Nilton Santos da Silva - E por que não cair de paraquedas? reflexões sobre ação conjunta na Proteção Básica da Assistência Social entre assistentes sociais e psicólogas dos centros de Referência da Assistência Social - CRAS

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA

NILTON SANTOS DA SILVA

E por que não cair de paraquedas? Reflexões sobre ação conjunta na Proteção Social
Básica da Assistência Social entre assistentes sociais e psicólogas dos Centros de
Referência da Assistência Social – CRAS

Maceió
2016

2

NILTON SANTOS DA SILVA

E por que não cair de paraquedas? Reflexões sobre ação conjunta na Proteção Social
Básica da Assistência Social entre assistentes sociais e psicólogas dos Centros de
Referência da Assistência Social – CRAS

Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas, como requisito
parcial para a obtenção do grau de Mestre em
Psicologia, sob orientação da Profª Drª Maria
Auxiliadora Teixeira Ribeiro.

Maceió
2016

3

Folha de Aprovação

AUTOR: NILTON SANTOS DA SILVA

E por que não cair de paraquedas? Reflexões sobre ação conjunta na Proteção Social
Básica da Assistência Social entre assistentes sociais e psicólogas dos Centros de
Referência da Assistência Social – CRAS

Dissertação submetida ao corpo docente do
Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas em 29/ 09/ 2016.

________________________________________________________________

Profª Dra. Maria Auxiliadora Teixeira Ribeiro, UFAL (Orientadora)

Banca Examinadora:

_______________________________________________________________________________

Profª Dra. Jacqueline Isaac Machado Brigagão (Examinadora Externa)

________________________________________________________________________________

Profª Dr. Jefferson de Souza Bernardes, UFAL (Examinador Interno)

4

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS - UFAL
INSTITUTO DE PSICOLOGIA - IP
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA - PPGP

TERMO DE APROVAÇÃO
NILTON SANTOS DA SILVA
Título do Trabalho: "E por que não cair de paraquedas? Reflexões
sobre ação conjunta na Proteção Social Básica da Assistência
Social entre assistentes sociais e psicólogas dos Centros de
Referência da Assistência Social — CRAS".
Dissertação aprovada como requisito para obtenção do grau de
Mestre em Psicologia, pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas, pela seguinte banca examinadora:
Orientadora:

Prof. a Dr . Maria Auxiliadora Teixeira Ribeiro (UFAL)
Examinadores:

(USP)
Prof. Dr. Jefferson de Souza Bernardes (UFAL)

Maceió-AL, 29 de setembro de 2016.

5

Dedicado a três mulheres, que surgiram nesta mesma sequência:
Minha mãe, Rosa
Minha irmã, Nubia
Minha esposa, Ivoneide

6

AGRADECIMENTOS

À minha orientadora, professora Dra. Maria Auxiliadora (nossa querida Xili), que, em meio
aos 42 encontros de orientação presencial, além das orientações virtuais, me ajudou a produzir
outros sentidos sobre o mestrado e sobre a vida;
Ao professor Dr. Jefferson Bernardes e à professora Dra. Jaqueline Brigagão, pela gentil
colaboração com este trabalho desde a Banca de Qualificação até hoje;
À Secretaria Municipal de Assistência Social de Maceió, que permitiu a
participação/colaboração de assistentes sociais e psicólogas de seu quadro de pessoal nesta
pesquisa;
Aos queridos e queridas colegas vip’s do mestrado Stephane, Welison, Darlan e em especial
Eyre (em memória), amigos que ganhei nesta jornada;
À colega, amiga e coordenadora geral dos CRAS de Maceió, Denaide Oliveira, incentivadoramor deste meu percurso. Sem ela seria inviável a conclusão desta etapa de vida;
Às amigas e colegas de trabalho: Adriana Barros, Adriana Lins, Tuane Ferreira e Sheyla
Alves (profissionais que qualificam a Assistência Social no município de Maceió) pela torcida
e incentivo de sempre;
Às Assistentes Mariele dos Santos, Arabella Mendonça e Adriane Isabel pela compreensão e
apoio nos muitos momentos em que precisei me afastar do trabalho para mergulhar nele
através da pesquisa do mestrado;
Às profissionais dos CRAS Santos Dumont, Cidade Sorriso e Fernão Velho, pelo incentivo
em diferentes momentos desta caminhada;
Às/aos profissionais que participaram da oficina desta pesquisa pela gentil colaboração com a
conversa sobre ação conjunta;
Às amigas Marta Antonia e Solange Ribeiro (Sol), também pelo incentivo de sempre;
À querida Luciana Michele, pela colaboração, incentivo e, sobretudo, pela sistematização de
informações sobre os CRAS de Maceió;
À amiga de longas datas Aninha Rogério, pela tradução necessária do texto e pela amizade
desde outrora;
Ao meu querido irmão Samir, especialista em assuntos de tecnologia computacional, que,
dentre muitas outras coisas, recuperou meus arquivos de texto danificados.

7

RESUMO
Esse trabalho tem como objetivo compreender as vicissitudes da atuação de psicólogas e
assistentes sociais na Proteção Social Básica da Assistência Social, a partir da concepção de
ação conjunta. Para tal, apoia-se no referencial teórico-metodológico das práticas discursivas
e produção de sentidos, fundamentado na perspectiva do construcionismo social. O
procedimento para a construção das informações da pesquisa foi realizado por meio de uma
oficina com cinco assistentes sociais e cinco psicólogas atuantes em Centros de Referência de
Assistência Social (CRAS) de Maceió, tendo como tema norteador a ‘ação conjunta’. As
análises consideram os enunciados produzidos durante a oficina, os repertórios linguísticos
que circulam na literatura científica sobre Psicologia no CRAS acessada em base de dados e a
experiência do pesquisador nesse contexto. Os resultados apontam para problematizações que
são trazidas pela literatura, como os desafios da inserção/atuação do psicólogo na Proteção
Social Básica, o predomínio do modelo clínico de atuação, a necessidade de criação de novos
conhecimentos e modos de atuação e as lacunas e insuficiências na formação do psicólogo. O
diálogo com os profissionais reflete a relevância de características pessoais como necessárias
e de aspectos pessoais e relacionais como potencializadores do desenvolvimento da ação
conjunta, bem como da condição de impredizibilidade que se configura essa ação conjunta na
Proteção Social Básica.
Palavras-chave: Psicologia, Assistência Social, Ação conjunta, Proteção Social Básica,
CRAS.

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ABSTRACT
This work aims to understand the vicissitudes of psychologists and social workers acting on
Basic Social Protection Social Welfare, from the joint action design. To this end, we support
the theoretical and methodological framework of discursive practices and production of
meanings, based on the perspective of social constructionism. The procedure for the
construction of the survey information was carried out by a workshop with five social workers
and psychologists in five active Social Assistance Reference Centers (CRAS) in Maceió, with
the theme guiding the ' joint action. ' The analyzes consider the statements produced during
the workshop, the linguistic repertoires circulating in the scientific literature on psychology in
CRAS accessed in the database and the experience of the researcher in this context. The
results point to problematizations that are brought by the literature, such as the challenges of
insertion / psychologist in Basic Social Protection, the predominance of the clinical model of
operation, the need to create new knowledge and ways of acting and the gaps and
shortcomings in training of psychologists. Dialogue with professional points out the relevance
of personal characteristics as necessary and relational aspects such as potentiating the
development of joint action and the unpredictability condition that sets this joint action on the
Basic Social Protection.
Keywords: Psychology, Social assistance, Conjunct action, Basic Social Protection, CRAS.

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1: Relação dos CRAS de Maceió (junho/ 2016) ....................................................... 28
Tabela 2: Publicações sobre Psicologia / Assistência Social / CRAS no portal da CAPES
(maio/2016) .......................................................................................................... 32
Tabela 3: Publicações sobre Psicologia / Assistência Social / CRAS no portal da BVS
(maio/2016) ........................................................................................................... 33
Tabela 4: Publicações referentes à Psicologia e Assistência Social com foco sobre a
Psicologia no CRAS, no período 2005-2015 ......................................................... 34
Tabela 5: Quantitativo de publicações sobre Psicologia /CRAS no período 2005-2015 ....... 34
Tabela 6: Temas acessados em publicações científicas sobre a Psicologia no CRAS entre
2008 e 2015 ........................................................................................................... 35

10

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

BPC

Benefício de Prestação Continuada

CASA

Centro de Atendimento Socioassistencial

CAPS

Centro de Atendimento Psicossocial

CF 88

Constituição Federal de 1988

CFP

Conselho Federal de Psicologia

CMAS

Conselho Municipal de Assistência Social

CNAS

Conselho Nacional de Assistência Social

CONPAS

Comissão Nacional de Psicologia na Assistência Social

CRAS

Centro de Referência da Assistência Social

CREAS

Centro de Referência Especializado da Assistência Social

CREPOP

Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas

CRESS-AL

Conselho Regional de Serviço Social de Alagoas

CRP 15

Conselho Regional de Psicologia 15ª região

LOAS

Lei Orgânica da Assistência Social

MDS

Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome

MDSA

Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário

NOB-RH/SUAS

Norma Operacional Básica de Recursos Humanos do Sistema Único de
Assistência Social

NUTAS/UFAL

Núcleo Temático de Assistência Social / Universidade Federal de
Alagoas

PAIF

Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família

11

PNAS

Política Nacional de Assistência Social

PSB

Proteção Social Básica

SEMAS

Secretaria Municipal de Assistência Social

SUAS

Sistema Único de Assistência Social

SUS

Sistema Único de Saúde

TAC

Termo de Ajuste de Conduta

TCLE

Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

UBS

Unidade Básica de Saúde

UFAL

Universidade Federal de Alagoas

12

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO (PARA COMEÇO DE CONVERSA) ...........................................

14

INTRODUÇÃO ................................................................................................................

18

1. CONVERSAS SOBRE A ASSISTÊNCIA SOCIAL ENQUANTO POLÍTICA
PÚBLICA .....................................................................................................................

20

1.1. A Política de Assistência Social no Brasil ............................................................

20

1.2. A Política de Assistência Social em Maceió: recortes históricos .......................

26

1.3. Mapeamento da configuração dos CRAS em Maceió ........................................

28

2. PSICOLOGIA E/NO CRAS: DIÁLOGO COM A LITERATURA ........................

31

2.1. A Busca por publicações referentes à Psicologia na Assistência Social ............

31

2.1.1. A pesquisa no portal da CAPES ........................................................................

32

2.1.2. A pesquisa no portal da BVS ............................................................................

33

2.2. Que discussões apresentam a Psicologia na Assistência Social? .......................

35

2.2.1. Inserção/atuação do psicólogo na Proteção Social Básica do SUAS e
desafios de um novo campo para o psicólogo .................................................

36

2.2.2. Predomínio do modelo clínico de atuação .......................................................

38

2.2.3. Necessidade de criação de novos conhecimentos e de novos modos/modelos
de atuação ........................................................................................................

39

2.2.4. Lacunas e insuficiências na formação do psicólogo ........................................

41

2.2.5. Referenciais teóricos e/ou metodológicos para atuação do psicólogo no
CRAS ...............................................................................................................

43

2.2.6. Cotidiano profissional e concepções e práticas de cuidados de psicólogos na
Saúde e na Assistência Social ..........................................................................

44

2.2.7. Saberes e práticas construídas por assistentes sociais e psicólogos na PNAS
e os desafios do trabalho interdisciplinar .........................................................

46

3. POSICIONAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS ......................................

49

3.1. De onde fala o pesquisador: a concepção construcionista .................................

49

13

3.2. Práticas discursivas: a construção de sentidos a partir do encontro ................

55

3.3. Dentre tantos, um caminho trilhado: o percurso metodológico e a realização
de oficina sobre ação conjunta .............................................................................

57

4. CONVERSANDO SOBRE AÇÃO CONJUNTA ......................................................

62

4.1. Ação conjunta: que conversa é essa? ...................................................................

62

4.2. Oficina com assistentes sociais e psicólogos/as dos CRAS: uma experiência
de ação conjunta ...................................................................................................

64

4.2.1. O início da oficina ............................................................................................

64

4.2.2. Primeira parte da oficina: associação livre sobre ‘ação conjunta’ ...................

65

4.2.3. Segunda parte da oficina: relato de experiências de ação conjunta .................

76

4.2.4. Terceira parte da oficina: classificação das experiências relatadas ..................

86

4.2.5. Quarta parte da oficina: avaliação ....................................................................

89

5. E A CONVERSA (NÃO) TERMINA .......................................................................

92

REFERÊNCIAS ...............................................................................................................

97

APÊNDICE .......................................................................................................................

101

14

APRESENTAÇÃO
(PARA COMEÇO DE CONVERSA)
Antes de falar sobre os diversos aspectos e questões da pesquisa, quero me remeter a
uma conversa anterior à sua realização. E eis, para mim, uma boa conversa!
Toda pesquisa inicia-se para o pesquisador, invariavelmente, antes da realização das
etapas práticas da própria pesquisa. O universo relacional e vivencial do pesquisador o
posiciona frente a questões que lhe suscitam paulatinamente o interesse em pesquisar, em
buscar entender um pouco mais sobre determinado fenômeno. E assim aconteceu comigo. No
ano de 2008, ingressei na política de Assistência Social no município de Maceió, ocupando o
cargo de psicólogo. Fui então nomeado, devido à aprovação em concurso público, como um
dos psicólogos remanescentes da reserva técnica do concurso da Secretaria Municipal de
Saúde (realizado cerca de quatro anos antes). Naquela ocasião compus a equipe de um dos
seis CRAS existentes no município.
Surgiu desde o início uma polêmica, tanto nas unidades de CRAS, quanto em outros
serviços: os psicólogos e as psicólogas nomeados que haviam realizado concurso público para
a área da Saúde, não queriam trabalhar na política de Assistência Social, apenas na Saúde.
Essa era, naquela época, uma queixa expressa de forma bastante recorrente por profissionais
que compunham a gestão e as coordenações de alguns serviços da Secretaria de Assistência
Social e, inclusive, de alguns concursados recém-nomeados. Especificamente, queriam atuar
na perspectiva da clínica psicológica, o que não era possível dentro dos serviços
socioassistenciais. Este descontentamento persistiu nos anos seguintes (2009, 2010, 2011),
levando alguns psicólogos a solicitarem seu remanejamento para a área da Saúde, o que não
foi o meu caso, pois preferi permanecer na Assistência Social.
Durante o ano de 2008, todas as equipes dos seis CRAS do município de Maceió
realizaram várias reuniões/encontros para planejarem atividades comuns, bem como para o
desenvolvimento de uma pesquisa quantitativa, com o objetivo de obterem um diagnóstico da
exclusão social nos territórios dos CRAS. Essa era uma demanda emergente dos profissionais
que atuavam nos CRAS, como ponto de partida para atuação em médio prazo. Durante os
encontros, dos quais participei, notava-se a presença de poucos psicólogos das unidades.
Foi esse movimento, de solicitação de remanejamento de alguns psicólogos, de sua
pouca participação nas atividades conjuntas dos CRAS, da insatisfação de alguns com essa
área de atuação, que me suscitou refletir sobre a prática psicológica na Assistência Social em
Maceió, mais especificamente na Proteção Social Básica.

15

Em meio a toda essa efervescência de mudanças ocorridas neste momento histórico da
política socioassistencial em Maceió, relatadas anteriormente, havia outra questão, não menos
importante, que se apresentava nos CRAS: a inserção de estagiários concluintes do curso de
psicologia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), nas seis unidades de assistência
social, desde o ano de 2008, que viam os CRAS como um campo de estágio oportuno. Havia
um grupo de psicólogos e psicólogas, distribuído nos CRAS, e, também, um grupo de
estagiários, orientados pela professora-orientadora de estágio da UFAL, Maria Auxiliadora
Teixeira Ribeiro, a qual visitava os locais de estágio em algumas ocasiões e propunha alguns
encontros com os psicólogos dos serviços para conversar sobre o referencial teórico norteador
das atividades práticas do estágio. Saltava-me aos olhos a seguinte questão: não se percebia,
por parte dos psicólogos dos CRAS, uma mobilização para discussão acerca do referencial
teórico-metodológico com o qual trabalhava a docente e os estagiários, apesar das visitas e
reuniões propostas e realizadas.
A partir do acompanhamento dos estagiários, senti a necessidade de aproximação
(minha e de outros profissionais dos serviços) com as discussões teóricas realizadas no curso
de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas sobre a área social de atuação, mais
especificamente as discussões promovidas pela professora Auxiliadora, que era a responsável
direta pela inserção dos estagiários nos cenários de prática na ocasião. Bem como senti a
necessidade da Universidade aproximar-se ainda mais da atuação profissional e, assim, juntos,
instituição formadora e campo de atuação, colaborarem na formação profissional de futuros
psicólogos para atuarem no campo da assistência social.
Diante deste meu interesse e necessidade, participei de tentativas sucessivas de maior
aproximação relacional entre a Universidade e os CRAS, entre produção de conhecimento e
construção de práticas, e, de forma mais pessoal, entre a professora-orientadora de estágios e
eu. Em consequência disto, alguns eventos aconteceram nos anos imediatamente posteriores
que colaboraram fortemente para o meu crescente interesse em enveredar pelo campo da
pesquisa.
Em 2011, a UFAL, através do Núcleo Temático de Assistência Social – NUTAS,
promoveu um Curso de Aperfeiçoamento no Trabalho Social. Tal curso configurava-se na
modalidade de Projeto de Extensão, cujo público alvo eram os profissionais de nível superior,
que trabalhavam na Política de Assistência Social no Estado de Alagoas. A proposta de
conclusão de curso foi a construção de indicadores para serem utilizados nos serviços, a fim
de que os profissionais pudessem avaliar os impactos de sua atuação.

16

Aí um problema se apresentava: o curso era proposto e ministrado por professoras
com formação em Serviço Social que expressaram suas limitações em avaliar o trabalho final
a ser desenvolvido por psicólogos que participavam do curso. Este problema impulsionou a
mim e a outros psicólogos participantes do curso a buscarmos o apoio e a colaboração da
professora Auxiliadora, que nos surgia como referência para essa questão, na construção de
tais indicadores. Gentilmente atendidos pela professora, eu e mais um grupo de cerca de cinco
psicólogos conseguimos construir alguns indicadores e realizar o trabalho de conclusão do
curso, que uma vez apresentado, foi muito bem avaliado pela coordenação.
Neste mesmo ano, 2011, a professora Auxiliadora ministraria uma disciplina eletiva
no curso de Psicologia, denominada Práticas Discursivas. E assim nos convidou, a mim e aos
outros psicólogos que participaram do grupo de trabalho da construção de indicadores no
curso do NUTAS, a participar das aulas da disciplina enquanto modalidade de Curso de
Extensão da Universidade Federal de Alagoas. A este convite não hesitei em aceitar de
imediato. Foi desta forma que passei a me aproximar, aos poucos, do referencial teóricometodológico trabalhado pela professora-orientadora, a saber, o construcionismo social e as
Práticas Discursivas e Produção de Sentidos. Após esses contatos com tais referenciais, foi
possível reconhecer, que esses paradigmas epistemológicos e teórico-metodológicos muito se
aproximavam da minha concepção de mundo.
No ano seguinte à realização do curso de extensão, 2012, tomei conhecimento de que
o Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFAL, recém-criado, ofertava em uma de
suas linhas de pesquisa do Mestrado em Psicologia, um grupo de pesquisa aberto à
participação de convidados. Tratava-se do Grupo de Pesquisa em Psicologia Discursiva, cuja
proposta era a discussão teórico-metodológica das práticas discursivas e produção de sentidos
e do construcionismo social.
Ainda imbuído das discussões de que pude participar no ano anterior sobre tal
concepção teórico-metodológica, solicitei aos professores coordenadores do grupo de
pesquisa, através de um colega que cursava o mestrado na época, autorização para participar
deste grupo. Para minha grata surpresa e alegria fui aceito no grupo, coordenado até hoje
pelos professores Jefferson Bernardes e Maria Auxiliadora, hoje minha orientadora do
mestrado. Assim, pouco tempo depois decidi aliar a aproximação adquirida com o referencial
teórico-metodológico ao interesse em pesquisar a atuação profissional na política de
Assistência Social.
Após um ano de participação no grupo de pesquisa, não foi difícil decidir pelo
próximo passo a ser dado: participar da seleção do mestrado, em 2013, e propor a discussão

17

da prática do psicólogo na Assistência Social. Difícil foi lidar com o insucesso da reprovação
nesse processo seletivo. Reprovação esta que não foi suficiente para me fazer abandonar o
desejo de pesquisar, num nível de mestrado, a atuação profissional na política de Assistência
Social. Assim, em 2014, numa segunda tentativa de ingresso no mestrado em Psicologia da
UFAL, logrei êxito. E este foi/é o começo desta conversa!

18

INTRODUÇÃO

Com um passado marcado por características como o assistencialismo, a caridade, o
favor e a ajuda, a Assistência Social vai se configurando como política pública, a partir de
marcos legais e históricos, a exemplo da Constituição Federal de 1988 e da Lei Orgânica da
Assistência Social, de 1993. Ganha contornos mais robustos enquanto política pública de
dever do Estado e de direito dos cidadãos, sobretudo os que dela necessitarem, a partir da IV
Conferência Nacional de Assistência Social, em 2003, que delibera pela implantação, em
2004, da Política Nacional de Assistência Social.
Com o objetivo de promover a proteção social das pessoas, a Política de Assistência
Social organiza-se através de um sistema descentralizado e de comando único, o Sistema
Único de Assistência Social (SUAS), em dois modelos de Proteção Social: a Proteção Social
Básica (PSB) e a Proteção Social Especial (PSE), sendo esta subdividida em Média
Complexidade e Alta Complexidade. Nos dois modelos de proteção encontram-se diversos
serviços e equipes profissionais responsáveis por executar a política socioassistencial com
vistas à proteção social e à garantia de direitos sociais.
A presença da Psicologia nos serviços desta política pública, analisada sob a ótica de
dispositivos legais, se dá em 2005, com a publicação da Norma Operacional Básica de
Recursos Humanos do Sistema Único de Assistência Social (NOB-RH/SUAS), documento
que coloca o profissional de Psicologia como integrante preferencial das equipes de
referência dos serviços da Assistência Social. E só em 2011 o Conselho Nacional de
Assistência Social (CNAS), através da Resolução nº 17 (Resolução CNAS nº 17/2011),
configura como obrigatória a presença deste profissional em tais equipes de referência.
Antes, porém, da configuração obrigatória do psicólogo no SUAS (Resolução
nº17/2011 do CNAS) já se tinha a participação deste profissional nos mais diversos serviços
do Sistema, a exemplo dos Centros de Referência da Assistência Social. Os trabalhos de
Fontenele (2008), Botarelli (2008), Cruz (2009), Yamamoto; Oliveira (2010), Costa; Cardoso
(2010), Barreto (2011), Dantas; Solon; Amorim (2011) já apontavam a presença da Psicologia
na Proteção Social Básica e os desafios da atuação da Psicologia neste lugar.
Diante deste cenário, que envolve a Assistência Social como uma política
relativamente nova (se comparada a outras políticas públicas como, por exemplo, Saúde e
Educação) e a presença e prática da Psicologia como ciência e profissão nesta política, se dá
minha inserção enquanto trabalhador do SUAS no município de Maceió. Mais precisamente
em 2008 ingressei no quadro de pessoal da Secretaria Municipal de Assistência Social

19

(SEMAS), convocado juntamente com outros psicólogos e psicólogas que constavam na
reserva técnica de um concurso público realizado para a Secretaria de Saúde em anos
anteriores.
O nosso ingresso nesta nova política, enquanto profissionais de Psicologia, gerou certo
descontentamento em alguns. Esperançosos de serem convocados para trabalhar na política
para a qual prestaram concurso (Saúde) muitos diziam que ‘caíram de paraquedas no SUAS’.
E essa conversa, em especial, essa fala recorrente, de cair de paraquedas nos espaços de
trabalho do SUAS, tornou-se um dos fatores motivadores desta pesquisa.
Assim, a pesquisa é realizada com a colaboração de psicólogas e assistentes sociais
que trabalham na política pública de Assistência Social em Maceió-AL, tendo como objetivo
principal, compreender as vicissitudes da atuação de sua atuação na Proteção Social Básica.
Para alcançar esse objetivo, esta dissertação é apresentada em cinco capítulos. O
primeiro traz uma breve explanação sobre a configuração da Política Nacional de Assistência
Social no Brasil, enfocando seus modelos de proteção social. Apresenta alguns recortes
históricos, situando a assistência social em Maceió.
O segundo, proporciona um diálogo com a literatura, fazendo uma análise das
produções acadêmicas sobre a Psicologia no CRAS no período de 2005 a 2015, acessadas nos
bancos de dados eletrônicos da CAPES e da Biblioteca Virtual em Saúde – BVS.
O terceiro, discute os pressupostos dos referenciais teórico-metodológicos do
construcionismo social e das Práticas Discursivas e Produção de Sentidos, que embasam os
caminhos percorridos para o desenrolar da pesquisa e as reflexões dos diálogos produzidos.
O quarto, apresenta o conceito de ação conjunta, norteador do diálogo com psicólogas
e assistentes sociais que trabalham em CRAS em Maceió-Alagoas, durante uma oficina,
visibilizando suas etapas, que também se configuram como uma ação conjunta. A discussão é
realizada, articulando os enunciados produzidos com os repertórios presentes na literatura.
O quinto, finaliza com reflexões que retomam o início das conversas sobre o objetivo
proposto e sinaliza para caminhos futuros.

20

1. CONVERSAS SOBRE A ASSISTÊNCIA SOCIAL ENQUANTO POLÍTICA
PÚBLICA.

A Assistência Social no Brasil passou por transformações importantes até ser
consolidada como política pública que se deram, sobretudo, na concepção da assistência
enquanto direito, migrando de uma concepção inicial de favor, de bondade, de benemerência
para uma concepção de dever do Estado e direito de todos, ao menos de todos aqueles que
dela precisarem. Iniciaremos com esse resgate histórico para trazer, posteriormente, alguns
fatos ocorridos no município de Maceió, local de realização desta pesquisa e em seguida,
apresentar a configuração dos Centros de Referência de Assistência Social de Maceió, em
alguns dos quais trabalham este pesquisador e as profissionais colaboradoras desta pesquisa.

1.1. A Política de Assistência Social no Brasil.

Falar em assistência certamente pode remeter, pelo próprio uso cotidiano do termo, a
questões como ajuda, caridade, colaboração, apoio. Esses sentidos usuais do termo não são
por acaso. Como afirma Sposati (2010, p. 40) “A assistência ao outro é prática antiga na
humanidade [...] Ao longo do tempo grupos filantrópicos e religiosos foram conformando
práticas de ajuda e apoio”. Desta forma, ao se falar em assistência, pensava-se normalmente
na ajuda que se oferecia a alguém que dela necessitava para vencer dificuldades como
doenças, incapacidades e pobreza, como trata a autora citada. Daí, diante de possíveis
dificuldades vivenciadas por pessoas e grupos, era necessário que estes recebessem ajuda para
que pudessem superá-las.
Uma grande questão aqui é que tais ações traziam (e trazem) consigo uma
compreensão de que há os que sempre necessitam de ajuda, visto que não têm condições de
reverter sua condição desfavorável perante a sociedade. Assim, a configuração deste sentido
de assistência esteve presente ao longo da humanidade, sobretudo na civilização judaicocristã, na qual “a ajuda toma a expressão de caridade e benemerência ao próximo, como força
moral de conduta” (SPOSATI, 2010, p. 40).
Essa configuração possibilita compreender a constituição das ações de assistência
social no Brasil e, posteriormente, a formulação da assistência social enquanto política
pública, que, por certo, não vai abrir mão de seus antecedentes históricos de caridade, de
ajuda, de filantropia.

21

A caridade era, portanto, um princípio religioso a ser seguido, sobretudo para se
conseguir a salvação e o paraíso eterno. Aos poucos, ao longo da história e a partir de algumas
lutas sociais, a assistência social vai adquirindo um caráter estatal. Como exemplo, temos as
conquistas no âmbito trabalhista do governo Getúlio Vargas, introduzidas pela Constituição
de 1934. Neste mesmo período tem-se a criação do Conselho Nacional de Serviço Social –
CNSS, em 1938, que foi “a primeira regulamentação da assistência social do país” (CRUZ;
GUARESCHI, 2012, p.22). Tal Conselho, composto por representantes do governo e por
estudiosos da área social, tinha como função desenvolver estudos e propor programas sobre
problemas sociais do país.
Em 1942, ainda na era Vargas, em pleno Estado Novo, (compreendido entre 1930 e
1945), considerado um dos maiores momentos históricos de “transformações institucionais e
de produção de legislação social” (PASSONE; PEREZ, 2013, p. 616), é criada, por Darcy
Vargas, a Fundação Legião Brasileira de Assistência – LBA, que passa a compor o então
Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social – SINPAS (SPOSATI, 2010, P. 87).
A LBA tinha como função principal prestar assistência a soldados recrutados para a
guerra, bem como às suas famílias, tendo como premissa básica, a ação social enquanto um
ato de “boa vontade”. Passa a figurar aqui, como personagem principal, a primeira dama da
república, pois a ela era dado o poder e o compromisso social de presidir tal organização, o
que originou a expressão “primeiro-damismo”. A LBA voltava-se também para a assistência
aos mais necessitados, distribuindo leite e prestando auxílio às vítimas de calamidades, que
recebiam doações (alimentos, agasalhos etc.) como ajuda e ato de boa vontade prestados pela
instituição. Figurava, então, como uma instituição assistencialista e apoiadora do governo,
com ações pontuais, localizadas, de ajuda e favor aos mais necessitados (CRUZ;
GUARESCHI, 2012).
A partir dos anos de 1960, em pleno regime militar, eclode no Brasil o aumento da
pobreza e uma grande preocupação para o Estado-Maior, que visa implementar seu programa
de governo em busca do “milagre brasileiro”, que era o lema do governo da época. Na década
seguinte, com o advento da Nova República, discute-se fervorosamente o desemprego, a má
distribuição de renda e a garantia dos direitos humanos e sociais (CRUZ; GUARESCHI,
2012).
Tal discussão toma mais corpo nos anos de 1980, com o envolvimento, neste debate,
de lideranças comunitárias, líderes religiosos, educadores, movimentos e instituições de
defesa da criança e do adolescente. Nesse contexto é criado o Fórum Nacional de Defesa dos
Direitos da Criança e do Adolescente, que teria um papel importante na inclusão de questões

22

ligadas à defesa da criança e do adolescente na futura Constituição Federal de 1988 (CRUZ;
GUARESCHI, 2012).
Imbuído pelo sentimento de liberdade e de luta por direitos, no início dos anos 80, o
país viu-se numa grande mobilização nacional pelo estabelecimento de um estado
democrático. Surge aí um importante movimento popular pelo estabelecimento de eleições
diretas para presidente da república, o movimento pelas “Diretas Já”. Tratava-se, segundo
Yamamoto e Oliveira (2010), do início de uma transição do ciclo autocrático-burguês para
democracia, fortemente marcada pela mobilização popular.
Com raízes numa emenda parlamentar denominada “emenda Dante de Oliveira”, do
então deputado federal de mesmo nome, o movimento das Diretas Já tomou grandes
proporções entre a população, ganhou repercussão nacional e foi um marco na luta pela
redemocratização do país. Trazia, pois, como bandeira de luta, o direito a eleições diretas, ou
seja, defendia que o Brasil fosse governado por presidente eleito pelo povo, a partir do voto
direto, e assim foi antecessor ao período conhecido como Nova República, que se inicia em
1985 (YAMAMOTO; OLIVEIRA, 2010).
O movimento das Diretas Já teve a adesão de personalidades tidas como públicas,
como cantores, artistas, locutores, apresentadores de TV, etc., que utilizavam de suas notórias
lideranças e imagens públicas para compor palanques de comícios e manifestações sobre o
tema. Foram dezenas de manifestações, Brasil afora, que congregavam um número cada vez
maior de pessoas, milhares delas, num movimento que se tornou nacional pelas reformas
políticas e sociais do país1.
As décadas de 1980 e 1990 foram cenários de grandes lutas e de algumas conquistas e
reformas sociais, mas com avanços ainda limitados, se comparados às lutas empreendidas.
Dentre os avanços, pode-se destacar, no campo da saúde, o movimento pela reforma sanitária
e a VIII Conferência Nacional de Saúde, em 1986, que delibera como proposta principal a
criação de um sistema descentralizado e único para a saúde, o que é materializado em 1987
com a criação do Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde – SUDS. Em seguida,
depois de muitos problemas relativos à criação do novo sistema, é implementado o Sistema
Único de Saúde – SUS, em setembro de 1990, o qual, passando por aperfeiçoamentos, ajustes
e adequações, encontra-se em vigor atualmente (YAMAMOTO; OLIVEIRA, 2010, p. 13 e
14).

1

Informações em vídeos-documentários, disponíveis nos endereços:

<https://www.youtube.com/watch?v=sOVXCvrM3sc> e <https://www.youtube.com/watch?v=jMe7KqlJG5k>

23

Embora a Assistência Social tenha sido incluída na constituição de 1988, como uma
política pública de direito de todos e de dever do Estado, apenas em 1993 foi regulamentada
com a Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS (PASSONE; PEREZ, 2013, p. 618). E
apenas dez anos mais tarde, com a realização da IV Conferência Nacional de Assistência
Social, em 2003, é deliberada a implantação do Sistema Único de Assistência Social,
entendendo, que, assim como a saúde, a assistência social necessitaria de um sistema
organizado e descentralizado que materializasse os anseios e as necessidades sociais da
população em ações de uma assistência social enquanto política pública. E em 2004, é criada
a Política Nacional de Assistência Social – PNAS, em vigor até os dias de hoje (BRASIL
2004, p. 11).
A assistência social, enquanto política pública, finca suas bases, em parte, na
concepção de um Estado de bem-estar social, o chamado Welfare State, que teve início em
países da Europa após a crise econômica de 1929, em que “...todo o indivíduo tem direito à
educação, assistência médica gratuita, auxílio no desemprego, garantia de uma renda mínima
e recursos adicionais para a criação dos filhos” (CRUZ; GUARESCHI, 2012, p.15). Assume
seu caráter de mediadora das relações entre Estado e sociedade, trazendo para o cenário social
discussões sobre capital, emprego, desemprego, trabalho e renda, entre outros. Nesse sentido,
pretende-se ser de direito de todos e de dever do Estado, pois assim está posto no documento
magno que a cria, a Constituição Federal de 1988. E assim, enquanto direito de todos, assume
caráter de universalidade.
Outrora delineada por ações pontuais de cunho assistencialista e/ou descontinuado,
traz a partir daí (2004) uma concepção nova da assistência social, agora enquanto política
pública, passando, desde então, a compor o chamado tripé da Seguridade Social Brasileira,
juntamente com as políticas de Saúde e de Previdência Social. Tem caráter não contributivo,
ou seja, não é necessário que o cidadão pague qualquer tipo de taxa ou contribuição para fazer
uso de seus benefícios, projetos e programas. É voltada fundamentalmente para a garantia de
direitos sociais e de algumas seguranças no âmbito da Proteção Social. Dentre elas, a
segurança de acolhida; de rendimento e autonomia e do convívio familiar e comunitário
(BRASIL 2004).
Para trabalhar nessa perspectiva de seguranças na proteção social, a PNAS vai definir
dois modelos de proteção social: a Proteção Social Básica e a Proteção Social Especial. É na
Proteção Social Básica, que este estudo se centraliza, na qual a segurança do convívio familiar
e comunitário é trabalhada através de unidades de atendimentos que são consideradas como

24

portas de entrada da Política de Assistência Social, os Centros de Referência da Assistência
Social – CRAS (BRASIL 2004, p. 33-36).
A proposta de atuação nos CRAS articula-se em torno da ideia de prevenção de riscos
sociais às famílias. A intervenção dos profissionais visa o fortalecimento dos vínculos
familiares e comunitários no sentido de prevenir a ocorrência de riscos sociais (BRASIL,
2009, p. 10). O trabalho desenvolvido pela equipe do CRAS deve se pautar prioritariamente
através do Trabalho Social com Famílias, compreendido no âmbito da política de assistência
social como sendo um:
Conjunto de procedimentos efetuados a partir de pressupostos éticos, conhecimento
teórico-metodológico e técnico-operativo, com a finalidade de contribuir para a
convivência, reconhecimento de direitos e possibilidades de intervenção na vida
social de um conjunto de pessoas, unidas por laços consanguíneos, afetivos e/ou de
solidariedade [...] (BRASIL, 2012, p. 12).

Trata-se, pois, de uma modalidade de serviço continuado em que se busca o
acompanhamento de famílias através de um rol de ações como visitas domiciliares,
atendimentos destas famílias no CRAS, inserção em outros serviços realizados na unidade,
encaminhamento para outros serviços dentro da Política de Assistência Social, bem como para
outras políticas, construção de oficinas com famílias e construção de planos de
acompanhamento familiar em conjunto com as próprias famílias (BRASIL, 2012, p. 12).
Os CRAS devem ser instalados nas comunidades, de forma a facilitar o acesso das
pessoas que deles necessitam e devem priorizar “territórios com maior concentração de
famílias com renda per capita mensal de até ½ salário mínimo” (BRASIL, 2009, p. 34), pois
que a condição de vulnerabilidade pode ser agravada pela baixa renda ou, e sobretudo, pela
ausência dela.
Assim, a instalação do CRAS deve ter como foco, ainda, comunidades consideradas
de maior vulnerabilidade social, ou seja, que tenham índices de violência acentuados, muitas
famílias participantes/dependentes de programas sociais governamentais e/ou com perfis para
tais e com escasso ou nulo acesso a direitos sociais.
Uma vez instalado o CRAS, de acordo com as orientações técnicas para o seu
funcionamento (BRASIL, 2009, p. 26-33) sua equipe deve conhecer seu território de
abrangência e articular ações com instituições, públicas ou não, que fazem parte deste mesmo
território, além de se fazer necessário conhecer os modos de viver e de funcionar das
pessoas/famílias/comunidades daquele território.
A Proteção Social Especial, por outro lado, atua quando a prevenção não logrou êxito
e o dano se instalou na família e/ou em algum de seus membros, assim:

25

é a modalidade de atendimento assistencial destinada a famílias e indivíduos que se
encontram em situação de risco pessoal e social, por ocorrência de abandono, maus
tratos físicos e, ou, psíquicos, abuso sexual, uso de substâncias psicoativas,
cumprimento de medidas socioeducativas, situação de rua, situação de trabalho
infantil, entre outras (BRASIL, 2004, p. 37).

Nesse sentido, visa o trabalho com famílias que sofreram ações como abandono,
uso/abuso de drogas por algum de seus membros, violência familiar, discriminação por
questões diversas etc. É realizado também, um trabalho de acompanhamento familiar por uma
equipe de profissionais, porém considerado de nível mais complexo. Daí necessitar de uma
atenção especial ou especializada, que é desenvolvida pelos Centros de Referência
Especializados de Assistência Social (CREAS).
As equipes dos CREAS devem desenvolver, também, trabalhos articulados com outras
instituições do território, no intuito de minimizar danos causados às famílias que enfrentam
situações de violações de direito. Destaca-se aqui a necessidade do trabalho articulado com o
chamado Sistema de Garantia de Direitos, por exemplo, o Poder Judiciário e o Ministério
Público, sobretudo no acompanhamento de adolescentes em conflitos com a lei, bem como de
suas famílias (BRASIL, 2004).
Há ainda outros serviços disponíveis no âmbito da Proteção Social Especial da Política
de Assistência Social, como por exemplo, abrigos, albergues (ou instituições de curta
permanência), casas de passagem, casas de adoção, projetos e programas diversos.
Os três entes federativos (União, Estados e Municípios, incluindo o Distrito Federal)
são corresponsáveis pelo funcionamento dos mais diversos serviços socioassistenciais, como
os citados acima. E para a sua efetivação, necessita de profissionais que desenvolvam seus
trabalhos em tais serviços, voltados para comunidades, grupos etários e étnicos, em suma,
para famílias que vivem em situação de vulnerabilidade social decorrentes da falta de renda e
da falta de acesso a serviços públicos básicos. Desta forma, a própria PNAS, através de sua
Norma Operacional Básica de Recursos Humanos – NOB RH – define os assistentes sociais e
psicólogos como os profissionais de nível superior de composição obrigatória de seus
serviços, além de outros profissionais da área social, a depender da demanda (BRASIL, 2006,
p. 23).
Vê-se então que a Psicologia e o Serviço Social estão institucionalmente inseridos na
Política de Assistência Social, configurando-se como áreas de saber que têm muito a
contribuir como o desenvolvimento desta Política, e que, portanto, precisam dialogar
constantemente, desde o planejamento de instalação de equipamentos sociais até a execução
dos serviços e o dia-a-dia de atendimento e acompanhamento de pessoas e famílias.

26

1.2. A Política de Assistência Social em Maceió: recortes históricos.

A assistência social, a exemplo de outras políticas públicas, precisa ser executada no
âmbito municipal, cabendo ao Estado o monitoramento e a avaliação de suas ações, a partir de
princípios gerais e organizativos delineados no âmbito federal, de forma que os três entes
federativos (município, estado e união) devem assumir suas corresponsabilidades na
construção desta política social. Considerando, pois, a história recente da política de
assistência social no Brasil, uma vez que sua implantação como política pública se deu em
2004 e apenas em 2005 foram criadas as unidades portas de entrada da assistência social
(CRAS e CREAS), é possível pensar nas dificuldades encontradas para a consolidação de tal
política e para a criação de serviços e de equipes de trabalho Brasil afora.
A criação de um novo serviço traz, em si, a necessidade de formulações e
reformulações de posicionamentos teóricos, concepções de organização do trabalho e das
equipes de trabalho, criação de fluxos, normas, protocolos e afins. O que dizer então da
criação de uma nova política social? Um enorme desafio, como um mínimo a se pensar.
Em Alagoas, e mais especificamente em Maceió, isso não foi diferente. O município
estava, a partir de 2005, com o desafio e a obrigatoriedade de implantar serviços, programas e
projetos à luz da nova Política de Assistência Social e, ainda, de compor equipes de trabalho
para funcionamento dos serviços. E aqui eis uma questão central enquanto recorte histórico da
implementação da política de Assistência Social em Maceió: a desabilitação do município.
Em virtude de constatadas inconformidades na execução da Política de Assistência
Social no âmbito municipal, Maceió passava por uma espécie de crise na gestão municipal de
tal política, de forma que, em setembro de 2007, o governo federal bloqueou o envio de
recursos financeiros para Maceió. Foi a chamada “desabilitação” do município, referente ao
recebimento de recursos destinados aos serviços municipais da Assistência Social.
Diante de tal situação, cabia agora ao município arcar sozinho com o custeio de todos
os serviços, sem a contrapartida financeira do governo federal, até que ele se adequasse às
exigências legais da Política. Uma delas, necessária à reabilitação do município, era a
realização de concurso público para a convocação de profissionais efetivos, a fim de que
compusessem o quadro de pessoal da Secretaria Municipal de Assistência Social de Maceió
(SEMAS).
Essa necessidade se justificava uma vez que a nova PNAS (2004) trouxe logo depois
de sua implantação uma normativa, a Norma Operacional Básica de Recursos Humanos do
Sistema Único de Assistência Social – NOB-RH/SUAS (2006), que orientava/orienta, entre

27

outras questões operacionais, a composição das equipes de trabalho com profissionais
efetivos, convocados a partir de aprovação em concurso público, buscando assim garantir a
continuidade dos serviços independentemente da mudança de gestão municipal.
Um fato específico e relevante nesse contexto, é que havia sido realizado concurso
público para as áreas de Saúde, em 2004, e de Educação, em 2006, e em ambos havia uma
quantidade de psicólogos e assistentes sociais na chamada reserva técnica, ou seja,
profissionais que foram aprovados, porém não foram classificados no quantitativo de vagas
para as respectivas secretarias (de Saúde e de Educação). Havia uma expectativa desses
profissionais, de que seriam convocados em 2007 e 2008, para trabalharem nas áreas dos
concursos públicos prestados.
Entretanto, o município convocou psicólogos e assistentes sociais da reserva técnica
dos concursos da Saúde e da Educação, para atuarem na Assistência Social de Maceió e
assim, atendia à exigência legal da PNAS, bem como a um Termo de Ajuste de Conduta
(TAC) firmado entre o Município de Maceió e o Ministério Público Estadual daquela época.
Esta medida tornou-se a mais viável para o município, por ser mais rápida, visto que
não necessitaria de todos os trâmites para a realização de um novo concurso público, para
atender à exigência da NOB-RH SUAS e indispensável para que o município pudesse voltar a
receber recursos federais.
Deste modo, no início de 2008, vários psicólogos foram convocados para trabalhar em
diversos serviços da Secretaria de Assistência Social de Maceió, quer para substituir
profissionais de contrato temporário, quer para completar as equipes juntamente com
profissionais contratados, ou ainda para atuar em serviços que ainda não tinham a figura do
profissional de Psicologia.
Assim, os CRAS, naquela época com seis unidades distribuídas em cinco bairros de
Maceió, foram contemplados com sete psicólogos, que chegaram para compor as equipes e
trabalhar juntamente com os profissionais do Serviço Social.
Naquele momento, todas as unidades de CRAS eram coordenadas por assistentes
sociais, que já compunham o quadro de pessoal da SEMAS ou que foram
convocadas/nomeadas da reserva técnica do concurso da Educação. Formaram-se, dessa
forma, novas equipes, que se depararam com demandas de serviços junto às comunidades
atendidas e, também, com uma demanda particular do município - a necessidade de sua
reabilitação para voltar a receber recursos financeiros do governo federal.
Essa reconquista ocorreu em dezembro de 2009, motivo de festa para a gestão
municipal, com direito a show de banda de forró e almoço coletivo para todos os funcionários

28

da SEMAS, em comemoração a tal feito. Cabia agora aos serviços, coordenações, diretorias,
enfim, reunirem suas equipes, e, em meio à rotina de trabalho, realizarem seus planejamentos
para os próximos meses e anos.

