Maria Edvania Fagundes - Atribuições diferenciada de emoções e traços às mulheres: Um estudo na perspectiva da infra-humanização

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA

MARIA EDVANIA FAGUNDES

Atribuição diferenciada de emoções e traços às mulheres
UM ESTUDO NA PERSPECTIVA DA INFRA-HUMANIZAÇÃO

MACEIÓ
2015

MARIA EDVANIA FAGUNDES

Atribuição diferenciada de emoções e traços às mulheres
UM ESTUDO NA PERSPECTIVA DA INFRA-HUMANIZAÇÃO

Dissertação submetida à avaliação da Banca
Examinadora, do Programa de Mestrado da
Universidade Federal de Alagoas, como
requisito ao grau de Mestre em Psicologia.

Área de concentração: Psicologia

Orientadora: Profª Drª Sheyla Christine S.
Fernandes

MACEIÓ
2015

AGRADECIMENTOS

Ao Gabriel Germano por sua importante colaboração neste trabalho.
A Vanuzia Costa que me motivou e esteve por perto.
Ao Emanuel Cordeiro por suas observações construtivas.
A Eleonora Vaccarezza, por sua relevante contribuição.
A Sheyla Fernandes, minha orientadora, por seu carinho, incentivo e por não
ter deixado a minha peteca cair!
Aos participantes do estudo.

Ao Jorge Costa, Augusto e Caio.

RESUMO

FAGUNDES, M. E. O. Atribuição diferenciada de emoções e traços às
mulheres: UM ESTUDO NA PERSPECTIVA DA INFRA-HUMANIZAÇÃO.
2015. 59 f. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal de Alagoas, Alagoas,
2015.

Este estudo teve como finalidade analisar a atribuição diferenciada de emoções
e traços às mulheres, a partir da teoria da infra-humanização. Mais
especificamente, analisar a atribuição diferenciada de emoções e traços às
mulheres como indicador dos níveis de preconceito, assim como verificar a
relação entre as atribuições e o sexo dos participantes. Para tanto, foi utilizado
um livreto, que além de algumas informações sociodemográficas contou com
uma escala de atribuição diferenciada de emoções e traços adaptada de Lima
e Vala (2004), que solicitava ao participante que indicasse a frequência com
que acredita que o grupo alvo experimenta as emoções (ex.: raiva, culpa, dor,
atração, alegria, amor), e pode ser descrito pelos traços (ex.: esperto,
agressivo, dócil, civilizado, livre, supersticioso), listados. A escala é do tipo
likert, de 5 pontos, que variam do nunca ao sempre; do nada típico ao
totalmente típico. O livreto foi respondido por uma amostra de 309 estudantes
universitários, sendo 52,1% do sexo masculino (n = 161), e 47,9% do sexo
feminino (n = 148), com idades variando de 18 a 33 anos, com média de idade
de 23,3 anos (D.P. = 3,80). A aplicação dos instrumentos foi realizada em
ambiente coletivo de sala de aula, com tempo médio de resposta de 12
minutos. Os participantes foram esclarecidos sobre o anonimato e sigilo de
suas respostas, e obteve-se o consentimento livre e esclarecido de todos os
participantes. A análise dos dados foi realizada mediante a utilização do
programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS 20.0). Procedeu-se
análises de comparação dos escores médios (t de student) entre participantes
do sexo masculino e feminino. Os resultados mostraram o fenômeno da infrahumanização e do preconceito em relação às mulheres, como foi hipotetizado.
Verificou-se ainda que as emoções são mais apropriadas para análise da infrahumanização, porque não sofrem interferência das normas de desejabilidade
social. Ademais, confirmou-se a tendência ao favoritismo endogrupal por parte
de ambos os grupos. Com base na literatura, concluímos que homens que
avaliam mulheres com características inferiores são os que têm maior potencial
de praticar violência contra a mulher.
Palavras-chave: Mulheres. Infra-humanização. Emoções. Preconceito.

ABSTRACT

FAGUNDES, M. E. O. Differentiated attributes of emotions to women: A STUDY IN
THE PERSPECTIVE OF INFRAHUMANIZATION. 2015. 59 f. Dissertação
(Mestrado). Universidade Federal de Alagoas, Alagoas, 2015.
This study has as a major purpose to analyze the differentiated attributes of
emotions and traits to women, since the infraumanization theory. More
specifically analyze the differentiated attribution of emotions and traits to women
as a prejudice level indicator, as well as verify the relationship between the
attributions and the sex gender of the participants. A booklet was used for such
an intent. Besides some sociodemographical information has been accounted
by a differentiated attribute scale of emotions and traits adopted by Lima and
Vala (2004), who requested to the participant that stated the probable
believable frequency the target group experiences such emotions (e.g.: anger,
guilty, pain, attraction, joy, love) and can be described by the listed traits (ex:
being smart, aggressive, kind, civilized, free, superstitious). The scale is of the
kind likert,of 5 points, which vary from never to always; from nothing typical to
totally typical. The booklet was answered by a sample of 309 college students,
being 52,1 % of the male sex (n= 161), and 47,9 % of the female sex (n= 148),
with ages between 18 to 33, with an average of 23,3 years (D.P = 3,80). The
application of instruments was performed in the collective environment of a
classroom, with an average time of 12 minutes response. Participants were
clarified about the anonymity and secrecy of their answers and free permission
was granted by all participants. The data analysis was performed by the use of
the Statistical Package for Social Sciences (SPSS 20.0) program. Proceeded
comparison analysis of mean scores (t-student) between participants male and
female. Results showed the phenomena of infrahumanization and of the
prejudice relating to women, as hypothesized. It was found that emotions are
more appropriate for analysis of infra-humanization because they do not suffer
interference from the norms of social desirability. Finally, the tendency to the
endogroup favoritism was confirmed by both groups. Based on literature, we
have concluded men who assessed women with lower traits are the ones who
have a higher probability to practise violence against women.
keywords: Women. Infrahumanization. Emotions. Prejudice.

Sumário

INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... 5
PARTE II: MARCO TEÓRICO.......................................................................................................... 10
1. PRECONCEITO: PRINCIPAIS DEFINIÇÕES E PERSPECTIVAS ............................................. 10
1.2. Preconceito contra as mulheres ................................................................................................ 17
2. INFRA-HUMANIZAÇÃO E ATRIBUIÇÃO DIFERENCIADA DE EMOÇÕES E TRAÇOS .......... 25
PARTE III: ESTUDO EMPÍRICO...................................................................................................... 35
3. OBJETIVOS ................................................................................................................................. 35
3.1. Objetivo Geral ........................................................................................................................... 35
3.2. Objetivos Específicos ................................................................................................................ 35
4. MÉTODO ...................................................................................................................................... 35
4.1. Hipóteses................................................................................................................................... 35
4.2. Participantes .............................................................................................................................. 36
4.3. Instrumento................................................................................................................................ 36
4.4. Procedimentos .......................................................................................................................... 38
4.5. Análise dos Dados ..................................................................................................................... 39
5. RESULTADOS .............................................................................................................................. 39
6. DISCUSSÃO ................................................................................................................................ 43
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................................... 48
REFERÊNCIAS ................................................................................................................................ 51
ANEXOS........................................................................................................................................... 59

5

INTRODUÇÃO

Pois assim como a natureza equipou o leão com garras e dentes, o elefante com
presas, o javali com colmilhos, o touro com chifres e a siba com tinta, do mesmo modo
equipou a mulher com o poder da dissimulação como meio de ataque e defesa, e
transformou nesse dom toda a força que conferiu ao homem na forma de força física e
poder de raciocínio. A dissimulação portanto é inata nela [...] é tão natural para ela como o é
para um animal empregar seu meio de defesa sempre que é atacado [...].
Arthur Schopenhauer

O processo de infra-humanização, segundo Leyens, et al., (2001), ocorre
pela via da negação de características unicamente humanas ou atribuição de
características animalescas a seres humanos (LEYENS, et al., 2001). É neste lugar,
entre os animais e como animais, que Arthur Schopenhauer (1970) situa as
mulheres, que, para a teoria da infra-humanização, trata-se de um grupo infrahumanizado.
Schopenhauer apelou à inferiorização natural da mulher sob um sofisticado
discurso relativo à seleção natural. Charles Boxer (1977, p. 121), por outro lado,
maximiza o caráter animalesco atribuído ao gênero feminino, elevando o seu caráter
a uma espécie assombrosa, ao afirmar que:

A mulher é o mais monstruoso animal de toda a criação [...]. Ter este
animal em casa é o mesmo que procurar complicações sob forma de
mexericos, tagarelices, bisbilhotice maliciosa e controvérsia; porque,
sempre que uma mulher está presente, parece impossível haver paz e
tranquilidade.

