial é o
que permite que a análise aconteça (ROUDINESCO; PLON, 1998).
Lacan, em sua releitura do Caso Dora, Intervenções sobre a
transferência (1951), definiu a relação transferencial como uma sequência de

11

Freud, S. (1909). Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva/ Caso do Homem dos Ratos

43

inversões dialéticas, onde essas inversões favoreceriam que o analisando se
posicionasse em direção à verdade (ROUDINESCO; PLON, 1998).
Em 1953-1954, em O Seminário, livro 1, Os escritos técnicos de Freud,
Lacan apresenta o percurso dado por Freud ao conceito de transferência,
Ubertrangung, [...] ―Os melhores sonhos que nos traz Freud, os mais ricos, os
mais belos, os mais complicados, são os que ocorreram ao longo de uma
análise e tendem a falar do analista‖ (Lacan, 1993[1954],p.279).
Em O Seminário, livro 2 de 1954-1955, O eu na teoria de Freud e na
técnica

da

psicanálise,

Lacan

(1995[1955],p.311)

descreve

sobre

a

transferência:
Durante toda a duração da análise, mas unicamente com a
condição de o eu do analista aceitar não estar aí, unicamente
com a condição de o analista não ser um espelho vivo, porém
espelho vazio, o que se passa, passa-se entre o eu do sujeito –
é sempre o eu do sujeito quem fala, aparentemente – e os
outros. O progresso todo da análise consiste no deslocamento
progressivo desta relação, que o sujeito, a todo momento, pode
apreender, para além do muro da linguagem, como sendo a
transferência, que é dele e onde ele não se reconhece [...] A
análise consiste em fazê-lo tomar consciência de suas relações
não para com o eu do analista, mas para com todos estes
Outros, que são seus verdadeiros fiadores, que respondem por
ele, e que ele não reconheceu. Trata-se de o sujeito descobrir
progressivamente a que Outro ele verdadeiramente se
endereça, apesar de não sabê-lo, e de ele assumir
progressivamente as relações de transferência no lugar onde
está, e onde, de início, não sabia que estava.

Lacan (1995[1955], p.311) refere que ao final da análise, o sujeito deve
estar com a palavra, ―e entrar em relação com os verdadeiros Outros‖. Em
1960-1961, em um seminário dedicado à transferência, Lacan considerou o
desejo do psicanalista como capaz de esclarecer a verdade do amor
transferencial. Em 1961-1962, no seminário dedicado a identificação, traz a
transferência como a materialização de um engano onde o analisando coloca o
analista no lugar de um saber absoluto, ou como o sujeito suposto saber (SsS)
(ROUDINESCO; PLON, 1998).
No Seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise,
Lacan trás a transferência como um destes conceitos, juntamente com os
conceitos de inconsciente, repetição e pulsão; neste seminário definiu a

44

transferência como a encenação da realidade do inconsciente possível através
da experiência analítica (ROUDINESCO; PLON, 1998).
Em o Lugar da psicanálise na medicina (2001[1966], p.32), Lacan
afirma:
[...] Se o inconsciente não é uma coisa monótona, mas ao
contrário uma fechadura tão precisa quanto possível e cujo
manejo não há nada além de não abrir quilo que está além de
uma cifra da maneira inversa de uma chave, esta abertura só
pode servir ao sujeito em sua demanda de saber. O inesperado
é que o próprio sujeito confesse sua verdade e a confesse sem
sabê-lo.

Quando uma pessoa procura um médico não quer dizer que esta pessoa
esteja procurando a cura. O paciente põe à prova o saber médico como via de
modificar sua condição de doente, já que está condição de estar doente pode
apenas ser modificada, mas não abolida. Muitas vezes, o paciente necessita
que o médico autentique sua doença ou o mantenha bem instalado nela.
(LACAN, 2001[1966]). Muitos pacientes ao melhorarem de um quadro clínico
apresentam novas queixas clínicas, pois o adoecer é a via de manifestação
destes sujeitos. Mesmo movimento se estabelece em um ambiente familiar,
quando um elemento da família manifesta sinais de melhora, outro elemento
daquele meio familiar adoece. A doença é uma via de manifestação daqueles
sujeitos, em tempos diferentes.
Lacan (2001[1966], p.11) interroga a estrutura da falha que existe entre
a demanda e o desejo. Sugere o termo epistemo-somática para assinalar ―o
efeito que terá o progresso da ciência sobre a relação da medicina com o
corpo. [...] a situação da medicina é subvertida a partir de fora [...]‖. E o que é
excluído da relação epistemo-somática é o que o corpo em seu registro vai
propor à medicina.
O discurso médico constitui os signos em significantes, e de sua
ordenação se extrai uma significação, que é a existência de uma doença. A
realização de um diagnóstico é um ato de mestre. Neste ato os sinais clínicos
ou signos apresentam uma doença ao médico e o médico, por sua vez,
considera esses signos em relação a outros signos, formando um conjunto de

45

sinais clínicos que caracterizarão a existência de uma síndrome. [...] ―o médico
ordena os signos numa cadeia significante‖ [...] (CLAVREUL, 1983, p.169).
Esta ordenação impõe uma normatividade. O discurso do mestre é
normativo e as normas são ditadas pelo saber do mestre. É este mestre quem
define o que deve ser submetido o seu servo. ―Desenvolvendo seu discurso
que tem como objeto as doenças, a medicina contribui, portanto, para construir
o estatuto do homem ‗normal‘ ‖[...] (CLAVREUL, 1983, p.74 grifo do autor).
Maior representação desta normatividade seriam os manuais de
classificação de transtornos mentais. Estes manuais, apoiados em uma média
estatística, definem normalidade como regularidade, considerando normais
todos os comportamentos que se enquadram nessa média, e anormais e
patológicos todos os que dela se desviam.
Essa

normatividade,

representada

a

partir

destes

manuais

de

classificação, pode ser historiada em paralelo a evolução da própria medicina.
Os manuais de classificação dos transtornos mentais foram desenvolvidos com
o intuito de classificar doenças; possibilitar que haja maior comunicação e
integração entre os profissionais; permitir a padronização de diagnósticos,
procedimentos e tratamento; e facilitar a pesquisa. Uma forma de compreender
essa normatividade, que sustenta o discurso médico, é investigar a evolução
dos sistemas de classificação diagnóstica.

3.1 Os Sistemas de Classificação Legitimando o Discurso Médico
A medicina define e delimita o que é doença e o que não é doença. Esta
indicação de normalização da condição humana arremete a necessidade de
alguma intervenção. A história da medicina escreve diversas formas de
intervenção até se chegar ao saber médico contemporâneo com sua forma de
prever, diagnosticar, tratar e atestar a morte.
Quando

consideramos

a

diversidade

nas

manifestações

comportamentais, a história da medicina também registra todos os lugares
ocupados pela pessoa que apresentava comportamentos fora da uma ordem
estabelecida em determinados universos culturais e sociais. A obra de Foucault

46

(1978) é a mais clássica apresentação da história dos transtornos mentais.
Aqui partiremos das classificações que ocorreram a partir do século XVIII como
demarcadoras de uma medicina que se apropria do território da loucura até
chegarmos a atual classificação dos transtornos mentais.
No início do século XIX, o campo da loucura se torna território exclusivo
da medicina e psiquiatria surge como especialidade médica, apoiada sob dois
paradigmas: o clínico-descritivo, presentes na nosografia de Pinel12 e Esquirol13
e o paradigma etiológico-anatômico, baseado nas obras de Morel14, Karlbaum15
e Griesinger16. Só na metade do século XX, os nomes de Freud e de
Kraepelin17 começam a se fazer presente em discursões que buscavam
desvendar os transtornos mentais. As ideias de Kraepelin são consideradas
como base para as classificações contemporâneas e as concepções freudianas
como fundadoras e constitutivas da psicanálise. Até o final da II Grande
Guerra, eram esses os dois pilares da psicopatologia. Surgiriam depois, as
concepções da fenomenologia existencial de Karl Jarpers18, Eugene Minkowski
12

Até o século XVIII as pessoas com transtornos mentais não recebiam tratamentos e ficavam
acorrentadas em instituições semelhantes a prisões. Philippe Pinel (1745-1826), médico
francês, considerava a doença mental um fenômeno natural passível de tratamento por meio
de método da ciência natural. Pinel retirou as correntes dos pacientes e passou a ouvi-los. Os
transtornos passaram a ser vistos como doença e a pessoa com uma doença mental como em
um estado de sofrimento. (SCHULTZ; SCHULTZ, 2005).
13
Na primeira metade do século séc. XIX. Étienne Esquirol, psiquiatra francês, desenvolveu um
trabalho de continuação da obra de Pinel, marcando sua atuação pela utilização sistemática da
observação que lhe permitiu grande aprofundamento do trabalho clínico e uma delimitação
precisa de quadros nosográficos da nascente psiquiatria contemporânea. Vivendo na época de
grandes transformações sociais, pós- Revolução Francesa, uma de suas maiores contribuições
foi
consideração dos transtornos sociais como desencadeantes de doenças mentais
(PACHECO, 2003).
14
Entre 1840 e 1850, dedicou-se a estudar sobre a história das doenças mentais. Em 1860,
propõe uma nova classificação das loucuras, considerando critérios etiológicos. Para ele, toda
loucura teria uma causa orgânica, mesmo que seja uma hipotética hereditariedade.
15
Kahlbaum (1828 -1899), psiquiatra alemão que em 1870, pela primeira vez, distingue grupos
de sintomas, que hoje chamamos síndromas e unidades de doença.
16
Griesinger (1817-1868), neurologista e psiquiatra alemão. Superou as teorias humorais
prévias, buscando o estabelecimento de relações clinicamente significativas entre o cérebro e
determinados estados mentais. Contribuiu para o desenvolvimento da primeira psiquiatria
biológica, que encontraria seus limites nos impasses constituídos pela teoria da degeneração.
Seu famoso Tratado sobre patologia e terapêutica das doenças mentais, publicado em 1845
constitui um marco na história da psiquiatria (PEREIRA, 2007).
17 Kraepelin (1856-1926) entendia que a loucura podia resultar de causas endógenas,
cerebrais ou não, mas também de causas exógenas. Estas causas exógenas podem, também,
ser estritamente orgânicas ou emotivas como traumas emocionais. Considera a existência de
uma predisposição geral para o transtorno mental. Publicou o Compêndio em 1883. Essa obra
foi ampliada e reeditada várias vezes com o nome de Tratado de Psiquiatria (PESSOTTI,
1999).
18 Karl Jaspers (1883-1969), um dos principais autores da psicopatologia moderna. Para
Jaspers (1931), os limites da ciência em psicopatologia consistem em nunca poder reduzir o

47

e Kurt Schneider. Apesar do desenvolvimento dessas teorias ainda não
existiam classificações de uso sistemático (BEZERRA JR, 2014).
A medicina isola seu objeto, que é a doença, e passa a tratar a todos os
que manifestam tal doença como semelhantes. O médico, como o mestre,
precisa ter condutas análogas frente ao seu objeto, a doença. Essas condutas
precisam ser pautadas no discurso da ciência, num saber que sustenta o
médico no lugar do mestre. O surgimento e o desenvolvimento de
classificações diagnósticas em psiquiatria garantiram a cientificidade da
psiquiatria junto à própria medicina.
Bezerra Jr. (2014) traz a perspectiva individualista libertária de Szasz
(1991[1974]), para apresentar a psiquiatria como a negação institucionalizada
da natureza trágica da vida; a psiquiatria como um dispositivo social de controle
e domesticação da existência social, que compreende experiências de angústia
e sofrimento como doenças que clamam por diagnósticos e intervenção em
nome de uma cura. Cura como ausência de manifestação clínica dos sintomas
diagnosticados.

[...] Ao nomear a angústia de existir por meio de categorias
patológicas, a psiquiatria transforma uma condição ontológica
essencial num espaço a ser regulado por discursos e
intervenções de roupagem técnica, cuja vocação moral
normatizadora mal se esconderia por trás das reivindicações
de objetividade e neutralidade científica (BEZERRA JR, 2014,
p.9).

Para Szasz, o diagnóstico de uma doença só poderia ser empregado
diante de marcadores biológicos, sendo esses insuficientes ou inexistentes em
pessoas diagnosticadas como doentes mentais, logo esse diagnóstico era
considerado para este autor como uma metáfora, um mito. Considera as
classificações como tendo como objetivo apenas ―[...] degradar e segregar
socialmente o indivíduo identificado como paciente psiquiátrico [...]‖ (SZASZ,
1977 [1970], p.223). Essas concepções de Szasz, datadas há quase meio

ser humano a conceitos psicopatológicos. A ciência psicopatológica é tida como uma das
abordagens possíveis do homem mentalmente doente, mas não a única e exclusiva
(DALGALARRONDO, 2000).

48

século, são atuais à medida que possamos compreender que esses sistemas
classificatórios criticados por ele, ainda não foram superados e sim, estão
sendo, cada vez mais ampliados dentro da mesma perspectiva reducionista.
Entre os anos de 1960 e 1970, Szasz e outras personalidades de vários
campos do saber compuseram o então movimento anti-psiquiátrico19 que
vislumbrava uma análise psico-político-social do sofrimento mental. Esse
movimento pôde ser caracterizado como o início de uma linha de resistência às
concepções biológicas centradas na psicopatologia (BEZERRA JR, 2014).
Nos dias atuais, esse saber das ciências biológicas do início do
movimento antipsiquiátrico foi suplantado por princípios que giram em torno da
plasticidade cerebral e da epigenética, mas estes estudos recentes ainda não
deram conta de indicar os tais marcadores biológicos reclamados na década de
1960 e 1970 para justificar ou delimitar as doenças mentais. A psiquiatria
sempre esteve entre duas vocações: a do conhecimento e a do cuidado
(BEZERRA JR, 2014).
Esse duelo entre perspectivas acerca do doente e da doença mental é
considerado como amplo espaço de interesse acerca do sofrimento humano e
terreno fértil para o desenvolvimento, não apenas da psiquiatria, mas dos mais
diversos campos de conhecimento.
A história das teorias e práticas na psiquiatria está ligada aos contextos
sociais, culturais, epistêmicos, políticos e tecnológicos em que elas se dão.
Desta forma, os conceitos psiquiátricos foram e são historicamente gerados,
por diferentes campos de saber, em determinado espaço e tempo. Os sistemas
de classificação diagnóstica podem ser considerados como sintomas, [...] ―no
sentido freudiano de revelarem de forma deslocada a verdade de um conflito
que não se deixa apreender imediatamente pela consciência de seu tempo‖
(BEZERRA, JR, 2014, p.12).

As classificações

19

[...] movimento surgido nos anos 50 do século passado. Esse movimento não estava em
oposição apenas às práticas asilares — o eletrochoque, o uso de psicofármacos e outras
restrições de liberdades infringidas aos doentes internos — mas, sobretudo, contra os
princípios nos quais se assentava toda a "medicina mental", a começar pela distinção entre
"louco" e "normal" (DELACAMPAGNE, 2004, p.29, grifos do autor).

49
[...] permitem agrupar experiências, seres e objetos,
estabelecendo mapas que permitem demarcar fronteiras
normativas entre elas. Como todo mapa, eles necessariamente
operam a partir de alguma forma de redução da paisagem
mapeada. Implicam escolhas, exclusões, privilégios, que são
decididos pragmaticamente em função de interesses presentes
no contexto de sua criação [...] (BEZERRA JR, 2014, p.14).