1.3. Mapeamento da configuração dos CRAS em Maceió.

O CRAS é uma unidade pública estatal considerada como porta de entrada da Política
de Assistência Social. Seus serviços são executados no âmbito municipal, sendo este ente
federativo o responsável por sua instalação, manutenção e contratação dos profissionais que
nele trabalharão. Seguindo então um comando nacional único, através do SUAS, é
monitorado pelo Estado (unidade da federação), que também tem a função de proporcionar
capacitação permanente aos seus profissionais. Tem o planejamento e execução de seus
serviços desenvolvidos a partir de demandas e especificidades do seu território de localização.
O município de Maceió tem uma população estimada em 1.013.773 habitantes,
segundo

informações

constantes

no

site

do

IBGE

(http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=270430&search=alagoas|maceio)3,
distribuídos

em

seus

50

bairros

(http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/territorio/tabunitsub.asp?codunit=6205&nsub=102&z=t&o=4&i=P )
4

Deste total, 14 bairros abrigam 15 unidades de CRAS, sendo que 5 destes CRAS
foram instalados entre 2014 e 2015, demonstrando um aumento significativo em sua
quantidade nesses últimos dois anos. A tabela abaixo ilustra esta configuração:
Tabela 1 - Relação dos CRAS de Maceió (junho/ 2016)
NOME DO CRAS
BAIRRO EM QUE SE
MÊS/ANO DE
LOCALIZA

2

01 Área Lagunar

Prado

Maio/15

02 Bebedouro

Bebedouro

Fevereiro/10

03 Bela Vista

São Jorge

Maio/14

04 Bom Parto

Bom Parto

Janeiro/14

05 Cacilda Sampaio

Vergel do Lago

Janeiro/04

06 Cidade Sorriso

Benedito Bentes

Fevereiro/10

Consultado em junho/2016
Consultado em junho/2016
4
Idem
3

CRIAÇÃO

29

07 Clima Bom

Clima Bom

Janeiro/14

08 Denisson Menezes

Cidade Universitária

Outubro/05

09 Dom Adelmo Machado

Prado

Outubro/04

10 Fernão Velho

Fernão Velho

Outubro/12

11 Pitanguinha

Pitanguinha

Abril/05

12 Santos Dumont

Santos Dumont

Março/10

13 Selma Bandeira

Benedito Bentes

Maio/15

14 Sônia Sampaio

Jacintinho

Janeiro/05

15 Terezinha Normande

Jacintinho

Janeiro/05

Fonte: Coordenação Geral dos CRAS de Maceió

Todos as unidades de CRAS de Maceió executam o Serviço de Proteção e
Atendimento Integral à Família – PAIF, que é, segundo orientação da própria PNAS, o
principal serviço a ser desenvolvido pelo CRAS.
O PAIF é um serviço de caráter continuado, desenvolvido pela equipe de nível
superior do CRAS (assistentes sociais e psicólogos/psicólogas) que consiste no
acompanhamento, através desta equipe, de famílias que moram no território de abrangência
do CRAS e que vivem situações de vulnerabilidades “que extrapolam a dimensão econômica,
exigindo intervenções que trabalhem aspectos objetivos e subjetivos relacionados à função
protetiva da família e ao direito à convivência familiar” (BRASIL, 2012, p. 8).
Por ser um serviço de acompanhamento de famílias, o PAIF exige de quem o
operacionaliza, ou seja, dos profissionais de Psicologia e de Serviço Social, o conhecimento
do território de abrangência do CRAS, da comunidade atendida e o estabelecimento de
vínculos com as famílias desta comunidade. Mais além, aponta para que este profissionais
tenham conhecimento e articulação com a rede de serviços do território (escolas, unidades de
saúde, serviços socioassistenciais locais, entre outros) que permitam encaminhamentos de
usuários e o desenvolvimento de ações conjuntas dos serviços.
Conceitualmente o PAIF é definido, pela Tipificação Nacional de Serviços
Socioassistenciais, como
trabalho social com famílias, de caráter continuado, com a finalidade de fortalecer a
função protetiva das famílias, prevenir a ruptura de seus vínculos, promover seu
acesso e usufruto de direitos e contribuir na melhoria de sua qualidade de vida
(CNAS, 2009).

A proposta de trabalhar a função protetiva da família, conforme especificado no trecho
acima, está amparada em um eixo estruturante do CRAS denominado ‘matricialidade

30

sociofamiliar’, que baliza as atividades da equipe do PAIF. Tal matricialidade refere-se à
“centralidade na família como núcleo social fundamental para a efetividade de todas as ações
e serviços da política de assistência social” (BRASIL, 2009, p. 12). A efetividade destas
ações, citadas pelo documento de orientações do CRAS, passa também pela efetividade do
trabalho conjunto de assistentes sociais e psicólogos, tema que discutirei no capítulo 4.

31

2. PSICOLOGIA E/NO CRAS: DIÁLOGO COM A LITERATURA.

O diálogo com a literatura tem o intuito de acessar os estudos publicados acerca da
Psicologia na Política de Assistência Social e poder balizar reflexões sobre as práticas
psicológicas no contexto da Proteção Social Básica.

2.1. A busca por publicações referentes à Psicologia na Assistência Social.

Utilizei duas bases de dados como fontes de pesquisa: o portal de periódicos da
Coordenação

de

Aperfeiçoamento

de

Pessoal

de

Nível

Superior

–

CAPES

(http://www.periodicos.capes.gov.br/) e o portal da Biblioteca Virtual em Saúde – BVS
(http://www.bvsalud.org).
A escolha de pesquisa em base de dados se justifica porque estas “... permitem o
acesso a materiais produzidos em espaços e tempos distintos daquele em que se encontra o
pesquisador” (RIBEIRO; MARTINS; LIMA, 2015, p. 63) e a seleção das duas bases de dados
definidas para tal pesquisa se deu por se tratarem de notória referência de pesquisa científica
no meio acadêmico brasileiro.
A pesquisa que realizei nas referidas bases de dados constou de dois momentos
distintos. O primeiro momento se deu em fevereiro/março de 2015, por ocasião do Seminário
de avaliação do meu projeto de pesquisa. Naquela ocasião delimitei o período de 2004 a 2014
como espaço temporal para realização deste levantamento de publicações, considerando o ano
2004 como ponto de partida, visto que neste ano é publicada a Política Nacional de
Assistência Social. O segundo momento, a fim de atualização, ocorreu em maio de 2016.
Como dispunha de um levantamento prévio, realizado no ano anterior, busquei atualizar tais
informações e, para tanto, delimitei o período de 2005 a 2015 como espaço temporal para o
levantamento de publicações. Considerei o mesmo intervalo de tempo (10 anos), delimitando
agora como ponto de partida o ano de 2005, visto que na pesquisa realizada anteriormente não
apareceu nenhuma publicação no ano de 2004. O ano de 2005 é também um marco legal, pois
neste ano se dá a criação do Sistema Único de Assistência Social, completando-se um ano do
lançamento da Política Nacional de Assistência Social – PNAS (BRASIL, 2009).
Nos dois momentos da pesquisa utilizei estratégias de busca. Para efeitos de discussão
deste trabalho, utilizarei as informações que obtive no segundo momento da pesquisa, por se
tratarem de informações mais atuais. A primeira estratégia de busca constou da utilização dos

32

descritores “psicologia” e “assistência social”. Na segunda, utilizei os descritores “psicologia”
e “CRAS”.
Para fins de pesquisa em meio eletrônico (como no portal da BVS) convém, antes de
fazê-la, pesquisar no portal DeCS (http://decs.bvs.br/) se o termo que se deseja utilizar é um
descritor reconhecido para a pesquisa, conforme ressaltam Ribeiro; Martins; Lima (2015).
Nesse sentido, conferi nesse portal, se os termos ‘psicologia’, ‘assistência social’ e ‘CRAS’ se
configuravam como descritores. O termo ‘psicologia’ e o termo ‘assistência social’
apareceram como descritores, ao contrário do termo ‘CRAS’. Ainda assim, utilizei os três
termos na busca e consegui resultado, para a obtenção de publicações.

2.1.1. A pesquisa no portal da CAPES.
Ao utilizar os descritores “Psicologia AND Assistência Social”, este portal mostrou
206 publicações relacionadas. Após ler todos os títulos e alguns resumos consegui identificar
que apenas 54 (cinquenta e quatro) publicações tratavam de assuntos referentes à Política de
Assistência Social. Em seguida, lendo todos os 54 resumos pude identificar que apenas 23
(vinte e três) destas publicações tratavam da Psicologia no CRAS, sendo 21 artigos, 1
dissertação e 1 tese.
Num segundo momento utilizei os descritores “Psicologia AND CRAS”. Obtive o
resultado de 36 (trinta e seis) publicações. Identifiquei, a partir dos títulos que 22 (vinte e
duas) delas se referiam à discussão de Psicologia na Assistência Social, independente do
serviço. Ao ler os resumos, identifiquei e selecionei 17 (dezessete) publicações sobre
Psicologia e/ou no CRAS, sendo 15 artigos e 2 dissertações.
Este momento da pesquisa pode ser retratado na seguinte tabela:

Tabela 2 - Publicações sobre Psicologia / Assistência Social / CRAS no portal da CAPES
(maio/2016)
DESCRITORES
PUBLICAÇÕES
FONTE
UTILIZADOS
ARTIGOS DISSERTAÇÕES
TESES
TOTAL
CAPES

“Psicologia AND
Assistência Social”

21

1

1

23

“Psicologia
CRAS”
TOTAL

15

02

00

17

21

02

01

24

AND

33

2.1.2. A pesquisa no portal da BVS.
Na BVS, pesquisei os descritores “Psicologia AND Assistência Social”, num primeiro
momento. Este portal, por apresentar uma configuração diferente do portal da CAPES, me fez
adotar uma metodologia de pesquisa com mais detalhes. Visto que este portal apresenta
diversas opções para filtragem de pesquisa, selecionei as publicações a partir das seguintes
categorias-filtro: ‘texto completo’, ‘base de dados nacionais’ e ‘assuntos principais’. Na
categoria ‘assuntos principais’ selecionei, dentre as inúmeras sub categorias possíveis,
algumas que considerei que me ajudariam a encontrar publicações relacionadas ao meu
objetivo de pesquisa. Foram elas: ‘psicologia’, ‘psicologia social’, ‘assistência social’,
‘psicólogos’, ‘políticas públicas’, ‘apoio social’, ‘política social’, ‘redes comunitárias’,
‘prática profissional’, ‘percepção social’, ‘atuação (psicologia)’, ‘vulnerabilidade social’,
‘pobreza’, ‘prática (psicologia)’, ‘serviços de assistência social’.
Realizados estes filtros, identifiquei um total de 93 publicações. Deste total, apenas 30
publicações tratavam sobre Psicologia na Assistência Social e, dentre estas, 13 traziam a
discussão da Psicologia e/no CRAS.
Em seguida pesquisei neste portal os descritores “Psicologia AND CRAS”, seguindo
assim as mesmas etapas que trilhei no portal da CAPES. Resultou de imediato 31 publicações,
sem que precisasse fazer alguns filtros como fiz no primeiro momento de pesquisa neste
portal. A partir dos títulos, identifiquei que, das 31 publicações, apenas 19 tratavam de
Assistência Social e Psicologia. E destas, 14 tratavam de Psicologia e CRAS. Dentre essas 14
publicações, 2 delas eram relatos de experiência de estágio e, portanto, não as considerei para
fins de consulta para esta pesquisa.
Por fim, o universo de publicações resultantes dessa busca no portal da BVS ficou
configurada conforme a tabela abaixo:

Tabela 3 - Publicações sobre Psicologia / Assistência Social / CRAS no portal da BVS
(maio/2016)
DESCRITORES
PUBLICAÇÕES
FONTE
UTILIZADOS
ARTIGOS DISSERTAÇÕES
TESES
TOTAL
BVS

“Psicologia AND
Assistência Social”
“Psicologia
CRAS”
TOTAL

AND

13

00

00

13

10

02

00

12

16

02

00

18

34

Observando-se tanto na tabela 3 quanto na tabela 2 percebe-se que na linha referente
ao total de publicações, as colunas de ‘artigos’ e ‘dissertações’, principalmente, e também a
coluna ‘total’ não têm como resultado a soma dos resultados parciais. E isto se dá em virtude
de que muitas publicações aparecem de forma repetida nos dois momentos de pesquisa
(utilizações de dois conjuntos de descritores).
As informações das duas tabelas anteriores foram agrupadas na tabela 4:

Tabela 4 - Publicações referentes à Psicologia e Assistência Social com foco sobre a Psicologia no
CRAS, no período 2005-2015
PUBLICAÇÕES
FONTE
ARTIGOS
DISSERTAÇÕES
TESES
TOTAL
CAPES
BVS
TOTAL

21
16
26

02
02
04

01
00
01

24
18
31

Concomitante à pesquisa nos bancos de dados (CAPES e BVS), tive acesso de outras
publicações sobre o tema. Acessei 3 teses de doutorado, sendo 2 delas identificadas na
consulta das referências de alguns artigos e uma encaminhada a mim, por uma colega
psicóloga que também trabalha no SUAS e estuda sobre a atuação do psicólogo na PNAS.
Adquiri também 3 livros que discutem a atuação da Psicologia na Assistência Social, que tive
conhecimento por ocasião do ingresso no mestrado.
Assim, levantadas as produções, totalizou 37 publicações sobre o tema, conforme
indicado na tabela a seguir.
Tabela 5 - Quantitativo de publicações sobre Psicologia / CRAS no período 2005-2015

TIPO DE PUBLICAÇÃO

QUANTIDADE

Artigos

26

Dissertações

04

Teses

04

Livros

03

TOTAL

37

No universo destas publicações fiz um recorte de algumas temáticas trazidas por elas,
que colaboram com o diálogo que apresento a seguir.

35

2.2. Que discussões apresentam a Psicologia na Assistência Social?

A partir da leitura dos resumos das publicações e de alguns textos completos foi
possível identificar alguns temas que se assemelhavam e agrupá-los em sub-temas, no intuito
de poder visualizar as discussões que circularam no período de 2008 até 2015.
Uma avaliação inicial do panorama de publicações construído, possibilita identificar,
com os descritores utilizados, que as publicações que discutem a Psicologia no SUAS, surgem
apenas, a partir de 2008. Lembrando que a Política de Assistência Social inicia em 2004 e o
ingresso formal do psicólogo acontece em 2005, com a criação do SUAS e, em 2006, há a
homologação da NOB-RH/SUAS.
Os temas identificados nas publicações apresentam algumas discussões que circulam
em vários momentos e por diversos autores, bem como apresentam mais de um tema na
mesma publicação. É inegável a importância de todos eles, entretanto diante da provável
impossibilidade de discutir todos, destaquei aqueles que mais se aproximam do objetivo desta
pesquisa e ordenei em função da frequência e recorrência de sua circulação. Dessa forma,
foram organizados os seguintes sub-temas: a) inserção/atuação do psicólogo na Proteção
Social Básica do SUAS e os desafios de um novo campo para o psicólogo; b) predomínio do
modelo clínico de atuação; c) necessidade de criação de novos conhecimentos e de novos
modos/modelos de atuação; d) lacunas e insuficiências na formação do psicólogo; e)
apresentação de referenciais teóricos e/ou metodológicos para atuação da Psicologia no
CRAS; f) cotidiano profissional e práticas de cuidado na Saúde e na Assistência Social, e g)
saberes e práticas construídas por psicólogos/as e assistentes sociais na PNAS e os desafios do
trabalho interdisciplinar.
A tabela 6, abaixo, contém as principais temáticas das publicações selecionadas e os
autores que as discutem organizadas em ordem cronológica, em cada tema.
Tabela 6 - Temas acessados em publicações científicas sobre a Psicologia no CRAS entre 2008 e
2015
TEMAS

AUTORES

1

INSERÇÃO/ATUAÇÃO
DO
PSICÓLOGO
NA
PROTEÇÃO
SOCIAL BÁSICA DO SUAS E
DESAFIOS DE UM NOVO CAMPO
PARA O PSICÓLOGO

2

PREDOMÍNIO
DO
MODELO
CLÍNICO
DE
ATUAÇÃO/INTERVENÇÃO
DO

Fontenele (2008) / Botarelli (2008) / Cruz (2009) /
Yamamoto; Oliveira (2010) / Costa; Cardoso (2010) /
Barreto (2011) / Dantas; Solon; Amorim (2011) /
Senra; Guzzo (2012) / Seixas; Yamamoto (2012) /
Mota; Scarparo (2013) / Oliveira et al. (2014) / Araújo
(2014).
Fontenele (2008) / Mota; Goto (2009) / Cruz (2009) /
Macedo; Dimenstein (2009) / Yamamoto; Oliveira
(2010) / Andrade; Romagnoli (2010) / Dantas; Solon;

36

PSICÓLOGO NOS CRAS

3

NECESSIDADE DE CRIAÇÃO DE
NOVOS CONHECIMENTOS, NOVOS
MODOS E MODELOS DE ATUAÇÃO.

4

FORMAÇÃO
DO
PSICÓLOGO
(LACUNAS, INSUFICIÊNCIA)

5

REFERENCIAIS TEÓRICOS E/OU
METODOLÓGICOS
PARA
ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NO
CRAS
COTIDIANO
PROFISSIONAL
E
CONCEPÇÕES E PRÁTICAS DE
CUIDADOS DE PSICÓLOGOS NA
SAÚDE E NA ASSISTÊNCIA SOCIAL
SABERES
E
PRÁTICAS
CONSTRUÍDAS POR ASSISTENTES
SOCIAIS E PSICÓLOGOS NA PNAS
E OS DESAFIOS DO TRABALHO
INTERDISCIPLINAR

6

7

Amorim (2011) / Seixas; Yamamoto (2012) / Sobral;
Lima (2013) / Oliveira et al (2014)
Macedo ; Dimenstein (2009) / Yamamoto ; Oliveira
(2010) / Andrade ; Romagnoli (2010) / Costa ; Cardoso
(2010) / Dantas; Solon; Amorim (2011) / Silva;
Corgozinho (2011) / Senra; Guzo (2012) / Seixas;
Yamamoto (2012) / Reis; Cabreira (2013)
Fontenele (2008) / Cruz (2009), Andrade ; Romagnoli
(2010) / Dantas; Solon; Amorim (2011) / Mota;
Scarparo (2013) / Reis; Cabreira (2013) / Araújo
(2014)
Fontenele (2008) / Botarelli (2008) / Ximenes; Paula ;
Barros (2009) / Silva; Corgozinho (2011) / Cruz;
Guareschi (2012) / Sobral; Lima (2013) / Pereira
(2013) / Santos (2014)
Macedo; Dimenstein (2009),
Macedo; Dimenstein (2012)

Nery (2009) / Cruz (2009) / Andrade; Romagnoli
(2010) / Rodrigues (2011) / Mota; Scarparo (2013)

A seguir discutirei os sub-temas elencados no quadro acima, fundamentado nas
publicações pesquisadas.

2.2.1. Inserção/atuação do psicólogo na PSB do SUAS e desafios de um novo campo
para o psicólogo.

O primeiro conjunto de publicações apresentada no quadro 5 refere-se às discussões
realizadas a partir de 2008 e que se mantiveram ao longo dos anos seguintes, sobre a inserção
do psicólogo na política de assistência social, abordando as dificuldades, os desafios, a
necessidade do manejo com questões sociais, problemas de difícil encaminhamento, enfim,
dificuldades de toda ordem num lócus de trabalho recente se considerarmos o tempo de
existência da PNAS, construída em 2004.
Uma das primeiras publicações identificadas sobre a atuação do psicólogo na política
de assistência social foi uma dissertação de mestrado (FONTENELE, 2008), que buscou
compreender a inserção da psicologia neste espaço, à luz de documentos oficiais da própria
política de assistência. Nessa pesquisa a autora utilizou um questionário digital com
psicólogos que trabalhavam em municípios do Ceará e teve como principal conclusão que a

37

inserção da Psicologia na Política de Assistência resulta do reconhecimento de que Psicologia
possui potenciais para alcançar os objetivos dessa política, porém sem a efetiva participação
dos psicólogos em sua formulação, cria uma dificuldade para eles se apropriarem dela.
No mesmo ano, Botarelli (2008), em sua tese de doutorado, realizou entrevistas e
observações com profissionais da área, analisou a inserção do psicólogo nas políticas de
proteção social, e, pelo caminho da Psicologia Social Crítica apresentou referências para sua
atuação na PNAS.
No ano seguinte, é realizada uma pesquisa descritiva exploratória, e, utilizando-se de
gráficos, tabelas e percentuais, Cruz (2009) aponta os desafios do psicólogo nessa política
social, como por exemplo, a necessidade de qualificação dos profissionais, a fim de direcionalos para práticas coletivas de intervenção.
A inserção da Psicologia nas políticas sociais num período de 25 anos (1985-2010) é
apresentada por Yamamoto (2010), que faz um traçado histórico, ressaltando especificamente
as políticas de saúde e de assistência social. Retrata a constituição social e política deste
período, o movimento pelas Diretas Já e a luta pela redemocratização do país, com destaque
para a Constituição Federal de 1988, a criação da Lei Orgânica da Assistência Social, a
criação da PNAS e do SUAS, até a atuação do psicólogo nesse contexto.
Reflexões acerca da atuação do psicólogo no SUAS são delineadas por Costa e
Cardoso (2010), entre elas, como um desafio, a necessidade de se criar referências específicas
para os psicólogos dessa área.
Questionamentos sobre a dinâmica do psicólogo nos serviços da assistência social e
alguns elementos norteadores do exercício profissional são apresentados por Barreto (2011).
Enquanto, Dantas; Solon; Amorim (2011) utilizaram entrevista semiestruturada, com 20
psicólogos de 17 CRAS, para analisarem a atuação do psicólogo no SUAS.
Numa perspectiva da Psicologia Crítica, uma análise da inserção da Psicologia na
Assistência Social, a partir da implementação do SUAS e da discussão de compromisso social
da Psicologia, é feita por Senra; Guzzo (2012) . As autoras afirmam que historicamente a
Psicologia como ciência e profissão manteve um distanciamento das questões sociais, em
favor das questões de natureza individual e apontam para a necessidade de práticas
comprometidas com a transformação social.
No intuito de investigar a inserção e atuação profissional do psicólogo no campo das
políticas sociais no Rio Grande do Norte, Seixas;Yamamoto (2012) aplicaram questionários
com 294 psicólogos. Identificaram, dentre outra questões, que os psicólogos do SUAS são os

38

que apresentam maior precarização no trabalho, e desenvolvem práticas conservadoras, sem
nenhum grau de novidade, caracteristicamente apolíticas e acríticas.
Entrevistando 15 psicólogos de 14 CRAS, a partir de um roteiro semiestruturado
Oliveira et al. (2014) fazem, a exemplo de Seixas; Yamamoto (2012), uma análise da atuação
do psicólogo nos CRAS do interior do Rio Grande do Norte, e discutem possibilidades e
limites de atuação profissional na PNAS.
Numa abordagem qualitativa, por meio de observação participante e de conversas
orientadas por um roteiro semiestruturado, através de um pressuposto teórico-metodológico
da Psicologia Social Crítica, Araújo (2014), em sua dissertação de mestrado, analisa a atuação
de 6 psicólogos em um CRAS da Grande São Paulo. Discute a possibilidade de
empreendimento de uma práxis efetiva e aponta que o trabalho da Psicologia no CRAS se
volta mais para a individualidade do que para a coletividade, o que vai na contramão do que
preconiza a política socioassistencial.

2.2.2. Predomínio do modelo clínico de atuação.

A presença do modelo clínico de atuação no espaço do CRAS é algo marcante. O
atendimento individual é carregado de um caráter clínico, pois grande parte dos profissionais
utiliza de atendimentos psicoterápicos cotidianamente no CRAS, fazendo parte do
funcionamento próprio do serviço. Em muitos casos os próprios profissionais afirmam que
realizam psicoterapia em grupo, familiar, com casal e individual (FONTENELE, 2008;
CRUZ, 2009).
Mesmo identificando, no trabalho de psicólogos no CRAS, tentativas de ruptura com
práticas estabelecidas, Macedo; Dimenstein (2009) percebem a presença do modelo clínico,
sob a forma de intervenção especializada do psicólogo, a partir de um tipo de saber técnico e
instrumental.
Essa discussão é referendada por outros autores como, Fontenele (2008) e Yamamoto;
Oliveira (2010), que também abordam o atendimento clínico como atividade cotidiana no
CRAS e afirmam que “mais uma vez, a clínica aparece como sinônimo de Psicologia”
(YAMAMOTO; OLIVEIRA, 2010, p.20).
Ao pesquisar as relações subjetivas entre psicólogos do CRAS, demais profissionais e
comunidade no interior de Minas Gerais e, mesmo afirmando que a vertente tradicional não se
sustenta no cotidiano do CRAS, Andrade; Romagnoli (2010, p.610) admitem que

39

“percebemos que nossa profissão é compreendida, em alguns momentos, como saber
realizado em um espaço fechado, no setting tradicional do campo psi”.
A atuação do psicólogo no SUAS é analisada por Dantas; Solon; Amorim (2011) e
afirmam que existe “...alguma modificação nos modelos tradicionais de trabalho que são
assumidos pelos psicólogos em seus diversos espaços de atuação” (DANTAS; SOLON;
AMORIM, 2011, p. 145). Contudo, também indicam a presença no CRAS do modelo clínico,
considerando que “o atendimento psicológico é o único diferenciador da função do psicólogo
e, ao mesmo tempo, lhe confere um ‘lugar’ na equipe” (DANTAS; SOLON; AMORIM,
2011, p. 146) e que assim tal atividade aparece como privativa do psicólogo, diferenciando-o
de outros profissionais.
No estudo realizado com psicólogos do Rio Grande do Norte (SEIXAS;
YAMAMOTO, 2012), verificou-se que grande parte dos psicólogos se valem da prática da
psicoterapia, mesmo estando em atuação nas políticas sociais, sendo o modelo médico-clínico
recorrente nestes espaços de atuação.
Em estudos realizados com 27 psicólogos que atuam em CRAS em Sergipe, bem
como com 20 usuários do serviço, Sobral; Lima (2013) investigaram as representações sociais
que os usuários têm dos psicólogos. E em tal estudo evidenciou-se que a representação social
do psicólogo ainda está vinculada à sua atuação na clínica, e afirma que “...a intervenção do
psicólogo tem se centrado na reprodução de um modelo clínico convencional...” (SOBRAL;
LIMA, 2013, p. 644).
Em um estudo sobe a atuação de psicólogos em CRAS do interior do Rio Grande do
Norte, Oliveira et al (2014) elencam várias atividades realizadas pelos psicólogos, e dentre
elas a atividade clínica caracterizada pelo “atendimento breve e focal, justificado o seu uso
pela dificuldade de encaminhamento” (OLIVEIRA et al., 2014, p. 109).
O discurso sobre o atendimento clínico psicoterápico desenvolvido nos CRAS tem
sido recorrente nas publicações desde 2008, perdurando até hoje, mesmo com todas as
orientações em contrário da PNAS, chamando a atenção a justificativa pelo seu uso, pela
necessidade de se diferenciar dos outros profissionais.

2.2.3. Necessidade de criação de novos conhecimentos e de novos modos/modelos de
atuação.

Essa categoria refere-se às publicações que trazem a discussão sobre a necessidade dos
psicólogos desenvolverem novos modos/modelos de atuação nos seus espaços de trabalho,

40

bem como da Psicologia criar e desenvolver novos conhecimentos com fulcro nesta área de
atuação.
Macedo; Dimenstein (2009), ao discutirem as concepções e práticas de cuidado de
psicólogos que atuam nas Unidades Básicas de Saúde – UBS (SUS) e nos CRAS (SUAS) e
Yamamoto; Oliveira (2010), ao fazerem um traçado histórico da inserção do psicólogo nas
políticas sociais, apontam como grande desafio a necessidade de criação de novos
conhecimentos, novos referenciais teóricos e técnicos, partindo dos já consolidados, mas
ultrapassando-os, para a atuação nas políticas sociais.
A intervenção psicológica para além do modelo tradicional também é defendida por
Andrade; Romagnoli (2010), em sua pesquisa com psicólogos do interior de Minas Gerais.
Costa; Cardoso (2010), ao apontarem desafios como a elaboração de referenciais teóricometodológicos capazes de responder às demandas da assistência social corroboram com
Dantas; Solon; Amorim (2011).
Nesse sentido, Silva; Corgozinho (2011), em uma pesquisa de caráter bibliográfico
sobre o psicólogo no CRAS, justifica-a pela recente inserção do psicólogo neste espaço, e
pelos poucos referenciais teórico-metodológicos específicos para atuação nesta área. Seixas;
Yamamoto (2012) chamam a atenção para a necessidade de o psicólogo refletir sobre a
possibilidade de elaboração de outros modelos e práticas.
Ainda sobre esse tema, Senra; Guzo (2012) apontam a necessidade de elaboração de
modelos de intervenção psicológica comprometidos com a transformação social:
A prática psicológica na Assistência Social encontra, assim, o desafio de ampliar o
debate entre os diversos atores da política dessa área e de investir na sistematização
das práticas que se comprometam com a transformação da realidade, e não com sua
manutenção (SENRA; GUZO, 2012. p. 295).

A reflexão sobre a necessidade de novos modelos de atuação do psicólogo atravessa a
discussão do predomínio do modelo clínico na atuação de profissionais de Psicologia, fazendo
a crítica de que este modelo não atende à necessidade dos serviços, sobretudo nas políticas
sociais.
Transpor o modelo tradicional de atendimento individual para o desenvolvimento de
práticas mais coletivas e que contribuam com a qualidade de vida das pessoas e com uma
transformação social, como afirma Senra; Guzo (op. cit), é um desafio posto. Ele se faz
presente também nos serviços da Proteção Social Básica da Assistência Social e remete a um
outro desafio recorrente, o da formação profissional.

41

2.2.4. Lacunas e insuficiências na formação do psicólogo.

Não há como falar de prática profissional sem pensar em algo que lhe antecede e que
é, inclusive, condição autorizativa para essa atuação, a formação.

Esta é outra questão

relevante e que vem sendo discutida de forma recorrente nas publicações aqui levantadas.
Alguns autores, a partir de suas pesquisas, concluem que a formação acadêmica do psicólogo
não é suficientemente capaz de prepará-lo para a atuação em políticas sociais, especificamente
na Política de Assistência Social. .
A formação acadêmica é tida pelos psicólogos pesquisados como “...carente de
referenciais diferentes dos tradicionais e que deem conta do trabalho em comunidades...”
(FONTENELE, 2008, p.6). E ainda sobre a formação profissional, a autora afirma:
Há sem dúvida a necessidade de ofertas de curso de formação, iniciando pela
graduação, que ponha à disposição da sociedade brasileira profissionais de
Psicologia preparados para intervir, de forma efetiva, nas políticas de assistência,
saúde, educação, dentre outras (FONTENELE, 2008, p.157-158).

Esta discussão, da formação profissional, longe de ser nova, não é também esgotada
com Fontenele, em relação aos futuros profissionais da política de assistência. Cruz (2009)
aponta como um dos desafios à Psicologia no CRAS, a qualificação dos profissionais do
serviço e constata que a formação oferecida pela academia não fornece subsídio para a
atuação da psicologia no CRAS. E alerta: “É importante que a academia fique atenta para as
novas exigências que as políticas públicas têm colocado para a Psicologia, de forma a
preparar os futuros psicólogos para atividades que transcendam o setting terapêutico...”
(CRUZ, 2009, p. 22). Um abismo entre a formação/saber acadêmico e a realidade cotidiana
no trabalho do psicólogo no CRAS é a expressão configurada sobre esse tema por Andrade;
Romagnoli (2010).
Uma pesquisa do tipo exploratória, em que foram entrevistadas 5 psicólogas, foi
realizada por Mota; Scarparo (2013) na cidade de Porto Alegre. A partir das narrativas das
psicólogas pesquisadas, as autoras fazem um debate sobre a inserção da psicologia e a
construção de práticas na assistência social, à luz do Construcionismo. As autoras destacam
nesta pesquisa que a inserção do/a psicólogo/a no SUAS é marcada por um descompasso
desta inserção com a formação e que, portanto, os/as profissionais são chamados a
reinventarem suas práticas no campo da Assistência Social, considerando a demandas
encontradas nessa política pública. As autoras chamam a atenção ainda para a necessidade de
se realizar uma travessia, ou seja, “...transcender o que foi posto em sua formação e pensar

42

alternativas, estratégias, para atuar na Assistência Social” (MOTA; SCARPARO, 2013. p.
233).
Numa pesquisa qualitativa que buscou identificar quais práticas destinadas a
moradores da zona rural são desenvolvidas pelos CRAS, concluiu-se entre outras questões,
através de análise de conteúdo de entrevistas com psicólogos, que a graduação deixa a desejar
em relação à Psicologia Social e às políticas públicas, sobretudo o SUAS, em virtude da
pouca discussão sobre essas áreas de atuação (REIS; CABREIRA, 2013, p. 63).
A discussão em tela chega, portanto, aos dias mais atuais. Em uma dissertação de
mestrado é apontada a necessidade do profissional ultrapassar o âmbito individual de
intervenção e atuar numa perspectiva da Psicologia Social, superando o sentimento de
insegurança decorrente de uma formação voltada à clínica (ARAÚJO, 2014, p. 103-104)
Para alguns autores, a formação profissional não deve se pautar, apenas, nos aspectos
teóricos e metodológicos da profissão. Há que se considerar também os aspectos éticos e
políticos desta atuação, pois [o trabalho do psicólogo] “exige um tipo de abordagem que não é
apenas coletiva, é política. Essa postura não pode ser orientada por meio de manuais; faz parte
de uma formação que, de fato, passa distante dos bancos acadêmicos ou das capacitações”
(DANTAS; SOLON; AMORIM, 2011, p. 147)
Os repertórios presentes nos artigos vinculam a atuação profissional como devendo ser
precedida de uma formação que é relacionada de forma resumida à graduação, àqueles anos
de formação acadêmica. Mesmo se considerarmos que os cursos universitários precisam
acompanhar a evolução das políticas públicas no intuito de melhor preparar profissionais para
nelas atuarem, e aqueles que já se formaram antes da existência dessas políticas? Não teriam
mais chance de uma outra forma de atuarem? Defendemos que a formação transcende a
graduação, ela é contínua, continuada, permanente, constante, não dependente apenas dos
ensinamentos do tempo da graduação.
Assim, mesmo considerando que há lacunas na formação do psicólogo, é necessário
transpor tal obstáculo e, num sentido propositivo, pensar noutros modos de atuação, não
necessariamente novos, mas que ajudem a dar conta de um universo plural que o trabalho na
assistência social apresenta. É nesse sentido que Araújo (2014) ajuda a pensar, quando propõe
uma atuação para além da clínica, numa perspectiva da Psicologia Social Crítica. Esta
perspectiva é um dos referenciais propostos por alguns autores para atuação do psicólogo no
campo da Proteção Social Básica da Assistência Social, que será abordado no próximo item.

43

2.2.5. Referenciais teóricos e/ou metodológicos para atuação do psicólogo no CRAS.

Atrelada às discussões anteriores, sobretudo à predominância do modelo clínico e da
formação do psicólogo, agrega-se a discussão de referenciais teóricos e metodológicos que
podem subsidiar a atuação do psicólogo no CRAS. Fontenelle (2008) vai trazer o histórico e
alguns conceitos e metodologias da Psicologia Comunitária e em particular, da Psicologia
Comunitária cearense, sobretudo das décadas de 1980 e 1990, como grandes fontes para
atuação dos psicólogos nos CRAS hoje, sobretudo no que se refere à relação do psicólogo
com a comunidade em que trabalha (FONTENELE, 2008, p. 98).
O diálogo teórico-metodológico entre a prática da Psicologia Comunitária e a Proteção
Social Básica da Assistência Social é também é proposto por Ximenes; Paula; Barros (2009),
que afirmam a relevância de eixos norteadores da práxis da Psicologia Comunitária (análise,
vivência e co-construção de atividades comunitárias mediante metodologias participativas) e
apontam as contribuições da Psicologia Comunitária para leitura e efetivação de trabalhos
coletivos no território do CRAS. Silva; Corgozinho (2011) apontam a Psicologia
Comunitária, com base materialista histórico-dialética, como uma das possibilidades para
orientar a atuação do psicólogo no CRAS.

Aqui, “praticamente toda produção teórico-

metodológica, principalmente a Social-Comunitária, pode, se adaptada às características
específicas deste campo, subsidiar o trabalho do psicólogo atuante no SUAS/CRAS” (Ibid.,p.
19).
A perspectiva da Psicologia Sócio-histórica, trabalhada por Botarelli (2008), é outro
referencial teórico utilizado para compreensão da atuação do psicólogo na Assistência Social.
Numa pesquisa realizada com psicólogos que atuam em CRAS na cidade de São Bernardo do
Campo (SP) esse autor enfatiza a afetividade como processo sócio-histórico a ser considerado
na intervenção do psicólogo. E justifica a utilização de tal referencial teórico a partir da “...
ênfase que ela dá à politização da ciência e à função política da subjetividade e da
afetividade” (BOTARELLI, 2008, p.16).
No intuito de fornecer subsídios teóricos e metodológicos para potencializar a
intervenção psicológica na Política de Assistência Social, Cruz; Guareschi (2012) reúnem
coletânea de textos sobre a Psicologia e a Assistência Social, ainda que sob diversos enfoques,
buscando promover o diálogo entre os psicólogos do serviço e a academia.
Sobre essa questão, Motta; Scarparo (2013) defendem a criação de espaços de
discussão sobre referenciais teóricos e metodológicos para a atuação na Assistência Social,

44

acrescentando, ainda, a necessidade de se identificarem as especificidades das demandas e dos
usuários atendidos por esta Política.
Mais recentemente, Santos (2014) publica um livro em que traz reflexões de sua
dissertação de mestrado acerca da convivência da Psicologia com a desigualdade social. Em
seu trabalho, também ancora suas reflexões na Psicologia sócio-histórica, e recorre à noção de
compromisso social da Psicologia. Discute a desigualdade social no Brasil, a partir do
reconhecimento de sua expressão na atuação das psicólogas e psicólogos no CRAS.
Ao passo que circula nas publicações, no período 2008-2016, o discurso do
predomínio do modelo clínico na Assistência Social e da necessidade de criação de novos
modelos de atuação que superem os tradicionais, há, paralelamente, uma discussão da
existência de referenciais teórico-metodológicos que subsidiem a prática psicológica nesta
política social, como discutido na produção acadêmica categorizada nesta temática.
No tocante, ainda, à prática psicológica no SUAS, mais precisamente no CRAS, há
também quem defenda ou denomine a prática do psicólogo como uma “prática de cuidado”
nestes espaços de atuação, como será abordado a seguir.

2.2.6. Cotidiano profissional e concepções e práticas de cuidados de psicólogos na
saúde e na assistência social.

Essa temática aqui apresentada é discutida, nas publicações pesquisadas, em dois
momentos diferentes por Macedo; Dimenstein (2009) e Macedo; Dimenstein (2012). Em
ambas as ocasiões, os autores buscam fazer um paralelo entre as concepções e as práticas de
cuidado de psicólogos que atuam nas políticas de Saúde e de Assistência Social.
No primeiro trabalho, em 2009, os autores acompanharam a rotina de trabalho de
psicólogos de CRAS e de UBS, através de observação participante e de entrevistas realizadas
com tais profissionais.
Nesse contexto, identificaram, a partir das narrativas dos psicólogos, dois
entendimentos sobre ‘cuidado’: um em que “a ação de cuidado era tratada como uma
atividade ou procedimento que tem a função de monitorar as necessidades de saúde e/ou
sociais dos usuários...” (MACEDO; DIMENSTEIN, 2009, p. 294); e o outro para um grupo
menor de psicólogos, dizia respeito à produção de práticas que promovam mudanças nos
modos de atuação e nas relações de trabalho (AYRES, 2004, apud MACEDO;
DIMENSTEIN, 2009).

45

Aqui, os autores chamam a atenção para essas duas concepções de cuidado que
permeiam o cotidiano das práticas dos psicólogos. Uma que vai tratar do cuidado como uma
intervenção especializada, mais voltada para o modelo médico-clínico, conforme discutido
anteriormente, e outra que se apoia no “...exercício da postura acolhedora e da
responsabilização para com o outro, produzidas a partir de um exercício ético-político do
próprio encontro equipe-serviço-comunidade” (MACEDO; DIMENSTEIN, 2009, p. 299).
Na segunda pesquisa desses autores envolvendo UBS e CRAS, abordadas
anteriormente, foram também utilizadas entrevistas e observação participante com 13
psicólogos de unidades de saúde e de assistência social. Nesta pesquisa foram identificados
pontos de tensão no cotidiano dos psicólogos pesquisados, tais como desconforto e mal-estar
dos psicólogos mediante situações de difícil manejo. Foram relatados sentimentos como
medo, insegurança, impotência, frustração, compaixão, entre outros, em virtude da vivência
cotidiana do trabalho com famílias pobres e das dificuldades ou impossibilidades de
realizarem ações eficazes. Assim, o cotidiano destes profissionais era traduzido como um
mundo de incertezas, impostas seja pelas barreiras das próprias políticas sociais, seja pela
dificuldade do psicólogo de encontrar seu papel nesse contexto (MACEDO; DIMENSTEIN,
2012).
Outra questão aqui apontada, que faz parte do cotidiano dos profissionais nestas duas
políticas públicas, diz respeito à dificuldade de organização política, pois que os profissionais
“...não conseguem articulação entre os trabalhadores para reivindicarem direitos e melhorias,
nem mesmo em relação às suas condições de trabalho” (MACEDO; DIMENSTEIN, 2012, p.
189).
Apesar dos autores que abordam esta temática apontarem duas concepções de cuidado
presentes no cotidiano dos psicólogos pesquisados, bem como alguns pontos de
tensão/sofrimento evidenciados nesse cotidiano, há que se considerar que muitas outras
questões habitam o dia-a-dia profissional e que podem refletir sobre sua prática. Questões
como, por exemplo, vínculo empregatício precarizado, remuneração, espaço físico para
atuação, vínculo com a comunidade, relacionamento com outros profissionais, enfim. Sobre
essa última questão será tratado de forma mais particular no item seguinte.

46

2.2.7. Saberes e práticas construídas por assistentes sociais e psicólogos na PNAS e os
desafios do trabalho interdisciplinar.

A temática aqui em discussão diz respeito aos desafios enfrentados pelos psicólogos
nos CRAS, tanto em relação ao desenvolvimento de uma atuação interdisciplinar, quanto na
construção de outras práticas e saberes decorrentes desta atuação conjunta.
Acerca da prática interdisciplinar, há uma concepção que a considera como “uma
relação pactual entre saberes conexos que produzem uma intenção comum, possuindo um
eixo hierarquicamente superior que redefine tais saberes” (ANDRADE; ROMAGNOLI,
2010). E nos CRAS pode-se pensar que esta intenção comum seja o desenvolvimento de
trabalhos com famílias e indivíduos usuários da Política de Assistência Social.
O trabalho da psicóloga no CRAS é desenvolvido, principalmente, junto com a
assistente social e, em algumas ocasiões, com a pedagoga e/ou outros profissionais de nível
médio. Essa “parceria” com o/a profissional assistente social se dá, basicamente, em virtude
da inserção destas duas categorias profissionais, Psicólogo e o Serviço Social, nas equipes de
referências dos CRAS, segundo o que determina a NOB-RH/SUAS (2006).
As atividades a serem desenvolvidas nos CRAS, desde as realizadas com grupos
dentro do espaço físico destes, até os acompanhamentos de famílias no âmbito do PAIF,
devem ser frutos de uma articulação conjunta destes dois profissionais. Contudo, não foi isso
que foi verificado por Cruz (2009) em sua pesquisa com psicólogos de Sergipe. Neste
trabalho ele identificou que “apesar dos psicólogos dizerem que trabalham bem em equipe,
observa-se que poucas atividades são desenvolvidas de forma conjunta pela a equipe técnica.”
(CRUZ, 2009, p. 20). Percebe-se então que há naquele contexto pesquisado, pouca
demonstração de trabalho interdisciplinarmente articulado.
Tratando sobre o trabalho conjunto entre psicólogos e assistentes sociais no CRAS,
Nery (2009), em sua tese de doutorado, fala da necessidade de configurar o que é próprio de
cada profissão e o que faz parte do trabalho articulado, remetendo assim ao que mais se
assemelha a um trabalho multi do que interdisciplinar. Naquele momento, em 2009, tal
pesquisa apontava que “... a análise do trabalho de psicólogos e assistentes sociais revelou um
campo de relações e de diálogo de saberes em embrionário estágio de construção...” (NERY,
2009, p. 251). E mais adiante, a mesma autora fala da oportunidade histórica que têm a
Psicologia e o Serviço Social de realizarem uma construção coletiva e de novos aportes
teórico-metodológicos, a partir do SUAS.