Seja qual for o sentido da metáfora, o fato é que comparar pessoas com
espécies animalescas significa tirar-lhes o caráter de humanidade, e demonstra uma
clara evidência de preconceito e discriminação (LEYENS & DEMOULIN, 2007),

6

como nas citações de Schopenhauer, filósofo alemão, e de Boxer, historiador
britânico.
Atributos animalescos são comuns quando o alvo são as mulheres. Como
em Schopenhauer e Boxer, no texto de Luiz Vilela (1973), o autor traz o significado
da palavra mulher como sinônimo de animal (p. 189). Nesse contexto, a
animalização da mulher está presente também nos romances realistas e na literatura
modernista do século XX, a exemplo das obras de Aluízio de Azevedo e Jorge
Amado (CARVALHO & RODRIGUES, 2007), e de Guimarães Rosa (DE ASSIS
DUARTE, 2012).
Ao reportar tais atributos a um grupo de seres humanos, comparando esse
grupo com espécies animalescas, os autores conjeturam que o grupo de mulheres é
inferior à categoria de humanos, segundo a teoria da infra-humanização proposta
por Leyens et al., (2001), Lima e Vala (2004), através dos quais está fundamentado
teoricamente este estudo.
O argumento central da infra-humanização é de que o favoritismo
endogrupal estabelece uma forte relação entre os traços culturais e emoções
secundárias e o próprio grupo (CORTES, et al., 2005; LEYENS et al., 2000;
PALADINO et al., 2002), reservando os traços naturais e emoções primárias para o
outro grupo.
Do ponto de vista do favoritismo endogrupal, destaca-se a Teoria da
Identidade Social, que é considerada uma teoria muito relevante no contexto das
relações intergrupais. Esta teoria considera razoável admitir que as pessoas
procurem diferenciar positivamente o seu grupo de outros, com o propósito de
proteger o próprio grupo e sua identidade social (TAJFEL, 1982; TAJFEL &
TURNER, 1986). Para esses autores, este processo une três pontos fundamentais,

7

que são: a categorização social, a identidade social e a comparação social, que faz
com que os indivíduos busquem afirmar uma identidade positiva, a partir de
comparações entre o seu grupo e o grupo dos outros, em cima de valores
socialmente dominantes.
Embora possa existir a atribuição aos membros do endogrupo de traços
naturais e emoções primárias ao grupo que pertencem, isso não pode ser entendido
como um princípio básico. Apenas ocorre quando os membros do endogrupo não se
identificam com o seu grupo ou não o consideram significativo (RODRÍGUEZPÉREZ, et al., 2011), ou quando os traços naturais e emoções primárias atribuídas
são valorizadas socialmente (CERQUEIRA-SANTOS & DE SOUZA, 2011).
Ao processo de infra-humanização Lima e Vala (2004) fazem alusão a três
principais indicadores, para que este processo aconteça, são eles: (a) negar que o
exogrupo é capaz de adotar valores tipicamente humanos (conjunto de característica
pertencente somente aos humanos, incluindo a linguagem, a cultura, a inteligência e
os sentimentos); (b) caracterizar o exogrupo com traços de natureza ao invés de
traços de cultura e (c) atribuir mais emoções primárias do que emoções secundárias
ao exogrupo.
A linguagem, por exemplo, é um traço cultural aplicado a humanos
(inteligente, civilizado, supersticioso), enquanto traços naturais (alegre, impulsivo,
agressivo), são aplicáveis tanto para animais quanto para humanos, sendo que
atribuir mais traços naturais do que traços de cultura a seres humanos é uma
expressão de preconceito, que geralmente é dirigida a grupos sociais desvalorizados
e alvos de exclusão (PÉREZ, MOSCOVICI & CHULVI, 2007).
Diversos estudos já foram realizados a partir do modelo teórico da infrahumanização, relacionando variáveis e grupos diferentes (p.ex. Rodríguez-Pérez, et

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al., 2011; De Sousa, et. al., 2010). Na literatura nacional, fora feita uma busca
eletrônica na base de dados do Scielo, em maio deste ano, e não foi encontrado
nenhum trabalho que contemple as mulheres como grupo alvo de infrahumanização, mas como se trata de um grupo marcado por muitos estereótipos 1,
preconceitos e discriminação (STUART MIL, 2006), interessou-nos estudar a
atribuição diferenciada de emoções e traços, associados a este grupo, como
indicador de preconceito.
Dessa forma, como objetivo central, este trabalho buscou verificar a
atribuição diferenciada de emoções e traços às mulheres, com base na teoria da
Infra-humanização. De forma mais específica, avaliar a existência de atribuição
diferenciada de emoções e traços às mulheres como indicador dos níveis de
preconceito, e verificar a relação entre sexo dos participantes e essas atribuições.
No intuito de atender os objetivos propostos e conhecer mais acerca dos
construtos a presente dissertação foi desenvolvida em duas partes principais.
Marco Teórico (Parte I) compreendendo o capítulo Preconceito: principais definições
e perspectivas, cujo propósito é apresentar as principais perspectivas teóricas sobre
o preconceito, especificamente preconceito contra as mulheres, a teoria da infrahumanização e atribuição diferenciada de traços e emoções, e cinco capítulos
seguintes que compõem o Estudo Empírico (Parte II); Objetivos, composto da
descrição do objetivo geral e objetivos específicos aqui elencados; Método que
descreve os aspectos metodológicos do estudo, como hipóteses, participantes,
instrumentos, procedimentos e análises dos dados; Resultados, em que se explica
os resultados das análises estatísticas buscando-se contemplar as hipóteses
1

Conjunto de crenças exageradas associada a uma categoria, que tem a função de justificar a nossa
conduta em relação a esta categoria ou grupos sociais, introduzindo simplicidade e ordem em lugar
da complexidade, que são frequentemente compartilhados socialmente (ALLPORT, 1979).

9

elencadas; Discussão, abrangendo a discussão e fundamentação dos resultados à
luz da teoria da infra-humanização e Considerações finais, que

consiste em

algumas considerações sobre os principais resultados encontrados, as possíveis
limitações do estudo e aponta-se para direções futuras no âmbito da avaliação do
preconceito contra as mulheres.

10

PARTE II: MARCO TEÓRICO

1 PRECONCEITO: PRINCIPAIS DEFINIÇÕES E PERSPECTIVAS

O preconceito é um assunto discutido há muito tempo, mas também
continua sendo um assunto de permanente interesse de estudo. De modo geral
indica percepções negativas sobre grupos e indivíduos. A discussão em torno da
Psicologia Social esteve centrada no preconceito racial, prestando menor atenção a
outros grupos socialmente desvalorizados (CASTILLO et. al., 2003; LIMA, 2011). É
um tema de relevância para comunidade científica americana e européia, desde o
século passado (CABECINHAS, 2010; CABECINHAS & AMÂNCIO, 2004), baseado
no entendimento de que a discriminação contra indivíduos de grupos minoritários era
considerada irracional e injustificada, diferentemente do entendimento que se tinha
por volta dos anos de 1920.
Desde o período Pós Segunda Guerra Mundial que o preconceito passou a
demandar estudos, por razão de suas diferentes manifestações e implicações contra
os grupos alvos, que foi possível a partir de um esforço no âmbito das ciências e da
política para enfrentar tais manifestações em suas causas e consequências (RIOS,
2007).
No Brasil, por outro lado, os estudos sobre o preconceito ou estereótipos
começaram a surgir a partir dos anos 90, com destaque para pesquisas voltadas aos
grupos raciais (LIMA, 2011), provavelmente devido à criminalização do racismo
legalmente estabelecida na Constituição de 1988 (GUIMARÃES, 2006).
Neste momento da história da Psicologia Social, o preconceito é um assunto
de interesse de estudos de muitos pesquisadores, com crescentes publicações

11

sobre o tema. Suas definições e explicações são variadas, mas as principais
acepções, até os dias mais recentes, estão apoiadas nas definições clássicas de
Gordon Allport (1954/1962).
Foi em 1954 que Gordon Allport publicou um trabalho, “The Nature of
Prejudice”, considerado uma obra clássica, e citada por muitos pesquisadores que
se voltam aos estudos sobre o preconceito. Nesta obra, Allport assinala que o
preconceito é um fenômeno dinâmico, e distingue três diferentes períodos de
mudanças do significado do termo preconceito, iniciando pelo que ele afirmou ser
um fenômeno caracterizado como um sentido baseado em decisões e experiências
prévias, seguido pelo período que passou a ser um julgamento prematuro e
apressado, e por último, no terceiro momento, agregou ao termo o componente
emocional, fazendo referência a um estado de ânimo, que o indivíduo debela
durante um julgamento.
Allport (1962), então, sintetiza a definição do preconceito como o ato de
“pensar mal de otras personas sin motivo suficiente” (p. 21), no que ele acredita que
tal expressão comporta todos os elementos capazes de explicar todas as demais
definições do preconceito. Tal fenômeno é também definido como “o julgamento
negativo e prévio dos membros de uma raça, uma religião ou dos ocupantes de
qualquer outro papel social significativo, e mantido apesar de fatos que o
contradizem” (JONES, 1973, p. 54), e como uma atitude preconceituosa, que
carrega sentimentos negativos, conduta hostil e julgamento infundado, podendo
resultar em um efeito de antipatia, apoiada em generalização errada e inflexível
contra grupos ou membros destes grupos, devido ao seu pertencimento (CASAS
MARTÍNEZ, 2008).

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Apesar destas outras definições, em linhas gerais é em Allport (1962), que
elas se apoiam. Este autor discutiu o preconceito com base em alguns níveis de
análise (LEYENS, et al., 2000; FERNANDES, 2008/2011; BELO, SOUZA &
CAMINO, 2010; LIMA, 2011), de modo que colocou em evidência seis pontos de
vista distintos e complementares, dando ênfase aos aspectos causais ou
constitutivos do preconceito; e também outros fatores que pesam no processo de
formação desse fenômeno.
Aos níveis de análise do preconceito Allport enfatizou uma sequência de
enfoques até chegar ao objeto alvo do preconceito, partindo do Enfoque histórico.
Neste enfoque Allport salienta que os determinantes causadores do preconceito
surgem de determinantes econômicos, mas não se limita a isso. Para ele, os
preconceitos em qualquer nível existente no mundo, vai sempre haver uma relação
histórica em suas causas existenciais.
No Enfoque sócio-cultural Allport sublinha os fatores que alçam conflitos
sociais.