Logo, podemos considerar que cada momento histórico tem sua(s)
patologia(s) epidêmica(s). Podemos trazer a histeria e a neurastenia como as
grandes patologias do final do século XIX; e estamos assistindo a depressão, o
TDAH e o autismo [..] ―como chaves de interpretação dos imperativos e dilemas
que assolam os sujeitos do início do século XXI‖ (BEZERRA JR, 2014 p.12).
Estas patologias deixam de ter o caráter extraordinário e passam a
serem consideradas doenças de grande incidência, expostas em programas de
televisão de forma sucinta, bem como determinam a existência de uma
infinidade de comunidades virtuais formadas por pessoas diagnosticadas e os
familiares destas. Para Goldenstein (2014, p.153) ―[...] as entidades
diagnósticas se naturalizaram de tal maneira que passaram a ser vistas como
realidades concretas e inequívocas‖ [...]. Essas entidades são fundamentadas
nos manuais de classificação, que por sua vez são instrumentos transitórios e
perspectivados, apenas, por uma ordem de saber, o saber médico.
A primeira classificação psiquiátrica oficial nos Estados Unidos da
América, EUA, surgiu depois do censo de 1840. Nesta classificação aparecem
duas categorias: insanidade e idiotia. Em 1880, outra classificação oficial lista
sete

categorias:

mania,

melancolia,

monomania,

paresia,

demência,

dipsomania e epilepsia. Em 1917, registra-se uma classificação voltada para a
produção de estatísticas hospitalares (GAINES,1992 apud BEZERRA JR,
2014).
Ao final da II Guerra Mundial nos EUA existiam três classificações que
abrangiam diagnósticos médicos de toda ordem. No entanto, havia uma
enorme pressão dos veteranos para que o estado americano reconhecesse as
mazelas produzidas pela guerra e garantisse, ou tornasse economicamente
possível, a reinserção deles na sociedade; para isto, careciam de um sistema
classificatório que pudesse categorizá-los de acordo com essas patologias
geradas pela guerra. Essa situação de urgência levou a Associação Americana

50

de Psiquiatria-APA, a desenvolver a proposta de estabelecer uma classificação
psiquiátrica

homogênea

independente

do

instrumento

utilizado

pela

Organização Mundial da Saúde- OMS, a Classificação Internacional de
doenças - CID, já então na sua sexta versão, mas considerada insuficiente
para contemplar o então panorama pós-guerra (BEZERRA JR, 2014).
Este primeiro manual da APA é datado de 1952, primeira versão do
Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, DSM I, e nele existiam
106 categorias diagnósticas, descritas em estilo narrativo e sob a influência
psicanalítica. As doenças mentais eram consideradas como reação a situações
existenciais às quais os indivíduos demonstravam condutas não adaptadas, de
modo que quanto maior o comprometimento adaptativo maior seria a gravidade
do transtorno, neurótico ou psicótico. Os sintomas tinham uma dimensão
simbólica e relacional e o médico deveria desvendar esses sentidos, para
poder estabelecer as estratégias terapêuticas (BEZERRA JR, 2014).
O DSM II, publicado em 1968, aumentou o número de diagnósticos para
180, mas permaneceu tendo as psicoses e as neuroses como nomenclaturas
centrais. Foi um instrumento que não teve grande controle sobre a prática
clínica, pois estava mais relacionado a questões administrativas. A influência
dos pressupostos teóricos da psicanálise pôde ser identificada nessa
classificação quando os sintomas foram concebidos como tendo uma natureza
simbólica que clamava em ser desvendada. Essa segunda versão do manual
dos transtornos mentais foi um instrumento sem repercussão internacional, seu
uso pôde ser considerado como tendo sido restrito à sociedade psiquiátrica
americana (BEZERRA JR, 2014).
Nesta segunda versão do manual dos transtornos mentais, apareceram
pela primeira vez, os transtornos comportamentais na infância e na
adolescência

e

homossexualidade

os

desvios

como

de

patologia.

natureza
Estes

sexual

últimos

que

incluíam

a

foram

politicamente

contestados e, em 1970, representantes e simpatizantes do movimento contra
a patologização das condutas homossexuais invadiram o congresso da APA,
impediram a entrada de psiquiatras e exigiram mudanças na classificação dos
desvios desta natureza. Esta mobilização levantou uma discussão que
resultou, após os trabalhos de uma comissão e a votação entre os membros da

51

APA, na retirada da categoria na sétima edição do DSM II (BEZERRA JR,
2014).
Em 1980, houve a publicação do DSM III que apresentou 265 patologias
psiquiátricas e estabeleceu um rompimento com os princípios que norteavam o
DSM I e II. Em 1987, essa versão foi revisada e passou a apresentar 292
patologias. Tanto na primeira versão desta terceira edição como na edição
revisada, foi adotada uma categorização puramente descritiva; o diagnóstico
passou a ser dado a partir da observação do comportamento observável e não
mais pensado [...] ―como uma chave de entendimento de conflitos ou
desarranjos intrapsíquicos ou relacionais por trás do sintoma‖ [...] (p.21). Logo,
esse modelo de classificação segue uma perspectiva totalmente divergente da
psicanálise e se intitula como um modelo a-teórico (BEZERRA JR, 2014).
O DSM III rejeitava hipóteses etiológicas concernentes ao conceito de
neurose, o que fez com que a teoria psicanalítica viesse a reagir com
estranhamento a toda tentativa de classificação presente nestes manuais. A
partir desta terceira edição ―[...] A psicanálise estaria excluída do debate
científico porque sua psicopatologia não consegue se apresentar em termos
universais e transmissíveis, impedindo comparações de sua eficácia e
eficiência clínica‖ (DUNKER, 2014, p. 69).
A psicanálise não pôde manter-se num terreno onde a pragmática de
cura exige que sejam considerados como patológicos apenas os que as
medicações podem tratar. Neste contexto, a narrativa que favorece ao conceito
clínico de diagnóstico de sofrimento foi suplantada pelo discurso anônimo
regulado por escalas de qualidade de vida, padrões de estilo ou hábitos e
inventários de atitudes (DUNKER, 2014).
O ponto de vista de um diagnóstico compreensivo que pudesse
ultrapassar a superfície da fala e o que se poderia identificar como
comportamento do paciente foi abolido do DSM III. Logo, todos os processos
psicológicos, normais e anormais passaram a ser considerados como
dependentes das funções cerebrais. Esta mudança radical na forma de se
conceber o sofrimento psíquico determinou o avanço no desenvolvimento da
psicofarmacologia, maior segregação dos pacientes com transtornos mentais
em hospitais psiquiátricos e o registro de incapacidade mental justificando o
rompimento destes pacientes a todos os seguimentos sociais.

52

Concomitantemente a publicação do DSM III, lançou-se o programa
acadêmico da psiquiatria biológica, movimento da psiquiatria americana que
teve expressivos representantes como: Samuel Guze, famoso por seu artigo de
1989: Psiquiatria biológica: Existe outra?; e Nancy Andreasen que, em 2006,
redime-se publicando o artigo: O DSM e a morte da fenomenologia na América:
um exemplo de consequências não intencionais. Este movimento fomentou a
então chamada ―década do cérebro‖, nos anos 1990, e ambicionou a produção
concreta de fármacos e de tecnologias diagnósticas obtidas com abordagens
neurobiológicas de fácil aceitação mercadológica. Intervenções de outra ordem
eram consideradas desinteressantes, já que esbarravam no limite da
comprovação empírica dos resultados clínicos (RAMOS, 2014).
A tal década do cérebro passou e o que foi encontrado como resposta
funcional não respondeu a quase nada acerca dos transtornos psiquiátricos,
mas mesmo sem as tais comprovações biológicas, a leitura dos achados é
divulgada como atendendo a todas as questões sobre o adoecer psíquico; as
respostas não são colocadas como possibilidades, mas sim, como verdades
únicas. E, dessas hipóteses, nasceu uma série de substâncias com efeitos
singulares, mas que são prescritas a todos os que apresentam o mesmo
sintoma. E, quando o sujeito não responde a tal fármaco, é diagnosticada a
gravidade do quadro, fazendo surgir à necessidade de outro fármaco.
Como consequência desse olhar médico-biológico sobre o sofrimento
psíquico

[...] as ―terapias pela palavra‖ caíram em desgraça. Palavras,
em geral, não são patenteáveis com as tecnologias
diagnósticas e os produtos farmacêuticos, salvo se gerarem
técnicas psicoterapêuticas ou escalas de avaliação
padronizáveis sob a forma de manuais protegidos por copyright
[direitos autorais]. Daí, sem dúvida, o cultivo crescente na
prática clínica das terapias cognitivo-comportamentais (TCC)
[...] não podemos esquecer que os ―manuais‖ mais rentáveis
para a psiquiatria norte-americana, em termos de direitos
editoriais, foram e continuam sendo as sucessivas edições do
DSM, a partir da terceira (RAMOS, 2014, p.217, grifos do
autor).

53

Para Bezerra Jr. (2014), o DSM III é responsável pela configuração do
cenário psiquiátrico atual à medida que: favoreceu o crescimento do número de
diagnósticos, possibilitou a ―patologização da vida cotidiana‖ (p.15), patrocinou
a expansão do paradigma biológico ou cognitivista em detrimento de
concepções psicodinâmicas, possibilitou que a prática clínica passasse a ser
orientada a partir das necessidades da indústria farmacêutica e popularizou o
vocabulário psicopatológico entre profissionais da área médica e não médica.
Zorzanelli (2014) apresenta as edições do DSM como objetos culturais.
Fundamenta esta concepção nas ideias de Allen Frances, ex-diretor da revisão
do guia de referência mundial para doenças psiquiátricas, que denuncia a
atuação da indústria farmacêutica sobre os elaboradores do DSM. Para
Frances (2013), o DSM III é responsável pela ocorrência de uma inflação
diagnóstica e, graças a essa inflação, assistimos a extensão da psiquiatria a
campos que poderiam ser tratados sem a intervenção desta. Estaríamos
vivendo a medicalização da normalidade.
Podemos assistir esta crescente inflação diagnóstica com os números
apresentados no DSM IV que foi publicado em 1994 e sua edição revisada,
DSM V-R, em 2000, que considerou 297 categorias de transtornos mentais. E o
atual DSM, versão V, publicado em 2013 que conta com mais de 300
patologias diagnosticadas.
Os efeitos dessa patologização tornam-se maiores na área da infância e
da adolescência. Graças as edições e reedições do DSM assistimos à
proliferação

de

diagnósticos

de

Transtornos

de

Déficit

de

Atenção/Hiperatividade – TDAH, transtorno Obsessivo Compulsivo – TOC,
Transtorno Bipolar e Espectro Autista. Esses diagnósticos têm sido dados não
apenas por neurologistas, psiquiatras e pediatras, mas também por
professores, psicólogos escolares, familiares, vizinhos ou pelos próprios pais
após terem assistidos programas de TV e rádio ou acessado alguma página na
internet que disponibiliza uma lista dos sintomas que precisam estar presentes
em

seus

filhos

para

que

o

diagnóstico

seja

confirmado

(ROCHA;

CAVALCANTI, 2014).
Há um crescente conflito de interesse a cada edição do DSM. Este
conflito deixa claro quais os objetivos deste instrumento de classificação.
Frances (2014) destaca que 48% dos profissionais responsáveis pela

54

construção do DSM IV teriam relação com a indústria farmacêutica e este
número passa para 69% na elaboração da atual classificação. Estamos diante
da força do ―complexo médico-industrial‖ da saúde mental como determinante
na hegemonia dos DSM‘s. Essa última seria uma tese de Sadler (2013), mental
health medical-industrial complex - MHMIC, destacada por Zorzanelli (2014).
A expressão ―complexo médico-industrial‖ tem sido usada no Brasil
desde os anos de 1980 no intento de destacar ―as múltiplas e complexas interrelações estabelecidas entre os diversos atores do setor saúde e destes com
os demais setores da economia‖ (VIANA, 2002, p. 376) Apontamos a
repercussão destas relações na clínica psiquiátrica para atentar para condição
do sujeito que é classificado como tendo um transtorno mental a partir de uma
ótica, sobretudo, mercadológica.
Elucidando esta perspectiva mercadológica, que paira sobre os
diagnósticos psiquiátricos, Frances (2014) afirma que o diagnóstico de
hiperatividade tem rendido à indústria farmacêutica imensos lucros; cita que
nos EUA a incidência do diagnóstico de hiperatividade em crianças varia de 2%
a 3% na população infantil, mas que essa incidência chega a 11% em função
dos atuais critérios de avaliação. Considera como mais grave o fato de que
10.000 crianças diagnosticadas receberiam tratamento medicamentoso e
teriam menos de três anos de idade. Essa incidência chega a 20% quando se
trata de adolescentes, o que é agravado pela ocorrência de que metade deste
número de adolescentes seria tratada com fármacos, o que transforma a
hiperatividade juvenil em um transtorno epidêmico.

[...] Ao longo dos últimos 20 anos, passamos por três
modismos imprevistos, parcialmente precipitados pelo DSM-IV:
um aumento de 20 vezes no Transtorno do Espectro Autista, a
tipificação do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade
(TDAH) e a duplicação de Transtornos Bipolares. O modismo
mais perigoso é um aumento de 40 vezes em Transtornos
Bipolares infantis, estimulado não pelo DSM-IV, e sim pelo
marketing
enganoso
e
imprudente
das
indústrias
farmacêuticas. Da população dos Estados Unidos, 20% estão
tomando um medicamento psicotrópico; 7% estão dependentes
de um; e overdoses com medicamentos legais agora causam
mais internações em serviços de emergência do que overdoses
com drogas ilegais (FRANCES, 2015, p.5).

