Renata Laureano da Silva - Apoio Matricial e as versões de um grupo de profissionais de saúde

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA

RENATA LAUREANO DA SILVA

Apoio Matricial e as Versões de um Grupo de Profissionais de Saúde

Maceió
2017

RENATA LAUREANO DA SILVA

Apoio Matricial e as Versões de um Grupo de Profissionais de Saúde

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa
de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade
Federal de Alagoas, como requisito parcial para a
obtenção do grau de Mestre em Psicologia, sob
orientação da Prof.ª Dra. Maria Auxiliadora
Teixeira Ribeiro.

Maceió
2017

Folha de Aprovação
AUTORA: RENATA LAUREANO DA SILVA

Apoio Matricial e as Versões de um Grupo de Profissionais de Saúde

Dissertação submetida ao corpo docente do
Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas em 21/ 08/ 2017.

________________________________________________________________

Prof.ª Dra. Maria Auxiliadora Teixeira Ribeiro, UFAL (Orientadora)

Banca Examinadora:

_______________________________________________________________________________

Prof.ª Dra. Mary Jane Paris Spink, PUC-SP (Examinadora Externa)

________________________________________________________________________________

Prof.ª Dra. Cristina Camelo de Azevedo, UFAL (Examinadora Interna)

AGRADECIMENTOS
Nunca fui uma pessoa que teve “tudo”, mas eu tive tudo que eu precisava: o apoio das
pessoas que eu amo. E sem isso, não teria alcançando nem um terço do que consegui.
As primeiras pessoas foram meus pais, Cleonice e José Carlos, os quais sempre me
apoiaram e confiaram no meu potencial especialmente nos momentos nos quais deixei de
acreditar em mim mesma. Obrigada por todo amor incondicional e apoio de vocês. E lógico,
por todo investimento financeiro também. Mainha obrigada por me ensinar ser uma guerreira,
mesmo sendo sua princesa e por ser um exemplo de superação. Painho obrigada por me escutar,
pelo carinho nos teus pequenos gestos e tentar compreender “meu lado”.
Ao meu namorado, Leonardo, por sempre me lembrar o quanto eu sou forte e por estar
ao meu lado em todos os momentos, principalmente nos momentos que pensei que não
conseguiria mais. Obrigada por estar comigo em todas as etapas da minha vida, por toda
atenção, amor e momentos de risadas que me fizeram compreender a vida com leveza e graça.
Você é minha inspiração de dedicação e esforço.
Ao meu irmão, Fernando, por sua chatice e por sempre me lembrar que eu poderia me
estressar bem menos com os estudos. Mas, especialmente, obrigada “Emo” por me dar a
confiança que sempre poderia contar contigo e aprender tão bem a lição que Mainha ensinou
que “irmãos tem que ser unidos que assim, sempre teríamos um ao outro”.
É comum durante o processo de mestrado ouvir sobre relações conflituosas entre
orientadores e orientados. Quando escutava isso, sempre pensei na sorte que tinha em ter como
orientadora a professora Maria Auxiliadora, a qual me acompanhou desde a graduação,
residência e agora no mestrado (e não vai se ver livre assim de mim tão fácil). “Xili” obrigada
por todo conhecimento, aprendizado e anos de dedicação, ou seja, obrigada pelo Apoio
Matricial por todos esses anos. Agradeço por me acalmar nos momentos que mais precisava e
brigar nas horas que necessitava. Você foi muito além de uma professora e agradeço também
por me deixar ser sua “Xilinha”.
Agradeço também ao grupo de pesquisa “PROSA” por toda torcida, apoio e carinho.
Especialmente, aos professores Jefferson Bernardes e Telma Low que muito contribuíram para
meu processo de aprendizagem e também à Niedja pela colaboração e leitura atenciosa.
À professora Cristina Camelo, nossa querida “Cris”, pela assistência desde da
residência, pelas contribuições e olhar cuidadoso para esta dissertação. E pelo aceite para
compor a banca de avaliação.
À professora Vera Menegon, pelas contribuições durante a qualificação.

Agradeço também a minha turma de mestrado. Foram apenas doze estudantes na turma
(Adriano, Kaanda, Lívia, Carolina, Karolline, Priscila, Karine, Hélida, Fabíola, Erise e Lara)
mas nos apoiamos desde o momento da seleção. Esses estudantes (futuros mestres)
possibilitaram discussões incríveis em sala de aula. Meu obrigada especial à Kaanda (“Ka”) e
Hélida (“deusa”) por serem além de colegas de mestrado e tornarem-se minhas amigas e por
todo apoio durante o processo do mestrado.
O meu obrigada também aos professores Frederico Costa, Simone Hüning, Jefferson
Bernades e Xili pelas excelentes aulas ministradas e que muitas das discussões e produções
encontram-se nessa dissertação.
Durante o mestrado tive a incrível experiência de realizar a mobilidade acadêmica na
PUC-SP. Foi uma vivência de amadurecimento científico e também pessoal. Queria agradecer
primeiramente, à professora Mary Jane Spink pelo acolhimento, pelas orientações, por
disponibilizar tempo para conversar comigo e me instruir. E isso é muita coisa, diante do
disputado tempo entre os orientandos\filhos. A senhora nem imagina o quanto aprendi em
pouco tempo, principalmente porque deixou eu ser quase um “carrapatinho” (onde a professora
Mary Jane ia, eu ia atrás). Não poderia escolher outra pessoa para compor a banca e obrigada
por aceitar.
Meu agradecimento aos mestrandos e doutorandos que compõe o núcleo de “Práticas
Discursivas e Produção de Sentidos” da PUC-SP, coordenado pela professora Mary Jane. Vocês
me abraçaram (literalmente) e me fizeram sentir como se já pertencesse a esse grupo há muito
tempo. Apesar do pouco tempo de convivência, sinto falta de vocês porque cada um me marcou
positivamente de alguma forma.
No entanto, não poderia deixar de agradecer especificamente ao Mário Martins
(“Marito”) que tem sido um amigo prestativo desde o PET, que me instrui e fornece o exemplo
de inteligência e dedicação.
À Julia Gomes e Lita (“Litinha”) por me acolherem, me fazer sentir querida e por ser a
concretude da frase que em São Paulo há muito amor. À querida “Tê” pela acolhida, carinho,
pelo tour e dicas de São Paulo e por ser aquela pessoa que podia recorrer em uma cidade que
não conhecia ninguém.
À professora Cristina Vicentim que também me acolheu em seu núcleo de pesquisa,
disponibilizou tempo para fazer contribuições nessa pesquisa e por me apresentar pessoas que
foram tão solicitas comigo para dialogar sobre Apoio Matricial, como Camila Avarca, Saulo e
Luíza Santa Cruz.

Aos meus queridos amigos, Aline Kelly (“Kellytxa”), Ana Luísa Cataldo (“Lulu”) e
Alisson (“All’s”) por toda contribuição de conhecimento nessa dissertação, mas especialmente
pelo sentimento puro e verdadeiro de amizade, apoio e os momentos de descontração. Vocês
são meus anjos.
Cibele (“Cii”), Thamyrys (“Thamy”), Lara (“Piveta”), Aline (“Galzinha”), Wevelyn
(“Lelly”) e Greta (“Gretinha”) por serem a prova de amigas leais e que uma amizade pode
perdurar por anos. Agradeço também pela torcida pelo meu sucesso, pelas risadas e momentos
de descontração e também por elevarem meu ego por sempre afirmarem que sou inteligente.
Às minhas amigas que carinhosamente chamo de Divas: Ana Carolina (“Kerow”),
Jessica Melissa (“Jess”) e Jéssica Vital (“Jessiquinha”) por me lembrarem que iria conseguir e
por colocarem música em minha vida. Especialmente à Ana Carolina pela leitura atenciosa e
contribuições nesse estudo.
Às amigas recentes que fiz na residência, Patrícia Marinho (“Patty”) e Laís Navarro
(“Laisinha”) por torcerem por mim e também por compartilharem as nossas angústias no
processo de mestrado. Também às minhas queridas: Dijayna (“Dijinha”), Camila Carnaúba
(“Camilete”), Júlia (“Juletxe”) pelos momentos de risada, descontração e o carinho constante.
Às minhas amigas Camila Agra, Carine Agra, Camilla Couto e novamente Jéssica Vital
pelos longos anos de amizade e pela torcida desde a época do vestibular.
À minha psicóloga Karla, por toda escuta qualificada esses anos, apoio psicológico e
por sempre ter acreditado em mim.
À minha amiga Débora Gouveia, por me fazer acreditar que o amor perdura apesar da
distância e por toda vez que estava angustiada pelo mestrado compartilhou sua própria
experiência com o mestrado.
Às minhas cunhadas Nathaly, Karina e a família de Leonardo por torcerem pelo meu
sucesso. Aos meus parentes que mesmo distantes, oram por mim. Especialmente minha avó
Lourdes, meus tios Almir e Eunice por quais nutro imenso carinho e amor. Não poderia faltar
uma menção honrosa, à minha avó Almerinda que gentilmente, chamávamos de “Mirinda” que
infelizmente não poderá ler esse agradecimento, mas que me ensinou sobre um amor gentil, me
ensinou sobre dedicação ao buscar aprender a ler depois de idosa e também que “amiga não
pode ser falsa”.
Novamente à amiga Kelly, pelas palavras de apoio, pela leitura e correções criteriosas.
Obrigada por ser a amiga que todos sonham ter.
Aos participantes do meu estudo, que por princípios éticos não posso citar os nomes, no
entanto, eles sabem quem são e no processo de escrita pensava em produzir algo em que eles

pudessem aproveitar em seus trabalhos e sentissem prazer ao ler. Obrigada pela disponibilidade
e contribuição de cada um de vocês.
Por último, mas não menos importante, queria agradecer a uma certa força impossível
de explicar em palavras e muitos menos em termos científicos. Alguns o chamam de Deus
outros de deuses ou forças da natureza. Para mim, não importa o nome, importa apenas como
vivencio e sinto isso. Força essa que me guia, me protege e me mantém firme em meus
princípios e sonhos.

“Se quiser ir rápido, vá sozinho.
Se quiser ir longe, vá em grupo”.
(Provérbio Africano)

SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 9
INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 12
Contexto: Reforma Psiquiátrica Brasileira ........................................................................................ 12
O início do Apoio Matricial .............................................................................................................. 14
A pesquisa ......................................................................................................................................... 25
Estrutura da dissertação..................................................................................................................... 26
1.1.

Panorama geral das produções técnico-científicas sobre Apoio Matricial ............................ 28

1.2. Multiplicidade do termo Apoio Matricial .................................................................................. 34
1.3. Obstáculos, desafios e limites para implantação do Apoio Matricial ........................................ 35
1.4. Potencialidades do Apoio Matricial ....................................................................................... 41
2.1. O Movimento Construcionista e seu diálogo com a Psicologia ................................................. 44
2.1.1. Condições de possibilidade ................................................................................................. 46
2.1.2. Características e Postulados Básicos do Construcionismo Social ....................................... 48
2.2. Práticas Discursivas e Produção de Sentidos ............................................................................. 53
2.3. Ética Dialógica e os Horrores Metodológicos ............................................................................ 56
2.4. Percurso Metodológico .............................................................................................................. 57
CAPÍTULO 3: APOIO MATRICIAL E SUAS VERSÕES ................................................................. 62
3.1 Descrição da Participação no Projeto “Matriciamente”: estimulando ações de matriciamento em
Maceió”. ............................................................................................................................................ 63
3.2. O início da Oficina ..................................................................................................................... 66
3.3. Primeira etapa da Oficina: Apoio Matricial e a Associação de Ideias ....................................... 67
3.4. Discussões .................................................................................................................................. 76
3.5. Segundo momento da Oficina: Identificando práticas que se caracterizam como Apoio Matricial
........................................................................................................................................................... 90
3.6. Classificação das ações avaliando para quem foram direcionadas .......................................... 102
3.7. Discussões ................................................................................................................................ 102
CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................................. 112
REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 115
APÊNDICE ......................................................................................................................................... 122
APÊNDICE A ................................................................................................................................. 123
APÊNDICE B ................................................................................................................................. 130

RESUMO
Buscamos compreender as versões do Apoio Matricial de um grupo de profissionais de
saúde. Nosso estudo pauta-se no referencial teórico-metodológico das práticas discursivas e
produção de sentidos, fundamentado na perspectiva do construcionismo social. Para alcançar
os objetivos propostos, a pesquisa foi desenvolvida em dois momentos: o primeiro consiste na
participação da pesquisadora em um projeto de extensão sobre matriciamento e o segundo uma
oficina sobre matriciamento com profissionais da área da saúde. Para a análise dos repertórios
produzidos utilizamos como ferramentas os diários de campo, no primeiro e os mapas
dialógicos, no segundo. A participação no projeto possibilitou discutirmos as relações entre as
profissões e articulação entre os profissionais para a construção de ações de matriciamento. A
partir da oficina, os repertórios utilizados pelos profissionais foram classificados de acordo com
o foco dado ao matriciamento: “entre profissionais”; “em si mesmo”; “usuário”; “modelo
proposto” e “teoria x prática e prática”. Predominaram os repertórios que circulam na literatura
científica, compreendidos como respostas a pesquisadora e de acordo com o lugar em que foram
posicionados. Os profissionais denominam o matriciamento como um saber construído “entre”
os profissionais e que não é uma soma de ações. Consideramos o Apoio Matricial como um
conceito em construção, fluido e leve, fluidez no sentido oposto de superficial, para trabalhar
com a imprevisibilidade dos serviços de saúde. É inviável compreender o AM como único e
universal, é produzido de diferentes maneiras, ocasionando em diversas versões que
performam, produzem realidades. Essas versões mudam a partir dos lugares e geram práticas
distintas em diferentes contextos.
Palavras-chave: Apoio Matricial; Saúde Mental; Atenção Básica à Saúde; Práticas discursivas
e Produção de Sentidos.

ABSTRACT
We aim at understanding the versions of Matrix Support (MS) produced by a group of health
professionals. The study is based on the discursive practices and meaning construction
framework within social constructionism perspective. To achieve our goal, we used two
methodological strategies: participation in an extension project about MS and a workshop with
health professionals. Information was produced by using field journals and group interviews.
Analysis was made based on the construction of dialogic maps and focused on the use of
linguistic repertoires. The participation on the extension project made it possible to discuss how
relations between health professionals could develop MS actions. Health professionals at the
workshop expressed linguistic repertoires related to different MS relations: “between
professionals”; “self-experience”; “with public health users”; “with the current model” and
“theory versus practice”. The linguistic repertoires used by health professionals were the same
used in scientific literature on MS. We understand these repertoires as replies to the researcher
herself and her positioning in the workshop. Health professionals name MS a kind of knowledge
produced “in between”, not just a sum of random actions. MS is a concept in construction,
flexible and light. Flexibility and lightness means the opposite of superficiality: it is necessary
to work with unpredictability at the health services. MS is unique and universal, produced in
different ways, resulting in different versions which perform multiple realities. These versions
change from place to place and perform different practices.
Keywords: Matrix Support; Mental Health; Primary Health Care; Discursive practices and
meaning construction.

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AB

Atenção Básica

AM

Apoio Matricial

APS

Atenção Primária à Saúde

CAPS

Centro de Atenção Psicossocial

CAPSi

Centro de Atenção Psicossocial Infantil

ER

Equipe de Referência

ESF

Estratégia Saúde da Família

HUPAA

Hospital Professor Alberto Antunes

NASF

Núcleo de Apoio à Saúde da Família

PNH

Política Nacional de Humanização

SF

Saúde da Família

SUS

Sistema Único de Saúde

TCLE

Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

UBS

Unidade Básica de Saúde

UNCISAL

Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas

UFAL

Universidade Federal de Alagoas

9

APRESENTAÇÃO
A estrada de tijolos amarelos...1

O momento exato que ouvi ou discuti pela primeira vez sobre o Apoio Matricial (AM)
não foi possível recordar. O meu primeiro estágio, na disciplina de estágio básico, foi realizado
em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), o qual destinava-se a atender adultos e seus
familiares. No final do curso, realizei meu estágio no Serviço de Psicologia Aplicada, a clínica
escola, da UFAL e em um CAPSi, serviço cujo foco é o atendimento psicossocial de crianças
e adolescentes. Acompanhava a rotina, os diversos desafios dessas instituições, discutia e
aprendia muito com meus preceptores. A partir dos estágios aprofundei-me nas Políticas
Públicas de Saúde Mental e fui me inserindo pouco a pouco no contexto do matriciamento.
Por volta de 2011, durante a pesquisa do Programa de Educação Tutorial de Psicologia
do qual erámos integrantes (minha orientadora como tutora e eu como bolsista), duas psicólogas
de um CAPS de uma cidade do interior de Alagoas relataram sobre o matriciamento. Essa
pesquisa tinha o objetivo de configurar o espaço da psicologia nas Políticas Públicas do Estado
de Alagoas. Essas profissionais já realizavam a prática do Apoio Matricial, afirmando que tal
ação era uma ponte entre o CAPS e a Unidade Básica de Saúde (UBS), uma porta de
comunicação e parceria entre os serviços com o objetivo de conscientizar e dividir as demandas
da população. Tal experiência produziu reflexões e inquietações, visto que em Maceió nenhum
dos profissionais entrevistados relatou uma ação desse tipo. Estranhamos saber que no interior
já havia essa ação, enquanto que em Maceió o Apoio Matricial ainda não era realizado.
Após a graduação, ingressei no Programa de Residência Multiprofissional em Saúde do
Adulto e do Idoso da UFAL. Ao ingressar no serviço e acompanhar as atividades diárias,
aprendi que a concretização dos princípios do SUS não era tão fácil assim. Há inúmeros fatores
no cotidiano dos serviços produzindo efeitos em pessoas e instituições. Ao final desse
programa, atendendo no Hospital-Dia do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes
(HUPPA), um dos cenários de práticas da Residência, um usuário e seus familiares trouxeram
diversas demandas de saúde dos integrantes dessa família e a dificuldade de atendimento

1

Analogia ao filme Mágico de Oz (1939) no qual acompanhamos a personagem Dorothy percorrer a estrada de
tijolos amarelos para chegar à Cidade das Esmeraldas e encontrar o Mágico de Oz. Nesse trajeto, a personagem
faz amigos: o Espantalho, o Leão e o Homem de Lata, os quais se juntam a ela nessa jornada. A partir desse
encontro e no percorrer da estrada, notamos o enfrentamento das angústias e dos medos e assim, o desenvolvimento
de cada personagem. O mestrado lembra-me muito essa história, e que sem as pessoas que encontrei não estaria
nesse processo de amadurecimento que o mestrado proporciona.

10

naquele serviço, porque moravam em um município do interior, bastante distante da capital do
estado.
Esse usuário já era paciente do CAPS, porém tanto ele quanto seus familiares traziam
questões que iam além do contexto daquela instituição. Portanto, em diálogo com eles tentei
que buscassem uma articulação com a ESF da cidade na qual moravam. Eis que eles me relatam
que já tentaram fazer isso e que foram informados que “Paciente do CAPS, é paciente do CAPS,
paciente do posto é paciente do posto”.
Essa sentença me inquietou muito e inquieta-me até hoje. E talvez tenha sido o efeito
dela em mim que me provocou a pensar: “Chega, é isso, preciso pesquisar sobre essa articulação
entre Atenção Básica e Saúde Mental”. Outra influência muito importante, consiste que ainda
na Residência, cursei uma disciplina intitulada “Psicologia e o SUS” e tive a oportunidade de
me aprofundar nos princípios da Política Nacional de Humanização (PNH), ler sobre as
experiências de humanização no país e acompanhar as reuniões da Câmara Técnica de
Humanização do Estado. Diante desse panorama, no mestrado, focalizei meu interesse de
estudo no Apoio Matricial.
No entanto, o AM é “outro mundo”, amplo e com diversos pontos que podem ser
pesquisados. Diante disso, não tentei definir, meu problema de pesquisa a princípio e comecei
a situar-me sobre meu campo-tema (P.SPINK, 2004). Campo, em nossa perspectiva, não é um
lugar específico, separado e distante, ele é entendido como argumento no qual estamos inseridos
que têm múltiplas faces e materialidades, que acontecem em muitos lugares diferentes.
Durante o primeiro ano do mestrado, tive conhecimento de uma reunião que aconteceria
na Secretaria Municipal de Saúde (SMS), sobre a organização do processo de matriciamento da
Saúde Mental na Atenção Básica no 6º e 8º distritos sanitários do munícipio de Maceió. Durante
o encontro, foi discutida a proposta de implantação de um projeto de extensão (piloto) de ações
de AM nesses territórios, encaminhada por professores do Curso de Enfermagem da
Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em parceria com a SMS, visto que na capital tais
ações são ínfimas e desarticuladas da Secretaria Municipal de Saúde. Também foi solicitado
aos profissionais presentes que formassem as equipes matriciadoras. Nesse momento, solicitei
a minha participação no projeto, a qual foi aceita pelos presentes.
Acompanhei a execução desse projeto de extensão da UFAL, intitulado “Projeto
MatriciaMENTE: estimulando ações de matriciamento em Maceió”, que objetiva desenvolver
ações de educação permanente que estimulem o matriciamento da saúde mental na atenção
básica no município de Maceió

11

Há muitos tijolos amarelos a percorrer ou até mesmo trilhar outros caminhos possíveis
e essa dissertação é apenas um dos caminhos possíveis de serem trilhados, que pode trazer mais
dúvidas que respostas. A proposta agora é trazer o Apoio Matricial para o diálogo, colocá-lo
nessa arena de discurso, na qual permeiam múltiplas versões desse mesmo arranjo. E é sobre o
início dessa estrada que relatarei a seguir.

12

INTRODUÇÃO
Para o início do diálogo desta dissertação, relatamos sobre o contexto da reforma
psiquiátrica e a importância desse movimento para a consolidação do Apoio Matricial.
Posteriormente, discutimos sobre as conceituações de Apoio Matricial por meio de suas
caracterizações ao longo dos anos. Por último, descrevemos como a pesquisa foi realizada e
seus objetivos, assim como, a sua organização.

Contexto: Reforma Psiquiátrica Brasileira
Para começar a falar do Apoio Matricial, iniciaremos pelo contexto em que ele surgiu.
A princípio, compreendemos que o dispositivo do Apoio Matricial foi conceituado em um
momento sócio histórico, que permitiu a discussão da articulação entre Saúde Mental e Atenção
Básica. Podemos localizar a Reforma Psiquiátrica como esse momento, com o potencial de
suscitar tais reflexões.
Nesse movimento, a instituição manicomial foi problematizada como um lugar de
produção de doença mental. O processo de Reforma Psiquiátrica realizava uma crítica à
estrutura asilar, considerada patologizante e cronificadora, portanto, buscavam a reestruturação
do hospital. Entretanto, é a Psiquiatria Democrática Italiana, com seu maior expoente em Franco
Basaglia, que impulsiona o movimento e permite reformas, por discutir a exclusão imposta pela
função social da psiquiatria, indo além da análise de natureza médico-psicológica da “loucura”
(DIMENSTEIN et al, 2009).
Tal Reforma iniciou-se no contexto brasileiro a partir da década de 1970 e trouxe uma
nova concepção para o atendimento às pessoas que apresentam transtornos mentais. Sua
principal proposta é a desconstrução do modelo hospitalocêntrico e asilar por um modelo
baseado em práticas de atenção psicossocial (BRASIL, 2005); portanto, o ato de cuidar dos
indivíduos com problemas mentais é reinventado. Segundo Dimenstein et al (2009), este novo
modelo consiste em compreender a saúde de maneira global, enredada ao modo de vida das
pessoas. Há uma transformação no modelo vigente da época, visto que a saúde começa a ser
percebida como um recurso para a produção de vida diária das pessoas.
Nesse novo panorama, a Reforma propõe que, aos poucos, os manicômios e hospitais
psiquiátricos sejam substituídos por dispositivos que possibilitem o tratamento daqueles que
apresentam transtorno mental vinculado aos laços sociais e familiares. Essa nova situação pode
ser considerada como um processo político social, que envolve as esferas federal, estadual e

13

municipal, surgindo assim, outros desafios aos serviços públicos de saúde mental, como pessoas
com transtornos mentais graves egressas de hospitais psiquiátricos que não possuem laços
familiares, crianças e adolescentes em situação de risco ou vulnerabilidade social, e o uso
abusivo de álcool e drogas. Para enfrentá-los, é fundamental a articulação intersetorial com
outros campos de atuação, para que se garanta o funcionamento e a operacionalização de uma
rede de cuidados em saúde mental (OLIVEIRA, 2007).
A atenção básica tornou-se fundamental e apresenta grande potencialidade para
modificar o modelo hospitalocêntrico. Na reforma o paradigma também muda, visto que, o foco
sai do processo saúde-doença e a saúde mental passa ser considerada dentro da saúde coletiva
como um processo psicossocial complexo. A integralidade, a intersetorialidade e a
territorialidade passam a ser eixos fundamentais norteadores das práticas e do planejamento em
saúde (DIMENSTEIN; GALVÃO; SEVERO, 2009).
Para consolidação dessa rede, tornou-se mister a articulação entre saúde mental e
atenção básica. Por isso que a incorporação das ações de saúde mental na atenção básica tornouse uma prioridade no cenário atual. Nesse sentido, foi na busca da concretização dessa
articulação que o dispositivo do Apoio Matricial é discutido no campo da Saúde e formulado
por Campos (1999).
O matriciamento é um tipo de organização participativa da atenção à saúde baseada em
uma matriz em que os diversos profissionais estão envolvidos. Opera por meio da criação de
redes de relacionamentos e trocas entre profissionais de vários serviços que cuidam da saúde.
O objetivo desse tipo de estrutura é garantir que as equipes profissionais estejam cientes das
trajetórias nos serviços de saúde, assim como garantir atenção integral em todos os níveis da
assistência (SPINK, 2010).
As primeiras experiências de Apoio Matricial ocorreram no SUS de Campinas-SP, a
partir de 1989. Além disso, o município de Campinas destaca-se no cenário nacional pela sua
história de pioneirismo nos processos da Reforma Psiquiátrica (FIGUEIREDO; ONOCKOCAMPOS, 2009). Diante disso, o Ministério da Saúde propôs a estratégia do Apoio Matricial
(AM) para facilitar o direcionamento dos fluxos na rede, promovendo uma articulação entre os
equipamentos de saúde mental e as Unidades Básicas de Saúde (DIMENSTEIN et al, 2009).
A partir desse contexto, podemos compreender que o Apoio Matricial surgiu por meio
da constatação de que a reforma psiquiátrica não pode avançar se a atenção básica não for
incorporada ao processo. Não é produtivo concentrar esforços somente na rede substitutiva,
porém é preciso abrir o cuidado em saúde mental para todos os níveis de assistência, em
especial, à atenção primária (DIMENSTEIN et al, 2009).

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O início do Apoio Matricial
Neste tópico, traçamos uma linha do tempo sobre as conceituações e vivências sobre
matriciamento. Objetivamos compreender como o AM foi se configurando e se construindo ao
longo dos anos, focalizando especialmente o começo da constituição desse arranjo.
Assinalamos que os textos têm que ser compreendidos no contexto histórico os quais foram
escritos.
Em nossa pesquisa na base de dados, a qual será descrita no capítulo 1, o artigo mais
antigo que discute esta temática é referente ao ano de 1998. É a partir desse ano que
começaremos nossa narrativa.
Em 1998, há uma descrição sobre o modelo de Gestão Colegiada. No SUS há diversas
tentativas para um processo de democratização nas instituições de saúde e de diminuição da
burocracia, como a descentralização do poder com a municipalização, Conselhos e
Conferências de Saúde. No entanto, estas medidas ainda são insuficientes para alcançar os
objetivos do SUS e diminuir a alienação dos trabalhadores (CAMPOS, 1998).
É neste contexto que o Campos (1998) assume o desafio de idealizar um novo modelo
de gestão que fosse uma alternativa ao tradicional modelo taylorista de gestão e que assegurasse
tanto a produção qualificada de saúde, quanto garantisse a própria sobrevivência do Sistema e
a realização de seus trabalhadores. Um desafio bem audacioso diga-se de passagem.
A primeira mudança sugerida nesse novo modelo é modificar o organograma para
transformar os antigos departamentos e seções recortadas segundo profissões, e criar outras
denominadas Unidades de Produção, que estariam conforme as racionalidades específicas de
cada processo de trabalho e seria formada por equipes multiprofissionais. Os próprios
trabalhadores que comporiam e desenhariam o recorte dessas unidades. Este organograma seria
mutável, pois estaria sempre sujeito a reformulações (CAMPOS, 1998).
Cada Unidade de Produção contaria com um Coordenador que elaboraria um Projeto de
Trabalho, esse também ficaria encarregado de direção executiva, implementando decisões do
Colegiado da Unidade e tomando decisões imprevistas conforme a dinâmica do processo de
trabalho cotidiano (CAMPOS, 1998). O autor salienta que este colegiado não pode ser
confundido e tampouco substituem os Conselhos de Saúde com participação majoritária de
usuários, previstos na legislação. Todos os participantes da Unidade comporiam um colegiado
encarregado de elaborar diretrizes, metas e programas de trabalho; avaliando-os
periodicamente.

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O pesquisador recomenda também a criação de encontros periódicos em cada uma
destas unidades de produção. “Nestes espaços se discutiriam necessidades de saúde, divisão de
tarefas e papéis de cada um, para, em seguida, elaborarem-se planos, modelos de atenção,
programas e metas” (CAMPOS, 1998, pág. 866).
Outro ponto importante destacado pelo autor é que há a necessidade de mecanismos que
potencializem a participação do usuário, diante disto, sugere que nenhum usuário, quer em
modalidades ambulatoriais ou de internação, fique sem um profissional escolhido ou designado
para ser sua referência, buscando vínculos mais duradouros e explícitos. Aqui o autor já delineia
o princípio da equipe de referência base para o AM.
Especificamente em relação ao AM, em 1998, foi denominado nesta época como
supervisão matricial que também comporia esse novo modelo de gestão. Podemos notar que
nesse primeiro momento o método Paideia ainda estava sendo formulado e o AM já era
apontado como um potencializador para a reflexão de práticas, no entanto, ainda estava restrito
a um suporte técnico.

Recomendava-se, também a instituição de Supervisão Matricial que
aumentasse a abertura destas Unidades para o externo. Supervisão não
conforme a concepção taylorista – alguém que controla e fiscaliza o
cumprimento de normas –, mas quase com o sentido que lhe era atribuído pela
Saúde Mental: supervisor como agente externo que se reúne com a equipe para
instituir processos de reflexão crítica e de educação permanente. Então,
Supervisor como apoiador e agenciador de mudanças, alguém que ajudasse na
identificação e no enfrentamento de problemas. Este trabalho de apoio poderia
assumir tanto um caráter mais técnico – especialistas em enfermagem, em
pediatria, etc, ajudando, orientando várias equipes em que houvesse este tipo
de responsabilidade –, ou mais um de instrumentalizador de processos de
mudança. Neste segundo caso, um agenciador e estimulador da capacidade de
análise e de participação do grupo na gestão, uma combinação das funções
típicas de um analista de grupo com as de um assessor de planejamento. De
qualquer modo, estes Supervisores não teriam linha de comando dentro das
Unidades de Produção. Somente a Direção geral ou o Coordenador, ou os
próprios Colegiados tomariam deliberações a serem acatadas por todos
(CAMPOS, 1998, pág. 866).

Este novo método é denominado como Co-gestão, pois as funções de dirigente ou de
liderança não assumiriam um caráter exclusivo e unipessoal, não estariam eliminadas neste
modo de governar. O pesquisador imaginou uma metodologia organizacional que fosse ao
mesmo tempo terapêutica e pedagógica para os trabalhadores, no sentido, de possibilitar o
crescimento pessoal e coletivo de forma contínua e progressiva e que também produzisse saúde
ou educação para o público. O autor não afirma que este novo modelo irá resolver todos os
problemas entre os trabalhadores e as unidas de gestão, pelo contrário, admite que sempre

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haverá contradições. Porém, o inovador deste método é que ele busca explicitar estes conflitos
e criar espaços para que tais possam ser dialogados e trabalhados.
Em 1999, há uma publicação (CAMPOS, 1999) que é referenciada por diversos
pesquisadores ao conceituarem o Apoio Matricial e também considerada como marco para a
constituição desse arranjo. Neste ano, primeiramente há uma justificativa do fato do Apoio
Matricial ser considerado um arranjo e não um dispositivo (no sentido organizacional).
Dispositivos, em termos de organização e não foucaultiano, são considerados como
artifícios para intervir na realidade cotidiana dos serviços. Modificam aspectos pontuais de
organizações visto que possuem caráter transitório, não logram em transformações permanentes
visto que não mudam a lógica estrutural das organizações. Portanto, após a utilização dos
dispositivos, ainda continua se produzindo uma subjetividade da lógica dominante e de
concentração de poder.
Campos (1999) apoia-se em Gattarri, Rolnik, Marx e Engels para compreender que tanto
a subjetividade quanto a cultura de uma organização são socialmente produzidos.
Consequentemente, a cultura e a subjetividade das equipes de trabalhadores seriam produtos
com múltiplas determinações, dependentes dos saberes dominantes. No entanto, a autor afirma
que a definição concreta dos valores e responsabilidades de uma equipe variam de acordo com
o contexto sócio-ecônomico e político. Diante disso, a subjetividade e cultura das instituições
são passíveis de mudança pela ação humana.
Para ele, uma das grandes dificuldades do contexto dos serviços de saúde é que sua
estrutura organizacional não estimula a troca entre pares, nem entre as profissões. Portanto,
produz uma fragmentação e dificulta o trabalho multiprofissional, quase impedindo a
construção de relações transdisciplinares entre os profissionais.
Nesse contexto, trabalha-se com o conceito de arranjo organizacional, pois este pode
proporcionar mudanças na estrutura gerencial e assistencial dos serviços de saúde, criando-se
novos arranjos que produzam outra cultura e outras linhas de subjetivação. “Tratar-se-ia de
inventar uma nova ordem organizacional que estimulasse o compromisso das equipes com a
produção de saúde, sem cobrar-lhes onisciência ou onipotência, e permitindo-lhes, ao mesmo
tempo, sua própria realização pessoal e profissional (CAMPOS, 1998) ”.
Em busca dessa reordenação do trabalho e de uma superação do modelo médico
hegemônico, o pesquisador propõe um novo arranjo para os serviços de saúde com base nos
conceitos de equipe de referência e apoio especializado matricial, e segundo as diretrizes de
vínculo terapêutico, gestão colegiada e transdiciplinaridade dos saberes e práticas (CAMPOS,
1999).

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Esse novo arranjo almejaria estimular, no cotidiano, novos padrões de interrelacionamentos entre equipes e usuários, ampliar o compromisso dos profissionais com a
produção de saúde e quebrar obstáculos organizacionais à comunicação. Neste cada serviço de
saúde seria composto de equipes básicas de referência, direcionadas para o objetivo de cada
unidade, as características do local e a disponibilidade de recursos. As equipes corresponderiam
a uma composição multiprofissional, variável ao nível de atenção à saúde que está operando.
Para a formação das equipes, Campos (1999) afirma que pode ocorrer por meios
distintos: usuários podem eleger profissionais de sua confiança; equipes encaminhando e
indicando casos de acordo com critérios técnicos ou administrativos e podem também ser
formadas a partir das especificidades de cada caso. A principal função dos profissionais de
referência seria elaborar o projeto terapêutico individual [atualmente foi reformulado e nomeiase projeto terapêutico singular]. Isto implicaria, em um vínculo com o usuário, família e
profissionais, diagnóstico e instituições de práticas individuais, de grupo ou coletivas.
Portanto, podemos apreender que “este modelo organizacional trabalha com a hipótese
de que a reforma das práticas em saúde dependeria centralmente da reconstrução dos padrões
de vínculo corriqueiros à maioria dos serviços de saúde” (CAMPOS, 1992 apud CAMPOS,
1999).

O objetivo consistiria na construção de um modelo mais singularizado e mais

personalizado de atendimento, no qual cada profissional teria um grupo de usuários quase fixo.
Isso potencializaria o papel terapêutico visto que os profissionais teriam um maior vínculo com
os usuários e consequentemente, acompanhariam melhor o processo de produção de saúde de
cada um deles.
No entanto, podemos nos questionar então qual seria a diferença entre um apoio
matricial e o vigente modelo de referência e contra-referência. Campos nos explica sobre isso
afirmando que um usuário se utilizando do serviço matricial, ele nunca deixa de ser
acompanhado pela equipe de referência visto que a responsabilidade principal pela condução
do caso é dessa equipe. Nesse caso, não teríamos encaminhamentos, e sim, construção de
projetos terapêuticos que serão executados não apenas pela equipe de referência, mas, por um
conjunto amplo de trabalhadores.
Esta organização amplia as possibilidades e composição interdisciplinar dos
projetos terapêuticos, sem diluir a responsabilidade sobre os casos e sem criar
percursos intermináveis de encaminhamento. Por outro lado, permite aos
trabalhadores combinarem de forma mais livre o trabalho necessário com
espaços em que poderiam dedicar- se a desenvolver atividades mais de seu
gosto particular. Isto é particularmente verdadeiro quando se pensa no imenso
cardápio de atividades matriciais que podem ser oferecidas. Assim, uma
enfermeira ademais de sua atividade nuclear típica, poderia também ofertar,

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em algumas horas de sua jornada, grupos terapêuticos, caminhadas, etc.
(CAMPOS, 1999, pág. 397)

Então podemos compreender que são alterações que podem ser pequenas na aparência,
mas estão fundamentadas e comprometidas com conceitos e valores radicalmente diferentes
daqueles dominantes no modelo médico tradicional e hegemônico. Modificações nas técnicas
de organização do trabalho, porém, orientadas por diretrizes centradas na produção de sujeitos
livres e responsáveis (CAMPOS, 1999).
Após essa importante produção em 1999, essa metodologia de gestão do cuidado foi
adotada em serviços de saúde mental, de atenção básica e da área hospitalar do Sistema Único
de Saúde (SUS) de Campinas, São Paulo, Brasil. Algum tempo depois, alguns programas do
Ministério da Saúde, como o Humaniza-SUS, Saúde Mental e Atenção Básica/Saúde da
Família, também incorporaram essa perspectiva. Apesar disso, é somente com a criação oficial
do NASF2, em 2008, que o Ministério da Saúde possibilita o financiamento que estimula a
utilização da metodologia de Apoio Matricial na atenção primária à saúde.
Após algum tempo de aplicabilidade do Apoio Matricial, em 2007, os pesquisadores
Campos e Domitti (2007) realizam uma reapresentação teórica desse modelo organizacional.
Neste ano, os pesquisadores definiram o AM como:
O apoio matricial em saúde objetiva assegurar retaguarda especializada a
equipes e profissionais encarregados da atenção a problemas de saúde. Tratase de uma metodologia de trabalho complementar àquela prevista em sistemas
hierarquizados, a saber: mecanismos de referência e contra-referência,
protocolos e centros de regulação. O apoio matricial pretende oferecer tanto
retaguarda assistencial quanto suporte técnicopedagógico às equipes de
referência. Depende da construção compartilhada de diretrizes clínicas e
sanitárias entre os componentes de uma equipe de referência e os especialistas
que oferecem apoio matricial. Essas diretrizes devem prever critérios para
acionar o apoio e definir o espectro de responsabilidade tanto dos diferentes
integrantes da equipe de referência quanto dos apoiadores matriciais.
(CAMPOS; DOMITTI, 2007, pág. 400)

Ao analisar o termo Apoio Matricial, os autores indicam que o primeiro termo – Apoio
– nesse modelo organizacional sugere uma metodologia para ordenar essa relação entre
referência e especialista, com base em procedimentos dialógico e não mais na autoridade e
relações verticais. Já o segundo termo – Matricial – pode ter vários sentidos, em sua origem

“As equipes de Nasf são compostas por profissionais de áreas especializadas, que têm como função principal
apoiar um conjunto de Equipes de Saúde da Família, para que estas ampliem a abrangência de suas ações e
aumentem sua resolutividade. Esse suporte técnico especializado pode ocorrer a partir de discussões clínicas;
intervenções conjuntas com a Equipe de Saúde da Família (consultas, visitas domiciliares, grupos, etc.); e
assistência direta aos casos que demandam ações especializadas” (CAMPOS; FIGUEIREDO; JÚNIOR;
CASTRO, 2014, pág. 985).
2

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latina significa o lugar onde se geram e criam coisas, mas aqui é utilizado no sentido sugerir
que profissionais de referência e especialistas mantenham uma relação horizontal, e não apenas
vertical como recomenda a tradição dos sistemas de saúde (CAMPOS; DOMITTI, 2007).
Nessa produção mais atual, os autores afirmam que as equipes de referência têm como
objetivo ampliar as possibilidades de vínculo entre profissionais e usuários. Tais equipes têm a
responsabilidade pelo acompanhamento de um caso individual, familiar ou comunitário. Ela é
composta por profissionais considerados essenciais para a condução de problemas de saúde
dentro de certo campo de conhecimento. Nesse raciocínio, seria formada por distintos
especialistas e profissionais intervindo de diversas formas em um mesmo objeto com objetivos
comuns e responsáveis pelo mesmo conjunto de tarefas. Salienta-se que para a concretude dessa
responsabilidade é necessário que essa equipe seja responsável por uma clientela adscrita para
que assim se realize acompanhamento longitudinal no tempo com esse conjunto de usuários
(CAMPOS; DOMITTI, 2007).
O Apoiador Matricial tem um perfil distinto daquele profissional que integra a equipe
de referência. É um especialista com um núcleo de saber diferente dessa equipe e assim, pode
agregar conhecimentos e contribuir com intervenções que aumentem a capacidade de resolver
problemas de saúde. Ele buscar construir e ativar um espaço para comunicação e
compartilhamento [grifo nosso] de conhecimento entre os profissionais (CAMPOS;
DOMITTI, 2007).
O Apoio Matricial e a equipe de referência juntos objetivam ampliar as possibilidades
de realizar-se clínica ampliada e integração dialógica entre distintas especialidades e profissões.
Portanto, são arranjos organizacionais e uma metodologia para a gestão do trabalho em saúde
que pretendem assegurar maior eficácia e eficiência ao trabalho em saúde, mas também investir
na construção de autonomia dos usuários (CAMPOS; DOMITTI, 2007).
Mas afinal como seria os encontros entre essas equipes? Os autores sugerem duas
formas. A primeira delas consiste na combinação de encontros periódicos e regulares, os quais
podem ocorrer semanalmente, quinzenalmente ou mensalmente, visando a discussão de casos
ou problemas de saúde selecionados pela equipe de referência, a construção de projetos
terapêuticos e acertar linhas de intervenção. Os pesquisadores recomendam ainda para reservar
algum tempo para a discussão temas clínicos, de saúde coletiva ou de gestão do sistema. A
segunda forma consiste em acionar o apoio matricial em casos urgentes ou imprevistos que não
seria recomendável aguardar a reunião regular. Isso pode ocorrer via ligação telefônica, contato
pessoal ou qualquer outra forma de comunicação direta (CAMPOS; DOMITTI, 2007).

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Mas quais planos de ações essas equipes podem realizar juntas? Nas palavras dos
pesquisadores:
O apoio matricial implica sempre a construção de um projeto terapêutico
integrado, no entanto essa articulação entre equipe de referência e apoiadores
pode desenvolver-se em três planos fundamentais: a) atendimentos e
intervenções conjuntas entre o especialista matricial e alguns profissionais da
equipe de referência; b) em situações que exijam atenção específica ao núcleo
de saber do apoiador, este pode programar para si mesmo uma série de
atendimentos ou de intervenções especializadas, mantendo contato com a
equipe de referência, que não se descomprometeria com o caso, ao contrário,
procuraria redefinir um padrão de seguimento complementar e compatível ao
cuidado oferecido pelo apoiador diretamente ao paciente, ou à família ou à
comunidade; c) é possível ainda que o apoio restrinja-se à troca de
conhecimento e de orientações entre equipe e apoiador; diálogo sobre
alterações na avaliação do caso e mesmo reorientação de condutas antes
adotadas, permanecendo, contudo, o caso sob cuidado da equipe de referência
(CAMPOS; DOMITTI, 2007, pág.401).