47

Naquela ocasião, o SUAS tinha apenas quatro anos de criação. Hoje, 2016, ele já tem
mais que o dobro daquela idade. Apenas se passaram sete anos, relativamente pouco tempo,
mas mesmo assim mudanças ocorreram neste período no âmbito da Assistência Social,
sobretudo no que diz respeito a normativas de alguns de seus serviços.
A questão do trabalho interdisciplinar entre psicólogos e assistentes sociais nos CRAS,
também foi discutida numa dissertação de mestrado, que buscou analisar os sentidos da
interdisciplinaridade no cotidiano do trabalho desses dois profissionais (RODRIGUES, 2011).
Para a autora “a prática do psicólogo deve ser por meio da dinâmica social interdisciplinar, do
diálogo compartilhado socializado, tendo em vista que o mesmo visa a favorecer a
emancipação e promover a vida do sujeito” (Ibid, p. 47). Nesta pesquisa verificou-se tanto a
existência de ações conjuntas nas equipes, quanto de ações fragmentadas e falta de
comunicação entre os profissionais. E, portanto, a autora aponta para a interdisciplinaridade
entre a Psicologia e o Serviço Social como um processo ainda em construção.
A prática interdisciplinar pode ser considerada um desafio nas equipes dos CRAS. E
isto é discutido mais recentemente por Mota; Scarparo (2013), que através de análise de
narrativas, identificou dificuldades à prática interdisciplinar como, por exemplo, posições
diferentes dos profissionais em relação a um determinado assunto e a dificuldade de definição
de atribuições e de papéis de cada profissional.
As autoras referem a interdisciplinaridade como estratégia para construção coletiva e
defendem a criação de espaços coletivos para a discussão de referenciais teóricos e
metodológicos que possam subsidiar o trabalho dos profissionais. Referenciando Gergen
(1994), apontam a importância da desconstrução e reconstrução de novas realidades e práticas
que sejam comprometidas com a travessia e com a transformação técnica e política, pautandose numa perspectiva construcionista social.
Diante do levantamento bibliográfico aqui realizado, sobre a prática psicológica na
Política de Assistência Social, em especial nos CRAS, algumas questões apareceram de forma
recorrente, desde as primeiras até as mais recentes publicações encontradas. Tem-se, como
discussão, desde a inserção do psicólogo numa política social recente, com todos os possíveis
desafios que esta inserção e o cotidiano da atuação oferecem, passando pela questão do
tradicional modelo clínico de intervenção e de lacunas na formação do psicólogo.
A necessidade de criação de novos modos de atuação para a intervenção do espaço do
CRAS, e os referenciais teórico-metodológicos que podem subsidiar uma atuação mais efetiva
nesta política também foram temas que surgiram.

48

Uma discussão, porém, não menos ou mais importante dos que as já apontadas, mas
que me chama a atenção, é a construção conjunta de saberes e o trabalho interdisciplinar entre
psicólogos e assistentes sociais no âmbito do CRAS.
A questão do trabalho interdisciplinar no CRAS vem sendo tratada desde 2009. De
forma mais central e específica, Rodrigues (2011) apresenta, em sua dissertação de mestrado,
considerações acerca do tema. Cruz (2009), Rodrigues (2011) e Mota; Scarparo (2013)
concluem que as ações desenvolvidas por psicólogos e assistentes sociais são fragmentadas,
pouco articuladas, com pouca comunicação entre os profissionais, e que ainda se apresentam
em construção.
E tal realidade, trazida por estes autores é confrontada com a necessidade de uma
atuação conjunta numa política social que, a todo momento, reitera a importância do
desenvolvimento de trabalhos articulados, planejados e executados conjuntamente, a julgar
pelo que norteiam os manuais e cadernos de orientações (BRASIL, 2004; 2006; 2009; 2012).
Diante deste cenário é que se apresenta esta pesquisa, que tem a intenção de
problematizar e superar a lógica (inter) disciplinar e a dicotomia da delimitação de papéis
profissionais de cada categoria (Psicologia e Serviço Social), por meio da discussão sobre
ação conjunta desses profissionais. Proponho tal discussão, enquanto pesquisador e
profissional do SUAS, a partir de pressupostos do construcionismo social e do referencial
teórico-metodológico das Práticas Discursivas e Produção de Sentidos.

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3. POSICIONAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS.

O percurso desta pesquisa é marcado por um lugar que assumo, enquanto pesquisador,
que se fundamenta em pressupostos do construcionismo social, que norteia a problematização
de conceitos e concepções naturalizadas e essencializadas, ao ressaltar que o conhecimento é
algo que construímos juntos, em nossas práticas cotidianas.

3.1. De onde fala o pesquisador: a concepção construcionista.

O construcionismo apresenta-se como uma crítica à Modernidade, século XVII, e
como um movimento que traz em suas concepções influências da Filosofia da Linguagem,
sobretudo sua oposição à Filosofia da Consciência, marco importante da era moderna,
centrada na razão e nas ideias.
A Modernidade, mais do que um momento histórico que se segue após o
Renascimento, trata-se de uma época em que a razão humana emerge no campo da Filosofia
como meio de se chegar às verdades, através de recursos metodológicos, e que tem René
Descartes como filósofo de referência (ANDERY, 1996, p. 202)
Descartes, tido como o pai da filosofia moderna, defendia que a verdade deveria ser
questionada. Descartes parte, então, da dúvida, da incerteza, do questionamento sobre a
verdade, do pensar de forma clara e distinta sobre as coisas. E assim, em seu Discurso do
Método afirma que é o fato de eu pensar que eu provo a minha existência:
...enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que
eu, que pensava, fosse alguma coisa. E notando que esta verdade: eu penso, logo
existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos
céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo,
como o primeiro princípio da Filosofia que procurava (Descartes, 1641, p. 54)

Aqui, o sujeito, que se pode chamar de sujeito cartesiano, é um sujeito das ideias, cuja
existência se dá a partir do exercício do pensamento. Não um pensamento puro e simples, mas
o ato de pensar/duvidar das coisas de forma metódica, a partir da concepção de que não deve
ter por certo o que não seja claro e distinto (ANDERY, op. cit.).
Para Descartes “para conhecer

o mundo

exterior, é preciso

inspecionar

minuciosamente as idéias que habitam os espaços interiores da subjetividade” (IBÁÑEZ,

50

2004, p.23). O pensamento, a partir das ideias claras são condições para uma existência. Em
seu Discurso do Método, Descartes (1641) afirma que “...nada há que esteja inteiramente em
nosso poder, exceto os nossos pensamentos” (p. 51).
E se a existência é comprovada pelo fato de pensar, então existe um mundo interno, de
um eu que apreende e interpreta um mundo externo, a partir do pensamento. Porém, não um
pensamento puro e simples, que surge naturalmente, mas um pensamento que exige método.
E esse método fundamenta-se na razão. Assim, para se conhecer a verdade do objeto é preciso
trilhar o caminho da razão, através de leis gerais matemáticas, pois pela razão se chega “...às
ideias claras e distintas, evitando os erros...” (ANDERY, 1996, p. 204). Para Descartes, os
sentidos atrapalham a razão, ou, doutro modo, o corpo atrapalha a mente. É o chamado
dualismo corpo x mente, discussão presente na teoria cartesiana.
Essa concepção de mundo, a concepção cartesiana, moderna, centrada na consciência,
é criticada nos dois séculos posteriores por várias correntes de pensamento, que propõem um
deslocamento do foco dos estudos das ideias para a linguagem. Estas correntes formam outro
movimento filosófico, um movimento de ruptura no campo da Filosofia e das Ciências
Humanas e Sociais, denominado giro linguístico (IBÁÑEZ, 2004).
Como o próprio nome sugere, o giro linguístico correspondeu a um momento histórico
de virada, cuja atenção no campo destas ciências se voltou para o papel desempenhado pela
linguagem “na formação dos fenômenos que ela costuma estudar” (IBÁÑEZ, 2004, p. 19).
Trata-se de uma mudança de ênfase no estudo de um sujeito pensante, produtor e detentor de
ideias (defendido por Descartes) para um sujeito falante, que constrói o mundo a partir da
linguagem; um sujeito não das idéias, mas da linguagem.
Apesar de ser um marco no campo da Filosofia, o giro linguístico não se configurou
como um fato específico, mas “um fenômeno que vai se formando progressivamente e que
adota várias modalidades ao longo do seu desenvolvimento” (IBÁÑEZ, 2004, p. 25). A
proposta, no giro linguístico, é de que se deve olhar não para dentro da mente, enquanto um
lugar onde se criam os pensamentos, mas para os discursos, que são linguagem em ação.
Aqui, a linguagem é questão central e é através dela que lidamos com o mundo,
cotidianamente. O foco que até então era nas ideias ou nas ‘coisas’ do mundo (ou dentro ou
fora da mente), aqui, nesta virada linguística, passa a ser na linguagem em sua relação com o
mundo.
O giro lingüístico contrapõe-se à Filosofia da Consciência, de Descartes, e propõe uma
outra filosofia, a Filosofia da Linguagem, que privilegia o estudo da linguagem em ação, da
linguagem em uso, da linguagem cotidiana. Essa virada linguística, “...introduziu um debate

51

na filosofia da ciência, questionando o uso da linguagem formal e a desconsideração da
linguagem cotidiana, pela ciência, para a descrição dos processos sociais” (RIBEIRO, 2011,
p. 31). Aqui, a linguagem utilizada no dia-a-dia das pessoas, em sua interação, ganha um
status equivalente à linguagem científica.
No giro linguístico, a linguagem não é a representação do mundo na mente, mas faz
parte da construção do próprio mundo, “não é um simples veículo para expressar nossas
ideias, nem uma simples roupagem para vestir nosso pensamento quando o manifestamos
publicamente. Ela é a própria condição de nosso pensamento” (IBÁÑEZ, 2004, p. 33). Essa
proposição, segundo Ibáñez (2004), é também uma postura crítica ao reducionismo da
linguagem como um meio de representação do mundo. Nessa perspectiva, a linguagem não é
mera reprodutora ou espelho de um mundo interno exteriorizado, mas, antes, é construtora de
realidades. Esse argumento se apresenta com uma ênfase importante, pois contribui para o
desenvolvimento do movimento construcionista, concepção em que me apoio para a
realização e discussão desta pesquisa.
O construcionismo surge, então, na segunda metade do século XX, como um
movimento que lança suas críticas à Modernidade e à Psicologia Social Moderna, tendo como
precursor e um dos expoentes Kenneth Gergen. Para este autor, o conhecimento sobre o
mundo não pode ser acumulado, como nas ciências naturais, e não existe uma realidade
externa ao sujeito, da qual se apreendam conhecimentos para um mundo interno (GERGEN,
1985).
O construcionismo não se constitui como uma epistemologia, porque ele questiona os
próprios fundamentos desta. Antes, porém, “ele constitui um referencial que procura entender
o mundo como socialmente construído, o que repercute também na sua forma de produzir
conhecimento” (RIBEIRO, 2011, p. 33) e, ademais, é um referencial que não se vincula
apenas à Psicologia, mas também a outras áreas do conhecimento.
Por criticar a Modernidade, o construcionismo se apresenta como uma postura pósmoderna de compreensão do mundo. Aqui o pressuposto básico é de que o conhecimento é
construído socialmente, na interação humana e através da linguagem. Esta não é um artifício
utilizado pelo homem para representar o mundo, e sim a condição ontológica humana, o que
decorre dizer que não há existência humana sem a linguagem
Para o construcionismo social o discurso sobre o mundo não se trata de um reflexo ou
mapa do mundo, mas um artefato de intercâmbio social (GERGEN, 1985). Assim, considera
que não seja possível um mundo que seja representado na mente mas, antes, um mundo que é
construído socialmente através da interação entre as pessoas, um mundo que é uma

52

construção social. Dessa forma, como se constrói o mundo, constrói-se o conhecimento. Para
o construcionismo, o conhecimento é “...algo que construímos juntos por meio de nossas
práticas sociais e não algo que apreendo do mundo” (SPINK, 2010, p. 09)
Gergen (1985, p. 301), tratando sobre a pesquisa de cunho construcionista, afirma que
“a pesquisa construcionista social ocupa-se principalmente de explicar os processos pelos
quais as pessoas descrevem, explicam, ou, de alguma forma, dão conta do mundo em que
vivem”. Indo mais além, defende ainda que os próprios termos que usamos para entendermos
e explicarmos o mundo são artefatos sociais, são construções sociais históricas, o que indica
que o processo de compreensão do mundo se dá como um resultante da interação humana.
Na perspectiva construcionista “o conhecimento não é algo que as pessoas possuem
em algum lugar dentro da cabeça, mas sim algo que as pessoas fazem juntas” (GERGEN,
1985, p. 310). O conhecimento, para além de ser socialmente construído, é construído
conjuntamente, na relação e interação humanas. Essa concepção é fundamental para
compreender o referencial, no qual a minha pesquisa é norteada, pois parto deste princípio,
desta forma de entender o mundo e a própria produção/construção do conhecimento
científico. O conhecimento aqui não é um conhecimento dado a priori e que as pessoas vão
compartilhar de forma solidária umas com as outras. É resultado processual de diálogos,
encontros, concordâncias e discordâncias entre as pessoas. É, pois, um produto social.
Essa concepção de pesquisa e de mundo propõe uma importante reflexão na medida
em que desloca a explicação de fenômenos psicológicos do interior da cabeça do sujeito ou da
análise pormenorizada de seu comportamento observável para o universo dos processos de
relação social, dos processos inter-relacionais. E isso traz a necessidade de se compreender
desde os artefatos lingüísticos utilizados pelas pessoas em relação a possíveis relações de
poder que envolvem pessoas e grupos.
Na pesquisa psicológica com base no construcionismo social é importante a reflexão
histórica, processual, localizada culturalmente, e não a busca por leis gerais, propriedades
universais, verdades absolutas. Aqui não se busca predizer comportamentos, visto que se
admite que eles não obedecem a regularidades; ou localizar algo na mente humana que
justifique ou explique atitudes, pois o construcionismo compreende que não há verdade
objetiva e sim conhecimentos construídos historicamente, socialmente, fragmentalmente.
O construcionismo social adota uma postura anti-realista, ou seja, defende que não
existem objetos independentes do sujeito e nem sujeitos independentes dos objetos criados.
Não há realidade objetiva a ser descoberta. As pessoas constroem realidades construindo o
conhecimento. E o faz construindo relações sociais. E constroem relações sociais através da

53

linguagem. Sobre isso, SPINK (2010) afirma: “sendo o conhecimento uma construção social,
é o conhecimento socialmente produzido que constrói ambos, o sujeito e o objeto”.
Para o construcionismo, tanto a verdade quanto a realidade são resultantes de uma
prática social situada, não universalizada. Ou seja, ambos são algo que as pessoas constroem
juntas, sejam elas cientistas ou não. De tal forma seria mais coerente falar em múltiplas
verdades e realidades, e não numa verdade única e numa realidade universal. Ambas são
situadas, restritas ao universo das relações sociais. Assim, bem como a ciência, o senso
comum também é produtor de conhecimento, pois é também construtor de versões de
realidade (Iñiguez, 2002).
É nessa linha de pensamento que adoto, nesta pesquisa, uma postura reflexiva sobre o
processo de realização da própria pesquisa e sobre as implicações dialógicas identificadas nos
discursos produzidos pelas pessoas que colaboraram com ela. Minha intenção não é a de
desvelar as propriedades universais de possíveis objetos de estudo, pois numa perspectiva
construcionista o pesquisador não é um desvelador de realidades dos participantes da
pesquisa. Antes, porém, enquanto pesquisador num processo dialógico, meu empreendimento
é uma tentativa de compreender alguns fenômenos que se dão na interação humana num
contexto específico, situado, no caso, o trabalho conjunto de assistentes sociais e psicólogas
no cotidiano de serviço de uma política pública, bem como na interação entre eles e elas com
o pesquisador durante o processo da pesquisa.
No cerne da discussão da perspectiva construcionista há outra questão, não menos
importante do que a discussão sobre os regimes de verdade e de construção do conhecimento,
e que considero fundamental na minha pesquisa. Falo sobre o posicionamento ético-político
que a postura construcionista levanta, sobre isso Ribeiro (2011) enfatiza que “O
construcionismo propõe, nesse sentido, o questionamento de para quem e para que
determinado saber é produzido, quando focaliza a produção de conhecimento científico – e é
nessa problematização que se insere a questão ética e política” (RIBEIRO, 2011, p. 36).
A reflexão sobre aplicabilidade do conhecimento que se produz é uma discussão ética
que merece atenção, no sentido de nos fazer pensar qual a contribuição que essa produção de
conhecimento traz para a vida das pessoas. Um conhecimento que se volte apenas para si, sem
contribuir para a melhorias sociais da vida das pessoas deve ser no mínimo questionado
quanto ao porquê de sua existência.
Diante desta reflexão, de contribuição ética da produção do conhecimento, é possível
se pensar num conhecimento que tenha sim seus constructos teóricos – pois se não os tivesse
não se poderia conceber como conhecimento construído em bases científicas – mas que tenha

54

também entrelaçamentos com a ação. Numa concepção construcionista é possível esse
“acordo”. E sobre isso, Ribeiro (2011) afirma que assim como as ações humanas carecem de
descrição e explicação, estas, por sua vez, provocam ações.
Ações estas que são construídas pela e com a linguagem, tida aqui como linguagem
em ação – ou linguagem em uso. Esta linguagem, em seu uso cotidiano, é construtora de
mundo, de versões de mundo, de visões de mundo, de verdades situadas, de conhecimentos.
Neste sentido, cabe, pois, ressaltar o que afirma Ribeiro (2011, p. 36): “A Psicologia Social
construcionista [...] é aquela que está comprometida com a produção de conhecimento
considerada como ação”.
A ação numa perspectiva construcionista pode ser compreendida como uma ‘ação
conjunta’, que reafirma o pressuposto de que se constrói o mundo a partir das relações sociais,
na interação humana, através do diálogo, permeados todos pela linguagem (RIBEIRO, 2011).
Apoiando-se na concepção proposta por Shotter (1993), Ribeiro (2011) afirma que a
ação conjunta é uma atividade que se desenvolve numa zona de incerteza e de
impredizibilidade. Nesse sentido, essa zona de incerteza é um campo de construção não a
priori, mas que se constrói conjuntamente, cotidianamente. A impredizibilidade da ação, de
acordo com Ribeiro (2011), é o fato de não se poder antecipá-la, tampouco seus efeitos, de
modo que estes efeitos muitas vezes surgem algum tempo depois da ação ter sido realizada.
Este caráter da ação traz reflexões sobre incertezas do pesquisador, neste caso, diante
das muitas possibilidades de desdobramentos da pesquisa. O pesquisador não tem o poder de
predizer o que irá acontecer no curso da pesquisa, não é um controlador de variáveis. Os
resultados da pesquisa surgem ao longo do tempo, num processo formativo contínuo e não a
priori. Poderá sim, o pesquisador, vivenciá-la e, depois, ‘dizer’ do ocorrido.
Ibáñez (2001) também traz reflexões sobre discurso e ação humana, denominando esta
última de ação social. Para ele toda ação é intrinsecamente social e todo discurso é uma ação
social. E toda ação social é desenvolvida ao se falar em ação social, por exemplo. Ou seja,
sempre que se fala algo, se faz algo.
Ibáñez (2001) defende que toda ação é social pelo simples fato de estarmos todos
inseridos num tecido social, cercados de objetos socialmente construídos, sendo o nosso
próprio corpo um desses objetos. Assim, o ato de escrever, por exemplo, é um ato tão social
quanto o ato de pensar. A ação social:
... engloba um conjunto de ações finamente diferenciadas, que vão desde a ação
instrumental até a ação comunicativa, passando pela ação coordenada, pela ação
conjunta, pela ação convergente, etc. Todas as ações, desde a mais privada e
individual até a mais coletiva e numerosa, são ações sociais (IBÁÑEZ, 2001, p.198).

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É a partir deste referencial construcionista e com o foco numa ação conjunta enquanto
ação social que se desenvolve minha pesquisa, buscando reflexões sobre o trabalho de
psicólogas e assistentes sociais na política de Assistência Social no município de Maceió,
considerando suas relações sociais, a partir do lugar que elas ocupam e do fazer que
desenvolvem conjuntamente. ‘Fazer’ este construído na interação social, permeado pela
linguagem.

3.2. Práticas discursivas: a construção de sentidos.

Para a realização da pesquisa em questão, a proposta teórico-metodológica norteadora
foi a das Práticas Discursivas e Produção de Sentidos. Apoiada numa postura construcionista,
a concepção de Produção de Sentidos considera que a atividade de dar sentido ao mundo se dá
através das relações sociais cotidianas. Aquilo que fazemos produz sentidos, através da
linguagem, e sentidos distintos em distintas ocasiões (trabalho, estudo, pesquisa etc). Cabe,
aqui, salientar o que Spink (2010) denomina de sentido:
...uma construção social, um empreendimento coletivo, mais precisamente
interativo, por meio do qual as pessoas - na dinâmica das relações sociais,
historicamente datadas e culturalmente localizadas - constroem os termos a partir
dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos à sua volta (SPINK,
2010, p. 34).

Não se produz sentido individualmente e sim coletivamente, na interação social. E são
esse(s) sentido(s) produzido(s) que permite(m) lidar com as diversas situações do mundo. A
todo tempo estamos produzindo sentidos, naturalmente, cotidianamente, não como atividade
planejada, mas como resultado das interações sociais cotidianas permeadas pela linguagem
(SPINK, 2010).
A concepção de Práticas Discursivas está apoiada na proposição construcionista da
linguagem como prática social, de uso cotidiano (linguagem em uso). De forma mais
conceitual, as práticas discursivas podem ser definidas como “as maneiras a partir das quais as
pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas” (SPINK, 2013, p.
26).
Importante considerar, no universo das práticas discursivas, a noção de repertórios
linguísticos, que a partir deste ponto, para efeito desta pesquisa, será chamada apenas por
repertórios. Elementos constitutivos da linguagem, os repertórios “são unidades de
construção das práticas discursivas – o conjunto de termos, descrições, lugares-comuns e
figuras de linguagem – que demarcam o rol de possibilidades de construções discursivas...”

56

(Ibid., p. 28). Os repertórios são utilizados, neste trabalho, como dispositivos a partir dos
quais serão feitas análises das falas que trazem em si um sentido ou um conjunto de sentidos.
Bakhtin (1997) traz outro aspecto importante a ser considerado para esta pesquisa, que
é a discussão sobre a dinamicidade da linguagem. Faz uma crítica ao modelo tradicional de
estudo da comunicação humana do tipo emissor-mensagem-receptor. Para ele essa tríade é
funcional, porém pouco dinâmica. Sem desconsiderar a importância destes estudos, avança
nessa discussão e defende que na comunicação humana verbal não se pode considerar apenas
um emissor ativo e um receptor passivo da mensagem/comunicação. Há que se considerar que
um ouvinte/receptor:
...adota simultaneamente, para com este discurso, uma atitude responsiva ativa: ele
concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa, adapta, apronta-se para
executar, etc, e esta atitude ouvinte está em elaboração constante durante todo o
processo de audição e de compreensão desde o início do discurso, às vezes já nas
primeiras palavras emitidas pelo locutor (Bakhtin, 1997, p. 290)

Bakhtin traz à discussão o movimento do discurso, a interação que se dá entre
emissor/receptor, ouvinte/falante. Ambos são ouvintes e locutores, são sujeitos em interação e
se posicionam dinamicamente a partir dos enunciados enquanto fala viva. E mesmo que, na
situação do discurso, um sujeito atue mais como locutor, Bakhtin afirma que ele é também um
respondente, pois “...não é o primeiro locutor, que rompe pela primeira vez o eterno silêncio
de um mundo mudo...” (BAKHTIN, 1997, p. 291).
Esta alternância dos sujeitos, entre locutor e ouvinte, se dá, para Bakhtin (1997), no
diálogo, ou, dito de outra forma, no exercício de práticas discursivas. Isso porque os
elementos (emissor, receptor, mensagem) não existem estanques, são todos elementos-sujeitos
ativos e em relação. Em interação. Em dinamicidade. Daí se poder falar numa interanimação
dialógica. O diálogo, aqui, tem papel central e, como afirma Ribeiro (2011), apoiando-se na
perspectiva bakhtiniana, é um fenômeno da interação verbal.
Partindo então do entendimento da interanimação dialógica como um processo de
diálogo dinâmico, relacional, é possível pensar que uma reunião, ou outro encontro qualquer
de pessoas, produz interanimação dialógica. E a partir do pressuposto de que se produz
sentidos em relações sociais cotidianas, é possível pensar que um encontro de profissionais
que trabalham numa mesma política pública, para discutir o próprio trabalho (ou qualquer
outro assunto) produz sentidos. E esses sentidos são configurados e reconfigurados, sobretudo
quando estes profissionais se propõem a conversar sobre seu fazer, a exemplo do que ocorreu
nesta pesquisa, quando da realização de uma oficina sobre ação conjunta, que será tratada no
capítulo 4.

57

3.3. Dentre tantos, um caminho trilhado: o percurso metodológico e a realização de
oficina de ação conjunta.

Compreender as vicissitudes da atuação de psicólogas e assistentes sociais na Proteção
Social Básica da Política de Assistência Social de Maceió, através da promoção de um
diálogo com estas pessoas, é o objetivo desta pesquisa. Para dar conta deste objetivo, utilizei
como ferramenta metodológica, a oficina com grupo (SPINK; MENEGON; MEDRADO,
2014). Considerei que tal método seria viável para esse objetivo, a partir do seu potencial
mobilizador das pessoas colaboradoras, durante a sua realização, pois as participantes são
convidadas a conversar sobre o tema de maneira mais informal possível.
Numa proposta construcionista de pesquisa, os objetivos desta, bem como os passos a
serem seguidos vão sendo reconfigurados no processo de realização da própria pesquisa. O
pesquisador, que não é um elemento neutro neste processo, mas antes um agente de dentro,
thinking-from-within (SHOTTER, 2006), da pesquisa, completamente implicado nela, admite
sua reflexividade.
Trago este termo, ‘reflexividade’, à luz do que fala Spink (2013): “A reflexividade
refere-se à espiral da interpretação e aos efeitos da presença do pesquisador nos resultados da
pesquisa” (SPINK, 2013, p. 66). Sobre esses efeitos, de que trata a autora, pude reconhecer,
nesta minha experiência enquanto pesquisador, que eles se dão não apenas nos resultados
propriamente ditos da pesquisa, mas também, como frisei, durante todo o seu processo.
Assim, admitindo tal reflexividade, refiz o caminho que inicialmente pensei para
realizar a pesquisa. Meu intuito inicial era discutir o trabalho interdisciplinar desenvolvido por
psicólogas e assistentes sociais nos CRAS e, diante disto, propor uma roda de conversa
trazendo como questão disparadora o trabalho interdisciplinar.
Contudo, com o desenrolar das conversas com minha orientadora sobre minhas
experiências no trabalho e considerando o referencial teórico-metodológico adotado no
decorrer da pesquisa, compreendemos que a discussão que se apresentava era algo mais além
do que a discussão do trabalho interdisciplinar. Discutir o trabalho interdisciplinar nos levaria,
certamente, a focalizar nas áreas de conhecimento e não na ação. Romper com esta
perspectiva – disciplinar – e pensar num trabalho que se desenvolvesse enquanto ação
conjunta nos espaços laborais da Proteção Social Básica da Política de Assistência Social era,
agora, o que produzia em nós algum sentido.
A partir desta virada, da proposta inicial de pesquisar o trabalho interdisciplinar para
o novo empreendimento de conversar sobre o trabalho conjunto, busquei um outro percurso

58

metodológico. Trouxe então a proposta de realizar uma oficina, enquanto estratégia
metodológica, com as profissionais colaboradoras da pesquisa. Posso dizer então que a virada
no foco de discussão da pesquisa proporcionou também uma virada metodológica.
A proposta de realizar a oficina sobre ação conjunta baseou-se no método
desenvolvido por Spink; Menegon; Medrado (2014), que abordam o uso de oficina como
recurso metodológico de pesquisa, que se desenvolve enquanto espaço de produção e de
negociação de sentidos. De acordo com essa proposta, na medida em que as falas circulam
entre as participantes, propicia-se que elas expressem verbalmente suas ideias e compartilhem
suas experiências.
As oficinas, além de estratégias metodológicas que propiciam um ambiente
conversacional bastante rico, têm um potencial importante no que diz respeito a:
promover um exercício ético e político, pois ao mesmo tempo em que geramos
material para análises, criamos um espaço de trocas simbólicas que potencializam a
discussão em grupo em relação à temática proposta, gerando conflitos construtivos
com vistas ao engajamento político de transformação (SPINK; MENEGON;
MEDRADO, 2014, p. 33).

Assim, desde que fui apresentado à metodologia da oficina, através do contato com o
texto desses autores, apaixonei-me pela proposta. A concepção das oficinas como trocas
“dialógicas que permitem a visibilidade, construção e deslocamento de versões sobre a
realidade” (SPINK; MENEGON; MEDRADO, 2014, p. 33), surge como um recurso
metodológico possível dentro da minha proposta de pesquisa, para promover um diálogo com
profissionais atuantes no dia-a-dia dos CRAS.
A oficina traz recursos oriundos da dinâmica de grupo, do grupo focal e das rodas de
conversa, enquanto proposta teórico-metodológica, que, juntos, dão um contorno dinâmico,
dialógico e interativo à oficina (SPINK; MENEGON; MEDRADO, 2014).
Enquanto performance de dinâmica de grupo, a oficina traz com riqueza um caráter
lúdico e criativo diante de atividades que são propostas ao grupo. Essas atividades são
desenvolvidas pelos participantes num processo de interação e de constante conversação,
trazendo leveza ao trabalho desenvolvido pelo grupo. Isso pode ser percebido na oficina de
ação conjunta, realizada por ocasião desta pesquisa com psicólogas e assistentes sociais que
trabalham em CRAS. O caráter lúdico e criativo acima mencionado foram fatores que
contribuíram com o processo de interanimação dialógica do grupo naquela ocasião.
Quanto à contribuição da perspectiva do grupo focal na oficina, esta se dá com relação
à maior centralidade no pesquisador. Este assume a responsabilidade de trazer um foco, uma
discussão. E de participar desta discussão de forma ativa, de modo a reconduzi-la como eixo

59

central, quando for o caso. Enquanto pesquisador e coordenador das atividades de discussão,
durante a oficina, me foi exigido, em dado momento, que intervisse nas discussões de forma a
reconduzir ao tema proposto, bem como de administrar o tempo para possibilitar que todas as
participantes tivessem oportunidade de falar.
Já as rodas de conversa se assemelham à oficina, no que diz respeito ao seu caráter
político e transformador (SPINK; MENEGON; MEDRADO, 2014), trazendo discussões
importantes, que cabem e merecem ser tratadas numa roda de iguais.
Assim, foi a partir da proposta de oficina de risco apresentada pelos autores citados
que propus e realizei a oficina de ação conjunta. Foram convidadas cinco assistentes sociais e
cinco psicólogas atuantes em CRAS no município de Maceió, considerando que o objetivo da
pesquisa trata-se do estudo sobre ações conjuntas entre essas duas categorias profissionais.
A escolha de um quantitativo paritário de profissionais, para além de uma possível
preocupação com quantitativo/qualitativo, teve a intenção de permitir a formação de um grupo
que se configurasse a partir da ressonância de múltiplas vozes, o que implicaria em
diversidade de falas, posicionamentos, argumentações e sobretudo experiências relatadas.
Para tanto, precisei fazer um percurso de contatos e negociações que pudessem
viabilizar a participação das colaboradoras. Primeiramente, procurei a Coordenação Geral dos
CRAS de Maceió e conversei com a coordenadora, à qual explicitei a proposta da pesquisa.
Desta forma, pude negociar a liberação das futuras colaboradoras do seu horário de trabalho
no dia em que seria realizada a oficina. E, ainda, negociei com a coordenadora no sentido de
que a participação das colaboradoras no dia da oficina fosse considerada como horas
trabalhadas, evitando assim que estas precisassem compensar aquele horário no trabalho. Esta
negociação foi fundamental para não provocar transtornos de compensação de horários das
colaboradoras, visto que parte delas possui outro vínculo de trabalho e isso dificultaria a
compensação do horário dedicado à oficina.
O próximo passo foi definir quem seriam as colaboradoras da pesquisa. E para isso,
utilizei dois critérios: primeiro, a aproximação profissional que eu possuía com elas, por ter
trabalhado junto ou por ter contatos esporádicos por ocasião de atividades dos próprios
CRAS, um universo do qual eu faço parte há alguns anos. Esta aproximação anterior me
permitiu pensar na possibilidade delas, as participantes, de dialogar sobre o tema e de
colaborar com uma pesquisa sobre tal assunto. O segundo critério foi o tempo de experiência
de trabalho em CRAS, delimitando que as participantes tivessem pelo menos dois anos, para
que assim pudessem contribuir com relatos de suas experiências naquele contexto.

60

Definidos estes critérios, elenquei dez profissionais e parti para o contato com elas. Fiz
contato telefônico com todas, ocasião em que expliquei sobre a pesquisa e fiz o convite para
participarem. Todas elas aceitaram. Daí, solicitei a cada uma a permissão para criar um grupo
no aplicativo de telefone celular WhatsApp para facilitar minha comunicação com elas. Com
exceção de uma, todas as outras tinham este aplicativo e autorizaram a inclusão no grupo, o
qual denominei “Pesquisa Mestrado Nilton”.
O uso do WhatsApp enquanto ferramenta de comunicação foi muito importante, pois
facilitou consideravelmente minha comunicação com as participantes da pesquisa. Através
dele pude negociar dias e horários de minha visita pessoal para tratar da pesquisa, bem como
dia e horário para realizarmos a oficina. Ainda assim, não pude prescindir do contato via
ligação telefônica, tanto com a colaboradora que não possuía o aplicativo WhatsApp, quanto
com todas as outras.
O passo seguinte a ser dado foi o meu contato pessoal com elas, através de visita no
local de trabalho, combinado previamente via telefone. Assim o fiz, e pude explicar de forma
detalhada para cada uma sobre os objetivos da pesquisa, o termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE) e minhas responsabilidades e implicações éticas. Este momento foi de
suma importância, pois foi uma ocasião em que pude esclarecer muitas dúvidas das
colaboradoras e pude sentir de perto, frente a frente, o interesse delas na participação da
pesquisa.
Todo este percurso de contatos e negociações para realizar a oficina me deixou uma
certeza: a de que todos os procedimentos burocráticos são necessários para uma pesquisa, mas
o contato pessoal com as colaboradoras é fundamental e insubstituível.
A explicitação sobre a pesquisa, sobre a proposta metodológica, sobre o local de
realização da oficina, bem como outras informações acerca da pesquisa e do mestrado,
realizada frente-a-frente posiciona o pesquisador numa condição ética respeitosa frente ao
colaborador da pesquisa. E isso pude experienciar. À medida que eu esclarecia cada dúvida e
que falava a cada colaboradora sobre meus passos na realização da pesquisa, ia me dando
conta do quão a pessoa se sentia respeitada diante deste posicionamento. Percebi, então, que o
envolvimento de cada colaboradora na pesquisa deu-se muitos antes da realização da oficina,
a partir, sobretudo, do meu contato pessoal com elas.
Outro aspecto importante que ressalto é que minha visita para o contato pessoal com
as colaboradoras otimizou bastante o tempo no momento inicial da oficina, momento em que
comumente se precisa esclarecer dúvidas sobre a pesquisa. Assim, as pessoas já foram para a
oficina sabendo, de alguma forma, o que iria acontecer enquanto proposta de pesquisa, e,

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assim, mais abertas à participação. E essa abertura as colocaria frente à possibilidade do
impredizível, como afirma Ibañez (2001) ao tratar de aspectos que configuram a incerteza da
ação, pois que seriam envoltas num universo dialógico conversacional que, este sim, não
poderíamos predizer como seria.
Paralelo a esse percurso de contatos pessoais, precisei, por obrigação ética e legal de
pesquisador, solicitar formalmente à Secretaria Municipal de Assistência Social do município
de Maceió autorização para realizar a pesquisa com assistentes sociais e psicólogas lotadas em
tal Secretaria, em virtude do vínculo institucional de trabalho de tais profissionais com o
município. Esta autorização foi concedida pela Secretaria através de um termo de anuência.
Assim, seguidos todos esses passos, num percurso que exigiu tempo, contatos
telefônicos, conversas presenciais e encaminhamentos de documentos, consegui realizar a
oficina de ação conjunta com psicólogas e assistentes sociais atuantes nos CRAS de Maceió.
A oficina foi realizada no espaço físico (mini-auditório) da sede do Conselho Regional de
Psicologia da 15ª Região (CRP-15), localizado em Maceió, que me foi gentilmente cedido
para este fim, de acordo com contatos anteriores com o presidente.

62

4. CONVERSANDO SOBRE AÇÃO CONJUNTA.

4.1. Ação conjunta: que conversa é essa?

A conversa sobre ação conjunta, nesta pesquisa, surge a partir de reflexões trazidas por
minha orientadora do mestrado por ocasião de nossos encontros de orientação, ancorada em
dois aspectos: primeiro, as discussões que fizemos no sentido da necessidade de superar o
discurso sobre disciplinaridade e papel privativo de cada profissional; segundo, por ocasião de
reflexões suscitadas em sua pesquisa de doutorado sobre o sumiço de peixes da pesca de
curral em Ipioca - Maceió - AL (RIBEIRO, 2011), em que problematiza a ação numa
perspectiva construcionista.
Desde então, se desdobrou um diálogo sobre ação conjunta com base na concepção de
Shotter (2011), que trata da ação conjunta enquanto inter-relação humana, uma atividade
especial, que Bakthin denomina de dialógica, que se dá a partir da vivência com o outro. Esse
diálogo produziu novos sentidos em relação às minhas experiências profissionais com colegas
(assistentes sociais e psicólogas) que atuam no âmbito do CRAS, e assim decidimos conversar
mais sobre isso.
Parte-se do princípio shotteriano de que a partir dessas experiências conjuntas, uma
outra forma de vida acontece entre as pessoas (SHOTTER, 2011). E esta forma de vida pode
ser entendida no seio da atuação profissional. Tal forma se dá a partir da relação entre as
pessoas e não da ‘disciplina’ enquanto dispositivo formal e/ou acadêmico. Não se trata de
uma questão de disciplinaridade e todos os seus possíveis desdobramentos conceituais (multi,
inter, transdisciplinaridade). Não é essa a proposta de discussão, apesar de sua notória
importância. Trata-se de uma questão de interpessoalidade. De trazer à reflexão os
desdobramentos relacionais que se dão entre as pessoas, nesse caso, pessoas que se
relacionam por ocasião do trabalho comum desenvolvido numa mesma política pública, e de
como estes desdobramentos provocam o desenvolvimento de outros saberes.
Sobre ação conjunta, Shotter (2011, p. 2) afirma que “como seres vivos, nós agimos
em conjunto, como um nós-coletivo. [...] Ao invés de inter-agir, nós intra-agimos, nós agimos
de dentro de uma situação dialógica”. E afirma que esta ação é espontânea, para a qual não há
preparação. Assim, à luz de Shotter, é possível conceber que não há ação conjunta a priori, ela
se dá na relação, na própria vivência cotidiana e independe de formação acadêmica. Nesta
reflexão de ação conjunta, compreendem-se as pessoas em relação, e que, portanto, não
trabalham sozinhas, não agem sozinhas, agem conjuntamente. Esta ação conjunta se dá numa

63

dinâmica em que a ação de uma pessoa é parcialmente influenciada pela ação de outra, e viceversa. E tais ações conjuntas, somadas, constroem configurações maiores no universo das
relações profissionais, sobretudo no âmbito das políticas públicas.
A conversa sobre ação conjunta está intimamente relacionada à conversa sobre
produção de sentidos, pois é possível dizer que, se as pessoas produzem sentido a partir de
suas relações sociais cotidianas (SPINK, 2010) e a ação conjunta se configura como uma
atividade de interação social que se dá no dia-a-dia de profissionais, esse é um contexto
potencialmente rico de produção de sentidos.
Então, no âmbito da Política de Assistência Social, assistentes sociais e psicólogas que
trabalham juntas cotidianamente produzem sentidos também a partir da ação conjunta. E
assim como a produção de sentidos não se configura como atividade planejada, a priori,
também não o é a ação conjunta. Ambas, então, são vivências de relação. Mais que isso, de
interação. Mais ainda, de intra-ação, de ação de dentro (SHOTTER, 2011). Ação que
interdepende de outra ação e que transcende campos de conhecimentos.
Trazendo Bakthin para esta conversa, é possível dizer que a ação conjunta ocorre no
momento de uma relação. No caso específico de profissionais da Assistência Social, se dá
num contexto de interanimação dialógica, em que ocorrem processos dinâmicos de diálogos,
de interação, de dinamicidade de relação.
Ressaltar o caráter dialógico e relacional da ação conjunta não significa relegar o
conhecimento, ou a produção deste, a um plano inferior. Ao contrário, esta conversa também
se faz importante. Contudo, a partir da concepção de Shotter (2011), propõe-se refletir que o
conhecimento no lócus de trabalho profissional não se constrói apenas a partir da disciplina,
da especificidade da formação acadêmica, mas como resultado de uma ação social (IBAÑEZ,
2001). É o resultado de ações conjuntas, em que o saber de uma se soma ao saber de outra
profissional, construindo novos/outros saberes, a partir de situações cotidianas que exigem
intervenção conjunta. O saber que se produz é resultado de um processo interativo e
dinâmico, que envolve sentimentos relacionais, sobretudo de uma construção intersubjetiva e
cotidiana que ocorre no “entre” desta relação.

64

4.2. Oficina com assistentes sociais e psicólogos/as dos CRAS: uma experiência de
ação conjunta.

Foram dez profissionais atuantes em CRAS de Maceió que participaram da pesquisa,
cinco assistentes sociais e cinco psicólogas/os; nove eram do sexo feminino e um do sexo
masculino. No intuito de não identificar a pessoa do sexo masculino, dada esta grande
possibilidade, sobretudo quando da análise das falas, decidi nomear todas as pessoas com
nomes fictícios do sexo feminino, apenas identificando quem é da Psicologia (Psi) e quem é
do Serviço Social (A.S.). Assim minhas colaboradoras foram (nomes fictícios): Augusta
(A.S.), Bruna (A.S.), Débora (A.S.), Iara (A.S.), Karla (Psi), Luciana (Psi), Manoela (Psi),
Norma (A.S.), Tamara (Psi), Rita (Psi).
Antes do início da oficina, percebi que o clima geral era bastante amistoso entre as
colaboradoras que aos poucos chegavam para participar daquele momento. Pude perceber isso
nos cumprimentos sorridentes entre as pessoas, nos abraços, nos pequenos bate-papos entre
elas, na maneira com que se intrometiam nos assuntos informais umas das outras e no
cafezinho que fiz questão de oferecer antes do início das atividades. Conversas sobre
possíveis dietas, sobre seus locais de trabalho, sobre a necessidade de se encontrarem, eram
facilmente ouvidas neste momento pré-oficina. A oficina propriamente dita ainda não havia
começado, mas o encontro já se desenrolava. E considero que este princípio foi de suma
importância para o envolvimento das colaboradoras durante a oficina.