A passagem das culturas gera contatos mecanizados e restringe os

contatos humanos, favorecendo uma fragilidade entre as relações pela insegurança
e pelos diversos tipos de sentimentos que se desenvolve frente às pessoas
estranhas. Esse estado de estranheza torna possível desencadear elementos para o
preconceito.
O terceiro nível de análise baseia-se no Enfoque situacional, que busca
explicar o preconceito como uma consequência do processo de experiência de
aprendizagem, na atmosfera das relações. No Enfoque da dinâmica e estrutura da
personalidade, quarto enfoque, Allport destaca a natureza psicológica do indivíduo,
pela busca do poder. A satisfação, o sucesso e o status social seriam os objetos de
desejo, que para atingi-los resultaria naturalmente em conflitos.

13

O Enfoque fenomenológico, que antecede o último nível de análise,
preocupa-se com a visão de mundo do indivíduo e a adaptação a esta visão.
Destaca o nível de causalidade imediato, sem excluir, entretanto, fatores históricos,
culturais e estruturas da personalidade antecedentes.
Por fim, o Enfoque através do objeto estimulador, evidencia interesse pelo
objeto alvo do preconceito. Este é o ponto de chegada ao objeto estimulador em si
mesmo. Neste lugar os grupos alvo podem apresentar diferenças de fato em termos
étnicos ou culturais, que mobilizem forças aversivas e hostilidade contra si.
Feitas essas considerações, Allport se considera eclético e não reduz os
elementos do preconceito a uma única perspectiva, como supõe fazer alguns
pesquisadores que buscam valorizar e defender o enfoque ao qual se apóiam, mas
cada um desses enfoques abre uma porta de compreensão sobre o fenômeno.
Além das contribuições de Allport, outras vertentes teóricas enfatizaram
aspectos distintos do preconceito. Em uma revisão histórica sobre o curso das
produções científicas norte-americanas, Duckitt (1992), por exemplo, destacou
diferentes períodos e perspectivas em que o preconceito foi estudado. Refere-se ao
início do século XX, quando o preconceito ainda não era caracterizado como um
problema, entre os anos vinte, com a defesa da hierarquia das raças, que submerge
décadas depois quando a biologia descaracteriza o conceito de raça, e anos após, a
partir da década de sessenta, quando o foco de atenção das pesquisas científicas
volta-se para os aspectos racionais e estratégicos do preconceito. Neste período, a
cognição e as relações de poder aparecem como elementos imperativos à formação
do preconceito, já nos anos de 1980.
Duckitt buscou compreender como processos cognitivos, a exemplo da
categorização, contribuíam para o processo do preconceito e da discriminação. A

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categorização, segundo ele, seria um mecanismo do aparelho cognitivo, para tornar
a interação com o meio físico e social mais eficaz e econômica em relação à
quantidade de informação a ser assimilada. Por este ponto de vista, seria inevitável
a tendência básica do nosso sistema cognitivo em agrupar objetos e pessoas em
categorias. Assim, o preconceito surge como um processo natural e inevitável,
devido a limitações da nossa competência para emitir julgamento e avaliação de
pessoas e dos grupos aos quais elas pertencem.
O estudo relativo aos estereótipos busca compreender como a estrutura
cognitiva organiza e representa informações sobre categorias sociais e de que forma
isso contribui para a formação dos preconceitos e comportamentos discriminatórios.
É um elemento central na formação dos preconceitos (HASLAM, 1997; LEPORE &
BROWN, 1997; SILVA, 2010), que funcionam como uma estratégia para simplificar o
significado das coisas do mundo em nosso entorno, minimizando a complexidade do
ambiente social. Está associado ao modo como percebemos as pessoas e
atribuímos a elas certas características por pertencerem a um determinado grupo
(LOBERA & FERNÁNDEZ, 2008). Envolve um conjunto de fatores que vai desde
avaliações físicas, biológicas, individuais, grupais e contextuais (GUERRA, 2002).
Uma outra perspectiva situa o preconceito no contexto dos movimentos
políticos de exclusão e favorecimento social, no formato das relações intergrupais,
destacando-o como um produto das relações de poder e julgamentos sociais
(SCHALLER, 1991; CAMINO, et al., 2001; CAMINO & NUNES, 2011; FERNANDES,
COSTA, CAMINO & MENDOZA, 2007).
Esta visão tira o preconceito do foco das características psicológicas
individuais e da personalidade, propostas pelas correntes que salientam esses
aspectos (ver Adorno, Frenkel-Brunswik, Levinson & Sanford, 1950), e da visão dos

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processos cognitivos (GAERTNER & MCLAUGHILIN, 1983; FISKE & TAYLOR,
1991), indo além da visão clássica do preconceito, debruçando-se na perspectiva
das relações intergrupais.
Uma das formas mais recentes de se discutir o preconceito parte da infrahumanização, como um novo modelo de análise, através da atribuição diferenciada
de emoções e traços aos grupos sociais (LIMA & VALA, 2004; LIMA, 2011; LEYENS
et. al., 2000). É um modelo desenvolvido pela necessidade de avaliação do
preconceito enquanto processo dinâmico2.
A partir do momento em que se percebeu que o preconceito e suas
consequências se apresentavam como uma problemática, passou-se também a
existir uma certa preocupação entre os pesquisadores, no sentido de estudar
estratégias de redução deste fenômeno. O contato imaginado é considerado uma
das estratégias de redução do preconceito (FALVO, et al., 2015).
Estes autores demonstraram, através de um experimento com estudantes
Universitários, que a simulação de contato imaginado com um grupo alvo de
preconceito pode favorecer a redução do fenômeno. Com os olhos fechados, os
estudantes eram motivados a imaginar uma determinada situação de contato com
um grupo alvo – sem-teto, através de uma narrativa positiva. Posteriormente os
estudantes caracterizavam esse grupo com características humanas e animalescas
(emoções primárias e emoções secundárias). O grupo alvo, após a simulação
recebeu mais características humanas.
O argumento é que a simulação imaginada de uma inteiração positiva
favorece a percepção de maior humanidade do outro e de toda a categoria (ver
2

Allport (1954/1962) considera o preconceito como um fenômeno dinâmico, mas afirma que existe
uma certa regularidade dos seus elementos, como a tendência pela hierarquização, os sentimentos e
emoções desenvolvidos contra membros de um grupo e a crença de que há uma uniformização dos
membros do grupo alvo.

16

Falvo, Capozza, Di Bernardo & Pagani, 2015, para uma revisão). De acordo com
Crisp e Turner (2012), esse tipo de contato pode reduzir expressivamente a
associação de pessoas com espécies animalescas ou objetos, através da
caracterização com traços e emoções mais próximas do pólo das emoções e traços
experimentados por animais.
Esses traços e emoções são comumente associados às mulheres, como
demonstrado na introdução deste estudo, caracterizando uma forma particular de
expressão do preconceito, contra este grupo. Entretanto, são muitas as formas
preconceituosas experimentadas por elas.

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1.2. Preconceito contra as mulheres

Baby
Só por hoje
Esqueça o feminismo
As passeatas e as greves democratas
[...] Não fui eu quem fez as leis
Que não lhe dão maior autonomia
Erasmo Carlos/Roberto Carlos

O trecho da música em destaque, gravada em 1976, revela o lugar e a
condição que a mulheres estavam sujeitas na década de 70. Mostra também que
naquele período elas já começavam a se organizar contra as condições de
desigualdade

social

em

relação

aos

homens.

Algumas

expressões

são

emblemáticas, como as passeatas, o feminismo3 e as leis. Isso traz um retrato dos
anos 70, quando as mulheres foram capazes de sair à luta em favor da igualdade de
direitos e obrigações, e promoveram o início da quebra da hegemonia masculina,
especialmente em relação às leis.
Os movimentos iniciados nessa época, ou um pouco antes, seguiram e até
hoje existe um esforço que ultrapassa o campo de interesse estritamente feminino.
De acordo com Cerqueira et. al., (2014), esse esforço representa uma proposta
político-ideológica em prol da igualdade entre os dois sexos, contemplando todas as
esferas da vida. Na esfera legislativa alguns direitos e garantias atenuaram as
desigualdades, mas a discriminação baseada no sexo ainda é muito evidente e
representa lugar de menor importância na escala de hierarquia de outros tipos de
preconceito e discriminação.

3

Movimento social, político e ideológico que reivindica a igualdade de direitos, oportunidades e
responsabilidade de grupos sociais “minoritários” e da desconstrução de práticas e instituições
sociais, patriarcais opressoras.

18

Para Cerqueira et. al., (2014), a discriminação e o preconceito contra as
mulheres ainda é considerado marcante. Diferentemente do racismo, por exemplo, o
preconceito contra as mulheres é um dos temas com menor destaque no âmbito das
ciências que estão relacionadas aos estudos acerca dos preconceitos (LIMA, 2011).
As pesquisas sobre o preconceito contra as mulheres começaram a ser
desenvolvidas com mais frequência a partir dos anos 60 e 70, justamente quando as
mulheres começam a dar destaque às pautas de reivindicações pela participação
nas políticas sociais (SOARES, 1994), e nos espaços acadêmicos, abrindo terreno
para mostrar que a sociedade ainda estava formada por uma face autoritária,
hierarquizada e preconceituosa. E neste sentido, o movimento feminista teve papel
fundamental (BRABO, 2006).
No entanto, embora não seja novidade, o grupo das mulheres mesmo sendo
maioria, na estrutura social forma um grupo menos valorizado frente ao grupo dos
homens. Uma explicação para isso parte da divisão social (ROUSSEAU, 1755/2009;
BARBOSA, 2013), e sexual do trabalho (GALINKIN & ISMAEL, 2011; CASTRO &
SILVA, 2014; HIRATA & KERGOAT, 2007). Foi nesse pilar que os papéis sociais
entre homens e mulheres foram construídos. Os homens construíram as suas bases
de ocupação na esfera de produção e às mulheres restou a esfera privada, com
atividades de menor valor social (HIRATA & KERGOAT, 2007; GOMES, DINIZ,
ARAUJO & COELHO, 2007).
Desse modo, ecoa até os dias atuais os reflexos desta visão representada
por uma sociedade eminentemente machista (CERQUEIRA-SANTOS & DE SOUZA,
2011; GALINKIN & ISMAEL, 2011), cujas diferenças entre ambos os sexos foram
acentuadas ao longo da história, especialmente através do processo de socialização
(MOLINIER & WELZER-LANG, 2009; FRANÇA, 2011). Neste contexto, os aspectos