55

Os pacientes tradicionais da psiquiatria, com quadros mais graves e de
menor prevalência não tem sido alvo desta psiquiatria mercadológica. Esta se
interessa cada vez mais pelos novos pacientes, que apresentam quadros de
maior prevalência, e consequentemente, com maior valor de mercado
(RAMOS, 2014). Podemos apresentar a ideia uma rede gerada pela
formalização de uma patologia, a necessidade de um tratamento médico,
investimento em pesquisas médico-farmacêuticas, circulação de produtos e por
fim, números que revelam epidemias e que reforçam a ideia de tipificação de
uma patologia, a fim de que a indústria possa produzir a especificidade de cada
patologia.
Ramos (2014) denuncia que investimentos da indústria farmacêutica em
estratégias de marketing são maiores do em pesquisa e desenvolvimento de
produtos e aponta que em 2007, a maior parte dos investimentos, cerca de
90%, foram direcionados à promoção de produtos diretamente aos médicos. E
que, desde 1997, nos EUA, foi autorizada a divulgação comercial direta ao
consumidor dos medicamentos psiquiátricos. O que, no seu ponto de vista, faz
do médico apenas um intermediário entre a indústria farmacêutica e o
consumidor.
A brevidade com que se consegue fazer um diagnóstico a partir dos
manuais de classificação patrocina um grande número de diagnósticos
equivocados e prescrições inadequadas ou desnecessárias. Esse panorama é
agravado pela duração de uma consulta indicada pelos planos de saúde, que é
em média de 15 minutos, e pela situação da rede pública, onde a demanda de
pacientes é grande e o profissional tem que estabelecer um tempo mínimo de
contato com o paciente para atender a todos que compõe seu agendamento
diário (RAMOS, 2014).
No Brasil, as burocracias médicas e judiciais são pautadas no CID 10 e
no DSM V, o que impulsiona a expansão da popularidade desses instrumentos
diagnósticos e exige que o profissional seja criterioso e persiga categorias
diagnósticas bem distantes das ―Não Especificadas‖. O profissional deve ser
preciso e basear-se em um referencial respeitado por todos, mesmo que,
efetivamente, este referencial seja desconhecido pela maioria dos que o
acatam os diagnósticos que partiram dele. Frances (2014) apresenta o DSM

56

como a bíblia da psiquiatria americana, uma bíblia que ultrapassa, e muito, as
fronteiras americanas.
A partir da década de 1960, a instituição psiquiátrica e seus
instrumentos, geridos por esses sistemas classificatórios, passaram a ser
contestadas mundialmente. Os laudos psiquiátricos sustentaram a existência
de centenas de grandes hospitais psiquiátricos, determinaram o isolamento de
milhares de pessoas e, em algumas situações não muito raras neste modelo,
foram responsáveis pela morte destes então diagnosticados20. O Brasil ainda
avança lentamente no processo de erradicação de atendimento psiquiátrico em
grandes instituições. Apesar das críticas a esse modelo já terem quase perdido
o fôlego, mudanças efetivas ainda não se deram. Contamos com novos
sistemas classificatórios, mas ainda permanecemos com a mais iatrogênica
medida terapêutica.
Atualmente, podemos contar como avanços, a implantação de serviços
extra hospitalares como as novas modalidades de assistência. No entanto,
todas essas novas modalidades de atendimento, que emergiram há mais de 50
anos e continuam sendo ampliadas, seguem o modelo médico e definem como
possibilidade de acesso aos serviços o enquadramento em sistemas
classificatórios. O paciente com sofrimento psíquico ainda necessita de um
diagnóstico psiquiátrico, conforme um sistema médico de classificação, para
poder ser aceito nas mais diversas redes de atendimento médico e não
médico21.
Apresentamos o percurso trilhado por estes diagnósticos para destacar
que os mesmos sintomas são concebidos como entidade clínica diversa ao
longo da história dos manuais. Para Pessotti (2001), são os diversos nomes da
loucura, ou seja, o paciente que tem uma nomeação diversa para o mesmo
sofrimento psíquico a depender do olhar que paira sobre este sujeito, a
depender do lugar que ele ocupa num circuito de saber.
Essas frequentes mudanças das categorias diagnósticas evidenciam a
fragilidade dessa nomeação que reduz manifestações humanas a diagnóstico
20

A exemplo do maior hospício do Brasil, o Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena –
MG, onde pelo menos 60 mil pessoas morreram. Ver ARBEX, D. O holocausto Brasileiro.
São Paulo; Geração, 2013.
21
Instituições educacionais (escolarização formal ou informal, atividades esportivas, atividades
artísticas) e assistenciais de várias categorias (psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional
e fisioterapia)

57

médico e concebe as categorias diagnósticas como entidades concretas em si
mesmas e não como formas de representação convencional da realidade
(BANZATO; PEREIRA, 2014).
Podemos afirmar que, de certo modo, as mudanças são muito bem
vindas e aceitas por profissionais e pacientes. Há uma associação entre a
verdade e a novidade; a classificação anterior passa a ser considerada
ingênua, pois as recentes classificações são pautadas em uma ciência que as
classificações anteriores não dominavam (novos mapeamentos genéticos,
novos recursos diagnósticos de imagem, novas substâncias que compõem os
fármacos) e baseadas no saber que está acima do saber do médico que está
de frente com o paciente. O médico se curvará a cada novo discurso da
ciência, tomará como seu esse saber e se fará senhor para o seu paciente que
o concebe como empossado desse saber.
O médico, nesta posição de saber, apresenta os novos diagnósticos e as
novas terapêuticas. Essa novidade garante a sua posição de domínio e
desqualifica os que ainda permanecem utilizando às antigas classificações e os
tratamentos tradicionais. Neste panorama, a divulgação dos resultados de
pesquisas empíricas e a produção acadêmica favorecem outra relação de
poder/saber: a de um mestre sobre os mestres.
Banzato; Pereira (2014) chamam atenção para a centralidade que
diagnósticos psiquiátricos podem assumir na vida de pacientes e nos mais
diversos grupos sociais. Esses diagnósticos ganham uma popularidade variável
e passam a ser usados como forma de descrição de estados de ânimo; como
autoconceito; como bordão de telenovelas ou de programas de humor; ou seja,
ultrapassam qualquer enquadramento profissional.
Se o diagnóstico se tornou instrumento popular, ocorreu também a
popularização da auto prescrição. Pessoas comuns chegam a identificar alguns
hipnóticos, ansiolíticos ou antipsicóticos e saem em busca dessas ―porções
mágicas‖ que têm efeito rápido, mas curtíssima duração. Logo, estarão sempre
precisando retornar ao médico ou ―dar um jeito de conseguir as tais pílulas‖.
Neste cenário, problemas não médicos tornam-se médicos.
Rodinesco (2000) apresenta a importância desse saber médico no atual
estado dos diversos transtornos psi no mundo contemporâneo e descreve o
desenvolvimento desse saber como associado ao desenvolvimento da

58

psicofarmacologia. Põe a psicanálise como em concorrência com a
psicofarmacologia, e aponta os próprios pacientes como submetidos ao que
nomeia de biopoder22, pois estes pacientes passam a exigir que seus sintomas
psíquicos tenham uma causalidade orgânica.
Para Rodinesco (2000), a psicofarmacologia mudou a forma de tratar a
loucura, pois os remédios esvaziaram os manicômios e substituíram a camisade-força e os tratamentos de choque. Em 1952, foram postos em circulação por
dois psiquiatras, Jean Delay e Pierre Deniker, os primeiros neurolépticos. Esse
remédios devolveram a fala aos loucos e permitiram sua reintegração na
cidade. E os ansiolíticos e os antidepressivos, trouxeram aos neuróticos uma
diminuição do sofrimento aparente.
Podemos afirmar que o avanço das ciências médicas garantiu a cura
para várias categorias de doentes, exceto para as pessoas que vivenciam o
sofrimento como psíquico. Há mais de um século são manipuladas substâncias
para tratar o psiquismo, mas, ainda, não contamos com a cura medicamentosa
de nenhuma doença mental. No entanto, podemos afirmar que mesmo não
havendo nenhuma substância química que tenha sido responsável pela cura
das doenças mentais ou nervosas, os psicofármacos revolucionaram as
representações do psiquismo (RODINESCO, 2000).

Receitados tanto por clínicos gerais quanto pelos especialistas
em psicopatologia, os psicotrópicos têm o efeito de normalizar
comportamentos e eliminar os sintomas mais dolorosos do
sofrimento
psíquico,
sem
lhes
buscar
significação
(RODINESCO, 2000 p.21).

Para Rodinesco (2000), o discurso médico que promete o fim do
sofrimento psíquico através da ingestão de pílulas, nunca faz mais do que
suspender sintomas ou transformar a personalidade do usuário. O sujeito,
mesmo medicado, não se dá por satisfeito, não se vê como curado do
sofrimento que vivia. Podemos considerar que, na melhor das hipóteses, o
22

Conceito de Biopoder como terminologia utilizada por Michel Foucault para indicar uma
política que pretende governar o corpo e a mente em nome de uma biologia erigida em um
sistema totalizante, e que assume o lugar de religião (RODINESCO, 2000). FOUCAULT em
sua aula do dia 17 de março de 1976 apresenta entre outros temas: Do poder da soberania ao
poder sobre a vida e Fazer viver e deixar morrer onde discute a amplamente este conceito.

59

sofrimento do paciente passa a ser vivido junto ao seu médico na busca por
uma dosagem mais eficaz de seu medicamento.
Toda essa discussão a respeito do diagnóstico médico como uma marca
identificatória pode ser arremetida clínica psicanalítica, e neste estudo, em
especial, à clínica psicanalítica infantil. É comum, em algum momento deste
atendimento, os pais chegarem apresentando laudos feitos por profissionais de
outros complexos médicos, considerados por eles como ―mais aparelhados‖;
estes laudos, em sua maioria, apresentam a identificação de Transtorno do
Espectro Autista (TEA)23, e são apresentados seguidos da fala: ―doutora, agora
nós descobrimos o que ele/ela tem‖. Diante de tal achado, resta ao profissional
continuar perseguindo o que não pode ser identificado pelos laudos, o que
escapa ao discurso médico, não que o sujeito ―tem‖, mas o que lhe falta e aos
pais.

3.2 O Autismo Fundado pelo Discurso Médico
O lugar da pessoa com autismo no discurso médico não diverge do lugar
ocupado por qualquer outro sujeito com sofrimento físico ou psíquico. Este
sujeito é, então, categorizado pela psiquiatria ou qualquer outra especialidade e
passa a pertencer à ordem médica. As categorizações possibilitam o
diagnóstico médico nomeando o paciente a partir da descrição de sintomas.
No discurso do mestre o objeto a, está no lugar do produto e interessa à
medicina a realidade do objeto. A medicina perpetua a alienação do sujeito aos
significantes de um outro, sendo a doença o seu objeto. A medicina apaga a
posição do enunciador do discurso que é o próprio doente no enunciado do
sofrimento. A entrada do sujeito no discurso médico é semelhante à entrada da
criança na língua materna (CLAUVEUL, 1983).
―[...] a ordem se impõe por ela mesma. Ela está sempre presente em
nossa vida, desde o nosso nascimento em uma maternidade até nossa morte
no hospital, desde os exames pré-natais até a verificação, na autópsia...‖
(CLAUVEUL, 1983 p. 40).
23

De acordo com DSM -5; conforme com o CID 10 Transtorno Global do Desenvolvimento
(TGD)

60

Para compreender o poder dessa ordem médica, quando se trata de
autismo, faz-se necessário: resgatar os conceitos que o fundaram enquanto
doença; elencar as classificações que o acompanham enquanto categoria
nosológica; apresentar o universo social em essas classificações se
estabeleceram e, por fim, elucidar o que esta ordem médica prevê, enquanto
discurso que produz o futuro do autismo como uma patologia.
Os textos que trazem a história do autismo apresentam sua associação
à história da pedopsiquiatria. Consideramos necessário resgatar a história das
psicoses infantis e do autismo para então compreendermos como o autismo,
na atualidade, é concebido por uma pluralidade de concepções. Para este
percurso histórico nos pautaremos nos textos de: Roudinesco; Plon (1998),
Mazet; Lebovici, (Org.) (1991), Berquez (1991), Jerusalinsky (2012), Marfinati ;
Abrão (2014) e Laurent (2014).

Nestes trabalhos, a história do autismo é

apresentada a partir da evolução histórica das psicoses infantis nas quais o
autismo está inserido.
Roudinesco; Plon (1998) nos apresenta o termo autismo, como tendo
sido, desde o princípio, pertencente ao vocabulário médico. A palavra autismo
foi utilizada pela primeira vez por Bleuler24, em 1907. O termo é derivado do
grego autos (o si mesmo), para designar o ensimesmamento psicótico do
sujeito em seu mundo interno e ausência de qualquer contato com o exterior,
podendo chegar, até mesmo, ao mutismo. Traz-se o autismo como adjetivo,
quando este termo é utilizado para indicar alguém afetado pelo autismo e ainda
apresenta a variante autístico, para ser utilizado para tudo o que caracteriza o
autismo.
Ainda em Roudinesco; Plon (1998), encontramos esta historicidade do
autismo no berço das ciências médicas. Os autores detalham que foi numa
carta de Yung à Freud, de maio de 1907, que foi registrado como Bleuler
empregou o termo autismo. Este se recusava a utilizar a palavra auto-erotismo,
utilizada por Elllis25, e retomada por Freud, por considerar seu conteúdo por
24

BLEULER, Eugen (1857-1939) Grande pioneiro da nova psiquiatria do século XX e um
reformador do tratamento da loucura. Contemporâneo de Sigmund Freud, fundador do
bleulerismo; uma escola de pensamento que marcou o conjunto do saber psiquiátrico até
aproximadamente 1970, data a partir da qual se generalizou em todos os países do mundo um
novo organicismo, nascido da farmacologia (RODINESCO; PLON 1998 p.78).
25
Médico, contemporâneo de Freud. Escritor inglês e um dos fundadores da sexologia. Em
1890, começou a redação de sua grande obra: Estudos de psicologia sexual. Freud adotou a

61

demais sexual. Bleuler fez uma contração de auto com erotismo e adotou a
palavra autismo. Em 1911, em Dementia praecox ou Grupo das esquizofrenias,
Bleuler designou por esse termo um distúrbio típico da esquizofrenia e
característico dos adultos.
A conceituação do autismo como entidade nosológica diferenciada dos
quadros das demências infantis só ocorrerá a partir de 1940, mas os primórdios
da psicanálise de crianças datam de 1920. Em janeiro de 1929, Melaine Klein 26
(1960) iniciou o tratamento de uma criança, na ocasião diagnosticada com
esquizofrenia infantil, que, segundo os critérios diagnósticos empregados na
atualidade, poderia ser identificada como autista (MARFINATI; ABRÃO, 2014).
Em A importância da formação de símbolos para o desenvolvimento do
ego (1930/1996), Melaine Klein relatou o caso dessa criança de quatro anos de
idade com o pseudônimo de Dick, cujas características eram similares àquelas
que

Kanner

apresentará

em

1943

como

características

do

autismo

(MARFINATI; ABRÃO, 2014).
Em 1943, o psiquiatra norte-americano Leo Kanner27 (1894-1941),
emigrado judeu e originário do antigo Império Austro-Húngaro, apresentou
novamente o termo como descrição da doença e classificação do doente. Para
Berquez (1991), Kanner é considerado o inventor da síndrome do Autismo
Infantil Precoce (AIP).
Berquez (1991) cita os dois artigos de Kanner que o fizeram ser
considerado como o inventor do autismo. O primeiro deles, em 1943, foi
publicado em uma revista de neuropsiquiatria da criança, Nervous Child, e

noção de auto-erotismo de Ellis e lhe prestou homenagem nos três ensaios sobre a teoria da
sexualidade. ibid., p.176-177.
26
Melaine Klein foi o principal expoente do pensamento da segunda geração psicanalítica
mundial. Deu origem a uma das grandes correntes do freudismo, o kleinismo. Transformou
totalmente a doutrina freudiana clássica e criou não só a psicanálise de crianças, mas também
uma nova técnica de tratamento e de análise didática. Sua obra é composta de cerca de 50
artigos e de um livro. A psicanálise de crianças foi traduzida em quinze línguas e reunida em
quatro volumes.
27
―Leo Kanner Nasceu em 1894 em Klekotow, na Áustria. Estudou medicina na Universidade
de Berlim. Em 1948, tornou-se professor adjunto de pediatria, na John Hopkins University, de
Baltimore. Em 1957, foi nomeado professor de psiquiatria infantil. É um dos membrosfundadores do Journal of Autismand Childhood Schizophrenia, e o essencial de seus artigos
consagrados ao Autismo Infantil Precoce (AIP) se encontra reunido num livro intitulado
Childhood Psychosis” (BERQUEZ, 1991. p.20-30)

62

intitulado como Austistic disturbances of affective contact28. E o segundo, um
ano mais tarde, numa revista de pediatria, Journal of Pediatrics, e com o título
de Early Infantile Autism.29 Este último é a publicação que vai dar seu nome à
síndrome.
Pesquisas de diversas linhas de investigação (medicina, educação,
psicologia, psicanálise, terapia ocupacional, fonoaudiologia, etc.) mencionam
estes estudos iniciais de Kanner, ou melhor, partem dele para apontar
perspectivas teóricas ou metodologias de investigação ou terapêuticas. Dada à
importância deste texto inicial de Kanner, Rocha (2012), apresentou uma
tradução em língua portuguesa do texto inicial de Kanner feita por Monica
Seincman30, demonstrando a importância do resgate aos estudos para a
compreensão das concepções atuais acerca do autismo.
Berquez (1991) propõe um levantamento dos principais registros de
Kanner para compreendermos as concepções atuais acerca do autismo. As
publicações de Kanner sobre o autismo iniciam em 1943 e se seguem até
1970.
Em sua primeira publicação, Austistic disturbances of affective contact,
Kanner (1943) difunde a descrição da síndrome. O texto é iniciado com uma
curta introdução. Kanner apresentou o quadro clínico de seus pacientes como
uma ―novidadade fascinante‖:
Desde 1938 nossa atenção foi atraída por um certo número de
crianças cujo estado difere tão marcada e distintamente de
tudo o que foi descrito anteriormente, que cada caso merece –
e espero que acabe por receber – uma consideração detalhada
de suas fascinantes particularidades [...] (KANNER, 1943,
p.111).