4.2.1. O início da oficina.

Iniciei a oficina agradecendo às minhas colaboradoras por terem aceitado ao convite,
momento em que minha fala foi interceptada pela maioria delas, expondo também seus
agradecimentos pelo convite recebido, de modo que algumas, inclusive, colocaram que se
sentiram importantes por terem sido convidadas para aquele momento, por terem sido
escolhidas em meio a outras tantas colegas que poderiam estar ali. Diante disso, expus os
objetivos da pesquisa, os critérios de inclusão das pessoas convidadas e o conteúdo do
Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE, esclarecendo algumas possíveis dúvidas.
Ressaltei que a pesquisa estava sendo orientada pela profª Maria Auxiliadora, da graduação e
da pós-gradudação em Psicologia da UFAL, ao que algumas colaboradoras fizerem breves
comentários, pois já a conheciam a partir de suas visitas aos CRAS em anos anteriores. Em
seguida, negociei questões de ordem prática, como o tempo previsto que teríamos de duração

65

da oficina, o uso do celular, a liberdade para o lanche e para o uso do toalete durante a oficina,
o intervalo, entre outros, visto que o acerto destes detalhes seria importante para o
desenvolvimento da oficina, que teve a duração de cerca de três horas.
O momento seguinte a este constou da apresentação pessoal das participantes. Iniciei
esta etapa apresentando minha colega pesquisadora do mestrado, Stephane Pereira, que estava
ali como pesquisadora-colaboradora daquele momento, numa função de observadora da
oficina, ao que percebi que todas a acolheram de forma bastante receptiva, a julgar por suas
expressões faciais. Como todas já me conheciam, pude resumir minha apresentação pessoal
ao contexto dos objetivos da pesquisa e da etapa em que me encontrava na realização desta.
Solicitei, então, que todas se apresentassem, as cinco assistentes sociais e as cinco psicólogas,
indicando sua área de formação e em que local trabalhavam e, caso quisessem, outras
informações que considerassem importantes para permitir sua apresentação diante do grupo.
Este momento inicial se desenrolou como uma continuação do momento pré-oficina, a
que me referi anteriormente, pois o clima de conversa informal foi preponderante. Muitas
participantes fizeram amplos relatos durante a apresentação pessoal, conversando, trocando
informações e experiências sobre o seu dia-a-dia de trabalho. Algumas delas, inclusive, já
antecipavam relatos de experiências que estavam previstos para um momento posterior da
oficina. Esperei que elas falassem por algum tempo. Em algum momento precisei intervir,
convidando-as para continuar o momento de apresentação pessoal e esperar o momento dos
relatos de experiências, que viria mais adiante, e em que seria muito importante a retomada de
seus relatos.
4.2.2. Primeira parte da oficina: associação livre sobre ‘ação conjunta’.

A descrição de trechos da oficina, que passo a realizar a partir deste ponto, utiliza
trechos da transcrição integral (TI) do áudio da oficina, que está no Anexo (I). O número
colocado entre parênteses é referente à numeração das linhas, a fim de indicar a localização
do diálogo-fonte. Este recurso fundamenta-se no trabalho de Nascimento; Tavanti; Pereira
(2014, p. 258) que, tratando de forma mais abrangente sobre o uso de mapas dialógicos no
contexto de pesquisa, traz a possibilidade de uso da numeração de linhas em textos de
transcrição integral como mais um recurso metodológico para descrição e análise de
resultados de pesquisa com grupos.

66

Apresentei a proposta da primeira atividade: distribuí pequenos blocos com tarjetas
para cada uma e pedi que expressassem ou escrevessem no papel palavras ou termos que lhe
vinham à memória, relacionados ao termo ação conjunta.
Após minha exposição verbal sobre este momento da oficina e passados alguns
minutos para que as participantes registrassem seus termos relacionados à ação conjunta,
Tamara (Psi) faz um sinal corporal de que quer falar, ao que entendo seu gesto e a convido a
iniciar a fala. Tamara (Psi) mostra então sua primeira palavra: ‘acolhimento’ (27). Fala da sua
experiência em que sua ajuda/apoio é solicitada por uma colega assistente social em situações
de atendimento ao usuário. Em seguida, apresenta o termo ‘troca de saberes’ (33), afirmando
que aprendeu bastante com colegas do e no serviço. Depois traz o termo ‘ações coletivas’ (39)
e relata atividades do serviço em que profissionais e usuários atuaram juntos. Seguindo este
mesmo sentido, Tamara (Psi) cita as ‘visitas em domicílio’ (48) como atividade que necessita
ser realizada na maioria das vezes pelos dois profissionais, psicólogo e assistente social.
Norma (A.S.), já demonstrava com pequenos gestos seu interesse em ser a próxima a
expor. Apresenta o termo ‘trabalho em equipe’ (64). Apoia-se na experiência cotidiana para
argumentar a importância do assistente social e do psicólogo no trabalho comunitário. Ela fala
sobre ‘unidade na parceria respeitando atribuições’ (65) chamando a atenção para a
importância do trabalho em equipe, e para o ‘respeito um pelo outro’.
Nesta primeira rodada de conversa, que circula entre Tamara (Psi) e Norma (A.S.),
sobre o termo ‘ação conjunta’, surgem os termos ‘parceria’, ‘trabalho em equipe’ e ‘respeito’,
associados entre si, enfatizando o aspecto relacional entre as profissionais.
Em seguida, Luciana (Psi) usa o mesmo termo ‘parceria’ (78), utilizado por Norma
(A.S.), afirmando que é algo importante entre o Serviço Social e a Psicologia. Traz também o
termo ‘troca de experiências’ (81) argumentando a existência de um aprendizado recíproco
entre as duas categorias profissionais. Ao expor o termo ‘conhecimentos e aprendizado’ (83),
ressalta a importância da união no trabalho conjunto, na ação.
A parceria, ressaltada por Norma (A.S.) possibilita troca de experiências que por sua
vez leva a conhecimento e aprendizado. Novamente a ênfase é relacional (parceria) para que
ocorra todo esse processo.
Manoela (Psi) se “prepara” para iniciar e apresenta o termo ‘somar’ (90). Fala da
importância da soma de experiências tanto da vida profissional quanto das vivências
cotidianas ao longo da vida. Expõe também o termo ‘troca’ (92), explicitando a oportunidade
de troca de experiências que o trabalho no CRAS lhe proporcionou.

67

Manoela (Psi), em sua fala, nos suscita uma reflexão. Ela traz os termos ‘somar’ e
‘troca’ como algo positivo que se dá no âmbito do trabalho, além de outros âmbitos da vida,
como oportunidade de compartilhamento de saberes. É possível pensar essa questão como um
contraponto à discussão da formação.
A formação acadêmica tida como insuficiente na preparação de profissionais para
atuação na Política de Assistência Social é um discurso recorrente ao longo dos anos
(FONTENELE,

2008,

MOTA;SCARPARO,

CRUZ,

2013,

2009,

ANDRADE;

SEIXAS;YAMAMOTO,

2012,

ROMAGNOLI,
ARAÚJO,

2010,

2014).

A

formação/graduação precisa, sim, discutir atuação profissional nas políticas públicas,
inclusive na PNAS, mas não pode trazer o fetiche da total preparação para a vida profissional.
Manoela (Psi), quando fala em trazer experiência de vida, traz também os sentidos de afeto,
emoção, relação interpessoal, o que certamente não compete à formação acadêmica.
Em seguida, trazendo o foco para o usuário, Manoela (Psi) fala sobre a
‘interdisciplinaridade’ (97) enquanto junção de saberes necessária para atuar junto a um ser
humano total, completo, que é o usuário do serviço. E, nesta linha de construção dialógica,
fala sobre o termo ‘união’ (99), argumentando que esta é algo necessário para se desenvolver
um bom trabalho. A partir desta condição necessária, a união, Manoela (Psi) fala sobre o
‘trabalho em equipe’ (102) e relata situações vivenciadas no local de trabalho para argumentar
que quem não sabe trabalhar em equipe não consegue continuar na mesma. Utiliza o “saber
trabalhar em equipe” como requisito, como condição de permanência do profissional no
trabalho, como pré-condição para o trabalho no CRAS e que este “saber” depende de ‘união’,
ou seja, novamente o foco é nas relações interpessoais e não disciplinares.
Augusta (A.S.) é a próxima que se apresenta e inicia com os termos ‘respeito’ (114) e
‘trabalho em equipe’ (114), ressaltando a necessidade do respeito ao colega em virtude da
diferente formação profissional. Fala que precisa do outro profissional, do profissional de
outra formação, no caso o psicólogo, reconhecendo os próprios limites. Focaliza em primeiro
lugar a forma de interação entre os profissionais e a necessidade um do outro para um
trabalho em equipe.
Continuando, Augusta (A.S.) traz o termo ‘construção e troca’ (132) e fala do
constante processo de aprendizado vivenciado a partir do trabalho desenvolvido juntamente
com colegas, e traz a necessidade de construção conjunta de intervenções nos atendimentos,
inclusive com a participação de mais assistentes sociais e mais psicólogas, a partir da
complexidade dos casos. Ela faz esta afirmação a partir do conhecimento da configuração das
equipes dos CRAS de Maceió, que contemplam, via de regra, quatro assistentes sociais e dois

68

psicólogos, o que permite que se consigam apenas dois pares de profissionais de formação
diferente para atuar nas diversas intervenções. Enfatiza a importância do compartilhamento
das ações de psicólogas e assistentes sociais pela experiência vivida e a necessidade de mais
ações conjuntas em situações complexas. Faz uma associação entre construção conjunta –
troca de saberes – ação no desempenho das atividades profissionais no CRAS.
Augusta (A.S.) reafirma a importância de reconhecer a necessidade da atuação
conjunta do outro profissional: “Então, isso eu acho que é importante, a questão da troca,
questão de você realmente saber o momento de trabalhar em equipe mesmo, porque ali às
vezes você não sabe tudo” (139).
E retoma o termo ‘trabalho em equipe’, trazido por Manoela (Psi), ressaltando sua
importância no trabalho do CRAS: “Eu acho que o importante do CRAS é isso, a gente saber
trabalhar em equipe, né? E de construção mesmo, de conhecimento, de troca...” (149)
Movida pelo encadeamento dos diálogos construídos até aquele instante da oficina,
Norma (A.S.) retoma a palavra e reafirma o posicionamento da Augusta (A.S.) sobre a
limitação de cada um e a necessidade do outro:
E quando se fala assim em equipe, se você não tiver uma abertura pra equipe,
realmente você vai criar uma certa dificuldade pra toda aquela equipe, né? Você
também sentir... Porque tem pessoas que parecem não se engajam muito com a
equipe... ainda tá mais de trabalhar mais só. Mas uma cabeça só não consegue dar
conta. A gente precisa realmente dessa soma, né, dessa parceria. Eu acho que isso aí
é o que é bacana! (182)

Norma (A.S.) reconhece que há profissionais mais voltados ao trabalho individual, mas
ressalta a necessidade deste profissional abrir-se para o trabalho em equipe, para o trabalho
conjunto, sob o risco de criar dificuldades para a própria equipe.
Bruna (A.S) utiliza a palavra e faz alguns relatos de parte de sua vivência profissional
na Política de Assistência Social e relembra algumas dificuldades de alguns serviços, quando
do início da operacionalização da Política Socioassistencial, pela ausência do profissional de
Psicologia:
Porque antigamente, eu sou mais (antiga)... e aí... quando a gente... não existia
psicólogo nos serviços da Política de Assistência né, antes. Principalmente no
interior. A partir do Sentinela5 foi que se iniciou. Porque o Sentinela veio antes, em
alguns municípios vieram antes dos CRAS. É... Então ele, ele, ele... não conseguia
identificar, não conseguia identificar o psicólogo nos serviços. Então, quando o
usuário chegava lá, ele primeiro ia desabafar todas as suas angústias, e a gente, nós
como assistentes sociais, nós ouvíamos, mas a gente não conseguia dar uma
resposta. Talvez, não sei se a palavra seja resposta, não conseguia dar... é... aquele
retorno que aquela pessoa naquele momento... (188).
5

Sentinela era um programa da Política de Assistência Social que buscava desenvolver trabalhos com famílias
com história de abuso e exploração infantil. Foi o precursor do atual Centro de Referência Especializado de
Assistência Social - CREAS.

69

Em sua fala, Bruna (A.S.) remete a um modelo de atuação perpetuado pela Psicologia
ao longo do tempo, o modelo clínico, de atendimento voltado para o indivíduo. Cruz (2009),
em sua pesquisa com psicólogos de Sergipe, chama a atenção para esse tipo de intervenção
inadequada para atuação no CRAS, mas ainda presente neste espaço:
A pesquisa pôde revelar que a ampla maioria dos psicólogos [...] Admitem fazer
psicoterapia com grupo, com familiar, com casal e, principalmente, individual. O
que demarca o caráter, predominantemente clínico, de grande parte dos psicólogos
que trabalha na área da assistência (CRUZ, 2009, p. 22)

Costa; Cardoso (2010) apontam como um grande desafio a criação de uma forma de
atuação da Psicologia, diferente da prática privada e liberal, que ainda se dava nas políticas
sociais aos moldes do modelo médico-clínico, segundo Seixas; Yamamoto (2012).
Mais recentemente, em 2014, Oliveira et.al., pesquisando a atuação de psicólogos no
interior do Rio Grande do Norte, constatou que a atividade clínica é uma das existentes no
CRAS, mesmo não se configurando como atividade de atribuição do Serviço (OLIVEIRA
et.al., 2014, p. 109). Então, se entre os próprios psicólogos tinha-se/tem-se a necessidade de se
dar respostas através da atividade clínica, não é de se admirar que Bruna (A.S.), à época do
Sentinela, sentisse essa necessidade e, a partir daí, apontasse para a importância do
profissional de Psicologia, ainda que a partir do enfoque clínico.
Em seguida, Bruna (A.S) traz para a discussão a questão do papel, do fazer
profissional do assistente social e do psicólogo:
O assistente social às vezes, às vezes era considerado como aquela pessoa que era
meio seca, porque a gente ouvia, entendia, conversava, mas assim, não era o papel
da gente... Até por causa da nossa formação mesmo, de tá aconselhando ou fazendo
qualquer outra coisa que se assemelhasse com a resposta que a Psicologia podia dar.
(...) Então... aí... hoje eu já vejo assim, que o psicólogo e o assistente social, hoje a
gente já sabe identificar, tanto a equipe... nós tivemos, assim, dificuldades no
começo né! Porque dizia não sou eu que tenho que fazer isso, não sou eu que tenho
que fazer aquilo, isso não é meu, isso não é seu... A gente teve no começo essa...
esse embatezinho, né! (198)

A experiência relatada por Bruna (A.S.) traz à tona uma discussão que circula tanto
nos espaços de trabalho quanto em produções acadêmicas, sobre o papel do psicólogo. Dentre
outros autores, Macedo; Dimenstein (2012) fazem essa discussão, ressaltando em sua
pesquisa que o cotidiano de profissionais nesta política pública traduz-se num mundo de
incertezas devido, entre outras questões, a dificuldade que eles têm de encontrar e definir seu
papel. Bruna (A.S.) relata que também sentia essa incerteza, recordando as dificuldades em
um passado recente de sua trajetória profissional e compara com a experiência atual. No
entanto, sinaliza que houve uma mudança na relação entre psicólogos e assistentes sociais,
que inicialmente se estranhavam e que agora já se reconhecem.

70

Diante deste relato, Karla (Psi) mostra-se curiosa e interessada naquele contexto
histórico trazido por Bruna (A.S.) e lança a esta a seguinte questão:
Como foi pra você, não falo só você, mas a equipe que tava com você na época do
Sentinela, como você fala, chegar um psicólogo no grupo? Se sempre foi Assistente
Social, Secretaria de Assistência Social, aí a chegada de psicólogo!(210).

A interpelação de Karla (Psi) traz em seu cerne uma discussão que ainda se escuta no
âmbito dos CRAS, bem como de outros serviços da Assistência Social, defendida por alguns
profissionais de Serviço Social, qual seja, a de que a Política de Assistência Social é uma
política pública em que o Assistente Social é o profissional por excelência. Um discurso em
que se tenta supervalorizar tal profissional em detrimento de outros neste campo.
Bruna, responde ao questionamento de Karla:
A gente estranhou bastante, estranhou bastante mesmo. E a gente ainda ficou nesse o
que é que é meu, o que é que é seu? Porque nem o psicólogo sabia no momento o
que era o papel dele. Ele... no começo a gente fez clínica... Nós erramos muito,
erramos muito pra poder chegar onde a gente chegou hoje (213).

Aqui, Bruna (A.S) traz a discussão para um âmbito coletivo. Para ela, não se tratava de
um problema do Serviço Social ou da Psicologia, mas de uma política pública que ainda
buscava fincar suas estruturas e capilaridade pelos mais variados municípios. E ao mesmo
tempo, Bruna (A.S.) reconhece que ocorreram avanços das equipes no desenvolvimento da
política socioassistencial (“pra poder chegar onde a gente chegou hoje”). Traz, assim, um
ponto de vista importante, pois reconhece que, mesmo existindo dificuldades dos serviços, a
relação profissional entre assistentes sociais e psicólogos se fortaleceu ao longo do tempo.
Retomando a atividade sobre a associação de ideias relacionadas à ação conjunta,
Bruna (A.S.) continua sua exposição a partir da palavra ‘planejamento’ (227). Afirma que
“numa ação conjunta precisa planejamento” (227). Não discorre a respeito do termo, contudo
em seu enunciado anterior, quando compartilhou sua experiência profissional, trouxe
elementos que colaboram com a ideia de necessidade de planejamento.
Traz, ainda, o termo ‘parceria’ (227), como algo que está atrelado à confiança: “Se
você não tiver aquela parceria com a sua colega, seu companheiro lá, você não vai ter
confiança pra trabalhar com ele”. (227). Trabalhar em parceria, para Bruna (A.S.), é confiar
no outro.
Fala ainda que uma ação conjunta exige ‘compartilhar informações’ (228). Aqui,
Bruna (A.S.) faz uma problematização sobre o compartilhamento de informações de usuários
entre o assistente social e o psicóloga, e se posiciona a favor do compartilhamento. Tal
questão levantada por Bruna (A.S.) tem como pano de fundo uma discussão bastante atual e
efervescente no âmbito dos Conselhos Federais de Psicologia e de Serviço Social. Trata-se da

71

criação, por parte do então Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (que
coordena ações da Assistência Social na esfera federal), de um instrumento de registro de
informações sobre o atendimento de usuário, que o profissional deve utilizar em alguns
serviços da Assistência Social. Este instrumento, que é de uso compartilhado entre assistente
social e psicólogo, é denominado de Prontuário SUAS e sua implantação tem suscitado
discussões nacionais e regionalizadas, sobretudo no que diz respeito ao sigilo e ao
compartilhamento de informações. Como toda e qualquer discussão polarizada, há os que
defendem e há os que se posicionam contrários ao compartilhamento de tais informações.
Estes últimos, em sua maioria, fundamentam-se na alegação da necessidade do sigilo
profissional.
Em seguida, Bruna (A.S.) deixa claro que é a favor do compartilhamento de
informações, mas que esse compartilhamento “vai exigir confiança” (234) para com o outro
profissional, o que “passa pela questão ética” (237), no sentido de não compartilhar o que o
usuário não aceite que seja compartilhado.
Bruna (A.S.) traz uma importante reflexão ética, na medida em que a faz voltada não
apenas para a ação profissional, mas para a vontade do usuário. Ela desloca o foco da
discussão ética da ação pura e simples do profissional, que corre o risco de desvio ético por
seu procedimento, para a vontade do usuário. Este modo de pensar posiciona o usuário como
protagonista das ações da Política, posto que o faz opinar sobre um instrumento que conterá
informações a seu respeito.
Tal posicionamento de Bruna (A.S.) faz suscitar, aqui, uma reflexão sobre uma ética
dialógica, que é discutida por Spink (2000) tratando sobre a ética em pesquisa, mas cuja
discussão pode ser transferida para o campo da ética no tratamento com o usuário do CRAS.
Para esta autora o distanciamento do pesquisador, pelo seu saber competente, para com o
colaborador da pesquisa, pode transformar o outro em mero objeto e estabelecer uma relação
hierárquica de poder, levando o pesquisador a exigir obediência. E tal risco também corre o/a
profissional do CRAS.
Spink faz um contraponto à ética prescritiva (que é fria, baseada em códigos de
conduta e competência técnica) a partir da reflexão sobre competência ética, baseada numa
ética dialógica. Para ela “a ética dialógica [...] leva os preceitos éticos de plena informação,
livre consentimento e análises de riscos e benefícios às últimas consequências” (SPINK,
2000, p. 20). Tais preceitos podem ser pensados também na relação que se estabelece entre
profissionais e usuários do serviço, ao que Bruna (A.S.) chama a atenção.

72

Bruna (A.S.) defende, ainda, que a ação conjunta exige que se ‘respeite as visões de
mundo’ (239), fala sobre um ‘somatório de conhecimentos’ (240) e em ‘respeitando os
saberes’ (241), referindo-se aos conhecimentos do Serviço Social e da Psicologia.
Mesmo elencando uma série de exigências para o desenvolvimento da ação conjunta,
Bruna (A.S.) ainda entende que esta ação precisa ser avaliada. Mesmo com todo o
planejamento, em que sejam consideradas a ética, as diferentes visões de mundo e o
somatório de conhecimentos, as ações precisam de ‘avaliação’ (241). Por fim, menciona ainda
a necessidade de ‘segurança’ (246), no sentido de integridade física, como uma questão
presente e importante a ser considerada no desenvolvimento dos trabalhos, sobretudo em
visitas domiciliares, posto que algumas localidades apresentam um grau de violência que pode
pôr em risco a integridade física dos/das profissionais. E isto é retratado através de um relato
de uma experiência de visita domiciliar.
Iara (A.S.) é a próxima colaboradora da pesquisa a expor seus termos sobre ação
conjunta. E resume-os em ‘interagir’ e ‘compartilhar’ (261). Fala da interação como algo
necessário ao trabalho cotidiano, e como sinônimo de bom entrosamento e de saber trabalhar
em equipe. Defende que se devem compartilhar experiências e conhecimentos, e que o
assistente social não consegue dar conta sozinho dos atendimentos, esbarrando nos limites da
profissão (263). Argumenta que quando começou a trabalhar no CRAS não entendia o papel
do psicólogo na equipe e que hoje sabe de sua importância (267). Reafirma, aqui, o
compartilhamento do conhecimento pelo reconhecimento da necessidade do saber do
psicólogo e afirma que antes não sabia e hoje sabe a importância do psicólogo na equipe
(270). Reitera os outros posicionamentos sobre a relação interpessoal e o limite de cada
profissional.
Rita (Psi) é a próxima a se colocar e, discorrendo sobre o termo ‘ação conjunta’ (281),
fala que a Assistência Social enquanto política pública tem evoluído com o tempo, bem como
a relação entre os profissionais, possibilitando assim maior abertura para o desenvolvimento
de ação conjunta entre os profissionais (273). Traz uma linha do tempo que aponta mudanças.
Faz entrelaçamento entre a mudança na política e mudança nos profissionais. E defende que
isso tem produzido efeito de mudanças entre os/as profissionais. Afirma ainda que não se
pode pensar hoje, no SUAS, em ação que não seja conjunta. Coloca a relação dos dois
profissionais, psicólogo e assistente social, como uma relação interdependente. Diz que é
preciso ‘compartilhar’ (284) desde os saberes até as angústias e as discordâncias entre as
profissionais.

73

Rita (Psi) traz a reflexão de que a existência de discordâncias na equipe não deve
significar falta de compartilhamento, que uma equipe profissional não se constrói apenas com
concordâncias e consensos, mas também com dissensos e conflitos. E isso também dá
vitalidade à ação conjunta. Em seguida, traz a questão da interdisciplinaridade com o sentido
de complementariedade: “Aí eu pensei a ‘interdisciplinaridade’, né! Porque na verdade um
complementa o outro não é!” (288).
Discorrendo sobre ‘acolhida’ (293), Rita (Psi) posiciona-se a favor de uma acolhida de
forma unificada, apesar das visões profissionais diferentes, no sentido de permitir que o
usuário do serviço seja e se sinta escutado.
Sobre a ‘escuta qualificada’ (299), Rita (Psi) novamente direciona a atenção para o
usuário, afirmando que é preciso escutá-lo em sua essência: “não basta só a gente escutar,
ouvir, mas a gente precisa tá escutando o que o indivíduo tá falando né, na sua essência, nas
suas angústias” (299). Rita (Psi), assim como Bruna (A.S.) acima, traz reflexões sobre uma
ética ‘da’ e ‘na’ relação, que não se dá na forma de manual de procedimentos, mas uma ética
que é dialógica entre profissional e usuário.
Fala também dos ‘entrelaçamentos’ (301) das profissões e das visões de mundo,
ressaltando aí o crescimento contínuo e conjunto que esses entrelaçamentos proporcionam.
Ressalta ainda a possível convergência das diferentes ‘visões de homem’ (302) por parte dos
profissionais, para a atuação conjunta. As diferentes visões de homem não seriam impeditivas
para a ação conjunta e sim propulsionadoras dela, o que permitiria, para Rita (Psi), construir
inúmeras ‘possibilidades de atuação’ (310).
Rita (Psi) fala ainda sobre necessidade do profissional de trabalhar suas ‘congruências
e incongruências’ (311) no sentido de um autoconhecimento necessário no intuito de dar
conta de suas próprias questões pessoais e profissionais, evitando que um possível “não saber
lidar consigo mesmo” atrapalhe a atuação profissional.
Rita (Psi) finaliza sua fala e Norma (A.S.) imediatamente se posiciona a respeito do
termo ‘escuta qualificada’ (319) utilizado por Rita (Psi), argumentando que essa escuta
precisa ser feita não só com o usuário, mas com colega de trabalho:
isso serve também para os profissionais... Pra ter essa escuta. Pra esse momento a
gente parar e conseguir realmente observar o que realmente o que ele tá passando,
né! Não apenas ouvir, porque aquilo dali a gente vai precisar refletir, né! Eu, com
senso crítico sobre aquela escuta que a gente tá fazendo sobre o parceiro também, o
companheiro, a companheira dessa ação conjunta (322).

A próxima participante a falar é Karla (Psi). E começa sua fala elencando uma série de
palavras/termos numa ordem sequencial, como uma norma para o acontecimento da ação

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conjunta. Assim, ela elenca os termos: ‘união’, ‘força’, ‘disponibilidade’, ‘comum a todos’,
‘relação de troca’ e ‘aprendizado’ (328). Sobre ‘aprendizado’, argumenta que se a ação é
conjunta, há aprendizado (332).
Em seguida fala que é necessário se ter ‘empatia’ (333) para poder saber lidar com o
outro. Neste momento, percebo que Karla (Psi) não deixa claro o que considera empatia,
então buscando compreender o sentido de empatia para Karla (Psi), lhe questiono: “Empatia...
seria o que pra você?” (335). A partir daí se desenrola um longo diálogo entre algumas
participantes acerca do termo ‘empatia’.
Karla (Psi) é a primeira a falar, visto que foi a ela que direcionei minha pergunta:
“Essa relação do... (...) de ir com o outro, de ir com a cara do outro, saber lidar com o outro.
Porque se eu não tiver um bom relacionamento com você, eu acho mais difícil o trabalho
fluir...” (336).
Aqui, Karla (Psi) refere empatia com um sentido de relacionamento pessoal com o
outro, relação de afinidade. Considera isso importante para o desenvolvimento do trabalho. E
está conectada com a fala anterior da Norma (A.S.), que direciona a necessidade de escutar o
colega. Focalizam reiteradamente as relações interpessoais.
Em seguida, Bruna (A.S) fala:
A empatia na vida profissional acho que tá muito aberto a você tá... tá muito ligada a
você estar aberta a querer ter uma relação boa de trabalho, né. Porque a gente tem
que aprender... Eu acho assim também, porque a gente tem que aprender a conviver,
a trabalhar... (342).

Bruna (A.S.), em seu argumento, defende a empatia no sentido de bom relacionamento
com o outro.
Manoela (Psi) toma a palavra:
E essa questão da empatia também é aquele aspecto de você se colocar no lugar do
outro. Como é que ele tá se sentindo? Se fosse comigo, como é que eu iria tá me
sentindo? Como é que eu gostaria que agissem comigo? É muito isso, de parar, de
refletir, como seria se... como a gente gostaria de ser tratado naquela situação (352).

Manoela (Psi) traz aqui a empatia para além do bom relacionamento trazido por Bruna
(Psi) e Karla (Psi), no sentido de que empatia é colocar-se no lugar do outro, como uma autoavaliação no trato deste outro.
Bruna (A.S.), que já havia trazido o argumento da empatia enquanto relacionamento,
antes da fala de Manoela (Psi), retoma a palavra e prossegue falando sobre amadurecimento
nas relações e neste sentido qualificando os profissionais (mais maduros ou menos maduros) a
partir do grau de escolaridade:
...O pessoal de nível superior ainda tem um pouco mais de amadurecimento, e ainda
temos muitos ransos. Mas o pessoal de nível médio e fundamental, eu sinto assim

75

que eles estão muito despreparados pra vida profissional. Então, assim, parece que é
a continuidade da casa... (357).

Bruna (A.S.) hierarquiza a capacidade de se relacionar entre os profissionais pelo grau
de escolaridade entre eles. Para ela, quanto maior o grau de escolaridade da pessoa, mais
preparada ela está para a vida profissional.
Ainda nesse contexto, Norma (A.S) se posiciona contrária ao argumento de Bruna, ao
considerar a diversidade como algo positivo e não como uma barreira:
Eu acho que essa questão da empatia ela também vai passando por essa... Essas
questões todas que estão colocadas aqui, e também a questão da diversidade, né!
Essa diversidade que a gente tem que eu acho que é um espetáculo. Enquanto as
pessoas veem como barreira, né... (366).

Em seguida, Débora (A.S.) expressa os termos que listou, relacionados à ação
conjunta, sem discorrer sobre eles:
As palavras que me vieram à cabeça... Assim, nem foi pensando no âmbito da
assistência, mas no âmbito da palavra mesmo, da semântica... foi a questão de ação
conjunta, da ideia de ligação, de parcerias, de forças atuando em conjunto com
algum objetivo, integração também... (376).

E dialoga com a fala de Manoela (Psi), sobre a interdisciplinaridade: “... Aí no âmbito
profissional me veio a palavra ‘interdisciplinaridade’, como a Manoela falou né, essa junção
de saberes, essa união pra enriquecer...” (379).
Traz também a palavra ‘totalidade’ num sentido mais macro, para além da atuação
setorial, entre os pares, num sentido de integração das políticas públicas, para atender as
várias demandas do ser humano:
E a questão da totalidade, aí já pensando na Política ou a integração de políticas, né,
de atuar não Assistência separadamente, né, mas em conjunto com as outras
políticas, e até mesmo de identificar esse nosso usuário, esse cidadão, esse ser
humano enquanto ser humano e não compartimentalizado (380).

Os repertórios trazidos pelas colaboradoras, sob a forma de associação livre, neste
momento da oficina, podem ser classificados em três categorias: repertórios que apresentam
sentidos relacionados a características individuais do profissional; repertórios que apontam
sentidos relacionais entre os profissionais e repertórios que enfatizam os aspectos técnicos.
Os repertórios relacionados às características individuais do profissional aparecem em
termos como ‘acolhimento’, ‘planejamento’, ‘ética’, ‘compartilhamento de informações’,
‘escuta qualificada’. Aqui são ressaltadas características individuais das profissionais como
um pré-requisito importante para o desenvolvimento de ação conjunta. Aparecem no sentido
de condição pessoal (individual) para a ação conjunta. Como afirma Shotter (2011), a ação de
uma pessoa é parcialmente influenciada pela ação de outras pessoas, o que permite pensar que

76

os aspectos relacionais dependem dos aspectos pessoais para o desenvolvimento de ações
conjuntas.
Os repertórios que apresentam um sentido relacional, pela própria proposta da oficina,
aparecem com mais frequência: troca de saberes, trabalho em equipe, respeito, parceria,
aprendizado a partir da atuação com o outro, troca, união, construção, confiança, interação,
entrelaçamento das profissões, empatia, integração, entre outros. Tais aspectos são
considerados como necessários para proporcionar o desenvolvimento pleno da ação conjunta,
ou de ações conjuntas, pulverizada em outros aspectos, sem sinalizarem uma hierarquização
entre eles.
De forma geral, as participantes trazem em suas falas que os aspectos relacionais são
necessários para que as equipes funcionem. É condição de funcionamento das equipes. O
trabalho conjunto de psicólogas e assistentes sociais observado na pesquisa de Cruz (2009, p.
20), caracterizado como “... poucas atividades são desenvolvidas de forma conjunta pela
equipe técnica” e na pesquisa de Senra; Guzo (2012, p. 295) apontado como ponto de conflito
gerando dúvidas sobre a atuação destas profissionais, aqui, é trazido como ponto central, de
convergência para atuação de ambos. A ação conjunta é avaliada como aglutinadora da
intervenção profissional, a partir dos aspectos relacionais da equipe profissional.
Os aspectos técnicos surgiram com menos frequência nos repertórios das
colaboradoras durante a oficina, não se configurando como centrais para o desenvolvimento
de ação conjunta, mas como importantes neste processo. Os repertórios ‘ações coletivas’ e
‘visitas em domicílio’ são exemplos disso. Tais repertórios se referem a questões de ordem
técnica que, inclusive, são trazidas como orientação técnicas para o desenvolvimento do
trabalho nos CRAS pelo documento Orientações técnicas sobre o PAIF vol 2. Trabalho
social com famílias do serviço de proteção e atendimento integral à família (BRASIL,
2012). A predominância dos aspectos relacionais no desenvolvimento da ação conjunta não
significa abandonar o aspecto técnico. De outro modo, a ação conjunta propicia um ambiente
mais favorável ao desenvolvimento técnico do trabalho.

4.2.3. Segunda parte da oficina: relato de experiências de ação conjunta.

Terminado o primeiro momento da oficina, proponho então a segunda atividade: peço
que as participantes tragam experiências sobre ação conjunta, respondendo a uma questão
disparadora: “Quais experiências no CRAS você vivenciou como ação conjunta?” Proponho
que expressem no papel e depois compartilhem com o grupo. Entrego às participantes

77

algumas tarjetas adesivas, que serão colocadas em um painel após a exposição de todas, e
esclareço algumas dúvidas individualmente. As pessoas levam alguns minutos para escrever
suas experiências. O grupo se mostra mais descontraído e traz algumas conversas paralelas
sobre o cotidiano delas. Concomitantemente à atividade, algumas pessoas aproveitam para
lanchar e tomar um café.
Convido as participantes a expor suas experiências ao grupo. Luciana (Psi) é a
primeira a se colocar. Relata a experiência de uma visita a uma família, que realizou junto
com uma assistente social:
Assim, de uma experiência foi que fui fazer uma visita, né, que precisou do
assistente social atuar junto comigo, que sozinha... A gente vê mais a questão
subjetiva, a gente vê logo, esse olhar nosso, né, do psicólogo. Então precisou
também dessa parte do Serviço Social, a questão social, moradia, essas coisas...
(453).

E Luciana (Psi), referindo-se a visita à família, continua:
...teve lá uma família que não... super vulnerável. Não tinha renda, não tinha onde
morar, não tinha o que comer, não tinha... Aí eu fiquei sabe, Nilton, como é que eu
vou atuar agora como psicóloga? O que é que eu vou dizer a ele? Vou pelo menos
acolher, fazer essa acolhida né. Escutar o que essa família traz, a demanda. E fazer
os encaminhamentos. Mas foi difícil, porque a família não tinha suporte nenhum,
não tinha nada. Aí junto com a assistente social, vamos ver o que é que a gente pode
fazer por essa família, porque realmente era do zero mesmo, não tinha base
nenhuma, não tinha nada. (457).

Luciana (Psi) destaca o limite de sua intervenção, a escuta e a acolhida na sua ação de
atendimento à família, pois mesmo considerando especialidades de campo de saber da
Psicologia (a subjetividade) e do Serviço Social (a objetividade), identifica a necessidade de
decidirem juntas o que fazer, como agir em relação à família atendida. Exemplifica ações
concretas que, junto com a assistente social, realizou, e a articulação que fizeram junto a
outras políticas setoriais para viabilizar direitos da família em questão.
Bruna (A.S) é a próxima a falar. Relata a construção do projeto de pesquisa do
mapeamento dos territórios dos CRAS como uma experiência muito importante (507).
Refere-se a uma pesquisa para diagnóstico da exclusão social nos territórios dos CRAS, que
foi proposta por um conjunto de coordenadoras e demais profissionais de CRAS e realizada
por todos os profissionais dos CRAS de Maceió, inclusive os estagiários, entre os anos de
2009 e 2010. Teve como objetivo um diagnóstico social dos territórios de abrangência dos
CRAS, para que as equipes pudessem pensar, planejar, propor e desenvolver ações de acordo
com as necessidades sociais identificadas nesses territórios. A metodologia utilizada foi a
aplicação de questionários com perguntas que abrangiam desde a posse de documentos
pessoais, passando por dados de moradia, escolaridade, lazer e participação comunitária, até o

78

nível de satisfação das pessoas na comunidade e alguns comportamentos familiares, entre
outros.
Sobre esta experiência, Bruna (A.S.) fala:
E aí, quando a gente começou a construir o projeto, a gente disse: e quem vai
responder sobre isso? E as questões que iam aparecendo, e quem vai responder sobre
isso? E aí a gente se deparou com o que... não tinha psicólogo na equipe da
construção do projeto, né! E aí a gente disse: não, vamos chamar os psicólogos pra
fazer junto o projeto com a gente e aí, a partir daí a gente começou a construir dentro
do nosso instrumento e dentro do projeto de pesquisa o que seria o início do trabalho
em conjunto com os CRAS. Acho que ali, eu acho que foi um divisor de águas, o
projeto de pesquisa, porque a gente começou a fazer uma leitura em conjunto. O que
é que a gente precisa saber da Psicologia, dentro do nosso território? O que é que a
gente precisa saber do Serviço Social?... (516).

Bruna (A.S.) focaliza na construção do projeto de pesquisa o reconhecimento do limite
de seus conhecimentos, posto que no início desse projeto participavam apenas assistentes
sociais. Eis aí um fato histórico trazido no relato de Bruna (A.S.), do qual também fiz parte
como psicólogo de um CRAS e fui chamado para participar. Foi o início de um trabalho
conjunto, como refere Bruna (A.S.). É importante ressaltar que as equipes dos CRAS já eram
constituídas de psicólogos e assistentes sociais antes da construção do projeto. Mas Bruna
(A.S.) refere que só a partir daí é que pôde perceber um trabalho conjunto.
Na sequência de sua fala, Bruna (A.S.) relata a grandiosidade que foi o trabalho
realizado por assistentes sociais e psicólogos à época, com a colaboração de estudantes das
duas áreas, no sentido de que foi um trabalho de grande porte, com aplicação de milhares de
questionários nas comunidades. Assim, a ação conjunta se deu desde a composição do projeto
de pesquisa e criação do instrumento de pesquisa (questionário) até a aplicação dos
questionários nas comunidades atendidas pelos CRAS.
Em seguida. Bruna (A.S.) traz uma outra experiência como exemplo de ação conjunta,
que é o grupo de estudos dos CRAS:
E uma outra coisa que surgiu a partir, também do projeto da pesquisa, do
mapeamento dos territórios, que é uma outra experiência, foi o grupo de estudo. O
grupo de estudo é importantíssimo!(...) Como a gente avançou na leitura de mundo
da gente, né! Pra gente ter pelo menos um nivelamento entre os psicólogos e
assistentes sociais... (530).

Resultante também da necessidade das equipes dos CRAS de compreenderem dados
oriundos da pesquisa realizada nos territórios, bem como de se apropriarem de conceitos e
diretrizes da Política de Assistência Social, o grupo de estudos dos CRAS foi criado em 2012.
Funcionando desde então, o grupo de estudos, do qual também participei por algum tempo, é
composto por profissionais dos CRAS (hoje com 15 unidades) e se reúne sistematicamente,
sempre no horário de trabalho. Cada reunião funciona em unidade de CRAS diferente, de

79

forma a permitir que os profissionais experienciem tanto a dificuldade de se locomoverem
para outro CRAS quanto à comodidade de terem o encontro realizado em seu local de
trabalho. A participação no grupo de estudos não é obrigatória e funciona com a condução de
uma equipe técnica de assistentes sociais da coordenação geral dos CRAS, que aglutina e
organiza temas para estudo a partir das demandas dos serviços.
Bruna (A.S.) remete-se ao grupo de estudos como algo positivo e necessário para que
as equipes dos CRAS tenham um entendimento do melhor funcionamento dos serviços do
Sistema Único de Assistência Social, ao que ela nomeia de ‘nivelamento’.
Ainda sobre o grupo de estudos, Bruna (A.S.) o considera como uma experiência
inovadora: “Então o grupo de estudo pra mim também ele é uma experiência inovadora
porque eu só conheço grupo de estudo de CRAS em Maceió, em outro lugar eu não conheço.
Conheço várias colegas do interior, não conheço [grupo de estudo]” (539).
Bruna (A.S.) remete-se ao grupo de estudo como uma possibilidade de crescimento
conjunto, de aprendizagem e de fortalecimento das equipes, a partir da iniciativa dos próprios
profissionais dos CRAS: “E mais importante do que tudo isso é que essa iniciativa não partiu
da gestão. Partiu das equipes. Das equipes técnicas. Dos técnicos, que têm interesse em
aprender...”(553).
O grupo de estudo foi um assunto que empolgou as participantes da oficina, num
movimento de concordância sobre os seus efeitos positivos. Sobre isso Rita (Psi) fala:
Esse grupo de estudo eu acho extremamente importante, eu acho na verdade um
marco dentro da Política de Assistência não só daqui de Alagoas, mas quiçá do país,
porque a partir daí a gente modificou uma série de conceitos e ressignificou muita
coisa da nossa prática mesmo dentro da Política de Assistência, né! (562).

Rita (Psi) enaltece o grupo de estudo, colocando-o como uma iniciativa de referência,
inclusive, para outros estados. Discorre um pouco mais sobre o grupo de estudo, a partir das
mudanças que ele proporcionou às equipes, como por exemplo, conceitos, modos de atuar e
instrumentos técnicos utilizados pelos profissionais. Neste momento Rita (Psi) e Bruna (A.S.)
concordam que o grupo de estudos proporcionou avanços na medida em que propiciou
reflexão crítica nos profissionais sobre seus próprios modos de atuação e sobre o sentido de
determinadas práticas profissionais.
A experiência do grupo de estudos do CRAS, trazida aqui por algumas colaboradoras,
nos remete novamente à questão da formação acadêmica. Problematizada já por alguns
autores/autoras, a formação aparece em vários discursos como deficitária e insuficiente para
preparar psicólogos e psicólogas para atuação do SUAS.

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Desde 2008 Fontenele (2008) já apontava para a necessidade de se ter cursos de
formação/graduação que preparassem psicólogos para intervir nas políticas públicas, entre
elas a Assistência Social. Cruz (2009) referia como um dos desafios para os psicólogos no
SUAS a qualificação e capacitação profissional. Seixas;Yamamoto (2012, p. 486)
problematiza a formação para além da graduação, a partir de uma formação continuada, mas
enfatiza que a formação continuada dos profissionais de Psicologia “...é feita na área clínica,
sobretudo em especializações profissionalizantes, reforçando assim modelos de intervenção
profissional”. Motta; Scarparo (2013) chamam a atenção para a necessidade de a Psicologia
reiventar suas práticas a partir também da formação profissional, considerando que existe um
descompasso entre a formação e a atuação profissional.
A oficina com as profissionais dos CRAS traz a experiência do grupo de estudos como
uma possibilidade, de potencial elevado, de se investir na formação profissional de forma
continuada, permanente e ativa. O grupo de estudos foi e é uma iniciativa dos próprios
profissionais dos CRAS, que já acontece há algum tempo, e que colabora na qualificação do
trabalho técnico e conjunto dos profissionais. Ele se desenvolveu a partir da abertura de tais
profissionais para o encontro com o outro, para uma construção coletiva.
A discussão sobre os ganhos com o grupo de estudo promove, naquele momento da
oficina, a reflexão sobre o papel do CRAS. Bruna (A.S.) enfatiza que a partir do grupo de
estudos ficou mais claro qual seria o papel do CRAS: “Porque a gente fazia tudo, lavava,
passava, cozinhava, fazia Cadastro Único, fazia Bolsa Família, fazia visita, fazia atividade da
Saúde, fazia tudo que tinha, menos o Acompanhamento Familiar, que é o papel principal do
CRAS.” (584).
O Acompanhamento Familiar, a que Bruna (A.S.) se refere, é um serviço delineado na
Política de Assistência Social, como principal trabalho a ser desenvolvido pela equipe técnica
de nível superior do CRAS, conforme dispõe o volume 2 do documento de Orientações
técnicas sobre o PAIF (Brasil, 2012).
Manoela (Psi) também referencia o grupo de estudos como experiência importante de
ação conjunta, no sentido de que ele proporcionou um relacionamento mais estreito com as
outras equipes de outros CRAS: “...quando eu comecei a participar do grupo de estudos eu
visualizei as pessoas que trabalham em outros CRAS e as experiências delas” (590).
O grupo de estudos funcionou, a partir das falas das participantes da oficina, como
elemento que agrupou profissionais não só de formação acadêmica diferente (Psicologia e
Serviço Social) mas, sobretudo, de unidades de CRAS diferentes, de equipes diversas. Muitas
pessoas que não se conheciam passaram a ter esta possibilidade, a partir do espaço de

81

conversa, de estudo e de construção coletiva que se proporcionou. Foi neste espaço que pude,
também, conhecer e trocar informações e experiências com colegas de outras unidades,
estreitando os laços profissionais/relacionais. O grupo de estudos contribuiu também para a
mudança no funcionamento e nos fluxos de atendimentos nos CRAS. E essa é uma questão
compartilhada entre Rita (Psi), Débora (A.S.), Luciana (A.S.) e Manoela (Psi) na oficina, ao
relatarem pequenas experiências de mudanças às quais relacionam ao grupo de estudos.
Trazendo ainda observações sobre as contribuições do grupo de estudos e do projeto
da pesquisa diagnóstico dos CRAS, Rita (Psi) ressalta a importância do caráter autônomo da
criação de ambos, a partir de iniciativas próprias, da necessidade das próprias equipes, sem
que fossem motivadas por alguma exigência normativa ou caderno de orientações
ministeriais:
Sem contar que a motivação, quando surge espontaneamente, assim, como esses
movimentos, tanto do grupo de estudos quanto do... da pesquisa, a motivação é
muito maior né! Não que agente não acate questões que vem do MDS [Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome]6 ou da própria gestão, mas quando é
um movimento que surge dos próprios técnicos, que é construído e que vem de uma
motivação espontânea acho que é muito maior. (617).