19

biológicos foram as principais características que justificaram as diferenças sociais
entalhadas entre homens e mulheres, justificando também as desigualdades
políticas entre os sexos (SILVA, 2010), destacando a divisão social (BARBOSA,
2013), e sexual do trabalho (GALINKIN & ISMAEL, 2011), como dito anteriormente.
Ademais, existe uma forte tendência a se atribuir, ao sexo masculino,
valores tidos como normativos, contribuindo, assim, para o reforço das
desigualdades sociais entre os gêneros (CERQUEIRA, et. al., 2014), que tem origem
nos dispositivos legais. O Código Civil de 1916 é um exemplo. Caracterizado pela
discriminação em que se refere às diferenças de classe social, sexo e raça, e previa
que a mulher devia submissão ao homem, inclusive não tendo direito a administrar
os seus bens particulares, porque ao se casar perdia o direito civil (BRASIL, 2003).
Antes da edição dos Direitos Civis brasileiro o preconceito e a discriminação
eram notadamente defendidos, legais e aplicados, como descritos no Código de
1916, e, portanto, legalmente compartilhados entre os grupos sociais. Com a edição
dos Direitos Civis, passaram a ser proibidas e punidas quaisquer formas de
preconceito e discriminação explícitas.
As mudanças legislativas, nos sistemas de valores e a globalização
oportunizaram as mulheres a ocuparem novos espaços na sociedade, fazendo com
que o preconceito contra elas também se tornasse evidente e enfatizado. Exemplo
disso são a diferença em termos de salários e a distribuição dos cargos políticos
“ditos para homem”, sem falar nas formas extremas de assédio moral e sexual, e os
estereótipos atribuídos a elas do tipo “histéricas”, “machonas”, “exibidas” e
“duronas”, simplesmente por serem mulheres (ONU MULHERES).
A luta por mudanças nesse cenário das desigualdades dos direitos civis e
políticos, e de afirmação da igualdade de direitos e oportunidades, iniciou seus

20

primeiros sinais de mudança no século XIX, tomando fôlego no século seguinte, com
as lutas dos movimentos feministas e a introdução da questão de gênero como uma
construção social (SILVA, 2010; GALINKIN & ISMAEL, 2011).
Esse movimento favoreceu a quebra da hegemonia masculina e mostrou
que as diferenças entre os sexos tinham base numa construção social e cultural,
pondo a cabo a força do discurso referente às diferenças anatômicas como
justificativa para a sujeição da mulher (SCOTT, 1990).
Os estudos realizados por Waiselfisz (2012) indicam que ainda existem
muitos homens que seguem acreditando em sua superioridade e exerce a sua força
em atos violentos de estupros, agressão física e psicológica. E, por sua vez,
atribuem culpa à vítima, com discursos baseados em comportamentos ou na forma
como as mulheres costuma se vestir.
A Secretaria de Política para Mulheres tem publicado algumas pesquisas
sobre violência contra as mulheres, dentre as quais uma feita pela AVON, no ano de
2014, com 2.046 participantes de 16 a 24 anos de idade, em que 25% dos
participantes admitiram que a mulher não deve usar roupas decotadas para não
sofrerem algum tipo de violência por parte dos homens; 68% das mulheres
afirmaram ter tomado cantada ofensiva e 44% afirmaram ter seu corpo tocado por
um homem estranho durante uma festa.
O reflexo de atitudes desse tipo foi registrado pelo Sistema Único de Saúde
(SUS), no ano de 2011, com 70.285 atendimentos às mulheres vítimas de violência
física, sexual e outros tipos de menor impacto, que correspondeu a 65,4% dos
atendimentos feitos, decorrentes de atos de violência envolvendo ambos os sexos.
O Relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do ano
de 2013 mostrou que a violência contra as mulheres atinge todas as idades. No caso

21

de crianças e adolescentes elas são, em geral, violentadas sexualmente pelos pais e
padrastos, enquanto que na fase adulta a agressão já parte dos cônjuges e, em grau
menor, de pessoas mais distantes da convivência doméstica (WAISELFISZ, 2012).
No que refere ao levantamento internacional, o Brasil ocupou a 7ª posição
em homicídio contra o grupo das mulheres, entre 84 países (WAISELFISZ, 2012).
Fica evidente com isso que a violência contra a mulher no contexto brasileiro ainda é
alarmante (BARBOSA, 2013). Neste levantamento, dentre as nove regiões
brasileiras, a região Nordeste apareceu no ranking das demais.
Nos dias atuais as mulheres têm adotado atitudes em defesa de si mesmas
e não aceitam mais o silêncio como resposta à violência sofrida (SILVA, 2010). O
contexto de violência contra a pessoa do sexo feminino nas últimas décadas, e em
várias partes do mundo, elevou esse tipo de violência a um patamar de visibilidade
pública. Neste panorama, foram criados vários dispositivos de atendimento e
proteção à mulher.
Com avanços dessa ordem, a Ouvidoria da Mulher, criada no ano de 2003,
registrou no ano seguinte um total de 224 denúncias de atos de violência e, no ano
de 2012, um total de 1515 casos, demostrando que as mulheres estão mais
intolerantes frente à violência. Desse total 39% foram relacionadas à violência
sexual e 29% relacionadas a cárcere privado (SPMa, 2013). Entretanto, as
diferenças regionais podem representar padrões diferentes no que se refere a
aceitação ou entendimento da violência contra a mulher e as suas formas de
expressão (GARCIA et al., 2013).
No ano de 2013, entre o período de janeiro a junho, a Central de
Atendimento à Mulher Ligue 180, criada em novembro de 2005 pela SPM prestou
306.201 atendimentos. Desse total 83,8% era sobre violência, com 37.582 casos,

22

tendo como principais agressores o companheiro, cônjuge, namorado ou “ex” da
vítima. As vítimas, na maioria dos casos registrados (98,8%), eram mulheres pardas
e brancas, predominantemente com escolaridades equivalentes ao ensino
fundamental e médio. Dentre elas verificou-se que 62% não tinham relação de
dependência financeira com o agressor e 82,7% tinham filhos em comum (SPMb,
2013).
Silva (2010) considera que esse número seja maior se for levado em
consideração as mulheres sujeitas à violência psicológica, pelos estigmas
experimentados no cotidiano, como consequência dos preconceitos sofridos, que
estão arraigados no imaginário social coletivo. Esse tipo de violência, assim como
outros tipos apresentados pela CPMI no ano de 2012, é fruto das consequências
oriundas das relações assimétricas entre o homem e a mulher, expressas como uma
forma extremada da expressão do preconceito, que resulta na discriminação em sua
última forma (GOMES & DINIZ, 2008). Para Formiga (2009), a hostilidade praticada
contra a mulher é resultante da intolerância em vê-la numa condição de poder e
decisão.
Todas essas questões têm chamado a atenção de cientistas e também da
Organização dos Direitos Humanos, que tem publicado dados, ligados ao
preconceito e a discriminação contra o gênero feminino, e fornecido bases científicas
acerca da violência contra esse grupo, alertando o poder público no sentido de
promover garantias de direitos às mulheres (SILVA, 2010). Exemplo disso foi a
criação da Lei n. 11.340/2006 e o disque 180.
O poder público não só deve criar tais dispositivos, mas criar e cuidar do
efetivo funcionamento sob pena de ser condenado por algum ato de negligência
e/ou omissão em fazer essa frente, como aconteceu com a vítima de violência

23

praticada pelo marido, Maria da Penha Maia Fernandes, que emprestou nome a Lei
11.340/2006 (Lei Maria da Penha), que teve repercussão internacional. Com efeito,
o preconceito contra as mulheres não é mais somente um problema da vítima no
espaço privado, agora é tema de repercussão pública na vida social, econômica e
cultural da mulher (SOUZA, 2009).
Nesse sentido, a questão que demarca as diferenças entre homens e
mulheres caracteriza-se como uma problemática urgente e atual, passando a ser
tema de estudos de muitas pesquisas (BANDEIRA, 2009; SILVA, 2010). Além disso,
é compreendida como uma problemática pública que precisa de atenção, devido ao
número de atos praticados pelos homens contra as mulheres, atingindo um
percentual de óbitos feminino atinge cerca de 7% dos casos relacionados às formas
extremas de violência, em todo o mundo (GOMES & DINIZ, 2008).
A ONU reconheceu, através do Relatório de Direitos Humanos, que a
promoção da igualdade entre homens e mulheres é um fator necessário e urgente. A
discriminação histórica contra a mulher foi o elemento essencial para esse
reconhecimento, que também favoreceu perceber que essa problemática causa
impacto negativo no crescimento socioeconômico em todos os países do mundo, já
constatado mediante indicadores econômicos.
A partir do ano de 2006, com a promulgação da Lei 11.340, algumas
políticas públicas em favor da mulher, foram implementadas. Os Núcleos de
educação e reabilitação para autores de violência contra a mulher, além de
participação em programas de recuperação e reeducação com base nessa lei
(BRASIL, 2006). As políticas públicas se destinam assim às mulheres, no sentido de
protegê-las da violência praticada pelos homens, e em relação aos homens no
sentido de privilegiar alternativas à privação de liberdade.