Após a descrição do quadro clínico de onze crianças (oito meninos e três
meninas), o autor descreveu a síndrome como rara e de caráter inédito:

28

―KANNER, L. Austistic disturbances of affective contact, Acta Paedo-Psychiatrica, 1968, 35,
98-136, publicacation Originale in Nervous Chuil, 1943. 2, 3, p.217-230‖ (BERQUEZ,1991,
p.29).
29
―KANNER, L. Early Infantile Autism. Journal of Pediatric,1944, 25, p.211-217‖
30
Tendo como base a tradução francesa feita por Rosenberg, M. e publicada em
Neuropsychiatrie de lʹenfanceet de lʹadolescence, 1990. V.38, n.1-2, p. 65-84. (Rocha, 2012)

63
O distúrbio fundamental mais surpreendente, ―patognômico‖, é
a incapacidade destas crianças de estabelecer relações‖ de
maneira normal com as pessoas e situações, desde o princípio
de suas vidas. [...] Não se trata, como nas crianças ou adultos
esquizofrênicos, de uma ruptura de relações previamente
estabelecidas; não se trata de um ―retraimento‖ sucedendo
uma participação. Existe, inicialmente um fechamento autístico
extremo que, sempre que possível, faz com que negligencie,
ignore ou recuse tudo o que vem do exterior [...] (KANNER,
1943, p.156, grifos do autor).

Nos comentários finais deste artigo, Kanner encarregou-se de resumir a
sintomatologia, diferenciá-la da esquizofrenia infantil:

O autismo extremo, os traços obsessivos, a estereotipia e a
ecolalia combinados estabelecem o quadro global em relação a
certos fenômenos tipicamente esquizofrênicos [...]. As
primeiras manifestações observáveis foram precedidas por dois
anos, pelo menos, de desenvolvimento normal [...] (KANNER,
1943, p.169).

Por fim, propõe uma etiologia, citando aspectos psicoafetivos e aspectos
de natureza biológica:

[...] Em todo o grupo, raros são os pais e mães realmente
calorosos. Na maioria dos casos, os pais, avós e colaterais são
pessoas muito preocupadas com coisas mais abstratas, sejam
elas de natureza científica, literária ou artísticas, e limitadas no
interesse autêntico que têm para as pessoas [...]. O
fechamento autístico extremo destas crianças, desde o
princípio de sua vida, torna difícil atribuir todo este quadro
exclusivamente ao tipo de relações parentais precoces de
nossos pacientes. [...] Devemos, portanto, supor que estas
crianças vieram ao mundo com uma incapacidade inata de
estabelecer o contato afetivo habitual com as pessoas,
biologicamente previsto [...]. Pois aqui parece que temos
exemplos ―puros‖ (pure-culture)31 de distúrbios autísticos inatos
do contato afetivo (KANNER, 1943, p.170, grifos do autor).

Na tradução francesa há o registro de que esta observação acerca dos
pais das crianças com autismo anuncia outros trabalhos posteriormente
31

Em nota da tradução francesa: ―puros‖ em vez de pure-culture. A expressão original pureculture refere-se a uma noção de ―cultura pura‖ dos bacteriologistas para isolar um germe
(ROCHA, 2012).

64

escritos por Kanner, em que ele denuncia os traços patológicos dos pais de
crianças autistas (ROCHA, 2012).
A definição clínica do autismo como distúrbio relacional é aceita
internacionalmente, os problemas relativos à patogenia e etiologia, é que,
ainda, permanecem como objeto de inúmeras polêmicas. Estas polêmicas
estão inscritas na própria definição de Kanner, pois este, no decorrer de seus
estudos, variou enormemente as concepções etiopatogências da síndrome
(BERQUEZ,1991).
Kanner apresentou inicialmente uma abordagem psicopatológica,
passou a uma aproximação funcional e em seguida conclui com a afirmação de
que o autismo tem uma etiologia biológica. Berquez (1991) apresenta estes
três pontos de vistas de Kanner.
Inicialmente, considerando o ponto de vista psicológico, Berquez (1991)
destaca que a síndrome singular de 1943, foi, em 1944, difundida por Kanner
como uma síndrome psicopatológica com a terminologia de autismo infantil
precoce. Em Early Infantile Autism, Kanner apresenta um segundo ponto de
vista acerca do autismo infantil, considerando-o como possível de ser
conduzido por estudos genéticos e psicodinâmicos. Termina esse segundo
texto com a discussão sobre o papel dos pais na origem do autismo.
Em 1949, seis anos após o artigo inaugural de 1943, Kanner escreveu
outro artigo32 e destacou mais uma vez o aspecto psicoafetivo do autismo.
Neste texto, Kanner considerou que a leitura das atitudes e comportamento dos
pais como podiam esclarecer a dinâmica da condição de manifestação do
autismo infantil precoce (BERQUEZ,1991).
Considerando os aspectos psicoafetivos na etiologia do autismo,
Jerusalinsky (2012) faz referência ao texto Kanner de 195133, o qual se refere
descritivamente as características dos pais das crianças com autismo infantil
precoce. No Tratado de Psiquiatria infantil de 1951, Kanner menciona o caráter
―intelectual e obsessivo‖ com ―ares formais‖, e ―pouco carinhosos‖ dos pais
(KANNER, 1951, p.771 apud JERUSALINSKY, 2012 p.47, grifos do autor).

32

―KANNER, L. Problems of nosology and psychodynamics in early infantile austism, Am. J.
Orthopsychiat, 1949, 19, 416-426‖ (BERQUEZ, 1991. p.30).
33
KANNER, L. Tratado de psiquiatria Infantil. Santiago: Zig-Zag, 1951

65

Comentando os efeitos das publicações, que enfatizam o aspecto
psicoafetivo de Kanner, Jerusalinsky (2012) destaca que a culpabilização das
mães ficou, assim, estabelecida. A psiquiatria, por sua orientação positivista
que favorece o estabelecimento de causa-efeito, passou a indicar condutas que
as mães deveriam ter para que o autismo não acometesse seus filhos, ou
condutas que as mães de crianças autistas deveriam ter para minimizar os
sintomas autísticos.
Kanner; Eisenberg em 1955 no artigo: Comentários sobre os estudos
longitudinais de crianças autistas34, a referência psicopatológica é abandonada
para ser utilizada uma definição estritamente clínica. ―No nível etiopatogênico,
Kanner reintroduz o lado biológico do autismo, ao lado da dimensão
psicológica‖ (BERQUEZ, 1991, p.23).
Doze anos mais tarde, em 1968, Kanner publica um artigo, Early infantile
autismo revisited, em que propõe uma revisão acerca do autismo. Neste texto
apresenta uma posição muito clara contra os pontos de vista psicodinâmicos e
psicopatológicos, destacando que não existe psicogênese interacional no
autismo infantil (BERQUEZ,1991).
Kanner apresenta suas ideias contra o ponto de vista psicodinâmico no
livro Em defesa das mães, de 1974. Neste livro, Kanner reage contra todo o
tipo de conselhos psicológicos que possam ser dados às mães de crianças
autistas, mas ao longo de seu texto, faz o que indica não fazer: aconselha
mães de crianças autistas. É também neste texto, que apresenta uma crítica à
psicanálise com o intuito de desqualificá-la como campo de saber e não
favorecer o lugar desta na compreensão do autismo (JERUSALINSKY, 2012).
Para apresentar o ponto de vista funcional, Berquez (1991) destaca o
artigo: Comentários sobre os estudos longitudinais de crianças autistas de
1955, citado anteriormente. Neste texto, Kanner analisa a dinâmica relacional
pais-filhos a partir de três pontos de vista: o primeiro considera o
comportamento parental como uma reação às particularidades da criança que
existem a priori, o segundo considera os pais, sobretudo a mãe, como a fonte
básica da patogenicidade do autismo infantil e o terceiro expõe a criança
autista como dotada de uma incapacidade inata de estabelecer relações, sendo
34

―KANNER, L.; EISENBERG, L. Notes on the follow-up studies of autistic children,
Psychopathology of Childhood, 1955 p.227-239‖ (BERQUEZ, 1991. p.29).

66

essa incapacidade agravada pela personalidade particular de seus pais. Esse
último ponto de vista, seria concebido como um distúrbio funcional de origem
psicopatológica.
Segundo Berquez (1991), num segundo artigo de Kanner, publicado com
Eisenberg, Early infantile autism de1956, a referência funcional aparece ainda
mais nítida. Só que, neste texto, os distúrbios funcionais não são mais
considerados como tendo origem psicopatológica, mas de origem bioquímica.
Neste texto de 1956, o autismo foi compreendido como ―uma total
desordem psicobiológica; o que é necessário é um estudo da compreensão da
disfunção em cada etapa da interrogação, biológica, psíquica e social‖
(KANNER; EISENBERG, 1956 p.556-566 apud BERQUEZ 1991, p.24).
O ponto de vista biológico está presente de forma clara desde o texto de
1943. Mas, considerando o percurso histórico traçado por Berquez (1991),
durante doze anos, Kanner não levou adiante a perspectiva biológica. A
etiologia de ordem biológica só reapareceu nos trabalhos de 195535 e 195636.
No texto de 1955, ele declarou a dificuldade de conceber uma origem orgânica
para o autismo.

E, na publicação de 1956, como dito, anteriormente,

mencionava que o autismo seria desordem de caráter psicobiológico.
Na década de 70, Kanner retoma o ponto de vista biológico, no artigo,
Follow-up studies of eleven autistic children originally reported in 1943,
publicado em 1971 descrevendo a evolução de nove das 11 crianças
apresentadas em seu artigo inaugural. Neste texto, considerou que as
explorações bioquímicas, já realizadas naquele período, poderiam responder
sobre a natureza fundamental da síndrome autística.
Ainda considerando o ponto de vista biológico, Kanner, em Infantile
autismo and schizophrenias de1965, considerou as psicoses da criança e os
antecedentes de reserva emocional como relacionados a uma origem biológica
ou genética comum. E, neste texto, registra que os pais das crianças autistas
lhes pareciam ser autistas como os filhos, e que, apenas, haviam escapado
das disposições psicóticas (BERQUEZ,1991).
Cavalcanti; Rocha (2007, p.55), quando apresentam as implicações das
publicações de Kanner, referem que as concepções de Kanner produziram a
35
36

Comentários sobre os Estudos Longitudinais de Crianças Autistas
Early infantile autism.

67

pessoa com autismo como ―um estranho sem mundo psíquico‖. E destacam
que os traços adotados pela psiquiatria infantil como sintomas indicadores do
autismo levam a conclusão de que as crianças com autismo não são gente,

[...] pois não têm linguagem, não falam e quando falam são
papagaios: suas falas são repetitivas e não têm sentido, não
mantêm relações com as pessoas e nem com o próprio mundo,
não mantêm contanto afetivo, não reconhecem seus próprios
pais [...] não entendem [...] (CAVALCANTI; ROCHA, 2007,
p.55).

As narrativas que são construídas para descrever as incapacidades

destas pessoas são marcadas pela ―certidão de batismo‖, dada por Kanner,
que definiu o autismo como um distúrbio que impossibilita o contato afetivo, o
desenvolvimento da linguagem e do pensamento. Sendo a afirmação
conclusiva de Kanner, de que no autismo há uma incapacidade inata para
estabelecer contato afetivo, determinante para que o autismo carregue marcas
que

funcionam

como

uma

“logomarca”

do

autismo:

―uma

estranha

incapacidade de ser um semelhante‖ (CAVALCANTI; ROCHA, 2007, p.57
grifos das autoras).
Da mesma forma que na clínica de adultos, na clínica infantil os
sintomas têm sido tomados, invariavelmente, como sinais de desvios de uma
norma estatisticamente estabelecida, totalmente desvinculados da dinâmica
pessoal das crianças. Esses sintomas são agrupados e passam a compor uma
entidade psicopatológica denominada transtorno que, cada vez mais, têm sido
usados pelas pessoas como consistentes descrições de si mesmas.
Profissionais que atendem a infância passam a desconsiderar a normalidade
de muitos dos sintomas infantis. Com isso, perde-se a oportunidade de
compreender o que a criança diz de si através desses sintomas, ―além de
privá-la de uma experiência real de amadurecimento, numa idade apropriada‖
(ROCHA; CAVALCANTI, 2014, p. 234).
Rocha; Cavalcanti (2014), a partir dos pressupostos de Winnicott (1982),
apresentam, especificamente, o autismo infantil, como uma ―enfermidade
normal‖ considerando que existam situações em que crianças apresentam os

68

sintomas como sinais de alerta, um pedido de socorro que convoca o analista à
compreensão da história da relação desta criança com o seu meio ambiente.
Rocha; Cavalcanti (2014) mencionam duas visões de normalidade para
apresentar o autismo: a naturalista, que corresponde ao modelo em que foram
e são construídos os DSM‘s a partir de sua terceira edição e a visão
normativista, que compreende que viver é valorar. Ser normal é ser normativo,
ou seja, ter a ―capacidade de recriar normas de vida frente às exigências
colocadas pelo ambiente‖ (p.235).
O que foi por Kanner descrito como sendo a síndrome autística compõe
os atuais manuais de diagnóstico e caracterizam a pessoa com autismo como
portadora de uma patologia incurável. E, quando são identificadas melhoras em
alguma pessoa diagnosticada com autismo a partir de tratamento psicanalítico
são colocadas dúvidas sobre o diagnóstico de autismo (CAVALCANTI ; ROCHA,
2007).
Comentando essa observação anterior de Cavalcanti; Rocha (2007),
podemos considerar que a dúvida acerca do diagnóstico de autismo, conduzia
a outro diagnóstico: o diagnóstico de Síndrome de Asperger. Essa dúvida,
baseada em critérios classificatórios, circulava em seminários, sessões de
supervisão, grupos de estudos e aulas em diversas áreas da graduação e pósgraduações. Asperger ou Autismo? Esta questão também mobilizou muitos
pais a peregrinarem por diversos profissionais e a recorrerem a diversas
modalidades de investigação.
O diagnóstico de Síndrome de Asperger foi fruto do trabalho de um
psiquiatra vienense contemporâneo de Kanner. Em 1944, Hans Asperger
expôs quadros clínicos semelhantes ao autismo no que se refere à perturbação
existente no contato afetivo. No entanto, a obra de Asperger não teve grande
repercussão na época, visto que sua publicação ocorreu em língua alemã e ao
término da Segunda Guerra Mundial (MARFINATI; ABRÃO, 2014).
A Síndrome de Asperger ou Psicopatia Autística era diagnosticada
quando o paciente manifestava comprometimentos no desenvolvimento da
linguagem por volta dos quatro/cinco anos de idade, diferentemente do descrito
por Kanner, que o quadro já estaria instalado até os 36 meses. O paciente era
diagnosticado com a síndrome de Asperger, quando não apresentava grande
prejuízo na área da linguagem e cognição quanto o paciente de autismo

69

(MARFINATI; ABRÃO, 2014). O diagnóstico de Asperger era dado seguido de
prognósticos menos desfavoráveis. Agora, de acordo com a nova classificação
(DSM-5), todas as crianças são enquadradas dentro do Transtorno do Espectro
Autista.
O DSM-5 apresenta uma fusão de transtorno autista, transtorno de
Asperger e transtorno global do desenvolvimento no transtorno do espectro
autista. No prefácio desta edição37 encontramos as justificativas dessa fusão.