Débora (A.S.), em seu relato de experiências sobre ação conjunta, também concorda
que o grupo de estudos é um exemplo importante: “Listei também a experiência do grupo de
estudo, né! Vocês já falaram muito bem, mas assim eu também eu vejo como um marco,
como uma coisa revolucionária né...” (678).
Débora (A.S.), retomando o que Rita (Psi) trouxe anteriormente, ressalta que o grupo
de estudos propiciou, entre outros avanços, uma uniformidade nos instrumentos utilizados
pelos CRAS, e que essa padronização deu maior significado e importância ao trabalho
desenvolvido pelos profissionais: “E eu cito essa questão da troca de experiências, essa
questão dos instrumentos também, dessa padronização, dessa uniformização né... Antes cada
CRAS tinha o seu instrumento...” (680)
Débora (A.S.) lista ainda, de forma breve, outras experiências que considerou como de
ação conjunta: ações comunitárias desenvolvidas no CRAS, das quais participou: “...por
exemplo, trazer carteira de trabalho, CadÚnico, atendimento do Bolsa Família por exemplo,
alguns atendimentos da Saúde, fazer com que esses serviços sejam de mais fácil acesso pra
população, e elas não precisem se deslocar” (672), e o planejamento de atividades por parte
da equipe do CRAS: “E a questão do planejamento, que aí é um momento também que se
6

MDS era a sigla do órgão do poder executivo federal que coordenava, à época, as ações da Política de
Assistência Social em todo o país. Hoje, com mudanças ocorridas no âmbito do governo federal, o órgão passou
a se chamar MDSA (Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário).

82

precisa da ação conjunta, toda a equipe reunida pra elaborar, pra executar, pra avaliar, né;
ninguém planeja sozinho, ninguém faz as coisas sozinho...” (684).
Manoela (Psi) também referencia a pesquisa desenvolvida pelos CRAS como uma
experiência de ação conjunta e um marco na história dos CRAS de Maceió, que proporcionou
a união dos profissionais das várias unidades: “eu tenho esse olhar de que a pesquisa foi um
marco, foi a união de forças realmente, dos profissionais” (692).
E que essa união, ressalta, se deu em virtude de a pesquisa ter um propósito definido:
“e era aquela confusão, tinha estagiário e tudo, mas, assim, todo mundo ali unido, todo mundo
estressado mas com um propósito, que era a construção desse diagnóstico” (694).
Manoela (Psi) continua sua fala, trazendo também como Débora, o planejamento e
execução das ações do CRAS como exemplos de ação conjunta. De forma mais geral,
Manoela (Psi) relata que o planejamento conjunto das atividades é uma experiência coletiva
de colaboração, de junção de ideias, de concordâncias e discordâncias, de participação e de
reflexão coletiva:
Senta todo mundo, onde todo mundo dá a sua colaboração, todo mundo dá a sua
ideia. É... Há discordâncias, há acréscimos, enriquecimento daquelas ideias, e aí
todo mundo participa, ninguém fica com raiva de ninguém quando uma ideia não é
aceita ou aquela ideia é modificada, pelo contrário, a gente vai refletir sobre aquilo
(700).

Ressalta as ações coletivas, que são resultantes do planejamento conjunto, que além do
caráter participativo traz um sentimento de união pela ação: “...todo mundo ali junto né, a
gente esquece mesmo as diferenças e agente bota a mão na massa e a gente trabalha” (707).
Ao final de seu relato, Manoela (Psi) fala ainda da ‘avaliação’ como elemento
importante nas ações conjuntas desenvolvidas no CRAS. Traz o exemplo da realização de
eventos no CRAS para sustentar o argumento da importância de se avaliar as ações
desenvolvidas:
Aí depois às vezes a gente quer ir embora, aí não pera aí vamos sentar pra, vamos
avaliar né. Aí nas carreiras mesmo a gente avalia os pontos positivos, os pontos
negativos né, pra melhorar as próximas, os próximos eventos (710).

Norma (A.S.) traz um relato de acompanhamento de um cidadão com problemas
psiquiátricos, que era usuário do CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial) e que também
buscava apoio no atendimento do CRAS para tentativa de aquisição de alguns direitos, tanto
relativos à Saúde quanto à Assistência Social. A partir desse relato, Norma defende a
‘parceria’ como algo importante para desenvolvimento de ação conjunta no CRAS e relata
que buscava essa parceria não só internamente, mas também externamente, com outa política
pública (CAPS):

83

Então a gente vai acompanhando isso daí junto com... sempre na parceria... A gente
eu acho não tinha essa prática nunca de trabalhar sozinho. Sempre partilhava as
coisas, não tinha como não partilhar essas questões principalmente psiquiátricas que
precisava, e... muita coisa do CAPS nós ficamos sabendo, é... Essa parceria entre
CAPS e CRAS ainda... nós é que buscamos (742).

Em seguida, Norma (A.S.) e Tamara (Psi) fazem um longo relato de um caso de uma
outra paciente psiquiátrica que fora acompanhada por elas no CRAS, e que apresentava
demandas para além de questões psiquiátricas, como por exemplo violência doméstica.
Norma (A.S.) e Tamara (Psi) fazem, ainda, relatos de visitas domiciliares que fizeram juntas,
que apresentavam riscos à sua integridade física.
Tamara (Psi) prossegue na conversa e solicita a ajuda de Norma (A.S.) para expor sua
experiência de ação conjunta. Relata um caso de acompanhamento de uma usuária que tinha
discursos contraditórios, pois sofria de esquizofrenia paranóide e que já havia procurado
diversas instituições como o próprio CRAS, a Polícia, o Ministério Público e até um programa
policial de TV para fazer denúncias sobre violência doméstica no seio de sua família. Tamara
(Psi) relata que precisou da ajuda de Norma (A.S.), visto que trabalhavam na mesma unidade,
para realizar um melhor acompanhamento da usuária e para dar respostas mais qualificadas às
solicitações do Ministério Público sobre o caso:
Porque, assim, a gente foi pro Ministério (Público), Não é? A gente via assim... Eu
via essa parte, que a gente não deve, assim, ver só a questão da patologia, mas
existia uma patologia de fato... Era quando a Norma... (867) ...
E foi uma busca também do Ministério (Público) pra que a gente fosse atrás...
Embora primeiro quem procurou foi ela, ela sempre procurava todo canto, todo
canto já a conhecia. Ela tinha ido na Polícia várias vezes... (874).

Tamara (Psi) ressalta que a complexidade do caso, sobretudo por se tratar de uma
questão psiquiátrica de difícil manejo, tornava também difícil seu acompanhamento por parte
do profissional do CRAS e, neste sentido, precisou de uma ação conjunta com Norma (A.S.)
desde as primeiras visitas domiciliares, até idas ao Ministério Público e confecção de
relatórios sobre o caso, o que é ressaltado por Norma (A.S.): “E uma coisa que é muito
importante na parceria também é esse registro, né. Que se registre tudo, deixe registrado ali
pra que nada recaia sobre a gente também” (958).
Bruna (A.S.) intervém, e ressalta importância da parceria com o psicólogo: “Eu tô me
imaginando na situação sem ter um psicólogo do meu lado né. Porque até a gente descobrir
que realmente isso é uma questão psiquiátrica, nós iríamos passar muito sofrimento né...”
(960)
Tamara (Psi) faz ainda outro relato de atendimento a outro usuário do CAPS e do
CRAS, que também sofria de problemas psiquiátricos. Tamara (Psi) e Norma (A.S.) detêm-se

84

numa narrativa sobre particularidades do caso em si, chamam a atenção para a sua
complexidade e relatam os contatos interinstitucionais que precisaram fazer para acompanhar
o caso.
Diante da narrativa de Tamara (Psi) e Norma (A.S.), Bruna (A.S.) traz a reflexão da
necessidade de articulação da rede intersetorial:
...além da experiência da ação conjunta da ação, leve em consideração também a
questão da rede. Que ação conjunta ela não trabalha só com a gente, ela exige que
tenha uma rede de segurança, de direitos, que assegure direitos como o Ministério
Público, o CAPS, o Posto de Saúde, o CASA (Centro de Atendimento
Socioassistencial). Que ela precisa assegurar alguns direitos pra o usuário pra que a
gente possa ter uma ação conjunta de qualidade (1058).

Bruna (A.S.) ressalta que ação conjunta não deve se limitar à equipe do CRAS, deve
permitir uma articulação em rede com outras políticas para que se consiga garantir direitos
aos cidadãos.
Iara (A.S.) é a próxima a expor suas experiências de ação conjunta. É mais uma
colaboradora da pesquisa que fala do ‘planejamento’ de atividades com ação conjunta: “Bom,
eu coloquei aqui como experiência de ação conjunta o planejamento das atividades, que a
equipe do CRAS desenvolve, em tudo o que faz, né, que é feito em conjunto.” (1069).
Cita também o ‘grupo de estudos’, e a ‘elaboração do relatório’ da pesquisa dos
CRAS: “...lembrei da elaboração do relatório final da pesquisa, que também foi uma atividade
em conjunto né!... Foi uma ação conjunta.” (1071).
Iara (A.S.) acrescenta ainda como experiência de ação conjunta o atendimento a uma
usuária que realizou juntamente com uma colega psicóloga, porque, relata, precisou de sua
ajuda em tal atendimento:
...um caso que eu atendi, de guarda... a usuária chegou lá no CRAS, ela queria uma
orientação sobre guarda compartilhada, né, e aí no atendimento, na escuta, eu fui
vendo que tudo que ela precisava já tinha sido encaminhado. E aí eu percebi que
ela... não era apenas aquilo, entendeu? Ela tava assim, muito fragilizada,
descontrolada emocionalmente, e aí eu precisei da ajuda da colega (psicóloga) pra
poder conversar com ela. (1075).

Iara (A.S.) reconhece, aqui, a necessidade do trabalho em conjunto a partir da
necessidade de se ter outro profissional que colabore com uma escuta mais completa do
usuário que demanda o atendimento no CRAS.
Em seguida é Karla (Psi) que traz seu relato de experiência como ação conjunta. Fala
sobre um atendimento que realizou a uma usuária que chegou ao CRAS com uma criança de
colo em situação de desnutrição e que por isso precisava ser hospitalizada. A natureza do caso
tratava-se da necessidade de um atendimento no campo da Saúde. Contudo, Karla (Psi) refere
que se sentiu sensibilizada pela situação e buscou não só encaminhar para um atendimento

85

imediato em unidade de saúde, mas acompanhou a usuária com a criança até um serviço
público de Saúde, mobilizando outros profissionais de outros serviços públicos.
Questionada se esse atendimento seria configurado como ação conjunta no CRAS
responde: “Não. No CRAS foi só o acolhimento. A partir do momento que a gente buscou na
rede aí já não ficou mais no CRAS.” (1140). Karla (Psi) reconhece que foi uma ação que
extrapolou os limites do CRAS e que precisou da articulação com a rede intersetorial. E essa
articulação ela classifica como ação conjunta. Assim, Karla (Psi) concebe ação conjunta,
também, como ações desenvolvidas com outras políticas públicas.
Augusta (A.S.) é a próxima colaboradora a falar sobre sua experiência de ação
conjunta. Antes, porém, Augusta (A.S) reconhece a importância do grupo de estudos do
CRAS, parabenizando as colegas que dele participam: “Inicialmente eu gostaria até de
parabenizar o pessoal do grupo de estudos, infelizmente eu não posso participar (...) realmente
é um crescimento profissional, amadurecimento.” (1184).
Em seguida, Augusta (A.S.) faz um relato de uma visita domiciliar que realizou junto
com Tamara (Psi), e que se desdobrou num atendimento que se estendeu por um dia inteiro,
em virtude a complexidade da situação. Tratava-se de uma mulher adoentada, cujo filho
estava sofrendo ameaças: “A senhora que tava deitada, que tava doente e que tinha um filho
que tava sendo ameaçado pelo traficante... No mesmo dia o traficante tinha batido na cabeça
dele com um revólver pra ele não ficar na porta.” (1203).
Augusta (A.S.) relata que durante várias horas ela e Tamara (Psi) precisaram conversar
com aquela senhora e conquistar sua confiança para poderem viabilizar a retirada da criança
daquele local que lhe oferecia risco, bem como o encaminhamento da mulher para um serviço
de Saúde. Augusta (A.S.) refere que isso só foi possível devido a um trabalho conjunto que
realizou com Tamara (Psi):
E aí a gente conseguiu, assim, foi um dia todo de, realmente, se articulando, até que
o caso fosse resolvido. Isso, assim, marcou. E a importância da equipe estar unida,
do psicólogo, do assistente social. Foi uma ação interessante, assim, que ficou. Que
marcou pra gente. (1226).

Aqui, Augusta (A.S.) enfatiza a ‘união’ como elemento importante da equipe na ação
realizada.
De forma geral as colaboradoras que participaram da oficina trouxeram relatos de
experiências de ações/atividades que realizaram conjuntamente, desde as mais fáceis até as de
maior complexidade, como, por exemplo, lidar com usuário com transtorno psíquico e
violação de direitos no âmbito da Proteção Social Básica. Mesmo considerando que tais
relatos foram a partir de uma solicitação de uma oficina que tinha o objetivo de fazer este

86

diálogo, as profissionais trouxeram experiências vivenciadas, inclusive com a possibilidade de
não terem sido exitosas.
Em seus relatos de situações específicas do trabalho conjunto, as colaboradoras
trouxeram repertórios como ‘planejamento conjunto das atividades’, ‘avaliação das ações
realizadas’, ‘união’, ‘parceria’, ‘grupo de estudos’ e ‘elaboração de relatórios’, enfim
atividades em que as profissionais precisam agir não individualmente, mas como um nóscoletivo, como afirma Shotter (2011). Situações em que necessitam agir a partir de dentro das
situações, dialogar para melhor entender e encaminhá-las, como no caso relatado por Tamara
(Psi) e Norma (A.S.), em que precisaram fazer articulações com a Saúde e com o Sistema de
Justiça.
A ação conjunta é sustentada, nos relatos das colaboradoras, por aspectos relacionais e
não disciplinares, pela capacidade de se relacionarem e aprenderem umas com as outras a
partir das experiências vividas no dia-a-dia do CRAS, e das estratégias de enfrentamento
destas experiências, estratégias definidas, ao menos em sua maioria, de forma conjunta. E isto
é presentificado tanto na primeira parte da oficina, em que foram suscitados os repertórios em
associação livre, referentes à ação conjunta, quanto nesta segunda parte.

4.2.4. Terceira parte da oficina: classificação das experiências relatadas.

A terceira atividade é proposta após o relato de Augusta (A.S.), ao encerrar o segundo
momento da oficina, quando solicito que façam uma classificação das experiências relatadas.
Com a ajuda de Bruna (A.S.), colo uma cartolina na parede, formando um painel, contendo
três eixos (A, B e C) onde serão classificadas as experiências. Solicito que as colaboradoras
colem as tarjetas em que descreveram suas experiências, nos eixos correspondentes do painel,
cujo modelo encontra-se a seguir:
A

B

C

Os profissionais dialogaram,
planejaram e desenvolveram
ações em conjunto sobre a
questão a ser resolvida.

Os profissionais dialogaram,
planejaram
e
cada
um
desenvolveu
sua
ação
separadamente.

Os
profissionais
foram
convocados a resolverem uma
situação-problema comum a
todos. Todos trabalharam sobre
o mesmo problema, mas sem
compartilharem.
Sem
planejamento, sem diálogo.

Antes da classificação das experiências, Norma (A.S.) expressa seu estranhamento
com a coluna C da tabela: “Estranho, não é, esse?” (1293). Alguém do grupo fala: “Mas
existe”. Ao que Norma responde: “Existe. Mas é estranho!” (1295). Bruna (A.S.) então

87

retruca: “Existe né! Tem acompanhamento familiar que agente faz só.” (1296). E continua:
“Agora nessas experiências a gente não colocou nenhuma experiência negativa, né, em
relação a isso.” (1302).
Bruna (A.S.) traz para discussão experiências que classifica como negativas que
acontecem e que não foram expressadas durante o segundo momento da oficina, e em seguida
exemplifica relatando uma ação de desocupação de uma comunidade da cidade, em que
estavam envolvidos a Secretaria Municipal de Assistência Social, a Polícia Militar, o
Ministério Público e a Defesa Civil Municipal: “A ação do abrigo, agora. Nós fomos
convocados; não planejamos; não compartilhamos com ninguém que foi; quem foi também
não compartilhou com quem ia...” (1312).
Bruna (A.S.) busca fazer um contraponto, afirmando que existem ações realizadas sem
planejamento e sem diálogo, como aquelas intituladas no eixo “C” e que não foram
mencionadas, pelas participantes da oficina, ao que Rita (Psi) concorda: “Mas essa aí não foi
citada, né!” (1315). E Bruna (A.S.) insiste: “Sim, é isso que eu to dizendo, né. É um exemplo,
né minha gente. Porque só foram citadas as positivas.” (1316).
Neste momento, as colaboradoras dirigem-se ao painel e colam as tarjetas com as
experiências relatadas, atendendo à minha solicitação. Assim, o quadro final ficou,
quantitativamente, assim distribuído:
A

B

C

Os profissionais dialogaram,
planejaram e desenvolveram
ações em conjunto sobre a
questão a ser resolvida.

Os profissionais dialogaram,
planejaram
e
cada
um
desenvolveu
sua
ação
separadamente.

Os
profissionais
foram
convocados a resolverem uma
situação-problema comum a
todos. Todos trabalharam sobre
o mesmo problema, mas sem
compartilharem.
Sem
planejamento, sem diálogo.

17
1
(nenhuma)
Ao final da classificação, questiono ao grupo se alguém pretende mudar sua
classificação, ao que elas respondem que não.
Percebe-se que na coluna C do quadro não aparece nenhum relato, conforme já
indicado por Bruna (A.S.) anteriormente. Contudo, a própria Bruna (A.S.) faz um relato de
uma experiência (descrita acima) que classifica verbalmente como sendo da coluna C, ao que
todas as outras colaboradoras concordam com essa classificação. Assim, o quadro final,
contemplando a experiência trazida por Bruna, seria como segue:

88

A

B

C

Os profissionais dialogaram,
planejaram e desenvolveram
ações em conjunto sobre a
questão a ser resolvida.

Os profissionais dialogaram,
planejaram
e
cada
um
desenvolveu
sua
ação
separadamente.

Os
profissionais
foram
convocados a resolverem uma
situação-problema comum a
todos. Todos trabalharam sobre
o mesmo problema, mas sem
compartilharem.
Sem
planejamento, sem diálogo.

17
1
1
Eis aqui, neste ponto da oficina, mais um momento de reflexão sobre a sua dinâmica.
Desde o seu início as colaboradoras foram ‘mobilizadas’ a falar sobre ação conjunta, trazendo
termos que associassem a ela, bem como experiências nesse sentido. A esta altura, a oficina
apresenta uma limitação de importante registro. Sua mobilização aconteceu de forma a
propiciar que as participantes potencializassem e valorassem as ações conjuntas como formas
positivas de atuação, não mencionando experiências negativas, ou não tão positivas, como se
elas não ocorressem.
Contudo, a existência de inúmeras ações conjuntas nos locais de trabalho não significa
que não existam ações individuais, isoladas, sem planejamento, verticalizadas, sem
articulação entre profissionais. Seria ingênuo pensar desta forma. E Bruna (A.S.) chama a
atenção para isso. Em seu relato traz uma experiência em que vários profissionais trabalharam
juntos a partir de uma demanda do órgão gestor (a Secretaria Municipal de Assistência
Social), mas que não se sentiram realizando uma ação positiva, pois não planejaram juntos.
A ação de desocupação da comunidade em questão (sobre cujo mérito não cabe aqui
discutir) executada por órgãos estaduais e municipais, entre eles a Secretaria Municipal de
Assistência Social, sofreu a intervenção de diferentes profissionais que, inclusive, não
trabalhavam juntos anteriormente. Isto nos leva a refletir sobre a importância de que a ação
conjunta seja pactuada com a equipe, que tenha objetivos comuns. Sobre isso, Shotter (2011)
chama atenção:
Aqueles que estão dentro de uma ‘situação’ sentem-se requisitados a se amoldar às
‘coisas’ dentro dela, não em função de seu formato material, mas porque nós todos
convocamos uns ao outros, eticamente, para reconhecer e respeitar o que existe
‘entre’ nós (Shotter, 2011, p. 2).

No caso do exemplo exposto, da desocupação da comunidade, os profissionais não
estavam envolvidos naquela situação. Eles foram convocados para solucionar um problema,
de acordo com o relato de Bruna (A.S.) corroborado por outras participantes da oficina. A
condição de ser convocado de forma vertical para este tipo de intervenção não propicia um
reconhecimento ético de uma ação conjunta a partir de um nós coletivo.

89

4.2.5. Quarta parte da oficina: avaliação.

Após a atividade de classificação das experiências, convido o grupo para a atividade
final da oficina. Colo na parede uma cartolina, fazendo um outro painel, com as seguintes
questões para uma reflexão sobre ação conjunta:
1. Que tipo de trabalho conjunto vale a pena desenvolver?
2. Que dificuldades surgem para realizar o trabalho em conjunto?
3. Que situações favorecem o desenvolvimento do trabalho conjunto?
4. Como poderíamos, então, definir ação conjunta?
A proposta deste painel é de suscitar reflexões e diálogos finais sobre o tema, sem a
necessidade de que as colaboradoras produzam algum material escrito.
Norma (A.S.), discorrendo sobre questão 1, ressalta que precisa existir parceria para
viabilizar o trabalho conjunto: “Seria a parceria da gente, tem que existir isso pra que o
trabalho conjunto aconteça...” (1349). Manoela (Psi) afirma que a parceria, referida por
Norma (A.S.), se encaixa na questão 3, sendo portanto uma situação que favorece o trabalho
conjunto.
Rita (Psi) afirma que no dia-a-dia praticamente todos os trabalhos valem a pena
desenvolver em conjunto, respeitando algumas especificidades, mas prevalecendo a ação
interdisciplinar:
... E aquelas situações que são, enfim, únicas, que dependem de um atendimento
psicológico, um encaminhamento que o assistente social pode dar, mas eu acho que
o trabalho em si... Se a gente tá falando o tempo todo em ação conjunta, em
interdisciplinaridade, então não pode pensar em dicotomizar as ações... (1360).

Tamara (Psi) usa o termo ‘dividir’ para expressar o sentido de ‘compartilhamento’
quando do atendimento ao usuário:
...quando o atendimento, vamos supor, vem assim, direciona mais para o psicólogo...
eu me sinto muito à vontade com a minha equipe porque eu sou o que sou, assim, eu
não tenho que demonstrar se sei ou se não sei. Tenho a maior simplicidade pra
chegar pra qualquer uma delas tenho dúvida e tudo... Então... a gente a necessidade
de dividir, a melhor coisa é a gente dividir, tá entendendo? (1364).

Em seguida, Tamara (Psi) fala também na ‘confiança’ como elemento existente no seu
trabalho, favorecendo o desenvolvimento do trabalho.
Manoela (Psi) chama a atenção do item 1 e ressalta a importância da ‘disponibilidade’
em cooperar com trabalho:
...a pessoa tem que estar disponível, então, se eu to com meu colega e ele não tá
disponível a cooperar comigo, então eu vou fazer só, não vale a pena estar em
conjunto se ele não tá ali pra... se ele não tá disponível pra trabalhar junto. (1381).

90

Manoela (Psi) faz um gesto corporal direcionando-se a mim, como se solicitasse uma
avaliação de certo ou errado de sua fala, e diz “Não sei, eu joguei aqui né!”. Neste momento
eu enfatizo que não há resposta certa, e que o mais importante é refletir sobre tais questões.
Rita (Psi) retoma a discussão sobre o prontuário SUAS e o trato de informações nele
contidas entre profissionais da equipe para defender o ‘compartilhamento’: “eu acho que tem
que se compartilhar sim, na medida que é uma ação conjunta, tem que ser compartilhado...”
(1394). Ao que Tamara (Psi) concorda: “Porque é a vivência ali, o dia-a-dia junto, o dia-a-dia
ali no trabalho [...] Acho muito difícil a pessoa não compartilhar, né, algumas coisas.”
Débora (A.S.) chama a atenção de que o trabalho não é realizado sozinho e que
envolve outras pessoas, que não só assistentes sociais e psicólogas: “E a gente não faz nada
sozinho, né! A gente que tá ali no atendimento, mas aquele usuário que chega pra gente
passou pela recepção, não é? Já foi atendido, não é? Já foi ouvido...” (1401).
Como a oficina já se encaminhava para o seu término, considerando também que já se
esgotara o tempo de duração que havíamos combinado, pergunto se alguém gostaria de, a
partir do que foi conversado, definir ação conjunta. Manoela (Psi) e Rita (Psi) me perguntam,
sorrindo, se eu quero uma definição, ao que respondo: “Não, não. É só para esgotar a
reflexão” (1437). Rita (Psi) fala: “Eu acho que... Não teria um conceito, mas ação conjunta
seria uma ação onde precisa haver mais de um profissional, é óbvio, né...” (1438). E continua:
Mas é preciso que haja mais de um profissional, e que de preferência reúna
profissões diferentes, atuações diferentes e que reúna algumas condições pra que
isso aconteça né, como a gente já colocou ali, escreveu inúmeras: disponibilidade, a
possibilidade de compartilhar conhecimentos... (1443).

Em seguida, Rita (Psi) faz a reflexão se voltar para o usuário do serviço:
Porque, afinal de contas, a gente tá falando muito na nossa atuação, mas tem que
pensar que existe um objeto que é o mais importante dentro da conjuntura, que é o
usuário né, as pessoas que a gente vai atender. A gente nunca pode deixar de pensar
que... o personagem principal... (1451).

Norma (A.S.), Débora (A.S.) e Luciana (Psi), corroboram, expressando algumas frases
curtas e pequenos gestos faciais e corporais que sinalizam concordância. Aqui fica
compreendido que a atenção ao usuário do serviço é objetivo comum da ação conjunta.
Passadas mais algumas poucas falas, eu convido o grupo a fazer avaliação da oficina.
De forma geral, todas agradecem por terem sido convidadas para a oficina, referindo que foi
um momento rico, proveitoso, no qual se sentiram prestigiadas. De todas as falas neste
momento de avaliação da oficina, destaco aqui cinco delas, para reflexão:
Norma (A.S.):
... eu achei muito bacana, achei leve, achei profundo também. No começo foi leve,
mas teve profundidade dentro do possível, né.... (1492).

91

Iara (A.S.):
...foi uma manhã bem agradável. E foi bem assim, como você [referindo-se ao
pesquisador] me falou, uma conversa informal... Todo mundo ficou muito à vontade,
eu percebi isso. Foi realmente uma conversa né... e relatando experiências, enfim...
(1534).

Tamara (Psi):
Eu também me senti muito à vontade, gostei muito. Isso faz com que a gente reflita
e aprenda, mas também vim assim na expectativa, meu Deus que responsabilidade
(Sorri. Todas sorriem)... contribuir com o mestrado do Niltinho e me sentindo
também lisonjeada por ter sido uma das escolhidas, né! Mas me senti muito à
vontade, foi muito bom. Gostei. (1498).

Karla (Psi):
Deixa eu aproveitar a condição aqui pra agradecer também [...]. Eu acho que essa
discussão... quando você encerrar essa parte do mestrado eu acho que seria
interessante a gente... [...] ... a gente poder dar um empurrão nisso... não só... porque
já existe o grupo de estudos, mas aí quem sabe um grupo de pesquisa, algo além
porque a gente percebe, diante de uma manhã como essa, quanta coisa a gente tem,
guardado entre duplas, e às vezes entre CRAS e que isso, de repente a partir da
pesquisa do Nilton, poderia se tornar até um livro né. Já pensou cada CRAS
relatasse algumas histórias... alguns atendimentos, acompanhamentos? Acho que
daria vários e vários encontros (sorri) (1507).

Por ocasião deste momento avaliativo, compreendo a potência da oficina enquanto
estratégia metodológica e dispositivo ético-político (SPINK; MENEGON; MEDRADO,
2014), a partir destas falas de quatro colaboradoras:
Norma (A.S.) e Iara (A.S.) trazem em seus relatos características que lhes chamaram a
atenção na oficina, como leveza, profundidade, conversa informal. Tais características são
herança de três procedimentos metodológicos de forte potencial, como afirmam Spink;
Menegon; Medrado (2014): a roda de conversa, o grupo focal e a dinâmica de grupo.
Enquanto roda de conversa, a oficina apresentou-se como uma conversa informal nas palavras
de Iara (A.S.); enquanto grupo focal teve profundidade, para Norma (A.S.) e enquanto
dinâmica de grupo foi carregado de leveza.
Tamara (Psi) traz em suas fala a gratidão de poderem contribuir com minha pesquisa, o

que me traz a certeza da importância do caráter relacional, da relação de respeito que construí
com estas profissionais, e que permitiu a possibilidade de construir outros diálogos, numa
interanimação dialógica.
Karla (Psi) ressalta o potencial ético-político da oficina na medida em que, a partir
dela, a oficina, e da minha pesquisa, propõe a realização de outros encontros, de outros
trabalhos. Avalia a proposta da oficina e da pesquisa como um agente propulsor de outras
possibilidades de encontros e de construção coletiva das profissionais. Avaliação esta que
muito me contempla.

92

5. E A CONVERSA (NÃO) TERMINA.

Conforme dito no começo desta conversa, minha inserção enquanto trabalhador da
Política de Assistência Social se deu por ocasião da convocação de profissionais de Psicologia
que estavam na reserva técnica do concurso da Saúde. Fui lotado em um dos seis CRAS
existentes em Maceió. Naquela ocasião alguns profissionais ficaram descontentes por terem
sido convocados para a Assistência e não para a Saúde e não raro se ouvia falar, nos espaços
de trabalho em que foram lotados os novos profissionais: “eu caí de paraquedas nessa
política”.
Naquele período (2008/2009), o Conselho Regional de Psicologia (CRP-15), através
do Centro de Referências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP) realizava
algumas reuniões com profissionais do SUAS de alguns municípios, no intuito de discutir a
atuação da Psicologia nos recentes serviços. Nestas reuniões também se ouvia falar que se
‘caiu de paraquedas no SUAS’.
Os CRAS de Maceió, à época, eram campo de estágio do curso Psicologia da UFAL,
coordenado pela professora-orientadora Maria Auxiliadora, que visitava os locais de trabalho
para conversar com os/as profissionais sobre o referencial teórico por ela adotado. Assim, a
ela também chegou esse discurso de que os/as psicólogos/as caíram ali de paraquedas e por
isso havia uma certa dificuldade de acompanhar os estagiários dos CRAS.
Alguns anos depois, em 2014, fui admitido no mestrado em Psicologia da UFAL, para
onde levei a proposta de discutir a Psicologia na Assistência Social. Como desdobramento
desta proposta, fui convidado a participar da recém criada Comissão Nacional de Psicologia
na Assistência Social (CONPAS) 7, do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que propunha,
dentre outras questões, fortalecer a Psicologia no SUAS através de algumas estratégias que
seriam desenvolvidas nos âmbitos regionais e nacional. Uma das preocupações da CONPAS
era o tal discurso de que o psicólogo não sabe o que fazer no SUAS, pois que ali ‘caiu de
paraquedas’.
Em novembro daquele mesmo ano, já como participante convidado da CONPAS,
participei do IV Congresso Brasileiro de Psicologia, Ciência e Profissão, realizado em São
Paulo. Na ocasião, os membros da CONPAS se dividiram para participar de todas as
apresentações relativas à Psicologia na Assistência Social e assim mapear as discussões e
produções sobre a área. Ao final do evento, em reunião da CONPAS, uma avaliação foi
7

Mais informações sobre a CONPAS disponível em http://conpas.cfp.org.br/

93

consensual: psicólogos e psicólogas de forma geral, de vários lugares do país, afirmam que
‘caíram de paraquedas’ na Assistência Social.
Lanço mão desse breve percurso histórico para trazer à cena, e em destaque, uma
discussão que vimos fazendo, minha orientadora e eu, acerca deste termo – ‘cair de
paraquedas’ – e seus sentidos. Nossa discussão tem trazido outro conjunto de sentidos,
diferente dos que circulam ao longo de alguns anos nos espaços do SUAS. Estes discursos até
então remetem o ‘cair de paraquedas’ a um despreparo, a uma condição insatisfatória de
atuação profissional, que está ligada a outro discurso recorrente, qual seja o da necessidade de
definição do papel privativo do psicólogo no SUAS, sobre o qual mencionamos na análise da
oficina realizada com assistentes sociais e psicólogas.
O instrumento paraquedas tem uma funcionalidade popularmente conhecida. Mas
recorrendo ao dicionário Aulete, este o define como: “artefato dobrável e provido de cordas,
em forma de guarda-chuva que, quando aberto, mantém pessoa ou carga no espaço em queda
lenta e segura” (GEIGER, 2011, p. 1027). Esta figura de paraquedas é que nos tem
impulsionado, em nossos diálogos por ocasião desta pesquisa, a produzir outros sentidos. Até
podemos ter ‘caído de paraquedas no SUAS’, mas consideramos que continuadamente
estamos ‘saltando de paraquedas neste Sistema’, em ‘queda lenta’ e ‘segura’. Saltar com este
artefato exige preparação, segurança, confiança.
É neste mesmo sentido que recorremos à Shotter que, tratando da ação conjunta, lança
mão de algo que cai do alto: “... o resultado total de uma ação conjunta não está acima de
qualquer das pessoas envolvidas nela, seus resultados podem ser vistos como tendo ‘caído do
céu’ – come out_of_the blue (SHOTTER, 2011, p. 2). Cair do céu, como um paraquedas, tem
aqui um sentido do inusitado, do inesperado, mas não do despreparo. O trabalho conjunto,
como apontado pelas colaboradoras, tem possibilitado lidar com essas situações inesperadas,
inusitadas, advindas das demandas de uma população que vive em situação vulnerável.
Situações que são impredizíveis, que não há como se preparar antecipadamente, essas são as
vicissitudes do trabalho de assistentes sociais e psicólogos, que atuam na Proteção Social
Básica da Assistência Social.
Cair de paraquedas, é se deparar com essas situações e em nossa forma de
compreensão, não é ruim. Não é despreparo. Exige estar junto com as pessoas envolvidas,
fazer parcerias, construir vínculos, pensar juntos e agir juntos, no nosso caso, no SUAS.
Então, cair de paraquedas, no SUAS, é sim válido. É potente. É legítimo!
Na condição de pesquisador e por ocupar um lugar enquanto profissional da
Assistência Social, inicialmente intencionei discutir, a partir desta pesquisa, a atuação

94

interdisciplinar no CRAS. Contudo a pesquisa sofreu uma ‘virada’ em seu curso, e passou a
ter como objetivo compreender as vicissitudes da atuação de psicólogas e assistentes sociais
na Proteção Social Básica da Assistência Social.
Para dar conta desse objetivo, com base no construcionismo social e nas práticas
discursivas e produção de sentidos, é que foi proposta e realizada uma oficina com psicólogas
e assistentes sociais atuantes na Proteção Social Básica da Assistência Social, mais
precisamente em CRAS do município de Maceió, no sentido de propiciar não apenas
conversas sobre ação conjunta, mas também a própria ação conjunta através das conversas, a
partir da concepção construcionista de que falar também é fazer, é também agir, é também
ação.
A realização da oficina de ação conjunta com assistentes sociais e psicólogas
proporcionou poucas certezas e muitas reflexões.
Das reflexões...
A experiência da oficina de ação conjunta com profissionais dos CRAS de Maceió
mostrou a importância do encontro e de uma das mais antigas formas de interação humana, a
conversa, como dispositivos que se fazem necessários tanto para o desenvolvimento do
trabalho quanto para avaliação deste. Essa compreensão foi possível não apenas a partir do
que as pessoas falaram, mas também a partir de outras ações que realizaram: a empolgação
nos momentos pré-oficina, a conversa calorosa durante o cafezinho, o extrapolar da hora
combinada para realização da oficina e a sinalização delas próprias, ao final da oficina, para
que pudessem ocorrer outros encontros entre as profissionais.
Outra questão para reflexão trata-se dos aspectos relacionais. Os aspectos
cognitivos/individuais são importantes para o trabalho conjunto, todavia os aspectos
relacionais são fundamentais para o desenvolvimento da ação conjunta. ‘Parceria’, ‘troca’,
‘união’, ‘trabalho em equipe’, ‘respeito’ são questões trazidas pelas colaboradoras que
exemplificam isso. Esses repertórios apareceram em momentos diversos da oficina, reiterando
este posicionamento.
Sobre o discurso que culpabiliza a formação acadêmica, atribuindo a ela falhas e
lacunas, é importante que não se despreze o(s) conhecimento(s) acumulado(s) ao longo do
processo de formação, mas é indispensável considerar que ocorre aprendizado a partir tanto
das trocas de conhecimento quanto da construção de novos conhecimentos na inter-relação
profissional cotidiana. Apresenta-se aqui um contraponto a este discurso fatalista da (não)
formação adequada. A formação perpassa a graduação, mas não se limita a ela. As

95

colaboradoras ressaltaram as mudanças que ocorreram em suas práticas, a partir da vivência
no cotidiano do trabalho e do grupo de estudos, que possibilitam trocas, diálogo e ações.
Os/As profissionais são corresponsáveis por sua formação e o lócus de trabalho é também um
lócus de formação continuada, que tem na ação conjunta um terreno fértil para tal.
Sobre a natureza da ação conjunta, esta acontece a partir de um ‘nós-coletivo’ e não da
ação individual e independente de uma pessoa. As participantes da oficina trouxeram esta
reflexão de forma bem robusta quando citaram como exemplo de ação conjunta a pesquisa
para diagnóstico da exclusão social nos territórios dos CRAS e o grupo de estudos dos CRAS
(ações que surgiram a partir delas próprias, a partir de dentro) e como exemplo contrário à
ação conjunta a ação para desapropriação de uma comunidade, em que o órgão gestor
convocou profissionais de forma hierarquizada/verticalizada para executarem o trabalho.
A perspectiva de ação conjunta desconstrói o discurso do papel. A delimitação de um
papel prescritivo, seja da psicóloga, seja da assistente social, não faz sentido aqui. Procurar
incessantemente por algo que só uma categoria profissional possa fazer é atentar contra a
potência do desenvolvimento do trabalho conjunto. A compreensão do fazer, de cada
profissional precisa, sim, ser ampliado e não delimitado, pois as demandas que chegam aos
serviços socioasssitenciais, sobretudo na Proteção Social Básica, são demandas que exigem
atuação ético-política de forma ampla e conjunta, não especializada. Definir que a Psicologia
trata das questões subjetivas e o Serviço Social das questões objetivas é uma simplificação
que não colabora com o potencial que têm essas profissionais de desenvolverem bons
trabalhos conjuntamente, cotidianamente.
Das certezas...
Uma certeza que a oficina proporcionou foi a importância de prezar por uma ética da
relação, da dialogia, por uma ética dialógica. Enquanto pesquisador me preocupei (préocupei) com o cuidado na forma de contatar as pessoas colaboradoras da pesquisa, desde o
seu início, de conversar com elas por telefone e pessoalmente, antes da realização da oficina e
poder explicitar qual a proposta da pesquisa. Esta ocupação prévia, e também durante a
realização da oficina, penso, foi crucial para o seu desenvolvimento.
Todos os procedimentos ético-burocráticos para a realização da pesquisa precisam ser
realizados, a exemplo do TCLE, contudo eles não são suficientes para estabelecer uma relação
de confiança entre pesquisador e colaboradoras da pesquisa. Aqui fica a certeza de que o
pesquisador é um ser tão humano quanto suas colaboradoras. E que a pesquisa é uma
construção tão social quanto o trabalho desenvolvido pelas colaboradoras no seu dia-a-dia de
profissional da Assistência Social. E essa é uma postura construcionista social.

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Nesta mesma linha de raciocínio, de uma ética dialógica e de um posicionamento
político, pensando no questionamento de para quem e para quê, não se pode esquecer de que
todo o trabalho, todas as ações conjuntas desenvolvidas na política de Assistência Social, bem
como nas outras políticas, têm um objetivo em comum: o usuário da política pública. O
cidadão-usuário do serviço é razão da existência deste, sem o qual não haveria equipes nem
ações. E as colaboradoras têm essa dimensão, pois trouxeram esse diálogo em vários
momentos da oficina.
Outra certeza é o caráter de incerteza da ação. A ação conjunta é imprevisível e
impredizível. Não há como se prever e não é possível dizer o que e como irá acontecer. O seu
caráter de ser conjunta lhe configura uma condição de impredizibilidade, pois quando se age a
partir de dentro da situação dialógica não se pode predizer a ação. Ela acontece na relação
‘entre’ as pessoas, numa interanimação dialógica.
E é essa condição, de incerteza e de impredizibilidade, que traz uma outra certeza: a de
que esta conversa não começa e nem termina aqui.

97

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APÊNDICE

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APÊNDICE A – Transcrição numerada da oficina
ATIVIDADE 1: Listar palavras e frases relacionadas ao termo ‘ação conjunta’
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Pesquisador: ... São muitas histórias bacanas que se entrecruzam nos CRAS, e agora aqui, essas
histórias vão se entrecruzar aqui na nossa vivência. E aí como o tema da pesquisa é sobre ação
conjunta, então, qual é a proposta agora? Na verdade a gente vai ter algumas atividades, né... E a
proposta agora é que vocês listem – vou entregar aqui pra cada um umas tarjetas – que vocês listem
o que vier na cabeça sobre ação conjunta. Como associação livre mesmo, tá. Quando fala em ação
conjunta, o que é que vem à cabeça?

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Karla (Psi): Uma palavra por folha?

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Pesquisador: Pode ser palavra, pode ser frase. Se possível um por folha... uma por folha porque a
gente vai aproveitar essas (tarjetas). Então, quando se fala em ação conjunta o que vem à cabeça?...
Quem quiser escrever com pincel atômico, tem alguns aqui, tá.

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(Tempo de +- 4 min)

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Tamara (Psi): Já começou a gravar?

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Pesquisador: Não, quer dizer, eu comecei (a gravar) daqui (de um dos três celulares que iriam gravar
o aúdio)

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Tamara (Psi): É para entregar? (as tarjetas)

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Pesquisador: Não, vocês vão ficar. Vamos fazer um painel... Todos fizeram já? Todas e todos? (risos)

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Rita (Psi): Engraçado quando botam todas e todo num grupo né! Aí eu digo ainda bem que é todo, já
pensou se só agradecesse à metade?

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(Risos)

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Rita (Psi): Todas e a metade!

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(Risos)

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Pesquisador: Bom, gente, então, quem não concluiu tá concluindo, eu vou convidar vocês... A ideia é
o que vier à cabeça sem muito filtro... Vou convidar vocês a lerem e depois de lerem, colar ali no
painel tá, painel de ação conjunta. E a gente vai colar juntinho pra caberem todas as, todas as
tarjetas. Quem quiser, pode...

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Pesquisador: Tamara... (convidou-a porque ela fez menção de que queria iniciar)

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Tamara (Psi): Eu coloquei assim... Eu falei da minha experiência: Acolhimento. Porque, assim,
geralmente o profissional acolhe mas, muitas vezes surgem algumas situações que o colega diz,
assim Tamara, ou assim, ou a psicóloga ou chama a assistente social, quando o usuário tá ali
relatando uma situação...aí a gente pede o poio um do outro. Não são todas as vezes, mas a gente
muitas vezes faz essa ação conjunta. É. Uma coisa que eu coloquei aqui é que, também veio da
Saúde, que eu aprendi muito, assim, com o psiquiatra, enfermeiro, e também que eu aprendi muito

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com as meninas, as assistentes sociais (do CRAS), assim a gente teve uma boa troca, a troca de
saberes.

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Pesquisador: Troca de saberes?