Como pretendem modificar a organização e funcionamento dos serviços e sistemas de
saúde, em nenhum momento, os autores dizem que é uma tarefa fácil ou de simples execução.
Inclusive apontam alguns obstáculos que para a utilização desses arranjos como instrumento
concreto e cotidiano. Desafios como a organização espacial dos serviços que dificultam a
comunicação entre as profissões e facilitam a fragmentação, excesso de demanda, falta de
recursos, concentração de poder, circulação de informação no coletivo e o aspecto ético,
concepções do processo de saúde e doença restritos (CAMPOS; DOMITTI, 2007).
Notamos que as primeiras produções sobre Apoio Matricial focalizavam a discussão
teórica desse arranjo. No entanto, em 2008, as pesquisadoras Bezerra e Dimenstein (2008)
discutem a implantação dessa proposta no Rio Grande do Norte a partir de uma pesquisa com
trabalhadores dos CAPS. Em nossa busca na base de dados, é um dos primeiros artigos que
discutem a operacionalidade desse conceito.
As pesquisadoras afirmam que para que ocorra o avanço na redução de leitos
psiquiátricos é necessário a expansão da rede substitutiva e o fortalecimento da saúde mental
na atenção básica. Neste sentido, indicam o Apoio Matricial como potencializador para que isso
ocorra. Utilizam a conceituação de Campos e Domitti de 2007. Porém, acrescentam que essa
estratégia institucional ainda permite a diferenciação dos casos que precisam ser atendidos nos
serviços especializados e os que podem ser acompanhados pela Atenção Básica ou pelo menos
ser acolhidos momentaneamente por esses profissionais (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008).
Nesse artigo, as autoras (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008) relatam que desde de 2006,
no Rio Grande do Norte vem ocorrendo um processo de implementação dessa estratégia

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articulando a rede de serviços substitutivos e as Unidades de Saúde da Família/USF. Com isso,
a gestão do município pretendia ampliar a rede em saúde mental, capacitar os profissionais
envolvidos e garantir o acesso para todos os usuários que necessitem de atenção em saúde
mental. A metodologia da pesquisa dessas pesquisadoras consistiu em entrevistas as quais
foram realizadas com profissionais dos CAPS que estavam realizando AM as USF.
Como resultados, os profissionais entrevistados relataram que por meio da articulação
e assessoramento da rede básica, consideraram o AM como uma estratégia para melhorar o
fluxo resolutivo da rede, interligando diferentes dispositivos. Além disso, apontaram para a
importância da troca de saberes e experiências e de se trabalhar o território, e não apenas o
contexto físico do CAPS.
As pesquisadoras (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008) solicitaram que os participantes
refletissem sobre habilidades e conhecimentos que a equipe precisa ter para a realizar o
matriciamento. Os profissionais responderem que é preciso ter uma visão ampla do processo
saúde-doença, compreender o lugar da rede básica de contribuir para as discussões nas UBS e
de colocar a sua experiência e o seu conhecimento à disposição da saúde mental. O apoiador,
no discurso dos profissionais, seria um articulador da rede.
Assim como Campos (1999) as pesquisadoras (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008)
também refletem sobre os desafios do AM e solicitaram que os participantes da pesquisa
respondessem sobre as dificuldades para sua implementação. Eles apontaram a insuficiência de
profissionais nos serviços CAPS, demanda grande, disponibilidade de profissionais para o AM,
falta de capacitação, má remuneração, articulação entre os serviços de diferentes níveis de
atenção, questões políticas, burocracia da gestão. Alguns entrevistados afirmaram ainda que o
AM não pode ser visto como um trabalho a mais pela equipe, mas ao mesmo tempo, sentem
certo desconforto por temerem que ocorra uma sobrecarga de trabalho visto que há insuficiência
de recursos humanos.
As autoras (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008) afirmam que essa sobrecarga de trabalho
é devida à lógica equivocada de alguns profissionais dos CAPS sobre um modelo ambulatorial,
tão presente no cotidiano desses serviços. Por isso, é preciso enfatizar com as equipes dos CAPS
e da atenção básica que o CAPS tem uma função fundamental ao articular a rede de atenção à
saúde mental, além de ordenar e regular o trabalho em saúde mental e, sobretudo, ao lidar com
o matriciamento, para que assim, se possa desconstruir essa lógica da sobrecarga e buscar um
novo modo de organização do trabalho.
As autoras afirmam que estas dificuldades devem ser compreendidas como efeitos das
políticas econômicas, sendo reflexos da economia mundial e que podem ser enfrentadas por

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meio de processos de envolvimento dos atores sociais na luta em defesa do SUS. Portanto, “é
importante que os profissionais se comprometam e se vejam como atores sociais, seja das
práticas, seja das próprias políticas para que se possa realizar o trabalho de matriciamento”
(BEZERRA; DIMENSTEIN, pág. 640, 2008)
Dessa maneira, a saúde mental na rede básica desempenha um papel
fundamental ao contribuir com seus saberes para aumentar a capacidade
resolutiva das equipes; nesse sentido, o apoio matricial pretende superar a
lógica da especialização e da fragmentação do trabalho da própria área de
saúde mental. O AM permite lidar com a saúde de uma forma ampliada e
integrada através desse saber mais generalista e interdisciplinar, e, por outro
lado, amplia o olhar dos profissionais da saúde mental através do
conhecimento das equipes nas unidades básicas de saúde em relação aos
usuários, às famílias e ao território, propondo que os casos sejam de
responsabilidade mútua. O apoio matricial é um regulador de fluxo que
permite entender e diferenciar os casos que realmente precisam ser atendidos
pela saúde mental e os casos que podem ser acompanhados pelo PSF, ou pelo
menos ser acolhidos momentaneamente por esses profissionais (BEZERRA;
DIMENSTEIN, pág. 643, 2008).

No mesmo ano, há um relato de experiência sobre a implantação de uma equipe de
Apoio Matricial em saúde mental em um município do interior do Estado de São Paulo,
focalizando a participação do enfermeiro psiquiátrico (SOARES, 2008). Essa vivência teve
início em 2006 e aconteceu com uma equipe de Saúde da Família e um ambulatório de saúde
mental. Se deu por meio de um projeto intitulado “Assessoria Mútua em Saúde Mental”,
proposto por um psiquiatra do ambulatório. Com o projeto, o autor descreve que ocorreu
diminuição dos encaminhamentos; menor estigma com relação à abordagem de portadores de
transtornos mentais; discussões e tomada de ações em conjunto para a resolução compartilhada
de casos.
Ainda em 2008, uma pesquisa qualitativa (BASTOS, SOARES M., 2008) no município
de São Paulo que objetivou o diagnóstico de equipes de Saúde Mental e de PSF. Os
pesquisadores utilizaram observação e registro no diário de campo para acompanharem uma
equipe de AM no ano anterior. Os profissionais do matriciamento eram psiquiatras e terapeutas
ocupacionais. Eles relataram sobre dois cenários: em uma USF ocorreu uma prática mais
transdisciplinar com decisões compartilhadas e nas outras equipes uma prática fortemente
disciplinar. Os autores indicaram a inclusão de mais profissionais para a equipe matriciadora e
uma maior articulação com o território para que se ocorra uma prática mais integrada.
Um ano depois, em 2009, as pesquisadoras Dimenstein, Galvão e Severo publicam uma
pesquisa sobre o apoio matricial na perspectiva de coordenadoras de Equipes de Saúde da
Família. Foram entrevistadas seis profissionais, todas com a formação em enfermagem. Essa

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pesquisa também é resultado do processo referido acima da Secretaria Municipal de Saúde de
Natal de implementar o AM nos serviços de saúde. É importante assinalar que foram
entrevistadas no início da proposta e diante disso, só algumas reuniões haviam ocorrido.
As entrevistadas afirmaram que diante da demanda de saúde mental atuam muito mais
na escuta, acolhimento e orientação aos usuários e aos seus familiares, encaminhando para
outros profissionais e serviços. Relataram que não se sentiam preparadas para essa demanda e
julgaram como necessário um apoio específico para esta área. Elas indicaram que a prática mais
comum nos serviços em que atuam é a renovação das receitas. Também demonstraram
questionamentos diante dessa prática, no entanto, não indicaram estratégias de enfrentamento
do problema (DIMENSTEIN; GALVÃO, SEVERO, 2009).
As participantes da pesquisa identificaram a proposta do AM como uma estratégia de
descentralização da rede em saúde mental, reduzindo assim os encaminhamentos; propicia uma
aproximação com a rede básica, visto que atua no território em que o usuário está inserido; uma
forma de orientação para o atendimento, como por exemplo a questão dos medicamentos, a
discussão de casos, a troca de experiências; e suporte para que seja realizado um trabalho mais
sistemático (DIMENSTEIN; GALVÃO, SEVERO, 2009).
Em relação as dificuldades à implementação do AM, as entrevistadas relataram sobre a
falta de conhecimentos específicos em saúde mental visto que elas têm uma formação
generalista ou com especialidades em outras áreas. Avaliaram essa formação superior como
insuficiente para lidar com a demanda da saúde mental (DIMENSTEIN; GALVÃO, SEVERO,
2009).
Em continuação a essa pesquisa e no mesmo ano, Dimenstein conjuntamente com
diversos pesquisadores publicam sobre o AM, mas a partir de entrevistas realizadas com oito
técnicos da USF do município de Natal. A partir dos resultados observaram que não há clareza
acerca da proposta de matriciamento e há uma forte demanda cotidiana de saúde mental não
acolhida, assim como as coordenadoras, os técnicos não se sentem capacitados para tal e
indicam a necessidade de apoio e instrumentalização nesse campo. Apesar da proposta do AM
não estar totalmente clara, os técnicos da Estratégia de Saúde da Família avaliaram-na como
positiva pelo fato de promover a aproximação da atenção básica com a especializada
(DIMENSTEIN; GALVÃO, SEVERO, 2009).
Há, também no ano de 2009, uma pesquisa (FIGUEIREDO; ONOCKO-CAMPO, 2009)
sobre a organização das ações de saúde mental na atenção básica de Campinas (SP), a partir da
implantação do Apoio Matricial. A pesquisa objetivou analisar o funcionamento do Apoio
Matricial da Saúde Mental no Programa Paidéia Saúde da Família de Campinas (SP). Como

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diferencial em relação aos outros estudos, os pesquisadores realizaram um grupo focal, ao invés
de entrevistas individuais, com profissionais de Saúde Mental; profissionais de UBS e gestores.
Os entrevistados desse estudo indicaram mudanças a partir do AM, como o início da construção
de uma lógica de corresponsabilização ao invés de encaminhamentos; ampliação da clínica;
oferta de serviços pensadas para a comunidade.
Podemos observar que até 2007, as publicações sobre o AM eram discussões teóricas
sobre este arranjo, mas é a partir de 2008 que se iniciam as discussões empíricas. Outro ponto
a se destacar é que a proposta de apoio matricial é extensiva a vários contextos e serviços, no
entanto, há um foco entre atenção básica e saúde mental.
Em 2011, Campos e Cunha reapresentam a proposta de apoio matricial e a equipe de
referência, no entanto, dialogam com a experiência dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família
e a experiência pioneira de Campinas-SP com esses arranjos. Nessa produção os autores
inserem os conceitos de “núcleo” e “campo” nas definições de Apoio Matricial e Equipe de
Referência, utilizados como ferramenta conceitual para essa transformação almejada nos
serviços de saúde.
O Núcleo é constituído por aquele conjunto de conhecimentos e de atribuições (tarefas)
específicos e característicos de cada profissão ou especialidade. Ajudam a construir sua
identidade e especificidade. O campo tem uma conceituação situacional e indica aquele
conjunto eventual de conhecimentos e tarefas que uma profissão ou especialidade deverá se
apropriar para lograr eficácia e eficiência. O Núcleo é composto de um conjunto estruturado de
conhecimento e papéis, e constituem as disciplinas. O campo representará uma abertura dessa
identidade cristalizada ao mundo da interdisciplinaridade e da interprofissionalidade (CUNHA;
CAMPOS, 2011). Associando esses conceitos ao matriciamento, os pesquisadores explicam:
O que é e como funcionam o Apoio Matricial e a Equipe de Referência? O
Apoio Matricial em saúde objetiva assegurar retaguarda especializada a
equipes e profissionais encarregados da atenção a problemas de saúde, de
maneira personalizada e interativa. Opera com o conceito de núcleo e de
campo. Assim: um especialista com determinado núcleo, apoia especialistas
com outro núcleo de formação, objetivando a ampliação da eficácia de sua
atuação. Trata-se de uma metodologia de trabalho complementar àquela
prevista em sistemas hierarquizados, a saber: mecanismos de referência e
contrarreferência, protocolos e centros de regulação. Apoio Matricial pretende
oferecer tanto retaguarda assistencial quanto suporte técnico-pedagógico às
equipes de referência. Depende da personalização da relação entre equipes de
saúde, da ampliação dos cenários em que se realiza a atenção especializada e
da construção compartilhada de diretrizes clínicas e sanitárias entre os
componentes de uma equipe de referência e os especialistas que oferecem
Apoio Matricial (CUNHA; CAMPOS, 2011, pág.964).

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Nessa produção, eles afirmam que o conceito de cogestão é essencial para
compreendermos os conceitos de AM e Equipe de Referência que é compreendida como o
estabelecimento deliberado de relações dialógicas, com o compartilhamento de conhecimentos
e saberes; portanto, é o exercício compartilhado do governo de um programa, serviço, sistema
ou política (CUNHA; CAMPOS, 2011).
Em 2014, há uma atualização (CAMPOS; FIGUEIREDO; JÚNIOR; CASTRO, 2014)
da concepção teórico-metodológica Paideia construída por Campos, mediante uma revisão
narrativa. Atualmente podemos compreender que a metodologia Paideia ou método da Roda
como também é conhecida, a qual trata-se de uma rede conceitual e metodológica para suporte
à cogestão de coletivos, é composta por 3 eixos de aplicação: Apoio Institucional; Apoio
Matricial; Clínica Ampliada e Compartilhada. O conceito e ideia geral do arranjo não se
modifica significativamente, mas vai se aprimorando por meio de pesquisas empíricas e
conceituais realizadas ao longo desses anos. Neste ano, autores (CAMPOS; FIGUEIREDO;
JÚNIOR; CASTRO, 2014) definem o AM como “sugere um modo de funcionamento para o
trabalho em rede, valorizando uma concepção ampliada do processo saúde-doença, a
interdisciplinaridade, o diálogo e a interação entre profissionais que trabalham em equipes ou
em redes e sistemas de saúde” (CAMPOS; FIGUEIREDO; JÚNIOR; CASTRO, pág. 984,
2014).

A pesquisa
No I Encontro Alagoano sobre Matriciamento em Saúde Mental (2016), a diretora de
Atenção à Saúde de Maceió, retrata o contexto de fragilidade do munícipio em relação à Saúde.
Primeiramente, comenta sobre a constante mudança de secretários de saúde; em quatro anos de
gestão tivemos quatro secretários diferentes e que tal fato dificulta a permanência de
determinadas atividades. Possuímos quatro equipes de Núcleos de Saúde da Família (NASF)
que ainda não realizam o AM; a cobertura da ESF é de apenas 27% e a Atenção Básica atende
41% da população. Este também foi um cenário que provocou o interesse em estudar sobre o
matriciamento e focalizar nosso estudo neste contexto de fragilidades, mas que, mesmo assim,
está procurando resolver essas demandas.
É nesse conjunto de problematizações que nesta pesquisa, objetivamos compreender as
versões do Apoio Matricial de um grupo de profissionais de saúde. Para tal almejamos:
conhecer a configuração do AM a partir de um projeto de extensão; analisar os repertórios sobre
o apoio matricial produzidos por um grupo de profissionais de saúde; discutir o AM por meio

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das versões de um grupo de profissionais de saúde com base em suas experiências e da literatura
científica.
Nosso estudo pauta-se no referencial teórico-metodológico das práticas discursivas e
produção de sentidos, fundamentado na perspectiva do construcionismo social.
Para tanto, nossa pesquisa foi desenvolvida em dois momentos: o primeiro consiste em
uma pesquisa participante no projeto de extensão da UFAL intitulado “MatriciaMENTE:
estimulando ações de matriciamento em Maceió” e o segundo promoveu um encontro em grupo
no formato de uma oficina com profissionais de saúde.
Em nosso estudo não cabe questionar o que é o apoio matricial, mas nos perguntarmos:
O que queremos produzir/sustentar com esse arranjo? Quais versões de Apoio Matricial são
produzidas pelos profissionais de saúde? Quais práticas dos profissionais são fortalecidas e que
outras práticas são impedidas ou transformadas? Esperamos poder refletir não sobre os
profissionais que executam essas ações, mas sobre os modelos de atenção à saúde que guiam
as nossas práticas.

Estrutura da dissertação
Esta dissertação está organizada da seguinte forma: o primeiro capítulo consiste na
revisão de literatura dialógica sobre a temática do Apoio Matricial. Relatamos sobre a pesquisa
em banco de dados; as definições de AM e as dificuldades e potencialidades desse arranjo
discutidas na literatura científica. O segundo capítulo denominado de fundamentação teóricametodológico realizamos uma explanação sobre o construcionismo social e práticas discursivas
e produção de sentidos, discutimos sobre a ética dialógica e para finalizar o capítulo,
apresentamos o percurso metodológico utilizado em nossa pesquisa. O terceiro e último
capítulo intitulado como “Apoio Matricial e suas versões” consiste nos resultados e discussões
sobre a participação no projeto e a análise da oficina.
Apontamos que essa pesquisa é resultado de diversas vozes. No entanto, utilizamos
verbos conjugados na primeira pessoa do singular apenas para referir-me a situações mais
particulares, o que não significa que foram individuais; e a segunda pessoa do plural para
momentos de uma construção e reflexão mais coletiva. Esta forma de escrita também foi
utilizada na dissertação de Silva (2015). Tentamos transpor a barreira da escrita acadêmica
clássica visto que nosso método e nossa narrativa têm, portanto, implicações políticas que
devem ser consideradas durante todo o processo de investigação.

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CAPÍTULO 1 - MAPA DO TERRENO: UMA REVISÃO DIALÓGICA DA
LITERATURA
Em nosso percurso de formação, estudamos diversos textos e abordagens. Nesse imenso
catálogo de opções, alguns desses apenas são mais uma leitura obrigatória, já outros, nos
marcam e nos acompanham por nosso caminho profissional, como se deixassem uma
sementinha em nós que vai florescendo pelos caminhos que trilhamos. Esses textos nos fazem
problematizar aquilo que tínhamos como certos e familiares. Isto aconteceu com os textos de
Montuori (2005) e Walker (2015) que discutem sobre a revisão da literatura.
Esta é uma etapa inerente a qualquer processo de pesquisa. Geralmente, realizada muitas
vezes de maneira semelhante pelos pesquisadores e não se constituindo como um dos passos
mais empolgantes do pesquisar. No entanto, esses dois autores acima nos fizeram compreender
a revisão de uma maneira totalmente inovadora e instigante.
Montuori (2005) defende que a revisão da literatura pode ser uma oportunidade para
pesquisas criativas, um diálogo com a comunidade científica e aqueles que fazem parte dela.
Portanto, o revisor é um participante ativo na construção desse diálogo e não meramente um
espectador que visa reproduzir da melhor maneira possível trabalhos e temas relevantes.
Segundo este autor, a revisão não pode ser exaustiva e reprodutiva, ela é o mapa do
terreno e não o terreno em si. Então, o pesquisador apresenta uma interpretação dos autores e
estudos em questão, e esta interpretação nos fala tanto do próprio pesquisador quanto dos
autores revisados.
Inspirada pelas ideias de Montuori (2005), a pesquisadora Walker (2015) também
reflete sobre o processo de revisão da literatura. Para ela, esta etapa pode criar um conhecimento
transformador. Ao realizar uma revisão, a autora busca expor o contexto relacional dos textos,
logo, monta conexões, explora os padrões e interações relacionais desses. Como se os textos
conversassem e debatessem de forma respeitosa entre si. Deste modo, busca estabelecer um
diálogo entre os textos e consigo mesma.
Portanto, instigadas por esses textos que nos marcaram, tentamos traçar nesse capítulo
uma revisão dialógica da literatura técnico-científica sobre Apoio Matricial, concebendo este
passo como um processo criativo e construtivo. Tentamos realizá-la não como algo distante de
nós, e sim, como uma comunidade vivente permeada por um história, paixões, controvérsias e
alianças. Pontuamos que uma revisão nunca é completa, não está acabada, por isso, traçamos
um panorama das produções e dialogamos com esses autores e a comunidade que estamos
inseridas.

28

Buscamos que essa leitura não fosse entediante e exaustiva. Não é uma tarefa fácil, e
provavelmente, ficamos apenas na tentativa. Contudo, o diálogo criado por Montuori (2005) e
Walker (2015) de uma revisão dialógica irá nos acompanhar por todas nossas pesquisas futuras.

1.1.

Panorama geral das produções técnico-científicas sobre Apoio Matricial
Campo-tema é compreendido como o complexo de redes de sentidos que se

interconectam, um espaço criado, herdado ou incorporado pelo pesquisador ou pesquisadora e
negociado na medida em que este busca se inserir nas suas teias de ação. “Quando fazemos o
que nós chamamos de pesquisa de campo, nós não estamos “indo” ao campo. Já estamos no
campo, porque já estamos no tema” (P. SPINK, 2004).
A pesquisa em base de dados é a nossa compreensão inicial sobre o campo-tema
pesquisado. Permitem o acesso a materiais produzidos em espaços e tempos distintos daquele
que se encontra o pesquisador. Além disso, agrupam as informações de uma forma organizada.
Essa possibilita explorar os modos pelos quais os assuntos se tornam relevantes para ciência,
acessá-las e discuti-las criticamente. Esse processo não é meramente técnico e não há
neutralidade em sua construção, mas se constitui por aspectos históricos, éticos e políticos
(RIBEIRO; MARTINS, LIMA, 2015).
Diante disso, para a revisão da literatura, buscamos na base de dados Bireme
(<http://www.bireme.br/php/index.php> acessada no dia 31.05.2015) estudos relacionados ao
Apoio Matricial. Os critérios que delimitaram e orientaram a seleção do material foram: IParâmetro temático: produções que abordassem ou pesquisassem sobre o Apoio Matricial; IIParâmetro linguístico: estudos publicados em língua portuguesa; III – Principais fontes:
periódicos; IV- Parâmetro cronológico de publicação: produções publicadas no período entre
1990 a 2015. Utilizamos o descritor “apoio matricial”.
A delimitação à língua portuguesa deve-se ao fato do AM ser uma proposta brasileira,
no entanto, isso não excluiu a inclusão de artigos publicados em outra língua com vistas à
complementação da leitura. Para o parâmetro cronológico incluímos a década de 1990 visto que
as primeiras experiências em matriciamento aconteceram neste ano.
De um total de 130 resultados obtidos com o levantamento bibliográfico, após a
exclusão de artigos repetidos bem como daqueles que não estavam com o texto completo
disponível para acesso (ou ainda não se relacionavam com a temática e critérios de nosso estudo
mencionados anteriormente), obtivemos o quantitativo final de 68 (sessenta e oito) produções

29

para leitura. Desse total, 5 (cinco) são dissertações, 3 (três) teses e uma cartilha produzida pelo
Ministério da Saúde.
No dia 14.06.16, realizamos uma segunda pesquisa na mesma base de dados, com o
objetivo de incluir artigos mais recentes e que não apareceram na primeira busca, seguimos os
critérios supracitados, porém, incluímos o ano de 2016 no parâmetro cronológico. Nesse novo
levantamento, foram incluídos mais quinze estudos, totalizando 83 (oitenta e três). É importante
salientar que materiais sugeridos por especialistas na temática foram incluídos para a
complementação do nosso estudo. Salientamos que esses materiais não foram incluídos na
análise apresentada nos quadros abaixo.
Nessas produções, caracterizamos alguns aspectos avaliados por nós como importantes
para refletirmos sobre o campo-tema. Realizamos um diálogo com números, mas sem cair na
falácia quantitativa, na qual os números são dados neutros, fidedignos de uma realidade ou
verdade sobre o fenômeno estudado. O primeiro deles, se constitui nos locais de estudos
pesquisados. Neste aspecto, agrupamos as pesquisas empíricas a partir das regiões brasileiras.
O quadro 1 demostra a quantidade em ordem decrescente de estudos a partir das regiões. As
pesquisas que realizaram discussões teórico-conceituais não foram contabilizadas visto que não
possuíam um local de estudo específico, portanto, só consideramos as pesquisas empíricas.
Quadro 1: Número de produções em ordem decrescente classificadas a partir das regiões brasileiras. Maceió,
2017. Fonte: Autoras.
Regiões Brasileiras
Número de Produções
Sudeste
28
Nordeste
21
Sul
8
Centro-Oeste
2
Norte
1

No quadro 1, notamos que a maioria dos artigos teve como local de estudo o Sudeste,
tendo predominância os estudos oriundos do estado de São Paulo, especialmente Campinas,
munícipio pioneiro na implementação e estudo do Matriciamento e que recebe constantes
investimentos em equipamentos substitutivos, como: Centros de Atenção Psicossociais
(CAPS), Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), Centros de Convivência, Enfermarias de
psiquiatria em Hospital Geral e Serviços de Geração de Renda (BALLARIN; BLANES;
FERIGATO, 2012). Há também nesse município, uma variedade de categorias profissionais e
de locais de trabalho, a partir dos quais se realiza o Apoio Matricial e que se expande para
outros contextos que não só a Saúde Mental. Neste quadro, não foram incluídas as produções
que não possuíam uma região de estudo delimitada, como as revisões de literatura.

30

Uma pesquisa com todos os estados brasileiros (SOBRINHO et al., 2014) com as
equipes de Saúde da Família indicou que apenas no Sudeste as equipes de ESF avaliaram um
alto grau de apoio. Na distribuição por estados, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina
apresentaram as maiores porcentagens de ações de apoio (FONSECA SOBRINHO et al., 2014).
Em relação a região Nordeste, foi notável os estudos oriundos do Estado do Ceará. Os
pesquisadores Bonfim; Bastos; Góis; Tofóli (2013) nos fornece pistas as quais podem ser causas
dessa crescente produção. Os autores afirmam que a partir de 2006, as áreas de saúde mental e
a atenção primária foram prioritárias em investimento, o que proporcionou um processo gradual
de implantação do AM em Saúde Mental, especialmente em Fortaleza.
Apontamos que apenas uma pesquisa abarcou todos os estados brasileiros (FONSECA
SOBRINHO et al., 2014) e um estudo (LACERDA E SILVA; DIAS; FERNANDES; GOMES,
2013) três regiões brasileiras: Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
O ano de publicação dos estudos é outro ponto que ressaltaremos. O quadro 2 demonstra
o número de estudos em cada ano de publicação.

Quadro 2: Número de produções classificadas a partir do ano de publicação. Maceió, 2017. Fonte: Autoras.
1998

1999

2004

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

2014

2015

2016

1

1

1

1

3

3

3

9

13

16

14

16

2

Por meio do quadro 2, podemos notar um aumento de publicações a partir do ano de
2011. Supomos que a criação dos NASF em 2008, o qual é um serviço que possui como ação
prioritária o matriciamento, provavelmente tenha influenciado esse resultado. Ainda podemos
observar nesse quadro, um grande número de estudos publicados nos últimos anos, levando a
considerar que o AM é uma proposta recente nos serviços e no meio acadêmico. Salientamos
que em nossa busca, não houve estudos nos anos de 2000; 2001; 2002; 2003;2005; 2006.
Outro aspecto que consideramos importante ser abordado é a área de conhecimentos dos
pesquisadores. Para tanto, construímos o quadro 3 que classifica a quantidade de produções a
partir do conhecimento dos autores.
Quadro 3: Número de produções em ordem decrescente classificadas a partir da Área de conhecimento dos autores.
Maceió, 2017. Fonte: Autor.
Área de conhecimento
Número de Produções
Multidisciplinar
29
Saúde Pública
17
Psicologia
16
Saúde Coletiva
9
Enfermagem
7
Saúde Mental
3

31

Medicina Preventiva e Social

2

Para definir a área de conhecimento, utilizamos as definições dos próprios autores nas
produções. Quando ela não constava, realizávamos uma pesquisa na plataforma lattes. A área
multidisciplinar, predominante nos estudos, refere-se àquelas produções, nas quais haviam
autores que pertenciam a mais de uma área de conhecimento. A produção de um conhecimento
multiprofissional e interdisciplinar está condizente com a própria proposta de AM, que busca a
construção coletiva e compartilhamento dos saberes. Além disso, as áreas de Saúde Pública e
Saúde Coletiva também são campos interdisciplinares.
Para dialogar com esse aspecto, classificamos em quais revistas estes estudos estão
sendo publicados. Neste sentido, construímos o quadro 4 que categoriza as quantidades de
produções em ordem decrescente e o nome das revistas.
Quadro 4: Nome das revistas e número de produções classificadas em ordem decrescente. Maceió, 2017. Fonte:
Autoras.
Revistas
Número de Produções
Ciência e Saúde coletiva
17
Interface
7
Saúde e Sociedade
6
Saúde Debate
4
Caderno de Saúde Pública
4
Physis
4
Psicologia: Ciência e Profissão
3
Texto e Contexto de Enfermagem
2
Revista Brasileira de Enfermagem
2
Revista Brasileira de Ciências da Saúde
2
Outras
15

Em busca de uma melhor visualização, neste quadro colocamos as revistas que
apresentaram o maior número de produções. Não incluímos as dissertações, teses e trabalho de
conclusão de curso. Na categoria “Outras” incluímos as revistas que tiveram apenas uma
publicação cada. Aqui podemos visualizar que os estudos também estão sendo publicados em
revistas de conhecimento multidisciplinar. Porém, assim como no quadro 3 que as áreas de
conhecimento de Psicologia e Enfermagem foram marcantes, revistas destes mesmos campos
foram expressivos. Neste quadro, não incluímos as dissertações, cartilhas e teses visto que não
foram publicadas em revistas.
Ao analisar o foco dos estudos, notamos que eles apresentam dois focos de discussões
que intitulamos: Discussões Conceituais e Operacionalidade do Conceito. O primeiro
caracteriza-se pelas produções que realizaram um estudo teórico e\ou crítico sobre apoio
matricial, o segundo consiste nas pesquisas empíricas sobre a temática. Na Operacionalidade
do Conceito, as pesquisas variaram de acordo com o foco da área da política pública estudada.

32

Logo, o foco das pesquisas consistiu em: Apoio Matricial e Atenção Básica; Apoio Matricial,
Saúde Mental e Atenção Básica; Apoio Matricial e Saúde Mental; Apoio Matricial e Gestão;
Apoio Matricial e Saúde do Trabalhador; Apoio Matricial, Atenção Básica e Gestão; Apoio
Matricial, Saúde Mental, Atenção Básica e Gestão. Construímos o quadro 5 para visualizar a
quantidade de pesquisas em cada categoria.
Quadro 5: Número de produções classificadas a partir dos focos de discussão das pesquisas. Maceió, 2017. Fonte:
Autoras.
Foco da Discussão
Número de Produções
Discussão Teórica
20
Apoio Matricial e Atenção Básica
21
Apoio Matricial, Saúde Mental e Atenção Básica
15
Apoio Matricial e Saúde Mental
14
Apoio Matricial e Gestão
5
Apoio Matricial e Saúde do Trabalhador
3
Apoio Matricial, Atenção Básica e Gestão
2
Apoio Matricial, Saúde Mental, Atenção Básica e
1
Gestão

Duas produções não se aplicaram nesses critérios visto que o foco do estudo era outro e
apenas citavam o AM como uma potencialidade para os problemas de pesquisas estudados.
Portanto, o matriciamento não foi o objeto de estudo dessas produções. Pelo quadro 5,
verificamos grande parte das pesquisas consiste em pesquisas empíricas sobre este arranjo e há
um número expressivo que focaliza o AM e a Atenção Básica.
Na leitura dos textos, houve a predominância de delineamentos pela metodologia
qualitativa com a utilização de entrevistas como técnica de coleta de dados e os profissionais
como população alvo. Para visualizar os autores que apresentaram estes aspectos construímos
o quadro 6.
Quadro 6: Aspectos predominantes nos estudos e autores. Maceió, 2017. Fonte: Autoras
Aspectos
Autores
predominantes nos
estudos
Metodologia
SOARES (2008), MORAIS (2010), MIELKE; OLCHOWSKY (2010), ONOCKOQualitativa
CAMPOS et al (2011), ROSA et. al. (2011), SOUSA et al. (2011), MINOZZO (2011),
PINTO et al. (2012), OLIVEIRA (2013), LACERDA E SILVA et al (2013),
FITTIPALDI (2013), PRATES; GARCIA; MORENO (2013), ARISTIDES;
CARVALHO; BALLESTER (2013), QUINDERÉ et al., (2013), GOMES (2013),
FREIRE; PICHELLI (2013), JORGE; SOUSA; FRANCO, (2013), BASTOS;
NASCIMENTO (2014), LIMA; ALBUQUERQUE; WENCESLAU (2014), FORTES et
al (2014), JORGE et al., 2014, BRITES et al. (2014), MATUDA; PINTO; MARTINS;
FRAZÃO (2015), SAMPAIO; MELO; GRIGÓRIO; SOARES (2015), COSTA; LIMA;
SILVA. FIORONI (2015), HIRDES, 2015, FITTIPALDI; ROMANO; BARROS, 2015,
ALFENA (2015), REIS et al (2016).
Entrevistas

DIMENSTEIN et al (2009), MORAIS (2010), ROSA et. al. (2011), CAVALCANTE et
al (2011), SOUSA et al. (2011), COSSETIN; OLSCHOWSKY (2011),
CAVALCANTE; JORGE; SANTOS (2012), PINTO et al. (2012), GALVÃO (2012),
KANNO; BELLODI; TESS (2012), FITTIPALDI (2013), DELFINI; REIS (2013),

33

PRATES; GARCIA; MORENO (2013), GOMES (2013), FREIRE; PICHELLI (2013),
QUINDERÉ et al. (2013), MAGALHÃES (2014), HOEPFNER; HOEPFNER;
FRANCO; MACIEL; HOEPFNER. A (2014), LIMA; ALBUQUERQUE;
WENCESLAU (2014), PAIXÃO; TAVARES (2014), NASCIMENTO (2014), BRITES
et al. (2014), JORGE et al. (2014), BORELLI et al. (2015), MATUDA; PINTO;
MARTINS; FRAZÃO (2015), COSTA; LIMA; SILVA. FIORONI (2015), CELA;
OLIVEIRA (2015), HIRDES (2015), FITTIPALDI; ROMANO; BARROS (2015),
SAMPAIO; MELO; GRIGÓRIO; SOARES (2015), BARROS; GONÇALVES;
KALTNER; LANCMAN (2015).
Profissionais

DIMENSTEIN et al (2009), ONOCKO- CAMPOS (2009), MORAIS (2010), MIELKE;
OLCHOWSKY (2010), SOUSA et al. (2011), MINOZZO (2011), CAVALCANTE et
al (2011), PENIDO (2012), CAVALCANTE; JORGE; SANTOS (2012), BELOTTI;
LAVRADOR (2012), KANNO; BELLODI; TESS (2012), GALVÃO (2012), PINTO
et al. (2012), OLIVEIRA (2013), LACERDA E SILVA et al (2013), MINOZZO;
COSTA (2013), QUINDERÉ et al. (2013), ARISTIDES; CARVALHO; BALLESTER
(2013), GOMES (2013), FREIRE; PICHELLI (2013), FITTIPALDI (2013), DELFINI;
REIS (2013), BRITES et al. (2014), MAGALHÃES (2014), JORGE et al. (2014),
LIMA; ALBUQUERQUE; WENCESLAU (2014), NASCIMENTO (2014), MORAIS;
ALMEIDA; FONSECA SOBRINHO et al. (2014), PASINI (2014), FIGUEIREDO;
MATUDA; PINTO; MARTINS; FRAZÃO (2015), HIRDES (2015), COSTA; LIMA;
SILVA; FIORONI (2015), BARROS; GONÇALVES; KALTNER; LANCMAN (2015),
FITTIPALDI; ROMANO; BARROS (2015), CELA; OLIVEIRA (2015), SOARES
(2015), ALFENA (2015), REIS et al (2016).

Análise de Conteúdo

BÖING; CREPALDI (2010), ROSA et. al. (2011), MINOZZO (2011), CARVALHO;
SOUSA et al. (2011), PINTO et al. (2012), MINOZZO; COSTA (2013), DELFINI;
REIS (2013), BALLESTER (2013), GOMES (2013), LACERDA E SILVA et al (2013),
QUINDERÉ et al. (2013), ARISTIDES; CARVALHO; BALLESTER (2013), JORGE;
SOUSA; FRANCO (2013), LIMA; ALBUQUERQUE; WENCESLAU (2014),
MORAIS; ALMEIDA; PASINI (2014), JORGE et al. (2014), BRITES et al., (2014),
MATUDA; PINTO; MARTINS; FRAZÃO (2015), HIRDES (2015), SAMPAIO;
MELO; GRIGÓRIO; SOARES (2015), REIS et al (2016).

Salientamos que a metodologia adotada para a análise de dados, particularmente a
análise de conteúdo é apenas citada. Os pesquisadores não deixam claro quais passos, etapas e
procedimentos foram realizados para chegar às categorias temáticas ou aos resultados.
Referendam as autoras, predominantemente Bardin ou Minayo, o que é insuficiente, para dar
visibilidade ao processo de análise dos resultados das pesquisas.
Os estudos de Quinderé et al. (2013); Pinto et al., (2012), Jorge; Sousa; Franco, (2013),
Onocko-Campos et. al. (2011) para compreender a prática do matriciamento discutem a
contribuição e participação dos usuários e seus familiares no processo de produção de
conhecimento em relação ao Apoio Matricial se diferenciam por pesquisaram familiares e/ou
usuários além do discurso dos profissionais (IGLESSIAS; AVELLAR, 2014, JORGE et al.,
2014).

34

Nossa pesquisa tem como local de estudo o estado de Alagoas, o qual não foi abordado
nas produções encontradas em nosso levantamento. Além disso, não encontramos estudos que
abordem Apoio Matricial utilizando o referencial teórico por nós adotado.
A partir da leitura dos resumos de todos os artigos discutimos a seguir, aqueles que
definem o Apoio Matricial com uma multiplicidade de termos e expressões e aqueles que
enfocam dificuldades e as potencialidades na prática do matriciamento.

1.2. Multiplicidade do termo Apoio Matricial
Ao definir em que consiste o Apoio Matricial, os autores se utilizam de uma diversidade
de conceitos, palavras-chave e repertórios. Uma primeira impressão ao ler esses estudos é que
o AM seria um leque de possibilidades ou um conjunto de vários elementos.
Diante disso, construímos um quadro (APÊNDICE A) que também podemos chamá-lo
de glossário, com todas as definições utilizadas na literatura técnico-científica encontradas no
levantamento bibliográfico. Nesse quadro, podemos localizar as múltiplas maneiras de falar e
compreender o Apoio Matricial, as significações atribuídas a ele foram organizadas por tempo
cronológico e alguns termos recorrentes estão grifados.
O objetivo da construção desse glossário foi dar visibilidade a variedade de termos e
expressões usadas para falar sobre AM. E consequentemente, a inexistência de uma definição
única, em virtude da polissemia de sentidos associados a esse arranjo organizacional.
As definições mais utilizadas nestes estudos foram as formuladas pelos pesquisadores
Campos (1999) e Campos e Domitti (2007). Em 1998, podemos notar que o primeiro autor
definia esse arranjo como “Supervisão Matricial”, no ano seguinte, amplia a conceituação e o
nomeia de “Apoio Matriricial”.
Neste sentido, desde a primeira conceituação realizada, o Apoio Matricial não se
consolidou visto que foi se desenvolvendo a partir de pesquisas empíricas, assim como, estudos
bibliográficos, sendo aprimorado ao longo do tempo. Além disso, a sua implementação por todo
o país permitiu sua avaliação, verificação de potencialidades e desafios.
Notamos que apesar da multiplicidade, há uma coerência entre aquelas definições as
quais não são excludentes entre si, pelo contrário, fazem parte de um mesmo processo, porém,
com leituras e experiências diferentes.
Os estudos dialogam com alguns pontos em comum e isto nos auxilia na compreensão
do AM. É predominante nos estudos o apontamento de que ele foi formulado pelo pesquisador

35

Gastão Wagner de Sousa Campos e que tal metodologia, inicialmente, tinha o objetivo de ser
aplicada em serviços de saúde mental, hospitalares e de atenção básica.
A partir da leitura da literatura delineadas no quadro (APÊNDICE A), identificamos que
há uma convergência nas definições em considerar o Apoio Matricial como um novo arranjo
organizacional e uma metodologia de gestão do cuidado; ser formado por equipes
interdisciplinares de referência e; de uma equipe de apoio matricial, que fornece um suporte
assistencial e técnico pedagógico.
Quanto ao método de trabalho, os estudos caracterizam que essas duas equipes:
compartilham diretrizes de vínculo terapêutico, gestão colegiada e transdisciplinaridade das
práticas; pautam suas relações na horizontalidade e interação dialógica com vistas a mudança
nas relações de trabalho e; pretendem a superação do modelo médico centrado, do sistema de
encaminhamentos indiscriminados, da lógica da especialização e da fragmentação.
Os objetivos do AM são delineados por buscar a consolidação do cuidado; potencializar
o protagonismo de profissionais e de usuários; elevar o grau de resolubilidade das ações;
fortalecer a clínica ampliada e valorizar uma concepção ampliada do processo saúde-doença
baseadas na interdisciplinaridade, diálogo e interação.
Um ponto para refletir é que algumas definições priorizam que o AM seria realizado por
uma equipe de especialistas, no entanto, a Cartilha de Humanização (BRASIL, 2004) aponta
que a equipe de referência não necessariamente pede apoio apenas a especialistas, mas também
a profissionais que estão mais próximos do usuário. Portanto, podemos inferir que o CAPS ou
serviço de saúde mental também pode pedir AM a atenção básica.
Nessa diversidade de conceitos, termos e expressões utilizadas compreendemos que o
matriciamento é um processo complexo e múltiplo. Esses repertórios utilizados pelos
pesquisadores compõem as práticas discursivas, colaborando assim, na produção de sentidos
sobre Apoio Matricial. Assim como percebemos no glossário ao longo dos anos, esses
repertórios não são fixos, ao contrário, circulam e modificam-se constituindo versões do
matriciamento.

1.3. Obstáculos, desafios e limites para implantação do Apoio Matricial
Identificamos que os estudos apresentam alguns pontos convergentes em relação aos
desafios; obstáculos ou limites para a implantação do Apoio Matricial e potencialidades desse
arranjo. Iremos relatar como esses pontos são discutidos e como dialogam um com o outro,
formando assim, redes conceituais sobre o Apoio Matricial.

36

Entre os obstáculos que os estudos discutem, estão os relatos dos profissionais da
Atenção Básica ou daqueles que compõem a Equipe de Referência, de sentirem-se inseguros
para acompanhar os casos de Saúde Mental (DIMENSTEIN; GALVÃO; SEVERO, 2009,
QUINDERÉ et. al., 2013, JORGE; SOUSA; FRANCO, 2013, JORGE ET AL, 2014,
MINOZZO, 2011). Afirmam que além da insegurança, esses profissionais não se sentem
capacitados para condução de tais casos e que nem todos os trabalhadores da Unidade Básica
de Saúde pesquisada tinham conhecimento sobre apoio matricial (QUINDERÉ et. al., 2013).
Os trabalhadores que conheciam sobre esse arranjo nem sempre se comprometiam em utilizálo. Esses autores afirmam que há desinteresse por parte de alguns profissionais na condução
dos casos de transtornos mentais.
Assim como Quinderé et al (2013), Minozzo (2011) ao realizar grupos operativos com
os profissionais da Atenção Básica, eles também relataram insegurança e medo do
desconhecido na abordagem dos casos de Saúde Mental. No entanto, contrastam com os
primeiros visto que, expressaram o desejo de conhecimento e que o matriciamento permitiria
um aprofundamento em relação à Saúde Mental.
A possível causa ou motivo desse medo e insegurança, em acolher os casos de saúde
mental, é apontado pelos pesquisadores e também pelos profissionais participantes das
pesquisas como a falta de capacitação e experiência, e formação insuficiente em Saúde Mental
e\ou Saúde Pública (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008, DIMENSTEIN; GALVÃO; SEVERO,
2009, MINOZZO, 2011, BELOTTI; LAVRADOR, 2012, BRITES et al., 2014, JORGE;
DINIZ; LIMA; PENHA, 2015).
Sob a ótica dos pesquisadores Azevedo; Godim e Silva (2013), a inserção de
profissionais sem a devida preparação, capacitação ou experiência em saúde mental é um risco
e prejudica o processo de Reforma Psiquiátrica. O risco consistiria no fato dos trabalhadores
implementarem o conhecido, o corriqueiro praticado por anos, baseado num processo de
trabalho que valoriza o modelo manicomial (vigilância, passividade e punição).
Em um cenário, no qual a formação dos profissionais de saúde é pouco dialógica e
centrada dentro dos muros do núcleo da sua categoria, os pesquisadores Bonfim; Bastos; Góis;
Tofóli (2013) discutem que, evidentemente, ocorrerá dificuldades para se atuar em apoio
matricial de maneira formativa.
As dificuldades trazidas pelos profissionais pesquisados nesses estudos e o problema
solucionado por uma capacitação específica na Saúde Mental nos faz refletir sobre como essa
proposta apresenta-se distante do princípio da integralidade. Trabalhar com a Saúde Mental é
diferente da produção diária de saúde? Não estaria inclusa no cotidiano dos serviços? Doenças

37

físicas e doenças psíquicas compõem partes indissociáveis das pessoas?

O sujeito em

sofrimento psíquico é tão diferente dos usuários da atenção básica que seria necessária uma
capacitação específica para se trabalhar com tal público?
Inclusive podemos questionar se tais discursos dialogam com os preceitos do AM, visto
que esse arranjo organizacional visa desmistificar os usuários em sofrimento psíquico e
enaltecer o princípio de integralidade do SUS. Hirdes e Scarparo (2013) ilustram esse
argumento com uma metáfora em relação ao cotidiano dos serviços, bastante interessante sobre
o Minotauro3, associando que a cabeça do usuário seria para os profissionais especialistas e o
corpo para os generalistas.
No entanto, também concebemos que esses argumentos sobre uma preparação para uma
atuação no campo da Saúde Mental indicam sobre um contexto nos serviços o qual não há
espaço para uma discussão de caso que os profissionais possam compartilhar saberes e construir
ferramentas terapêuticas para os usuários em sofrimento psíquico.
Neste sentido, compreendemos a afirmação de Azevedo; Godim; Silva (2013) com
ressalvas, visto que reafirma o trabalho com a Saúde Mental como um outro tipo de
conhecimento, o especializado e específico, reforçando a necessidade de especialidades nessa
área. Limitante assim, de uma discussão que esse conhecimento pode ser construído no
cotidiano e no compartilhamento com outros profissionais.
Dimenstein; Galvão e Severo (2009) questionam o que viria a ser esse preparo ou quais
condições confeririam aos profissionais a sensação de estarem prontos para lidarem com a
demanda de saúde mental. Diante disso, os autores também apontam para alguns cuidados
necessários com a implementação do matriciamento, como a valorização dos saberes diversos
dos vários atores, a partir do seu cotidiano, de sua prática. Analisam que partir do pressuposto
de que os profissionais da rede básica precisam ser capacitados é de certa forma, reforçar a
lógica dos saberes fragmentados e das especialidades. Portanto, o arranjo que visa à superação
de algumas lógicas pode, paradoxalmente, reforçá-las.
A burocracia presente no cotidiano dos serviços é apontada pelos estudos como outro
obstáculo à prática do matriciamento (CUNHA; CAMPOS, 2011, QUINDERÉ et. al., 2013,
BELOTTI; LAVRADOR, 2012). Essa burocratização aponta para um conflito existente entre
as diretrizes da ESF e com o modelo de atenção vigente, que ainda permanece fixado nos
padrões antigos (BELOTTI; LAVRADOR, 2012). Isso fragiliza o sistema de saúde e a
comunicação entre os serviços (QUINDERÉ et. al., 2013).

3

Criatura da mitologia grega, imaginada com a cabeça de um touro sobre o corpo de um homem.