Os sintomas desses transtornos representam um continuum
único de prejuízos com intensidades que vão de leve a grave
nos domínios de comunicação social e de comportamentos
restritivos e repetitivos em vez de construir transtornos
distintos. Essa mudança foi implementada para melhorar a
sensibilidade e a especificidade dos critérios para o diagnóstico
de transtorno do espectro autista e para identificar alvos mais
focados de tratamentos para os prejuízos específicos
observados (KUPFER; REGIER, 2014, p.xlii, grifo dos autores).

No início da década de 40, por certo, nem Kanner, nem Asperger
podiam prever as consequências da identificação de uma patologia da infância
isolada dos demais transtornos mentais. O que foi identificado por ambos como
transtorno raro, hoje é considerado como epidêmico e de interesse em todas as
áreas de atendimento à infância. Melhor dizendo, estamos falando de uma
desordem que ganhou até data específica para ser lembrada. O dia dois de
abril tornou-se o Dia Mundial da Conscientização Sobre o Autismo ou Dia
Mundial do Orgulho Autista.
A Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu este dia em
conformidade como a Aspies for Freedom, instituição criada em 2004, nos
Estados Unidos. A Aspies for Freedom, luta pelos direitos civis das pessoas
com autismo, leva informações ao público em geral sobre a questão e oferece
apoio às famílias. O Brasil também instituiu o dia dois de abril como a data em
que acontecem mobilizações de vários setores em benefício da pessoa com

37

Assinado por M.D David J. Kupfer e por M.D., M.P.H. Darrel A. Regier, respectivamente, Presidente e
Copresidente da Força-tarefa desta edição.

70

autismo e seus familiares (Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde PúblicaMPASP)38.
O autismo descoberto por Kanner e a patologia descrita por Asperger
aguardaram um pouco para aparecer nos manuais de classificações e a cada
atualização destes manuais de classificação essas desordens sofrem
modificações significativas quanto à nomenclatura e a quanto aos critérios
classificatórios.
Untoiglich (2013) comenta que, em 1952, no Manual de Diagnóstico e
estatística de transtornos mentais (DSM I), o autismo não foi mencionado. Na
publicação deste manual, Kanner já havia definido o autismo como patologia
diversa da psicose, mas as crianças com características compatíveis às
descritas por ele eram diagnosticadas como Reação Esquizofrênica de Tipo
Infantil.

As primeiras edições da Classificação internacional de
Doenças (CID) não fazem referência ao autismo. A 8ª edição o
traz como uma forma de esquizofrenia, a nona agrupa-o como
uma psicose infantil. A partir da década de 80, assiste-se a
uma verdadeira revolução paradigmática no conceito, sendo o
autismo retificado da categoria de psicose no DSM III
(American Psychiatric Association) e no DSM III-R [...] (BOSA,
2002, p.28).

No DSM-IV, publicado em 1994, os pacientes podiam ser diagnosticados
em quatro níveis de comorbidades diferentes: Autismo Clássico, Síndrome de
Asperger, Transtornos Desintegrativos da Infância ou Transtorno Invasivo do
Desenvolvimento (TID) sem outra especificação. No DSM-IV-TR (2003), houve
alterações textuais, entre elas, a modificação do termo usado para classificar o
autismo, sendo ele nomeado como Transtornos Globais do Desenvolvimento
(TGDs).
Na CID 10, o autismo é identificado como um Transtorno Global do
Desenvolvimento (TGD) e no DSM-V (2014), atual publicação da American
Psychiuatric Association, o autismo é identificado como Transtorno do Espectro
Autista (TEA).
38

Disponível In:<http://psicanáliseautismoesaudepública.wordpress.com/informçoes-uteis/

71

O transtorno do espectro autista engloba transtornos antes
chamados de autismo infantil precoce, autismo infantil, autismo
de Kanner, autismo de alto funcionamento, autismo atípico,
transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação,
transtorno desintegrativo da infância e transtorno de Asperger
(APA/ DSM –V.5, 2014, p.53).

Andrade (2014), em estudo que, também, questiona a patologização do
autismo, traz a palavra distúrbio como tendo um significado muito semelhante
ao da palavra transtorno.

[...] Etimologicamente, a palavra distúrbio vem acompanhada
do prefixo dis e do radical turbare. O prefixo dis tem como
significado alteração anormal, patológica. O radical turbare
quer dizer alteração da ordem natural das coisas, no sentido de
perturbação mental. Podemos concluir que o significado de
distúrbio não se distancia do significado da palavra transtorno,
mostrando-nos que tanto distúrbio quanto transtorno designam
uma perturbação mental, mas que não se adequam ao sentido
de doença. [...] (ANDRADE, 2014, p.104 grifos da autora).

Laurent (2014) comenta que desde a publicação do DSM-IV, a
quantidade de casos associados a esse grupo progride em ritmo epidêmico e
alerta que em vinte anos, a quantidade de itens agrupados sob a categoria de
―autismo‖ multiplicou-se por dez. Para ele, esses números além de justificar o
que chama de epidemia do autismo, justificam uma diversidade de teorias que
tentam demarcar a quem pertence o autismo, quem melhor pode nomeá-lo e
quem melhor pode tratá-lo. Estando, a partir desta perspectiva, configurada o
que nomeia como a ―batalha do autismo‖.
Éric Laurent, psicanalista e psicólogo publicou na França, em 2012, La
bataille de lʹautisme – De la clinique à la politique, o livro tem como proposta
oferecer um painel de seis décadas da psicanálise do autismo. Esta obra foi
traduzida no Brasil, em 2014, por Claudia Berliner com o título: A batalha do
autismo – Da clínica à política.
Laurent (2014) considera as modificações às quais nos referimos quanto
à categorização do autismo nas classificações como ―instabilidade‖ e uma das
―lutas‖ enfrentadas pelo autismo. Menciona os conflitos ocorridos em função

72

dos trabalhos preparatórios do DSM-5 que indicavam suprimir a síndrome de
Asperger dessa nova classificação e que, apesar de duras críticas, a
publicação atual retirou esta categoria dos diagnósticos da infância.
A retirada da síndrome de Asperger no DSM-V provocou uma rejeição
por parte dos diagnosticados como portadores e seus familiares. Na
perspectiva do DSM-5, o autismo é, com efeito, transformado em Transtorno do
Espectro do Autismo (TEA). O TEA ampliou-se tanto que a quantidade de
sujeitos supostamente diagnosticados multiplicou-se por dez em apenas vinte
anos, até atingir a frequência de uma criança em cada cem. E, se incluirmos
nos TEA, os considerados não especificados, esse número cresce ainda mais.
―Em escala mundial, o número de autistas pode, assim, dobrar em função dos
itens considerados pertinentes. Um especialista calculou que, nesse ritmo, uma
criança em cada cinquenta logo será considerada autista‖ (LAURENT, 2014 p.
66).
As associações de sujeitos ditos Asperger, apresentaram insatisfação
pela retirada do item Asperger dos transtornos não especificados para
reintroduzi-lo no espectro dos autismos. Entre o que foi reivindicado por
familiares e portadores da síndrome de Asperger, podemos descrever a
insatisfação por considerarem a especificidade da síndrome e, por não
aceitarem serem incluídos em uma desordem que não atenta para o potencial
cognitivo dos portadores de Asperger (LAURENT, 2014).
Araújo; Lotufo Neto (2014), em publicação com orientação cognitivocomportamental, consideram que o DSM-V tem como proposta ―lançar um
olhar longitudinal sobre o curso dos transtornos mentais‖ (p.70). Justificam esta
afirmativa com a exclusão do capítulo: Transtornos Geralmente Diagnosticados
pela Primeira Vez na Infância ou Adolescência e a reedição de parte deste
extinto capítulo, como: Transtornos do Neurodesenvolvimento. A proposta da
APA está relacionada à eficiência do clínico em diagnosticar os TEA não dando
margem a qualquer perspectiva diversa sobre este paciente.

A mudança refletiu a visão científica de que aqueles
transtornos são na verdade uma mesma condição com
gradações em dois grupos de sintomas: Déficit na
comunicação e interação social; Padrão de comportamentos,
interesses e atividades restritos e repetitivos (ARAÚJO;
LOTUFO NETO, 2014 p.72).

73

A publicação de Laurent (2014) apresenta este lugar de conflito que o
autismo de Kanner e a síndrome de Asperger ocupam em termos
epistemológicos e clínicos terapêuticos ao longo dos anos. E, descreve a
crescente batalha, inaugurada por Kanner, entre explicações etiológicas de
base orgânica ou psicogênica para o autismo.
Vieira; Silva (2014), em nota nesta obra de Laurent, situam o leitor
acerca de qual ―batalha‖ fala Laurent. Mencionam que o Brasil vive ―batalha‖
semelhante à francesa quando se trata de autismo. Referem-se à ―luta‖ contra
o autismo ser concebida, apenas, sob a luz de classificações universais e
tratada, unicamente, com técnicas comportamentais.
Vieira; Silva (2014) dão provas dessa afirmativa quando citam que no dia
04 de setembro de 2012, foi publicado no Diário Oficial do Estado de São
Paulo, a partir da Coordenadoria de Regiões de Saúde – um Edital de
Convocação Pública, convocando para credenciamento de ―Instituições
Especializadas em Atendimento a Pacientes com Transtorno do Espectro
Autista (TEA)‖, para eventual celebração de contrato ou convênio.
Só seriam atendidos por estas intuições, quando então credenciadas,
pacientes que portassem laudo médico com diagnóstico de TEA dado por
especialista em neurologia ou psiquiatria. O referido edital, também, exigia que
o responsável pela instituição garantisse que os serviços prestados pela
mesma, tivessem orientação cognitivo-comportamental.

Mais constrangedora ainda era a exigência de que houvesse
uma ―declaração do responsável legal de que utilizará métodos
cognitivos-comportamentais validados na literatura científica,
tais como PECS (Picture Exchange Communication System) –
Sistema de Comunicação por Figuras; ABA (Aplied Behavior
Analysis) – Análise do Comportamento Aplicada; TEACCH
(Treatmentand
Education
of
Autisticand
[Related]
Communication Handicapped Children) – Tratamento e
Educação de Crianças Autistas [e Afins] com Desvantagem na
Comunicação‖ (VIEIRA; SILVA, 2014 p. 13, grifos dos autores).

Em função deste edital, profissionais de psicologia, psicanalistas e mais
uma variedade de instituições envolvidos na assistência a pessoa com autismo
e suas famílias iniciaram uma luta contra essa tentativa de impor uma única
forma de compreensão do autismo.

74

O Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP) iniciou um
trabalho epistêmico, clínico e político em torno do autismo, envolvendo diversas
instituições de psicanálise por todo o Brasil (VIEIRA; SILVA, 2014).
Este trabalho do MPASP resultou numa petição pública que foi favorável
ao cancelamento do edital. Este movimento continua atuante e integrando mais
de cem instituições e mais algumas centenas de profissionais que atendem
autistas no Brasil. Tem como proposta divulgar discussões estabelecidas na
temática do autismo e atentar para qualquer ação que não favoreça a pessoa
com autismo e sua família.
O MPASP e a Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) continuam a
―batalha‖ favorecendo o debate acerca da assistência ao autismo à luz da
psicanálise em Jornadas, artigos, revistas e livros (VIEIRA; SILVA, 2014).
Essa nossa luta é semelhante a que Laurent descreve no prefácio de
seu livro. O interesse por esta publicação no Brasil seria o resultado de uma
luta mundial para que a o autismo seja concebido e tratado não apenas com
medicamentos e técnicas de controle de comportamento. Para Laurent, a
―batalha‖ do autismo na França,
[...] se precipitou quando o autismo recebeu, na França, o
rótulo de ―Grande Causa Nacional‖, em janeiro de 2012. Em
vez de reunir os espíritos em torno de uma causa justa, uma
campanha
midiática
virulenta
desencadeou
fortes
enfrentamentos na esfera pública (LAURENT, 2014 p. 17 grifo
do autor).

Mas, antes dessa recente campanha de 2012, Laurent (2014) cita que,
já em 2005, na França, uma circular, de oito de março de 2005, relativa à
política de atenção a pessoas afetadas pelo autismo e de Transtornos
Invasivos do Desenvolvimento (TID) demarcava esta ―batalha‖. Esta circular
afirmava que as causas do autismo decorreriam da intervenção de múltiplos
fatores genéticos, descartava a possibilidade de fatores etiológicos de caráter
psicogênico e indicava como prioridade terapêutica educar as pessoas com
autismo ou TID.
Laurent (2014 p.17) associa os termos ―batalha e/ou luta‖ às dificuldades
encontradas pelos pais de crianças ou adolescentes autistas na luta por
atendimento que possam diminuir, efetivamente, o sofrimento destes e de seus

75

filhos. Bem como, destaca que o autismo, desde a identificação e o
diagnóstico, é motivo de grandes batalhas. Para ele, a questão das causas
envolve discursões descritas como apaixonadas. Sendo a busca pela
identificação de fatores que possam responder o que determina o autismo, se
fatores inatos ou fatores ambientais, o que pode ser identificada como a maior
batalha.
Para Laurent (2014), a batalha do autismo, também, remete ao modo
como os partidários de uma linha científica querem utilizar os resultados
obtidos pelas ciências médicas para responder acerca da etiologia do autismo
e para “invalidar qualquer abordagem relacional inspirada na psicanálise‖ (p.19)
E, ainda, denuncia que a assistência apoiada apenas no condicionamento do
comportamento pode ter consequências desastrosas para os sujeitos autistas.
Propõe que tanto para as pessoas autistas quanto para os pais destas, é
necessário manter uma pluralidade de abordagens, bem como diversas formas
de se compreender e apresentar o autismo.

A pedra angular dessa batalha consiste em permitir que cada
criança elabore, com seus pais, um caminho próprio, e
prossiga nele na idade adulta. [...] trata-se, pois, de uma
batalha pelo respeito à diversidade (LAURENT, 2014 p. 19).

Destacadamente, Laurent (2014, p.21) defende ―a conveniência da
abordagem psicanalítica do autismo batalhando contra os que a recusam”.
Justifica a psicanálise como campo de saber capaz de abarcar o autismo pela
exigência de um olhar que atenda particularidades dos sujeitos. E, apresenta a
abordagem do autismo à luz dos ensinamentos de Lacan.
A psicanálise não se estabelece no modelo causa-efeito e não tem como
propósito indicar a causa físico-química ou de apontar um culpado.

Para

Laurent, a psicanálise tem mais a intenção de passar do:

É por causa de... para um Que cada um se faça causa da fala
do Outro, do que pode se construir como borda, das
possibilidades de deslocamento dos limites do que foi
encapsulado como modo de defesa contra a ameaça
encarnada pelo Outro (LAURENT, 2014 p. 132).

76

Mas, este modelo causa-efeito, no autismo, clamou por se estabelecer e
conseguiu seu lugar de acordo com a psiquiatria moderna. Laurent (2014)
comenta que a própria psiquiatria, que até então praticava o estudo da relação
que os sujeitos estabelecem entre si, a partir dos anos 70 passou a ser
reincorporada pela medicina.
Neste movimento a psiquiatria perdeu sua condição singular, para se
tornar uma disciplina estritamente biológica centrada no corpo reduzido ao
organismo.

E o autismo, caracterizado pelo déficit extremo de relação,
tinha a vantagem de ser diferenciado dos transtornos da fala e
da linguagem, ao passo que a esquizofrenia e a paranoia se
mantinham como um transtorno ou desordens do laço social. O
autismo podia, portanto, ser considerado uma afecção cerebral
pura, livre das exigências da linguagem na relação com o
Outro. Tratava-se, pois, de promover a categoria no maior
número de casos possível, em detrimento da categoria de
psicose, alegando erros de diagnósticos (LAURENT, 2014 p.
63).