24

Mesmo com todas as medidas existentes no sentido de evitar atitudes
antinormativas dirigidas contra as mulheres, ainda existe uma certa complexidade
para lidar com esta questão. Os discursos cotidianos que expressam uma forma de
violência contra o gênero feminino estão encobertos e disfarçados pela
normatividade,

mesmo

assim

aparecem

na

linguagem

de

duplo

sentido

(DISCRIMINACIÓN, 2010), significando que o preconceito contra as mulheres, ainda
que não apareça no discurso explícito por causa das normas da nova ordem de
igualdades entre os dois sexos, nem mesmo na avaliação dos traços por seguir este
mesmo viés, pode aparecer numa análise das emoções, segundo a teoria da infrahumanização.

25

2 INFRA-HUMANIZAÇÃO E ATRIBUIÇÃO DIFERENCIADA DE EMOÇÕES E
TRAÇOS

A atribuição de diferenciada de emoções e traços entre grupos sociais pode
ser compreendida como uma forma de julgamento social. Tal julgamento passa por
um conjunto de elementos que constitui a essência humana, como as emoções
secundárias ou sentimentos4 (LEYENS et al., 2000), e alguns atributos como
linguagem, inteligência e moralidade (PÉREZ, MOSCOVICI & CHULVI, 2007), que
distinguem os humanos dos animais.
Um apanhado de estudos elaborados por Leyens et al., (2000), permitiu que
eles

verificassem

que

algumas

características

como

as

emoções

são

essencialmente de base biológica e experimentadas por animais e humanos, por
exemplo, raiva, dor, medo e alegria, estando todas elas associadas a respostas mais
diretas e espontâneas (JOHNSON-LAIRD & OATLEY, 1989; CHULVI & PEREZ,
2003), enquanto que outras características, como as emoções secundárias a
exemplo da empatia, amor, remorso e vergonha são mais complexos e derivam de
respostas mais reflexivas e indiretas, que Kemper (1987), acredita serem
provenientes da aprendizagem do meio social.
Nesse mesmo sentido, as emoções secundárias apresentam-se como mais
duradouras e menos intensas do que as emoções primárias, justamente por estarem
submetidas a reflexões morais, às normas e padrões sociais (LIMA & VALA, 2005).

4 Os sentimentos foram compreendidos como característica essencialmente humana, e as emoções

como características pertencentes tanto aos seres humanos quanto aos animais. Tal distinção
corresponde apenas às pessoas de língua Latina e às pessoas de língua Germânica, não
aparecendo distinção, por exemplo, em pessoas de língua Inglesa. Adotaremos o termo emoções
primárias para emoções e emoções secundárias para sentimentos, baseado nos estudos ingleses de
Leyens et al. (2000).

26

Ademais, são menos visíveis, exigem um pouco mais de recursos cognitivos e são
mais característicos do gênero feminino (BETANCOR, et al., 2005).
De acordo com Leyens et al., (2000), Lima e Vala (2005), Betancor,
Rodríguez, Quiles e Rodríguez (2005), seria inadequado atribuir aos animais
algumas emoções como vergonha, amor ou culpa; por outro lado, subestimar grupos
humanos, negando-lhes emoções complexas seria um indicativo de preconceito e
infra-humanização.
Os pesquisadores que adotam a teoria da infra-humanização acreditam que
existe uma inclinação dos membros do grupo interno a atribuírem mais emoções
secundárias para o próprio grupo, reservando as emoções mais rudimentares e
inferiores ao grupo externo (exogrupo), excluindo-o dos padrões correspondentes
aos humanos (PALADINO et al., 2002; COSTA-LOPES et. al., 2008; BAIN, PARK,
KWOK & HASLAM, 2009; VAES & PALADINO, 2009).
Se por um lado existe essa inclinação, por outro lado, negam essas
características aos membros do exogrupo, resultando em um favoritismo endogrupal
e infra-humanização. Com efeito, o endogrupo tende a se sentir humanamente
superior (VAES, 2004), e adotar critérios de avaliação social diferenciada ao
exogrupo, mesmo não havendo qualquer tipo de conflito ou disputa entre os grupos
(LEYENS & DEMOULIN, 2007), mas pela simples ameaça em termos de valores
(PEREIRA, VALA, & LEYENS, 2007; VIKI, ZIMMERMAN, & BALLANTYNE, 2007).
Sobre isso, alguns autores têm opiniões em comum. Para Castano, Leyens
e Paladino (2000), o comportamento endogrupal tem por objetivo proteger a autoimagem do grupo. Outros acreditam que o intuito é fortalecer o grupo do qual os
membros fazem parte (HAMMOND & AXELROD, 2006), e diminuir o estatuto do

27

exogrupo, atingindo negativamente a sua imagem (FERNANDES & PEREIRA,
2011).
Disso se depreende que o processo de infra-humanização cumpre a função
de uma estratégia psicológica de enfrentamento de uma determinada situação,
quando os indivíduos do grupo interno sentem-se confrontados diante de situações
ameaçadoras dentro do próprio grupo social de pertencimento (CASTANO & GINERSOROLLA, 2006).
Considerando esta linha de pensamento, compreende-se porque os
membros dos grupos atribuem mais essência humana ao endogrupo, e consideram
o exogrupo como menos humano (CORTES, et al., 2005). Mas em que sentido um
humano seria mais humano ou menos humano do que outro? Leyens, et al., (2000),
reportando-se a Buffon, dizem que os seres humanos são uma espécie única.
Apesar disso, afirmam que o próprio cientista, ao compreender as inteirações
humanas, fez menção a alguns grupos ou categorias que estariam mais próximos
das espécies animalescas do que dos humanos, por exemplo, os negros.
A este respeito, as categorias que os autores se referem seriam aquelas de
estatuto social desvalorizado, das quais Fernandes e Pereira (2011) citam (etnia,
raça e gênero), posto que estas categorias possuem diferenças intergrupais
significativamente ressaltadas, e, portanto, mais facilmente vistas como alvo de
preconceito e discriminação. Levando em conta tais considerações e a
tendenciosidade endogrupal, pode-se conjecturar que as pessoas, ao serem
convidadas a caracterizar o endogrupo e o exogrupo, irão diferenciar o seu grupo
com características mais positivas do que o grupo dos outros.
Assim, indiretamente, o endogrupo está sinalizando que é superior e mais
humano do que o exogrupo, e o resultado disso seria uma forma particular e indireta

28

de exprimir o preconceito, que Leyens et al., (2000, 2003) chamaram de infrahumanização.
Segundo Vilhena (2007), Bar-Tal (1989) foi um dos primeiros pesquisadores
que utilizou a infra-humanização no contexto de grupos minoritários. Bar-tal
empregou o termo desumanização, a um grupo social categorizado como não
humano, associado a uma espécie inferior, como os animais, ou super-humanas
elevadas à categoria de criaturas demoníacas, em que os traços eram percebidos
através de características extremamente negativas. Entretanto, os estudos que
emergem da atribuição diferenciada de emoções primárias e secundárias foram
inicialmente produzidos por Leyens et al., (2000; 2001; 2003) e Paladino et al.,
(2002), e partem do princípio de que a atribuição diferenciada de emoções é própria
do contexto que marca as diferenças entre os grupos sociais.
No campo da Psicologia Social, Lima e Vala (2005), situam a infrahumanização em três planos distintos: (a) no plano dos valores, representado por
características tipicamente humanas, momento em que é levado em conta o nível de
evolução humana e aproximação com os valores morais, isto é, quanto menos
próximo dos valores morais mais próximos da condição de não-humano (ESSES,
HODSON & MIHIC, 2008), (b) no plano dos traços culturais e naturais, quando o
exogrupo sofre uma espécie de desculturalização via atribuição diferenciada de
características naturais e culturais, e (c) no plano das emoções, quando se destaca
a negação de emoções secundárias, indicando que os grupos sociais podem ser
infra-humanizados por essas três vias ou por uma delas (HASLAM, LOUGHNAN, &
HOLLAND, 2013).
No Brasil, alguns estudos foram desenvolvidos dentro da teoria da infrahumanização. Especificamente contra negros (LIMA & VALA, 2004), contra

29

homossexuais (FLEURY & TORRES, 2007) e relacionando jovens e idosos (DE
SOUSA, et. al., 2010). Relativo ao grupo feminino não foi encontrado nenhum
estudo científico utilizando esse modelo teórico.
Na literatura internacional, encontrou-se, por exemplo, o trabalho de Viki e
Abrams (2003), sobre sexismo e atribuição de emoções primárias e secundárias às
mulheres, em que os autores afirmam que homens que apresentam elevado nível de
sexismo benevolente atribuíram mais emoções secundárias positivas às mulheres
do que homens com baixo nível de sexismo benevolente e, ao contrário, os
indivíduos com alto nível de sexismo hostil negariam mais emoções secundárias
positivas às mulheres do que indivíduos de baixo nível de sexismo hostil. Além
disso, observaram que os homens que atribuem características mais animalescas ao
grupo feminino, estão mais suscetíveis a assediar e vitimar sexualmente as
mulheres.
Nessa mesma direção, Baldry, Pacilli e Pagliarol (2014), estudaram o efeito
da violência praticada contra mulheres, por parceiros íntimos. O estudo foi realizado
na Itália e contou com 303 universitários. Para metade da amostra foi lida uma
história na qual algumas mulheres foram vítimas de agressão pelo parceiro, e
admitiram infidelidade; para a outra metade da amostra as vítimas não admitiam
infidelidade. Os participantes responderam a uma escala que contava com questões
referentes a ajuda à vítima e com atribuição de emoções. Os resultados
demonstraram que os participantes além de ajudarem menos às mulheres que
admitiram infidelidade, também infra-humanizaram as vítimas, expressando
preconceito contra elas. Os autores concluíram que, tanto o público em geral quanto
os profissionais ligados à justiça podem demonstrar esse tipo de preconceito, e
presumem um possível impacto sobre a forma como essas mulheres poderiam ser