38

Complementando essa discussão Cunha e Campos (2011) discutem que a cultura
organizacional dos serviços de saúde possui baixa capacidade para lidar com a incerteza, com
a interdisciplinaridade inerente aos problemas complexos dessa e ainda produz uma baixa
vocação para o aprendizado fora do núcleo disciplinar. A Cartilha de Humanização sobre
Equipe de Referência e Apoio Matricial (BRASIL, 2004) alerta que processos de trabalho
focados em procedimentos burocráticos, especialmente aqueles que se restringem apenas a
prescrever, fragilizam o envolvimento dos profissionais de saúde com os usuários. Campos
(1999) dialoga com este posicionamento ao afirmar que um processo de trabalho verticalizado
e centrado em procedimentos, e não na produção de saúde, tende a diluir o envolvimento das
equipes de saúde com os usuários.
Os pesquisadores Belotti e Lavrador (2012) realizam uma outra discussão em relação a
este tópico ao afirmarem que as regras e os protocolos estão enraizados nas equipes de ESF, e
quando surge um caso que não se encaixa nessas regras, os trabalhadores não sabem acolher,
gerando um sentimento de impotência e angústia nos profissionais.
O desafio apontado de forma quase predominante pelos estudos consistiu na hegemonia
do modelo biomédico nas práticas dos serviços (MINOZZO, 2011, JORGE; SOUSA;
FRANCO, 2013, QUINDERÉ et. al., 2013, AZEVEDO; GONDIM; SILVA, 2013, JORGE;
DINIZ; LIMA; PENHA, 2015, SOBRINHO ET AL, 2014, JORGE ET AL, 2014,
FITTIPALDI; ROMANO; BARROS, 2015).
Nesse contexto, Quinderé et (2013) e Minozzo (2011) apresentam pontos
complementares em relação à essa discussão. Os primeiros pesquisadores apontam como uma
dificuldade à implantação do AM, a hegemonia de uma prática medicamentosa e centralizada
na figura do profissional médico, com intervenções arraigadas ao modelo biologicista e
individualista de atuação. Nesse sentido, nos resultados da segunda pesquisadora, os
profissionais do CAPS, os quais iriam compor a equipe de Apoio Matricial, relataram o papel
do médico como um tema relevante. Nas falas dos profissionais, a sua presença apareceu como
fundamental durante os encontros de matriciamento, para dar mais segurança aos demais
profissionais na intervenção, porém, a presença do médico em todos os encontros de AM foi
questionada.
É interessante notar que além das capacitações na Saúde Mental, discutido
anteriormente, a presença do médico seria fundamental para legitimar e assegurar práticas nesse
campo. Novamente, notamos um equívoco aos princípios do SUS nos discursos, visto que, as
ações não devem estar centralizadas em um profissional, mas no usuário o qual teria autonomia
para a escolha das intervenções no seu processo de vida e saúde.

39

Em entrevistas com coordenadoras da ESF em serviços que realizaram o matriciamento
(DIMENSTEIN; GALVÃO; SEVERO, 2009), as participantes relataram que a demanda de
saúde mental mais frequente no PSF é a renovação de receita, portanto, o foco é a medicação.
No entanto, estas profissionais consideram insuficiente e inadequada a reprodução de um
medicamento sem questionamentos ou revisão do tratamento. Nesse mesmo contexto, o que é
mais interessante, é que as profissionais tentam realizar, por meio de ações como escuta,
acolhimento, orientação, juntamente com o encaminhamento para outros profissionais dentro
do próprio serviço, um outro tipo de movimento a esta prática, como resposta a esse modelo
médico hegemônico.
Entrevistas com usuários (JORGE; DINIZ; LIMA; PENHA, 2015) que participaram do
matriciamento, revelaram descontentamento com práticas centradas exclusivamente na
prescrição farmacológica e sem espaços para diálogo, escuta e acolhimento e com significativa
desvalorização do usuário como sujeito de seu processo de adoecimento. No entanto, revelaram
identificação e satisfação com o atendimento realizado pela CSF (Centro de Saúde da Família),
no qual era realizado o matriciamento.
Os pesquisadores Santos e Lacaz, (2012) discutem que é preciso apontar possibilidades
que possam transcender esse modelo médico-assistencial com foco em ações de saúde
individuais para atuações que priorizem o coletivo e intervenções de promoção, prevenção e
vigilância. Os autores acreditam que é precisamente o Apoio Matricial que pode servir de
reorientação para esse modelo, na medida em que esse fortalece a determinação social do
processo de adoecimento e revela-se como um passo à frente na atenção integral ao usuário.
Para Campos (1999) um arranjo organizacional, que nesse caso, seria o AM, articulado
às diretrizes de gestão colegiada e de transdisciplinaridade das práticas e dos saberes,
possibilitariam uma superação de aspectos fundamentais do modelo médico hegemônico.
Neste sentido, alguns autores (CASTRO; OLIVEIRA, CAMPOS, 2016) já apontam
para mudanças na predominância desse modelo, ao avaliarem equipes e o processo de trabalho
interprofissional do Apoio Matricial desenvolvido na Atenção Básica do SUS no munícipio de
Campinas (SP). Notaram que a categoria médica está mais envolvida com esse novo arranjo,
representando uma das categorias profissionais entre as mais frequentes no desenvolvimento
de ações de Apoio Matricial. Apesar que, ainda apresente uma parcela pequena no total das
categorias profissionais, esse dado sugere uma aproximação dessa categoria com uma proposta
de trabalho democrática e interativa, diferente do trabalho médico tradicional.
Por fim, uma rotina com uma excessiva carga de trabalho e carência de recursos
materiais e humanos foram associados aos obstáculos para a prática do matriciamento

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(BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008, MINOZZO, 2011, BALLARIN; BLANES; FERIGATO,
2012, BONFIM; BASTOS; GÓIS; TOFÓLI, 2013, AZEVEDO; GONDIM; SILVA, 2013,
HIRDES; SCARPARO, 2013, JORGE ET AL, 2014, JORGE; DINIZ; LIMA; PENHA, 2015,
FITTIPALDI; ROMANO; BARROS, 2015).
Esses fatores aliados aos baixos salários podem exercer um profundo impacto não
somente na qualidade da assistência aos usuários, mas também, na saúde dos profissionais
(AZEVEDO; GONDIM; SILVA, 2013).
Apoiadores matriciais relataram que este trabalho pode resultar em fonte de valorização
pessoal e profissional (BALLARIN; BLANES; FERIGATO, 2012), no entanto, podem
ocasionar em uma fonte de sofrimento e angústia, visto que além da demanda diária da rotina
de trabalho, existe a demanda de implementação desse novo arranjo organizacional,
ocasionando também em uma sobrecarga. Para os pesquisadores (BALLARIN; BLANES;
FERIGATO, 2012), é preciso uma mudança nos tradicionais modos de produzir saúde e gestão,
e não somente implementar o AM de forma descolada de mudanças mais amplas no próprio
processo de trabalho em saúde.
Esses aspectos sinalizam o distanciamento entre as diretrizes políticas dos documentos
oficiais do Estado brasileiro e a execução e cobertura do SUS na realidade dos municípios
(BONFIM; BASTOS; GÓIS; TOFÓLI, 2013).
Estas dificuldades também foram relatadas por profissionais de saúde, do munícipio de
Campinas, pioneiro no matriciamento no Brasil. No entanto, apesar de várias medidas que
prejudicaram o desenvolvimento desse arranjo, como o abandono da gestão municipal em aderir
a estratégia de Apoio Matricial como diretriz de governo; redução nos investimentos na
Atenção Básica e nas capacitações dos profissionais; e agravamento da precarização das
condições de trabalho. O AM manteve-se incorporado ao discurso e às práticas de diversos
profissionais da atenção básica e especializada (CASTRO; OLIVEIRA, CAMPOS, 2016).
Neste contexto, os pesquisadores Bezerra; Dimenstein, (2008) problematizam que há
uma sobrecarga mediante a ideia equivocada, de alguns profissionais, de um modelo
ambulatorial, presente no cotidiano dos CAPS. Ressaltam que os apoiadores não são obrigados
a reparar as falhas da rede no que tange aos recursos humanos e tal posição deve estar clara
para todos os atores da rede de saúde. Além disso, enfatizam a necessidade de desconstruir com
as equipes dos CAPS e da atenção básica, essa ideia da sobrecarga e buscar um novo modo de
organização do trabalho.

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1.4. Potencialidades do Apoio Matricial
Nesse contexto de dificuldades e desafios ao matriciamento, a Educação Permanente,
incentivada por esse arranjo, é apontada como potencializadora na superação desses obstáculos
(MINOZZO, 2011, BALLARIN; BLANES; FERIGATO, 2012, BONFIM; BASTOS; GÓIS;
TOFÓLI, 2013, SOBRINHO et. al., 2014, JORGE; DINIZ; LIMA; PENHA, 2015,
FITTIPALDI; ROMANO; BARROS, 2015). Nesses estudos o matriciamento e a educação
permanente são apontados como trabalhos associados.
Em um estudo transversal, de avaliação da Atenção Básica por meio do Programa
Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade na Atenção Básica (PMAQ-AB) no Brasil, a
de educação permanente foi avaliada como uma das atividades de AM, além de outras
categorias, que mais contribuíram para melhorar a qualidade da atenção (SOBRINHO et. al.,
2014).
A educação permanente foi pontuada como relevante, por seu potencial de qualificação
das práticas em saúde e de reorganização do processo de trabalho. (FITTIPALDI; ROMANO;
BARROS, 2015). Para os profissionais pesquisados, a educação permanente possibilita a
discussão da clínica psicossocial, permitindo assim uma aproximação da discussão dos casos
de saúde mental (MINOZZO, 2011).
Além disso, o compartilhamento de saberes proporcionado pela Educação Permanente
e Apoio Matricial, permitem a ampliação dos conhecimentos da equipe e sua capacidade de
atendimento, propiciando uma aproximação entre a equipe e desta com os usuários
(BALLARIN; BLANES; FERIGATO, 2012).
Outra potencialidade do AM discutida nos trabalhos, é que o fluxo da assistência se
torna mais resolutivo devido a aproximação das equipes e articulação entre diferentes níveis de
atenção, (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008, DIMENSTEIN; GALVÃO; SEVERO, 2009,
QUINDERÉ et al, 2013, HIRDES; SCARPARO, 2013).
O Apoio Matricial permite distinguir as situações individuais e sociais que podem ser
acolhidas pela equipe local, daquelas demandas que necessitam de uma atenção especializada
da saúde mental, de acordo com o risco e a gravidade, e a necessidade de um acompanhamento
por um serviço substitutivo (DIMENSTEIN; GALVÃO; SEVERO, 2009). Por meio do
princípio da territorialidade, o AM interliga diferentes dispositivos, com a articulação e o
assessoramento da rede básica (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008).
Diante disso, o Apoio Matricial permite que o usuário tenha um acompanhamento no
território onde mora, assim não precisa mais ser referenciado aos centros especializados
localizados, muitas vezes, distantes de suas residências (QUINDERÉ et al, 2013).

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Em entrevistas com trabalhadores dos CAPS de Natal-RN, estes apontaram para a
importância da proposta do apoio matricial em se trabalhar o território, exteriorizando a
assistência para além do espaço físico do CAPS, portanto, articulando-se com a rede de saúde
como um todo e com toda a sociedade ao desempenhar uma assistência integral (BEZERRA;
DIMENSTEIN, 2008).
Usuários entrevistados que foram acompanhados pela equipe de matriciamento,
demonstraram em suas narrativas o contentamento da nova possibilidade de ser cuidado e
receber atendimento na UBS (JORGE; DINIZ; LIMA; PENHA, 2015).
Esse cuidado no território também facilita a desmitificação em relação ao transtorno
mental, assim como preconceitos a pessoas em sofrimento psíquico como pessoas perigosas e
que precisam ser isoladas ou institucionalizadas (HIRDES; SCARPARO, 2013).
Esse acompanhamento no próprio território, evita encaminhamentos desnecessários,
outra potencialidade apontada nos estudos (DIMENSTEIN; GALVÃO; SEVERO, 2009,
SANTOS, LACAZ, 2012, JORGE; SOUSA; FRANCO, 2013, MINOZZO; COSTA, 2013,
JORGE ET AL, 2014)
Como o Apoio Matricial possibilita o encontro com outras equipes e um diálogo com o
campo da saúde mental, a demanda desse campo anteriormente não compreendida como
constituindo também a atenção básica, muitas vezes motivadas por questões já mencionadas
acima, tornam-se mais uma necessidade de saúde a qual é encarada com um novo olhar pela
equipe. Desse modo, evitam-se os encaminhamentos desnecessários e o usuário passa a ter um
vínculo mais efetivo com a equipe, o qual favorece sua autonomia e em seu processo de vida
(JORGE; SOUSA; FRANCO, 2013)
Com a prática do matriciamento, os profissionais relataram uma reorganização dos
encaminhamentos da UBS para o CEREST, visto que ocorreu uma redistribuição dos casos, os
profissionais da UBS seriam responsáveis pelos mais básicos e os da Saúde do Trabalhador
pelos mais complexos. Diante disso, a relação com os serviços especializados tornou-se mais
dialógica e horizontalizada (SANTOS, LACAZ, 2012).
Portanto, há um consenso que em virtude do matriciamento, ocorre uma reorientação
das práticas dos profissionais, especialmente no campo de saúde mental, diminuindo assim a
lógica de encaminhamentos intermináveis e excessivos. Essa potencialidade está diretamente
ligada ao princípio de corresponsabilidade proposto por esse arranjo.
Outra potencialidade apontada nos trabalhos consiste que o AM fortalece o trabalho
interdisciplinar (BRASIL, 2004, CAMPOS; DOMITTI, 2007, BEZERRA; DIMENSTEIN,
2008, MINOZZO, 2011, SANTOS, LACAZ, 2012, QUINDERÉ et al, 2013).

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O AM permite lidar com a saúde de uma forma ampliada e integrada por meio de um
saber generalista e interdisciplinar. Dessa forma, amplia o olhar dos profissionais da saúde
mental em virtude do conhecimento das equipes nas unidades básicas de saúde em relação aos
usuários, às famílias e ao território, propondo que os casos sejam de responsabilidade mútua
(BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008).
Os profissionais entrevistados por Santos e Lacaz (2012) consideram que o AM
promove aproximação entre os sujeitos, aumentando a interlocução e a troca entre os
profissionais de saúde, na forma de produção interdisciplinar do conhecimento em torno do
mesmo objeto ou problema de saúde. Essa produção interdisciplinar dos saberes propicia um
aprendizado conjunto sobre os casos atendidos (SANTOS, LACAZ, 2012).
Há um reconhecimento pelos estudos que essa forma de trabalho é resolutiva
(QUINDERÉ et al, 2013, SANTOS; LACAZ, 2012, PINTO et al, 2012, GALVÃO, 2012) e
consequentemente aumenta a resolubilidade dos casos de saúde mental
Por meio das ações de matriciamento, os profissionais buscaram uma atenção à saúde
mais adequada e intervenções na coletividade (SANTOS; LACAZ, 2012) e também
fortaleceram a tentativa de acolher e manejar o caso de saúde, evitando assim, os
encaminhamentos, muitas vezes, desnecessários aos CAPS (QUINDERÉ et al, 2013, JORGE;
SOUSA; FRANCO, 2013), aspecto que discutimos anteriormente e exemplifica como os pontos
não estão dissociados.
O AM contribui para que os profissionais repensem a lógica do processo saúde- doença.
Portanto, não há uma centralização na dor ou na doença, mas no sujeito. Os pesquisadores
(SANTOS; LACAZ, 2012) consideram que o AM auxilia os profissionais da Atenção Básica a
lidar com a saúde de forma mais ampliada e integral, apontando para uma mudança de
paradigma, à medida que o processo saúde-doença é percebido como mais complexo e dinâmico
(SANTOS; LACAZ, 2012).
Assim, o AM é um dispositivo importante para ampliação da clínica; e também, para se
trabalhar em uma perspectiva interdisciplinar, reflexão do processo saúde, doença e intervenção
de modo mais complexo e dinâmico (CAMPOS; DOMITTI, 2007).
Salientamos que outras potencialidades desse arranjo organizacional foram discutidas
nos trabalhos, enaltecendo o seu potencial transformador das práticas. No entanto, optamos por
abordar aqui as que foram mais comuns e dialogavam com outros fatores.

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CAPÍTULO 2: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA

2.1. O Movimento Construcionista e seu diálogo com a Psicologia
Indicamos que as Práticas Discursivas e Produção de Sentidos é o nosso referencialteórico metodológico que nos guia neste trabalho. No entanto, para compreender este
referencial, é necessário refletir sobre o Construcionismo Social, perspectiva na qual
fundamenta-se.
Para isso, situaremos brevemente as dimensões epistemológica, ontológica,
metodológica e as implicações ético-políticas do Construcionismo Social que embasam nosso
estudo. Para tanto, utilizaremos como textos base Íñiguez (2002) e Spink (2004). Contudo,
salientamos que a construção desse tópico é resultado do diálogo com vários interlocutores
realizado durante as discussões nas disciplinas Fundamentos da Psicologia e Pesquisa em
Psicologia do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFAL, reuniões do grupo de
pesquisa “PROSA” do mesmo programa, orientações e conversa com amigos e pesquisadores.
De início, queremos salientar que não há uma única definição de construcionismo e
também não podemos pensar em apenas um Construcionismo Social, mas em vários
construcionismos que convergem na reflexão de que a realidade é uma construção social e na
problematização daquilo que é instituído ou essencializado (SPINK, 2004).
Há referenciais teóricos antecedentes, que influenciaram o construcionismo social, tais
como o interacionismo simbólico, a etnometodologia, os trabalhos de Berger e Luckman e os
trabalhos da denominada crise da Psicologia Social, a qual marca um momento de crítica na
forma como o conhecimento era produzido na psicologia social, produzindo questionamentos
sobre a neutralidade, objetividade e método como definidor de ciência.
No entanto, o Giro Linguístico é um dos antecedentes mais importantes para esse
referencial. É uma expressão utilizada com bastante frequência nos anos 1970 e 1980 para
designar uma modificação que ocorreu na filosofia, ciências sociais e humanas que resultou em
um aumento expressivo na atenção à linguagem (ÍBAÑEZ, 2004).
Esse provocou uma mudança profunda nas concepções de mundo e em como interpretar
as ciências e a própria concepção da natureza da linguagem e do conhecimento visto que
promoveu um rompimento com a tradição secular focada no “mundo das ideias”, um mundo
interior e privado, difundido por Descartes, para o estudo dos enunciados linguísticos. A
transição ocorreu tanto nos projetos dessas disciplinas quanto na formação dos fenômenos que
elas estudam (ÍBAÑEZ, 2004).

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É importante assinalar que o giro linguístico não é um fato preciso, mas se constituiu
como um processo que foi se formando progressivamente e que adotou várias modalidades
durante seu desenvolvimento. Portanto, esse movimento foi bastante diverso e híbrido
(ÍBAÑEZ, 2004). No entanto, ele marca a importância da linguagem na ciência.
Nesse contexto, o Construcionismo reconhece a centralidade da linguagem nos
processos de objetivação que constituem a base da sociedade de humanos. Portanto, o foco
consiste nos processos de construção linguístico-conceitual para que algo se torne um objeto.
Salientamos que não se constitui como um reducionismo linguístico, pois, nem todos os
fenômenos se reduzem à linguagem (SPINK, FREZZA, 2013).
Mas afinal, o que é o Construcionismo Social? Será uma corrente? Uma perspectiva?
Ou uma teoria? Em debate do grupo de pesquisa denominado PROSA da linha de pesquisa
Saúde, Clínica e Práticas Psicológicas do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFAL
chegamos a um consenso (pelo menos por enquanto) que o Construcionismo Social se aproxima
de uma definição semelhante a movimento, que nos conduz, nos incita a problematizar as
verdades naturalizadas, desconstruir a realidade instituída como única e refletir sobre os efeitos
produzidos pelas teorias psicológicas e das nossas próprias pesquisas.
O termo desconstrução é utilizado para se referir justamente sobre esse trabalho de
reflexão e problematização, que possibilita a desfamiliarização com construções conceituais,
que se estabelecem como crenças e verdades, facilitando ou dificultando movimentos para que
outros conceitos sejam construídos (SPINK; FREZZA, 2013). As pesquisadoras optam pelo
termo desfamiliarização em virtude de que não chegamos a descontruir de fato algo, ao invés
disso, produzimos um espaço para novas construções, porém as anteriores permanecem no
artefato da cultura, constituindo assim, um leque de repertórios linguísticos disponíveis que dão
sentido ao nosso mundo.

Nesse contexto, produzimos um movimento que permite a

convivência de novos e antigos conteúdos (conceitos, teorias) e a ressignificação permanente e
inacabada de teorias que entraram em desuso.
É importante apontar que os repertórios linguísticos tiveram sua referência inicial no
conceito de repertório interpretativo de Jonathan Potter e Margaret Wetherell (1987) e foram
reformulados por Mary Jane Spink (2004), passando a se chamar repertórios linguísticos ou
repertórios, “de modo a enfatizar que se trata de circulação de unidades de construção das
práticas discursivas: os termos, as descrições, os lugares comuns e as figuras de linguagem que
demarcam o rol de possibilidades da produção de sentidos” (ARAGAKI; PIANI; SPINK, pág.
230, 2014). Salientamos que esse conceito também está associado ao de linguagens sociais

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(discursos peculiares de um estrato específico da sociedade em um determinado contexto e
momento histórico), proposto por Bakthin.
Ressaltar os repertórios linguísticos nos possibilita identificar as múltiplas versões sobre
o AM e compreender as controvérsias decorrentes. São unidades relacionais e não estáticas,
que dão visibilidade às rupturas e permanências nos sentidos produzidos a respeito da temática
estudada, por meio da análise das unidades de construção utilizadas na linguagem em uso.
“Dessa forma, podemos acessar os usos que são feitos desses repertórios e como os argumentos
vão sendo construídos, assim como a maneira como esses repertórios colaboram na coprodução
de práticas nos diferentes saberes e fazeres, científicos ou não” (ARAGAKI; PIANI; SPINK,
pág. 245, 2014).
Podemos definir o texto O movimento Construcionista Social na Psicologia Moderna,
publicado em 1985 por Gergen, como um clássico introdutório.
Após essa breve introdução e reflexão sobre tal movimento, iremos abordar as condições
de possibilidade que permitiram a emergência do Construcionismo Social, as características e
postulados básicos desse referencial, buscando responder os principais questionamentos: O que
é conhecimento e o que é possível conhecer? Qual concepção de sujeito, objeto e realidade?
Como conhecer a realidade? Quais implicações ético-políticas dessa forma de abordar e
produzir esse conhecimento em Psicologia?

2.1.1. Condições de possibilidade
Compreender as condições de possibilidade de um referencial teórico nos permite
desnaturalizar o processo de fundamentação e disseminação de uma teoria como contínuo e
sem rupturas. Em virtude disso, iniciaremos com a discussão das características do Pensamento
Moderno e Pós-Moderno, as quais foram fundamentais para refletir sobre as descontinuidades
e o campo que possibilitou a emergência do Construcionismo Social nos dias atuais.
Para situar tais condições, Íñiguez (2002) discute, inicialmente, sobre a pósmodernidade, ressaltando dois aspectos: sociológicos ou dimensão sociológica e aspectos
discursivos ou dimensão discursiva, os quais escolhemos abordar da mesma forma.
Sobre o aspecto sociológico podemos compreender que Modernidade é um processo
histórico com descontinuidades e rupturas, portanto, não é linear. Até porque esse momento
deve ser considerado por sua heterogeneidade e variabilidade. Pode ser conceituada como uma
época ou um período histórico, iniciado aproximadamente no século XV ou XVI,
fundamentalmente na Europa. É a primeira época compreendida como um movimento
particular da história (ÍÑIGUEZ,2002).

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No entanto, o que podemos caracterizar nesse período para marcar seu início ou um dos
inícios é a imprensa como uma tecnologia da inteligência, ou seja, uma tecnologia que muda
nossa forma de pensar. Ela dá abertura para instauração da ciência ou razão científica,
favorecendo a objetividade porque fixa o conhecimento (ÍÑIGUEZ,2002). Nos dias atuais,
podemos refletir ainda sobre os efeitos da imprensa e problematizar como ela engendra novas
formas de ser e estar no mundo.
A dimensão discursiva caracteriza-se pelas ideias de Descartes que permitiram uma
hiper valorização ou megavalorização da razão, a qual tornou-se condição sine qua non para
chegar à liberdade, ao progresso e à emancipação, estabelecendo assim uma relação intrínseca
com o desenvolvimento da ciência. Essa dimensão também é constituída pela concepção de
dualização da pessoa, um sujeito humano composto por um lado mais físico e outro lado mais
mental (ÍÑIGUEZ,2002).
Outro conteúdo enfatizado durante esse período é a compreensão de que conhecer é
representar fielmente os objetos do mundo, fundamentando assim a Ideologia da racionalidade.
Notamos que muitas ciências, especialmente as ditas naturais, permanecem utilizando este
modelo como prioritário. Há também a crença em uma fundamentação segura da verdade
(universalismo) e em um sujeito como autônomo, dono de si mesmo, responsável e agente da
própria situação (centralidade do sujeito e ideologia do indivíduo) (ÍÑIGUEZ,2002). Essas
concepções foram essenciais para constituir a crítica realizada pelo Construcionismo, a qual
será abordada posteriormente.
Salientamos que esses aspectos se tornaram inquestionáveis, o que podemos
problematizar como algo no mínimo preocupante, visto que a modernidade constrói um
discurso totalizante e totalizador, excluindo outras possibilidades de ser e pensar.
Em relação a pós-modernidade, Íñiguez (2002) a discute nas mesmas dimensões
supracitadas (sociológica e discursiva). Para ele, essa época é um processo que ainda está
acontecendo. Em relação à dimensão sociológica, aponta o computador como tecnologia da
inteligência, o qual modifica nossa forma de pensar e produzir tecnologia e principalmente,
transformou nossa relação com a realidade, possibilitando a simulação, virtualidade e inovação.
Ele não simplesmente permitiu a globalização, mas a constituição de outras formas de ser, como
as biotecnologias e nos dias atuais podemos vivenciar os órgãos artificias. Portanto, o
conhecimento está intrinsecamente ligado a essa nova realidade.
Quanto ao aspecto discursivo, nesse período, há uma crítica aos conceitos e valores da
modernidade. E as novas características ainda estão em construção. Não é um processo

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homogêneo, mas bastante diverso de argumentos, ideias, conceitos entre mais. Portanto, a pósmodernidade marca uma época em que começamos a pensar diferente (ÍÑIGUEZ,2002).
Em contraponto, Spink (2004) para discutir as condições de emergência do
Construcionismo utiliza o conceito de Modernidade Reflexiva de Ulrich Beck (1993 apud
SPINK, 2004) como referência, adota o termo Modernidade Tardia para referir-se aos nossos
tempos atuais. Apesar das divergências entre vários autores sobre as nomenclaturas, há um
consenso de que nossa época rompeu com a Modernidade Clássica, apesar de não sabermos ao
certo os efeitos e produtos desse período.
Na Modernidade Tardia, existem três características que são fundamentais para o
argumento construcionista. A primeira delas é a globalização que, por meio de Giddens (1998,
apud SPINK, 2004) podemos conceituá-la como o encontro entre a presença e a ausência, ou a
união entre as relações e eventos sociais que estão distantes dos contextos locais. Para Spink
(2004), a mídia eletrônica, por meio das comunicações em tempo real, é a face mais visível do
processo de globalização. Esse conceito é importante para o Construcionismo para refletirmos
como esse processo mudou nossas relações interpessoais. Fato já pontuado por Íñiguez.
Outra característica é a individualização, hoje, há uma diversidade de identidades e
características que podemos nos referir, as quais estão profundamente imbricadas com os
processos de destradicionalização, que atualmente vivenciamos na família, no trabalho e na
educação (SPINK, 2004).
Em relação ao trabalho, presenciamos as transformações em suas relações, como as
novas vinculações a ele por meio da tecnologia (SPINK, 2004). Acompanhamos reuniões, até
mesmo sessões de terapia por Skype. Pessoas que trabalham em casa, com blog’s entre mais.
Na família, vemos mudanças no núcleo familiar, principalmente uma maior autonomia
econômica e da autoestima nas mulheres. Na educação, houve uma extensão da linha educativa,
que começa desde a vida no útero até a terceira idade (SPINK, 2004).
A terceira e última característica é reflexividade, que consiste na problematização de
práticas instituídas por meio de novas informações. Caracteriza-se por dois lados: por um, é
intrínseca à própria ciência, que começa a questionar a si mesma e romper com determinadas
hegemonias e, por outro, fora dela, questionamentos sobre os produtos da ciência (SPINK,
2004).
2.1.2. Características e Postulados Básicos do Construcionismo Social
Não há um consenso entre estudiosos sobre suas características, especialmente porque
uma das suas características é não admitir uma definição. No entanto, Íñiguez (2002) e Spink
(2004) apontam alguns elementos específicos desse movimento.

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Um dos seus primeiros postulados consiste no questionamento das verdades acatadas.
Há uma frase que aprendamos desde o início da graduação que reflete esta ideia: “Estranhar o
familiar e familiarizar-se com o estranho”. Portanto, devemos problematizar o cotidiano, os
discursos, a realidade, uma constante tarefa de desnaturalização. A partir do momento que
realizo o exercício de questionar a forma como olhamos o mundo, passamos a questionar a nós
mesmos e a problematizar os discursos que nos constituem. “Provavelmente, essa fórmula, esse
princípio básico do construcionismo, é o mais característico: uma constante problematização
das ideias e dos conceitos, inclusive daqueles que quase não podemos imaginar distantes de
como nos foram ensinados” (ÍÑIGUEZ, 2002, pág. 128).
Outro postulado consiste em considerar que todo conhecimento é datado historicamente,
produto social e cultural. Compreendemos que o conhecimento é uma prática social como outra
qualquer, resultado da interação social a qual é permeada pela linguagem. Está inteiramente
ligado ao contexto e não existe fora dessa relação. “(...) qualquer conhecimento, da natureza
que for, sempre deve ser visto como o resultado de um contexto histórico e cultural, deve-se
analisar sua eficácia, função e utilidade no contexto, em vez de entendê-lo como um
conhecimento universal” (ÍÑIGUEZ, 2002, pág. 129).
Portanto, a construção do saber ou do conhecimento é relativa, está intrinsecamente
integrada às condições econômicas, sociais e culturais produzidas ao longo do tempo por
determinada sociedade. As nossas ações cotidianas, nossas trocas diárias, os diálogos que
estabelecemos irão construir nossa concepção de mundo. Então, todas as formas de interação
social são importantes para a construção do saber, resultando no terceiro postulado do
construcionismo: todo conhecimento é uma construção coletiva. Assim, as interações mais
estudadas por tal perspectiva são as baseadas na linguagem.
Tal fato irá influenciar o último postulado que consiste no conhecimento enquanto
inseparável da ação social. Podemos notar que todos os postulados estão interligados.
Nesse exercício de problematização, notamos que o conhecimento produzido e
compartilhado possibilita ou impede determinados tipos de ações sociais. Como o
construcionismo é uma constante crítica, principalmente à Psicologia, devemos entender que
os nossos saberes coletivos sustentam certas formas de relação social, mas excluem outras.
Certas práticas são possibilitadas e outras não. Como, por exemplo, tornamos alguns
comportamentos patológicos e outros não, ditamos o que é ser louco ou saudável, entre mais.
“Ser construcionista, nesse sentido, é buscar sempre o outro lado: verificar consequências e sua
origem, além de problematizar o ponto de vista que aparece como inquestionável ou
verdadeiro” (ÍÑIGUEZ, 2002, pág. 131).

50

Mas então o que diferencia uma psicologia convencional de uma psicologia com uma
postura construcionista? Durante nosso percurso na graduação e nas teorias dominantes da
psicologia, notamos que há uma perpetuação da ideia de que o sujeito possui uma essência
única ou uma identidade individual que permanece contínua ao longo do tempo. Inclusive
algumas teorias defendem que tal essência deve ser decifrável. Em uma psicologia de orientação
construcionista, o sujeito terá tantas identidades individuais quantos forem os contextos em que
ele se movimenta. Portanto, a primeira característica de uma psicologia construcionista é o antiessencialismo, ou seja, não temos uma natureza determinada ou uma essência.
Quando estudamos as disciplinas de pesquisa na graduação com uma orientação mais
convencional, aprendemos que a pesquisa para ter validade e credibilidade diante da
comunidade científica precisa apresentar resultados os mais próximos da realidade, critério a
qual denomina-se de fidedignidade. Íñiguez (2002) afirma que inclusive estudamos isso porque
pressupõe-se que há uma realidade independente do conhecimento que podemos gerar sobre
ela.
No entanto, no construcionismo uma característica que o diferencia de outros
referenciais teóricos é anti-realismo o qual consiste na negação entre o conhecimento e a
percepção direta da realidade. Não consideramos conhecimento como representação da
realidade, mas um processo de construção coletiva. O conhecimento não representa a realidade.
Não é possível distinguir entre a nossa inteligência sobre o mundo e o mundo como tal.
Não há uma realidade que seja independente da maneira pela qual nos referimos a ela.
O acesso à realidade é a partir das formas coletivamente construídas. Nesse sentido, nenhum
objeto é dado de antemão. Não existe antes de o definirmos. Não espera que lhe coloquemos
uma palavra. O objeto é construído pela convenção linguística utilizada no processo.
(...) não há objeto preexistente às convenções que o constroem. A
verdade, portanto, é uma fantasia, já que, para que algo seja verdadeiro no
sentindo convencional, deve ter uma entidade externa e independente do
sujeito que o observa. (...) o objeto não pode ser definido independentemente
do debate social, do processo social da convenção que o nomeia. Não há
nenhuma realidade independente do acesso que temos a ela (ÍÑIGUEZ, 2002,
pág.120).

Spink (2004) afirma que o movimento construcionista rompe com a dicotomia sujeito e
objeto, pois não há objetos naturais. Objetos naturais são objetivações de nossas construções,
de nossas práticas. Eles são como são porque somos como somos. Tanto objeto como sujeito
são tomados como construções sociais. E como o conhecimento também é uma construção
social, é esse socialmente produzido que constrói ambos.

51

Uma das críticas ao construcionismo social consiste em que esse postulado negaria a
realidade e que esse relativismo produziria a máxima que “como tudo é construção social, tudo
vale”. No entanto, pontuamos que falar e assumir uma construção da realidade não é negar sua
existência. Realidade e existência são diferentes, o que negamos é uma realidade independente
de nosso acesso a ela. E salientamos que uma construção social não é estática, é dinâmica.
Concordamos com Spink (2004), ao responder sobre tal crítica:
O relativismo suscita a necessidade da reflexão sobre os efeitos daquilo que a
gente produz; suscita, portanto, uma reflexão ética. O mérito de acatar tão
abertamente uma postura relativista face aos fatos sociais é que ela abre o
debate; força a reflexão sobre os efeitos de nossas práticas em pesquisa (pág.
28).

Outra característica é a especificidade histórica e cultural do conhecimento (explanado
anteriormente). Portanto, podemos refletir que as teorias psicológicas também são produtos de
um tempo e de uma cultura determinada e não podemos compreendê-las como descrições
definitivas da natureza humana.
Diante disso, podemos refletir que nossa concepção de mundo não deve ser buscada na
realidade objetiva, mas em nossas relações cotidianas, na nossa história cultural e social. E tal
acesso e construção se dá por meio da linguagem, a qual não é apenas uma forma de expressar
o que está em nossas cabeças, um estado mental ou afeto. Ela é muito mais que isso, ela constrói
nosso mundo, nossas emoções e nossa experiência psicológica. Essa compreensão resulta em
duas características essenciais do construcionismo: a linguagem é condição prévia
indispensável ao pensamento e a linguagem é uma forma de ação social. Portanto, a fala nunca
é uma ação individual, mas coletiva constituindo-se como um processo em constante
negociação.
É importante salientar que o processo de ação de linguagem não se produz enquanto
uma pessoa fala,
(...) as explicações que procuramos, nossa compreensão de como são as coisas,
não se encontram na mente individual nem nas estruturas sociais, mas nos
processos interativos dos quais participamos cotidianamente. Ou seja, (...), as
cognições, não estão NAS pessoas, estão ENTRE as pessoas. (...) Do ponto de
vista construcionista, a interação focaliza-se nos processos em que se
encontram os conhecimentos, as cognições, as representações, os valores, as
atitudes etc (ÍÑIGUEZ, 2002, pág. 140).

Tal afirmação nos dá a base para compreender que o conhecimento é algo que as pessoas
fazem juntas e não algo que as pessoas possuem. Essa é a última característica que diferencia
esse referencial da psicologia convencional: a ênfase nos processos. Portanto, o conhecimento

52

não é algo que se tem, não é uma propriedade que alguns possuem e outros não, sempre é
resultado de uma ação coletiva.
Como os processos sociais são extremamente importantes nesse referencial, a análise
dos repertórios linguísticos é uma das propostas metodológicas para analisar tais processos.
Não podemos afirmar que existe um método único, mas o que é comum ao processo
metodológico dos construcionismos é uma postura desreificante, desnaturalizante,
desessencializadora.
Sobre as implicações ético-políticas deste movimento, podemos problematizar como o
poder orienta a pesquisa. Os interesses econômicos e políticos incidem nas pesquisas, tanto em
relação ao financiamento quanto ao que se deve pesquisar. É preciso problematizar sempre para
entender os efeitos que produzimos. Não há pesquisador neutro. Pesquisar por si só já é um ato
político.
Se a psicologia tem uma dimensão política porque estuda processos políticos,
porque está assentada no poder ou porque produz conhecimento para as
sociedades, seus cientistas devem decidir, em cada momento, a quem servir.
Sabendo que nosso trabalho está relacionado a isso, devemos decidir em que
direção queremos contribuir, (...) não há solução externa, não há critério que
nos permita dizer o que devemos fazer ou não. (...) temos de ser reflexivos
com nosso trabalho, analisando para onde nos conduz, e, portanto, desenhando
o modo de orientar os processos sociais em um sentido que nos pareça
eticamente mais comprometido (ÍÑIGUEZ, 2002, pág. 152).

A partir do nosso referencial teórico, é um posicionamento ético-político dar
visibilidade aos procedimentos de pesquisa, à interpretação e à dialogia presente no contexto
do trabalho que nós, enquanto pesquisadores nos posicionamos e somos posicionados. Tendo
em vista que a produção do conhecimento é sempre contextual e situada no tempo, dar
visibilidade aos nossos passos de análise corresponde ao rigor metodológico e possibilita aos
leitores identificar os passos de análise e compreender as interpretações desenvolvidas pelos
pesquisadores (NASCIMENTO; TAVANTI; PEREIRA, 2014).
Assinalamos que atualmente o construcionismo tenta avançar na direção de romper a
dicotomia humanos e não-humanos à medida que incorpora aspectos não linguísticos, ou seja,
leva em conta materiais que permeiam todas as trocas linguísticas (SPINK; MEDRADO;
MÉLLO, 2014). Essa discussão é herança das problematizações realizadas pela Teoria AtorRede (TAR) que busca estudar fenômenos que envolvem matrizes de atores 4 e atrizes
(humanos/as e não humanos/as) em toda complexidade. Implica considerar que não

4

Na TAR, Ator/actante/atuante é tudo aquilo que tem agência, que produz efeitos transformações, desvios. É
qualquer coisa que atue ou modifique a ação (CORDEIRO; CURADO; PEDROSA, 2014).

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construímos a realidade sozinhos, porém agimos em conjunto com os mais variados elementos,
tanto humanos quanto não humanos, tanto naturais quanto sociais (CORDEIRO; CURADO;
PEDROSA, 2014).
A influência da TAR no construcionismo, nos levou a aliar as contribuições de
Anemarie Mol para nos auxiliar a compreender a diferentes versões de realidade,
especificamente em nosso estudo, as diversas versões de Apoio Matricial. Mol também nos
ajuda refletir sobre “Ontologias Políticas”. A pesquisadora utiliza este termo para enfatizar que
“real” está implicado na política e vice-versa, ou seja, as condições de possibilidade não estão
dadas. Isso nos traz também um desafio: como retratar essa complexidade. Assumimos este
desafio no terceiro capítulo.

2.2. Práticas Discursivas e Produção de Sentidos
Após essa breve explanação sobre o construcionismo social, enfocamos nesse tópico o
referencial teórico que utilizamos para compreender o fenômeno do Apoio Matricial.
O foco central de análise na abordagem construcionistas são as práticas discursivas.
Implicam em ações, seleções, escolhas, linguagens, contextos, enfim, uma variedade de
produções sociais das quais são expressão (SPINK; FREZZA, 2013). O termo “práticas
discursivas” é uma expressão utilizada para demarcar e distinguir o foco de interesse das
pesquisas voltadas para o papel da linguagem na interação social, como já discutimos
anteriormente (SPINK; MEDRADO; MÉLLO, 2014). São consideradas meios privilegiados
para compreender a produção de sentido no cotidiano.
Sentido aqui é compreendido como “uma construção social, um empreendimento
coletivo, mais precisamente interativo, por meio do qual as pessoas – na dinâmica das relações
sociais historicamente datadas e culturalmente localizadas – constroem os termos a partir dos
quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta” (SPINK; MEDRADO,
2013). A produção de sentidos é um processo sociolinguístico que são construídos quando mais
de duas vozes se confrontam: a voz de um ouvinte responde a voz de um falante. Esse confronto,
ou melhor, essa interanimação, não é necessariamente física, o pensamento é dialógico. A
pesquisa também é um processo de produção de sentidos perpassada pela interanimação de
diversas vozes (SPINK, 2000).
Geralmente, é por meio desse exercício de desfamiliarização e desconstrução tão
discutido no tópico anterior, que se torna possível dar visibilidade aos sentidos. Precisamente,
essa é uma das estratégias centrais da pesquisa social.

54

Como dissemos anteriormente, uma pesquisa baseada nos princípios construcionistas
compreende a linguagem como uma prática social, e ela é central nas pesquisas. No entanto,
consideramos importante fazer uma distinção entre práticas discursivas e discurso visto que são
terminologias distintas para trabalharmos em diferentes níveis de análise.
O discurso é o uso institucionalizado da linguagem e de sistemas de sinais linguísticos.
Portanto, remete às regularidades linguísticas. Focaliza o habitual gerado pelos processos de
institucionalização, nos quais há uma tendência de permanecer no tempo, mas isso não quer
dizer que seja imutável. Então, o contexto histórico pode mudar os discursos e também podem
competir entre si ou produzir versões distintas e incompatíveis sobre um fenômeno social. O
que é importante compreendermos é que existem prescrições e regras linguísticas situadas que
orientam as nossas práticas cotidianas e mantém e reproduzem discursos (SPINK; MEDRADO,
2013).
Por sua vez, o conceito de práticas discursivas corresponde aos momentos ativos da
linguagem, aos momentos de ressignificações, de rupturas, de produção de sentido, nos quais
convivem tanto a permanência quanto a ruptura (SPINK; MEDRADO, 2013).

Podemos definir, assim, práticas discursivas como linguagem em ação, ou
seja, as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos e se
posicionam em relações sociais cotidianas. As práticas discursivas têm como
elementos constitutivos: a dinâmica, ou seja, os enunciados orientados por
vozes; as formas, que são os speech genres; e os conteúdos, que são os
repertórios interpretativos (SPINK; MEDRADO, pág. 26, 2013).

No estudo das práticas discursivas é importante a identificação e análise dos sentidos, já
definidos anteriormente. Essa compreensão é permeada por um confronto entre inúmeras vozes.
Nosso trabalho como pesquisadores sociais e analisadores dessas práticas, consiste em estudar
a dimensão performática do uso da linguagem visto que esta é ação e produz efeitos, e trabalhar
com consequências amplas e nem sempre intencionais. Não podemos considerar que a pessoa
existe isoladamente, pois os sentidos são construídos quando duas ou mais vozes se confrontam
(SPINK; MEDRADO, 2013). Por exemplo, quando questiono um profissional sobre o Apoio
Matricial e ele responde “eu estava lendo um artigo científico que dizia...”, ele traz para a
dialogia a voz do saber científico.
Perfomatividade, segundo Austin, é uma terminologia para indicar a propriedade que
determinados enunciados linguísticos têm de afetar a construção de realidades, ou seja, falar é
fazer. Portanto, falar faz nascer ou coloca em ação aquilo que nomeia, marcando o poder

55

constitutivo e produtivo da linguagem. Isso implica em compreender que todos atos de fala
produzem realidades (AUSTIN, 1998).
Essa força constitutiva das práticas discursivas pode fornecer posições de pessoa, no
sentido que uma posição incorpora repertórios linguísticos, assim como uma localização em
um jogo de relações de poder. Por exemplo, um profissional em uma oficina pode se posicionar
como pesquisador, profissional, gestor entre outras, como poderemos analisar no capítulo
seguinte. Decorre também que as práticas discursivas são polissêmicas, portanto, possibilita às
pessoas transitarem por inúmeros contextos e vivenciar variadas situações. Nesse contexto, as
práticas discursivas, implicam no uso de repertórios e posicionamentos identitários (SPINK;
MEDRADO, 2013).
Aceitar que as práticas discursivas são polissêmicas, ou seja, permeada por sentidos,
repertórios e posicionamentos, não significa dizer que não pode existir certa hegemonia ou que
os sentidos produzidos possuem igual poder de provocar mudanças. No entanto, como
afirmamos acima essa natureza polissêmica possibilita às pessoas transitar por inúmeros
contextos e vivenciar variadas situações.
Nesse sentido, as práticas discursivas compreendem um constante processo de
interanimação dialógica, portanto, podemos propor que a produção de sentido é resultante de
uma produção discursiva de pessoas em interação, que nos leva a dialogar sobre o conceito de
posicionamento (DAVIES; HARRÉ, 1990 trad. SPINK, 1996) o qual vai ser muito importante
para compreendermos o capítulo seguinte.
Posicionar-se diante de um contexto argumentativo implica circular por múltiplas
narrativas que entramos em contato e que se aliam às práticas discursivas. Identificarmos quem
somos está sujeito a respostas mutáveis dependentes das posições disponíveis nas nossas
práticas discursivas. Portanto, ao focalizar o estudo dessas práticas encontramos também com
a processualidade das construções identitárias (ROSE, 2001).
Por exemplo, um profissional a se apresentar em uma oficina com outros profissionais
pode dizer onde trabalha, a profissão, formação e referencial teórico utilizado. Porém, o mesmo
profissional, pode se apresentar em um outro grupo indicando características pessoais como cor
dos olhos, onde nasceu e outros aspectos.
Então, propomos que o sentido deriva do uso que fazemos dos repertórios linguísticos
que dispomos em nosso cotidiano. Esses repertórios, resumidamente, é o conjunto de termos,
descrições, lugares-comuns e figuras de linguagem que compõem as unidades de construção
das práticas discursivas e delimitam o leque de possibilidades de construções discursivas que

56

possuem como parâmetro o contexto em que essas práticas são produzidas e os estilos
gramaticais específicos.