Para Laurent (2014), o século XX foi o da descoberta da extensão da
neurose e do conflito psíquico, O fim do século passado foi marcado pela
revelação da extensão e da frequência da psicose e da depressão, dando-lhes
sua condição ordinária. E, aponta o século XXI como o da evidência de uma
condição ordinária do autismo.
Laurent (2014) acrescenta que o diagnóstico de autismo veio atender a
solicitação dos pais que precisavam de uma definição sobre a condição de
seus filhos, a fim de que estes pudessem frequentar instituições de ensino
especializadas. O diagnóstico de autismo esteve associado ao diagnóstico de
esquizofrenia até 1979; essa associação, por exemplo, na Grã-Bretanha,
enquadrava os pacientes diagnosticados como autistas na categoria de
ineducáveis. A pessoa com diagnóstico de autismo passou a ser vista não
como doente, mas como deficiente, ou seja, educável.
O diagnóstico de autismo passou a ser preferível ao diagnóstico de
psicose infantil. E, como já referimos, essa mudança na nomenclatura
favoreceu uma epidemia de autismo. Laurent (2014) mencionou esta alarmante
progressão no registro de casos de autismo e justificou sua afirmativa citando a

77

Califórnia, onde quantidade de crianças que receberam cuidados assistenciais
especiais em função do diagnóstico de autismo triplicou de 1987 a 1998 e
dobrou nos quatro anos seguintes.
A afirmação de uma epidemia de autismo pode ser constatada com os
números do Centers for Disease Controland Prevention (CDC) de Atlanta nos
Estados Unidos que, em março de 2012, apresentou a frequência do autismo
estimada de uma criança para cada 88, ou seja, um menino para cada 54,
dada a dissimetria de sensibilidade entre os sexos. Isso indicando um aumento
de 23% desde 2006 e de 78% desde 2000-2002, período que esta instituição
iniciou essas avaliações estatísticas (LAURENT, 2014).
A epidemia do autismo é considerada como determinante para os
avanços nas pesquisas neuroquímicas e genéticas e para justificar o grande
investimento da indústria de medicamentos. Bem como, justificar o amplo
desenvolvimento de classificações e subclassificações (LAURENT, 2014).
Esse movimento de crescimento é também identificado em outras
desordens da infância. Em dez anos, o número de crianças diagnosticadas
com algum transtorno psicopatológico aumentou 35 vezes. Mas, seria no
campo dos espectros do autismo que esse aumento é considerado mais
expressivo. Bem como, por conta deste aumento, muito se tem investido em
remédios que possam abater os sintomas, mas quase nenhuma resposta
terapêutica tem sido, efetivamente, registrada (LAURENT, 2014).
Essa epidemia, também justifica o número de pesquisas que estão
sendo desenvolvidas para atender a hipótese etiológica de uma desordem de
caráter orgânico. Marcelli; Cohen (2010) apresentam os resultados de estudos
cromossômicos, estudos anatômicos, estudos eletroencefalográficos, estudos
bioquímicos,

investigação

sensorial

e

estudos

envolvendo

hipóteses

bioquímicas ou enzimáticas, mas, nenhuma destas pesquisas apresentou
resultados que pudessem ao menos reduzir o crescente número de
diagnósticos de autismo ou indicar alguma abordagem terapêutica adequada.
Podemos trazer uma pesquisa da Escola de Cambridge que aponta o
autismo como relacionado a um excesso de testosterona, o que justificaria a
prevalência em meninos. O excesso de testosterona dificultaria a boa
transmissão das mensagens no cérebro via os neurotransmissores. No
entanto, um estudo inglês desconsidera essa investigação, com alegações

78

apoiadas na perspectiva de que as mulheres teriam maior capacidade de
sociabilidade, sendo esta característica aprendida socialmente (LAURENT,
2014).
Laurent (2014), também, cita que partir de 1998, pesquisadores
formularam a hipótese de uma taxa de oxitocina anormalmente baixa nos
autistas do sexo masculino e testes concluíram que o uso da oxitocina
favoreceria a interação social e a compreensão dessa interação. E comenta,

[...] é evidente que todas essas tentativas de oferecer um
tratamento chocam-se com um grande problema: o próprio
modelo que consiste em prescrever um tratamento, constatar
seus efeitos e, depois, dizer que a doença é um déficit da
molécula incluída no medicamento é um impasse (LAURENT,
2014, p.69).

Estas pesquisas são confrontadas com a multiplicidade de condutas
apresentadas pelas pessoas autistas; o impasse se dá em conseguir uma
explicação ou uma dose terapêutica que possa intervir do mutismo extremo a
excentricidade dos autistas savants (prodígio). Esta multiplicidade de quadros
de autismo nos aproxima de Rocha (2012), ao trazer o autismo como autismos.
Desta forma, podemos trazer, mais uma vez, a ―batalha do autismo‖. De
acordo com Laurent (2014), as atuais investigações garantiriam uma
multiplicidade de mutações genéticas, que contribuiriam para uma perspectiva
de singularidade dos quadros de autismo. Favorecendo a compreensão da
diversidade dos quadros de autismo e justificando a multiplicidade de saberes
em que o autismo pode ser considerado.
Laurent (2014) destaca a abordagem clínica de Rosine e Robert Lefort,

considerando-os pioneiros na aplicação da psicanálise aos casos de autismo e
de psicose grave na criança depois da Segunda Guerra Mundial.
Rosine Lefort desenvolveu uma abordagem terapêutica inovadora com
crianças acolhidas num orfanato público que atendia a todo tipo de crianças
órfãs, traumatizadas, abandonadas à própria sorte e a patologias mal
diferenciadas, vítimas da guerra, etc. E, após trinta anos de realizados esses
tratamentos, Rosine publicou os registros de sua prática clinica. Desenvolveu,

79

assim, uma abordagem clínica para atendimento à psicose e ao autismo
(LAURENT, 2014).
Laurent (2014) destaca que Rosine e Robert Lefort desenvolveram uma
abordagem terapêutica para o autismo a partir de discussões, entre eles,
desses casos atendidos por Rosine e ―para exporem seu verdadeiro work in
progress, guiaram-se pela consideração cada vez mais estrita da categoria do
real no ensino de Lacan, e das consequências que ela implica na prática‖ (p.
37, grifos do autor).
Laurent (2014) descreve sua compreensão do autismo a partir da
perspectiva Lacaniana. Para ele,

Esforçar-se para entrar em relação com um sujeito autista,
confrontar-se com esse impossível, com esse real, a partir de
uma perspectiva psicanalítica, supõe apelar à invenção de uma
solução particular sob medida. Com efeito, a invenção é o
único ―remédio‖ do sujeito autista e deve incluir, a cada vez, o
resto, ou seja, o que permanece no limite de sua relação com o
Outro: seus objetos autistas, suas estereotipias, seus duplos
(LAURENT, 2014 p.78 grifos do autor).

Ampliaremos os resultados desta investigação de Laurent, na subseção
seguinte, como nosso principal aporte teórico para a compreensão do autismo;
mas não podemos deixar de mencionar outras contribuições da psicanálise
para este sofrimento psíquico da infância. Podemos aqui citar os fundamentos
teóricos-clínicos de: Mahler (1983); Bettelheim (1987); Winnicott (1983, 1997,
2002,); Tustin (1984,1990); Laznik-Penot (1991, 2004); Jerusalinsky (2011,
2012); Rocha (2012) e outros.
Para Kupfer (1999), em psicanálise não há a necessidade de um
consenso sobre o autismo, todas as referências teóricas foram e são
construídas a partir do olhar de cada um destes teóricos na relação com seu
paciente no enfretamento do autismo. Ou seja, as concepções acerca do
autismo desenvolvem-se dinamicamente, a própria nominação do autismo vem
sendo modificada. Esta diversidade na nominação e nos construtos teóricos
dentro da própria psicanálise é, por nós, compreendida como um processo de
expansão do interesse na investigação do adoecer psíquico da infância e no

80

desenvolvimento da compreensão acerca do autismo dentro da própria
psicanálise.
Queremos destacar o trabalho de Costa (2003) que adota a expressão
―sofrimento psíquico grave‖ para apresentar o autismo.

[...] para designar não só tudo aquilo que está sob o domínio da
definição de psicose, mas para apontar alguns desafios
filosóficos: a) buscar superar a classificação nosográfica,
empiricista, categorial e sintomatológica das classificações
psiquiátricas, que, por si sós, se pretendem ateóricas (o que é
um equívoco); b) apontar mais para fenômenos existenciais,
fenomenológicos, de cunho interno, relacional e dinâmico, que
falam da angústia humana, das contradições da estruturação
psíquica, do sofrimento (psíquico, afetivo, emocional,
relacional), para além do sintoma e c) tentar resgatar, portanto,
a dimensão ―normal‖, ―natural‖, ―inerente‖ de qualquer
sofrimento humano, inclusive daqueles tidos como psicóticos.
Neste sentido, o qualificativo ―grave‖ se refere tão somente à
intensidade do sofrimento e não a uma classificação específica,
buscando resgatar a dimensão contígua de todo sofrimento
humano,
de
um
extremo
(―suportável‖)
a
outro
(―desorganizador‖) (COSTA, 2003, p.13)..

Januário; Tarufi (2009) também apresentam o autismo dentro desta
perspectiva de sofrimento psíquico objetivando impedir que o determinismo que
vem das classificações das estruturas de base (neurose, psicose e perversão)
e das classificações psiquiátricas emoldure precocemente crianças, já que as
manifestações do autismo apresentam-se na primeira infância.
Para Costa (2006) a perceptiva de sofrimento psíquico está diretamente
relacionada à angústia vivida pelo sujeito pela sua forma de relacionar-se
consigo mesmo e com o mundo ―[...] em sua dimensão de real inapreensível e
das possibilidades e/ou impossibilidades do sujeito fazer frente ao insuportável,
sem um anteparo, sem máscaras que dissimulem a disjunção [...] entre o real e
a verdade, entre o desejo e o gozo [...]‖
Costa (2006) define o sofrimento psíquico grave aproximando-o do
conceito clássico de psicose, ou seja, como um afeto insuportável, que
desorganiza o sujeito em sua forma básica de ser e de funcionar consigo
mesmo e com todos os demais possíveis seguimentos relacionais.

81

Laurent (2014) atenta para a necessidade dos profissionais de
orientação psicanalítica recolher e difundir as experiências da prática com
esses sujeitos e expor os resultados obtidos em publicações. Para Laurent,
esse é o caminho para que o saber psicanalítico possa também chegar aos
que ocupam postos de decisão no que se refere às políticas de assistência à
pessoa com autismo.
Laurent (2014) cita como ações importantes nesta batalha o:

Fórum de Barcelona sobre o autismo, organizado em caráter
de urgência em junho de 2010. O governo da Catalunha
estava prestes a promulgar uma lei sobre o autismo. O lobby
cognitivo-comportamental queria que seus métodos figurassem
ali como a referência fundamental do tratamento do sujeito
autista. Foi quando se organizou esse Fórum para mostrar que
existia uma posição, determinada e fundamentada, por parte
dos profissionais da ―saúde mental‖ orientados pela psicanálise
(LAURENT, 2014, p. 130).

Laurent (2014), também, faz referência à ação da Escola da Causa
Freudiana que realizou Jornadas em outubro de 2012, dedicadas à abordagem
psicanalítica do autismo. E, reafirma a necessidade de atuação da psicanálise,
no intuito de mudar a redação de textos e leis cujos efeitos possam ser
―devastadores‖ para as pessoas com autismo e seus familiares.
Estamos num momento em que o autismo tem sido tema de inúmeras
investigações de cunho médico, resultando o fato de que num curto espaço de
tempo são apresentadas explicações bioquímicas e genéticas para a
manifestação do autismo e, graças a estes achados, prescritas ações
terapêuticas clínicas e farmacológicas.
Este tipo de investigação científica, rapidamente, também, é divulgado
para além de sessões científicas. Esses achados compõem informativos de
associação de pais e de familiares da pessoa com autismo e, são manchetes
de programas de rádio e televisão, publicados em jornais e revistas de grande
circulação

e

de

uma

forma

incontrolável

estão

sendo

divulgados

eletronicamente.
Neste mundo globalizado, onde o capitalismo e as falsas ciências
imperam, vivemos à mercê do mercado, das pseudoverdades científicas e do

82

poder da mídia. A mídia divulga a cada dia uma nova descoberta da medicina
para justificar os sintomas autísticos e segue apresentando uma terapêutica
universal para pôr fim às manifestações autísticas (VIERA E SILVA, 2014).
Podemos reafirmar que estamos diante da ―batalha do autismo‖, referida
por Laurent (2014), quando nos deparamos com esta circulação muito grande
de materiais que divulgam pesquisas médicas relacionadas à etiologia,
tratamento e até mesmo a cura do autismo.
Podemos ilustrar esta ―batalha‖ do saber médico sobre o saber da
psicanálise com a nota de esclarecimento da equipe do Centro de Pesquisa em
Psicanálise e Linguagem (CPPL)39

sobre a publicação do dia doze de

novembro de 2014, da matéria na Folha de São Paulo, impressa e digital,
intitulada: Em laboratório, cientistas curam neurônio autista. Esta publicação
descreve o uso de uma medicação antiga, a hiperforina40, que teria sido capaz
de corrigir más formações de neurônios causadas por uma mutação no gene
TRPC6 correlacionada ao autismo, in vitro.
A equipe do CPPL, em sua nota de esclarecimento a comunidade
acadêmica e a todos os interessados na causa do autismo, afirma a
importância de se investir em pesquisas e tratamentos que aliviem os sintomas
e ajudem as pessoas diagnosticadas com autismo, mas alerta para o cuidado e
a responsabilidade na divulgação e na argumentação teórico-científica destas
informações. Especificamente, atentam que o título da matéria vende a
impressão de que existem neurônios autistas e que foi possível curá-los em
laboratório, dando a impressão que a cura do autismo estaria próxima.
Esta mesma nota de esclarecimento também, cita outra manchete do
mesmo jornal, esta, então, de cinco de dezembro de 2014 e intitulada: Causas
do autismo seriam genéticas e ambientais na mesma proporção, atenta para
outras possibilidades de compreensão do autismo além das explicações
médicas.

39

Fundado em Recife em 1980 por um grupo de profissionais com um projeto comum de
trabalhar com crianças autistas. Atualmente, agrega profissionais de todo o Brasil e de várias
partes do mundo para encontros na temática do autismo. Sua equipe tem publicações
relevantes para o estudo do autismo e funciona como um espaço para atendimento clínico,
ensino e consultoria em gestão. Disponível em: <http://cppl.com.br.> Acesso em: 2 nov. 2014
40

Hipérico ou Hypericumperforatum L ou Erva-de-São-João. É uma planta que nas
últimas décadas tem sido utilizada em preparações farmacêuticas para o tratamento
da depressão. In: <http://www.ufrs.br./boletimcimrs/hipérico> Acesso em: 20 dez.2014.

83

A proposta dessa comunicação do CPPL é alertar sobre os efeitos que
divulgações de estudos como os citados nesta nota podem gerar em famílias
com crianças diagnosticadas autistas. Para Rocha (2014), a divulgação da
ideia de que a cura do neurônio autista trará a cura do autismo poderá ter
graves consequências:
Esse entendimento equivocado suscitado pela manchete pode
trazer efeitos perigosos para as famílias envolvidas, por lhes
dar a falsa expectativa de cura breve, desmentida no corpo do
texto, gerando frustrações e reforçando o fatalismo que
acompanha o autismo. Pode, também, ter um efeito nefasto
sobre a crença nas pesquisas em desenvolvimento sobre o
autismo levando-as ao descrédito pelos leitores comuns,
sobretudo a essa importante pesquisa da matéria por não
realizar a cura ―prometida‖ no anuncio (ROCHA, 2014)41.