30

tratadas em caso de buscar ajuda em algum dispositivo de proteção aos seus
direitos.
É interessante destacar que o fenômeno da infra-humanização, assim como
o preconceito, já aparece no universo das crianças. Chas, et al., (2015), listaram
uma série de termos emocionais e solicitaram a 48 crianças que atribuíssem os
termos listados ao grupo de pertencimento e ao grupo externo. Os autores
constataram que as crianças infra-humanizam os membros dos grupos externos da
mesma forma como fazem os adultos, reservando para o próprio grupo as emoções
humanas, independentes de serem positivas ou negativas. Este resultado reforça a
ideia de que o preconceito pode não aparecer pela via que coloca o indivíduo em
condição de desejabilidade social, mas estando encoberto pode vir à baila através
das emoções humanas, no processo de infra-humanização.
O modelo teórico de Leyens et al., (2003), que define a natureza humana
como possuindo atributos exclusivos da espécie humana - emoções secundárias,
favoreceu o desenvolvimento do estudo de Haslam, et al., (2008), sobre o processo
de desumanização. No mesmo sentido da infra-humanização, a desumanização
considera-se assim pela associação de pessoas com máquinas.
Haslam, et al., (2008), argumentaram que a desumanização é geralmente
entendida como o ato de negar humanidade a alguém e sinalizaram duas formas de
desumanizar. Uma seria pela mesma via da infra-humanização, ou seja, através da
negação de atributos exclusivamente humanos a grupos sociais aproximando-os dos
animais; a segunda seria pela negação de atributos de natureza humana como
emotividade, desejo, calor e propriedades inatas, a grupos externos, comparando-os
a robôs.

31

Para esses pesquisadores a desumanização não passa apenas pela
atribuição de

elementos animalescos aos humanos, ou

sempre

que

as

características definidoras de humanidade sejam negadas, mas inclui também a
negação dos atributos ligados ao comportamento e à moralidade. Já a forma
mecanicista, segundo os autores, passa pela negação de elementos da natureza
humana, fazendo com que a pessoa pareça fria, insensível, rígida e sem
individualidade. Neste sentido, à desumanização está subjacente a emotividade e o
desejo, que, segundo eles, constituem os principais elementos da natureza humana,
e que diferenciam humanos de robôs. Por outro lado, as propriedades que envolvem
maior cognição e emoção, marcam a diferença entre humanos e animais.
Dentro deste modelo dual (infra-humanização e desumanização) os
pesquisadores verificaram que foram consistentes aos animais níveis mais baixos de
emoções secundárias, ou seja, verificaram que as emoções secundárias são mais
associadas aos humanos do que aos animais, enquanto que aos robôs foram
consistentes níveis mais baixos de emoções primárias e secundárias, significando
que tanto o primeiro quanto o segundo grupo de emoções foram menos associados
aos robôs. Nessas condições, comparar pessoas com máquinas (robôs) seria um
nível mais elevado de negação da humanidade, pois implica a negação tanto de
emoções primárias quanto de emoções secundárias.
Para além dessas considerações acerca da desumanização, observa-se que
a infra-humanização se dá pela via da atribuição diferenciada de traços, valores e
emoções, mas para efeito deste estudo serão adotados os traços e emoções, como
elementos de análise da expressão do preconceito.
No que se refere a atribuição diferenciada de traços, pode-se indicar que os
traços são características definidoras de seres humanos e de animais, e estão

32

representados em dois grupos: traços de natureza e traços de cultura. Os traços
naturais são usados indiferenciadamente para descrição de seres humanos e de
animais, enquanto os traços de cultura são tipicamente usados para descrição de
seres humanos (LIMA & VALA, 2004).
De acordo com esses autores a avaliação de uma categoria com a atribuição
de mais traços naturais e menos traços culturais é um indicador de infrahumanização. Num estudo em que eles hipotetizaram que os negros seriam mais
avaliados em termos de traços naturais do que traços culturais, o resultado não se
confirmou, entretanto confirmou-se a atribuição diferenciada de traços culturais aos
grupos que obtêm sucesso do que para os grupos que fracassam. Com isso, os
autores afirmam que a atribuição diferenciada de traços de cultura serve como um
indicador de inferiorização e essencialização grupal.

Quadro 1. Lista de traços de natureza e cultura (LIMA & VALA, 2004)
Conteúdo
Valência

Negativos

Positivos

Natureza

Cultura

Esperto
Alegre
Intuitivo
Espontâneo
Fisicamente hábil
Livre
Dócil
Simples

Sincero ou leal
Inteligente
Progressista
Sábio
Competente
Industrioso
Civilizado

Agressivo
Ruidoso
Selvagem
Impulsivo
Descontrolado
Estúpido
Feroz

Falso ou mentiroso
Infantil
Supersticioso
Conservador
Materialista
Desonesto

Assim como os traços, as emoções são divididas em dois grupos, sendo um
grupo formado pelas emoções primárias e outro grupo formado pelas emoções

33

secundárias. O primeiro grupo de emoções tem determinantes fisiológicos, portanto
são compartilhadas por seres humanos e animais; o segundo grupo é exclusivo da
experiência humana (LEYENS, et al., 2000).
Nos estudos feitos por esses autores, nas Ilhas Canárias, de Madrid e de
Barcelona (1º estudo), e Ilhas Canárias e Granada (2º estudo), os participantes
atribuíram mais emoções secundárias ao endogrupo. Os pesquisadores buscaram
verificar se havia diferenciação na atribuição das emoções segundo o estatuto dos
grupos ou a presença de conflitos, no qual perceberam que as emoções não
sofreram interferências.
Quadro 2. Lista de emoções primárias e secundárias de Paladino et al. (2002), adaptada por
Lima e Vala (2004)
Valência

Emoções primárias

Emoções secundárias

Positivas

Crueldade
Medo
Dor
Terror
Raiva

Despeito
Decepção
Culpa
Remorso
Vergonha
Espanto

Desejo
Luxúria
Atração
Surpresa
Prazer
Alegria
Excitação

Admiração
Compaixão
Felicidade
Empatia
Afeto
Serenidade
Amizade
Esperança
Amor

Negativas

Este capítulo abordou três assuntos centrais que orientou este estudo: (a) O
preconceito, que apresenta as principais acepções do preconceito vista a partir de
um dos mais citados estudos sobre este assunto, publicado por Gold Allport em
1954, e outros mais recentes pesquisadores desta área, salientando-se o período
Pós Segunda Guerra como um marco em que a ciência e a política começaram a se

34

interessar para o estudo dos preconceitos, sendo este um assunto ainda muito atual
e tema de interesse de muitos pesquisadores, mas focado no racismo; (b) O
preconceito contra as mulheres, onde se destaca o início das lutas e pautas de
reivindicações, por parte das mulheres, em favor de igualdade de direitos, época que
marca também o início dos estudos sobre o preconceito contra as mulheres,
contexto que permitiu avançar no sentido das mudanças legislativas e das políticas
públicas em favor das mulheres, por reconhecimento às consequências nefastas do
preconceito e da discriminação contra as mulheres, reconhecidas, inclusive, pela
ONU; e (c) A Infra-humanização, teoria que analisa uma forma particular de
preconceito e discriminação contra as mulheres, através das análises das emoções
e dos traços, e que já apresenta evidências empíricas de que as mulheres formam
um grupo alvo de infra-humanização, utilizando-se como indicadores os traços e as
emoções, conforme destacados nos quadros acima.

35

PARTE III: ESTUDO EMPÍRICO

3 OBJETIVOS

3.1. Objetivo Geral

Analisar a atribuição diferenciada de emoções e traços às mulheres, a partir da
teoria da infra-humanização.

3.2. Objetivos Específicos

Analisar a atribuição de emoções e traços às mulheres como indicador dos níveis
de preconceito e infra-humanização;
Verificar a relação entre atribuição de emoções primárias e traços de natureza a
homens e mulheres e o sexo dos participantes.

4 MÉTODO

4.1. Hipóteses

 H1: Os participantes do sexo masculino atribuirão mais traços de natureza e
emoções primárias às mulheres do que em relação aos homens;

36

 H2: Os participantes do sexo feminino atribuirão menos traços de natureza e
emoções primárias às mulheres do que em relação aos homens;
 H3: Os participantes do sexo masculino atribuirão mais traços culturais e
emoções secundárias aos homens do que em relação às mulheres;
 H4: Os participantes do sexo feminino atribuirão mais traços culturais e
emoções secundárias às mulheres do que em relação aos homens.

4.2. Participantes

A amostra foi composta por 309 estudantes universitários de Instituições
públicas e privadas do estado de Sergipe e Alagoas, dos cursos de Psicologia,
Engenharia e Direito, sendo, em sua maioria, do sexo masculino (52,1%),
heterossexual (88,7%), com idades entre 18 e 33 anos (M=23,3; D.P.= 3,80). Esta
seleção foi de conveniência (não-probabilística); participaram os indivíduos que
estavam presentes e sendo solicitados a colaborar concordaram em fazer parte da
pesquisa.