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Tamara (Psi): É. Porque, assim, você vai aprendendo um com o outro. Eu já aprendi muitas coisas
com essas meninas (sorri). Também, a gente faz junta, outra ação conjunta que a gente faz, com os
grupos, não é?: Planejamento. E às vezes mesmo, assim, olhar o movimento do grupo. A gente
também faz junta ação conjunta. Assim, nas ações coletivas, é... eu pensei assim, não sei se eu
coloquei o termo certo, ações coletivas, ações comunitárias. (Essa afirmativa se justifica porque no
âmbito do CRAS há um caderno de orientações em que sugere atividades denominadas ações
coletivas e que faz a diferenciação entre ações comunitárias e ações coletivas). A gente já teve
momentos assim, lá no CRAS, de... passear com grupo de idosos, que vão todos os profissionais.
Ainda o planejamento, assim ficou um pouco interrompido por conta de algumas coisas que
aconteceram no XXX (nome do CRAS). {Referiu-se a acontecimentos de roubo no CRAS, ocorrido há
alguns dias}. Às vezes o planejamento de ação conjunta, assim, por exemplo de panfletagem. Ações
coletivas. Eu não sei se coloquei tudo certo, ações coletivas, ações comunitárias, não sei, não é? Que
a gente tem um planejamento de panfletagem... Ação conjunta. As visitas em domicílio, também,
né? Às vezes vai o psicólogo e o assistente social, mas muitas vezes os dois são necessários, muitas
vezes mesmo. Pronto, foram esses. (...) Aí coloca lá é? (Refere-se ao painel)

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Pesquisador: Coloca lá, Tamara.

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Pesquisador: Só uma questão que a Tamara falou, sobre o certo e o errado, na verdade a gente não
vai considerar certo ou errado, mas o que é a experiência de cada um.

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Tamara (Psi): É. Eu fiquei em dúvida sobre o termo coletiva ou comunitária, mas a minha ideia é
essa.

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Tamara (Psi): Posso colocar lá? (a tarjeta no painel)

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Pesquisador: Pode.

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Norma (A.S.): Eu vou esperar a Tamara colocar?

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Pesquisador: Não, Norma, pode... pode sim

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Norma (A.S.): Eu pensando na ação conjunta, de uma forma assim... sem tanta profundidade, mas
dentro da... da... né... do cotidiano da gente, da experiência, eu não consigo ver o Serviço Social sem
o Psicólogo, né, acho que é uma importância tamanha da Psicologia e do Assistente Social dentro do
trabalho comunitário. Tem outras profissões também, mas essas duas são primordiais né. Então ação
conjunta seria, assim, semelhante ao trabalho em equipe, que a gente... né. Uma parceria, né! Seria
unidade da parceria, né, respeitando as atribuições, né, que a gente não... que às vezes o que se vê...
cada um dentro do seu papel, mas trabalhando em parceria. A importância do psicólogo pra mim é
extremamente relevante, né? E... do mesmo jeito o psicólogo ele sente na questão dos nossos, das
nossas atribuições como assistente social... então é uma parceria, é uma parceria extremamente
importante, relevante, pra, pra essa construção junto à comunidade. E é isso... Posso? (colar a
tarjeta)

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Pesquisador: Pode sim, pode colar no nosso painel.

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Norma (A.S.): Precisa colocar muito alto não né? (Risos) (Norma tem estatura baixa, por isso falou
em tom de brincadeira).

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Todos: (Risos)

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Rita (Psi): Respeitando o nosso tamanho. (Em tom de brincadeira, descontração. Também tem
estatura baixa)

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Todos: (Risos)

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Luciana (Psi): Pegando a fala dela (de Norma), eu também coloquei isso, a parceria né, essa a
parceria do Serviço Social com o psicólogo, que sempre tem, eu também, como ela falou, eu também
não vejo Assistência Social só com o serviço social, acho muito importante essa junção, que é
fundamental, né! Coloquei também a troca de experiências, que isso é muito rico e muito válido.
Com certeza a gente aprende muito com o assistente social e o assistente social também aprende
muito com a gente, né. E conhecimentos e aprendizado. Ação conjunta tem essa união. Nem o
psicólogo faz só a sua parte, como também nem o serviço social, tem que ter momentos que tem
que ter essa união.

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Pesquisador: Manoela?? (Ela fez gestos com o corpo de que queria ser a próxima a falar)

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Manoela (Psi): Então, aí eu pensei assim: o que é que... quando estamos juntos né, assistente social
e psicólogo, eu pensei como poderíamos trabalhar juntos, como seria esse trabalho... é... em parceria
né. Aí, o que veio à cabeça... você falou vá colocando, uma tempestade de ideias (referindo-se ao
pesquisador), aí eu coloquei somar, a palavra que veio, porque realmente, acho que alguém já
colocou, essa soma de experiências, tanto a experiência, a bagagem que a gente traz, é... de
profissional, como nossa bagagem do dia a dia, da nossa vida, das nossas vivências. É... Troca, né,
também veio à mente. Eu, eu realmente aprendi muito esses cinco anos (que trabalha no CRAS).
Antes eu trabalhava na Saúde também, passei quatro anos na Saúde, e quando entrei na Assistência
eu aprendi muito, e... sempre ouço as meninas (assistentes sociais que trabalham com ela no CRAS)
dizerem que aprenderam muito também com os psicólogos, então houve essa troca de experiências,
com certeza há essa troca. A questão da interdisciplinaridade, né. A junção dos saberes ali, pra atuar
junto àquele usuário que chega, né, como um ser humano total né, não tá dividido em partes, mas
aquele ser humano completo. União, também. Eu acredito que a gente precisa dessa união pra
desenvolver um bom trabalho né. A gente... É... Por mais que cada um às vezes tenha a sua, a sua, as
suas diferenças, na hora de executar o trabalho, na hora que chega aquele usuário lá a gente se une,
eu acho que isso é muito importante. E o trabalho em equipe, eu acho que alguém falou alguma
coisa também nisso né? Trabalhar em equipe. Saber trabalhar em equipe. E às vezes... levando um
pouco da experiência do XXXXX (nome do CRAS em que trabalha), pessoas que não souberam
trabalhar em equipe não ficaram, né. Saíram. Não souberam trabalhar então não tiveram como
continuar. Foi isso que me veio à mente.

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Pesquisador: Obrigado. Experiência prática mesmo, né? (Risos)

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Manoela (Psi): (Risos)

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Augusta (A.S.): Eu, assim, vou complementando até o que a Norma falou, que eu achei
interessante... que é muito parecido em relação ao respeito...

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Pesquisador: Ok Augusta. Eu faço questão de falar o nome, porque aí a gente vai identificando na
gravação, tá?

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Augusta (A.S.): Tá jóia. Porque... assim, ela (Norma) foi falando e eu fui vendo mais ou menos o que
eu pensei em relação ao respeito e o trabalho em equipe. Às vezes você tem que respeitar... Existe
um troca de saberes, mas às vezes você tem que respeitar o saber do colega, até porque a formação
dele é diferente da nossa. Minha formação é de assistente social, a do colega é de psicólogo, e tem
momento que a gente tem que respeitar e até, assim, solicitar mesmo a ajuda dele. Existem
intervenções que a gente não dá conta mesmo... Pode até dar conta, né. Mas se você tem um colega
que tá ali na equipe é pra ele dar esse suporte, eu acho assim. É super importante a presença do
psicólogo na equipe. Hoje a gente diz que não sabe mais viver né sem os colegas psicólogos. Porque
realmente um complementa o outro. E... Assim... E saber realmente, o momento que às vezes a
gente precisa de o psicólogo, que ele tem que fazer a intervenção dele. Eu acho que isso é
importantíssimo, eu já tive essa experiência com a Tamara e com a XXXX também (psicóloga que
trabalha com ela), assim, de chegar um momento de tá lá fazendo um atendimento, às vezes até
individual e eu precisar do suporte de um psicólogo e eu ter até essa humildade de dizer venha me
ajudar, agora eu acho que vou precisar. Peço licença, claro, ao usuário, se eu posso chamar o
psicólogo pra também, né, chegar naquele momento. Se ele não permitir, a gente também não
chama, mas assim... porque vou ter um suporte diferenciado com o psicólogo lá naquele momento...
Já houve momentos realmente de eu perceber isso né! De ter essa sensibilidade e respeitar
realmente, que nesse momento vou precisar da pessoa, porque é a hora dele iniciar também seu
trabalho... Acho importante a questão desse respeito... E a necessidade dele hoje na equipe do CRAS.
Um outro ponto que coloquei foi construção e troca, porque assim, acho que a gente tá sempre em
processo de aprendizado, de construção e também de troca com os colegas. E existem casos que a
gente tem que fazer um estudo mesmo, assim, vamos discutir essa situação, né, em equipe. E aí a
gente tem que construir, né, como é que a gente tem que fazer com esse usuário? Então assim... às
vezes até dois assistentes sociais, dois psicólogos, às vezes é um caso mais complexo... A Norma já
trabalhou coma gente, né Norma?, E sabe que às vezes a gente precisou. A Norma chamava, eu
chamava a Norma, às vezes ela tinha mais experiência em determinada situação. Vamos Norma, me
ajude aqui, como é que você pode? Você já atendeu esse usuário. Entendeu? Então, isso eu acho que
é importante, a questão da troca, questão de você realmente saber o momento de trabalhar em
equipe mesmo, porque ali às vezes você não sabe tudo. De repente eu tenho até uma experiência,
assim... eu gosto muito do BPC, né!!! (Refere-se ao Benefício de Prestação Continuada, um benefício
específico da Assistência Social, cujos usuários fazem parte do público prioritário do CRAS). Ai,
geralmente as meninas, Augusta, me dê um socorro, porque eu gosto... Não é nada demais uma
colega dizer, é..., mudou um instrumento, como é que a gente tá fazendo agora? Eu acho que equipe
é pra isso...

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Bruna (A.S.): E até as estratégias!

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Augusta (A.S.): As estratégias, é isso! Então, um complementa... É troca de saber. E, assim, uma vai
pra capacitação, outro já repassa. Eu acho que o importante do CRAS é isso, a gente saber trabalhar
em equipe, né? E de construção mesmo, de conhecimento, de troca... E é isso aí minha gente.

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Tamara (Psi): E elas têm uma paciência comigo (sorri). (Refere-se ao relacionamento com sua
equipe)

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Augusta (A.S.): E a gente tem humildade até de perguntar à colega, né, assim, você sabe mais do que
eu...

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Norma (A.S.): Pode ter uma interação? (Refere-se a fazer alguma colocação/intervenção neste
momento)

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Pesquisador: Pode!

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Augusta (A.S.): (Continuando a falar)... Já teve uma experiência com determinado usuário... E agente
construir junto o que fazer com esse usuário, eu acho que o importante é isso.

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Norma (A.S.): Falar dessa experiência que eu tive... eu esqueci de algumas coisas bem importantes,
não sei porque, acho que eu cheguei meio acelerada quando eu cheguei, por causa da hora...(Chegou
para a oficina com algum atraso). Eu passei grande parte pelo XXX (nome do CRAS). Há pouco tempo
que eu to no XXX (nome de outro CRAS). Então, lá a gente... é... eu também... terminei (a graduação)
na XXX (nome da universidade), to há onze anos aqui (em Alagoas). Sou de XXX (nome de outro
estado), certo? Mas muito tempo já em Alagoas, já me considero há um tempo alagoana. Então... é...
teve um trabalho extenso que eu aprendi muito com a Psicologia que foi junto com Tamara, né!
Tamara, é... muitas questões punk assim, sabe? (Tamara sorri) Chegavam questões bem punk, bem
punk, a gente tinha umas questões punk... (usa o termo punk para indicar dificuldade e/ou
complexidade)...e o bom dessa parceria, dessa ação conjunta é... que Manoela tinha falado também
aqui que é essa questão da gente tá aberto pra... é... aprender com o outro, né? Tá ali naquele grupo
pra compartilhar, pra... a gente vai falar das dificuldades que tá sentindo ali. O psicólogo ele vai
explicar coisas que a gente vai entendendo também durante o... porque ali a gente pode fazer um
estudo de caso... No caso tá com dificuldade de... Ele aí vai intervir, vai participar... Depois a gente
senta. Eu acho uma parceria... Pra agente até chegar e finalizar... fechar... chegar a um objetivo que a
gente tem assim né.. .que todo mundo tem um objetivo de fechar, dizer assim ‘a gente concluiu’.
(Faz essa afirmativa porque, na Política de Assistência, especificamente no CRAS, há uma modalidade
de serviço chamado de acompanhamento familiar, e tal acompanhamento deve ser finalizado logo
que a família supere condições de vulnerabilidade). Como seria bom se a gente concluísse com todas
as famílias, mas muitas coisas não dependem só da gente, então dentro do que se pode fazer, esse
trabalho de ação, dessa parceria, dessa unidade, eu no XXX (nome do CRAS) a gente teve uma
parceria... Augusta é uma turma muito, toda engajada. No XXX (nome de outro CRAS) também, a
gente essa... esse.. né! É extremamente importante. E quando se fala assim em equipe, se você não
tiver uma abertura pra equipe, realmente você vai criar uma certa dificuldade pra toda aquela
equipe, né? Você também sentir... Porque tem pessoas que parecem não se engajam muito com a
equipe... ainda tá mais de trabalhar mais só. Mas uma cabeça só não consegue dar conta. A gente
precisa realmente dessa soma, né, dessa parceria. Eu acho que isso aí é o que é bacana!

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Bruna (A.S.): E hoje a gente sabe que o próprio usuário, ele já conhece, já sabe identificar um pouco
mais a diferença do trabalho do assistente social e do psicólogo. Porque antigamente, eu sou mais
(antiga)... e aí... quando a gente... não existia psicólogo nos serviços da Política de Assistência né,
antes. Principalmente no interior. A partir do Sentinela foi que se iniciou. Porque o Sentinela veio
antes, em alguns municípios vieram antes dos CRAS. É... Então ele, ele, ele... não conseguia

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identificar, não conseguia identificar o psicólogo nos serviços. Então, quando o usuário chegava lá,
ele primeiro ia desabafar todas as suas angústias, e a gente, nós como assistentes sociais, nós
ouvíamos, mas a gente não conseguia dar uma resposta. Talvez, não sei se a palavra seja resposta,
não conseguia dar... é... aquele retorno que aquela pessoa naquele momento...

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Karla (Psi): ... Que a gente chama de feed-back, que seria o retorno, que no final das contas dá no
mesmo...

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Bruna (A.S.): Pronto... Assim... A gente não conseguia responder. O assistente social às vezes, às
vezes era considerado como aquela pessoa que era meio seca, porque a gente ouvia, entendia,
conversava, mas assim, não era o papel da gente... Até por causa da nossa formação mesmo, de tá
aconselhando ou fazendo qualquer outra coisa que se assemelhasse com a resposta que a Psicologia
podia dar. E a gente sabe que a nossa demanda da... da... da situação... dos nossos usuários, da
vulnerabilidade deles, como eles chegam no CRAS é muito gritante. Então... aí... hoje eu já vejo
assim, que o psicólogo e o assistente social, hoje a gente já sabe identificar, tanto a equipe... nós
tivemos , assim, dificuldades no começo né! Porque dizia ‘não sou eu que tenho que fazer isso, não
sou eu que tenho que fazer aquilo, isso não é meu, isso não é seu...’ A gente teve no começo essa...
esse embatezinho, né!

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Karla (Psi): Era isso que eu queria perguntar, não sei se atrapalha na hora de você registrar,
transcrever (referindo-se ao pesquisador), mas é uma curiosidade pessoal como psicóloga, assim...
como foi pra você (dirigindo-se à Bruna), não falo só você, mas a equipe que tava com você na época
do Sentinela, como você fala, chegar um psicólogo no grupo? Se sempre foi assistente social,
Secretaria de Assistência Social, aí a chegada de psicólogo!

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Bruna (A.S.): A gente estranhou bastante, estranhou bastante mesmo. E a gente ainda ficou nesse ‘o
que é que é meu, o que é que é seu?’ Porque nem o psicólogo sabia no momento o que era o papel
dele. Ele... no começo a gente fez clínica... Nós erramos muito, erramos muito pra poder chegar onde
a gente chegou hoje. Nós fizemos... andamos em camburão, junto com a vítima, com o agressor.
Entendeu? Nós fizemos... Nós fomos pra audiências pra ser testemunha... Nós erramos muito até nós
chegarmos onde a gente chegou hoje, né. Porque a gente não conseguia entender, e foi uma coisa
meio que empurrada né...

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Pesquisador: Bruna, deixa eu fazer uma contribuição... Você está trazendo experiências bacanas e...
a gente vai circular também essa oportunidade de experiências... Vamos compor o quadro de ação
conjunta (painel) e aí a gente circula nas ideias de ação conjunta e você pode resgatar essa e outras
experiências que você tem...

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Bruna (A.S.): Vamos. Ok. Tá certo. Tá jóia. Posso continuar? (Sobre o termo ação conjunta).

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Pesquisador: Pode!

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Bruna (A.S.): ...É... Como a Tamara falou, eu acho que agente, numa ação conjunta exige
planejamento. Exige parceria, né? Se você não tiver aquela parceria com a sua colega, seu
companheiro lá, você não vai ter confiança pra trabalhar com ele. Exige compartilhar informações,
algumas informações a gente sente esse embate de como é que vai ser essa situação. Ah, porque o
assistente social não pode passar pra o psicólogo ou o psicólogo não pode passar pra o assistente
social. Eu não concordo com isso, eu acho que nós somos colegas, o usuário tá lá, não tenho como eu

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negar uma informação, dizer você só pode saber até aqui ou eu só posso saber até ali. Eu acho que...
eu não concordo muito com essa questão, eu acho que a gente tem que compartilhar mesmo. E aí
vai exigir confiança.

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Norma (A.S.): Aí tem a fragmentação dessa ação conjunta

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Bruna (A.S.): É. Exatamente. Exige confiança, a gente tem que exigir confiança. E aí passa pela
questão ética. A gente também precisa ter confiança e entender a parte que a gente precisa ter uma
ética e não poder algumas coisas... é... que o usuário exigir que seja sigilo, infelizmente você não vai
poder compartilhar, né! Exige que a gente respeite as visões de mundo. E aí a gente vai pensar num
somatório de conhecimentos, não é? Nosso conhecimento do Serviço Social e o conhecimento da
Psicologia, respeitando os saberes. E no todo também nós precisamos fazer uma avaliação dessa
ação conjunta, pra que a gente possa avaliar até onde a gente pode ir, o que a gente pode avançar, o
que não pode, o que a gente tem que retroagir e o que a gente precisa melhorar. Mais ou menos
isso.

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Norma (A.S.): E ainda sobrou uma folhinha? (Sorri)

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Bruna (A.S.): Foi. Segurança. Que eu acho que não botei segurança... Porque eu pensei na questão da
segurança, sabe. Porque, o nosso colega hoje, uma ação compartilhada é mais seguro pra gente, a
gente tá numa situação hoje dos CRAS... Quando eu botei segurança foi em relação a isso. Porque a
gente vai com um colega fazer uma visita domiciliar, você vai sentindo mais segura. Pelo menos você
tá com um colega ali, vai correr tem que correr os dois juntos. (Risos de todos)... Eu e a XXX (nome de
uma colega psicóloga), nós fomos fazer uma visita domiciliar, rapidinho viu Nilton... (Como que
pedindo permissão para relatar um caso) Uma visita domiciliar... Aí estamos lá há horas e horas
conversando, anotando... aí a moça... eu disse ‘porque os seus meninos não tão brincando na rua?’
‘Eles brincam muito aqui na porta, porque não estão brincando hoje?’ Disse: ‘é porque o traficante
avisou que hoje vai ter um tiroteio aqui na frente’... (risos de todos)... e agente vai, ‘e eu peguei e
botei os meninos pra dentro’... Menina, a porta ficou estreita pra mim e pra XXX (nome da
psicóloga)... (Mais risos de todos). Estão vou botar segurança.

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(Momento de descontração e risos de todos)

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Iara (A.S.): Deixa eu falar...

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Pesquisador: Diga, Iara!

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Iara (A.S.): Quando eu vi ação conjunta, eu pensei em duas palavras: interagir e compartilhar. Essa
interação que é tão necessária e tão importante no nosso dia a dia. O bom entrosamento da equipe,
saber trabalhar em equipe, isso é muito importante. E compartilhar, compartilhar os conhecimentos,
as experiências, né, porque, como já foi dito, tem alguns casos que... alguns atendimentos que
chegam até nós, assistentes sociais, que a gente não consegue dar conta, né, aquilo perpassa ao
nosso conhecimento, o nosso conhecimento. E muitas vezes é necessária a intervenção do psicólogo
pra nos ajudar naquele atendimento. E, eu lembro que quando eu cheguei no CRAS, eu fui meio que
jogada, né, que eu fiz o concurso pra Educação... e aí eu não sabia como era composta a equipe do
CRAS. Eu vi que tinha psicólogo e eu não entendia muito bem o papel do psicólogo na equipe né
(sorri). E hoje eu vejo assim a importância desse profissional na equipe de CRAS. E não consigo ver

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uma equipe sem um psicólogo hoje, porque é muito importante, importantíssimo. Eu pensei nessas
duas palavras, interagir e compartilhar.

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Rita (Psi): A gente falou como a Assistência enquanto Política vem evoluindo, vem modificando, mas
aí me vem à cabeça a evolução também na relação dos profissionais, né! Dos psicólogos e dos
assistentes sociais nas suas unidades. O quanto essa relação foi evoluindo, foi crescendo de forma
positiva né! A gente no começo percebia um certo estranhamento e também até um certo
preconceito, né! Até porque a novidade causa mesmo essas possibilidades de estranhezas. E como a
coisa foi evoluindo pra uma relação hoje saudável, né. É óbvio que tem alguns, algumas
incongruências mas são naturais porque fazem parte das relações de uma forma geral, né! Mas hoje
eu acho que existe uma abertura maior pra essa ação conjunta. Acho muito legal essa evolução. É um
ponto extremamente positivo que eu vejo, né! Aí eu também coloquei ação conjunta, porque a gente
não pode pensar hoje, seja na Proteção Básica, na Especial, em CRAS ou em qualquer outra unidade,
uma ação que não seja conjunta entre o psicólogo e o assistente social. Não vejo. Acho que um não
se pode ver sem o outro na atuação, né! Aí eu coloquei também compartilhar, porque é preciso
compartilhar não só o que a gente vivencia com as pessoas, com as famílias, com os usuários, né,
mas é preciso compartilhar os saberes, né, as opiniões, as dificuldades, as angústias, as
discordâncias, porque há discordâncias, então é preciso expressar. A gente precisa compartilhar os
saberes também... Aí eu pensei a interdisciplinaridade, né! Porque na verdade um complementa o
outro não é! E como o Nilton pediu o que viesse à cabeça, eu fui colocando o que vinha na cabeça eu
fui colocando. Depois a gente vai vendo que tem uma certa relação o que a gente vai colocando, até
porque a gente vai assimilando, vai introjetando as informações, as experiências e nessa hora que
vai, vai emergindo né! Aí eu pensei: tanto na relação dos dois profissionais, mas também na relação
com a pessoa que vai ser atendida ou a família, na acolhida, né! A acolhida é extremamente
importante, tanto do psicólogo quanto do assistente social. São visões diferentes, mas a acolhida
tem que ser a mesma. O indivíduo precisa se sentir acolhido, precisa se sentir escutado né! Porque a
gente lida com pessoas que o tempo todo são pessoas que são excluídas de todas as formas, nos
seus direitos, enquanto cidadão, enquanto ser humano né. Encontrar pessoas que estão dispostas a
acolher, a escutar, já um passo extremamente importante na construção dessa relação. Aí pra isso eu
também coloquei uma escuta qualificada, porque não basta só a gente escutar, ouvir, mas a gente
precisa tá escutando o que o indivíduo tá falando né, na sua essência, nas suas angústias, enfim... Aí
eu coloquei entrelaçamentos, entrelaçamentos de profissões, de visões de homem, de visões de
mundo, de experiências, porque é um crescimento contínuo e conjunto, né! Aí eu coloquei visões de
homem, acho isso extremamente importante, a visão que a gente tem do homem, enquanto...
enquantoooo... essência, enquanto crescimento, enquanto, enfim... que são visões diferentes mas
que acabam convergindo pra uma visão que a gente pode a partir dali atuar de forma conjunta.

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Norma (A.S.): A visão das individualidades?

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Rita (Psi): Também. E do coletivo, na medida em que agente lida com o coletivo, com a comunidade.
Aí a partir daí eu vejo possibilidades de atuação. O que a gente vai, junto com o meu saber
profissional de psicólogo, juntando com o saber profissional do assistente social, a gente pode
construir inúmeras possibilidades de atuação. E por último eu coloquei assim, veio na minha cabeça,
congruências e incongruências, que a gente precisa trabalhar na gente enquanto pessoa, primeiro, e
também enquanto profissional. As nossas incongruências enquanto ser humano, enquanto
profissional, enquanto... é... enquanto indivíduo que trabalha com o outro, independente da

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profissão que ele tem, que isso acaba, se a gente não souber trabalhar isso na gente, acaba
influenciando de forma negativa. E se agente puder ter abertura pra trabalhar de forma positiva,
pode ser uma coisa muito interessante né!

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Pesquisador: Sobrou papel? (Em tom de brincadeira)

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(Risos de todos)

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Norma (A.S.): E nessa questão do... que a Rita falou da escuta, a escuta qualificada. Dessa escuta, eu
aprendi com o psicólogo, a psicóloga XXX (nome de uma psicóloga) do XXX (nome de um CRAS). Ela
mostrando a diferença de ouvir e escutar. E quando eu aprendi isso eu achei bem interessante. Que
isso serve também para os profissionais... Pra ter essa escuta. Pra esse momento a gente parar e
conseguir realmente observar o que realmente o que ele tá passando, né! Não apenas ouvir, porque
aquilo dali a gente vai precisar refletir, né! Eu, com senso crítico sobre aquela escuta que a gente tá
fazendo sobre o parceiro também, o companheiro, a companheira dessa ação conjunta. Achei
interessante...

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Karla (Psi): Quando eu falo em ação conjunta... Foquei em psicólogo e assistente social assim como
um todo, né! Aí a primeira palavra que me veio foi a questão da união. Pra gente ter um trabalho em
conjunto acho importantíssimo a união. A força, unidos e buscando a força. É... eu vi também a
questão da disponibilidade. É preciso que pra que as situações aconteçam, a gente precisa tá
disponível. É... a questão de comum a todos. Tem que ser comum a todos, a mim, a você, ao outro,
né. Uma relação de troca. E a questão também do aprendizado. A partir do momento que ação ela é
conjunta, acho que não deixa de ter aprendizado. E depois, no final, me veio a questão da empatia.
Se não houver empatia, essa questão de saber lidar um com o outro fica mais difícil ser conjunto.

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Pesquisador: Empatia... seria o que pra você?

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Karla (Psi): Essa relação do... Como eu posso dizer de um jeito bem simples, né, ... de ir com o outro,
de ir com a cara do outro, saber lidar com o outro. Porque se eu não tiver um bom relacionamento
com você, eu acho mais difícil o trabalho fluir...

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Norma (A.S.): Pra comunicação realmente fluir...

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Augusta (A.S.): E sem equipe... esse trabalho de relação com a equipe...

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Karla (Psi): ... A equipe. Porque quando ação conjunta, eu vejo conjunto né, não é um só.

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Bruna (A.S.): A empatia na vida profissional acho que tá muito aberto a você tá... tá muito ligada a
você estar aberta a querer ter uma relação boa de trabalho, né. Porque a gente tem que aprender...
Eu acho assim também, porque a gente tem que aprender a conviver, a trabalhar... às vezes você
realmente, de primeira não vai com a cara da pessoa. ‘Eita, não bati com aquela, não bati com
aquele’. Mas você tem que tá aberta, num ambiente de trabalho a você querer... né... é...
compartilhar... Você estar aberta a abrir até seu coração pra você fazer novas amizades, conhecer
novas pessoas. Porque tem gente que realmente vem, aquele negócio, fica difícil, presa, segurando...
Eu já fui assim, eu disse ‘eu não quero fazer amizade com ninguém naquele lugar’. Já cheguei num
lugar dizendo assim: ‘eu não quero’. Não consigo né, minha natureza não permite. Mas eu acho
que... eu acredito que a gente tem que tá aberto, sabe...

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Manoela (Psi): E essa questão da empatia também é aquele aspecto de você se colocar no lugar do
outro. Como é que ele tá se sentindo? Se fosse comigo, como é que eu iria tá me sentindo? Como é
que eu gostaria que agissem comigo? É muito isso, de parar, de refletir, como seria se... como a
gente gostaria de ser tratado naquela situação.

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Bruna (A.S.): E a Assistência ainda, ela... ainda, eu ainda sinto que ela tem um viés muito grande da...
tanto é assim, nós do nível superior... o pessoal de nível superior ainda tem um pouco mais de
amadurecimento, e ainda temos muitos ransos. Mas o pessoal de nível médio e fundamental, eu
sinto assim que eles estão muito despreparados pra vida profissional. Então, assim, parece que é a
continuidade da casa... Vou falar mais não (em tom de brincadeira, dirigindo-se ao pesquisador,
talvez considerando que fala em demasia. Risos). E você acaba tendo dificuldade de lidar com isso
porque é aquela briga familiar que trás pra dentro do CRAS, é aquela briga... e aquela briga
atribulada que você parece transfere pra dentro do trabalho. A gente sente em alguns profissionais
de nível superior, mas ainda são menos. Pessoas que não sabem lidar muito com a vida pessoal, e
acaba transferindo isso pra vida do trabalho e que prejudica a equipe toda.

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Norma (A.S.): Eu acho que essa questão da empatia ela também vai passando por essa... Essas
questões todas que estão colocadas aqui, e também a questão da diversidade, né! Essa diversidade
que a gente tem que eu acho que é um espetáculo. Enquanto as pessoas veem como barreira, né...
Eu não gostaria de me encontrar em vários lugares comigo mesma. Ia ser muito espantoso pra mim.
(Risos do pesquisador). Então o bom é eu encontrar diversidade e ver que cada cabeça ali é um
mundo, e eu posso aprender com essa pessoa, posso aprender até nas coisas que eu acho negativas.
Também posso tirar o que eu não gostaria, né! Ou eu posso também estar equivocada. Então há uma
leitura da diversidade que eu acho brilhante. Eu não gostaria de um padrão, né, como eu disse eu
não gostaria se eu me encontrasse em todo lugar. Então, eu acho que essa diversidade é uma
riqueza.

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Débora (A.S.): As palavras que me vieram à cabeça... Assim, nem foi pensando no âmbito da
assistência, mas no âmbito da palavra mesmo, da semântica... foi a questão de ação conjunta, da
ideia de ligação, de parcerias, de forças atuando em conjunto com algum objetivo, integração
também, e... Aí no âmbito profissional me veio a palavra interdisciplinaridade, como a Manoela falou
né, essa junção de saberes, essa união pra enriquecer... E a questão da totalidade, aí já pensando na
Política ou a integração de políticas, né, de atuar não Assistência separadamente, né, mas em
conjunto com as outras políticas, e até mesmo de identificar esse nosso usuário, esse cidadão, esse
ser humano enquanto ser humano e não compartimentalizado. É isso.

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Pesquisador: Gente, eu fico encantado com essas experiências que vocês trazem. Encantado.
Infelizmente, não dá pra gente se debruçar sobre essas questões mais particulares, porque afinal,
como é um contexto de pesquisa a gente tem um objetivo mais específico... Mas eu fico encantado
com essas experiências, por exemplo, que Bruna traz, essas falas da Norma, essas incongruências
que a Rita traz... E, assim, o bom de pesquisar sobre o que a gente faz, sobre o que a gente atua, é
que a gente vai relembrando as vivências... No meu caso, relembrando as vivências que tive e que
tenho pelos CRAS que passei. E vocês falando aqui, eu lembrei de uma experiência que tive com a
Iara: a gente foi fazer uma visita domiciliar, não seu se Iara lembra...

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Iara (A.S): Lembro.

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Pesquisador: Fomos fazer uma visita domiciliar, acho que era por trás do XXX (nome de um conjunto
residencial)

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Iara (A.S): Lá no XXX (nome de um conjunto residencial)

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Pesquisador: ...E a gente ficou na porta né, tentando entrar pra falar com a usuária, a usuária
atendeu a gente na porta, e lá dentro o cara passou armado, num foi?

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Iara (A.S): Foi...

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Pesquisador: Com a arma... Fazendo questão de mostrar a arma...

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Iara (A.S): Veio saber o que a gente queria.

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Pesquisador: ...Ele veio saber o que é que a gente queria... Aí, Iara, a gente prontamente... (sinal de
que foi embora rapidamente), finalizou a visita, ‘vamos embora’ (Iara e Pesquisador sorriem)... Com a
Augusta também, a gente teve muitas histórias que a gente teve que se debruçar...

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Rita (Psi): Daria pra escrever um livro!

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Pesquisador: Ô!!

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Rita (Psi): Tantas experiências...

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Pesquisador: Olhando aqui pra esse painel construído, por nós né... Construído por vocês: ‘Troca de
saberes, acolhimento, equipe, união, ações coletivas, visitas em domicílio, grupo,
interdisciplinaridade, troca, somar, ação conjunta, trabalho em equipe, unidade na parceria
respeitando atribuições, união de conhecimentos e aprendizado, respeito, construção, troca,
saberes, troca de experiências, união de novo, trabalhar em parceria, aprendizado novamente, troca,
comum a todos, disponibilidade, força, empatia, totalidade, interdisciplinaridade, integração,
parceria, ligação...’ Que mais?... ‘Planejamento, interagir, parceria de novo, compartilhar,
compartilhar novamente, possibilidade de atuações, congruências e incongruências, confiança, ética,
ação conjunta, visão de mundo, escuta qualificada, visões de homem, somatório de conhecimento
respeitando o saber, entrelaçamentos, avaliação, compartilhar, interdisciplinaridade novamente,
segurança, acolhida’. Esse aqui o painel que vocês construíram.

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ATIVIDADE 2: Pergunta disparadora: Quais experiências no CRAS você vivenciou como ação conjunta?

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... E aí, olhando esse painel, pensando um pouco sobre essas coisas e... a exemplo do que a Bruna
trouxe, de algumas experiências que a Bruna trouxe, a proposta é que a gente faça agora uma
exposição de alguma experiência de ação conjunta. A gente tem mais uns três momentos de
trabalho, se der tempo. Se não der, a gente vai até meio dia. Mas a ideia é, assim, olhando pra esse
painel, e a partir do que foi colocado aqui, vocês responderem a uma questão, que a gente chama de
questão disparadora: Então, a proposta é que se responda essa questão, expressando no papel, e
depois a gente compartilhe, tal como a gente fez com essa associação de ideias sobre ação conjunta.

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Bruna (A.S.): É uma experiência só?

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Pesquisador: Uma ou mais de uma. Agora vamos pensar que a gente tem... somos em dez, dez
pessoas. Que cada um tenha a oportunidade de expressar. Aí a gente vai trabalhando dessa forma:

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coloca no papel, expressa da forma que quiser, depois expõe, pensando que tem mais outras pessoas
que vão colocar.

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(Neste momento o pesquisador entrega as tarjetas adesivas, e esclarece algumas dúvidas
individualmente)

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(As pessoas levam alguns minutos para escrever suas experiências... O grupo se mostra mais
descontraído, traz algumas conversas paralelas. Algumas pessoas conversam um pouco sobre
experiências vividas no trabalho e até sobre vida pessoal, como dieta, perda de peso etc. Outras
fazem perguntas ao pesquisador sobre a atividade, numa clima amistoso e leve.
Concomitantemente, algumas pessoas aproveitam para lanchar e tomar um café)

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Pesquisador: Gente, vamos lá, para a próxima etapa? A gente vai lanchando e continuando... (Espera
mais alguns poucos minutos. Circulam algumas conversas informais). Bom, gente, vamos voltar então
pra atividade?

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Luciana (Psi): Eu pensei num caso específico. A experiência que eu tenho, assim, pra fazer uma ação,
aí tem que ser... Planeja. Isso acho importante. Diante de um caso, né. Diante de um caso, de uma
ação que a equipe precisa fazer. Então, sempre... a equipe senta, planeja, pra fazer as ações. As
visitas domiciliares. Uma experiência prática que é em conjunto, né. Sempre, lá no CRAS né Débora,
agente sempre faz, as assistentes sociais junto com psicólogo. Nunca faz só o assistente social.
Sempre... As ações em grupo, que também é uma experiência de uma ação conjunta. E assim, diante
de uma demanda de um atendimento, necessitava intervenção conjunta, né. O assistente social e o
psicólogo. E justamente acontecem vários casos que precisam da intervenção conjunta, né...
Encaminhamento à rede né. Então isso acho q é uma experiência... eu não coloquei qual experiência,
mas botei tópicos, assim...

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Pesquisador: Era isso que eu ia te perguntar, você lembra de alguma experiência que você
vivenciou? Tem alguma que lhe vem à cabeça?

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Luciana (Psi): Várias (sorri). Nesse tempo todo! Assim, de uma experiência foi que fui fazer uma
visita, né, que precisou do assistente social atuar junto comigo, que sozinha... A gente vê mais a
questão subjetiva, a gente vê logo, esse olhar nosso, né, do psicólogo. Então precisou também dessa
parte do Serviço Social, a questão social, moradia, essas coisas, então... Eu vou falar a experiência
que veio agora na cabeça, do interior (outro município), que teve lá uma família que não... super
vulnerável. Não tinha renda, não tinha onde morar, não tinha o que comer, não tinha... Então
precisou... Aí eu pensei, meu Deus, como é que a pessoa não tem o que comer, não tem onde morar,
tava na rua junto com a família. Era o senhor, a companheira e três filhos. Morando na rua, sem ter o
que comer, sem ter onde... Aí eu fiquei sabe, Nilton, como é que eu vou atuar agora como psicóloga?
O que é que eu vou dizer a ele? Vou pelo menos acolher, fazer essa acolhida né. Escutar o que essa
família traz, a demanda. E fazer os encaminhamentos. Mas foi difícil, porque a família não tinha
suporte nenhum, não tinha nada. Aí junto com a assistente social, vamos ver o que é que a gente
pode fazer por essa família, porque realmente era do zero mesmo, não tinha base nenhuma, não
tinha nada.

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Pesquisador: Essa tua experiência é em CRAS também né?

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Luciana (Psi): É em CRAS também. Aí a gente foi ver se eles tinham Bolsa Família, Cadastro Único.
Como é que a gente faria pra inserir no Benefício Eventual. Um dos filhos era doente, tinha uma
deficiência no pezinho do menino. Era deficiente. Mas aí a gente foi ver se tinha a possibilidade... A
gente foi ver todas as possibilidades que a gente podia fazer alguma ação pra essa família, entendeu?
Essa experiência... Foi muito riquíssima. A gente foi por todos os lados. Por onde vai... Por onde
chega pra tentar ajudar essa família. E o... tutor da família, que era o homem, fazer com que inserisse
ele em algum curso, em alguma coisa, que não tinha perspectiva nenhuma de vida. ‘E como é que eu
vou fazer se eu só sei ler e escrever o meu nome?’ (Reproduzindo a fala do homem por ela atendido).
Pense como foi difícil! Aí hoje eles estão inseridos no Aluguel Social, recebem uma cesta básica, as
crianças de menor, duas, estão na creche, não tinham nem onde ficar. Pense! Os meninos tudo
doente! Aquela situação mesmo! Encaminhamos pra Saúde.

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Bruna (A.S.): Vocês fizeram acompanhamento familiar em conjunto?

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Luciana (Psi): Até hoje estamos fazendo... Até hoje... O primeiro prontuário que a gente fez foi essa
família.

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Bruna (A.S.): Desligar né? (Refere-se a encerrar o acompanhamento familiar, que é tido como
desligamento)

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Luciana (Psi): Não tem nem como. E outra: não tem... autoestima baixa. Não tem perspectiva
nenhuma. ‘Como é que eu vou fazer o curso?’ A gente começa a ver as possíveis potencialidades que
essa família tenha, né. Mas, pense! Não tem nenhuma. A mulher analfabeta, ele só estudou... só
sabe escrever o nome e ler algumas coisas... Como é que eu vou...?... Lá no interior tem o EJA, aí to
tentando ver se ele tem... se ele resgata a autoestima dele pra ver se ele voltar a estudar. Lá tem o
EJA, tem à noite, Supletivo, tem... Mas tem que a família querer, né. A gente não pode forçar, né.
Tem que ser aos poucos e também eles não têm essa visão de objetivo, não tem nenhum objetivo de
vida, não tem nada. Querem tá naquela... Aí tem o Bolsa Família, que tem umas coisas que eu
concordo e umas coisas que eu não concordo. Aí eles recebem o Bolsa, aí acham que já é tudo, aí se
acomodam, né. Aí não querem estudar, não querem fazer outra coisa. Tem essas questões também
né. A gente tenta... Vocês tem curso, tem isso, tem aquilo, que vocês podem melhorar cada vez mais
de vida, vocês podem crescer juntos, ela pode voltar a estudar. ‘Mas esses meninos?’ Mas não tem à
noite. Tem de manhã, à tarde e à noite. A senhora pode... É difícil. Complicado. Tem que eles
quererem realmente. A família tá disposta a querer acompanhamento.

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Pesquisador: Luciana, coloque aí por favor, na tarjeta, alguma coisa que identifique essa experiência,
porque a gente precisar dessa tarjeta pra fazer o painel. Só alguma coisa que identifique, pode ser
uma palavra, uma frase...

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Bruna (A.S.): Duas experiências que me chamaram muita atenção e que foram diferenciais pra mim
na minha vida profissional, porque assim o acompanhamento familiar, dentro da experiência do
CRAS em si né, que o acompanhamento a gente já veio começar a discutir há pouco tempo né,
porque a gente fazia meio que solto, sem saber muito o que tava fazendo, né, agora a gente já tem
mais ou menos um caminho que a gente tem que entender como é esse caminho pra chegar nesse
acompanhamento. Mas duas coisas, duas experiências muito importantes pra mim nessa, nessa
caminhada de CRAS foi, uma foi a construção do projeto de pesquisa do mapeamento dos territórios
dos CRAS...

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Manoela (Psi): Botei isso também

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Bruna (A.S.): ...Eu acho que ali foi um ponto que foi um divisor de águas. Porque quando a gente
iniciou o projeto, a gente, a nossa angústia era... se eu falar demais pode dar uma cutucada viu Nilton
(risos de alguns)... A nossa angústia era porque a gente tinha uma série de questões, uma série de
questões que agente, quando chegou nos CRAS inicialmente a gente se deparou. A gente não sabia
onde era o nosso território e quais eram as ruas do nosso território, quem eram as famílias do nosso
território, o que que a gente ia fazer no território. E aí a gente deparou... A gente precisa entender o
que é o território da gente né. E aí, quando a gente começou a construir o projeto, a gente disse: e
quem vai responder sobre isso? E as questões que iam aparecendo, e quem vai responder sobre
isso? E aí a gente se deparou com o que... não tinha psicólogo na equipe da construção do projeto,
né! E aí a gente disse: não, vamos chamar os psicólogos pra fazer junto o projeto com a gente e aí, a
partir daí a gente começou a construir dentro do nosso instrumento e dentro do projeto de pesquisa
o que seria o início do trabalho em conjunto com os CRAS. Acho que ali, eu acho que foi um divisor
de águas, o projeto de pesquisa, porque a gente começou a fazer uma leitura em conjunto. O que é
que a gente precisa saber da Psicologia, dentro do nosso território? O que é que a gente precisa
saber do Serviço Social? O que é que a gente fazer de políticas públicas? Então ali foi um ponto de
partida né. Eu acho que a construção do projeto, a execução do projeto, com todos os trancos e
barrancos, né! Não foi fácil! Nós fizemos uma coisa que eu acho que... eu considero ali um... Como
foi que a gente aplicou dois mil e duzentos questionários na área do XXX (nome de um CRAS)? Na
área do XXX (nome de um bairro)? Dois mil e duzentos questionários! Sem dinheiro nenhum, só com
estudantes e profissionais! Foi de uma grandiosidade, né! De uma grandiosidade! E a gente analisar,
e agente entender o que é que tá acontecendo. E uma outra coisa que surgiu a partir, também do
projeto da pesquisa, do mapeamento dos territórios, que é uma outra experiência, foi o grupo de
estudo. O grupo de estudo é importantíssimo! Porque, às vezes a gente... fica um pouco cansativo da
gente ficar discutindo ás vezes as mesmas coisas, mas como é um espaço democrático, né, e a gente
precisa discutir os nossos instrumentos, o que é que a gente tá... Como a gente avançou no
acompanhamento familiar! Como a gente avançou na leitura de mundo da gente, né! Pra gente ter
pelo menos um nivelamento entre os psicólogos e assistentes sociais... No dia-a-dia da gente, dividir
com os colegas essas experiências, né. Qual é a alternativa que você tá usando pra resolver um
problema, pra resolver outro problema? Quais são as demandas que a gente tem em comum? As
demandas que... E até as afinidades da gente, né, no grupo. Então o grupo de estudo pra mim
também ele é uma experiência inovadora porque eu só conheço grupo de estudo de CRAS em
Maceió, em outro lugar eu não conheço. Conheço várias colegas do interior, não conheço (grupo de
estudo). E como tá sendo importante esse grupo de estudo pra gente definir... Pra tudo. Pra gente
discutir a Política de Assistência, pra gente crescer, pra gente ampliar o nosso conhecimento, pra
gente discutir a nossa realidade, pra gente entender o que é que tá acontecendo nas... Fortalecer a
nossa luta. Acho que essas duas experiências. Não vou nem tocar no assunto do acompanhamento
familiar. O acompanhamento familiar... tinha gente que entendia que o acompanhamento familiar
era só fazer visita. Fez duas visitas, resolveu. Já tá acompanhado.