2.3. Ética Dialógica e os Horrores Metodológicos
É um princípio ético o anonimato e o sigilo dos participantes da pesquisa e
imprescindível a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, mais conhecido
por sua sigla TCLE. No entanto, questionamos se o cumprimento desses aspectos já garantiria
uma pesquisa ética? Neste tópico, dialogaremos sobre uma Ética dialógica discutida por Spink
(2000) e sobre os denominados horrores metodológicos.
Os parâmetros descritos acima fazem parte da ética prescritiva. Ela é decorrente da
moral contratual e constitui-se como um parâmetro para controle entre os próprios
pesquisadores e também para as agências de financiamento à pesquisa. É um importante
instrumento de garantia de direito dos participantes de nossas pesquisas.
Porém, apenas a prescrição e cumprimento de normas não é suficiente para garantir uma
pesquisa ética. A partir do nosso referencial teórico, aliamos a ética prescritiva a uma ética
dialógica, que se fundamenta num compromisso com os pressupostos da produção de saber e
das interações humanas. Como já dissemos anteriormente, a pesquisa é compreendida como
uma prática crítica e reflexiva, mas também social, portanto, exige clareza não só dos objetivos,
do método, ou processos de interpretação, mas também, aos usos dos produtos desse
conhecimento.
Uma pesquisa ética, a partir dessa perspectiva, considera a dialogia como intrínseca aos
processos de coleta e interpretação dos dados, ressignificando a relação entre pesquisador e
pesquisado. Como dissemos anteriormente, a pesquisa é um processo de produção de sentidos,
diante disso, é central a interanimação que se estabelece entre nós e os sujeitos que
pesquisamos. Portanto, estes sujeitos serão nossos interlocutores durante todo o processo de
pesquisa, inclusive, quando publicamos os resultados. Estamos interligados aos participantes
de nossa pesquisa desde o primeiro contato até os últimos produtos da análise de dados.
Em relação aos horrores metodológicos, são três formas (indexicalidade,
inconclusividade e reflexividade) que na perspectiva realista são utilizadas para diminuir o
abismo entre nossas representações e a realidade, porém, aqui podemos ressignifica-los a partir
de nosso referencial.
A indexicalidade em uma visão realista diz respeito aos critérios de fidedignidade e
validade dos resultados da pesquisa, quanto mais os dados se aproximam da realidade mais
fidedignos e válidos eles os são. Em nossa visão, esse conceito refere-se a nossa vinculação

57

com o contexto, o sentido modifica-se à medida que a situação muda. Então, é nossa
responsabilidade, enquanto pesquisadores, a descrição e exploração plena do contexto de
pesquisa (SPINK; MENEGON, 2013).
A forma que escolhemos os participantes não se trata de uma amostra representativa da
população estudada visto que reconhecemos a diversidade e variação das experiências, ou seja,
há uma aceitação da descrição e exploração plena do contexto de pesquisa. Contudo, os critérios
dessa escolha devem estar explicitados, assim como, as possíveis consequências dessa escolha
devem ser também exploradas. É nesse contexto, que temos a inconclusividade a qual refere-se
à complexidade dos fenômenos sociais e à impossibilidade de controlar todas as variáveis
intervenientes. A generalização compreendida é possível se reinterpretada como ilustração das
inúmeras possibilidades de sentido, como uma produção de sentido (SPINK; MENEGON,
2013).
Por último, a reflexividade refere-se à negação da falácia da neutralidade do
pesquisador. Não desconsideramos a interpretação e os efeitos da presença do pesquisador nos
resultados da pesquisa, então, buscamos explorar a forma que a subjetividade do pesquisador
definiu o fenômeno pesquisado (SPINK; MENEGON, 2013).
Portanto, a nossa ética vai para além das prescrições e normatizações. O rigor da nossa
pesquisa é fenômeno que perpassa a intersubjetividade que implica em assumir a pesquisa como
uma prática social; visibilizar os procedimentos de produção e análise dos resultados e aceitação
da dialogia na relação entre pesquisador e pesquisado.
A título de procedimentos éticos, o projeto de pesquisa foi a provado pelo Comitê de
Ética em maio de 2016, sob o número 55473316.6.0000.5013.

2.4. Percurso Metodológico
Para alcançar os objetivos propostos, compreender as versões do Apoio Matricial de um
grupo de profissionais de saúde, nesta pesquisa foi desenvolvida em dois momentos: o primeiro
consistiu em uma observação participante de um projeto de extensão de matriciamento e o
segundo, um encontro em grupo no formato de uma oficina.
A observação participante foi desenvolvida no projeto de extensão da UFAL intitulado
“MatriciaMENTE: estimulando ações de matriciamento em Maceió”. Tivemos conhecimento
desse projeto, em setembro de 2015, durante uma reunião aberta, realizada na Secretaria
Municipal de Saúde, a qual buscava organizar o processo de matriciamento da Saúde Mental
no 6º e 8º distritos sanitários de Maceió. Nesse momento, foi autorizada minha participação.

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A unidade acadêmica proponente foi a ESENFAR (Escola de Enfermagem e Farmácia)
da UFAL. Foi coordenado por uma professora de enfermagem da UFAL e consiste em um
projeto piloto que busca dar suporte a SMS para implantar o matriciamento no município.
O projeto contou com várias parcerias, tais como, Coordenação de Saúde Mental/SMS;
Programa de Residência Médica em Psiquiatria da UFAL; Programa de Residência
Enfermagem em Psiquiatria e Saúde Mental da UNCISAL; Residência Multiprofissional da
UFAL; Residência em Saúde da Família da UNCISAL; Curso de Terapia Ocupacional da
UNCISAL. A proposta foi desenvolvida no período de 6 meses, por meio de atividades
semanais de ações de matriciamento nas UBS e rodas de discussão e oficinas que discutem
conteúdo específicos. Acompanhamos o desenvolvimento das ações de AM no 6º distrito. A
equipe em que participei era bastante diversa, composta por estudantes de graduação,
profissionais do CAPS, profissionais do NASF e do Consultório na Rua, residentes em
Psiquiatria e Saúde Mental. Teve seu início no final de setembro de 2015 e finalização em
fevereiro de 2016. No entanto, pretende-se após a execução desse projeto piloto, que as ações
de matriciamento se tornem permanentes e que se formem novas equipes matriciadoras e se
expanda para outros distritos sanitários.
Além do objetivo já citado anteriormente, o projeto busca: realizar treinamento da
equipe apoiadora para efetividade do matriciamento da saúde mental com a atenção básica;
estimular a formação acadêmica dentro dos princípios matriciais; colaborar com a pósgraduação na formação de profissionais matriciadores; estimular maior integração da equipe
matriciadora; aproximar a equipe matriciadora das equipes de referência; fomentar conteúdos
relevantes na prática de matriciamento.
O instrumento utilizado para analisar o primeiro momento foi o diário de campo, o qual
também é considerado uma prática discursiva, portanto, é uma linguagem em ação. Tal
ferramenta constitui-se como produção discursiva privilegiada na pesquisa, desenvolvido não
como uma descrição neutra das vivências, mas tendo as falas anotadas e analisadas, os
contextos, dinâmicas e também minhas opiniões, incômodos, enfim minhas “afetações”
produzidas nos encontros.
O diário, como afirmamos, é um atuante: com ele e nele a pesquisa começa a ter
certa fluidez, à medida que o pesquisador dialoga com esse diário, construindo
relatos, dúvidas, impressões que produzem o que nominamos de pesquisa. Esse
companheirismo rompe com o binarismo sujeito-objeto, tornando o diário também
um ator/atuante que permite a potencialização da pesquisa. Ao invés de atores
contrapostos (pesquisador/pesquisado; técnicas/instrumentos; tema/objetivo), temos
na pesquisa uma conjugação de fluxos em agenciamentos coletivos produzindo a
própria ação de pesquisar (MEDRADO; SPINK; MÉLLO, pág. 278, 2014).

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No capítulo seguinte, descrevemos resumidamente a vivência neste projeto e para
reflexões e discussões dos resultados utilizamos trechos do diário de campo.
No segundo momento, utilizamos a oficina como estratégia de pesquisa com grupos,
que são espaços nos quais é possível assumir posições, compartilhar experiências, fazer
negociações e coproduzir sentidos.
Portanto, os grupos são situações sociais que permitem uma
diversidade de argumentos e posicionamentos que, quando analisados,
possibilitam ao/à pesquisador/a uma leitura ampla dos diversos argumentos
usados em relação a um tema, a posicionamentos, a processos de produção de
sentidos, de construção de conhecimentos e de opiniões individuais ou
coletivas (BRIGAGÃO, et al. pág.80, 2014).

As oficinas, segundo Spink; Menegon e Medrado (2014) também são práticas
discursivas que propiciam espaços de negociação de sentidos, com potencial crítico de
produção coletiva de sentidos. Pois, ao mesmo tempo que produzimos material para análises
construímos um ambiente de trocas simbólicas que potencializam a discussão em grupo em
relação à temática proposta, gerando conflitos construtivos visando o engajamento político de
transformação.
Um total de 10 profissionais foram convidados, via contato telefônico, para a oficina,
sendo que nove se fizeram presente. Dentre eles, cinco participaram do projeto piloto, duas
profissionais pertenciam à equipe matriciadora, duas da equipe de referência e um profissional
da coordenação do projeto. A maior parte dos participantes era de psicólogos e da área de saúde
mental. O quadro 1 mostra o quantitativo dos participantes a partir da categoria profissional e
área de atuação.
Quadro 1: Quantitativo dos participantes da oficina a partir da categoria profissional e área de atuação.
Maceió, 2017. Fonte: Autores
Categoria Profissional

Área de Atuação

Perfil dos Participantes
Psicologia: 5
Serviço Social: 2
Enfermagem: 1
Educação Física:1
Saúde Mental: 3
Gestão: 2
Residentes: 2
Atenção Básica: 2

Antes de iniciar a oficina, foram apresentados aos participantes os princípios éticos da
pesquisa e foi solicitada a assinatura do TCLE. A oficina teve, em média, a duração de 2 horas
e 30 minutos. Explicamos os objetivos da pesquisa, solicitamos ao grupo permissão para a

60

gravação das falas para posterior análise e que poderiam pedir a qualquer momento que o
gravador fosse desligado. Para ampliar as possibilidades de registro, contamos com um
colaborador que também fez o registro das relações grupais e das impressões que teve ao
participar do grupo.
A oficina consistiu nas seguintes etapas: 1- Apresentação: do coordenador, do
observador e dos participantes do grupo; 2- Associação de ideias com a palavra Apoio
Matricial: cada participante escreveu em um post-it todas palavras, frases, sentimentos que vem
à cabeça quando escutavam a palavra Apoio Matricial, após a escrita a compartilharam em voz
alta com o grupo e à medida que terminavam a leitura colavam em uma cartolina os post-it e;
após a colagem de todos, questionei sobre o que eles refletiram sobre as palavras expressadas
por eles; 3-Vivências: Foi distribuído uma folha de tamanho A4 para cada participante e
solicitei que nelas escrevessem, a partir de todo percurso profissional, quais ações foram
desenvolvidas ou ainda desenvolviam que caracterizavam como sendo de Apoio Matricial,
posteriormente pedi que compartilhassem com o grupo e depois disso, classificamos juntos para
quem estas ações foram direcionadas; 5- Lanche; 6- Reflexão final: foi questionado aos
participantes quais reflexões puderam ser produzidas sobre o Apoio Matricial a partir daquele
momento da oficina; 7- Avaliação: solicitei uma avalição da oficina de cada participante.
As falas foram transcritas literalmente a fim de focalizar a dialogia entre os participantes
do grupo; identificar a autoria; analisar os posicionamentos e os efeitos desses nos outros
participantes do grupo e; realizar uma leitura dos repertórios linguísticos presentes nas
interações e dos sentidos produzidos coletivamente. As pausas, os silêncios, as expressões
também foram transcritas.
Os mapas dialógicos foram utilizados como ferramentas para a análise das falas
produzidas durante a oficina. Eles permitem dar visibilidade à interanimação dialógica, aos
repertórios linguísticos, às rupturas no processo de produção, a disputas e negociações de
sentidos, a relações de saber-poder e a jogos de posicionamento (NASCIMENTO; TAVANTI;
PEREIRA, 2014). A escolha de tal ferramenta está diretamente ligada ao referencial teóricometodológico com o qual trabalhamos e permite visualizar as falas de cada participante e as
questões e provocações que as originaram.
(...) no estudo das práticas discursivas, o mapa dialógico é um recurso
que nos permite dar visibilidade aos passos dados na construção da pesquisa
e à dialogia presente nos discursos analisados. Parte da compreensão de que
rigor metodológico em pesquisa científica implica a explicitação dos passos
de busca e de análise das informações obtidas e visa à reflexividade do/a
pesquisador/a no processo da pesquisa (SPINK, M.J.; LIMA, 1999; SPINK,

61

M.J.; MENEGON, 1999 apud NASCIMENTO; TAVANTI; PEREIRA, pág.
249, 2014).

Para construir esses mapas foram realizados os seguintes passos: transcrevemos das
falas dos participantes, incluindo todas as expressões comunicadas e a numeração das linhas do
texto transcrito, para localizar no mapa dialógico e na discussão dos resultados, em que lugar
do texto se encontra a fala a qual estamos nos referindo.
Posteriormente, fizemos uma transcrição sequencial que consiste na identificação das
falas e vozes presentes no áudio, identificando quem fala, em que ordem cada pessoa fala e
sobre o que fala. Nessa etapa, também podemos perceber a quem a fala é endereçada e quais
repertórios linguísticos são utilizados. Não se trata de uma transcrição completa da fala, mas de
identificar sobre o que versa a conversa e como ela acontece.
Por fim, construímos o mapa dialógico, que é um quadro com linhas e colunas
organizado pelos temas identificados na transcrição sequencial, que estão de acordo com os
objetivos desta pesquisa e com o que queremos dar visibilidade na análise.

62

CAPÍTULO 3: APOIO MATRICIAL E SUAS VERSÕES
Este capítulo apresenta, inicialmente, uma síntese da minha participação no projeto
piloto “Matriciamente”, norteada pelos diários de campo produzidos durante essa experiência,
que perdurou por seis meses. A inserção nesse projeto de extensão teve como objetivo conhecer
como estava configurado o AM, no município de Maceió. Posteriormente,

seguem

as

discussões sobre a primeira e segunda etapas da oficina, ferramenta metodológica utilizada
nessa pesquisa, para analisar os repertórios sobre o apoio matricial produzidos por um grupo de
profissionais de saúde e discutir o AM a partir das versões de um grupo de profissionais de
saúde a partir de suas experiências e da literatura científica. Tanto na primeira parte da oficina
como na segunda descrevemos evidenciando quem falou, o que falou, em qual ordem falou e
os posicionamentos produzidos a partir dessas falas.
A partir da descrição da oficina realizamos as análises, as reflexões e discussões das
falas dos participantes. Para analisa-las, utilizamos a ferramenta dos mapas dialógicos e trechos
da transcrição integral da oficina. As construções dos mapas estão detalhadas em cada tópico.
Organizamos essas informações da seguinte maneira: primeiro, descrevemos as falas de
acordo com a sequência da oficina com vistas a dar visibilidade à interanimação dialógica. Esta,
segundo Bakthin, é a dialogia que acontece na interação entre as pessoas, que no momento que
conversam sobre algum assunto ou expressam suas ideias, argumentam e se contraargumentam. Nesse contexto, há um jogo de posicionamentos no qual uma pessoa se posiciona
em relação à fala do outro, e este é posicionado a partir da fala do outro (ARAGAKI; PIANI;
SPINK, 2014).
Dessa forma, na descrição identificamos quem fala, em que ordem cada pessoa fala,
sobre o que fala e a quem está endereçando esta fala. Observando também, o que determinado
argumento suscita em outros participantes, e como eles se posicionam; opondo-se ou
concordando e complementando o argumento anterior.
Salientamos que os nomes utilizados para os profissionais, ou protagonistas desse
diálogo, são fictícios. Informamos a profissão, o nível de atenção à saúde em que aquele (a)
profissional trabalha ou a política pública em que está alocado (a).
As falas foram analisadas a partir do referencial teórico das práticas discursivas e
produção de sentidos (SPINK, 1999) explanado em capítulos anteriores. No entanto, para além
deste, nos apoiamos no termo versões das contribuições de Anemarie Mol, a fim de identificar
e entender as múltiplas maneiras de se referir ao AM.

63

A partir de princípios construcionistas, estamos interessados em identificar os processos
pelos quais as pessoas descrevem, explicam e/ou compreendem o Apoio Matricial e não em
definir quais conceitos estariam certos ou errados, ou seja, não buscamos conclusões
universalmente válidas. Portanto, não objetivamos avaliar tais repertórios em certos ou errados.
3.1 Descrição da Participação no Projeto “Matriciamente”: estimulando ações de
matriciamento em Maceió”.
Estava no 2o semestre do mestrado, quando recebi um e-mail que divulgava uma reunião
na Secretaria Municipal de Saúde para a organização do processo de matriciamento em Maceió.
Estava intitulada assim: “Reunião sobre a organização do processo de matriciamento da Saúde
Mental na Atenção Básica no 6º e 8º distritos sanitários, no Auditório da Secretaria Municipal
de Saúde de Maceió, às 14h, do dia 4 de setembro de 2015. A reunião, da qual participei, foi
coordenada por uma professora de enfermagem e um professor de psiquiatria, ambos da UFAL,
e uma psicóloga da Secretaria Municipal de Saúde, do setor de Educação Permanente.
Nessa reunião, estavam presentes profissionais de saúde de diversos serviços. Teve
como objetivo apresentar um projeto de extensão da UFAL, que buscava implantar ações de
matriciamento em dois distritos de Maceió e naquele mesmo dia tentar formar as equipes
matriciadoras e definir as Unidades Básicas que acolheriam essas equipes. Naquele momento,
indico meu desejo em participar do projeto, o qual foi aceito.
Para compreender melhor as pactuações para o início do projeto, pergunto para as
coordenadoras como este foi se consolidando. A professora de enfermagem revela que possuía
o desejo de colaborar com a Saúde Mental no Estado. Diante disso, começou a frequentar as
reuniões do grupo gestor de saúde mental do munícipio. Conversou com a psicóloga da
Secretaria Municipal de Saúde e juntas fortaleceram a ideia de realizar ações de matriciamento
e no sentido de operar a Educação Permanente. Concomitante, a Secretaria Municipal de Saúde
convocou uma reunião com alguns representantes da UFAL, como professores de Psiquiatria,
Educação Física, Serviço Social e Enfermagem. Este grupo de professores estava realizando
alguns encontros para articularem questões de Saúde Mental na Universidade.
Dessa reunião, concluíram que um projeto de extensão daria o suporte inicial para a
implantação do Matriciamento. Além disso, seria um campo de estágio para as Residências de
Psiquiatria e de Enfermagem em saúde mental. Desta forma, a professora de enfermagem ficou
responsável por desenhar o projeto, o qual foi compartilhado com os demais professores, que

64

foram opinando e modificando alguns aspectos. O nome do projeto foi proposto por essa mesma
professora.
Nesse contexto, definiram o que elas denominaram de “equipe de frente” do projeto que
era composta por duas professoras de enfermagem, dois psicólogos da Secretaria Municipal de
Saúde e uma psicóloga de um CAPS do município. Os profissionais foram convidados a
participar por meio de reuniões convocadas pela secretaria e coordenadas pela professora. A
“equipe de frente” forneceria aporte teórico e técnico, por meio de discussões continuadas
quanto à inserção na prática, com a utilização de rodas de conversa e oficinas. Também
objetivaram que os profissionais participantes do projeto fossem atores multiplicadores nos seus
serviços.
A reunião seguinte aconteceu no dia 18 de setembro de 2015, no Conselho Regional de
Psicologia durante o período da manhã. Estavam presentes pessoas de diferentes categorias
como da Residência da UNCISAL, tanto os coordenadores como os residentes; profissionais
das UBS; dos NASFs; CAPS. Neste dia, conhecemos as duas Unidades Básicas que seriam
abrangidas pelo projeto. Um representante de cada unidade fez uma apresentação sobre as
demandas principais da UBS. Além disso, a professora de enfermagem explicitou
detalhadamente o projeto.
O projeto buscou: realizar treinamento da equipe apoiadora para efetividade do
matriciamento da saúde mental com a atenção básica; estimular a formação acadêmica dentro
dos princípios matriciais; colaborar com a pós-graduação na formação de profissionais
matriciadores; estimular maior integração da equipe matriciadora; aproximar a equipe
matriciadora das equipes de referência; fomentar conteúdos relevantes na prática de
matriciamento.
A proposta foi desenvolvida no período de 6 meses, por meio de atividades de ações de
matriciamento nas UBS e rodas de discussão e oficinas. Ocorreram atividades semanalmente:
numa semana ocorria uma oficina apenas com a equipe de AM, para uma supervisão e
compartilhamento das ações desenvolvidas na UBS e discussão de conteúdos específicos. Na
outra semana, ocorriam os encontros na própria UBS, para as ações de matriciamento com a
equipe de Referência.
A minha participação no projeto consistiu em inserir-me na Equipe de Apoio Matricial
que acompanhou a UBS do 6º distrito sanitário. Escolhi essa equipe, visto que minha
orientadora acompanhava estagiárias de psicologia naquele local.
Para o deslocamento até a UBS, pegava carona com uma profissional da equipe de AM,
que era psicóloga de um CAPS. Nos primeiros encontros, os profissionais da UBS mostraram-

65

se bastantes engajados durante as reuniões de matriciamento e inclusive suspendiam as
atividades naqueles dias. No entanto, isto não se manteve, passado alguns encontros, alguns
profissionais realizavam atendimentos enquanto ocorria nossas reuniões e consequentemente,
nem todos os profissionais participavam.
O bairro, no qual acompanhei o projeto, foi marcado por um crime, considerado bastante
cruel, e amplamente divulgado pelos meios midiáticos. A partir desse episódio, o território ficou
conhecido como violento. Diante disso, a equipe da unidade básica realizou um projeto de
humanização visando a construção de outros tipos de relações na comunidade e assim também
com a unidade. Essa UBS destacara-se pelo fato de conseguir aplicar alguns princípios da
Política Nacional de Humanização, especialmente, na triagem dos usuários.
Em nossos primeiros encontros, identifiquei uma ausência de diálogo ou pactuação mais
firme dos objetivos do projeto, visto que os profissionais possuíam a expectativa de que a equipe
de AM realizaria atendimentos individuais. Notei que havia também uma expectativa muito
grande em relação à presença de uma residente de Psiquiatria, pois, segundo os profissionais da
UBS havia uma demanda para esta profissional.
No entanto, com o tempo, as expectativas foram modificando-se. A primeira delas foi
em relação à residente de psiquiatria, pois ela compareceu apenas em dois encontros na UBS e
se mantinha numa posição distanciada dos demais. Um fato que me chamou a atenção foi que
ela era a única profissional que vestia jaleco nas discussões de caso.
A outra mudança foi em relação aos atendimentos individuais, pois fomos construindo
com a equipe as discussões de caso em conjunto; realizando visitas domiciliares e produzindo
PTS para os casos escolhidos pela equipe de referência.
Nessa vivência, há alguns pontos que considero como limitantes à prática do
matriciamento, são eles: Os profissionais da equipe de AM não se conheciam, e isso dificultava
o diálogo ocasionando em algumas discussões desnecessárias, a equipe da UBS avaliou que
parecia que não erámos integrados e que discordávamos muito um dos outros. No final do
projeto havia pouca adesão de vários profissionais de ambas as equipes. As oficinas de
discussão teórica poderiam ter acontecido anteriormente à iniciação nas UBS e com a
preocupação de ensinar o conteúdo, o tempo para o relato dos encontros nas UBS ficava
prejudicado muitas vezes. Estas também poderiam ter a presença de profissionais da UBS.
Usuários e familiares não construíram em conjunto com a equipe o próprio PTS.
Como potencialidades, avalio que foi um espaço para dialogarmos sobre AM. Para
muitos profissionais, foi o primeiro contato com o arranjo. Houve um envolvimento e
engajamento por parte dos Agentes Comunitários de Saúde. Espaço para formamos redes com

66

outros profissionais e serviços. Discussão e desenvolvimento em conjunto de estratégias para
usuários. Compartilhamento de sentimentos, vivências e saberes.
Foi uma experiência muito rica acompanhar essas ações. As caronas, as fotos, as
conversas antes, durante e após os encontros e via whatts app fazem parte do meu campo-tema.
O meu lugar no projeto, além de pesquisadora, foi também de militante do Sistema Único de
Saúde e da Reforma Psiquiátrica, atenta aos movimentos das equipes e quais práticas são
impedidas ou transformadas, e não voltado para uma psicologia tecnicista e prescritiva. E
principalmente, incitar a discussão de que nossas ações de matriciamento são para os usuários
e seus familiares e, não para a gestão ou para o quantitativo de atendimentos, para que assim
possamos construir e fortalecer um cuidado em rede.

3.2. O início da Oficina
A delimitação dos participantes da oficina constou em dez profissionais, que atuam em
diferentes níveis de atenção à saúde e de profissões diversas, que foram convidados por meio
de contato telefônico. Inicialmente, planejávamos realizar a oficina apenas com os profissionais
que participaram do projeto “Matriciamente”, pois pressupúnhamos que as ações de
matriciamento não eram realizadas em Maceió, influenciadas pela proposta daquele projeto,
que propunha sua implantação no município. No entanto, após o Seminário Avançado 5 e
debates propiciados pela literatura científica sobre o tema, consideramos que os profissionais
ao realizarem suas ações podem caracterizá-las como de AM, mesmo que não estejam
formalizadas dessa forma. Optamos então, por convidar para a oficina, além de 5 (cinco)
profissionais que participaram do projeto, mais 5 (cinco) de outros serviços e áreas de atuação,
com os quais tive alguma aproximação e que não tinham participado.
A oficina foi marcada em um sábado pela manhã com o intuito de não prejudicar as
atividades diárias dos profissionais nos serviços. Foi realizada em uma sala do Conselho
Regional de Psicologia visto que se localiza em um bairro central e de fácil acesso a todos. O
sentimento de ansiedade e nervosismo foram inevitáveis. No entanto, à medida que os
profissionais chegavam, esse sentimento foi se modificando para a simples percepção que eu
estava entre pessoas que mantinham algum vínculo.
Notei que a maioria dos profissionais se conheciam e se cumprimentavam com afeto.
Enquanto isso, posicionei as cadeiras em forma de círculo. Do lado externo da sala, coloquei
5

Seminário realizado pelo Programa de Pós-Graduação de Psicologia da UFAL, o qual mestrandos apresentam
seus projetos e são submetidos à qualificação de uma banca com vistas à avaliação do projeto.

67

uma mesa com café, suco e outros lanches. À medida que cada profissional chegava, entregava
as duas vias do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e indicava que a mesa de
café poderia ser acessada a qualquer momento. Informei também que qualquer dúvida referente
ao TCLE poderia ser questionada, e consequentemente, esclarecida.
Dos dez convidados para participar da oficina, nove compareceram. Antes de iniciar,
eles ficaram conversando uns com outros. Nesse momento, houve um episódio que nos fez
pensar sobre em qual lugar esses profissionais se posicionavam. Uma das primeiras
participantes ao chegar estava lendo uma cartilha de humanização. Fiquei intrigada e questionei
o motivo daquela leitura. Eis que ela me responde que estava estudando um pouco para a
oficina. Esclareci que naquele momento não existiria certo ou errado.
Essa necessidade de estudar antes da oficina sinaliza que a sua finalidade para uma
pesquisa de mestrado, convocou um saber da participante posicionada como colaboradora, que
exigia estudar para contribuir com um discurso formal e científico.
Após a chegada de todos os convidados, solicito que sentem no círculo, formalizando
assim, o início de nosso diálogo. Agradeci a presença de todos, apresentei-me de forma breve
e solicitei que a observadora, a qual era uma amiga e também psicóloga, se apresentasse.
Expliquei que o objetivo da pesquisa consistia em compreender as possibilidades do Apoio
Matricial por profissionais de saúde e a necessidade de gravarmos as discussões. Porém, o
anonimato seria garantido e que a gravação poderia ser pausada, caso algum participante não
se sentisse confortável em compartilhar algo que fosse gravado.
Ressaltei novamente, dessa vez para todos, que durante a oficina não seria um momento
de avaliação das falas, portanto não havia certo ou errado em relação ao matriciamento, que
iríamos conversar e que expusessem suas ideias. Por último, informei que o projeto havia sido
aprovado pelo Comitê de Ética. Solicitei a seguir, que os participantes se apresentassem.

3.3. Primeira etapa da Oficina: Apoio Matricial e a Associação de Ideias
A primeira etapa da oficina consiste num processo de associação de ideias, para tal,
distribuí alguns papéis adesivos e canetas a cada um e requeri que escrevessem todas as
palavras, vocábulos, expressões e sentimentos que vinham à mente quando escutavam a palavra
Apoio Matricial. Informei que poderiam parar de escrever ao sentirem que as palavras não
decorriam mais naturalmente. Quando todos os profissionais finalizaram a escrita, solicitei que
compartilhassem com o grupo.

68

A descrição de momentos da oficina contém trechos da transcrição integral (TI) do
áudio. O número colocado entre parênteses é referente à numeração das linhas, a fim de indicar
a localização do diálogo-fonte. Os repertórios destacados em negrito são aqueles que circularam
de forma predominante. Com vistas a dar visibilidade às falas compartilhadas, apresentamos a
seguir, os protagonistas desse diálogo juntamente com as associações feitas durante essa
primeira parte da oficina.
Amália foi a primeira a se pronunciar, ela é psicóloga e trabalha com a política pública
de Saúde Indígena, lotada em um município do interior de Alagoas. Sua fala é focada em sua
experiência e traz a palavra ‘acolhimento’ (24) afirmando que a partir de sua vivência é a
palavra mais forte que consegue pensar em Apoio Matricial. ‘Compartilhar’ (25), ‘Equipe de
Referência’ (25), ‘Transversal’ (26); ‘Multi, Inter e Transdisciplinar’ (26), ‘NASF e NASI’
(26). Explica que esse último é uma particularidade da política pública na qual atua. Por último,
fala ainda nas palavras ‘Diálogo’ (27) e ‘Dificuldades’ (27).
O próximo participante a falar é Luan, que é enfermeiro e residente no Programa de
Residência em Saúde Mental e Psiquiatria de uma Universidade do Estado. Este programa era
parceiro do projeto “Matriciamente” e Luan, assim como outros residentes da sua turma, iriam
participar da segunda etapa do projeto, quando ele foi interrompido e essa turma de residentes
não participou.
Luan realiza a leitura das seguintes palavras: ‘Novo modelo de atuação’ (29),
‘Compartilhamento’ (30), ‘Retaguarda’ (30), ‘Horizontalidade’ (30), ‘Apoio técnicopedagógico’ (30), ‘Forma de cuidado\apoio que visa ser uma alternativa contra a burocratização
da assistência’ (31), ‘Superação da hierarquização a partir de um modelo de troca’ (32), ‘Forma
de superar o encaminhamento’ (32).
No término de cada fala dos participantes, os papéis adesivos foram colocados
aleatoriamente em uma cartolina de tamanho 40, pela observadora e eu. Os profissionais se
respeitavam no momento da fala, questionando se poderiam falar ou se outro participante
gostaria de compartilhar primeiro.
Após Luan, Rebeca que estava sentada ao seu lado, lê as palavras que escreveu para o
grupo. Ela é assistente social, participou do projeto “Matriciamente” e atualmente está na gestão
na Secretaria Municipal de Saúde. As palavras compartilhadas foram ‘Cooperação’ (37),
‘Compartilhar saberes’ (37), ‘Corresponsabilização do cuidado’ (37), ‘Apoio técnico’ (37),
‘Mudança na lógica do cuidado’ (38), ‘Articulação de redes’ (38), ‘Valorização dos recursos
do território’ (39), ‘Troca’ (39).

69

Após Rebeca, Fernando se pronuncia brevemente. Ele é psicólogo, já trabalhou em um
Centro de Atenção Psicossocial, também participou do projeto piloto “Matriciamente” junto à
coordenação desse projeto e atualmente, está na gestão na Secretaria Municipal de Saúde.
‘Rede’ (41) ‘Colaboração’ (41) e ‘Confusão’(41) foram as palavras trazidas por ele.

Márcio trabalha em um CAPS do município em um interior e também é psicólogo.
Márcio e Fernando são amigos e assim como o último, fala sobre um sentimento ‘Angústia’
(44), e que o trabalho matricial remete a ‘Rede’ (45), ‘Clínica Ampliada’ (46),
‘Interdisciplinaridade’ (46), ‘PTS6’ (46). Como palavras-chaves traz ‘Desafio’ (47), ‘Coragem’
(47) e ‘Força’ (47). Nesse momento, tanto Márcio e Fernando riem juntos.
Logo em seguida, escutamos Patrícia a qual é psicóloga e trabalha em dois serviços,
uma Unidade Básica de Saúde e em um Hospital. Atendendo assim, dois níveis de atenção à
saúde, a Atenção Básica e a Alta Complexidade. Ela era a participante que estava lendo a
cartilha de humanização antes da oficina e compartilha os termos: ‘Contra-referência’ (50),
‘Acompanhamento’ (51), ‘Continuidade’ (51), ‘Responsabilização’ (51), ‘Comprometimento’
(51), ‘Rede’ (51), ‘Fluxo’ (51) e por último, ‘Humanização’ (52).
Posteriormente, Eliana entra no diálogo, falando as palavras ‘Integralidade’ (54)
‘Compromisso’ (54), ‘Compartilhamento’ (54), ‘Corresponsabilidade’ (54), ‘Clínica
Ampliada’ (55), ‘Trabalho em equipe’ (55), ‘Autonomia do sujeito’ (55), ‘Respeito ao saber do
outro’ (56), ‘Construção coletiva’ (56), ‘Discussão de caso’ (56) e ‘Humanização’ (56). Eliana
também participou do projeto “Matriciamente”, por ser assistente social de uma das Unidades
Básicas que era abrangida por esse.
Após Eliana, Janaína, que é educadora física do CAPS e que também foi incluído no
projeto “Matriciamente”, realiza a leitura das seguintes palavras: ‘Compartilhamento’ (58),
‘Corresponsabilidade’ (58), ‘Vários olhares’ (59), ‘PTS’ (59), ‘Território’ (59), ‘Sujeito’ (59),
‘Potencialidades do sujeito e do território’.
A residente de psicologia em Saúde da Família de uma Universidade do Estado, Karla,
compartilhou os vocábulos ‘Suporte’ (61), ‘Disponibilidade’ (62), ‘Troca’ (62),
‘Aprendizagem’ (62), ‘Processos de Trabalho’ (62), ‘Diferente’ (62) afirmando para pensarmos
as diferenças, ‘Escuta’ (63), ‘Comunicação’ (63) e ‘Negociação’ (63). Ela durante a graduação,
estagiou na mesma Unidade Básica que Eliana trabalha e por isso, participou também do projeto
“Matriciamente”.

6

Projeto Terapêutico Singular.

70

Após as leituras compartilhadas pelos participantes, realizei a leitura em voz alta de
todas as palavras que foram expressadas naquele momento e as quais estavam coladas na
cartolina. Diante disso, questionei o que poderíamos refletir, por meio dessas associações livres
de ideias e dos diversos apontamentos apresentados, sobre o Apoio Matricial.
Luan (Enfermeiro – Residente) é o primeiro a se pronunciar afirmando que os
participantes entram em consenso que de alguma maneira o Apoio Matricial envolve uma troca,
um sistema de compartilhamento. Ao afirmar que apesar do matriciamento não ocorrer da forma
como foi descrito na associação de ideias, os participantes possuem uma visão bastante rica
daquilo que ele representa (87-92). Portanto, em seu posicionamento sinaliza que se ativeram a
uma definição conceitual (teórica) e há uma diferença entre o conceito e a prática, mas que ali
na oficina houve uma troca e compartilhamento que possibilitou uma visão rica.
Eliana (Assistente Social – Atenção Básica) dialoga com o posicionamento de Luan,
mas amplia-o para a discussão, refletindo sobre o compromisso com o sujeito e a cisão entre
teoria e prática. Afirma que muitos participantes falaram a palavra compartilhar, e muitas vezes,
os profissionais querem encaminhar. Exemplifica essa situação, dizendo que quando há um
compartilhamento com o usuário e com a equipe, ocasiona em um resultado diferente para as
direções das demandas. Em suas palavras: “Não estamos encaminhando para o serviço por
encaminhar, e sim, ouvindo o usuário para saber se é realmente aquilo que ele deseja, analisar
as demandas e as necessidades trazidas por ele, para que assim consiga um trabalho mais
organizado e em conjunto com toda equipe (93-100) ”. A fala de Eliana focaliza-se nos
resultados que o matriciamento, por meio do compartilhamento, pode proporcionar tanto ao
usuário quanto à equipe.
Fernando (Psicólogo – Gestão) tem um posicionamento contrastante do apresentado
por Eliana e Luan, refletindo que há uma lacuna nas ações de matriciamento. Ele afirma que
falta uma “sustância”. “A gente tá falando em torno sempre do matriciamento perfeito, do
matriciamento, uma característica do matriciamento, mas isso, o Apoio Matricial é o quê? Eu
acho que falta isso, falta uma consistência, uma coisa mais, uma sustância” (102-105).
Questiono o que ele acha que seria essa sustância. Ele responde que:
Eu acho que é uma definição clara do que é e como se faz. Eu acho que quando
a gente fala do apoio matricial, fala compartilhar, sempre coisas que não tem
o que é e como fazer fechado. Acho que isso falta, e aí dá margens a gente
fazer diversas coisas sob o título de matriciamento (107-110).

71

A fala de Fernando demarca, sobre uma cisão entre teoria e prática, também pontuada
de uma forma mais superficial por Luan. Focaliza, especialmente, a ausência de uma prática
com o arranjo.
Amália (Psicóloga – Saúde Mental) respondendo à fala de Fernando, concorda com o
posicionamento do Luan que o matriciamento consistiria nos efeitos produzidos em suas ações
e não em uma conceituação mais precisa. “(...) se eu falo se tem efeito, já tem algum apoio
matricial né” (112). Em sua opinião, para conseguirmos localizar de fato o Apoio Matricial, há
a necessidade de ressignificá-lo a partir de uma curvatura e seus significados. Diante das falas
no primeiro momento, afirma que as ideias dos profissionais estão em diálogo com uma
perspectiva semelhante. No entanto, consegue perceber que as vozes e os discursos variam de
acordo com o lugar que assumimos, exemplifica, que a voz da gestão é diferente da voz do
profissional que está na “ponta” 7(111-121).
Nesse trecho Amália focaliza também nos resultados da prática do matriciamento,
concordando que é por meio desta que é possível identificar o AM. Analisamos que ela também
demarca que seu posicionamento é diferente da gestão, visto que está na prática, ou como ela
própria diz e que é corriqueiro entre profissionais de saúde “está na ponta”. Posiciona-se como
pesquisadora, analisando as falas dos participantes, e sinalizando os diversos posicionamentos
produzidos pelo contexto argumentativo de cada participante. Salientamos que Amália
finalizou sua dissertação recentemente e utilizou o mesmo referencial teórico que o nosso.
Após Amália, Márcio (Psicólogo – Saúde Mental) ressalta que até aquele momento, o
grupo não havia discutido, palavras que remetem a si mesmos, como sentimentos ou afetos e
que os participantes trouxeram poucas, com esse sentido. A questão teórica é importante para
Márcio, no entanto, considera que deve existir um envolvimento afetivo no cotidiano e que,
isto, seria fundamental para o matriciamento e outros dispositivos. Ao enfatizar “ (...) não, eu
quero ir, eu quero conhecer mais, eu quero compreender melhor como eu posso fazer para
melhorar isso, essa situação, esse usuário. Como a gente pode fazer esse envolvimento, esse
envolvimento afetivo” (127). Ainda se referindo à parte teórica afirma que existe um pouco de
confusão e que tem dificuldade em colocar em prática (122-137). Portanto, concorda com
posicionamentos anteriores sobre a cisão entre teoria e prática, mas também, aponta uma cisão
entre objetividade e subjetividade. A ação do matriciamento, para ele, estaria dependente da
competência e habilidade de cada profissional em assumir o desafio de realizá-lo.

7

Esse é um termo muito recorrente nas falas dos profissionais de saúde, possui o sentido daquele profissional que
oferece assistência direta ao usuário.

72

Fernando responde ao posicionamento de Márcio em relação à dificuldade de colocar
o matriciamento em prática. Em sua opinião, essa dificuldade repousa justamente na ausência
de uma definição mais circunscrita, sem delimitações do que poderia, ou não, se constituir como
apoio matricial, retomando assim, seu posicionamento inicial de uma conceituação mais
concisa e fechada e de uma cisão entre teoria e prática. “Quando fala compartilhamento, rede,
substituir um modelo, ok, isso tá claro né? Mas, eu acho que isso não circunscreve a coisa.
Assim, não dá pra gente identificar na prática o que é e o que não é. Eu acho que isso não tá
muito claro” (140).
Márcio complementa o posicionamento de Fernando afirmando que o Apoio Matricial
é um dispositivo confuso (144). Apontamos que confusão foi um sentimento compartilhado por
Fernando na leitura da associação de ideias. Fernando retoma mais uma vez seu
posicionamento, afirmando que não temos como definir o que seria ou não AM.
Luan e Amália questionam o posicionamento de Fernando, indagando se este
acreditaria que essa dificuldade estaria no fato do matriciamento não possuir limites
delimitados. Fernando retoma seu argumento principal, afirmando que não há uma definição
que possa se avaliar “isso é matriciamento” e “isso não é matriciamento”. Exemplifica com o
trabalho do NASF: “Sendo que aí tem o NASF que vai no posto de saúde e faz uma dinâmica
lá com o pessoal do posto e tal, aí fazem aquele negócio, aí vão falar do usuário. Isso é
matriciamento e isso não é? ” (152). Novamente, demarca uma cisão entre teoria e prática.
Luan questiona novamente Fernando, se ele achava que muitas vezes o efeito
pretendido consiste nas expressões compartilhadas [durante a oficina], porém, na prática há
uma variação, e assim não há uma clareza em relação ao que seria o matriciamento de fato
(155).
Fernando concorda com Luan, no entanto, afirma que as palavras que foram descritas,
como rede, compartilhar, superar o modelo, apoio e entre mais, estão ao “redor de algo”. Esse
algo seria desconhecido em virtude de não possuir uma definição clara e precisa.
Consequentemente, no momento da prática, não teria uma uniformidade, como ele afirma, “fica
solto” (158-162). “A gente não consegue ter uma prática de fazer matriciamento: é assim que
se faz, é desse jeito, é assim que se faz, é assim que não se faz. Esses limites, esses
delineamentos, eu acho que não tão claros. Daí vem a dificuldade de pôr em prática” (162).
Dessa forma, Fernando expressa o desejo de ter um método preciso ou um modelo que possa
ser seguido em qualquer contexto.
Rebeca (Assistente social – Gestão) continua com o diálogo, no entanto, traz outros
pontos para a discussão, como a superficialidade das ações destinadas aos usuários, focando o

73

compromisso e a responsabilidade. Para ela, os usuários passam pelos serviços de forma muito
superficial e a ação de apoio exigiria muito mais cuidado e um olhar mais aproximado. Caso
esse compromisso e essa responsabilidade sejam assumidos em uma ação que esteja voltada
para tudo que foi discutido, já é um passo para a mudança (166 – 176).
Rebeca continua e deixa explícito que seu posicionamento é referente à gestão. Afirma
que analisando a experiência que tiverem no projeto “Matriciamente”, o matriciamento é muito
incipiente em Maceió. Ela indica que não enxergava esse apoio efetivo, seja porque não
consegue, seja porque não sabe como fazer. Em relação à oficina, demonstra um desejo que
naquele momento tivesse um profissional do NASF da capital para que pudesse ser
compartilhado como está sendo esse processo8. Por fim, relata que a experiência de
matriciamento proporcionada pelo projeto foi positiva, mas que ao mesmo tempo, trouxe mais
desafios que respostas.
Mas, eu penso que precisa até porque é uma ação de muita responsabilidade
porque sem isso a gente não consegue, não dá pra enxergar o sujeito de forma
superficial senão a gente não faz, nem a equipe de apoio, nem a equipe de
referência consegue fazer o trabalho né” (Rebeca, 178).

Eliana (Assistente social – Atenção Básica), assim como Rebeca, focaliza no usuário e
discorre sobre o desafio de construção com o usuário, a partir de uma leitura do cotidiano dos
serviços. Em sua opinião, o apoio matricial exige na prática do dia-a-dia das equipes, o respeito
à autonomia do sujeito. Para ela, é um desafio compreender que o usuário também está inserido
naquele contexto, construindo conjuntamente com os profissionais. Relembra que na vivência
do projeto piloto, o qual também participou e dialoga com a fala anterior, a equipe refletiu que
o sujeito passa a ter voz, desse modo, os profissionais o escutam. Isto se constitui como um
momento de despertar para a equipe, visto que muitas vezes, os profissionais desejam “as coisas
muito prontinhas”, como por exemplo, dizer para onde o usuário deve seguir e o que fazer.
Portanto, o matriciamento foi um momento de transição para compreender a escolha e
autonomia desse sujeito e consequentemente, refletir que muitas vezes a autonomia não é
respeitada. O que é planejado para ele, não é o que ele deseja. Concorda que o matriciamento é
algo novo, novo para a equipe e para quem irá realizá-lo, no entanto, há um compromisso que
deve ser assumido com o usuário (189-200).
Em síntese Eliana reflete sobre o cotidiano do trabalho que não pode ser tecnicista e
prescritivo, deve haver um compromisso e respeito com a autonomia e escolhas dos sujeitos,
8

Profissionais do NASF foram convidados, no entanto, não puderem comparecer no dia combinado para a
realização da oficina. As atividades da residência de Karla são em conjunto com um NASF da capital. Portanto,
sua fala também perpassa as ações realizadas nesse serviço.