4.3. Instrumento

Para coleta de dados foi utilizado um livreto (ANEXO I) contendo algumas
informações sociodemográficas que, além disso, contava com duas escalas para
mensurar Atribuição Diferenciada de Emoções e Traços de Paladino et al., (2002),
adaptada por para o contexto brasileiro por Lima e Vala (2004). As escalas solicitam
ao participante que indique a frequência com que ele acredita que o grupo alvo

37

experimenta as emoções (ex.: medo, raiva, alegria, amor), e pode ser definido pelos
traços (ex.: alegre, agressivo, civilizado, supersticioso) listados. Cada escala possui
16 itens, respondidos através da escala do tipo likert, com cinco pontos, que varia do
nunca ao sempre e do nada típico a totalmente típico.
Buscou-se manter um equilíbrio entre os termos, adotando para o
instrumento quatro emoções primárias e quatro emoções secundárias; quatro traços
de natureza e quatro traços de cultura. Da mesma forma, equilibrou-se a Valência,
das emoções e dos traços, ficando uma parte positivas e outra parte negativas.
Como o estudo consiste em analisar a atribuição diferenciada de emoções e
traços às mulheres, adaptou-se a escala para dois modelos de grupos-alvo: homens
e mulheres.

4.4. Procedimentos

Para atender à resolução nº 196/96 e 304/2000 do Conselho Nacional de
Saúde, que assegura os direitos, deveres e todos os critérios éticos que envolvem
pesquisa com seres humanos, este estudo foi aprovado para execução, através do
parecer número 416.755 de 04 de outubro de 2013 (ANEXO II).
Em relação à coleta de dados dentro das Instituições foi Solicitada a
Autorização para a Pesquisa (SAP) (ANEXO III) que contém as informações
necessárias acerca da natureza da pesquisa. Para a coleta dos dados, foi entregue
o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), anexado ao instrumento de
coleta de dados. As respostas foram dadas individualmente e o tempo de resposta
durou aproximadamente 12 minutos.

38

4.5. Análise dos Dados

Procedeu-se a análise estatística dos dados utilizando-se o Statistical
Package for the Social Sciences (SPSS 20). Foram realizadas análises estatísticas
descritivas (media, desvio padrão, mínimo e máximo, erro padrão e intervalo de
confiança de 95%/), para descrição dos resultados em particular de cada uma das
escalas, e o teste de tomada de decisão (t de Student), para comparar os escores
médios dos construtos aqui considerados em função dos grupos.

39

5 RESULTDOS

Inicialmente no sentido de verificar se o resultado dos dados coletados
corrobora com a primeira hipótese (H1 – os participantes do sexo masculino
atribuirão mais traços naturais e emoções primárias às mulheres do que em relação
aos homens), procedeu-se análises de comparação dos escores médios (t de
student) entre participantes do sexo masculino e feminino (Tabela 1). O teste t [t
(307) = 3,949; p< 0,000] indicou que existe diferença estatisticamente significativa
entre os escores médios dos participantes do sexo masculino (M = 3,13; D.P. =
0,64), quando comparado ao sexo feminino (M = 2,87; D.P.= 0,49), em relação a
atribuição de traços naturais, com efeito pequeno (d=0,45). Cohen (1992)
recomenda que, para o tamanho do efeito do teste t, 0,20 é um efeito pequeno, 0,50
é um efeito médio, e 0,80 é um efeito grande. Com relação à atribuição de emoções
para as mulheres, da mesma forma, os participantes do sexo masculino atribuíram
mais emoções primárias às mulheres (M = 3, 62; D.P. = 0,38), em relação ao sexo
feminino (M = 3,44; D.P. = 0, 44), com significância estatística [t (307) = 3, 854;
p<0,000] e um efeito pequeno (d=0,44).

Tabela 1. Atribuição de traços naturais e emoções primárias mulheres, por homens (H1)
Variáveis

Sexo

Media

D.P. (Desvio Padrão)

Masculino

3,14

0,64

Feminino

2,88

0,50

Masculino

3,62

0,38

Feminino

3,44

0,44

Traços Naturais Mulheres

Emoções Primárias Mulheres

40

No tocante a testagem da segunda hipótese (H2 – as mulheres atribuiriam
menos traços naturais e emoções primárias a elas mesmas do que em relação aos
homens), os participantes do sexo feminino atribuíram menos traços de natureza às
mulheres (M = 2,88; D.P. = 0,50), quando em comparação ao sexo masculino (M =
3,14; D.P. = 0,64). O teste t demonstrou existir diferença estatisticamente
significativa [t (307 = 3, 948; p< 0,000], com efeito pequeno (d=0,46). Em relação às
emoções primárias, participantes do sexo feminino apresentaram escores médios
inferiores (M = 3,44; D.P. = 0,44), em comparação ao sexo masculino (M = 3,62;
D.P. = 0,38) com diferenças estatisticamente significativa [t (307 = 3, 854; p< 0,000],
com efeito pequeno (d=0,44), corroborando com a H2 (Tabela 2).

Tabela 2. Atribuição de traços naturais e emoções primárias mulheres, por mulheres (H2)
Variáveis

Sexo

Media

D.P (Desvio Padrão)

Masculino

3,14

0,64

Feminino

2,88

0,50

Masculino

3,62

0,38

Feminino

3,44

0,44

Traços Naturais Mulheres

Emoções Primárias Mulheres

Em relação a uma maior atribuição de traços culturais para mulheres por
parte dos participantes, quando comparado aos participantes do sexo feminino, o
teste t não apontou diferenças estatisticamente significativas, contudo no que tange
a atribuição de emoções os resultados indicaram que os homens atribuíram, em
média, mais emoções secundárias para eles mesmos (M = 3,05; D.P. = 0,52),
quando comparada a média do sexo feminino (M = 2,82; D.P. = 0, 44), com
resultado estatisticamente significativo [t (307) = 4,008; p< 0,000], com um efeito

41

pequeno (d=0,47). Nesse sentido, pode-se afirmar que a hipótese 3 (H3) foi
parcialmente corroborada (Tabela 3).
Tabela 3. Atribuição de traços culturais e emoções secundárias homens, por homens (H3)
Variáveis

Sexo

Media

D.P. (Desvio Padrão)

Masculino

2,89

0,60

Feminino

2,90

0,50

Masculino

3,05

0,52

Feminino

2,82

0,44

Traços Culturais Homens

Emoções Secundárias Homens

Por fim, com relação a hipótese 4 (H4 – os participantes do sexo feminino
atribuíram mais traços de cultura e emoções secundárias às mulheres do que em
relação aos homens), foram realizadas comparações entre os escores médios de
atribuição de traços feminino, entre participantes do sexo masculino e feminino,
indicando que não houve diferença estatisticamente significativa. Entretanto, para a
atribuição de emoções secundárias para mulheres, encontrou-se uma media maior
de atribuição de participantes do sexo feminino (M = 3,66; D.P. = 0,40), em
comparação aos participantes do sexo masculino (M = 3,14; D.P. = 0,49), reportando
uma diferença estatisticamente significativa [t (307) = - 9, 924; p< 0,000], com um
efeito grande (d=1,15). Esse resultado indica que as mulheres atribuíram mais
emoções secundárias a elas mesmas do que em relação aos homens,
corroborando, em parte, com H4 (Tabela 4).

42

Tabela 4. Atribuição de traços culturais e emoções secundárias mulheres, por mulheres (H4)
Variáveis

Sexo

Media

D.P. (Desvio Padrão)

Masculino

2,54

0,41

Feminino

2,50

0,45

Masculino

3,14

0,49

Feminino

3,66

0,40

Traços Culturais Mulheres

Emoções Secundárias Mulheres

Conjuntamente verifica-se que houve uma prevalência de atribuição de
traços de natureza e emoções primárias às mulheres, por parte dos homens, e
menor atribuição desses traços e emoções por parte das mulheres em relação a
elas mesmas. Como hipotetizado, o estudo empírico identificou que ambos os
grupos atribuíram mais emoções secundárias, para o próprio grupo, coincidindo com
os estudos teóricos. Em relação aos traços de cultura, que também se esperava
haver uma maior atribuição aos endogrupos não se confirmou.

43

6 DISCUSSÃO

Este estudo teve como objetivo analisar a atribuição diferenciada de
emoções e traços às mulheres como indicador dos níveis de preconceito, a partir da
teoria da infra-humanização. As pesquisas acerca da infra-humanização têm
mostrado que as pessoas reservam para si e seu grupo de pertencimento traços
culturais (PÉREZ, MOSCOVICI & CHULVI, 2007), assim como as respostas
emocionais que fazem parte do repertório unicamente humano - emoções
secundárias - deixando para as outras pessoas ou grupos as respostas emocionais
que fazem parte do repertório de animais e humanos - emoções primárias (LEYENS,
et. al., 2001; DEMOULIN, et al., 2009; RODRIGUES-PEREZ, et al., 2014).
Compreende-se que a infra-humanização forma uma intersecção com o
preconceito, pois está intrinsecamente ligada ao favoritismo endogrupal, tendo como
efeito o processo sutil de exclusão do exogrupo, podendo criar um contexto
favorável à discriminação e hostilidade intergrupal (MORENO SALAS & SMITHCASTRO, 2009).
Com base na teoria da Infra-humanização buscou-se analisar as respostas
dos participantes em termos da atribuição de emoções e traços, a fim de responder
aos objetivos deste estudo. De modo geral, verificou-se uma prevalência de maior
atribuição de traços de natureza e emoções primárias às mulheres, por parte dos
homens, consistente com a teoria da infra-humanização (LEYENS, et al., 2001),
indicando que as respostas dos participantes do sexo masculino infra-humanizaram
as mulheres ao nível da atribuição de traços de natureza, coincidindo com os
estudos de Lima e Vala (2004), Correia, Brito, Vala e Pérez (2004), e das emoções,