É pertinente consideramos o crescimento das bioidentidades, fundadas
na biologia, e o enfraquecimento das antigas referências identitárias oferecidas
por narrativas, como psicanalítica, por exemplo. Pautado na ciência, o saber do
médico passa a ser considerado como inquestionável, [...] ―no desamparo
produzido pelo vácuo deixado pelas antigas certezas – religiosas, políticas,
entre outras -, a verdade científica tomou o lugar da única que não pode ser
contestada‖ [...] (ROCHA; CAVALCANTI, 2014, p. 234).
Neste cenário, possuir uma identidade, mesmo que seja diagnóstica,
proporciona a esses indivíduos a experiência de pertencer a grupos que se
organizam em torno dessas marcas identitárias. Os defensores do DSM
apontam que graças a essas identidades coletivas patológicas foi, e é possível,
marcharem juntos em busca de direitos sociais, assistência em diversos
setores da saúde e espaços em diversos seguimentos sociais.
Rocha; Cavalcanti (2014) avultam que, tanto na clínica como na vida
cotidiana, algumas pessoas expressam que receber o diagnóstico psiquiátrico
garantiu um conforto, a resposta ao que buscavam e que, graças ao
diagnóstico puderam ressignificar as experiências e própria vida. Apresentam

41

Rocha, P.S. Nota de esclarecimento – Disponível em: < http://cppl.com.br.>.
Acesso em: 11 dez.2014

84

essa condição como singulares, como todas as outras que envolvem
sofrimento psíquico.
Consideramos que este referido benefício desaparece quando se pensa
que engrossando as fileiras de diagnosticados, garante-se, a já referida,
extrema lucratividade da indústria farmacêutica e de diversos setores na área
da saúde. Neste estudo, questionamos a permanência desses pacientes no
lugar que foram colocados pelo discurso médico e contestamos o modelo de
assistência que os mantenha nesse lugar. Para finalizarmos essa subseção,
consideramos que o paciente seja o que menos se beneficia deste modelo
médico-classificatório, mas de seu lugar não pode enxergar isto.

3.3 O Autismo Posto em Perspectiva pelo Discurso Analítico
Frequentemente, a família tem a partir do discurso médico o primeiro
encontro com o autismo. Mesmo tendo sido o professor, ou outro profissional
que tenha inicialmente questionado ou apontado ―condutas diferentes‖ na
criança, a família vai buscar o diagnóstico médico. O diagnóstico médico
favorece a compreensão de todos diagnosticados com TEA como portadores
de determinados déficits, criando generalizações e respostas reducionistas.
Recentemente, ouvimos o relato de que após a realização do
diagnóstico de TEA, para evitar mal-entendidos, a família é orientada a passar
por um treinamento de pais, ―um curso para pais de portadores de TEA‖, curso
que tem como objetivo ensinar aos pais a controlarem os sintomas autísticos
das crianças.
A psicanálise não se propõe a educar crianças diagnosticadas com
autismo e nem, tampouco, capacitar pais a eliminarem as manifestações
autísticas. O analista não nega qualquer manifestação descrita no DSM, mas
se utiliza de todas elas para encontrar o que está sendo comunicado pela
criança e pela família através da criança.

[...] entrar em relação com um sujeito autista, confrontar-se com
esse impossível, com esse real, a partir de uma perspectiva
psicanalítica, supõe apelar à invenção de uma solução
particular sob medida. Com efeito, a invenção é o único

85
―remédio‖ do sujeito autista e deve incluir [...] o que permanece
no limite de sua relação com o Outro: seus objetos autistas,
suas estereotipias, seus duplos (LAURENT 2014, p.72).

Laurent (2012) traz o testemunho do Presidente Schreber (FREUD,
1911), como o caso mais importante para as primeiras gerações da psiquiatria,
e apresenta que, atualmente, temos uma diversidade de biografias de sujeitos
considerados autistas como uma preciosa fonte de investigação sobre o
autismo. Nestas auto declarações, que foram construídas por eles mesmos ou
com a ajuda de pais ou jornalistas, temos uma diversidade de um espectro de
testemunhos de autistas em nome próprio, que nos apresentam como foram
suportes de medicação ou, como precisaram desenvolver arranjos, (como por
exemplo, inventarem máquinas) [...] ―para tratar o insuportável do que viviam.
Há certo uso da instância da letra em sua relação com o campo da palavra que
é particular a esses sujeitos, distinto do campo da psicose‖ (p.21).
Laurent (2012) considera superada a sua compreensão dos anos 90, de
‗autismo com encapsulação‘, como sendo uma borda estranha que parecia
estabelecer o limite do universo de alguns sujeitos autistas e estar na superfície
do corpo e quase duplicando-o. Ele deveria ser considerado como um modo de
retorno do gozo, mas não no corpo (como ocorre na esquizofrênia), ou no
Outro (como na psicose paranoica), ―mas sim especificamente em uma borda
do corpo, especificamente essa borda‖ (p.27). Agora, após sua leitura de
Miller42 do último ensino de Lacan, considera esses fenômenos de borda como
acontecimentos de corpo peculiar em casos de autismo (LAURENT, 2014).
Laurent (2014) apresenta como detectável o fato dos sujeitos autistas
estarem imersos no real e que o efeito desta imersão no real seria o acesso a
uma dimensão terrível em que nada falta, já que nada pode faltar. Não
havendo furo, nada pode ser extraído para ser posto neste furo, que, de fato,
não existe.
Essa falta do furo é nomeada por Laurent (2014) como foraclusão 43 do
furo, e justifica as crises de angústia vividas por crianças diagnosticadas como

42

Um de gozo no ensino de Lacan
Termo introduzido por Lacan, na última parte do O Seminário, livro 3, As psicoses, de 1956.
Assinala um mecanismo específico da psicose, através do qual ―se produz a rejeição de um
43

86

autistas quando, por exemplo, estão no banheiro e não conseguem se separar
de suas fezes. ―Essa foraclusão torna o mundo invivível e leva o sujeito a
operar um furo por forçagem, via uma automutilação, para encontrar uma saída
para o excesso de gozo que invade o corpo‖. [...] (p.80, grifo do autor) O mundo
cheio do sujeito não permite incluir a falta, é preciso produzir a falta. Há uma
―intolerância ao furo‖ nestes sujeitos. (p.81)
Essa intolerância ao furo coincide com a ausência de borda, sendo a
borda uma zona fronteiriça, possível de ultrapassagem, lugar que garante a
ocorrência de trocas efetivas. O sujeito diagnosticado com autismo defende-se
das manifestações do Outro com essa borda. Na clínica, é preciso de certo
tempo para que essa borda se desloque, constituindo então um espaço, que
não é nem do sujeito nem do Outro, onde essas trocas de um tipo novo sejam
possíveis onde, durante o processo, o analista torna-se um sujeito menos
ameaçador. Traz uma diferenciação entre os fenômenos de borda e os
acontecimentos de corpo e como resultado dessa diferenciação, há uma clínica
original, que pode ser intitulada de clínica do circuito, inspirada nas expressões
de Lacan: ―circuito de demanda‖ e ―circuito de letra‖ para apresentar o laço
entre o desejo e a letra. (LAURENT, 2014)
Os sujeitos sem limites e sem borda devem ser favorecidos na
construção de uma cadeia de significantes, ações, objetos e jeitos de fazer. Ou
melhor, a borda pulsional será construída a partir desses materiais e garantirá
a interação entre esse sujeito e o analista. A possibilidade da interação do
corpo do analista com o corpo da criança através de objetos foi apresentada
por Rosine Lefort44. Fragmentos de sua clínica nos dão claras demonstrações
desta via de interação de crianças com autismo. (LAURENT, 2014)
Rosine Lefort introduziu, na clínica com crianças, objetos que podiam
unir-se ao corpo como mamadeiras, bacias, sacos que possam colocar objetos
e retirá-los. Se os objetos forem extraídos ou separados do corpo, dar-se-á um
acontecimento do corpo, [...] ―a ser considerado não como efeito de
significação, mas como extração de gozo – o sujeito consegue ceder um pouco
de gozo que afeta seu corpo e, isso sem que essa cessão de gozo lhe seja

significante fundamental para fora do universo simbólico do sujeito. Quando essa rejeição se
produz, o significado é foracluído‖ [...] (ROUDINESCO; PLON, p.245)
44
O trabalho desta psicanalista também é referido na seção anterior

87

insuportável demais‖. [...] (LAURENT, 2014, p. 84). Há uma relação de corpo a
corpo entre a criança e o analista, que favorece a intrusão e a extração de
objetos.
O objeto na criança autista pode atender os limites do corpo,
protegendo-o da angústia de intrusão. Compatível com a concepção de Lacan
de ―em-fôrma, tal como as fôrmas de sapatos que constituem em-fôrmas para
conservar, de dentro, o vazio dos calçados e impedi-los de se deformar, de
desabar‖ (LAURENT, 2014, p.88, grifos do autor). Ou o objeto pode ser vivido
como extraído do corpo e, graças a isso, pode ser utilizado como objeto de
troca social.
[...] chamamos de ―objeto‖ esse acomodamento dos restos, dos
dejetos, deixados pelo encontro com o Outro da língua que
vem perturbar o corpo, seja qual for o substrato biológico do
funcionamento ou da disfunção de tal corpo. O objeto é essa
cadeia heterogênea, feita de coisas descontínuas (letras,
pedações do corpo, objetos tirados do mundo...), organizada
como um circuito, munida de uma topologia de borda e
articulada ao corpo [...] (LAURENT, 2014, p.89, grifo do autor).

Antes

de

apresentarmos

essa

topologia

do

espaço

pulsional,

consideramos necessário explorar o trecho da citação anterior em que Laurent
(2014) destaca que ―seja qual for o substrato biológico do funcionamento ou da
disfunção‖ da criança com autismo, a esta será possível o enlace a partir de
objetos. Compreendemos que se reporta àquelas situações onde as
manifestações autísticas do sujeito são atreladas a alguma patologia
neurológica considerada de base. Ou seja, casos em que, seguidos de um
diagnóstico neurológico qualquer (sequelas de meningite, encefalites, etc.) são
identificadas manifestações de autismo. Nestes pacientes, os sintomas
autísticos são frequentemente considerados tão biológicos quanto o quadro
neurológico. Logo, se não se pode curar a patologia neurológica, não se espera
que o sujeito possa sair da posição de autista.
Podemos ilustrar trazendo casos em que os pacientes com a síndrome
de

Down

apresentam

manifestações

de

quadros

autísticos.

Surpreendentemente, ouvimos o relato de pais sobre a correlação feita, por
algum neurologista, entre autismo e síndrome de Down. Já que o sujeito

88

apresenta a trissomia do par 21, a essa trissomia tudo é arremetido. O sujeito
como portador de dois diagnósticos associados fica impedido de se apresentar
como um sujeito além dos diagnósticos. Foge de um emolduramento, cai em
outro.
No autismo, o real impõe uma topologia que não é a de um corpo
circunscrito, que determina um dentro e um fora, em relação ao qual o objeto
poderia ser êxtimo relacionado ao que nos é mais próximo, embora nos seja
externo. Topologia do fundo central do toro, aquele que conecta o dentro e o
fora, o outro furo permanecendo interior ao próprio toro. [...] ―O toro se
apresenta como tendo dois furos, em torno do que algo consiste, isso é uma
simples evidência‖ (LAURENT, 2012, p 90).
O espaço se estrutura em cada sujeito de forma singular. E, no autismo,
a topologia do espaço subjetivo deve ser levada em consideração, incluindo o
campo da visão e o que está fora do campo de visão, fazendo limites entre
ambos os campos. Nos casos de autismo, o sujeito tem que operar, sem a
ajuda de nenhuma imagem estabelecida, para construir um espaço que permita
reconstruir o espaço fora da visão e o campo da visão. Para conseguir este
espaço, ―o sujeito fabrica para si instrumentos originais a partir de dispositivos
centrados nos modos de aparecimento e desaparecimento do corpo [...]‖,
(LAURENT, 2012, p 97) construindo uma continuidade a partir deste espaço
topológico.
Na psicose, há uma ruptura dos mecanismos de mensagem entre um e
outro significante, S1, S2. No autismo, não temos essas interrupções, [...] ―é
mais a repetição de um Um separado de um outro, que não reenvia a um outro,
e que, ao mesmo tempo, produz um efeito de gozo‖. (LAURENT, 2012, p 27).
No autismo, o Um de gozo não pode ser apagado; tendo sido nomeado
o corpo não apaga sua inclusão no campo da linguagem. E, [...] ―esse não
apagamento do Um marca o corpo como um corpo que goza de si mesmo,
num para além do Princípio do Prazer‖ (p.28). O sujeito autista encontra-se
numa zona de gozo. E as manifestações dessa zona de gozo podem ser
descritas como situações em que o sujeito é invadido por um pleno de gozo e
situações em que tentam extrair algo do corpo (LAURENT, 2012).
A ―inscrição do banho de linguagem no corpo‖ (p.104) é um
acontecimento originário, traumático no qual todos os equívocos podem

89

ocorrer; é um nível da língua que Lacan, aproximando-o da lalação da criança,
denominou de lalíngua. O sujeito autista tenta reduzir essa proliferação
―lalativa‖ ao Um da letra que se repete, incluída ou não no campo da fala,
vocalizada ou repetida sem sons. ―Ora, o Um se repete, mas sem conseguir
tratar a proliferação dos ―equívocos reais‖ da língua‖. (LAURENT, 2014, p.105,
grifos do autor). Podemos trazer uma possibilidade dessa emissão de ―frases
espontâneas‖, de maneira repetitiva e que dão imediato lugar ao silêncio.
[...] Essas frases são consequências do trauma do encontro
com o Outro da linguagem produz no corpo – um corpo que,
[...] torna-se, então ―falasser‖, lugar de uma letra que será
falada ou não. Estas frases espontâneas não são mensagens
interrompidas. São, antes, holofrases radicais, para retomar
uma palavra forjada por linguistas para designar, nas línguas,
palavras-frases aparentemente fora da sintaxe (LAURENT,
2014, p.105, grifos do autor).