74

indicando assim como ela posiciona o AM. Entendemos que sua fala está direcionada para uma
crítica de um apoio matricial focalizado no método, contestando o desejo expressado por
Fernando. Focaliza no usuário, cujos limites de suas ações seriam definidos por ele próprio.
Isso consistiria em um desafio para a equipe, e consequentemente, para quem aceita este
desafio.
Karla (Psicóloga – Residente) concorda com Fernando que os limites não estão bem
definidos, mas se contrapõe a esse, ao refletir sobre a necessidade de uma definição concreta e
até que ponto isso seria alcançado. Na associação de ideias, as palavras interdisciplinaridade e
transdisciplinar foram compartilhadas por outro participante, em sua opinião, tais refletem
muito sobre o processo de matriciamento, que consiste em diferentes profissionais se
envolvendo. A partir disso, Karla reflete sobre o processo de formação, que visualizamos no
trecho seguinte:
E aí isso faz pensar a formação, que a gente teve formações muito diferentes,
aí entra a questão dos afetos, que eu acho que são super importantes pra pensar
essa questão da interdisciplinaridade. Se não houver disponibilidade, se não
houver o respeito pela diferença que aquele profissional foi formado de uma
forma que eu não fui, então a gente tem que aprender a lidar com isso, pra se
integrar e conseguir de fato fazer o apoio matricial funcionar. Então, eu não
sei até que ponto esses limites são possíveis de serem colocados (Karla, 206212).

Karla acrescenta que na residência tem acompanhado um NASF e que também tem o
conhecimento de algumas experiências de outros NASF. Concorda que é algo muito novo e que
estamos aprendendo a fazer (213-2015). Patrícia complementa “aprender fazendo” (216).
Karla concorda com a pontuação de Patrícia.
A partir da fala de Karla, Márcio afirma que é um desafio, pois a formação é disciplinar.
O próprio modelo da universidade é disciplinar, porém, em um serviço de saúde há o contato
com uma equipe com diversas vozes e disciplinas (218-225). Assim, demarca novamente uma
cisão entre a teoria e prática, sendo exercidas, especialmente por um modelo disciplinar de
ensino.
Rebeca (Assistente Social – Gestão) concorda com a posição de Márcio ao
complementar que é um espaço de conflitos (226). Afirma que é um espaço de conflitos entre
as categorias, entre as disciplinas. É um espaço onde se evidencia as correlações de força,
problematizando que determinados campos de saber seriam superiores a outros. Relata sobre a
vivência no projeto e que tal correlação estava presente. Apesar de ter ocorrido uma conversa
inicial com as equipes das unidades básicas, nos conta que ficou evidente que a equipe de

75

referência tinha uma expectativa muito díspar das ações que seriam realizadas pelo projeto 9.
Muitas vezes, na discussão de caso, o conhecimento de algumas profissões foi colocado em
questionamento e em alguns momentos, não houve abertura para reflexão (228-233).
Na opinião de Rebeca, na discussão de caso, não há ninguém que sabe mais que o outro.
Todos devem ser escutados, do agente comunitário até o médico, para que seja defendida qual
é a melhor estratégia para aquele sujeito (235-239).
Essas discussões focalizam a formação do profissional como importante para um
trabalho conjunto e que o Apoio Matricial estaria em constante construção. A fala de Rebeca e
a vivência descrita por eles (as) sinalizam os jogos de poder entre as profissões como um
impedimento para acontecer o AM.
Karla se pronuncia novamente ao complementar a fala de Rebeca, afirmando que a
partir de sua vivência, mais que conflito entre as disciplinas, há a dificuldade de conseguir
enxergar a atuação da psicologia10. Insistindo assim, em uma diferenciação de campos de
saberes. A dificuldade existiria no relacionamento entre as disciplinas e na compreensão do
papel delas nos contextos dos serviços (245-249). Exemplifica seu argumento, com os seguintes
questionamentos: “Ser psicólogo no NASF é fazer o quê? Eu faço atendimento individual ou
não faço? Eu faço psicoterapia ou não faço? ” (250).
Logo após Karla, Janaína (Educadora Física – Saúde Mental) retoma a discussão sobre
interdisciplinaridade. Afirma que essa também ocorreu no grupo do whatts app11. Concorda
com a fala inicial de Márcio sobre subjetividade, visto que, em sua opinião, essa confusão e
conflito que ocorreram na vivência do projeto é decorrente dessa subjetividade, do significado
desses sentimentos que são produzidos pelos modelos de saúde. Para ela, há também uma
discrepância entre o discurso e a prática, revelando que existe muitos profissionais que falam
que o matriciamento é compartilhar, mas que a prática se mostra totalmente diferente (252260). Portanto, posiciona-se em concordância sobre a cisão da teoria e prática. Além disso, o
matriciamento consistiria também em uma competência ou habilidade inerente ao profissional,
argumento pontuado por Márcio.
Para Janaína, compartilhar é permeado por dificuldades, visto que possuímos defesas
pessoais, não queremos compartilhar nem sobre a nossa vida. Exprime que o matriciamento

Projeto “Matriciamente”.
No caso de Karla, a dificuldade consistiria em enxergar a atuação da Psicologia no NASF. Visto que a
vivência relatada é a partir do NASF o qual acompanha.
11
Este grupo no whatts app o qual Janaína refere-se, é intitulado Atenção Psicossocial - AL. Foi criado por Márcio
e por Fernando com intuito de proporcionar que os profissionais da atenção psicossocial de Alagoas dialogassem
e se conhecessem melhor. A referência a esse grupo aparece em alguns momentos da oficina.
9

10

76

seria uma estratégia que veio para mudar o modelo de cuidado porque rompe com a lógica de
encaminhamento. Prossegue sua fala discordando de Fernando sobre os limites, afirmando que
tais limites não existem em vários aspectos no campo de atuação, no entanto, os profissionais
podem ir delimitando algumas coisas para que a prática não fique confusa (261-270). Janaína
concorda com Karla em relação a não possibilidade de uma definição concreta do
matriciamento.
Por fim, Janaína pontua ainda que as tecnologias e instrumentos que são recomendados
pelo Apoio Matricial sobre como mudar esse modelo de cuidado e os quais discutimos
brevemente durante o projeto “Matriciamente”, não são práticas cotidianas dos profissionais
porque não há uma intimidade e afetividade em relação a eles (271-273).
Assim como outros participantes, Patrícia (Psicóloga – Atenção Básica e Alta
Complexidade) traz reflexões sobre sua prática. Relata ao grupo sobre a sua necessidade de
estudar antes da oficina, em virtude de nunca ter ouvido falar sobre Apoio Matricial. Faz uma
analogia dizendo que se sentiria um extraterrestre porque estaria todo mundo falando sobre o
AM e ela não saberia do que se tratava.
Para Patrícia, esse dispositivo está longe do profissional que está na “ponta”. É
necessário abrir as discussões nas unidades, nos hospitais para que se ocorra uma apropriação
desse dispositivo, visto que até mesmo os participantes que vivenciaram o projeto avaliam sobre
a necessidade de ampliação do matriciamento (274-286).
Patrícia concorda com o posicionamento de Karla e Rebeca que o matriciamento é algo
novo e está distante do contexto dos serviços, portanto, seu posicionamento é que há uma cisão
entre teoria e prática. Para que ações de matriciamento ocorram, é necessário que haja espaços
de reflexão, discussão e diálogo com os profissionais sobre o tema.
A seguir, iremos propiciar reflexões sobre as análises destes posicionamentos e falas.

3.4. Discussões
Para a análise das palavras, expressões, vocábulos e sentimentos compartilhados pelos
participantes na associação de ideias, construímos um quadro semelhante ao mapa dialógico. O
objetivo foi a visualização de todos os termos pronunciados pelos profissionais. Porém, esse
quadro foi formulado a partir do assunto principal que tais palavras estavam se referindo. Diante
disso, criamos cinco categorias: “Entre profissionais”; “Em si mesmo”; “Usuário” e “Modelo
Proposto”. Esses temas já foram descritos no início deste capítulo.

77

Quadro 1: Categorização das palavras, expressões e sentimentos compartilhados pelos participantes da oficina
durante a etapa de associação de ideias. Maceió, 2017. Fonte: Autoras.
Entre profissionais
Articulação de redes /Rede
Colaboração

Em si mesmo
Angústia
Confusão

Usuário
Acolhimento
Acompanhamento

Compartilhar/
Compartilhamento/
Compartilhar saberes
Compromisso
Comunicação
Construção coletiva
Cooperação

Coragem

Autonomia do sujeito

Força

Continuidade
Escuta
Integralidade
Potencialidades do
sujeito e do território
Sujeito

Corresponsabilidade
Corresponsabilização do
cuidado
Diálogo
Disponibilidade
Horizontalidade

Negociação
Respeito ao saber do outro
Responsabilização
Superação da hierarquização a
partir de um modelo de troca
Trabalho em equipe
Troca
Vários olhares

Modelo proposto
Apoio técnico
Apoio técnicopedagógico
Aprendizagem

Clínica Ampliada
Contra-referência
Desafio
Diferente
Dificuldades
Discussão de caso
Equipe de Referência
Fluxo
Forma de
cuidado\apoio que
visa ser uma
alternativa contra a
burocratização da
assistência
Forma de superar o
encaminhamento
Humanização
Mudança na lógica
do cuidado
NASF e NASI
Novo modelo de
atuação
Processos de
Trabalho
PTS
Retaguarda
Suporte
Território
Transversal; Multi,
Inter e
Transdisciplinar
Valorização dos
recursos do território

Neste quadro visualizamos, que os termos classificados no item modelo proposto são
predominantes e referem-se àqueles que estão presentes na literatura científica, que explica o
apoio matricial. Podemos analisar isto, por meio do Glossário, o qual encontra-se em anexo,
discutido no capítulo 1. Outro item que se destaca é o entre os profissionais, onde foram
inseridas as expressões relativas às ações que correspondem a eles, no processo do
matriciamento.

78

Os repertórios que circularam de forma predominante durante a oficina foram:
Compartilhar;

Compartilhamento;

Compartilhar

saberes;

Rede.

No

entanto,

questionamos: Compartilhar o quê?
Compartilhamento está associado ao conceito de cogestão que é definido como: “o
estabelecimento de relações dialógicas, com o compartilhamento de poder e conhecimentos
entre os atores sociais neste sentido, gestores, trabalhadores e usuários” (CASTRO;
OLIVEIRA, CAMPOS, 2016). Na literatura científica, há um consenso de que esse
compartilhamento consiste nas diretrizes clínicas e sanitárias.
Assim como as palavras proferidas pelos participantes na primeira parte da oficina, as
quais foram categorizadas no quadro 1, em uma pesquisa sobre apoio matricial com
profissionais de saúde, avaliam que o matriciamento está relacionado com o compartilhamento
da prática, com a co-responsabilização pelos casos clínicos e pelo processo de educação
permanente, favorecendo a aprendizagem daqueles que estão na Saúde da Família sobre saúde
mental, quanto dos profissionais do CAPS que se apropriarão do que se faz na atenção básica
(MINOZZO, 2011), semelhante aos vocábulos compartilhados pelos profissionais do nosso
estudo.
Diante da predominância de repertórios que circulam na literatura científica,
compreendemos que os participantes da oficina estavam respondendo de acordo com o lugar
em que foram posicionados (informantes de uma oficina para uma pesquisa de mestrado),
direcionando suas falas à academia, à pesquisa.
Contribuiu também para esse entendimento, o fato de uma das participantes se
preocupar em fazer um estudo prévio sobre o assunto, antes de começar a oficina, o que nos fez
pensar sobre a necessidade e preocupação em demonstrar um discurso competente, marcado
pela linguagem científica. O discurso acadêmico mostrou-se de forma predominante como
também podemos analisar nas categorizações do quadro 1, por isso, os participantes
direcionavam suas falas a mim, colocando-me no lugar de pesquisadora.
Neste sentido, fui posicionada no lugar de uma pessoa que detinha o conhecimento sobre
o matriciamento e como alguém externa ao grupo.
No momento para a discussão da etapa de associação de ideias, para analisar os
repertórios fizemos o uso da ferramenta do mapa dialógico (em anexo). Elaboramos um mapa
dialógico para cada etapa da oficina. Estes encontram-se em anexo. Para o primeiro momento
de associação livre sobre a palavra Apoio Matricial e posterior discussão do grupo, construímos
um mapa identificando quem falou e quais os temas que foram discutidos pelos participantes.
Esses foram formulados a partir de uma leitura intensiva da transição integral e posteriormente,

79

identificamos sobre o que versa a conversa e como ela acontece, agrupando assim, os assuntos
em torno dos quais se deu o diálogo, discussão, reflexão ou debate. As categorias ou temas
foram: “Entre profissionais”; “Em si mesmo”; “Usuário”; “Modelo proposto”; “Teoria x Prática
e Prática”; “Oficina”.
Ao tema “Entre profissionais” foram direcionadas as falas, nas quais os participantes
associavam o apoio matricial com a equipe, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade ou algo
que deveria ser compartilhado entre os profissionais, e ainda, envolvimento entre diferentes
campos de saber.
Colocamos as falas na categoria “Em si mesmo”, quando os participantes focalizavam
os sentimentos, a própria formação, em competências e habilidades dos profissionais para
trabalhar com o AM e também alguma experiência pessoal que não foi vivenciada pelos outros
participantes da oficina.
O tema “Usuário” foi identificado, quando o foco das falas era direcionado aos usuários
ou sujeitos, como sendo o fator principal do apoio matricial.
“Modelo proposto” é o tema no qual foram relacionadas as falas que se referiam a um
modelo de Apoio Matricial, aquele que é proposto na literatura técnico-científica e nos
documentos públicos, como também às dúvidas que são geradas por ele, sobre a implementação
desse arranjo.
Foram inseridas na categoria “Teoria x Prática/Prática”, quando os/as participantes
falavam sobre a dicotomia entre a teoria e a prática, ao se referirem que, o proposto pelo modelo
do matriciamento não pode se aplicar no cotidiano dos serviços. E ainda, prática, quando as
falas contavam sobre uma vivência do projeto piloto ou uma outra experiência compartilhada
por mais de um participante.
Por fim, a categoria “Oficina” refere-se às falas que teciam comentários sobre aquele
momento específico da oficina, questionamentos ou interrupções que os participantes faziam
uns aos outros.
Os trechos que estão destacados nos mapas na cor vermelha, referem-se às falas dos
profissionais que participaram do projeto piloto.
O mapa permitiu compreender sobre as diversas formas de falar sobre o Apoio
Matricial. Salientamos que não são categorias excludentes, elas se complementam e dialogam
uma com a outra. De uma forma geral, o foco da discussão foi sobre a dicotomia entre teoria e
prática.

80

A primeira delas, consiste em repertórios que perpassam a relação dos profissionais de
saúde, algo que é construído nessa relação, que acontece no “entre”, por isso, denominamos no
mapa a categoria “entre os profissionais”.
Neste tema, podemos analisar que o matriciamento para os participantes consiste em um
sistema de compartilhamento e troca; no trabalho em equipe exercendo assim a
interdisciplinaridade. No entanto, nesse exercício há as relações ou jogos de poder as quais se
constituem como desafios ou práticas impeditivas ao matriciamento.
As falas dos profissionais dialogam com o que está proposto pela literatura-científica do
Apoio Matricial visto que uma das diretrizes deste arranjo é que o apoio somente funciona
quando o grupo consegue ampliar suas referências e quando consegue lidar com essas
referências de forma crítica. Um dos pressupostos do AM diz respeito à responsabilização
compartilhada de casos, que busca uma abordagem inter e/ou transdisciplinar, por meio da
formulação de projetos terapêuticos e abordagem conjunta, mediante à comunicação e relações
estabelecidas entre diferentes profissionais. Deste modo, variadas perspectivas podem ser
levantadas, com o enriquecimento das intervenções terapêuticas (CAMPOS; FIGUEIREDO;
JÚNIOR; CASTRO, 2014, HIRDES; SILVA, 2014).
Estes repertórios também foram encontrados na pesquisa de Fittipaldi; Romano e Barros
(2015), os quais entrevistaram profissionais de saúde, que consideraram o compartilhamento
como o foco das ações e que isto proporcionaria uma maior efetividade do cuidado ao usuário.
No que diz respeito aos repertórios de troca de conhecimentos entre os diversos núcleos
de saberes, podemos dialogar com Jorge et al (2014). Em seus estudos, ressaltam que o
matriciamento permite a transição de um processo de trabalho individualizado ou fragmentado
pela especialização, para uma ação dialogada e interdisciplinar.
No tocante à interdisciplinaridade, os encontros com diversas profissões e perspectivas
proporcionados pelo Apoio Matricial incentiva os profissionais a comporem projetos
terapêuticos com outras racionalidades e visões de mundo. Na existência de impasses e
conflitos, não há instâncias superiores para solucioná-los, cabendo aos sujeitos envolvidos
encontrarem em conjunto uma resolução, para que não paralise o projeto terapêutico e nem
prejudique o usuário (CAMPOS, 1999).
O reconhecimento da necessidade de eventual comunicação entre as distintas profissões
que operam nos serviços de saúde já é um avanço, uma forma de enfretamento do problema,
porém, apenas com discurso não ocorre uma alteração efetiva da estrutura que reforça esta
separação (CAMPOS, 1999).

81

O cenário de espaço de disputa de poder entre as profissões descrito pelos participantes
não é exclusividade do Apoio Matricial, contudo, se faz presente no cotidiano dos serviços de
saúde. Especificamente durante a vivência no projeto “Matriciamente”, tiveram duas situações
que exemplificam esse espaço de conflitos. Tais situações são recortes do diário de campo
escrito durante o acompanhamento do projeto.
No dia 2 de outubro de 2015, ocorreu a primeira reunião de apoio
matricial na USF. A equipe da USF não realizou atividades naquele dia,
portanto, a equipe organizou-se para que não tivesse agenda e dedicar-se
exclusivamente para o encontro de matriciamento. Enquanto a reunião não se
iniciara, a médica da unidade que era diretora da USF, nos apresentou o espaço
físico e a história daquela unidade e região12. (...) Um fato marcante aconteceu,
nesse dia, quando a médica da USF no momento da apresentação da unidade,
indicou uma sala e falou que aquela era destinada para a residente de
psiquiatria do AM realizar os atendimentos. Neste momento, percebi que uma
ausência de diálogo ou pactuação mais clara dos objetivos do projeto, visto
que este não pretendia realizar atendimentos individuais. Então, a enfermeira
da equipe de AM respondeu à médica com algo semelhante à que
posteriormente iríamos conversar em relação aos atendimentos, pois a equipe
de AM não iria realizar atendimentos. De alguma forma, a expressão facial da
médica transformou-se, porém, não realizou questionamentos sobre isso. (...)
Iniciamos a reunião, com a organização das cadeiras em formato de uma roda.
(...) Houve um momento bem crítico no qual uma médica da USF falou que
os agentes comunitários necessitavam saber qual era realmente o trabalho
deles, para assim, fazê-lo. Então, um psicólogo da equipe de AM de uma
forma bem tranquila respondeu o questionamento da médica falando que os
agentes comunitários eram muito importantes visto que eles tinham o maior
contato com a comunidade e usuário. Após essa fala, os agentes o aplaudiram.
Posteriormente, no final da reunião, em uma carona, conversando com alguns
integrantes da equipe de AM percebemos que aquela fala foi significativa de
tal forma que os ACS poderiam construir um vínculo conosco (Diário de
campo, 2 de outubro de 2015).
No dia 23 de outubro de 2015, ocorreu outra oficina na UFAL na sala
do PET-Saúde, juntamente à coordenação do projeto. Muitas pessoas faltaram
nesse encontro. Percebi que o número de profissionais que estavam
comparecendo às oficinas estava caindo significativamente. Iniciamos com o
relato de cada equipe de AM sobre as reuniões na UBS. Posteriormente, houve
uma discussão teórica sobre o processo de trabalho nas equipes de
matriciamento com uma professora convidada de enfermagem da UFAL. A
apresentação foi oral em forma de slides e era intitulada Crise dos modelos
assistenciais hegemônicos-médico-assistencial e sanitarista campanhista (...).
No entanto, o marcante desse dia, consistiu quando estávamos discutindo
sobre a hegemonia do modelo biomédico e a residente de psiquiatria, que
inclusive era da minha equipe de AM, disse algo semelhante a isto: ‘Eu acho
assim que deve ser cada um no seu quadrado. A enfermeira que não venha
mexer na minha prescrição’. Nesse instante, os presentes começaram a falar
todos ao mesmo tempo, tentando responder a essa fala. Refleti na formação
12

A região qual acompanhei pelo projeto foi marcada por um crime, considerado bastante cruel, e amplamente
divulgado pelos meios midiáticos. A partir desse episódio, o território ficou com o estereótipo de violento. Diante
disso, a equipe da unidade básica realizou um projeto de humanização visando que a comunidade construa outros
tipos de relações com a comunidade e assim com a unidade.

82

de alguns profissionais e como estes poderiam trabalhar com um arranjo como
o AM que critica o modelo médico vigente (Diário de campo, 23 de outubro
de 2015).

As relações de poder nos serviços de saúde são muito discutidas pela Política Nacional
de Humanização. Um serviço de saúde pode acarretar descompromisso e falta de interesse de
participação na maioria dos trabalhadores, quando grande parte das decisões são tomadas por
um pequeno grupo, que ocupa cargos mais altos na hierarquia dessa organização e que é baseada
no poder das corporações profissionais. Diante disso, processos de trabalho centrados em
procedimentos burocráticos e que se restringem a prescrições, podem ocasionar a fragilização
do envolvimento dos profissionais de saúde com os usuários (BRASIL, 2004).
A categoria em si mesmo foi assim nomeada, para associar as falas que focalizavam os
aspectos individuais de cada profissional, que o faria assumir o desafio do Apoio Matricial. No
entanto, está conectada com a categoria entre os profissionais, pois, os participantes discutem
que para a interdisciplinaridade acontecer, é necessário disponibilidade, envolvimento, afeto,
respeito pela diferença, levando em conta que os profissionais possuem formações diferentes.
Os participantes da oficina discutiram que a formação individual de cada profissional
que na maioria das vezes, segue um modelo disciplinar, é um fator limitante ao exercício do
matriciamento. Além disso, associaram o Apoio Matricial ao “aprender fazendo”, que seria no
cotidiano dos serviços, nas tentativas de ações que suscitaria a sua aprendizagem.
A literatura científica também indica um contexto afetivo. Refere a dependência de certa
predisposição afetiva para que esse trabalho se concretize. Para tomada de decisão
compartilhada é necessário lidar com a incerteza, estar apto a receber e aceitar críticas. É
comum, o profissional cristalizar-se em seu núcleo de saber com vistas a construção de
identidade e segurança, no entanto, em muitos casos, isso é impeditivo para uma interação em
espaços interdisciplinares (CAMPOS, 1999).
Outras discussões (SPINOZA, BELLOTI; LAVRADOR, 2012) acentuam o aspecto
relacional ao afirmarem que o AM, para ter potência, necessita ser capaz de proporcionar trocas
de saberes/afetos, de promover uma abertura institucional e novos agenciamentos, isto é,
conexões entre as mais variadas matérias de expressão.
A lógica de organização do trabalho em saúde a partir das diretrizes do apoio matricial
requer, além da valorização das relações no cotidiano, vínculos afetivos entre profissionais e
usuários, entre os próprios profissionais e, entre estes e os gestores (BONFIM; BASTOS;
GÓIS; TOFÓLI, 2013).

83

A Política Nacional de Humanização compreende que os padrões de relacionamento,
são decorrentes em sua maioria, por estilos de gestão e da estrutura de poder presente nos
serviços. Para evitar uma fragilização desses relacionamentos, esta política incentiva a criação
de equipes de referência e apoio matricial, que por meio delas possa investir na mudança da
estrutura assistencial e gerencial dos serviços de saúde. Produzindo assim, uma nova cultura
organizacional capaz de lidar com a singularidade dos sujeitos (BRASIL, 2004).
Essas discussões presentes na literatura científica corroboram com as falas dos
participantes da oficina, ao situar que o AM além da competência técnica, exige uma
competência relacional. Possibilita uma abertura para o diálogo e para o saber construído
coletivamente, sem descartar o conhecimento nuclear de cada categoria profissional.
Entre as dificuldades de disseminação do AM foram apontados problemas denominados
de estruturais. Em função da necessidade de que, a receptividade também seja incentivada
pelos gestores, por meio de contratos que contemplem essa atividade, na medida em que não
basta uma equipe de atenção primária desejar se relacionar na forma de apoio matricial com
outros serviços. Por outro lado, é avaliado que em muitos serviços há uma abertura para esse
arranjo, visto que relações de Apoio Matricial são construídas em vários âmbitos do SUS,
apesar de pouco investimento de gestores (CUNHA; CAMPOS, 2011). Os autores indicam que
movimentos políticos entre equipes, dentro de um serviço e entre serviços de saúde,
possibilitam a construção de relações de Apoio Matricial na rede assistencial.
Quanto às discussões trazidas pelos participantes da oficina em relação à esfera
individual e a formação, o estudo de Quinderé et al (2013) demonstrou que nem todos os
trabalhadores entrevistados das UBS tinham o conhecimento do apoio matricial e, mesmo
aqueles que conheciam nem sempre se comprometiam a utilizá-lo. Para os autores, há
desinteresse por parte de alguns trabalhadores na condução dos casos de transtorno. No início
da pesquisa de Minozzo (2011) também identificou que os profissionais não conheciam o que
é apoio matricial, tanto a nível conceitual, quanto a nível prático.
As discussões sobre aprender fazendo, foram trazidas pelos colaboradores da pesquisa
quanto à forma de enfrentar o desconhecimento do AM. A pesquisa de Brites et al (2014)
coadunam com esse posicionamento, visto que ao entrevistarem residentes de um Programa
Multiprofissional em Saúde Integral, eles relataram esse mesmo processo de aprendizagem
durante o percurso. Foram convocados a serem sujeitos do seu próprio aprendizado, ao construir
suas funções e experimentar a metodologia do AM, independentemente das condições para tal
apresentarem-se ou não controversas.

84

Todavia, Campos (199) afirma que apesar de “saber aprender e fazer aprendendo”
constituírem-se como belas recomendações, estas implicam em lidar com a polaridade entre
teoria e prática e com a tendência de isolamento em si mesmo dos saberes. Neste contexto, o
autor reflete que a estrutura tradicional de serviços de saúde reforça o afastamento profissional
e reproduz a fragmentação dos processos de trabalho, mantendo inquestionada a hegemonia do
poder médico.
Em relação à categoria “Modelo Proposto”, os participantes referem-se como uma das
dificuldades do matriciamento, a ausência de uma definição mais precisa e mais concisa, o qual
não possui um “o que é e como fazer” delimitados. Diante disso, afirmam que é um modelo
confuso e que necessitaria definir alguns limites para identificá-lo na prática. No entanto, a
partir desse argumento, alguns participantes refletiram sobre a possibilidade desses limites
serem alcançados.
Tocante ao AM se constituir como um modelo confuso, notamos que mesmos os
serviços que já possuem uma prática de matriciamento, não há consenso sobre o apoio matricial
dependendo do direcionamento dado pelos gestores. Alguns teóricos defendem que a equipe de
AM não deve prestar assistência em hipótese alguma à população, outros que devem abrir
agenda e atender as demandas de especialidades, ainda há outros que defendem um equilíbrio
entre essas duas posições (GALVÃO, 2012).
Os participantes da pesquisa mencionaram que o AM veio para mudar o modelo vigente,
no sentido de transição de um modelo disciplinar, derivado da formação, para um modelo
interdisciplinar. Além disso, um modelo que transforma o cuidado, visto que não se busca mais
encaminhamentos desnecessários e acolhe o sujeito. Diante disso, suscita dos profissionais de
saúde uma ação de responsabilidade e compromisso com os usuários. Nesse sentido, o
Matriciamento é situado como um desafio, mas também, um modelo que é necessário.
A proposta recente do matriciamento e a identificação como algo novo também estavam
presentes nos repertórios dos participantes. Diante desse arranjo inovador, eles indicaram a
necessidade de desenvolvimento, circulação e criação de espaços de reflexão nos serviços.
Em consonância, para o matriciamento acontecer, o dia a dia dos serviços de saúde deve
ser permeado por espaços de reflexão sobre as práticas e os saberes desenvolvidos pelos
profissionais, por meio do contato com a realidade da população do seu território de
abrangência. Nesse contexto, os processos de cogestão e de educação permanente são indicados
como facilitadores dessa mudança organizacional (CUNHA; CAMPOS, 2011).
Trabalhar com o AM ou em qualquer serviço de saúde também é lidar com a incerteza
produzida por este campo tão complexo. Para Cunha e Campos (2011) isso é decorrente da

85

própria cultura organizacional desses serviços a qual possui uma baixa capacidade de lidar com
a incerteza, com a interdisciplinaridade e que consequentemente produz uma baixa vocação
para o aprendizado fora do núcleo disciplinar.
Além disso, é muito recente a incorporação pela gestão e o planejamento em saúde de
saberes e técnicas que valorizam a inter-relação entre equipes e população, tomando-a como
um instrumento para a coprodução de novas subjetividades que intervenham nas condições de
vida, de saúde e no processo de adoecimento das pessoas e comunidades (CAMPOS, 1999).
Um modelo que promove a ampliação das práticas clínicas e de Saúde Coletiva
pressupõe, desviar o foco de intervenção da doença ou dos procedimentos, para focar no
usuário, portador de doenças, mas também com outras demandas e necessidades. Constitui-se
como uma prática menos prescritiva para uma mais negociada que, no entanto, não
desconsidera os avanços tecnológicos, nem a importância da qualificação técnica e das
recomendações baseadas em evidências (CAMPOS; FIGUEIREDO; JÚNIOR; CASTRO,
2014).
Esse foco no usuário associado ao matriciamento também esteve presente nas falas dos
participantes da pesquisa, cujos repertórios foram identificados na categoria “Usuário”. O
Apoio Matricial, para eles, necessita de compromisso e respeito com o usuário, identificando
como um desafio a escuta do usuário e a compreensão de que é uma co-construção com esse
sujeito. Inclusive apontaram como uma limitação do projeto piloto, a não inclusão do usuário
na construção dos PTS.
Podemos compreender que direcionar o olhar para uma nova forma de trabalho
centralizada nos usuários, significa reconstruir o cotidiano, à medida que demanda uma adesão
dos profissionais na transformação da rotina de atendimento, no espaço o qual se produz o
encontro com os usuários e no tipo de relação que o profissional de saúde estabelece com os
usuários (PAIXÃO; TAVARES, 2014).
A dicotomia entre a teoria e a prática esteve presente de forma recorrente nas falas dos
participantes da pesquisa, bem como no relato de vivências compartilhadas por mais de um
profissional durante a oficina. Eles discutiram que o modelo proposto para o matriciamento é
diferente da sua aplicação na prática, há uma ausência de concretude e clareza. Mediante esta
ausência, o AM torna-se tão diverso que várias práticas podem ser nomeadas como
matriciamento, não é possível identificar na prática o que é o matriciamento.
Os participantes também se referem que há a necessidade de atribuições claras para os
profissionais, e que muitos, possuem o discurso condizente com o AM, porém, a prática nos
serviços é totalmente diferente.

86

No entanto, outros participantes refletiram que o matriciamento pode ser identificado
por meio dos efeitos produzidos por suas ações. No cotidiano dos serviços, as atividades são
muito superficiais, porém, o AM necessita de um cuidado mais aproximado, exige um
compromisso e responsabilidade dos profissionais. Se estes efeitos são observados, então,
temos uma ação matriciadora.
Em relação às vivências, os repertórios dos participantes focalizaram em relação a
vivência no projeto, retomaram discussões da temática “entre profissionais” ao afirmarem que
aconteceu um espaço de conflitos. Avaliaram esta experiência como positiva, porém, trouxe
mais desafios do que respostas de como se faz realmente o AM. Relataram que os instrumentos
discutidos durante o projeto, como PTS, Genograma entre mais, não fazem parte do cotidiano
dos serviços, por isso, os profissionais não possuem afetividade com estes e não os aplicam.
Alguns participantes questionaram se a prática do NASF era realmente matriciamento.
Como a vivência no projeto foi muito pequena e o AM é algo novo, alguns profissionais falaram
que não há apoio efetivo.
Os binarismos que opõem objetos, conceitos, territórios e como na discussão durante a
oficina teoria e prática, temos ainda saber e poder, indivíduo e sociedade, macro e micro,
interior e exterior entre mais, são baseados em discursos e práticas que acreditam na apreensão
objetiva do ser humano, na natureza específica e identitária dos objetos e nas dicotomias. Essas
dualidades podem ser compreendidas como planos que se cruzam, que se atravessam, que se
complementam, que são múltiplos e impossíveis de serem apreendidos em sua totalidade
(NASCIMENTO; MANZINI; BOCCO, 2006).
A utilização do AM como instrumento concreto e cotidiano pressupõe certo grau de
reforma ou de transformação do modo como se organizam e funcionam serviços e sistemas de
saúde (CAMPOS; DOMITTI, 2007). Constitui-se como um novo arranjo, que estimule,
cotidianamente padrões de inter-relação entre equipe e usuários, amplie o compromisso dos
profissionais com a produção de saúde e ultrapasse obstáculos organizacionais à comunicação
(CAMPOS, 1999).
Não é incomum no campo da saúde a defesa de conceitos e definições precisas. Uma
advocacia por procedimentos e técnicas que possam ser aplicadas em qualquer contexto. O
desejo por manuais ou cartilhas que possam guiar nossas práticas, que digam o que devemos
fazer com os usuários. Nesse contexto, não é de se estranhar uma dificuldade de aplicar o Apoio
Matricial na prática relatado pelos participantes, visto que, este arranjo não tem e nem pretende
ter um manual que diga como deve ser feito e aplicado em qualquer serviço.

87

A existência desse manual ou cartilha seria apenas uma falácia. A precisão e
delimitação, ao invés de nos libertar, nos aprisionam em práticas prescritas. O Apoio Matricial
é um conceito em construção, que deve ser fluido e leve para trabalhar com a imprevisibilidade
dos serviços de saúde. É uma cilada pensar o AM como único e universal. Fluidez no sentido
oposto de superficial. “Sentido oposto a vago e impreciso, leveza, desta forma, nos remete à
produção de singularidades. Sermos precisos no trato com o outro. Estabelecermos uma relação
singular. Não a precisão do cálculo, do duro, da certeza, mas a precisão da pluma que é o fiel
da balança” (BERNARDES; RIBEIRO, 2013, pág.5). Podemos pautar o matriciamento em uma
relação de leveza e cuidado, um cuidado singular que se modifica de usuário a usuário, de
serviço a serviço e de profissional a profissional.
Em uma pesquisa com equipes de SF (BELOTTI; LAVRADOR, 2012), os
pesquisadores identificaram que estas equipes estão presas pelo instituído, e muitas vezes, a
atuação capturada por regras e protocolos. Resultando assim, uma dificuldade em acolher
situações novas, que estão “exteriores às regras”. As autoras atribuem este desafio de acolher a
loucura à falta de capacitação em Saúde Mental e de acordo com os relatos de alguns
profissionais entrevistados há insuficiência na formação acadêmica. Elas compreendem,
mediante contribuições de Spinoza, que o permanecer “preso às regras” não permite ao
profissional experimentar a suavidade dos encontros, deixando seus “olhos vendados” para o
inusitado. Estar aberto para a diferença fomenta se deixar afetar pelas forças provenientes de
um encontro capaz de criar novos agenciamentos, novos sentidos e outras possibilidades de
vida (BELOTTI; LAVRADOR, 2012).
Estar “preso às regras” é proveniente de uma cultura organizacional com baixa
capacidade para lidar com a incerteza e com a interdisciplinaridade própria dos problemas
complexos do campo de saúde. Assim, produz uma baixa capacidade para o aprendizado fora
do núcleo disciplinar. A eliminação da incerteza acontece de forma muitas vezes artificial, pela
simples focalização e negação de variáveis. A identificação desse desejo de exclusão da
incerteza, assim como dos interesses e disputas entre as profissões de saúde e também dos
investimentos e as identificações grupais, sentimentos gregários entre forças comuns, podem
ajudar na modificação do modelo de gestão e de atenção. Investir na transformação
organizacional não indica desconhecer esses fatos nem negar a disputa e os conflitos presentes,
pelo contrário, significa reconhecê-los, visibilizá-los e criar espaços necessários para que
possam ser trabalhados na roda (CUNHA; CAMPOS, 2011).
Não é tarefa fácil sair do lugar seguro e das certezas que a formação tradicional oferece,
e muito menos, não ocorre sem crises. Como o Apoio Matricial não fornece um espaço

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instituído e prescritivo ocasiona dúvidas, angústias e medos. No entanto, ter acesso desde a
graduação a uma problematização de práticas e saberes e especificamente no caso da Psicologia
discussões que promovam sua reinvenção é fundamental para construir autonomia e segurança
nas decisões e análises (NASCIMENTO; MANZINI; BOCCO, 2006).
Podemos compreender que o AM, por meio da porosidade dos seus encontros, pode ser
um dispositivo importante na (re) criação de práticas que permitam um (re) pensar fora das
regras, protocolos e do campo das certezas, abrindo, assim, espaço para o inusitado e
produzindo novos agenciamentos no cuidado em saúde (BELOTTI; LAVRADOR, 2012).
Não negamos a importância de certos manuais, afinal eles são guias para muitas ações
e possibilitam reflexões sobre nossas práticas; contudo, eles não podem ser um fim em si
mesmo. Devem ser abertos, assim como o Apoio Matricial, a uma leitura do cotidiano. As
delimitações podem ser formuladas pela própria equipe e usuários. Nossa precisão deve ser o
trato com o outro. Como Eliane trouxe em vários momentos de sua fala, temos que pensar em
produzir uma clínica a partir das demandas dos usuários, e não apenas, dos profissionais ou dos
manuais.
Ao analisar os repertórios utilizados pelos participantes, podemos visualizar a
multiplicidade de formas que os profissionais utilizam para definir e compreender o AM.
Multiplicidade esta, compreendida a partir de Anemarie Mol. A pesquisadora e filósofa discorre
em sua obra The body multiple: ontology of medical practices sobre a diversidade e
multiplicidade da doença arteriosclerose, ou melhor, as várias arterioscleroses, em um hospital.
Ela traz à cena vários atores e não concebe tal objeto como dado de antemão (CORDEIRO;
SPINK, 2013).
Ao estudar o diagnóstico dessa doença, a autora a acompanha por vários métodos como
exames clínicos, laboratórios, conversas com médicos e técnicos e vários setores do hospital.
Nesses diversos contextos, a arteriosclerose era performada de diferentes maneiras, ou seja,
afirma que as práticas que fazem essa doença no consultório clínico e no laboratório de
patologia são diferentes. Assim, Mol desestabiliza certezas e torna complexa essa realidade. E
acima de tudo, visibiliza as diferentes versões do mesmo fenômeno.
Assim como a arteriosclerose, podemos analisar o Apoio Matricial, e suas versões a
partir dos repertórios linguísticos compartilhados pelos profissionais durante a oficina. Aqui,
podemos pensar versões como práticas discursivas que performam, produzem realidades. Essas
versões mudam a partir dos lugares de tal modo que versões de um mesmo fenômeno podem
ser praticadas de modos distintos em diferentes contextos.

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Não cabe aqui apontar quais repertórios estão corretos e quais errados. Não é esse tipo
de conhecimento que queremos construir. Porém, podemos indagar o que se produz a partir
dessas versões.
A implantação do Apoio Matricial tem o suporte da literatura técnico-científica, mas é
dependente dos contextos locais. Essa literatura aponta alguns caminhos, direções e princípios,
no entanto, o que é produzido no cotidiano dos serviços que pode assegurar sua efetivação. Esse
cenário é produtor de tensões, tensão entre o que é prescrito e os contextos.
Spink (2010) discute essa questão ao afirmar que a prática no contexto de saúde vai
além da simples aplicação de técnicas baseadas em perspectivas teóricas. São necessárias,
porém, devem ser adaptáveis e flexíveis para conseguirem ser capazes de lidar com os aspectos
multidimensionais do campo da saúde.
Como foi discutido pelos participantes, uma das condições necessárias ao matriciamento
é se naquele serviço os profissionais, as práticas e os usuários formarem uma rede de
compartilhamento. Porém, não é simples compartilhar, podemos questionar onde é possível
matriciar. Para tal é necessário observar as características organizacionais dos serviços, nos
quais ocorrem os encontros de matriciamento.
Outra contribuição de Mol a qual podemos dialogar com nossa pesquisa, é o termo
lógica da escolha. No livro Logic of Care, publicado em 2008, a pesquisadora ao estudar a
diabetes, por meio de um estudo etnográfico, contrasta duas maneiras de lidar com a doença: a
lógica do cuidado e a lógica da escolha (logic of choice). “A autora adverte que lógica, no caso,
não se refere a regras de raciocínio, como na filosofia, mas aos modos de ordenação, que se
tornam mais compreensíveis quando comparados a outras lógicas, como a do cuidado” (SPINK,
2015).
A lógica da escolha possui duas vertentes: a do mercado e da cidadania. A primeira trata
os pacientes como clientes, e a segunda, focaliza os pacientes como cidadãos portadores de
direitos.
A linguagem predominante na da lógica da escolha, é a do mercado. As pessoas têm
direito de obter aquilo pelo qual pagaram, assemelhando-se assim ao direito dos consumidores,
portanto, deveria seguir a demanda. Na vertente da cidadania, “as relações entre as pessoas são
referidas como ‘contratos’. É nesse contexto que emergem leis que regulam as relações entre
profissionais e pacientes-cidadãos” (SPINK, 2015, pág. 119).
Em qualquer dessas duas versões – a do mercado ou a da cidadania –, na lógica
da escolha, a informação científica é concebida como uma coleção crescente
de fatos que, gradativamente, aumentam a certeza na tomada de decisão.
Nesse sentido, a função dos profissionais da saúde é fornecer informação aos

90

pacientes. Com os fatos devidamente delineados, alguém tem que definir o
valor de diversos cursos de ação (SPINK, 2015, pág.120).

Em contraste, a lógica do cuidado é um processo aberto, no qual o que é válido são os
resultados e como as tarefas são organizadas entre os vários atores. As pessoas buscam ajuda
porque sofrem e não há passividade nesse processo. “Na lógica da escolha, as pessoas são
consideradas iguais; na lógica do cuidado, não: as pessoas têm necessidades distintas de modo
que adição e divisão não estão em pauta, mas sim, diferenciação e especificidade” (SPINK,
2015, pág.120).
Diante do exposto, podemos relacionar com o AM, para analisar as lógicas envolvidas
e explorar o contexto. Se refletirmos sobre a própria terminologia do AM está situado
necessariamente na lógica do cuidado. No entanto, ele é feito por pessoas e por materialidades
(sim, é feito por várias materialidades, como a sala de reunião, os prontuários, entre mais) e
circularmos por essas concretudes, não é algo fixo. Porém, ao refletirmos sobre a lógica do
cuidado podemos focalizar nas especificidades da vida daquele usuário. Então, novamente, não
tem como dissociar o AM das práticas. É sobre isto que iremos discutir no próximo tópico.