44

conferidas por Leyens, et. al., (2001), Rudman e Mescher (2012), Delgado, et al.,
(2012), Leyens, et al., (2007), e Rodríguez-Pérez, et al., (2011).
Por outro lado, os participantes do sexo masculino atribuíram mais emoções
secundárias a eles mesmos, confirmando a tendência ao favoritismo endogrupal.
Este resultado reforça o indicador de infra-humanização às mulheres, ao passo que,
atribuíram mais emoções secundárias a eles mesmos, e mais traços de natureza e
emoções primárias às mulheres.
Existe a suposição de que, quando se reserva emoções unicamente
humanas para o próprio grupo, tais emoções são negadas ao exogrupo, sendo este
grupo excluído dos padrões de humanidade. Isso demonstra uma atitude sutil de
preconceito e infra-humanização do grupo externo (LEYENS, et al., 2001;
PALADINO et al., 2002; COSTA-LOPES et al., 2008; DEMOULIN, et al., 2009).
Como o grupo externo é o grupo das mulheres, ele estaria ocupando este lugar de
infra-humano. Considerando que este grupo sempre foi alvo marcante de muitos
preconceitos e discriminação (MIL, 2006; CERQUEIRA et. al., 2014), seria razoável
pensar que tal grupo foi alvo de preconceito.
Em relação aos traços para homens não houve diferença estatisticamente
significativa de atribuição de traços culturais para homens. Com isso, realizamos
uma análise inversa, para verificar se o resultado apresentava valores significativos
em relação à atribuição deste tipo de traços para mulheres. Da mesma forma, não
ocorreu diferença significativa nos resultados, demonstrando que os participantes de
ambos os sexos atribuíram valores iguais aos grupos.
Os resultados dessas primeiras análises corroboram com a teoria da infrahumanização, mostrando que houve uma certa inclinação endogrupal capaz de
elevar o status dos grupos à condição de humano. De acordo com Rudman e

45

Mescher (2012), Delgado, et al., (2012), Leyens, et al. (2007) e Rodríguez-Pérez, et
al., (2011), o resultado mostra a presença de discriminação social entre o grupo dos
homens frente ao grupo das mulheres, baseada na distinção entre os traços e
emoções, uma vez que esses elementos são utilizados como critério de
discriminação entre os grupos (DELGADO, et al., 2012; LEYENS, et al., 2007;
RODRÍGUEZ-PÉREZ, et al., 2011).
Em relação às mulheres, elas atribuíram menos traços naturais e emoções
primárias a elas mesmas, embora com efeito pequeno, ao tempo em que lhes
atribuíram mais emoções secundárias, com efeito grande, revelando uma forte
inclinação endogrupal. Para Leyens et al., (2000), o favoritismo endogrupal consiste
numa tendência que admite manifestações particulares dos membros dos grupos
para atribuir mais características positivas ao endogrupo do que ao exogrupo, seu
princípio básico é estabelecer uma diferenciação positiva do grupo interno em
relação ao grupo externo, a fim de proteger o seu grupo e a identidade social
(TAJFEL, 1982; TAJFEL & TURNER, 1986).
Nesse sentido, os participantes do sexo feminino, estariam inclinados a
adotar uma atitude diferenciada e positiva em relação ao próprio grupo, pelo fato de
estabelecerem uma forte relação entre as características pertencentes unicamente
ao universo dos humanos e o próprio grupo (CORTES, et. al., 2005; PALADINO et
al., 2002; LEYENS, et al., 2000). Porventura os participantes do sexo feminino
atribuíssem menos traços e afetos experimentados unicamente por humanos, seria
um indicativo de ausência de identificação com o próprio grupo ou de que tais
participantes julgassem o seu próprio grupo de forma negativa (RODRÍGUEZPÉREZ, et al., 2011).

46

Existe a ideia de que o favorecimento endogrupal serve tanto para fortalecer
o próprio grupo (HAMMOND & AXELROD, 2006), como para diminuir o estatuto do
exogrupo, atingindo negativamente a sua imagem (FERNANDES & PEREIRA,
2011). No entanto, o grupo das mulheres por se tratar de um grupo minoritário, alvo
de muitos preconceitos e discriminação por parte dos homens, e como não existe
preconceito e discriminação de grupos minoritários contra grupos majoritários, não
se pode afirmar que os participantes do sexo feminino demonstraram uma atitude
preconceituosa em relação aos homens. Neste caso, a prevalência de emoções
secundárias em favor do endogrupo segue a tendência natural para associar este
tipo de emoção ao próprio grupo, como reportado nos estudos de Leyens et al.,
(2001) e Delgado et al., (2012).
Relativo aos traços culturais, o padrão de resposta expresso pelos
participantes do sexo feminino foi igualmente ao padrão de resposta expresso pelos
participantes do sexo masculino, não havendo significância estatisticamente para
nenhum dos dois grupos analisados. Talvez esta constatação possa ser explicada
com base no argumento de que a opinião dos participantes nas respostas deste
estudo estaria sendo regulado pelas normas de desejabilidade social, que são
facilmente identificadas através de características não emocionais (DELGADO, et
al., 2009), ou que não seja um bom indicador de avaliar a infra-humanização entre
esses dois sexos (DELGADO, 2008).
Segundo Delgado (2008), a teoria da infra-humanização privilegia o estudo
das emoções, baseado na suposição de que os membros dos grupos não devem
sofrer influência da condição social dos membros do grupo externo, ao atribuir os
termos emocionais, porque as emoções não estão sob o controle das normas
sociais. Ao contrário, a atribuição das características que se associam ao status

47

social, sofreria tal influência, porque os membros dos grupos estariam se guiando
pelas normas igualitárias (LIMA, 2011), que desde o final dos anos 40, com a
Declaração Universal dos Direitos Humanos, e a garantia de tratamento igualitário
vem influenciando as atitudes das pessoas.

48

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo central deste trabalho consistiu em verificar a atribuição
diferenciada de emoções e traços às mulheres, a partir da teoria da Infrahumanização. Especificamente avaliar a existência de atribuição diferenciada de
emoções e traços às mulheres como indicador dos níveis de preconceito, e verificar
a relação entre sexo dos participantes e a atribuição de emoções primárias e traços
de natureza a homens e mulheres. Para tanto, seguiu-se a orientação teórica da
infra-humanização, que considera a atribuição de emoções primárias e traços
naturais como os principais indicadores de infra-humanização, caracterizando-se,
assim, uma forma sutil de preconceito intergrupal.
A previsão de que as mulheres seriam infra-humanizadas, através de
emoções primárias e traços de natureza foi confirmada neste estudo. De maneira
geral, os resultados indicaram que a categoria-alvo (Mulheres) foi vítima de
preconceito, uma vez que este está relacionado ao processo de infra-humanização.
Neste caso específico, admite-se com base em estudos científicos que os homens
que atribuem mais características animalescas às mulheres são mais violentos e
suscetíveis a praticar violência sexual contra elas, pois as percebem como subhumanas. Isto constitui um ponto importante de debate no que se refere aos meios
para enfrentar as formas extremadas de expressão do preconceito e discriminação
contra as mulheres.
Como mostrado em outros estudos da área de investigação da infrahumanização, os indivíduos ao serem convidados a avaliar o exogrupo pela via das
emoções e traços, eles são motivados a caracterizarem tais grupos com mais
emoções e traços compartilhados por humanos e animais do que aqueles

49

unicamente do universo humano. Notadamente foi o que ocorreu entre os dois
grupos aqui analisados, com uma prevalência de atribuição dessas emoções e
traços por parte dos participantes do sexo masculino em relação ao grupo das
mulheres, caracterizando-as como seres infra-humanos.
Pode-se concluir a partir dessas evidências, que não cabe aqui uma
interpretação inequívoca de que o preconceito e a discriminação contra as mulheres
são fenômenos em extinção, com base na existência de políticas de igualdade entre
ambos os sexos. Esta interpretação é válida quando se trata da expressão do
preconceito aberto, no caso de o indivíduo preconceituoso perceber a possibilidade
de penalidade ou censura, porque está controlado tanto pela lei quanto pela pressão
social do politicamente correto. Essa interpretação ajuda compreender a atribuição
dos traços de cultura, que não apresentou nenhuma diferença estatisticamente
significativa para qualquer um dos grupos estudados. Provavelmente porque estas
características estão relacionadas ao status social, que pode sofrer influência das
normas igualitárias, que guiam os comportamentos das pessoas, diferentemente das
emoções que não são atingidas por tais normas.
Neste sentido, os traços culturais surgem como um fator de limitação para
este estudo, porque parece não constituir um bom indicador de análise do
preconceito indireto. Agrega-se a isto o tamanho da amostra, e por se tratar de
estudantes universitários, que embora aceitável considera-se não representativa do
contexto em que este estudo foi realizado, e a própria teoria da infra-humanização,
que apesar de existir uma série de estudos, há uma certa limitação de pesquisas
sobre formas de preconceito e infra-humanização com o grupo das mulheres.
No Brasil há poucas publicações, e nenhuma envolvendo o grupo dos
homens e das mulheres, ficando, desde já, em aberto, uma agenda para que este

50

estudo possa ser replicado em outros contextos, levando-se em consideração
deferentes variáveis como a idade, o nível de educação, diferenças culturais,
incluindo profissionais que trabalham em dispositivos de proteção legal de direitos, a
fim de verificar se o padrão de resposta se repete.
Com esta pesquisa, espera-se agregar alguma contribuição aos estudos já
desenvolvidos no Brasil e que possa contribuir para o estudo dos preconceitos e do
preconceito contra as mulheres, a partir deste viés teórico. Da mesma forma,
espera-se que possa servir de contribuição em propostas de intervenções
sociopolíticas em relação à prática de violência contra a mulher, no sentido de
orientar comportamentos antinormativos contra o grupo alvo, uma vez verificado que
homens que infra-humanizam as mulheres são mais suscetíveis à prática de
violência sexual contra o sexo feminino.
Ademais, se a infra-humanização das mulheres pode estar associada à
prática de violência sexual e à violência como um todo, a teoria da infrahumanização pode ser bastante útil para trabalhar essa problemática. É neste
sentido que esse estudo visa colaborar.

51

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