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Rita (Psi): Ou então a condicionalidade de algum...

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Bruna (A.S.): Exatamente. Fez condicionalidade já era um acompanhamento. Tanto é que quando a
gente iniciou o acompanhamento familiar, eram quantas pessoas que eram acompanhadas? Cento e
poucas famílias acompanhadas! (Rita sorri e concorda) E na verdade não eram acompanhadas, eram

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atendidas. Até esse entendimento do que é atendimento, os conceitos que nós estamos utilizando,
tudo isso partiu de que? Partiu do grupo de estudo. E mais importante do que tudo isso é que essa
iniciativa não partiu da gestão. Partiu das equipes. Das equipes técnicas. Dos técnicos, que têm
interesse em aprender, apesar da gente... dessa... do senso comum dizer que o funcionário não gosta
de trabalhar, funcionário público não gosta disso, e tudo mais. E a gente vem tendo esse
entendimento que é o contrário, que o que tá botando pra frente a Política de Assistência, o que tá
alavancando são, realmente, os profissionais que estão à frente dos serviços.

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Rita (Psi): É... Posso? (perguntando ao pesquisador se pode falar)

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Pesquisador: Pode

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Rita (Psi): Só pra não perder o fio, minha gente... Do que ela (Bruna) falou. Essa questão do grupo de
estudo. Esse grupo de estudo eu acho extremamente importante, eu acho na verdade um marco
dentro da Política de Assistência não só daqui de Alagoas, mas quiçá do país, porque a partir daí a
gente modificou uma série de conceitos e ressignificou muita coisa da nossa prática mesmo dentro
da Política de Assistência, né! E o mais engraçado é que não foi nada planejado. A partir de uma
reunião que era pra se fazer planejamento anual... Se lembra Bruna? Dos CRAS. Foi que surgiu a ideia
de se fazer um grupo de estudo. E a partir dali mudou tudo. Né! Mudou instrumentos. Mudou
conceitos, como a Bruna falou, né. Mudou a forma da gente atuar, não só no atendimento mas com
as famílias também. Eu lembro que antes do grupo de estudo, a gente fazia, minha gente... (Pede pra
editar essa parte da gravação. Risos de todos. Momento de descontração)... A gente... Não era
Bruna?? ... Aí hoje a gente fica, minha gente porque q a gente não pensou nisso antes né?

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Bruna (A.S.): Porque tem que ter quantidade de formulários? Até hoje aquele monte de formulários.
Porque aquele monte? Qual era o sentido daquilo? A gente fazia a coisa automática, sem pensar,
sem entender o que a gente tava fazendo. E a partir do grupo de estudo a gente foi começar a
questionar, porque que eu tenho que fazer desse jeito?

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Pesquisador: E a se questionar, né!

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Bruna (A.S.): É, e a se questionar. Por que nossa prática tem que ser assim?

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Karla (Psi): Quando ela fala desses cadastros, teve uma época que eu lembro que tinha que fazer o
cadastro do Cadúnico

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Bruna (A.S.): E era pior

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Karla (Psi): ... Você parar o que você tem que fazer no CRAS pra fazer Cadastro Único

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Bruna (A.S.): E outra coisa foi que a gente começou a entender o que é que... realmente o papel do
CRAS, porque hoje a gente já tem entendimento do que é que a gente tem que fazer enquanto CRAS,
o que é que a gente não tem que fazer. Porque a gente fazia tudo, lavava, passava, cozinhava, fazia
Cadastro Único, fazia Bolsa Família, fazia visita, fazia atividade da Saúde, fazia tudo que tinha, menos
o Acompanhamento Familiar, que é o papel principal do CRAS. Então fazia cadastro da Gestante,
cadastro de não sei do que, cadastro de Cesta Nutricional, menos o que a gente precisava fazer que
era o Acompanhamento Familiar.

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Manoela (Psi): E a questão também, Bruna e Rita, da troca de experiência entre os CRAS, porque
quando eu comecei a participar do grupo de estudos eu visualizei as pessoas que trabalham em
outros CRAS e as experiências delas. Todo mundo trabalhava isolado né, cada um no seu CRAS,
quando tinha algum evento a gente se encontrava oi oi, mas no grupo não, no grupo de estudos eu
comecei a visualizar as pessoas que estavam lá fazendo aquele trabalho (Rita diz: extamente) e
compartilhando as experiência, realmente foi muito rico

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Débora (A.S.): E sem falar nos... Desculpe Rita (ambos tentam falar ao mesmo tempo)... nos
atendimentos, porque assim chegava naquela sala um monte de birô, todo mundo atendendo né!

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Rita (Psi): É verdade!!

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Rita (Psi): Nem atentava para a questão ética...

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Débora (A.S.): Sigilo zero!

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Luciana (Psi): Teve uma vez que eu olhei, teve uma vez que a gente olhou, tava um atendendo, outro
atendendo... Minha gente, a gente atende tudo no mesmo...

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Débora (A.S.): E quando modificou a gente via, ai meu Deus, tem dez pessoas ali... Quando tinha Cad
no CRAS, era mais movimentado, tem dez pessoas ali e a colega vai atender? Será que ela vai dar
conta? E você quer ajudar, e você quer fazer alguma coisa, mas tem que deixar o fluxo seguir pra
gente se acostumar né!

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Manoela (Psi): Eu senti isso quando eu voltei de licença maternidade. Foi quando modificou. Quando
eu cheguei no CRAS... Não, hoje no atendimento é fulano. E eu vou fazer o que?

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Rita (Psi): Era o plantão né?

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Manoela (Psi): Aí um monte de gente pra ser atendida. E eu mas eu também quero... Aí eu lembro
que XXX (nome de uma colega assistente social) disse: ‘relaxe, respire, você ta chegando agora, você
ta chegando de licença maternidade, relaxe...’

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Rita (Psi): Muita coisa aconteceu na sua ausência (em tom de riso)

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Rita (Psi):... Foi... (Risos de todos)... Realmente... Deixa as coisas fluírem... E hoje em dia eu não
imagino mais como era antes. Uma sala com vários birôs e todo mundo atendendo.

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Pesquisador: E às vezes, isso que a Débora traz, o usuário chegava na sala pra ser atendido tomava
aquele impacto, quatro, cinco técnicos. ‘E agora, vou me dirigir a quem?’ ...

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Rita (Psi): Sem contar que a motivação, quando surge espontaneamente, assim, como esses
movimentos, tanto do grupo de estudos quanto do... da pesquisa, a motivação é muito maior né!
Não que agente não acate questões que vem do MDS ou da própria gestão, mas quando é um
movimento que surge dos próprios técnicos, que é construído e que vem de uma motivação
espontânea acho que é muito maior.

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Norma (A.S.): E da realidade que circule né. Daqui, o MDS tá construindo, já vem pronto, manda de
cima pra baixo...

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Rita (Psi): Exatamente. Sem dar conta das especificidades...

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Débora (A.S.): Só muda o nome do município...

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Rita (Psi): E quando eu cheguei no CRAS eu cheguei no meio da pesquisa, lá do XXX (nome de um
CRAS), aí a XXX (nome da então coordenadora do CRAS) Rita você vai pra pesquisa... Pesquisando o
quê que eu não sei?... Me deram um questionário, eu vou, vou embora, né! Mas é... eu acho que tem
essas duas experiências. Agora não entendi muito, Nilton, se você queria alguma experiência de
acompanhamento, é isso, também?

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Pesquisador: Não. Experiência que você vivenciou que você entendeu como ação conjunta

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Rita (Psi): Tá. Porque tem as experiências de acompanhamento, que são inúmeras, enfim.

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Pesquisador: Seu relato também é sobre o grupo de estudos?

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Rita (Psi): Tinha relatos de... Me veio também algumas experiências de acompanhamento no âmbito
do PAIF né!, de alguns casos assim que me chamaram a atenção, e também na época da Especial
(Proteção Social Especial). Não sei se é o caso aqui mas, enfim, que também me chamaram atenção
que era uma outra realidade, que às vezes... era mais chocante porque... quando eu trabalhava em
abrigo pra crianças e adolescentes do sexo masculino, então assim eram casos explícitos de... de
rejeição, de violação, de todo tipo de violência. Então isso me chamava muita atenção, era muito
mais chocante, e ficou marcado, apesar de não ter passado tanto tempo mas, ficou marcado. Então
as experiências que eu tive ali eram... como eu tava chegando na Assistência, então foram bastante,
foram marcantes na minha vida...

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Pesquisador: Tem alguma que você lembra?

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Rita (Psi): Tem. Eu tava com uma assistente social, e a gente tava fazendo um acompanhamento...
Porque na verdade a experiência de abrigo... o papel da equipe técnica é, a princípio, depois de todo
aquele processo de acolhimento, enfim, de tentar entender a história de cada criança ou adolescente
ali, é ver as possibilidades de reinserção na família, né, seja ela o núcleo principal ou família
ascendente, descendente, enfim. E nessas visitas a gente escutava verdadeiras coisas absurdas
assim, sabe! De desumanidade, de... coisas que vai de encontro com valores que a gente entende do
que é família, do que é respeito, do que é afeto, do que é amor, né. Então, assim... teve um caso
específico de uma criança que a gente foi fazer esse acompanhamento, foi fazer esse primeiro
contato, essa primeira visita e o pai disse assim sem o menor... problema, sem o menor... receio...
pegue essa criança... Detalhe, a criança era um adolescente, uma criança, um menino de oito anos,
de nove anos... Vocês podem pegar ele, jogue na lata do lixo, faz o que vocês quiserem que eu não
quero ele. Será que vocês não entendem que eu não quero ele... Aí começou: não serve pra nada, é
isso, é aquilo, enfim... E eu lembro que a assistente social perdeu a cabeça na hora, partiu pra cima
dele...

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Bruna (A.S): Foi nada? Por isso que não trabalho na Especial! (Risos de alguns). Eu ia ter a mesma
postura...

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Rita (Psi): (Sorri). Ela partiu pra bater nele mesmo! Você imagine a minha situação ali, de tentar
conter... Realmente baixa um lado inferior da gente, assim, uma coisa, né! Enfim, então baixa a

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humanidade da gente, né! E se agente não souber controlar... E ela partiu pra bater nele. E eu
tentando controlar a situação ali... E ela é alta, forte, meu Deus eu não posso... (Risos de alguns)... Aí
se ele... eu vou apanhar! Se ele reage e ela reage eu vou apanhar ali no meio né, dos dois. Então,
mas, assim, me chamou bastante atenção. A gente descontrai mas, que é chocante né, você ter que
escutar isso que vai de encontro com tudo que a gente acredita, né! E... me chamou bastante
atenção. E tem outros casos, se a gente for relatar aqui...

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Débora (A.S): Pra não perder a linha de raciocínio também (sorri). Assim, eu listei três experiências,
mas com certeza na nossa vida a gente nunca faz nada sozinho, né! A gente precisa do outro... todas
as nossas ações são ações conjuntas, né! Aí, a primeira foram as ações comunitárias. E aí, assim,
experiência recente tem as nossas ações comunitárias lá no CRAS XXX (nome do CRAS em que
trabalha) que é pra oferta de serviços né, por exemplo, trazer carteira de trabalho, CadÚnico,
atendimento do Bolsa Família por exemplo, alguns atendimentos da Saúde, fazer com que esses
serviços sejam de mais fácil acesso pra população, e elas não precisem se deslocar. E aí eu vejo essas
experiências, essa experiência da ação comunitária né como uma, uma engrenagem, como uma
máquina que tá funcionando, eu gosto muito de participar porque aí você vê que, claro, tem aqueles
que trabalham mais, tem aqueles que trabalham menos né, mas aquele conjunto, aquele corpo
funcionando, cada um fazendo a sua parte pra engrenagem funcionar, pra máquina funcionar. Listei
também a experiência do grupo de estudo, né! Vocês já falaram muito bem, mas assim eu também
eu vejo como um marco, como uma coisa revolucionária né... E eu cito essa questão da troca de
experiências, as essa questão dos instrumentos também, dessa padronização, dessa uniformização
né... Antes cada CRAS tinha o seu instrumento... Que parecia uma coisa, não é que sem valor mas
não tinha tanto significado como todas as unidades que trabalham ter o mesmo instrumento. Parece
mais importante. E a questão do planejamento, que aí é um momento também que se precisa da
ação conjunta, toda a equipe reunida pra elaborar, pra executar, pra avaliar, né; ninguém planeja
sozinho, ninguém faz as coisas sozinho...

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Pesquisador: Você fala planejamento das atividades?

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Débora (A.S): Das atividades, isso. Aquele planejamento anual que a gente faz das atividades.

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Manoela (Psi): Quando você pediu uma experiência assim de ação conjunta, né, eu pensei
primeiramente na pesquisa... de um lugar diferente da Bruna, porque na época ela participou do
planejamento da pesquisa, ela tava na coordenação geral. Eu tava chegando no CRAS. Mas
realmente eu tenho esse olhar de que a pesquisa foi um marco, foi a união de forças realmente, dos
profissionais. E eu lembro que na época a gente, a gente ia pra campo, depois tinha que analisar os
dados, e era aquela confusão, tinha estagiário e tudo, mas, assim, todo mundo ali unido, todo mundo
estressado mas com um propósito, que era a construção desse diagnóstico, que realmente eu vejo
como maior força tarefa mesmo, assim, entre os profissionais dos CRAS, né. E... a segunda e a
terceira que eu vou juntar é a questão, como a Débora falou, a questão do planejamento né, e das
ações que a gente desenvolve dentro do CRAS. Planejamento a gente senta todo mundo, não sei se o
Nilton chegou a participar de algum planejamento (refere-se a um período que o pesquisador
trabalhou no mesmo CRAS)... Senta todo mundo, onde todo mundo dá a sua colaboração, todo
mundo dá a sua ideia. É... Há discordâncias, há acréscimos, enriquecimento daquelas ideias, e aí todo
mundo participa, ninguém fica com raiva de ninguém quando uma ideia não é aceita ou aquela ideia
é modificada, pelo contrário, a gente vai refletir sobre aquilo. E depois desse planejamento as ações

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mesmo que agente desenvolve lá dentro, tipo, é... uma campanha, por exemplo, campanha do
combate ao trabalho infantil... Vamos supor, tá eu e a Norma, a gente não tá se falando bem, a gente
teve um atrito, mas na hora de desenvolver tô lá com ela, ajudando ela, ela me ajudando, me
apoiando, me dando uma dica, todo mundo ali junto né, a gente esquece mesmo as diferenças e
agente bota a mão na massa e a gente trabalha.

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Pesquisador: Na execução da ação?

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Manoela (Psi): Na execução. Aí depois às vezes a gente quer ir embora, aí não pera aí vamos sentar
pra, vamos avaliar né. Aí nas carreiras mesmo a gente avalia os pontos positivos, os pontos negativos
né, pra melhorar as próximas, os próximos eventos. Então eu vejo muito isso lá dentro do XXX (nome
do CRAS), essa questão de sentar todo mundo pra planejar e todo mundo junto executar, e no final
todo mundo avalia. Essa experiência que eu... Não sei se era isso que você queria (dirigindo-se ao
pesquisador), se tá geralzona, se você quer que eu especifique...

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Pesquisador: Era a experiência de vocês mesmos!

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Norma (A.S.): Olha, e eu tô dizendo tá válido! (Em tom de brincadeira, porque anteriormente
sinalizou com a cabeça, afirmando que a experiência relatada estava de acordo)

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(Risos de todos)

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Pesquisador: Pra você ver que não sou que tenho que validar ou não (em tom descontraído)

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Norma (A.S.): Posso? (Relatar sua experiência)

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Pesquisador: Pode sim!

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Norma (A.S.): Eu tava vendo aqui, eu to dizendo tá válido! Eu já ia falando já sobre a outra parte né,
que tá se falando sobre planejamento, sobre diagnóstico, estudo. Isso tudo é bem importante,
realmente... E, assim, como eu passei seis, mais de seis anos no XXX (nome de um CRAS), obviamente
foram muitas, muitas experiências, e a questão do Acompanhamento, né, o Acompanhamento
acontecia de verdade, assim. Era... tinham muitas coisas bem interessantes da gente refletir juntos. A
gente tava sempre refletindo, né. A gente mergulhava nas questões, ia onde fosse preciso pra
tentar... Eu e Tamara tivemos vários tipos de... Ficamos até no HGE (Hospital Geral do Estado),
ficamos até nove da noite... Então tem um caso... Eu pensei num outro caso que me chegou, que é
interessante, de um rapaz jovem, de vinte e oito anos. É... Uma coisa que... sempre chamou a
atenção no XXX (nome de um bairro) é que nos chegavam muitos casos psiquiátricos. Obviamente
que agente tem CAPS ali perto e eles procuram, eles procuram (O CRAS), não só com
encaminhamento da Unidade, mas eles chegam, eles procuram... A demanda é grande pra gente. E
são... Os perfis... Os perfis são diferenciados. Esse rapaz mesmo ele tem um protagonismo muito
interessante, né. Ele... ele mesmo tá sempre lutando pelo que ele vê que não tá bom no CAPS. E ele
tem uma fala que você pergunta quem é normal e quem é anormal. Entendeu? Porque ele luta, ele
vai atrás, ele é um grande guerreiro dentro de toda a problemática. E o bom é que ele não se vê
vítima da doença. Se fica ali ele vai, fala... Ele chega onde for. Ele passou de ter filhos também...
Junto da questão... Envolvido com dependência química, depois tava no tráfico com os filhos, mas
ele sempre atuando junto... Indo procurar até a Força Nacional. E ele ia, né, ele ia e buscava... eu
achava muito interessante o protagonismo desse usuário, né! Então a gente vai acompanhando isso

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daí junto com... sempre na parceria... A gente eu acho não tinha essa prática nunca de trabalhar
sozinho. Sempre partilhava as coisas, não tinha como não partilhar essas questões principalmente
psiquiátricas que precisava, e... muita coisa do CAPS nós ficamos sabendo, é... Essa parceria entre
CAPS e CRAS ainda... nós é que buscamos. Não sei se ainda continua, mas nós estamos sempre
buscando essa... Que ele vem... assim... existe uma reclamação sobre como é atuação CAPS, eu não
sei se mudou muito, não sei esse perfil, mas sempre chega essa, essa reclamação, tudo. E eles
encontram o acolhimento e a gente vai buscando também que eles trabalhem o CPAS junto com o
CRAS. O segundo caso é de A.C, 19 anos, ela, ela... hoje ela deve estar com uns vinte e três anos já,
vinte e dois... e foi muito interessante... Eu tive...

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Pesquisador: Norma, desculpe, eu não entendi... A.C.??

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Norma (A.S.): A.C., as iniciais

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Pesquisador: Pensei que significava outra coisa... Desculpa!

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Norma (A.S.): Então, as iniciais de uma paciente. O atestado dela sempre vinha com F71, moderado
né... E ela tem um perfil assim manipulador, tinha um perfil assim muito... Ela chegava, queria ser
atendida, e tinha uma coisa assim, uma postura de falar. E... corria atrás dos direitos dela, mas ao
mesmo tempo ela tinha que tá ali para controlar a situação. E eu e Tamara acompanhamos um caso
bem... onde entrou... ela... depois no CAPS ela conheceu um companheiro que ela gostou, que tinha
esquizofrenia. E daí nasceu uma criança. Criança saudável, né. Até hoje, acho que...

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Tamara (Psi): Não demonstra nenhum tipo de alteração.

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Norma (A.S.): Não demonstra nenhum tipo de alteração... Mas a princípio ela passou por várias
questões de.... de abuso, é...

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Tamara (Psi): Ela tinha a sogra...

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Norma (A.S.): Violência doméstica, né. A mãe que rejeitou... A gente conheceu a mãe, a gente foi
conhecer a mãe, né. E, segundo ela, ela já tinha passado por questões de estupro, violência sexual,
várias questões, a gente foi quando ela tava... ainda gestante. Ela foi tomar o coquetel, não foi?
(Dirigindo-se à Tamara)

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Tamara (Psi): Foi, ainda gestante ela foi pra XXX (nome de uma maternidade) e pra o...

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Norma (A.S.): Pra o HGE

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Tamara (Psi): Pra o HGE, pra tomar aquele coquetel.

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Norma (A.S.): Aí ela tomou outro coquetel. A gente acompanhou tudo, depois nasceu a criança, e aí
a gente tava junto, junto, agente chamava o CAPS mas muitas vezes o CAPS... Teve até uma questão
do, de um incêndio, alguma coisa assim, que a criança teve alguns, algumas escoriações que o CAPS
não, que o CAPS deixou aquilo dali, a gente tomou, teve que tomar a frente porque eles foram
procurados e (...) o que aconteceu e tudo, e...

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Tamara (Psi): A gente fez a visita na casa dela... O ambiente era muito precário... Não tinha os
cuidados necessários.

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Norma (A.S.): Aí a sogra vai e quer a criança: ‘a criança vai ficar comigo’. Então a gente vai no Juizado
da Infância, e tudo, ver... Quando fica determinado que vai ficar com a criança, ela tá já com outro
companheiro. Esse outro companheiro mora no XXX (nome de um bairro), nós vamos fazer uma
visita, e essa visita...

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Tamara (Psi): Foi solicitada pelo Ministério Público.

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Norma (A.S.): Pelo Ministério Público... E inclusive foi solicitado para as assistentes sociais do... da
Vara da Infância... pra que fosse lá. Só que ela já estavam extremamente tensas de tantas coisas que
eles estavam passando. O mesmo carro que se usa pra fazer patrulha nos... Aquele carro que vai nos
locais à noite é o mesmo que elas usavam.

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Tamara (Psi): Estavam visadas, né!

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Norma (A.S.): Estavam muito visadas, e elas ficaram tensas. A vontade delas é que saíssem logo. Pra
você ter ideia, pra vocês terem ideia, desculpem, era que saísse, se aposentassem logo... ‘Eu quero
me aposentar logo, eu to vendo aqui o juiz, ninguém tem a preocupação com a gente, né! A Justiça
só faz mandar! Manda pegar a criança. E aí, a gente tem que ir lá... E aí?’ (...) Hoje é meu território...
É, hoje é meu território. Quando a gente chegou, encontramos uma barricada, conversamos,
tudinho, e chegamos até a casa dela, onde ela tava morando e o companheiro. E vimos uma outra
situação. A criança ela estava... Estava numa situação bem melhor do que... Até ela tava bem mais
centrada, né! E a gente pôde levar essa boa notícia também pras meninas que tinham que retirar
aquela criança, que ele disse retire a criança! E eu pelo menos eu recebi um recado do que tava
morando dizendo assim ‘olhe, você já sabe como é a questão aqui né? A questão aqui é... sempre
tem muitas mortes, tudo. Já sabe como é né? Aqui... E essa criança vive muito bem’. Ou seja, foi um
recado pra mim, que a criança, que a gente não mexesse de forma nenhuma com aquela criança saía
de lá ... Mas eu disse não se preocupe, tá tudo bem... (risos de alguns), tá muito bem cuidada...

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Tamara (Psi): Ô Norma e tava mesmo né? Tava muito serena...

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Norma (A.S.): Tava, tava bem mais calma, tava mais tranquila...

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Tamara (Psi): E realmente ele era um companheiro, a relação dela com a vizinhança...

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Norma (A.S.): Era como, tipo um a vila...

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Pesquisador: Diante desse argumento aí né!! (Sorri)

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(Norma, Tamara e Pesquisador se descontraem neste momento, sorrindo e falando todos ao mesmo
tempo)

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Norma (A.S.): Não se preocupe, tá tudo bem aqui, a gente tá vendo, constatou aqui, se preocupe não
que a gente não vai voltar mais. Não voltou mais, lógico! Não tinha como voltar. Aí pronto, é
porque... tivemos muitos acompanhamentos, eu volto a dizer. Esses acompanhamentos eram
acompanhamentos assim...

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Tamara (Psi): Prolongados!

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Norma (A.S.): Prolongados, que não tinha como a gente chegar e terminar. Estava extremamente
delegados ao CREAS, e aí vinha aquela questão... Eu acho que agente tá numa linha, tem uma linha
muito tênue entre CREAS e CRAS. Eles estão precisando do CRAS mas também estão dentro do
CREAS, entendeu? E a gente não deixa esse... de perder vínculo, até onde a gente... aquela parte do
CRAS onde realmente... Eu ia trazer basicamente esses dois casos, um protagonismo e outro sobre
violência e... e de alguma forma a gente vê uma melhora na vida dessa jovem né, com uma criança e
tudo, que foi a grande preocupação da gente.

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Tamara (Psi): Ô Norma, agora tua vai me ajudar no meu. No nosso, no nosso! É, é... também foi
difícil né Norma.

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Norma (A.S.): Foi punk!

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Tamara (Psi): Foi punk! Essa, essa usuária, eu não me lembro bem quem primeiro atendeu ela, mas
ela chegou ao CRAS... Ela é uma pessoa assim que tinha seus vinte e tantos anos, não era? (dirigindose à Norma)

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Norma (A.S.): Tinha, tinha uns vinte e quatro anos.

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Tamara (Psi): Vinte e quatro anos. Uma pessoa que se expressa bem, se expressa bem... de forma...
usa...

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Norma (A.S.): Muitos termos jurídicos!

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Tamara (Psi): ...Muitos termos jurídicos, muito inteirada dos termos jurídicos. E que... e as situações
que ela relatou pra gente eram situações que poderiam, sim, ocorrer. Era uma família... ela acusava
os pais que tinham tirado todas as possibilidades de ela estudar, de ela ser uma profissional, que ela
não tinha roupa, que vivia trancada em casa, sendo que ela era usada né? (Norma concorda)...Usada!
Ela não usava esse termo, mas...

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Norma (A.S.): A irmã tem paralisia cerebral.

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Tamara (Psi): Paralisia cerebral, e que ela era usada para tomar conta da irmã. E ao mesmo tempo
que ela dizia assim que era usada pra tomar conta da irmã, ela às vezes se contradizia porque ela
fazia questão de ficar junto da irmã o tempo todo porque senão a irmã era abusada ou pelo pai ou
pelo irmão mais velho. E... a questão... tinha outros detalhes que não me vem na memória, mas era
essa situação. E ela trouxe o... ela mesma relata que foi ao Ministério Público, dra. XXX (nome de
uma defensora pública), e denunciou os pais. Foram profissionais na casa dos pais dela, na casa dela.
É...

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Norma (A.S.): A polícia!

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Tamara (Psi): A polícia. A polícia foi. Tudo isso denúncia dela. Ela se expressava de tal forma, tá
entendendo?, que se você não tivesse uma visão técnica, você se confundia.

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Norma (A.S.): Ela parecia muito coerente, assim. Parecia. Aparentemente era tudo muito sério,
muito... E a gente ficava envolvida com...

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Tamara (Psi): Ela trazia por escrito o que ela passou pra dra. XXX (defensora pública) e o cotidiano da
casa dela, tá entendendo? Os pais dela viviam em total vigilância dela. Não podiam sair do canto que
ela tava sempre fotografando...

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Norma (A.S.): Chegou a Dra. XXX, que é promotora de Saúde... Dra. XXX várias vezes com ela, e ela
chamava a gente: minha gente venha pra cá que ela chegou aqui e disse eu quero meu... como é?
Como é que chama aquele... Karla (Psi): Prontuário!

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Norma (A.S.): Não... Era... que vem todo histórico da pessoa...

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Manoela (Psi): Processo!

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Norma (A.S.): É, tipo um processo. Aí disse assim: ‘eu quero, eu vim pegar meu processo aqui que eu
vou levar pra Dra. XXX (nome de uma autoridade da Justiça estadual). Vou processar é a senhora!’
(Risos de algumas). Aí ela (a Promotora) disse ‘façam alguma coisa, vão lá, façam isso por mim, vejam
o que é que tá acontecendo na casa, eu não aguento mais não ela aqui me processando’. (Mais
risos). Aí a gente foi entender as coisas que estavam por trás. Ela... Depois a gente soube que...

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Tamara (Psi): Mas a Dra. XXX tinha dúvida da conduta dos pais também.

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Norma (A.S.): Tinha. Tinha dúvida.

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Tamara (Psi): O relato dela era convincente. É tanto que eu fiz vários atendimentos pra, assim, lógico
que você vai vendo(...). Mas eu quis compreender, ir fundo mesmo, compreender a situação dela.

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Pesquisador: Ô Tamara, a relação que você faz desse caso, desses atendimentos com ação conjunta?

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Tamara (Psi): Não, porque a Norma, no caso da Norma... Porque, assim, a gente foi pro Ministério
(Público), Não é? A gente via assim... Eu via essa parte, que a gente não deve, assim, ver só a questão
da patologia, mas existia uma patologia de fato... Era quando a Norma...

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Norma (A.S.): Existia também a casa, toda a questão familiar...

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Tamara (Psi): ... A dinâmica da casa... Ela não era... Não eram pessoas que vinham da grota, não
faziam parte da vulnerabilidade social. São pessoas que residiam no XXX (nome de um conjunto
residencial onde aparentemente não há vulnerabilidade social)... Entendeu?

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Norma (A.S.): E foi uma busca também do Ministério (Público) pra que a gente fosse atrás... Embora
primeiro quem procurou foi ela, ela sempre procurava todo canto, todo canto já a conhecia. Ela tinha
ido na Polícia várias vezes...

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Tamara (Psi): Ela já tinha ido naquela coisa, como é aquele programa?

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Norma (A.S.): No XXX (nome do programa policial de TV)...

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Tamara (Psi): ... Ela já tinha ido pra denunciar os pais.

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Norma (A.S.): Ela já tinha ido em vários lugares.

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Pesquisador: Ela ativava a rede mesmo né?

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Tamara (Psi): Ativava tudo...

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Norma (A.S.): Tudo que ela tinha acesso ela ia...

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Tamara (Psi): ... A Polícia, tá entendendo?... Eu acho um caso tão grave que agente terminou...

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Norma (A.S.): E nós fomos presencialmente porque nós precisávamos ir conhecer a coisa como era.

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Tamara (Psi): A gente fez o contato telefônico, ela deu o número da mãe, do pai. A gente fez o
contato telefônico com a mãe, mas a mãe veio até o CRAS escondida dela. Tá entendendo? Porque
ela ameaçava, uma vez ela chegou a colocar alguma coisa dentro do feijão. Ela já tinha dado remédio
a mais à própria irmã. Então, eu também alertava isso pra mãe, desses riscos. Porque qual era a
nossa, a nossa... o nosso objetivo era que ela fizesse um tratamento porque ela se negava...

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Norma (A.S.): Ela não... ela não via que ela tinha nenhuma questão de...

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Manoela (Psi): Mas ela tinha um diagnóstico?

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Tamara (Psi): Era esquizofrenia paranóide.

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Augusta (A.S.): Ela não aceitava né!

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Norma (A.S.): Ela não aceitava! E quando era internada, ela foi duas vezes internada, a família com
sentimento de culpa tirava.

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Tamara (Psi): Tiravam. Tá entendendo? E agora ela adulta ficava mais difícil ainda. E é um
constrangimento porque... a família você vê chegar uma internação compulsória (...) É muito difícil

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Norma (A.S.): E a gente teve... Na casa... É... Tivemos lá e presenciamos. Pra gente marcar esse
momento, não foi um momento assim simples não, porque tudo quem dirige é ela na casa dos pais...

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Tamara (Psi): Porque ela não queria que a gente falasse tudo que ela tinha falado pra os pais né (...)
Depois foi que ela... A gente, nos atendimentos convenceu...

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Norma (A.S.):... Que permitiu que agente fosse lá...

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Tamara (Psi): ...Permitiu, embora a gente já tava tendo conchavo com a mãe...

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Norma (A.S.): Paralelamente a gente tava tendo esse contato...

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Tamara (Psi): Aí daí a gente já sabia realmente a realidade...

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Norma (A.S.): E aí foi tenso não foi? Até uma tarde...

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Tamara (Psi): Começou pela manhã. Aí tava pai, mãe, irmão...

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Norma (A.S.): Vizinho

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Tamara (Psi): Vizinho... e tudo vivenciava aquela situação que já tinha sido (...) por ela

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Norma (A.S.): ... Todos eles sofriam com aquela situação. Tava todo mundo na mão dela...

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Tamara (Psi): A vizinha quase que ia presa. E os policiais, assim, indignados com a mãe e com a
vizinha... A vizinha, com uma história de um gato, que ela acusou a vizinha de ter matado o gato dela.
Olhe, era uma situação dificílima!

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Norma (A.S.): Depois ela começou a ler. Ela tinha tipo um diário, que ela começou a ler na frente da
gente. Aí ficou tudo visível... o que agente ficou assustado com aquela leitura assim né... porque via
toda a incompatibilidade assim, não tinha mais coerência nenhuma... Toda coerência já tinha...
Obviamente que a gente tava... E a gente ficava naquela coisa assim do como lidar com aquelas
questões. Levamos à Dra. XXX (promotora) pra que ela também se resguardasse, porque ela não
aceitava. Então, a gente tem limites também de até onde vai, né... A gente podia ter passado o caso
pra o CREAS, pra outra questão, mas a gente tava num acompanhamento que ela já tinha procurado
tudo, todo mundo já... as redes todas já tinham sido acionadas e ela tinha já dito a mesma história...
Todo mundo chegava...

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Tamara (Psi): Daí foi quando a gente levou o relatório à Dra. XXX

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Norma (A.S.): Exato...

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Tamara (Psi): E, assim, lógico, depois eu percebi a questão dos delírios dela, mas lá atrás ela tinha o
diagnóstico de esquizofrenia paranoide.

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Pesquisador: Tamara, e sempre vocês faziam esses atendimentos?

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Tamara (Psi): Sempre, com Dra. XXX junto. Fizemos o relatório. Foi que Dra. XXX veio realmente
assim ter uma segurança do caso, da postura dela, porque até então ela confundia os profissionais...
A Dra. XXX tinha as dúvidas dela, não foi Norma? Até a gente... Agora o que é que ela precisa? Um
tratamento, e alguns cuidados. Por exemplo, no dia da reunião que a gente tava com a família toda, a
gente teve que ter muito cuidado no embate entre eles, nos conflitos entre eles. E outra coisa, o
irmão dela saiu pra pegar um objeto lá que ficava perto da... onde ficava a irmã. Ela deu uma
carreira, tá entendendo? Como se, pra ela, o irmão ia fazer alguma coisa com a irmã, porque a
questão do abuso. Aí ela contava detalhes, de... de... negócio de pegar nos seios, coisa de que ela foi
olhar a vagina da irmã, porque tinha um corrimentozinho assim... Tudo, ela contava. Tudo, tudo,
tudo.

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Pesquisador: Imagino o quanto de habilidade exigiu de vocês né?

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Tamara (Psi): Foi, foi muito desgastante. No dia dessa reunião a gente chega saiu sem energia, não
foi Norma? Sem energia. Tá entendendo? Enfim, a mãe dela, os pais terminaram mantendo, né, a
força de internar ela... Ela falou dos remédios né, que ela tomou no hospital psiquiátrico... Uma série
de coisa. E essas semanas atrás eu encontrei com a mãe dela e ela disse ‘ah minha filha’... Eu disse
como é que vai? ‘A mesma coisa, a mesma coisa’.

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Karla (Psi): E o acompanhamento da Saúde pra medicar? Porque ela tava sem medicamento...

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Tamara (Psi): Mas ela não aceita...

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Norma (A.S.): Ela não aceita... Ela é muito intelectual...

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Tamara (Psi): A parte intelectual dela é extremamente preservada né, na paranoide. Ela se preserva.
Agora você vê os delírios que ela tem, tá entendendo?

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Karla (Psi): Uma coisa que já teve acompanhamento, pelos que vocês falam acho que já tem algum
tempo...

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Tamara (Psi): Já!!!

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Karla (Psi): E por não ter a medicação vai continuar assim.

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Tamara (Psi): É, vai continuar a mesma coisa. Mas tudo isso a gente... todos esses detalhes, todas
essas coisas, tanto as orientações até de dentro de casa mesmo em relação á medicação da irmã, não
deixar... é... assim... num local guardado pra que ela não tenha acesso, a questão da alimentação...
ela pode colocar alguma coisa assim na comida. Pode não acontecer nunca, mas que isso pode...

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Norma (A.S.): E uma coisa que é muito importante na parceria também é esse registro, né. Que se
registre tudo, deixe registrado ali pra que nada recaia sobre a gente também...

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Bruna (A.S.): Eu to me imaginando na situação sem ter um psicólogo do meu lado né. Porque até a
gente descobrir que realmente isso é uma questão psiquiátrica, nós iríamos passar muito sofrimento
né...

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Tamara (Psi): É porque ela conseguiu confundir muitas pessoas

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Bruna (A.S.): Sinceramente...

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Norma (A.S.): Porque a gente poderia logo passar, vamos passar pro CREAS... Mas não dava. Aí chega
o Ministério ainda endossa, por favor vocês ajudem pra descobrir o que é que tá acontecendo nessa
casa, né! O que é que tá acontecendo? Porque o tempo todo chegando (e dizendo) vou lhe
processar... E muito interessante porque ela tinha os termos jurídicos, pouca escolaridade, ela falava
muito bem os termos jurídicos...

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Tamara (Psi): Ela falava com autoridade...

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Norma (A.S.): Com autoridade. Quando ela ia escrever, ela não conseguia. Aí vinha a limitação. Ela
tinha... aquele... uma coisa assim...

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Karla (Psi): Por conta disso é que ela chegava... dava a impressão que era outra pessoa

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Norma (A.S.): Aí que a gente via que aquela pessoa... não era a mesma, né. Então ela não aceita. Ela
não acha de forma nenhuma que ela, que ela precisa de medicação. A gente conversava com ela, ela
não aceitava nada! Então, o medo também que a gente tinha era o risco. E ela disse que ia matar o
pai, a mãe...

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Tamara (Psi): É!

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Norma (A.S.): Ela disse eu vou matar meu pai, a mãe, o irmão. E a gente... Eles tinham esse medo...

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Karla (Psi): Se não cuidar, a tendência é essa mesmo...

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Tamara (Psi): Ela cria problema com a funcionária. Já naquela época já criava. E tem essa outra que
ela cria. Diz que maltrata. Aí ela conta a história... Uma vez a mãe agrediu ela...

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Pesquisador: Tamara, posso? (No sentido de encaminhar o fechamento do relato)

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Tamara (Psi): Sim. Foi, enfim... foi esse caso, e que infelizmente a mãe não foi a frente. Os pais, né.
Não foi. O pai era passivo, né! Muito passivo o pai...

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Norma (A.S.): Mas ambos sofrem muito...

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Pesquisador: Bom, essa minha sugestão de encaminhamento é porque...

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Norma (A.S.): Ok, tem várias (pessoas ainda pra falar)...

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Pesquisador: ... Teve o relato, e a questão não é a gente trabalhar o caso né, mas a experiências de
vocês... E acho que foi bem... Você teria outra experiência (Tamara)

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Tamara (Psi): Tenho, bem rápido. Mas esse é rapidinho... Endossando o que a Norma disse, a
questão da procura muito da saúde mental (...) Daquele caso que (...) era um paciente de transtorno
mental grave né, também esquizofrenia... E a irmã, ela se via sozinha. Ela ficava num quartinho...
Imundo. Ficava despido. Era um grau muito elevado. Então a gente foi ao Ministério, nós fomos ao
Ministério Público, com Dra. XXX (promotora), foi chamado o psiquiatra do CAPS, a coordenação...

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Norma (A.S.): O psiquiatra na frente da gente chegou e disse assim: olhe, eu não desço lá porque são
vários degraus. Eu, obviamente, vocês me conhecem... Tem coisas que eu não consigo ouvir,
sabendo que são só três degraus. Aí eu disse como o senhor não desce? São três degraus! Porque o
senhor não desce três degraus? Aí Dra. XXX (promotora) disse: segunda-feira eu quero o senhor lá.
Isso era uma quinta-feira. Segunda o senhor vai descer esses três degraus e vai lá! E ele olhou com a
cara... “E só são três degraus?” São três degraus sim! O senhor não foi porque não quis! Aí ela disse:
segunda-feira então o senhor vai descer. E ele foi pra fazer aquela visita...

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Tamara (Psi): A XXX (nome da pessoa) que era coordenadora de Saúde Mental... nós mobilizamos
também... Então pra essa reunião conjunta...

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Pesquisador: Isso demandou acompanhamento familiar ou só atendimento?

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Norma (A.S.): Não. Acompanhamento familiar.

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Tamara (Psi): Acompanhamento familiar, porque também tinha a história da irmã...

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Norma (A.S.): Da irmã que precisava. Tinha a filha pequena que convivia com... Outros casos também
de problema mental dentro da família. Tinha um irmão, um irmão dele que tinha mais leve, né.

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Tamara (Psi): Era alcoólatra era?

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Norma (A.S.): Ele tinha problema psiquiátrico leve pra moderado.

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Tamara (Psi): Era. E também, assim, enfim, nós conseguimos (...) do CAPS e ele ficou sendo
acompanhado.

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Norma (A.S.): Inclusive, o CAPS novamente volta à questão porque... a gente vê... chegar a questão
da alimentação.

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Pesquisador: Alimentação?

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Norma (A.S.): Alimentação, como tava sendo. Então, dessa aí eu não participei, quem participou foi
XXX (nome de uma colega assistente social), eu acho que a gente não foi nesse dia, mas XXX,
assistente social, coordenadora na época, e XXX nos falou como foi o momento. Dra. XXX (promotora
de justiça) sempre bota a gente nos casos mais punks, né! (Risos de algumas). Dra. XXX (promotora
de justiça) já sabe que eu to no XXX (nome do bairro), disse Norma qualquer caso no XXX (nome do
bairro) por favor vocês me ajudem! Aí... e ela é muito de ação! Eu gosto muito, que é uma pessoa
que não... que vai em cima dos direitos ali da pessoa, vai... Se ela tiver tudo concreto ali... Então ela
juntou, chamou a equipe do CAPS... Eu vou só... pra terminar... Juntou a equipe do CAPS e entregou
as quentinhas a cada um e disse agora eu quero que vocês vejam aí e comam, eu trouxe pra vocês
comerem. É o que vocês distribuem lá. Porque era tudo com sal.

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Tamara (Psi): E ele era diabético, o rapaz.

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Norma (A.S.): Bebida com açúcar, suco com açúcar. Tudo errado. Não tinha nenhuma diferenciação,
não tinha nutricionista, né. E as pessoas davam como se fosse qualquer coisa. Aquela coisa pobre pra
pobre...

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Pesquisador: Essa das quentinhas foi interessante.

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Norma (A.S.): Bem interessante! E ela colocou, XXX (nome de uma colega) disse que ficou olhando
assim, e ela colocou e disse agora vocês vão comer o que eles comem. A partir de tal dia eu quero
nutricionista... Inclusive tava novamente o médico, que é o diretor. Aí eles foram, ficaram olhando
pra aquela quentinha, olhando e tiveram que ver a realidade. Mudaram então aquilo dali. Então,
quem leva, muito interessante, é o próprio... o protagonista é o próprio paciente que a gente rotula
como seria o anormal.. Mas aí vem o que seria normal, anormal, isso aí é com os psicólogos, com os
psiquiatras. (Risos de alguns)

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Tamara (Psi): Nesse caso (...) era um caso tão assim... eu achei assim tão assustador e tão grave, que
eu mesmo, como psicóloga... se fosse uma situação, que não era, se fosse só psicóloga (...) eu
dividiria com colegas. Foi uma situação muito complexa, tá entendendo? Mesmo que fosse, que não
era.

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Norma (A.S.): Então, isso é interessante da gente falar. Nem tudo tava dentro do que o Serviço
Social, a questão dos direitos, nem era da vulnerabilidade, ela só morava no território mas a família
não era vulnerável. Então a gente teve que dar um acompanhamento assim... Fugiu um pouco, mas
existia um risco, um risco também que a gente não poderia chegar e dizer ah isso aqui não é nosso
território. Existe exceção em tudo! Tudo é muito relativo, e quando chegou a gente também aprende
com tudo isso...

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Pesquisador: Eu acho que existe uma possibilidade de outro entendimento dessa vulnerabilidade,
né. Porque ela poderia não estar na vulnerabilidade financeira, mas em outro tipo de
vulnerabilidade.

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Norma (A.S.): Exatamente... Outros tipos foram vistos...

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Pesquisador: Mas eu queria aproveitar o gancho pra a gente partir pra outra experiência... Pode ser?

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Norma (A.S.): Ok

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Débora (A.S.): Quem falta?

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Pesquisador: Falta Iara... falta Karla... Augusta.

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Bruna (A.S.): Deixa eu só dar uma coisinha, é rapidinho. Da experiência de vocês, além da
experiência da ação conjunta da ação, leve em consideração também a questão da rede. Que ação
conjunta ela não trabalha só com a gente, ela exige que tenha uma rede de segurança, de direitos,
que assegure direitos como o Ministério Público, o CAPS, o Posto de Saúde, o CASA (Centro de
Atendimento Socioassistencial). Que ela precisa assegurar alguns direitos pra o usuário pra que a
gente possa ter uma ação conjunta de qualidade.

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Tamara (Psi): Exatamente!