3.5. Segundo momento da Oficina: Identificando práticas que se caracterizam como Apoio
Matricial
Para o segundo momento da oficina, distribuí folhas de papel tamanho A4 e solicitei aos
participantes, que pensassem sobre todo percurso profissional e diante disso escrevessem
atividades desenvolvidas que poderiam ser caracterizadas como sendo de apoio matricial.
Posteriormente à finalização da escrita de todos os participantes, peço novamente que
compartilhem o que foi escrito.
Eliana (Assistente Social – Atenção Básica) é a primeira a se pronunciar. Cita
instrumentos indicados pelo modelo proposto do matriciamento os quais foram utilizados
durante sua vivência no projeto piloto, como a escuta qualificada, afirmando que não é
simplesmente ouvir o usuário, porém deve existir um respeito diante dessa fala, como religião
e formas de se expressar. O segundo instrumento é o atendimento compartilhado afirmando
que está tentando implantá-lo em sua unidade. Exemplifica que quando vai realizar um
atendimento questiona os outros profissionais se gostariam de estarem presentes, porém, indaga
ao usuário se esse permitiria a presença de outro profissional no atendimento. O terceiro é a
Visita domiciliar na presença de outros profissionais. Relata que esse tipo de visita é muito
presente no NASF, mas mesmo assim, pede a permissão do usuário para receber outros

91

profissionais em sua residência. Por último, fala sobre a necessidade da construção do PTS, ao
relatar que há momentos em que a equipe quer delimitar uma atividade ou instrumento à
determinada profissão. Utiliza como exemplo, os outros profissionais acreditarem que apenas
o serviço social pode resolver, nos casos em que há uma questão social envolvida, mas diz que
tenta refletir com a equipe a necessidade de todos discutirem, assim como foi feito no projeto
piloto “Matriciamente” e incorporar isso como um compromisso de todos os profissionais (327348).
Assim como no primeiro momento, o foco do discurso de Eliana são ações voltadas para
o usuário. Pontua sobre tecnologias do modelo de AM vivenciadas durante o projeto piloto,
como escuta qualificada; visita domiciliar; NASF; atendimento compartilhado e PTS.
Assim como Eliana, Rebeca (Assistente Social – Gestão) entra no diálogo,
compartilhando experiências proporcionadas no projeto. Afirma que por estar na posição de
gestora, não tem aproximação com os usuários. No entanto, com a participação no projeto
“Matriciamente”, cita as tecnologias do AM, como discussão de caso, PTS e o processo de
educação permanente. Refere que nessa vivência identificou que o AM também é um espaço
pedagógico, visto que é um espaço de permuta de saberes. Especificamente em relação à gestão,
reflete que o papel como gestora seria de estimular que os profissionais do NASF e do CAPS
realizem o matriciamento. Afirma que não é um processo fácil visto que a prática do
matriciamento ainda está em construção e consolidação.
Ao se posicionar como profissional de saúde, “profissional que está na ponta”, Rebeca
também sinaliza tecnologias do AM, no entanto, exalta o momento de troca e permuta de
saberes entre os profissionais, o espaço pedagógico desse arranjo para a aprendizagem dessas
tecnologias. Ao se posicionar como gestora, compreende que a gestão promove ação
mobilizadora nas equipes, como uma facilitadora do processo de matriciamento.
Em contraste à descrição de tecnologias do AM escolhidos por Rebeca e Eliana, Márcio
(psicólogo – Saúde Mental) relata suas vivências em um trabalho conjunto, compartilhado por
vários serviços. Ações estas que, segundo ele, foram marcantes durante seu percurso
profissional. A primeira delas, foi sobre como a equipe do CAPS e do conselho tutelar se
reuniram de forma não planejada, para discutir e solucionar um caso de uma adolescente (383401). A segunda, referiu-se à experiência de uma visita domiciliar em conjunto que também
não estava planejada. Para exemplificar trazemos um trecho da fala de Márcio sobre essa visita:
E uma visita domiciliar que eu fiz né, junto com a equipe do CAPS e a equipe
do outro CAPS, que a gente tava numa festa do outro CAPS, foi levar uma
usuária através do outro CAPS. Aí quando chegou lá, disseram assim: “olha
tem uma usuária que tá em surto”. A coordenadora do outro CAPS disse: “mas

92

a gente tá aqui sem psicólogo sem quase ninguém pra ir”. Aí a gente disse:
“não, a gente vai”. Mas, é capaz dela me colocar pra fora porque eu não
conheço a paciente, mas vamos lá. Aí quando a gente foi, foi muito bom, muito
bom. Tinha um cachorrão solto né, lá dentro da casa. Aí a gente disse: “segura
o cachorro que eu entro”. Aí segurou o cachorro e a gente entrou. Aí
conversamos muito, tanto a usuária do outro CAPS como a coordenadora do
outro CAPS, como a equipe da gente. Conversamos, partilhamos, buscamos
uns caminhos que poderia, traçamos caminhos juntos, entendeu da medicação,
do técnico de referência. Ela disse que: “Eu tô em falta com o técnico de
referência que ele tá de férias”. E aí quando a gente saiu e tal, a situação parece
que foi algo leve pra mim nesse sentido e uma vivência muito bacana (Márcio,
401-414) [grifo nosso].

Por último, Márcio relata sobre a implantação de uma roda de conversa com os serviços
de saúde do município, no qual trabalha. Esse encontro objetivou a discussão da construção da
rede de serviços de saúde e como os profissionais poderiam operacionaliza-la da melhor
maneira possível. Afirma que essa foi a primeira ação que iria nos relatar, porém, durante a
discussão lembrou de outras atividades e essa foi relatada por último (414-427). Entendemos
que o matriciamento para Márcio, a partir de suas vivências, consiste em ações compartilhadas
por profissionais e que essas ações promovem a construção de um saber que se produz no
encontro.
Fernando (Psicólogo – Gestão) ao se posicionar como gestor, relata uma vivência no
projeto “Matriciamente”, do qual participou. Afirma que por meio do projeto foi transmitido às
equipes de referência, tecnologias e modos de fazer: “(...) levar expertise dos profissionais para
aquela unidade pra que a gente possa dar novos rumos, novas condições, novos direcionamentos
para os casos de saúde mental que as equipes de atenção básica tem uma dificuldade de lidar”
(435).
Posiciona-se também como profissional de saúde, ao relatar uma vivência quando
trabalhava em um CAPS. Conta o caso de uma idosa, portadora de transtorno mental, sobre a
qual, o CREAS13 havia recebido uma denúncia de violência. Inicialmente, o CREAS escolheu
como estratégia o encaminhamento para o CAPS, porém, a última equipe decidiu realizar uma
reunião em conjunto para a discussão do caso e construíram um PTS. Fernando afirma que
houve uma troca de expertise, tecnologias, dispositivos e ferramentas e que isto foi fundamental
para a condução do caso, visto que se apenas o encaminhamento tivesse sido efetivado, o CAPS
não teria condições de fornecer o que foi proporcionado pelo trabalho em conjunto. Por fim,
afirma que o intercâmbio de ferramentas é característica do AM (437-451).
(...) trocou experiência profissional, trocou expertise, trocou tecnologias,
dispositivos, ferramentas. Isso eu acho que foi o mais interessante e foi
13

Centro de Referência Especializado de Assistência Social

93

fundamental inclusive pra abrir o caso. Se o caso tivesse sido encaminhado
pro CAPS, o CAPS não teria condições de dar àquela senhora, o atendimento
ou encaminhamento que ela teve do trabalho em conjunto. Nem o CREAS e
nem o CAPS e a gente não conseguiria fazer independentes um dos outros,
nem que somasse as ações do CAPS e as ações do CREAS, não daria o mesmo
resultado. Então, acho que foi muito bacana essa experiência, que eu acho que
a característica de apoio matricial é essa, esse intercâmbio de ferramentas
(Fernando, 446) [grifo nosso].

Neste momento, quando Fernando se posiciona como profissional de saúde notamos
uma contradição em sua fala. No primeiro momento da oficina, o participante buscava uma
definição única de matriciamento, mas ao mudar seu posicionamento e relatar sobre vivências,
caracteriza o matriciamento, assim como Márcio, a partir de um sistema de compartilhamento
ou troca com outros profissionais e outros serviços. Portanto, uma saber que se constrói em
conjunto, que perpassa o “entre” os profissionais e não um saber que está “nos” profissionais.
Após Fernando, Janaína (Educadora Física – Saúde Mental) relata vivências
construídas durante o projeto piloto “Matriciamente”. Considera o projeto piloto como uma
experiência efetiva de AM. Pontuou as discussões de caso com a equipe de Apoio Matricial e
a equipe de referência (ER). Relata que, inicialmente, a ER não compreenderam que a equipe
de AM iria discutir os casos, e sim, esperavam que solucionaria os problemas da unidade ou
atenderia individualmente, os usuários com diagnóstico ou prováveis portadores de transtornos
mentais. Afirma que os agentes de saúde estavam muito resistentes a realizar esse tipo de
atividade (477-484).
No entanto, Janaína refere que durante o projeto foram construindo a discussão de caso
com os profissionais da ER considerando que aqueles olhares diferentes iriam enriquecer os
modos de fazer. Com o decorrer do tempo, observaram que a ER utilizou como base as
discussões realizadas durante as reuniões de AM, em ações com outros casos não discutidos
pelo matriciamento (485-492). A segunda atividade relatada foi a construção do mapa do
território, na qual a equipe de AM participou ativamente. Ela afirma que tal momento foi muito
importante visto que a equipe do CAPS no qual trabalha conseguiu conhecer o território14 (492499).
Por fim, ela traz a participação no planejamento da unidade, o qual a equipe de AM
estava co-construindo com a equipe da UBS, discutindo sobre ações de saúde mental e
principalmente reafirmando que saúde mental é feita no cotidiano (499-507).

14

O CAPS que Janaína trabalha pertence ao mesmo território da Unidade Básica que foi contemplada no projeto
“Matriciamente”.

94

E a última foi a participação no planejamento. A gente tava lá no
momento de planejamento da unidade e eles não conseguiam enxergar que
ações tinham um componente de saúde mental. E aí a gente conseguiu criar
um diálogo sobre isso, que a visita, né, tem esse componente de você cuidar
da saúde mental do outro, que a conversa, que a escuta qualificada de você
estar atento realmente aquela demanda também são ações de saúde mental
dentro da unidade. Então a nossa participação no planejamento, pelo que eles
disseram, clareou um pouco que a gente faz saúde mental todos os dias né.
Acho que essa discussão foi muito rica e não foi exatamente uma discussão, a
gente tava ali vivendo o planejamento e eles trocaram isso conosco (Janaína
499-507) [grifo nosso]

Assim como Márcio e Fernando, Janaína não relatou apenas atividades que na
literatura técnico-científica são consideradas tecnologias propostas pelo matriciamento, outras
ações possibilitaram uma discussão sobre o campo da saúde mental. O projeto piloto foi o
disparador para muitas atividades, no entanto, na fala de Janaína também está presente, o
matriciamento como um compartilhamento e construção conjunta entre os profissionais.
Um ponto a se destacar na fala de Janaína é sua ênfase no processo de aprendizagem
também da equipe de matriciamento, ressaltando que o compartilhamento e troca de saberes
proporcionou aprendizagem a ambas as equipes.
Patrícia (Psicóloga – Atenção Básica e Alta Complexidade) indica que seu olhar é
diferente de todos os participantes, visto que para o profissional que não é do NASF ou que não
participou do projeto, o matriciamento é uma proposta muito nova (509-511).
Ao refletir sobre sua vivência na Alta Complexidade, Patrícia refere-se aos
encaminhamentos para a rede municipal de saúde, como o CAPS, no entanto, afirma que após
o encaminhamento não há um acompanhamento desse usuário. Apenas em um serviço de
assistência ao suicídio, o qual há um documento ou ficha para o encaminhamento, é possível
saber sobre o desenvolvimento dos atendimentos. Afirma que há também a discussão de caso
como uma proposta da educação permanente, porém, em sua opinião, é preciso se avançar
muito na interdisciplinaridade no hospital (513-527).
Ao refletir sobre a Atenção Básica, indica novamente a ação dos encaminhamentos,
visto que sua prática se concentra na psicoterapia. No entanto, como não consegue atender toda
a demanda, encaminha aquele usuário com sofrimento psíquico ou que tenha algum “distúrbio”
para outros serviços, como por exemplo, um CAPS. Para ter uma continuidade do
acompanhamento, Patrícia realiza ligação telefônica para o serviço que o usuário foi
encaminhado. Cita a visita domiciliar e discussão de caso, porém afirma que a equipe não
sabe direito como realizá-los, ao dizer: “Lógico que a gente discute caso, algumas vezes a gente
faz visita domiciliar também, mas meio que a gente faz sem saber o que, tá entendendo, a gente

95

não sabe, faz porque enfim né... a gente tem uma responsabilização. Eu acho que é isso que a
gente tem, a gente tem que se responsabilizar pelo outro” (536).
Assim como no primeiro momento, a insegurança mostra-se bastante presente na fala
de Patrícia. Podemos evidenciar isso nos trechos: “Isso é o que a gente faz lá viu gente? Se é
ou se não é, eu não sei, mas é o que a gente faz” (520). Avalia como suas vivências se
aproximam do matriciamento, pois, há um encaminhamento responsável, há um compromisso
com o usuário, porém, a tentativa de construção de rede é realizada individualmente.
Após Patrícia, Karla (Psicóloga – Residente) traz as suas experiências tanto no projeto
piloto “Matriciamente” quanto na residência, em relação à atuação junto ao NASF, que
caracteriza como de apoio matricial. Pontua a discussão de casos realizada apenas no projeto,
a construção do PTS realizada no projeto e na residência. Porém, na última, ela avalia que falta
uma integração mais efetiva da equipe. Atendimento Integrado, experiência a qual teve tanto
no projeto quanto na residência e o planejamento em conjunto das ações (545-558),
apontando este último como essencial, visto que as ações ainda são muito fragmentadas, como
relata no trecho seguinte:
O planejamento das ações nos serviços, porque, em geral, a atuação do NASF
é muito fragmentada né. O NASF vai pro serviço pra fazer o grupo, NASF vai
pro serviço pra fazer sala de espera e é o NASF que faz e não dialoga com a
equipe, porque não há um planejamento né. É tipo, vai ter ação tal dia e o
NASF vai lá e faz, então é tudo muito separado. A gente já tem conseguido
avançar um pouco, nesse sentindo de planejar junto com a equipe do serviço,
pra que aconteça uma participação dos profissionais dos serviços também
(Karla, 554-560).

Assim como Márcio, Karla também ressalta atividades não planejadas, como diálogos
com os profissionais. Afirma que esses diálogos se coadunam com a fala de Rebeca sobre
educação permanente, reflete que nem sempre há um espaço para a discussão de caso como
uma atividade planejada. Então, o fato de realizar uma visita domiciliar em conjunto e após esta
dialogar por poucos minutos, já seria apoio matricial (560-568).
Karla pontua sobre discussão com a equipe sobre processos de trabalho, referindose a uma vivência específica do projeto piloto na qual as equipes, tanto de ER quanto de AM,
refletiram sobre a inserção da equipe de AM no serviço, realizando uma avaliação de pontos
positivos, negativos e o que poderia ser melhorado. Por último, fala sobre a realização de
atividades e ações em conjunto, que retoma o que foi afirmado acima sobre o planejamento
de ações, de construir atividades em conjunto nas quais ambas as equipes participem e
compartilhem saberes (568-575).

96

Portanto, Karla denomina como AM, as ações nas quais há uma relação de troca entre
os profissionais, um compartilhamento de saberes, contrapondo-se a ações cindidas e
fragmentadas.
Após Karla, Amália (Psicóloga – Saúde Indígena) inicia seu relato afirmando sentir um
estranhamento em relação aquele momento. Justifica este sentimento a partir do final da
primeira parte da oficina, que provocou nela a necessidade de questionar os participantes, se
eles vivenciavam o Apoio Matricial de fato, visto que a partir de sua experiência, o
matriciamento estava tão concreto e tão certo. Após o primeiro momento da oficina, começou
a sentir um estranhamento e se questionar o que era o AM. Notou também como a Saúde
Indígena está separada do cotidiano de outros serviços e possui siglas 15 diferentes que não são
compartilhadas por outras políticas.
Porém, Amália afirma que no seu cotidiano de serviço consegue promover o diálogo e
realizar o Apoio Matricial por um inter-relacionamento, o que segundo a participante deve-se
ao fato da população indígena ser mais restrita.
Em relação às ações, Amália pontua encontro entre as EMSI16 que é promovido pela
coordenação explica que é uma reunião de atenção psicossocial entre psicólogos e assistentes
sociais e a sede17. Nessa reunião, há compartilhamento de ideias, experiências e angústias e por
isso, considera essa ação como sendo de AM. Afirma que esse encontro também é um momento
de acolhimento e desabafo visto que o trabalho com a população indígena causa adoecimento
nos profissionais, por ser, muitas vezes, além de cansativo, uma população de muita cobrança
em relação ao trabalho realizado pelos serviços e profissionais (618-623).
Reflete que uma ligação telefônica para a coordenadora da Atenção Psicossocial pode
ser considerada como uma atividade de AM. Relata que quando está em uma situação e que
esta ocasiona angústia ou dúvidas, tem a liberdade de ligar para a coordenadora para um
momento de orientação. Nesse contexto, Amália refere-se não se sentir em uma relação de
hierarquia com a coordenação (623-632).
Outra ação referida por esta participante é a visita dos apoiadores de polo18 ao polo
base. Esses apoiadores convocam uma reunião com os profissionais. Nesse momento há escuta
e discussão de caso (632-637) e desenvolvimento do PTS de fato com a presença da EMSI,
15

Amália explica que a Saúde Indígena é via Ministério da Saúde, abaixo tem a SESAI Secretaria Especial de
Saúde Indígena e tem os DSEIs os quais são os distritos sanitários de saúde indígena que são estaduais. Há os
polos bases que são as unidades de PSF que ficam nos municípios do interior do Estado.
16
Equipe Multidisciplinar de Saúde Indígena
17
Amália explica que sede no caso da Saúde Indígena seria a coordenação geral a qual ficaria na capital do Estado.
18

Cada profissional da sede fica responsável por um polo.

97

família e paciente. Amália traz um relato de uma gestão muito próxima aos serviços e
profissionais, que acompanha as atividades e fornece um suporte. É por esta razão que Amália
afirma que vivencia de fato o Apoio Matricial. Acredita que o profissional que trabalha na
unidade básica de saúde não tem esse retorno da gestão. Patrícia concorda com essa pontuação.
Amália confessa sua dificuldade em trabalhar com esse serviço no início. O desafio
incidiu em romper com o modelo tradicional de atendimento individual, segundo o que diz:
“(...) quando eu cheguei eu tive uma dificuldade muito grande que queriam me colocar só na
parte de atendimento individual e pra eu conseguir sair desse lugar, quebrar com isso, foi muito,
muito complicado” (650).
Assim como para outros participantes, para Amália o matriciamento está configurado
nas ações em que houveram um compartilhamento entre os profissionais. Portanto, Amália
compreende o Apoio Matricial no âmbito relacional e do micropolítico.
O relato de Amália provoca um ponto de ruptura na oficina, pois, a partir dela, os
participantes iniciam uma disputa de versões de matriciamento, como veremos a seguir.
Márcio inicia a discussão, indagando Amália sobre a sensação de estranhamento
relatada por ela no início e qual seria a visão dela de matriciamento e o que foi dito na oficina
que a fez refletir sobre a conceituação de matriciamento (660-664).
Amália responde a Márcio, que consegue identificar atividades de AM as quais outras
pessoas não as denominam como tal. Por não possuir uma delimitação fechada de
matriciamento, acredita que eles [os participantes da oficina] desenvolvem o AM, no entanto,
não utilizam esta nomenclatura (665-669).
Luan (Enfermeiro – Residente) responde a Márcio e Amália, afirmando que Amália
seria humilde por ela visualizar ações de matriciamento no cotidiano, enquanto outros, podem
ter as mesmas vivências, porém, esperam que o matriciamento se constitua como algo muito
maior (672-674).
Patrícia concorda ao se pronunciar dizendo que: “Quando é esse fazer do dia-a-dia,
cotidiano, fica muito claro pra mim agora, ficou muito claro pra mim o que é, que eu já faço
em alguns momentos e talvez na minha prática sendo que eu não sabia nomear” (677-679).
Nesse momento, notamos uma mudança no posicionamento de Patrícia, que
inicialmente se sentia insegura ao relatar suas ações. Contudo, após a fala de Amália consegue
identificar atividades do seu cotidiano de serviço como sendo de matriciamento.
Amália complementa a fala de Patrícia, ao relatar que ao estudar o campo da Psicologia
tinha uma dificuldade em buscar uma concretude dessa área e não obtê-la, diante disso,

98

atualmente aceita o abstrato desse campo. Nesse contexto, visualiza outros movimentos com
maleabilidade (680-688).
Luan busca explicar a fala de Amália, ao argumentar que a nomeação e a participação
em um projeto sob o título de matriciamento, faz com que as pessoas identifiquem que aquelas
ações realizadas por este projeto como sendo de fato AM. Já outras experiências que não
possuem o nome Apoio Matricial, não fica visível identifica-la como ações de matriciamento
(689-696).
Rebeca também responde a Amália sobre as relações horizontalizadas da gestão.
Considera que a população adscrita pelo serviço de Amália é menor, então, há uma facilidade
em identificar as ações de matriciamento, enquanto que na capital seria mais complicado, visto
que em termos populacionais é muito maior. Amália concorda com Rebeca, no entanto, o foco
da última é no sentido de produzir uma justificativa da gestão (697-701).
Luan pronuncia-se novamente e questiona Amália se há uma troca e integralidade entre
vários tipos de serviços diferentes além das relatadas por ela19? (704-708) Amália responde
que nesse caso depende do profissional; no entanto, assim que começou a trabalhar nesse
serviço, buscou formar uma rede com outros profissionais e instituições (709-714).
Márcio incita outra discussão ao solicitar uma reflexão, retomando a colocação inicial
de Fernando, demarca que há dois posicionamentos: um que considera pequenas atividades
como matriciamento e o outro em que o AM é algo um pouco além disso. E questiona se seria
o caso de uma delimitação conceitual.
(...) porque assim quando Fernando coloca que a dificuldade
conceitual em si talvez né é o que ela (Amália) colocou agora também. Pra
ela, por exemplo, algumas pequenas ações já faz parte do apoio matricial e pra
outros não. Pra outros, isso faz parte de um outro trabalho, que matriciamento
é um pouquinho, é algo a mais que isso. Vê o matriciamento como algo a
mais que isso, então assim, seria realmente algo conceitual como a
coordenadora colocou no início não existe certo e errado. Existe aqui opiniões
e formas de compreender diferentes. Essas formas de compreender diferentes,
aquilo que tá posto sobre matriciamento, até pra quem leu, pra quem
participou e até quem nunca ouviu falar, é uma coisa né? E pra outros é outra.
Então, eu acho que talvez retoma o que Fernando colocou a questão de ter
algo mais delimitado conceitual, né (Márcio, 715-725).

Fernando, então, responde ao questionamento de Márcio e ao relato de Amália,
considerando que, para ele, a ação de fazer um contato telefônico para discutir um caso com a
coordenadora, não é AM, e sim, supervisão de caso. Nesse momento, questiono a Fernando
se a supervisão de caso não envolveria o AM (729). Fernando então responde:

19

Troca entre um polo e outro, e entre a coordenação geral dos polos e os polos.

99

Não sei. Assim, acho que não. Eu acho que matriciamento tem a ver
com você solicitar um apoio sobre algo que foge da sua competência
profissional, institucional né. Por exemplo, a unidade básica solicitando apoio
ao hospital, por exemplo, a atenção hospitalar ou resolver um caso sei lá de
alguém que tá acamado em casa né (Fernando, 730-734).

Amália responde que em sua opinião, essas ações estariam ligadas à Rede de Atenção
Psicossocial (RASP) (735). Luan então questiona a fala de Fernando, ao perguntar se ele não
estaria buscando uma formalidade das ações, pelo fato dele ser da gestão (739).
Fernando responde que não seria o caso de formalidade, mas, solicitar um apoio de
alguém ou serviço que tenha expertise maior na tua área de competência. Fernando situa o
matriciamento fora da sua própria lógica, visto que este arranjo não busca estabelecer relações
de saber umas maiores que as outras, ou seja, relações hierárquicas.
Aquela pontuação de Fernando incita uma discussão em que alguns participantes
começam a falar ao mesmo tempo. Então, pontuo que aquele momento é para dialogarmos e
que há compreensões diferentes sobre o processo (744-746).
Então, Fernando responde a minha fala ao afirmar que o problema consiste em não
chegarmos a um consenso sobre o que é o matriciamento, e os componentes que fazem parte
desse arranjo:
Eu acho que é um problema a gente dizer eu entendo que isso é, ou
você dizer que entende e eu dizer que não entendo. Há um problema aí. Esse
é o problema, não é que seja ou não seja. Não é esse o maior problema, o
maior problema é que a gente não entenda, não chegue um consenso sobre o
que é. Isso é supervisão? Ou supervisão é componente do matriciamento? Não
sei. Isso é um problema né. Se é ou não é, não é o maior problema, o maior
problema é a gente não ter aqui um.. (Fernando, 747-752).

Nesse momento, ocorre uma controvérsia de versões durante a oficina. Especialmente
sobre quem pode nomear ações de matriciamento (que não precisa vir de algo superior) e
acontece mesmo sem essa nomeação. Há uma disputa do que é matriciamento e do que não é.
Como Márcio pontuou há duas versões sobre o matriciamento: uma que dialoga com a proposta
de tecnologias com compartilhamento entre os profissionais e construção de uma relação não
hierárquica. E outra por uma versão única, uma verdade.
Márcio complementa a fala de Fernando dizendo que são questões conceituais (753).
Logo em seguida, Luan responde a Fernando sugere uma saída para o dilema, propondo
nomear o matriciamento a partir de um objetivo, que consistiria na troca de experiências e um
apoio técnico-pedagógico, e qualquer estratégia utilizada que alcançasse esse objetivo ou
resultado já pode ser denominada como AM. Faltaria, apenas, estabelecer os limites dessa troca,

100

como “tem que ser de uma área pra outra, que até ponto tem quer ter dependência institucional”
(755-759).
Eliana (Assistente Social – Atenção Básica) se pronuncia novamente expõe que após
as pontuações de Fernando na primeira parte da oficina, pensou: “Meu Deus não é possível que
há nada de matriciamento nisso” [ri]. Ela relata novamente sobre sua vivência no projeto piloto
e seu cotidiano na Unidade Básica. Afirma que no início do projeto, era muito resistente a
realizar atendimentos conjuntos, cita até a questão do sigilo. No entanto, foi por meio do projeto
e da vivência do matriciamento que este posicionamento se modificou. Para ela, o
matriciamento também é essa mudança, essa transformação, como ela afirma:
(...) eu acho que talvez, não sei, o que eu tô vivenciando na atenção
básica eu acredito que isso é, eu vejo como um apoio matricial, quando isso
também muda o meu olhar no atendimento. Eu tinha até um receio: “poxa,
chamar outro profissional pra fazer um atendimento compartilhado, a questão
do próprio sigilo”, mas isso foi mudando e eu vi a necessidade, então isso veio
do projeto (Eliana, 776-780).

Portanto, esta experiência modificou a sua forma de trabalhar. Concorda com a fala de
Amália ao considerar ações em que existe compartilhamento com outros profissionais como
sendo AM. Para ela, o AM está no cotidiano, depende do contexto e não teria um modelo
fechado que pode ser seguido. “Eu acho que não tem nada pronto, a gente tá numa dinâmica do
cotidiano que tá muito, cada caso é um caso, muito cheio de muitas coisas, não dá muito pra
gente fechar modelo assim, assim, essência” (Eliana, 786-788).
Para finalizar o relato das experiências, Luan (Enfermeiro – Residente) afirma que
devido à dificuldade em estabelecer parâmetros para a definição do matriciamento20, para o seu
relato tem como referência ações que possibilitaram troca de experiência profissional e um
compartilhamento técnico-pedagógico. Nos informa que seu percurso profissional, desde a
graduação, é marcado por vivências sempre vinculadas à universidade, seja por meio de
projetos, seja pela residência. Assim, sua experiência de matriciamento visou ao
compartilhamento técnico-pedagógico e na residência teve a oportunidade de circular por vários
serviços, como na gestão e na universidade. Então, considera sua atuação privilegiada por
possibilitar esta troca e circulação. Acredita que por ser um ambiente de transição, sua forma
de atuação se torna sempre em uma troca e compartilhamento (790-804).
Luan afirma que não tem como identificar uma atividade de matriciamento, visto que
considera que essas trocas realizadas permitem suprir uma carência pedagógica de algum

20

Nesse momento, os participantes riem.

101

serviço e acompanhar um caso em vários níveis de atenção como exemplifica no seguinte
trecho:
Não tem como eu conceituar uma atividade, dizendo essa atividade em si ter
o nome matriciamento, mas eu acho que essas trocas eu faço seja quando eu
vou pra um serviço que tenha uma carência pedagógica, que devido meu
vínculo com a universidade, a gente pode tentar suprir naquele momento.
Houve alguns casos recentes, por exemplo, a minha participação na gestão,
me fez atuar um pouco no processo de desinstitucionalização, sendo que um
desses pacientes que foi desintitucionalizado, eu participo ao mesmo tempo
da gestão quanto do CAPS, onde ele fazia esse tipo de trabalho e como depois
de outro CAPS quando ele pernoitava. Então assim, eu sempre tô nesse espaço
de troca, e por ter uma diversidade muito grande de qual tipo de trabalho, que
cada serviço tem um trabalho diferente, aí tem essa dificuldade de conceituar.
Mas aí tanto as consultas que eu faço junto com outros profissionais dessas
áreas, quanto nas reuniões com os próprios serviços, do vínculo entre
universidade e cada serviço, acaba se tornando uma troca de experiência
(Luan, 804-816).

Márcio solicita a Luan que ele forneça algum exemplo em que ele notou carência
pedagógica por esses serviços nos quais circulou (822). Luan responde a Márcio
especificamente por meio de um exemplo da enfermagem, que em alguns serviços os
profissionais dessa área não possuíam experiência em saúde mental. Então, foi proporcionado
“situações de conhecimento prático e técnico” sobre medicações, construção do PTS nas
discussões de casos e desmistificações sobre o próprio trabalho na saúde mental (824-833).
Por fim, Amália faz uma última pontuação respondendo a Fernando, sobre uma
Psicologia não prescritiva. Afirma que realiza o exercício de desconstrução e que isso facilita
seu olhar em relação ao AM. Exemplifica que muitos ficam questionando o que é de fato a
Psicologia, enquanto já estamos realizando esse fazer que é diverso (834-846).
Não tem como eu parar de chegar num ponto da psicologia é aquilo, pra de
fato eu passar a desenvolver o serviço da psicologia, né? Enfim, por questão
lógica, enfim nesse lugar de trabalho e serviço não tem como. Então assim,
por exemplo, eu dentro do serviço de psicologia, achar que eu realizar uma
escuta qualificada embaixo de um pé de árvore, que acontece muito comigo,
aquilo dali não é, não pode ser considerado uma escuta porque não tem um
setting sabe? Às vezes se dá pela essa desconstrução e talvez me permita
também um olhar desse apoio matricial (Amália, 839-846).

Após essa fala, Rebeca, assim como Amália na primeira parte da oficina, se posiciona
como pesquisadora analisando as falas dos participantes, e sinalizando os diversos
posicionamentos produzidos pelo contexto argumentativo de cada participante. “Me parece que
o olhar muda dependendo do lugar que a gente tá” (Rebeca, 847). Márcio complementa que
até um conceito é permeado por subjetividade (850).

102

3.6. Classificação das ações avaliando para quem foram direcionadas
Posteriormente ao compartilhamento das vivências e discussões, solicito aos
participantes que juntos classifiquemos as ações de matriciamento, avaliando para quem foram
direcionadas. O quadro 1 mostra para quem essas ações foram direcionadas e a quantidade de
participantes que as avaliaram de acordo com cada categoria.

Quadro 2: Direcionamento das ações e número de itens classificados em cada categoria. Maceió, Alagoas. Ano:
2017. Fonte: Autor.
Direcionamento das ações
Número de Itens (Quantidade de participantes)
Usuários
1 participante
Profissionais
1 participante
Usuários e Profissionais
3 participantes
Profissionais, Usuários e Gestão
4 participantes

Pelo quadro 2, podemos notar que a maioria dos participantes avaliou que as ações de
matriciamento são direcionadas para mais de um setor da população.

3.7. Discussões
Para analisar os repertórios do segundo momento da oficina, fizemos o uso novamente
da ferramenta do mapa dialógico (em anexo). Para este momento de relato de vivências
caracterizadas como Apoio Matricial e posterior discussão do grupo, construímos uma tabela
separando por colunas quem falou e quais os temas que foram discutidos pelos participantes.
Esses foram formulados a partir de uma leitura intensiva da transcrição integral e
posteriormente, identificamos sobre o que versa a conversa e como ela acontece, agrupando
assim, os assuntos em torno dos quais se deu o diálogo, discussão, reflexão ou debate. As
categorias ou temas foram: “Ação Conjunta”; “Tecnologias do modelo de Apoio Matricial”;
“Projeto Piloto” e “Oficina”.
Ao tema “Ação Conjunta” foram direcionadas as falas, nas quais os participantes
denominavam atividades de matriciamento, a partir de experiências de compartilhamento com
outros profissionais. Colocamos as falas na categoria “Tecnologias do modelo de Apoio
Matricial” quando os participantes focalizavam instrumentos ou serviços discutidos pela
literatura técnico-científica no modelo de Apoio Matricial, como PTS, o NASF; visita
domiciliar; discussão de caso e educação permanente.
O tema “Projeto Piloto” foi identificado, quando o foco das falas era direcionado a
vivências produzidas durante a participação no projeto “Matriciamente”. Por fim, a categoria

103

“Oficina” refere-se às falas que teciam comentários sobre aquele momento específico da
oficina, questionamentos ou interrupções que os participantes faziam uns aos outros.
Salientamos que não são categorias excludentes, elas se complementam e dialogam uma com a
outra. De uma forma geral, o foco da discussão foi sobre ações de compartilhamento com outros
profissionais.
Neste mapa, fizemos alguns recortes das falas em relação à transcrição integral
buscando manter o argumento central e também para não identificar serviços mencionados. O
mapa dialógico permitiu compreender quais vivências que os participantes denominam como
Apoio Matricial. São atividades entre os profissionais, para os usuários?
Os repertórios na categoria “Ação conjunta” focalizaram em atividades conjuntas ou
compartilhadas por profissionais do mesmo serviço ou de outras instituições. Os participantes
denominaram como AM, esse espaço de troca e permuta de saberes, que se constituiu em um
espaço pedagógico, muitas dessas ações aí ocorridas, nem estavam planejadas, mas
aconteceram no cotidiano do serviço. São ações em que houveram um trabalho e planejamento
em conjunto e isso, possibilitou troca de experiência profissional; expertise; tecnologias;
dispositivos; ferramentas.
Os participantes referiram-se também a atividades direcionadas à produção de redes e
diálogos com outros serviços. Alguns participantes apontaram que no início, houve uma
resistência ao compartilhamento, porém, quando aconteceu o matriciamento ocorreram
mudanças nos processos de trabalho e enriquecimento dos modos de fazer. Além disso, eles
mencionaram sentirem-se “leves” ou que foi um momento “bacana”.
Em relação ao sentimento de leveza, a pesquisa de MINOZZO (2011) também
evidenciou com os profissionais pesquisados que o apoio matricial pode até consistir em mais
uma tarefa a ser feita, no entanto, sinalizaram que as trocas entre os serviços e o
compartilhamento dos casos difíceis, propostos pelo matriciamento, podem trazer mais
qualidade e leveza ao trabalho das equipes.
Ainda mais, os participantes falaram que este compartilhamento permite conhecer o
território adscrito e para a gestão caberia ser uma disparadora e incentivadora desses
movimentos e da realização do matriciamento. Portanto, por meio de suas vivências, os
profissionais denominam que o matriciamento não é uma soma de ações, é a construção de um
saber que não está “nos” profissionais, mas é um saber construído “entre” os profissionais.
Estes repertórios compartilhados pelos participantes mostra a transformação em
profissionais de saúde visto que é comum nos serviços de saúde que a maior parte dos
profissionais não trabalha se encarregando integralmente dos casos. Quando mais de um

104

especialista ou profissional operam em determinado caso, o fazem em ações isoladas e
fragmentadas, ou seja, de uma maneira vertical. É como um somatório de procedimentos
realizados um do lado do outro, supondo que se cada um cumpra sua parte a qualidade do todo
estaria garantida. É raro uma integração horizontal permanente entre os distintos saberes e
práticas. Cada um age a partir do seu núcleo profissional e ainda mais, realizando
procedimentos característicos de sua profissão, não intervindo sobre a história de vida dos
sujeitos. Isso resulta em uma baixa e precária responsabilidade sobre o processo saúde-doença
e a tomada de decisão sobre diagnóstico ou intervenções terapêuticas comumente são solitárias,
raramente realizada em grupo (CAMPOS 1999).
No entanto, o matriciamento com a formação de equipes de referência e equipes de
Apoio Matricial busca romper com essa lógica, “tais equipes buscam mudar o padrão dominante
de responsabilidade nas organizações: ao invés de profissionais se responsabilizarem por
atividades e procedimentos, responsabilizam-se por pessoas” (CAMPOS, 1999). Por isso, é
importante que estas equipes concebam o matriciamento não como uma transmissão vertical do
conhecimento, mas sim como o compartilhamento e a ampliação de todos os envolvidos
(MINOZZO, 2011).
A literatura científica também aponta outras vantagens para o cuidado de base territorial,
como podemos citar: conhecimento dos profissionais da situação de vida daquela pessoa (e não
apenas da doença), a questão do vínculo, a possibilidade de acionar recursos da própria
comunidade, a conexão com outros setores (HIRDES; SCARPARO; 2013).
A valorização do território pelo matriciamento foi indicada na pesquisa de Dimenstein;
Galvão; Severo (2009) com profissionais de saúde. As entrevistadas (coordenadoras da ESF)
apontaram que o matriciamento não permite apenas a aproximação dos serviços especializados
da rede básica, mas, principalmente, a consideração do território específico em que deverá se
desenvolver o arranjo e a valorização do saber daqueles que compõem a UBS.
As falas que citaram os instrumentos utilizados no processo de matriciamento foram
associadas à categoria “Tecnologias do modelo de Apoio Matricial”. Os participantes falaram
sobre a escuta qualificada; atendimento compartilhado e integrado; visita domiciliar; discussão
de caso; PTS; processo de educação permanente; NASF, visto que esse serviço tem como
objetivo base o AM. Especificamente em relação à Saúde Indígena: encontro entre as EMSI;
ligação telefônica para a coordenadora da Atenção Psicossocial e capacitações.
Os instrumentos citados estão de acordo com a literatura científica sobre a temática. No
entanto, é importante assinalar que estes instrumentos são necessários, mas apenas utilizados
isoladamente não são suficientes para que se estabeleça o arranjo do matriciamento. Como os

105

próprios participantes apontam é preciso uma utilização conjunta e compartilhamento das
equipes dessas tecnologias.
O matriciamento possibilita um leque de atividades, que engloba desde um atendimento
conjunto entre profissionais de serviços diferentes, a participação em discussões de projetos
terapêuticos, discussões de temas prevalentes, análise de estratégias para lidar com demanda,
análise de encaminhamentos até a simples disponibilidade para contato telefônico para discutir
urgências ou seguimentos (CUNHA; CAMPOS, 2011).
Porém, a riqueza do processo do matriciamento não diz respeito apenas às tecnologias,
mas ao compartilhamento de conhecimentos, experiências, visões de mundo, consonâncias e
dissonâncias inclusive, emergem novas perspectivas, possibilidades produtivas e relações
interpessoais. Implica na construção do trabalho em ato, na escuta e no compartilhamento de
informações, na planificação de um projeto terapêutico singular e na corresponsabilização dos
profissionais envolvidos (HIRDES; SCARPARO, 2013).
Em relação à categoria “Projeto Piloto”, foi assim nomeada para classificar as falas dos
participantes que trouxeram as vivências de sua participação no projeto piloto denominado
“Matriciamente”. As ações realizadas durante o projeto foram pontuadas por eles, diversas
vezes, como sendo de matriciamento. Inclusive, alguns mencionaram ter sido a única
experiência efetiva de AM no município. Referem que foi uma experiência inicial, na qual todos
estavam aprendendo juntos e discutindo não apenas os instrumentos citados acima, mas as
especificidades de cada serviço abrangido pelo projeto.
Em diálogo com a literatura científica, gostaríamos de abordar a relação “professoraluno” que pode ocorrer durante o processo de matriciamento. Um assunto específico que não
foi abordado diretamente pelos participantes, mas vivenciada durante meu acompanhamento do
projeto “Matriciamente” e dialoga com a categoria supracitada.
Durante a minha vivência no projeto, notei por vezes que a equipe de AM se posicionava
como professora da equipe de referência, considerando o matriciamento como ensino e não,
como aprendizagem para ambas as equipes. Em outros momentos, notei que alguns
profissionais não gostariam de trabalhar com a dimensão assistencial, ressaltando apenas a
dimensão técnico-pedagógica.
No dia 29 de janeiro de 2016, ocorreu outro encontro de
matriciamento. Em virtude de obras na UBS, a reunião aconteceu em uma
escola pública próxima a unidade. Como de costume, para ir à unidade, peguei
carona normalmente com uma profissional da equipe de AM. Durante o
caminho fomos conversando sobre o projeto. Eis que ela verbaliza certo
descontentamento com ele e que em sua visão “Matriciamento é para ensinar”.
Essa frase teve reverberações reflexivas por algum tempo em mim. Após

106

leitura de materiais científicos e diálogos com outras pessoas, compreendo que
Matriciamento não é só para ensinar, é um processo de aprendizagem para
ambas as equipes (Diário de campo, 29 de janeiro de 2016).
(...) De uma forma bem natural e dialogada conversarmos sobre como
estava o processo de matriciamento, avaliando-o. (...) Dra Maria 21[médica]
pontuou que quando chegou o momento das ações, achou que a equipe de AM
se retraiu e não quis fazer a anamnese do caso discutido. Nessa reunião, que
ela havia comentado, lembrei que ao discutir sobre quais profissionais iriam
realizar a anamnese teve um silêncio da equipe matriciadora. A própria Dra
Maria sugeriu que fosse um de cada profissão, como exemplo, sugeriu um
profissional da psicologia e outro de outra profissão. Mas diante dessa
pontuação, um psicólogo da equipe e matriciadora iniciou um discurso que
não era apenas a psicologia que podia fazer uma escuta. Diante disso, sugiram
muitas discussões e algumas pessoas falando ao mesmo tempo. Compreendi
o que ele falou e até concordo, mas acho que o momento era inapropriado para
esse tipo de discussão porque a reunião já estava muito tumultuada (Diário de
campo, 11 de dezembro de 2015).

A nossa crítica é que o AM não pode pautar-se em uma relação de “professor-aluno”
para não incentivar algo que já está muito presente nas práticas de saúde: uma relação de
inferioridade entre generalistas e especialistas. Perpetuando assim, uma relação de poder por
meio de posicionamentos de saber e não saber. Temos que refletir que “a relação entre serviços
é potencialmente uma relação de encontros de saberes diferentes, e não uma relação em que um
sabe mais do que o outro” (CAMPOS, DOMITTI, 2007). Se houver uma predominância dessa
relação de saber e não saber, o AM pode fazer o contrário do que problematiza e deseja:
aumentar o poder do especialista, medicalizando a população através de uma
instrumentalização das equipes menos sabidas (BELOTTI; LAVRADOR, 2012).
Nesse contexto, a cartilha de Humanização que discute sobre o Apoio Matricial, reflete
que o AM não se restringe a especialistas e a presença desses nas equipes não indica que o
matriciamento irá ocorrer necessariamente, ou seja, não basta ser especialista para ser apoiador.
Este documento indica que qualquer equipe pode pedir apoio também a profissionais que estão
mais próximos do usuário, e diante disso, são capazes de enxergar outros aspectos de sua vida.
Isto pode proporcionar uma ampliação das intervenções e que o projeto terapêutico envolva um
compromisso com o usuário (BRASIL, 2004).
Portanto, a dimensão potencial do encontro tem que ser valorizada visto que permite
uma permuta entre diferentes atores, os quais ocupam diferentes lugares no emaranhado da rede
de saúde, sob diferentes olhares e posicionamentos sobre uma dada situação, um dado caso
clínico ou uma problemática específica. O matriciamento possui como objetivo compartilhar
conhecimento e coconstruir possibilidades de intervenção. Não de ditar, sozinho, as regras. Isto
21

Nome fictício.

107

caracteriza a formação de espaços clínicos formativos e espaços de aprendizagem
(BALLARIN; BLANES; FERIGATO, 2012).
Diante das falas dos participantes, notamos a multiplicidade de modos de se fazer o
matriciamento. Então, retomamos o questionamento tão debatido por Fernando, mas isso é
Apoio Matricial? A partir de nosso referencial teórico, concebemos que as práticas relatadas
fazem existir o AM. Diferentes práticas fazem, portanto, diferentes Apoios Matriciais existirem.
No entanto, a despeito dessa diversidade, muitas vezes desconsideramos as práticas envolvidas
e tratamos o matriciamento como se ele fosse um objeto unitário.
Multiplicidade sugere que a realidade é feita e performada (done and enacted)
por meio de várias ferramentas no curso de uma diversidade de práticas, ao
invés de ser observada a partir de uma pluralidade de pontos de vista, enquanto
permanece intacta. Nesse sentido, multiplicidade nos fala de coexistência de
versões, e é preciso descobrir maneiras de lidar com isso em nossos textos e
pesquisas. Essas formas distintas de pensamento e ação acerca dos problemas
de saúde não são práticas sociais ensimesmadas – elas interferem umas com
as outras, revelam conexões parciais, de modo que poderíamos conceber
complexidade justamente como o ponto de encontro de vários ordenamentos
simplificadores (SPINK, 2010).