Uma frase espontânea ou uma vocalização isolada é uma situação de
corpo tomada em seu conjunto, nas dimensões real, simbólica e imaginária.
―[...] São emitidas como se estivessem perdendo partes de si mesmo, são
emissões do corpo, pedaços de gozo, uma espécie de automutilação [...]‖
(LAURENT, 2014, p.106). O retraimento no caso de autismo pode ser
considerado também como uma forma de emissão, um retraimento no interior
de uma neoborda que cerca e delimita o corpo.
Essas emissões do corpo podem ocorrer a partir das mais diversas
formas de manipulação, inquietações e reclusões. Surpreende-nos a posição
de alguns profissionais que baseados em concepções puramente educativas
mostram-se incapazes de escutar o que o sujeito com autismo comunica com
este corpo, com autoestimulações, maneirismos e rebuscamento de condutas
motoras. Iatrogenicamente, estes profissionais sobrepõem ao diagnóstico de
autismo, com o diagnóstico de hiperatividade, ―autista e hiperativo‖. Diante
deste quadro, lança-se mão de medicações para conter a ―agitação do corpo‖,
bem como são indicados recursos terapêuticos no intuito de impedir que o
corpo possa expressar angústia.
Um dos exemplos mais ilustrativos dessa emissão pode ser visto estudo
no caso clínico apresentado por Oliveira (2000): Jeremias, criança, luta contra

90

o autismo, a esquizofrenia e a paranoia. As manifestações autísticas da criança
foram utilizadas como via de acesso a ela mesma, e o quadro de autismo
compreendido como um recurso de proteção contra ameaça da esquizofrenia
de sua família, ao mesmo tempo, que uma forma de revelação e encontro com
esta ameaça.
Aparentemente, o sujeito autista não se dirige ao outro, mas só
aparentemente. No entanto, é muito comum essa ser uma das condutas
consideradas capitais para o diagnóstico de crianças com autismo. Se essa
afirmativa fosse verdadeira seria impossível haver benefícios no tratamento
psicanalítico com crianças. Para justificar esta ―manifesta dificuldade da criança
dirigir-se ao outro‖, frequentemente surgem pesquisas que tentam encontrar
complicações auditivas para justificar a suposta incapacidade do sujeito dirigirse ao outro.
Laurent (2012) também comenta que desestimulou colegas a continuar
uma pesquisa na área da otorrinolaringologia com crianças autistas. Estes
pesquisadores precisaram de três anos de investigação sobre a sensibilidade
auditiva para afirmarem que não havia nenhuma evidência de que essas
crianças tinham uma maior ou menor sensibilidade auditiva. [...] ―A
sensibilidade não é auditiva; a sensibilidade está no lado alucinatório, como
dizia Lacan. Trata-se de uma alucinação particular: não é o mesmo registro
alucinatório que se dá na psicose, mas outro regime de funcionamento
alucinatório‖ (LAURENT, 2012, p.24).
Laurent (2012) fala-nos da relação transferencial no atendimento de
crianças autistas, apresentando os casos de autistas que se tornaram famosos
por seus relatos de como se relacionavam com os outros e com eles mesmos.
De acordo com suas observações acerca destes casos, esses autistas
utilizavam todos os registros possíveis da letra, da cifra da letra e do
congelamento da palavra para suportar os registros da letra: ―a letra como
escritura, a letra como cifra e a letra como inscrição da palavra [...] ‖ (p.35). A
transferência dependeria de condições que favorecessem uma relação com os
dispositivos de tratamento da instância da letra, os mais amplos possíveis.
O atendimento à criança com autismo é favorecido pela capacidade do
analista de encontrá-la e ser continente dessa, podendo até mesmo utilizar a
letra como uma forma de apaziguamento. O uso da letra e de todos os

91

registros possíveis desta deve ser compreendido como maneiras de aceitar os
tratamentos do insuportável do Um da língua sobre o corpo (LAURENT, 2012).
No atendimento a pessoa com autismo orientado pelo cognitivocomportamental, diferentemente do atendimento analítico, se uma criança tem
um uso da letra, ela é levada à aprendizagem da leitura. Existe a preocupação
com a especialização das aprendizagens, ―das maneiras de conceber a relação
do sujeito com a instância da letra‖. (LAURENT, 2012, p.36)

[...] numa prática de orientação analítica especialmente
lacaniana, sabemos o particular dos registros das letras como
tal, do nó com o qual o sujeito pode enodar-se à instância da
letra. Para proteger-se disso, em sua verdade, necessitamos
de um âmbito em que se desespecifiquem e se
desespecializem os registros. [...] acolher a maneira como se
apresentou para ele seu acontecimento de corpo, mas, ao
mesmo tempo, tentar afrouxar essa especialização, para
permitir um registro da letra o mais amplo possível, que
possibilite ao sujeito uma entrada na dimensão do simbólico a
mais ampla possível, a partir do acontecimento do corpo
(LAURENT, 2012, p.36).

A transferência só se dá num enquadramento totalmente oposto ao da
especialização. Num enquadramento em que seja possível um manejo da
instância da letra, ―da letra-tronco, ou letra in status nascendi‖ (p.37), antes de
toda diferenciação possível, ou seja, a maneira como o sujeito respondeu, com
o seu corpo ao terror do encontro com o Outro. (LAURENT, 2012)
Na psicose, o saber se encontra no próprio sujeito psicótico, não há o
Outro do saber; é ele mesmo quem sabe do funcionamento de seu sintoma. Da
mesma maneira, no autismo não se dá uma transferência ao sujeito suposto
saber, não ocorre um amor ao saber. A transferência se dá com a produção
dessa instância da letra-tronco, o que permitirá ―[...] desfazer o que foi essa
interação infernal de um modo específico da letra, tentando ampliar o acesso
ao mundo da letra diversificado em seus registros [...]‖ (LAURENT, 2012, p.37).
O interesse do analista não está nos cálculos ou nos pensamentos dos
pacientes com autismo, mas sim nas contingências do que foi o acontecimento
de corpo, dos motivos que determinaram as fixações autistas com o intuito de
―construir

um

objeto

sofisticado

[...]

que

tira

as

consequências

do

92

acontecimento de corpo, o enriquece, o realiza no mundo [...]‖ (LAURENT,
2012, p.42).
Laurent

(2012), cita vários relatos feitos por esses pacientes

considerados autistas que indicam que criavam sistemas na tentativa de
reduzir a língua a um cálculo ou à repetição de letras, como recursos utilizados
por estas pessoas como maneira de fazer os equívocos da própria língua, ―ou,
se posso dizer assim, silenciar o ruído da língua enquanto equívoca sem parar.
[...]‖ (p.23).
Esses cálculos ou repetições de letras não se realizam sem o gozo neles
implicados. Esses arranjos são separados do corpo e não funcionam como um
delírio psicótico, ―já que este sempre implica algo do imaginário do corpo‖.
Nestes relatos, esses pacientes testemunham dificuldades em estabilizar a
relação deles mesmos com o próprio corpo (LAURENT, 2012, p.23).
Maleval (2012) questiona o porquê de serem divulgadas imagens de
crianças tampando as orelhas como crianças autistas. O próprio Kanner, em
194345, confirmou que as crianças com autismo também aprendem a falar e
podem compreender a linguagem. Dos 11 autistas apresentados por Kanner
(1943) como casos clínicos, oito falavam e compreendiam a linguagem, estes
pacientes só não utilizavam a linguagem para conversar. Há uma tendência a
se compreender que o autismo está enraizado na articulação do sujeito com a
linguagem. ―O mutismo condensa a intuição do alcance dessa articulação,
sugerindo um enodamento que não se efetuaria‖ (MALEVAL, 2012, p.45).
Apoiado, também, na biografia de pessoas diagnosticadas como autistas
Maleval (2012) esclarece que essas pessoas não são incapazes de
desenvolverem

linguagem.

E,

da

mesma

forma

que

sujeitos

não

diagnosticados, apresentam singulares formas de manifestação. A imagem da
criança tampando as orelhas comunica que ela esteja se protegendo do verbo
que comunica alguma coisa a ela. Essa escuta funda o autismo na clínica
psicanalítica.
Podemos finalizar essa seção apresentado as observações de Stevens
(2000), após anos de experiência com o tratamento de crianças psicóticas
realizado na Le Cortil46, instituição que atende crianças psicóticas e neuróticas
45
46

Artigo inaugural referido na seção anterior deste estudo
Instituição belga, fundada em setembro de 1982 por Alexander Stevens.

93

graves. Afirma que a criança com autismo está inserida na linguagem, mesmo
quando não se inscreva como sujeito do discurso. Sobre os sintomas autísticos
acrescenta:

A petrificação significante que a atinge e a ausência de
colocação em função do desejo do Outro, do Outro onde ela
está situada por falta de mediação da metáfora paterna,
destinam a criança psicótica a um gozo a rédeas soltas onde
se traduz de múltiplas maneiras sua submissão à fantasia do
outro. [...] a criança reage, às vezes, por um negativismo que
toma as cores de uma violenta rejeição de toda intrusão, visa a
destruição do outro ou ainda arrancando um fragmento de seu
corpo ou do corpo do outro para tentar constituir um órgão para
o gozo separado da continuidade de seu corpo em relação à
continuidade do outro (STEVENS, 2000, p. 2).

Stevens (2000), também, destaca que há uma pobreza de historicidade
nestas crianças. A história dessas crianças é demarcada pelos pais de forma
confusa. E, a depender da escuta, é possível acreditar que, especificamente,
as mães são capazes de detalhar a história de seus filhos, mas uma escuta
analítica consegue apreender, rapidamente, que estes relatos estão situados
apenas em torno das manifestações clínicas.
Exemplifica sua afirmativa apresentando o caso de uma paciente que a
mãe havia feito um diário da filha até a adolescência. Os registros do diário
estavam relacionados à estrita função orgânica: temperatura, quantidade e
estado das fezes, alimentação, indicações médicas, etc.

[...] a ausência de história ou ao contrário, uma história dos
órgãos – retornam ao mesmo. Elas são as expressões de uma
mesma estrutura, aquela onde é ―como correlativo de um
fantasma que a criança é o interesse‖ e que nesse fantasma da
mãe ―a criança realiza a presença do objeto a‖. Para a criança,
a consequência dessa posição, na qual o desejo do outro não é
interrogável, é a ausência de história, ao menos história
enquanto desejo. (STEVENS, 2000, p. 5, grifos do autor).

O processo de ―re-historicização‖ da criança se dá na experiência
analítica da criança e de sua família, pois a análise é a via de significação dos

94

sintomas autísticos para a criança e sua família. Essa perspectiva contesta
tudo o que está posto pelo discurso médico através dos manuais de
classificação. Estamos, novamente, diante da batalha do autismo. Permanecer
nesta batalha é a maior contribuição que a psicanálise possa dar contra
concepções reducionistas e autoritárias acerca do autismo ou de qualquer
outra manifestação humana.

95

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O autismo, inaugurado por Kanner (1943) a partir do discurso médico há
mais de meio século, permanece sendo interesse de várias áreas de
conhecimento. O não saber sobre o autismo o faz permanecer como objeto de
interesse das ciências médicas, da psicologia, da pedagogia, da fonoaudiologia
e de tantos outros ramos de investigação. No entanto, constatamos que,
mesmo frente a essa diversidade de saberes, todas as perspectivas de
investigação acerca do autismo parte da ordem médica, para depois apresentar
um ponto ou um contra ponto a essa ordem. Nosso estudo, também, partiu do
saber do médico ou saber do mestre, para apresentar o contraponto da
psicanálise a esse discurso da medicina.
Não tivemos o intuito de avultar ou decrescer o mestre, pois não se trata
de uma hierarquia de saberes, mas sim de apresentar uma diversidade. Nosso
intuito foi destacar o lugar do analista num ponto oposto ao ponto do médico
frente ao autismo, mas ambos com a possibilidade de estarem frente ao
autismo. A psicanálise abona o autismo numa diversidade de saberes.
Essa diversidade garante que haja uma singularidade na forma de cada
criança expressar o sofrimento psíquico. Uma singularidade que não pode ser
perspectivada nos manuais que apresentam critérios descritivos, prevalências,
terapêuticas e prognósticos. Não atentar para a singularidade, é valorizar o que
já está previsto sobre aquele quadro clínico e emoldurar ou não este paciente
naquela codificação. O mestre tem que ser capaz de dominar seu escravo, logo
o fracasso de qualquer intervenção médica é não identificar de que sofre o
paciente e, consequentemente, não poder trata-lo e não poder apresentar uma
mudança na condição do paciente. O TEA mostra-se como um grande desafio
à medicina.
No autismo, na maioria das vezes, o começo da intervenção se dá pelo
olhar do médico e, muitas vezes, o paciente segue sob esse olhar para
qualquer tipo de assistência ao longo da vida. É como se fizesse parte dos
protocolos de atendimento referir que aquela pessoa, que está sendo então
assistida, pertence a um grupo, a uma categoria. Ela não pode ser tida como
singular, pois faz parte de uma categoria, a categoria dos TEA. Nesta

96

categoria, o saber médico, ou saber do mestre, é colocado sobre o saber do
sujeito.
Esse saber médico vem legitimando o crescente número de crianças
com TEA, critérios cada vez mais amplos dão conta de abarcar cada vez mais
um maior número de casos. Assistimos a uma epidemia de TEA. Nesta
perspectiva, resta-nos identificar o que tem feito as disposições genéticas
aumentarem nos últimos vinte anos ou conformarmo-nos com a ideia de que só
agora é possível termos os diagnósticos que antes do DSM, nas versões IV e
V, eram realizados de forma equivocada ou não eram feitos.
O mais grave diante desta epidemia de TEA, é o crescente número de
pesquisas em psicofarmacologia e a medicalização da infância. Os transtornos
mentais na infância também passaram a movimentar o mercado financeiro.
A história da psiquiatria moderna coincide com o desenvolvimento da
psicofarmacologia e com a assistência asilar a pessoas com transtornos
afetivos considerados graves. No entanto, a medicalização da loucura não
garantiu, até hoje, que as pessoas vítimas de diagnósticos médicos de doença
mental pudessem sair do controle de instituições com barreiras físicas e
químicas.

Ainda

assistimos

uma

luta

pela

derrubada

de

muros

e

desmantelamentos de correntes, agora, químicas. O mais grave, as correntes
químicas acompanham as pessoas para além de qualquer espaço geográfico e
impregnam o corpo dos dependentes de substâncias químicas.
A psiquiatria infantil aponta o uso de fármacos como uma garantia de
controle de condutas para que a criança vá à escola, participe de atividades
sociais e tenha uma vida o mais perto do que é identificado como ―comum à
infância‖. As crianças saíram do isolamento de suas casas para uma
convivência social controlada por fármacos, dietas, manuais de controle e
comandos considerados universais. No entanto, mesmo diante dessas
―amarras‖, muitas apresentam um agravamento ou uma permanência das
condutas consideradas autistas.
Daí que surge o apelo pela escuta, o apelo das famílias por serem
ouvidas e para terem seus filhos assistidos como singulares. Resta à
psicanálise fazer-se presente em diversos espaços de atendimento e
apresentar-se como capaz de atender a demanda de um sujeito que através de
condutas consideradas autistas afirma sua singularidade.

97

A teoria lacaniana, apresentada por Laurent para a compreensão do
autismo, é uma das possibilidades de situarmos essas condutas autistas como
uma resposta destes sujeitos a suas primeiras e mais primordiais experiências
de vida. Não atentar para essas manifestações e não conseguir possibilitar que
elas emerjam é destituir o saber deste que a manifesta, é negá-lo como sujeito.
A teoria lacaniana, apresentada por Laurent (2012, 2013, 2014) para a
compreensão do autismo, é uma das possibilidades de situarmos essas
condutas autistas como uma resposta destes sujeitos a suas primeiras e mais
primordiais experiências de vida. Não atentar para essas manifestações e não
conseguir possibilitar que elas emerjam é destituir o saber deste que a
manifesta e negá-lo como sujeito.
Laurent (2012, 2013, 2014) propõe que o encontro do analista com o
sujeito autista favoreça uma invenção a partir dos objetos autistas, das
estereotipias e de seus duplos. Estes objetos estariam no limite da relação com
o outro, atentar para estes objetos seria atentar para as demandas desse
sujeito. Os sujeitos autistas estariam imersos no real e o efeito desta imersão
seria o acesso a uma dimensão em que nada falta.
A análise desses pacientes deve possibilitar a produção de uma falta, a
produção de espaço de trocas. Laurent persegue a ideia da possibilidade de
construção de uma borda pulsional a partir desses objetos que surgem entre o
corpo do sujeito autista e o corpo do analista.
Por fim, queremos mencionar a transferência na análise desses
pacientes e, a partir dessa transferência, poder afirmar a efetividade da
psicanálise na assistência ao sujeito autista. Diferentemente das concepções
médicas que concebem o sujeito autista como incapaz de estabelecer
comunicação ou relação, atentamos para a singularidade do sujeito que
apresenta sintomas autistas como uma forma de manifestação do que não
pode ser expresso de outra forma, a menos que encontre alguém que possa
ajuda-lo a fazer isso.

98

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