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Bruna (A.S.): Porque senão ela fica falha!

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Norma (A.S.): E uma questão que vai além dessa questão...

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Bruna (A.S.): A Polícia!

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Norma (A.S.): O SUS mesmo, ele é universal.

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Bruna (A.S.): Pois é!... Desculpe (Risos de algumas).

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Iara (A.S.): Bom, eu coloquei aqui como experiência de ação conjunta o planejamento das atividades,
que a equipe do CRAS desenvolve, em tudo o que faz, né, que é feito em conjunto. Coloquei também
o grupo de estudos. Não coloquei aqui, mas lembrei da elaboração do relatório final da pesquisa, que
também foi uma atividade em conjunto né! Eu lembro que na época você ficou com a maior parte
(Sorri, dirigindo-se ao pesquisador), mas todo mundo participou, e na época da leitura né, nós
fizemos aquela leitura, o que precisava ser corrigido foi. Foram sugestões e tudo se ajeitou. Foi uma
ação conjunta. E um caso que eu atendi, de guarda... a usuária chegou lá no CRAS, ela queria uma
orientação sobre guarda compartilhada, né, e aí no atendimento, na escuta, eu fui vendo que tudo
que ela precisava já tinha sido encaminhado. E aí eu percebi que ela... não era apenas aquilo,
entendeu? Ela tava assim, muito fragilizada, descontrolada emocionalmente, e aí eu precisei da ajuda
da colega (psicóloga) pra poder conversar com ela. Eu, no meu entendimento, ali era uma página que
ela não conseguiu virar na vida dela, entendeu? Já tinha o acordo que eles firmaram diante do juiz,
mas ela procurava em tudo... a criança não podia soltar um espirro que ela entrava em contato com
o pai da criança. Eu entendi aquilo... é... ela não queria cortar aquele vínculo dela com o pai,
entendeu?, com o pai da criança. E aí eu precisei pedir a ajuda da colega pra conversar com ela,
porque ia além, além daquilo que eu podia fazer. Mas foi um caso de ação conjunta.

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Pesquisador: Você fez uma leitura muito interessante da situação.

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Iara (A.S.): Terminei.

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Pesquisador: Eu me lembrei, você falou da elaboração do relatório final, eu acho que foi a primeira
vez que eu dei uma virada... (Iara sorri). O que é que eu chamo de virada? É passar a noite, até o dia
clarear, estudando. Passei, acho que pela primeira vez, nem na época de faculdade eu tinha virado
desse jeito, fazendo aqueles relatórios, aqueles cálculos. Fiquei irritado!

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Karla (Psi): Eu to com dois, eu pensei em duas situações, mas na verdade eu só escrevi uma, que foi
justamente o que a Débora colocou, como a gente trabalha no mesmo ambiente, que é a questão do
trabalho em equipe na busca de parceiros pra aquela ação comunitária aquela ação maior (...) Fazer
a rede funcionar, que não depende da gente, pra que chegue ao usuário. Então dentro dessa ação
conjunta foi a busca dos parceiros e aí entrou... Saúde, CadÚnico... até a questão da autoestima, a
questão da beleza entrou também. Eu acho assim que foi um trabalho que foi assim... demonstrou
fortemente a ação conjunta. E o que eu pensei, eu não sei se você quer dois ou só um...

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Pesquisador: O que você... quiser...

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Karla (Psi): Foi uma situação de atendimento, aonde a usuária chegou com uma criança nas mãos. Já
tinha tirado de uma família, na época no XXX (nome de um bairro), porque a criança estava
altamente desnutrida, subnutrida, não sei nem qual o termo. Eu nunca tinha visto um negócio igual
na minha vida, então isso me marcou muito, até pessoalmente, não só enquanto profissional. Era
uma criança de nove meses, mas aparentava estar chegando nos dois meses, o índice de desnutrição.
E aí essa usuária do CRAS, sem saber o que fazer, procurou a gente aí no caso foi o único momento
que eu vi assim a rede funcionar rapidamente, né. Porque a gente foi atrás da Saúde, primeiro
porque a criança não tinha nenhum documento, essa pessoa já tirou essa criança, esse bebê de uma
família porque estava vendo que a criança ia morrer. E aí a gente, como não tinha nem documento, a
gente buscou na Saúde transporte. Transporte não tinha. Acabou que... cadê o gravador? Como diz o
amigo, desliga aí (algumas sorriem). Acabou que a gente transportou em carro de CRAS até o
Conselho pra que fosse tomado as questões assim, já que era na fase da infância, tava sem a questão
do... do documento e aí eles mobilizaram uma ambulância, porque aí a gente respirou fundo, agora a
criança tá segura, tá na ambulância. E aí foi dada entrada na... no hospital, XXX (nome do
estabelecimento de Saúde) na época, e aí a gente ficou assim, respirou fundo porque pelo menos ela
ta acobertada dentro da Saúde Pública né. Mas antes disso, no momento do Conselho, me chamou a
atenção, aí eu entro no pessoal, não é mais nem no profissional, aquela criança, só via o olho assim
(faz gestos de olhos esbugalhados). Quando entregou o pouquinho da mamadeira, porque essa
pessoa que pegou teve o cuidado de preparar uma mamadeira, a criança olhava pra gente assim com
olho... de socorro, e aquele gogozinho lá feito (faz sinais sonoros de sucção) num desespero tão
grande que isso me marcou muito, e aí eu digo vamo com calma, não dê tudo de vez senão essa
criança vai passa mal aqui. Então, assim, era aquele olhar de carência, de fome, de... a gente acaba
que... passou à frente de questão Saúde, então vamos... aí pedi autorização da coordenação para
transportar essa criança num carro de CRAS, e aí foi quando as coisas foram acontecendo. Aí a... o
Conselho Tutelar acionou a Saúde. A gente acompanhou até o hospital quando viu que tinha
conseguido ficar interno... Pediram uma pessoa da família, ah, melhor, antes de ficar interno, não
queriam internar por conta do documento. E aí eu comecei a fazer zuada junto com o conselheiro,
porque como é que a criança tá na beira da morte por conta de um documento, que era a certidão
que não tinha, ela não ia ficar internada? Eles queriam que voltasse. Aí minha sugestão foi acionar a
mídia. Aí o conselheiro, que gosta dessas coisas né, acionou a mídia, aí foi quando conseguiram
internar e aí a gente já ficou sabendo depois que houve a questão da Justiça ir buscar, ou dentro da

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família ou fora, um lar pra essa criança quando ela saísse. Ela passou uns dias internada e depois a
família... Aí como saiu na mídia, várias pessoas tiveram interesse, e aí depois - eu procurei saberdepois de alguns meses ela conseguiu entrar numa família de condições financeiras que pudessem,
conseguiram tirar ela do hospital a partir de briga judicial porque não queriam tirar do hospital que
ela tava. Foram pro hospital particular, devido as uns exames que precisavam ser feitos. E aí que a
gente respirou fundo, porque conseguiu, essa criança foi pra um lar e conseguiu, né, tirar
documento, melhorou a questão da subnutrição. E assim... foi um caso rápido de... não sei nem se
seria acompanhamento ou só atendimento, mas que foi uma coisa assim tão grande que conseguiu
ser resolvida em pouco tempo. Que eu quase que não vejo isso (sorri).

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Pesquisador: Você conseguiu visualizar esse trabalho conjunto no CRAS?

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Karla (Psi): Não. No CRAS foi só o acolhimento. A partir do momento que a gente buscou na rede aí
já não ficou mais no CRAS. Aí me chamou a atenção porque, assim, foi muito rápido...

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Bruna (A.S.): Você trabalhou sozinha nesse caso?

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Karla (Psi): Teve a participação do assistente social, mas na hora de ir junto, no carro, eu acho que o
meu pessoal tomou conta e eu acabei indo sozinha, já tava fechando o CRAS, perto de fechar CRAS
aí, aquela história, todo mundo quer ir embora, motorista quer ir pra casa, mas no fim das contas eu
achei assim que foi um acontecimento grave, de grandes proporções, e que a gente conseguiu
mobilização em pouco tempo. Não sei se porque a mídia também entrou, foi mais rápido, mas assim
os outros casos de acompanhamento eu acho as coisas mais demoradas, né, principalmente agora
(...)

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Norma (A.S.): Eu queria também aproveitar esse gancho que você tá falando pra que quem se
interessar já que o Ministério... a Saúde... Dra. (promotora) é voltada pra Saúde. Então ela é muito de
resolutividade, entendeu? De resolver, e ter uma ação... então se vocês quiserem o contato dela
institucional... E encaminhar pra que o direito seja acionado, assim, que ele chegue nessa instância.
Porque é dever do Ministério Público, né. E a gente sabendo que tem pessoas que tão trabalhando
realmente... Tem pessoas que não tem o menor comprometimento... Como eu cheguei já pra um
promotor e ele pediu pra que eu entregasse a intimação uma senhora. Aí eu disse eu não sou oficial
de justiça, eu sou assistente social, eu vim aqui relatar um caso que eu queria saber se o senhor leu o
processo. – Não, eu não tenho tempo de ler não, quem lê é meu assessor. Aí disse eu só quero que
você entregue... Eu disse eu não vou entregar, então aqui eu já sei que não vou resolver nada. E saí,
porque aquele dali eu não poderia contar com ele, né, uma pessoa que, imagine, se tratou dessa
forma com um profissional que tá (...) Coloquei ali, não vai ajudar em nada nesse sentido, né. Então
pelo comprometimento, pelo que a gente vê Dra. XXX (promotora) é extremamente atuante na área
da Saúde... Ela fica, ela só decide ali quando... Aí eu queria só dar esse toque, depois eu passo o
telefone...

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Karla (Psi): Aí no caso, só pra eu entender, você encaminha? Você vai lá e faz a denúncia?

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Norma (A.S.): Não, a gente pode... Pode ligar pra ela, pode ligar pra ela, telefone institucional, e ir lá
pessoalmente, também, que ela nos atende, tá certo? Ela nos atende e... e ela vai assim dizer... Pode
chegar com a pessoa ou pode antes, conversar com ela, dizer o que... Porque mandar a pessoa,
muitas vezes quem pode atender é o assessor.

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Pesquisador: Posso dar uma sugestão? A gente tem um grupo no WhatsApp... Esse grupo aqui...

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Norma (A.S.): Ok, eu vou passar então esse...

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Pesquisador: A gente pode trocar essas informações... Você tá no grupo (Norma), ela também (Karla)

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Norma (A.S.): Tá bom

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Norma (A.S.): Isso é importante, esse momento assim, porque a gente começa a lembrar os contatos
pra ajudar é... porque a televisão acho que é a única instância que a gente... Porque na verdade
quem tem que fazer são as instituições que tão ali pra trabalhar pra... E as pessoas têm medo de
Ministério Público. Ele bota aquela coisa pomposa, pensam que é pra outros, menos pra eles. Aí pelo
menos a gente tem que saber a onde... pra onde é que ele vai direcionar... que vai ser atendido bem
e que vai ser atendido em suas necessidades né.

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Pesquisador: Eu queria fazer alguns encaminhamentos. Depois do relato da Karla tem o da Augusta
né... Aí a gente tem... Aí a gente teria uma outra atividade, que eu acho que não vai dar tempo, mas
assim pelo menos a gente fechar essa atividade. Certo? Até pra não comprometer o horário que a
gente combinou...

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Augusta (A.S.): Inicialmente eu gostaria até de parabenizar o pessoal do grupo de estudos,
infelizmente eu não posso participar, eu tenho vínculo fechado pela manhã, mas, assim, isso eu acho
que sinaliza o crescimento profissional. A partir do momento que a gente para pra estudar,
questionar, que a gente ta querendo mudar alguma coisa né, acho que é um amadurecimento assim,
e vocês estão de parabéns, estudando, quem está no grupo. Eu acho que só fui uma vez, só recebo
depois o resultado (sorri) do que foi estudado... Mas, assim, realmente é um crescimento
profissional, amadurecimento. Começa a se incomodar com alguma coisa né, a questionar, e começa
a buscar mudanças, eu acho que tem que ser por aí mesmo. E o outro... é um caso assim que eu
achei interessante foi na Vila do XXX (nome da vila), não sei se alguém teve a oportunidade de ir, fica
no XXX (nome de um bairro)...

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Tamara (Psi): Fica na XXX (nome de um outro bairro)

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Augusta (A.S.): E aí nós fomos acionados pra fazer uma visita.

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Pesquisador: Fica perto da praia?

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Augusta (A.S.): Não. Fica no XXX (nome de um bairro), perto dos porcos.

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Bruna (A.S.): Perto de que?

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Augusta (A.S.): Que tem uns porcos.

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(Bruna, Norma, Augusta, Rita e o Pesquisador dialogam por alguns instantes a fim de definir em que
bairro se localiza a vila referida por Augusta)

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Augusta (A.S.): E, assim, nós fomos acionados pra atender uma outra situação na Vila, que foi a XXX
(nome de uma usuária), em situação de rua, e a população chamou a gente pra ver uma pessoa lá. A
senhora que tava deitada, que tava doente e que tinha um filho que tava sendo ameaçado pelo
traficante... No mesmo dia o traficante tinha batido na cabeça dele com um revólver pra ele não ficar

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na porta. E quando a gente entrou naquele quarto minha gente, insalubre, sem janela, ela tava
deitada e a perna toda infectada... Foi uma cena terrível. Eu, a Tamara e outra colega. A gente
atendeu, conversou com a XXX (nome de uma usuária), fez os registros e voltamos pra conversar
com ela. E ela ... a resistência dela era sair dali e deixar o filho e não aceitava nem ir pra o hospital. A
gente conversou, mas não entrou em acordo... Vamos voltar, voltamos pra o CRAS (...) Fizemos um
relatório no mesmo dia, rápido, pra o Conselho, acionamos o Conselho, voltamos lá...

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Bruna (A.S.): Do idoso? Conselho do idoso?

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Augusta (A.S.): Conselho da Criança. Aí disseram só com relatório. A gente na mesma hora...
corremos pra o CRAS, fizemos um rápido relatório, e à tarde voltamos lá pra conversar com ela e aí a
gente começou assim a conversar, que precisava tirar aquela criança pra um local seguro, que ela
precisava se cuidar, ser tratada. E esse atendimento da equipe a gente conseguiu sensibilizar,
entendeu? Chegou um momento que ela disse assim: olhe, tá certo, se vocês estiverem aqui eu
aceito que meu filho vá pra um (...). E a gente se comprometeu e aguardamos o pessoal do Conselho
até umas quatro, seis horas. A equipe não saiu, aí quando o Conselho chegou... O quarto um cheiro
terrível, passando mal (...) E aí acionamos SAMU (...) E aí a conselheira pegou a criança, colocou no
braço, levou a criança... E o SAMU também nós acionamos. Ela aceitou ir pra o hospital. Aí, assim, o
que eu achei interessante nisso foi a questão dela... o vínculo que ela... a confiança, a questão do
vínculo estabelecido com a gente. De manhã ela ficou irredutível, quando a equipe voltou , à tarde,
ela começou a conversar. A gente começou a mostrar a ela que o filho tava precisando... tava
correndo risco, tava sendo ameaçado, ela não tava podendo cuidar do filho ali, tava deitada, não
podia nem se levantar, né. No meio de toda sujeira, de tudo. E aí a gente conseguiu, assim, foi um dia
todo de, realmente, se articulando, até que o caso fosse resolvido. Isso, assim, marcou. E a
importância da equipe estar unida, do psicólogo, do assistente social. Foi uma ação interessante,
assim, que ficou. Que marcou pra gente. Depois nós voltamos lá e ela não estava mais. Depois ela já
voltou pra casa dos pais. No momento ela disse que não tinha, mas depois... Já no XXX (nome de um
CRAS), não sei se a Norma lembra dela, ela já voltou pra o CRAS, ela já tava em outra situação, já tava
com a mãe. Ela já tinha recuperado o filho, o filho já estava estudando... E até o BPC, ou fui eu ou foi
a Norma, que nós encaminhamos, fizemos um relatório e ela conseguiu depois o BPC. Ela tinha uma
perna... E agente começou a acompanhar essa família. Mas, assim, só em relação a esse primeiro
momento, eu achei importante essa ação, entendeu? Em conjunto. De a gente ficar em cima...

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Tamara (Psi): Ô Augusta, e a consequência também disso tudo, mais na frente, é a mudança de vida
dela. Talvez se não tivesse tido ali aquele momento, com a equipe, não chegasse onde chegou. Ela,
quando a gente foi pra o XXX (nome de um bairro), ela tava em outra situação. Situação, assim, digna
né. Em casa, com a mãe, tratada, filho na escola, BPC, tudo.

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Pesquisador: Até eu fiquei mobilizado (sorri)

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Augusta (A.S.): Por que a gente se comprometeu. Voltou duas vezes lá no mesmo dia, fez um
relatório rápido. A dificuldade pra imprimir, você sabe do início dos CRAS, né! Não tem computador.
A gente precisava fazer porque o Conselho só eu quero um relatório! (...)

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Pesquisador: Aquela área tem umas visitas punks né!

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Norma (A.S.): Tem visita punk, tem muita visita punk!

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Pesquisador: Eu me lembro quando eu trabalhava lá...

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Norma (A.S.): O XXX (nome de um bairro) também tem, só que eles são mais (...) A gente sente que o
pessoal fala mais... eles tão muito preso ao tráfico. O tráfico é que sustenta eles.

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Tamara (Psi): Aí fecha muito né...

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Norma (A.S.): Aí fecha!

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Rita (Psi): Seria imprescindível um CRAS ali na XXX (nome do bairro), porque ali a coisa é complicada
demais...

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Norma (A.S.): Ele (o tráfico) faz o papel do Estado...

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(Enquanto o pesquisador prepara o painel com as colagens das tarjetas, Rita, Bruna, Tamara, Augusta
e Norma conversam um pouco entre si sobre a vulnerabilidade social, características locais e sobre a
necessidade de se ter um CRAS na região em discussão)

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Pesquisador: Gente, eu queria finalizar essa atividade, e até pedir desculpas a vocês, porque, assim,
em alguns momentos eu tenho que fazer algumas intervenções e encaminhamentos... Porque a
gente tem alguns objetivos...

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Tamara (Psi): Mas faz parte (sorri)

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Pesquisador: Faz parte. E contar com a compreensão de vocês, tá!

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Norma (A.S.): Se quiser pode depois cronometrar que é melhor (Todos sorriem e/ou dão
gargalhadas)

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Pesquisador: A gente vai conduzindo...

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Norma (A.S.): Faltam dez minutos (em tom de exemplificação)

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ATIVIDADE 3: Classificação das experiências relatadas:

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a. Os profissionais dialogaram, planejaram e desenvolveram ações em conjunto
sobre a questão a ser resolvida;

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1271

b. Os profissionais dialogaram, planejaram e cada um desenvolveu sua ação
separadamente;

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1274

c. Os profissionais foram convocados a resolverem uma situação-problema
comum a todos. Todos trabalharam sobre o mesmo problema, mas sem
compartilharem. Sem planejamento, sem diálogo.

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Pesquisador: Vê só... eu gostaria que vocês colocassem aqui nos relatos que vocês fizeram,
colocassem os nomes nessas experiências que vocês relataram... Pra a gente fazer uma classificação
dessas experiências, tá? O que é isso? Na verdade a gente vai... vocês vão ajudar a construir, já estão
ajudando a construir a minha pesquisa, não só com fornecimento de informações, mas também com

35

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o tratamento dessas informações. E uma parte do tratamento dessas informações é a classificação.
Então vocês trouxeram experiências, né, experiências como ação conjunta... e agora a gente vai
fazer uma classificação, vai fazer de forma rápida. Vai fazer uma classificação dessas experiências,
seguindo três eixos, tá! E eu já separei aqui. Eu queria que alguém me ajudasse a colar aqui na
janela... pra a gente fazer essa classificação...

1284

(Bruna se dispõe a ajudar e, juntamente com o pesquisador, cola o painel na parede/janela)

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Após alguns instantes...

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Pesquisador: Gente, são três eixos, tá... Essas experiências que vocês colocaram, né, que vocês
expuseram e escreveram... Elas podem ser classificadas aonde? Na coluna A. Na coluna A é o
seguinte: Os profissionais dialogaram, planejaram e desenvolveram ações em conjunto sobre a questão a
ser resolvida, ou na coluna B: Os profissionais dialogaram, planejaram e cada um desenvolveu sua ação
separadamente; ou, na coluna C: Os profissionais foram convocados a resolverem uma situação-problema
comum a todos. Todos trabalharam sobre o mesmo problema, mas sem compartilharem. Sem
planejamento, sem diálogo.

1293

Norma (A.S.): Estranho, não é, esse? (referindo-se à coluna C)

1294

Alguém fala: Mas existe!

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Norma (A.S.): Existe. Não. Existe. Mas é estranho!

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Bruna (A.S.): Existe né! Tem acompanhamento familiar que agente faz só. Às vezes não consegue
companheiro pra...

1298

Norma (A.S.): Tem! Tem!

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Bruna (A.S.): Tem, minha gente!

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Pesquisador: Querem que eu leia de novo?

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Norma (A.S.): Não. Eu entendi.

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Bruna (A.S.): Agora nessas experiências a gente não colocou nenhuma experiência negativa, né, em
relação a isso. (Todos concordam, em tom afirmativo)

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Pesquisador: Coluna A: Os profissionais dialogaram, planejaram e desenvolveram ações em conjunto
sobre a questão a ser resolvida. Coluna B: Os profissionais dialogaram, planejaram e cada um desenvolveu
sua ação separadamente. E a C: Os profissionais foram convocados a resolverem uma situação-problema
comum a todos. Todos trabalharam sobre o mesmo problema, mas sem compartilharem. Sem
planejamento, sem diálogo.

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Norma (A.S.): De forma isolada, né! (referindo-se à coluna C)

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Bruna (A.S.): A ação do abrigo, agora. (Refere-se a uma ação de desocupação de uma comunidade da
cidade, onde estavam envolvidos a Secretaria Municipal de Assistência Social, a Polícia Militar, o
Ministério Público, a Defesa Civil etc). Nós fomos convocados; não planejamos; não compartilhamos
com ninguém que foi; quem foi também não compartilhou com quem ia...

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1314

(Em tom descontraído, algumas pessoas falam ao mesmo tempo)

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Rita (Psi): Mas essa aí não foi citada, né

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Bruna (A.S.): Sim, é isso que eu to dizendo, né. É um exemplo, né minha gente. Porque só foram
citadas as positivas. Eu vou botar logo a minha que eu vou precisar sair...

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Pesquisador: A Bruna tem prioridade (sorri)

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Bruna (A.S.): (Posiciona na coluna A). A construção (da pesquisa)... Eu fiquei meio dividida, porque no
início nós não construímos juntas. Depois foi que a gente começou a construir, mas o resto do
processo todinho foi construído coletivamente. E o grupo de estudos também... Apesar de que nem
todo mundo participa do grupo de estudo, mas a informação é compartilhada...

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Pesquisador: Vamos lá gente! Podem ir colocando! (Motiva as pessoas a colarem as tarjetas)

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(Momento em que as pessoas saíram de seus lugares, se movimentaram, fizeram as colagens no
painel. Bastante descontraído. Algumas aproveitam para conversar algo mais informal)

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Pesquisador: Gente, e aí? Fizeram as classificações?... ? Fizeram as classificações? Alguém quer
mudar? Acham que é isso mesmo?

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ATIVIDADE 4: Outras questões para reflexão:

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1. Que tipo de trabalho conjunto vale a pena desenvolver?

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2. Que dificuldades surgem para realizar o trabalho em conjunto?

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3. Que situações favorecem o desenvolvimento do trabalho conjunto?

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4. Como poderíamos, então, definir ação conjunta?

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... Então... De acordo com... Com base nas experiências relatadas, né! Tanto relatadas quanto lidas,
eu trouxe mais algumas questões pra reflexão, tá. A gente tá finalizando, tá? Só mais essa reflexão e
agente faz avaliação. São essas questões aqui... E aqui é pra reflexão mesmo, e a gente dialogar, não
precisa escrever, a não ser que vocês queiram. Diante de tudo isso que a gente conversou, que tipo
de trabalho conjunto vale a pena desenvolver? Que dificuldades surgem para realizar o trabalho em
conjunto? Que situações favorecem o desenvolvimento do trabalho conjunto? E, por fim, como
poderíamos definir ação conjunta? E aí, assim, essa é a reflexão final, quase final né... que tipo de
trabalho conjunto vale a pena desenvolver, que dificuldades surgem, que situações favorecem...
diante de tudo isso como a gente poderia definir o que é ação conjunta... nos nossos espaços de
trabalho?

1343

...

1344

Manoela (Psi): Nilton, o segundo é o que, que eu não estou enxergando?

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Pesquisador: O segundo: (Lê) Que dificuldades surgem para realizar o trabalho em conjunto?

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...

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Norma (A.S.): Esse primeiro: que tipo de trabalho conjunto... Acho que, desde que exista tudo que a
gente citou, essa parceria, a compreensão, o diálogo, esse planejamento das ações, de como é que a
gente vai trabalhar... Acho que... Seria a parceria da gente, tem que existir isso pra que o trabalho
conjunto aconteça...

1351

Manoela (Psi): Acho que isso que você tá falando se encaixa no 3 ali (referindo-se ao eixo 3)

1352

Norma (A.S.): No 3?

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Rita (Psi): Situações que favorecem...

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Iara (A.S): Existem trabalhos que requer que a ação conjunta seja feita. Eu acho que esse é um tipo
de trabalho que vale a pena desenvolver em conjunto. É aquele que necessita dessa ação conjunta...

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Rita (Psi): Eu acho que se agente for pensar no dia-a-dia acho que praticamente todos...

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Norma (A.S.): Eu também pensei... Eu também pensei nisso...

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Rita (Psi): ... Respeitando as especificidades de cada...

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Norma (A.S.): É, de cada caso...

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Rita (Psi): De cada profissão também... E aquelas situações que são, enfim, únicas, que dependem de
um atendimento psicológico, um encaminhamento que o assistente social pode dar, mas eu acho
que o trabalho em si... Se a gente tá falando o tempo todo em ação conjunta, em
interdisciplinaridade, então não pode pensar em dicotomizar as ações...

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Tamara (Psi): E até mesmo, quando o atendimento, vamos supor, vem assim, direciona mais para o
psicólogo... (...) eu me sinto muito à vontade com a minha equipe porque eu sou o que sou, assim, eu
não tenho que demonstrar se sei ou se não sei. Tenho a maior simplicidade pra chegar pra qualquer
uma delas tenho dúvida e tudo... Então... a gente a necessidade de dividir, a melhor coisa é a gente
dividir, tá entendendo? Mesmo que seja mais específico... Acho que foi a Bruna (que falou) a questão
que (...) o psicólogo não pode dividir com o assistente social... teve uma discussão não foi, na
capacitação??

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Rita (Psi): Não, a discussão foi a questão do prontuário, né... O que deveria ser colocado no
prontuário ou não...

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Tamara (Psi): Eu não consigo fazer isso, porque tem a questão da confiança... eu nunca me deparei
com situação (...) A minha equipe é amadurecida na questão profissional, são bons profissionais
como também como pessoas...

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Norma (A.S.): Que seria o acompanhamento familiar, não?

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Pesquisador: O que ela tá dizendo me parece estar ali na questão 3 né? São questões que
favorecem...

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(Muitas pessoas falam ao mesmo tempo)

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Manoela (Psi): Eu acho assim... Essa primeira veio à mente assim... Teve alguém que falou aqui no
grupo sobre a questão da disponibilidade, não lembro quem foi, que a pessoa tem que estar

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disponível, então, se eu to com meu colega e ele não tá disponível a cooperar comigo, então eu vou
fazer só, não vale a pena estar em conjunto se ele não tá ali pra... se ele não tá disponível pra
trabalhar junto. Não sei, eu joguei aqui né!

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Pesquisador: Não tem resposta certa.... É pra gente refletir sobre essas questões mesmo.

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Rita (Psi): Agora tem... Voltando pra discussão do prontuário, o que tem que registrar ou não. Ficou
claro pra mim, acho que ficou claro pra maioria, o que deveria ser registrado são questões
pertinentes àquele acompanhamento específico, àquela família, àquela unidade ali. Agora óbvio que
surgem algumas questões da empatia, de repente tem alguém daquela família ali que... quer
compartilhar com alguém da equipe alguma coisa que é íntima, enfim, pode acontecer naquela
situação, até com a gente mesmo, não tem aquela pessoa que agente quer compartilhar uma coisa
que é da gente? Então acontece, então aí eu acho que não cabe tá compartilhando, né, dentro da
equipe. Se é algo tão íntimo e a pessoa pediu, sinalizou que não queria que colocasse,
compartilhasse, eu acho que a gente tem que ter esse limite, né. Mas, no mais, eu acho que tem que
se compartilhar sim, na medida que é uma ação conjunta, tem que ser compartilhado...

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Tamara (Psi): Uma coisa espontânea né

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Rita (Psi): E que não é algo que acontece sempre, mais pontual, mais...

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Tamara (Psi): Porque é a vivência ali, o dia-a-dia junto, o dia-a-dia ali no trabalho... Então você
também cria um vínculo, com... na equipe. Aí vem a questão da união, da confiança, da empatia,
tudo que se colocou ali. Acho muito difícil a pessoa não compartilhar, né, algumas coisas.

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Débora (A.S.): E a gente não faz nada sozinho, né! A gente que tá ali no atendimento, mas aquele
usuário que chega pra gente passou pela recepção, não é? Já foi atendido, não é? Já foi ouvido...

1403

Norma (A.S.): Já foi acolhido.

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Débora (A.S.): Isso, já teve esse primeiro acolhimento, e vem pra o nosso atendimento né. Então,
assim, a gente não trabalha à parte, separado né!

1406

Pesquisador: É um conjunto de pessoas...

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Débora (A.S.): É, um conjunto de pessoas.

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Rita (Psi): É óbvio que não é mar de rosas... A gente de repente aqui tá descrevendo uma situação
que a gente muitas vezes quer. Nem sempre tá...

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Débora (A.S.): Tem as suas dificuldades

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Luciana (Psi): Ô Nilton, como nossa primeira ação, né, principal, primordial no CRAS seria o PAIF, eu
acho que o primeiro trabalho seria o Acompanhamento Familiar. Não existiria acompanhamento se
não existisse a troca, né, o assistente social com o psicólogo.

1414

Norma (A.S.): Pra que esse trabalho conjunto aconteça, né!

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Luciana (Psi): Exatamente!

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Norma (A.S.): O acompanhamento seria onde encaixa os dois profissionais, na maioria das vezes.

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Manoela (Psi): Mas aí...

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Norma (A.S.): Porque também pode ter atendimento que... um ou outro.

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Manoela (Psi): Mas aí seria o ideal, porque, como a Bruna colocou, e agente vê na realidade, tem
coisa que a gente faz só mesmo. Às vezes não tem o profissional ali, porque... falta mesmo. Por
exemplo, lá no CRAS só tem eu de psicóloga...

1422

Rita (Psi): Não é o dia da pessoa (de o profissional estar no trabalho)...

1423

Manoela (Psi): ... Não é o dia... Vou tá atendendo uma outra demanda...

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Norma (A.S.): Tá com profissional reduzido, tudo...

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Pesquisador: Alguém gostaria de definir, então, ação conjunta?

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Karla (Psi): Você começou com ela e terminou nela (Sorri, juntamente com outras)

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Norma (A.S.): Ô Nilton, ali a dificuldade que a gente sente também de realizar esse trabalho conjunto
é a questão da rede mesmo, também. A rede que é furada!... Dificulta muito... Muito furada a rede,
tem buraco por tudo que é canto. A gente vai, não tem respostas, a gente tem que ir atrás mesmo da
resposta, tem que ficar ali em cima. Aí a gente já tá falando da gente, do trabalho nosso, da parceria,
mas outras parcerias já são...

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Débora (A.S.): A gente já não tem na nossa casa né! Na Assistência! Imagine nas outras, nas outras
políticas!

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(Alguns segundos em silêncio)

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Manoela (Psi): Você quer a definição? (Risos)

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Rita (Psi): Você quer a definição? (Risos)

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Pesquisador: Não, não. É só esgotar a reflexão. Se vocês acharem que...

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Rita (Psi): Eu acho que... Não teria um conceito, mas ação conjunta seria uma ação onde precisa
haver mais de um profissional, é óbvio, né...

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Pesquisador: Pra ser conjunta né (em tom de riso)

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Rita (Psi): É, pra ser conjunta (também em tom de riso)... (Algumas pessoas sorriem)... Mas, enfim, é
importante colocar né! Visto que existe essas individualidades e não existe uma disponibilidade,
pode ser às vezes que entenda que precise fazer sozinho. Mas é preciso que haja mais de um
profissional, e que de preferência reúna profissões diferentes, atuações diferentes e que reúna
algumas condições pra que isso aconteça né, como a gente já colocou ali, escreveu inúmeras:
disponibilidade, a possibilidade de compartilhar conhecimentos...

1447

Norma (A.S.): Comprometimento...

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Rita (Psi): Comprometimento... Que reúna todas essas condições pra que a ação possa realmente,
possa efetivamente acontecer...

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Norma (A.S.): E a gente ver o resultado daquela ação

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Rita (Psi): Porque, afinal de contas, a gente tá falando muito na nossa atuação, mas tem que pensar
que existe um objeto que é o mais importante dentro da conjuntura, que é o usuário né, as pessoas
que a gente vai atender. A gente nunca pode deixar de pensar que... o personagem principal...

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Alguém fala: O ator principal...

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Rita (Psi): ... Protagonista são eles...

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Norma (A.S.): O resultado é justamente a necessidade deles, o que ele vai procurar...

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Rita (Psi): Não são as nossas, são as necessidades deles. Há necessidades de se trabalhar em relação
a todas essas circunstâncias, porque o tempo todo a gente é bombardeado por inúmeras situações...
Então é preciso se trabalhar, porque, vou dizer, não é fácil não trabalhar na Assistência, né! A gente
se depara com inúmeras situações em que, não tenha dúvida, mexe com a gente de todas as formas.

1461

Débora (A.S.): Principalmente pela falta de respostas né!

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Luciana (Psi): Principalmente o usuário que chega ali, totalmente fragilizado. Aí passa pela recepção,
aí começa a contar a história, aí vem o psicólogo, vem o assistente social, começa tudo de novo.
Imagine ele... Agente... Imagine ele né!

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Rita (Psi): Logo no início eu tinha uma dificuldade muito grande, e hoje ainda tenho mas, assim, num
grau menor, que é a dificuldade de lidar com a frustração de você não poder... da sua limitação,
enquanto pessoa, enquanto profissional, até porque existe todo um sistema né, envolvido que, na
maioria das vezes, é perverso, que fabrica aquela situação, e que você busca as condições pra mudar
o quadro e não consegue. Então, você tem que ver que... em muitos momentos a nossa
responsabilidade da mudança...

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Norma (A.S.): Tem a sensação de frustração...

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Alguém fala: De impotência...

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Rita (Psi): ... Não depende de você...

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Karla (Psi): E agora, acho que é comum, estamos todos frustrados né. Quando se fala em Benefícios
Eventuais... Jesus! Como é que a gente faz pra facilitar, pra favorecer uma família, uma pessoa?

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Norma (A.S.): Os direitos, de uma forma geral...

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Débora (A.S.): Os direitos básicos!

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Norma (A.S.): ...Os direitos básicos são negados... Os direitos de quem nasce já.... A gente também
tem direito negado enquanto trabalhador... A gente luta por algo que a gente não consegue ainda
pra gente.

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AVALIAÇÃO

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Pesquisador: Bom, gente... várias reflexões surgiram... Como diz a Karla, a gente começou como
termo ação conjunta e concluiu com ele. Na verdade, concluir se alguém não tiver mais alguma
colocação, queira falar mais alguma coisa sobre... Se não, a gente faz avaliação da manhã, né e... eu
tenho um convite pra fazer pra vocês. Alguém gostaria de colocar mais alguma coisa sobre esse
processo todo?

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Norma (A.S.): Pra mim foi... eu vim assim sem nem criar nenhum...

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Pesquisador: Expectativa?

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Norma (A.S.): Nenhuma expectativa. Vou deixar rolar e ver o que vinha de... de novidade, assim,
porque é um aprendizado sempre... Porque a gente às vezes vai pensando em algumas coisas e o
bom é vir assim, livre pra receber, né, essa... essa, essa onda de coisas de um e de outro. E eu achei
muito bacana, achei leve, achei profundo também. No começo foi leve, mas teve profundidade
dentro do possível, né. Cada um foi tentando colocar aquilo ali de si, das coisas, da realidade. A
realidade é extremamente complexa, o cotidiano é extremamente complexo, então a gente adentrar
nisso também é uma possibilidade de você se expor, você colocar até alguns posicionamentos, mas
pra mim foi um momento bacana.

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1501

Tamara (Psi): Eu também me senti muito à vontade, gostei muito. Isso faz com que a gente reflita e
aprenda, mas também vim assim na expectativa, meu Deus que responsabilidade (Sorri. Todas
sorriem)... contribuir com o mestrado do Niltinho e me sentindo também lisonjeada por ter sido uma
das escolhidas, né! Mas me senti muito à vontade, foi muito bom. Gostei.

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Rita (Psi): Eu gostaria... Eu só gostaria de agradecer também o convite né; me sinto lisonjeado
também por participar de um momento que é importante pra você (o pesquisador). E espero que a
minha contribuição tenha sido válida de alguma forma. E se precisar de outros momentos, se eu
puder, não foi me fazer de rogado, vou participar.

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Pesquisador: Obrigado!

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Karla (Psi): Deixa eu aproveitar a condição aqui pra agradecer também. Pedir desculpas pelo atraso...
Mas como eu vinha dizendo em todo lugar que eu chego, essa vida de... (expõe uma situação pessoal
específica)... não consigo ser pontual e não estou conseguindo me envolver mais como eu gostaria
né. Eu acho que essa discussão... quando você encerrar essa parte do mestrado eu acho que seria
interessante a gente... você continuando na XXX (nome da instituição em que o pesquisador
trabalha), a gente poder dar um empurrão nisso... não só... porque já existe o grupo de estudos, mas
aí quem sabe um grupo de pesquisa, algo além porque a gente percebe, diante de uma manhã como
essa, quanta coisa a gente tem, guardado entre duplas, e às vezes entre CRAS e que isso, de repente
a partir da pesquisa do Nilton, poderia se tornar até um livro né. Já pensou cada CRAS relatasse
algumas histórias... alguns atendimentos, acompanhamentos? Acho que daria vários e vários
encontros (sorri). Então, agradecer e ao mesmo tempo me desculpar. Não posso me oferecer tanto,
mas se a gente poder contribuir em algo mais porque, de repente, falta... pode faltar alguma fala,
alguma coisa que você queira (dirigindo-se ao pesquisador), de repente , precisar entrar em contato
de novo, a gente se disponibiliza, dá um jeitinho (sorri)...

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Pesquisador: Certo, obrigado!

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Débora (A.S.): Bom, eu também queria agradecer pelo convite. Também fiquei muito lisonjeada, e
surpresa, porque, assim, eu vejo o Nilton mas a gente não tem muitas oportunidades de sentar pra
conversar né! Aí, assim, eu sei que ele conhece bastante a Karla e entendi o convite, né! Fiquei me
perguntando porque ele me convidou. Mas, assim, espero ter contribuído, né, com o pouco que eu
falei, agradeço pela oportunidade e acho que, assim, foi uma experiência, é uma experiência boa,
rica, né. Também me coloco à disposição de tiver outras etapas.

1528

Pesquisador: Obrigado, Débora!

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Luciana (Psi): Também agradeço pelo convite né, pelo convite, apesar de ter... o Nilton ligou pra mim
Luciana dá pra você ir? Sabe que dois vínculos é complicado... Mas dependendo da minha
disponibilidade... Se precisar de mim, estou aqui. Foi um momento muito rico, refletir sobre a nossa
prática, principalmente sobre... E importante a gente continuar... Estou aqui à disposição.

1533

Pesquisador: Obrigado!

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Iara (A.S.): Agradecer pelo convite, me senti lisonjeada em ter sido uma das escolhidas. Dos
escolhidos (risos de todas). E foi uma manhã bem agradável. E foi bem assim, como você me falou,
uma conversa informal... Todo mundo ficou muito à vontade, eu percebi isso. Foi realmente uma
conversa né... e relatando experiências, enfim... E caso você precise outra vez, é só ligar, com
antecedência (enfatiza, e todas riem)... pra estar presente. Obrigada!

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Pesquisador: Obrigado Iara!

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Manoela (Psi): Eu também, como todo mundo tá agradecendo, quero agradecer também o convite.
É um prazer pra mim tá participando. Eu participei, eu estive presente, o quanto você lutou né, nesse
mestrado. Tanto pra entrar, como pra concluir, pra continuar né... o seu empenho. Conheço o Nilton
da graduação e sempre foi um aluno exemplar, esforçado... E, assim, pra mim é um orgulho ver
ganhando forma a sua dissertação, ganhando corpo. Também me coloco à disposição, claro, se você
precisar. Me desculpe, das outras vezes eu não pude participar (referindo-se a outros eventos,
alheios a esta pesquisa), você ligou: Manoela, pode? – Posso. E... achei... me senti assim como, ah
esqueci o nome dela...

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Algumas pessoas concomitantemente: Tamara

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Manoela (Psi): ...Tamara. Que responsabilidade! Lá vai eu, levar minha experiência. É uma
responsabilidade muito grande! Também concordo com o que a Karla falou, de a gente dar
continuidade. Talvez um grupo de estudo, grupo de pesquisa, alguma extensão, alguma coisa né...
Acho muito interessante! Boa sorte! Na apresentação estaremos torcendo! Na defesa, aliás!

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Pesquisador: Obrigado Manoela!

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Débora (A.S.): E que aconteça assim, mais desse tipo de experiência pra trabalhar o CRAS. A gente vê
tão poucas publicações né...

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Manoela (Psi): É verdade!

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Débora (A.S.): ...Sobre o trabalho dos profissionais do CRAS. Ainda é tudo muito incipiente né!

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Pesquisador: Gente, sem palavras pra agradecer a vocês pela disponibilidade, colaboração e boa
vontade mesmo de vocês. E, assim, vou aproveitar a disponibilidade que vocês tiveram e convidá-los
para um segundo momento. Aquela pergunta da Manoela, lá no começo, eu respondo agora. É isso.
Convidar para um segundo momento. O que é esse momento? Eu não vou construir a pesquisa e
trazer pra apresentar não pra vocês. Eu vou construir uma parte da análise e trazer pra agente
conversar, pra vocês participarem também dessa análise. Então, é o momento de participação mais
intensa mesmo, tá? Então, e essa participação, caso vocês queiram, não se resume a isso. Então, a
ideia é que se vocês tiverem referências pra indicar, sobre ação conjunta, vocês encaminhem
referências.

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Manoela (Psi): Referências bibliográficas?

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Pesquisador: Referências bibliográficas. Se vocês tiverem, quiserem fazer alguma contribuição
teórica sobre ação conjunta. Porque, isso tá lá no Termo de Consentimento: disponibilizar literatura
acadêmica, na medida que eu for me apropriando da literatura acadêmica sobre o tema, também
disponibilizar pra quem quiser. E fazer esse segundo momento de a gente compartilhar essa análise,
pelo menos parte dela, porque, assim, é muita coisa, é muito material que é produzido, nessa
experiências, nessa análise. É claro que agente vai focar né nos objetivos, mas trazer pra vocês num
segundo momento parte dessa análise e também mais contribuições de vocês nessa análise. Então é
um convite pra vocês participarem mais vezes. A ideia que agente trabalha com pesquisa com seres
humanos, pelo menos na... da gente, não é a pessoa fornecer dados e informações. Mas de construir,
também, senão a pesquisa como um todo, mas parte dessa... dessa análise mesmo, no caso
específico né sobre o trabalho no CRAS. E, assim, a minha satisfação em estar fazendo mestrado,
depois de algumas barreiras né Stephane (pesquisadora colaboradora) que agente passa, é de poder
contribuir, deixar alguma contribuição pra o trabalho. Pra mim não tem muito sentido construir uma
pesquisa que não possa contribuir com o da-a-dia, com o trabalho, com o trabalho não só meu mas
de colegas psicólogos e assistentes sociais. Deixar uma contribuição, nem que seja no sentido de a
gente refletir sobre outras possíveis contribuições. Então é isso! Agradecer imensamente. Daqui pra
frente serão outros passos, ainda mais...

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Norma (A.S.): Esse segundo momento tem alguma ideia de tempo, período?

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Pesquisador: Eu acredito que seja lá pra setembro ou outubro... É o tempo de ir construindo a
dissertação, parte da dissertação... E trazer pra vocês contribuírem... Pelo menos é o que agente
pensa. E, claro né, sei que tá muito cedo ainda, mas de antemão já fazer um pré convite pra vocês
assistirem a nossa defesa lá... (Risos de algumas)... que deve ser em março né Stephane?

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Stephane: Fevereiro!

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Pesquisador: Fevereiro. Vocês já estão convidados a participarem lá desse momento. Gente,
obrigado, obrigado mesmo! Foi muito bom revê-los!