Em concordância, os profissionais entrevistados por Ballarin, Blanes e Ferigato (2012)
relataram que o modo como os profissionais se organizam para efetivar o trabalho de AM é
diversificado. Os pesquisadores identificaram três modos de operacionalizar o matriciamento
pelos entrevistados. O primeiro deles consiste no AM definido pela territorialidade da equipe
de referência. Segundo pelo perfil profissional dos profissionais da equipe que passam a ser
referência para o AM. E terceiro pela competência e/ou vinculação que o profissional tem com
a problemática trazida naquela determinada demanda especifica. Todos esses modos de
funcionamento foram identificados os objetivos principais do AM e têm em comum a
particularidade do matriciamento, que se define a partir da singularidade do caso a ser atendido,
da região e do próprio matriciador.
Podemos supor que isso ocorra, porque cada serviço, equipe e território têm suas
especificidades e sua maneira própria de funcionar e trabalhar. Diante disso, os desafios devem
ser analisados e interpretados como formas para o aprimoramento de sua efetivação. A ideia de
que “cada serviço tem um jeito de fazer o AM ou de funcionar com AM” pode nos ajudar a
reafirmar como são relevantes e valiosos os processos de singularização relacionados a esta
ferramenta. Como descrito anteriormente, a singularidade que se constrói em cada unidade, em
cada encontro, não é definida por um modelo preestabelecido.
Em seu texto intitulado Política Ontológica, Mol (2008) afirma que a realidade é
localizada histórica, cultural e materialmente. Essa localização é dependente do campo em que

108

se responde, o qual transforma essa realidade e concebem novas formas de fazer a realidade.
Portanto, além da realidade ser feita e localizada, ela também é múltipla. As realidades são
múltiplas.
Este ponto é importante para compreendermos o posicionamento de Mol, pois, falar de
realidades múltiplas não é sinônimo de vários aspectos ou atributos de uma realidade única. A
realidade não é compreendida por uma diversidade de olhos, não são as perspectivas de
diferentes pessoas, e sim, manipulada por vários instrumentos, no curso de diferentes práticas.
“Em vez de atributos e aspectos, são diferentes versões do objeto, versões que os instrumentos
ajudam a performar [enact]. São objetos diferentes embora relacionados entre si. São formas
múltiplas da realidade – da realidade em si” (MOL, 2008, pág. 66).
Portanto, podemos conceber que há diferentes versões, diferentes performances,
diferentes realidades que coexistem no presente. Nesse contexto, Mol (2008) indaga se
poderíamos escolher entre estas versões? “A resposta é: não necessariamente, porque se as
realidades performadas são múltiplas, não é uma questão de pluralismo. Pelo contrário, o que a
“multiplicidade” implica é que embora as realidades possam ocasionalmente colidir umas com
as outras, noutras alturas as várias performances de um objeto podem colaborar e mesmo
depender umas das outras” (MOL, 2008, pág.78).
Nesse contexto, podemos compreender que as versões de Apoio Matricial, uma com
uma prática voltada para o cotidiano e outra para uma prática planejada e padronizada, ora
entram em conflito, outrora se complementam, podendo coexistir pacificamente com
complexas interconexões que as unem. Isso dá visibilidade a multiplicidade do Apoio Matricial,
não sob forma de pluralismo visto que não são entidades separadas, cada um no seu canto de
um campo homogêneo. Os vários Apoios Matriciais performados pelos participantes desta
pesquisa têm muitas relações entre si. Não estão simplesmente em oposição uns em relação aos
outros, ou no exterior um dos outros.
Dizer que objetos existem por meio de práticas não significa dizer que eles sejam
passivos. De acordo com a Teoria Ator-Rede (TAR) eles agem e, ao mesmo tempo, são alvos
da ação dos outros. Além disso, pensar que diferentes práticas fazem existir (enact) diferentes
versões de objetos, implica admitir que eles também agem de diferentes maneiras. Todavia, não
agem sozinhos: objetos só agem se houver outras entidades (instituições, pessoas, instrumentos
etc.) colaborando com eles (LAW; MOL, 2008, apud CORDEIRO; SPINK, 2013).
Pontuamos que usuários e profissionais não são entidades fixas. Não são cristalizados
em identidades decifráveis. Há muitas posições de pessoas ofertadas e/ou assumidas por
profissionais e por usuários (SPINK, 2015). Como podemos acompanhar nas diversas posições

109

dos participantes durante a oficina. Ora, o que não podemos esquecer é que o Apoio Matricial
faz parte de um conjunto de construções, é efeito de práticas que envolvem uma série de
elementos heterogêneos.
Em uma pesquisa (FITTIPALDI; ROMANO; BARROS, 2015) houve consenso entre
os participantes, que a construção do matriciamento ocorreu mais no cotidiano e menos por
uma questão normativa. Os profissionais, apesar de não possuírem muita clareza sobre suas
atribuições no AM referem que foram experimentando e aprendendo suas funções na prática
profissional, através de uma construção coletiva. Na pesquisa de Pinto et al (2012) os
profissionais pesquisados reconheceram que as práticas são processuais por serem modificadas
com as experiências vividas no matriciamento a cada dia.
A despeito das ações relatadas pelos participantes desta pesquisa, pontuamos que não
podemos fixar o matriciamento apenas em instrumentos ou técnicas como reuniões ou
discussões de casos, construção de PTS, visita domiciliar conjunta, atendimento conjunto.
Realizar essas ações não fornece a garantia que a equipe está realizando o AM. Não são os
aspectos técnicos que irão aprimorar as práticas, mas é na formação ampliada que as práticas
serão aprimoradas.
Além disso, podemos pensar em diversas formas de fazê-lo; investir em atividades que
produzam novas formas de saúde, como oficinas; ações que priorizem narrativas de vida e
articulações com a cultura, saberes e práticas locais. Contanto que não tenhamos relações
verticalizadas, afinal como Janaína nos disse anteriormente Saúde Mental se faz todo dia, no
cotidiano. Portanto, há múltiplas possibilidades de prática do matriciamento que estão abertas
a várias profissões da saúde que não se atém apenas ao saber técnico.
Nesse sentido, podemos exemplificar com uma experiência de AM e redução de danos
relatada por Almeida et al (2016). Esta vivência ocorreu com um grupo PET-Saúde e uma
Unidade Básica de Saúde do estado de São Paulo. A demanda da equipe era discutir questões
relacionadas ao uso abusivo de álcool e outras drogas. Diante disso, construíram projetos
inovadores. O primeiro deles foi intervir com crianças e adolescentes no campo de futebol do
território, chamado de “Buracão”. O segundo foi intervir com jovens e adultos e o local
escolhido foi o “Bar do Piri” no qual muitos usuários de álcool e outras drogas circulavam. A
equipe construiu um vínculo com o dono do bar, com o qual a comunidade tinha muito respeito
e afeição, e a partir disso, foi construindo um espaço de acolhimento e escuta em um espaço de
convivência dos usuários e não simplesmente nos espaços tradicionais de saúde. Para intervir
com as famílias, promoveram rodas de conversas denominadas “Café com a família”, com
vistas a proporcionar aos familiares um ambiente tranquilo e descontraído, no qual sentissem

110

acolhidos e livres para expor suas angústias e orientados em relação ao cuidado com o familiar
e usuário.
Esse projeto não foi construído com o viés de obrigatoriedade, mas de planejar
atividades e de lidar com o tempo de três meses para viver essa experiência. Os autores afirmam
que as trocas de experiências não ocorreram apenas entre os usuários, mas também entre os
profissionais, os quais compartilhavam histórias de vida, propostas de tratamento, frustações,
conquistas e aprendizados. Almeida et al (2016) avaliam que essa troca criou cumplicidade e
arranjos para uma relação transversal.
Para finalizarmos, cabe questionar também quem irá nomear as ações dos profissionais
como sendo de matriciamento? Tem que ser alguém externo ao serviço ou um projeto sob o
título de matriciamento? Os saberes dos profissionais não são suficientes? Neste sentido,
apostamos em uma estratégia que acontece no cotidiano dos serviços, valorizando os saberes
de uma forma não hierárquica e em espaços de diálogo.
Assim, podemos compreender a incorporação do AM no cotidiano dos serviços de saúde
não é de uma ordem de melhor compreensão conceitual pelos profissionais, no entanto,
perpassa a esfera da aceitação da multiplicidade e da produção de espaços de encontros e
diálogos. Não é simplesmente uma questão de subjetividade, mas sim, de complexidade. As
práticas de saúde são complexas porque são performadas por diferentes atores e produzindo
diversas visões de mundo sobre um mesmo fenômeno.
Nesse contexto, precisamos compreender a Saúde Mental compondo e se articulando
com os mais diversos lugares e atores, e ultrapassando os obstáculos. Uma articulação que alie
os objetivos institucionais aos saberes e interesses dos trabalhadores e usuários.

111

INTERLÚDIO 22

Após o momento de classificação das ações, faço um intervalo na oficina e convido os
participantes à lancharem. As comidas estavam localizadas em uma mesa fora da sala que
estava realizando a oficina.
Ao saírem dois participantes falam para mim: “Essa hora que vai sair tudo minha
filha”. Outro diz para eu levar o gravador para o lanche.
Enquanto eles foram saindo, permaneci na sala junto com a observadora para ir
colando os papeis que haviam classificado anteriormente, na cartolina. Noto que três
participantes também permanecem na sala e ficam conversando. Questiono se já se conheciam.
Respondem que estavam se conhecendo naquele momento.
Como também estava na sala, notei que a conversa era sobre aquele momento da
oficina e também sobre os serviços em que trabalhavam. Uma afirmou que concordava com o
posicionamento de outra participante na oficina e que acreditava que o AM podia ser
construído no cotidiano dos serviços.
Quando vou lanchar percebo um clima descontraído e que os participantes estavam
todos conversando em pequenos grupos. O interessante é que estavam conversando sobre a
rotina de trabalho e serviços. Como se o lanche fosse uma extensão do momento da oficina.
Fiquei refletindo em como esses espaços não-formais são importantes para o diálogo.
Afinal, na hora do lanche não há disputa de saberes, nessa hora os saberes são horizontais.

22

Estratégia inspirada na dissertação de Martins (2013) para produzir reflexões sobre o próprio processo de
pesquisa, memórias, impressões e experiências pessoais.

112

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo, objetivamos de uma maneira geral, compreender as versões do Apoio
Matricial de um grupo de profissionais de saúde. Especificamente analisar os repertórios sobre
o apoio matricial produzidos por um grupo de profissionais de saúde; discutir o AM a partir das
versões de um grupo de profissionais de saúde a partir de suas experiências e da literatura
científica. Avaliamos que tais objetivos foram alcançados por meio da oficina. Por meio da
análise dos repertórios linguísticos, podemos notar que diferentes práticas fazem diferentes
Apoios Matriciais existirem.
Como produto da oficina, podemos citar que ao final desta, um participante fala sobre o
grupo do whatts app, o qual já foi referido anteriormente, intitulado “Atenção Psicossocial” e
questiona aos outros profissionais quem gostaria de participar para que pudessem dar
continuidade ao diálogo produzido por meio da rede social. Todos os participantes informaram
que gostariam de serem incluídos neste grupo. Como acompanho o grupo, um diálogo sobre
Apoio Matricial foi promovido neste grupo um dia após a oficina.
Também pretendíamos conhecer a configuração do AM a partir de um projeto de
extensão, este também foi atingindo mediante a participação no projeto piloto. Apontamos para
a importância da continuação das ações promovidas pelo projeto e a manutenção do vínculo
que universidade construiu com os serviços. Este último mostra-se de extrema importância para
pactuar com os serviços o compromisso ético da universidade e que aqueles espaços não foram
apenas “usados” para objetivos de pesquisa e quando eles foram alcançados aqueles espaços
não eram mais necessários. Ou seja, é fundamental a continuidade do contato para a
operacionalização e efetivação das intervenções que foram construídas durante essa vivência.
Assim como os participantes, não ficamos imunes às reflexões produzidas naquele
momento e que reverberaram durante todo o processo de escrita dessa dissertação. A primeira
delas consiste na desconstrução da suposição de que com a Reforma Psiquiátrica chegamos no
“lugar desejado” apenas pela presença de serviços substitutivos. Muitas vezes reproduzimos
nesses serviços e nas relações cotidianas o mesmo modelo asilar e cronificador que tanto
criticamos durante o movimento da Reforma.
É por este motivo que a Atenção Básica se tornou fundamental para a consolidação dos
princípios da Reforma, pois é uma atuação voltada para as potencialidades do território e da
comunidade. Mas, no entanto, questionamos se a Atenção Básica possui os recursos para ser
protagonista desta rede. Por entre diversos fatores e desafios, supomos que não. É neste
contexto, que indicamos a importância do matriciamento.

113

O AM é um arranjo que busca mudar um cuidado pautado no modelo biomédico
hegemônico. Pretende dissolver as fronteiras entre as disciplinas o que não indica reduzir uma
à outra, mas impulsionar em cada profissional de saúde a capacidade de uma prática integral e
humanizada. Está longe de ser um arranjo de fácil implantação e de compatibilização de seus
princípios com a prática vigente nos serviços de saúde. Constitui-se como um desafio, mas é
um modelo que é necessário para transpormos as barreiras de um saber interdisciplinar e
construir um saber integrado.
No entanto, tanto pelas falas dos participantes da pesquisa quanto pela literatura
científica, o fio condutor do trabalho de matriciamento é compartilhamento de saberes,
competências, responsabilidades e ações. Os participantes denominaram que o matriciamento
não é uma soma de ações, é a construção de um saber que não está “nos” profissionais, mas é
um saber construído “entre” os profissionais. Nossas reflexões pautam-se no questionamento
“onde é possível matriciar” ao invés de “o que é o apoio matricial”. Onde é possível ter algum
grau de compartilhamento e de construção entre os profissionais.
Novamente reafirmamos que compreender a incorporação do AM no cotidiano dos
serviços de saúde não é de uma ordem de melhor compreensão conceitual pelos profissionais,
mas, perpassa a esfera da aceitação da multiplicidade e da produção de espaços de encontros e
diálogos. Então, a prática de matriciamento está ligada a existência de espaços coletivos e de
serviços que possuem algum grau de cogestão e da tentativa de articular os objetivos
institucionais com os saberes e interesses dos profissionais e usuários.
A criação de espaços para diálogos os quais os profissionais possam opinar, serem
ouvidos e fazê-los refletir sobre o seu cotidiano de trabalho, só fortalece que uma política
pública se faz em encontros com outros e em processos dialógicos. Isso também pode ser
exemplificado por meio da própria oficina que permitiu a desconstrução e ressiginificação sobre
Apoio Matricial. Além disso, os participantes avaliaram que durante a oficina puderam
discordar entre si, sem desrespeitos e ofensas e que isto é ausente nos espaços de trabalho.
Esse aspecto nos faz refletir em algo importante sobre o Apoio Matricial. É levar em
conta que cada serviço, cada equipe possui um jeito próprio de fazer e funcionar o AM.
Implicando assim, em um processo de singularização desse arranjo. Singular ao contrário de
universal, mas de múltiplo e único em cada contexto e que é construído em cada encontro.
Nesse panorama, destacamos a reponsabilidade da gestão em compreender a
importância desse novo modelo de cuidado. Inclusive, problematizar a lógica de produtividade
que não corresponde aos princípios do AM e produzir espaços de diálogos sobre o AM nos

114

quais repertórios, controvérsias e posicionamentos possam circular livremente. Precisamos
produzir intensas problematizações no cotidiano dos serviços.
O desafio em produzir ações de matriciamento também repousa no fato que este arranjo
não pretende ter “como fazer” e “o que fazer” definidos, é dependente do contexto em que se
constrói. Como já dissemos anteriormente, o desejo por práticas ou técnicas que sejam
prescritas é extremamente comum no campo da saúde. Porém, o AM pertence a uma outra
esfera de saber, é da esfera de multiplicidade e da diversidade e permite um (re)pensar fora das
regras e protocolos. Portanto, o AM pode ser compreendido a partir da perfomatividade, o qual
é produzido de diferentes maneiras, ocasionando em diversas versões que performam,
produzem realidades. Essas versões mudam a partir dos lugares e podem ser praticadas de
modos distintos em diferentes contextos.
Portanto, notamos que muitos desafios perfazem a consolidação dos cuidados em saúde
mental na Atenção Primária e também em outros serviços. Entretanto, por meio de nossa
pesquisa, é possível afirmar que a estratégia do AM é um dos potencializadores para a superação
desses desafios e que necessita se movimentar da seguinte forma: primeiro constituir-se como
uma estratégia que acontece no cotidiano dos serviços; segundo a construção de relações de
compartilhamento e de diálogo entre os profissionais e terceiro, valorização da diversidade das
formas fazer e acontecer o matriciamento.
Em conclusão, como limites desse estudo destacamos a possibilidade (ou até mesmo
necessidade) de incluir no diálogo usuários e familiares que foram abrangidos pelo
matriciamento. Além do mais, há de se pesquisar o Apoio Matricial em outros contextos que
não só a Atenção Básica e Saúde Mental. Apontamos a importância de se investigar a inclusão
de usuários e familiares nas ações de matriciamento, para que este arranjo não se restrinja
apenas às atividades realizadas junto às equipes apoiadas, excluindo-se o contato direto com os
usuários. Além disso, apontamos para a importância de estudo e de incorporação do AM por
outros serviços, além dos de Saúde Mental.

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122

APÊNDICE

123

APÊNDICE A - Glossário com as definições de Apoio Matricial na literatura técnicocientífica.

124

Ano da
definição
1998

Autor da Definição

Citação

CAMPOS

Recomendava-se, também a instituição de Supervisão Matricial que aumentasse a abertura destas Unidades para o externo.
Supervisão não conforme a concepção taylorista – alguém que controla e fiscaliza o cumprimento de normas –, mas quase com
o sentido que lhe era atribuído pela Saúde Mental: supervisor como agente externo que se reúne com a equipe para instituir
processos de reflexão crítica e de educação permanente. Então, Supervisor como apoiador e agenciador de mudanças,
alguém que ajudasse na identificação e no enfrentamento de problemas. Este trabalho de apoio poderia assumir tanto um caráter
mais técnico – especialistas em enfermagem, em pediatria, etc, ajudando, orientando várias equipes em que houvesse este tipo
de responsabilidade –, ou mais um de instrumentalizador de processos de mudança. Neste segundo caso, um agenciador e
estimulador da capacidade de análise e de participação do grupo na gestão, uma combinação das funções típicas de um analista
de grupo com as de um assessor de planejamento. De qualquer modo, estes Supervisores não teriam linha de comando dentro
das Unidades de Produção. Somente a Direção geral ou o Coordenador, ou os próprios Colegiados tomariam deliberações a
serem acatadas por todos.
Neste artigo estar-se-á sugerindo um novo arranjo para os serviços de saúde com base nos conceitos de equipe de referência
e de apoio especializado matricial. Parte-se da suposição de que uma reordenação do trabalho em saúde segundo a diretriz do
vínculo terapêutico entre equipe e usuários estimularia a produção progressiva de um novo padrão de responsabilidade pela
co-produção de saúde. Isto articulado, as diretrizes de gestão colegiada (Campos, 1998) e de transdisciplinaridade das práticas
e dos saberes, possibilitariam uma superação de aspectos fundamentais do modelo médico hegemônico, conforme analisado por
uma série de autores clássicos (Donnangelo, 1975; Mendes Gonçalvez, 1979; Luz, 1988).
Um novo arranjo que estimulasse, cotidianamente, a produção de novos padrões de inter-relação entre equipe e usuários,
ampliasse o compromisso dos profissionais com a produção de saúde e quebrasse obstáculos organizacionais à comunicação.
Sugere-se a adoção de um arranjo no processo de trabalho que estimule maiores coeficientes de vínculo entre equipe de saúde
e usuário concreto.
O AM, no seu sentido original, seria composto por um ou mais profissionais de saúde, detentores de saber específico, que apoia
uma ou mais ER no que se refere tanto a questões assistenciais quanto a suporte técnico-pedagógico.
O apoio matricial pode ser definido como um arranjo organizacional que surge com o objetivo de ampliar a capacidade de
resolubilidade das ações de saúde, ao propor uma reformulação no modo de organização dos serviços e relações horizontais
entre as especialidades que passam a oferecer apoio técnico horizontal às equipes interdisciplinares de atenção primária,
favorecendo assim a conexão em rede.
Os conceitos de Equipes de Referência (ER) e Apoio Matricial (AM) foram propostos por Campos, no intuito de reorganizar o
trabalho em saúde sob a diretriz do vínculo terapêutico, na perspectiva de estimular um outro padrão de responsabilidade pela
saúde, tendo como elementos norteadores a gestão do trabalho e a transdisciplinariedade. O vínculo é um recurso terapêutico,
que envolve a interdependência e representa o compromisso dos profissionais com o paciente e vice-versa
Ao analisar a função do apoio matricial, Campos (1999) salienta que se trata de um novo arranjo para estimular
cotidianamente a produção de novos padrões de inter-relação entre equipe e usuários, ampliar o compromisso dos
profissionais com a produção de saúde e quebrar obstáculos organizacionais à comunicação. Dessa forma, a estratégia matricial
privilegia o exercício interdisciplinar em busca do cuidado integral em saúde, racionalizando o acesso e o uso de recursos
especializados e estimulando uma clínica ampliada sustentada por um pacto de corresponsabilização sanitária.

1999

CAMPOS

1999

CAMPOS

1999

CAMPOS

1999

CAMPOS

1999

CAMPOS

1999

CAMPOS

1999

CAMPOS

125

1999

CAMPOS

1999

CAMPOS

2000

Campos

2003

CAMPOS

2004

BRASIL. Cartilha de
humanização

2004
2007

BRASIL. Cartilha de
humanização
CAMPOS; DOMITTI

2007

CAMPOS; DOMITTI

2007

CAMPOS; DOMITI

No intuito de viabilizar a reorganização da atenção básica de modo a englobar ações em saúde mental foi proposto um arranjo
de gestão conhecido por Apoio Matricial/AM (Campos, 1999). O AM constitui um suporte técnico especializado e uma
alternativa de re-ordenamento dos fluxos na rede, visando à implementação de uma clínica ampliada e um maior grau de
resolutividade do sistema. Isso se faz por meio de uma diversidade de ofertas terapêuticas através de equipes de referência
que acompanham sistematicamente as Unidades Básicas de Saúde (UBS) dando suporte às mesmas em termos de acolhimento
ao sofrimento psíquico. Dessa maneira, objetiva-se superar a lógica dos encaminhamentos, promovendo uma coresponsabilização entre os envolvidos. O apoiador atua como um agente externo, que se reúne com uma equipe para gerar
processos de reflexão, ajudando na identificação e enfrentamento de situações críticas, e conseqüentemente, de
desenvolvimento de habilidades e aumento da capacidade resolutivas das equipes (Campos, 1999, 2000; Brasil, 2004).
Nas últimas décadas, o Apoio Matricial vem sendo definido como uma estratégia de cogestão para o trabalho
interprofissional e em rede, valorizando-se, nessa definição, a concepção ampliada do processo saúde/doença, a
interdisciplinaridade, o diálogo e a interação entre profissionais que trabalham em equipes ou em redes e sistemas de saúde
(Campos; CAMPOS; DOMITTI, FIGUEIREDO; ONOCKO-CAMPOS; CUNHA; CAMPOS)
“Sugere um modo de funcionamento para o trabalho em rede, valorizando uma concepção ampliada do processo saúdedoença, a interdisciplinaridade, o diálogo e a interação entre profissionais que trabalham em equipes ou em redes e sistemas
de saúde”
Para Campos, os processos de matriciamento devem promover relações horizontais. Assim, o apoiador e a equipe de referência
podem trabalhar na construção de visões multi e transdisciplinares, compartilhando saberes de seu núcleo de conhecimento e
incorporando demandas de outros profissionais e da comunidade.
O apoio matricial é um arranjo na organização dos serviços que complementa as equipes de referência. Já que a equipe de
referência é A responsável pelos SEUS pacientes, ela geralmente não os encaminha, ela pede apoio. A quem a equipe de
referência pede apoio? Tanto aos serviços de referência/ especialidades (e/ou aos especialistas isolados) quanto a outros
profissionais que lidam com o doente.
O apoio matricial é, portanto, uma forma de organizar e ampliar a oferta de ações em saúde, que lança mão de saberes e
práticas especializadas, sem que o usuário deixe de ser cliente da equipe de referência.
(...) proposta de apoio pode se dar tanto por um único profissional quanto por uma equipe multiprofissional, cujo objetivo é
assegurar a retaguarda especializada a uma equipe de referência – que tem o papel de conduzir um caso individual, familiar
ou comunitário ao longo do tempo. Essa proposta de trabalho foi aplicada em serviços de saúde mental, hospitalares e de atenção
básica.
O apoio matricial em saúde objetiva oferecer retaguarda assistencial e suporte técnico-pedagógico às equipes de referência.
Implica a construção compartilhada de diretrizes sanitárias entre profissionais de referência e especialistas. O apoio matricial
e a equipe de referência compreendem arranjos organizacionais e uma metodologia para a gestão do trabalho em saúde
que objetivam a ampliação da clínica e a interação dialógica entre diferentes especialidades e profissões. Equipes de referência
e apoio matricial manterão relações longitudinais no tempo com os usuários, e horizontais entre os profissionais
Este novo arranjo consiste em um apoio técnico-pedagógico destinado a assegurar retaguarda especializada às equipes de
atenção em saúde. Organiza-se numa metodologia de trabalho para além daquela preconizada pelo sistema hierarquizado,
enrijecido em mecanismos de referência e contrarreferência, protocolos e centros de regulação

126

2007

CAMPOS; DOMITTI

2007

CAMPOS; DOMITI

2007

CAMPOS; DOMITI

2007

CAMPOS; DOMITTI

2007

CAMPOS; DOMITTI

2007

CAMPOS; DOMITTI

2007

CAMPOS; DOMITTI

Ao assegurar retaguarda especializada aos profissionais, o AM altera a lógica tradicional de referência e contrarreferência,
com uma oferta horizontal dos serviços. Isso porque o AM busca personalizar a relação entre os profissionais através do contato
direto entre a referência do caso e o especialista de apoio, estimulando a troca de opinião, a integração da equipe e a
coresponsabilização sobre o processo saúde e doença
O apoio matricial em saúde objetiva assegurar retaguarda especializada a equipes e profissionais encarregados da atenção a
problemas de saúde. Trata-se de uma metodologia de trabalho complementar àquela prevista em sistemas hierarquizados, a
saber: mecanismos de referência e contra-referência, protocolos e centros de regulação. O apoio matricial pretende oferecer
tanto retaguarda assistencial quanto suporte técnico-pedagógico às equipes de referência. Depende da construção
compartilhada de diretrizes clínicas e sanitárias entre os componentes de uma equipe de referência e os especialistas que
oferecem apoio matricial. Essas diretrizes devem prever critérios para acionar o apoio e definir o espectro de responsabilidade
tanto dos diferentes integrantes da equipe de referência quanto dos apoiadores matriciais.
O AM objetiva a oferta de suporte assistencial e técnico-pedagógico, pelo especialista, para equipes interdisciplinares que
atuem como equipes de referência e possuam uma clientela adscrita. Essas equipes de referência buscam ampliar a possibilidade
de construção de vínculo entre profissionais e usuários e reforçar o poder de gestão da equipe interdisciplinar
O Apoio Matricial (AM) visa oferecer retaguarda assistencial e suporte técnico-pedagógico a equipes de referências da
Atenção Básica.
Apoio matricial e equipe de referência são, ao mesmo tempo, arranjos organizacionais e uma metodologia para a gestão do
trabalho em saúde, objetivando ampliar as possibilidades de realizar-se clínica ampliada e integração dialógica entre
distintas especialidades e profissões. A composição da equipe de referência e a criação de especialidades em apoio matricial
buscam criar possibilidades para operar-se com uma ampliação do trabalho clínico e do sanitário, já que se considera que
nenhum especialista, de modo isolado, poderá assegurar uma abordagem integral. Essa metodologia pretende assegurar maior
eficácia e eficiência ao trabalho em saúde, mas também investir na construção de autonomia dos usuários. Sua utilização como
instrumento concreto e cotidiano pressupõe certo grau de reforma ou de transformação do modo como se organizam e
funcionam serviços e sistemas de saúde. Isso indica a existência de dificuldades e obstáculos para a reorganização do trabalho
em saúde a partir dessas diretrizes.
O apoio matricial implica sempre a construção de um projeto terapêutico integrado, no entanto essa articulação entre equipe
de referência e apoiadores pode desenvolver-se em três planos fundamentais:
a) atendimentos e intervenções conjuntas entre o especialista matricial e alguns profissionais da equipe de referência;
b) em situações que exijam atenção específica ao núcleo de saber do apoiador, este pode programar para si mesmo uma série
de atendimentos ou de intervenções especializadas, mantendo contato com a equipe de referência, que não se descomprometeria
com o caso, ao contrário, procuraria redefinir um padrão de seguimento complementar e compatível ao cuidado oferecido pelo
apoiador diretamente ao paciente, ou à família ou à comunidade;
c) é possível ainda que o apoio restrinja-se à troca de conhecimento e de orientações entre equipe e apoiador; diálogo sobre
alterações na avaliação do caso e mesmo reorientação de condutas antes adotadas, permanecendo, contudo, o caso sob cuidado
da equipe de referência.
O apoio matricial busca personalizar os sistemas de referência e contra-referência, ao estimular e facilitar o contato direto
entre referência encarregada do caso e especialista de apoio. Nesse sentido, essa metodologia altera o papel das Centrais de
Regulação, reservando-lhe uma função na urgência, no zelo pelas normas e protocolos acordados e na divulgação do apoio
disponível. A decisão sobre o acesso de um caso a um apoio especializado seria, em última instância, tomada de maneira

127

2007

CAMPOS; DOMITTI

2007

CAMPOS; DOMITTI

2007

CAMPOS; DOMITTI

2007

CAMPOS;
NASCIMENTO

2009

Figueiredo; OnockoCampos
Dimenstein et al

2009

2009

Figueiredo; OnockoCampos

2009

PENA

interativa, entre profissional de referência e apoiador. O regulador à distância teria um papel de acompanhar e avaliar a
pertinência dessas decisões e de tomá-las somente em situações de urgência, quando não haveria tempo para o estabelecimento
de contato entre referência e apoio matricial.
Nesse sentido, surgiu a estratégia institucional conhecida por apoio matricial (AM), que objetiva assegurar retaguarda
especializada a equipes e profissionais encarregados da atenção em saúde mental. Visa a favorecer a co-responsabilização
entre as equipes e a diversidade de ofertas terapêuticas através de um profissional de saúde mental que acompanhe
sistematicamente as UBS/USF e permite o conhecimento da demanda em saúde mental que chega à atenção básica, bem como
sobre os usuários, as famílias e o território, propondo que os casos sejam de responsabilidade mútua. O AM é um regulador
de fluxos que promove uma articulação entre os equipamentos de saúde mental e as Unidades Básicas de Saúde (UBS) (Campos
& Domitti, 2007).
Na atenção básica, as equipes de referência são as próprias equipes de Saúde da Família. O apoio matricial, neste âmbito,
pretende oferecer tanto retaguarda assistencial quanto suporte técnico pedagógico às equipes de Saúde da Família, com o
objetivo de superar a lógica da especialização e da fragmentação do trabalho em saúde, encaminhamentos desnecessários e
evitar práticas de “psiquiatrização” e “medicalização” do sofrimento humano. (Campos e Domitti, 2007)
Formulado por Campos (1999), o matriciamento constitui ferramenta que altera a lógica de funcionamento das equipes de
saúde com foco no trabalho colaborativo. No contexto da AB, o AM em saúde mental se estrutura com origem na interlocução
de equipes especializadas ou de AM, compostas pelos profissionais do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e pela equipe
territorializada ou de referência, de que fazem parte os profissionais da equipe da ESF, que possui dúvidas ou, por vezes,
receio em conduzir tais casos (Campos & Domitti, 2007).
Neste contexto, surge em 2003 a proposta do apoio matricial, que tem por objetivo contribuir para o acolhimento das pessoas
em sofrimento mental nos espaços sociais onde circula, por meio de uma construção coletiva de saberes junto às equipes de
saúde da família.
O AM: [...] provoca uma reformulação nos organogramas dos serviços, de forma que as áreas especializadas (outrora verticais)
passam a oferecer apoio técnico horizontal às equipes interdisciplinares da Atenção Básica.
Dimenstein et al. (2009) apontam o AM como uma transformação do sentido de cuidar, apreendendo saúde como produção
de vida diária das pessoas, articulada ao contexto familiar, comunitário e cultural. Nessa conceituação, observa‑se a
potencialidade da contribuição que a AB pode oferecer para se consolidar como suporte em relações corresponsáveis entre os
trabalhadores, usuários e a comunidade, uma atenção mais ligada à noção de cuidado integral.
O Apoio Matricial (AM) ou Matriciamento consiste numa das principais ferramentas para a efetivação desta rede de cuidados.
Realizado por uma equipe inter e multidisciplinar, oferece um suporte técnico especializado a fim de ampliar seu campo de
atuação e qualificar suas ações, buscando ainda garantir às equipes da ESF maior apoio quanto à responsabilização do processo
de assistência, garantindo a integralidade da atenção em todo sistema de saúde.
Neste contexto e, especificamente, em relação ao AM, pode-se entendê-lo como um arranjo organizacional que tem por
objetivo fornecer suporte técnico especializado às equipes de saúde da atenção básica. Um arranjo que propõe romper com o
modelo médico-centrado, caracterizando-se como um instrumento de gestão do cuidado destinado a qualificar a intervenção
em sujeitos e coletivos. Desta forma, o AM estimula a produção de espaços que promovem, no interior das UBS, discussões e
práticas clínicas que trazem novos sentidos para a intervenção em saúde, atualizando modos de cuidar e que rompem com a
lógica de encaminhamentos para as especialidades, ou seja, criam outras possibilidades de atenção que vão além dos CAPS

128

e/ou internações, diversificando e ampliando as alternativas de acolhimento às necessidades dos usuários com transtornos
mentais
O apoio matricial é uma tecnologia de gestão utilizada em conjunto com o arranjo organizacional de equipes de referência
(Brasil, 2010).
Mas o apoio matricial também tem sido afirmado como ferramenta dos gestores para criar canais de comunicação/criação,
coprodução com as equipes para que aquilo que está sendo proposto como política possa passar por transformações,
ressignificações, questionamentos no interior da equipe, entre os trabalhadores, entre os trabalhadores e a gestão, entre os
trabalhadores e a população, num movimento de construção compartilhada onde os diversos campos de saber interagem para
produzir o cuidado. (Bertussi, 2010)
(...) o Apoio Matricial Rizomático não é um método, mas um dispositivo, uma ferramenta da gestão. A idéia de método de
gestão, segundo a autora, pressupõe um caminho pré definido para se chegar num objetivo, ou seja, um caminho que sintetizaria
todos os elementos teóricos conceituais e as ferramentas necessárias para produzir a gestão e a atenção em saúde.
Os conceitos de apoio matricial e equipe de referência foram desenvolvidos por Campos (1998, 2000, 2003), dentro da linha de
pesquisa voltada para a reforma das organizações e do trabalho em saúde denominada de “Política, modelo de atenção e de
gestão: investigação teórica e metodológica”, apoiada pelo CNPq. Essa metodologia de gestão do cuidado foi, inicialmente,
adotada em serviços de saúde mental, de atenção básica e da área hospitalar do Sistema Único de Saúde de Campinas-SP, Belo
Horizonte-MG e também na cidade de Rosário/Argentina.

2010

BRASIL

2010

BERTUSSI

2010

BERTUSSI

2011

CUNHA; CAMPOS.

2011

CUNHA; CAMPOS.

O que é e como funcionam o Apoio Matricial e a Equipe de Referência? O Apoio Matricial em saúde objetiva assegurar
retaguarda especializada a equipes e profissionais encarregados da atenção a problemas de saúde, de maneira personalizada
e interativa. Opera com o conceito de núcleo e de campo. Assim: um especialista com determinado núcleo, apoia especialistas
com outro núcleo de formação, objetivando a ampliação da eficácia de sua atuação. Trata-se de uma metodologia de trabalho
complementar àquela prevista em sistemas hierarquizados, a saber: mecanismos de referência e contrarreferência, protocolos
e centros de regulação.

2011

CUNHA; CAMPOS.

2011

CUNHA; CAMPOS.

2011

CUNHA; CAMPOS.

O Apoio Matricial pretende oferecer tanto retaguarda assistencial quanto suporte técnico-pedagógico às equipes de
referência. Depende da personalização da relação entre equipes de saúde, da ampliação dos cenários em que se realiza a atenção
especializada e da construção compartilhada de diretrizes clínicas e sanitárias entre os componentes de uma equipe de
referência e os especialistas que oferecem Apoio Matricial.
A proposta de Apoio Matricial e Equipe de Referência foi desenhada com o objetivo de superar as limitações impostas pela
organização tradicional dos serviços de saúde e ampliar as possibilidades de integração dialógica entre diversas especialidades
(CUNHA; CAMPOS, 2011). Sendo assim, o Apoio Matricial, desde sua concepção, atua para promover a retaguarda
assistencial e o suporte técnico pedagógico de profissionais especialistas às Equipes de Referência, reforçando a vontade de
mudanças nas relações de trabalho.
Por conseguinte, o Apoio Matricial (AM) constitui-se tentativa de consolidar o cuidado em saúde mental na APS e potencializar
o protagonismo de profissionais da ESF e de usuários. Ele busca assegurar retaguarda especializada, por meio das equipes
do CAPS, à assistência direta ao usuário, bem como fornecer suporte técnico-pedagógico aos profissionais da ESF,
instrumentalizando-os para o cuidado adequado à referida demanda. Ademais, o AM procura aumentar o grau de resolubilidade

129

2011

BRASIL. MINISTÉRIO
DA SAÚDE.

2012

BELOTTI; LAVRADOR

2013
2013

JORGE
AZEVEDO; GONDIM,
SILVA
MINOZZO; COSTA

2013

2013

BONFIM; BASTOS;
GÓIS, TOFÓLI

2013

BONFIM; BASTOS;
GÓIS, TOFÓLI

2014

CAMPOS;
FIGUEIREDO;
CASTRO; JÚNIOR
HIRDES; SILVA

2014
2014

PAIXÃO; TAVARES

2014

CAMPOS;
FIGUEIREDO;
CASTRO; JÚNIOR

das ações de saúde mental, propondo reformulação no modo de organização dos serviços e das relações horizontais entre a
equipe do CAPS (especialistas) e a equipe da ESF, numa perspectiva interdisciplinar
O apoio matricial (AM) ou matriciamento em saúde mental, nesse contexto, revela‑se como importante estratégia de articulação
entre saúde mental e AB, ou seja, pode ser entendido como um recurso de suporte especializado às equipes da Estratégia Saúde
da Família (ESF) na AB no atendimento às pessoas em sofrimento psíquico ou transtornos mentais. É um novo modo de produzir
saúde em duas ou mais equipes que compartilham experiências, saberes e práticas, numa elaboração compartilhada baseada
em uma proposta de intervenção pedagógico‑terapêutica
(Ministério da Saúde, 2011).
Sua ideia central é compartilhar situações encontradas no território, numa atitude de corresponsabilização pelos casos, que
se realiza por meio de supervisões clínicas e intervenções conjuntas. Dessa forma, busca-se superar a lógica do
encaminhamento/fragmentação, por meio da ampliação da capacidade resolutiva da equipe local.
(...) tem por objetivo superar a lógica da especialização e da fragmentação do trabalho da própria área de saúde mental.
Sua efetivação resulta, sobretudo, na construção de uma rede de cuidados qualificada onde cada especialidade de forma
descentralizada traz sua contribuição.
O apoio matricial em saúde mental é uma prática em que profissionais especialistas em saúde mental oferecem suporte a equipes
de SF com o objetivo de ampliar a sua resolubilidade e produzir maior responsabilização no acompanhamento e atendimento
das pessoas em sofrimento psíquico, rompendo com a lógica dos encaminhamentos indiscriminados e ampliando a clínica da
SF.
O apoiador matricial é um profissional especializado em alguma área de conhecimento (saúde mental, educação física, nutrição,
fisioterapia etc.) que difere da área de conhecimento da equipe de referência, e que pode apoiar esses profissionais com
determinadas informações e intervenções voltadas para contribuir na ampliação da resolutividade das ações dessa equipe.
No intuito de contribuir com a confrontação de um modelo de atenção burocratizado e centrado na doença, Campos (1999,
1998) propõe o Apoio Matricial (AM) como uma estratégia de organização do trabalho em saúde cuja atuação deve ser
complementar aos sistemas de referência e contrarreferência e às centrais de regulação da atenção especializada. Desta forma,
o AM sugere uma mudança radical na conduta do especialista, indicando que este passe a ter uma postura dialógica e horizontal
com os outros profissionais da rede de saúde.
O apoio matricial e a equipe de referência são tanto arranjos organizacionais, como uma metodologia para fazer algo. Foram
imaginadas e experimentadas como forma para se operar em redes ou em sistemas complexos. Pretendem construir um modo
de operar o trabalho a partir de diretrizes nem sempre fáceis de compatibilização.
Neste sentido, o apoio matricial configura-se como um recurso potente para construir novos saberes, e, sobretudo, novas
práticas no território.
Num esforço de conceituação, partindo das atribuições descritas, pode-se entender a proposta de apoio matricial como uma
estratégia para reorientação das práticas de cuidado mediante as ofertas de conhecimento dos diversos núcleos profissionais.
Neste contexto é que se opera a passagem de um modelo pautado na atenção fragmentada, comum à racionalidade biomédica,
para um modelo que reconheça, de forma interdisciplinar, as necessidades de saúde e seus condicionantes sociais e biológicos.
O apoio matricial tem uma dimensão de suporte técnico-pedagógico, ou seja, pressupõe apoio educativo para a equipe de
referência e ações realizadas conjuntamente com ela. A partir de discussões clínicas conjuntas ou mesmo intervenções
concretas junto com as equipes (consultas, visitas domiciliares, grupos), os apoiadores matriciais podem contribuir para o

130

2014

CAMPOS;
FIGUEIREDO;
CASTRO; JÚNIOR

2014

IGLESIAS; AVELLAR

2015

HIRDES; SCARPARO

aumento da capacidade resolutiva das equipes, qualificando-as para uma atenção ampliada que contemple a complexidade
da vida dos sujeitos. Mas existe também uma dimensão de suporte assistencial, o que demanda do apoiador a realização de
ações clínicas diretamente com os usuários. Contudo, o trabalho na lógica matricial permite distinguir os casos e situações que
podem ser acompanhadas pela equipe de referência, daquelas demandas que necessitam de uma atenção especializada, a ser
oferecida pelos próprios apoiadores matriciais ou, de acordo com o risco, a vulnerabilidade e a gravidade, pelos serviços
especializados ou por outras instâncias como assistência social, educação, etc.
O Apoio Matricial e a Equipe de Referência pretendem construir um modo de operar o trabalho a partir de diretrizes nem
sempre fáceis de compatibilização. Em primeiro lugar, busca levar a lógica da cogestão e do apoio para as relações
interprofissionais, substituindo as tradicionais modalidades de relação burocrática e com grande desequilíbrio de poder. Na
saúde, tenta criticar e reconstruir a tal da “interconsulta” e dos “sistemas de referência e contrarreferência”. Em segundo
lugar, reconhecendo a complexidade dos processos sociais, sanitários ou pedagógicos, busca pensar modos de se lidar com esses
processos segundo o referencial da interdisciplinaridade e da interprofissionalidade. Procura, portanto, a constituição de
equipes multiprofissionais para o enfretamento de problemas sem, contudo, perder-se o padrão de responsabilização e
compromisso com a produção de saúde. Trata-se de uma proposta de mudança do arranjo organizacional e das
responsabilidades profissionais e gerenciais, de modo a facilitar a cogestão em locais onde é necessário um trabalho em
equipe.
O Apoio Matricial se constituiu como proposta do Ministério da Saúde para a articulação entre a rede de Saúde Mental e as
Unidades de Saúde, com vistas à implementação de uma clínica ampliada, ao compartilhamento no cuidado a estes usuários,
à integração dialógica entre diferentes categorias profissionais e especialidades, à promoção à saúde e à disponibilização de
outras ofertas terapêuticas através de um profissional de saúde mental que acompanhe sistematicamente as USs.
O apoio matricial foi desenvolvido e conceituado por Campos (2003) e Cunha e Campos (2011) como uma metodologia de
gestão do cuidado que objetiva assegurar retaguarda especializada a equipes e profissionais da saúde, de maneira
personalizada e interativa. Busca oferecer retaguarda assistencial e suporte técnico-pedagógico às equipes de referência.
Essa metodologia de trabalho depende da personalização da relação entre as equipes, da ampliação dos cenários onde se realiza
a atenção especializada e da construção compartilhada de diretrizes clínicas e sanitárias entre a equipe de referência e os
especialistas do apoio matricial. Indissociável do conceito de apoio matricial tem-se a equipe e os profissionais de referência –
aqueles que têm a responsabilidade pela condução de cada caso. Ambos, apoio matricial e equipes de referência possibilitam
a ampliação da clínica e a integração dialógica entre diferentes especialidades e profissões.

APÊNDICE B – Mapas dialógicos
Primeira parte da Oficina

131

Quem falou

Entre profissionais

Enf.
(Enfermeiro)
Resid.
(Residente)

que Apoio Matricial
envolve uma troca, um
sistema
de
compartilhamento (L
88-89)

Em si mesmo

Usuário

Enf. Resid.

Teoria x prática/
prática

Oficina

talvez na prática o Apoio
Matricial não... não
acontece como a gente....
pelas
palavras
que
utilizamos [refere-se as
palavras no painel] (L
89-90)

Enf. Resid.

mas todo mundo tem
uma visão bem rica
daquilo que o Apoio
Matricial representa. (L
90-92)

AS (Assistente
Social) – AB
(Atenção
Básica)

AS - AB

Modelo proposto

Acho
que
o
compromisso com
o sujeito, com
aquilo que está
sendo feito (L 9394)
E uma palavra que acho
que muita gente colocou
é o compartilhar, e
geralmente, a gente
quer tá encaminhando
né? pra rede. E quando
você compartilha com o
usuário, com a equipe
né como vai ser
direcionada
aquela

132

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

demanda que é colocada
pelo sujeito, aí tem um
resultado
diferente
porque
você
tá
compartilhando. (L 9497)
AS - AB

AS - AB

Psi. (Psicólogo)
– Gestão

Tá ouvindo ele para
realmente saber se
é aquilo que ele
quer,
ver
as
demandas que ele
tá trazendo, as
necessidades,
(L
98-99)
pra aí ser um trabalho
mais organizado e
conjunto com toda
equipe. (L 100)
Eu acho que falta
uma substância. Fala
muita coisa mas, não
sei, parece que são
coisas acessórias. A
gente tá falando em
torno sempre do
matriciamento
perfeito,
do
matriciamento, uma
característica
do
matriciamento, mas
isso,
o
Apoio
Matricial é o quê? (L
101-104)

Teoria x prática/
prática

Oficina

133

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Psi. (Psicólogo)
– Gestão

Teoria x prática/
prática
Eu acho que falta isso,
falta uma consistência,
uma coisa mais, uma
sustância. (L 104-105)

Pesq.
(Pesquisadora)

Psi-gestão

Psi-gestão

Psi – NASI

Oficina

O que você acha que
seja essa sustância? (L
106)
Eu acho que é uma
definição clara do que
é e como se faz. Eu
acho que quando a
gente fala do apoio
matricial,
fala
compartilhar, sempre
coisas que não tem o
que é e como fazer
fechado. (L 107-109)
Acho que isso falta, e aí
dá margens a gente fazer
diversas coisas sob o
título de matriciamento.
(L 109-110)
Agora eu acho assim que
no caso seria só pra
ressignificar né, assim
como você falou o efeito
do matriciamento, se eu
falo se tem efeito já tem
algum apoio matricial
né. Mas assim, talvez ele
exista,
mas
a
necessidade de saber de
fato localizá-lo pra

134

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Psi – NASI

PsiCAPS
Interior

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática
ressignificar né toda essa
experiência a partir de então ok! - aquilo é apoio
matricial.
Enfim,
ressignificar
a
experiência agora a
partir de uma curvatura e
seus significados. (L
111-116)

Oficina

Pelo que foi falado aqui
eu acho que as ideias
estão bem né, integral,
dialogando
todo
mundo acho com a
mesma perspectiva. Só
que achei interessante
que as vozes sabe que
são faladas ali [aponta
o painel] acho que
quando vem da gestão,
vem de uma forma né,
aí quando vem do
profissional que tá ali
na ponta, na atuação do
PSF vem de uma outra
forma. Enfim, as vozes
de onde vem esse
apoio\matriciamento
mudam um pouquinho,
da onde tá sendo esse
lugar. (L 116-121)
Eu acho que também
falta um pouco mais de

135

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática

algo mais diria subjetivo
entendeu,
tipo
de
sentimentos mesmo, de
afetos porque tipo é
envolvimento né. Eu
vejo assim que é
envolvimento subjetivo,
que tem que viver. (L
122-124)
PsiCAPS
Interior

PsiCAPS
Interior

Tem essa questão teórica
né, que a gente ainda
conversa sobre né, tipo a
clínica, clínica ampliada,
compartilhamento tal,
“eu li lá assim, é assim
tal, tal”. Mas no dia –adia o que fica mesmo
assim, não é só isso né,
(L 125-127)
Tem que ter alguma
coisa assim que diga
assim “não, eu quero ir,
eu quero conhecer mais,
eu quero compreender
melhor como eu posso
fazer para melhorar isso,
essa situação, esse
usuário”. Como a gente
pode
fazer
esse
envolvimento,
esse
envolvimento afetivo.
(L 127-130)

Oficina

136

Quem falou
PsiCAPS
Interior
PsiCAPS
Interior

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Oficina
Acho que talvez isso a
gente fala pouco (L 130)

E acho que talvez isso
é
algo
que
é
fundamental
no
matriciamento
entendeu e também
em outros. Mas o
matriciamento
eu
digo assim porque
vem de um modelo
mais qualitativo, não
é um modelo mais
quantitativo-objetivo.
(L 130-133)

PsiCAPS
Interior

Psi-Gestão

Teoria x prática/
prática

É basicamente mais isso,
fica muito na parte
teórica. Pq até na parte
teórica existe um pouco
de confusão né e mesmo
assim nessa parte teórica
a gente fica mais na parte
teórica e na prática é
como se fosse meio que
na
dificuldade
em
colocar em prática. (L
134-137)
Eu acho que a
dificuldade é pela
falta de um de um
direcionamento mais
assim, eu acho que de
uma
definição

137

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática

Oficina

mesmo, de uma coisa
mais
de
uma
circunscrição sendo o
que é e o que não é.
Quando
fala
compartilhamento,
rede, substituir um
modelo, ok, isso tá
claro né? (L 138-141)
Psi-Gestão

PsiCAPS
Interior
Psi-Gestão

Mas, eu acho que isso
não circunscreve a coisa.
Assim, não dá pra gente
identificar na prática o
que é e o que não é. Eu
acho que isso não tá
muito claro. A gente vê
experimentos,
experiências ou ações
e... (L 141-143)
É um dispositivo
confuso. (L 144)
Eu acho é, que não
tem como a gente
dizer isso é ou isso
não é. (L 145 -146)

Enf. Res.

Você acha que isso acontece
porque os limites não estão
definidos? (L 147-148)

Psi – NASI
Psi-Gestão

É? (L 149)
Porque não tem uma
definição assim, uma
circunscrição, uma

138

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática

Oficina

coisa que eu possa
dizer por exemplo,
isso
não
é
matriciamento, isso é
matriciamento.
(L
150-152)
Psi-Gestão

Sendo que aí tem o
NASF que vai no posto
de saúde e faz uma
dinâmica lá com o
pessoal do posto e tal, aí
fazem aquele negócio, aí
vão falar do usuário. Isso
é matriciamento e isso
não é? (L 152-154).

Enf. Res.

Psi-Gestão

Você acha que muitas vezes
assim o efeito que se pretende
é esse [em relação ao painel],
mas a forma que se alcança
isso varia de tal forma que não
fica claro o que tá sendo ou
não o matriciamento? (L 155157)
Também. Eu acho
que são coisas etéreas
ainda assim, são
coisas que tão em
torno de algo que a
gente não sabe muito
bem. Eu falo é...
compartilhamento,
é... rede, superar o
modelo, apoio e tal,

139

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática

acho que são coisas
que tão ao redor de
algo. Esse algo não tá
muito bem definido,
não tá muito claro. (L
158 – 161)
Psi-Gestão

AS – Gestão

AS – Gestão

Aí na hora de passar pra
prática, fica solto. A
gente não consegue ter
uma prática de fazer
matriciamento: é assim
que se faz, é desse jeito,
é assim que se faz, é
assim que não se faz.
Esses limites, esses
delineamentos, eu acho
que não tão claros. Daí
vem a dificuldade de pôr
em prática. (L 161-165)
É que na verdade não
exige esse ponto de
afetividade. Seria de
aproximação com o
sujeito, das equipes e
de responsabilidade e
de comprometimento
muito maior. (L 166 –
168)
A gente é, eu imagino
que as ações são muito
mais superficiais, as
pessoas passam de uma
forma muito superficial

Oficina

140

Quem falou

AS – Gestão

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática
muitas vezes pelos
serviços. A Estratégia
que deveria ter uma
aproximação
maior,
mas, as pessoas passam
de
forma
muito
superficial e aí a ação de
apoio, de matriciamento
vê ela exige muito mais
de cuidado, de um olhar
mais aproximado, dessa
aproximação, que pode
ser afetiva, mas eu acho
que a responsabilidade e
compromisso
já
pontuam um pouquinho
disso, entendeu. (L 168174)

Se vc tem isso, se você
assume
esse
compromisso e essa
responsabilidade diante
daquilo, numa ação que
esteja voltada a tudo
isso que a gente falou,
pelo menos já dá um
passo
adiante
em
relação a uma mudança.
(L 174 – 176)
Eu
acho
que
a
experiência que tenho de
onde do lugar que a
gente tá agora que é a

Oficina

141

Quem falou

AS – Gestão

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática
gestão. E na experiência
que a gente teve em
Maceió [projeto piloto] e
muita gente viveu é que
isso ainda é muito
incipiente. (L 176-178)
A gente não tem na
verdade, eu não enxergo
esse apoio efetivo, seja
que a gente não sabe
como, ou que a gente não
consegue. Acho que não
tem ninguém do NASF
aqui né?
Não tem
ninguém do NASF de
Maceió aqui que poderia
de repente compartilhar
um pouco como tá sendo
isso, mas eu não
enxergo,
além
da
experiência que a gente
viveu [projeto piloto] e
como isso se dá na
prática realmente. Foi
muito pequena o que a
gente viveu né. A
experiência que a gente
teve e que é uma
avaliação que ela é
positiva, mas ao mesmo
tempo traz mais desafios
do que respostas. Como

Oficina

142

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática
é que se faz o apoio e tal.
(L 178-185)

Mas, eu penso que
precisa até porque é
uma ação de muita
responsabilidade
porque sem isso a
gente não consegue,
não dá pra enxergar o
sujeito de forma
superficial senão a
gente não faz, nem a
equipe de apoio, nem
a equipe de referência
consegue fazer o
trabalho né. (L 185188)
AS - AB

AS - AB

Eu acho também que
assim que o apoio
matricial que exige na
prática do dia a dia das
equipes,
dos
profissionais, (L 189190)
é a questão do
sujeito
enquanto
sua
autonomia
mesmo de escolha,
de tá ali naquele
meio
também
construindo,
eu
acho que isso é um

Oficina

143

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário
desafio.
192)

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática

(L 190Assim a gente, tive a
oportunidade da questão
do apoio matricial, o
projeto piloto e tudo, (L
192-193)

AS - AB

AS - AB

e assim enquanto o
sujeito ele passa a
ter voz e passa
escutá-lo e muitas
vezes a gente quer
as coisas muito
prontinhas,
direcionar como ele
deve seguir e pra
onde ele deve ir, e
isso
foi
um
momento
pra
equipe
de
despertar, “poxa,
mas ele tem a
autonomia dele, ele
tem escolha”, mas a
gente tem que
pensar as vezes que
não é o que ele
quer. (L 193-197)
Realmente concordo
que é algo novo, novo
pra equipe, novo pra
quem for fazer o
matriciamento junto

Oficina

144

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto
com a gente, (L 197198)

AS - AB

mas assim acho que
existe
um
compromisso, um
respeito
mesmo
com o usuário, com
o sujeito que ele
tem uma autonomia
ali que muitas
vezes a gente não
respeita. (L 198200)

Psi-Residente

Psi-Residente

Eu acho que é... esses
limites de fato não tão
bem colocados, mas
eu também não sei até
que ponto a gente vai
conseguir alcançar
uma delimitação do
que é apoio matricial
e do que não é apoio
matricial. (L 201203)
Quando eu penso em
apoio matricial foi uma
palavra que eu não
coloquei, mas alguém
colocou que tem tudo a
ver com o inter e trans,
com a questão dos
diferentes profissionais

Teoria x prática/
prática

Oficina

145

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

se envolvendo né? (L
203-206)
Psi-Residente

E aí isso faz pensar a
formação, que a gente
teve formações muito
diferentes, aí entra a
questão dos afetos, que
eu acho que são super
importantes pra pensar
essa
questão
da
interdisciplinaridade, se
não
houver
disponibilidade, se não
houver o respeito pela
diferença que aquele
profissional foi formado
de uma forma que eu
não fui, então a gente
tem que aprender a lidar
com isso pra se integrar
e conseguir de fato fazer
o
apoio
matricial
funcionar. (L 206-211)

Psi-Residente

Psi-Residente

Então, eu não sei até
que ponto esses
limites são possíveis
de serem colocados.
Acho que é um
movimento
muito
novo, (L 211-212).
Eu tô na residência e
tenho acompanhado e já
acompanhei
algumas

Teoria x prática/
prática

Oficina

146

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática

experiências de NASF e
de outros NASFs e tô
acompanhando
um
agora e a percepção que
eu tenho é que a gente tá
aprendendo a fazer.
Ninguém sabe muito
bem... (L 212-215)
Psi - AB

Aprender fazendo. (L
216)
É. Aprender fazendo,
exatamente. (L 217)

Psi-Residente
PsiCAPS
Interior
PsiCAPS
Interior

PsiCAPS
Interior

PsiCAPS
Interior

É um desafio né? (L
218)
Por exemplo, essa
questão mesmo que a
gente vem de uma
formação
disciplinar
né? (L 219-220)
A universidade ela é
um
modelo
disciplinar, aí quando
a gente vai pra um
modelo
interdisciplinar
(L
220-221)
e aí as vezes na nossa
própria equipe isso já é
tão difícil às vezes de ser
conversado.
Imagine
você diante de outra
equipe né? Tipo já não
atua e tal, aí de repente lá

Oficina

147

Quem falou

PsiCAPS
Interior

AS-Gestão
PsiCAPS
Interior
AS-Gestão

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática
também
é
outras
disciplinas, outras vozes
e outro serviço, você tem
que conhecer o serviço
também. (L 222-224)

Então assim, é um
desafio né? [ri] Eu
acho que é um
desafio aí pra gente
tentar ver como a
gente faz. (L 224226)
É um espaço de
conflitos. (L 227)
Conflitos, hã ram. (L
228)
É, porque a gente viveu
isso nessa chegada
[refere-se a chegada na
UBS durante o projeto
piloto]. Até porque nós
éramos uma equipe de
fora né? Aí a gente chega
por mais que a gente
tenha tido uma conversa
inicial, chega com uma
expectativa
diferente,
quem tá recebendo tá
achando outra coisa do
que vai ser feito, isso
ficou muito evidente. (L
229 – 232)

Oficina

148

Quem falou
AS-Gestão

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

AS-Gestão

Teoria x prática/
prática

É um espaço de
conflitos
entre
as
categorias, entre as
disciplinas, é um espaço
onde se evidencia as
correlações de força
daquela profissão ser
mais do que as outras, é
um espaço de diálogo
onde isso muitas vezes é
colocado em xeque. (L
232-235)

AS-Gestão

AS-Gestão

Modelo proposto

Porque você ali na
verdade
naquela
discussão sobre aquele
caso, não tem ninguém
que sabe mais do que
outro desde o agente
comunitário
até
o
médico da unidade
precisa ser escutado para
que seja defendido em
conjunto (L 235-238).
qual é a estratégia
que vai ser pensada
pra aquele sujeito
que até então não
está ali porque a
gente não chegou
nesse ponto (L 238239) .
Na verdade, a gente
discutiu as coisas muitas

Oficina

149

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

AS- AB
AS-Gestão

Psi-Residente

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática
vezes sem essa figura
né? [pergunta a AS-AB]
(L 239-240)

Oficina

Isso. (L 241)
Mas que esse espaço de
conflito ele foi bastante
presente na experiência
que a gente teve. (L 242243)
Na
equipe
multiprofissional falava
“Não! eu acho! Eu
atendo, eu acho que é
isso e pronto”. E não
dava abertura e aí outras
coisas
que
eles
colocavam
e
esse
conflito ocorreu. (L 243245)

AS-Gestão

Psi-Residente

Usuário

Eu acho que mais que
um conflito entre as
disciplinas,
tem
o
conflito... Eu vou trazer
um pouco da minha
experiência
por
exemplo (L 246-248)
é muito difícil conseguir
enxergar a atuação da
psicologia nesse espaço,
eu acho que enquanto
disciplinas nem a gente
sabe direito como fazer
isso. Então, existe uma

150

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Educadora
Física – CAPS

Educadora
Física – CAPS

eu achei interessante a
fala do [Psi- CAPS
Interior] inicial quando
ele
fala
de
subjetividade. (L 255256)

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática
dificuldade
das
disciplinas
se
relacionarem entre si e
de compreenderem o
papel delas ali né? Ser
psicólogo no NASF é
fazer o quê? Eu faço
atendimento individual
ou não faço? Eu faço
psicoterapia ou não
faço? Então, acho que
também existe muito
isso... (L 248-252)
Essa discussão também
aconteceu no grupo do
whatts app [refere-se ao
grupo intitulado Atenção
Psicossocial – AL o qual
foi criado com o intuito
que profissionais de
saúde pudessem dialogar
sobre o rede de Atenção
Psicossocial]
que
estávamos falando sobre
campo e núcleo, (L 253255)

Oficina

151

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Educadora
Física – CAPS

Educadora
Física – CAPS

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática
Eu acho que esse
conflito né e essa
confusão se reflete, se
refletiu
na
nossa
experiência em Maceió
[projeto piloto]. (L 256257)

Ela
vem
dessa
subjetividade,
desse
significado
desses
sentimentos que são
provocados desde os
modelos mesmo. (L
257-259)

Educadora
Física – CAPS

Educadora
Física – CAPS

Usuário

acho que entre os
profissionais né até
quando a
gente foi
convocada a participar
do projeto né. Esses
conflitos... muita gente
tem o discurso de que
acha que o matricimanto
é compartilhar, que a
gente deve compartilhar
mas
a
prática
é
totalmente diferente. (L
259-262)
Compartilhar eu acho
que para cada um de
nós, é uma coisa que já é
difícil né, a gente tem
algumas defesas, a gente
não quer compartilhar a

Oficina

152

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática

nossa vida com o outro,
a gente se defende um
pouco. (L 262-264)
Educadora
Física – CAPS

Educadora
Física – CAPS

Educadora
Física – CAPS

E eu vejo isso muito
assim na nossa prática,
na
prática
dos
profissionais, (L 265265)
uma defesa né de uma
estratégia
[apoio
matricial] que veio
pra mudar o modelo
de como cuidar né , a
gente cuida do outro
encaminhando, e não,
agora a gente não
cuida encaminhando,
a
gente
cuida
trazendo pra gente, a
gente traz de verdade,
a gente traz até aqui
né e não traz mais. (L
265-268)
Eu acho assim, que na
nossa prática esses
limites que o Psi-Gestão
falou, com relação a eles
não existirem, acho que
eles não existem em
vários aspectos, desse
campo né que a gente tá
atuando e que vai
realmente tendo que

Oficina

153

Quem falou

Psi- AB

Entre profissionais

Em si mesmo

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática
delimitar
algumas
coisas, porque fica mais
confuso
quando
a
gente.... Você não sabe
exatamente o que fazer,
aquelas tecnologias que
a gente viu de como
cuidar do outro né, todo
mundo foi lá e passou,
mas assim não tem, eu
não
sinto
uma
intimidade,
uma
afetividade das pessoas
com isso, não é uma
prática é, não sei, que as
pessoas
fiquem
a
vontade de fazer. (L 268274)

Eu fiquei pensando a
minha prática, eu até
falei pra Renata: Renata,
eu nunca escutei essa
palavra
Apoio
Matricial. (L 275-276)

Psi- AB

Psi- AB

Usuário

Então assim, é uma coisa
que tá um pouco longe
da gente que tá na ponta,
na Unidade de Saúde
Básica, (L 277-276)
a minha não é PSF então
a gente é de demanda e
eu como trabalho no
[Hospital do Estado]

Oficina

154

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Teoria x prática/
prática

Oficina

também, então assim, eu
acho eu fiquei assim “Ai
meu deus eu sou um ET
[risos] todo mundo tá
falando e eu não sei o
que é”. E antes de
começar eu peguei
[indica
para
uma
cartilha de humanização
que estava em cima da
carteira que não estava
na roda] e fui ver o que
era “Ah, é isso”, (L 278282)
Psi- AB

então assim, eu acho
que como é tudo é
muito novo, a gente
precisa
abrir
discussões,
nos
centros, nas unidades,
nos hospitais pra
gente
poder
se
apropriar disso. (L
282-283)

Psi- AB

Psi- AB

Vocês que tão, estão sentindo
necessidade de se apropriar de
saber o que é, imagina quem
nunca teve. (L 284-285)
Então, eu acho que a
gente
precisa
caminhar muito ainda
no apoio (L 285).

155

Quem falou

Entre profissionais

Em si mesmo

Usuário

Modelo proposto

Psi- AB

Teoria x prática/
prática
Principalmente eu que
encaminho muito no
hospital. A nossa prática
... [Psi-CAPS Interior
interrompe] (L 286)

Psi – CAPS
Interior

Oficina

Aquele seminário [evento
realizado pelos coordenadores
do projeto piloto com a
temática do AM] que teve de
matriciamento,
foi
o
primeiro? Esse ano né?
[pergunta
a
outros
participantes que confirmam]
o primeiro o foi esse ano né do
estado? Do estado todo. (L
288-290)
E nem todo mundo teve
acesso né? (L 291)
E quem teve acesso saiu

Psi- AB
Psi – CAPS
Interior

confuso. (L 292)

Psi- NASI

Vai ter um momento para
falar da experiência? (L 294)

Segunda parte da Oficina
Quem falou

AS (Atenção
Básica)

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,
Bom eu coloquei escuta qualificada, eu
acho que não é só escutar o usuário
quando chega no atendimento, mas que

Projeto Piloto

Oficina

156

Quem falou

AS (Atenção
Básica)

AS (Atenção
Básica)
AS (Atenção
Básica)

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

é algo que eu venho tentando lá na unidade, por
exemplo, faço um atendimento e aí pergunto se
alguém gostaria em outro momento que eu
chegasse junto com o psicólogo, com alguém
do NASF e quando o usuário não aceita tem
outro momento que aquilo pode ser
compartilhado com outros profissionais (L
331-334).
Visita domiciliar (L 334)
também a gente tem feito esse movimento e
fazer visita com outros profissionais. (L 334335)

AS (Atenção
Básica)

AS (Atenção
Básica)
AS (Atenção
Básica)

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,
você respeite o que ele traz, a religião, a
forma como ele se expressa, eu acho que
isso é importante, acho que o momento de
parar para ouvir. Acho que o atendimento
compartilhado, (L – 328-330)

O NASF realmente é uma figura que
realmente tem isso muito forte e mesmo
assim, a gente sempre pergunta ao usuário
se quer mesmo receber outros
profissionais em sua casa, na visita (L
335- 337).
E a necessidade de se fazer o PTS, (L 338)
geralmente quando a equipe traz uma demanda
que muitas vezes procura o serviço social, que
quando a demanda é queixa alguns
profissionais já absorvem aquilo como uma
demanda dele, mas quando é uma demanda vê
a figura do profissional do serviço social como
aquele que vai conduzir, que vai caminhar, que
vai resolver viu? (L 338-342).

Projeto Piloto

Oficina

157

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

AS (Atenção
Básica)

fazendo referência ao NASF que tem isso
na sua essência a questão do
matriciamento, a gente sentar, a equipe
sentar e a gente fazer esse PTS. (L 345346)
Essas ações que venho fazendo dentro da
Unidade de Saúde, que eu acho que pode ser
um apoio matricial, mas discutir realmente e
trazer isso enquanto compromisso. (L 346-348)

C
AS
Básica)

E vocês tão desenvolvido
isso né Eliana? (L 349)
Isso,
eu
enquanto
profissional fazendo esse
movimento né, mas assim, a
proposta do NASF de trazer
o matriciamento, de dar
continuidade ao momento
que foi feito mas, realmente é
desafiador, mas é algo que tá
sendo
sensibilizado
novamente e vendo as
pessoas que querem estar
envolvidas mas essas são
algumas ações que venho
fazendo
enquanto
profissional
dentro
da
equipe. (L 350 -354)

(Atenção

AS- Gestão

Oficina

Então, estou fazendo aquele movimento de
que a gente precisa parar, a gente precisa
fazer, eu tô sempre fazendo referência ao
projeto de experiência que a gente teve, do
projeto piloto, (L 342-344)

AS (Atenção
Básica)

AS (Atenção
Básica)

Projeto Piloto

É, na verdade, como eu tô na gestão não tô
tão próxima assim junto aos usuários né,

158

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

Oficina

então assim, eu coloquei que a participação
no projeto de apoio matricial de saúde mental
na atenção básica. E aí nesse projeto, (L 355357)
AS- Gestão

AS- Gestão

C
AS- Gestão

a discussão de caso, discussão de PTS e
coloquei o processo de educação
permanente em saúde, (L 358-359)
porque na verdade o espaço de matriciamento
também é um espaço pedagógico, acho que isso
foi uma das coisas que percebi, como é um
espaço de troca e permuta de saberes ele
termina sendo um espaço pedagógico. E
coloquei especificamente a participação, no
caso da gestão, eu fiquei aqui tentando ver o
que seria isso porque assim existe uma
exigência, a gente termina fazendo o papel de
apoiador no incentivo à prática do apoio nos
serviços, seja indo ao NASF, a gente já teve
uma discussão de construção de novas equipes,
a gente sempre tá valorizando isso e recorrendo
a esse... a esse... pedindo pra que os serviços
recorram a esse apoio no caso aos CAPS
porque ele também tem esse papel de
matriciador, então assim, a gente trabalha no
sentido de estimular que isso ocorra. (L 359368)
Como gestão seria estimular
que as equipes... (L 369)
Isso! Isso tudo seria nesse
sentido, no caso, de tá
levando essa discussão para
as equipes nos CAPS, nos
NASF que é onde a gente tem
tentado fazer isso. Não é uma

159

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Projeto Piloto

Oficina

coisa tão fácil, porque
mesmo quem está dentro do
NASF hoje tá se construindo
e se consolidando o fazer,
mesmo sendo essencialmente
matriciador isso ainda tá se
construindo e no CAPS isso
também tá se construindo,
mesmo estando na proposta
do serviço, não é uma prática
cotidiana tão presente. Então
enquanto gestão seria atuar
nessa mobilização. (L 370376)
De início, eu pensei em
deixar a folha em branco,
mas assim, tem algumas
atividades que eu poderia
pontuar. (L 377-378)
Mas por que você pensou em
deixar em branco? Conte. (L
379)
Curiosa! Vai ficar sem
resposta. (L 380) [Todos
riem]

Psi – CAPS

C
Psi – CAPS
Psi – CAPS

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Mas assim, teve algumas coisas que foram
fortes pra mim no trabalho (...)foi justamente
uma visita que eu fui fazer junto com a equipe
do CAPS a um rapaz que ia ser internado
involuntariamente. Nessa visita, quando a
gente saiu tinha uma jovem, uma adolescente
que a mãe tava gritando na rua e o carro do
conselho tutelar tava pra pegar essa
adolescente. (...)E aí a gente disse “Mas rapaz
que situação, essa menina sendo exposta, a rua

160

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,
cheia né” Aí chamamos a menina que a gente
conhecia e falamos “Vamos lá pro CAPS, lá a
gente conversa”. Aí a gente chamou essa
menina, o conselho tutelar foi junto com a
gente, e a mãe da menina foi que tava gritando
foi junto no carro do conselho, a gente foi com
a menina na van porque a menina disse que não
ia com a mãe de jeito nenhum, mas ia com a
gente, mesmo sem se conhecer. Aí foram as
duas com a gente. Aí chegou no CAPS, a gente
fez aquela reunião, aí eu conversei com a
menina, depois com a mãe, depois com todo
mundo junto com o conselho tutelar “Como a
gente resolve essa situação? ”. Aí depois a
gente foi no CREAS entendeu, então, aí a gente
tentou ver quais eram os dispositivos que a
gente poderia fazer para ajudar a situação
daquela jovem, (...)Mas foi muito bacana essa
experiência, que eu avaliaria e colocaria como
no modelo de matriciamento. E uma visita
domiciliar que eu fiz né, junto com a equipe do
CAPS e a equipe do outro CAPS, que a gente
tava numa festa do outro CAPS, foi levar uma
usuária através do outro CAPS aí quando
chegou lá disseram assim “Olha tem uma
usuária que tá em surto, a coordenadora do
outro CAPS disse, mas a gente tá aqui sem
psicólogo sem quase ninguém pra ir”, aí a gente
disse: não, a gente vai. mas, é capaz dela me
colocar pra fora porque eu não conheço a
paciente, mas vamos lá”. Aí quando a gente foi,
foi muito bom, muito bom (...)aí conversamos
muito, tanto a usuária do outro CAPS como a
coordenadora do outro CAPS, como a equipe
da gente, conversamos, partilhamos, buscamos

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

Oficina

161

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

Oficina

uns caminhos que poderia, traçamos caminhos
juntos entendeu (...) e aí quando a gente saiu e
tal, a situação parece que foi algo leve pra mim
nesse sentido, e uma vivência muito bacana. (L
381- 414)
Psi – CAPS

Psi – CAPS

E por último, por exemplo eu
coloquei a primeira, mas vai
ser a última, foi a primeira
que eu pensei, mas agora é a
última, talvez pela discussão
e pelo fato de você pedir pra
gente pensar numa atividade
fez que viesse outros, (L 414416)
(...) e aí foi num dia que, logo assim que
cheguei no trabalho eu disse “Vamos aumentar
essa rede, não dá pra trabalhar sozinho, quem
já viu”. Aí eu fui no NASF, fui num sei aonde,
fui no CRAS e tudo, pra todo mundo se juntar
pra gente conversar sobre isso. Aí como vai
fazer? Vamos fazer uma roda de conversa. O
que você tá passando no seu trabalho? E o que
o CAPS ad pode fazer pra ajudar nisso? Como
é que você atende a demanda desses usuários
que usam drogas e o que a gente pode fazer pra
ajudar vocês? Aí era essa conversa, então
fizemos ainda três encontros e aí, depois do
terceiro encontro ficou um pouco pesado pra
gente tá sempre promovendo, sempre
promovendo e aí a gente disse assim “olha a
equipe tal vai ficar responsável de fazer lá e a
gente vai pra lá, vamos começar a sair, não ficar
só no CAPS, vamos sair do CAPS”. (L 416426)

162

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

C

Quem mais gostaria
compartilhar? (L 431)

Psi – Gestão

Psi – Gestão

Oficina

Eu coloquei duas experiências, uma é o
projeto piloto que a gente fez né, que aí eu
acho que caracterizou o matriciamento é essa,
não só a troca de experiências, não, mas
assim, essa troca de levar tecnologia, levar
modos de fazer, levar expertise dos
profissionais para aquela unidade pra que a
gente possa dar novos rumos, novas
condições, novos direcionamentos para os
casos de saúde mental que as equipes de
atenção básica tem uma dificuldade de lidar.
(L 432-437)
E a outra, foi uma experiência muito legal que
eu tive junto com o CREAS, o CREAS daqui
de Maceió, que o CREAS recebeu uma
denúncia de violência contra uma senhora que
tinha transtorno mental e aí, inicialmente, a
ideia do CREAS era encaminhar pro CAPS né,
tava sendo negligenciada porque tinha
transtorno mental, logo ela tinha que ser tratada
pelo CAPS e tal. E aí, a gente chamou o
CREAS pra discutir o caso né, pra trabalhar
junto, e aí foi muito interessante que a gente
levou pro CREAS o modelo de PTS, a gente
construiu o PTS em saúde mental, e a equipe
do CREAS, conversamos, discutimos o caso,
abrimos o caso, e eu acho que foi uma
experiência muito interessante que a gente
trocou, experiência não é a palavra certa,
experiência não é uma coisa que bate bem
[Márcio ri], mas assim, trocou experiência
profissional,
trocou
expertise,
trocou
tecnologias, dispositivos, ferramentas, isso eu

de

163

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

acho que foi o mais interessante, e foi
fundamental inclusive pra abrir o caso, se o
caso tivesse sido encaminhado pro CAPS, o
CAPS não teria condições de dar aquela
senhora o atendimento ou encaminhamento que
ela teve do trabalho em conjunto, nem o
CREAS e nem o CAPS e a gente não
conseguiria fazer independentes um dos outros,
nem que somasse as ações do CAPS e as ações
do CREAS não daria o mesmo resultado.
Então, acho que foi muito bacana essa
experiência, que eu acho que a característica de
apoio matricial é essa, esse intercâmbio de
ferramentas. (L 437-454)
Educadora Física
(CAPS)

Educadora Física
(CAPS)

Eu coloquei algumas experiências que a
gente teve dentro do projeto piloto. (...)
Então, foi uma experiência inicial, todo
mundo aprendendo junto e discutindo não só
as tecnologias, mas as confusões né e as
peculiaridades de cada unidade e de cada
equipe junto. Então, a gente compartilhava
entre nós e depois íamos na unidade (...) Aí
por isso que a gente tava referenciando muito
o projeto piloto porque pra maioria acho que
é a única experiência efetiva. (L 473-477)
Quando eu coloquei aqui, eu realmente
pontuei umas experiências que foram
feitas naquele momento, uma foi as
discussões de caso né com a equipe de
referência que é a equipe da unidade
básica, do PSF, e nós que éramos da
equipe de apoio matricial a gente

Oficina

164

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Educadora Física
(CAPS)

quando a gente chegou, eles não tinham essa
perspectiva né, que a gente ia falar sobre um
determinado caso e eles achavam que a gente ia
resolver os problemas da unidade ou que íamos
atender individualmente aquelas pessoas que
eles tinham ou com o diagnóstico de algum
transtorno mental ou então como prováveis
pessoas, prováveis pacientes CAPS. Mas aí
quando a gente começou a dizer que a gente
queria discutir os casos que aqueles olhares
diferentes ia enriquecer como eles mesmos iam
lidar. Tinham muitos agentes de saúde na
unidade que onde eu tava, então os agentes
tinham essa resistência e a gente percebeu com
o decorrer dessa experiência que eles já faziam
daquela discussão de um caso uma referência
de como eles podiam fazer um outro, e eles não
chegavam às vezes a discutir conosco, mas já
traziam algum elemento novo para um outro
caso que não foi discutido em equipe, mas que
a partir daquela experiência eles aprenderam a
discutir entre eles. A segunda experiência foi a
participação da gente na construção do mapa do
território, essa unidade fez uma construção né,
um determinado dia daquele mapa do território
né com dispositivos intersetoriais de saúde, e
nós como equipe de apoio matricial a gente foi
convidado e a gente conseguiu não só conhecer
um pouco mais daquele território que é um
pouco distante da nossa unidade, mas interagir
mesmo, ver que eles tinham um olhar que a
escola podia participar junto, não precisava
fazer um grupo de alfabetização, tinha que

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,
começou a fomentar essa discussão de
casos, (L 477-480)

Projeto Piloto

Oficina

165

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

Oficina

levar o pessoal pra lá pra escola. Eu acho que
foi uma experiência muito rica pra gente e pra
eles. E a última foi a participação no
planejamento, a gente tava lá no momento de
planejamento da unidade e eles não
conseguiam enxergar que ações tinham um
componente de saúde mental e aí a gente
conseguiu criar um diálogo sobre isso, que a
visita né tem esse componente de você cuidar
da saúde mental do outro, que a conversa, que
a escuta qualificada de você estar atento
realmente aquela demanda também são ações
de saúde mental dentro da unidade, então a
nossa participação no planejamento pelo que
eles disseram clareou um pouco que a gente faz
saúde mental todos os dias né, acho que essa
discussão foi muito rica e não foi exatamente
uma discussão, a gente tava ali vivendo o
planejamento e eles trocaram isso conosco. É
isso. (L 481-507)
C
Psi (AB e Hospital)

Quem mais? (L 508)
Aí eu fui como eu falei né de
início, pra gente isso é muito
novo principalmente pra
gente que tá na ponta, que
não é NASF e não
participamos do projeto
então, meu olhar é meio
diferente de todo mundo
aqui. (L 509-511)
Mas eu pensei justamente
nisso ... (L 512)

C
Psi
(Atenção
Básica e Hospital)

Aí eu fui ver dentro da minha vivência o
que se aproximava do apoio matricial, aí

166

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,
eu fui lá para o Hospital, (...) lembrei dos
encaminhamentos, dos encaminhamentos
que a gente faz para rede municipal, então
o paciente chega não pode ficar comigo,
só passa por um único atendimento e dali
a gente tem que encaminhar, encaminhar
pra próximo da casa dele, pra um lugar
que tenha psicólogo ou psiquiatra ou que
seja um CAPS próximo da casa dele, só
que isso ficando lá, a gente não sabe se
esse paciente foi, a gente não sabe, então
a gente fica meio que perdido. (L 513520)

Psi
(Atenção
Básica e Hospital)

Psi
(Atenção
Básica e Hospital)

Projeto Piloto

Oficina

Isso é o que a gente faz lá viu
gente? Se é ou se não é, eu
não sei, mas é o que a gente
faz. (L 520-521)
E os encaminhamentos pro CAVIDA que
é o serviço de suicídio né, que a gente tem
aqui. No CAVIDA já tem um documento
que a gente preenche, que fica lá que
depois tem como a gente saber se esse
paciente foi, se esse paciente tá em
atendimento, esse é o único instrumento
no HGE que eu vejo. Lógico que a gente
tem discussão de caso entre equipe, mas
assim, mas é uma ideia da educação
permanente discutir, e não referente a um
determinado paciente, não, a gente
precisa andar muito pra pensar uma
interdisciplinaridade dentro do hospital,
lá da minha realidade. Aí fui pra UBS, pra
unidade de saúde, e disse o que é que a
gente faz lá que é isso. Aí a gente volta
pros encaminhamentos, porque assim eu

167

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,
atendo, tenho consultório lá, faço
psicoterapia, só que eu não dou conta de
tudo e a gente não dá. Então assim, tem
serviços que eu tenho que encaminhar,
então pro um CAPS a gente né precisa
encaminhar quando o paciente tem
sofrimento psíquico ou seja, tem algum
distúrbio né que precisa, a gente
encaminha pro CAPS, e eu Patrícia o que
é que eu faço? Eu ligo pro CAPS que é do
sétimo distrito e tento ficar em contato pra
saber se a pessoa foi, pra saber se ela tá
em acompanhamento, às vezes é pro AD
também que a gente encaminha algumas
vezes, eu tento dar essa ligada, saber, é
isso que eu na minha... Lógico que a gente
discute caso, algumas vezes a gente faz
visita domiciliar também mas meio que a
gente faz sem saber o que, tá entendendo,
a gente não sabe, faz porque enfim né... a
gente tem uma responsabilização, eu acho
que é isso que a gente tem a gente tem que
se responsabilizar pelo outro. É mais ou
menos isso, certo? (L 520-541)

Psi (Residente)

Psi (Residente)
Psi (Residente)
Psi (Residente)

Projeto Piloto

Bom, eu coloquei ações que eu considero
foram de apoio matricial que aconteceram
tanto quando eu participei do projeto piloto
(L 541- 543)
quanto da residência porque lá a gente
atua enquanto NASF. (L 543)
(...) A discussão de casos com a equipe de
referência (L 548-549)
que a gente chegou a fazer quando eu tava no
projeto, na residência a gente ainda não
conseguiu fazer isso, mas no projeto eu tive

Oficina

168

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

essa vivência e eu acredito que seja uma
vivência de apoio matricial. (L 549-551)
Psi (Residente)
Psi (Residente)

A construção de PTS (L 551)

Psi (Residente)
Psi (Residente)

O atendimento integrado (L 553)

Psi (Residente)

O planejamento das ações nos serviços
porque em geral, a atuação do NASF é
muito fragmentada né, o NASF vai pro
serviço pra fazer o grupo, NASF vai pro
serviço pra fazer sala de espera e é o
NASF que faz e não dialoga com a equipe
porque não há um planejamento né. É tipo
vai ter ação tal dia e o NASF vai lá e faz,
então é tudo muito separado. (L 555-558)

Psi (Residente)

que na residência a gente constrói mas ainda
também não conseguiu integrar a equipe pra
de fato participar dessa construção, eu tive
mais essa experiência mais no projeto (L 551553)
que é uma vivência que eu tenho tanto na
residência quanto do projeto piloto. (L 554)

A gente já tem conseguido avançar um pouco
nesse sentindo de planejar junto com a equipe
do serviço pra que aconteça uma participação
dos profissionais dos serviços também.
Coloquei diálogos em momentos não
planejados com os profissionais da equipe que
aí eu acho que entra um pouco no que Rebeca
trouxe da educação permanente, nem sempre a
gente tem o espaço da discussão de caso... é a
gente consegue parar pra discutir caso em um
momento específico, mas só o fato de
conseguir fazer uma visita com o agente de
saúde, acompanhando o médico e depois a
gente sentar pra conversar 10 minutos que seja
eu acho que já é um ganho muito grande, eu

Oficina

169

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

Oficina

acho que isso já é apoio matricial porque já é
uma relação de troca entre os profissionais que
eles estão compartilhando os saberes né? Estão
fazendo o suporte técnico-pedagógico que a
gente tanto fala. (L 555-568)
Psi (Residente)

As discussões com a equipe sobre os
processos de trabalho, eu botei
discussões, (L 568-569)

Psi (Residente)

Psi (Residente)

C
Psi (NASI)

mas foi um momento muito específico que eu
tive essa vivência no projeto piloto, houve um
momento que a gente conseguiu sentar com a
equipe e pensar a própria inserção da equipe
matricial no serviço né, como isso tá se
dando, o que tá sendo bom e o que não tá
sendo, então, essa discussão foi bem
interessante. (L 568-573)
E a realização de atividades e ações em
conjunto que é um pouco daquilo que eu falei
né, fazer grupos, mas fazer grupos juntos com
os profissionais do serviço, não é só o NASF
que vai fazer. É isso. (L 573-575)
Quem mais?
Encontro entre as EMSI que é a Equipe
Multidisciplinar de Saúde Indígena
promovido pela coordenação. Ligação
telefônica para a coordenadora da
Atenção Psicossocial. Visita dos
apoiadores de polo ao polo base que são
as instituições de ponta, discussões de
caso, desenvolvimento do PTS de fato
com a presença da EMSI, família e
paciente. Capacitações promovidas pela
sede e reuniões da EMSI. (L 578-582)

170

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Psi (NASI)

Psi (NASI)

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

Oficina

Então, vou compartilhar um
pouquinho o que estou
achando desse momento até.
Uma sensação de um certo
estranhamento. É...no final
da primeira fala, da primeira
parte, eu ia até perguntar pra
vocês se de fato vocês
sentiam ou achavam que
tavam
vivenciando
a
experiência
do
Apoio
Matricial porque pra mim o
apoio matricial a partir da
minha vivência tão palpável,
tão vivencial, tão concreto
que a fala de vocês começou
assim a causar um certo
estranhamento de eu até o
que será de fato, o que é
apoio matricial [todos riem]
pra mim aquilo tava tão certo
que era apoio matricial sabe?
(L 582-589)
(...) pelo fato da população indígena ser menor
do que a população não indígena, eu acho que
a equipe até em nível nacional mesmo, a gente
acaba tando mais agregado, mais junto então eu
acho que talvez facilite um pouco a execução
do Apoio Matricial. (...) Então, eu acho que isso
facilita também muito mais assim a circulação,
o diálogo porque... (...) Então assim, eu tô lá
[LOCAL DE TRABALHO] com a minha
equipe né, médico, enfermeiro, técnico,
psicólogo, assistente social, uma equipe
grande, (...) E tem a Sede, só que eu não me

171

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

sinto longe da sede, que no caso a minha
coordenadora da atenção psicossocial tá aqui
na sede, então ela faz esse trabalho de apoio
matricial com as equipes da ponta, do polo base
né? (...)então é bem mais fácil pra gente se
reunir, por exemplo, esses encontros que eu
falo aqui, reunião com a nossa coordenadora
daqui de atenção psicossocial conseguem
promover um encontro entre as psicólogas e
assistente sociais de Alagoas e Sergipe, que nós
só somos 6, é muito bom, pra mim eu considero
é um momento, uma atividade de apoio
matricial, é? Né. É. A coordenação foi lá,
convocou, a gente tá sentando, tá
compartilhando né, tá dividindo ideias,
angústias que trabalhar com a saúde indígena
também é uma população de cobrança então
assim, (...)é um momento de acolhimento,
desabafo, compartilhar experiências e pra mim
eu vejo como uma atividade de apoio matricial
né. Uma simples ligação telefônica pra minha
coordenadora, eu acho que essa questão da
hierarquização né, eu acho bem complicado, eu
acho que quando de fato tá de forma mais
horizontal, acho que facilita as coisas, a
princípio ela é minha coordenadora, mas assim,
eu não vejo desse patamar né, do ponto vertical
não, eu tenho uma ligação muito tranquila,
muito boa com ela, então assim, às vezes eu tô
numa situação um pouco angustiada, meio
perdida, ligo pra ela pra minha coordenadora
(...) Então, uma simples ligação telefônica, eu
passo o caso pra ela, ela me dá o retorno,
considero? Considero como uma atividade de
apoio matricial. A gente também tem uma

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

Oficina

172

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

coisinha que são os apoiadores, os apoiadores
de polo, o que é isso? Aqui na sede, cada
profissional que trabalha na sede aqui em
Maceió, ele vai ficar responsável, vai responder
por um polo né? Então, tem profissional da
sede que ele apoia o polo lá (...)A gente também
tem uma coisinha que são os apoiadores, os
apoiadores de polo, o que é isso? Aqui na sede,
cada profissional que trabalha na sede aqui em
Maceió, ele vai ficar responsável, vai responder
por um polo né? Então, tem profissional da
sede que ele apoia o polo lá (...)E também no
caso a psicóloga e a assistente social da ponta,
que não são todos os polos base que tem, a
gente acaba funcionando como um NASI que é
um NASF pra equipe básica, eu também por
vezes acabo fazendo atividade de apoio
matricial pra equipe, pra EMSI lá da gente
sabe, chamando, enfim, pra discutir caso, eu
agora eu tava conversando com a observadora
que eu tenho estudado o caderno 34 da saúde
mental porque eu quero promover uma roda de
conversa com minha equipe sobre atenção
psicossocial porque eu tô achando que eles
enfim, tão meio ainda sem saber o que é, até
pelo tipo de encaminhamento que às vezes
chega pra mim, quando eu cheguei eu tive uma
dificuldade muito grande que queriam me
colocar só na parte de atendimento individual e
pra eu conseguir sair desse lugar, quebrar com
isso, foi muito, muito complicado. Então
assim, nessa atividade que eu tô querendo
promover, essa roda de conversa com a EMSI
lá de Palmeira, sobre atenção psicossocial,
também considero uma atividade de apoio

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

Oficina

173

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

Oficina

matricial. Então assim, por isso que eu acho
que a gente assim, pelo menos, na saúde
indígena, a gente tem conseguido vivenciar de
fato. (L 595- 656)
[CORTE
TRANSCRIÇÃO]
Enf. (Residente)

Eu vou... devido essa dificuldade de
estabelecimento de parâmetro [todos riem] eu
vou tomar como referência experiências que
possibilitem a troca de experiência profissional
e essa troca de compartilhamento técnicopedagógico, desde a minha formação, a minha
experiência profissional tem sido vinculada
sempre a universidades, eu não trabalhei na
saúde fora de uma universidade, sempre foi
atividades de projetos de universidades ou a
residência. Então assim, a minha experiência
de matriciamento digamos assim, vai ter em
vista esse compartilhamento pedagógico. A
residência em si mesmo eu tenho a
oportunidade de estar em vários serviços, na
gestão e na universidade, então meu próprio
espaço de atuação ele é privilegiado por
possibilitar isso daí, então tem horas que eu
represento a universidade quando tem uma
troca de experiências no serviço que eu tô, pela
minha experiência também de articulação com
a gestão, tem aproximação que eu tenho com a
gestão e com o serviço que eu posso possibilitar
essa troca. Então eu acho que minha própria
forma de trabalho por estar sempre em um
ambiente de transição acaba sendo sempre uma
troca de experiência e compartilhamento. Não
tem como eu conceituar uma atividade, dizendo
essa atividade em si tem o nome

NA

174

Quem falou

Ação Conjunta (ação entre os profissionais,
compartilhamento,

matriciamento, mas eu acho que essas trocas eu
faço seja quando eu vou pra um serviço que
tenha uma carência pedagógica, que devido
meu vínculo com a universidade, a gente pode
tentar suprir naquele momento. Houve alguns
casos recentes por exemplo, a minha
participação na gestão, me fez atuar um pouco
no processo de desinstitucionalização, sendo
que um desses pacientes que foi
desintitucionalizado, eu participo ao mesmo
tempo da gestão quanto do CAPS onde ele
fazia esse tipo de trabalho e como depois de
outro CAPS quando ele pernoitava. Então
assim, eu sempre tô nesse espaço de troca, e por
ter uma diversidade muito grande de qual tipo
de trabalho, que cada serviço tem um trabalho
diferente, aí tem essa dificuldade de conceituar,
mas aí tanto as consultas que eu faço junto com
outros profissionais dessas áreas, quanto nas
reuniões com os próprios serviços, do vínculo
entre universidade e cada serviço, acaba se
tornando uma troca de experiência (L 790- 816)

Tecnologias do modelo de AM (PTS,
ação com o NASF, visita domiciliar,
educação permanente, discussão de
caso,

Projeto Piloto

Oficina

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